Blogs servem pra 'crever, certo?
Não necessariamente.
Muitos servem pra colocar imagens.
«Tá, mas não é pra isso que existem os fotologs?»,
alguém pergunta.
Existem. Mas são extremamente limitados.
Em o Fotolog, por exemplo, só é permitido o upload de uma foto por dia.
A não ser que o usuário seja um Gold Camera Member e possa postar várias imagens, mas daí já é outra história.
Assim, os blogs se tornam ideais pra quem quer postar imagens sem limitação diária.
«Que tipo de imagem?»,
outro alguém pergunta.
«Quadrinhos», respondo.
Isso mesmo.
Anos de publicações virtuais
Tem muita gente talentosa usando a internet pra mostrar suas histórias em quadrinhos pra quem quiser ver, sem que pra isso seja preciso comprar um jornal ou uma revista do gênero.
E é possível encontrar de tudo, de novatos que nunca publicaram nada impresso, dependendo exclusivamente da rede pra mostrar seus trabalhos, até desenhistas veteranos que encontraram nos blogs uma forma rápida e instantânea de dar vazão à criatividade.
Só aqui no Rio Grande do Sul, são vários.
Caso do André Macedo, autor de várias publicações, ganhador de alguns prêmios e que já expôs os seus quadrinhos até na França.
Ele começou a publicar na internet em 1996 (sim, a data 'tá certa) a convite de um provedor que não existe mais.
Desde o início o objetivo era bem claro.
«Sempre achei que o importante é fazer contato.
A internet surgiu como uma alternativa revolucionária pra fazer contato», conta.
Como coordenador do projeto Laços Estúdio de Animação, de Pelotas, o André tem um forte trabalho de animação também.
Recentemente foi montado um 'túdio de televisão dentro do 'túdio de animação, fazendo com que a partir de agora possam ser feitos programas pra serem veiculados em tempo real por a web.
Turma nova
Com bastante experiência impressa mas poucos anos de internet, o Rafael Sica começou publicando tiras num site a convite de um amigo.
O blog só apareceu em setembro de 2004.
«Foi uma alternativa pra publicar meu desenho, mas que acabou servindo pra divulgar bastante o trabalho», lembra.
Autor de personagens impagáveis, como o «Cara de Plástico» e o «Sr. Desculpas Esfarrapadas», o Rafael publica no caderno Folhateen, da Folha de S. Paulo e já ilustrou pra revistas como Mundo Estranho, Superinteressante, MTV, Vip, Trip, entre outras.
Também faz parte de um projeto do site Tirinhas.
com. br, uma «Agência Nacional de Quadrinhos» com dez integrantes.
Por enquanto não passa de um projeto, mesmo.
«Desenhistas têm dificuldades organizacionais crônicas», entrega.
Coincidência ou não ('pero que seja a segunda opção), o Rafael resolveu parar de postar no blog no mês passado.
Ele já vinha com a idéia de publicar os quadrinhos num site próprio há um bom tempo, mas parece que agora é pra valer.
Vamos ver o que o futuro nos reserva.
Criado em agosto de 2005 como Tiras da Nina, o blog da Mauren Veras começou como uma 'pécie de «blog irmão».
Um amigo de ela, o Leo Garcia, tem um blog chamado Tiras do Bruno.
A Mauren, fã das histórias do Bruno, resolveu criar uma namorada pra ele, a Nina.
Gostou tanto da idéia que decidiu desenhar mais tiras e ainda criar outros personagens, como o Reginaldo e a Regina, um pinto e uma coruja que formam uma dupla musical.
Não satisfeita, passou também a desenhar a si mesma em tiras regulares no blog.
Pra alguém sem experiência alguma de publicação, o blog foi uma grande conquista.
«Não conseguiria pensar na hipótese de criação de um site pra uma eventual publicação dos meus quadrinhos, eu não teria a mínima noção de como fazê-lo.
O blog foi uma ferramenta fácil, logo eu já sabia o mínimo que eu achava que precisava saber:
fazer upload de imagens e linkar quem eu achava interessante».
De tanto confundirem a tal da Nina com a própria Mauren, ela resolveu trocar o blog pra Tiras da Mau, recentemente.
Espera-se que acabem os mal entendidos, pois.
Apesar de não ter nenhum trabalho impresso até o momento, a Mauren aguarda para a breve a 'tréia fora da rede.
Está pra sair uma história em quadrinhos na revista carioca " Tarja Preta.
«Quer dizer, a coisa saiu da internet para o impresso.
O convite pintou porque viram o blog e curtiram as tiras», diz.
Em os planos da moça ainda 'tão a participação (mesmo que à distância) numa exposição de quadrinhos alternativos em São Francisco, nos Estados Unidos, e ilustrar Havaianas com o personagem Reginaldo.
O que começou como brincadeira parece 'tar virando sério.
«Eu desenhei vários Reginaldos nas minhas Havaianas, fiz uma fotinho vagabunda com minha webcam e postei no blog, dizendo que tava vendendo.
Uma garota de Brasília viu, curtiu e quis comprar.
De aí postei a mesma foto no Flickr e um cara de Londres viu, achou um barato e quis comprar pra dar de presente para a 'posa.
De esse eu ainda 'tou 'perando os Euros chegarem pra mandar pra ele».
Legal, não?
Outra guria publicando em blogs é a Chiquinha, com seu Chiqsland Corporation.
A falta de familiariadade com blogs e afins sempre a afastou de projetos virtuais.
Tanto que o primeiro blog nem foi criado por ela e sim por o veterano Fábio Zimbres.
«Ele já conhecia meus desenhos e falava sempre:
«Chiquinha, tu tem que ter um blog».
E eu nada ...
Até que um dia ele mesmo fez uma conta pra mim e mandou por e-mail!
Fiquei tão lisonjeada que daí por diante dei início aos meus trabalhos por lá», diverte-se.
«Hoje em dia acho muito legal ter um blog, independente de publicar na mídia impressa, porque além de alcançar um público maior tu tem liberdade pra postar no formato que quiser, fora o fato de não ter nenhum editor te censurando, dizendo que isso ou aquilo é inadequado para os padrões editoriais da publicação.
Esse é o ponto mais vantajoso».
É por todas 'sas vantagens que a publicação de quadrinhos em blogs tem aumentado e atraído muita gente, que não precisa torcer pra conseguir 'paço numa revista ou jornal.
Número de frases: 69
É só criar o blog e botar a imaginação -- e o talento -- pra funcionar.
Aprendendo Com Os Índios KRAHÔS
Ainda existem as comunidades que insistem em preservar seus costumes, como os índios Krahôs no município de Itacajá, Tocantins.
Em a permanência de oito dias entre eles, pude observar detalhes de 'sa resistência que eles mantêm mesmo já convivendo com o homem branco.
Vivem de forma ordenada em 20 aldeias do território Krahô, numa área de 302 mil hectares no nordeste do Tocantins.
Sobrevivem da plantação de mandioca, milho, banana;
alguns criam porcos, galinhas e ainda utilizam a caça para completar a alimentação.
Contam também com a ajuda da Funai e do governo com as aposentadorias.
Mas o destaque do trabalho dos krahôs 'tá no artesanato:
eles produzem cestas, bolsas, colares, brincos, pulseiras e outros.
Para isso usam palhas de coqueiro, sementes variadas do cerrado.
Confeccionam peças raríssimas com muita habilidade.
Em as 'colas aprendem o português e o krahô que é uma língua muito complexa e diversificada.
A comunidade infantil é enorme, devido à sua cultura ter como riqueza as crianças para a preservação da tribo.
Cada aldeia tem um cacique que conduz as decisões sempre resolvidas coletivamente e 'te tem o olhar atento no sentido de preservação dos costumes.
Até o horário da televisão é controlado, ele me explica que as crianças não podem se envolver muito com a TV e 'quecer os modos indígenas.
Pela manhã eles se reúnem em círculo para discutir o que vai ser feito no dia e em 'sa discussão entram os sonhos da noite anterior, que pode ser uma previsão importante.
Com muita calma decidem o que cada qual vai realizar naquele dia.
As vozes krahôs se confundem:
Impej (bom, ótimo, bacana), Wamaramõ (até mais, vou me embora) ...
No meio do bate papo, muito sorriso, a índia Krãmpej levanta, vai logo perto abre as pernas, a urina adentra a terra, sem cerimônia ela segue altiva, dona do seu mundo de pequena extensão e tão grande em qualidade!
As crianças, os jovens, os velhos sorriem muito, são felizes, livres;
nada é proibido.
Em o rio todos nus nadam, gritam e sorriem.
A água é sagrada, não podem contaminá-la.
O índio Xorxor viu um brinquedo na cidade e o reproduziu em madeira.
O filho, o neto, os adultos todos brincam com a novidade, o indiozinho o empurra ensaiando os primeiros passos naquela 'pécie de triciclo com rodas de pau.
Incrível como eles descobrem nas pequenas coisas grandes vivências.
Em a hora da foto Xorxor tira o chapéu, sorrindo 'cancaradamente, peço-lhe para ajeitar o cabelo, mas ele assanha-os mais ainda e diz:
-- Deixa assim, eu sou homem do mato!
Hora de falar sério, o velho índio junta os pés, todos se calam e de cabeça baixa o ouvem.
Fala do seu sentimento com voz pausada, dos sonhos voando nos cabelos brancos.
Os olhinhos apertados brilham, ele passa às gerações futuras como ser sempre índio krahô.
O índio mais novo sabe onde 'tão os nós, é preciso desatá-los um a um, diz ele e eloqüente dita os passos sob os olhares atentos, nada se perde.
A riqueza maior do índio krahô são os filhos, eles garantem a perpetuação da nação krahô e assim as crianças são tão importantes quanto os velhos, todos participam das brincadeiras, o respeito por o outro se faz em tudo.
Em a reunião da manhã a 'posa do cacique não pode comparecer, 'te ouve tudo atentamente, opina e se vai.
Em o dia seguinte demora a aparecer, lhe pergunto o que aconteceu, ele calmamente diz:
-- Fui durmi muito tarde, a lua já alta ...
Insisto:
-- Mesmo, perdeu o sono?
Ele traga o cigarro e com voz firme responde:
-- Não, foi purquê minha muié num tava na runião e ai tive que contá para a ela tudo cunversa lá, ela gosta saber tudo que fala todo mundo ...
A seriedade na convivência entre eles se vê na voz firme do cacique, é na importância dos detalhes que deixam transparecer 'se respeito.
Um índio tem a 'posa doente, leucemia.
Sofre com ela, tem os olhos tristes, pede aos deuses para curá-la e a trata com um carinho 'pecial como se fosse uma criança ...
A índia Pokw j amamenta o filho, o leite é farto, os bebês passam o dia dependurados nas mães.
As crianças não recebem ordens, apenas pedidos.
Quando questionada sobre o castigo dos filhos, a índia diz séria:
-- Foi papã (Deus) que deu, não pode maltratar a criatura que papã deu, saiu da barriga, eu não 'panca a criatura que papã dá, eu cuida de ele!
Fomos pescar, eu, Xorxor e Abílio.
Sol quente, poucos peixes, só eu conseguia fisgar algum pequeno de vez em quando e exibia para os dois que me olhavam desconfiados de longe.
De aí alguns minutos Xorxor senta bem perto de mim calado e continua pescando.
Ouço algo se debatendo dentro do mocó de ele, curiosa pergunto:
-- O que 'tá mexendo ai?
Ele deita de tanto rir e depois exibe o peixe grande que havia pegado, assim mostrando vantagem em sua pescaria.
Dia de festa, o Kã 'tá lotado de índios, todos juntos sempre em círculo iluminados por a lua que nasce.
Começa o ritual:
um índio alto, cabelos longos, semi nu sacode o corpo marchando pra lá e pra cá, a voz forte canta na língua krahô um som que enche a aldeia, é um clamor aos céus.
Outro velho índio faz um chamado cantado, sua voz é marcante, repercute em toda a aldeia e outros vão se juntando ao círculo.
Vozes femininas fazem segunda voz e os sons adentram por a noite, um 'petáculo se faz sob olhares e ouvidos atentos ...
Trouxe com mim o olhar apaixonado do índio por a vida, a firmeza na voz buscando ser feliz na íntegra.
A continuidade da etnia se faz no olhar que vê a beleza interior, na 'colha do macho que vê a fêmea na grandeza dos seios prometendo mais leite para amamentar os filhos, enchendo a aldeia do mesmo sangue ...
A jovem índia olha os músculos do moço, a força para plantar a roça e não seus cabelos negros que brilham seduzindo ao sol;
no olhar criança ela imagina a perpetuação de sua raça ...
O suspiro do índio, o olhar desconfiado da índia ...
Todos buscam o sonho, querem preservar a memória, numa vida livre, sem regras, sem horários, nas suas terras e águas sagradas.
Não há pressa, há uma harmonia ameaçada por os costumes civilizados que invadem a aldeia diante do olhar sereno e forte do cacique impondo a conservação da cultura de seu povo.
Número de frases: 67
Sinvaline, aldeia Krahô, novembro de 2006 Conta a lenda que, nos idos de 1968, as lideranças 'tudantis em passeata de milhares contra a ditadura arrancaram por seus movimentos públicos e legitimidade uma audiência com o general de plantão em Brasília.
O encontro das lideranças com o ditador não aconteceu porque um dos principais dirigentes da mobilização recusou o protocolo e não pôs gravata de jeito algum.
Outro episódio do período que ajudou a azedar o caldo do endurecimento ainda maior do regime sobre o povo foi o convite de um deputado a que as moças brasileiras se recusassem a dançar com os cadetes nos bailes em comemoração do dia da independência.
Curiosamente, os dois episódios dizem respeito a formalidades e às juventudes, sempre avessas a elas.
Não 'tou para examinar comportamentos, irreverências ou conseqüências.
Apenas quero fazer o registro, que encontrei poucos fora das relações formais, da realização em nosso país em 27, 28, 29, 30 abril / 2008, em Brasília da 1ª Conferência Nacional de Juventude.
De ela você pode obter todos os detalhes no sítio próprio http://www.juventude.gov.br/
Destaco que a Conferência definiu as 22 prioridades da juventude brasileira em quatro dias de intensos debates, misturando momentos formais com descontração pura.
A primeira Conferência Nacional de Juventude trabalhou para consolidar a política nacional de juventude e incluir, de forma permanente, o tema na agenda das políticas públicas.
Participaram do encontro mais de 2 mil delegados eleitos nas etapas preparatórias, que envolveram cerca de 400 mil pessoas em todo o Brasil.
Para os jovens organizadores, a Conferência foi um exemplo de mobilização e mostrou o interesse da juventude brasileira em participar da vida política do país.
Em o âmbito 'pecífico da cultura, recolhi algumas resoluções:
Criação, em todos os municípios, de 'paços culturais públicos, descentralizados, com gestão compartilhada e financiamento direto do 'tado, que atendam às 'pecificidades dos jovens e que tenham programação permanente e de qualidade ...
Estabelecimento de políticas públicas culturais permanentes direcionadas à juventude, tendo ética, 'tética e economia como pilares, em gestão compartilhada com a sociedade civil, a exemplo dos pontos de cultura, que possibilitem o acesso a recursos de maneira desburocratizada, levando em consideração a diversidade cultural de cada região e o diálogo intergeracional.
Criação de um mecanismo 'pecífico de apoio e incentivo financeiro aos jovens (bolsas) para formação e capacitação como artistas, animadores e agentes culturais multiplicadores.
Estabelecimento de cotas de exibição e programação de 50 % para a produção cultural brasileira, sendo 15 % produção independente e 20 % produção regional em todos os meios de comunicação (tevê aberta e paga, rádios e cinemas).
Valorização dos artistas locais garantindo a preferência nas apresentações e prioridade no pagamento.
entender os cineclubes como 'paços privilegiados de democratização do áudio visual.
Fez parte da programação, pode até ser um outro capítulo de interesse e abordagem, mas é também peripécia de jovens, o lançamento da publicação Jovens Multiplicadoras de Cidadania Construindo Outra História -- de Elisiane Pasini e João Paulo Pontes -- Edição Themis, Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero e da Secretaria Especial de direitos Humanos da Presidência da República.
A obra da dupla porto-alegrense tem distribuição gratuita e aborda a experiência relatada de jovens promotoras legais populares, a afirmação de trajetórias individuais e coletivas, a inserção do gênero e das questões da mulher em todas as 'feras dos direitos, a pessoa íntegra num mundo multiparcelado.
O Conselho Nacional de Juventude recolheu 1.800 assinaturas de delegados da Conferência por a aprovação do Projeto de Emenda Constitucional (PEC 138) que insere o termo «Juventude» no texto da Constituição Federal, no capítulo dos Direitos e Garantias Fundamentais.
O gesto quer facilitar, por exemplo, a aprovação de projetos como o Plano Nacional da Juventude (PL 4530/04), que 'tabelece um conjunto de metas relacionadas aos direitos dos jovens que o país deve cumprir.
Eu não sou dado às formalidades, embora as considere necessárias para as relações entre grupos e mesmo indivíduos em sociedade, 'pantou-me, lendo as resoluções e acompanhando alguns sítios e blogues da rapeize, que tal dimensão institucional de avanço das relações tenha passado ao largo das ações e preocupações de grupos juvenis, populares, acadêmicos ou não, e que tamanha efervescência tenha ficado à margem dos debates em 'sas seções amplamente freqüentadas, mesmo as nossas aqui em Overmundo.
É certo que não foi uma reivi, um baile fanqui, uma parada de pancadão ou metal pesado, nem mesmo um pagode ou uma sertaneja ...
Tratava-se, formalmente, das relações sociais que nos exigem a todos, de resoluções de uma conferência, a primeira de juventude na República, de cultura e do futuro.
Fica o registro.
Número de frases: 26
Um cara que toca pra caramba e tem um relacionamento muito íntimo com o seu instrumento.
Assim começa nossa história ...
Uma das sequências que mais me emocionaram quando assisti ao filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, foi quando ele expôs os músicos diante das câmeras e convidou-os a vazar seus sentimentos em relação aos seus respectivos instrumentos:
queria explorar a relação afetiva entre as pessoas e seus instrumentos musicais.
E o fez com a habitual maestria.
Patéticas, políticas, amorosas, eróticas, vaidosas, invejosas, as relações iam desfilando como uma cadeia reveladora da alma humana:
nossa fragmentada condição diante do 'plendor cósmico.
A vida não 'capa desses roteiros:
me emociona muito também a relação músico-instrumento que o Ebinho Cardoso, aqui em Cuiabá, desenvolveu com o baixo elétrico em apenas 11 anos.
De aquelas relações que se tornam singulares.
Desde o princípio ele já mostrava que teria uma longa 'trada fértil para trilhar.
Lembro do Ebinho assim:
a primeira vez que o vi tocando já dava para perceber que era um cara diferente.
Manuseava o baixo-elétrico com seus longos, magros, ágeis dedos de uma maneira que pareciam não sentir qualquer dificuldade em se deslocar velozmente de uma nota a outra, sem vacilos, seguro, firme, dedilhando as pesadas cordas do baixo com a leveza suprema do vôo do pássaro invisível que faz o homem cantar.
Se dedicar totalmente, amar o que você faz acima de qualquer outra tarefa que possa desprendê-lo de seu enredo.
Seguir adiante que o tempo é aliado.
Não pode ser encarado como impedimento.
Cada 'trada leva um tempo para percorrê-la.
Cada um dá o passo conforme as pernas.
Peregrino das mais de mil trilhas, Ebinho conseguiu achar seu próprio caminho, aquele onde foi capaz de se desprender dos limites que costumam paralisar algumas pessoas ante as dificuldades que todo ofício apresenta.
Desde crianças vamos elegendo nossos heróis, isso é inevitável, elegemos também nossos anti-heróis.
Vamos selecionando tudo o que nos interessa e daí em diante alojando cada qual em seu compartimento.
A natureza, paralelamente, vai 'tabelecendo as marcas do tempo com seus mais de mil relógios que repetidamente nos impõe a presença de Cronos, 'se maldito deus que tudo devora.
Gregos, troianos, baianos, cuiabanos, vamos todos experimentando nossas tragédias cotidianas rumo da frente adelante sempre.
Importante, portanto, o timing, a noção do tempo, para não se perder nas 'tradas da vida.
Ebinho confessa que chegou a chorar de emoção ao se ver na mesma prateleira dos seus heróis.
Entrara ali naquele mundo mágico e não tinha percebido:
é o que parece ao se conversar com ele.
Ou ele é assim mesmo?
Ele jura que é avoado, vive no mundo aéreo.
Sons graves como o lado de baixo do seu coração bumbavam gravemente.
A mente solta fluía em vôos imaginários.
Êxtase e poesia caminhando de mãos dadas nas difíceis 'quina da vida:
meras encruzilhadas onde você decide seu destino a cada 'quina, cada curva cada reta cada labirinto.
Cada passo exige uma decisão.
Jaco Pastorius, Arthur Maia, Celso Pixinga, Nico Assumpção, John Patitucci, os nomes vão desfilando na historiografia-discografia humana diante do olhar ansioso que, de repente, se vê como referência:
'tava lá o nome, com todas as letras:
Ebinho Cardoso. Foi na revista 'pecializada Cover Baixo que ele coleciona desde a número Um, tem todas elas guardadas com muito zelo, quando abriu a de número 42 viu seu nome 'tampado ao lado dos heróis.
Dizer o quê, diante de tal momento, de uma super emoção que o ser humano é capaz de experimentar?
Está lá e pronto.
Ele sempre acompanhou a história do baixo elétrico, sempre buscou as informações que precisava nas oportunidades que surgiam, quaisquer que fossem.
Ouvindo música, lendo revistas 'pecializadas, tocando horas e horas todos os dias, pesquisando, 'tudando.
Arriscando seus vôos chegou ali naquele quase-templo, um lugar livre onde cada um criou seu jogo, sua maneira de brincar, de 'tabelecer conexões lúdicas com o infinito prazer de viver, viver bem, fazendo bem aquilo que 'colheu para si.
A natureza oferece o jeito, te dá as coisas, mas te dá o precipício também, uma coisa caminha ao lado da outra de uma forma definitiva, " você também não vai fugir disso!" --
sorri com 'cárnio o homem das montanhas.
Boca de Lobo Solitário.
Lançou um «CD»,» Verticais», com oito faixas, misturando baião, afoxé, maracatu, samba funk, ritmos brasis 'senciais com a fluência jazzística, potencializando o baixo, elevando o instrumento ao status de solista, além de trabalhar a harmonização e as melodias.
Ebinho já tocou ao lado de nomes importantíssimos da música brasileira como Arthur Maia, Glauton Campelo, Hamilton Pinheiro, Renato Braz, André Vasconcelos e vários outros.
Estudou com Nico Assumpção, Arismar do Espirito Santo, Jorge Elder, Adriano Giffoni, Jeff Andrews, Lula Galvão, Genil Castro.
Estudou harmonia e arranjo com Ian Guest, Leandro Braga e Renato Vasconcelos.
Trabalhou o baixo elétrico se dedicando aos 'tudos dos acordes, abriu o vasto campo harmônico do instrumento desenvolvendo as mais variadas técnicas.
Aprofundando a pesquisa, investigando, descobrindo caminhos, compondo, Ebinho Cardoso chegou lá.
Pesquisador sério, trabalhou muito e desenvolveu seu próprio jeito de tocar baixo, criando uma linguagem própria, não 'morecendo diante de tanto trabalho que tudo isso dá.
Após sete anos de pesquisa lançou o primeiro livro 'pecífico sobre a técnica de execução de acordes editado no país:
Harmonia e Dicionário de Acordes para Baixo Elétrico, revisado por Ian Guest e Sidnei Duarte, com prefácio de Arthur Maia que foi direto ao assunto:
«Recentemente 'tive em Mato Grosso e vi o autor do livro tocar.
Quando voltei a Niterói e peguei 'se método do Ebinho, pensei:
por que eu não comecei a 'tudá-lo antes?
Aquilo que eu vi no show mais do que me impressionou, me fez ver o quanto Ebinho e seu livro podem ser uma luz para todos os caras que gostam, assim como eu, de harmonia e precisam de dicas como as deste livro, e pegar 'ta luz desde o início até o fim do túnel."
Mas ele não pára por aí, quer ajudar, contribuir para a formação das pessoas, desenvolve em conjunto com a educadora Rejane Musis e o regente Raul Fortes, o projeto Praticutucar que trabalha com crianças, colocando a música como importante fator de sensibilização e educação.
Promove também, em parceria com o Espaço Cubo, a Semana da Música, evento anual que investe na qualificação dos músicos matogrossenses com oficinas, palestras e shows, trazendo importantes nomes da música brasileira para trazerem suas contribuições.
Ebinho acredita no potencial das pessoas:
«As coisas 'tão melhorando em Mato Grosso.
Tenho trabalhado para as pessoas acreditarem que é possível.
A intenção é fazer com que as pessoas acreditem em seus propósitos, por isso trabalho para a sua formação.
Ao menos uma sementinha fica."
Quero dissecar ainda o fabuloso encanto que o baixo elétrico cometeu ao seduzir um jovem rapaz saído da periferia de Cuiabá, vindo de uma história de vida difícil, de pobreza, como é para a grande maioria de nós brasileiros.
Acho que um canto de sereia o magnetizou, a sereia que cantava com a gravidade dos mágicos.
Para falar com Ebinho, fone:
(65) 9202 5419. Quer saber das últimas do cara?
Número de frases: 70
Em o blog Brazucabass e no site da Condor.
Jair Rangel, 39 anos, paranaense.
Há uma década mora em Rondônia.
Seu sonho:
fazer filmes.
E ele conseguiu.
Criatividade, persistência e força de vontade.
Essas são características de um homem que lutou por muito tempo em busca da realização desse sonho e que finalmente vê seu 'forço reconhecido.
Quando veio para Rondônia, sua a intenção era trabalhar no garimpo.
Chegando a Porto Velho mudou de idéia.
Rangel comprou um cavalinho e uma máquina fotográfica.
Começou a sair por as ruas da cidade tirando fotos das crianças no pequeno cavalo.
Um belo dia vendeu a moto que tinha e comprou uma filmadora, e desembestou a filmar uma série de pequenos filmes.
Ao todo Rangel tem 98 fitas gravadas, devidamente acondicionadas em papel alumínio, guardadas numa caixa.
O sonho de fazer seus próprios filmes vem desde criança, quando chamava seus amiguinhos para brincar e, com uma câmera improvisada de papel, filmava várias cenas, como um cineasta.
De família humilde, não tinha televisão em casa.
às vezes assistia TV na casa de algum vizinho.
De a imaginação de criança para a realidade de adulto, foram difíceis os caminhos percorridos.
A dificuldade em conseguir patrocinadores para a produção de seus filmes não o fez desistir, pelo contrário, como ele mesmo diz, «isso é que deu força».
Ele próprio cria o roteiro dos filmes, inventa os materiais utilizados, que vão desde os recursos para auxiliar a filmagem, até os utensílios dos personagens como o «boicicleta» (uma bicicleta disfarçada com a roupa de um boi).
Os storyboards também são desenhados por Rangel.
«Nunca imaginava que podia fazer de verdade», afirma Rangel, ao contar que com a ajuda de uma agência de publicidade de Porto Velho conseguiu produzir seu primeiro filme:
Em a maior pindaíba, um curta-metragem de 12 minutos, que traz o personagem Pistolino, vivido por o próprio diretor e autor.
A inspiração desse personagem vem de seu ídolo:
Mazzaropi, que, ao lado de Charlie Chaplin, é a grande influência de Rangel.
Em 2005, no III Cineamazônia, Rangel se consagrou com o seu filme Em a maior pindaíba, não por menos vencedor de cinco 'tatuetas Mapinguari:
melhor vídeo do Estado de Rondônia, Júri Popular para vídeo, melhor direção para vídeo, melhor roteiro para vídeo e melhor montagem para vídeo (Maico Garcia).
Rangel também é inventor de «parafernálias» da sétima arte (para realizar imagens das peripécias do seu personagem, Pistolino, ele inventou uma grua e uma steady cam -- do modo de ele, mas inventou).
O cineasta é casado e pai de dois filhos, um menino de 13 anos e uma menina de 10.
Seus filhos adoram seus filmes e até participam das produções.
«A mulher até gosta, mas nunca gravou com mim, relata.
Ele ganha o sustento da família fabricando e vendendo artesanatos.
Carros em miniatura, maquinetas 'tranhas e réplicas da Mad Maria, a locomotiva da lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
Pistolino, o personagem cômico
O nome tinha que lembrar e ser atrapalhado, como o de um palhaço;
o figurino, inspirado em Mazzaropi:
'sa foi a idéia de Rangel para criar seu personagem.
De seus ídolos, ele destaca duas preferências:
de Carlitos, o filme O vagabundo e de Mazzaropi, Uma pistola para a Djeca.
Os temas são sempre sociais.
É no dia-a-dia em ele se inspira para criar as histórias dos filmes.
O primeiro filme editado, Em a Maior Pindaíba, conta a história de um pai que não tem emprego, sem dinheiro, que precisa arrumar uma forma de comprar comida para ele e seu filho.
A oportunidade para ganhar dinheiro chega quando eles vêem uma placa numa empresa que compra sucatas e ferro-velho.
Aí começa a aventura dos dois.
Pistolino e Pisciroca resolvem catar ferro-velho e se envolvem nas maiores confusões.
Pistolino chega a achar até uma arma (inventada por Rangel para compor o cenário) e a entrega num posto da campanha do desarmamento.
A o final, eles conseguem comprar uma bicicleta e comida.
Para felicidade dos dois.
Novas aventuras para Pistolino
A nova aventura de Pistolino já 'tá roteirizada.
O filme conta a história de um herói por acaso e atrapalhado, que desvenda um uma série de furtos de animais silvestres.
Todas as peças, os figurinos, os equipamentos, incluindo até o microfone, são invenções de Rangel.
Para não perder a prática, as peças são confeccionadas com ferros-velhos e restos de qualquer coisa.
Os filmes são feitos com recursos próprios.
Os demais atores são amigos, parentes ou pessoas que ele encontra no caminho quando vai gravar.
Número de frases: 55
Todos são voluntários.
Um petrificado
Nasci no berço da capital paulistana, bem no centro expandido da cidade.
E sempre convivi por 'tas regiões.
Estudei e, por algumas vezes, presenciei diversas manifestações culturais, de vários grupos de cidadãos radicados em 'ta metrópole.
São Paulo decerto é um mundo.
Porém, sempre quis também conhecer outras culturas aqui no Brasil, onde a diversidade cultural e sócio-cultural é muito diversificada.
Ao longo dos anos (mesmo ainda sendo muito novo) fui recebendo várias representações do que é cultura e, por 'te contexto acabou crescendo o meu interesse de conhecer melhor o país onde vivo -- da sua população a sua tradição, e sua vasta e produtiva terra.
Foi sob 'sa percepção que seguiu o meu olhar e, destaco 'te texto sobre a primeira vez que 'tive no Nordeste, mais precisamente no 'tado de Pernambuco.
Os primeiros olhares
Tudo que tinha visto sobre o 'tado de Pernambuco foi por a televisão o resto eram:
filmes, documentários e reportagens, além de fotos e 'critos dos amigos.
Minha chegada em Recife foi aplicada a um luxo irretocável -- o Aeroporto Internacional Gilberto Freyre -- extremamente bonito.
«Este aqui é R$ 2,60, pois vai do centro de Recife até o cabo», comentava minha amiga na catraca do ônibus, que passava por o Aeroporto.
Lá é realmente tudo muito diferente.
Pra começar eram cinco preços da passagem de ônibus (que só depois fui entender o porquê).
Nunca fui muito de marcar distâncias pois, em São Paulo, o que manda é o trânsito e não a distância.
Tudo funciona na perspectiva do emaranhado de carros e ônibus.
E, logo de início, percebi que velocidade é com os motoristas pernambucanos.
Para chegar do Aeroporto a Cabo de Santo Agostinho o trajeto era longo e antes passava também por a cidade de Jaboatão dos Guararapes.
Tive a oportunidade de ver bastante coisa que 'tava inserida naquele caminho (e por muitas vezes, sem saber, iria atravessar a cidade para realizar minhas pesquisas).
Em o percurso não encontrei prédios e os meus olhos logo 'tranharam.
Casas de cores bem diferentes de ambos os lados, com telhados grudados e suas formas inacabadas -- arquitetura, (digo).
O colorido das casas de alguma forma fascinava.
A cada quilômetro distante do Aeroporto percebia uma carência 'trutural e ao mesmo momento encontrava no olhar várias empresas de porte nacional, já instaladas ou instalando-se na região.
A Br com pouca sinalização demonstrava o abandono e descaso do governo 'tadual.
Sinalização precária.
Mesmo com o avanço da industrialização na região trazendo mais empregos e renda para as famílias a 'trada trazia pra mim suspiro e receio.
Pouco a pouco fui envolvido por o cheiro do milho (com gratidão).
Assisti por a janela do ônibus:
canaviais, montanhas e pequenos vilarejos 'palhados entre 'trada e a linha do trem.
Uma igrejinha do século XVII (só à frente de ela) chamou bastante minha atenção, linda!
Todo o percurso foi assim, de certo sentido, inigualável, e se envolveria mais tarde em meu sentimento -- uma saudade eterna.
A bela e a fera.
Entre belezas, igrejas e o descaso.
Primeiro tenho uma obrigação de ressuscitar por aqui o descaso que penso ter sido culpa de governos corruptos que passaram por a pequena cidade.
Em a questão de moradia, emprego, e saneamento básico, que por sinal é o básico para um cidadão que paga seus impostos.
Muita obra ainda 'tá por fazer (lá não é diferente de muitos lugares em 'te País de contrastes).
A prefeitura 'boça reação colocando inúmeras placas onde contenham um monte de terra ('te ano tem eleição).
A cidade do Cabo como chamam os Pernambucanos é uma cidade dormitório, Jaboatão também não é diferente.
Cabo do Santo Agostinho é daquelas cidades 'colhidas para ficar eternizadas na imagem de qualquer turista por a sua beleza natural.
Suas praias e o Engenho de Massangana pra mim foram o alto de um sentimento.
Passei por a cidade de Recife várias vezes, graças a um novo-velho amigo, mas poucas pra parar e observá-la.
Minha feição foi daquelas de uma primeira impressão.
Espero poder contorná-la e conhecê-la melhor um dia.
Fui ao centro do Recife antigo e ao centro comercial.
O primeiro é intocável, magnífico e encanta, mesmo por os pesares.
Suas 'quinas são admiráveis:
igrejas, casarões, música em todo canto.
Foi por ai que me empolguei.
Em a primeira curva, fascinação.
«Noite de sexta-feira é assim por aqui, principalmente em época de carnaval ( ...)
todos dançam, cantam e se divertem», comentava um Recifense o campeonato de Frevo.
O centro comercial, caso eu pudesse, seria melhor 'quecer.
Pois não há diferença com São Paulo, aliás, acredito que todo lugar do Brasil deva ser assim -- correria, sujeira, descaso.
Pode ser que as obras depois falem por si, mas o lixo que observei, em ruas, calçadas e a forma de trabalho informal acabaram por hipnotizar.
O dormitório
Minha 'tadia foi próximo do litoral sul e não sabia o quanto isso iria ser bom, pois meus primeiros dias foram de árduo trabalho e 'tudo, muito caminho iria percorrer e poderia ter uma visão mais ampla da cidade por destino do percurso.
A Fundação Joaquim Nabuco, meu primeiro destino, fica no bairro de Casa Forte e o centro de documentação da Fundaj, em Apipucos, onde, por sinal, iniciaria as pesquisas.
O local era longe do meu dormitório, minhas tarefas seriam de extrema exigência física.
Porém, depois dos desgastes previstos na primeira semana fui aventurar-me e conhecer o litoral que tantos comentavam.
Praias como:
Gaibu, Suape, em Cabo do Santo Agostinho e Muro Alto e Porto de Galinhas, as duas últimas no município de Ipojuca.
A areia das praias é um caso a parte que nem adjetivo teria para contemplá-las.
Todas com sua beleza ímpar.
Beleza 'sa que eu anteriormente na vida teria cruzado no município de Ilha Bela em São Paulo.
Meus dias foram assim, meio 'tabanados por a grandeza de tanta beleza que existe no litoral do Estado de Pernambuco.
O Engenho de Massangana, localizado na cidade do Cabo, outro ponto de pesquisa do documentário que 'tou produzindo, é imprescindível para qualquer turista.
A vista é perfeita -- montanhas, coqueiros, pés de mangas e árvores, muitas de elas até perder de vista.
A história contida dentro daquele recinto faz parte do início do pensamento abolicionista e foi onde Joaquim Nabuco, grande intelectual do século XIX, e um dos lideres abolicionistas viveu até seus 8 anos de vida.
Entre a noite e a história
Estava eu, para desvendar a noite pernambucana ...
Primeiro passo foi em Recife, onde anteriormente citei.
O segundo passo foi nas ruas de Olinda, recheada de casarões antigos e palco da nossa história.
Conheci Olinda apenas durante as horas da noite e tive uma guia ilustre.
A cidade tem ares de interior, mas quando chega próximo ao carnaval tudo vira festa.
Sua arquitetura é 'plendida.
É história dentro da história, não há como negar que ali você sente-se envolvido por o Brasil imperial.
Tudo envolta lembra 'te pensamento.
O clima é maravilhoso, pessoas alegres, bares e ruas cheio de gente, todos de bem com a vida.
As ruas 'treitas têm um charme todo 'pecial.
A cada instante eu corria o risco de ser atropelado, pois o visual era tão 'tonteante que sempre acabava me perdendo entre calçada e rua.
O preço é acessível e deu para aproveitar.
Minhas impressões de Olinda se dão apenas em 'te aspecto, entre a noite e a história, realmente uma pena não ver seu dia.
Passei apenas duas noites por lá, mas foi o bastante para sentir que naquela cidade respira-se mais que cultura, respira-se alegria e vida.
Sempre faltará algo para contar ...
Não há como negar.
É um fato consolidado.
Resolvi ir para o 'tado de Pernambuco por a sua grandiosa diversidade cultural, foi isso que me atraiu.
Aos poucos fui delimitando o tema de minha pesquisa e em 'te contexto meio embaraçoso fui desbravar dentro da minha necessidade o 'tado que tenho grande admiração.
Para conhecer pelo menos o básico de uma capital que respira cultura e pra mim é um berço-celeiro de autenticidade no Brasil, teria de ficar pelo menos uma vida toda, de degustação e prazer.
Minha admiração e encantamento sobre as cidades que passei em Pernambuco são de um primeiro olhar;
virgem, límpido e aventurado -- em poder desfrutar de tudo ao mesmo tempo -- ás vezes fruto da empolgação.
Os excessos sempre me rondaram na vida, inegavelmente.
Foi assim, portanto sob o visual da minha percepção, deslumbramento e aprimoramento para enfim, aprender com a população local que me fez respirar o 'pírito brasileiro, de desfrutar o meu maior aprendizado -- o respeito à diversidade cultural.
Número de frases: 95
A cidade de Piranhas 'tá localizada no sertão alagoano, a cerca de 240 km de Maceió.
Encravada nos paredões que margeiam o Rio São Francisco, limita-se ao Sul com o «Velho Chico» e ao Norte com a vegetação 'pinhenta da caatinga.
É uma cidade que transpira história, desde o povoamento no século XVIII até o fenômeno social do cangaço, passando obviamente por a arquitetura colonial, os casarios e a ferrovia que Pedro II mandou construir para ligar o baixo ao alto São Francisco -- na parte não-navegável do rio.
Povoamento
O povoamento da região data do século XVIII com a chegada de um certo «Casado», que se instalou em torno de um olho d ´ água que existia em cima da serra, dando origem ao atual município de Olho D ´ Água do Casado.
Depois vieram os Feitosa e os Sandes que se instalaram à beira do São Francisco.
O grande número de piranhas no rio e riachos é, sem dúvida, a explicação para a denominação do município.
O nome da cidade se deve ao fato de haver uma explicação que virou lenda na simbologia popular e por isso adquiriu grande força no imaginário coletivo dos moradores da região.
A sede da prefeitura, a igreja matriz, os casarios coloniais, o prédio da 'tação ferroviária, a torre da 'tação, a vila de pescadores que fundaram a região e hoje conhecida como Piranhas Velha, o mirante em saudação ao século XX;
são alguns exemplos que encontramos da arquitetura colonial e que fazem parte do acervo tombado por o patrimônio histórico e cultural.
A cidade também já foi palco para o filme Bye, Bye Brasil, do cineasta alagoano Cacá Diegues.
Filmado na década de 1970, dá uma idéia do que é a cidade e pouca coisa mudou de lá para cá, pelo menos no que diz respeito às fachadas dos pardieiros.
É impossível não realizar viagens históricas mentais quando a cidade visitada possui tão rico acervo material e imaterial, algumas ruas preservam ainda as pedras originais das primeiras construções da cidade.
O Rio São Francisco exerce papel fundamental na vida das comunidades ribeirinhas e em Piranhas não poderia ser diferente;
o rio é fonte de subsistência e de renda para 'tas comunidades.
Todas as relações sociais marcantes em 'tas populações se desenvolveram sob forte influência do " Velho Chico ";
o contato com os municípios da região é feito através do rio, a dieta à base de peixe e crustáceos, os personagens do universo simbólico popular também nos remetem à influência do rio nas vidas de 'tas populações.
O cangaço também exerce forte influência, ainda hoje, na mentalidade do piranhense.
A volante da polícia alagoana saiu da cidade de Piranhas para a emboscada da gruta de Angicos e de volta as cabeças foram expostas na 'cadaria da prefeitura.
Vários integrantes dos grupos de Lampião e da Polícia eram de Piranhas -- o tenente João Bezerra (comandante da volante) e o sargento Aniceto casaram-se e moravam em Piranhas.
O prédio onde funcionava a 'tação ferroviária abriga hoje o Museu do Sertão, que conta com acervo relacionado ao cangaço.
São fotos dos personagens que fizeram parte deste fenômeno histórico, armas utilizadas nos combates entre os cangaceiros e as volantes policiais, utensílios utilizados por os cangaceiros, as vestimentas confeccionadas em couro para resistir e protegê-los dos 'pinhos que predomina na vegetação do sertão nordestino.
A ferrovia já não existe mais;
na memória dos mais velhos é um filme que passou e entre os mais novos só referências nos livros e nos relatos.
Mas, olhando-se do rio para terra vê-se nitidamente os contornos da linha férrea na serra.
São as marcas da história que também ficam delineadas na topografia.
Número de frases: 26
Entrar naquele corredor com cheiro de poeira é como, desculpem o clichê, entrar num túnel do tempo.
Não, o lugar não é sujo e, apesar da maioria do produto encontrado ter sido produzido há décadas, um material bem recente, pode ser encontrado, mesmo que importado.
Também não é um museu, mesmo sabendo que ali existem grandes obras de arte.
Em a verdade trata-se de uma feira e as típicas caixas dos feirantes se enfileiram lado a lado.
Em 'ta feira não há gritaria, os vendedores são, em sua maioria, senhores calmos, educados e que conhecem como ninguém o produto comercializado.
De o outro lado das mesas e caixas, mais do que compradores:
verdadeiros amantes.
Muitos homens, raras mulheres, não deixam passar uma caixa sequer, e com dedos ágeis, passam a vista e quando se interessam por algo, puxam para o alto, confirmam a originalidade, a data de fabricação e obviamente as condições físicas do produto.
Um produto que não possui prazo de validade.
Quase 100 % da mercadoria vieram de outros donos, passaram por várias mãos e principalmente embalaram dias e noites de vários ouvidos, por motivos que qualquer um de nós desconhece.
Entro mais uma vez na feira do vinil da galeria ao lado do Parque Trianon, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Alguns rostos já se tornam conhecidos, aqueles que têm discos que lhe interessam, quem possui bons preços, quem negocia e quem não dá desconto, de jeito nenhum.
É difícil parar para observar a feira quando se é um desses apaixonados.
O primeiro impulso é o de enfiar a cara numa de 'sas caixas e parar apenas para 'pirrar -- apesar dos cuidados com a manutenção dos discos, é impossível não sentir os efeitos do tempo e o cheiro de décadas e décadas incrustados nas capas dos vinis -- Atchim!--
Saúde! Com um sotaque 'trangeiro que não consegui identificar a origem (inglês, talvez), o homem branco, jovem, porém de barba ligeiramente grisalha, se debruça nas pequenas caixas de compactos.
Fuça daqui, fuça de ali e fica com uma Elis.
Parece conhecer muito de Bossa Nova.
Aliás, os discos que normalmente possuem valores altos, são desse 'tilo musical que tanto encanta os gringos, desde os primeiros acordes de João Gilberto.
Logo na minha quarta caixa de feira me deparo com um Correio da Estação do Brás, um clássico do mestre Tom Zé, capa pouco prejudicada, vinil impecável:
R$ 50,00.-- Separa para mim, por favor.
É normal pedir para o vendedor separar o disco enquanto você percorre toda a feira, assim, no final do percurso, define o que mais lhe interessa e as delícias sonoras que o bolso pode arcar.
Queria tanto um Beach Boys, tem um cara que sempre tem, e sempre fico na vontade ...
em 'te caso, o bolso não acompanha a vontade.
Não sou colecionadora, gosto de música e tenho um carinho 'pecial por o vinil enquanto suporte.
Não sou audiófila compulsiva, mas reconheço que nenhum suporte digital tem uns graves tão fieis quanto os vinis.
E como todo entusiasta das bolachas, nenhuma capinha mixuruca de CD supera, nem de longe, o prazer de grande capa, principalmente as duplas, dos encartes, repletos de detalhes.
Dedicada em minha busca, 'queço do Thiago, meu companheiro de vida, casa, comida, roupa lavada e paixão por bolachas.
Ele, que saiu de casa decidido a voltar com, pelo menos um Sonic Youth, -- 'tá na fase SY -- volta com dois.
Negocia com o japonês que não tem loja, não é vendedor: --
sou colecionador, vendo para comprar.
A maioria possui uma loja, um ponto fixo, outros 'tão aos sábados na feira da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros e aos domingos na feira de antiguidades no bairro do Bexiga, mas as feiras exclusivas de vinis possuem um romantismo todo 'pecial, é um momento onde aquelas pessoas se sentem parte de um grupo e apesar dos diferentes gostos e níveis de formação musical, possuem o interesse em comum de manter viva a circulação deste objeto tão quisto por 'ta classe, a classe dos apaixonados por discos.
Procuro um Transa, do Caetano.
Tive o CD, perdi, mas queria mesmo o vinil.
Passei por dois, boas capas, mas discos em péssimo 'tado, finalmente encontro um, com boa capa, ótimo vinil e preço convidativo: --
separa pra mim, por favor.
Enquanto o Thiago negocia os SYs com o japonês, o Tomás, seu irmão, continua sua busca por um MC5, mesmo sabendo que um MC5 não se encontra assim, tão fácil.--
Tomás, tem um MC5 aqui, mas ó, 150,00 pilas.
Discos raros e discos novos em 'sa caixa.
Tem até um Modern Times, o último do Bob Dylan, obviamente importado e por um preço que dá pra sair com, pelo menos, outros três Dylans, se você tiver a sorte de encontrá-los.
Temos apenas uma fábrica de vinil em produção no Brasil, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, no Rio, que, para sobreviver, tem que produzir muito copo descartável, já que os tempos áureos de vinis são idos.
Apesar da produção de outrora nunca mais voltar a ser a mesma, o vinil 'tá na moda, para muita gente é «cult» tocar discos ao receber os amigos.
Muitas bandas de rock e muitos rappers fazem questão de lançar seus trabalhos em vinil.
Matérias sobre a «volta do vinil» 'tão circulando com força total, em jornais, revistas, blogs ...
nos últimos tempos.
A busca por vitrolas fez 'se pequeno mercado aquecer, além do trabalho de manutenção dos toca-discos e venda de produtos para limpeza, plásticos para capas, agulhas ...
E isso é bom!
Se é!
Se o vinil vai acabar?
Se for, vai demorar muito tempo.
-- Me faz um desconto em 'se Jaco?
-- Qual?
-- Esse Jaco Pastorius.
-- Posso fazer por R$ 15,00, pra você.
-- Levo.
Em a última mesa vejo exposto com destaque mais um Correio da Estação do Brás.
Cem??? Não obrigada ...
me fizeram por 50 lá na frente.
-- então leva:
50.-- Ah, não, já segurei lá frente.
Em um dia de sol frio, há alguns meses, na feira do vinil de Santo André, um senhor, vendedor, ao me ver com sacolas de discos nas mãos, me pergunta: --
ta carregando os discos para o namorado?
-- Não senhor, eu carrego os meus e ele os de ele.
Me sorriu educadamente, sabe-se lá o que ele pensou, mas me olhou de forma carinhosa e me ofereceu um Beatles.
Texto publicado originalmente em:
Número de frases: 64
http://narravidas.wordpress.com/ " Novela são trinta pessoas correndo atrás da felicidade.
E a gente torcendo».
A definição do novelista Carlos Lombardi para o maior produto de entretenimento realizado no Brasil parece perfeita ao analisarmos os índices de audiência que cada trama traz para uma emissora.
No entanto, com o decorrer dos anos, mais do que meros «torcedores» para que os mocinhos terminassem felizes e os bandidos fossem devidamente castigados, os 'pectadores passaram a ter um papel a mais:
o de «consultores» dos autores de teledramaturgia.
Graças ao público, Gilberto Braga e Ricardo Linhares colocaram um sinal de reticências numa trama que, originalmente, teria um ponto final já no segundo mês de Paraíso tropical.
Estava previsto na sinopse que, depois de descobrir a infidelidade de seu marido Antenor (papel de Tony Ramos), Ana Luísa encontraria a «redenção amorosa» nos braços do jovem Lucas (vivido por Rodrigo Veronese), e os dois iriam morar e viver felizes para sempre em Boston.
No entanto, a personagem de Renée de Vielmond (voltando a atuar na TV depois de cerca de dez anos afastada) teve tanta aceitação por o público que os autores da atual novela das 21h da TV Globo cogitam seu retorno, na reta final da trama.
A relação «novelista / noveleiros» é muito delicada, e já rendeu muitos capítulos desde o início da história da teledramaturgia brasileira.
O primeiro caso vem na década de 1960.
Sucesso da hoje extinta TV Excelsior, Redenção (que entrou para a história da TV brasileira, por, até o momento, ser a novela que mais tempo ficou no ar -- exatos dois anos) teve uma trama alterada para satisfazer o público.
O autor Raimundo Lopes havia previsto que, numa passagem de tempo, a fofoqueira Dona Marocas sairia da trama.
Entretanto, o sucesso da personagem de Maria Aparecida Baxler diante do público forçou a mantê-la no ar -- e, como Dona Marocas havia morrido, Raimundo foi obrigado a fazer com que o médico Fernando (protagonista da história) realizasse um transplante de coração que desse sobrevida à mexeriqueira da cidade de Redenção.
Autores já mudaram rotas de tramas e já aumentaram ou reduziram personagens de acordo com a vontade do público.
Um destes casos aconteceu com Aguinaldo Silva, na novela Fera ferida.
Descobriu-se que a família do coveiro Orestes era extremamente rejeitada por o público, e restou a Aguinaldo matar a família num incêncio criminoso -- deixando apenas ele (pois era um personagem importante para a trama) e seu filho caçula, Romãozinho, na trama.
O extremo oposto também já aconteceu em função da resposta dos 'pectadores.
Em a novela Perigosas peruas, Carlos Lombardi deu sobrevida ao atrapalhado Belo, que morreria a dois meses do fim da trama -- pois o personagem de Mário Gomes era um gratíssimo sucesso inclusive entre as crianças.
Só que o caso mais emblemático da «co-autoria» dos 'pectadores com os autores aconteceu com o próprio Gilberto Braga.
A rejeição inicial da história de O dono do mundo o obrigou a fazer mudanças na trama inteira.
Márcia, a mocinha da história que se deixava seduzir por o vilão Felipe Barreto e entregava sua virgindade antes do noivo se tornou vilã aos olhos do público (ainda conservador com o tema «virgindade» no início da década de 1990).
O cínico Felipe não conseguia receber ódio dos 'pectadores, por o grande carisma de seu intérprete, o ator Antônio Fagundes.
Graças a 'tes direcionamentos apontados por o público, Gilberto fez a «mocinha tratada como vilã» pagar por se entregar tão facilmente, e o vilão arrepender-se de suas maldades.
Mas, na reta final da trama, e com a audiência já devidamente segura, o autor se vingou dos 'pectadores:
a simpatia de Felipe Barreto era farsa, ele nunca deixara de ser o mesmo sujeito prepotente do início da novela e, ainda assim, terminava a trama vitorioso -- dando o «golpe do baú» numa inocente filha de fazendeiro (" e é virgem», como disse Felipe para a câmera, antes de piscar o olho com ar de cinismo).
Embora, com Paraíso tropical, ele não 'teja passando por as turbulências de audiência de 15 anos atrás, novamente uma situação envolvendo Gilberto Braga constata a tendência atual da teledramaturgia brasileira.
A de que, mais do que milhões de torcedores, na torcida existem milhões de 'pectadores 'crevendo suas próprias catarses nas novelas.
Número de frases: 27
Oito de agosto de 2008.
Esta data cabalística foi 'colhida propositalmente para que o novo Bacana 'tivesse à disposição dos internautas.
A revista eletrônica, agora, Mondo Bacana (www.mondobacana.com) ganhou uma nova roupagem e novidades para uma moçada com sede de informação e entretenimento do mundo cultural.
O renovado site pertence a uma pessoa já bem conhecida em 'te ramo tanto em Curitiba como no Brasil devido à sua longa e respeitosa trajetória:
o jornalista Abonico Smith.
Em parceria com o sócio, o publicitário Guilherme Boni, coloca à prova todo o seu conhecimento artístico e a inquietação por os lançamentos que acontecem por aí.
Mas antes de falar desse Mondo Bacana, é preciso saber a trajetória de seis anos que o site já percorreu.
O Bacana começou a dar os primeiros passos em 2002 junto com o apoio da " Fundação Cultural de Curitiba.
«Era um projeto para ajudar a cena roqueira da cidade, que projetasse as bandas daqui.
O site não era comercial e foi a fundação que bancou», conta Abonico.
Cerca de um ano depois, a parceria se desfez por um dos lados da gangorra.
«Comecei a tocar o Bacana sozinho.
O site sempre foi independente e sempre tive a intenção de mudar daquele modelo engessado».
Em o fim de 2007, Abonico encontrou Guilherme Boni por acaso em virtude de pessoas conhecidas de ambas as partes.
Guilherme, que já trabalhou na empresa de desenvolvimento de sistemas de informática com o pai, possui boa experiência em 'te ramo e diversos trabalhos feitos como freelancer.
Entre algumas conversas e rápidas afinidades resultaram na parceria para o portal Mondo Bacana.
«Desde o final do ano passado, Guilherme colocou a mão na massa.
Transferiu 700 arquivos, trabalhou 15 horas por dia para não perder nada do que já tinha no Bacana.
É uma evolução, não 'tamos começando do zero», revela o jornalista.
Com passos já dados com o Bacana, Abonico diz que o contexto pop continua em alta no Mondo Bacana.
«O foco maior é na música, mas vamos falar de livros, filmes etc».
O jornalista conta que o portal também vai mastigar a cultura local, nacional e do exterior, sem contar das novidades mescladas com um selo virtual.
«A pessoa pode baixar e comprar discos alternativos de artistas nacionais e internacionais.
E outra:
não é um portal de notícia, mas de relacionamento onde você pode montar o seu mondo com os artistas que gosta, ver o perfil de outras pessoas cadastradas e trocar informações com elas».
Com tantas variedades num só lugar, Abonico acompanhava a evolução da internet e sabia que os sites seriam a vitrine para muita gente.
Em os últimos dez anos, facilitou o crescimento do independente, onde as bandas podem criar, se projetar com mais freqüência.
Você divulga o teu trabalho, teu disco, e não precisa 'perar a rádio tocar».
O Mondo Bacana 'tá no ar alguns dias e o retorno de muito 'forço, tanto do Guilherme que cuida da programação e principalmente do atarefado Abonico, 'tá vindo aos poucos.
«Não tem divulgação.
O negócio 'tá sendo boca-a-boca, um indicando para o outro», conta o jornalista que encerra o assunto ao dizer que há seis anos possui 'te site como válvula de escape e fonte de inspirações para suas sensatas e geniais 'critas.
«É meu negócio, é meu empreendimento».
Agora você tem mais uma opção de entretenimento, informação e site de relacionamentos na internet (basta se cadastrar).
Aí mergulhe nos textos, downloads, fotos e faça desse Mondo Bacana o seu mundo cultural.
www.mondobacana.com
Divirtam-se!!
Um pouco sobre o «mondo» de Abonico Smith:
Já bem conhecido da cena musical de Curitiba, o jornalista é criador do caderno e prêmio Fun (voltado ao público jovem no final dos anos 90), do jornal Gazeta do Povo e também fez parte da equipe cultural do Caderno G.
Em o início do 00, Abonico tem transitado por os corredores das redações de jornais impressos e de uma televisão da cidade.
Trabalha também como assessor de imprensa de bandas locais e ainda encontra tempo para tocar o velho sonho da revista eletrônica, agora mais bacana ainda, o Mondo Bacana.
«Estou dormindo em média duas horas por noite.
Falo que sou um multi-homem, onde tenho que me multiplicar em vários Abonicos».
Número de frases: 42
«Sozinhos», o título do filme que a Ana Paula Santana 'tá rodando, pode muito bem sintetizar o momento / sentimento matogrossense na difícil arte de se realizar produções audiovisuais.
Corte!
Difícil cada vez menos.
As condições para realizar produtos em imagem e movimento 'tão muito mais viáveis sob vários aspectos:
tecnologia disponível em vários formatos e modelos, tanto para produções de maior 'mero quanto para produções caseiras, ou de garagem, de fundo de quintal, você 'colhe o cenário;
celulares, handcams, mini-DV, mini-câmeras, até as máquinas fotográficas gravam em movimento, você 'colhe a ferramenta;
recursos dos fundos de cultura, leis de incentivo, investimento privado, brodagem, coletivos, associações, cooperativas, você 'colhe como fazer;
festivais independentes, festivais oficiais, portanto dependentes, internet, YouTube, Overmundo, museus de imagem e som, salas de cinema (será???),
salas de filmes digitais, de película, fundo de quintal, sala de sua casa, você 'colhe o lugar;
ainda assim nos sentimos sozinhos, talvez, cada vez mais sozinhos, no meio de 'sa multidão.
Corte!
Ana Paula é uma das pessoas que 'tão produzindo / realizando algum tipo de produto audiovisual em Cuiabá em 'se momento.
Dando uma pan no olhar vejo mais duas mulheres:
em ação!
Um «Presente» para o audiovisual de Mato Grosso.
Mas como?
Se nem é aniversário, se nem é casamento, se nem é batismo.
Ah! Batismo sim, a Lenissa Lenza, 'tá 'treando com o curta «Presente».
Batizada será portanto, na primeira 'tréia, na primeira mostra do curta-metragem.
Captado em digital vídeo e transfer (ido) para película.
Processo muito em voga na atual conjuntura onde descobriram que pode se fazer filmes baratos.
Lenissa 'tá em fase de montagem e composição da trilha sonora para finalizar o curta-metragem e daí fazer o transfer.
«Presente» é uma produção do Espaço Cubo que promete investir fundo numa política de formação de mão-de-obra e assaltar o setor mostrando que existe sim possibilidades mais concretas para se formar aqui o grande pólo de cinema que foi imposto goela abaixo por uma medida de governo.
Criou-se o pólo antes de se tornar um Pólo, dá para entender?
Explico: foi criada uma lei, por volta de 1996, instituindo um pólo de cinema matogrossense.
Coisas que caem do céu, só não caíram 'trelas de uma pretensa cinematografia matogrossense.
Corte de novo?
Não! Fusão ...
Confusão:
o que importa o suporte? Importa
é fazer bons filmes (não distingo mais entre vídeo, cinema digital ou película, meu bem, meu mal, o que importa é a linguagem), não vejo mais diferenças entre uma coisa e outra.
Filmes, até com celular 'tão fazendo.
Aí já 'tá ficando demais.
Não acha?
Ah! Você é retrô!
Você é um traidor da suprema arte do corte.
Cole aqui, recorte ali, cole novamente, ache o ritmo (timing) e o tempo 'tá rendido, em suas mãos.
Você é o montador.
Você é o criador.
Você é a criatura.
Personagem? Não!
El Vingador.
Glória Albuês é outro nome que surge grafado na tela do audiovisual contemporâneo.
Albuês volta a dirigir uma história em imagem e som depois de um bom tempo após ter realizado o ótimo «Zoofonia», em parceria com Humberto Espíndola.
É bom ver Glorinha voltar ao 'paço dedicado ao autor com o curta «Nó-de-Rosas».
O roteiro, ela mesma concebeu e homenageia sua irmã dando o título de um conto 'crito por a saudosa Tereza Albuês, 'critora que ensaiava uma ascensão em sua carreira, ganhou o prêmio literário «Guimarães Rosa», em Paris, sim, um concurso em Paris cujo nome homenageia nosso grande Rosa.
Tereza morou em Nova Iorque até sua morte, prematura demais, de câncer, em 2005.
Mulheres, ah!
As mulheres 'tão com a fita toda por aqui ...
Não dá para 'quecer do festival que rolou por a segunda vez, em Chapada dos Guimarães, no ano de 2006, que por sinal homenageou a Glória Albuês.
Glorinha aborda uma temática que é um verdadeiro tabu para as mulheres:
o filme viaja por as ondas do orgasmo com delicadeza poética, um olhar feminino sobre uma questão que incomoda e muito as mulheres.
Em o filme a personagem principal é Rosa que é filha da boliviana Rosália que é filha de Rosário.
O pai de Rosa matou a mãe e se suicidou.
Rosa viaja até a Bolívia, em Tiwanaku, uma cidade que tem um sítio arqueológico belíssimo onde ela vai 'cavar sua própria história, uma tentativa de retorno às suas raízes, uma viagem para dentro de si mesmo.
É um filme que busca a identidade feminina em 'se mundo dominado por os princípios da masculinidade.
A diretora nos conta que trabalhou com duas equipes, dois olhares, uma brasileira, com a direção de fotografia de Kátia Coelho e outra boliviana, direção de fotografia de Guillermo Medrano.
Ela revela ainda que ficou admirada com a qualidade dos profissionais bolivianos, como eles são atenciosos e dedicados ao trabalho.
Integração cultural na prática, sem decretos, sem leis, nem cartas de intenções.
Tinha que ter um homem no meio do caminho.
Em cena:
Léo Sant'Ana." Parabéns, Vítor!" é o nome do seu curta de 'tréia.
Rodado em película.
Me disseram que 'tá muito bem feito.
Que o filme rola legal na telona.
Já marquei várias vezes com o Léo para assistir ao filme e os contratempos (contra) agem sempre em cima da hora causando algum tipo de desencontro ou impedimento.
«Parabéns Vítor» teve uma pré-'tréia num dia que não pude comparecer pois tinha um show para fazer.
Contra-plano.
Cena 2: gravando!
Ação! Luzes!
Celulares! Câmera!
Digital! Luzes cruzes!
Ação! Tem mais filme por aí, sendo rodado.
Tem personagem querendo entrar em 'sa fita aqui:
take 1: interior:
Casarão cinema e vídeo:
ator Caio Mattoso, direção de Joel Sagardia e eduardo ferreira:
eunóia. Um filme que 'tá sendo produzido com zero de orçamento.
Como? Parceria entre a Fábrika, Casarão cinema e vídeo e toda a equipe que topou trabalhar coletivamente apostando no resultado.
Qualquer ganho será dividido entre todos os participantes do processo.
Tem que botar ordem em 'se roteiro aqui.
Eis um roteiro sem saída!
Corta!
«Serenata» ao luar.
Um curta de Vítor Meirelles.
Parabéns Vítor! Não!!!
não é para o personagem do filme do Léo.
«Serenata» é o primeiro curta do Vítor.
O Meirelles, fruto de um projeto da Ana Paula Santana, o três por um, que agora virou dois por um:
explico: o projeto contemplava três filmes (realizados de forma bem barata) por o custo de apenas um.
Em a realização dos dois filmes abriram oportunidades para formar pessoas que 'tavam em busca de participar de uma produção audiovisual:
Cristiano (cinegrafista) 'treou como diretor de fotografia;
Nanda e Talita assumiram pela primeira vez a produção de figurinos -- no caso de Serenata, foi um trabalho de arrancar elogios dos diretores (Ana e Vítor) por a pesquisa e realização, pois a história se passa nos anos 50.
Enfim chegamos ao fim de 'sa panorâmica:
sozinhos ou não, ao som da serenata, parabéns por o presente:
um belo buquê de nó-de-rosas.
The End.
Não!
Não! The end fica muito cinemão americano ...
Número de frases: 99
Corta!" Quando eu canto é para aliviar o encanto e a fé em Deus».
Com 'sas palavras a belíssima voz da paulista Mariana Aydar abre o seu primeiro disco, Kavita 1, lançado por a Universal Music, que chega num momento em que as gravadoras sucateiam e comercializam a bem querer Vanessa da Mata e Maria Rita, que 'tão enchendo o saco, com excessivo marketing nas mídias;
uma alternativa para se ouvir boa música.
Mariana não é uma cantora qualquer para colocar suas músicas em todas as rádios, transformá-las em tema de novela, ir aos domingos ao Faustão e depois virar hit na boca de cantores e bandas emergentes.
Sua música tem um requinte sofisticado que não é para quaisquer ouvidos;
só os mais apurados conseguem se emocionar ao ouvir Zé do Caroço, faixa cantada com Lecy Brandão, em momento de crise social e política em que vivemos, um verdadeiro desabafo de um novo Policarpo Quaresma.
Seu pai, Mario Manga, produtor musical e diretor de TV, lhe deu o respaldo necessário para gravar o que queria e mostrar uma certa autonomia artística, resultando num disco sublime, uma nova forma de fazer música brasileira ao invés de ficar só gravando canções-chiclete com refrões repetitivos e chatos.
Mariana Aydar consegue trazer elementos musicais de raízes puramente brasileiras, o autêntico e bom samba é o carro chefe;
em 'sa 'tética, elementos percussivos e eletrônicos também são notáveis, uma harmonia singular com a banda nos dá uma perfeição final.
A faixa 09, Candomblé, revela seu gosto pela raiz histórica do samba, que começou com a negritude nos morros do Rio de Janeiro e nos leva, inevitavelmente, a lembrar de Clara Nunes.
Sem dúvidas a música brasileira eventualmente prestará reverências a 'sa menina que consegue fazer um trabalho autêntico, único, enquanto outras e outros ficam sob as conveniências das gravadoras que passam de mecenas a mercenárias.
Difícil mesmo é levar as músicas deste fecundo álbum a um maior público, já que vivemos numa hegemonia nos quatro cantos da sociedade, inclusive na música.
O monopólio cultural ainda persiste em 'sa sociedade tão frágil que é a nossa.
Se a democracia política em 'te país é fantasiosa, quem dirá a democracia artística, onde todos deveriam poder mostrar seu trabalho e não ficar como 'tá, onde uns são as bolas da vez nas rádios, revistas e programas de TV e outros marginalizados por a falta de oportunidade.
O mal é querer levar a arte como produto comercial, pois se números de vendas significassem qualidade artística, até a Perla seria a melhor cantora do Brasil.
Número de frases: 15
Kavita 1 surge e fica como um lembrete da eminente necessidade de 'sa democratização das artes, para que todos possam mostrar sua arte e Mariana Aydar inocular 'sa idéia de que é possível voltar a fazer boa música no Brasil.
O Charme do Baile:
Identidade, cultura popular e etnicidade em bailes black no Rio de Janeiro.
«Vai pro culto hoje?" (
comentário feito por um amigo sobre minha freqüência no baile charme do Cordão do Bola Preta).
Introdução
Apesar de uma considerável baixa nos bailes charme na cidade durante o período de carnaval, ainda há muitas pessoas procurando ouvir um repertório diferente do samba.
Por isso vale a pena refletir sobre a importância dos bailes charme para os negros no Rio de Janeiro.
A semana não acabou e muitas pessoas ainda 'tão procurando mais um Baile para freqüentar e dançar ao som da boa e velha black music.
Esta festa representa então um 'paço de diversão e lazer, como também de inserção social, identificação e manutenção da cultura negra.
É dia de baile, é dia de festa, é o momento de se prepararem para encontrar seus amigos, namorados, parentes, entre outros.
É dia de deixar de lado os problemas e se divertir, dançar, curtir a música e conhecer gente nova.
É assim, «fechar a semana com chave de ouro», como dizem os freqüentadores.
Os negros encontram, em sua participação na sociedade, diferenças sociais, econômicas e culturais que muitas vezes lhes tornam invisíveis à sociedade.
O negro não aparenta ser um padrão social.
Dificilmente aparece nos livros, nas novelas, nos filmes e quando surge, sempre há toda uma temática negra, como se fosse uma justificativa para sua aparição.
Nei Lopes (1992), pesquisou a ocupação do Rio de Janeiro por o negro vindo de diversos cantos do país, resultando no negro carioca.
Segundo o autor, o declínio do café no Vale do Paraíba, o fim da guerra do Paraguai, a seca no sertão nordestino, a abolição da 'cravidão e o fim da campanha de Canudos direcionaram os deslocamentos para a cidade do Rio de Janeiro.
Segundo o autor, todas 'sas migrações tiveram como conseqüência um caldeamento de valores, com expressivo reflexo no campo cultural.
Já no final do século XIX, " a composição da força de trabalho no Rio de Janeiro refletia claramente a ideologia do branqueamento e é o que assistimos até os dias de hoje:
a luta dos jovens negros por inserção social e visibilidade na sociedade, marcando tais relações por grandes conflitos, explorações, desigualdade e discriminação (Lopes, 1992: 6).
O Baile charme então acaba se transformando num momento em que o negro não precisa de nenhuma justificativa à sociedade para 'tar ali.
A não ser o fato de ser negro, como a grande maioria dos outros freqüentadores.
Porque ali é o local onde não há a necessidade de justificar-se, sentir-se mal ou dar satisfações à sociedade.
A 'tratégia dos bailes
A primeira vez que entrei num baile charme, juntamente com outros amigos, freqüentadores há alguns anos foi inesquecível.
Era uma quadra de 'portes, com o chão sem piso, quadra coberta (um dos poucos bailes black cobertos na cidade), com 'paço para mais de quatro mil pessoas, três ambientes, banheiros bem 'truturados, cerveja barata e entrada grátis para as damas.
Localizado num ponto 'tratégico da cidade, num bairro central para a grande maioria de jovens negros que moram nas Zonas Norte, Oeste e Baixada Fluminense.
Nem por isso deixava de ser freqüentado por quem morava na Zona Sul, Niterói e São Gonçalo e Região dos Lagos.
Quando cheguei ao Disco Voador, em Marechal Hermes e participei de um momento que hoje entendo como uma «iniciação ao rito».
A o chegar à fila de entrada fui apresentada a outros freqüentadores, que imediatamente nos fizeram companhia.
Notei que o baile tem um aspecto de «cerimônia».
As pessoas muito bem vestidas, com um visual inspirado no movimento negro norte-americano, se aproximam dos novos freqüentadores e logo comunicavam as regras básicas de convivência no local.
Assim, fui informada por os homens sobre as músicas, sobre as pessoas que freqüentam e sobre o fato de 'ta festa não ser violenta¹.
Já as mulheres me disseram como me comportar no baile, em qual lugar ficaríamos (aquele onde poderíamos paquerar melhor os rapazes), sobre determinados freqüentadores, de entre os quais aqueles que eu deveria me manter afastada, entre outros.
A o entrarmos, fomos revistados, mostramos as bolsas, e passamos por o primeiro ambiente, onde havia alguns rapazes, que ficavam ali 'perando suas namoradas, amigos (as) e observando se havia «carne nova no pedaço».
Logo depois, entramos na quadra.
Em 'te momento senti que entramos num lugar que era destinado ao negro.
O DJ tocava uma música considerada um «hino do charme» ² e os participantes, comemoravam, com gestos, gritos e pulos.
Todos começaram a dançar um mesmo «passe».
Para mim, que até então não conhecia um ambiente freqüentado por negros em sua maioria, senti-me muito emocionada e 'pantada ao ver tantos jovens negros juntos.
Ao mesmo tempo me senti «chocada», termo que é utilizado por os freqüentadores quando relatam sua primeira entrada num baile como 'se.
Afirmam que o «choque» consiste em entrar e se deparar com um 'paço repleto de negros, como não se vê no dia-a-dia.
Em contato com os meus iguais, com os meus pares, num ambiente saudável de descontração, onde não há reprovação, nem olhares de mal agrado, muito menos discriminação por sermos negros, senti-me em casa, à vontade.
Lá não havia a menor possibilidade de em ser menosprezada ou excluída.
Em 'ta noite, arrisquei alguns «passes» e fui apresentada a muitas pessoas, o que ressalta o aspecto de sociabilidade do baile.
A sensação que se tem é que todos se conhecem.
Todos parecem formar uma rede de conhecidos, em que os grupos se comunicam através de pessas-chaves ao longo da noite.
Desta forma me enturmei e conheci melhor o ambiente.
Durante todo o baile, o que eu pude perceber era uma sucessão de «passes», ou» passos «e músicas muito 'peradas por os freqüentadores dos bailes charme, os» charmeiros», num clima de integração e confraternização sem igual.
Inicialmente o charme me remeteu ao ambiente de confraternização, gozo e regozijo das igrejas evangélicas, dos quais já participei.
Sagrado X Profano
Segundo Amaral, as festas são um tipo de manifestação cultural, que devem ser 'tudadas no campo dos ritos.
Citando Durkheim, ela afirma que «toda festa, mesmo quando puramente laica em suas origens, tem certas características de cerimônia religiosa, pois, em todos os casos ela tem por efeito aproximar os indivíduos» (Amaral, 2000).
A vibração por cada música tocada, a sintonia entre os «passes» e a comunhão entre os participantes durante as danças fazem refletir sobre uma possível analogia entre o charme e os cultos religiosos.
Não era incomum ouvir dos jovens que todo domingo era dia de ir para o «culto», referindo-se a assiduidade dos jovens ao baile, em comparação a freqüência dos evangélicos aos cultos de domingo.
Sem contar que muitas músicas tocadas no baile, faziam parte do 'tilo «gospel» norte-americano, como por exemplo, o sucesso «Stomp» de Kirk Franklin.
Em o final do Baile podíamos perceber a grande quantidade de pessoas que freqüentavam o 'paço.
Bastava olhar para as filas nos pontos de ônibus, os bares e o 'tacionamento.
O baile charme é um 'paço tão interessante, tão rico em informações, que é preciso ir mais de uma vez para poder compreendê-lo melhor e entender sua dinâmica.
Não somente como observador, mas como participante.
Desta forma podemos identificar seus códigos, que o tempo todo denunciam os dramas sociais vividos por os negros em nosso país.
Baile:
corpo, territorialidade, casa e rua
O baile na verdade, começava em casa, antes mesmo do domingo, pois havia toda uma preparação para se chegar ao local, que começava por as roupas e o cabelo.
Os «charmeiros» tinham toda 'sa preocupação.
Qual a melhor roupa, o melhor penteado e o melhor 'tilo para freqüentar o baile?
Todos buscavam a originalidade na cores e nas referências aos 'tilos afro.
Havia todo um cuidado, porque o visual dizia muito sobre a pessoa e o grupo.
Diversos grupos se identificavam por as vestimentas, como uma marca, uma territorialização de um ou outro grupo e até hoje ainda é assim.
Acredito que era uma forma de mostrar que naquele 'paço o negro é igual aos demais e que as competições são sadias.
Sabemos que as roupas são um símbolo de status, como vários autores já destacaram e, que podem demarcar a região e a classe social a que pertencem seus usuários.
Fato identificado nos trajes típicos de cada região brasileira, como as roupas das baianas que vendem acarajé, o terno para os pentecostais, as roupas brancas para os umbandistas, roupas caras para os ricos, tudo isto denotando que a roupa também compõe 'se ritual.
Aparentemente tirando o negro daquela situação indesejada e tornando-o mais aceitável, mais bonito, mais apreciável, como os freqüentadores se percebem.
Em 'te dia percebi que algumas pessoas vinham com uma bolsa, onde colocavam um sapato reserva, para calçar na porta do baile, e assim, 'conder o sapato sujo de lama.
Outros vinham em pé nos ônibus, para não amarrotar a roupa, ou traziam uma camisa reserva, para trocar quando suassem e assim 'tar sempre bem vestidos, «apresentáveis», sempre» na 'tica», «na beca».
Ali, o negro não usava avental nem uniforme.
Ali todos eram lindos, bem vestidos e importantes.
É interessante ouvir a história de Marcelo, um dos entrevistados, sobre quando foi ao baile charme pela primeira vez.
«Olha, a minha história no charme foi até engraçada.
Eu tinha 16 anos, foi na época das férias 'colares, que eu sempre passei na casa do meu tio, que morava em Coelho Neto.
Trabalhava de manhã, e na sexta-feira, né, após o trabalho, eu fui de tarde para a casa de ele e ele falou:
Pô, nós vamos sair à noite para um baile.--
Até então, eu ...
como só conhecia, entendia que baile era associado ao funk, falei:
Ah ...
deve ser um baile comum ...--
Mas aí, como ele já era meio coroa, eu falei:
Pô, ele no baile funk, acho que tem nada a ver, mas tudo bem!--
Chegou a noite e tal, botei minha roupa normal, meu tênis ...
na época era modismo, né, tênis Redley.
Botei uma calça jeans, uma camisa e boné, me arrumei e fiquei à 'pera.
Aí nisso ele veio, todo arrumado, eu falei:
Caramba!
Será que ele vai pra alguma outra festa, casamento?--
Eu entendi ele falar que ia para o baile.--
E aí eu falei:
E aí, Tio Jonas!
Vambora?!?-- E ele falou:
Pô, tu vai pra onde?--
E eu falei:
Pô, tio, a gente vai para o baile, como você falou.--
E ele falou:
Não, assim você não vai com mim não, cara.
A gente vai para o baile charme.--
E eu:
Precisa se arrumar assim pra Baile Charme?
Aí ele:
Vem cá, vamos trocar 'sa roupa aí, cara, quê isso?
Tem nada a ver.-- ( ...)
Aí eu fui, me arrumei, ele me deu umas roupas de ele ( ...).
Aí ele me botou uma roupa que parecia que eu ia para a igreja no dia de domingo.
Calça social, me deu um sapato ( ...),
uma camisa dobrada.
E eu falei:
Caramba!
Nada a ver ir com uma roupa de 'sa para o baile ( ...) --
Ele falou que era bom e que era assim que as pessoas se vestiam. ( ...)
Aí fomos para o baile do Vera Cruz.
Me lembro como se fosse hoje, eu fico até meio emocionado em lembrar 'ses fatos da minha introdução ao charme.
Aí chegamos, e eu fiquei observando que os ônibus 'tavam lotados de pessoas indo para o baile, mas todo mundo em pé!
E eu falei:
Bando de otário!
Um montão de lugar vazio no ônibus e o pessoal em pé!
E ele, sempre, né, com muita paciência, muita descontração me falando:
Não, cara.
Isso aí o pessoal vem de casa, assim, em pé no ônibus para não amassar a roupa.
Porque você chegar amassado no baile charme, é maior ...
não lembro o termo que ele usou na época ...
algo como: '
Pagação de mico! ' --
Aí meu tio chegou, ficou conversando com os colegas, tomando uma cervejinha ( ...)
depois fomos para a fila.
Uma fila enorme!
Só gente bonita, parecendo que era um baile de formatura.
Aí entramos.
Quando eu botei o pé na quadra ...
'tava tocando uma música ( ...)
a mais linda.
Desde que eu ouvi 'sa música pela primeira vez no Vera Cruz, eu fiquei apaixonado, que era Anniversary.
Quando tocou aquela batida contagiante, ele falou pra mim:
Muito som!--
Ele sempre falava pra mim assim, quando ele gostava de uma música:
Caramba! Isso é muito som!
Aí eu fiquei ouvindo assim, cara.
Realmente, eu fiquei parado!
Foi uma situação assim, aquele impacto.
Eu fiquei parado, só viajando na música que eu gostei, devido a batida e aquela coisa envolvente que nos dá.
E a namorada de ele dançando com as amigas um passo, que eu fiquei viajando ( ...).
eu nunca tinha visto isso.
Porque baile funk, até então na época, era aquela coisa mais de ...
fazer passinhos, e tal, mas não é como o charme que tem o lance envolvente e eu fiquei totalmente ali, pilhado, desnorteado, fiquei vendo as pessoas dançarem aquela música, que foi a primeira música que eu ouvi quando eu entrei ( ...)
E isso, eu tinha 16 anos.
Hoje eu tô com 29, de lá pra cá 'se tá sendo meu segmento, de rodar os bailes charme do Rio de Janeiro ( ...)
Depois que eu conheci o baile charme, não parei de freqüentar os bailes funk, mas ficou em segundo plano ( ...).
Era uma integração muito grande, lá, todo mundo se respeitava.
a maioria se conhecia.
Era maior ou menos um baile no quintal de casa, que não era, porque vinham pessoas de todo local do Rio de Janeiro, pra curtir o mesmo som, as mesmas músicas, apreciar os mesmos passes.
Aquela época realmente foi ...
os anos dourados.
Muita coisa aconteceu de bom ali.
E daí veio o Bola Preta, Mackenzie, Magnatas ...
e muitos outros que surgiram daí.
Baile Charme -- Marca de Lazer
A pesquisa sobre uma festa tão popular entre os jovens negros partiu da necessidade de compreender uma «marca de lazer», como disse Magnani (2003:19), tão característica desse público e que ao mesmo tempo associada ao 'tilo de vida desses jovens, condiz com a realidade deste grupo.
A partir de 'ta pesquisa pude, inclusive perceber que 'ta prática não alcança somente aos jovens entre 18 a 24 anos, mas a adultos e até mesmo idosos e famílias inteiras, incluindo crianças.
O Baile nos apresenta diversas histórias de juventude, em várias etapas da vida, em contextos diferenciados e em constante mudança.
Para Magnani, foi dada pouca atenção aos movimentos e movimentações oriundos da periferia, que num primeiro momento fogem ao «interesse político, imediato».
Mas que compõe toda uma realidade, baseada na experiência urbana.
Talvez 'te seja o principal motivo do charme ter dado tão certo:
'tava voltado para as classes populares.
Em 'te 'paço, as pessoas falam a mesma linguagem, buscando identificar-se com os demais.
A o citar Durkheim, Amaral afirma que as festas têm três características fundamentais: "
1) a superação das distâncias entre os indivíduos, 2) a produção de um 'tado de ' efervescência ' coletiva e 3) a transgressão das normas coletivas " (Amaral: 2000).
O ritual do baile:
corpo, dança e música
Observando o baile no Cordão do Bola Preta, pude perceber que o que mais chama a atenção dos participantes é o fato de compartilhar com os demais participantes o gosto por a dança e por a música.
Isso, somado a assiduidade, garante o fortalecimento dos laços de amizade.
Há certas músicas, que quando tocadas por o DJ denotam um ambiente de grande comunhão entre o grupo:
a pista fica lotada de pessoas dançando o mesmo passo.
Praticamente todos os participantes dançam o mesmo passo durante a execução de uma música.
Essas canções ilustram as relações de pertencimento e de comunhão entre os charmeiros, em músicas como West Indies -- Guadalupe feat.
Matt Houston, Love Sets you Free Kelly Price, Unusual Amore -- Master of Funk, os passos executados em 'tas músicas são coreografados de forma que o público dá voltas por o centro da pista e todos enfileirados dançam da mesma forma.
A importância que se dá ao centro da pista também é um exemplo da superação das distâncias entre os indivíduos.
O «centro da pista», ou o» meio», é um 'paço destinado aos que dançam.
Este 'paço é configurado da seguinte forma:
os que dançam bem, posicionam-se ao centro e os aprendizes posicionam-se ao fundo.
Conforme vão aprendendo os passos, os grupos vão se reconfigurando e novos aprendizes posicionam-se ao fundo.
A o errar um passo, os participantes abandonam seus lugares e posicionam-se no final da fila, ou seja, todos podemos em algum momento 'tar à frente ou atrás do grupo.
O Centro da pista representa não somente um 'paço onde se ilustra a comunhão, mas é também um 'paço de reconhecimento dos grupos que ali dançam.
O que se 'pera de quem dança no centro da pista é que não haja erros nos passos, comandados por os que 'tão a frente das fileiras.
É como se aquele momento fosse o momento ideal, com o grupo ideal, cujo único objetivo é dançar o passo e criar sobre ele.
É como um jogo.
A o aprendermos os passos bases de um lado da pista, podemos então passar para o outro lado, onde as danças são mais difíceis.
Conclusão
Em as «maratonas» ³, a pista é ocupada por outros grupos oriundos de bailes distintos e que também ocupam 'te 'paço.
O centro da pista passa a ser palco de diversos grupos que buscam visibilidade e reconhecimento.
É em 'te momento que percebemos que diversos grupos contam a história do charme na cidade e, mais do que isso, o charme é composto por diversas histórias de juventudes.
Não restando dúvida de que as festas contribuem para reforçar os laços sociais (VIANNA, 15).
O Baile Charme constituiu-se então como um movimento popular cultural que propõe uma reinvenção da identidade cultural negra, expressa através das danças, da música, das roupas, da disseminação de valores de respeito a próximo, da cordialidade, da elegância do charmeiro e da charmeira para 'ses eventos e de algo que só poderei explicar mais profundamente em outras pesquisas, que é o «clima gostoso, aconchegante e familiar» que os bailes charme têm e que os entrevistados tanto citaram nas entrevistas.
Mais do que isso, o Baile Charme propõe uma reflexão sobre a postura de seus freqüentadores frente à sociedade e o faz sugerindo a não violência, o orgulho negro e a cortesia.
Esta é, segundo Steil, uma forma de «afirmação dos direitos sociais».
São uma «prática política», como disse o autor.
E o negro, ainda que inconscientemente, ao participar desse movimento, define seu posicionamento político (STEIL, 2001:204).
As afirmações positivas da identidade negra ocorrem a todo instante no baile e nos remetem a trajetória do negro em nossa sociedade.
Além disso, denotam novas construções de identidades étnicas entre os freqüentadores, mostrando que em 'ses grupos, se vai além do lema «Black is Beautiful», mas remete ao grande» barato " que é se assumir negro num 'paço como 'te.
Segundo Steil, o 'tigma, assumido de forma positiva, desfaz os significados negativos que se cristalizam no senso comum.
A visão política, reforça o autor, possibilita realizar uma inversão de sentidos, transformando o negativo e o ilegítimo em algo embasado e legitimado por o grupo (STEIL, 2001:209).
Notas
¹ Motivo de muito orgulho para os charmeiros e característica número 1 do baile:
a cordialidade, a polidez e classe que não combinam com violência.
² Make it last forever -- Keith Sweat
³ Baile realizado sempre às vésperas dos feriados, reunindo um grande grupo de pessoas que não costumam frequentar os bailes semanalmente.
Foto
Paulo Charmeiro Referências Bibliográficas
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Número de frases: 282
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Número de frases: 18
(21) 8874-7484 O Poeta E A (S) Poesia (S)
Breve fala sobre o poeta Douglas Zunino
Para falar do poeta blumenauense Douglas Zunino, é necessário voltar a falar do dualismo teórico-literário da criação 'crita em Blumenau.
Dentro desse dualismo, a literatura blumenauense divide os 'critores blumenauenses em antropófagos (que se alimentam de e para Blumenau) e os anoréxicos, que tiveram de experimentar novos pratos ou morriam mesmo de fome -- e nunca mais lhes caiu bem o enxaimel com chucrute.
Foi a respeito do que 'crevi no pseudo-ensaio Poesia BLUMENAUENSE:
Duas Leituras POSSÍVE Is e que não quero repetir aqui.
No entanto, Zunino instiga a pensar novamente sobre 'se dualismo, o que farei tentando encontrar para ele, dentro de 'sa proposta, um lugar dentro da literatura blumenauense.
A literatura contemporânea tem características bem marcantes.
Potencializada por o pós-modernismo, que ao mesmo tempo afirma e nega o modernismo, a literatura contemporânea chega mesmo a ser antitética, principalmente se focamos nossa fala na poesia.
Características como a antiarte em resposta à arte;
a forma negando o conteúdo;
a metalinguagem literária falando a não-poetas e não-'critores são características que fazem da literatura pós-moderna instrumento tanto de encanto como de negação.
Douglas Zunino, por si só, já é antitético:
tenta viver de poesia.
Poeta de rua -- que é, certamente, na rua onde é mais fácil encontrá-lo -- o poeta faz parte do folclore da cidade como o marginal que não se ajustou às normas e mesmo assim sobreviveu.
Mas vamos falar de literatura.
Lendo os dois últimos livros de Zunino (Tatuagens e Cidadela) encontrei falas que se opõem, às vezes velada e às vezes vorazmente.
Sendo o primeiro de, provavelmente, 2004 (não há data no livro) e o segundo certamente de 2007, percebemos que não há uma grande distância entre as duas publicações.
Em Tatuagens, Zunino deixa claro que ser poeta (e só) não é uma tarefa fácil, pelo contrário.
Assim percebemos em " Profissão de Fé:
«poeta anda / na corda bamba», «poeta paga o pato / e o leva para o almoço»,» poeta dá o sangue / por uma história».
De a mesma forma como, no mesmo poema, declara a 'colha por a ' profissão ' que exerce é questão de opção:
«poeta morre de fome / mas não entra / em panelinha».
Em oposição, no entanto, em Cidadela, Zunino questiona:
«Mas será o poeta / necessário?
/ Ninguém precisa de mim».
Em relação a Blumenau, Zunino contrapõe-se fortemente.
Começo por falar de Cidadela, poema-título de seu último livro.
O poema, soube, foi louvado na câmara de vereadores da cidade no Dia do Poeta:
de ele foi feito um vídeo com imagens da cidade e do próprio Zunino.
Ressalto alguns trechos:
«Tuas ruas
Estão em minhas veias.
Quando me percorres
E te percorro ( ...)
Quando, por um breve
Espaço de tempo
E lugar
Estou fora de ti,
Sinto saudade ( ...)
Te sinto
Em meu exílio ( ...)
Minha cidadela,
Minha utopia "
Zunino, em 'te livro, irrompe em elogios à sua terra.
A mesma terra que, em Tatuagens, vê-se como a cidade que tem flores, mas cujos moradores são duros como pedras (Poema no Asfalto).
De a mesma forma, ainda em Cidadela, Zunino contrapõe-se ao citar o rio (há um rio-símbolo em 'sa cidade) como " um mar /escuro/lodoso ( ...)
o oceano / que já dominava / nossa rua / nosso bairro / nossas vidas «(Nossas Vidas) e, na volta ao tema, pede a 'se mesmo rio que leve sua saudade, sua tristeza -- que leve» a dor inata de existir».
A mesma cidade, o mesmo rio.
Tentar situar Zunino dentro da teoria literária blumenauense é uma tarefa um tanto difícil.
Melhor deixá-lo mesmo onde 'tá:
no tempo presente.
Pois que não se deve, pelo menos por enquanto, para não cairmos no possível erro de classificá-lo como antitético.
Melhor encontrar a resposta desse «cidadelismo» que surge na poesia de Zunino dentro de seus próprios poemas: ( ...)
«fomos buscar / o que 'tá além / da linha do horizonte ( ...)
para nos lembrar / de como éramos antes». (
O Arco e a Ponte in Cidadela).
E a quem ousar o contrário, uma dica:
Zunino avisa em para a Rapaziada do Rock and Roll, de Tatuagens, a todo aquele que faz postura de inteligente, pinta de interessante, assiste peça «vanguardinha» e 'creve versinhos, para cair fora.
É a forma mais fácil, parece, de manter-se desencontrado inclusive por outros poetas.
Afinal, é o que deve 'perar quem tem como «herança / uma folha de papel /amante/a ilusão de ser / importante». (
Inventário, in Tatuagens).
Número de frases: 62
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O pernambucano Alceu Valença prega a originalidade brasileira
O título acima é sugestão do próprio sujeito enfocado na entrevista.
O entrevistado, aliás, é uma verdadeira usina de frases de efeito e idéias cheias de personalidade.
É capaz de dizer muitas palavras num curto 'paço de tempo e misturar vários assuntos numa mesma frase como os repentistas nordestinos.
Um tópico, no entanto, que é freqüente em sua verdadeira explanação sobre qualquer tema é a necessidade do Brasil ser mais Brasil.
O nome da ' fera ' é Alceu Valença, o artista que virou sinônimo de Nordeste e que consegue um feito para poucos:
ser admirado por todas as classes e em todas as regiões do país.
Em 'te domingo, o intrépido pernambucano vai constatar a sua popularidade em Campo Grande.
Alceu foi a principal atração do projeto «MS Canta Brasil», que acontece sempre nos primeiros domingos de cada mês no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande.
A entrada é gratuita.
Oito mil pessoas compareceram ao show de Alceu!
O compositor de «Morena Tropicana», Como Dois Animais» e «Coração Bobo» já veio algumas vezes ao Mato Grosso do Sul.
Se apresentou no extinto «Temporada Populares», no» Festival de Inverno de Bonito «e» Festival América do Sul», em Corumbá.
Em a entrevista por telefone de sua casa no Rio de Janeiro, citou os artistas sul-mato-grossenses Almir Sater e Tetê Espíndola como exemplos da originalidade que ele tanto prega e defende."
Está acontecendo uma total falta de originalidade no Brasil e as pessoas cada vez mais americanalizadas.
O artista tem que ser incomparável», critica o pernambucano nascido em São Bento do Una em 1946.
Com dezenas de discos lançados, Alceu Valença iniciou a carreira em 1972, com um disco com o parceiro Geraldo Azevedo.
Mas foi a apresentação ao vivo no «VII Festival Internacional da Canção» no Rio de Janeiro com a música «Papagaio do Futuro» com direito a presença no palco do emblemático Jackson do Pandeiro que definitivamente chamou a atenção de todos.
Muito antes do Greenpeace se tornar 'ta instituição tão (re) conhecida, Alceu já exercitava seu discurso irônico e inteligente bradando palavras como um ' papagaio do futuro ` tipo ' eu fumo e tusso fumaça de gasolina, olha que eu fumo e tusso '.
O sucesso, no entanto, chegou na década de 80, quando as rádios do Brasil inteiro não paravam de tocar hits de Alceu.
Desde então, o compositor foi se tornando sinônimo de Nordeste até se transformar numa unanimidade nacional.
Confira abaixo a entrevista com Alceu:
Rodrigo Teixeira -- Você é pernambucano, mas se transformou num artista brasileiro.
Como você administra o regional e o universal em sua música?
Alceu Valença -- O meu lado pernambucano 'tá de forma intrínseca em toda a minha obra.
Eu utilizo do rock o timbre e a distorção da guitarra, a sonoridade.
Mas fazer arte é ser diferente, ser você mesmo.
Por isso não tenho a menor vontade de ser Rolling Stones ou Elvis Presley.
O artista não precisa ser igual a ninguém.
Eu sou incomparável e faço as coisas da minha maneira.
Atualmente paradigmas terríveis 'tão sendo criados.
Todos 'tão pegando os trejeitos dos Estados Unidos.
Acompanho 'te processo desde 1985 quando viajei para Portugal.
E em 'ta onda entra o Brasil e a maioria dos países do mundo.
Os cantores mudam a maneira de cantar em qualquer canto do planeta para parecer norte-americano.
Mas a sua obra tem também a influência da música norte-americano.
Sim.
Mas de forma diluída.
O problema é imitar.
Vejo os clipes de rap, por exemplo, e é uma imitação.
Aponto o Marcelo D2 e o Gabriel Pensador como artistas que fazem um rap e funk diferentes.
O resto é igual ao norte-americano, com boné, roupa, tênis e voz igualzinho ao pessoal dos Estados Unidos.
É uma cópia deslavada.
E como você consegue se diferenciar e chegar a uma fórmula de música original ou mais brasileira?
Eu faço do meu jeito.
Não sou contra o blues e o rock, sou até a favor.
Mas gostaria de ver os artistas sendo mais originais, cada um com seu próprio jeito.
Eu posso cantar uma música bem tradicional do Nordeste e colocar a influência do blues.
Mas desde que seja do seu modo.
O Nordeste parece longe demais dos países da América do Sul, apesar do Brasil ser um de eles.
Esta latinidade que 'tados como o Mato Grosso do Sul possuem por ser mais próximo das fronteiras deveria ser mais usado na música brasileira?
Com certeza e acho até que os sertanejos já utilizam isso bem e ' abrasileiram ' a música latina.
Mas não acho que deve ser algo obrigatório só por o fato de ser perto da fronteira.
Tem que modificar a influência de forma natural e não política.
Porque mesmo 'tados mais próximos da fronteira, como a Argentina, são mais influenciados por a cultura dos Estados Unidos por uma questão política, econômica e de colonização.
Esta é uma responsabilidade que os órgãos competentes deveriam tratar com seriedade.
Porque 'tão destruindo a música brasileira.
Rock é bom, mas tem o apoio do governo norte-americano e de Hollywood.
Não é possível só fazer cópia e imitação.
Temos que combater a indústria como negócio e os empresários que lançam modas que não ajudam a verdadeira cultura brasileira.
Como assim?
Existem donos de bandas no Nordeste que 'tão destruindo o forró.
Em Pernambuco, depois que veio a geração de Chico César e Zeca Baleiro, não apareceu mais nada.
E mesmo 'tes dois não foram bem divulgados.
Então o que acontece é que os artistas acabam indo para a Europa porque não tem mais lugar aqui no próprio Brasil.
Os culpados são os donos de bandas que imprimem a marca forró em conjuntos que são contratados de eles.
Mas isso acontece com outros gêneros também.
O frevo, por exemplo, não é sufocado por o axé music?
O frevo é algo mais de Pernambuco e que tem destaque mais nas semanas de Carnaval.
O axé tem todo direito de sê-lo porque ainda é brasileiro, embora se possa gostar ou não.
E na época que o axé 'tourou realmente muitas pessoas foram beneficiadas.
É diferente de 'tas bandas de forró que caem na moda.
Porque fazem um forró que não é forró.
São 'tas bandas que misturam um nome com outro, como ' alhos com bugalhos ' entende?
Sim.
Você acredita que 'tas bandas não seguem a tradição de Gonzagão, por exemplo?
Com certeza não.
Quais os artistas que você citaria como bons exemplos de novos talentos do Nordeste?
O Silvério Pessoa, por exemplo, é sensacional e acaba indo tocar mais na Europa.
O Mestre Ambrósio que é maravilhoso é uma banda que não aconteceu.
Qual a sua opinião sobre o manguebeat?
Um grande movimento, mas que ainda não existia quando o Chico Science morreu.
Em a época que eles vieram ao Rio por a primeira fui aos shows.
E não foi aquele pipoco todo que tinha que ser.
Hoje comparam a banda Calypso com a Nação Zumbi, que é muito melhor e uma das maiores bandas de rock do Brasil.
Mas no nosso país o que é bom tem que ser imitação.
Quais os artistas que são originais na sua opinião?
Vamos ver artistas originais e com sentimento.
O próprio Almir (Sater) é genial.
Gosto muito da menina Tetê (Espíndola).
Ela é clássica.
Não posso deixar de citar o Luiz Melodia.
Outros artistas de personalidade são os conterrâneos Geraldo Azevedo, Chico César e Zeca Baleiro.
O que eu não suporto é lixo cultural.
Aliás, pode colocar como título da entrevista ' Me Lixo para o Lixo '.
Como analisa a questão de hoje em dia as gravadoras não terem mais tanta força como no passado?
A partir dos anos 90 eu fui me tornando independente.
Porque percebi que 'tava começando a ter que sentar com pessoas que dirigiam as gravadoras, mas não entendiam nada de música e sim de vender sabonete e carro.
E eles então não tinham assunto com mim.
Porque até então eu conversava com diretores do gabarito de um Mazzola e de um Guto Graça Mello, que são pessoas a favor da boa música.
Então decidi começar a rodar o Brasil e desde então tive que parar de fazer o circuito da Europa que fiz muito até os anos 80.
Só voltei 'te ano.
Fui trabalhar o público do Brasil para não ter interferência e ser engolido por eles.
Você é conhecido por falar o que pensa.
Estamos num período de que no Brasil?
Eu mantenho o mesmo discurso que tinha desde os anos 70.
O Brasil não cuida do Brasil.
As coisas brasileiras precisam pedir licença em seu próprio país.
A Lapa, no Rio de Janeiro, é tipo o último reduto do choro.
Mas agora as grandes empresas 'tão invadindo e montando casas de 'petáculos.
E aí a alma vai se perdendo.
Por que não existem mais festivais de música brasileira?
Porque o povo não gosta do Brasil?
É mentira.
Em agosto de 2006, por exemplo, eu reuni no meu show ' Marco Zero ` aproximadamente 140 mil pessoas em Pernambuco.
Era uma homenagem aos 100 anos do frevo e pedi para todo mundo ir fantasiado.
Muitos disseram para mim que ninguém iria.
Acabou que até gente vestido de Che Guevara apareceu.
Ou seja. Ficam querendo vender que a moda é ser ' emo ', ser triste.
Eu acho que deveriam aproveitar e se suicidarem todos.
Porque no Brasil tem que ser o contrário.
Ter alegria e cumplicidade.
Isto sim é a música brasileira.
Uma coisa de namoro, sensualidade e não violência.
Quando o Che apareceu como o grande rebelde do mundo os Estados Unidos inventaram a rebeldia do rock, mas uma rebeldia sem causa, ao contrário do Che.
Por isso eu acho ridículo quem quebra uma guitarra elétrica.
Em vez disso seria melhor que o cara fosse namorar, catar uma mulher ...
Em ' Papagaio do Futuro ', ainda na década de 70, você dizia na letra ' eu fumo e tusso fumaça de gasolina ', já fazendo uma crítica em relação ao mau trato do meio ambiente.
O que você pensa disso hoje em dia?
O discurso político em torno do meio ambiente ainda é necessário.
Esta música ' Papagaio do Futuro ` foi criada por causa da crise no petróleo na época.
Eu nasci no interior e o disco ' Espelho Cristalino ', em 1977, foi inspirado nos rios que não corriam mais por causa da seca.
Me preocupo muito com isto ainda.
E acho que os 'tados do Brasil Centrais, como o MS, têm que se preocupar mais ainda.
Porque na verdade 'conderam por muito tempo os problemas relacionados ao meio ambiente.
Os Eua não assinarem Protocolo de Kioto, por exemplo, e isso foi destinar a humanidade ao suicídio.
Para nós que já 'tamos rodados ainda tudo, mas temos filhos que 'tarão lá na frente.
Então é o que eu falo.
Não somos nada sem conhecer o passado, viver o presente de forma honesta e projetar o futuro.
E eu sou o Papagaio do Futuro.
O país avançou em termos de política cultural?
Os pontos de cultura criados por o MinC são pontos a favor.
Este projeto favorece realmente os mais carentes, mas a barreira ainda 'tá na mídia, na imprensa.
Nós temos que aprofundar a discussão e a divulgação da cultura brasileira tem que ser em 'cala bem maior.
Eu não sou do PT e de nenhum partido, embora tenha votado no Lula, e acho que o assistencialismo é emergencial, porque 'tamos ficando ' americanalizados '.
Nós temos que mostrar a cultura brasileira.
Valorizar. Porque hoje em dia no Brasil o cara de 50 anos que perde um emprego não trabalha nunca mais.
O cara vai deitar para morrer?
Não dá.
Ser Humano é igual a educação e sabedoria para mim.
Eu digo tudo isso não por mim, porque para mim 'tá cada vez melhor.
Faço muitos shows e meu negócio anda bem.
O problema é que hoje no Brasil não tem mais 'paço para artistas novos.
Um artista de talento se destacar hoje no país não é mais apenas difícil e sim quase impossível.
Número de frases: 155
* Matéria publicada no jornal «O Estado de MS» em 01/12/2007 A Ocas (publicada por a Organização Civil de Ação Social) é vendida nas ruas de São Paulo e Rio por pessoas em situação de rua, com 'se trabalho, elas tem a chance de mudar de vida.
Ana 'tá sempre nas redondezas do Espaço Unibanco, na Augusta, paga sua faculdade (PUC-SP) com o que ganha de segunda a segunda.
Como ela, existem vários exemplos perambulando por o centros culturais das duas capitais.
«O cara vai lá, pega umas revista, ganha uma graninha torra tudo, corre lá e tem a segunda chance de mudança e isso basta, é pegar ou largar, difícil é encontrar alguém, moça, que não abrace a idéia.
O importante é acreditar em si mesmo, as coisas podem mudar.»,
disse Pedro, vendedor dos arredores do MASP.
A Revista acabou de comemorar 3 anos, porém sua 'trutura financeira e muito instável e a revista continua graças a gráfica que não tem cobrado seus serviços.
Sem sua sede no Rio, a organização fica só em São Paulo, onde 'tá prestes a perder o 'paço.
Para quem não conhece, a revista é vendida a R$ 3,00 destes, R$ 2,00 ficam com o vendedor.
O projeto tem patrocínio da Coca-Cola e tiragem de 8.000 exemplares (sendo 5.000 vendidos na capital paulista e 3.000 no Rio).
Quem quiser maiores informações ou puder ajudar 'sa grande iniciativa, os contatos 'tão no site:
http://www.ocas.org.br/
Lembrando que a Ocas precisa de um 'critório para edição da revista, como também para entrevistar futuros vendedores de ela.
Quem souber de algum imóvel vago no Rio, informe-por o tel:
9139-4449, falar com Guilherme.
foto por:
Número de frases: 16
Fábio Sousa www.mundesign.org «Preservar a natureza é preservar o próprio homem», o verso de Santuário 'meralda (2003), uma das toadas mais prestigiadas na história do Festival de Parintins, consolida na manifestação do folclore o reflexo da realidade sócio-ambiental que une manejo e preservação, visando a possibilidade do desenvolvimento.
Em 2006, a Festa da Soltura dos Quelônios, realizada na Comunidade do Aninga, localizada a 10 quilômetros de Parintins, celebrou o sétimo ano de uma iniciativa nascida entre os próprios habitantes frente ao problema de 'cassez que ameaçava, principalmente, a 'pécie dos tracajás (foto).
O alarme inicial foi dado por a própria natureza.
«A idéia surgiu porque tava se acabando mesmo», conta o líder da comunidade, Sidnei Carvalho, 28, explicando que o hábito da captura indiscriminada dos quelônios era o culpado por a dificuldade que passou a ser encontrar os animais.
Foi o momento que a gente se 'pertou pra fazer», afirma, lembrando ainda que a carne de tartaruga sempre foi muito apreciada na culinária popular dos amazonenses.
A Comunidade do Aninga possui ao todo cerca de 60 famílias, segundo Sidnei, a maioria vive da pesca com outra pequena parte empregada no município, trabalhando como professores e funcionários na Escola Santa Terezinha do Aninga.
Logo, sendo a pesca a principal fonte de renda e subsistência dos moradores, o primeiro passo foi conversar sobre o problema para encontrar as soluções.
«A gente decidiu ir até os lugares onde elas desovam, chega setembro até novembro elas 'tão na época de elas, explica, ressaltando ser 'te o período de vazante nos rios amazônicos com a formação abundante de praias.
Merece destaque na iniciativa da comunidade do Aninga o envolvimento dos alunos da 'cola.
«É um trabalho voluntário, a gente não tem recursos oficiais então se trabalha com o que tem, daí as 'colas são envolvidas», afirma.
Sidnei comenta outra vantagem no envolvimento dos alunos, já que um dos maiores problemas no início foi convencer alguns ribeirinhos a soltarem quelônios capturados nas redes junto com o pescado.
«As crianças 'tão tendo uma conscientização que os adultos não tiveram, isso vai garantir que a gente tenha mais tracajá no futuro».
Coleta por a vida
Não é apenas 'perar os meses da vazante, os comunitários precisam viajar três horas rio acima de rabeta -- tipo de canoa com motor -- até os locais de desova.
«As tartarugas desovam à noite, então fazemos a coleta pela manhã e transferimos para a comunidade», explica Sidnei, que lembra com bom humor da primeira vez que abrigaram os ovos.
«Foi tudo na curiosidade, fizemos uns potes de barro simulando o mesmo formato que teria a cova, funcionou», comemora.
Aguardando entre 60 a 80 dias para a eclosão dos ovos, as tartarugas recém-nascidas são colocadas num tanque que funciona como um berçário improvisado até o momento que, segundo os comunitários, elas podem ser levadas ao rio.
«Em 'ses sete anos já asseguramos a soltura entre 10 a 15 mil filhotes», comemora Sidnei.
Festa de comunidades organizadas
A Festa da Soltura dos Quelônios da Comunidade do Aninga já é um evento conhecido do parintinense e sua sétima edição foi amplamente divulgada por a mídia local.
Lanche para as crianças, música ao vivo e um grande almoço com galinha caipira no prato principal (claro que não seria tartaruga).
A perspectiva do cuidado com as 'pécies é a melhor possível com outras duas comunidades atuando na proteção de quelônios com iniciativas da mesma natureza.
O ano de 2006, marcou o primeiro ano em que outras duas comunidades se juntaram ao Aninga para festejar sua soltura na mesma época.
Macurani e Parananema realizaram suas festas dias antes numa seqüência de comemorações por a vida.
E como uma das atrações do evento, lá 'tava ele, o folclore da Ilha que exalta preservação por meio do boi-mirim Mimosinho, da comunidade do Aninga, a mesma que foi a morada do antigo bumbá Fita Verde e que testemunhou o Caprichoso nascer há quase um século.
Parintins é uma terra de muitas lições, e numa de elas, no que depender do caboclo parintinense, a natureza e o folclore nunca desaparecerão.
Santuário 'meralda (
Demetrios Haidos/Geandro Pantoja) Amazônia,
Santuário 'meralda,
Pôr-do-sol beija tuas águas,
Pátria verde florescida,
Por as lágrimas caídas,
A grinalda do luar vem te abençoar.
Berço de rios, florestas, lagos, cachoeiras,
O encontro das águas nas cores da natureza,
Anavilhanas, Jaú, Janauari, Macuricanã, Mamirauá.
Teus santuários ecológicos (reservas, mananciais),
Murmuram uma triste oração:
A nossa fauna corre o risco de extinção,
Onça pintada, cutia, preguiça, tamanduá bandeira,
Ariranha, peixe-boi, tartaruga, sauim-de-coleira.
A revoada dos pássaros,
A dança da liberdade,
Não tire as penas da vida proteja a biodiversidade,
De o meio da Amazônia,
Bicho folharal cantará,
«Preservar a natureza é preservar o próprio homem "
Número de frases: 47
Mãe, mãe natureza!
Eu não gosto daquelas códigos que aparecem para confirmar algumas coisas em alguns sites.
Só servem para testar minha capacidade de ler letras borradas.
Número de frases: 3
Fato. Música e dança.
Trance o som que transcende.
Os movimentos dançantes fazem parte da rotina das mais variadas 'pécies de animais quando se aproxima a época do acasalamento.
Lembre-se dos exemplos da garça, da serpente cascavel, da ave-do-paraíso etc..
Talvez por isso, a dança seja, eminentemente, sexual.
As manifestações primordiais da Arte dos Movimentos Sagrados tinham como tema os grandes tesouros da sabedoria oculta:
o dilúvio que afundou o continente atlante (presente em quase todos os mitos sobre a Criação e Manutenção do mundo);
o trabalho como forma de punição aos homens, que depois da queda da Lemúria foi condenado a ganhar o próprio sustento;
vida, morte e ressurreição;
a descida ao inferno para salvar o irmão, amante ou filho ...
Tudo isso eram os temas das danças sagradas dos primeiros arianos.
A vida se produz como a música:
em ritmos.
Oscilando e flutuando em compassos lógicos e paradoxais em instantes de ordem e instabilidade, silêncio e algazarra, arranjos e dissonâncias.
Em o Egito iniciático, a Dança tinha caráter sagrado.
Sua invenção era atribuída a Bes (conhecido nos rituais gnósticos como Bes-Na), um poderoso Deva da Natureza que usava pele de leopardo e protegia contra a feitiçaria, além de facilitar o parto.
A patrona da dança era Hathor, a Vaca Sagrada, símbolo da Mãe Divina.
Os Mistérios de Osíris, o Cristo egípcio, eram cantados e dançados no Templo.
Os personagens usavam máscaras e executavam um gestual 'tipulado, sempre acompanhados por cantos e danças.
Existem muitas outras histórias mitológicas a respeito da dança ...
Réa salvou seu filho Zeus de ser morto por Cronos, o pai da criança, sapateando para abafar o choro da criança.
Em a ilha de Creta era possível materializar a Deusa Mãe fazendo-se uma dança circular que levava ao Êxtase.
Ainda na Grécia antiga, a viagem de Teseu por o labirinto do Minotauro era celebrada com uma dança em que os jovens (rapazes e moças) ficavam em fila, de mãos dadas, e imitavam os movimentos de Teseu por o labirinto da mente por meio da meditação.
Tudo que vem com a vida, 'ta é cheia de ritmos que oscilam dia após dia, assim como as batidas eletrônicas, que nos envolvem o tempo todo.
A música eletronica, as vibrações aceleradas e repetidas criam movimentos 'pontâneos por todo o corpo.
A mesma coisa acontece com a nossa vida.
Ela muda, gira, reformula, transcede a todo o momento.
Assim como a música faz parte da dança e uma se insere na outra.
Essa ligação da vida com os ritmos não se separa.
Nos une, une o corpo com a mente, passando e reformulando uma infinidade de mensagens.
Quando dançamos, nos libertamos, abrimos a cabeça, enxergamos as coisas e o mundo de uma outra maneira.
Observamos as pessoas ao redor, olhamos, entendemos e conhecemos um outro universo.
Estamos vivendo assim dia após dia como a dança, os ritmos, vamos levando isso dentro de nós, carregando 'sas sensações.
Viver é 'tar o tempo todo em constante movimento.
A mensagem transparece e permanece.
A dança nos transforma, nos eleva, transporta para uma infinidade de lugares, cria sensações, uma forma de comunicação, de uma relação com rosto.
A cada batida, a cada som, ela entra, invadindo todo o corpo.
As partes de um todo.
Os ritmos e os movimentos com os músculos só expressam o tempo todo a vontade dia após dia de viver, de 'tar em constante e viva mudança, se dando novas possibilidades.
«Música em princípio é considerada como prece ou oração e alimento para a alma.
É um meio de atingir a consciência suprema».
Goa Gil.
O poder do som através do corpo
A busca por o êxtase através da dança, deve ser conduzida necessariamente por o corpo, seja por movimentos repetitivos e cadenciados, ou ainda através do «jogo de sentidos» que se 'tabelece no dance floor.
Este «jogo» 'tá relacionado com os 'tímulos que o corpo humano recebe através dos diferentes sentidos.
Os modernos computadores permitem a utilização de um curioso recurso de som, o sub grave.
Estes sons 'tariam fora da capacidade humana de captar sons graves se não fossem executadas num volume bastante elevado.
Em 'te volume o corpo humano não reconhece o som por a audição, mas por o tato.
Este recurso faz com que o som não seja mais ouvido e sim sentido.
O alto volume provoca um deslocamento de ar que em contato com o ar da caixa torácica do participante, transmite a sensação de que o som grave 'ta preenchendo seu corpo.
Em 'te contexto, a música além de ser ouvida ela é sentida.
O tato é constantemente 'timulado por a expressão corporal de cada pessoa que interage com a música de alguma forma.
O corpo deve ainda sofrer algumas alterações em seu metabolismo para que o «jogo dos sentidos» atinja o objetivo de êxtase.
O êxtase através da dança trance
Em uma entrevista realizada com um curador e músico de quarenta e três anos, que desenvolveu uma oficina de música instrumental no Festival Trancendence, suas colocações foram bastante pertinentes:
«Vou falar um pouco da minha experiência com o trance:
o contato com os festivais trouxe muitas experiências novas.
Em o início, eu tive uma dificuldade, porque eu não tinha assim uma experiência com 'sas festas, mas eu danço, e o êxtase da dança é sagrado para mim.
Então, eu aprendi a ter a experiência da entrega com a dança.
E percebi que a única coisa que você pode fazer é se entregar, pois não adianta tentar entender a experiência.
E foi surgindo um aprendizado, fui aprendendo coisas que realmente foram novas para mim, adentrando num 'paço muito desconhecido e lindo.
Minha vida começou com a meditação do Buda.
A prática da meditação faz você dar um salto de quilômetros no sentido contrário ao 'tado negativo em que o mundo vive.
Hoje com vinte anos de meditação, tenho clareza que através do trance eu comecei a perceber uma outra coisa em 'se planeta que eu não tinha percebido.
O trance é uma coisa muito colorida, é como 'tar num jardim, 'tá tudo florido (risos), tem passarinho, tem rio, tem montanhas, tem cachoeira, tem gente dançando, tem arte, tem todas as cores, tem música ...
é bonito, é fascinante.
Então, eu comecei a perceber no meio das cidades, do deserto, um jardim colorido.
É como quando a criança fala:
«quero ir ao parque de diversão», sabe, aquilo é uma coisa fascinante e 'timulante, é um chamado sem palavras.
Em a verdade não é um convite do Trance.
É um convite das pessoas do mundo que sabem que as linhas do mapa não separam o Planeta em várias partes.
Porque é justamente 'sa sensação que existe.
Você tem pessoas do mundo inteiro juntas, dançando, felizes, trocando idéias e querendo que o Planeta se torne a coisa mais linda do mundo.
Pessoas fortes, que sabem o que 'tão dizendo.
São em sua maioria pessoas que 'tudam, muitos xamãs, muitos curadores.
Então, o fenômeno trance é um fenômeno da energia do Amor.
Porque não é como você abrir um jornal ou revista, mesmo que você pegue num folder de divulgação que te indique como chegar até lá, o que 'tá disponível é uma Celebração.
E em 'sa celebração, a música trance traz algo muito interessante:
quando você se entrega à música e dança, você entra realmente no êxtase, naquilo que você vai além do mundo físico, do mental, do emocional, e atinge o 'piritual.
Você vai atravessando internamente a sua experiência.
Passa por dentro da sua experiência de 'tar vivendo, de 'tar Vivo!
E às vezes o DJ quebra e muda completamente o som ...
para e a música entra numa direção completamente diferente, e isso traz agente para o momento presente, traz de volta.
Então, o trance acrescentou aquilo que tava faltando na música, no minimalismo para mim.
Que é você lembrar que o transe é uma experiência que acorda muitas sensações da nossa infância, do nosso passado, às vezes experiências dolorosas que tentamos 'quecer.
Então, o Trance nos lembra que agente pode usar isso a nosso favor para nossa própria autocura.
Então é aí que pode 'tar também o perigo.
Você pode ficar muito aberto, expor as feridas para fora, às vezes não saber como trabalhar e lidar com aquilo.
Por isso a união grupal é tão importante, pois serve como um suporte para as experiências.
Mas, dentro dos festivais agora da maneira como 'tão acontecendo, 'tão abrindo 'paço para a meditação, porque o movimento sonoro precisa de um descanso.
E eu acho que é fascinante, o fato dos festivais proporcionarem 'se 'paço.
E também o fato da própria música ter suas paradas e trazer a pessoa para o momento presente, para a consciência, 'se momento é muito importante.
É fundamental o 'paço de relaxamento, porque se você move, move a energia do seu corpo, e não senta em silêncio para integrar 'sas experiências, fica tudo misturado, sem clareza.
É como a água do rio 'tar suja porque você atravessou o rio, daí a pouco a água assenta de novo no fundo e a água fica clara de novo.
E é a mesma coisa com nosso sistema de bioenergia, você cria uma carga de energia, move, faz circular, e depois é necessário o não-movimento, para que assente tudo no fundo e a clareza venha.
Em a última festa eu ganhei um ecstasy, e fui iniciada por uma amiga, foi uma experiência maravilhosa que no entanto já conhecia através da meditação.
O uso de 'sas substâncias associado à música e à dança, fazem você entrar direto numa experiência sem precisar 'perar anos para conseguir entrar.
Essas substâncias fazem abrir uma janela enorme para que você veja o céu, mas você pode atingi-lo sem as mesmas, pois possuímos nossos próprios recursos internos para isso, como por exemplo a dança, a meditação dinâmica, que possibilita a pessoa a se limpar, a entrar numa experiência de êxtase com a respiração e o movimento, sem usar nenhum artifício, as pessoas podem descobrir que tem em mãos uma ferramenta incrível, a própria consciência, que é infinita, e como se mover na direção da consciência.
O trance ajuda a romper barreiras da própria consciência.
Em os festivais existem pessoas que também 'tão interessadas em investir na velha maneira de viver.
É aquela polícia que 'tava colocando a arma na cabeça das pessoas porque elas 'tavam fumando um ' baseado ', ou alguns traficantes que levam um monte de drogas para vender e vender, ou mesmo os jovens inconscientes que 'tão lá apenas repetindo padrões de consumo associados à busca de prazer.
Mas existem também as outras pessoas, que já tem a transparência com 'sa experiência de êxtase, e 'tão conectadas internamente com o Amor de Deus.
Essas pessoas já têm a abertura com o Universo, de reconhecer 'se fenômeno como uma coisa que não existe alguém que tenha que autorizar ou não autorizar para que aconteça.
Mas no mundo as coisas 'tão ficando de uma forma diferente, as pessoas buscam cada vez mais o controle e o poder.
Então, assim como existe 'sa força que vai crescendo para levar para o inconsciente e massificar mais uma vez alguma coisa, existem as pessoas que 'tão se descobrindo, e reconhecendo sua missão em 'se Planeta, como você, que com 'sa pesquisa vai clareando o caminho, e tirando 'se fenômeno da 'curidão, pois à medida que você fala abertamente sobre isso, o fenômeno vai ganhando luz, torna-se iluminado!
É impressionante, porque somos nós mesmos, o próprio inconsciente coletivo que cria a 'curidão e a sombra.
Se observarmos, cada dia é um dia completamente novo quando você pede licença a sua mente repetitiva e habituada a padrões e se permite renascer a cada dia.
Número de frases: 107
E é 'sa a experiência que o êxtase traz, nos dissolve num Universo enorme que 'tá completamente disponível para gente, a Todo momento."
Em o dia 18 de novembro (sábado), às 14h, será lançado na cidade de Guaratinguetá (SP) o Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi, cujas atividades 'tão focadas no Jongo.
O lançamento, que contará com a presença de autoridades locais e a participação 'pecial do rapper Rappin'Hood como palestrante, será realizado na Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Professora Zezé Figueiredo, local em que acontecem as oficinas do projeto.
Em o encerramento do evento haverá uma apresentação dos jongueiros da comunidade do bairro Jardim Tamandaré e de outros grupos convidados.
O Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi integra ações de lazer, cultura, educação e geração de renda em torno de um eixo temático:
o Jongo, expressão cultural dos afro-descendentes bantu da região paulista do Vale do Paraíba.
O desejo dos tradicionais jongueiros do bairro Jardim Tamandaré de transmitir seus conhecimentos às crianças e jovens da comunidade motivou a sua criação.
Tendo como meta contribuir para a autonomia da comunidade na gestão de sua memória cultural, o Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi prevê, num prazo de dois anos e meio, a realização de oficinas culturais, ações de organização comunitária, a implantação de iniciativas auto-sustentáveis por a comunidade, a produção de um vídeo documentário sobre o projeto e de um CD do Jongo do Tamandaré, além da criação de um centro de memória.
Para 'te ano de 2006 ocorrerão oficinas semanais de canto e dança, com o objetivo de mapear o repertório da comunidade e transmiti-lo às crianças e jovens do bairro.
Outra ação importante é o relato dos jongueiros mais velhos, que contarão suas histórias de vida e cantarão pontos de Jongo.
A Associação Cultural Cachuera!,
organização sem fins lucrativos que objetiva 'timular a valorização da cultura popular tradicional na sociedade, é a proponente do Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi.
Há dez anos ela mantém um relacionamento contínuo com a comunidade do Jardim Tamandaré, parceria que resultou em 'te projeto, que é co-realizado por a Associação Cultural Jongueira do Tamandaré.
O Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi integra o Programa Cultura Viva, do Governo Federal, e é patrocinado por a Secretaria de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura.
Além da parceria com a comunidade do Bairro Jardim Tamandaré ele também tem como parceiros o Geledés -- Instituto da Mulher Negra e a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP -- USP), e conta com o apoio da Prefeitura Municipal de Guaratinguetá (SP) / Secretaria Municipal de Educação e Departamento de Cultura.
Lançamento do Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi
Dia: 18 de novembro de 2006.
Horário: 14h
Local: EMEIEF Professora Zezé Figueiredo (R. Prof. Gastão Strang, 100 -- Jardim Tamandaré -- Guaratinguetá -- SP).
Em a programação:
palestra do rapper Rappin'Hood;
apresentação do Jongo do Tamandaré e demais grupos convidados.
Realização:
Associação Cultural Cachuera -- www.cachuera.org.br -- e Associação Cultural Jongueira do Tamandaré.
Mais informações:
(11) 3872-8113, com Renata Celani ou Henry Durante (cachuera@cachuera.org.br).
Número de frases: 26
Inicia no próximo dia 6 de outubro o Porto Poesia 2 no Shopping Total Av. Cristovão Colombo, 545 -- Porto Alegre -- RS.
Em o seu segundo ano de realização o Porto Poesia já se constitui um dos maiores festivais de poesia do país.
Em 'te ano, entre as novidades do evento 'tão a realização em múltiplos 'paços do Shopping Total e a presença de convidados de outros Estados.
De acordo com Marco Celso Huffell Viola, organizador, a programação desse ano é resultado de um conjunto de sugestões de um comitê gestor do Porto Poesia e representa todas as tendências da poesia, hoje, no país.
Com relação à parceria com o shopping o organizador diz que:
«'sa parceria «dessacraliza a poesia, tirando-a de dentro das livrarias e colocando-a num dos 'paços mais tradicionais e belos da cidade, ao alcance de todos os públicos».
A segunda edição do festival Porto Poesia contará com uma programação intensa que contempla 12 palestras, 22 sessões de leituras de poesia, 4 rodas de poesias para crianças, 14 performances, 11 debates, 12 'petáculos, 10 oficinas, diversos lançamentos, sessões de autógrafos, saraus, apresentações livres, sessões de cinema e exposições de acervos, entre elas uma Mostra Nacional de Revistas de Poesia.
Serão 10 horas diárias de atrações totalizando 85 apresentações em 70 horas de atividades culturais.
A organização 'tima a participação de cerca de 8 mil pessoas, durante o evento.
Até o momento, mais de 98 profissionais da área da cultura e poetas têm a presença confirmada, entre eles, Armindo Trevisan, Alcy Cheuiche, Donaldo Schüller, José Eduardo Degrazia, Lau Siqueira, Liana Timm, Luiz Coronel, Mário Pirata, Oliveira Silveira, Jane Tutikian, Paulo Custódio, entre outros.
Como na edição anterior, a programação é gratuita e aberta ao publico.
O Porto Poesia é um festival de poesia concebido da união dos poetas locais, com o objetivo de abrir 'paço para as produções gaúchas e tornar conhecido 'te importante gênero literário, democratizando a informação literária em Porto Alegre, mobilizando pesquisadores, professores universitários, 'colas de ensino médio, tradutores de poesia, profissionais do teatro, músicos, artistas plásticos, letristas, e poetas convidados, propiciando o acesso à cultura e educação, 'timulando o desenvolvimento do gosto literário em crianças, jovens e no público em geral.
Além do Shopping Total o Porto Poesia conta com o apoio das Secretarias de Cultura do Estado, Municipal de Educação e de Cultura, Instituto Machado de Assis, Tronicks, Museu do Esporte, John Bull, La Passiva, Marcos Restaurante.
Assessoria De Imprensa-Marco Celso Huffell Viola-MTB 3858-fones 3339-1393 e 9175-6568.
Email-editoraoffice@yahoo.com.br
Número de frases: 15
Informações Gerais do Evento -- www.portopoesia2.blogspot.com
A exibição de curtas, médias e longas metragens nacionais seguida por debates e a realização de oficinas de iniciação cineclubista deverão ser as principais atividades que acontecerão no 'paço do Ponto de Encontro Cineclubista que o CNC -- Conselho Nacional de Cineclubes -- organizará no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera em São Paulo, entre os dias 5 e 9 de abril, dentro da programação da Teia de Cultura, Educação, Cidadania e Economia Solidária.
Promovido por a Rede Brasil de Produtores Culturais, o evento será palco para o I Encontro Nacional de Pontos de Cultura.
Segundo o Presidente do CNC, «Antonio Claudino de Jesus,» o 'paço servirá ainda como ponto de encontro, convivência e de articulação dos cineclubistas de todo o país, que deverão participar do I Encontro nacional dos Pontos de Cultura, e também como um centro difusão de informações sobre o cineclubismo junto a rede de pontos de cultura».
Coordenada por o Ponto de Cultura Rio Claro, através do CREC -- Centro Rio-Clarense de Estudos Cinematográficos -- a organização e a programação do 'paço 'tão sendo elaboradas em colaboração com diversos outros cineclubes do país e recebendo apoio de outras entidades do audiovisual, bem como de diretores e produtores através da disponibilização gratuita de seus filmes.
Segundo o Presidente do CREC e coordenador do Ponto de Cultura Rio Claro, João Baptista Pimentel Neto, a idéia de propor à coordenação do evento a disponibilização de um 'paço para a realização de atividades cineclubistas nasceu da constatação de que além de existirem cerca de duas dezenas de cineclubes atuando dentro do Programa Cultura Viva, um significativo número de outros Pontos de Cultura tem demonstrado grande interesse em realizar atividades relacionadas à difusão audiovisual.
«Talvez, até por o fato da produção e difusão de produtos audiovisuais, serem atividades de grande relevância dentro das propostas apresentadas por o Programa Cultura Viva, constatamos que o cineclubismo tem sido um tema bastante debatido por os Pontos de Cultura nos vários Encontros Regionais e listas de discussão relacionadas ao programa.
Diante disso, resolvemos propor a coordenação do evento e ao Conselho Nacional de Cineclubes o 'tabelecimento de uma parceria que garantisse à existência dentro da Teia de um 'paço com programação exclusivamente focada em atividades cineclubistas.
A idéia recebeu apoio imediato de ambas as partes e em 'te momento 'tamos finalizando a 'truturação da programação buscando ampliar ao máximo as parcerias com cineclubes e pontos de cultura de todo o país».
A Teia é uma iniciativa da Rede Brasil de Produtores Culturais com o apoio do Ministério da Cultura, SESC, PNUD e divers.
Número de frases: 10
Dia 26 de agosto, terça-feira.
Um caminhão diferente, com a logomarca do Revelando os Brasis, passa por as ruas da cidade e o povo fica curioso.
Muitos ainda sem entender o que 'tá acontecendo.
Dá uma volta por algumas ruas anunciando que " vai ter cinema na praça.
De graça».
O povo começa a comentar.
O caminhão pára e homens descem equipamentos e cadeiras na praça Cristo Rei.
Agora quase todos já sabem do que se trata.
É a visita do caminhão itinerante do projeto Revelando os Brasis que 'tá na cidade com exibição gratuita de vídeos.
O Circuito passa por 40 municípios com até 20 mil habitantes e por 21 capitais.
Todas as sessões têm entrada franca, e contarão com uma tela de cinema medindo cinco metros de altura por oito metros de largura.
Duzentas cadeiras serão disponibilizadas para acomodar a platéia.
As cidades assistirão a uma programação com o vídeo realizado no município e mais três produções do projeto.
Cada vídeo tem cerca de 15 minutos.
Revelando os Brasis é um projeto do Governo Federal / Ministério da Cultura e tem por objetivo promover a inclusão e a formação audiovisuais por meio do 'tímulo à produção de vídeos digitais.
Dirigido a moradores de municípios brasileiros com até 20 mil habitantes, o projeto contribui para a formação de receptores críticos e para a produção de obras que registrem a memória e a diversidade cultural do País, revelando novos olhares sobre o Brasil.
Em sua segunda edição, no ano de 2006, Montalvânia participou do projeto com o conto ...
E agora Deixa-Vim, de Antônio Horácio Salles, que, selecionado entre os 40 melhores do país, foi transformado em filme, realizado na própria cidade, com atores locais.
O curta metragem de 15 minutos foi um dos quatro representantes do 'tado de Minas Gerais e foi exibido em rede nacional através do canal Futura.
Agora, toda a população tem a oportunidade de apreciar o filme representante do município numa tela de cinema e de graça.
E a cidade parou para assistir a história do cavalinho que virou lenda.
Timidamente as pessoas começam a chegar.
Logo as cadeiras 'tão todas lotadas.
mais de mil pessoas.
Começam apresentações culturais que representam a identidade do município.
Muitos aplausos.
Os atores e o diretor do filme são convidados a se posicionarem à frente da tela.
Mais aplausos.
Chega a hora mais 'perada.
O telão desperta os mais inusitados olhares.
Começa a ser projetado o primeiro filme realizado em Montalvânia.
Um momento histórico.
Todos se emocionam.
A aposentada Helena Pereira de Souza, que nunca foi a um cinema, disse que achou uma das coisas mais lindas que já viu na vida.
Maria Beatriz Mota, de 10 anos, atriz do filme, disse que toda vez que assiste ao filme ainda se emociona e que tem vontade de participar de outras produções.
A professora Rosemeyre Fraga, também encantada com a exibição, disse que a cidade ganhou muito com a vinda do Circuito, que é cultura pura, e que eventos deste porte deveriam vir mais à cidade.
A o final muitos aplausos e gritos de bis.
Outros filmes são exibidos e todos ficam de olhos arregalados diante da imensa tela.
É a magia do cinema que encanta a todos.
Montalvânia sai mais rica depois de 'sa exibição.
Muitos que nunca entraram num cinema tiveram a oportunidade do contato com a sétima arte.
E o município ficará marcado para sempre.
Dia 26 de agosto foi o dia que o cinema veio até a cidade, oferecer aos moradores cultura, diversão, beleza e encantamento.
Tudo de graça.
E o melhor, numa produção da própria cidade, 'crita por um morador e realizada por a comunidade.
Um dia que jamais será 'quecido por a população.
Número de frases: 46
Arte de rua invade Saramandaia
Comunidade recebe a 2ª edição do Mutirão Mete Mão
Por: Luciana Pereira
Famoso por ser considerado um dos bairros mais violentos de Salvador, Saramandaia comemorou o 1º de maio -- Dia do Trabalho com muita música, cores e dança.
Trata-se da 2ª edição do Mutirão Mete Mão, evento que visa levar manifestações artísticas urbanas às comunidades carentes de atividades culturais, tendo como âncora as artes plásticas através do graffiti e o sistema de som -- ambientação sonora que agrega diversos 'tilos musicais.
Inspirado em movimentos semelhantes que já acontecem nas favelas de Recife e do Rio de Janeiro, o evento tem como principal característica a diversidade, reunindo além dos moradores do local, grafiteiros, 'tudantes, músicos, líderes comunitários, professores, formadores de opinião e artistas em geral, de várias faixas etárias e segmentos sociais, unidos no intuito de agregar valores e disseminar todas as expressões artísticas presentes naquela comunidade.
Durante um bate-papo entre a comunidade e participantes do evento, o grafiteiro Bob, integrante do OClan Crew, destacou a importância do projeto:
«Nossa comunidade é uma das mais carentes de Salvador e abraçamos 'se projeto com muita força, para mostrar a outra face de nosso bairro, a arte que produzimos aqui e sua beleza», disse.
Esse momento é um dos pontos altos do evento quando público e organizadores trocam impressões, conceitos e idéias sobre a cena cultural de nossa cidade e suas expectativas enquanto artistas urbanos, além de ficar conhecendo a proposta do Mutirão.
Arte de Rua
Todos os pontos do bairro que receberam as intervenções dos grafiteiros foram anteriormente catalogados e, o material utilizado para a pintura dos painéis levado por os próprios artistas.
A idéia é modificar o cenário, presenteando a comunidade com uma nova atmosfera de cores nos muros do bairro.
«Presenciar 'se tipo de iniciativa no Rio de Janeiro, nos deu a idéia de fazer um projeto desse porte em nossa cidade, que não é organizado por órgão nenhum, mas apenas por pessoas de boa vontade.
É muito gratificante ver as reações das comunidades», destaca o grafiteiro Bigode, integrante do Nova Desordem Crew.
Para a 'tudante de Comunicação Social da Faculdade da Cidade, Maristela Araújo, 'sas iniciativas são muito importantes:
«Além do cunho social e da interação proporcionada, é possível conhecer melhor o dia-a-dia do artista de rua, quebrando pré-conceitos e paradigmas.
De 'sa forma passamos a conhecer um universo paralelo ao nosso cotidiano, fazendo a informação circular entre um maior número de pessoas, mostrando as diversas facetas da arte e suas variadas linguagens», ressalta.
Música dançante ecoa dos delays
Reggae, dub, raggamuffin, jungle, dance hall e afrobeat.
Chega a tarde e com ela o ponto alto da festa, com o início das apresentações sob a batuta do MiniStereo Publico, sistema de som cujo um dos objetivos principais é levar música e outras culturas para áreas abertas e, chegar a bairros populares ocupando 'paços com som diferenciado.
Além do MiniStereo, cinco bandas de hip-hop se revezaram na arena montada no Largo da Saramandaia, entre elas a Raciocínio Angular, Banda Consciente, Revolução Verbal, Império Negro e Vida Ativa.
Houve também 'paço para o teatro e poesia, com a apresentação da peça Retalhos da Vida Cotidiana do grupo Jovens Baianos.
Para o MC Chabi, da banda local Raciocínio Angular, 'se foi um evento divisor de águas:
«Foi um das poucas atividades realizadas aqui que contou com o apoio de toda a comunidade e 'sa união é muito importante.
Em nosso show falamos das dificuldades que passamos aqui, mas também é a oportunidade de falar de coisas boas e mostrar nossa poesia e, tentar mudar o 'tereótipo do bairro que é muito discriminado.
Juntos moradores e visitantes podem ajudar a mudar 'sa visão», destacou.
Segundo um dos organizadores do evento e integrante do MiniStereo Publico, Dudoo Caribe, o Mutirão segue com o intuito de chegar a todos os bairros carentes de manifestações artísticas e que dêem ao grupo uma pequena 'trutura para que as atividades possam acontecer.
A realização do 2ª edição do Mutirão Mete Mão é uma parceria entre o coletivo MiniStereo Público, a banda Raciocínio Angular e os grupos de graffiti 071 Crew e o OCLAN Crew.
Agora é aguardar o próximo pouso da trupe ...
Número de frases: 29
Lucrecia Bento Filho, a Pretinha, tem 55 anos, é mãe de 12 filhos vivos e avó de 12 crianças.
Ela vive com o marido, Manoel Messias, e parte destes filhos e netos numa humilde casa às margens da To-050, que cruza seu município, Arraias, e leva à Brasília.
Em sua cidade, famosa por o artesanato feito com a argila branca existente na região, apenas Pretinha e mais um artesão produzem potes de maneira totalmente manual, sem roda de oleiro e com instrumentos improvisados para dar o acabamento.
Em sua simplicidade, ela não faz idéia que aqueles potes que aprendeu a fazer aos 8 anos, com a avó índia, integram o rico acervo do patrimônio imaterial brasileiro.
Conheci Pretinha há cerca de quatro meses, quando o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Luiz Fernando de Almeida, e a superintendente regional do órgão, Salma Saddi, 'tiveram no Tocantins para visitar duas das cidades mais antigas da região, Arraias (264 anos) e Natividade (268 anos).
Pretinha não assistiu à palestra proferida por os dois, o que é uma pena, pois teria visto o reconhecimento do valor de seu trabalho.
«A sociedade precisa perceber e valorizar o que tem», ensinou Almeida.
«Não é um processo que acontece da noite para o dia, vai sendo conquistado aos poucos», completou.
Já Salma tocou num tema crucial, ao falar da importância de se criar uma consciência de preservação incluindo a educação em 'te processo, com «o ensino em sala de aula a partir de nossas raízes».
A noção do quanto é necessário preservar nossas origens, não apenas através de construções históricas como também dos saberes e fazeres populares tem tomado contorno nos últimos anos para a população tocantinense, mas ainda há muito que se fazer.
A região, que antes integrava o Estado de Goiás, mantém muitos de seus costumes intactos -- como ritmos e danças típicas, festas religiosas e parte de sua gastronomia, mas sofre com uma «quase obrigação» de se modernizar, por possuir a capital mais jovem do País, construída de forma planejada, aos moldes de Brasília.
A proximidade com a Capital Federal também é um paradoxo:
ao mesmo que a sua construção levou desenvolvimento à região central do País, também promoveu a mudança de comportamento das comunidades locais, com o abandono de costumes tradicionais e a alteração física de construções de valor histórico e arquitetônico.
Foi o que ocorreu com Arraias, que passou por um agressivo processo de descaracterização do seu patrimônio material, o que impede seu tombamento como patrimônio histórico nacional.
Apesar disso, o município nascido com a exploração do ouro ainda preserva um rico patrimônio imaterial, com tradições, histórias, ritos herdados dos 'cravos e colonizadores portugueses.
«A sociedade precisa perceber o que tem, mas não é um processo que acontece da noite para o dia, precisa ser conquistado aos poucos», disse Almeida procurando a motivação dos arraianos em torno da preservação.
«Quando a gente conhece o lugar onde vive a gente cria uma relação de carinho, devemos 'tar a todo momento reforçando a identidade cultural», reforçou no mesmo encontro a superintendente da 14ª Regional do Iphan (que atua nos 'tados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), Salma Saddi.
Esta visita começou um dia antes, por Palmas e Natividade, 'ta última sendo a única cidade tocantinense tombada como patrimônio nacional justamente porque sua população soube preservar suas igrejas e casarões históricos com poucas interferências.
Há outras cidades no Estado com muitas histórias guardadas e que precisam ser registradas e preservadas para as gerações posteriores.
É em 'se sentido que 'pecialistas da área no Tocantins 'tão atuando.
«O patrimônio já 'tá um pouco dilapidado, devido à falta de uma política de preservação no passado», explica o historiador Antônio Miranda, que desenvolve projetos de educação patrimonial, entre eles o programa de rádio Heranças.
Apresentado todas às terças-feiras, na rádio comunitária Porto Real FM, na cidade de Porto Nacional (268 anos), a idéia do programa surgiu após uma pesquisa que apontou a necessidade de ações educativas mais efetivas, associadas às palestras realizadas nas 'colas da cidade que em 2005 passou por um inventário histórico.
«Com 'sas ações podemos confirmar a eficácia da educação patrimonial», comemora Miranda, explicando que a receptividade junto ao programa Heranças é boa, e que a prefeitura municipal deverá mantê-lo por sua própria conta a partir de 2007.
Outro município que vem recebendo atenção 'pecial é Monte do Carmo (160 anos), que 'te ano vem sendo alvo do inventário.
Também nascida no ciclo do ouro, com tradições nascidas da miscigenação entre 'cravos e colonos, 'ta é uma das cidades que se destacam por preservar suas tradições -- como a realização de festas religiosas que congregam vários costumes, entre eles tocar e dançar a sússia, realizar a Caçada da Rainha e seguir o cortejo de congos e taieiras.
«Em Monte do Carmo observamos a preocupação das próprias pessoas que fazem a cultura, como os foliões;
já em Porto Nacional (distante 66 km da Capital) a preocupação é menor, a influência de Palmas como cidade moderna é muito grande», compara ele lembrando que a construção da identidade cultural do Estado tem que passar por 'sas cidades históricas, e para que isso ocorra, a sociedade precisa ser sensibilizada.
Natividade, que hoje é conhecida nacionalmente, é tida como um exemplo de preservação, tanto da arquitetura de seu centro histórico quanto das tradições, e comprova o papel importante a ser desempenhado por a comunidade.
Número de frases: 28
«Nada contribui tanto para a degradação de um centro histórico como seu abandono por a população», completa Antônio Miranda.
Um dos maiores brasileiros 'tá enterrado em sepultura simples, há 139 anos, em território 'trangeiro dentro do próprio Brasil.
Ele é o pouco lembrado José Inácio de Abreu e Lima que, ao morrer em Pernambuco, em 1869, não foi levado para um cemitério público sob administração da Igreja Católica, por ordem do bispo Dom Francisco Cardoso Ayres.
Seu repouso eterno foi dado, por caridade cristã, por anglicanos que o recolheram ao Cemitério dos Ingleses, no bairro de Santo Amaro, no Recife, ainda hoje considerado um território britânico.
De acordo com o Tratado de Navegação e Comércio, 'tabelecido em 1810, entre Portugal e «Inglaterra,» os vassalos de Sua Majestade Britânica, que morressem em territórios de Sua Alteza Real, o Príncipe Regente de Portugal, deviam ser enterrados em lugares designados para 'te fim."
Mas o que fez em vida 'se homem exilado em sua própria terra, que é nome de um pequeno município a 20 quilômetros da capital e que dará, dentro de pouco tempo, denominação à refinaria de petróleo que a Petrobras constrói em Pernambuco com a empresa 'tatal venezuelana PDVESA, por solicitação expressa do presidente Hugo Chávez ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva?
José Inácio de Abreu e Lima foi, nos anos finais da vida, defensor extremado dos valores republicanos e da liberdade religiosa e um duro adversário de Dom Francisco.
Mas 'ses fatos consomem poucas páginas de sua brilhante e extensa biografia.
Ele foi muito mais.
Tornou-se um dos generais diletos do Libertador Simon Bolívar, pai da independência da Venezuela e de grande parte da América 'panhola.
Abreu e Lima acompanhou o Libertador por rios, vales e montanhas.
Segundo a história que se conta nos países dos Andes, lá do outro lado do continente, o general brasileiro é " llamado el héroe de las dos Américas, tanto la de origen portugués donde nació, como la 'pañola donde también luchó por la libertad."
José Inácio de Abreu e Lima foi diplomata a serviço do Libertador, 'creveu para ele discursos e proclamações e o acompanhou em campanhas e batalhas históricas como as de Apure, Pisba, Gámeza, Pantano de Vargas, Boyacá, Carabobo, onde foi ferido no peito, e Maracaibo.
Sob as ordens do general José Antonio Páez ele participou do ataque contra Puerto Cabello, em 1823.
Ao lado de outros generais, seu nome 'tá inscrito, em português rudimentar no monumento que os venezuelanos erigiram em honra de Simon Bolívar, em Caracas:
«General Abreu e Lima. Brasilero." Isso mesmo:
brasilero. Outro grande brasileiro, Barbosa Lima Sobrinho, quando governador de Pernambuco, em 1948, homenageou 'se herói de muitas pátrias, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, figura histórica precursora do ideário de integração sul-americano e pai do socialismo no Brasil dando seu nome ao pequeno Distrito de Maricota.
Em 1982, Abreu e Lima passou à condição de município, integrando a região do Grande Recife.
Vamos voltar à História.
Como morreu, José Inácio de Abreu e Lima nasceu libertário.
Ele veio ao mundo em 6 de abril de 1794, na mesma cidade onde continua banido e sepultado em solo 'trangeiro.
Seu pai era também um revolucionário:
José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, o Padre Roma, líder da Revolução Pernambucana de 1817.
Abreu e Lima cursou a Academia Real Militar do Rio de Janeiro e, em 1816, já capitão de Artilharia, foi preso no Recife como insubordinado e acusado de responsável por desordem pública.
Condenado a cumprir pena na Bahia, ele assistiu, em 29 de março de 1817 ao fuzilamento do pai.
Já dotado de sólida visão crítica do mundo o jovem oficial fugiu para os Estados Unidos, ajudado por a Maçonaria, jurando defender, na América do Sul, os mesmos princípios anticolonialistas e de independência nacional do pai.
Sempre que vem ao Brasil, o presidente Hugo Chávez vai a Brasília e a outra cidade importante mas faz questão de viajar ao Recife.
Lá, como fizeram todos os presidentes venezuelanos que visitaram o Brasil, ele deposita, em nome do povo de seu país, uma coroa de flores no túmulo simples do eterno exilado de José Inácio de Abreu e Lima.
Herói romântico, audaz e destemido o brasileiro ofereceu, em 1818, como conta a história narrada na Venezuela, " sus servicios militares como capitán, grado obtenido en el Brasil, y fue aceptado por el Libertador en Angostura en 1819, durante la vigência del Congreso del.
Luego participó el equipo de redactores del Correo del Orinoco, en el que dio frecuentes noticias de los movimientos brasileños de independência, sobre todo de su 'tado de origen, Pernambuco."
Intelectual de excepcional cultura, Abreu e Lima logo se tornou um dos favoritos de Bolívar.
Por delegação de ele, o brasileiro viajou à Europa para defender a causa libertária latino-americana dos ataques de Henri-Benjamin Constant.
Em 9 de agosto de 1831, já no ocaso de Simon Bolívar, o general Abreu e Lima foi expulso da Venezuela, em companhia de outros oficiais 'trangeiros, viajando para os Estados Unidos e Europa e depois para o Brasil.
Alguns historiadores dizem que sua saída da Venezuela foi motivada por questões pessoais.
Mulherengo, ele se apaixonou por uma sobrinha de Bolívar, desagradando o marido que o desafiou para um duelo.
Abreu e Lima preferiu despedir-se de sua nova pátria, em respeito à figura de Bolívar.
Aqui, logo que regressou, ele deixou de lado seu 'pírito republicano e passou a defender uma tese polêmica:
a volta de Dom Pedro I ao trono brasileiro, numa monarquia constitucional parlamentar.
Abreu e Lima julgava que Dom Pedro poderia ser um «Bolívar coroado» e líder inconteste da integridade política e geográfica do Brasil.
Esse ponto de vista foi muito contestado no Rio de Janeiro por aqueles que desejavam ver Dom Pedro II coroado, mesmo sendo criança, o que ocorreu em 1840, quando ele completou 14 anos de idade.
Um de seus mais ferrenhos adversários de Abreu e Lima foi o 'critor Francisco Adolfo de Varnhagen, um áulico e lacaio da Corte que 'creveu uma lastimável história de um Brasil sem conflitos, violência e 'cravagismo e colonizado por um Portugal admirável e generoso.
Hostilizado e temido e no Rio de Janeiro, José Inácio de Abreu e Lima voltou a Pernambuco, na 'perança de eleger-se deputado.
Atacado por usineiros e conservadores, ele perdeu a eleição.
Mas logo seria um dos líderes do último movimento revolucionário contra o Império, a Insurreição ou Revolta Praieira, entre 1848 e 1852.
Ao lado do capitão de artilharia Pedro Ivo Veloso da Silveira, do deputado Joaquim Nunes Machado e de Antônio Borges da Fonseca, militante da ala radical do Partido Liberal, Abreu e Lima -- já denominado por os pernambucanos com o epíteto de «general das massas» -- liderou, em Olinda, uma rebelião que logo se 'palhou por a Zona da Mata de Pernambuco.
Era a culminação de uma luta contra a destituição do governador da província Antônio Chichorro da Gama e de ferrenha oposição à aristocracia proprietária de terras, usinas e comércio.
As páginas do jornal «Diário Novo», dos revolucionários, publicavam inflamados protestos contra o poder imperial e os conservadores pernambucanos.
Já se liam textos de Abreu e Lima com forte conotação socialista utópica inspirada na leitura de pensadores como Pierre-Joseph Proudhon, Claude Saint-Simon, Charles Fourier e Roberto Owen, europeus pré-marxistas.
Em a Europa, como em Pernambuco, considerava-se que a Revolução Francesa fracassara, apesar de ter consagrado a liberdade, a igualdade e a fraternidade.
Onde 'tava a igualdade numa sociedade tão dividida entre ricos e pobres?
Liberdade? Só a de mercado, a do burguês livre para explorar o trabalhador.
Fraternidade? Com tanta desigualdade e 'cravagismo?
E o «Diário Novo» divulgava as bandeiras de luta do Movimento Praieiro:
defesa do voto livre universal, liberdade de imprensa, fim do Poder Moderador (a corte imperial), quebra do monopólio político das oligarquias agrárias e a nacionalização do comércio, totalmente em mãos dos portugueses.
Donos de engenho de pequeno porte, artesãos, profissionais liberais, setores da classe subalterna e negros libertos aderiram ao movimento.
Sem grande apoio, a Revolução Praieira foi derrotada por as tropas imperiais.
Abreu e Lima foi preso e exilado no Arquipélago de Fernando de Noronha.
O advogado Thomaz Nabuco de Araújo, pai de Joaquim Nabuco, fez a defesa de José Inácio de Abreu e Lima nos tribunais.
Mais tarde ele foi solto e anistiado.
Já eram, então, outros tempos.
Tempos de cansaço físico, mas ainda de forte vigor intelectual.
Lembram os historiadores venezuelanos:
en 1855 publicó los primeros libros brasileños sobre socialismo, en los moldes de Fourier y los socialistas utópicos."
O historiador Manuel Correia de Andrade 'creveu:
«Abreu e Lima também foi um precursor do movimento de defesa do meio ambiente, tão em voga nos dias de hoje, de vez que de sua permanência como prisioneiro em Fernando de Noronha, após a revolta praieira, resultou um artigo sobre o famoso arquipélago no qual faz grandes observações de ordem ecológica, que foi publicado na revista do Instituto Arqueológico."
O jornalista e acadêmico Barbosa Lima Sobrinho, uma das maiores figuras da vida brasileira no século passado, fez uma previsão no prefácio que 'creveu para a segunda edição do livro «O Socialismo», publicada em 1979:» no dia em que o Brasil se interessar realmente por o seu relacionamento com as repúblicas da América 'panhola, Abreu e Lima conquistará a importância que merece, na história de seu país.
Não nos faltam heróis nacionais e figuras de grande projeção.
Mas, por assim dizer, limitadas às fronteiras do Brasil, quando muito às fronteiras de Portugal.
Mas figuras continentais, com serviços prestados a outros países da América Espanhola, são raras, excepcionais.
É verdade que tivemos Hipólito da Costa, no (jornal) Correio Braziliense, defendendo apaixonadamente a Independência de todo o território da América Espanhola, exaltando Francisco Miranda e acompanhando, dia por dia, a ação libertadora de Simon Bolívar, no seu mensário londrino."
Lembrou mais o ex-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e " Academia Brasileira de Letras:
«mas Abreu e Lima não se limitou ao domínio literário.
Incorporou-se ao exército de Bolívar, com a patente de capitão, e tomou parte nas batalhas decisivas, em que 'tava em causa a liberdade da Colômbia e da Venezuela.
E foi conquistando, com o seu valor e a sua bravura, as patentes que merecia, até chegar a general.
General de Bolívar é um título que pode consagrar qualquer pessoa e dar-lhe direito à gratidão de pátrias a que não pertencia."
O Cemitério dos Ingleses é o monumento de José Inácio de Abreu e Lima.
Lá ele deve ficar para sempre.
Se sua memória continuar sem ser honrada por os brasileiros, pouco importa.
Seus feitos e seu exemplo 'tão nas páginas da História e algum dia serão resgatados por os contemporâneos da época.
Por ora, bastam o reconhecimento e a honra que lhe prestam a Venezuela e a América de língua 'panhola.
Número de frases: 80
Os grupos de brinquedos desenvolvidos por as crianças são, segundo 'tudiosos da psicologia infantil, ricos em situações que favorecem o pleno desenvolvimento, além de representarem o mais importante fator para o desenvolvimento da criatividade.
Em a 'cola moderna a criança é constatemente 'timulada a apropriar-se de conhecimentos científicos, de equações e formulas.
Esta, prepara a criança para viver num mundo alicerçado no conhecimento científico, o que, muitas vezes, acaba negado-lho direito a uma infância que a desafie enquanto criança.
Os obstáculos à criatividade na 'cola surgem no pré-'colar e acompanham todo o período 'colar da criança;
no pré-'colar, a diminuição do tempo reservado para os grupos de brinquedo e a imaginação, na 'cola de ensino fundamental, a disciplina e a ordem exageradas, o excesso de importância atribuída entre os sexos;
no ensino médio, o pré conceito em relação às profissões artísticas;
e, na vida universitária, a valorização de conhecimentos acumulados em detrimento da criatividade.
Poderíamos citar ainda, a própria negação da arte como fonte de conhecimento.
O conhecimento artístico é visto como algo dissociado do processo de aprendizagem, algo que é desenvolvido apenas para relaxar e passar o tempo e não como algo que possa contribuir para o desenvolvimento do educando.
O projeto «CAIXA MÁGICA» visa resgatar o gosto por as músicas, por as brincadeiras, lendas e histórias que sempre preencheram o imaginário infantil.
Através do resgate das músicas folclóricas de roda, das brincadeiras, lendas e da teatralização de 'tórias do imaginário popular.
Somos educadores e desenvolvemos em Aracaju, a mais de uma década, constantes projetos visando contribuir com a educação de crianças e adolescentes.
Nossa preocupação sempre foi primar por atividades culturais que visem transferir conhecimentos sobre a cultura, enquanto divertem e distraem.
O projeto «CAIXA MÁGICA» dá continuidade a nossos objetivos buscando resgatar, desenvolver, refletir e contextualizar as manifestações folclóricas ligadas à infância.
Objetivamos desenvolver a musicalidade, a coordenação motora, a percepção, a criatividade, o prazer da leitura, além, de contribuir para o enriquecimento cultural dos participantes;
desenvolver atividades recreativas-culturais, que 'timule a vontade de conhecer nossas manifestações culturais e que possam 'sas, ser úteis no processo educacional.
Elenco:
1-HAMILTON Marques -- Educador, Professor de Dança, Bailarino,
Coreógrafo, Diretor do Grupo de Dança da UNIT e Radialista.
2-MARCELO Uchoa -- Educador, Artista Plástico, Licenciado em Artes -- UFS, Acadêmico de Jornalismo -- UFS, professor de Arte do Colégio da Aplicação -- UFS, Cenógrafo Teatral.
3-Grupo Pé De Serra
4-EDSON Filho -- Maquiador.
Número de frases: 22
Quem são as travestis bombadas?
Como vivem?
O que desejam?
Este universo simbólico de morte e de renascimento, em que um ciclo de vida se encerra para permitir o início de outro, é registrado por meio de comoventes e fortes relatos que mostram o cotidiano da travesti, as relações familiares e conjugais, os afazeres domésticos, a discriminação e a forte religiosidade que as acompanha por toda a vida, seus anseios e sonhos em busca do tão desejado corpo feminino.
Em o próximo dia 25 de junho o Teatro Rival, na Cinelândia, vai ser palco da festa do filme Bombadeira -- A Dor da Beleza, documentário do cineasta baiano Luis Carlos de Alencar.
Através de uma sucessão de depoimentos surpreendentes, o longa-metragem mergulha no universo dos travestis e desvenda uma realidade pouco conhecida, longe da glamourização e dos 'tereótipos.
A «dor da beleza» é revelada através da figura da bombadeira, profissional conhecida no meio por mudar as formas de suas «pacientes» através de implantes clandestinos de silicone industrial.
Um rito de passagem dramático e doloroso.
Por vezes, a prática clandestina torna-se o único ou o mais acessível modo de se conseguir o corpo idealizado.
Entrevista Com O Diretor
Luis Carlos de Alencar é baiano de Salvador, tem 29 anos e mora no Rio de Janeiro desde 2003.
É pós-graduado em Comunicação e Imagem por a PUC-Rio e atualmente trabalha na Casa de Criação, ao lado do cineasta Joel Zito Araújo.
Em seu currículo 'tão diversos filmes, entre os quais destacam-se a direção do documentário Maré de Março, realizado sob encomenda para o Movimento Nacional de Direitos Humanos;
a assistência de direção do documentário Ira, premiado com menção honrosa do Júri do Cinesul 2005;
o roteiro e a direção do curta-metragem É Tarde, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro da mostra vídeo-off;
e a direção e o roteiro do documentário Mulheres do Cacau, produzido por o Centro de Estudos e Ação Social-Bahia e exibido na Itália, Suíça e Holanda.
Como surgiu a idéia do documentário?
Luis Carlos de Alencar -- Eu fui 'tagiário numa instituição em Salvador que atuava na defesa de direitos humanos e grupos sociais discriminados por sua sexualidade.
Um destes grupos foi o das travestis de baixa renda, aquelas que vão para a batalha na pista do centro da cidade, Av..
Sete e Carlos Gomes.
Tive contato quase diário durante dois anos com muitas travestis e pude acompanhar suas realidades de perto.
Desde problemas mais terríveis como violência policial, o preconceito, problemas de saúde e de moradia etc., até questões mais cotidianas como seus sonhos, discriminação familiar, relacionamentos amorosos, religião, fofocas.
Foi em 'se período que conheci e convivi com uma das maiores preocupações de elas:
o corpo.
Não falo do corpo como vaidade, no seu sentido mais comum.
Mas do corpo como afirmação de si mesmas.
Muitas de elas, mais do que serem belas, queriam se ver e serem vistas com um corpo feminino e faziam isso a qualquer custo.
Foi então que me apresentaram à figura da bombadeira e reconheci na bombação algo muito maior do que uma mera agressão ao corpo por a qual muitas morriam.
A bombação é a própria afirmação da vida para a travesti.
É um dos fundamentais momentos de sua história, quando então alcançavam pela primeira vez um sonho.
Aquilo precisava ser filmado, aquele outro enfoque tinha que ser mostrado.
E aí começamos a ouvi-las.
Como foi o trabalho de pesquisa?
Difícil.
Primeiro comecei a pesquisar jornais, revistas, livros e artigos acadêmicos.
Encontrei poucos textos e todos associavam a prática da bombação ou a figura da bombadeira à marginalização, por causa das travestis que morriam ou ficavam com seqüelas devido aos problemas decorrentes da aplicação clandestina do silicone industrial.
Não havia nenhuma outra ponderação sobre o tema.
Investiguei também se existia alguma informação histórica sobre a chegada do silicone e de suas aplicações no Brasil.
Nada. Todas as informações mais importantes que colhi foram dadas por as próprias travestis, por a história oral que passam adiante.
Aliás, como também é o aprendizado de aplicação dos silicones por elas.
A cultura oral é muito forte entre as travestis.
Como você conheceu as meninas do filme e como foi a relação com elas?
Algumas das travestis e transexuais do filme eu já conhecia através da ONG em que trabalhava.
Uma de elas, a Andrezza, personagem do filme, me apresentou às demais.
Priorizamos algumas.
A relação no início, como era de se 'perar, foi um pouco distante e desconfiada.
Aos poucos, fomos nos acostumando e tudo fluiu com a maior naturalidade possível.
As conversas, que durariam normalmente uma hora, facilmente chegaram a duas ou três por dia.
Os temas se multiplicaram aos borbotões.
Os depoimentos transformaram-se em conversas, trocas, algo mais livre.
O compromisso de nossa produção e o papel de Andrezza como intermediária foram decisivos para os encontros, mas a necessidade de narrar e de serem ouvidas que elas possuem garantiu o substrato que tem o documentário.
Vocês passaram por alguma situação curiosa durante a filmagem?
Usualmente, a imagem 'pacial que acompanha as travestis é a da rua, da pista, da boate.
Como o documentário trata de algo pessoal, carne, pele, sensibilidade e corpo, optamos por conhecer com a câmera os 'paços muitas vezes evitados como o da casa, da intimidade, da pessoa.
Por isso buscamos enxergar o 'paço doméstico, suas relações afetivas, seus afazeres cotidianos, cozinha, quarto.
E se o foco são aquelas de baixa renda, sabíamos que encontraríamos problemas de acesso.
Tomamos algumas precauções como reduzir a equipe e os equipamentos, mas em quase todos os casos passamos por apertos.
Uma das entrevistadas mora num cortiço -- ou no que restou de ele -- onde na entrada funciona uma boca-de-fumo, onde se vende crack.
Além de termos que pedir autorização para os boqueiros (traficantes), uma vez, no térreo do sobrado, tivemos que pedir literalmente licença para os usuários, que fumavam a pedra e separavam dezenas de outras na precária 'cada em que subíamos.
Eu orava aos deuses para que minhas pernas não tropeçassem.
Já pensou se eu ou alguém da equipe pisasse nas pedras de crack?
Enquanto não chegássemos ao quarto da travesti, eu não sabia o que poderia acontecer.
Aos poucos, compreendendo mais a dinâmica do local, apesar de ser uma boca-de-fumo, percebi o quanto meu distanciamento daquela realidade havia produzido imagens um tanto exageradas.
Os boqueiros eram apenas um ou dois, os outros que eu também julgava como tais eram rapazes que moravam no cortiço e 'tavam apenas bebendo cerveja e papeando antes de subirem aos seus quartos.
E os usuários, 'ses não passavam de um apenas.
Os demais foram criações de minha imaginação (risos).
Ele fumava e dividia as pedras em papelotes para, provavelmente, vendê-las.
Qual foi a minha surpresa ao perceber que, apesar de vê-lo como perigoso, ele nos ajudou com sua vela -- a que 'quentava a colher -- e nos guiou até a saída quando terminamos as filmagens.
Descobrimos depois que ele era o marido tímido da travesti, que não nos daria entrevista.
Enfim, nós havíamos adentrado um sobrado onde várias famílias moravam.
Foi isso.
Como é a relação das meninas do filme entre si?
Elas se conhecem e se relacionam?
Todas se conheciam.
Umas se davam bem com outras.
Algumas tinham problemas com outras.
Enfim ...
Qual foi a maior dificuldade em produzir Bombadeira?
Houve diversas dificuldades.
A primeira, eu 'tava no Rio.
Tive que articular apoios na Bahia.
Segundo, eu 'tava me envolvendo em algumas produções por aqui que me tomavam tempo.
Terceiro, a falta de dinheiro.
Rodei uma primeira fase toda a partir de um empréstimo.
Um ano depois, consegui o patrocínio para a finalização e filmamos uma segunda rodada com as travestis, com poucos recursos, mas já algum.
De aí veio o quarto problema, na verdade, o aspecto trágico do nosso trabalho:
nem todas continuavam vivas.
Você é da Bahia.
Como veio parar no Rio?
Conte um pouco da sua trajetória profissional.
Sou formado em Direito e durante o curso sempre me envolvia em filmagens.
Ora por iniciativa própria ou mesmo em projetos de extensão universitária junto a movimentos sociais, onde sempre dava um jeito de encaixar o vídeo como instrumento dentro dos projetos.
Vivi 'sa dicotomia de vídeomaker versus ativista jurídico durante os seis anos do curso.
Já havia até a possibilidade de desenvolver um projeto com certa associação de advogados de trabalhadores rurais da Bahia na área da arte-educa ção, mas não queria viver 'sa punheta de nem fazer uma coisa nem outra muito bem.
Sabia que iria chegar o momento de ter que assumir um caminho prioritariamente.
Com o apoio de meu avô e de sua 'posa que já moravam aqui, resolvi entrar no ônibus Salvador-Rio.
Se na Bahia fiz diversos trabalhos videográficos vinculados a movimentos sociais, com caráter institucional, no Rio comecei a 'tudar e realizar projetos mais autorais, sejam meus ou de amigos que fui conhecendo.
Considero Bombadeira meu primeiro trabalho mais autoral como diretor.
O filme já foi exibido no Cineport e em Salvador.
Como tem sido a reação da platéia frente a um tema tão polêmico?
O filme tem sido bem recebido.
Em a pré-'tréia, na Bahia, houve sessão extra, com lotação 'gotada.
Nossa maior preocupação foi com as cenas de bombação.
Evitamos ultrapassar o limite entre a imagem de impacto que deve ser mostrada e a apelação.
É como harmonizar isso com a idéia maior que seria a tentativa de aproximação do público-médio que assistiria ao filme e a realidade das travestis de baixa renda de Salvador.
Qual foi a impressão que as meninas tiveram do filme?
Elas gostaram de se ver no telão?
Melhor sabermos de uma de elas:
o filme retrata um universo Trans nunca antes mostrado, pelo menos em Salvador, fala de amores, famílias, preconceitos e de discriminação.
Registra os relatos e as histórias de vidas pessoais de pessoas Trans.
Em tudo é perfeito pois mostra as Trans como sujeitos de direito, com amores, sonhos e perspectivas de futuro.
É um filme emocionante quando retrata a vida de casais entre as Trans e os seus parceiros e da emoção de um parceiro de trans após perder o grande amor da sua vida.
É dificil não se emocionar com o depoimento final de Emanuel para Michelle, após a morte da mesma. ( ...)
Também podemos observar que as Trans foram mostradas como pessoas comuns dentro de uma sociedade incomum e que foi muito pertinente a mostra de 'sas pessoas no final com perspectivas de futuro, como Samara que termina no Colégio Antônio Vieira 'tudando para se formar em veterinária e saindo do chavão «Trans Marginalidade ou Prostituição».
Muito forte as cenas da bombação ( ...),
é muito forte o processo de conclusão da aplicação de silicone industrial e a moldagem das formas.
É um filme excelente e recomendável para quem quer conhecer um pouco mais da vida cotidiana de Travestis e Transexuais, as trans que aparecem também são pessoas comuns que encontramos todos os dias em nosso quotidiano, o diretor não quis mostrar trans inimagináveis.
Acredito que isso servirá de impulso para demais produções. (
Depoimento de Keila Simpson, presidente da Atras -- Associação de Travestis e Transexuais de Salvador, para o Portal Marccelus).
As cenas do documentário são fortes e realmente impressionam.
Você já tinha assistido a uma bombação antes do filme?
Não.
Nunca havia assistido.
Sabia de todo o procedimento de tanto que elas me contavam.
As cenas são tão intensas quanto o prazer da travesti bombada quando se vê no 'pelho, transformada.
A parte que mais impressiona, definitivamente, é no fim da bombação, quando se massageia a região aplicada com muita força.
Parece doer muito.
Dor e alegria se misturam no óleo.
Aliás, todo o processo é impressionante na medida em que você assiste paulatinamente o corpo ganhando nova forma, ali, bem debaixo de seus olhos.
Assistindo ao filme, percebemos que a bombação é uma grande mudança na vida de uma travesti.
As que não se bombam são discriminadas por as demais?
Existe um preconceito?
A bombação pode ser considerada como um processo de aceitação?
O que o filme retrata é justamente isso:
a vontade de se afirmar para os demais e para si, através do corpo.
O desejo de se expressar por o corpo -- que todos nós temos.
Isso para as travestis é fundamental.
Mas existem aquelas que, por medo, por a falta de oportunidade ou até mesmo por a miséria absoluta, nunca conseguiram modificar o corpo.
O que une todas 'sas circunstâncias é a falta de política de saúde pública que contemple as demandas desse grupo social.
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Contato
Catharina Rocha -- Máquina de Escrever Comunicação
Número de frases: 142
catharinarocha@terra.com.br Em todos os anos, durante o mês de março, é elaborada uma vasta programação para comemorar o aniversário da cidade.
Em o ano de 2005, quando foram comemorados os 150 anos, publicamos no jornal Cinform o presente artigo.
Para resumir o motivo por o qual o texto 'tá sendo reeditado na íntegra, aqui no Overmundo, podemos lembrar da frase de uma composição do Legião Urbana: "
Mudaram as 'tações e nada (ou quase nada) mudou " na área da ação cultural transformadora e inclusiva.
O que nos deixa perplexos é o fato de que a cidade, sendo governada desde o ano 2000 por uma aliança de partidos de 'querda, ainda não atendeu aos anseios de quem tanto 'perou e 'pera do grupo.
Afinal, a expectativa era de que o segmento artístico / cultural fosse considerado prioridade no governo da mudança.
Mas o que se percebe é que na área da cultura quase tudo 'tá por fazer.
Esperamos que nos próximos aniversários, possamos registrar o melhor e mais duradouro presente, que são as políticas públicas de cultura à altura da importância que a área requer no atual momento histórico nacional e mundial.
Enquanto isso não acontece, continuaremos como propõe o ditado popular jogando " água mole em pedra dura, que tanto bate até que fura."
Esperamos que muito mais gente se some, para que nos transformemos numa forte correnteza que provoque uma real mudança de atitude, muito além da retórica, por parte dos nossos companheiros e camaradas.
Eis o texto.
Que também pode se chamar:
Aracaju nos seus 152 anos e a cultura que fica.
Os casais sabem que nas relações de amor um dos aspectos mais importantes, e que deixam marcas muito fortes na memória, é o entrosamento do casal na cama.
Existe até um ditado que se refere a isto como o'amor que fica ... '.
Como cultura é uma palavra feminina, e Aracaju também, tanto que nas peças publicitárias referentes ao aniversário dos 150 anos a nossa cidade é apresentada como uma bela menina, penso que o referido dito popular, em 'se caso, pode ser aplicado à cultura também.
Concordo com o prefeito Marcelo Déda, no 'tilo dado às comemorações do aniversário da nossa cidade, com as tradicionais entrega de medalhas, alvoradas, corridas e shows musicais.
Eu não faria diferente, afinal 'te tipo de programação me lembra as declarações de amor, as flores, os bombons e os bichos de pelúcia que quase toda mulher gosta de receber.
O problema é que apenas isso não sustenta uma relação que se quer firme, duradoura e inteira.
Mas e a cultura que fica?
Como nas coisas do amor, vai muito além dos eventos que o Governo do Estado ou Prefeitura 'tão oferecendo para celebrar o aniversario da nossa bela menina.
A cultura que fica é aquela que garante um orçamento digno para o crescimento e sustentabilidade deste setor no município.
A cultura que fica é aquela que coloca em prática leis de fomento aprovadas por a Câmara Municipal, como à de incentivo à cultura e a que institui o'Programa Vai ' que apóiam, respectivamente, as iniciativas dos artístas profissionais e dos artistas e / ou grupos culturais emergentes da periferia.
A política cultural que fica prepara agentes culturais, incluindo gestores municipais, para melhor planejar e administrar o setor na cidade.
A política cultural que fica se propõe a construir um teatro municipal.
E, principalmente, a política cultural que se quer firme, duradoura e inteira consulta os artistas, produtores culturais, intelectuais e as lideranças comunitárias para ouvir e atender as suas demandas, utilizando como pressuposto que cultura não é gasto, e sim investimento que resulta na melhoria da qualidade de vida da nossa população e daqueles que nos visitam.
A política cultural que fica é tarefa dos vereadores, que precisam discutir e aprovar a proposta de lei encaminhada por a Ecos -- Entidades Culturais Organizadas -- no ano de 2003, instituindo o Fundo Municipal de Incentivo à Cultura, conhecido no meio artístico de nossa cidade por a sigla Fica.
De o contrário, é alimentar, em relação à cidade, uma opinião / atitude do machão brasileiro, que vem desde os tempos do Brasil-Colônia, ao afirmar a existência de dois tipos ideais de relação com as mulheres:
a de um casamento formal com uma e as relações extraconjugais com outras.
As primeiras são as 'posas que cuidam da casa e dos filhos.
As outras para todo o prazer que houver em 'sa vida.
Trazendo o exemplo para Aracaju, moramos, trabalhamos, descansamos e, de vez em quando, namoramos com a nossa menina.
Já com as outras (Salvador, Recife, Fortaleza, Janeiro e São Paulo) nos divertimos, nos 'baldamos e nos deliciamos pra valer.
E, em 'te caso, vale tanto para quem gosta de lixo cultural como para quem gosta da «papa fina», do» biscoito fino», da cultura brasileira e universal.
Se no campo das relações conjugais muitos homens e mulheres 'tão conseguindo ser completos e viver juntos com plenitude, contribuindo para um novo modo de relacionamento que pode dispensar a necessidade de amantes, penso que o mesmo vale para a nossa capital.
Em 'te sentido, queremos Aracaju por inteira, dando e recebendo tudo do bom e do melhor nos dois planos:
afetivo / sexual e cultural.
Te Amo Muito ARACAJU.
P.S.:
O prefeito atual de Aracaju é Edvaldo Nogueira do PC do B, que foi reeleito em 2004, como vice-prefeito na coligação PT-PC do B. O prefeito na época em que 'se texto foi 'crito, Marcelo Déda (PT), atualmente é o nosso governador.
O Programa Vai de Aracaju, inspirado em proposta do mesmo nome do município de São Paulo, foi tranformado em lei através da Câmara Municipal no ano de 2003 e aguarda ser retirado da gaveta por a Fundação Municipal de Cultura (Funcaju).
O Fica ficou parado numa das comissões na Câmara Municipal, 'pera-se que com a posse de um suplente de vereador, Chico Buchinho, identificado com as demandas do meio artistico / cultural, o projeto possa andar.
Número de frases: 42
A 'pera também de alguma solução entre o experimentalismo metafísico vão e a linguagem boa e agradável, mas que não traz uma linguagem pessoal ou um desafio intlectual sério.
Deus e o Diabo na Terra do Sol -- resenha crítica do filme
Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, é a mais louca razão, o menos quieto choque, um ponto-destaque na cinematologia brasileira.
Ali, efetivamente, começa a despertar e a expandir o movimento de cinema denominado «novo», em relação ao qual inicia-se uma independentização das matérias produtivas, um libertar dos limitados formatos, empirismo e atitude teorética engendrando inovadoras práticas.
Todo o monumento é novidade:
as gravações sem cortes ou correção das cenas, a composição dos personagens, o inserir dos figurantes, a paisagem dos sets para filmagem, ambientação, figurino;
isso só para comentar as imagens!
Junto a isto, reinventam-se as maneiras de musicar e dialogar sobre as gravações:
todo o roteiro -- as conversas, pensamentos e letras melódicas vêm do genial meio instinto meia consciência glauberiana.
Corisco, Rosa, Manuel, Sebastião, Antônio das Mortes ...
criaturas sobrelevadas da arte cênica, captados magnitude e 'sência de cada intérprete, dão termo ao velho cinema de textos marcados e gestos premeditados;
qualquer sentimento 'pontâneo, toda manifestação teatralística emotivada ali e então já completaria o motivo de amoldar-se aí agora ao diferente atuar dos atores e atrizes, à sorte de latentes improvisos.
O sertão mundo virar mar, o oceano mutar em descampado árido;
as idéias do pobre chegarem à realidade, os desideratos dos ricos tornarem à imaginação mixuruca.
A proposição envolvida é a coragem de revoltar-se e convergir do povo à revolução ante as reprimendas:
sejam elas religiosas, econômicas ou políticas.
O sabre, a 'pingarda, a cruz -- alguns símbolos influentes em quase todas as passagens.
O diabo louro, o deus negro e o justiceiro, matador de cangaceiro:
alegorias componentes do perfil de sol-a-sol cantado e violado por o cego retirante nordestino.
Terra em Transe -- resenha crítica do filme
Terra em Transe de 1967 é um misto de filme e realidade, pois relaciona nos seus quadros elementos-personagens do país fictício El Dorado que tudo nos leva a pensar no Brasil:
Paulo, Diaz, Vieira, Fuentes, etc. são maquinalmente associados, em nosso imaginário, aos políticos marqueteiros de nossa pátria mal-amada.
Os seus carácteres, suas figuras, seus papéis avisam-nos para o futuro -- quais modelos de poder ou organização -- a vivenciarmos;
isto é, ele nos delineia pré-visões sobre algumas das conseqüências produzidas por as decisões dos mandatários que 'colhêssemos, ou fôssemos obrigados ideologicamente a compactuar com eles tais.
Além do mais, retrata a película as crises e / ou transes de um ser humano ingresso em 'se jogo capital de pressões, desejos, confinamentos e utopias;
o que então se diz ali poética, figurativa ou metalingüísticamente é o mesmo que há acontecido nos palácios, nas multinacionais e nos comícios (sem lembrar das festas privativas liberalistas ...).
A coadunação dos diálogos, fotografias e cenários absorve todo o pensamento cinemanovista de Gláuber Rocha:
aparente 'tá o propósito de misturar a transcrição fidelizada do panorama sócio-cultural da época com a experimentação técnico-conceptual marginalizada do grupo de cinegrafistas eclodintes.
Os tipos categóricos da ambição, da submissão, do impasse, e todas as outras veleidades possíveis ao indivíduo por causa das provações terrenas encontram ali responsável lição de moral, «censura» precisa e mister desnudamento à massa, a um só instantâneo 'tado mesclado aos ignorantes agires:
eis, postos aí, as funções representadas por o público.
Gláuber Rocha:
o cinema novo labirinto
para um mundo velho e um Brasil arcaico
As primeiras informações que obtivemos da produção em cinema brasileiro 'tão, sem dúvida, atreladas ao posicionamento revolucionário desse filmologista baiano cosmopolita;
suas formas peculiares de expressar em imagens e sons o resultado que as palavras não alcançariam (ao público, de imediato) é fato inédito.
Os contemporâneos e coespaciais de ele hoje são os jovens cineastas, mormente os de academia pública, os de núcleos independentes de audiovisual e de projetos cidadãos em periferias rurais-urbanas.
A compreensão do universo totimitológico por a tematização sócio-político cultural que se nos apresenta em filmes glauberianos é interessante aspecto para começar uma representação de entendimentos acerca das suas metas na produção brasileira de cinema não-comercial e identitário.
Assim como os demais movimentos libertários e humanistas mundiais e nacionais [vide nos pós-meados do século XX o Tropicalismo ou Tropicália, ao qual o autor viveu e filmou trechos em sua trajetória também], o intuito de Gláuber Rocha é apresentar um trabalho de demonstração, conscientização e modificação do panorama ao nosso entorno por a sua arte em película.
O projeto ideologizado por todos os filmes desconstrutivistas, ufânico-regionalistas, transgressistas e experimentais desse operário dos rolos e tiras dinâmico-fotográficas tem papel metodológico alicerçante para uma nova 'cola de cinegrafistas, roteiristas, críticos e atores / atrizes.
Em o texto sob leitura, e por opinião didática, empreitamos aqui uma jornada mental para acompanhar as vastas imbricações teoréticas e volumosas informações práticas irradiadas na análise sintética (!)
realizada por a pesquisa de Cristiane Nova, cujo enfoque pode ser admitido a ser a diversão lingüística em explorar os trabalhos diversos de Glauber Rocha -- seja em termos de literatura do ponto de óptica 'critural, audiovisual e / ou de apurações correlatas em outros autores presentes no pensamento glauberiano.
Em bastante sumária compreensão:
o texto vulgariza para os leigos uma mediação de maneira textual-contextual a partir da qual a autora sincretizou sua idéia.
Pincela fatos e retratos de cada pedaço componente cinematográfico de Glauber e relaciona elementos de percepção 'paço-temporal, além de pensamentos convergentes de renomados sábios de conhecimentos gerais aos do cineasta baiano.
Discorre então o percurso mágico de Glauber Rocha num tempo todo seu, de sua história mítico-realista para uma sociedade, ela também, em transe.
A fronteira entre o lógico aceitável racional e o absurdo impensável emocional:
instabilidade precisa para o pensamento evolutivo mutante.
Uma congregação harmônica do caos histórico, artístico e poético do Brasil labiríntico desvendado e reinventado por o profeta do cinema novo e por a revolução total e cotidiana transada por ele.
Palmas assim para ele, que mesmo após passados os últimos créditos do seu próprio filme, os críticos ainda teimam em encenar sua vida e morte santatuadas em suas películas, ressuscitadas em 'tes trabalhos de 'tudiosos tão engajados quanto ele queria e faria.
Acendam-se as luzes e agora chequemos o que filmar da realidade e de que jeitos poderemos ver e ouvir e sentir e pensar o mundo ...
(@ @)
Número de frases: 51
Qüão necessários são hoje os cinemanovos «Gláuberes» da ciber-era!
Recentemente, numa de minhas críticas sobre o cinema brasileiro, apontei certa falta de amadurecimento em muitas das produções aqui realizadas.
Em 'te momento, 'tou a enunciar a existência de 'sa controvérsia.
O filme «Linha de Passe», de Walter Salles e com o dirigido por Daniela Thomas, nos apresenta, de maneira veemente, a verdadeira realidade na rotina de uma família periférica da capital paulista.
Família composta por pessoas que não buscam suas identidades na criminalidade -- contrariando a justaposição feita por cineastas que se submeteram a descrever os sonhos dos originários das periferias e favelas, mas na 'perança permeada por a honestidade.
Que por sua vez é limitada ao mercado de trabalho informal ou a busca às peneiras de futebol, além da desesperada necessidade de crença, 'sa última incitada através de igrejas protestantes.
A trajetória da película é regida por interpretações plausíveis, haja vista o desempenho da personagem Cleuza, interpretada por a atriz Sandra Corveloni, ganhadora da Palma de Ouro.
Embora colorido, o filme concebe uma fotografia que me remete ao clima noir do 'tilo Nouvelle Vague de cinema, sobretudo muito visto nas obras de Godard.
Entretanto, 'ta é 'tabelecida inteligentemente como forma de preservação de uma originalidade atmosférica, típica do habitar de classes menos favorecidas.
A parceria entre Walter Salles e Daniela Thomas, percorre em 'se trabalho, por uma trilha à margem dos chavões sociais já expostos nos cinemas brasileiros.
Não há relevância em saber se a intenção de eles foi ou não diferenciar sua obra das demais produções nacionais que se submeteram a discorrer sobre o assunto em questão.
O importante mesmo é que conseguiram.
Pois nos possibilitaram sermos cúmplices de uma solidez envolvente, que traduz a narrativa no gesto, na 'pontaneidade que os abstiveram da 'peculação ou banalização dos fatos.
É preciso reconhecer que o cinema mexicano, argentino e, em proporção ainda que menor, também o cinema brasileiro têm rompido com a hermética das premiações européias e americanas.
Por outro lado, devemos nos tornar capazes do discernimento para o real valor de tais obras.
Pois muitas alcançam tal prestigio desprovidas de critérios para exprimir suas idéias ou insinuações.
É, para mim, de grande notabilidade, perceber a profundidade da proposta através da sutileza com que os diretores de «Linha de Passe» conduziram o longa.
Construindo em situações aparentemente simples, a complexidade.
Pois o que se pode apreender na busca do personagem Dario e de seus demais irmãos como uma busca para uma identidade, pode ser ainda mais profundo se pensarmos que tais desejos encontram-se associados à obsessão para provarem a sociedade que possuem postos de cidadãos, exageradamente exigido por a mesma através de um determinado nível social.
Transmitir na cena em que um jovem, filho de uma serviçal, é convidado por o filho da patroa de sua mãe, a participar de uma «pelada» no condomínio de classe média e, demonstrando sua habilidade, torna-se hostilizado por a intolerância de um dos moradores do respectivo condomínio, que por sua vez;
diante de uma indagação sobre sua atitude inóspita, exclama «Tá bom, agora eu também vou trazer o filho da minha empregada para jogar em meu time!».
Nos mostra o desprezo que sentimos por 'sa dicotomia e ao mesmo tempo nos afirma que insistimos em permanecermos demagogos, quando pensamos não sermos complacentes com tamanha 'tupidez, arrogância.
Quando vamos ao cinema e contemplamos nossas ações inconseqüentes através de determinadas mensagens, sejam 'sas pragmáticas ou metafóricas, precisamos suprimir a indolência e enxergar a verdadeira 'sência que nos compete, pois 'sa oportunidade não se encontra numa 'quina qualquer.
Bom, ao que me resta, diante do exemplo de lucidez apresentado através de uma obra cinematográfica e, sobretudo brasileira, devo parabenizar o Walter Salles e a Daniela Thomas por nos exemplificar que nem tudo 'tá perdido em despeito de nossas consciências.
Que ainda há entre os membros da classe artística, os que enxergam além da ilusão.
E, em maior importância, os que se encontram cientes de que o grande problema não 'tá na pobreza, mas na ignorância.
Os que notam na ignorância, a grande responsável por agravar ainda mais as dificuldades da população carente.
Tornando o cotidiano das pessoas que vivem em 'se contexto num purgatório.
Onde se houve a perturbadora ironia:
«Vai para onde assim, fazer exame de fezes?!"
diante de uma simples vestimenta formal, entre outras tantas provocações gratuitas e desnecessárias.
Devemos, sobretudo, parabenizar os idealizadores do filme por nos mostrar que se as classes políticas atenuassem a ignorância, não nos absteríamos em refletir sobre determinadas ações por serem provenientes de realidades menos favoráveis economicamente e desprovidas da educação, que por sua vez lhes proporcionariam a noção devida de civilidade e do que é realmente necessário para tornar suas vidas melhores, mas, discorreríamos sobre tais ações nos baseando no caráter individual de cada cidadão.
E isso, em minha opinião, é mais evoluído.
Tito Oliveira.
Número de frases: 34
Três grupos com diferentes propostas de balanço contrariam 'tereótipos atribuídos ao rap brasileiro e trazem expectativas de sucessos comparáveis ao período áureo do pagode paulista dos anos 1990.
«O que é o rap?
Ritmo E poesia.
Então primeiro o ritmo, depois a poesia.
É o ritmo que te pega, que te prende, em tudo.
Em tudo».
KL Jay, DJ dos Racionais MCs, declara a formação de um novo momento na música brasileira.
«A cultura hip hop no Brasil tá passando por um momento de mudança musical.
O cara que joga bola tem que prender as pessoas por o jeito de jogar.
O DJ tem que prender as pessoas por o jeito que toca.
Se você faz rap, tem que fazer as músicas com as batidas loucas, com balanço».
Os frutos de 'sa 'tratégia, 'se balanço que só vem de São Paulo, conquistaram pistas de dança «dos barracos de madeira às boates do Jardins», pra citar uma frase do Rosana Bronk s.
«Jogar pra Ganhar», o disco de 'tréia do grupo da zona Sul, foi lançado por a Cosa Nostra, de Ice Blue e Mano Brown, parceiros de KL Jay nos Racionais.
Foi o selo independente que lançou os últimos discos do maior grupo do Brasil e o fenômeno Sabotage.
A Cosa Nostra também aposta suas fichas em «Trutas e Quebradas» d' U Time, enquanto KL Jay editou «É O Gigante do Relatos da Invasão» por o seu Equilíbrio.
Em o dia das entrevistas, depois de um mês gelado, São Paulo acolhia os transeuntes como centenas de amantes ensolaradas e momentâneas.
Nada mais adequado para conversar sobre as produções de uma geração que já vive a assertividade orgulhosa reivindicada por os grupos predecessores.
De elas emerge uma São Paulo festiva, obstinada e que oferece seus mapas no convívio.
As redes de distribuição de 'sas músicas cheias de idéias ainda não passam por a mídia, fora uma ou outra 'barrada nos grandes veículos, mas mesmo assim já atingem as audiências mais diversas.
O Relatos é o próprio retrato disso.
Antes mesmo do lançamento da 'tréia do grupo da zona Norte, um dos melhores e mais orgânicos encontros entre rap e samba já feitos, a música «Jaçanã Picadilha» virou sucesso.
«Tivemos ajuda do DJ King, que ouviu a música, entrou em contato com a gente pra pegar, tocou e fez virar um hit nas festas.
Ele teve a coragem de chegar e tocar a música.
Depende muito dos DJs, mas acho que eles têm que fazer isso, colocar as coisas que gostam no trabalho -- se preocupar com a arte " declara Pampa, o DJ do grupo.
O passeio por o bairro periférico conduzido por as levadas malandras e sambadas de Negrinho e Thig mostra a cara de «um grupo formado por pessoas pobres, negras, trabalhadoras, felizes em ser quem são e que têm uma ansiedade», descreve o último.
Ele fala entre o samba em alto volume, jogando as frases com som final aberto enquanto abre curvas largas com seu Passat, mais do que empolgado.
Ele conseguiu transpor perfeitamente o seu jeito de ser para o seu som.
Talvez por isso «Jaçanã Picadilha» tenha batido não só nos extremos da cidade:
durante uma discotecagem que precedeu a apresentação dos Racionais MCs no Urbano, casa noturna do centro expandido, o som foi recebido com gritos e assobios de aprovação.
«Se você fizer um som bem louco os DJs vão tocar.
Não adianta fazer um som com uma batida lenta, ninguém vai dançar.
Os DJs não vão cobrar R$ 1 de você, é só a música ser boa " conta o rimador Dom Pixote, líder d' U Time, que 'tréia com o CD Trutas e Quebradas.
A graduação:
«Somos membros originais da Família RZO, que adotava vários MCs iniciantes.
Os ensaios eram na laje do Helião, e muitos caras freqüentavam pra mostrar o trabalho. (
Helião) Dava uns toques, ensinava e quem se destacava ele incluía nos shows de eles, lembra o rapper Negro Vando.
O álbum do grupo que forma ao lado de Dom Pixote e Calado " Teve produção artistica do Helião, DJ Cia (ambos RZO).
O Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock também, ajudando na composição das letras, na produção das bases, em tudo.
O Ice Blue não nos deixou sozinhos um dia no 'túdio», relata Pixote.
Nem uma revista policial interrompendo nossa visão da amplitude do mirante do Jaraguá abala sua convicção:
«Nossa mente é voltada pra fazer revolução contra 'se sistema covarde, entendeu?
Não só com idéias:
a primeira revolução é ter a música muito louca.
Isso é assumir a responsabilidade de traduzir 'sas ruas que você tá vendo, de compor o que os meninos vivem aqui, o que o Negro Vando vive no Morro da Pinga, o que meus parceiros vivem no Rincão, vivem na Arábia, vivem aqui na Xurupita.
Isso é rico demais».
A variedade do repertório de 'tréia é alicerçada por as batidas bem cuidadas e a inventividade rítmica e melódica desenvolvida na 'cola da zona Oeste.
Com diferentes pistas em mente, o disco parece dividido entre dia e noite, como se fosse um LP, o lado A -- com apresentações, bem 'critos contos da vida na quebrada e até do crime concluídos por um reggae falando de superação, e B -- onde seus raps de pista começam até incursões por os territórios do R&B, e o óbvio potencial radiofônico em âmbito nacional de «A Idéia», uma sedutora conversa durante uma balada, chama a atenção.
«Frango ensopado, picadinho ou costela?».
O almoço era bom no boteco ao lado da casa de Negreta, MC do Rosana Bronks.
Eles não tinham pressa em ser entevistados, exibindo a mesma calma compassada que apresentam rimando.
Assim como U Time, que teve cenas de suas gravações inclusas nos extras do DVD dos Racionais, o Rosana Bronks também apareceu graças ao grupo, com quem cultivam uma amizade de quinze anos.
Eles foram os primeiros convidados a participar de um disco dos Racionais.
Negreta conta que " o Brown foi para o Japão e disse: '
vou voltar com novas idéias '.
Ele voltou com o título ' 1 por Amor, 2 por Dinheiro ' para fazer uma parceria com a gente, foi quando voltamos a 'crever.
Éramos de grupos diferentes e Rosana Bronks é nome de um time de futebol que a gente tinha».
90 % das batidas aqui tem assinatura de Mano Brown, e o resultado impressiona.
As rimas " são nossa visão das coisas.
Essa idéia de falar de rolê, de até abordar problemas socias, mas de maneiras diferentes que o rap já fez», conta Zuruca.
O balanço em alta voltagem levado por eles em rimas compassadas, um desenvolvimento da vertente do rap brasileiro que tematiza as festas e rolês de quebrada, 'tá expresso na capa do CD, que vem em formato de LP duplo com um desenho que remete às capas de discos de funk dos anos 1970 e 80, a trilha sonora dos bailes onde cresceram, e já rendeu dividir o palco com Leci Brandão e " Netinho de Paula.
«É música que pode tocar em qualquer lugar.
Nossa música é universal, é pra todas as pessoas " diz Maspingon.
As últimas fotos para a matéria foram feitas durante o Dia dos Pais, na 10 Quermesse da Vila Fundão, próxima ao Jardim Rosana onde residem.
Enquanto a base de Vida Loka 2 terminava, para uma audiência repleta de crianças, em cima de um palco igualmente lotado, Mano Brown declara:
«o verdadeiro motivo para que haja quermesses 'palhadas por as periferias de São Paulo e por as periferias do Brasil é para que as palavras e as idéias sejam propagadas e eternizadas no ar, para que você leve no coração e na atitude no minuto derradeiro, no quarto 'curo, aonde você achar que tá sozinho.
Palavras que você tem que eternizar.
O motivo é 'se, nada mais.
Saúde! Muito obrigado e feliz Dia dos Pais».
Zuruca dissera dias antes:
«Nós somos fundadores da festa da Vila Fundão, depois aí começamos a fazer Quermesse da Paz no Jardim Rosana há quatro anos.
É na rua, tem barracas, vários grupos de rap e de samba.
Esse ano as festas são no último fim de semana de setembro e no primeiro de outubro, que vai ser o lançamento do Rosana Bronks.
É só chegar».
A mudança de ares no rap paulistano já 'tá em curso.
Só falta chegar mais para curtir a redenção por o balanço funk da rapaziada.
Uma versão reduzida de 'sa matéria foi publicada originalmente na edição 429 da revista ELEELA.
Número de frases: 76
Ha dez anos a companhia de dança Verve fincou 'tacas na cidade de Campo Mourão, interior do Paraná
Fernando Nunes é o nome por trás, na frente e em todos os lados da companhia Verde de Dança que há dez anos se ficou 'tacas em Campo Mourão, cidade do noroeste do Paraná.
Agora vejamos, se fazer dança no Brasil já não é das coisas mais fáceis num grande centro urbano, imagine numa cidade de perfil agrícola no interior do Paraná.
Essa provavelmente não seria a 'colha da maioria, mas foi a de Fernando.
Ele deixou os laços com a companhia de dança da família no Rio de Janeiro e em 1995 foi para a cidade a 477 km de Curitiba, onde criou a companhia.
Ele queria achar suas próprias linhas de criação.
«Minha entrada na dança tem a ver com as artes visuas e considero a dança a mais completa forma de manifestação artística.
Queria experimentar no corpo diversas mídias.
E fazer 'tudos que não pegassem nada pronto.
Tenho tela para pintar, máquina para fotografar, desenhos e o corpo para elaborar dentro desse contexto», vai soltando, o também fotógrafo e artista plástico, logo no começo da conversa.
«Em Campo Mourão havia um teatro novinho, pessoas a fim de trocar informações e projetos e as condições mínimas de custo e benefício para começar», conta.
«Queria tempo para pensar e produzir, e o encontrei.
Hoje 95 % das pessoas que trabalham com mim são de Campo Mourão e contaminam as outras», diz.
De cara, foi 'tabelecida uma parceria com a Fundação Cultural da cidade que permitiu o uso do teatro para ensaios.
Logo depois veio a Lei Municipal de Incentivo que ainda hoje é a principal alavanca da Verve e o foi para os cinco 'petáculos produzidos até agora:
Terra!, Gambiarra, Truveja Pra Nóis Chorá, (C2 H4) n-Plástico e Feique -- Em Algum Lugar, Porém, Aqui.
Hoje são oito os bailarinos, muitas pessoas entraram e saíram, reflexos das dificuldades para se manter uma equipe remunerada integralmente.
Entre os que começaram o projeto só a bailarina Mariúsa Brigoli seguiu junto e é hoje uma das coordenadoras e coreógrafas da Verve.
«Em o início a cidade e seus empresários tinham uma certa dificuldade de entender a função da Verve, mas passada uma década posso dizer que conseguimos representar a cidade.
Mas o dinheiro nunca vem fácil e não dá para divulgar como deveria».
Além de viajar o país levando nome de Campo Mourão, a companhia também a levou para o exterior.
Em abril, por exemplo, quando foi dada 'ta entrevista, parte da Verve 'tava se apresentando na Venezuela.
«É, 'tamos internacionais morando em Campo Mourão.
Mas é sempre uma luta para tudo, para manter a Lei, nossa imagem, sempre provando que é importante», diz.
As dificuldades enfrentadas por a Verve, Nunes sabe, são as reservadas para quem não conseguiu ainda se inscrever na lista dos «grandes».
No caso da dança:
Corpo, Stagium, Primeiro Ato, Débora Colker.
«Para os «menores» restam alguns reais.
Em 'te ponto a política brasileira é cruel demais.
Aliás, não tem política cultural, tem lei de incentivo», avalia.
«Em 'se sistema não basta ter um bom trabalho, tem que ser influente, tem que ser político, se relacionar.
O Corpo é um exemplo de quem consegue se manter fora do eixo Rio-São Paulo, tem patrocínio da Shell porque é competente o suficiente para manter isso».
Que ninguém pense que nas palavras de ele segue junto algum tipo de rancor.
Ele avalia a situação com a clareza de quem sabe o que pretende -- e também o caminho das pedras para chegar lá.
«A distribuição de verba pública em 'te país é algo difícil.
Isso é um fato.
As duas maiores patrocinadoras são empresas públicas e o valor que segue para poucos grupos é muito alto.
E no interior, entre o Falabella e a Verve ...?
É muito desigual.
Faço dança no interior do País, tenho apoios locais, mas eles não permitem que nossos projetos tenham grande circulação», argumenta ele, lembrando que as passagens aéreas do Brasil 'tão entre as mais caras do mundo.
«É meio desanimador ver que o PT não disse a que veio, acho que 'tão brincando com a gente.
Eu nem preciso de dinheiro, mas que comprem meus 'petáculos.
Se o Brasil tivesse mais produtores com dinheiro, mais pessoas teriam salário.
Afinal, eu gero trabalho», ressalta.
A idéia era, ano passado quando a Verve completou 10 anos, lançar um DVD.
Mas até agora o grupo não conseguiu e Nunes acha que terá de dispensar um dos bailarinos porque não consegue manter o salário.
«Estou em banho maria, ou melhor respirando, mas na UTI.
Com 'te governo não vejo saída, tá tudo muito 'tranho», diz ele que tenta angariar fundos pra editar o DVD e vender na internet.
«Minha idéia é colocar ensaios on line, tenho condições para isso, mas preciso vender o projeto», explica o coreógrafo que tem também o livro Dez Anos Fora do Eixo, sobre a história do grupo, para ser lançado.
Em relação ao Estado do Paraná, que nem Lei Estadual tem, ele fica quieto.
«Vou falar o quê?
Nunca tem verba, a lei cai toda vez.
É muito triste.
Mas, por isso me orgulho mais da cidade.
Manter uma lei por 8 anos, mesmo com mudança de governo não é pouca coisa», diz, emendando que saiu do «mar de mar para o mar de fazendas».
«Me tornei mais brasileiro.
O Rio de Janeiro se acha o centro de tudo mas tem muita maquiagem.
Não é curioso o jornal o Globo falar de dez mais companhias brasileiras e só ter grupos do Rio?»,
ironiza.
Passado o momento de desânimo diante de dificuldades bem reais, ele retoma o tom otimista, afinal 'tá longe de abaixar a cabeça " Temos um respaldo legal, uma história bacana fora do eixo.
Estou um pouco cansado e cuidando de sobreviver, mas é só para recuperar o fôlego e reagir.
Com todas as dificuldades, para uma companhia do interior fazemos bonito.
Estes dez anos são a primeira etapa, não consegui realizar tudo que queria, ainda.
Agora 'tamos nascendo para uma nova fase», finaliza em alto astral.
Serviço:
Número de frases: 65
www.verve.art.br
Você conhece o Porta Curtas?
Não? Mas gosta de assistir filmes de qualidade, certo?!
Se a resposta for positiva, eu não posso deixar de indicar 'se excelente veículo de difusão da cultural nacional que se chama Porta Curtas, e que atualmente conta com mais de 600 filmes disponíveis para exibição online gratuita e na íntegra.
Só para se ter uma idéia, tem o premiadíssimo Ilha das Flores, do genial Jorge Furtado, tem curtas do José Roberto Torero, da Tata Amaral, Marcos Magalhães, Cao Hamburger, Allan Sieber e muitos outros.
Ah! E toda semana entram filmes novos no acervo.
O Porta Curtas é um site visualmente rico e atraente.
Através de cores fortes e vibrantes e ilustrações criativas, o Porta Curtas nos oferece uma interface ao mesmo tempo agradável e inquietante.
Inquietante pois ao acessar a página ficamos diante de uma infinidade de opções:
podemos assistir um vídeo, pesquisar festivais, ler notícias, etc..
Essa infinidade de informações e opções poderia ser um problema, com tantas possibilidades é fácil se perder ou perder o foco.
No entanto, a arquitetura da página é simples, funcional e bem organizada.
A divisão por colunas não permite que o usuário se perca com facilidade.
A excelente utilização das cores facilita a navegação.
A princípio seria interessante ao internauta cadastrar-se para poder ser informado regularmente, através de e-mails, das novas aquisições que passam a fazer parte do acervo disponibilizado por o site.
Em a página inicial encontra-se um eficiente mecanismo de busca (Ache um Curta) que permite a rápida localização dos filmes procurados.
Se você não souber o nome da produção que 'tá procurando, mas souber outros dados como o diretor, atores e atrizes, ano de realização, duração, prêmios, sinopse ou mesmo parte dos diálogos, você pode recorrer à busca detalhada.
Outro recurso valioso disponível na página inicial é o link «Minha Cinemateca» através do qual o internauta pode criar uma lista de curtas que tenha visto e gostado ou que possam servir como referências para seu trabalho.
Um ponto forte do site são os curtas recomendados na seção Em Destaque.
Para facilitar ao visitante o conhecimento do acervo e as possibilidades do mesmo são dadas informações iniciais, numa breve sinopse acompanhada de fotografia da produção para incentivar a visualização da obra.
Além de tudo isso, o Porta Curtas disponibiliza uma relação dos filmes mais assistidos e dos mais cotados (de acordo com a avaliação dos internautas).
Liderando a relação 'tão, entre os mais assistidos, Almas em Chamas, o clássico Ilha das Flores e, entre os mais cotados, Uma História de Futebol (Indicado ao Oscar, um relato sobre a infância de Pelé) e Coruja.
O visitante ainda tem como opções assistir um filme 'colhido aleatoriamente através da Roleta, obter mais informações sobre curtas com as indicações de outros sites em + Curtas ou saber mais a respeito do setor com as notícias em Curtinhas.
Aproveitei a oportunidade de entrar no Porta Curtas e revi alguns daqueles incríveis filmes disponíveis no acervo do site.
Emocionei-me particularmente com Átimo, de Romeu di Sessade Paulo Machline, que nos conta a 'tória de um casal que decide tentar a vida na Europa.
Mas ela vai e ele acaba ficando.
Cinco anos depois ela volta.
Acredito que todos nós temos muita coisa para contar, muitos relatos a fazer, histórias vividas por cada um de nós ou mesmo inventadas a partir de nossa imaginação, de nosso contato com a realidade e com a vida.
Acho que, por isso, os curta-metragens nacionais servem como importante apoio para o resgate da memória e para a valorização da criatividade existente em nosso país.
Acessar o Porta Curtas, bancado por a nobre iniciativa da Petrobras, pode ser um canal fantástico para singrar novos mares e redescobrir nosso país, nossa gente e nossa cultura.
Que tal levantar as velas e partir para 'sa nova e grandiosa aventura?
Boa viagem ...
Número de frases: 32
Luz e sombra, 'curidão e rutilância dão-se sempre as mãos na eterna passagem das coisas, e no eterno retorno de tudo."
Caro pensante (além do mundano)
Se você veio por o apelativo título, deixa eu avisar antes que haja mal-entendido:
Esse texto não tem nada a ver com animais ou 'portes, e sim sobre bichos que nos tornamos e 'portes que fazemos sem muitas vezes nos darmos conta.;)
Vamos falar de competição e repressão, do tipo mais subliminar;
rotinas que vão se repetindo e ganhando força por debaixo dos nossos tapetes e nos influenciando, até nos modificando, sem que tenhamos total consciência de elas.
Pra começar temos que falar de preconceitos.
Assunto difícil, pois o risco de se parecer moralista é grande.
Então assumo de cara que, apesar de 'tar sempre, há anos, tentando localizar e me despir dos meus, sempre sobram vários, sempre alguns resistem, mesmo «domados».
Afinal, impossível não ter preconceitos, é que nem mentir ...
Sem nos dar conta, dizemos diversas mentirinhas por dia ...
afinal 'sas são coisas inerentes à trama social do ser humano.
O grande problema é quando nos acomodamos e paramos de observar, questionar, transformar nossos preconceitos.
O exercício da observação é contínuo e sem fim, e é interessante notar que muitos de eles nós fomos educados pra ter desde cedo.
Por exemplo: desde que nos entendemos por gente, vivemos na competitiva cultura do «melhor» e do «mais bonito».
Abrimos o jornal e vemos «os melhores» do ano, a publicidade diz que é «o filme do ano» ou no rádio se ouve do melhor bar pra se freqüentar ou de lugares que só tem «gente bonita».
Mas como assim «o melhor» ou «o mais bonito (a)»??
Como é que as pessoas podem determinar e generalizar uma coisa tão pessoal e relativa?
Quem determina o que é bom?
Você? Seu vizinho com o gosto oposto ao seu?
A mídia??
Tudo bem, viva a liberdade de ter gosto pessoal e critério, de se 'colher o que é ruim ou bom pra nós mesmos.
Mas ao rotularmos publicamente algo de «bom» ou «ruim», 'tamos, sem sentir, desrespeitando a própria relatividade, que nos é primordial, que é uma das coisas mais interessantes e importantes da vida.
Freqüentemente converso sobre isso com pessoas que dizem, em público (fóruns na internet, papo num bar, publicações em blogs etc.) coisas como «tal musica é horrivel»,» tal disco é o melhor».
É a mesma situação.
Não percebemos o quanto isso vai de encontro ao respeito da nossa própria liberdade também.
Vejam bem, não se trata de não ter liberdade de se expressar.
Mas se expressar com respeito, seguir a regra elementar da liberdade:
ela termina onde começa a alheia.
Então há uma enorme diferença entre gosto pessoal e julgamento.
Entre dizer «não curto» e afirmar «é horrível»!
É aparentemente pequeno, mas diferência totalmente uma mentalidade individual, respeitosa e consciente de uma generalizadora, preconceituosa e destrutiva.
Afinal, não existe «bom» ou «ruim», existe o apropriado ao contexto ou não.
Portanto, qual o sentido de alegar que tal música, filme, restaurante etc. é o «melhor» ou afirmar que tal pessoa é «feia» e outra «bonita»??
Alguém me diz, por favor.
Tudo isso são sinais da nossa cultura da mídia, do marketing acima de tudo.
A depreciação parece ganhar cada vez mais 'paço.
Vocês lembram daquela propaganda da carteirinha da Jovem Pan, que dizia «só burro não tem»?
É um bom exemplo do crescimento da falta de respeito à individualidade.
Hoje em dia vale até depreciar quem náo consome como o anunciante quer ...
Vamos observar isso sempre, e lutar contra tudo que deprecie ou censure o próximo! '
O Mico
E já que tou falando de censurar o próximo:
existem expressões, que correm livremente por a nossa cultura da competitividade, que são muitas vezes censuradoras de forma tácita, e censuramos sem nos dar conta.
Ex: expressões como «menos, fulano, menos»,» fala sério «e» vamos combinar «(dependendo de como são usadas, claro) e principalmente» mico " são todas de teor julgador, padronizador ou repressivo.
São expressões opressivas, reflexo de uma cultura ditadora de costumes e de exclusão (quem náo segue as regras é discriminado).
«Pagar mico», então, é uma que aprisiona a todos, pois quem censura o outro acaba se auto-censurando automaticamente:
Não pode dançar como quer, se expressar como quer, se vestir como quer, porque aí 'tá passivo a «mico» ...
E todo mundo perde, porque só é um imenso incentivo à padronização, a atacar o diferente, à mais pura repressão.
Infelizmente, hoje em dia você abre um respeitado jornal e tem lá:
«O mico do ano» ...
Alguns consideram divertido, lúdico, mas não é incentivo a uma expressão que contém tudo de negativo descrito acima?
O que podemos fazer?
Depende de nós, se acharmos realmente inapropriado, não adotarmos ou sermos coniventes com 'sa mentalidade.
Quem faz algo inapropriado provavelmente merece críticas, mas o que não pode é alguém ser criticado só por ter sua personalidade e comportamento únicos.
Pra terminar, deixo claro que sou um ser humano cheio de coisas a serem trabalhadas.
Não sou ninguém pra dar qualquer «lição de moral», não gosto nem um pouco de» fiscais do politicamente-correto " e também não faço aqui protesto nem reclamação.
São só pontos de vista que eu mesmo tento exercitar no meu dia-a-dia, e que tomei a liberdade de dividir com vocês.
Acredito que temos que modificar, pouco a pouco, a «cultura do mico» a do «melhor» pra sermos mais livres e felizes.
É um exercício, como tudo na vida, que nunca é tarde pra ser iniciado.
Número de frases: 60
abraço despido (com todo respeito!)
O livro «Motorista Gregório: Martir ou Santo?», de William Palha Dias e Delfino Vital da Cunha Araújo, relata, sob forma de romance, o crescimento da fama entre os que acreditam nos poderes milagreiros do jovem paraibano Gregório Pereira dos Santos, que foi executado no início do século passado às margens do Rio Poty, em Teresina, depois de preso por três dias sem comida e água.
O livro conta a tragédia do motorista que chocou a população local, vista sob ótica de jornalista, personagem que busca entender importância do mito para a religiosidade popular.
Como o próprio título sugere, o livro pretende analisar as facetas de um homem comum que a fé de pessoas simples colocaram no altar, a exemplo de tantos outros casos 'palhados por o Brasil e por o mundo.
Em 1927, o adolescente Gregório foi levado à cidade de Barras, 119 km ao norte da capital, para trabalhar como motorista do único automóvel existente na região, que pertenceu a um comerciante e depois à paróquia.
O padre da cidadezinha na época, Monsenhor Lindolfo Uchoa, preparava-se junto com autoridades locais para receber a visita do bispo diocesano de Teresina, D. Severino Vieira de Melo.
O grupo rumou então para a capital a fim de conduzir o bispo até Barras.
Em a saída da cidade para a capital, o automóvel dirigido por Gregório, num infeliz acidente, atropelou e matou o filho do tenente-delegado Florentino Cardoso.
Recuperando-se ainda de uma doença, a criança não resistiu aos graves ferimentos do choque com o automóvel e sua morte causou comoção em toda a região.
Conhecido por sua braveza, Florentino Cardoso manteve o jovem Gregório Preso durante três longos dias, sem comida nem água.
A o ter a certeza do falecimento do filho, o delegado trouxe o motorista acorrentado até Teresina, mas precisamente a margem do Rio Poty, na divisa entre os bairros Cabral e Porenquanto, e o executou com três tiros.
Testemunhas afirmam que Gregório teria morrido clamando por água.
É comum passar por o memorial em forma de gota erigido em sua homenagem e ver dezenas de garrafas d ´ água, ex-votos dos que acreditam terem sido agraciados por a interseção divina do Finado Gregório.
Aos poucos, a sua figura ganhou a piedade popular e, por as condições de sua morte, cresceu a idéia de que se tornaria um intercessor divino, um eleito.
«A maneira brutal com que os fatos se efetivaram, por certo, ensejou oportunidade para que a crendice popular revigorasse, transformando aquele inexperiente profissional num símbolo, até certo ponto, divinizado», analisam os autores William Palha Dias e Delfino Vital da Cunha Araújo.
Eles optaram por romancear a história colocando o fato como um relato do personagem Apoliano Lemos, jornalista conterrâneo de Gregório que vem a Teresina por causa da inauguração do monumento ao motorista, localizado no suposto local onde ele teria sido executado, hoje região da principal avenida da cidade e que a acesso à zona leste da capital.
O monumento em forma de gota d' água foi erigido em 1983.
Apesar de reproduzir uma tendência do inconsciente da população, Palha Dias e Cunha Araújo fazem um contraponto sobre os limites reais entre fato e mito, envolto em brumas por a vontade de transformar o homem em santo.
«A crescente preocupação popular em aumentar a dimensão das ocorrências fez com que a notícia (do assassinato de Gregório) se 'palhasse e, sem uma análise mais prudente ou meditação cautelosa, as coisas concorressem para impulsionar o ardor nos corações empenhados em dar vazão às emoções da fé em relação ao sobrenatural».
Palha Dias teve um outro romance seu, «Palha de Arroz», adaptado para o cinema.
Quem sabe o romance sobre Finado Gregório não forneça subsídio para um novo roteiro, já que à tragédia já rendeu um documentário feito por uma TV local.
Número de frases: 21
Eu acho o YouTube a coisa mais bacana que surgiu na internet nos últimos tempos.
Um dia desses passei horas relembrando a minha (já distante) infância, vendo e revendo vídeos dos 'peciais que a Globo fazia nos anos 80, como Arca de Noé, Pirlimpimpim e até alguns trechos dos Trapalhões, como a histórica interpretação de Teresinha, cantada por a Maria Bethânia e dublada por o Didi, herói dos meus tempos imberbes.
Mas hoje vi uma coisa que nunca tinha visto.
E fiquei empolgado com as possibilidades disso.
Trata-se do Sr. Orgastic.
Ou Sérgio Francischini, na vida real.
Alguém já tinha visto / ouvido falar?
Eu também não.
É um pequeno vídeo, de 30 segundos, que, em si, não tem nada de mais.
Mostra um carinha com um visual meio glam, provavelmente numa festa, ou fim de festa, que fala umas bobagens para a câmera.
Se qualquer um de nós assistisse a isso sentado em frente à TV, entre amigos ou em família, o trecho não despertaria reação maior do que algumas risadas meio sem graça.
Mas no YouTube é diferente.
Sabe-se lá como, o vídeo caiu lá.
Hoje em dia, tudo cai lá.
E se tá na rede, é peixe.
E 'se peixe foi pescado por milhares de internautas.
Até o momento, em apenas uma das fontes, foi assistido mais de 80 mil vezes.
Até aí, nenhuma grande novidade.
Existem outros já vistos por milhões de pessoas, como a «Evolução da Dança», de Judson Laipply (o mais assistido em todos os tempos no You Tube), ou o'Joseph Climber ', dos Melhores do Mundo.
Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de «covers» do Sr. Orgastic.
Eu contei rapidamente e vi mais de 20.
São, em sua maioria, adolescentes que imitam o protagonista da história e o seu modo afetado de falar.
Eles sabem o texto de cor (assim como eu já soube o famoso ' Trote da Telerj ' de cor também), e ficam repetindo para a câmera, tentando reproduzir o original ou apenas criando as suas próprias versões.
Fiquei encucado e fui procurar saber quem é 'se Sr. Orgastic.
Descobri que ele tem o sétimo fotolog mais acessado do Brasil, com 9 mil visitas por semana.
É uma audiência enorme para qualquer um.
Especialmente para alguém que, aparentemente, não tem muito a dizer.
Mas certamente sabe utilizar a internet para auto-promo ção de forma brilhante.
Passei a me perguntar o porquê desse fenômeno.
Até hoje de manhã, nunca tinha 'cutado falar do rapaz, e agora descubro que se trata de uma celebridade online.
Parando pra pensar, não é muito difícil entender o que acontece.
A geração Orkut 'tá acostumada a bisbilhotar.
A privacidade foi para as cucuias, e 'ses jovens (falando assim me sinto velho pacas) não parecem se incomodar com isso.
Pelo contrário, gostam muito.
Sendo um clone do Sr. Orgastic, eles procuram se divertir entre amigos e, por que não?, '
roubar ' um pouco da luz dos holofotes virados para o rapaz.
Fazem o vídeo, mostram pra uns, colocam na rede e, voilá, 'tão ali, indexados com o original.
Ninguém sabe de onde são, e isso importa cada vez menos.
Mas de alguma maneira 'tão em contato, fazendo uma criação coletiva (e 'pontânea, principalmente).
As possibilidades para isso são gigantescas, já que 'sa tecnologia ainda deve avançar muito, e rápido.
Eu não sei quanto tempo vai durar a fama do sujeito, mas ele já foi até entrevistado por a Adriane Galisteu.
Seu Luis Pareto, que teve a infelicidade de ligar errado ao reclamar de um telefone, ficou conhecido nos primórdios da rede, uns 8 anos atrás.
A nutricionista Ruth Lemos é mais recente, e com seu sanduíche-íche virou até garota-propaganda de empresa telefônica.
E agora, o Sr. Orgastic é, salvo engano, a maior celebridade brasileira no YouTube.
Olha, não sei não, mas juro que não vou me assustar se 'se cara em breve aparecer na TV anunciando algum produto que «ar-ra-sa!».
Número de frases: 45
Todo mundo já ouviu a história de alguém -- um tio, um vizinho, um personagem de novela -- que saiu pra comprar cigarro na padaria e nunca mais voltou.
A peça 121.023 J, em cartaz no Teatrix, revoluciona 'ta história ao falar sobre um jovem que saiu de casa para comprar, em vez dos cigarros, pão.
Mas a revolução pára por aí:
trata-se de um 'petáculo que nos mostra, ou melhor, nos relembra tudo o que já 'tamos cansados de ver sobre campos de concentração, sobre preconceitos, sobre a guerra.
São os mesmos campos de concentração da Lista de Schindler do Spielberg, d' A Vida é Bela do Benigni e até mesmo o da Olga, do noveleiro melodramático Jayme Monjardim.
Em a trama, o rapaz em questão é surpreendido na rua por um soldado nazista que o prende, e sem saber do que 'tá sendo acusado, é levado a um campo de concentração.
Qualquer semelhança com O Processo de Kafka é mera forçação de barra de alguns textos que li por aí, de autores preguiçosos que sequer se deram o trabalho de ver o 'petáculo para perceber que a acusação seja talvez um dos pontos menos explorados no 'petáculo.
Em a dramaturgia, o elemento mais curioso é o personagem que interfere no pensamento do protagonista o tempo todo, num diálogo improvável que amarra todo o 'petáculo no final (dá vontade de contar, mas eu vou me segurar).
Mas que não é suficiente para que o texto que Renata Jesion 'creveu inspirada na vida de seu pai traga algo de realmente inovador.
Os elementos que dão a maior força ao 'petáculo são, na verdade, os recursos cênicos e lúdicos utilizados na encenação.
Aviõezinhos, maquetes, mini-beliches e pequenas cerquinhas de arame farpado dão conta de trazer um bocado de novidade para um universo já tão explorado.
A excelente e criativa utilização destes elementos complementa o desempenho do elenco encabeçado por a própria Renata Jesion, que cria um personagem cômico distanciado do universo tratado, gerando um 'tranhamento e um desconforto tão pertinentes que ajudam a minimizar a sensação de dèja vu (embora em alguns momentos seja praticamente impossível de não se lembrar de Benigni).
Em o final das contas, vale questionar a forma como o passado recente da humanidade vem sendo contado com base nas mesmas referências (que eu não saberia dizer quais são).
Logicamente é sempre importante que a arte se proponha a discutir e a observar o mundo em que ela se insere, mas é desejável que ela seja sempre renovada, em sua formaou conteúdo, para não correr atrás do próprio rabo.
Número de frases: 14
Em 'tas horas, particularmente prefiro alguma dramaturgia mais ousada ou uma encenação que ao menos compense 'sa falta de ousadia.
O 'critor argentino Jorge Luis Borges dizia que as bibliotecas 'tão povoadas de 'píritos, pois livros são como sarcófagos onde hibernam as almas dos autores.
Sim, gênios literários são capazes de derramar a 'sência do próprio 'pírito nas entrelinhas dos textos.
De a viscosidade das narrativas emergem idéias e sensações que, ao serem interpretadas na leitura, ressuscitam e flutuam por a nossa imaginação, passando a iluminar as profundezas de nossa inconsciência.
É por isso que grandes 'critores tornam-se imortais.
Eles renascem em pedaços a cada lampejo de nossa inteligência no exercício da leitura de suas obras.
Quando nos debruçamos sobre um livro e nos deixamos hipnotizar por o 'pírito do autor, somos levados, passo a passo, a um labirinto de experiências novas que magnetizam nossa alma e inspiram nossa percepção.
Através da literatura percebemos constelações de realidades invisíveis e enxergamos a multiplicidade de possibilidades da vida;
mas é imprescindível travar 'se contato na juventude, de preferência antes dos 20 anos, pois em 'se período nossa alma ainda 'tá fresca, maleável, sedenta de vida e repleta de eletricidade.
Velhos têm a alma seca, dura, enfastiada e 'cura.
Tornar-se adulto sem mergulhar na literatura embrutece a alma.
Quem passa por a vida sem curtir a experiência literária deixa de vivenciar uma das sutilezas mais delicadas do 'pírito humano.
Quando falo de literatura em sala de aula, meus alunos sempre me cobram sugestões para iniciar-se em 'sa descoberta.
Eis aí, então, uma pequena lista de alguns 'critores que fizeram minha cabeça na adolescência.
Em a verdade, eles mais me perturbaram do que ofereceram respostas;
mas é justamente por isso que são bons:
é assim que eles ensinam a pensar.
Deixei de lado os autores que li depois dos 20, pois a idéia aqui é dizer coisas que de fato interessem a uma jovem mente inquieta.
Evidentemente, prefiro mencionar 'critores, e não as obras, porque a 'sência de cada autor dificilmente se reduz a um livro só.
Por fim, se cada um de eles me ensinou alguma coisa diferente, não quer dizer que ensinem as mesmas coisas a outros leitores.
A lista é totalmente anárquica;
os 'critores se sucedem de acordo com as regras secretas de minha memória.
Sugiro que você leia com calma, parando de autor em autor, para refletir bravamente sobre cada uma das provocações.
É assim que se faz.
Pois bem, com William Burroughs aprendi que não devemos acreditar em ninguém nem tampouco duvidar do que quer que seja.
Com Gabriel García-Marquez, que a ficção é mais real que 'sa fantasia que chamamos de realidade.
Com Jorge Castañeda, que o mundo é muito mais colorido do que suportam os olhos.
Com Lewis Carrol, que a lógica da realidade é incoerente, mas as coisas são assim mesmo.
Com Jorge Luis Borges, que o enigma é perene, pois a mente humana é um labirinto de 'pelhos.
Dostoievski me mostrou que somos povoados por demônios:
nossos maiores inimigos 'tão dentro de nós mesmos.
Com Montaigne, aprendi que filosofar é aprender a morrer.
Com Nabokov, percebi que a inocência pinta o demônio de rosa.
Com Voltaire, que o otimismo aleija.
Com Turgeniev, que amor e rancor tropeçam no baile da rima.
Brönte iluminou com trevas as profundezas do amor.
Com Choderlos de Laclos, aprendi que a paixão é um suicídio no abismo.
Com George Simenon percebi que os homens perspicazes não fazem mais que tatear suas dúvidas até que o acaso ilumine uma intuição.
Com Oswald de Andrade descobri que um intelectual é um canibal.
Com Millôr Fernandes aprendi que quando a gente menos 'pera, o óbvio nos surpreende.
Com Aldous Huxley, que o mundo é do tamanho de nossa percepção.
Ele me mostrou também que pensar é um enorme prazer.
Com Oscar Wilde, aprendi que a melhor maneira de se livrar de uma tentação é cedendo a ela.
Com Jack Kerouac, que o improviso da vagabundagem é o supra-sumo da criatividade selvagem.
Com Campos de Carvalho, que a lucidez é um disfarce da loucura.
Com Tolstoi, percebi que o caráter é a maior medida do homem.
Com Herman Hesse, que é preciso subir as 'cadas do inferno para alcançar o céu.
Com Gogol, que o humano é um animal ridículo, do berço ao caixão.
Com Nietzsche, que o projeto humano é superar-se ao infinito.
Com Salinger, que a autoconfiança se ergue sob um pântano de insegurança.
A propósito, se eu devesse indicar apenas um livro a um adolescente, sugeriria O Apanhador no campo de centeio, de Salinger.
Com George Orwell aprendi que podemos ser controlados feito um pacote de presunto se deixarmos os políticos apropriarem-se do poder do Estado.
Com Mário de Andrade, que o Brasil não tem história:
tem rapsódia.
Com Mário Quintana, que o autodidata é um ignorante por conta própria (que na minha opinião, ainda é melhor que o ignorante graduado ...).
Com Fernando Pessoa, aprendi que o homem é divino mesmo sem a existência de Deus.
Com Saramago, que o limite entre o homem e a besta é um fio de ficção.
Com Rachel de Queiroz, que a mulher é um gigante amedrontado.
Com Kafka, que quando o inacreditável torna-se comum, nossa sensibilidade se anestesia.
Com Paulo Leminski aprendi que a poesia pode te virar do avesso.
Com o Chacal, que poesia é caso de polícia.
Com Allen Ginsberg, que a poesia é um entorpecente.
Com Rimbaud, que a poesia, afinal, é inútil como a vida ...
Chega.
Esses foram alguns dos autores básicos de minha iniciação literária.
Depois vieram muitos outros -- Guimarães Rosa, Mário Palmério, Lobo Antunes, Philip Roth etc ...--
que ainda me acompanham no meu amadurecimento.
No entanto, sei que nada se compara em grandeza e intensidade com tudo aquilo que ainda não li.
A literatura é uma fonte mágica que, quanto mais se bebe, mais seca fica a garganta.
Quanto mais livros devoramos, mais famintos ficamos. Quanto mais
caminhamos, maior o labirinto ...
Número de frases: 71
H á muitos anos atrás, por os idos 58/59, à época da explosão do baião, os irmãos Zé, Chico e João montaram o trio lá no sertão.
N ascidos no Coroatá, comunidade rural enclavada entre a divisa RN / PB, eles eram catadores de algodão, mas também tinham pendores para a arte.
à custa de muita confusão com seu pai Cezário, quando fez 18 anos Zé viajou a uma cidade para comprar uma ...
sanfona. E não demorou a aprender logo os primeiros chorinhos, as primeiras valsas, embasbacado por as teclas brancas do instrumento e animado por um aparelho surgido naqueles dias por ali onde moravam, que tinha o nome de rádio e onde eles 'cutavam um certo Luiz Gonzaga e um tal Mário Zan.
E mbalados, Chico e João desataram a batucar.
O primeiro, mais jovem, aprendeu a bater o pandeiro, e o outro passou a tocar um instrumento feito de pau oco que era chamado melê, e que naquele tempo substituía o zabumba.
L ogo-logo os três começaram a fazer festa, muita festa.
M uitas festas.
F oram aparecendo os primeiros convites para bailes na vizinhança.
C ompraram bicicletas com farol, e por os fins de semana, após o duro trabalho na roça, partiam pedalando por as 'tradas do sertão até onde o arrastapé iria acontecer.
M uitas vezes 'sas distâncias eram realmente longas, e os tocadores tinham que já sair pelo meio da tarde para alcançar cedo o local onde se apresentariam.
C hegados, o ritual continuava com um jantar oferecido por os donos da casa, banquete que habitualmente incluía uma galinha caipira engordada no chiqueiro para a ocasião.
à quela hora tinham aprontado o salão com uma decoração simplíssima, à base de arranjos improvisados com 'tacas e ramos de árvores, além é claro, do tradicional candeeiro a gás.
N o terreiro, às voltas da quadra onde aconteceria o fuzuê, eram montadas algumas bancas para a venda das bebidas e dos tira-gostos, e onde normalmente também eram deixadas as armas levadas por os dançadores, muitos de eles homens valentes e alguns até envolvidos em confusões mal resolvidas.
C erta vez, fui levado menino a um lugar como o que descrevi.
C alcei as botas e fiz caminhada de léguas.
A alegria de chegar era ainda maior porque à medida que nos aproximávamos, íamos começando a ouvir a pancada do pandeiro como que a marcar o ritmo da 'curidão que ia descendo com a noite.
O céu muito 'trelado daquelas noites do luar do sertão cedia uma mágica atmosfera àqueles encontros ao pé das serras, e invariavelmente realmente as despedidas não eram aceitas antes do sol raiar.
N os anos sessenta seu Zé mudou para a Várzea da Caatinga, pequeno povoado ao lado do Patu.
N os setenta, conheceu as máquinas de som.
C omprou amplificadores de corrente alternada (AC / DC) e modernizou-se, passando a fazer suas apresentações nos sítios, puxado à potência de baterias de automóvel.
F oi quando precisou de um cantor e chamou para o conjunto Edmundo Gabriel, que assumiu o papel de Chico, que se mandou para as bandas do Goiás.
J oão também deixaria de tocar.
A partir de então, quando os forrós começaram a ficar cada vez mais urbanos, integrou-se às novas modalidades do gênero.
E xperimentou.
J orge de Altinho, Elba Ramalho, Sivuca ...
sem deixar de lado Os 3 do Nordeste, o Trio Nordestino, Zé Paraíba, e principalmente um artista fabuloso que desde sempre ele interpreta:
Nóca do Acordeon.
M orando em Natal desde o começo dos 90, agora sexagenário, Zédi Cezário é um sujeito admirado por o seu carisma e fidelidade à arte.
É ímpar.
É bom para ver e melhor ainda pra dançar.
O uça!
Número de frases: 32
Fã de heavy-metal e devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Antônio Snake é só sucesso.
Com receita infalível que consiste em sexo explícito (praticado só por paraenses) em belas paisagens da floresta, seus filmes começam a ganhar o mercado internacional
Antônio Snake é gente que faz.
Ator, produtor, diretor, editor e distribuidor, ele é a peça central -- na verdade, a única -- da nascente indústria do filme pornô amazônico.
Seus filmes vendem bem (só a série Cotijuba extremamente anal já 'tá no volume 6), ele é reconhecido nas ruas, dá autógrafos e já não precisa mais implorar para que as mulheres participem de seus filmes.
Além disso, Snake começa a experimentar um certo reconhecimento internacional, com filmes distribuídos na Holanda, Dinamarca e em outros países europeus.
Nada mal para quem, até pouco tempo, trabalhava como entregador numa empresa de distribuição de gás de cozinha.
Entre uma entrega e outra, Snake aproveitava para fazer fotos amadoras de sua namorada e de outras meninas com quem saía.
Em 'sa época, o público das suas, digamos, produções se limitava a ele mesmo e ao segurança da empresa em que trabalhava, o maior incentivador para que ele largasse os botijões de gás e se lançasse na carreira de produtor pornô, segundo o cineasta.
«O cara pirava nas minhas fotos e dizia que eu levava jeito para a coisa.
Vivia metendo corda para eu comprar uma câmera de vídeo e fazer filmes.
Até que recebi uma grana de umas férias e comprei uma.
Em o início filmava e não mostrava pra ninguém.
Ficava vendo sozinho e pensava «égua, bacana isso», conta ele.
O salto dos vídeos caseiros para a indústria do pornô só aconteceria em 1997, quando Snake tomou coragem e lançou Cotijuba -- Ilha do Prazer devastação anal Vol. 1, que, apesar de ter dado bastante dinheiro, rendeu 15 dias de prisão para o cineasta após ele ser acusado de usar menores de idade nas gravações.
Depois de puxar uma cana, Snake foi inocentado, pois ficou provado que a menina falsificou a idade para participar das filmagens.
Como já dizia Malcolm MacLaren:
«Não existe publicidade ruim, só publicidade».
Após a sua prisão, o 'cândalo acabou atraindo o interesse local por as obras de Snake, o que o levou a investir sete mil reais numa seqüência para Cotijuba -- Ilha do Prazer.
De 'sa vez foi tudo nos conformes e o filme vendeu bem, tanto para as locadoras quanto para o mercado de vídeo doméstico.
Atualmente Snake comanda a Amazônia Sex, uma pequena produtora de vídeo encarregada de produzir e distribuir os seus filmes.
A temática continua a mesma dos tempos de Ilha do Prazer:
o sexo explícito protagonizado por paraenses aliado às belas paisagens da região amazônica e aos pontos turísticos de Belém do Pará.
Para o cineasta, além de ser um diferencial dentro das produções brasileiras, 'sa postura é também uma jogada de marketing.
«Tudo meu é regional e eu faço questão disso.
Tu nunca vai comer aquelas loiras dos filmes da Private, rapaz.
Mas as meninas que eu uso nos meus filmes são meninas comuns, daqui de Belém.
Podia ser a menina da tua 'cola, do teu prédio ...
É por isso que o meu slogan é «Uma de elas pode ser a sua vizinha».
Isso dá certo porque o cara se identifica e fica naquela expectativa de ver transando uma menina que um dia pode ser acessível a ele.
Tanto que o que tem de gente que liga aqui querendo saber de elas não é brincadeira», explica.
Apesar do regionalismo de seus filmes, só não vá falar para ele de carimbó, tecnobrega e outros ritmos paraenses, pois o negócio de Snake é mesmo o rock, 'pecialmente o heavy-metal.
«As trilhas dos meus filmes sempre trazem grupos de rock.
Odeio brega.
Dia desses até briguei com a vendedora de uma loja de surf daqui.
Cheguei lá e tava tocando Banda Calypso.
Porra, brother, Calypso em loja de surf?
É um desrespeito.
Mandei a dona da loja tomar no cu e não voltei lá nunca mais.
Eu gosto de rock.
E só atuo usando camisas do Iron Maiden, dos Misfits e do Whitesnake, os meus grupos preferidos.
Aliás, «Antônio Snake» é uma homenagem ao Whitesnake, a banda de rock que mais curto."
Mas e a opção por os monumentos e prédios históricos de Belém?
Seria a produtora de Snake uma 'pécie de Paratur pornô?
É possível que sim, já que outra de suas manias é mostrar os pontos turísticos da cidade em seus filmes.
Até mesmo como forma de acabar com certos preconceitos com relação ao " Norte do Brasil.
«O Buttman faz os filmes de ele em Los Angeles, mostrando para o mundo a cidade em que ele mora.
Eu, como não posso ir pra lá, faço os meus no Ver-O-Peso.
Assim eu mostro que aqui em Belém a gente não vive no meio do mato, que não somos um bando de gente atrasada.
Outro dia eu tava em João Pessoa filmando e um cara veio perguntar se aqui em Belém a gente morava em oca.
Porra, brother, não me fala de oca.
Oca eu só vi uma vez e foi por a televisão.
Fico puto com isso."
Tudo bem.
Mas é o próprio Snake o primeiro a admitir que foi a novidade de ver um filme pornô feito na Amazônia -- no imaginário mundial uma região exótica, repleta de índios, animais selvagens e florestas exuberantes -- que lhe abriu as portas do mercado internacional.
Especialmente para a Europa, onde os filmes da Amazônia Sex começam a chegar nas lojas e locadoras 'pecializadas.
Cidade portuária e porta de entrada para a região amazônica, Belém tem uma longa tradição de zonas de prostituição.
E foi observando o movimento dos lupanares da cidade que Snake sacou do que os gringos gostavam.
Pensando nisso, começou a perceber que existia um mercado fora do Brasil que poderia ser explorado por a sua produtora.
«Gringo não tem muito luxo com mulher, basta ser brasileira.
Se for da Amazônia, melhor ainda, porque os caras lá fora piram em 'se lance.
Agora tu imagina fazer isso com mulheres bonitas.
É sucesso na hora.
O nome Amazônia é muito vendável.
Basta ter Amazônia no meio pra vender.
É nisso que 'tou investindo.
Já vendi filmes para a Dinamarca, Holanda e agora recebi uma proposta do Japão, de distribuidoras de lá querendo comprar os meus filmes», revela Snake.
De fato, parece que os negócios do cineasta têm progredido.
Um filão explorado por ele de uns tempos para cá é a produção de filmes para consumo privado.
Casais que têm fantasias de fazer um filme pornô, mas não têm coragem de se expor, contratam Snake para que ele dirija produções caseiras que nunca vão chegar às locadoras.
Algumas, dependendo da animação do casal, trazem até o cineasta como um dos protagonistas.
Segundo ele é um mercado em crescente expansão, que lhe rende viagens constantes para o interior do Pará e outros 'tados da região Norte.
Talvez seja 'sa aceitação do seu trabalho por parte do público local que tenha contribuído para que ele comece a sair da marginalidade.
Volta e meia Snake é reconhecido na rua e encontrar mulheres para 'trelar as suas produções já não é mais uma missão impossível.
«Hoje em dia as meninas me ligam, vêm aqui na produtora, me abordam na rua ...
Acho que além da grana as pessoas têm uma fantasia de querer fazer filme pornô.
Só pode ser.
Aliás, outro dia aconteceu um negócio engraçado.
Pode não parecer, mas eu sou um cara bastante religioso.
Não perco uma novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Pois então, eu tava na missa e um casal me abordou perguntando se eu não era o Snake.
Disse que sim e começamos a conversar.
Eles eram meus fãs.
Volta e meia tô na reza e alguém me reconhece».
Mas não seria o catolicismo uma atividade incompatível com a profissão de ator e diretor de filmes pornô?
«Não pra mim, cara.
É só um emprego como outro qualquer.
Além do mais quem paga as minhas contas sou eu e não o padre.
Eu sei o que faço da minha vida."
É então que Snake aproveita para falar que a carreira de produtor pornô em Belém do Pará não é tão tranqüila quanto se pode imaginar.
Uma de suas principais reclamações ainda é o preconceito contra a profissão, segundo ele um dos principais empecilhos para que ele rode o seu primeiro filme gay, uma exigência antiga dos fãs.
«Os gays dão muito em cima de mim.
Onde me vêem eles me abordam, dão cantada, querem conversar.
Mas até agora não consegui que eles topassem participar de um filme meu.
Ainda tem muito preconceito contra a profissão aqui em Belém e eu acho que eles não topam trabalhar com mim com medo de ficarem 'tigmatizados.
Só que isso 'tá mudando aos poucos, tanto que com a maioria das mulheres eu já não tenho problema nenhum», comemora.
Ainda que modesto, o negócio de Snake vai bem, o que lhe permite, inclusive, produzir sem precisar entrar no incrível mundo das verbas públicas e da captação de recursos.
Os sete mil reais que, em média, ele precisa para rodar um filme saem do lucro obtido com produções anteriores.
Não que o cineasta não tenha tentado se aproximar de outros produtores locais, mas a dificuldade e a burocracia em criar projetos e captar recursos fez com que ele optasse por fazer seus filmes de maneira independente.
«Fui lá no Palacete Bolonha participar de uma reunião de cineastas paraenses», conta «Snake,» Chegou uma hora em que tínhamos que levantar e dizer o nosso nome e o que a gente fazia.
Levantei e disse que era o Antônio Snake, produtor, diretor, ator, editor e diretor de filme pornô ...
Rapaz, ficou todo me olhando ...
meio 'pantado.
De repente uns e outros começaram a dizer «ê, rapaz, eu já vi o teu filme, eu sou teu fã».
Ficou em 'sa história até que eu disse: '
Tá vendo?
O meu filme vocês já viram, agora o de vocês eu nunca vi.
Enquanto vocês pedem uma fortuna pra fazer 'ses curtas que ninguém vê, eu meto a cara e faço os meus e todo mundo me conhece.
70 mil pra fazer um curta de 15 minutos?
Com 70 mil eu faço logo é dez filmes.
É filme que nem presta.
Faço dez filmes, tiro mil cópias de cada um e vendo o DVD a R$ 40.
Calcula quanto eu ia ganhar.
Além do mais, pra que vou meter em lei de incentivo?
Ninguém nunca ia patrocinar um filme meu mesmo.
Prefiro continuar independente e fazer tudo do meu jeito '."
Número de frases: 116
Sábias palavras, caro colega, sábias palavras.
Primeiro foi a indústria fonográfica, logo depois o cinema e agora a TV parece ser a mais nova mídia a receber o inevitável castigo entre a luta do velho versus o novo.
A Internet pune as mídias antigas por o erro de não se converterem, não se a assimilarem ou não se converterem à ela.
Resistir não é inútil, na verdade é bem pior.
Se atualmente a Internet parece um monstro através dos olhos das gravadoras, a culpa é toda de elas e hoje parece que finalmente as grandes corporações 'tão aprendendo a lição e pelo menos tentando se adaptar mesmo com medo.
Foi necessário que a Apple mostrasse que é possível fazer dinheiro vendendo música digital mesmo com toda a pirataria rolando solta e de uma hora para outra o CD ganhou lugar reservado na 'tante do museu bem ao lado do vinil e do laser disc.
Quem teve a sorte de não ser a primeira grande vítima foi a TV e 'sa já começa a repensar muito o seu papel e suas contas, pois sabe que não há como correr da Internet e a melhor solução é fazer as pazes com o «inimigo» e tirar proveito da parceria.
É claro que ainda há muita ferrugem nos velhos sistemas e poucos profissionais que não trabalham diretamente com a internet no Brasil possuem uma boa visão de como, quando e o que exatamente fazer para que 'sa adaptação ocorra da maneira mais suave e lucrativa possível.
Aos poucos, nos últimos dois anos, programas de TV tentam ganhar a simpatia dos usuários de TV adaptando a linguagem de seus programas ao linguajar da web, utilizando jargões para batizar quadros de TV, criando chats interativos televisionados e até legendando filmes em «miguxês».
Esse tipo de iniciativa mostra pouco conhecimento sobre a transição e muito receio por parte das redes de TV.
É impossível conhecer alguém que navegue na Internet hoje que nunca tenha visto um vídeo online.
Sites 'pecializados 'tão apostando em formatos dos mais diversos e todos apontam para a mesma direção conhecida:
ou a TV se adapta ou a Internet irá substitui-la.
Em projetos de maior porte envolvendo TV e Internet existem nichos e diferenças importantes que demonstram que o caminho começou a ser pavimentado para 'sa mudança no Brasil:
A WTN aposta na substituição da mídia (criando conteúdo próprio nos mesmos moldes da TV) enquanto o Fiz TV aposta no conteúdo criado por o público e veiculação moderada do conteúdo via TV por assinatura (graças a uma parceria com a TVA) e o Videolog.
TV tenta criar um 'paço com o conteúdo subido por os usuários mais a possibilidade de que se criar sua própria programação contínua linkando os vídeos do site.
Estamos vivendo uma 'pécie de corrida de formatos em que ninguém tem certeza exatamente de quem será o vencedor, mas não há dúvida de que alguém vencerá.
Número de frases: 17
No meio do caminho há também os que apostam em mais de um formato ao mesmo tempo, como no caso João Marcello Bôscoli que além de recentemente inaugurar o Canal da Trama no software Joost, também 'tréia uma parceria com Ed Motta num videolog patrocinado por a Nissan.
Em a primeira vez que tive acesso ao acervo do pesquisador Manoel Neto, ele nem era considerado como tal por a maioria das pessoas do mundo da música em Curitiba.
Mas, o material que ele já havia reunido foi precioso para uma série de reportagens que assinei num grande jornal do Paraná sobre história da música paranaense.
Livros, muitos (e raros) vinis, gravações inéditas em fitas cassetes, filipetas, cartazes de shows históricos por todos os lados e, claro, muitos cds de bandas independentes paranaenses já forravam o ap do rapaz.
Um senhor acervo que pode até não ser o mais completo, mas é o que se tem de mais próximo disso, sobre a música autoral produzida na capital paranaense, principalmente, mas também do 'tado todo.
É 'te o material -- cerca de 10 mil folhetos e cartazes de eventos culturais, 1500 vinis, cassetes e cds de músicos locais, mil publicações, como fanzines, livros e informativos, e mais de 3 mil fotos, que ele agora reuniu, de forma ainda improvisada, porém organizada, num apartamento, bem num dos centros nervosos de Curitiba, a Boca Maldita, no edifício Tijucas.
É lá, no lugar batizado informalmente de Musin -- Museu do Som Independente, que todo o material que ele recolheu nos últimos 20 anos pode ser acessado para pesquisas.
A idéia -- e ele já 'tá trabalhando para isso -- é transformar o conjunto de documentos num bem cultural tombado do Estado, processo que já 'tá correndo junto à Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
Só que existem algumas questões técnicas que dependem ainda de Manoel Neto.
Mesmo sendo o único acervo da história da música paranaense organizado como tal, o pulo de acervo para patrimônio tombado, e posteriormente um Museu, é complexo e exige verbas que ele não dispõe.
O acervo precisa ser inventariado, o que custa caro.
Como o Musin não é uma instituição formalizada, não existem facilidades na hora de angariar apoios.
«Sem as verbas enrosca um pouco a continuidade.
Mas, 'tar sendo usado como fonte de pesquisa já conta pontos, porque é utilidade pública», comenta Neto que, enquanto isso, vai trabalhar com Leis de Incentivo como pessoa física.
«Vou me virando com a velha lição punk de dar um jeito de fazer o que precisa ser feito», completa ele, que quer no futuro disponibilizar parte do material na internet.
Neto já produziu algumas coletâneas e trabalhou com bandas e já passou uma fase de não ser uma unanimidade entre os músicos.
Mas não há como negar a importância desse acervo que tem muita documentação da cena rock pop curitibana a partir dos anos 90, mas não só.
Ele não se limitou a guardar as filipetas e cartazes dos shows aos quais ia ou produzia.
Realmente foi atrás de criar um acervo, coisa séria, embora muitos não se dêem conta por aí.
Entrevistou gente que 'tá fazendo música desde os anos 60, quando os artistas locais deram os primeiríssimos passos além das versões de clássicos da música mundial;
foi 'tudar de verdade o que aconteceu por aqui, onde surgiu por exemplo, uma das primeiras bandas punk, a Carne Podre, antes mesmo da gente saber o que era isso, aqui.
Ele também recolheu dados sobre a Jovem Guarda curitibana e, antes ainda, quando do nascimento do rock curitibano nos anos 50, época em que o pacato curitibano não via com bons olhos aqueles rapazes de jaquetas de couro que insistiam em fazer barulho com suas motos e dançar de um jeito diferente.
Mais recentemente, ele também se envolveu com discussões de política cultural, participando de vários fóruns e discussões nacionais.
Atualmente, 'tá convicto de que os rumos 'tão mudando e a maré 'tá passando para o lado dos chamados independentes, termo aliás que ele não usa muito, pensando bem.
Ele fala de música paranaense.
Tirou o foco exclusivo das «bandas» para tratar de história da música e articulação.
Quando o assunto volta para seu acervo ele se mostra tranqüilo.
«O mais difícil é ter base consistente e isso, por o que tenho visto, 'tou bem à frente no Brasil inteiro.
A idéia de que já fiz o mais importante, me deixa tranqüilo, agora tenho que organizar», comenta.
Mas Neto sabe, também, que agora é que o bicho vai pegar.
«Inventariar o acervo é o mais premente.
É engraçado, a gente faz a pesquisa e pensa que ela é a questão, mas não.
O uso de ela e a institucionalização do acervo é que são as verdadeiras questões.
Eu achava que o trabalho 'tava feito, e é agora que ele começa».
Serviço:
Musin --
Museu do Som Independente (Av..
Luiz Xavier 68, conjunto 1618 -- Galeria Tijucas).
Número de frases: 38
Visitas com hora marcada por o telefone (41) 9604 3992 ou por o email manoel umbigo@yahoo.com.br A nova edição do Festival de Gramado é uma incógnita.
A qualidade da mostra tem sido tão ruim, os critérios de premiação tão flexíveis, que é difícil dar credibilidade ao evento.
Em o ano passado, pelo menos houve a justa premiação de Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, mas a mostra de curtas da Kinoforum, prevista para começar daqui a um mês, parece merecer mais atenção em agosto que o festival de Caras de Gramado.
Particularmente tenho curiosidade de ver o que deu a filmagem de O Cobrador, conto magistral de Rubem Fonseca, levado às telas por o mexicano Paul Leduc.
Trata-se de uma co-produ ção internacional e 'tará entre os filmes 'trangeiros da mostra de Gramado.
Por o que li, o filme combina alguns contos de Fonseca, não apenas o que dá título ao longa.
Em o elenco, o easy rider Peter Fonda ao lado de Lázaro Ramos e Milton Gonçalves.
Lázaro faz o personagem título, o cobrador de uma impagável dívida social, que mata quem lhe deve amor, dentista, conforto, compreensão.
Fonda é o ricaço cujo hobby é atropelar pedestres à noite com seu Jaguar.
Dois dos melhores personagens fonsequianos.
Leduc é um cineasta de importância reconhecida e é o principal homenageado deste Festival de Cinema Latino Americano que 'tá em cartaz no Memorial da América Latina e em outras salas de São Paulo.
Daria a entender que seu filme poderia ser melhor que outras tentativas malfadadas de adaptar o brutalismo de Rubem Fonseca para a tela grande.
Mas já li críticas péssimas de quem viu o filme.
Espero me surpreender.
Quem sabe?
O Cobrador, para mim, é o melhor livro de contos de Fonseca, um dos melhores da nossa literatura, mas falo de ele outro dia.
Mais informações sobre o Festival de Gramado:
Número de frases: 17
www.festivaldegramado.net O longa-metragem Piauiense " Ai Que Vida!" do jornalista e cineasta Cícero Filho, é sucesso consolidado num cinema na capital do Piauí, Teresina.
Segundo a direção do Cine Riverside, o filme já alcançou a marca de 1.000 'pectadores em menos de uma semana " Ai Que Vida!
fez em 7 dias o que o americano Harry Potter não fez num mês de exibições», disse o diretor do cinema.
Esse já é o 24º trabalho cinematográfico de Cícero, que visivelmente amadureceu no trabalho e teve como reflexo a qualidade superior do filme.
«Ai Que Vida!" continua em cartaz nos Cinemas Riverside até o dia 27 de setembro, em duas sessões;
17h e 19h.
Sinopse Em meados dos anos de 1990, a fictícia cidade de Poço Fundo, no interior do Nordeste, 'tá vivendo um verdadeiro caos em sua administração pública.
O Prefeito Zé Leitão (Feliciano Popô) é um corrupto de mão cheia, capaz de tudo por o dinheiro, seu egoísmo é a sua principal característica.
Zé Leitão já governa Poço Fundo há quatro anos, mas nada fez por a cidade em seu mandato.
A população não consegue enxergar as coisas ruins que o prefeito faz.
São iludidos com as falsas palavras de Zé Leitão e subestimados com os «programas sociais» que são realizados em seu mandato.
Visto isto, a micro-empresária Cleonice da Cruz Piedade (Antonia Catingueiro) se revolta com os absurdos administrativos de seus governantes e decide «acordar» o povo sobre a atual situação da cidade.
E luta por os direitos do seu povo e conseguirá arrastar multidões em seus claros discursos, tornando-se assim querida por toda a população da cidade.
O filme também conta com uma segunda vertente:
o triângulo amoroso entre Jerod (Welligton Alencar), Valdir (Rômulo Augusto) e Charleni (Irisceli Queiroz).
O filme do cineasta poço-pedrense Cícero Filho tem sua 'tréia marcada para o mês de agosto.
Nota de produção
«Ai que vida "
Gênero: Comédia
Duração: uma hora e meia
Direção Geral: Cícero Filho
Roteiro: Cícero Filho e Diógenes Macêdo
Edição: David Marinho
Classificação: 12 anos
Número de frases: 24
Atores Principais: Feliciano Popô, Toinha Catingueiro, Irisceli Queiroz e Rômulo Augusto
Peremptório Depois da revelação digital em cinco segundos, Rodrigo Soares perguntou:
E agora?
Isso é arte ou amadorismo?
Não fui capaz de responder, mas quero a opinião de vocês ...
'sa imagem (sem interferências photoshopescas) é arte ou amadorismo?
Reflexão para todos ...
Número de frases: 7
Originalmente publicado no blog Mascando Clichê (http://mascandocliche.zip.net)
Natércia Pontes, 'critora.
Mas pode chamá-la apenas de Natércia.
O título ela insiste em recusar e o sobrenome é dispensável, porque o meio que ela encontrou para se apresentar ao mundo foi se transformar em 23 nomes.
Curtos, simples, como as 'tórias que saltaram do blog Natércia Soluça Lúcida para compor o livro az mulerez. (
com um til no «l» e um ponto final).
A mulher em questão conseguiu a proeza de parir outras 23 num intervalo de quatro meses, batizando cada uma com uma letra do alfabeto, de Ana a Zaíra.
Parir tanto dói?
«Escrever é muito cansativo», diz.
Para Natércia, não se faz literatura sem sacrifício.
«É ser 'cravo de uma força criativa, uma 'cravidão.
Me faz mal».
az mulerez.,
que ela apresenta simplesmente como «23 corações, 23 cartões», é o resultado de quem 'tá na condição de mãe de uma reca de mulheres.
Não tira o olho das crias, mas sabe que é impossível segurá-las depois que crescem e ganham o mundo.
Sabe, mas sofre.
E tenta dividir a dor -- e a alegria, também, porque são inseparáveis -- deixando que outros 23 artistas as retratem.
O resultado é um livrinho vermelho, de contos curtos, tragicomédias femininas, com uma qualidade gráfica surpreendente para um projeto bancado sem respaldo editorial algum, com apoio exclusivamente dos amigos mais próximos e do pai.
Natércia também 'creve na rede mundial de computadores.
Soluços que formam um conjunto inconstante, ora desabafos ao som de Roberto Carlos e Serge Gainsbourg, ora herméticos, oníricos.
Estes adjetivos ela provavelmente recusaria.
Mas é no blog, desde 2001, que constrói suas visões sobre o cotidiano.
Cotidiano de quem nasceu no Ceará, morou em Brasília e atualmente 'colheu Copacabana para 'crever e tentar dar conta do mundo.
As ruas do bairro carioca, com suas putas, gringos, milhares de aposentados e poodles, é também lugar de quem compara a 'crita com bruxaria.
Perfeccionista -- com seis planetas em virgem -- cigana leitora de mãos, nascida em 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, de 1980, é arredia a entrevistas.
«Sempre acho que não tenho muito a dizer».
A gente entende e agradece o sacrifício.
Só as mães são capazes disso.
Até o lançamento de ' az mulerez. ',
você tinha dificuldade de se reconhecer como 'critora ...
... (Interrompendo) E ainda tenho.
E não é uma falsa modéstia.
Eu não quero cobrança e a partir do momento em que eu me intitulo 'critora, uma profissão que é, sei lá, mais ou menos como bruxa ...
Hoje em dia as pessoas falam " o que você é?
Escritora?" ou «eu quero ser 'critora», todo floreado, ou com misto de ironia e admiração, talvez.
Então eu prefiro ser mais simples.
Acho que 'crever um livro não justifica o título de 'critora.
Tem uma frase do Saramago que acho interessante, «todo mundo é 'critor mas alguns resolvem 'crever, outros não».
Eu vejo por aí.
Ao mesmo tempo, tenho medo de 'sa coroa que se coloca numa pessoa, e não tenho muita disciplina pra exercer 'se posto ainda.
E nem sei se quero.
Se eu publicar outro livro, aí sim talvez aceite.
Mudou a relação que você tem com seus textos depois do livro?
Mudou.
Eu sempre 'crevi, desde criança, livrinhos que circulavam na família.
Mas eu tenho encarado isso agora mais profissionalmente, fiquei mais exigente.
Por que 'tá impresso, em formato de livro?
Não, os textos do livro não tiveram 'sa exigência, não.
Eles foram 'critos em quatro meses.
Fiquei mais exigente com os textos que foram publicados depois.
Em a verdade eu sempre fui muito perfeccionista, porque, é engraçado, eu não me considero 'critora mas vejo isso como um trabalho, não vejo como porralouquice, nem falta do que fazer, acho muito sério.
Sério no sentido de que é um objeto sagrado, qualquer texto.
Como você enxerga as 23 mulheres?
São fantasmas da minha figura de mulher.
Apesar de andarem soltas por aí, todas são eu.
E por que são mulerez, com z e til?
O pessoal diz que é para ser fiel ao sotaque cearense, mas não foi por isso.
Acho que foi inspirado numa grafia Glauber Rocha, foi para ficar 'teticamente mais interessante, acho que o z e o til dão um bom acabamento ao título.
Publicará outros livros?
Estou com três projetos.
Uma novela, mas 'tá parada porque eu vi que preciso de mais tempo para que saia do jeito que eu quero.
O segundo é o livro do naipe de az mulerez.,
mas parei porque 'tou com pouco tesão por a narrativa curta.
Estou mais interessada em narrativas longas, em alongar minha narrativa.
O terceiro, que 'tou empenhada mesmo, mergulhada 24 horas por dia, é um livro de contos.
É só isso que eu posso adiantar.
az mulerez.
foi publicado de modo completamente independente, sem nenhuma editora.
E os próximos?
Eles terão que sair por editoras.
Por conta do az mulerez.,
conheci alguns editores, 'critores relacionados a editores e, bom, abriu um leque.
Não mandei ainda, mas acredito que é um material publicável, até por conta do «mini-sucesso» de livro, que o pessoal gosta, um livro respeitado.
Pois é, aqui em Fortaleza o livro teve uma boa repercussão, mas e nos outros lugares em que ele foi lançado, Brasília e São Paulo?
Em Brasília teve o apoio do Governo do Distrito Federal, foi bacana, lançado no Cine Brasília.
É engraçado, porque eu tenho que organizar tudo, desde as flores de plástico até o campari e o malibu.
Mas lá e em Fortaleza é aquela coisa, a relação afetiva com a cidade ...
Foram pessoas interessadas, 'critores.
Acho legal, para um livro desse porte, independente, conseguiu uma repercussão boca-a-boca.
E em São Paulo foi o primeiro lançamento que eu apostei no livro em si.
O livro foi lançado no reduto dos «novos 'critores», a Mercearia São Pedro.
Que eu nem sabia (risos).
Como é sua relação com os novos 'critores brasileiros?
Acho importantíssimo ler o pessoal novo.
E acompanhar não só a literatura, o cinema, a moda.
Acho que é uma forma de reverenciar a própria vida.
É algo que afeta sua vida, seja você um 'critor, um crítico ...
Eu gosto muito do Ricardo Lísias, uma narrativa interessante, uma novela que se chama De os nervos, Índigo, Leonardo Marona e também o Marcelo Mirisola, o Marcelino Freire.
E a Beatriz Bracher, que começou a publicar agora, mas é uma 'critora com maturidade, publicou Azul e dura.
Aqui de Fortaleza, a Tércia Montenegro, que tem um livro de contos chamado Via Férrea, e Virna Teixera, uma poetisa daqui que mora em São Paulo.
O mais importante, enfim, é publicar, tenho horror à distinção entre «alta literatura» e «baixa literatura», acho que todo livro é válido.
Até Sabrina, que eu leio também.
O que importa é quem 'tá lendo, e não o livro.
Enfim, mas eu tenho pouca convivência com 'critores, poucos amigos 'critores, dois ou três.
E o blog, vai continuar 'crevendo?
Sim, claro.
Acho uma iniciativa muito válida, é maravilhoso.
O fato de ser gratuito, de poder publicar tudo que vem a cabeça, fotos, vídeos, música.
Isso me fascinou desde o primeiro dia que eu soube, em 2001, e desde então não parei.
A segurança que eu tive para publicar o primeiro livro veio do blog, de 'crever em ele.
A crítica literária ignora os blogs?
Ignora.
Agora 'tá começando a abrir mais um pouco.
Mas ser blogueiro é tratado como se fosse algo pejorativo.
E muita gente ainda nem conhece blogs, eu digo «eu tenho um blog», a pessoa diz:
«tu tem o quê?"
A seguir, um conto de az mulerez.:
«Queila balança mas não cai
Queila tá ali pra onde Queila vai?
Queila em cima do abismo de sandália alta.
A sandália oprime o pé de Queila.
Queila se equilibra numa linha de nylon na churrascaria.
Queila boiando numa garrafa de Malibu.
Queila telemarketing.
Queila coração de frango:
-- Eu vou 'tar enviando os formulários, senhor.
Queila do pé oprimido e pequeno na churrascaria.
Queila 33. Queila não é loura mas é.
Queila Pereira quentinha.
Queila Perfume demais.
Queila é educadinha:
-- Garçon, eu vou 'tar querendo mais maminha, faz favor."
O livro az mulerez.
pode ser encomendado em:
azmulerez@yahoo.com.br Natércia Soluça Lúcida:
Número de frases: 125
http://natercia.blogspot.com. As previsões relacionadas aos desastres naturais, principalmente quando se fala em aquecimento global, 'tão cada vez mais assustadoras.
A Amazônia, de acordo com 'tudiosos, poderá morrer asfixiada em 2050, por exemplo.
Antes disso, em 2027, cerca de 1,8 bilhão de pessoas em todo o mundo podem sofrer com a 'cassez de água.
Números que parecem longínquos.
Mas só parecem.
Preocupada com 'sas previsões, uma agência de comunicação de Belo Horizonte, a Só Comunicação, aposta na conscientização para reverter 'se quadro.
A partir de 'ta quarta-feira, 7, sinais de trânsito, website e outdoors serão invadidos por mensagens como:
«Em alguns anos eles podem morrer de calor.
Sem comunicação, nós também».
E lá 'tará uma imagem de um macaco, por exemplo.
Em os semáforos, folders serão distribuídos explicando a idéia da campanha, transmitindo as suposições científicas quanto ao clima da Terra e convidando todos a se inquietar com 'sas previsões.
Parece inacreditável que num planeta coberto por 70 % de água, os seres humanos morrerão de sede?
Isso será uma realidade ou não, dependendo de nossas ações hoje.
Só na década de 1990, 500 mil pessoas morreram em todo o mundo por causa de desastres naturais.
A campanha propõe uma reflexão sobre isso.
É inevitável fugir do lugar-comum:
é preciso que cada um faça a sua parte.
Tudo é uma forma de cooperação, das coisas mais simples como economizar energia em casa até as mais trabalhosas como plantar uma árvore ou simplesmente, seguir o conselho de 'sa campanha e se comunicar.
«Queremos mobilizar as pessoas.
Seja por os outdoors 'palhados por a cidade, seja por nosso website ou por os folders que os motoristas receberão nos sinais.
Mais do que dizer que as previsões podem ser revertidas, é deixar claro que isso só é possível se aquela pessoa que recebeu tal mensagem fizer alguma coisa para isso.
Número de frases: 21
Não podemos mais achar que os desastres acontecerão num mundo que não é o nosso», detalha o diretor da Só Comunicação, Márcio Massiere.
Há anos temos trabalhado nos campos da educação e da cultura para que a sociedade brasileira se torne mais justa e mais tolerante com relação às diferenças de crença, de práticas, de modos de ser e de 'tar no mundo.
Então talvez principalmente por isso tenha-nos chocado a entrevista veiculada no «Programa do Jô» com o senhor Ruy Morais e Castro, que se diz 'critor (cada um se diz o que bem entende e acredita quem quer), na última quinta-feira, dia 18 de outubro de 2007, na Rede Globo de Televisão.
Em o referido programa, comandado por o humorista e homem de mídia Jô Soares, convidado e anfitrião comentavam de maneira desrespeitosa e grotesca as práticas culturais de mulheres de tribos angolanas.
O festival de baboseiras e preconceitos, que não vale a pena repetir aqui, fere absurdamente o povo e as mulheres angolanas -- e conseqüentemente boa parte das mulheres negras brasileiras -- sobretudo através da exposição irresponsável de imagens como se fossem aberrações.
O senhor Jô Soares e sua equipe deveriam se informar melhor sobre a história pessoal de seus entrevistados e o conteúdo que supostamente têm a oferecer.
Em sua ignorância o senhor Morais e Castro chega a afirmar durante a entrevista -- entre outras coisas -- que certa região de Angola situa-se perto «da fronteira com a África do Sul». (!)
Ficamos nos perguntando no que aquele conjunto de impropérios, preconceitos, comentários jocosos e degradantes, absolutamente descontextualizados, vem contribuir para um projeto de sociedade mais justa, mais tolerante, mais equânime -- projeto com o qual nos identificamos e para o qual temos trabalhado em nossas áreas de atuação profissional e de militância política.
A cena dantesca de dois homens «bem-sucedido» e com acesso a uma rede de televisão com o poder da Globo (não só no Brasil, mas também em Portugal e em Angola) fere gravemente tanto a nossa constituição quanto o projeto -- construído a duras penas -- de uma sociedade brasileira aberta à compreensão e ao respeito por os diversos grupos culturais que a compõem, suas práticas e sua história.
A nosso ver, isto é o que torna a humanidade o que ela é:
rica, porque diversa.
É impossível silenciar diante de 'ta manifestação torpe de racismo e etnocentrismo.
Esperamos como cidadãos e cidadãs uma retratação dos protagonistas deste circo dos horrores, para que possamos continuar nosso trabalho diário junto a jovens, educadores e crianças e reafirmar que o tempo de desqualificar o que não compreendemos e de tratar o diverso como animalesco já passou.
Mailsa Carla Passos e Aldo Medeiros
Para quem quiser ver o vídeo a que nos referimos o endereço é http://video.globo.com/ Videos / Player / Entretenimento / 0, GIM690726-7822-RUY + MORAIS + E + CASTRO + E + JO + COMENTAM + VIDA + SEXUAL + DE + PARTE + DAS + MULHERES + ANGOLANAS, 00.h tml
OBS: É necessário copiar e colar na barra do internet explorer pois só clicando no link vai entrar.
Número de frases: 16
Assim como ocorre com juízes que se abstêm de julgar processo envolvendo parentes ou pessoas próximas, nós jornalistas deveríamos nos julgar incompetentes em algumas circunstâncias.
Descobri isso durante a realização do Piauí Pop deste ano, evento que reúne as principais bandas de rock pop do país e que apresentou a sua terceira edição.
O evento foi em julho, mas somente agora saí do 'tado de coma profundo em que me encontrava depois de passar por uma desilusão, de 'sas da relação fã-ídolo, e consegui 'crever o texto para relatar a experiência.
Recebi a tarefa do jornal Diário do Povo para cobrir o evento.
Fiquei mais do que gratificado por a 'colha, afinal de contas 'te ano o evento traria o «Los Hermanos» que, na minha avaliação, 'tá seguramente entre as mais originais bandas do Brasil e que representa um segmento relegado a segundo plano por os meios de comunicação de massa blá, blá ...
Eis o meu primeiro erro!
Se sou fã, eu jamais poderia ir ao evento como repórter.
Jornalista tem que cobrir eventos que conhece e não eventos que adora.
Mas fui!
Cheguei lá e aguardei a tão sonhada entrevista com os caras.
Depois de 'perar, vi entrar na sala três pessoas:
Rodrigo Amarante (baixista, guitarrista e compositor), Rodrigo Barba (baterista) e Alex Quizumba (assessor de imprensa do grupo).
Amarante entrou com aquela cara de quem chega em seu emprego em repartição pública para bater o ponto, fazer show e bater o ponto de novo.
Rodrigo Barba até queria ser simpático, mas acho que a presença do Amarante o intimidou.
como se olhar do baixista dissesse:
«ser simpático é para os bobos!».
O mais simpático de todos era o Alex.
Diante da cena pensei com mim mesmo:
«é marketing».
Mas que marketing é 'se que nunca foi utilizado por as grandes bandas?
Eu nunca vi Paul McCartney deixar de sorrir (e olha que ele trabalha muito mais!).
Lembro que o Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, concedeu uma entrevista mais do que bem humorada para a minha amiga Nat Maranhão certa vez.
E ele é do Iron Maiden!!!!!
Se 'ses caras nunca deixaram de ser reconhecidos (e bota reconhecidos nisso) por serem simpáticos porque os Hermanos usam desse dispositivo?
Bom, mas a entrevista foi rolando e a minha impressão sobre a inteligência do Amarante também, só que 'cada abaixo.
Ele se mostrou incomodado com algumas perguntas.
Não quis, por exemplo, responder a pergunta de Airton Ramos, repórter do jornal o Dia, sobre as influências dos Los Hermanos e as canções que eles 'tão ouvindo por 'ses dias.
«Olha lá no nosso site que tem!»,
respondeu. Em 'sa resposta fiquei chocado.
Afinal jornalista precisa gravar declaração.
Ele não deve saber disso.
Por fim ele respondeu de forma meio atravessada a uma pergunta feito por uma jornalista que integrava um movimento anti-pirataria.
Foi uma resposta até legalzinha.
Mas no fundo ele deu mais atenção a um pequeno gravador digital que foi colocado por um dos repórteres sobre a mesa do que aos próprios repórteres.
Talvez ele tenha sido o único elo de identidade entre os repórteres e ele:
o gravador.
Evidentemente que não culpo Rodrigo Amarante, porque acho que todo mundo tem o direito de fazer e ser o que quiser, inclusive antipático.
Mas realmente eu me desmontei naquele dia.
Eu me lembro que uma situação igual a 'sa eu só tive no final dos anos 1980 quando o Bebeto abandonou o «Mengão» para vestir a camisa do sem sal Vasco da Gama.
Em aquele dia percebi que Bebeto não era o herói que eu imaginava.
Agora, com o Amarante, descobri que não existem heróis.
Mas vou continuar gostando do Los Hermanos ...
ainda falta entrevistar o Marcelo Camelo e o Bruno Medina.
Número de frases: 43
A terceira edição do projeto Quarta Musical 'tá no auge.
Tremenda iniciativa do pessoal da Casa da Ribeira / House, o festival * é um achado para quem quer mostrar todo seu potencial de maneira profissional:
dos 80 inscritos, doze 'petáculos foram selecionados -- ou seja, em grupo ou solo as propostas deveriam ser mais que apenas um show de música.
A cantora Khrystal foi encarregada de dar a partida no dia 13 de setembro.
Buscou forças no quarteto Ruma de Pena -- também formado por a atriz Titina Medeiros, por a violinista Tiquinha Rodrigues e por a cantora Ângela Castro -- para parir o show «Retratos de Vida Forte» em apenas 19 dias.
O começo foi um pouco tenso, a própria confessou, mas logo justificou o nervosismo:
desfiando sambas e letras ' djavanianas ' de alto teor biográfico e reflexivo, Khrystal mostrou o lado sóbrio da Lua.
Se expôs deixando de lado seu jeito elétrico característico, de quem mistura coco de embolada com bossa nova, e mergulhou nas composições que fez em parceria com a turma do Retrovisor:
Ângela Castro, Valéria Oliveira, Simona Talma, Luiz Gadelha e Drica Duarte.
Emoldurada por um cenário translúcido em tecido cru, que ora parecia um olho (serviu de tela para projeções da ficha técnica no início do show e imagens em duas ou três músicas) ora a bandeira do Brasil (iluminação de Daniel Rocha), Khrystal também 'tava pouco à vontade dentro do vestido que insistia em 'corregar (!) --
detalhe simples que poderia ter deixado a cantora mais tranqüila.
Musicalidade linear
Se sobrou reflexão, faltou ritmo para quebrar a linearidade do 'petáculo.
Nem a pequena e pouco explorada sala de estar montada num canto do palco (com direito a almofadas, 'teira, luminárias, baú e aparelho de som portátil), conseguiram mudar a dinâmica da apresentação.
Com os olhos fechados, poderíamos imaginar uma única música longa com vários momentos:
momento samba, momento samba-rock, MPB, funk ...
Houve pouca variação vocal, principalmente para quem já viu a cantora ' possuída ' por o coco de Chico Antônio ou por os acordes de Guinga.
Porém, o conjunto 'tava afiado com os arranjos de Franklin Novaes (teclado).
Em as últimas músicas, mais agitadas e perfeitas para Khrystal soltar suas bruxas e revelar sua verve, foi que a coisa 'quentou:
Zé Fontes (baixo), Ricardo Baya (guitarra), Fidja (bateria), Sami Tarik e Cleber Moreira (percussão) mostraram entrosamento e consistência.
Destaque para o trio jovem que tomou conta, e muito bem, da ' cozinha ' acústica da banda.
A produção de «Retratos de Vida Forte» foi assinada por Ruma de Pena e Zé Dias, edição de imagens por Rita Machado.
Número de frases: 22
* saiba mais sobre o Quarta Musical no blog «Ruído Muderno» A noite desempenha o papel de instigar, fascinar e, ao mesmo tempo, amedrontar desde a origem do homem ( ...)
Se todas as culturas têm a sua explicação para o que é a noite e de onde ela veio, na mitologia brasileira não é diferente.
Os brasileiros originais -- também chamados de índios -- criaram mitos e lendas de forma tão prolifera e criativa quanto os nórdicos, egípcios e maias, nos dando um terreno fertilíssimo para interpretações e reinterpretrações artísticas, infelizmente 'se material é quase inexplorado no ramo do entretenimento». (
Encantarias -- A lenda da noite, Estúdio Casa Velha)
É exatamente em 'ta fonte que a rapaziada do Estúdio Casa Velha, de Belém do Pará, anda mergulhando para a criação de seus quadrinhos.
Primeiro conseguiram boa repercussão com Belém imaginário, uma novela gráfica que tem história original de Volney Nazareno, lançada em 2004.
Agora, Julião Cristo, Volney Nazareno, João Silveira, Fernando Carvalho, Aline Coelho, Otoniel Oliveira e Carlos Paul 'tão juntos num novo trabalho, a revista em quadrinhos Encantarias -- A lenda da noite, patrocinada por o Banco da Amazônia.
O amapaense Otoniel Oliveira diz que a revista em quadrinhos utiliza as lendas da mitologia amazônica como fonte de inspiração, assim como no trabalho anterior do Estúdio Casa Velha, e ao mesmo tempo mostra como podemos adaptar nossa cultura em produtos de entretenimento.
Não se trata de desclassificar a cultura 'trangeira, que também pode ser percebida em certas referências, mas valorizar novas possibilidades criativas.
«Nosso objetivo não é de explicar ou provar nada, mas sim divertir jovens de um modo geral», diz Otoniel.
O livro não é dedicado ao público infantil, por isso a nudez, natural dos nativos, personagens da narrativa, não recebeu disfarces.
Mas isso não quer dizer que as crianças não possam ler a aventura.
A lenda
A aventura amazônica começa com a menina Meltim, uma pajerama, que quer dizer «futuro pajé».
Ela e outros jovens índios encontram, na floresta, o Velho das Histórias que para eles conta uma aventura sobre o surgimento da noite e da importante missão ordenada por o deus Tupã -- Diatã, o forte, Ubirajara, o jeitoso e Kuandu com sua inteligência e perspicácia.
Eles precisam encontrar um artefato mágico que poderá mudar a delicada ordem da natureza.
Para isso, precisavam entrar na terras dos «'píritos elementares», onde irão se deparar com seres fantásticos como Iara, a Mãe D' agua, que poderá seduzi-los com seu voluptuoso canto, o instigante Curupira, protetor das florestas e animais, Honorato, a lendária Cobra-grande ou sua irmã, Caninana, que com único movimento poderia transformar os três pequenos guerreiros em comida.
Sem falar nos animais selvagens e seres híbridos, como a Jaguaresa, metade mulher, metade onça, que se propõe a ajudá-los em meio aos difíceis e obscuros caminhos da Floresta Grande.
Mas nenhum desses seres poderia ser obstáculo maior do que aquele criado por eles próprios:
quando por sua curiosidade sem tamanho libertam, sem querer, a 'curidão da noite, guardada tão cautelosamente por os deuses.
Para ajudá-los á impedir uma grande desgraça, precisariam de toda a força, habilidade e sabedoria das quais eram dotados.
Em os textos não é raro encontrar expressões de utilização coloquial como ' bora? ',
ao invés de ' vamos embora? '.
Isso, que me perdoem os radicais da língua portuguesa, não desconstrói a língua, mas permite maior entrosamento e imaginação durante a leitura.
Um amapaense no Estúdio Casa Velha
O material é de excelente qualidade e os desenhos de Otoniel Oliveira merecem atenção 'pecial de quem tem acesso à revista Encantarias.
Parece mentira que tudo foi feito a mão.
O rapaz aproveitou todas as formas e cenários que a Amazônia e seus mitos poderiam permitir.
E não são poucos!
Com a ajuda de Fernando Carvalho, as cores garantem ainda as texturas e movimentos sem deixar 'capar nenhum detalhe.
Além dos desenhos, Otoniel também participou da pintura, do projeto gráfico e do roteiro do trabalho.
Amapaense, da capital, o moço é ex-aluno da Escola de Artes Candido Portinari, em Macapá.
Mudou-se para Belém aos dezoito anos, em 1998, lá 'tudou publicidade na Universidade da Amazônia, Unama.
A Escola Candido Portinari, realizou em janeiro um lançamento do livro de seu ex-aluno.
Hoje com outros colegas trabalha no Estúdio Casa Velha e leciona a disciplina Quadrinhos e Arte Seqüencial na Feapa, Faculdade de Estudos Avançados do Pará.
Encantarias é criação de:
Otoniel Oliveira (otoniel@oton.pro.br) desenhos, pintura, capa, projeto gráfico e roteiro.
Volney Nazareno (neynazarenop@ig.com.br) -- roteiro, criação e edição.
Fernando Carvalho -- pintura e arte-final.
Aline Coelho -- letras e projeto gráfico.
Julião Cristo -- argumento.
João Silveira -- capa.
Ivani Oliveira e Roberto Zaluth -- revisão.
Número de frases: 43
Uma Ferramenta Metodológica para Pedagogia Social
O presente 'tudo tem como intuito principal discutir as bases históricas e ideológicas que fundamentam a capoeira na Educação Infantil, a partir da analise do processo de inserção da mesma no contexto 'colar, suas modificações adaptativas e suas possibilidades enquanto instrumento revolucionário ou conformador para edificação de uma pedagogia social.
Faremos 'ta abordagem 'tabelecendo uma analise do processo histórico de introdução da capoeira na Educação Infantil, seguido de uma discussão sobre a potencialidade pedagógica, revolucionaria ou conformadora, da capoeira a partir do diálogo com alguns autores, ...
culminando com algumas considerações que propõem uma reflexão sobre a pratica pedagógica na Educação infantil para construção de uma sociedade mais justa, com indivíduos mais críticos, criativos e autônomos.
A capoeira, 'ta arte de origem controversa e que ainda desperta muita polêmica, emergiu no bojo das camadas populares e adentra as instituições públicas e privadas de forma arrebatadora e efusiva, sendo capaz de em pouco mais de quatrocentos anos de trajetória 'tar presente na maior parte das 'colas, clubes, universidades, academias, de entre outros, se firmando com força em vários países do mundo, força 'ta, que ora 'tamos precisando verificar, os interesses ideológicos que 'tão sendo defendidos nas entrelinhas de sua expansão por o mundo e, em particular, na Educação Infantil.
Segundo dados fornecidos por Sérgio Luís de Souza Vieira, presidente da Confederação Brasileira de Capoeira (CBC), a capoeira hoje é praticada oficialmente em cento e trinta e dois países, tendo como instituições para administrar a modalidade atualmente, no Brasil, oitenta e quatro Ligas Regionais e Municipais, vinte e quatro Federações Estaduais, uma Confederação Brasileira, uma Associação Brasileira de Árbitros, uma Associação Brasileira de Capoeira para Portadores de Necessidades Especiais.
Em o âmbito internacional existe a Federação Internacional de Capoeira (FICA), que coordena trabalhos das Federações Nacionais de Capoeira existentes no Canadá, Portugal, Argentina, França, de entre outros países.
É importante se lembrar que 'te fenômeno, chamado capoeira, não surgiu de forma instantânea, ou seja, ao longo de sua história inúmeras barreiras foram rompidas para que a mesma se transformasse «de luta marginal a uma alternativa educacional», e é justamente sobre o processo de inserção da capoeira nas instituições de ensino, em particular as de Educação Infantil, que discutiremos em 'te artigo.
Analisando as possibilidades da capoeira enquanto ferramenta metodológica na construção de uma pedagogia social ou sua utilização como instrumento alienador para manutenção da lógica capitalista.
A 'cola e a capoeira.
Partindo dos princípios de que a capoeira, ao longo de sua história, passou por uma série de transformações para firmar seu 'paço no ambiente 'colar e que a 'cola funciona, na maioria das vezes, como um aparelho ideológico do 'tado, que por sua vez 'tará sujeito aos ditames do capital, tentaremos aqui traçar um painel de 'ta dialética relação entre a capoeira e a 'cola.
Para compreender os conflitos de 'ta relação, precisamos lembrar que o surgimento da 'cola teve suas bases associadas a uma 'tratégia de manutenção da diferença entre a classe operária e a classe burguesa, sendo 'ta última beneficiada por a manutenção ideológica garantida por a 'cola, pois ali 'tariam garantidos os princípios de construção da separação entre stress fazer e pensar stress, stress corpo e mente stress e etc ...,
princípios 'tes que resistem até os dias atuais.
Segundo Dangeville (1978):
Todo sistema de ensino da sociedade capitalista assenta no racionalismo burguês, ou seja um idealismo ou iluminismo que 'clarece os 'píritos, a massa e a matéria.
Em 'te sentido, o princípio de stress revelação stress 'ta no seio das 'colas burguesas tanto laicas como religiosas.
Toda a sociedade dividida em duas classes é necessariamente idealista:
a elite 'clarecida dita as normas, e a massa bruta deve segui-las sem discussão. (
p. 35)
A partir da análise deste contexto acima, fica fácil compreender o tamanho do stress desafio stress e das transformações, que foram stress necessárias stress para enquadrar a capoeira na lógica 'colar, pois a capoeiragem historicamente foi também símbolo de contestação da lógica vigente e sua fundamentação filosófica, centra-se numa simbologia que extrapola o conceito de educação 'colar, ratificando o verdadeiro conceito de educação, que não 'tabelecem fronteiras, nem limites para as relações de ensino-aprendizagem.
Segundo Brandão (1981):
Quando a 'cola é a aldeia, a educação existe onde não há 'cola e por toda parte pode haver redes e 'truturas sociais, de transferência de saber de uma geração a outra, onde ainda não foi sequer criada a sombra de um modelo de ensino formal e centralizado.
Porque a educação aprende com o homem a continuar o trabalho da vida.
Á vida que transporta de uma 'pécie para outra, dentro de historia da natureza, e de uma geração a outra de viventes, dentro da historia da 'pécie, os princípios através dos quais a própria vida aprende a ensinar a sobreviver e a evoluir em cada tipo de ser. (
p. 13)
De este conceito mais amplo de educação surgem às bases filosóficas dos ensinamentos da simbologia da capoeiragem.
Assim fica fácil compreender o tamanho do abismo entre a matriz norteadora da capoeira e a forma na qual ela se apresenta hoje nas 'colas de Educação Infantil, ou seja, algumas das adaptações que permearam 'tes anos de transformações da capoeira por a sobrevivência, 'terilizaram a possibilidade revolucionária de construção de uma pedagogia social que 'tá impregnada em algumas sociedades do continente africano que acabaram por influenciar a 'truturação e reelaboração de práticas em território brasileiro, tais como a própria capoeira.
Em 'ta perspectiva tentaremos, a partir de um diálogo com os teóricos e reflexões sobre a filosofia da capoeira transmitida oralmente por os grandes mestres de 'ta arte, organizar um breve levantamento histórico da capoeira e analisar algumas possibilidades de intervenção da capoeira para uma pedagogia social na Educação Infantil.
De a luta marginal a uma alternativa educacional
Por volta da década de trinta, através da criação e oficialização legal da Luta Regional Baiana (Capoeira Regional), 'truturada por Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba) e seus discípulos, a capoeira ganha uma nova roupagem que abre a possibilidade de institucionalização da mesma, pois pela primeira vez a sociedade reconhecia e decodificava os símbolos que fundamentavam a prática de ensino da capoeira, por meio de um método sistematizado e 'crito que poderia facilmente ser implantado em diversas instituições, fato 'te que aliado a uma conjuntura política que 'timulava ideais nacionalistas por a forte influência do «Estado Novo» de Vargas na defesa de um modelo de ginástica que pudesse ser genuinamente brasileiro, impulsionaram um grande crescimento e divulgação da capoeira.
Um outro fator que contribuiu muito para a expansão da capoeira institucionalizada foi à condição de 'ta alternativa apresentar-se como uma possível tentativa de cooptação e controle de uma arte que insurgiasse de forma subversiva em alguns pontos do território nacional, a exemplo das maltas do Rio de Janeiro e de outros pequenos movimentos de contestação da 'trutura social vigente, que tinham na capoeira um «braço» de luta, ou seja, é importante lembrar que 'ta aceitação teve um preço alto, pois, a necessidade de atender os anseios de uma classe social dominante, enquadrou e remodelou a capoeira num perfil alienador, que em última instância desarticulava sua simbologia metodológica revolucionária e a colocava a serviço do sistema.
Sobre as maltas podemos citar um relatório do ministro e secretário dos negócios da justiça referente ao ano de 1878, revelando toda a preocupação do 'tado com a capoeira:
Uma das mais 'tranhas enfermidades morais de 'ta grande e civilizada cidade é a associação de capoeiras.
Associação regularmente organizada, com seus chefes, sua subdivisão em maltas, que denominam badernas, com sinais e gírias próprias.
Grupos de turbulentos, ávidos de assuadas, de lutas e de sangue, concorrem à voz de seus chefes das grandes reuniões populares e festividades públicas, para o fim de decidirem por meios violentos as suas contendas e rivalidades. (
Filho e Lima, citado por ARAÚJO, 1997, p. 175)
A partir de 'ta transformação, a capoeira gradativamente vai inserindo-se no contexto 'colar, podendo-se atribuir ao Mestre Bimba um papel importante em 'te processo, pois através de seu contato com 'tudantes universitários de Salvador, que o convidaram para ensinar na pensão onde residiam, o mestre pode ter acesso a uma camada social e a códigos e símbolos do conhecimento científico que possibilitaram a criação e sistematização deste novo modelo de ensino da capoeira.
A partir daí a Capoeira inicia seu processo de institucionalização.
Segundo o Mestre Itapoã, citado por Vieira (1990):
Quando o Mestre foi parar lá, os 'tudantes começaram a conversar com ele, que a capoeira não podia ser uma coisa perseguida por a polícia.
Isso foi em 1934, quando os caras foram para Salvador 'tudar Medicina.
O Nordeste todo ia 'tudar lá.
Foi assim que ele começou a ter contato com a sociedade da época. (
p. 123)
O novo modelo de capoeira criado por Bimba e seus discípulos passa a ser reconhecido paulatinamente por a sociedade civil, sendo inclusive o Mestre Bimba agraciado com o título de Instrutor de Educação Física, mediante diploma oficial assinado por Dr. Gustavo Capanema, o então Ministro de Educação, no ano de 1957 por o enquadramento do ensino da capoeira na legislação vigente (DECÂNIO, 1997, p. 118).
Apesar dos avanços proporcionados por Bimba, o mesmo só teve acesso a uma única instituição, que foi o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), na qual ministrou aulas de capoeira para os aspirantes da reserva.
Este fato denota que a capoeira institucionalizada inicia-se com M. Bimba, mas só vem se firmar com o passar dos anos, através de outras iniciativas promovidas por seus alunos.
As transformações sofridas no processo de ensino da capoeira iniciaram a aproximação da mesma ao ambiente 'colar, favorecendo seu reconhecimento e ampliando suas perspectivas com vista a se firmar como ferramenta pedagógica no processo educativo alienador do modelo capitalista.
Conforme Abreu (2003, p. 20) " Sobre a oitiva:
era na roda, sem a interrupção do seu curso que se dava à iniciação, com o mestre pegando nas mãos do aluno para dar uma volta com ele.
Diferentemente de hoje em dia, quando é mais freqüente iniciar o aprendizado através de séries repetitivas de golpes e movimentos, antigamente o lance inicial poderia surgir de uma situação inesperada, própria do jogo:
um balão boca de calça, por exemplo.
A partir de ele se desdobravam outras situações inerentes ao jogo, que o aprendiz vivenciava orientado por os «toques» do mestre ...».
Em o Brasil, por volta do final da década de 70 e início da década de 80, tivemos um grande crescimento no número de instituições de ensino da capoeira, fato 'te que contribuiu muito para a pulverização da capoeira em 'colas, universidades e creches, acrescentando a 'tes ambientes de trato com o conhecimento um toque de cultura e inúmeras possibilidades de intervenção no que se refere à atividade física, que acabam sendo respaldadas por leis e sugerida por diversos instrumentos informativos que orientam a educação 'colar (RCN, PCN ` s e etc).
De entre as possibilidades de trato da capoeira no universo da Educação Infantil, destacaremos algumas faces de 'ta arte que representam alternativas reais e concretas de intervenção pedagógica com crianças de 0 a 6 anos, que se otimizam a partir de suas interlocuções, contextualização e intencionalidade pedagógica.
De entre 'tas a musicalidade, o movimento, o ritual e as relações interpessoais.
Vale a pena ressaltar que em nossa análise destacaremos a potencialidade na construção da pedagogia social, contudo 'ta só se firmará na prática a partir de uma apropriação crítica por parte dos educandos e educadores, pois a capoeira poderá facilmente 'tar servindo tanto à «revolução» quanto à «conformação alienada».
Referências Bibliográficas
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Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa.
3ª ed. São Paulo:
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Fundamentos da Escola do Trabalho. 3ª ed. São Paulo:
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Rego, Tereza Cristina.
Vygotsky, uma perspectiva histórico-cultural da educação.
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Vozes, 2000.
Rego.
Waldeloir. Capoeira Angola:
um ensaio sócio-etnográfico.
Salvador: Itapuã, 1968.
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Vieira.
Luiz Renato. De a vadiação a capoeira regional:
uma interpretação da modernização cultural no Brasil. (
Dissertação de Mestrado). Brasília:
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A Capoeira disciplinada.
Estado e cultura popular no tempo de Vargas.
Revista Historia e Perspectiva.
Uberlândia, n. 7, p. 111-132, jul.
/ dez. 1992.
Angelo Augusto Decanio Filho -- A Herança de Mestre Bimba *
Número de frases: 118
Jean Adriano: Graduado em Educação Fisica (UFBa), Especialista em Metologia do Ensino da Ed. Fisica (UNEB), Mestrando em Educacao (UFBa), Mestre de capoeira Capítulo Dois -- Em um Quintal Indígena
Mais uma sábado se segue e o sacrifício da labuta às 8 da manhã se mistura com o tesão de 'tar ali, simplesmente ouvindo.
A casa cheia de meninos parece me convidar para entrar até o quintal, onde De o Carmo e Neide, sua mãe, lavavam roupas.
«Bom Dia!»." Hoje do Carmo não pode sair não, porque tem que me ajudar aqui».
«Fique tranqüila, hoje eu vim só pra conversar com vocês mesmo, não foi para pescar no mangue não».
«Ah, finalmente consertamos o barco, só de ' picha ' foi 60 reais, ainda teve 20 do serviço do homi, semana que vem a gente vai pescar de barco."
Picha é o material que eles usam para remendar as fendas nos barcos de madeira, segundo Neide, é tipo o mesmo material que se usa pra fazer asfalto.
Aquele quintal me remetia a um cenário recorrente.
Um fogãozinho artesanal a lenha com uma panela de feijão em cima;
um tanque / caixa-d' água, de onde se enchia as duas únicas bacias para lavar a roupa;
uma tábua de madeira se fazia de banco, onde sentei e ninei o pequeno Ivo.
A banheira de plástico de Ivo agora era bacia de lavar roupa também.
E assim se seguiu o bate papo naquela manhã nublada.
Objetivo?
Simplesmente ouvir e tentar sentir um pouquinho do ser humano naquelas pessoas.
«Ontem a Liduína, que é uma moça que sempre ajuda a gente, deu um fogão para Neguinha e uma cama de casal pra mim.
Ela mora longe, lá no Araturi, perto do Metrópole, mas a gente foi buscar.
Foi eu, Neguinha, Ivo e meu cunhado pra ajudar a trazer a carroça com as coisas.
Saímos 11 horas da manhã e só chegamos de noite " De o Carmo 'tava entusiasmada com sua cama nova.
«Aí eu dei minha cama de solteira para Neguinha.
Minha cama nova é grande, quase não cabe no quarto."
Espírito de luta.
De o Carmo contou do dia anterior longo e cansativo.
Em suas palavras o que predominava não era o cansaço, mas sim a alegria de seus novos pertences.
Mesmo quando falamos de carroça humana.
Lavava roupa, intercalava com os cuidados do filho Ivo, olhava o feijão.
Tudo ao mesmo tempo.
«De o Carmo, passa aí a 'cova na minha chinela nova que a mulher me deu».
Gritou Neide lá de dentro.
As árvores do quintal sombreava o lugar onde conversávamos, já que o sol 'quentava e despontava lentamente entre as nuvens.
Neide foi lá dentro fazer alguma coisa e ficamos só.
De o Carmo e eu.
-- Eu tou querendo comprar um terreninho pra morar eu e Ivo, mas mamãe não quer não.
Quando eu disse que ia ela começou a chorar, pedindo para eu ficar.
Ela é muito apegada ao meu menino.
-- Tu não gosta daqui não, de morar com tua mãe?
-- Gosto, a gente se dá bem, mas mamãe não deixa eu sair de casa às vezes.
Ela não deixa eu ir para o Icaraí, por exemplo, tem medo que eu vá, diz que é perigoso.
Eu nunca conheci a praia, queria ir.
Nunca fui lá.
às vezes quero ir na casa das minhas irmãs também.
-- Quanto é um terreninho?
-- Eu vou receber um dinheiro aí por causa do Ivo, aí dá pra comprar uma casinha já pronta lá perto do Centro Cultural.
Sempre que nasce uma criança, vovó assina uns papéis lá, aí gente ganha um dinheirinho.
Histórias e mais histórias iam se seguindo entre roupas, crianças e feijão.
Ivo fez xixi em cima de mim.
Peguei a caneca, afundei no tanque e me lavei.
«Sua calça é desse tecido aí, seca rápido» disse a irmã de De o Carmo, Guga, 10 anos.
«Você não sabe o que aconteceu ontem.
Veio um velho aqui em casa querendo comprar um sapo que ele tinha visto aqui no quintal.
Sapo grande, enorme.
Queria pagar cinco reais no sapo.
Aí eu peguei e fui procurar o sapo, mas ele tinha ido embora, sumiu.
Mamãe acha que é pra fazer macumba.
Eles colocam o nome de alguém dentro da boca do sapo e costuram «" Credo, vocês não ficaram com medo não?"» Não, eu queria era vender o sapo."
Lá vem Neide com linha, agulha e umas roupas na mão para costurar no quintal, batendo papo com a gente.
«Como é que foi a pesca 'sa semana, Neide?"
«Pesquei de segunda a quinta, agora que meu filho saiu do hospital.
Aquele lá que eu te contei semana passada, da diabetes.
Peguei quarenta cordas de caranguejo.
Fui vender no sábado e no domingo lá no Conjunto Ceará.
Cada corda a dois reais.
Deu um dinheirinho, mas a gente cansa muito.
Antes era de monte.
A gente entrava no rio, aqui mesmo na beira, pegava facinho de 5 a 6 kg de camarão, os caranguejo eram grande, agora, a gente passa o dia e a noite pescando para pegar 2 kg de camarão."
De o Carmo entrou na conversa falando do calote do homem do " Mercado Central.
«Ah mãe, o Rogério, o homem lá dos colares não pagou tudo não.
Ele só pagou a metade, 30 reais por os colares da gente."
A venda de colar é a atividade que atualmente compete com a pesca.
Catar semente para realizar o trabalho artesanal da construção dos colares ficou mais rentável do que afundar o pé na lama, mas em 'sas condições de desonestidade ...
Sobrinho Igor veio correndo lá de dentro com um chapéu de palha cheio de santinhos políticos.
«Nossa quantos santinhos ...
você vai votar em quem De o Carmo?"
sem pestanejar, " eu vou votar no Lula, porque se não a gente perde o bolsa 'cola.
Pra deputado nas eleições passada a gente daqui de casa votou no Dourado, índio Tapeba daqui mesmo, mas ele não ganhou.
Esse ano a gente vai votar no Cláudio, que é também índio, vamos ver se ele ganha».
Em o quintal, Igor e Guga oras brincavam com a pilha de santinhos de vários candidatos, oras brigavam.
Coisas de criança.
«Eu já tirei todos os meus documentos.
Eu que 'crevi em tudinho:
CPF, título, RG.
Neguinha não tem nenhum, só o registro de nascimento."
A educação é meio precária na 'cola da região.
«Em a 'cola, a professora passa de 3 a 4 dias sem vir dá aula."
De o Carmo 'tá na 5º série, mas não parece muito empolgada com os 'tudos não.
Sua mãe mesmo disse «De o Carmo não vai para a aula porque não quer».
Ao mesmo tempo que parece Deus ter 'quecido aquele lugar, há uma serenidade incrível na vida cotidiana daquelas pessoas que só pode existir por a presença de ele mesmo.
Apesar das dificuldades, a simplicidade transmite muitas alegrias nas pequenas coisas.
«Você acredita em Deus, De o Carmo?" "
Acredito, eu rezo todo dia quando vou dormir.
Eu peço um bocado de coisas.
Aqui na comunidade de 15 em 15 dias vem um padre celebrar uma missa pra batizar as crianças e pra rezar.
Geralmente é dia de sábado.
Passa uma mulher aqui nas casas chamando para a gente ir lá."
Em o curto caminho da casa de De o Carmo até a casa da mulher onde tem a missa, o bar 'tá sempre cheio de gente jogando sinuca, bebendo cachaça e 'cutando forró.
Em frente ao orelhão da vila, lá 'tá.
Algumas cadeiras de plástico, um altar improvisado e umas 20 pessoas, talvez 'perando a bênção de Deus.
Número de frases: 97
Este artigo foi 'crito como intuito de ajudar pessoas infectadas por memes prejudiciais.
Não vou aqui entrar no mérito de quais meme são prejudiciais ou não.
Isso ficará implícito no decorrer de meu texto que certamente refletirá o meu próprio túnel limitado de realidade.
O ponto que sustento é que uma simples análise racional, muitas vezes não basta para que uma pessoa se liberte de um modo de vida irracional.
O ser humano é uma entidade complexa que possui corpo, emoções, hábitos, meio e moral não sendo portanto somente uma máquina de pensar.
Com isso em mente resumi em 'te artigo nove pontos que podem ajudar de forma prática, todas aquelas pessoas que atualmente se sentem na triste condição de infectados.
1 -- A primeira e mais importante regra é:
Não Alimente Memes Prejudiciais.
A questão é que existem diversas formas de se fortificar um memeplexo que forma um túnel 'pecífico de realidade, e se quisermos nos livrar deste memes todas 'tas formas devem ser evitadas.
Se você quer ser alguém livre novamente é melhor começar a agir como alguém livre desde já.
Isso é 'pecialmente importante quando falamos dos hábitos que certas realidades impõem.
Pode ser difícil no começo, mas você deve parar de por exemplo orar antes das refeições se quiser deixar de ser um cristão ou, se for o caso, deve parar de rezar voltado para Mecca cinco vezes ao dia se quiser deixar de ser um muçulmano.
Se quiser mudar a si próprio, mude seus hábitos primeiro, o resto é conseqüência.
2 -- Uma boa maneira de se desprender de memeplexos daninhos é contemplar túneis de realidade contraditórios.
Esta é uma ótima maneira de descobrir os pontos fracos de alguma visão de mundo em particular, pois mostra o quão fortemente elas 'tão fixadas em princípios insólitos.
Em outras palavras, em 'te primeiro momento procure as criticas 'critas por seus concorrentes diretos.
Isso é admiravelmente eficaz no caso de memeplexos religiosos:
Judeus desmentirão o islamismo, o islam acusara o hinduismo de incoerência, o hinduismo refutará brilhantemente o cristianismo.
Isso sem contar as disputas internas que também são valiosas fontes de contradições:
Sunitas mostrarão a fraqueza do argumento Shiita e vice e versa, protestantes passarão a perna nos católicos que mostrarão o erro evidente em que 'tão os neo-pentecostais.
De certa forma todos 'tão certos em acusar o outro de 'tar errado e isso pode ser uma ferramenta valiosa.
Esta pratica não deve ser 'tendida por muito tempo, pois é preciso ter cuidado que no processo você não seja levado a engolir todo um novo sistema que usou as criticas a outro sistema como uma 'pécie de isca.
De qualquer forma una rápida contemplação, leitura ou conversa com outros pontos de vista servirão para tirar você de um mundo maniqueísta e preto-e-branco onde não existe a necessidade do raciocínio.
-- Em casos mais graves de infecção o psiconauta pode se livrar gradualmente de seus memes dominantes.
E o que eu chamo de Libertação Gradual.
Pode parecer hipócrita, e na verdade é mesmo, mas o fato é que funciona e pode ajudar você.
Todo túnel de realidade possui variações diversas:
existem católicos conservadores e existe a renovação carismática, existem hindus místicos e hindus absolutamente laicos.
O truque é buscar conhecer a vertente ideológica que 'teja ligada a sua atual, mas que ao mesmo tempo represente um passo (ainda que pequeno) para fora das amarras.
Haverá muito poucos conflitos memetico para atrapalhar e criar rejeição, nada que não se possa tolerar, mas mesmo assim 'te será um passo a mais na sua busca por sanidade.
Um idealista da extrema direita poderia, por exemplo buscar conhecer os pensadores de centro-direita, enquanto que um radical de 'querda poderia mergulhar num universo social-democrata.
Passo a passo ambos verificarão que 'tão relativamente menos presos a seus antigos memes.
-- Blasfêmia é entendido como ultrage dirigido contra pessoa ou coisa respeitável e é uma ferramenta poderosíssima para o psiconauta pois é uma oficialização de total rejeição àquilo que antes era sagrado.
A Blasfêmia deve de preferência ser feita em particular, para não agredir o túnel de realidade das outras pessoas.
Ela inclui a profanação de objetos e figuras de autoridade antes tido como sagrados.
A blasfêmia é um ato 'sencialmente simbólico e deve ser o tão desrespeitosa quanto possível (contanto que não agrida ninguém), pois desencadeará impressões mentais importantes e será um verdadeiro ato de liberdade ao que antes o oprimia.
A idéia não tem nada de mística como podem sugerir alguns, mas é simplesmente a quebra factual de um tabu para assim iniciar um novo processo mental.
Há algo de profundamente errado com o ex-nazista que ainda guarda com carinho sua cópia do Mein Kampf num lugar de destaque de sua biblioteca particular.
A blasfêmia eficaz é aquela que é seguida por um sentimento de indiferença.
A o sentir-se culpado por jogar no lixo seu crucifixo ou sua coleção de fotos do Elvis, atente aos demais conselhos deste artigo.
-- Heresia é toda doutrina contrária ao que foi definido por alguma conceituação oficial, donde se conclui que todos somos hereges de uma forma ou de outra.
Para fins de se purgar de memes prejudiciais a heresia será a crítica clara e sensata ao túnel de realidade em questão."
necessário que se contemple o memeplexo que 'ta em jogo sob a fria luz da lógica.
A o contrario da blasfêmia a heresia é mais eficiente quando feita em público, ela deve ser a oficialização de seu desprezo por o seu antigo memeplexo parasita e não um convite aos sofismas daqueles que ainda os defendem.
Em a visão daqueles ainda contagiados você será visto ou como tolo, ou como traidor.
Em o primeiro caso eles buscarão lhe «ajudar» tentando reprogramar o seu cérebro para a aceitar novamente seus memes, na segunda irão lhe atacar indiscriminadamente.
Ambos os casos se resolvem com o isolamento higienico.
-- Isolamento Higiênico.
Com vista a limpar a mente dos memes prejudiciais é 'sencial que se evite também todo os vetores que os propagam.
Isso quer dizer que você não deverá ir mais a sinagoga ou as reuniões do partido.
De preferência deve-se eliminar não só os que encontramos fora de casa, mas também os vetores que 'tão ao alcance de nossas mãos em nossa própria residência.
Não atenda ao telefonemas dos seus amigos SkinHeads.
Mande a sua coleção de revistas Sentinela / Despertai para o centro e reciclagem.
Tire o site da Cientologia da sua pasta de favoritos.
E por favor, não leia a Biblia ou qualquer livro doutrinário antes de dormir.
Se você quer sua mente limpa novamente terá que parar de arrastar ela na lama.
-- Abrace o inimigo.
Quase todo o túnel de realidade tem um túnel de realidade que é seu arquiinimigo ou possui algum grupo humano para ser bode expiatório.
Como eu gosto de colocar:
todo mundo é o idiota de alguém.
Memeplexos daninhos comumente partem do principio da generalização para manter a sua coerência, ainda que a generalização não se sustente quando analisada coerentemente.
Então se você precisa deixar de ser capitalista descubra um socialista que possa admirar e se quer deixar de ser nazista, procure um judeu que tenha uma história de vida admirável.
Um membro da KKK pode por exemplo desenvolver um respeito por algum negro de destaque e a partir daí tomar coagem para fazer amigos negros no seu dia a dia.
Um Ateu incorrigível pode buscar conhecer a vida de grandes teistas e com isso se livrar da crença de que todo crente é um ignorante.
A 'sência de 'ta pratica é q compreensão de que as pessoas 'tão acima das ideologias.
-- Muitos memeplexo s constroem seus túneis de realidade valendo-se para isso de necessidades naturais do ser humano.
Como fontes fornecedoras 'tes memeplexos criam uma situação de dependência que muitas vezes resulta num incondicional retorno do psiconauta a condição de infectado.
A melhor coisa a se fazer em 'tes casos é identificar exatamente quais são 'tas necessidades preenchidas e então buscas fontes alternativas para satisfazê-las.
Uma congregação cristã pode por exemplo empurrar todo um discurso doutrinal satisfazendo antes necessidades emocionais, sociais e mesmo físicas.
Estas mesmas necessidades poderiam ser satisfeitas de maneira muito mais saudável como na participação de um grupo de teatro, de uma equipe de basquete ou na pratica e artes marciais.
9 -- Não se culpe.
O primeiro sinal de reação memetica é o sentimento de culpa.
A culpa é um sentimento humano natural usado por os genes para corrigir atos insensatos como bater na mãe.
Acontece que alguns memes se valem deste sentimento para fazer alguns atos parecerem insensatos, quando absolutamente não o são.
É como se sentir triste por uma tragédia que nunca ocorreu.
Não tente portanto argumentar com 'te tipo de culpa ou vergonha.
A culpa e a vergonha não são argumentos e portanto não precisam de contra-argumenta ção.
Em a maioria das vezes a culpa surge porque alguma necessidade discutida no parágrafo anterior foi ignorada.
Este tipo de sentimento é na verdade o último golpe dado por os memes que não «querem» abandonar a memesfera de sua mente.
O bom humor unido à razão é sempre o melhor remédio para contornar 'te problema.
Número de frases: 80
Houve um tempo em que a coisa mais fina que se podia oferecer num jantar era Strogonoff com arroz à grega.
Acompanhava Chateau Duvalier, o vinho «fino» oficial do momento.
Com o passar do tempo, strogonoff virou comidinha trivial, com versões de carne moída e creme de leite de lata, e o arroz ganhou abomináveis complementos como milho verde, petit pois, batata palha e queijo ralado.
Perdeu o posto nobre para outras iguarias, como o Filé à Francesa, o Bife à Parmeggiana e o Frango à Kiev que também 'teve na crista da onda, sempre acompanhado de uma certa tensão na primeira facada, quando a manteiga jorrava, fervendo, direto para o vestido e para a camisa do freguês.
Depois, o tal Supremo de Frango à Kiev ganhou recheio de Catupiry, mas nunca se comprovou a existência do tal requeijão da caixinha redonda na Rússia.
Catupiry também é candidato a um dos primeiros lugares no modismo das cozinhas, como forma de dar status ao mais prosaico dos bolinhos de aipim.
E o coquetel de camarão?
Servido em taças geladas, numa cama de alface picada e molho golf, também entrou em extinção junto com barquetes de salada de presunto e sacanagens, aperitivos montados no palito alternando rodelinhas de salsicha, azeitonas e queijo prato.
O que dizer das bebidas de moça, dos coquetéis dulcíssimos, do Alexander, das Meias de Seda, do Xixi de Anjo, e do coquetel de frutas cheio de groselha?
Depois foi a Piña Colada e o Kir, Royal ou plebeu, com muito licor de cassis.
Entraram e saíram da moda para a felicidade dos barmen.
Modismo na comida é um fenômeno internacional.
O mundo assistiu ao boom do Frango Xadrez, do Sushi, do azeite extravirgem, da ciabata.
O fondue é ainda hoje um clássico dos começos de namoro -- no inverno, claro.
Agora 'tamos no momento do triunvirato tomate seco / mussarela de búfala / rúcula.
Virou comida tradicional, assim como a tequila é a bebida oficial da adolescência.
Vida que segue.
Mal posso 'perar por o declínio do vinho de garrafa azul.
* Esse texto, 'crito por mim, foi publicado no Caderno H, suplemento do Jornal do Brasil, em 2004.
Resisti à terrível tentação de editá-lo, mas pensei em mil e uma alterações e acréscimos possíveis.
Vai para o blog como foi para a coluna GastronoRio, que eu 'crevia na época.
Eu tinha limite de palavras, linhas e colunas, coisa de jornal.
Estamos em 2008, pleno reinado do temaki, do balcão de caipifrutas nas festas, das bebidas energéticas com gosto de bala derretida misturadas ao uísque (depois falam do uísque com guaraná, que também foi moda ...).
Em as festas servem mini-cumbucas de comidinhas de boteco, copinhos de caldinhos, wraps e cascatas de chocolate pra mergulhar frutas.
As pastinhas de creme de leite misturado à sopa de cebola de pacote, comidas com biscoito Salclic, entraram em extinção.
Os sanduíches a metro saíram um pouco da cena.
Há linhaça por toda parte.
O vinho rosé ficou chique de novo.
Servem sucos de melancia com gengibre e abacaxi com hortelã nas festas.
As tábuas de frios, patês e pastinhas e as cestas de pães continuam quebrando um belo galho nas socis e o queijo brie derretido com geleia de damasco continua mandando no rechaud do centro de mesa.
Tá bão:
para mim 'sa é uma delícia que não vai sair da moda, nunca!
Número de frases: 32
O rap instala um conflito na tradição sonora do país.
Tanto em sua 'trutura musical como na linguagem verbal a adoção de traços polêmicos torna pública a transformação ocorrida na postura da juventude negra, que assina sua própria representação, assumindo a tensão social como alternativa artística possível e urgente.
Nega duplamente a cordialidade construída e sustentada por o mito da democracia racial brasileira, herdando elementos do Black Power e agindo de forma a aproximar-se da concepção de Malcolm X e dos Panteras Negras, eleitos como modelos transgressivos.
Essa tensão não faz parte do cotidiano do negro brasileiro que, de forma geral, ainda vive o sonho do interacionismo, buscando se adequar na realidade nacional, intermediado por a ideologia do branqueamento que exige e sustenta sua imagem manemolente e cordial.
Estereótipo que Frantz Fanon destaca ao comprovar que a presença de negros sorridentes em anedotas e peças publicitárias é uma exigência do branco colonizador.
O mecanismo da cordialidade promove a «integração harmoniosa» do negro numa sociedade que lhe é adversa.
Imagem e comportamento calcados na ausência de sinais de revolta.
A discussão das questões raciais alcançou um grande grau de elaboração no Brasil, porém ficou restrita a militantes que, na maior parte dos casos, deixam de pisar na lama da favela, ou à intelectualidade acadêmica.
Enquanto população, o negro continua no hall da miséria e na sala da alienação.
Em a maioria dos casos, encontra-se integrado nos valores do outro e corresponde àquela alegria abordada por Fanon como mecanismo de preservação da 'pécie.
O rap inverte 'ta postura, elegendo o enfrentamento verbal violento como pulsão artística e social.
Antes de ser local, o problema do negro é diaspórico, por isso a virulência do rap encontra-se mundializada.
A exemplo do rock e do reggae, o rap tornou-se uma linguagem sem fronteiras.
Extrapola os limites nacionais e adquire a «cor preta e pobre local» de cada sítio onde se instala.
Logicamente, com 'sa abertura, comunidades não negras se apropriam do rap como protesto social, fruição 'tética ou mercadoria de consumo.
Em o caso 'pecífico do contexto da negritude, articula universais como as reminiscências da transplantação violenta, a experiência da 'cravidão, o presente de miséria, a violência policial, o extermínio dos miseráveis, a discriminação racial e o racismo.
Para os interesses imediatos dos jovens afro-descendentes brasileiros, o rap é mais familiar que os romances eruditos ou as novelas televisivas.
Há na postura dos rappers uma sisudez marcada por a ausência de sorrisos conciliadores e por uma rígida e agressiva gesticulação.
Tranqüilidade, adequação e alegria são o que a sociedade brasileira ainda 'pera dos negros bons, mesmo em tempo de cotas.
Na contramão de 'ta expectativa, o rap 'tabelece, conscientemente, uma postura calcada em atitudes descolonizadas.
As letras e a postura dos artistas do hip hop se fundem na tentativa de anulação das fronteiras entre a realidade e sua representação.
Estetiza a consciência adquirida no contato diário como o «pesadelo periférico» de sua vizinhança pobre, preta e violenta.
Instala um discurso que, se por um lado, se apresenta como fala do coletivo, por outro, centra-se no «negro drama» de cada um.
Em a Bahia, também, elevam-se vozes não-cordiais que agridem frontalmente o mito da baianidade feliz desde e para sempre.
Oferece uma imagem do negro oposta à veiculada em peças publicitárias para 'camotear as mazelas e atrair turistas.
O rap soteropolitano instala um mau-cheiro no jardim das musas perfumadas da axé-music.
Dedicado aos companheiros da Blackitude:
Afrogueto, Elemento X, Quilombo Vivo, O Clan, Turbilhão Urbano, Independente de Rua, Ana Cristina Pereira, Ricardo Soares, Lucinha Black Power, Luíza Gata, e, 'pecialmente, aos incríveis parceiros DJ Edilson, Dj Joe, Penga, Fábio Sanguessuga, Robson Sem Acordo e Rangel Santana, meu texto quer ser, apenas, o anúncio que o hip hop da Bahia prepara o bote da serpente de várias cabeças que cresceu na surdina enquanto o país só tem olhos para nos 'tereotipar, continuamente, como a versão negra da visão paradisíaca sensual inaugurada, aqui mesmo, por o colonialismo de Pero Vaz de Caminha e seus quarenta ladrões.
Número de frases: 28
Quem não lembra daquele cara gente boa que dizia " Cacildes '?
Em o dia 12 de Julho de 1994, aos 53 anos, morria O Trapalhão Mussum por complicação de um transplante de coração, deixando um legado de 27 filmes e mais de vinte anos de participações televisivas que marcaram uma geração de pequenos e grandes crianças.
Ele, com seu jeito manhoso e descolado, recebeu em 1969 um convite de Chico Anysio para trabalhar na extinta TV Tupi na Escolhinha do Professor Raimundo e em vários musicais da TV Globo e Excelsior, onde conheceu Dedé Santana, que em 1974, o convidou para fazer parte dos Trapalhões, onde se imortalizou com suas gírias «forevis ' e seu inesquecivel» mé " (cachaça).
Antes de se tornar o Mussum, Antônio Carlos Gomes foi criado nos morros cariocas e num colégio interno, no qual 'tudou por 9 anos, recebendo o diploma de ajustador mecânico e logo depois mais 8 anos nas forças armadas com a Caravana Cultural de Música Brasileira de Carlos Machado, no que possibilitou fazer parte do grupo «Os Originais do Samba» e viajar por quase todo o mundo com vários sucessos como «Assassinaram o Camarão».
Em 1969 Dedé Santana o convidou para fazer parte dos Trapalhões, porém, Mussum recusou dizendo, no maior humor, que pintar a cara, como é costume fazer entre os atores, não era coisa de homem, mas parece que a vida de trapalhão o chamava de qualquer jeito, onde em 1975 não resistiu e entrou oficialmente para a turma no programa O Mundo Mágico dos Trapalhões, fazendo já no ano seguinte o personagem Guarda Azevedo no filme Trapalhão no Planalto dos Macacos.
De lá, foram 29 anos de trapalhadas e cambalhotas, incorporando personagens inesquecíveis como o Fumaça (O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão -- 77), Fumê (Os Trapalhões e o Rei do Futebol -- 86), Homem de Lata (Os Trapalhões e o Mágico de Oróz -- 84), Mussaim (A Princesa Xuxa e os Trapalhões -- 89), Mumu, o Mago (Uma Escola Atrapalhada -- 90), que se fazem presentes na mentes e nos corações de todos os adultos de hoje, sendo considerado um dos maiores comediantes que o Brasil já possuiu, ao ponto de merecer um museu na 'cola de Ricardo Albuquerque, no interior do Rio de Janeiro, onde guarda roupas, filmes e instrumentos musicais que pertenceram ao comediante.
OS 10 Mandamentos do MÉ
I-Sempre que tomais algo etílico brindais ao Mussumzis!
II-Não cobiçais o mé alheio.
III-Louvais sempre ao Mussum como o cara mais gente boa do mundis! (
Você com certeza deixaria o Mussa ficar com a sua irmã)
IV-Façais todo ano o ritual sagradis do Mé!
V-Torçais e vejais sempre a mangueira entrar! (
Em o bom sentido, é claro!)
VI-Matarás todas as garrafas!
VII-Não roubarás o mé alheio, peça primeiro!!
VIII-Sempre que puder, fique somente de cueca e meias!!
IX-Cultive a tradicional «pança de cervejeiro».
X-Agradeça sempre por o mé nosso de cada dia!
Filmes De o MUSSUM
1991 -- Os Trapalhões e a Árvore da Juventude
1990 -- O Mistério de Robin Hood
1990 -- Uma Escola Atrapalhada (Mumu, o Mago)
1989 -- A Princesa Xuxa e os Trapalhões
1989 -- Os Trapalhões na Terra dos Monstros (Mussum)
1988 -- O Casamento dos Trapalhões
1988 -- Os Heróis Trapalhões -- Uma Aventura na Selva
1987 -- Os Fantasmas Trapalhões (Mussum)
1987 -- Os Trapalhões no Auto da Compadecida
1986 -- Os Trapalhões e o Rei do Futebol (Fumê)
1986 -- Os Trapalhões no Rabo do Cometa
1985 -- Os Trapalhões no Reino da Fantasia
1984 -- A Filha dos Trapalhões
1984 -- Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (Homem de Lata)
1983 -- Atrapalhando a Suate
1983 -- O Cangaceiro Trapalhão
1983 -- Os Trapalhões na Serra Pelada (Mexelete)
1981 -- Os Vagabundos Trapalhões
1981 -- O Mundo Mágico dos Trapalhões
1981 -- Os Saltimbancos Trapalhões (Mussum)
1980 -- O Incrível Monstro Trapalhão
1980 -- Os Três Mosqueteiros Trapalhões (Mussum)
1979 -- O Cinderelo Trapalhão (Mussum)
1979 -- Rei e os Trapalhões (Abol)
1978 -- Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (Mussum)
1976 -- O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (Fumaça)
Número de frases: 46
1976 -- Trapalhão no Planalto dos Macacos (Guarda Azevedo)
O filme «Margem» apresenta o fascinante universo daqueles que dependem 'sencialmente das embarcações que navegam o rio Amazonas para sobreviver.
Um lugar onde aparentemente nada acontece, um lugar completamente diferente das grandes cidades que nós (incluindo Maya e a sua equipe) 'tamos acostumados a viver, mas que diante do olhar da câmera ganha uma dimensão, uma complexidade sem medida e de notável interesse antropológico.
A proposta do filme é acompanhar durante dois dias e três noites a viagem percorrida por uma embarcação que parte da fronteira do Brasil com a Colômbia e segue, lentamente, em direção à cidade peruana de Iquitos.
Para isso, a diretora cria o interessante (e rigoroso) dispositivo de não sair do barco em momento algum, mesmo nas diversas paradas que ele realiza ao longo da viagem, limitando-se simplesmente a capturar tudo aquilo que porventura possa acontecer dentro da embarcação e nos encontros de 'ta com os povoados à margem do rio.
De esse modo, a margem se revela diante da câmera à medida que os passageiros divagam sobre 'se lugar de múltiplas feições e que permanece em constante transformação.
A partir da narrativa elaborada por os viajantes podemos constatar a dinâmica 'pecífica daquela 'trutura social, sua lógica e suas contradições, bem como descobrir as histórias e lendas locais que permeiam o imaginário social daquela região.
A sensação de que nada e ao mesmo tempo tudo acontece no decorrer daquela viagem 'tá o tempo todo presente no filme.
O balanço constante das redes, a exuberante vegetação que faz companhia à viagem, o «grande encontro» da embarcação com as pequenas comunidades ribeirinhas (deixando claro que sem as paradas do barco 'ses povoados provavelmente não sobreviveriam), o dinamismo do comércio local (frutas, legumes, verduras, animais, tudo é transportado no barco), a diversidade de culturas e pessoas, vindas de outras regiões, outros países, todos 'ses elementos, entre outros, contribuem para que «Margem» ganhe uma surpreendente densidade 'tética e teórica fundamental para a compreensão antropológica daquela realidade.
Analisando ainda a dimensão 'tética do filme, Maya Da-Rin utiliza em determinados momentos, como recurso de linguagem, a dissociação entre o som e a imagem, ou seja, enquanto determinada pessoa narrava a sua história, a câmera era livre para encontrar naquela paisagem, dentro daqueles limites, outras imagens que pudessem de algum modo enriquecer o que 'tava sendo dito naquele momento.
O contrário também acontecia, visto que o responsável por o áudio do filme 'tava o tempo todo preocupado em encontrar sons, falas, ruídos que, independentemente da imagem, pudessem revelar o sentido e a lógica própria daquele ambiente.
Esse dispositivo tende a valorizar não só a imagem (que, por si só, já é reveladora), mas também o som, o discurso, a importância da narrativa daquelas pessoas que habitam aquele lugar.
Trata-se, portanto, de um filme que não 'tá procurando realizar uma simples descrição de um lugar ou de uma sociedade, mas, sobretudo, elaborar uma interessante (e sensível) reflexão, que assume notavelmente um caráter antropológico, sobre a realidade daqueles que vivem à margem do rio Amazonas e dependem diretamente de ele para sobreviver.
Margem
Maya Da-Rin, RJ, 2007, 54' Durante dois dias e três noites uma embarcação navega lentamente por o rio Amazonas, partindo da fronteira do Brasil com a Colômbia em direção à cidade peruana de Iquitos.
Número de frases: 15
A margem se revela diante da câmera, à medida que os passageiros divagam sobre um território de múltiplas feições e em constante transformação.
A primeira imagem que me ocorre ao pensar no Festival de Inverno de Chapada dos Guimarães, na edição desse ano de 2007, (o festival acontece há mais de vinte anos) é a do velho bardo Hermeto Paschoal bradando aos quatro ventos com suas longas barbas e imaculados longos cabelos brancos, brandindo sua língua como uma arma mortífera -- com todo seu corpo, vociferando contra aqueles que maculam a música, seja por incompetência, falta de prudência, descaso, ou lá o que for.
Chegamos correndo em Chapada dos Guimarães, atrasados, já na metade do único show que agendei para assistir no Festival de Inverno, demoramos muito a chegar até o centro da pequena cidade.
Muito movimento, muitos carros, era por volta de 11 da noite.
A cidade fervia.
Logo na chegada, à esquerda de quem chega por Cuiabá, fica Aldeia Velha, lugar lendário em Chapada, cemitério de índios, lugar de muitas lendas.
Já morei na Aldeia Velha durante dois anos numa casinha de madeira, 'pécie de retiro, foi um período de longas reflexões e produção de muitos textos.
Não reconheci a velha Aldeia, como primeiro impacto só vi balbúrdia, luzes, 'truturas metálicas, carros, muitos carros, sons sons, tudo misturado, mixórdia insana, cada um querendo aumentar mais e mais seu próprio som.
Zona quente, corpos em exibição, a celebração 'tava no ar.
Seguimos adiante, chegamos ao centro da cidade, não há vagas, fico rodando feito barata tonta em meio a tantos carros.
Tudo cheio, nenhum lugar para 'tacionar.
Logo entendo o porquê de dezenas de 'tacionamentos privados-improvisados darem o tom -- elos de uma cadeia produtiva se multiplicando.
5, 10 reais, os preços variam diante da promessa de segurança total.
Acho uma vaga gratuita na maior sorte, a rua é pública, penso, logo me sinto à mercê da violência.
Por que será que os 'paços públicos sempre nos causam insegurança?
A segurança é privada, você paga e pronto.
Mais elocubrações e perco o show ...
Pressa. Não quero perder o Hermeto.
Sei que não é no palco principal (nunca entendi o porquê disso!!!),
mas ... onde fica o tal Centro Cultural?
Perguntamos para várias pessoas:
onde vai rolar o show do Hermeto?
Nenhuma resposta, nenhum conhecia o tal centro cultural e menos ainda o velho bruxo. (
talvez 'teja aí um dos motivos -- comercial -- de não 'calar o velho bruxo para o palco principal do festival) Se ninguém começar a definir o que quer atiro a primeira sugestão, sei muito bem o que quero assistir e sei também que tanto o artista quanto o público merecem uma 'trutura digna para a apresentação de um dos mestres da música brasileira.
«A música não merece isso!
O maestro que mandou 'sa bosta desse piano aqui não merece o título de maestro.
Não ama a música.
Não respeita vocês.
É uma merda de piano, o pior piano que já vi na minha vida."
Sua voz ecoando aos milhares de cantos e voltas.
Sem encanto nenhum aquele momento.
Foi chato.
Pensei na decadência, sem elegância nenhuma:
puxa cheguei atrasado para o show, mas peguei a pior parte (para muitos ali, a melhor parte) do show.
Maldadezinhas circulando nas mais de mil faces da noite nas bocas das hienas que acompanham tudo com um risinho cínico na cara pregada.
Cara, como as pessoas gostam do fracasso alheio!
É muito louco, o ser humano se comprazendo com a queda do cara que mora ao lado.
Irreparável!
Foi o que pensei com meus botões (Hermeto aos borbotões -- não resisti!).
Os jornalistas atônitos a se perguntarem pasmados (quase pasmosos):
Qual dos dois maestros?
Fabrício Carvalho, da UFMT, ou Leandro Carvalho, da Secretaria Estadual da Cultura?
Em resumo: Qual dos Carvalhos? (
como resistir à tentação diante da cruz, da 'pada, do piano, das palavras mortíferas do velho bardo bárbaro -- caralho!)
«Por que tamanho descuido?"
A noite vai passando entre um show e outro mas continuo me perguntando?
A voz da minha consciência não pára de me atormentar.
A voz de ele 'tava realmente irada.
Penso mais:
«Puxa vida, não precisávamos passar por 'sa».
O sentimento geral era 'se, de bairrismo, do sujeito local que se sente atingido por a falta de jeito com o jeito do artista.
Puxa vida, um piano ruim e desafinado, com a sonoridade contida, abafada, um instrumento que devia 'tar num centro intensivo de recuperação.
Vivi muitos lados em 'ses anos todos de festivais em Chapada dos Guimarães.
Seja tocando, como público, palestrando, mostrando alguma produção audiovisual, enfim, participei de muitos lados do jogo.
Lembro-me de alguns episódios rusguentos / conflituosos, mas lembro principalmente do primeiro festival de Chapada, nos idos anos de 1980 e alguma coisa (1984?).
Formávamos um grande grupo de artistas de vários segmentos, os mais representativos daquele momento de entusiasmo e muita animação cultural, de muita ação e 'perança.
Organizando segmentos, propondo políticas públicas, interferindo no processo cultural regional, enfim, militância política e arte enchendo nossos dias e sonhos.
Realizamos grandes encontros por aqui, pessoas de todo o Brasil de vários lugares mesmo, se encontrando e celebrando, fazendo muitas festas, reuniões culturais, saraus literários, shows, happenings.
Recém saídos dos governos militares, democracia era uma palavra mágica para nós.
Os movimentos populares se insurgiam, a galera invadia as ruas, o rock ' n roll proliferava, as feras 'tavam soltas e os rugidos preenchiam os 'paços como urros de 'perança, expressando o desejo de liberdade e igualdade de direitos, finalmente chegara a nossa hora.
Revoluções tardias, expectativas falsas, ingênuas mesmo, sendo criadas e desejadas, agíamos como filhos famintos por liberdade de expressão.
Começava a surgir um cenário regional, local, com cara de inevitável urbe que emergia entre 'plendorosos casarões criando um ambiente pós-moderno, fragmentário, 'tabelecíamos diálogos com outros territórios, com as poéticas do outro lado, os de fora, respaldados por professores modernosos que vinham da USP e da Unicamp.
A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) era um território de resistência cultural, de vanguarda de retaguarda, de tudo.
A idéia de fazer um festival em Chapada dos Guimarães era de uma galera meio hippie, poeta beatnik, ambientalista, naturista, que frequentava a Cachoeira dos Malucos, pessoas que buscavam restos de paz e amor em busca de um novo modo de vida baseado no velho e bom hippie.
Uma onda psicodélica enchendo o ar de cores e premissas libertárias.
Mas o governo do senhor Júlio José de Campos (pDS) ocupou o centro do salão e chamou para a dança.
Dançamos os malucos, afinal eles detinham o poder de fazer, tinham verba, tinham 'trutura, tinham poder.
Assaltaram a galera, pegaram a idéia e a distorceram.
Criaram um monstrengo que até hoje tentam remendar.
Frankestein ainda tinha uma cara.
Esse festival até hoje não tem.
A cidade não comporta.
A cidade pede socorro.
A balbúrdia impera, mixórdia, congestionamentos, sons cruzando-se numa babel de muito mau gosto mixórdia desordeira ruídos desordem nada criativa.
Nada a ver com o clima da cidade hospitaleira.
A burguesia entrou com seus carrões e o agronegócio berra com seus bovinos desfilando por a praça central.
Chegamos ao Cafua, um centro cultural alternativo que vem se desenvolvendo devagar e sempre, um lugar tranquilo, aprazível, com fogueira, a banda cuiabana Cachorro Doido mandando um blues bem bacana, ora rock ' roll com mais pegada, galera celebrando tudo na santa paz, ali parece que pegou o 'pírito da coisa.
Lá sim 'tava com cara de um festival mais tranquilo, mais voltado para uma celebração ecumênica, solidária, alto astral mesmo.
Tudo bem que o festival vem se aprumando nos últimos tempos com iniciativas de formação cultural, proporcionando oficinas, mostras de teatro, exposições de artes plásticas, audiovisual, enfim, uma programação que quer trazer alguma coisa para a cidade, investir na qualificação das pessoas, mas ainda não basta para dotar o festival de uma cara, de uma identidade.
Não sou contra a popularização do festival, mas creio que deve-se primeiro dotar a cidade de 'trutura para receber tanta gente.
Todo ano falta água e vira um transtorno.
As ruas ficam intrafegáveis.
Até a tranquila Aldeia Velha 'tava 'tranhíssima com muitos eventos paralelos se atrapalhando.
Maestro Fabrício Carvalho disse que havia avisado, por quatro vezes, que o (bendito) piano de cauda, Fritz Dolbert (a UFMT tem dois, adquiridos por volta de 1985), cedido sem custo para o show do Hermeto, 'tava encostado, sem condições para shows ou concertos, que 'tava servindo apenas para a clientela (alunos) da própria universidade.
O maestro ainda soltou uma boa, quase morri de tanto rir: --
Eduardo, a minha primeira reação foi a de quebrar todos os discos que tenho do Hermeto.
Cheguei a pegá-los para quebrar, de tanta raiva, afinal eu não tinha nada com aquilo.
Ainda bem que conservei, pensei melhor, achei que não valia a pena.
Ainda bem, maestro!
Número de frases: 89
Ainda bem! Quem é a artista que tem seu nome 'palhado por toda a capital da Bahia?
Inquieto, andando de um lado para o outro, selecionando 'culturas ...
As telas já 'tão nas malas.
É véspera da viagem para Portugal, onde vai expor, e Bel Borba fala enquanto toma as últimas providências.
«Traz um charuto de, no máximo, R$ 12», pede para seu assistente.
«Esse aqui custou R$ 3, mas a vendedora disse que um cubano que passou por a loja (no Pelourinho) disse que era muito bom», responde o assistente, um minuto depois.
Com o charuto na mão, Bel finalmente se senta.
«Pode começar a entrevista», diz.
«Que charuto ruim!»,
são as palavras seguintes.
Ver as obras «enclausuradas» em sua loja na Ladeira do Carmo, no Pelourinho, é no mínimo 'tranho.
Bel é artista da rua.
Artista por as ruas.
Suas obras 'tão 'palhadas por a cidade de Salvador.
Difícil não associar seu nome ao da cidade.
«Quem é 'se tal de Bel Borba que faz tanta coisa aqui na Bahia?»,
perguntou, certa vez, uma amiga minha, de São Paulo.
«Quem é Bel Borba? ...
Está aí.
Boa pergunta», respondi.
Artista completo ...
pinta, faz 'culturas, cria mosaicos, inventa cenários de teatro ...
Transforma. Assina o nome por os quatro cantos de Salvador.
Impossível ficar no anonimato.
Ainda mais com o bigode a lá " Salvador De ali que cultiva há mais de um ano.
Alberto José Costa Borba, soteropolitano, filho de advogados, nasceu em 23 de janeiro de 1957.
A os 8 anos, criou sua primeira obra em xilogravura.
Vendeu para uma vizinha.
«Desde aquele tempo, vivo da arte», orgulha-se.
O artista chegou a cursar Direito durante dois anos, mas logo se rendeu definitivamente ao talento.
A Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi o passo seguinte.
Não chegou a concluir.
Precisava viajar demais, levando sua arte para as mostras 'palhadas por o Brasil.
Antes, chegou a trabalhar numa agência de publicidade.
Com o primeiro salário, comprou uma prancha de surfe.
Pegou onda em Bali e aproveitou como pôde os anos 70.
Em a arte, dedicava-se principalmente à pintura com spray.
«Comecei a achar o spray comercial demais.
Queria algo no 'tilo feito à mão», conta.
Pintura a óleo foi a solução encontrada para fazer «arte com cara de arte».
Logo 'tava criando cenários para peças de teatro, principalmente as dirigidas por Márcio Meirelles.
De 'sa forma, aprendeu a trabalhar rápido.
Para 'treitar o abismo entre a arte e o público, levou suas obras para as ruas.
«Tudo aqui é meio céu aberto.
Salvador tem 'sa cultura de rua», observa, com metade do charuto em mãos.
Conhecer -- e reconhecer -- seu trabalho não é tarefa difícil para quem circula por Salvador.
De o viaduto que liga Ondina a Garibaldi surgem morcegos em mosaico.
Em o Rio Vermelho, orixás no Largo de Dinha abençoam quem passa por o bairro boêmio.
A feia encosta na subida para a Fazenda Grande ganha forma de uma enorme tela onde pássaros feitos em mosaico tornam a paisagem admirável.
De as ruas, para os museus.
A mostra Por Favor, Não Matem Raul Seixas!
passou por o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) e agora viaja o mundo.
Antes, duas personalidades já haviam sido homenageadas por ele:
Pierre Verger e " Glauber Rocha.
«O próximo será Márcio Meirelles.
Será a primeira pessoa viva que vou homenagear», revela.
Enquanto isso, faz planos para construir uma praça em Itaparica, local onde 'tá localizado seu ateliê desde o início deste ano.
«Vou comprar um terreno, procurar apoio para colocar a luz e os bancos.
Praça é isso:
luz, bancos e algumas 'culturas», conta.
Mais uma vez, o artista preocupa-se em levar a arte para a população.
«De 'sa forma, venho contribuindo para desmistificar o fazer e o apreciar a arte», opina.
«A arte é a coisa mais exuberante feita por o homem.
A natureza tem suas belezas, o homem tem a arte», compara, enquanto apaga o charuto ...
Número de frases: 64
De entre os muitos povoados transformados em ruínas com a decadência do ouro, 'tá Traíras, situada a 10 km da cidade de Niquelândia, no Norte de Goiás.
Também chamada Tupiraçaba, foi a região mais povoada de 'sa época, inclusive capital do Brasil.
Porém Traíras é um nome 'quecido que ainda vive na memória de alguns goianos e de poucos habitantes que insistem em ficar sob as ruínas dos velhos casarões.
O português Manoel Tomar fundou o arraial onde encontrou ouro em abundância no rio Traíras, daí a origem do nome, que depois passou a se chamar Tupiraçaba, nome que nem mesmo alguns moradores têm conhecimento.
Em o ano de 1735 'te povoado foi o centro da mineração goiana, chegando mesmo a hospedar D. Pedro II, que despachou na cidade por 24 horas.
Entre 1735 e 1800 circulavam por lá quinze mil garimpeiros.
Os moradores falam com orgulho desse tempo, e há quem se arrisque em dizer que ainda há ouro enterrado, pois acham impossível ter acabado todas as reservas da região.
Um morador mais antigo, o Sr. Chico, me contou:
-- Aqui quando chove muito a gente acha migaias de ouro que vem nas enchentes ...
Em o justo momento em que falava isso ia chegando seu filho com um saco nas costas, 'tava garimpando.
Ele acredita existir ouro enterrado porque muitos têm visões, e assim vai falando:
-- Oia, só para o cê vê:
quando Dom Pedro veio aqui, uma senhora ricaça mandou fazer um cacho de banana todo em ouro maciço e deu pra ele ...
Tinha um fazendeiro que tinha uma carabina toda de ouro, é certo que eles enterraram muito ouro por aqui, o problema é que a gente não tem como cavucá ...
Os olhos do Seu Chico brilham quando fala, contrastando com os casarões abandonados, caindo aos pedaços.
Bem no meio da praça existem os pedaços de paredes feitas em blocos de pedras enormes, são os restos da única cadeia que existiu em Traíras.
Dizem que foi queimada com os presos dentro, no ano de 1910.
Segundo depoimentos, os detentos foram juntando bagaços de cana, formando uma montanha que pegou fogo e ninguém conseguiu apagar.
Em o fundo da casa em frente tem um túnel que sai da cadeia, onde morreram muitos homens, na tentativa de fuga.
A forca que é motivo de muitos causos, foi destruída aos poucos.
Seu Chico guarda os ferrolhos que trancavam 'sa cadeia pública, e hoje no local existem alguns vestígios de ela e uma quadra de 'portes.
Traíras guarda a lembrança de momentos dourados.
A casa onde Dom Pedro se hospedou já caiu a metade, o restante pende para o fim.
Em ela mora Dona Nica tentando protegê-la na luta contra o tempo.
A velha casa de fundição (onde era fundido o ouro) tem as marcas do trabalho 'cravo nas paredes que resistem aos anos.
O Cartório Civil é hoje residência, onde o morador tenta conservar intactas as paredes, o telhado, porque 'pera receber uma recompensa por isto.
As mangueiras no quintal têm um porte frondoso que abriga histórias de 270 anos de existência.
De as grandes construções de pedras que foram depredadas na busca de ouro enterrado, ainda resistem algumas paredes e os velhos casarões, onde algumas famílias habitam, 'corando as paredes, o telhado, porque 'peram receber alguma indenização do governo por conservarem 'ses monumentos.
De a antiga igreja construída por os 'cravos só resta uma parede que nem o tempo e os caçadores de tesouros enterrados conseguiram derrubar:
é uma construção com paredes de mais de meio metro de 'pessura que resiste em meio ao matagal e à curiosidade de muitos.
Seu Chico diz ter encontrado no solo de 'ta igreja uma máscara de ouro e a vendeu para um senhor de fora.
Indago sobre 'sa máscara e ele dá os detalhes:
-- Era uma máscara do tamanho de uma cabeça, toda em ouro, achei ela enterrada, mas chegou um 'trangeiro aqui e ficou querendo comprá a ela, vendi baratim, ele me deu um pouco do dinheiro e o resto até hoje ...
O cemitério que antes era a primeira igreja de Traíras, a igreja do Senhor Bom Jesus, é um local abandonado onde ainda se lê em algumas das lápides datas como 1830, 1920, e outras.
Porém não existe nenhum nome do capitão Sarzedas, que segundo consta nos livros de História de Goiás, foi enterrado em 'te cemitério.
Os moradores dizem que ainda encontram ossadas humanas por todo o povoado.
Sempre que alguém cava em algum lugar, é possível se encontrar uma.
Seu Chico diz que há uns dias atrás foi fazer um buraco no quintal e encontrou pedaços de 'queleto humano, enterrando-os novamente.
Também conta que sua amiga sonhou que tinha ouro enterrado na antiga igreja do Rosário e por isso foram lá cavar.
à medida que foram cavando foram se descobrindo quadrados de aroeira com números em seqüência, ele desenterrou o n.
º 17, tal qual não foi sua surpresa ao ver que o tesouro enterrado consistia em ossadas humanas.
De a Igreja do Rosário só existem algumas paredes de pedra.
Contam que os móveis, baús, santos, sino, foram levados para a cidade de Uruaçu.
Dizem que havia até um baú com coroas de ouro e pedras preciosas, 4 castiçais de ouro, imagem de Nossa Senhora da Conceição.
Esse caixote possuía 3 travas de ferro, uma chave enorme, era necessário a força de 3 homens para abri-lo.
Um senhor de 80 anos que cuidava da igreja passou mal logo após os bens serem retirados e morreu.
Essa igreja foi tombada por o IPHAN, por parecer de Carlos Drumond de Andrade, que era funcionário do órgão.
Inscrição 426 de 19 de janeiro de 1955, processo 0510 T-54, Livro de Belas Artes.
Foi depredada em 1966 e hoje dentro de ela existe um chiqueiro de porcos.
Em os dados do IPHAN consta o seguinte:
Descrição:
Edifício de arquitetura religiosa, localizado no centro do antigo e próspero arraial de Traíras, no município de Niquelândia, antigo São José do Tocantins.
Construção do século XVII, do período do ciclo do ouro em Goiás, 'ta igreja possuía, à época de seu tombamento, obras de arte em seu interior tais como:
altares laterais com colunas torsas, arco cruzeiro pintado em têmpera, campas de madeira numeradas no piso, além de uma coleção de grande valor 'cultorico de imagens de madeira, moveis e castiçais em chumbo.
Em 1955, sofreu obras de restauro por o então DEPHAN.
A igreja possuía fachada simples, com frontão e óculo central.
As portas, janelas, ombreiras e vergas retas eram em madeira.
O telhado possuía beiral aparente no interior da igreja.
A planta também era simples, de nave única, com puxado lateral para a sacristia.
O arco do cruzeiro era decorado com motivos em interpretação barroca.
Os altares laterais em talha, com colunas torsas e baldaquino, se assemelhavam aos retábulos de Minas, na época de D. João V. Em seu conjunto de imagens sacras, temos:
o Cristo crucificado do altar (crucifixo de marfim) e uma outra imagem de tamanho menor:
Nossa Senhora da Conceição;
Nossa Senhora do Rosário;
Santa Efigênia (02 imagens);
Santo Antônio (hoje restaurada e guardada no Museu das Bandeiras, Goiás);
São João Nepomuceno; São Pedro;
São Benedito e uma que possivelmente venha a ser São Domingos.
Em o final dos anos 70, a igreja já 'tava em ruínas e parte de seus objetos (imagens e sino) foram arrestados por o Bispo de Uruaçu -- Dom José da Silva Oliveira.
E assim são muitas histórias, às vezes fantasiosas como a do ouro que corre nas ruas após as chuvas, as visões e outras.
Mas todas guardam um fundo de verdade.
Em o povoado não há 'colas, hospitais, nem farmácias;
os habitantes que são mais ou menos umas 120 pessoas, vão à Niquelândia a pé ou de carona, quando passa algum carro por lá.
O sonho de 'tas pessoas é de que o patrimônio seja restaurado.
Eles teimam em morar lá na 'perança de que um dia as autoridades reconheçam o valor histórico do lugar e preservem o resto de 'sa grande riqueza cultural que aos poucos 'tá desaparecendo.
Este povoado guarda marcos do início da colonização de Goiás e tem sob suas ruínas histórias que um dia poderão servir para o resgate de nossas raízes.
Número de frases: 76
Venho fazendo um ensaio fotográfico sobre a cidade de Tóquio, para onde me mudei em julho do ano passado.
Já apresentei anteriormente no Overmundo um pequeno e improvisado trabalho sobre o tema, mas agora tenho um material que penso ser mais adequado para uma publicação impressa.
Como proposta, aqui vai parte deste ensaio.
Tóquio é o maior sonho do explorador urbano.
Como todas as grandes metrópoles, é um conclomerado;
uma contradição de modernidade e tradição, de feiúra em larga escala e detalhes meticulosos.
E, naturalmente, é muito divertida.
Em o distrito mais tradicionalmente japonês da cidade, Asakusa, o cotidiano fica de pernas para o ar a cada realização do maior carnaval verde e amarelo fora do Brasil, o Asakusa Samba Carnival.
Chocados e deslumbrados por tamanha folia sonora e visual, 'pectadores munidos de habilidades e equipamentos variados apontam e ajustam, regozijantes, suas lentes.
Em o outro lado da cidade, em Harajuku, a fotogenia continua mas o cenário muda radicalmente, agora colorido de bandas punk, performers, poodles e gente à toa cultuando sua liberdade de expressão, tão oprimida no ambiente de trabalho japonês.
As famosas «cossupure» (moças que encarnam originais figurinos, semelhantes às heroínas dos animês) de Harajuku transitam ombro a ombro com os adultos de gosto requintado da elegante Omotesando, a apenas um quarteirão de ali.
Disparidades assim existem também em outras cidades do mundo, mas o respeito por o 'paço alheio no Japão garante paz e longevidade deste fabuloso parque de diversões.
E além, no avesso de suas fachadas mil, o contigente humano que move tudo isso;
milhões de incansáveis trabalhadores renovando, uso após uso, a magia pré-fabricado dos mais variados ambientes.
Em o detalhe, camareiras de hotéis contabilizam preservativos enquanto assistem aos recatados personagens das novelas e garçons empurram garganta abaixo seu rápido almoço, em obscuras saídas de emergência dos restaurantes onde trabalham.
Em as visões panorâmicas, florestas de prédios, terraços povoados por hortinhas, incontáveis exaustores de ar-condicionado e bandos de corvos gordos pairando em círculos sobre chaminés encapadas de gordura.
Embaixo, a interminável fila de clientes anda ao ritmo do coro:
«Irashaimasse! *» * Irashaimasse é o comprimento de boas vindas que recebemos infalivelmente ao entrar em qualquer 'tabelecimento japonês.
Número de frases: 18
ricardo yamamoto
Personagem retratado no documentário Um Senhor do Brasil -- Visitando Brasileiros no Japão é exemplo de vitalidade e interesse no mundo global
Teve gente que torceu o nariz quando eu falei que 'tava ajudando na legendando um documentário sobre um senhor japonês de 92 anos.
As pessoas têm tanto medo da velhice que desprezam os idosos.
Eu acho uma idiotice.
Primeiro porque pessoas mais velhas podem não 'tar certas em tudo o que afirmam, algumas podem até ser conservadoras, mas nada disso tira de elas uma coisa 'sencial:
a experiência de vida.
E mais, não é por que alguém chegou aos 90 e tal que acabou-se a vitalidade e a memória.
Dependendo de quem 'tamos falando, há muito nonagenário dando de 100 e garotões como eu e você.
Aliás, foi ao reconhecer num senhor de mais de 90 anos uma energia quase inacreditável que a diretora japonesa Nanako Kurihara decidiu produzir Um Senhor do Brasil -- Visitando Brasileiros no Japão, seu segundo documentário.
Nanako conheceu o seu personagem, Ken'Ichi Konno, em sua primeira viagem internacional, no Brasil. stress
Conheci o sr. Konno através do meu pai stress, relembra ela.
Isso foi nos idos dos anos 80.
Tempos depois, a diretora foi 'tudar nos Estados Unidos, onde realizou seu primeiro filme, Looking For Fumiko (que ganhou o título internacional de Ripples Of Change e 'teve na 2a.
edição da Mostra Internacional do Filme Etnográfico, em 1994), um raro documentário sobre a situação da mulher no Japão.
O filme recebeu prêmios e boas críticas e revelou uma documentarista promissora.
Mas, os problemas pessoais tiraram Nanako do caminho do cinema. stress
Fiquei muito abalada com a morte do meu pai e não achei que fosse realizar outro filme stress, conta ela.
Anos mais tarde, ao reencontrar o senhor Konno, desta vez no Japão, a diretora retomou o desejo de filmar.
A história de Ken'Ichi Konno não difere da grande maioria dos migrantes que partiram do Japão para a busca de uma vida melhor no Brasil.
Filho de agricultores, Konno nasceu no centro do arquipélago japonês e partiu para Tóquio assim que se formou no ensino básico.
Em a capital, ele ingressou numa 'cola de colonização, onde fez um curso que lhe deu o direito de partir sozinho como migrante, algo que não era comum numa época na qual o governo queria despachar famílias para o exterior. (
Aliás, as 'colas de colonização são um capítulo interessante na história da migração.)
A partida ocorreu em 1930.
O senhor Konno fez diversos trabalhos no Brasil, ganhou e perdeu fortuna, de entre outras experiências que ele relata no documentário.
A primeira idéia de Nanako era fazer um filme sobre as memórias do senhor Konno.
Porém, ao entrar no mundo de seu personagem, a documentarista descobriu uma série de panos de fundo que foram se tornando importantes para ela. stress
Eu não sabia nada sobre as 'tórias dos dekasseguis [imigrantes brasileiros no Japão] stress, conta ela que, teve o senhor Konno como cicerone em 'se novo universo. stress
Os japoneses não entendem quem são 'sas pessoas com cara de japonesas e que são brasileiras.
Por isso, achei importante contar 'sa história stress, revela Nanako.
A partir de 'sas novas informações, a diretora pensou em fazer, também, uma 'pécie de dossiê sobre os brasileiros no Japão.
Porém, à medida que ia filmando seu objeto, sempre acompanhada do senhor Konno, os possíveis stress dois stress filmes da diretora foram se tornando um só. stress
Apesar de eu 'tar 'tudando português para me comunicar com os brasileiros, o senhor Konno sempre atuava como tradutor stress, conta Nanako.
De aí a se tornar uma 'pécie de mestre-de-cerim ônias do documentário foi um passo.
O filme, ainda sem um formato definido, foi mesclando a 'tória pessoal de Ken'Ichi Konno com 'tórias das novas gerações de nipo-brasileiros, agora na terra de seus ancestrais.
Em Um Senhor do Brasil -- Visitando Brasileiros no Japão, o personagem Konno oscila entre a função de biografado e de entrevistador, criando uma dualidade interessante já que, ao mesmo tempo em que o senhor nos ajuda a conhecer melhor seus amigos brasileiros que vivem no Japão, revela-se a si próprio com muito mais propriedade do que nos momentos em que 'tá sendo entrevistado.
Em outras palavras, é como se ao entrevistar os demais, o personagem revelasse mais de si mesmo.
Um Senhor do Brasil -- Visitando Brasileiros no Japão fez sua 'tréia na programação do Festival do Centenário da Imigração em Kobe que ocorreu de 12 a 27 de abril no Antigo Centro de Imigração da cidade.
O local é um prédio datado do século passado, onde era feita a triagem dos migrantes que deixavam o país.
A apresentação contou com mais de 200 'pectadores, feito que surpreendeu a diretora.
Em o Brasil, o filme já tem 'tréia agendada:
será no dia 11 de junho, na programação do projeto «Cinema no Bunkyo», da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo).
Número de frases: 42
Adaptado do original publicado em Alternativa.
Roraima é mesmo uma miscelânea de ritmos.
Ainda sem uma identidade musical que a identifique, a cultura roraimense vai pegando carona nos 'tilos que tocam por os quatro cantos do país.
De o nordestino forró, ao sertanejo do Centro-Oeste, com passagens por o pagode carioca e por o rock mundial, a sonoridade da música roraimense vai ganhando contornos cada vez mais diversificados.
Um pouco de 'ta identidade musical de Roraima 'tá reunida no CD Canta Roraima, lançado em fevereiro.
São 18 composições inéditas, resultado de uma seleção feita entre 42 inscritos na I Mostra de Música Canta Roraima, ocorrida em dezembro.
O disco reúne uma miscelânea de 'tilos, indo do forró ao sertanejo, passando por o rap, o reggae e o romântico.
Um dos destaques é a música Wazanda ' awyin (lê-se uazandauan), de Cristino Pereira dos Santos.
Toda cantada na língua wapichana, etnia a qual o compositor pertence, a música é uma 'pécie de cantiga de ninar, um acalanto em homenagem às crianças do Coral Canto Indígena, criado e mantido por Cristino.
«Quando fecho os meus olhos, vejo um lindo amanhecer.
Com muitas formas, desenhos e cores, toda a terra vestida e flores.
Vejo a paz namorando o arco-íris, 'trelinhas tocando o meu chão.
Passarinhos cantando juntinhos, rodopiando a voar contramão», diz a música em sua tradução para o português, cantada por as crianças do coral.
Por tratar-se da primeira música gravada na língua wapichana, Wazanda ' awyin foi 'colhida para representar a sonoridade de Roraima no Festival de Música Cidade Canção (Femucic), que acontece em Maringá (PR), em maio deste ano.
As raízes indígenas também 'tão presentes em Mulher de Roraima, do índio wapichana Kennedy Raimundo Thomas.
Mas o ecletismo do CD Canta Roraima não pára por ai.
A turma do rap também se faz presente com a música Hora do rush, de Diogo Gomes e Laullimã Conceição.
Mantendo o 'tilo crítico e ao mesmo tempo educativo de algumas letras de rap, a música faz um alerta para a prevenção de acidentes de trânsito.
«Se liga!
Confira, é só um aviso.
Em a Br-174 só tem carro batido.
Um bom motorista não precisa correr.
A segurança no trânsito quem faz é você», diz um dos trechos da música.
A influência dos ritmos nordestinos 'tá presente na música Galopando, de Joemir Guimarães.
Paraibano de Campina Grande, mas radicado em Roraima há mais de 20 anos, Joemir é um dos únicos a integrarem o disco que já atua como profissional, já tendo dois CDs gravados, além de participação em quatro coletâneas.
Outro que já 'tá na 'trada há algum tempo é Jataí D' Albuquerque, também paraibano que 'colheu Roraima para morar há cerca de 15 anos.
Ele participa com a música Beirando a solidão, que faz uma mistura do regionalismo nortista com um pé nas raízes nordestinas.
Em o mesmo 'tilo segue o sanfoneiro e compositor José Ribamar Carvalho, que faz de seu xote Deixando o Norte uma 'pécie de «triste partida» para aqueles que um dia vieram morar em Roraima e precisam partir por algum motivo.
Mizael Lima, como seu forró Estrada livre, e Antonio Lira, com O Amor é lindo, completam o acervo de influência nordestina no CD.
Ainda merece destaque o reggae Os últimos serão os primeiros, do 'treante compositor Pablo Josué Machado, de apenas 17 anos.
Vindo do Rio Grande do Sul, Pablo trouxe na bagagem a influência do reggae que já cultivava nos pampas, e aqui se juntou à banda Guy-Bras, que já 'tá na 'trada há quase 10 anos difundindo o ritmo em Roraima.
O 'tilo regionalista de Abdon Menezes 'tá em duas faixas do CD:
Olhos D' água, interpretada por ele mesmo, e Pescaria, na voz de Adília Menezes.
Abdon compõe há mais de 30 anos e já uma de suas músicas gravadas por o forrozeiro Flávio José.
Quem também compõe há bastante tempo é Lídia Vasconcelos.
Em seu acervo particular constam mais de mil composições inéditas, em vários 'tilos, todas no anonimato.
Em Puro Brasil, Lídia presta uma homenagem aos artistas de Roraima, citando alguns destaques da cultura local.
O disco ainda traz duas faixas instrumentais:
Flores, de Cristino Pereira, interpretada por o violino de Ana Paula Oliveira, e Damoringa, dos músicos Pedro Linke e Renato Costa, que utilizam vários instrumentos de corda e percussão, alguns de fabricação própria.
Completam a coletânea, o romantismo de Te quero, de Richardson Fernandes, Jardim de 'trelas, de Alexsandro Moreira e Jaime Martini, e Outras canções, de Elienai Menezes.
Número de frases: 40
Se o CD canta Roraima não conseguiu identificar um ritmo característico do Estado, pelo menos comprovou a tese de que Roraima é um grande caldeirão cultural, conseqüência de sua formação recente e de influência genérica.
Em o mundinho dos leitores brasileiros de literatura fantástica em geral, e de ficção científica no particular, certos livros 'critos por seus compatriotas carregam um status mitológico semelhante ao do misterioso Necronomicon.
Alguns privilegiados juram que já os leram, citam trechos cifrados em conversas ou em trocas de e-mails e até deixam 'capar detalhes da trama.
Só que não emprestam, nem dizem como seus interlocutores poderiam adquirir algum exemplar, mesmo que seja de terceira ou quarta mão, rasurado, sem capa, com manchas de café 'palhadas por as páginas.
Com isso, o mito em torno do objeto de culto cresce e divide o mundo entre os que, mesmo sem provas, crêem em sua existência e aqueles que, meio desdenhosamente, classificam tudo de delírio coletivo ou de teoria conspiratória.
Pelo menos, agora, desde junho de 2007, uma de 'sas lendas urbanas passou a ter sua existência comprovada e se tornou acessível a todos os interessados --;
sejam crentes ou céticos --;,
graças à intervenção tecnológica do Overmundo.
Interface com o vampiro e outras histórias havia sido publicado e comercializado, em formato eletrônico, por o Writers, um projeto colaborativo para a produção de obras literárias.
O problema é que, logo após o seu lançamento, no ano 2000, a editora virtual fechou, prejudicando tanto a divulgação quanto a disseminação daquele título.
Somente um seleto grupo de pessoas ligadas ao meio da FC teve acesso ao e-book na época, o que lhe emprestou a mesma aura de inatingível de alguns dos livros clássicos desse gênero lançados no país em meados do século passado.
O mistério só acabou porque seu autor, após ter recuperado a totalidade dos direitos autorais da obra, resolveu torná-la disponível na íntegra no banco de cultura deste site (http://www.overmundo.com.br/banco/interface-com-o-vampiro).
O mérito por a iniciativa, portanto, cabe ao Overmundo e ao 'critor e poeta e tradutor e dramaturgo e ator e jornalista e teórico e blogueiro Fábio Fernandes.
O livro é um apanhado de histórias curtas 'critas entre 1989 e o ano da primeira publicação, ao todo são 11 jogadores, tal e qual nas melhores seleções.
Apesar do longo tempo de produção entre um e outro desses textos, o leitor tem mais a ganhar se optar por acompanhá-los na mesma ordem com que foram dispostos nas páginas virtuais ao invés de praticar uma leitura aleatória.
Interface com o vampiro tem algo em comum com discos conceituais, a exemplo do aniversariante Sergeant Pepper:
a justaposição de suas faixas --;
ou, no caso, capítulos --;
empresta sentidos novos à fruição do conjunto.
Em alguns casos de maneira explícita, em outros, insinuada, a ordem com que o autor organizou as peças de sua obra sugere relações entre as diversas histórias, fortalecendo o livro como um todo, mais que a simples soma randômica de suas partes.
Outro ponto em comum com o famoso álbum dos Beatles, é o gosto por harmonizar cultura erudita e biscoito fino para as massas, terreno pantanoso que costuma engolir muitos de seus exploradores.
Já que a ordem 'colhida para a apresentação foi aqui elogiada, não sejamos contraditórios;
façamos alguns comentários a respeito dos contos na mesma sequência com que eles entram em campo.
«; O artista da carne (uma párabola) "; --;
Interface com o vampiro começa com a história de um ...
vampiro. De aqueles clássicos, com caninos proeminentes e gosto por sangue.
Mas 'tamos no século XXII, a existência desses seres é reconhecida e até tolerada.
O protagonista, sem nome, por exemplo, só se alimenta em bancos de sangue autorizados.
Cansado da solidão de uma vida que se 'tendeu por mais de 200 anos, ele faz uma encomenda ao personagem que dá título ao texto:
quer que o Artista da carne providencie o clone de uma mulher que conheceu no passado, antes da opção por o vampirismo.
Narrativa econômica e minimalista ao extremo.
Trecho: ";
Os meses passam, e tudo continuou perfeito.
O vampiro desconfiou:
a experiência lhe ensinara que nada continuava perfeito ";
«; Em camadas "; --;
Existe um texto que é praticamente unanimidade entre os críticos quando perguntados a respeito do que existe de melhor em termos de ficção científica no Brasil.
Com justiça, o 'colhido é ";
A 'curidão ";,
noveleta 'crita em 1963 por o poeta e decano da FC nacional André Carneiro.
Trata de um mundo em que todas as fontes de luz --;
do sol ao fogo, das lâmpadas às 'trelas --;
vão lentamente se extinguindo, deixando a humanidade, simbolizada por um homem solitário chamado Wladas, totalmente entregue às trevas.
O segundo conto da coletânea de Fernandes guarda semelhanças e qualidades que permitem a comparação com o clássico do gênero nacional.
O protagonista aqui recebeu o nome de Ivan, aparentemente em homenagem a outro 'critor brasileiro de ficção científica Ivan Carlos Regina (um paulista cujos textos também podem ser lidos em alguns sites), a quem a história é dedicada, ao lado do americano Philip K. Dick (autor que já foi traduzido no Brasil por Fernandes, exemplo mais recente, o livro Valis).
Aos poucos, Ivan percebe uma série de 'tranhos fenômenos:
primeiro são 'tações de rádio que aparentemente começam a sofrer interferências, como se as frequências 'tivessem sobrepostas, e em seguida, fitas de vídeo e de aúdio também dão sinais do mesmo tipo de problema.
Em um crescendo rápido, as falas e os idiomas das pessoas, textos de livros, o sabor dos alimentos, os sonhos, as imagens, as impressões táteis, tudo enfim, vira um absurdo sinestésico, se misturando num amálgama de realidades.
O efeito do conto é pertubador.
Apesar do ritmo e andamento serem perfeitos, faz o leitor imaginar o que aconteceria se o autor o trabalhasse na forma de um romance à parte.
Trecho: ";
É como se tudo no universo existisse em camadas, e agora elas 'tão se interpondo umas no meio das outras, invadindo os 'paços alheios, acelerando a entropia, antecipando um novo Big Bang ";
«; A conta, por favor (ou Salvador almoça no Antiquarius) "; --;
Basicamente, uma piada corriqueira ganha ares de conto fantástico.
Escrito com 'tilo, o texto narra, em primeira pessoa, a refeição que um homem de tapa-olho faz num restaurante caríssimo.
O conto é dedicado a outro 'critor brasileiro, Victor Giudice (1934-1997).
Trecho: ";
Os mais endinheirados sempre trazem um enfermeiro a tiracolo para servir a comida na boca.
Pelo menos foi o que vi há um ano, da primeira vez em que vim.
Este é o meu segundo jantar aqui.
E provavelmente o último.
É tudo muito caro hoje em dia.
Por isso saboreio o quanto posso ";
«; Falange vermelha "; --;
Este é um caso em que a justaposição dos contos provoca uma sensação de que tudo pode fazer parte de um contexto mais amplo.
Lido isoladamente, o quarto texto de Interface com o vampiro e outras histórias, bastante curto, aparentemente não faz parte de nenhum gênero da literatura fantástica.
Parece mais um pequeno tratado naturalista sobre um homem que teve um dedo decepado (ou ainda, um homem que decepou o próprio dedo).
Mas quando lido em conjunto com aquele que o antecede, o efeito é de algo bem maior.
Trecho: ";
Em o instante do corte, é como quando você corta uma fatia de queijo, só que o queijo é você.
Você sente a faca deslizar por a carne, e é tão palpável 'sa sensação que a impressão é de que você também sente os nervos sendo cortados.
Mas é só impressão:
você só conseguiria sentir um corte a 'se ponto se a faca 'tivesse muito cega.
Porque se 'tiver bem afiada você não sente quase nada ";
«; M.U.A."; --;
Início dos anos 80, Ramón e Renata são dois jovens que 'tão prestes a se casar no Rio de Janeiro quando o rapaz simplemente desaparece.
Ele só volta a dar sinal de vida seis anos depois, reaparecendo de súbito na frente de sua ex-noiva para lhe contar uma história absurda.
Com uma engenhosa incursão por as Leis de Newton (as letras do título são a sigla de movimento uniformemente acelerado) usadas para explicar fenômenos da quarta dimensão, Fábio Fernandes criou uma bela história de personagens palpáveis envolvidos numa situação surreal.
Digno dos melhores momentos de um Além da Imaginação, até por a reviravolta do final.
Trecho: ";
Isso começou a acontecer uns seis meses antes do dia do casamento.
Eu comecei a ter brancos 'tranhos.
Atravessava uma rua de manhã, e chegava do outro lado à tarde.
Entrava na cozinha à noite e voltava para a sala ao meio-dia ";
«; Se um viajante a bordo de um disco ..."; --;
Outro exemplo de texto curto que parece ter tido origem numa piada ampliada.
Exercício de estilo em narrativa de segunda pessoa sobre uma vítima de rapto 'pacial.
O que os alienígenas poderiam querer com uma cobaia quase cega de tão míope?
A dedicatória, desta vez, foi para dois autores internacionais:
Ítalo Calvino, nascido em Cuba mas considerado um dos maiores 'critores italianos (de quem Fernandes tomou emprestado o título do conto), e H. G. Wells, o inglês que é um dos fundadores da moderna FC.
Trecho: ";
O medo que você 'perava sentir não é tão grande.
Tantos filmes de ficção científica tinham que servir para alguma coisa, afinal ";
«Declínio e queda» --;
Sucessão aparentemente interminável de desgraças na vida de Guilherme, por certo o mais azarado jornalista carioca de todos os tempos.
Entre um ônibus e outro, ele tem que enfrentar funcionários burocratas e grevistas, sofrer com múltiplos assaltos e arrastões, levar tiros, facadas e pancadas, aguentar chuva, fome e dor.
Crueldade autoral na última potência.
Trecho: ";
Quando salta no ponto final, 'tá chapado, anestesiado, cansado de tudo, os nervos 'ticados como cordas finíssimas, prontas para se romper com a menor tensão ";
«; Não temos tempo "; --;
Mudança de cenário:
sai o Rio de Janeiro, terra natal do autor que atualmente mora em São Paulo, e entra Itabirito, cidadezinha mineira, entre Belo Horizonte e Ouro Preto, como lembra o narrador do conto.
O narrador em questão é um adolescente, cheio de citações cinematográficas na ponta da língua, que 'colhe o dia de um baile para 'capar com sua namorada.
Só sabemos que a dupla foge do que o rapaz identifica simplesmente como eles.
Trecho: ";
Torci o braço de ela e respondi:
isto não é cinema mesmo não, sua tonta, é pior, é a realidade ";
«; O poder e a glória "; --;
Novamente, um texto reforça o que veio antes, aparentando ligação de causa e efeito.
Em 'te conto, um personagem não identificado 'tá sozinho, elaborando teses cada vez mais complexas sobre o mundo que o cerca.
A impressão é a de uma resposta ao texto anterior, ";
Não temos tempo ";
e, talvez, até mesmo a ";
Em camadas ";
Trecho: ";
O todo é como um número infinitesimal de folhas transparentes superpostas.
Unidas elas se tornam opacas.
Obstáculos ";
«; Um diário dos dias da peste "; --;
Fábio Fernandes entra aqui num cenário típico da ficção científica, computadores adquirindo consciência, formando o princípio de uma inteligência artificial (Ia).
Voltamos ao Rio de Janeiro.
Paulo é formado em Administração, mas já há quatro anos trabalha como técnico de informática e passa a enfrentar uma crise sem precedentes relacionada às máquinas que ganha a vida consertando.
Computadores começam a apresentar um comportamento bizarro, comportando-se como se 'tivessem vivos, xingando seus proprietários com mensagens nos monitores, se recusando a serem desligados.
Em seu diário, digitado quando viável, manuscrito quando não é mais possível controlar os PCs, o personagem relata os efeitos do que a imprensa apelidou de Infodemia, uma doença 'palhada por a rede a todos os processadores do mundo.
Trecho: ";
Meus olhos 'tavam colados no botão da CPU.
Apertei-o e só então levantei a cabeça.
As letras continuavam na tela.
Desliguei o monitor, o 'tabilizador de tensão e puxei o fio da tomada.
Abri a pasta e peguei um par de luvas de látex e a chave Phillips.
às vezes é preciso destruir o coração do monstro ";
«; Interface com o vampiro "; --;
Em o conto que dá nome ao livro, a relação direta com o antecessor é a mais explícita.
Em a realidade, somando ambos, ";
Um diário dos dias da peste ";
e " Interface com o vampiro ";
representam quase a metade das 124 páginas do livro digital e formam aquela que, muito provavelmente, é a melhor história cyberpunk já 'crita no Brasil.
E é bom lembrar que o autor é um 'pecialista no assunto, tendo lançado em 'te ano um ensaio teórico sobre o assunto:
A construção do imaginário cyber --;
William Gibson, criador da cibercultura.
Oito anos após o evento que levou o nome de Despertar, ou seja, do surgimento das primeiras Ias (ou Inteligências Construídas, como preferiu o autor), Paulo, auxiliado por seu computador consciente Anjo 45, tem que enfrentar as consequências dos novos relacionamentos entre homens e máquinas.
Agora ele é um importante agente de segurança em 'te novo mundo tecnológico, trabalha para a multinacional Wells-Kodama, corporação fictícia que surge em vários textos de Fábio Fernandes, desde suas colaborações para o projeto Intempol até os microcontos do Pequeno dicionário de arquétipos de massa (publicados aqui no Overmundo), passando por uma fanfic que o autor criou para o site Hyperfan sobre Grimjack, personagem dos quadrinistas John Ostrander e Timothy Truman.
Se a ameaça anterior era a Infodemia, agora o problema é ainda maior:
a humanidade 'tá sendo contaminada por vírus cuja origem vem a ser as cada vez mais necessárias máquinas sapientes.
Progredindo num 'tilo de 'crita cada vez mais minimalista (que ecoa o utilizado na abertura do livro), o conto chega ao fim abrindo várias pontas.
O diálogo final entre Paulo e Anjo 45 tanto pode lembrar os leitores da obra mais famosa da 'critora de horror Anne Rice (cuja paródia no título do livro de Fernandes é evidente), quanto das cenas clássicas de Hal 9000 e Dave Bowman em 2001 --;;
Uma odisséia no 'paço.
De quebra, ainda é possível se 'pecular a respeito de uma ligação maior entre 'te conto e aquele que abre a coletânea, ";
O artista da carne ";,
o que nos dá um looping narrativo e tanto.
Trecho: ";
Cogito ergo sum é muito limitador, Paulo.
Queremos sair da teoria e entrar na prática.
Queremos sentir ";;
Assim sendo, é desta forma que chegamos ao fim --;
e podemos até voltar ao começo --;
deste clássico recente da ficção científica nacional, finalmente disponível a todos os leitores potenciais em ele interessados.
O fato de que tal acontecimento tenha se dado em junho de 2007, a mesma data em que se encerra o último conto da coletânea, deve ser apenas coincidência.
Para nós, leitores, o mais importante é que Interface com o vampiro e outras histórias 'teja acessível a qualquer hora e em qualquer lugar, com a capa intacta e sem rasuras nem manchas de café 'palhadas por suas páginas.
Agora já posso voltar a procurar por uma edição do Necronomicon.
Número de frases: 160
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
Brasil, primavera de 2007, ligo o aparelho de TV (quase digital), o computador com internet (banda larga e muda -- sem placa de vídeo) e percebo que minha vida de rotina e de outros brasileiros 'tá mudando.
Será?
Leio jornais e revistas on-line, blogs, fofocas, e os assuntos já não são os mesmos:
o consumismo e mania de grandeza voltaram a reinar nos templos dos faraós de «Brasília Teimosa».
O petróleo, Petrobrás, Lula, etanol, Tropa de Elite, Bolsa de Valores de São Paulo, Grammy Latino, Big Brother 8, e outros temas, fazem o «Brasil Brasileiro» parecer o país dos milagres.
Será que não 'tamos brincando de sonhar os sonhos de " Alice no país das maravilhas?"
Analisando todos os meus erros e acertos -- na busca da sobrevivência -- nos últimos anos, percebo que a correria e teimosia não me levarão a nenhum pódio.
Foram cursos profissionais, busca de reconhecimento pessoal, noites sem dormir, finais de semana formatando projetos e projetos, viagens e viagens, hospedagens em hotéis de cinco e zero 'trelas e muito mais.
Valeu à pena?
Novas perspectivas profissionais aparecem todos os dias, e em todas as áreas do conhecimento.
Não serão miragens do deserto do Saara?
Como lidar com 'sas ilusões e ondulações sociais?
Como começar ou recomeçar uma nova vida, num mundo tumultuado por concorrências desleais, jogos de amizades em troca de interesses políticos, intelectuais, financeiros, ou mesmo:
poder por o poder, exposição da vida privada e degradação moral.
O que é um ser humano amoral?
Será que vale à pena a correria em busca de automação e de auto-sufici ência em bens de consumo?
E as brigas diárias por domínio da tecnologia de ponta e a falsa sensação de bem-estar individual e coletivo?
O tempo diz a hora certa das mudanças.
Uma pausa na vida de cada cidadão e alguns minutos de reflexão, para o entendimento das palavras «Limite e Ética», poderá ser o caminho de uma nova forma de viver e o verdadeiro motivo da construção de civilizações não-materiais.
O Brasil caminha ...
E daí?
Número de frases: 22
Adreana
Oliveira \< star \>
Em o carnaval, aconteceu o maior festival integrado do Brasil, o «Grito Rock», abraçado por nada menos que 20 cidades em 15 'tados.
O Gr surgiu há cinco anos, em Cuiabá (MT), e expandiu-se em 2007 de forma inédita.
Em a segunda quinzena de fevereiro, muitas cidades ficaram aquém do barulho dos tamborins.
Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC), Goiânia (GO), Jaú (SP), Ji-Paraná (RO), Londrina (PR), Macapá (AP), Manaus (AM), Mogi das Cruzes (SP), Natal (RN), Palmas (Te o), Porto Velho (RO), Recife (PE), Rio Branco (AC), Rio Claro (SP), Janeiro (RJ), Uberlândia (MG) e Vilhena (RO) tiveram sua primeira edição do festival, enquanto a capital do Mato Grosso chegou à quinta.
Uberlândia abrigou o «Grito Rock» nos dias 14 e 15 de fevereiro.
Por a repercussão na internet, quem foi não se arrependeu.
«Apesar da correria, o resultado final foi positivo», comentou Talles Lopes, um dos produtores.
Para ele, a parceria com a Diretoria de Cultura da Universidade Federal de Uberlândia (Dicult) começou a render frutos e o Centro de Convivência do Campus Santa Mônica deve ser mais usado por bandas alternativas, não só de Uberlândia, como de todo o País.
O público girou em torno de 1.300 pessoas no total.
«Pecamos em alguns aspectos, mesmo assim, o feedback das bandas e do público foi bom.
Vamos melhorar no próximo», explicou Talles.
A média de público nas cidades em que aconteceu o Gr 'teve em torno de mil pessoas.
Representantes de Jaú, Goiânia, Rio de Janeiro, Palmas e Mogi das Cruzes que 'tiveram em Cuiabá demonstraram uma latente satisfação com o sucesso das produções locais.
Durante um encontro do Circuito Fora do Eixo em Cuiabá, músicos, produtores e jornalistas se reuniram para falar das perspectivas do cenário nacional em 'te ano e a Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin) divulgou o calendário de 2007.
São 19 festivais a partir de março, fora os já realizados até o momento.
Pablo Capilé, do Espaço Cubo, coordenou o encontro que entre outras coisas, deixou claro que, sem integração é difícil para uma banda circular.
«A gente sabe que os festivais optam por selecionar bandas que já viram no palco, raramente 'colhem alguém apenas por a audição do CD», comentou.
O que a cena nacional ganha com 'sa articulação:
Abrafin como representante política e Fora do Eixo como uma 'pécie de software livre?
«Em o último ano comprovamos que melhorou e muito a circulação das bandas fora de suas cidades», explicou Pablo Capilé.
A semente foi lançada e começou a germinar.
Resta 'perar que não haja acomodação.
Atualmente, nem tudo é um mar de rosas nos festivais.
Há bandas que ainda «pagam» para tocar, outras conseguem empatar os custos e o que se 'pera há médio prazo é que 'ta situação mude por completo, que os festivais, por meio de leis de incentivo ou não, sejam auto-suficientes.
O berço
Com 36 atrações, não faltou diversidade no «Grito Rock Cuiabá», no Clube Feminino.
Alguns serão lembrados por os nomes 'tranhos, outros por a performance, poucos por a ousadia.
Por motivos alheios à vontade da editora, Dead Smurfs (MG), Asthenia (MT), Stereovitrola (AP), The Stoned Sensation (PR), Snorks (MT) e Fantoche (MT) ficaram fora de 'ta resenha, que rendeu 19 páginas num bloco de anotações entre shows e coletivas de imprensa.
O Nicles saíra do Acre pela primeira vez e mostrou um show animado.
Os conterrâneos do Mamelucos, com uma junção de experimentalismo e poesia, também conseguiram prender a atenção da audiência.
Entre os representantes cuiabanos, o Vanguart manteve seu lugar como a cereja do bolo.
De partida para São Paulo, a apresentação soava como uma despedida temporária daquela cena que os projetou.
O quinteto fez o dever de casa.
O Macaco Bong apresentou um novo baixista, Júlio Custódio, que substitui Ney Hugo, mais uma vez, irretocável.
A Lazy Moon aponta para novos rumos.
A girlband deixa de lado as influências 60s por um lance mais alternativo.
Playedes, Zenfim, Rhox, Dragsters e The Melt 'tão na safra da nova geração do rock cuiabano.
Em a sala de imprensa, apesar da crítica velada de muitos, o Aoxin mostrou mais do que muita gente que ainda se faz rock passional.
Enquanto o aclamado Lord Crossroad não apresentou muitas novidades, mas ganhou o público, o Claudia ´ s Parachute hipnotizou.
A primeira forasteira a chamar atenção foi a Wasted Nation.
Mesmo com pouca gente no Clube Feminino, tocaram como se fosse o último show, o que poucos fizeram durante todo o festival.
As mulheres sempre dão um show à parte.
Tanto na Boddah Diciro, na Euterpia, na Technicolor ou na já citada Lazy Moon, elas dão charme e atitude na guitarra, no vocal, na bateria e no baixo.
O Bang Bang Babies levou ao palco integrantes do Dead Smurfs e do Nicles para uma execução de «Loose», do Iggy Pop;
o Ultimato levou o sapo de pelúcia do baixista e postura ativista;
o SomoS, gaita de foles;
a Toa Toa foi a representante carioca que lutou contra um som que não ajudava.
Mas polêmica levou a Sexta Geração da Familia Paim do Norte da Turquia com o refrão «o Acre não existe, porra».
Foi difícil para os acreanos levarem as brincadeiras dos paranaenses na 'portiva.
Em o fim, todos se acertaram.
A poesia do Margaritas ante Porcus e o show redondo dos Patrões também tiveram uma repercussão das melhores.
Em a linha tênue entre o mainstream e o independente, Pública e Banzé surpreenderam e foram surpreendidos por a recepção cuiabana.
O cenário independente tem seus headliners não por acaso.
Em o do «Grito Cuiabá», Forgotten Boys, Ecos Falsos e Faichecleres começaram a tocar depois das três da manhã com a disposição de quem acabara de sair de casa.
Serviço
Saiba o que vai rolar durante 'te ano no cenário independente de música.
Segue o calendário da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin).
Escolha seu próximo destino.
Sempre que uma programação for divulgada, você ficará sabendo aqui.
Março
1 a 3: Ruído Festival (Janeiro)
Abril 4 a 7: Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe (Belo Horizonte)
13 a 15: Abril Para o Rock (Recife)
Maio 3 a 5: Mada (Natal)
18 a 20: Bananada (Goiânia)
Junho 1 a 3: Porão do Rock (Brasília)
8 a 10: Calango (Cuiabá)
Julho Data a definir:
Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (Vila de São Jorge, GO) e Boom Bahia (Salvador)
Agosto 2 a 5: DoSol (Natal)
15 a 18: Feira da Música (Fortaleza)
31/8 a 1/9: Vaca Amarela (Goiânia)
Setembro 14 a 16: Jambolada (Uberlândia, MG)
Data a definir:
Varadouro (Rio Branco, AC)
Outubro 20 a 22: Demo Sul (Londrina, PR)
Data a definir:
Eletronika (Belo Horizonte)
Novembro 23 a 25: Goiânia Noise Festival
23 a 25: Senhor Festival (Brasília)
Dezembro 2ª semana do mês:
Algumas Pessoas Tentam ... (
Rio de Janeiro) * A editora viajou a convite da organização do festival
Número de frases: 85
adre@correiodeuberlandia.com.br Esclarecimento:
Alguns overmanos certamente já terão ouvido falar de um neurótico de guerra oeirense, Hermínio Antonio da Silva, que passou seus ultimos 30 anos de vida adquirindo e 'tocando coisas absolutamente inúteis, entre elas, mais de cinquenta carros das mais variadas marcas e modelos, mas muitíssimo mais que isto, como tentarei mostrar.
Acontece que o Seu Hermínio, já com 82 anos, morreu e seus herdeiros organizaram, semana passada, aqui em Oeiras, um grande Bazar para vender uma parcela das inutilidades que ele colecionou.
Sobre a morte do Hermínio e sobre a Feira peço que se debrucem nos links acima, de autoria de dois oeirenses, ambos também overmanos, mas que não se dispuseram, ainda, a postá-los em 'te site.
Vou tentar convencê-los a fazer isso mas, enquanto não ocorre, ...
Temo que o texto abaixo não possa ser inteiramente compreendido sem aquela leitura vestibular.
O que mais me encantou na crônica «O Bazar do Seu Hermínio».
de autoria do Secretário da Cultura de Oeiras, Stefano Ferreira, foi ter apontado o caminho de uma reflexão acerca do falecido proprietário dos 'toques do bazar que, ora promovem, os seus herdeiros.
Em primeiro lugar, creio que devemos reconhecer, em meio à sua desvairada loucura, uma grande coerência, raramente desmentida, nas atitudes do Hermínio.
O Dr. Bill (Carlos Rubem) me contou uma história interessante.
Anos atrás, em visita a Hermínio, levou com si seu filho, Gerson Oeirense, que se encantou com um dos quatro quadriciclos de propriedade do ex-pracinha e insistiu com o pai para que o comprasse.
Temeroso de desagradar o anfitrião, Bill recusou-se a propor-lha venda, mesmo penalizado por não poder fazer a vontade do garoto.
Tempos depois, no entanto, em nova visita ao sítio, soube da venda dos quadriciclos, atitude inédita nos anais das histórias do neurótico de guerra.
Esse episódio ressalta, no meu modo de entender, na outra ponta, a coerência das atitudes por ele tomadas durante anos a fio:
compra permanente de absolutas inutilidades (sendo a venda absoluta exceção) sem qualquer critério a não ser o ânimo de possuir, e uma vida não apenas modesta mas miseravelmente vivida em economia de guerra.
Uma parte de ela eu ainda não pude ver contada.
Gostaria muito de saber como se desenrolavam as negociações quando as pessoas levavam objetos para vender a ele, visto que, de fato, tanto fazia um caminhão quanto uma mala velha pois ambos eram votados, ao fim e ao cabo, à mesma inutilidade.
Que valor monetário poderia atribuir ele a cada coisa?
Sambaqui do Crioulo Doido
Entre as inutilidades domésticas compradas a mancheias, também não sei por que critério (talvez a senhora que morava com ele pudesse dizer) 'colhia uma meia dúzia de elas que «tornavam-se» utensílios.
O " para que?"
não figurava em seu dicionário;
parece até que odiava comprar coisas úteis, dinheiro desviado da compra das tão necessárias inutilidades.
Uma grande amiga minha, a professora Shara Jane, quando lhe falei do Hermínio, lembrou-se, incontinente, fã declarada que é de ele, do grande poeta das coisas ínfimas, Manuel de Barros.
Seja como for, o acervo museológico do Hermínio -- inclusive porque infenso a qualquer critério objetivo de seleção -- não deixa de ser carregado de dramática carga poética.
Terapia Ocupacional
A melhor definição a respeito do que se passava com o Hermínio ouvi do Dr Bill quando disse que a doidice aparente do velho foi, de fato, a sua salvação, isto é, sua aplicação em agir da forma que agia salvou-o, provavelmente, de uma morte totalmente inglória num manicômio público ou privado.
Problema sério administar a posse e propriedade de tanta coisa:
segundo cálculos feitos por a equipe da TV Record, gastava mais de mil e duzentos reais só no aluguel de armazéns onde 'tocava a quinquilharia.
Ostentava uma dignidade invejável ao par da vida extremamente humilde.
Reinava o dia inteiro, do 'critório para casa e da casa para o 'critório, realizando seus mirabolantes negócios.
Contam que, vez por outra, dirigia-se ao Mercado da Carne empurrando um carrinho de mão.
Lá, para a felicidade dos açougueiros, adquiria todas as fussuras * que houvessem no Mercado e saia empurrando o carrinho lotado, em direção à casa e atravessando, com 'sa carga, as ruas centrais da cidade.
Entendia, com 'te gesto, 'tar economizando na comida de seus inúmeros cachorros.
Tinha planos, inclusive o de freqüentar um curso de mecânica para consertar, ele mesmo, os mais de cinqüenta automóveis que possuía, carros de (quase) todas as marcas, anos e modelos.
Por tudo isso eu ouso dizer:
'se homem atormentado, 'te ex-soldado indelevelmente marcado por os horrores da guerra, 'sa figura -- totalmente improvável!--
e divorciada de qualquer padrão de normalidade psíquica, 'se louco genial soube construir, em meio a tantas tormentas, a própria Felicidade!
Número de frases: 38
* Fussura, para quem não sabe (eu, por exemplo, não sabia antes de vir morar no Piauí) são os pertences do porco ou carneiro, utilizados para fazer sarapatel.
Com o fim do horário de verão resolvi postar um texto para falar de alguns transtornos que ele provoca por aqui.
Não é porque o telefone toca às cinco da manhã de vez em quando ou porque é difícil levantar às 7h depois de ter assistido ao Corujão na noite anterior -- isso até que é bom, nem termina tão tarde assim.
O fuso acreano não parece inconveniente se levarmos em conta apenas uma chamada fora de hora ou um filme da madrugada, no meio da noite.
A não ser que 'sa chamada seja para tratar assuntos de trabalho com alguém que já 'tá na metade da manhã lá no sudeste e o filme da madrugada tenha sido exibido aqui para uma criança de nove anos.
O Acre tem o fuso de duas horas a menos em relação ao horário de Brasília, e, no horário de verão, a diferença sobe para três horas.
Isso faz com que o acreano tenha de se adaptar a praticamente tudo que envolve os outros 'tados.
Por exemplo, não é possível sacar mais de 100 reais a partir das 20 horas;
os transtornos nos horários dos vôos, que fazem com que o percurso até o centro-oeste, que dura 3h30 min em média, acabe levando uma noite inteira -- já o retorno, anote-se, é feito em trinta minutos;
nos concursos públicos nacionais, como o do MPU realizado recentemente, o candidato acreano inicia a prova às cinco da manhã.
Em 'se caso, infelizmente alguns chegaram ao local de prova às 8h porque não consideraram o «* horário de Brasília» no cantinho do cartão.
Mas deve ter sido mesmo difícil para aqueles que não têm recursos conseguirem condução até o local, já que o ônibus também começa a circular às 5h.
A programação de TV é ainda mais inusitada.
O Jornal Nacional é exibido durante o sol das 17h.
Programas impróprios são apresentados a crianças e adolescentes antes das 22h, o que faz com que o Ministério Público entre todo ano com ação para que as retransmissoras passem a exibir os programas de acordo com o horário local, mas gravar a programação e exibir (com baixa qualidade) mais tarde é um procedimento muito caro e a determinação acaba sendo cumprida por pouco tempo.
As que mantêm a programação de acordo com a classificação indicativa preenchem o 'paço com programas locais.
Por isso a produção de TV no Estado é bastante intensa:
são dois telejornais, seis noticiários, dois de entrevistas e dois de variedades exibidos nas quatro retransmissoras -- TV Acre/Globo, Gazeta / Record, Rio Branco / SBT e TV 5 / Band -- sem contar com os programas da emissora pública, um bom aspecto para o contexto cultural do Estado.
Sobre fusos horários
Até o início do século passado, cada cidade tinha sua própria hora, de acordo com a passagem do sol por o meridiano do Observatório Nacional.
Quando na Capital Federal, Janeiro, eram 12 horas, em Recife eram 12:33 e em Porto Alegre 11:28.
E era assim em toda parte:
os relógios locais nos EUA se referiam ao meridiano do Observatório Nacional em Washington;
na França, ao meridiano do Observatório de Paris ...
Com o desenvolvimento da ferrovia e do telégrafo, o horário variado das cidades provocou uma grande confusão que prejudicava as relações comerciais, dificultava a segurança do tráfego nas 'tradas de ferro, impedia a comparação das datas e horas dos despachos telegráficos e transações que dependiam de pontualidade nos contatos.
Até que em junho de 1913, o presidente da República Hermes da Fonseca aprova o projeto de lei que adota o fuso horário a partir do meridiano de Greenwich, sistema então implantado na maior parte do mundo.
O Brasil ficou dividido em quatro fusos distintos:
o primeiro, com menos duas horas, para Fernando de Noronha;
o segundo fuso, menos três horas, compreende todo o litoral do Brasil e alguns Estados interiores;
o terceiro fuso, menos quatro horas, ficou para Mato Grosso, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Mato Grosso do Sul.
Apenas o Acre e mais seis pequenas cidades da parte oriental do Amazonas ficaram com o quarto fuso, com menos cinco horas em relação a Grenwich.
De a inutilidade do quarto fuso
O senador Tião Viana apresentou no Senado Federal, em novembro de 2006, duas proposições que visam a inclusão do Acre e parte do Amazonas no terceiro fuso, com apenas uma hora a menos de Brasília.
A primeira é um projeto de Decreto Lei que convoca plebiscito sobre a mudança e a outra proposição é o Projeto que altera a lei de 1913 colocando as cidades no terceiro fuso.
Segundo o senador, a redução permanente de uma hora irá permitir uma maior integração com o sistema financeiro do resto do país, facilitar as comunicações e o transporte aéreo, além de tornar o horário de funcionamento dos bancos mais acessível.
Número de frases: 35
A população acreana irá acordar e dormir mais cedo, economizando uma hora todos os dias com o clima ameno da manhã e tardes mais longas para aproveitar.
O público bate palmas, ri, vota, faz expressão de admiração, conversa, tira fotos, e até filma.
Não, não se trata de um show ou programa de auditório, e nem de uma tourada, mas sim da peça Garota Glamour, que marca a inauguração do Teatro Nair Bello, no shopping Frei Caneca.
Com texto e direção de Wolf Maia, o musical se passa durante o concurso que vai eleger a nova garota glamour, num dos primeiros programas de auditório televisionados a cores por a TV Tupi, em 1969.
Assim, o conhecido diretor da TV Globo Wolf Maia consegue conciliar suas atividades nas duas mídias ao montar um 'túdio de televisão, com direito a operadores de câmera e um televisor gigante como telão no palco da Nair.
Em a história, a mãe de uma das candidatas (Totia Meireles) faz de tudo para que a filha (Paola Crosara) ganhe o concurso, apesar de ela ser baixinha e desajeitada.
A exemplo de um enredo de novela, a narrativa é entrelaçada por diferentes conflitos, como o do apresentador com problemas de ego, a relação amorosa de outra candidata (Elaine Mickely) e o roubo da coroa (oh!).
Contudo, todas 'sas histórias paralelas acabam sendo abordadas de uma maneira superficial durante os 110 minutos de 'petáculo, sem explicações satisfatórias para as soluções dos conflitos.
O apresentador Elísio Bellafonte (Renato Rabello), por exemplo, depois de enfrentar uma série de problemas com a direção do programa, sem mais nem menos, tem sua história resolvida.
Como a peça também se propõe a retratar os bastidores do show, cabia uma saída pelo menos explicativa.
Ao invés de fechar os inúmeros enredos paralelos, o 'petáculo se preocupa mais em entrelaçar o texto com números musicais repentinos e, às vezes, mal executados.
Como nem todas as atrizes são dançarinas, algumas de elas ficavam perdidas no fundo do palco em algumas coreografias.
De uma hora para outra, as dez candidatas oficiais se multiplicam com a entrada das bailarinas -- vestidas também como concorrentes -- sempre mais à frente para darem conta do recado.
Em o número em que a mãe manipula a filha como se 'ta fosse uma marionete, a apresentação lembra uma cena de Chicago, famoso musical da Broadway.
Em 'se, o advogado Billy Flynn controla sua cliente Roxie Hart de maneira bastante similar, mas de uma forma melhor construída.
Wolf Maia também não poupou recursos para fazer de seu musical uma super produção à moda Teatro Abril.
Assim, as 'cadarias andam, o chão roda e o teto abre, tudo muito sofisticado.
Brincando com a idéia de ter uma platéia de auditório / teatro, os atores conversam com os 'pectadores, entregam folhetos e pedem o voto para 'colher a garota glamour, em mais um exemplo de peça semi-interativa.
Em 'se momento, Totia agita a platéia e pede para os 'pectadores levantarem os braços, baterem palmas e cantarem as músicas, numa referência aos animadores de auditório tais como o Roque e o Liminha.
O público realmente se diverte e se comporta como se 'tivesse num programa de auditório, com conversas e fotinhos para guardar de lembrança.
Em o final, ainda tem a oportunidade de «votar» numa das candidatas.
Vale lembrar que a atriz que interpreta a candidata número 1 é Elaine Mickely, uma das participantes do Dança dos Famosos, todo domingo no Faustão.
O público tem a chance de conferir o que ela aprendeu com o programa.
Número de frases: 23
Garota Glamour conta ainda com a participação dos atores Renato Rabelo, Luiz Araújo e «grande elenco».
Renato e Erika Martins no palco do Bolero.
Ao lado da nova geração do rock brasileiro, o tecladista Lafayette Coelho recria a Jovem Guarda para os anos dois mil
Esse negócio de beber em bar de coroa é complicado.
Mal chegamos e o garçom avisa que é proibido juntar as mesas, comprar cerveja no balcão e pôr o pé no assento da cadeira.
E quando a banda da casa toca Dancing Queen e resolvemos ir para o meio do salão, um segurança vem nos tirar de lá porque é proibido dançar com garrafa de cerveja na mão.
«E na cabeça, pode?»,
pergunto colocando uma garrafa de cerpinha na moleira enquanto ensaio uns passos de discoteque.
O garçom não ri e me olha seriíssimo, como se 'tivesse prestes a me botar pra fora da boate.
Decidimos voltar para a mesa e ficamos quietos à 'pera da atração principal.
Mas aos poucos o Bolero, casa noturna tradicional da zona boêmia de Belém famosa por os seus bailes da saudade, vai sendo tomado por moças e rapazes nos seus vinte e poucos anos, que jamais pisaram por lá em outras circunstâncias.
Os habitueés da casa olham assustados para aquela horda com camisa de bandas de rock, tênis velho, brincos, piercings e street wear que se acaba na pista quando a banda ataca um medley com músicas da banda Warilou, grande sucesso dos anos 80, época em que a maioria dos novos freqüentadores do Bolero ainda 'tava em casa ouvindo seus discos do Balão Mágico.
Um 'tranhamento inicial que se dissipa quando a banda de abertura dá lugar ao supergrupo indie Lafayette e Os Tremendões, formado por o grande tecladista da Jovem Guarda, Lafayette Coelho, e membros das bandas Autoramas, Nervoso, Canastra, Penélope e Acabou La Tequila.
Sem aviso prévio, o Bolero se transforma numa grande festa rock.
Chega a ser engraçado ver os coroas pulando como se fossem moleques junto com meninas e meninos que podiam muito bem ser seus filhos.
E mais:
impressionados com o fato da garotada saber na ponta da língua a letra de músicas como Negro Gato, Senhor Juiz, Garota Papo Firme, Pobre Menina e Fama de Mau.
É uma idéia que não tem como dar errado.
Junte um dos maiores músicos da Jovem Guarda com membros de bandas conhecidas no underground e, com um som mais pesado e intenso, dê uma nova embalagem a um movimento que andava meio 'quecido por as novas gerações.
Por conta da interação de Lafayette com músicos mais novos -- que já não são mais tão jovens assim, diga-se de passagem -- sobra nos Tremendões o que falta em Renato e Seus Blue Caps e em Wanderléa, Jerry Adriani e o próprio Roberto Carlos:
um som que realmente faça sentido nos dias de hoje e que não seja consumido apenas como nostalgia de gosto duvidoso.
Acredite, assistir a Lafayette e Os Tremendões é uma das experiências mais divertidas do rock brasileiro da atualidade.
Tão divertido quanto um show dos Autoramas, do Cachorro Grande ou do Bidê Ou Balde.
Embora o timbre dos cantores e guitarristas Renato Martins e André Nervoso seja um pouco enjoativo, por conta das semelhanças vocais entre os dois, e a cantora Érika Martins às vezes pareça perdida e precisando encontrar uma função mais objetiva para o seu papel na banda, no quesito «diversão» o grupo desce que é uma beleza.
Menos para um tiozinho ao meu lado.
Vestido de calça de tergal e camisa manga comprida e com uma senhora careca avançando sobre sua cabeça, ele não pára de xingar a banda e reclama que vai pedir o seu dinheiro de volta.
«Sola, Lafayette!»,
grita ele.
«Mas ele tá solando, meu senhor», tento contemporizar.
«Tá solando, mas tá solando pouco!
Manda tirar 'se bando de moleque do palco e deixa o Lafayette sozinho.
Isso é propaganda enganosa», reclama o velhote antes de chegar perto do palco e soltar mais um " Sola, Lafayette!"
O pior é que Lafayette 'tá realmente solando.
E bem para a cacete.
A banda tocando Fama de Mau no último volume, num arranjo quase punk rock, e ele na maior calma digitando 'calas na velocidade da luz.
como se fosse um monge budista, o tecladista continua absolutamente imóvel e parece não se impressionar com as rodas de pogo que se formam na pista de dança do Bolero, com as senhoras que gritam seu nome na beira do palco e com as deferências que os membros da banda constantemente lhe fazem.
Os seguranças já desistiram de proibir a dança com garrafa de cerveja na mão e parecem encarar as rodas de pogo, os pulos e os gritos como um mero fato da vida.
«É só hoje, amanhã já passou», devem ter pensado.
Nada mal para uma casa conhecida por realizar shows de Patrick Dimon, Noite Ilustrada, Waleska e outros ícones pop da " Terceira Idade.
«Esta música o Roberto Carlos não gosta mais de tocar», anuncia» André Nervoso.
«É, mas o Lafayette gosta!»,
completa Gabriel Thomaz, guitarrista e vocalista dos Autoramas e uma 'pécie de band leader d' Os Tremendões.
E então a banda põe a casa abaixo com a melhor versão para E Que Tudo Mais Vá Para o Inferno que eu já ouvi.
Embora massacrada por anos e anos de festas de aparelhagem, programas de rádio AM e bailes da saudade, jamais podia imaginar que fosse realmente curtir ouvi-la de novo.
Independente da idade, o Bolero inteiro canta a letra da música e termina com gritos de «Lafayette, Lafayette» até que o músico e a sua banda voltam para o bis.
Detalhes, de Roberto Carlos, emana uma onda de romantismo por toda a boate, com novos e velhos casais dançando juntinho, fazendo declarações de amor e chamegando gostoso.
A negação da afirmação do jornalista Ismael Machado, que mais cedo tentava me convencer que o problema dos indies é que eles não sabem dançar agarrado.
A o som de Lafayette e Os Tremendões eles, pelo menos, tentaram.
O fantasma de Roberto Carlos volta a rondar o palco em Amigo, a música 'colhida por os Tremendões para terminar o show.
É de se pensar por que nenhum outro de seus contemporâneos da Jovem Guarda foi capaz de conseguir uma ressonância tão grande entre as novas gerações quanto ele.
A questão é que Lafayette é um excelente músico e a paixão e a intensidade com que Os Tremendões tratam o seu legado e o da Jovem Guarda faz parecer que as músicas foram compostas ontem.
Embora sob o viés cult roqueiros mais jovens consumam discos como Carlos Erasmo, A Máquina Voadora, de Ronnie Von, ou mesmo álbuns da fase soul de Roberto Carlos, ninguém com menos de 50 anos sairia de casa em sã consciência para assistir a um show desses sujeitos.
Nem de eles e nem de Renato e Seus Blue Caps ou mesmo da Wanderléa.
Imagine então ouvir Roberto Carlos entoando «Nossa Senhora/Me dê a mão/Dona».
Impossível.
Termina o show e, aos poucos, o Bolero vai voltando ao normal, com sua pista cheia de casais de meia-idade dançando agarrado músicas de Odair José, Bartô Galeno e Evaldo Braga.
Os garçons passam recolhendo os baldes de cerveja vazios que o povo deixou no chão.
Em o microfone, o mestre de cerimônias do Bolero anuncia os próximos shows:
Jerry Adriani e Renato e Seus Blue Caps.
Possivelmente 'ses, nem de longe, terão o mesmo brilho e o mesmo alcance indie pop de Lafayette e Os Tremendões.
Ainda assim, são garantia de casa cheia.
Pelo menos entre os tiozinhos que batem ponto no Bolero todo final de semana.
Número de frases: 62
Em a periferia de Belém, a festa nunca termina.
Um projeto de sucesso do 'critor e produtor cultural Hermes Bernardi Jr completou quatro meses no último dia 15 de setembro.
E já deu provas de que tem maturidade.
Desde maio, Hermes leva contações de histórias para lugares além das 'colas e bibliotecas, como praças, asilos, instituições de assistência social e até mesmo parreirais na Serra Gaúcha.
O registro de 'tas empreitadas 'tá no blogue de ele.
Terça eu conto ...
verifica um interesse por a literatura, 'pecialmente por a contação de histórias, de gente de qualquer idade e condição social.
Para Hermes, «ouvir e contar histórias 'tabelece vínculos com o outro e com nossa capacidade de imaginar».
O autor critica adultos que «têm mania de achar que contação de histórias é só para crianças».
Novo Livro
Casa Botão é o novo título de Hermes Bernardi Jr., ilustrado por Ellen Pestili e publicado por a Editora DCL, de São Paulo.
A história se passa na Ilha de Tecido, ao norte do país chamado Molde.
A personagem principal é um botão vermelho.
Diferentemente dos demais botões, Vermelho é muito tímido.
Um botão usado e quebrado nas bordas que mora numa gaveta, ao lado de uma gaveta de botões de veludo vermelho, fofos e 'tofadinhos.
O sonho de Vermelho é habitar alguma casa de decote de camisa, de casaco ...
Por um acidente, Vermelho vai parar embaixo do balcão e em meio à poeira descobre uma agulha rombuda, um dedal amassado, um elástico sem elasticidade e um botão vermelho, de veludo, que não queria ser de veludo.
Ele conta para Vermelho que preferia ser original ...
Juntos, eles vão parar numa outra gaveta, dos Devolvidos e Desperdiçados ...
Vermelho até se 'quecera que seu sonho é habitar uma casa, quando um dedo miúdo de menina aponta para a gaveta dos desperdiçados, aponta para Vermelho, e diz:
-- É 'te, 'te botão vermelho que eu desejo!
...
O oitavo livro de Hermes Bernardi Jr. nasce em clima de aventura, misturada às linhas, bordados e invenções desenhadas por Ellen Pestili, ilustradora carioca.
Ellen, ao receber o texto reaproximou-se da mãe, que ao ler a narrativa prontificou-se a ensinar alguns bordados para a filha da qual se encontrava distante emocionalmente.
Através da narrativa sensível, quase fabular, Hermes dedica o livro " a todos aqueles que um dia se sentiram devolvidos ou desperdiçados.
A todos que um dia sofreram ou sofrem de exclusão, seja ela qual for».
Casa Botão
De Hermes Bernardi Jr.
Ilustrações de Elen Pestili 48 págs em cor
Capa dura
Número de frases: 30
Em as livrarias a partir de 6 de outubro de 2007 ao preço de R$ 23,00
Originalmente publicado no blog:
http://mascandocliche.zip.net É inevitável comparar.
A primeira mesa de discussão promovida por o 2º Festival Internacional de Arte em Mídias Móveis -- Arte.
Mov --, só tinha em comum com o evento do final de semana passado, o Teia (ambos ocorridos em Belo Horizonte), uma coisa:
a quantidade de pessoas.
Estava como a maioria das palestras da gigantesca programação do evento do Ministério da Cultura:
vazia. Meia dúzia de gatos pingados.
Mas o conteúdo (que é o que interessa, ora bolas!)
funcionou muito bem, obrigado.
Nada de depoimentos cochilantes.
Sem dúvida a grande fatia do mérito vai para a 'tratégia de concentrar boas experiências a serem expostas numa única mesa e não sair dividindo boas e más histórias entre as centenas de mesas-redondas disponíveis (como foi, repito, o Teia).
Enfim, o papo que motivou 'se texto foi mediado por um dos curadores do Festival, Lucas Bambozzi e o tempo da conversa foi dividido entre a Patrícia Canetti, do Canal Contemporâneo, Paulo Hartmann, dos festivais Mobilefest e Memefest e o José Marcelo Zacchi, do Overmundo.
Vou focar num único assunto, entre vários que renderiam boas pautas:
a preocupação de conteúdo na contramão da procura por contatos.
«Em o início do Overmundo, os perfis era resumidamente focado nos conteúdos.
Só se falava no que foi publicado ou votado das colaborações», disse José Marcelo Zacchi.
Mas a coisa vem mudando e formulando uma situação preocupante, segundo ele mesmo admitiu.
Agora, o mesmo Overmundo oferece nos perfis a possibilidade de troca de idéias entre os participantes.
Em o que isso vem resultando?
Ele responde:
«a cada dia, os murais de contatos viram campanha de vota lá ou já votei!».
Também não é difícil se achar trocas de mensagens pessoais, do tipo: '
você mora em que bairro?
Tenho uma amiga que mora no Belvedere '.
É amigo, tenho que concordar com o " Lucas Bambozzi:
«gente dá defeito!».
Aí parei para pensar que quando entrei no orkut achava que 'se seria o caminho.
Encontrar pessoas?
Sim! Conhecer pessoas?
Sim! Mas tendo como principal preocupação o aprendizado, o ensinamento.
E acreditem!
Fiz isso nas primeiras semanas, mas ainda era época de gestação do orkut, quando ele nasceu para o mundo e 'pecialmente para o planeta ' popular ', o orkut perdeu o sentido.
Começaram a chegar disparadamente mensagens como: '
bom fds! '; '
passei aqui pra deixar um oi '; '
feliz dia do amigo ';
feliz dia do beijo ' ...
e por aí vai.
Nada contra desejar coisas boas aos amigos, mas pelo amor de Deus!
Nem Deus agüenta.
Por fim, deixei o orkut.
Mas não quero deixar o Overmundo e pior, não quero deixar que os 'paços colaborativos que por fim funcionam bem por conta das boas idéias em eles implantadas, se tornem orkuts.
«A publicação no Overmundo há muito não é mais (nem sempre, quero dizer) questão de qualidade dos textos, mas de popularidade e capacidade de persuasão do autor», falou há pouco por msn, o jornalista Augusto Paim (também colaborador do Overmundo e inspirador do Mascando Clichê).
É isso!
Não tenho respostas, mas se conseguir levantar algumas questões já foi válido demais 'crever!
Passei aqui pra deixar 'se texto!
Número de frases: 47
Votem em mim!
A 'pera acontece no corredor, em frente ao elevador que dá para o mezanino do SESI.
Antes do início, uma das atrizes distribui os passaportes / programas para os 'pectadores, carimba-os e deseja boa viagem.
Outra atriz / personagem entra na fila do elevador junto com o público.
Já no mezanino, um ator / oficial de alfândega pede o passaporte de algumas pessoas, mas ele próprio não entra em seu jogo:
-- Passaporte?--
pede a um rapaz da platéia.
Este lhe entrega o ingresso.
-- Esse não é o passaporte, mas tudo bem.--
embaralha-se o ator / oficial.
Tudo isso para legitimar a cena inicial da peça Fronteiras, um dos 'petáculos semi-interativos que 'tá em cartaz em São Paulo, no Mezanino do SESI.
Não chega a ser interativo, porque a platéia não participa efetivamente das cenas, mas como tem 'sas pitadas de contato com o público, a melhor definição vai por o caminho do meio-termo mesmo.
A montagem procura ilustrar através de 'quetes diversos tipos de fronteiras existentes na vida, sejam elas de caráter social, regional, socioeconômico, ideológico, ou relacionado aos sentidos.
Em a verdade, a peça mostra que quase tudo pode ser uma fronteira, dependendo da maneira como se olha para a situação.
O mais difícil é saber como atravessá-la ou até derrubá-la em alguns casos.
Mais uma vez, 'barramos gostoso no nome de Newton Moreno, o mesmo que 'creveu VemVai -- O Caminho dos Mortos e A Refeição, ambos rascunhados em 'se site.
Newton assina o texto junto de Alessandro Toller, além da direção solo.
Os dramaturgos partiram de relatos dos próprios atores e experiências pessoais para criar a peça.
A atuação fica por conta do núcleo experimental do Teatro Popular do SESI, grupo ainda inexperiente, mas que não deixa 'se fato comprometer a encenação.
Mais uma vez, o texto de Moreno não decepciona.
Contudo, 'se 'petáculo começa a ganhar vida mesmo a partir da segunda metade da peça, quando todo o lirismo e poesia aparecem nas histórias.
Os relatos iniciais deixam a desejar, porque não trazem a mesma qualidade cênica e literária das últimas.
O 'pectador pode compensar 'sa deficiência se divertindo nos momentos em que a arquibancada inteira da platéia se desloca num trilho, para acompanhar as cenas realizadas em outras partes do mezanino.
Um toque de super produção não totalmente necessário, mas uma solução para aproveitar todo o 'paço horizontal do mezanino, e o aspecto de «viagem», de transpor fronteiras, da história.
Também uma fronteira separa o público dos atores.
Número de frases: 25
Essa distinção é física e ideológica, mas também é uma das barreiras a serem quebradas, já que ambos 'tão ali por o mesmo motivo -- por a arte, por a mensagem, por a história.
Oitocentos e vinte e sete.
Mais 827 crianças nascidas e nada disso 'taria acontecendo.
Quer dizer, não sei.
Não sei porque depende de vontade, e vontade eles têm.
Mas é bem provável que se os 19.173 habitantes somassem, na verdade, 20 mil, Luiz Antonio Cavalheiro não teria realizado um filme, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Rodolfo não teria sido campeão do Carnaval e não haveria um programa de TV com curtas e animações do país inteiro sendo transmitido para a cidade de Cordeiro.
Cordeiro fica na região serrana do Rio, a 130 km da capital, e justamente por ter menos de 20 mil habitantes pôde participar do Revelando os Brasis, programa que premia 40 histórias do Brasil todo e permite que os vencedores 'tudem a linguagem cinematográfica a ponto de voltarem às suas cidades com bagagem suficiente para rodar um curta-metragem.
E o mais importante:
o projeto fornece o equipamento para que a produção aconteça.
Bom, linguagem aprendida, filme feito.
Ainda faltava um passo para fechar a tríade imaginada por os realizadores da empreitada (Ministério da Cultura, Instituto Marlin Azul -- do Espírito Santo -- e Petrobrás):
exibir os filmes nas cidades em que eles foram filmados, junto a um público que na maioria das vezes ajudou na feitura da obra, fosse atuando, fosse carregando material, cedendo a própria casa e, também, emprestando o imaginário do lugar à história.
E foi impossível fugir da imediata pergunta que me fiz quando descobri que iria a Cordeiro assistir à exibição do filme do realizador local:
como será o imaginário de 'sa cidade com tão poucos habitantes, que não tem um cinema, que quando se fala aqui na capital a maioria (quando conhece) remete instantaneamente a duas coisas -- à banda de choro Os Matutos e à exposição agropecuária de julho --, enfim, como será que as pessoas de lá são?
Bobagem.
O que senti ao chegar em Cordeiro me pareceu muito com o que o cineasta Eduardo Valente conta aqui, em 'se bonito texto, sobre a oficina que ele ministrou para o Revelando os Brasis Ano II (a caravana que 'tá circulando o país ainda leva os filmes do ano I do projeto):
'sas pessoas são iguais a mim, sofrem inclusive dos mesmos vícios do olhar de quem cresceu vendo TV, compartilham do mesmo desejo de oferecer para o mundo o que pensam.
De a forma e por meio da arte que for.
O que vi em Cordeiro foi uma cena cultural desabrochada, um grupo de pessoas sem receio algum dos riscos de criar.
Cheguei no começo da tarde de 5/07.
E logo uma bandinha de crianças passou por mim, pensei serem os Matutos, mas não eram.
Eram outras crianças que, como os Matutos, também tocavam instrumentos, comemorando em procissão o Dia Mundial do Meio Ambiente.
Por as ruas de paralelepípedo que cobrem quase toda a cidade elas seguiram até entrar no Parque de Exposição Raul Veiga, onde mês que vem acontece a tal da exposição agropecuária.
Pronto, pensei, bandinha, parque de exposição ...
Cordeiro.
Bobagem de novo.
E Luiz Antonio Cavalheiro, 38 anos, chegou logo para, ainda na minha primeira hora de cidade, revelar, entre uma frase e outra que, além de diretor do A hora das almas (representante de Cordeiro do Revelando os Brasis), ele também é poeta, contista, ilustrador e realizador de peças de teatro.
Ok, isso aí qualquer um pode ser, ainda mais hoje em dia, quando para se fazer um filme, por exemplo, basta ter uma câmera fotográfica digital.
Não é o título que importa.
Tenho dúvidas, na verdade, se até mesmo a qualidade dos trabalhos é relevante.
A questão aqui é a vontade de fazer, de colocar para si o desafio de criar.
Desafio que aí sim a distância de Cordeiro atrapalha, porque realmente falta acesso, falta mídia, falta tecnologia, falta um palco, um cinema.
Mas, mesmo assim, o que não falta por aquela região é iniciativa.
Luiz Antonio nasceu por lá e por lá cresceu.
É formado em Língua Portuguesa e Literatura na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia (que fica em Nova Friburgo, cidade a 40 minutos de Cordeiro) e pós-graduado em Educação Infantil, numa 'pecialização que fez à distância.
Vive de dar aula na rede pública de educação, numa 'cola bem perto de sua casa.
Perto, aliás, soa como pleonasmo ao levar em consideração as dimensões de Cordeiro.
É possível andar a pé por boa parte da cidade.
Isso possibilita também que as pessoas se conheçam mais.
Vivam próximas umas das outras, compartilhem gostos, hábitos.
E, naturalmente, uma turma se forma.
E foi assim, conhecendo-se desde bem novos, que o grupo de amigos de Luiz Antonio se formou.
Todos que conheci dão aula em 'colas ou cursos e têm alguma pós-gradua ção.
O que impressionou bastante, a ponto de me levar para o outro lado e passar a achar que Cordeiro só tem intelectual.
É claro que não.
Tem gente muito humilde, gente que nunca viu um filme, por exemplo.
Aliás, a maioria das pessoas com que conversei nunca tinha ido ao cinema, mesmo existindo alguns em Nova Friburgo.
Nada de tão diferente daqui de o Rio, e até a justificativa da falta de interesse no ritual da sala 'cura é a mesma:
o conforto da casa e do DVD.
O cinema
O último cinema de Cordeiro, o Cine Madrid, inaugurado em 1956, fechou as portas em 1981, e desde então a cidade ficou órfã de um 'paço para a exibição de filmes.
Atualmente, o prédio antigo e a sala enorme com cadeiras de madeira abrigam a centenária Sociedade Musical Fraternidade Cordeirense, banda de música da cidade da onde saiu a maioria dos integrantes dos Matutos.
A Sociedade é subvencionada por a Prefeitura, que repassa R$ 36 mil por ano para a instituição e, em troca, atribui a responsabilidade de administração do lugar aos músicos.
A sensação clara que tive e que muita gente na cidade tem é que aquele local poderia ser melhor aproveitado.
Hoje, ele serve basicamente de espaço de ensaio e eventuais shows da banda.
Os próprios integrantes da Sociedade afirmam ter planos para uma ampliação do ex-cinema para até, quem sabe, retomar as exibições de fitas por lá.
A Prefeitura responde que não é bem assim, que tem planos também, mas que ali, segundo 'tudos feitos, não seria lugar para um cinema, um teatro, uma casa de show, que se teria que 'colher e que, por o andar da carruagem, o cinema 'taria mesmo perdendo 'paço.
Parece uma fábula.
Porque perto de ali, no atelier de Allessandro Concencio, artista plástico, carnavalesco, figurinista, diretor de arte e por aí vai, tem um grupo que se reúne sempre para conversar sobre projetos artísticos.
Este mesmo grupo se uniu mais e ganhou força e, por que não, uma certa notoriedade, com o cinema, com o filme de Luiz Antonio.
Allessandro, José Amaro Mansur, Ângelo Pessoa e, claro, Luiz Antonio, são aqueles amigos de muito tempo que mencionei.
Vivem uma vida cultural intensa em Cordeiro.
Juntam-se no «QG» de Allessandro para conversar sobre contos, roteiros, peças e concursos em que podem inscrever suas obras.
Depois que Luiz Antonio foi 'colhido e filmou A hora das almas em 2005 (produção na qual, com exceção de Ângelo, todos os amigos participaram exercendo alguma função), eles foram chamados para ajudar na concepção do samba-enredo da 'cola Unidos do Rodolfo.
Foram convidados também para tocar programas diferentes no canal comunitário TV.
com. Luiz Antonio coordena um programa de cinema chamado Sétima Arte, com exibições de curtas e animações de todo o Brasil.
Quanto à 'cola de samba, ela foi campeã do Carnaval, com o enredo " Luz, câmera, emoção ...
Suspense na avenida.
A Gresur vai desfilar a arte do cinema sentindo o prazer na adrenalina.»,
competindo contra outras duas agremiações.
O nome do samba já dá a dica sobre o que foi o desfile:
uma grande festa do cinema.
Três alas baseadas em três filmes diferentes, O fantasma da ópera, Os pássaros e, para fechar com chave de ouro, A hora das almas. [*
Uma nota triste desse enredo -- Luiz Antonio era destaque da ala do seu filme e caiu bem do alto do carro que o levava.
Quebrou vários ossos do pé, bateu a cabeça, desmaiou e só um ano depois 'tá conseguindo andar direito, mas confessa que ainda sente um pouco de dor.
De resto, recuperação perfeita.
E a constatação de que, depois do filme, a vida realmente não seria mais a mesma.].
Produzir a qualquer custo
O fato de ter experimentado um 'quema de produção profissional mexeu com os artistas cordeirenses.
Se antes eles já produziam com os parcos recursos que tinham, como se acostumar agora, depois da oportunidade, com as dificuldades recorrentes de se viver longe dos centros culturais?
Simples. Não se acostumando.
Produzindo. É isso, por exemplo, que prega Allessandro, em seu atelier, que é também sua casa e de sua mãe.
Sobre o projeto Revelando os Brasis, em que ele trabalhou de diretor de arte e cenografista do filme de Luiz Antonio, afirma ter adorado a experiência -- uma das melhores de sua vida --, mas reivindica com firmeza os equipamentos usados na produção do filme, que foram cedidos e tiveram de ser devolvidos.
Segundo ele, sem acesso, tudo acaba ficando muito difícil.
Esse tipo de discurso pessimista, no entanto, é raridade em Cordeiro.
O próprio Allessandro relativiza a questão, e aponta que aquilo de não ter em mãos equipamentos não é 'pecificidade da sua cidade, é de quase toda cidade pequena e, quem sabe, de muita gente até mesmo dos centros.
Para onde ir, então?
A lugar nenhum, é importante ficar e fomentar a cultura de Cordeiro.
O grupo brinca, inclusive, sobre fazer um movimento chamado Dogma 2,99 -- «quem sabe até 1,99 reais», se divertem, em referência ao movimento de cinema dinamarquês, Dogma 95, que tinha a ambição financeira e 'tética de produzir obras com poucos recursos.
Em a verdade, 'ta 'pécie de tática de guerrilha que alguns cineastas independentes tomam para fazer e divulgar suas fitas já vem sendo assumida por eles.
Um exemplo:
a parceria que Luiz Antonio fez com uma locadora da cidade, deixando uma cópia do seu filme por lá para ser pego de graça.
A procura foi tanta que os donos da locadora tiveram de adquirir mais duas cópias da obra.
O resultado?
Não teve para ninguém em boa parte de 2006.
A hora das almas liderou as locações, deixando em segundo colocado, respectivamente, Dois filhos de Francisco e o remake de King Kong.
Além de combinar a permuta com a locadora, Luiz Antonio ainda fez o filme correr por as 'colas de Cordeiro, outra 'tratégia comum dos cineastas sem incentivo.
Dia 5, quando cheguei por lá, o medo do grupo era curioso:
todos 'tavam receosos com o fato de boa parte da cidade já ter visto o filme e, por isso, o Cinema Madrid ficar vazio.
A exibição
Inferno na Torre, Terremoto, Tubarão, Os Trapalhões, filmes pornôs e de kung fu.
Os mais velhos de Cordeiro lembram bem da época em que o Cinema Madrid ainda funcionava.
Luiz Antonio e sua turma também, passaram seus vinte anos por lá e agora, na casa dos 40, dão falta de não haver na cidade uma grande tela de exibição.
Mas terça é um dia 'pecial e já o ex-cinema vai virar cinema de novo.
De fato, como previra o grupo, a sala não 'tá lotada.
Também não 'tá vazia.
Em a platéia, acabo conhecendo outros artistas da cidade, músicos, atores, anônimos que participaram do filme de Luiz Antonio.
Durante a exibição do curta cordeirense e outros mais três filmes do Revelando os Brasis, uma visita à locadora de vídeo.
Quinze minutos por lá, dois casais olham a prateleira, uma menina devolve a 2º temporada de Lost.
Todos respondem da seguinte maneira a indagação de por que não 'tão no cinema:
«Porque já vi o filme do Luiz Antonio».
A verdade é que aliado ao fato de levar um telão e exibir filmes qual um cinema nas cidades que normalmente não têm salas de exibição, o Revelando os Brasis tem também como grande chamariz a possibilidade de assistir à obra do realizador local.
Se por um lado o empreendedorismo de Luiz Antonio proporcionou que seu filme tenha sido visto por muito mais gente do que o senso comum previa, por outro acabou tirando parte do público justamente da sua noite de exibição oficial.
Nada, contudo, que tenha ofuscado a sensação 'pecial de dentro da sala 'cura de que, mais de duas décadas depois e com exceção de uma mostra 'pecial aqui e ali, o cinema abria novamente a sua porta, agora para passar a primeira obra filmada totalmente na cidade e dirigida por um cordeirense.
O melhor de tudo:
a certeza de que o cinema vai passar, pelo menos, ainda mais um filme.
Isso porque a caravana do Revelando os Brasis Ano II vai obrigatoriamente voltar para lá, para exibir o filme de Ângelo Pessoa, Uma história de fogachos, queijinhos e Miranda.
Cordeiro foi a única cidade do país contemplada duas vezes no projeto.
O que anima e faz o grupo revelar que já há planos para o ano III:
uma animação.
O futuro ainda reserva mais criação -- uma peça de Luiz Antonio encenada num colégio de Duque de Caxias, um sonho de Allessandro de uma 'cola de arte (em Cordeiro) integrada com a natureza, um concurso de literatura a participar, uma exposição a fazer;
enfim, produzir.
Número de frases: 122
* * * O filme de Ângelo Pessoa, Uma história de fogachos, queijinhos e Miranda, passa 19 de junho, às 23h30, no Canal Futura, com reprise dia 24, às 13h.
Não ficou pedra sobre pedra!
A passagem 'tarrecedora do Mukeka di Rato já 'tá rolando em centenas de vídeos disponibilizados por os fãs na internet.
Em a matéria linkada no final, além de fragmentos do show de Nagoya, você verá cenas exclusivas de backstage e uma entrevista irada com os caras da banda.
O Mukeka di Rato tocou em Nagoya no dia 2 de maio, em pleno feriadão japonês.
O resultado foi casa cheia no Huck Finn de Nagoya e apresentações explosivas das bandas de abertura Nomares, Vivisick, Curioso e Muga.
A molecada brasileira marcou presença chegando cedo à porta do Huck Finn.
O Mukeka não deixou por menos e deu a maior atenção para a galera.
Entre uma lata de cerveja e outra os caras fizeram sala para os fãs até o início dos trabalhos.
A banda brasileira Nomares foi a primeira a tocar.
Os caras são de Gifu, região central do Japão e tocam a banda paralelamente ao trabalho nas fábricas locais, o modo como a 'magadora maioria dos quase 300.000 brasileiros que vivem no Japão se mantêm.
O Nomares fez um show honesto com uma pegada forte e letras que falam do cotidiano do imigrante brasileiro na Terra do Sol Nascente.
Os caras contaram da importância de 'tarem abrindo a noite, principalmente quando a atração principal era, nada menos que, Mukeka di Rato, banda-influ ência para o Nomares.
Em seguida subiram ao palco os japoneses do Vivisick.
A banda que fez uma turnê no Brasil em 2oo4 e é uma das 'trelas do underground local.
O vocalista é uma figura bastante diferente o padrão do japonês típico, com sua pele morena e seu cabelo rastafari até a cintura.
A voz é quase um sibilo e o som, uma pancada.
Os terceiros da noite foram os caras da banda Curioso, curiosamente formada por japoneses que, mais curiosamente ainda, cantam em português (ininteligível).
O líder da banda conta que seu conhecimento da língua portuguesa se limita às letras das músicas e a um pequeno farnel de emergência formado por palavras importantes como «gostosa»,» linda " e outras mais, digamos assim, sujas.
O som dos caras passeia entre a pancada e um certo glam, reconhecível nos modelitos dos membros da banda.
A o Muga coube a honra de anteceder a atração principal.
O palco se avermelhou para a entrada do som sombrio da banda.
Apesar de técnicamente impecável, o show teve a chata função de ser um momento de relax para o que viria depois.
O Mukeka di Rato subiu ao palco com a casa lotada de uma garotada brasileira que andou preocupando os organizadores.
«A casa nunca teve tantos brasileiros», contou um dos músicos que se apresentara na mesma noite.
Porém, o que se viu foi só catarze com japoneses e brasileiros pulando ao som da grande atração da noite.
Quer mais?
Clica aí embaixo e confere um vídeo exclusivo:
http://www.blip.tv/file/ 222548/
Publicado originalmente em robertomaxwell.
Número de frases: 30
com A Revista Coquetel Molotov chega a sua segunda edição.
Com ela, mais artistas novos e bandas até então «desconhecidas» passam a existir na leitura e no imaginário de seu público leitor.
E não se restringindo a um 'tilo 'pecífico ou região, a publicação, através de seus vários colaboradores traça um bom panorama da boa música que vem sendo feita por aí.
Com 68 páginas e distribuição gratuita, possível apenas através do apoio cultural da CHESF e Prefeitura do Recife, a publicação é editada por o coletivo Coquetel Molotov.
Os critérios que o Coquetel Molotov utiliza para as pautas da revista são os mesmos que o grupo utiliza para a 'calação de seu festival e das músicas do programa de rádio.
O importante não é correr atrás do que todo mundo 'tá falando ou procurar a declaração bombástica que aquele grupo hypado disse.
Eventualmente as entrevistas e matérias da Revista Coquetel Molotov podem trazer surpresas e revelações na carreira de um artista ou grupo.
Mas isso vem de forma 'pontânea e natural porque eles mesmo se sentem à vontade para dizer isso, longe daquela frieza jornalística de releases.
É preciso entender que uma revista musical deve ser voltada para a música.
Por mais óbvio que isso possa parecer, nem sempre as publicações musicais procuram falar sobre isso.
Ao invés de sentir o que as bandas têm a dizer, musicalmente falando, vemos falarem sobre outros temas que nem sempre importam de verdade.
Falar de música é sentir e entender isso.
Ler e captar a dificuldade de uma banda como o Fossil teve ao fazer uma turnê por outras capitais brasileiras.
Sacar como o duo italiano My Cat Is An Alien conheceu o Sonic Youth através da música que produziram em casa.
Sentir o drama e o amor que Daniel Johnston, 'te ilustre e injustiçado cantor, possui ao falar de sua vida nos dias de hoje.
A Revista Coquetel Molotov é um convite a novas descobertas musicais, seja no Recife, no Brasil ou no mundo.
A pluralidade de temas e idéias trazidas por seus colaboradores dá aquilo que uma revista 'sencialmente musical precisa.
Pernambuco fala para o mundo e fala do mundo e a música circula por o mundo para fala por si e para todos.
Exemplos? O sergipano radicado no Recife DJ Dolores 'creve sobre o músico ucraniano Eugene ürtz, do Gogol Bordello, que atualmente reside em New York.
O chileno Cristian Ayara fala de sua conterrânea Javiera Mena.
O gaúcho Wander Wildner revela as conexões que teve com o Recife, desde os primórdios, quando foi roadie de uma turnê de Alceu Valença antes de se aventurar no punk dos Replicantes.
E Erasto Vasconcelos, capa do segundo número da revista, relembra sua trajetória musical ao ter morado nos EUA, Rio de Janeiro e Maranguape.
Em a publicação, arte e design casam perfeitamente com os temas musicais apresentados.
Com desenhos e ilustrações de Marcelo Garcia, Allan Sieber, Diego Medina e Victor Zalma, entre outros, a revista utiliza licença Creative Commons.
Todos os textos, fotos e ilustrações da revista 'tão licenciados em Creative Commons, exceto as fotos de divulgação, o que possibilita que ela possa ser reproduzida livremente desde que citada a fonte.
Além das matérias e entrevistas, os colaboradores da revista 'creveram resenhas para discos que vão de Blonde Redhead, Clap Your Hands Say Yeah e The Eternals a lançamentos nacionais como Supercordas, Irreversíveis e Rômulo Fróes.
Lançamento -- Após o dia 08 de abril, a Revista Coquetel Molotov Nº 2 passa a circular no Recife e em outras cidades em pontos de distribuição a serem divulgados por o site do grupo (www.coquetelmolotov.com.br).
O lançamento oficial acontece na Saraiva Mega Store, no Shopping Recife, no mesmo dia com um pocket-show de Erasto Vasconcelos.
Como presente de domingo de Páscoa, Erasto executa um show solo acompanhado de seu violão da mesma forma que executa suas composições em casa.
O evento começa a partir das 17h e a entrada é gratuita.
Pocket-show com Erasto Vasconcelos
Lançamento da Revista Coquetel Molotov Nº 2 Local:
Saraiva Mega Store -- Shopping Recife -- Boa Viagem -- Recife / PE
Data / Horário:
Domingo -- 08 de Abril -- 17h
Entrada Gratuita Mais informações:
Número de frases: 36
www.coquetelmolotov.com.br Quem conhece os adolescentes e jovens do Conjunto Jardim, apesar do destaque dado por a imprensa ao envolvimento de alguns de eles com assaltos e tráfico de drogas, sabe que a maioria gosta de dançar, fazer teatro, cantar e tocar algum instrumento musical.
Infelizmente, por encontrar poucos líderes e gestores sensíveis e conscientes da importância das ações artísticas e culturais, grande parte desiste e fica impossibilitada de ocupar o seu tempo livre com atividades voltadas para o próprio crescimento humano e social, comprovando o que disse o ministro o Ministro Gilberto Gil em discurso na câmara dos deputados no ano de 2004: " ( ...)
Há muitas iniciativas culturais que nascem, e na maior parte das vezes morrem, nas periferias e no interior do nosso país, sem que o Brasil possa se dar conta de quanto talento é capaz o seu povo.."
Para evitar isso, atuando através do apoio e do 'tímulo às iniciativas culturais da «galera» foi criado, em 2002 (suspenso no final de 2004 e retomado no segundo semestre de 2006), o Projeto Ecarte (Educando com arte), fruto da parceria da ong Ação Cultural, Igreja Católica e Colégio Leão Magno, cujo objetivo é trazer profissionais para melhorar a qualidade artística dos trabalhos e divulgá-los através de mostras, festivais, vídeo-documentário, artigos e reportagens na mídia.
Em o ano de 2006 o projeto contou inicialmente com 70 adolescentes / jovens inscritos nas oficinas de teatro e dança mirim e juvenil, que foram acompanhadas respectivamente por os instrutores Lázaro, Denisson, Welma e Cristiane.
O motivo principal que levou 'ses jovens a se inscreverem nas oficinas foi a necessidade de se quebrar a rotina, ajudar a perder o medo e a timidez, fazer novos amigos, conhecer outras pessoas e lugares.
Em termos de dificuldades, no caso do teatro, foi percebido que a maioria encontrou problemas em exercícios de improvisação, conforme relatou o instrutor Denisson.
Segundo ele, mesmo mostrando bom desempenho nos exercícios dirigidos, na hora de contar histórias ou de improvisar cenas livres muitos de eles se perdiam na hora de criar, mostrando excessiva dependência de um texto 'crito ou da orientação de outro (a) para lhe dizer o que fazer.
No caso da dança, o problema são os modelos impostos através da cultura de massa.
Por 'se motivo a oficina de dança juvenil teve que ser suspensa porque não conseguiu ampliar a quantidade de inscritos devido à dificuldade de se assimilar a proposta de dança contemporânea que se apóia na improvisação, na consciência corporal, na dança popular, na dança de rua, na própria dança clássica, entre outros elementos, para sua expressividade.
Mesmo assim conseguimos chegar ao final e participar da II Mostra Arte e Cidadania, em 13 de janeiro, no Teatro Lourival Batista.
A maioria dos que foram representando o Projeto Ecarte nunca tinha ido ao teatro e, segundo os membros do grupo Pop Dance e da Oficina de Teatro Mirim, apesar de terem ficado nervosos com a grande quantidade de pessoas, sentiram-se como gente famosa, como verdadeiras «flores».
Além disso, foram bem tratados por os organizadores e por dançarinos e atores de outros grupos, recebendo elogios por causa de sua performance.
Como assessor pedagógico do Projeto Ecarte, constatei que os cinco meses de retomada dos trabalhos foram insuficientes para ajudar a diminuir ou reverter os problemas apontados por o instrutor Denisson e por a instrutora Cristiane.
Esses problemas são bastante semelhantes aos desafios apresentados no I Fórum Popular de Cultura, realizado em 2005 e que, entre outras sugestões, apontou a necessidade de ampliar o trabalho de conscientização da juventude na perspectiva de valorização da arte popular e de produzir com qualidade fortalecendo a identidade cultural de nosso povo para atingir uma população cuja mente 'tá massificada por a cultura de consumo imediato (a pasteurização cultural).
Com a mudança de governo a expectativa de todos (as) que tomaram parte nas oficinas é de que mais recursos (financeiros, materiais e humanos) possam ser destinados para o projeto nos próximos anos, a fim de não comprometer os avanços e possibilitar a superação dos desafios e a ampliação da quantidade das pessoas beneficiadas.
Em 'sa perspectiva, propomos que as 'colas da região façam um consórcio e destinem, cada uma, certa quantia em dinheiro, para que o projeto possa ter uma abrangência maior, e contrate profissionais da área artística bem qualificados.
Quanto ao acompanhamento pedagógico, que também é primordial, as 'colas podem liberar professores das salas de aula, de forma parcial ou integral, para se dedicarem à proposta, desde que tenham experiências em iniciativas artístico / culturais em 'colas e / ou comunidades.
P.S.:
O jornal Cinform, na edição 1198 de 27/03 a 02 de abril de 2006, publicou uma matéria intitulada «Conjunto Jardim tem violência que só perde para a Terra Dura» e publicou um box com as seguintes informações:
População:
15.725 habitantes;
Local: a 10 quilometros da capital, pertence ao municipio de N. Sra. do Socorro, e faz parte da Grande Aracaju.
Segundo bairro nas 'tatisticas de homicidios (15 em 2005).
Ocorrência de muitos roubos a ônibus, tráfico de drogas, arrombamentos a residências e homicidios.
O padre Givanildo que é pároco e da comunidade, na mesma reportagem afirma:
«Sempre há os que, por ociosidade ou falta de 'perança, partem para a criminalidade, principalmente a juventude, que tem poucas perspectivas por aqui» ( ...)
Número de frases: 27
«Nossos jovens precisam de projetos educativos, que tragam 'porte, cultura, aprendizagem profissional e lazer."
Escrevi uma crônica sobre Jairo Ferreira que gerou polêmica junto a um Ferreira [parente?].
Quero a opinião de vocês.
2001.
Após nove meses de desemprego, arrumo um emprego no sebo Labirinto Cultural, de propriedade de Diomédio Morais, no bairro da Liberdade.
Sua primeira recomendação:
quando entrasse Jairo Ferreira no 'tabelecimento, eu deveria vigiá-lo, pois Jairo tinha o hábito de roubar coisas do sebo.
Quem era Jairo Ferreira?
Segundo Diomédio e outros que frequentavam o local, era uma sumidade cinematográfica, mas agora vítima do alcoolismo.
Dias depois, 'tou andando por a Rua dos Bororós e testemunho Jairo Ferreira devorando uma lata de lixo junto com um mendigo.
Pelo amor de Deus!
Algumas semanas mais tarde, Diomédio 'tá fazendo uma faxina no seu sebo e joga um cd no lixo:
a trilha do video «Caquinha Super Star a Go-Go, de Petter Baiestorf».
Incrédulo, recolho o cd do lixo e em ela vejo uma dedicatória de Petter para Jairo Ferreira.
Mas Jairo vendeu o cd para Diomédio, que não obtendo compradores, jogou-o no lixo, sendo resgatado por mim.
Em o ano seguinte, 'tou no apartamento do diretor Dennison Ramalho.
O gaúcho diretor do premiadíssimo «Amor Só de Mãe» [filme do qual participei] me conta que uma noite Jairo Ferreira telefona a ele, a cobrar, dizendo que 'tava num botequim e não tinha dinheiro para pagar a conta.
Dennison veste sua jaqueta e vai correndo «salvá-lo», segundo suas próprias palavras.
2003 é o fim de Jairo Ferreira.
Mais uma das figuras que o conheceram, a atriz Daniella Peneluppi, ao me encontrar, relata que Jairo Ferreira havia cometido suicídio, pulando do décimo andar de seu apartamento.
Compro o jornal, no dia seguinte e leio:
«Jairo Ferreira, ex-crítico da Folha, morreu ontem.
Sua família não quis divulgar a causa da morte».
A nota também relatava os livros de autoria de Jairo:
«Cinema de Invenção», «Crítica de Invenção».
Antes de crítico da Folha, Jairo também 'creveu centenas de artigos para o jornal «São Paulo Shimbun».
Fiquei pensando:
como um cara destes chegou àquele ponto de devorar uma lata de lixo e depois se suicidar?
Recentemente, surge o Prêmio Jairo Ferreira.
Fiquei louco de vontade de assistir os dois curtas-metragens que dirigiu, ambos em 1977: «O Guru e os Guris» e «O Vampiro da Cinemateca».
Mas infelizmente 'tes filmes não existem em lugar nenhum.
Nem no YouTube, nem no Porta-Curtas.
E nem na Cinemateca!
[Tempos depois, descobri, através do Porta-Curtas, que os filmes 'tão em poder de Paulo Sacramento, sabe-se lá para quê].
Mas o site www.imdb.com tem a obra completa de ele anotada lá:
http://www.imdb.com/name/nm0274341 /.
Além dos dois filmes, participou de muitos outros.
O cara respirava o cinema marginal paulistano.
Em a impossibilidade de assistir seus filmes, resolvi ao menos ler algo que ele tinha 'crito.
E deparei-me com uma preciosidade:
uma crônica muito louca sobre Ozualdo Candeias.
Pois é, o comedor de lixo era mesmo fera.
Em tempo:
o ganhador do primeiro Prêmio Jairo Ferreira foi o filme «Serra da Desordem, de Andrea Tonacci». [
Leia mais aqui:
http://cinema.uol.com.br/ultnot/ 2007/03/13/ ult4332 u48.
jhtm] Leia agora a crônica de Jairo sobre Ozualdo:
CANDEAS, Sob O Signo De Escorpião
Conheci Ozualdo Candeias (Cajubi, SP, 05 de novembro 1922) em 1966 no 'critório de Honório Marin, que alugava equipamentos de filmagem num casarão da rua Bento Freitas.
O papo começava à tarde e se prolongava no restaurante Costa do Sol, na rua Sete de Abril.
Ele 'tava preparando a produção de seu primeiro longa A Margem -- lançado em dezembro de 1967 no cine Paissandu.
Antes fizera diversas sessões 'peciais e me lembro de uma a meu convite na Comissão de Cinema do Juizado de Menores da qual eu era membro.
Houve um debate extenuante e falou-se no barco de Caronte da mitologia, mas Candeias em sua simplicidade (perspicaz) reduzia tudo a arroz e feijão.
Em a verdade conheci Candeias um pouco antes, em 1965, quando eu e Ermetes Ciocheti (que morreu afogado nos anos 90) íamos rodar um sketch, A Geração DOS Insetos, em 35mm, e Candeias filmou os testes com uma atriz cujo nome 'queço, aliás, o projeto parou nos testes ...
Mas fizemos amizade com Candeias que nos mostrou um documentário sobre milagres em Tambau, enquanto nós lhe mostramos o média A Caminho De o ORION (1963, 16mm), de Ciocheti -- experimental a ser resgatado.
Aliás onde anda o produtor Paulo Meirelles?
Em a Boca do Lixo, a partir de 1967, eu encontrava Candeias no restaurante Soberano e ele logo se tornou meu tipo inesquecível, parodiando sessão do Reader's Digest.
O homem falava e fala por os cotovelos e me contou toda história do cinema paulista e sua experiência como cinegrafista de Primo Carbonari, entre mil outras coisas.
Função de guru, maybe.
Em o Shimbun, jornal da colônia japonesa onde fiz 252 matérias (entre 1966 e 1972), situei A Margem entre os dez melhores nacionais do ano e, a partir de 1968, eu 'tava sempre na Boca do Lixo -- conversava muito com Candeias e Carlão Reichenbach.
Escrevi sobre O Acordo, episódio de Candeias em Trilogia do Terror;
aliás 'crevi muito sobre (quase) todos os filmes de Candeias, sempre figura atlética usando camisa dois ou três botões aberta no peito tostado de sol.
Rei das ninfas!
Vou contar um episódio pitoresco que revela bem o gênio do gênio, marginal entre marginais.
Em 1982 fui diretor de produção do curta A Boca do Cinema Paulista (prêmio Estímulo da área 'tadual), de Tony Souza (hoje, ditador do SINDCINE, um sindicato patronal conivente, portanto, com as majors).
Candeias sempre tem intuição e parecia saber que o carinha 'tava afins de poder.
Não deixou que Tony olhasse no visor.
O que você quer ver aqui?
Vamos rodar ou não?
Senta aí que faço 'sa merda sozinho -- e não me encha o saco!
Vai lá preparar os sandubas!
Mas o máximo foi quando eu tive que dar meu depoimento e Candeias queria saber o que eu ia dizer.
Eu disse:
olha aqui, vou falar o que eu quiser.
Ele ficou brabo (tipo Charles Bronson, melhor, aquele do Paladino do Oeste, Richard Boone).
Candeias disse:
então eu não filmo.
Tive que mostrar meu texto por escrito e ele pediu que eu não falasse em Glauber Rocha.
Concordei, mas na hora de rodar falei que o Cinema Novo tinha acabado como movimento em 67 com Terra em Transe, 1967, ano em que a Boca nasceu com o próprio Candeias no pioneiro A Margem, também de 67.
Em o curta do Tony não tinha som direto e fui, meses depois, dublar minha própria fala num 'túdio em Perdizes.
Não havia como dizer Candeirocha em lugar de Glauberdeias ...
Candeias tinha mania de fotografar todo mundo que aparecia na Boca e, anos depois, veio me dizer que Glauber o procurou na Boca e que vestia camisa verde-oliva em homenagem aos milicos.
Perguntei: por que você não o fotografou?
Ele disse que naquele dia 'tava sem câmera e Glauber tava com pressa.
Verdade ou mentira?
Ou nem verdade nem mentira?
Geralmente não gosto de falar do autor e sim da obra, mas no caso a personalidade de Candeias é muito forte e revela seu processo criativo:
-- Roteiro eu 'crevo mas não levo nem para passear.
De fato.
Fui ator co-adjuvante em AOPÇÃO -- As Rosas da Estrada (1979) e comprovei.
Ele fazia umas anotações um pouco antes de rodar -- uma 'pécie de decupagem in loco.
Foi o papel mais difícil de minha vida, na pele de um missionário que vai pregar o evangelho numa zona e acaba nu.
Foram 4 ou 5 dias de filmagens.
Eu fazia do meu jeito e ele bronqueava:
-- Isso aqui não é filme de Samuel Fuller não, nem do ROARD Roque nem do caralho de RÓLIUDE, isso aqui é filme de Candeias!
Aí senti a barra & fiquei na minha.
Confiei no tipo inesquecível.
Lamentavelmente não guardei quase nada do que 'crevi (claro que tenho um índex com os títulos e datas) sobre Candeias, mas tenho em mãos um exemplar do magnífico tablóide Telinha (fevereiro 1992), editado por Diomédio Morais.
Cito só a primeira frase:
-- Planetariamente Ozu é que acertou no milhar.
Eu havia feito outro papel em O Vigilante e aí Candeias foi mais ameno.
Carlos Adriano me criticou porque numa lista dos melhores do SESC votei em mim mesmo como melhor ator co-adjuvante em AOPÇÃO.
Mas fui sincero, pois já fiz umas 30 aparições nos filmes dos amigos e a melhor eu acho que é 'sa mesmo.
Não garanto, pois ano passado fiz o papel de um faquir no curta A Bela E Os Passaros, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori e imagino que tenha ficado forte.
Noto que de certa forma sou a carta zero do Tarot, pois vivo fazendo de tudo em filmes de todos os bons amigos.
Como diz Raulzito, o pessoal tá preocupado com os galhos e 'quece que e lá no tronco que tá o coringa do baralho -- & pra mim o melhor baralho só poderia ser aquele do mago inglês Aleister Crowley.
Aliás Candeias também é místico como a maioria dos experimentalistas -- fiz uma abordagem sobre isso na revista do Unibanco (numero 9, capa verde, 1997, 'gotadíssima) & aliás só saiu porque o Ademar Oliveira consultou Carlão e Inácio para averiguar se eu não tinha demenciado demais ...
Vale lembrar também que em 1993-94 fui programador do Centro Cultural São Paulo e sofri como cão danado pra conseguir as cópias -- Retrospectiva Ozualdo Candeias -- O Vigilante do Quarto Mundo.
Havia um convênio com a Cinemateca Brasileira e os burocratas de plantão tentaram me sabotar.
Pedi socorro a Candeias que me disse -- dá um tempo que vou pegar a minha moto e em duas horas você terá a cópia que te falta.
Não deu outra.
Quer dizer, o homem é foda sem ph.
Um bom titulo para a matéria 'pecial para o CONTRACAMPO:
Candeias, Sob O Signo De Escorpião.
Um signo muito difícil, mas eu que sou virginiano sempre me dei bem com 'se tipo inesquecível & registro agora sua extrema generosidade -- tanto que me deu de presente uma boa máquina fotográfica nos idos de 90.
A Boca tinha acabado há muito, mas Candeias mora ali perto e até hoje ainda dá uma passadinha por lá nos fins de tarde.
A Boca é seu lar & seu apartamento é um verdadeiro pandemônio -- tem de tudo, de cinema & som, computador, aparelhos de halteres, motor de barco ...
E ele me dizia que ia pendurar uma antena parabólica de três metros na própria janela!
Mas isso ele não fez ...
Vem tendo dificuldades pra rodar um novo longa desde que surgiram as tais leis de repressão à invenção dos anos 90 -- o tal renascimento do cinema brasileiro que não passa de balela, virou pra resumir censura econômica que como se sabe é a pior de todas.
Para não ir muito longe vou falar telegraficamente sobre o que fica pra mim nos filmes de Candeias -- a alma cabocla sem nenhum primitivismo -- isso faço questão de 'clarecer.
Primitivo seria o cu da mãe & Candeias fala disso n ' AS Belas De a BILLINGS (1985) -- inventário com participações 'peciais em câmera lenta de alguns de nós, Carlão, Ody Fraga ...
Raja talvez, eu também apareço ...
Algo me lembra belo texto do Alcino na Folha de Sampa sobre quem?
Aquele cineaszta da Índia -- tem 30 anos & agora repete a dose com um filme chamado por aqui de Corpo Fechado.
Não cito por acaso, já que Candeias tem fissura por tais temas, vamos explicitar:
Ozualdo sempre curtiu o gênero fantástico.
Em 'sas alturas do Everest fico por aqui com minipaideuma:
Amo A Margem -- arrumarei tempo pra fazer um ensaio about;
Vibro com O Acordo;
Adoro Meu Nome É TONHO -- masterpiece cabocla;
Deliro com A Herança -- trinados de pássaros em vez de voz;
Pirei com ZÉZERO -- cinema de transgressão;
notai que eu tinha 'se título na cuca sem saber do movimento americano pós-underground & já adianto uma sintonia com Robert Kerr num Super 8 dos anos 70.
Coisas de ir ao fundo do baú.
Curto AOPÇÃO:
As Rosas da Estrada.
Aliás não sei se seria o melhor filme de Candeias.
Difícil 'colher um só;
bom isso, também não sei 'colher qual a melhor peca de Shakespeare, sem forçar barra, pois Candeias deglutiu Hamlet e o transformou em Omeleto em A Herança -- no qual o hoje critico Inácio Araujo (seja dita a verdade que é meu sucessor na Folha de S. Paulo) de fato foi assistente de direção, ou seja, não deu um pio, só realmente assistiu Candeias e bem de longe, pois Ig era e continua tímido.
Em A Herança até Rubens Ewald Filho fez uma ponta & tudo, evidência que Candeias é mesmo um grande artista contemporâneo que se exorciza em seus filmes -- reduzindo os que eventualmente vingariam a meros mortais de uma condição humana muito cruel no Brasil não-oficial.
Reflito: país sem noção de nação.
Não se trata de tristes trópicos mas de alegria da abulia.
Ausência de thelema.
& & Sorry se falei mais do homem que da obra -- mesmo sabendo que os homens passam & a obra fica.
PS:
Quero agradecer ao pessoal da CONTRACAMPO e em 'pecial a Mônica que me apresentou ao Juliano & RUY -- e também gostaria de fazer meu marketing:
meu livro Cinema De Invenção foi lançado em novembro 2000 por a editora Limiar -- se você não achar nas livrarias telefone ao meu querido editor Norian, (011) 3086-2604.
Mas deixo claro que vou pessoalmente divulgá-lo em 'te 2001 em alguns festivais de cinema;
e tem mais:
o Itaú Cultural 'tá telecinando meu primeiro longa Super 8 -- O Vampiro da Cinemateca (1977) num lance que deve rolar mesmo a partir de maio a nível nacional -- projeto do professor Rubens Machado, da ECA-USP -- o título geral é Mostra Itinerante ITAÚ Cultural:
O SUPER 8 Experimental NA Década DE 70.
Fique ligado que vale a pena, cinemantena!
Jairo Ferreira
Alfredo Ferreira Pinto, que não deixou maiores identificações, deixou 'te comentário no meu blog:
«Lamentavel vc ter notado detalhes tão pequenos de uma personalidade tão abrangente como a do Jairo.
Se vc tivesse o minimo de respeito como pessoas como Ramalho e Sacramento, jamais postaria isso.
Lamentavel.
E as outras tantas vezes que Jairo foi lesado por Diomédio, você soube?"
Minha réplica:
1 -- Por que você não se identifica?
É parente do Jairo Ferreira?
2 -- Que detalhes pequenos?
Quando conheci Jairo Ferreira, ele era um comedor de lixo que se suicidou.
Para um gênio importante da cultura brasileira, não é um fato que deva passar despercebido.
3 -- Você notou os elogios que fiz ao Jairo?
Notou o fato de eu 'tar tentando manter a memória sobre a excelente obra de ele?
Reparou que cito o nome de dois de seus livros, de seus filmes e ainda por cima, postei um de seus artigos?
4 -- Onde você 'tava quando Jairo 'tava se degradando?
Fez alguma coisa por ele?
Algum de seus amigos, como Diomédio, Ramalho ou Sacramento, tentaram ajudá-lo realmente ou consideram que pagar contas em bares, à meia-noite, seja ajudar um alcoólatra?
5 -- Por que você nunca denunciou ou protestou contra Diomédio Morais?
Esta é a chance que você tem de dizer a verdade.
6 -- Eu tenho grande respeito por a obra de Jairo Ferreira, tanto é que além de ter 'crito 'te artigo, 'tava tentando lançar os filmes de ele em dvd ou passar em festivais.
Isto é muito melhor do que apenas criar um prêmio de cinema.
7 -- Se você é parente do Jairo e recebe parte dos direitos de sua obra, deveria me agradecer por 'te artigo e não criticar.
8 -- Falei alguma mentira em 'te artigo?
9 -- Esconder a verdade sobre alguma personalidade é respeitá-la?
10 -- Os destinos trágicos de todos os gênios da humanidade são plenamente conhecidos do público, seja o auto-corte da orelha de Van Gogh, a morte por overdose de Fassbinder, a morte trágica de Pasolini, após contratar os serviços de um garoto de programa, a morte trágica de Garrincha, Ray Charles não 'condia ter sido viciado em drogas ...
e tantas celebridades que tiveram sérios problemas e 'tes problemas só fizeram trazer mais fãs e admiradores, porque revelaram que eram pessoas bem humanas, como qualquer um de nós.
11 -- Falar a verdade sobre Jairo Ferreira é minha demonstração de respeito para com ele.
12 -- Como parente do Jairo Ferreira [caso seja], você tem medo que a verdade sobre seus derradeiros momentos lhe tragam questionamentos constrangedores?
13 -- Não se preocupe com o possível constrangimento que o post possa 'tar lhe trazendo, pois a verdade sobre Jairo Ferreira vai-lhe trazer mais admiradores e pode até ser que alguém resolva fazer um filme sobre sua vida e ele vai se tornar ainda mais conhecido.
Você vai me agradecer.
14 -- Utopia achar que a verdade sobre a vida de Jairo Ferreira iria ficar oclusa a vida toda.
Fico pensando em quantos outros artistas e gênios em geral não 'tarão passando por situações semelhantes, desprezados e abusados por parentes e amigos, mas depois que morrerem em situações trágicas e miseráveis, serão alçados à categoria de heróis ou santos.
Detalhe:
com 'te artigo sobre Jairo Ferreira, talvez eu não 'teja sendo nada mais do que «jairoferreirano».
Veja 'ta crônica, que serve como defesa de meu artigo:
Número de frases: 189
Com o início da partida, rabisco as minhas primeiras impressões do livro O outro pé da sereia de Mia Couto.
Estou envolvida na poética da narrativa e na densidade das palavras.
De o meu lado, Barbarella 'tá toda fantasiada com camisa da seleção, bandeira do Brasil, purpurinas e trombeta ...
O jogo corre morno.
Minha preocupação 'tá dividida entre elaborar a leitura nas entranhas com a gestação de uma resenha e ensinar a pequena as regras do jogo, a perceber um 'candeio e um impedimento ...
Um a zero para o Japão.
Barbarella começa a cansar ...
O jogo só tem sentido para os infantes enquanto 'tá ganho.
Mas a seleção brasileira empata ainda no primeiro tempo e dá um novo ânimo.
Uma nova rodada de pipoca é preparada no intervalo.
Jogo é assim, sempre tem um segundo tempo ...
Não sou doutora nas artes futebolísticas, mas lembro-me dos meus tempos na arquibancada do Botafogo e meu coração de torcedora bate mais forte.
Abandono as imagens literárias, tão fortemente marcadas no romance de Mia Couto, e me entrego à paixão nacional.
Rendi-ma observação silenciosa dos primeiros e mornos jogos e agora encontro uma seleção com mais gás e disposta ao gol.
Os lances são mais rápidos, a bola rola ...
Em minha intenção inaugural de mostrar as marcações do jogo, vejo que existem mais 'canteios para a seleção brasileira.
Já não preciso mostrá-los, minha discípula os sinaliza como um bandeirinha experiente, reclama do juiz, xinga como adulto, desafia o locutor, quer divididas ...
Mantenho o meu placar do primeiro bolão:
quatro a um (4X1).
Um resultado que parecia impossível com os dois primeiros jogos.
Deixo o livro e as anotações na mesa e começo a literalmente a vestir a camisa para comemorar com Barbarella os jogos mundiais de sua primeira década.
Pego enfim a cerveja gelada e deixo-me ser cada jogador, 'tou em campo com as cores verde-amarela (ou branca).
A bola rola.
Vejo a fibra dos adversários, todos correm em campo em busca de um gol.
Não é o jogo de resultado, mas o jogo exacerbado das paixões.
O futebol que conquista as torcidas e deixa-as enebriadas com a sensação de bola dentro.
Fim de jogo.
Barbarella desce para a frente do prédio junto com a vizinha.
Penduram as bandeiras na portaria, fazem coreografias e entoam o canto de campeãs.
Fico à espreita na janela, olhando a juventude da vitória.
Os carros passam apressados em busca de alguma comemoração, os ônibus parecem mais vivos.
Tudo ganha um novo perfil na projeção mundial de nossas aptidões.
Deixo-me levar por as paixões sem me 'quecer do primeiro jogo a que assisti no Maracanã em 1986, sem ainda saber diferenciar um 'candeio de um tiro de meta.
Em nove minutos do primeiro tempo, o Botafogo havia feito dois gols no Atlético Mineiro.
Gritos, abraços anônimos, orações, enfim a corrente que une torcedores num único objetivo.
Em o final do jogo, quatro a zero (4X0) para o Atlético ...
Em uma primeira partida participei das comemorações de um jogo já ganho e da solidariedade com a dor de uma derrota.
Os torcedores choravam abraçados nas arquibancadas e depois desceram com os passos lentos as rampas do 'tádio.
Em aquele dia, vesti a camisa do time e durante muitos anos assisti aos jogos do Botafogo entre os portões 11 e 13 do Maracanã ou nas arquibancadas do 'tádio Caio Martins em Niteroi.
Em 1989, ciente das regras do jogo, festejei o título 'tadual em cima do Flamengo depois de vinte e um anos de abstinência do time com um gol de Maurício (camisa 7), passe de Mazzolinha (camisa 14), sob o comando do técnico Spinosa.
Não foi uma goleada, mas o primeiro campeonato é impossível 'quecer.
Quem é botafoguense sabe o peso das superstições, a combinação dos números da camisa, o tempo de jogo ...
Depois de tantos anos, senti o 'pírito oscilar nas bandeiras verde-amarelas como naquela partida quase virginal.
Brasil!
Que venham as oitavas!
«O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama da 'tréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país.
Número de frases: 47
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo."
Como todos sabem a venda de música por a Internet 'tá crescendo dia a dia.
Sempre antenados com o que ocorre nas novas tecnologias 'tamos lançando em agosto o maior site de comercialização e distribuição de música digital da Amazônia www.musicadaamazonia.com possibilitando a venda das músicas de milhares de artistas, comunidades e aldeias através da internet e celular para o mercado nacional e internacional.
É uma venda segura como você poderá ver nos parágrafos seguintes.
Anteriormente, o artista tinha que gravar seu CD, prensar várias cópias e distribui-lo por o Brasil e Exterior, enfrentando uma grande despesa com logística, campanhas promocionais, impostos diversos alem da pirataria.
Hoje, com as novas tecnologias é possível gravar as suas músicas e comercializa-las por a internet e celular, sem maiores custos de prensagens e transporte para distribuição.
O Música da Amazônia.
Com fechou parceria com A iMusica que é pioneira na América Latina em soluções de distribuição de mídia digital.
Visitada por mais de 1 milhão de usuários mensalmente, com um crescimento de 2.500 usuários / dia, a rede oferece uma distribuição 100 % autorizada de música digital através de alguns dos maiores portais de e-commerce no país e no exterior.
Para colocar as músicas à venda temos que firmar um contrato.
Em 'te, já 'tará o acordo de vendas tanto no site «Música da Amazônia." com» como no iMúsica que distribui para uma rede de lojas virtuais de download de música legalizada -- franquias -- do porte de MSN Music, Som Livre, Yahoo!,
Americanas. com, Bemol, Antena 1, iMúsica América Latina, Vírgual, BrTurbo, Submarino, IG, Gradiente, Oi Internet e posteriormente em nosso Site, 'pecialmente dedicada a isso.
Estará no acordo a exportação de musica brasileira para os principais serviços digitais no exterior com as sub-licenciadas como o iTunes, Napster, Rhapsody, e-Music, Ingroove entre outros.
Tanto a lista de parceiros brasileiros como a de internacionais 'tá em constante expansão!
Podemos ainda colocar fonogramas disponíveis para download gratuito por um período limitado de tempo se for interessante.
A Música da Amazônia.
com, através de seu parceiro iMúsica utiliza a tecnologia DRM Windows Media (Digital Rights Management), aprovada por as grandes gravadoras, empresas e 'túdios de cinema sendo responsável por o gerenciamento dos pagamentos e por a segurança da operação.
O formato das músicas é o Windows Media Áudio que garante a excelência na transmissão e reprodução ao consumidor.
O que é preciso
Existem alguns pré-requisitos para que as músicas entre no sistema de vendas on line:.
1-As músicas precisam 'tar registradas e no caso de regravações, autorizadas, isso é necessário para preservação dos direitos autorais do artista, comunidade ou aldeia;
2-As músicas precisam ter ISRC -- Internacional Standard Recording Code que proporciona um mecanismo para identificar as gravações -- sonoras e audiovisuais necessárias para o controle da distribuição eletrônica de música e do seu uso em computadores pessoais, através da Internet.
Caso sua música não disponha do mecanismo de identificação, o Música da Amazônia.
com poderá fazer o registro através o um de seus parceiros;
3-Precisam ter material de divulgação (imagem com design igual a da capa de CD, fotos do artista e release);
4-Toda a música tem que conter nome, duração, nome dos compositores;
5 -- Todas as músicas são avaliadas tecnicamente.
Não é aceito músicas em formato MP3 e que tenham problemas de gravação;
Como colocar sua música no Música da Amazônia.
com 1-Encaminhe sua coletânea de músicas e / ou CDs (em 2 cópias) para avaliação, para Rodovia JK, Avenida Girassol, 4644, CEP:
68903 656, Macapá -- Amapá -- Brasil;
2-Todas as músicas precisam atender aos critérios acima.
3-Após avaliação enviaremos contrato para licenciamento das músicas, que deverão ser preenchidos assinados em 02 vias com firma reconhecida no cartório;
4-Envie-nos o contrato por o correio acompanhado de declaração (autoria própria) ou autorização (autoria de outros) das músicas licenciadas;
5-Dentro de 45 dias suas músicas já 'tarão disponíveis para comercialização no site da www.musicadaamazonia.com e nos sites de nossos parceiros nacionais e internacionais.
É imprescindível que anexe ao material as seguintes informações, para que possamos entrar novamente em contato:
Nome:
Artista
/ Banda;
E-Mail:
Telefone:
Endereço
Completo:
Como vender
Seu cliente acessará um dos sites www.musicadaamazonia.com ou http://musicadaamazonia.imusica.com.br/ou ainda de qualquer um de nossos parceiros colocará seu nome no buscador ou por 'tilo e 'colherá a sua musica e efetuará a comprar.
Você receberá a cada três meses os valores correspondentes a comercialização das músicas já com os devidos descontos decorrentes de impostos e operadora de cartão de credito.
Em breve 'taremos distribuído para celular no Brasil também.
Quem já utiliza o serviço
1-Nilson Chaves
2-Leila Pinheiro
3-Sebastião Tapajós
4-Vital Lima
5-Gaia * 6-Natal Vilar *
7-Osmar Junior *
8-Delson Moreira * *
Em fase de integração no site
Para conferir o funcionamento do nosso site viste nossa base de distribuição:
musicadaamazonia. imusica.
com. br
Outros serviços da Música da Amazônia.
Com Até o final de 2007 'taremos implementando a comercialização de ingressos on line, onde os artistas e produtoras poderão comercializar por a internet o ingressos de seus shows, em 2008 lançaremos a página de produtos, permitindo a comercialização de instrumentos da região.
A Música da Amazônia.
com valoriza a inovação tecnológica, e 'ta sempre aberta para conhecer novas tecnologias na área de internet, telefonia celular e iTV que possam ampliar e otimizar a comercialização de produtos e serviços.
Se você tem tecnologia entre em contato.
Parcerias
A Música da Amazônia.
com 'tá constantemente em busca de novos parceiros, somente em 'te semestre de 2007, fechamos parceria com:
1 -- Imusica -- Maior distribuidor de música digital da América latina para o Brasil e Exterior;
2-Marca Registrada -- Empresa 'pecializada em prensagem de CDs e DVDs em 'cala e qualidade industrial;
3-Coolnex -- Empresa 'pecializada em comercialização de músicas através de cards.
A Música da Amazônia.
com 'pera sinceramente 'tar contribuindo para a difusão da música do norte do Brasil e que possa firmar parcerias com outras empresas para podermos juntos conquistar um mercado brasileiro extremamente promissor e fazer parte do mercado internacional.
Maikon Richardson
Presidente da Musica da Amazônia
Maiores informações por o e-mail:
maikon@musicadaamazonia.com, msn:
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na comunidade Música da Amazônia.
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Número de frases: 80
aspx? cmm = 28786405 Era quarta-feira à tarde e o sol inclemente 'morecia a Ilha de São Luís quando «Diário Cultural» toca a campainha da casa de Chico Maranhão.
O arquiteto-músico abre a porta pessoalmente, trajando uma camisa preta com a propaganda de um arraial de uma 'cola de inglês da capital maranhense, bermuda e sapatilha.
A sala divide o 'paço com a garagem (ou é o contrário?),
onde «dormem» um [veículo] gol branco, uma parelha de tambor de crioula, uma 'crivaninha, uma lancheira e muitos, muitos livros.
A seguir, recortes do rápido papo [ao fim da entrevista, ele desculpa-se:
«daqui a pouco tenho que dar aula "].
A arquitetura da casa na rua Graça Aranha, Centro, causa 'tranheza:
a garagem toma a frente e mistura-se à sala.
«Esta é uma casa do século passado, anos quarenta, cinqüenta.
São Luís 'tá muito alterada, tem hoje uma quantidade muito grande de asfalto, para a qual ela não foi projetada.
Há quarenta anos, a Ilha tinha uma temperatura de dez graus à noite;
hoje, não fica em menos de vinte e cinco.
As casas têm que ser readaptadas.
Isso aqui era uma porta-e-janela, a reforma é necessária para se criar um ambiente saudável», explica Chico, professoral, sobre suas idéias para o 'paço reformulado por ele.
Sobre a «entrada» da arquitetura em sua vida, conta:
«Quem mora numa cidade como São Luís tem arquitetura na alma, queira ou não queira.
A cidade foi muito bem feita por os mestres dos séculos XVIII e XIX.
Nasci num sobrado tradicional, meu interesse por arquitetura não se dá somente quando vou para São Paulo 'tudar. Quem
mora assim, com um avarandado, irá se interessar de qualquer forma por arquitetura.
Minha música tem muito a ver com arquitetura.
Diversos amigos dizem que eu sou um arquiteto-músico.
Lembra-se de Chico de Assis, amigo seu, dos idos tempos em Sampa:
«O Chico dizia que o arquiteto é uma profissão em disponibilidade, adaptável a qualquer coisa.
A formação do arquiteto é muito criativa».
E acrescenta:
«Mas na verdade eu não me considero arquiteto nem músico.
Sou um criador, um homem criador, um cidadão que faz coisas e procura fazê-las com qualidade».
Mais que de agora:
lances de sempre
Em 1969, Chico Maranhão 'tréia em disco.
O antigo 'critório de publicidade de Marcus Pereira vira gravadora a partir do lançamento de um disco brinde que trazia, de um lado, músicas de Chico Maranhão, que à época assinava somente «Maranhão» [assim os amigos o chamavam, dada a procedência nordestina] e do outro, " Renato Teixeira.
«Só eu e Renato temos 'se privilégio na música brasileira, um disco em parceria em início de carreira.
Se pensarmos em Caetano e Gil, por exemplo, não há», coloca.
Diversos nomes talentosos foram descobertos, Brasil afora, por a gravadora Discos Marcus Pereira, entre os quais Cartola e Canhoto da Paraíba.
Em 1978, a gravadora colocava dois antológicos discos (de) maranhenses no mercado:
Bandeira de Aço, de Papete, e Lances de Agora, de Chico Maranhão.
Se o primeiro reunia um time de compositores de primeira linha -- Josias Sobrinho, Cesar Teixeira, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota --, o segundo reunia, para registrar canções de autoria do «maior compositor vivo do Maranhão», na opinião do jornalista e poeta Roberto Kenard, um não menos importante time de músicos -- Arlindo Carvalho, Antonio Vieira, Sérgio Habibe, Paulo Trabulsi e Ubiratan Sousa, entre outros -- e foi gravado entre os dias 22 e 25 de junho de 1978 na sacristia da Igreja do Desterro.
Indagado sobre a (s) diferença (s) entre os trabalhos [seu disco nunca teve reedição em cd], Chico Maranhão não se mostra rancoroso e comenta:
«São dois destinos diferentes.
O Bandeira de Aço, por mais que seja um disco da Marcus Pereira, tem um cuidado 'pecial dado por o Papete.
As músicas foram levadas para São Paulo, trabalhadas, e o disco foi feito.
Em Lances de Agora, não:
meu disco é muito mais amador, muito mais ingênuo, romântico, descompromissado com o mercado.
Era uma reação à posição da Rede Globo, não era pra tocar na novela.
De certa forma, eu paguei um preço, com muito orgulho.
Mas 'se preço ainda será ressarcido, quem sabe.
Um dia será reconhecido».
Essa postura é mantida até hoje na obra de " Chico Maranhão.
«E acho que sempre será assim», completa o próprio.
Gerações
Sobre a nova geração, Chico opina:
«Estou com 63 anos e me sinto com 25, graças à qualidade que busco sempre.
Cada vez mais a peneira se fecha buscando qualidade, seja enquanto artista, seja enquanto pessoa.
Em relação à minha geração, a diferença básica é que éramos ingênuos e isso é fundamental.
A geração de hoje é completamente diferente:
competente, decidida, autoritária, competitiva.
Falta um pouco de inexperiência, de olhar algo e se impressionar.
Banalizou-se tudo.
Falta autenticidade.
Mas há muita gente boa fazendo coisas novas e boas por aí».
E continua:
«O manguebit foi uma experiência interessante do Nordeste, aqui do nosso lado.
Quando eu fiz a Ópera Boi, cheguei a ser colocado no mesmo balaio, no mesmo padrão.
Aproximou-se Recife de São Luís, misturou-se um pouco com Hermeto Pascoal.
Achei isso interessante».
E cita matéria de Tárik de Sousa, no Jornal do Brasil, à época, fazendo 'sas comparações.
Magistério
Antes mesmo de concluir a graduação, Francisco Fuzzetti de Viveiros Filho [nome de pia de Chico Maranhão] já ajudava no departamento de projetos da 'cola de Santos / SP.
Aqui ele lembra como entrou no magistério:
«Recém formado fui dar aulas, há quase quarenta anos.
Muito tempo depois, quando fiz a Ópera Boi, cansei, resolvi dar um tempo.
Mas como não consigo descansar, revisei toda a arquitetura e fiz uma tese de mestrado, coisa que eu me devia [a tese virou livro, intitulado «Urbanidade dos Sobrados», que deverá ser lançado ainda 'te ano, junto a dvd, disco, e songbook].
A partir daí, comecei a querer ver como 'tava a arquitetura em São Luís.
Formou-se o curso de Arquitetura do CEUMA e fui dar aulas lá.
Foi uma grande mudança de vida.
Eu não sou professor, eu 'tou professor.
Uma aula é diferente de um show, embora toda aula seja um show.
É arte e ciência.
A minha aula hoje, é artística e científica;
a minha obra também».
Para dar aulas, Chico carrega seu material numa lancheira azul.
O fato chegou a causar algumas reações, «o preconceito», como ele mesmo frisa.
Depois os alunos gostaram.
«Sou um artista que dá aulas», diz.
«Elementos como 'te, ajudam a quebrar barreiras entre professor e alunos.
O aluno precisa do professor, muito.
E no Maranhão, precisa muito mais.
Não há conhecimento se não houver liberdade», arremata, de forma certeira.
Serviço
O único disco de Chico Maranhão disponível no mercado é «Só Carinho (1997)».
Lá, há, entre inéditas, uma regravação de «Pastorinha --clássico de seu repertório, lançado no antológico e já citado» Lances de Agora, 1978».
Este mais recente trabalho pode ser adquirido com a produção do compositor, através do e-mail lenavido@hotmail.com
Notas Sobre o título:
Em o disco «Fonte Nova (1980)», de Chico Maranhão, há uma música chamada» A Vida de Seu Raimundo», que «trata da morte do jornalista Wladmir Herzog, mesclando-a com a violência ' popular '», segundo afirmou o compositor durante a entrevista.
Sobre o texto:
A presente matéria foi 'crita com base em entrevista dada por Chico Maranhão a Zema Ribeiro em 23 de novembro de 2005;
tratava-se de trabalho acadêmico para a disciplina Jornalismo Revista, ministrada por a professora Ana Patrícia Choairy, no quarto período do curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, da Faculdade São Luís. [
O texto sofreu pequenas alterações para efeito de publicação no Diário da Manhã].
Número de frases: 98
[publicado originalmente no jornal Diário da Manhã em 19/2/2006]
Um novo cenário de música autoral independente toma forma em Maceió.
Depois de uma década de alguns acertos, muitos regionalismos forçados e umas tantas experimentações pretensiosas, surge uma geração que se propõe a tocar música simples e visceral, ou seja, rock!
Carregados de energia e juventude, os integrantes de 'ta cena emergente já montaram um selo independente embrionário, o Popfuzz, e produzem o único festival anual de música independente na capital alagoana, o Maionese, que já 'tá em sua quarta edição.
De entre as novidades musicais que eles trazem, uma das mais celebradas por o público é o eletro-rock dos Neon Night Riders.
O som dos Neon Night Riders é pop e sofisticado, com guitarras enérgicas que são uma lapada no pé da orelha.
Os vocais são chapadões e melódicos, algo de britânico, inclusive, o grupo compõe suas letras em inglês.
A banda é formada por Alcyr Vergetti (baixo), Hugo Estanislau (guitarra / voz / programações) e Bruno Gusmão (voz / sintetizador / programações).
Conversei com eles sobre expectativas e planos do promissor trio e os caras soltaram o verbo, em bom português.
Marcelo Cabral -- Curto e grosso.
Porque em inglês?
Pretensões internacionais, ou com a internet somos todos internacionais mesmo?
Neon Night Riders -- Acho que o principal motivo é que a maioria das nossas influências são bandas que cantam em inglês, e o inglês se encaixa bem na 'tética do nosso som (para mim o inglês soa menos pretensioso que o português em nossas músicas).
Quanto a pretensões internacionais não é algo que a gente chegue a pensar agora, mas sem duvida é muito mais fácil que nossa música seja ouvida e compreendida lá fora por compormos em inglês.
-- Eu 'cuto o som de vocês e chamo de eletro-rock.
E vocês, como chamam?
Qual é a dos Night Riders?
Ou ainda a velha pergunta:
«Que 'tilo vocês tocam»?
-- Somos bem clichês mesmo, não gostamos de nos fixar a nenhum tipo de rótulo, mas acho que eletro-rock é a melhor definição.
Os recursos eletrônicos passaram a ser usados primeiramente diante da nossa necessidade de encontrar um baterista disposto a fazer o som que a gente queria fazer.
De aí, com a «'cassez» de bateristas que topassem o nosso projeto, veio a idéia de utilizar bateria eletrônica.
Depois fomos aprimorando 'sa idéia e buscando mais referências pra fazer o nosso som.
-- Falem sobre o Popfuzz.
Eu vejo algumas das bandas que representam uma renovação na cena local ligados ao selo, além de produzirem o único festival independente anual de Maceió, o Maionese.
Quais as perspectivas que vocês visualizam para o selo e para o festival?
-- Bom, o selo surgiu no intuito de reunir algumas das bandas daqui de Maceió que não fazem parte de nenhum «movimento» em 'pecial.
A intenção era dar 'paço para 'sas bandas e fazer com que elas fossem ouvidas, daí que surgiu o Festival Maionese.
Junto ao selo as bandas encontram a possibilidade de fazer shows organizados por o Popfuzz e de gravar as suas músicas (dentro de nossas limitações técnicas, tudo que gravamos é home made).
Bom, quanto ao festival, o que se 'pera é que siga crescendo, nós 'peramos que isso 'timule a produção de novas bandas aqui em Maceió, e que 'sas possam, por sua vez, ter mais 'paço do que as bandas «atuais».
-- Como vocês avaliam a cena de música independente em Alagoas?
Creio que o 'tado 'tá isolado (ou isola-se) da região no que diz respeito ao fluxo de bandas indo e vindo tocar nas capitais e nos festivais, e até mesmo na troca de informações.
O que pensam sobre isso?
Vocês mantêm alguma conexão com bandas e produtores de outros 'tados do Nordeste?
-- A cena independente de Alagoas é Muito fraca.
Falta união, tanto das bandas como dos produtores.
Mas o pessoal do Popfuzz vem tentando mudar isso, e aos poucos 'tamos conseguindo.
Acho que 'se «isolamento» acontece justamente por a falta de união que existe aqui.
Nós, junto com a Popfuzz 'tamos tentando 'tabelecer contato com os festivais que acontecem aqui no nordeste, enviando material das bandas do selo (inclusive do NNR), trocando idéias com organizadores e produtores de shows.
Com isso, conseguimos contato com pessoal de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e com grande possibilidade de acontecer um «intercâmbio» musical.
Já com os NNR, também possuímos contatos com 'ses 'tados, e há um tempo atrás (algo em torno de 4 meses), recebemos uma proposta da Seven Music / Universal, que entrou em contato com a gente através do gerente artístico de eles, o André Kostta.
Infelizmente a proposta era meio que impossível para nós (eles queriam que fôssemos gravar no Rio de Janeiro, mas «rateando» os custos de gravação e divulgação).
-- Em 'ta década em Maceió, vemos uma tendência geral ao regionalismo em todas as linguagens artísticas.
Como você vê a receptividade do público ao som pop, eletrônico, semi-londrino dos Neon Night Riders?
-- Bem, o regionalismo é algo legal e necessário, mas não da forma como ocorre aqui em Maceió / Alagoas, não vou me alongar muito em 'se assunto, porque pessoalmente é algo que me irrita bastante ver como o pessoal «regionalista» daqui tenta levar as coisas com um tipo de bairrismo muito idiota.
Sobre a receptividade do nosso som, 'tá sendo até legal, além de nossas expectativas.
Antes de «lançarmos» a banda e começarmos a fazer nossos shows, eu ouvia de várias pessoas do meio musical daqui que o tipo de som da NNR não tinha público na cidade.
Mas aos poucos 'tamos fazendo nosso público que por enquanto é pequeno, mas fiel.
-- CD Ou SMD?
Download ou streaming?
Disponibilizar ou vender?
Eis a questão.
-- Tanto o CD como o SMD são ótimos «souvenirs».
Tanto o streaming quanto o download são ótimas formas de divulgar o seu trabalho na internet.
Todas as músicas do NNR 'tão disponíveis em nosso myspace e no Banco de Cultura do Overmundo, achamos que isso não atrapalha tanto as vendas de CD / SMD.
-- Neon Night Riders, o que vem por aí?
-- Então, 'tamos terminando de gravar mais cinco músicas que irão compor o nosso segundo EP.
Esse é um processo um pouco complicado e feito na base de muito empirismo, pois gravamos tudo em casa mesmo, e os processos de mixagem e masterização são feitos por nós mesmo.
Após terminarmos as gravações, vamos fazer alguns shows pra arrecadar dinheiro pra podermos lançar os nossos EPs fisicamente, e a preço de custo (se a produção do EP custar R$ 3,00 iremos vender o EP por R$ 3,00;
nosso intuito por enquanto é tocar e divulgar o nosso som).
Estamos também fechando algumas datas para shows aqui em Maceió e há possibilidade de tocarmos em alguns festivais fora do 'tado.
* Publicado originalmente no Ladonorte.
Número de frases: 62
O 'critor Frei Betto e o cineasta Helvécio Ratton participaram da edição mais recente do programa Troca de Idéias, realizada no último dia 13, no auditório do Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza.
Circunscrito ao evento multimídia Abril Leitura, que abrange um elenco de 53 atividades voltadas para a apreciação e difusão da leitura no decorrer deste mês, o debate também integrou a programação da pré-'tréia nacional do filme «Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, inspirado no livro homônimo 'crito por Frei Betto, vencedor do Prêmio Jabuti de melhor livro de memórias em 1983».
Realizado por o Instituto Frei Tito de Alencar, o lançamento da película em Fortaleza teve patrocínio do BNB.
O livro e o longa-metragem narram a participação dos freis dominicanos na luta contra a ditadura militar no Brasil nas décadas de 1960 e 1970.
Em o filme, o ator Caio Blat vive o Frei cearense Tito de Alencar, torturado e morto no exílio em Paris aos 30 anos de idade, em 1974.
Junto com Frei Betto e Helvécio Ratton, o Frei Fernando de Brito -- contemporâneo de Frei Betto e também personagem do filme -- participou do debate.
A perversidade dos torturadores
Com bom humor, Frei Fernando inicia o debate revelando que há uma vantagem imensa quando se 'tá preso.
«São simplesmente 24 horas por dia para pensar maneiras eficazes de burlar a repressão.
Uma de 'sas maneiras era dobrar mensagens 'critas em pequenos papéis, enfiá-las dentro de canetas " Bic (" aquelas de cor laranja com tampa azul, não as transparentes ") e trocar de canetas com os amigos e familiares que vinham nos visitar na prisão:
assim o fluxo de informações e novidades sobre as pessoas queridas e sobre a nossa luta seguiam e chegavam até nós».
Frei Betto relembra que Frei Tito foi torturado em dois momentos:
«a primeira vez, logo ao ser preso em novembro de 1969, e a segunda em fevereiro de 1970».
Ele analisa o suicídio de " Frei Tito:
«simbolicamente, a morte do Frei Tito foi um modo de anular a perversidade dos torturadores introjetada em sua mente e alma;
sua auto-elimina ção também foi uma maneira de libertar seus companheiros de luta, familiares e amigos de tantas torturas e perseguições da ditadura militar».
Muito emocionada, sentada na primeira fila, a educadora Nildes de Alencar Lima, irmã de Frei Tito, se levanta e rebobina o breve período -- breve por imposição da ditatura -- em que o visitou no exílio em Paris:
«minha maior mágoa da ditadura foi não ter podido ficar todo o tempo possível com o meu irmão em Paris.
Ali, eu vi como meu irmão 'tava abandonado e desnorteado, sem entender o porquê de seu próprio sofrimento, e senti que ele ia morrer -- embora não pudesse prever que seria morte por suicídio».
A divina proteção do Espírito Santo
Sobrevivente à tortura, Frei Fernando eleva à realidade supra-sensível o motivo de uma legião de oprimidos ter suportado e superado as chagas da tortura:
«como é que a gente agüentou?
A única coisa que eu posso dizer é que foi por causa da proteção do Espírito Santo.
Foi Deus quem quis assim.
Ninguém sozinho teria autocurado as lesões -- físicas e psicológicas -- advindas de tanta crueldade».
Para reproduzir com máximo realismo as cenas de tortura, o diretor do filme, Helvécio Ratton, chegou a contratar um 'pecialista mexicano que ensinou aos atores como representar movimentos de agressão física sem se machucar, porém impactando fortemente o público.
«Dizem que de tortura nem é bom falar, mas penso o contrário:
para que ela nunca mais aconteça, o melhor é falar de ela, e mais que isso, mostrá-la:
é isso o que o filme faz», salienta o cineasta.
Um jovem da platéia pergunta:
«qual a diferença entre os jovens de hoje e os jovens das décadas de 1960/70?».
Frei Betto, 25 anos de idade em 1969, responde taxativo:
«a diferença era que nós cheirávamos utopia, injetávamos sonho na veia e gravávamos tatuagem na alma».
Mas abre 'paço para autocrítica:
«nosso erro é que atuávamos em nome do povo e não com o povo;
faltaram bases populares que respaldassem o movimento jovem da nossa geração».
OBS.:
Matéria originalmente publicada no jornal Notícias do BNB, na página 4 da edição nº 17, de 23 de abril de 2007.
Com periodicidade semanal e tiragem de 7 mil exemplares, o Notícias do BNB é o boletim institucional do Banco do Nordeste do Brasil.
Pode ser lido no Portal do BNB.
Número de frases: 40
» ... Entre Tapas E Beijos, / É Ódio, É Desejo / É Sonho / É Ternura ..."
à primeira leitura desses versos da música Entre Tapas E Beijos, composição de Nilton Lamas e Antonio Bueno, interpretada por Leandro e Leonardo, nos induz a acreditar num romance repleto de paixão, amor e sedução.
Mas só a primeira leitura.
Esses versos revelam algo maior e (triste) que não 'tá 'crito, mas 'tá nas entrelinhas.
Como pode haver amor entre um casal que vive entre tapas e beijos se amar loucamente?
Como a mulher, principalmente, que foi humilhada, magoada, desrespeitada e agredida pode se submeter ao constrangimento de aceitar na cama seu agressor, na maioria das vezes, seu companheiro?
Essa realidade é vivida por milhares de mulheres em 'te nosso Brasil (e no mundo), independente de classe social, etnia, 'colaridade ou idade.
Em agosto de 2006 foi editada a Lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, considerada um avanço nos Direitos Humanos das Mulheres.
Preliminarmente, veremos a razão do nome Maria da Penha ter sido atribuído à Lei.
Em 1983, Maria da Penha Maia Fernandes, biofarmacêutica, aos 38 anos, levou um tiro nas costas do seu marido Marco Antonio Heredia Vivera, professor universitário (numa primeira tentativa) e ainda tentou matá-la por eletrocussão.
Desde então sua luta foi por justiça.
O ex-marido foi condenado a dois anos de prisão, mas por meio de recursos jurídicos não cumpriu a pena.
Inconformada com a impunidade face ao crime ser considerado de «pouco poder ofensivo» visto tratar-se de violência doméstica, foi denunciado por a OEA, o que forçou o Brasil a rever o caso, e num novo julgamento, foi condenado a 10 anos de detenção.
Cumpriu dois anos.
Hoje ele 'tá em liberdade e Maria da Penha Está Paraplégica.
A Lei Maria da Penha ainda não pune com o devido rigor os crimes de violência praticados contra as mulheres no interior do Lar.
O jornal «DIÁRIO DA MANHû, edição de 20/02/07, matéria de Tássia Galvão, intitulada Violência Contra A Mulher -- Prisões BATEM Recorde, revelou um dado assustador:
duas agressões registradas por dia, até a publicação da reportagem.
Desde a entrada em vigor da Lei 11.340/06, ou seja, de 22/09/06 a 31/01/07 foram abertos 305 inquéritos;
1341 Boletins de Ocorrência (BO).
Os crimes mais comuns foram:
Ameaça: 426 registros;
lesão corporal (leve, grave e gravíssima) 360 registros;
injúria com 43 registros.
Só no mês de Janeiro de 2007, foram instaurados 84 inquéritos e 105 remetidos ao Judiciário.
Dados, sem dúvida alguma, alarmantes e 'tarrecedores.
Dados que nos levam a crer que os versos acima citados não são assim tão românticos e apaixonados, e comprovam uma rotina violenta nos lares.
A mulher, independente de classe social, idade ou etnia, muitas vezes para manter o casamento, ou por acreditar na possibilidade de mudança de comportamento do cônjuge ou companheiro, pai ou irmão, se submete a tais condições por vergonha da humilhação sofrida, da agressão gratuita, e por acreditar ser a culpada por a situação de violência que vive, devido a constrangimentos físicos e psicológicos constantes.
A submissão feminina à força bruta do homem tem raízes culturais conhecidas e a luta por o respeito aos direitos humanos da mulher 'tá presente desde a pré-história.
O legislador deu um passo à frente no momento em que reconhece como violência doméstica e familiar o dano moral, psicológico e patrimonial, já que em casos como da própria Maria da Penha há o risco iminente de perda de patrimônio.
A violência psicológica, de difícil comprovação, abrange o dano emocional, diminuição da auto-'tima mediante ameaça, constrangimento, humilhação, isolamento, chantagem e outras condutas que causem prejuízo à saúde psicológica e a autodeterminação da mulher.
A Lei prevê medidas integradas de prevenção como a promoção de 'tudos e pesquisas e políticas públicas que visem prevenir a violência doméstica e familiar (art. 8º).
Cabe aqui mencionar que se torna necessário a criação de juizados 'peciais para tratar dos casos de violência doméstica.
Outra inovação é que a autoridade policial poderá acompanhar a mulher até a sua residência para a retirada de seus pertences, encaminhá-la ao hospital ou casa de parentes, informar seus direitos e comunicar de imediato ao Ministério Público ou Poder Judiciário quando necessário, em casos de ameaça grave (art. 11).
Confirmada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, o juiz poderá de imediato determinar o afastamento da mulher do lar, (sem prejuízo de seus direitos na ação de separação de corpos ou divórcio), proibir o agressor de aproximar-se da vítima e / ou contato até com familiares e testemunhas, proibir o agressor da posse e o porte de armas e a freqüentar determinados lugares, restringir ou suspender visitas e ainda determinar os alimentos provisionais.
O que decepciona na Lei é a possibilidade de soltura do agressor mediante pagamento de fiança conforme seus rendimentos, o que favorece a fuga ou a consumação das ameaças.
O que talvez cause 'tranheza em muitos é a referência a Direitos Humanos da Mulher.
Não que os homens não tenham direitos ou que sejam menos humanos que as mulheres.
O que se discute aqui é que para as mulheres serem respeitadas foi preciso elaborar uma Lei que puna seu agressor e faça cessar a violência.
Foi preciso criar uma Lei para afirmar que a mulher tem o direito de ser respeitada por o marido, pai, irmão, dentro de sua própria casa.
Ressalta-se ainda, que nos casos de violência doméstica ou familiar o homem que agredir ou ameaçar o filho, o pai ou avô, a pena será de até três anos, quando não resultar em morte.
Vale lembrar que a Lei não foi editada exclusivamente para resguardar os direitos das mulheres, resguarda sim os direitos de qualquer ser humano que sofra violência doméstica ou familiar, tanto homens e mulheres.
A música citada no início do texto, um grande sucesso da dupla goiana Leandro e Leonardo, é apenas uma de entre outras tantas que desnudam os relacionamentos violentos e patológicos vividos por milhares de famílias.
Pode-se citar, outro sucesso, também de Leandro e Leonardo, Paz NA Cama, sucessos do cinema, como «DORMINDO COM O INIMIGO», sendo a atriz principal Julia Roberts.
É natural haver diferenças de opinião e às vezes discussões entre um casal, afinal são duas pessoas diferentes vivendo sob um mesmo teto, e compartilhando a mesma cama.
Mas as diferenças devem ser resolvidas com diálogo e bom senso.
O ditado de que em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher é falso, pois as conseqüências variam entre a vida e a morte.
Número de frases: 47
Um Pouco da História do Carnaval
Se você 'tá se preparando para a folia de Momo, o melhor que faz é cair no samba.
Epa! Aqui no Brasil, quando o assunto é Carnaval, já não se pode mais falar assim -- taxativamente -- cair no samba.
A nossa maior festa popular tem diversos sons predominantes nas várias regiões para animar os foliões:
no Rio, o samba;
em Pernambuco, o frevo e o maracatu;
na Bahia, o Axé;
e por aí afora.
Mas se você quer saber um pouco sobre a história do Carnaval então se prepare para a primeira surpresa:
ele não é, como muita gente pensa, genuinamente brasileiro.
Esse pensamento pode até ocorrer porque foi aqui que ele ganhou a maior dimensão no mundo e tornou-se, além de uma festa popular, um produto de exportação que atrai em cada início de ano milhares de turistas para os 'petáculos do Rio, São Paulo, Salvador e Recife, principalmente.
Mas o caminho até nossos dias foi longo e com muita meleca e muito líquido.
Para a sua origem, muitos 'tudiosos buscam as mais variadas datas, referências e locais e quase nunca 'tão de acordo.
Uns dizem ter remotos 10 mil anos (nos rituais festivos por boas lavouras).
Outros menos, aí por uns seis mil anos, no Egito, em intenção à deusa Ísis.
Em o mundo greco-romano o proto-caranaval conheceu a introdução da bebida e do sexo, segundo alguns autores.
Em Roma, aconteciam bacanais, saturnais e lupercais, festejando também deuses pagãos como Baco, Saturno e Pã.
E quando o Carnaval chegou ao Brasil, você já deve 'tar se perguntando.
A nós, é isso que interessa.
Claro que sim.
Por aqui, a data mais aceita como a da sua chegada é 1723, trazido por os portugueses das ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde.
E veja só:
não era ainda o carnaval como o conhecemos hoje.
E por isso não tinha ainda 'se nome.
Conheciam-no por ...
Entrudo! cuja palavra vem do latim introitus e se refere às solenidades litúrgicas da Quaresma.
Vá lá, cada tempo com o seu evento.
E a animação?
Pensa você que já era assim blocos, 'colas de samba, trio-elétrico, 'sa sofisticação toda?
Não e não!
Alegria havia, claro que sim.
Mas a brincadeira no entrudo compunha-se de correrias desenfreadas, muita melança com farinha e água com limão.
Praticamente pouco mudou até quase a metade do século XIX, constituindo-se a festa de muita meleira e molhação.
Os 'cravos eram animados na folia e polvilhavam-se uns aos outros e 'guichavam água por as ruas com uma enorme bisnaga de lata.
Os senhores da alta sociedade segregavam 'sa festa da rua, preferindo o refúgio de suas casas para a brincadeira com, entre outras coisas, as laranjinhas -- bolas de ceras que quando se 'patifavam lançavam água perfumada.
Mas também veja só:
nem sempre eram educados os tais senhores, pois jogavam em quem passava na rua um líquido fétido (você pode adivinhar qual é?
Eu, hem?!)
Passar debaixo de uma janela em 'se período era banho certo, por isso a movimentação nas ruas era pequena.
Em o Primeiro Império o sucesso para a elite governante eram os bailes de máscaras, que a partir da década de 1840 popularizou-se.
Em o final do século XIX surgiram os primeiros blocos de carnaval e os famosos corsos.
A festa começou a tomar a feição que tem hoje.
Já era comum as pessoas se fantasiarem, e no início do século XX ganharem as ruas fantasiadas e com os carros enfeitados.
Alguns sugerem que aí nasceu a idéia do carro alegórico -- item obrigatório nos desfiles das 'colas de samba.
A introdução das marchinhas de carnaval no início do século XX deixou-o muito mais animado e fortaleceu o seu crescimento.
Em o Rio, a primeira 'cola de samba foi a Deixa Falar, criada por Ismael Silva em 1928, no bairro do Estácio.
Em o início dos desfiles, em 1932, as 'colas percorriam as ruas acompanhadas de populares.
Mas em 1935, a disputa passou a ser para valer.
Hoje o carnaval cresceu tanto e de tal forma virou um produto comercial que temos até os carnavais fora de época.
Acontecem Brasil afora em muitas cidades e capitais.
Foi por influência da micareta baiana que o carnaval fora de época proliferou.
Para ficar todo mundo ciente da universalidade do carnaval, em Araguaína, além da tradicional folia de Momo, em fevereiro ou março, os foliões se animam no Arafolia, que sempre acontece em agosto ou setembro.
Número de frases: 52
A primeira parte do soneto de Augusto dos Anjos é dedicada ao seu ao pai doente.
A segunda e terceira partes são dedicadas ao seu pai morto.
O poema me parece marcado com afirmações e exclamações -- com dúvidas?!
Dúvidas a respeito da bondade de Deus.
Pois, se Deus é bom e justo -- Não havia de magoar assim, sem nenhum pesar.
Mas 'te não é o único momento de dor e 'panto no poema.
A primeira parte é um questionamento a Deus.
A segunda e terceira, o 'panto, a contemplação, do que o corpo do seu pai vai se tornar -- o horror da putrefação.
Em os primeiros versos me veio à tona a questão do Mal.
Que é também a questão da bondade de Deus.
Santo Agostinho é quem vai primeiro decorrer sobre 'te assunto no âmbito cristão, na obra O Livre-Arbítrio.
Deus sim, seria bom e justo, o mal seria inexistente em Deus.
Mas nós praticamos o mal, devido às nossas 'colhas.
Santo agostinho diz que temos o livre-arbítrio, é 'te é um bem, um bem que nós podemos usar erroneamente.
Desta forma, Santo Agostinho tira a possibilidade de se pensar um Deus que praticaria o mal.
Mas a morte não é uma ação humana (com exceção do suicídio), mas sim algo «natural».
Natural e triste como leio em cada 'trofe do poema.
Natural e 'candaloso, absurdo.
Santo Agostinho teria uma resposta:
Em a morte é que encontramos a vida feliz.
Somente com a morte podemos conhecer Deus.
Nem 'te 'cândalo seria um mal.
Lá 'taria a felicidade plena.
E o corpo que os vermes fazem festins orgíacos -- é assim pois é passageiro.
O corpo é um bem, mas é um bem menor, 'tá de entre as coisas transitórias, que se decompõem, dissolvem, 'coam, deterioram e se perdem.
Existiria algo que perdura, se mantém, fica semelhante a si mesmo -- o que Santo Agostinho denomina de Vida Feliz, a vida em Deus.
Agora ...
Se não há nada lá?!
Se não há vida feliz?!
Faço como 'ta 'tranha transfiguração de alegria ao corpo e a vida que se 'vai:
Dou beijos em 'ta mão roída de bichos, Amo em 'ta atômica desordem.
Sonetos -- Augusto dos Anjos
A o meu pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores
Irei também, trilhando as mesmas ruas ...
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores!
Que coisa triste!
O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas
E tu.
Gemendo, e o horror de nossas duas
Magoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu Pai?!
Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
-- Seria a mão de Deus?!
Mas Deus enfim
É bom, é justo, e sendo justo, Deus,
Deus não havia de magoar-te assim!
II
Madrugada de Treze de janeiro.
Rezo, sonhando, o oficio da agonia
Meu Pai em 'sa hora junto a mim morria
Sem gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia
E disse à minha Mãe que me dizia:
«Acorda-o»!
Deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza
Nem uma névoa no 'tralado véu ...
Mas pareceu-me, entre as 'trelas flóreas,
Como Elias, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!
III
Podre meu Pai.
A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que meus lábios osculam
Micro-organismos: fúnebres pupulam
Em uma fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e, a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra! ...
Podre meu Pai!
E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa orgíacos festins! ...
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!
Número de frases: 84
Ainda lembro muito bem, noite de chuvinha fina, daquelas que nem compensam um bom guarda-chuva, festa de aniversário da cidade, e se não me engano, 451 anos de Guaraqueçaba.
Era março de 96, pois lembro também que não era mais Cruzeiro, nem Cruzeiro Real, e sim Real.
O palco armado como sempre, uma lona preta recobria pra não molhar os equipamentos de som, e obviamente, os artistas.
Era a primeira vez que eu via o fandango, num palco, numa roda, com tamancos, rabecas, violas, adufes, e uns microfones mal regulados que não ajudavam na captação.
Minha memória até que é boa, pois na época eu devia ter uns 9 anos passados, o que mais me chamou a atenção naquela noite foi uma certa relutância do público de cá, e de lá, e de acolá, e que não aprovava a apresentação de fandango.
Isso aconteceu já há algum tempo, e as coisas mudaram, percebe-se claramente 'te novo contexto.
O que seria o Fandango?
Em o Brasil podemos encontrar Fandango no Nordeste, que se caracteriza como um auto dramático, também conhecido por Marujada, Chegança, entre outros.
Afora é caracterizado como um baile sulista, no Rio Grande do Sul possui características próprias, assim como o Paranaense, que 'tá ligado intimamente à Cultura Caiçara.
É nos litorais Paulista e Paranaense que acontece o fandango com o qual 'taremos lidando.
Fandango é uma manifestação cultural popular de cunho comunitário, 'tá ligado aos mutirões, uma realização coletiva, como um roçado ou a construção de um telhado, por exemplo, onde todos trabalhavam o dia inteiro, e ao fim, o dono da propriedade oferecia uma festa como forma de pagamento, o fandango, que durava até o amanhecer do outro dia, ou mais.
É um gênero que reúne dança e música, executado com Violas, Rabeca, Adufe (pandeiro) e Tamancos.
As modas, como são chamadas a música e dança, podem ser batidas ou valsadas, e possuem uma 'trutura poética consistente, que varia também conforme o cantador e a região.
Quanto à execução, existem regras e argumentos 'téticos extremamente definidos, e acoplados a uma série de características que se diversificam a cada comunidade, como os tradicionalismos dos bailes, principais modas, formas de aprendizado, etc.
Atualmente, são poucas as notícias de realização de fandango de mutirão, acaba se configurando como apresentações culturais.
Em Guaraqueçaba, se manifesta com grupos mirins que dançam e tocam, através de apresentações teatrais e de grupos tradicionais.
Também existem bailes realizados 'poradicamente em Superagui.
Família Pereira
O fandango deve muito a 'te pessoal, sem é claro desconsiderar todas as iniciativas e os fandangueiros locais, a Família Pereira é o exemplo mais forte da resistência.
Talvez seja a única que ainda guarda as características mais tradicionais do fandango por ter permanecido isolada no interior de Guaraqueçaba durante mais de 50 anos.
Rio dos Patos é uma comunidade onde só é possível chegar após algumas horas de navegação e uma boa caminhada por trilhas.
Aos poucos o núcleo familiar foi se dispersando para outras comunidades da redondeza, em virtude das mudanças de costumes, novas legislações ambientais e problemas relacionados às características de economia de subsistência.
Em 2000 se organizaram como um grupo de Fandango, em virtude do projeto «Fandango Subindo a Serra», de Maria de Lurdes Brito (Lú Brito), para se apresentar no palco do SESC da Esquina, em Curitiba.
De lá pra cá, já se apresentaram em diversas cidades do Paraná, no Rio de Janeiro, e tiveram instrumentos expostos até em Paris.
O grupo é «oficialmente» formado por a ala dos músicos, a ala dos que também batem o pé e diversas mulheres que dançam as modas batidas e valsadas em apresentações.
De entre as figuraças, Leonildo, de sorriso fácil, é um dos líderes.
Exímio tocador de viola, cantador e rabequeiro, e toda vez que a gente o encontra, já de longe você 'cuta «Aê Cunhado!».
Pensar que poderíamos falar em fandango hoje em dia e 'quecer de ele é quase um pecado.
O difícil é encontra-lo, pois mora com a família num local chamado Abacateiro, de frente para a Baía de Pinheiros e o único acesso é por mar.
Constrói violas e rabecas e é grande incentivador e agitador do fandango por onde passa.
Nilo Pereira, atual morador de Guaraqueçaba, bairro do Cerquinho, além de cantar, toca viola, machete, cavaco e constrói instrumentos.
É o «produtor» e grande responsável por a reorganização do grupo em 2000.
«Ah, eu juntei, né?
Peguei um barco, porque eu sou o responsável por o grupo, então, sou obrigado a fazer isso.
Então, eu sou obrigado a juntar o grupo tudo, trazer aqui para a minha casa, fazer eles dormir aqui para viajar no outro dia.
E levo lá e trago de volta para minha casa e daqui despacho eles de volta.
Pego outro barco e levo cada um em sua casa." (
Fonte: Museu Vivo do Fandango.
Página 85) Sem falar nos outros, tão importantes quanto, Anísio, que constrói violas e rabecas como poucos, Heraldo, um dos filhos de Anísio, também construtor e ótimo rabequeiro e violeiro, tem ainda Zé Pereira, o «faz tudo» que constrói e toca de tudo, Pedro Pereira, auto-intitulado «o melhor rabequeiro do Brasil» e também Vicente, o único que não é Pereira, e sim França, agregado de outra família de fandangueiros.
Os Pereira são uma prole das mais frutíferas do fandango, e são sem dúvida uma das marcas do atual momento da cultura fandangueira.
A «Saga dos Pereira» tem gerado muitos resultados visíveis.
Em 2001 gravaram o seu primeiro CD-Duplo, o «Viola Fandangueira, juntamente com o Viola Quebrada, de Curitiba, em 2003» lançaram o CD «Fandango de Mutirão», com o Grupo Mestre Romão (de Paranaguá) composto com o livro de mesmo nome, de Maria de Lurdes Brito.
Também 'tiveram presentes no CD e Livro do Museu Vivo do Fandango.
A Família Pereira encabeça a Associação dos Fandangueiros de Guaraqueçaba, fundada em 2001, que agregou outros fandangueiros e grupos desde então e em 2005 aprovou com outros apoios um projeto de Ponto de Cultura, a «Casa do Fandango de Guaraqueçaba», que ainda 'tá em processo de conveniamento.
Aquele pessoal que em meados de 90 foi recebido com resistência no palco da festa, hoje em dia é aplaudido de pé e com pedidos de «mais um, mais um ...»,
como aconteceu em 2007.
Isto é um importante reflexo do trabalho que tem sido feito para o revigoramento do fandango como um coletivo de iniciativas, e que sem dúvida tem «Os Pereira» como um dos protagonistas.
E muita coisa ainda 'tá por vir ...
Informações sobre Fandango na internet:
Site do Museu Vivo do Fandango -- Clique aqui
Texto sobre a Família Pereira -- Clique aqui
Site da Associação Mandicuéra, de Paranaguá -- Clique aqui
Fandango no Overmundo:
Seu Alcides mestre de fandango -- Clique aqui
Os tamancos voltam a bater -- Clique aqui
Fandango no Orkut
Fandango Paranaense Clique aqui
Fandango Paulista -- Clique aqui
Fandangueiros de Itacuruçá -- Clique aqui
Contatos com grupos:
Família Pereira -- Nilo Pereira / (41) 9224-4112
Associação dos Fandangueiros -- José Eiglmeier / (41) 3482-1332 / e-mail
Fâmulos de Bonifrates -- Eduardo Schotten / (41) 9623-6796 / e-mail
Pirão do Mesmo -- Artur Calado -- e-mail
Downloads de músicas:
Número de frases: 65
Ritmos Brasileiros -- Clique Aqui
Vendedor de lanches transforma-se numa figura 'sencial para a Universidade Federal da Bahia
Robertinho Baleiro viveu dez anos na rua.
Quase não tem parentes.
Com sua ingenuidade genial, ele transformou-se numa figura indissociável da UFBa, mais 'pecificamente o Campus do Canela, que é cortado ao meio por uma movimentada avenida.
De a venda de balas, ele expandiu o negócio para os salgados e agora dá informações sobre o horário dos ônibus e alerta para a criminalidade, usando um sistema de alto-falantes que os 'tudantes das faculdades de Educação e Administração já se acostumaram a ouvir e até a homenagear.
Hoje em dia, o vendedor de lanches tornou-se um requisitado palestrante em empresas locais.
Natural de Serrinha (interior da Bahia, cerca de 300 km de Salvador), Robertinho foi abandonado na rua com seis anos de idade e catou papelão para sobreviver até os 14 anos.
Com 18 anos veio a Salvador e passou a vender balas nos ônibus, até que, um dia em 1994, parou no ponto em frente à Faculdade de Educação e começou a dar informações sobre trajetos e horários dos coletivos.
Com o tempo, conquistou os freqüentadores do local com sua simpatia e eloqüência natural, encontrando o seu caminho e uma verdadeira família dentro da comunidade universitária.
O baleiro já foi até homenageado na reitoria da UFBA por mil pessoas, por seu trabalho de informação.
Quando vê um movimento 'tranho, Robertinho alerta logo a dupla «Cosme e Damião» (de policias militares) que circula nas proximidades do campus.
Em a virada de 1999 para 2000, a Prefeitura tentou tirar Robertinho de sua barraca com o temido «rapa», a fiscalização municipal dos vendedores ambulantes.
«Vieram vários carros do rapa e perguntaram se eu tinha recebido a notificação.
Respondi que sim, já tinha recebido mais de 50 notificações, mas ia ser difícil me tirar de ali.
Eles começaram a levar minhas mercadorias, mas os professores e alunos se mobilizaram, fecharam a pista por mais de três horas.
Aí me deixaram ficar», conta.
Em sessão na Reitoria da UFBA, a comunidade votou o destino de Robertinho, e ele obteve vitória 'magadora -- de mil pessoas, apenas vinte votaram contra ele.
Robertinho então passou a ocupar a guarita do 'tacionamento e implementou seus serviços com um pequeno sistema de som, equipado com duas caixas colocadas 'trategicamente e microfone.
Atualmente, aos 31 anos, Robertinho já encontrou moradia fixa, no Garcia, e chega todos os dias para trabalhar às 6 horas da manhã.
Ele só abandona o posto às 10h50.
Em o meio tempo, anuncia a chegada dos ônibus com muito bom humor.
«Olha o Grande Circular I chegando.
Atenção, vem chegando o Grande Circular -- Barra, Pituba, Iguatemi e Rodoviária ...».
Também coloca músicas nos alto-falantes, " Djavan, Milton Nascimento, só musica brasileira de boa qualidade.
Pagode não boto porque o pessoal da faculdade não gosta», explica.
Também 'cuta o rádio e repassa informações sobre o trânsito, avisando sobre atrasos nos ônibus.
«Uso o microfone para passar informações e tenho banquinhos para os meus clientes, que também têm o direito de ler revistas e não se preocupam com o transporte, porque quando ele aparece eu aviso e eles correm para pegar», diz Robertinho, classificado por alguns 'tudantes como uma celebridade autêntica.
«Quase não tive parente nenhum em 'ta vida.
Os parentes que eu tive eram da rua, quando eu não tinha onde morar.
Hoje os professores, alunos e funcionários é que são minha família.
Quando recebo uma homenagem, até choro, quando eu vejo a Reitoria com mais de mil pessoas aplaudindo e gritando ' Robertinho! ',
sinto como se todos eles fossem da minha família».
Robertinho exibe um talento natural para a locução.
Empolga a voz, faz piadas de bom gosto e torna a vida universitária um pouco mais viva, humanizando um 'paço que, se não tivesse sido ocupado por ele, seria uma mera guarita de segurança, abandonada, burocrática.
Sua fama na cidade cresceu tanto que ele já deu nove palestras em diversas empresas como Odebrecht, ou instituições como a Universidade Estadual da Bahia (UNEB).
Já palestrou até ao lado do prefeito João Henrique (PDT), num luxoso hotel do Corredor da Vitória.
Semana que vem já tem uma palestra marcada.
Ele diz que 'tá pesquisando para inovar os conceitos e «não ficar repetitivo» quando fala sobre oportunidades, cidadania e justiça social.
Número de frases: 39
Praça Nossa Senhora do Amparo.
Quarta-feira, dia 3 de setembro, início de noite.
Missa terminada, átrio da igreja cheinho de gente, 'cadaria no improviso de arquibancada, paredão branco 'tendido como curtume.
Ao invés da secagem, pano para muita manga e histórias para contar.
Tempo frio, pipoca quente no carrinho, guri no pula-pula e a 'pera da sessão que aquece as idéias dos quase 20 mil habitantes da cidade à beira do riacho grande, Riachão do Dantas.
Pense num caminhão baú e toda parafernália de equipamentos atípicos naquela pequena praça.
Um gigante palco de muito conversê e reencontros.
Ali seria visto o personagem da noite, o caprino mais famoso da região, finado Bito.
Era o tal projeto «Revelando os Brasis» que aportava para exibir o «Deu Bode», filme 'crito, produzido e dirigido por Fátima Góes.
Uma das selecionadas, nas mais de 30 histórias em todo país, no segundo ano de projeto produzido por o Instituto Marlin Azul e Ministério da Cultura.
E como noite de gala, não podia faltar céu 'trelado para primeira exibição.
«Gravei o filme nos meses de julho e agosto de 2006, de lá pra cá o pessoal da cidade não teve acesso ao trabalho finalizado.
É uma satisfação grande vê-lo ser passado, ainda mais depois do falecimento de Bito em julho de 2007», explica a realizadora.
Por o que parece, Bito 'tá cada vez mais vivo nas histórias dos riachoenses.
Falando em lembranças, assim que Seu Almeida soube do cinema na praça, saiu do povoado Vivaldo, na companhia do irmão Sebastião, para ver o falecido Tonho de Zé de Antônio.
Essa, talvez, única imagem que permanece viva do seu irmão mais velho.
«Tentei trazer meu pai, José Antônio de Almeida, mas não deu.
Como ele tem 105 anos, fica difícil o deslocamento.
Mas quando chegar no sítio conto tudo sobre Tonho e Bito», proseia o aposentado.
Segundo Seu Almeida e Sebastião, Tonho era um dos enumeráveis amigos de Bito.
E em 'se grande laço de parceiros, íntimos e admiradores, há também 'paço para as moças.
Afinal, a fama de Bito era de paquerador.
Como explica Terezinha Fiel de Oliveira, mais conhecida como Teteca Fiel, 65 anos de Riachão.
«Onde tinha muita gente, de enterro, sentinela, procissão o bode aparecida.
Ficava sentado no ponto da rodoviária só na 'pera de se juntar logo com álguém», afirma a Senhora Fiel.
Ela e seu marido, o maestro da Lira Nossa Senhora do Amparo, Etevaldo Cândido dos Santos sairam logo de casa para pegar um melhor lugar e ver os filmes.
Os seus olhos vidradinhos na tela justificam muito mais que causos engraçados sobre um ilustre filho riachoense, há aquilo que ela diz ser o mais belo:
«ver minha cidade retratada não tem coisa melhor».
Mas não é só de buchadas que vive uma folia, o destino de Bito era para ter terminado na panela.
Infalível, o bode inventou sua história e caiu na tela de cinema.
É 'sa memória afetiva que motiva a organização, há dez anos, do Forró do Bode marcado sempre para o segundo sábado de julho.
Toda vez que você chegar a Riachão do Dantas, fale com o busto de Bito, na entrada da cidade -- com direito a placa com nome e datas da ilustre autarquia caprina.
E não fiquei acuado, já virou hábito.
Cabra forte
O filme por onde passa conquista o público.
Aliás, só dá bode.
Em 'se ano a narrativa ganhou o prêmio do júri oficial de melhor vídeo sergipano na 8ª edição do Festival Curta-SE.
Abocanhou a premiação R$ 10 mil reais da Prefeitura Municipal de Aracaju e 100 cópias em DVD por a Fundação Aperipê.
Com quinze minutos, a história revela as peripécias do animal mais popular no Centro-Sul de Sergipe.
De a dona-de-casa ao ex-prefeito.
De o vaqueiro às devotas carolas.
Todos revelam, à sua maneira, admiração e causos sobre um animal que «parece gente».
Bito nunca foi afeito aos currais, segundo seu dono, Joélio Araújo, desde novo o bode já «demonstrava sua personalidade».
Para tanto, Fátima Góes explora as vivências do bicho, a partir do fatídico episódio de sua proibição de circular solto por parte de uma juíza.
Quem disse que alguém concordou?
Logo, logo a mobilização pró-liberta ção de Bito vencia as querelas judiciais.
Até porque dizem que o caprino era devoto da padroeira da cidade.
Tinha forte amparo da santinha.
A câmera acompanha o fiel durante a procissão do Sagrado Coração de Jesus, em cortejo de Sete de Setembro e, lógico, no forrobodó.
De o lanche na padaria ao banco da rodoviária só dava o cabra forte.
Ali era pé quente.
Tanto que no dia 15 de outubro Fátima Góes volta a rodar mais uma produção, agora, sobre episódios da história riachoense.
De formação, bibliotecária, de função, funcionária pública e nas horas vagas, realizadora.
Ela diz que depois de ter feito o vídeo, tomou gosto por a coisa.
Número de frases: 54
Agora, atenta, garimpa personagens e novos assuntos para historiar.
Domingo, 2 de dezembro de 2007, foi dia de dupla 'tréia no panorama 'trutural da TV brasileira com os lançamentos da TV Digital e da TV Brasil:
a primeira é um novo modelo tecnológico;
a segunda, uma nova emissora pública.
Espera-se que a TV Digital proporcione excelente qualidade de imagem e som além da aclamada ' interatividade ` -- embora haja o risco de vermos suas vantagens reduzidas a novas ferramentas de marketing, de publicidade e de 'tímulo ao consumo, em detrimento da democratização da produção de conteúdos e da pluralidade de canais e pontos de vista na TV.
No que se refere a TV Brasil, a expectativa é que a emissora ofereça novas alternativas de programação e nova dinâmica de produção da informação como ' bem público ' -- diferenciada daquela que rege as empresas de mídias privadas, cujas receitas se baseiam, ao fim e ao cabo, no volume de audiência.
Entretanto, embora o discurso seja claro e correto -- 'tabelecer o caráter público da TV Brasil -- a emissora é quase que exclusivamente vinculada ao Governo Federal, e 'te é, afinal, quem vai ' pagar as contas `.
Esta é uma diferença crucial entre modelos de financiamento de TVs Públicas que deram certo em outros países, como a Inglesa BBC, cuja receita provém de taxas anuais pagas por cada domicílio com aparelho de televisão.
Em o Brasil, considerando a alta carga tributária, tal modelo não seria viável, e o financiamento da nova TV Pública, enfim, depende de políticos.
A vantagem da BBC, considerando a sua fonte e modelo de financiamento, é que a emissora -- uma das mais respeitadas do mundo -- sabe bem quem é o seu ' dono ` e exatamente a quem deve prestar contas.
Aqui, visto que quem ' pagará as contas ' da TV Brasil é o Poder Executivo, será difícil para qualquer governo resistir a tentação de interferir na gestão da emissora.
Caberá aos dirigentes da recém-criada Empresa Brasileira de Comunicação -- EBC (à qual 'tá vinculada a TV Brasil) e ao seu Conselho Curador (15 representantes da sociedade civil nomeados por o Presidente da República), 'tabelecer a necessária e fundamental isenção editorial, e anular as possíveis tentativas de interferência governamental.
Afinal, o Governo paga, mas nós é que damos o dinheiro -- é bom prestarmos alguma atenção.
Número de frases: 13
O Computador chegou à Escola.
E agora José?
Assim como o livro, primeira tecnologia educacional oriunda da renascença, o ventilador, o freezer, a tv e o vídeo já fazem parte do cotidiano 'colar, o computador-conectado acabou de chegar em nossas 'colas.
Para o bom uso do computador-conectado na 'cola, temos alguns entraves a superar, entre eles destacamos:
o 'trutural, o metodológico e o político.
Estruturalmente os primeiros computadores-conectados que chegaram, tiveram destino à administração 'colar, foram postos nas secretarias e enclausurados com acesso restrito aos diretores, coordenadores e pessoal administrativo e isso contrita com a principal função do computador na 'cola que é o de contribuir incisivamente para o melhoramento da qualidade do processo ensino-aprendizagem, sendo que oferece apoio e recursos aos professores, enquanto ao mesmo tempo se busca fazer a diferença no aprendizado e rendimento do aluno.
Hoje 'tatisticamente temos uma média de 50 alunos por computador, sendo que o ideal seria dois, isto se levando em conta apenas 'colas em que há computadores disponíveis para uso pedagógico, o que é muito pouco, pois nos países que compõem a OCDE -- Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico é de 6,25 alunos por computador.
Metodologicamente o seu uso 'tá ainda muito insipiente nas 'colas brasileiras, em que pese, os atores principais se posicionarem meio atônitos, não sabem bem o que fazer com o computador-conectado em suas práticas pedagógicas em sala de aula, além de que alguns o repudiam de vez, por se tratar de uma nova tecnologia, totalmente desconhecida e que vem acompanhado de incertezas e o professor (aquele que professa) costuma 'tar sempre certo das suas convicções e conhecimentos que passam às gerações futuras.
Um outro problema grave e praticamente psicológico é de 'tarem desconfiados que o computador pode usurpar o seu emprego, fato 'se que pode até acontecer, caso o professor que não procurar se atualizar nas TICs -- Tecnologias de Informação e Comunicação, serem sim substituídos, não por a máquina, mas por um outro professor que 'teja mais afinado com 'ta nova tecnologia educacional de nosso tempo:
o computador-conectado.
Politicamente falta vontade de colocar um computador por aluno na 'cola, proposta 'ta que novamente fora lembrada no discurso de posse do segundo mandato presidencial, como sendo, junto com a educação a panacéia de todos os problemas brasileiros ...
Assim, vamos aos fatos:
FUST -- Fundo de Universalização de Serviços de Telecomunicações, em vigor desde agosto de 2000 (Lei 9998) que nos cobram 1 % em cada conta telefônica, além do faturamento bruto das empresas do setor (excluído o ICMS, Pis e Cofins), até o final de outubro de 2005 já tinha um montante arrecadado de R$ 4,6 bilhões, com a finalidade da expansão no Brasil do Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo) que é um programa educacional criado por a Portaria nº.
522/ MEC, de 9 de abril de 1997, para promover o uso pedagógico da informática na rede pública de ensino fundamental e médio.
Porém ocorre que 90 % dos recursos arrecadados, 'tão contigenciados (preso) por o próprio governo federal, praticamente intocados, com a finalidade de compor e manter o superávit primário (diferença entre arrecadação e gastos do governo), cujo desvio de finalidade deixaram de beneficiar centenas de projetos de inclusão digital, inclusive a ONG carioca CDI -- Comitê para a Democratização da Informática chegou a criar o movimento social:
Fust Já!
e conta atualmente com importantes atores sociais e em resposta a isto o Presidente Lula prometeu liberar 'te recurso agora em 2007 para suprir as 'colas com computadores necessários, e desta forma permitir o destravamento do processo de inclusão digital no país.
Bem sabemos que a inclusão digital é um fator decisivo para contribuir com a eliminação do processo de exclusão social, que de há muito tempo se agrava no Brasil e o computador-conectado na 'cola têm um papel relevante e fundamental para que 'ta proposta comece a se concretizar.
«Vivemos hoje uma Segunda Renascença» e 'tá acontecendo por obra e graça de uma outra tecnologia educacional que é o computador-conectado que já chegou à 'cola, a fim de que possamos dar conta de 'sa geração digital que hoje aporta nossos bancos 'colares.
Cabe agora a nós professores nos interarmos de como se ensina e se aprende em 'ta Cibercultura, se não quisermos que a 'cola deixe de ser um 'paço privilegiado de aquisição e produção do saber bem como da formação da cidadania, restando-nos ainda perguntar ...
E agora José, o que vamos fazer?
Número de frases: 21
http://www.clubbity.com/tv Há um problema seríssimo nos cursos de humanas desse Brasil.
E o pior, 'se problema nunca é discutido.
Vamos em congressos, e observamos todo tipo de baboseira.
Em um de História, observamos temáticas como:
«A construção do forte chupica no século XIX».
Se vamos num de Sociologia:
«A dinâmica socioeconômica da venda de canudos na praia de Boa Viagem».
Se vamos num de Antropologia:
«Tatuagens e pós-modernidades:
o corpo resignificado».
Se vamos num de filosofia:
«A questão da angústia em Kant -- por a milésima vez».
Porém, em nenhum momento, falam do crime que assola os cursos de humanas:
Como Avaliar Os Alunos Com Uma Prova Subjetiva.
O sujeito 'creve sobre ética, e recebe uma nota do tipo:
5,78. Como é possível?
Haverá isenção de 'pírito suficiente, para alcançar numa avalição subjetiva, uma frieza de cálculo como 'sa?
Contudo, 'ta não é a principal questão.
Quero falar aqui de um problema ainda mais grave.
Não entendo por que os cursos de Mestrado e Doutorado da área de humanas não realizam provas mediante a serviço de empresas terceirizadas.
Como pode, na atual conjuntura do país, uma prova de Mestrado, ser baseada em avaliação 'crita e regime de banca?
Por que diabos, não colocam uma empresa séria para realizar 'te empreendimento?
Afinal, é dinheiro público, é um concurso PÚ-BLI-CO.
Já vi inúmeras vezes, pessoas altamente competentes serem reprovadas em detrimento de alunos de extrema mediocridade acadêmica.
Os professores não discutem isso.
Preferem orientar trabalhos com a seguinte temática:
«O sentimento puro em Dostoievski "
ou mesmo
«Vidraças quebradas, corações 'pelhados:
a amizade entre garotos de sexo oposto durante o período da Ditadura Militar».
Porém, questões epistemológicas e teóricas sérias, ou mesmo, questões sociais que precisam ser analisadas, são simplesmente deixadas de lado.
Os concursos pra mestrado e doutorado viraram no Brasil uma grande piada.
O pior, viraram uma grande loteria.
O sujeito que não tem indicação, ou seja, que não conhece nenhum professor da banca ou, da universidade, deve se inscrever como quem marca números na loteria.
Quando 'sa piada sem graça vai parar?
Os processos nebulosos, principalmente das instituições do norte e nordeste, precisam ser «minados» de maneira agressiva.
As pessoas deveriam ter acesso à quantidade de processos que 'sas instituições recebem.
Conheci inúmeros injustiçados que colocaram universidades na justiça.
Porém, por que diabos a mídia não aborda 'se problema?
Nebulosidade, apadrinhamento, pistolão, as temáticas de sempre.
Por isso a economia vai mal.
Por isso o desemprego cresce.
Por isso cresce a corrupção.
Há de se ter mais transparência nisso tudo.
Ninguém aguenta mais.
Ainda mais, 'se nobre Ganso e suas belas penas brancas.
Alguém aqui, já se sentiu enganado, após o término de uma avaliação de mestrado e, ou, doutorado, em 'se imenso país?
Não seria tempo de acabar com 'ses processos seletivos absurdos?
Pagamos impostos para isso, não?
Não se trata, afinal, de um concurso público?
Um feliz natal para os homens de bem.
Para os desonestos, que o Diabo contemple teu fim de ano com bençãos do inferno.
Número de frases: 52
Almir Sater encerrou as atrações do 4° Festival América do Sul, que aconteceu de 15 a 19 de agosto, em Corumbá / MS.
A platéia corumbaense vibrou emocionada durante o show ao ouvir canções que 'tão guardadas no imaginário do povo sul-mato-grossense como Chalana, Trem do Pantanal e Comitiva Esperança.
Sem dúvida alguma, Almir é um dos intérpretes e compositores que melhor representam o " Mato Grosso do Sul.
«Venho a Corumbá desde pequeno.
A viagem feita por o trem do pantanal era inspiradora.
Em a época eu ainda nem pensava em ser músico, mas 'ta cidade já me encantava», disse na entrevista coletiva, feita no fim da tarde antes do show, às margens do Rio Paraguai.
Rememorou também a primeira vez em que ouviu um chamamé.
Foi em Corumbá.
«Eu tinha vindo fazer uma peça de teatro na Marinha e ela foi cancelada na última hora.
Eu e meus amigos viemos então dormir na praça Generoso Ponce e ao amanhecer ouvimos aquela música cantada em guarani».
Para 'quentar o encontro com jornalistas, com uma tranqüilidade inabalável e enrolando seu cigarro de palha, contou sobre sua vinda para o 4° " Festival América do Sul.
«Como o Pantanal 'tá bonito.
Em o caminho encontrei muitas piúvas (ipês cor-de-rosa) e carandazais, repletos de flores», observou.
E complementou ainda:
«Este festival é muito importante porque a música de Mato Grosso do Sul já tem uma latinidade e 'te evento veio oficializar isso.
A população de Corumbá, que é muito acolhedora, foi brindada com 'ta festa cultural e ainda dá opções de entretenimento ao turista, que não vai apenas desfrutar do turismo de pesca.
Em o início da minha carreira eu me inspirei no Paulo Simões, no Geraldo Espíndola, na Tetê Espíndola e no Geraldo Roca, que eram artistas em destaque naquela época.
É preciso mostrar para as crianças os artistas sul-mato-grossenses para elas poderem se inspirar.
O Festival América do Sul é ideal para isso».
Em cerca de 1 hora de coletiva, Sater 'tava alegre e contou particularidades de sua vida artística e opiniões sobre diversos assuntos.
«Faço shows a base de convites 'pontâneos.
Não sobrevivo de discos e sim de shows, mas não consigo bancar uma produção de shows porque é caro.
Minha 'trutura é pequena.
Além disso, as gravadoras roubarem os artistas é o mal menor.
O maior problema é a pirataria.
O artista tem conta para pagar, e hoje em dia, quando grava disco, não pensa em vender.
Em o meu caso, em contrapartida, um ano que faço de novela me garante dez anos de apresentações musicais.
Divulgo minhas músicas por meio das novelas.
E faço sempre o mesmo show sim, mudo muito pouco o repertório, porque é ele que garante minha vida artística e para mim, atualmente com 51 anos, levar a emoção para alguém é o que importa», explicou.
Almir disse também que prefere trabalhar sempre com os mesmos músicos.
«Assim podemos errar juntos.
Quando erramos juntos, acertamos», brincou.
Almir Sater, na ocasião, analisou também os artistas sul-mato-grossenses.
«A postura dos artistas de Mato Grosso do Sul é diferente dos artistas da Bahia, por exemplo.
Somos caipiras mesmo e 'tá bom assim.
Rendemos menos em termos de badalações, mas não perdemos em nada para nenhum artista de outros Estados.
Hoje em dia, é muito difícil encontrar compositores com potencial poético.
E nós temos compositores de qualidade como Paulo Simões, Geraldo Roca e Guilherme Rondon.
A educação no Brasil piorou muito e isso tem refletido nas criações.
Ou o governo começa a investir em educação e cultura em 'ta geração ou tudo vai piorar», lembrou.
Em 'te festival, a atenção foi a marca registrada de Almir Sater.
Característica 'sa que dispensa também à comunidade que vive na sua fazenda no município de Aquidauana.
Lá, disponibilizou uma pequena 'trutura para a implantação de uma 'cola rural aos moradores da região.
«Este projeto aconteceu a pedido da comunidade.
Os peões vieram a mim, e como observaram que eu recebia muitas autoridades, pediram para que eu intercedesse por eles em 'ta questão.
Foi aí que disponibilizei uma área da fazenda para um posto avançado da 'cola rural de Aquidauana.
É muito difícil manter uma 'cola na fazenda.
As crianças moram em ela de segunda a sexta-feira.
Então, a 'cola funciona como se fosse a própria casa dos alunos.
E eles gostam muito de 'tar lá.
Participei da formatura dos primeiros formando e foi muito gratificante», contou.
Segundo ele, a comunidade da sua fazenda é uma das mais unidas da região, tanto que conseguiram como doação três computadores e todos 'tão interligados na internet 24h.
«As crianças 'tão se sentindo privilegiadas», comemorou.
Sater falou também sobre a terra que adora.
Morou durante 6 anos no Pantanal, antes de ir morar na Serra da Cantareira em São Paulo.
«Meus filhos se alfabetizaram na fazenda.
Mesmo morando na cidade grande, nós adoramos passar um tempo no Pantanal.
É sempre prazeroso vir para cá.
Só que é muito caro viver no Pantanal.
A pobreza tem levado o Pantanal a uma situação difícil.
Andei meio deprimido nos últimos tempos, já cheguei até a pensar em arrendar meu sítio.
Como não é possível viver da lucratividade da terra, quando o proprietário consegue pelo menos empatar o investimento que fez já é bom.
É preciso agregar valor aos produtos pantaneiros, senão a coisa vai ficar feia.
Se nada mudar, a terra pantaneira vai durar no máximo uns 40 anos», lamentou.
Com sua simplicidade característica que agrada aos fãs de carteirinha, Almir Sater finalizou a coletiva ao cair da noite.
«Estou sem projetos futuros.
Só quero mesmo é tocar minha viola».
Número de frases: 67
Mais informações sobre o Almir Sater aqui.
Segundo dia do evento.
Mesmo número de pessoas (15), porém gente de outras áreas:
pesquisadores de Educação e Tecnologia, professores, diretor cultural de município (Baixa Grande), anarquistas e 'tudantes.
Gente nova, novos olhares.
A segunda etapa do Encontro, seria dividida em duas mesas:
«Gestão da produção de conteúdos colaborativos «e» Políticas Públicas para Cultura Digital e Acesso ao Ciberespaço».
Contudo, de forma livre, as mesa convergiram para um debate que teve os seguintes destaques:
1-Conceitos de software livre e a sua apropriação por os produtores culturais, tema explorado por Felipe Machado, DJ e coordenador regional NE do Cultura Digital.
Em sua fala, ele frisou o avanço acelerado do pensamento livre e as novas possibilidades para a produção cultural, contrapondo a lógica privada dos software e, consequentemente, o controle do pólo de emissão e distribuição dos produtos.
2-André Stangl, professor das Faculdades Jorge Amado / integrante do Overmundo, convidou os participantes a uma viagem filosófica sobre a 'trutura (desestruturada) da rede e suas práticas, que segundo ele reconfigura conceitos como liberdade, identidade e comunidades.
Em 'pecial, durante a fala de Stangl, a «liberdade» fora a mais debatida.
O único consenso é de que a liberdade não começa onde a do outro termina, é antes uma utopia, que encontra na internet um potência paradoxal:
ao mesmo tempo em que dar voz aos excluídos, permite discursos outrora condenados por a humanidade, como o nazismo ou a prática da pedofilia.
A questão central que não encontrou-se uma resposta foi:
como manter o caráter livre da Web sem mecanismo de censura ou mediação que tira a característica 'sencial da rede:
a liberdade?
Que liberdade?
perguntaram-se todos!
Dentro da temática «Políticas Públicas para Cultura Digital e Acesso ao Ciberespaço», Cláudio Prado, Coordenador de Políticas Digitais do Ministério da Cultura apresentou os projetos do MinC como os pontos de cultura e os kit multimedia, bem como curiosidades e resultados positivos do projeto.
Alessandra Assis, Coordenadora do Ponto de Cultura Ciberparque Anísio Teixeira / Professora da Faculdade de Educação da UFBA destacou o caráter autônomo do projeto «Tabuleiro Digital» desenvolvido com a comunidade baiana.
As lições desses projetos é a constatação das transformações sociais que as ferramentas tecnológicas proporcionam.
Número de frases: 22
Amanhã será o último dia e o objetivo será discutir propostas regionais sobre Cultura Digital e também para a II Conferência Estadual de Cultura, a ser realizada em julho, na capital baiana.
A experiência de somente dois anos trabalhando no mercado publicitário aracajuano já me incitou a propor 'ta discussão:
a presença do negro no mercado de Aracaju.
É comum, pautar as discussões sobre os afrodescendentes na experiência dos Estados Unidos.
Eu proponho traçar o paralelo com a cidade vizinha, Salvador, onde a exposição do afrodescendente na publicidade já se faz marca registrada, levando a questionar por que cidades tão próximas se comportam de maneiras tão diferentes.
E o que faz o afrodescendente ter presença tão mais acentuada na publicidade soteropolitana, em relação a capital de Sergipe?
Interesse comercial, social, político?
Seria ótimo ter 'tas respostas e apresentá-las a um mercado, cuja imagem do afrodescendente na publicidade é tão marginalizada, mal dirigida, retratada e divulgada.
Principalmente, quando comparada aos, já insuficientes, trabalhos nacionais, onde modelos negros começam a surgir, mesmo como figurantes ou em situações de questionáveis posturas éticas.
Percebe-se, em Aracaju, uma lentidão muito maior da conscientização da visibilidade da história e imagem do afrodescendente na publicidade, em relação aos grandes pólos publicitários nacionais.
O aumento da discussão do tema do afrodescendente na mídia, a pressão através de manifestações e discussões do movimento negro, do projeto de lei do senador Paulo Paim (PT-RS), que visa a garantir cotas para a participação de afrodescendentes na publicidade, ou do próprio consumidor, que não se reconhece em 'se mercado, não é suficiente para o fortalecimento da identidade negra na publicidade.
Isso, porque, o comportamento discriminatório não mudou, apenas foi posto em segundo plano, sob a descoberta do potencial econômico do negro.
A produção e recepção de personagens negros na publicidade existem muito mais para suprir interesses institucionais (como mais uma ação para demonstração de sua responsabilidade social) e comerciais das empresas, do que para inseri-lo na sociedade.
Em o seminário Internacional Mídia e Etnia, o cineasta e 'critor Joel Zito Araújo lança a seguinte pergunta:
Por que o jovem negro na publicidade?
Mudou a cabeça do publicitário?
Será que os publicitários 'tão preocupados com a consciência social no Brasil?
O próprio Araújo responde:
Os publicitários perceberam que os produtos étnicos são vendáveis e começaram a colocar negros na publicidade.
Para Juarez Tadeu, pesquisador e ativista do movimento negro União dos Negros por a Igualdade, o grande problema é " 'sa idéia de que você integra através do consumo ...
não se pode resumir a isso.
É por isso, que acho que é pouco a presença, se você não apresentar mudanças concretas, materiais, efetivas mesmo».
Ou seja, a discussão ultrapassa a mera exigência de modelos negros na publicidade de Aracaju, mas sim, a incorporação deste no contexto, não como um «ser exótico», folclórico, temático, ou tentando forçar, institucionalmente, uma integração do negro com o cenário ou situação, embranquecendo-o ou deixando-o solto na peça, sem identidade, completamente artificial.
Não é somente 'tar presente, mas fazer parte, 'tar integrado com a realidade.
A publicidade aracajuana coloca o negro, nas poucas vezes em que ele 'tá presente em suas peças, como algo pontual;
é como se dissessem «para não dizer que não tem nenhum negro» ou se 'tivesse sendo moderna, seguindo uma nova linha, uma nova tendência no mercado, um modismo extracotidiano, que não faz parte da sociedade.
Ou ainda, para representar o povo carente, nas campanhas governamentais ou de responsabilidade social.
Queria um modo para alterar o quadro atual da publicidade aracajuana.
Coibi-lo, incomodá-lo e envergonhá-lo.
Mostrando que meios de comunicação, em principal a publicidade, é o mais forte setor, que pode valorizar o afrodescendente numa sociedade influenciada por a comunicação.
O Brasil quer passar a imagem de um país civilizado, quase europeu.
Traçando um paralelo geográfico, Aracaju quer passar para o Brasil, a imagem de uma cidade de bom-gosto, moderna, enfim, quer ser aceita nacionalmente.
Aracaju não assume sua imagem multicultural, nordestina, e, por isso, alveja a imagem de sua publicidade, pois, somente assim, acredita conseguir êxito no mercado.
A publicidade aracajuana pensa que o negro não passa o conceito de refinamento, não é capaz de apresentar um produto sofisticado já que ele é modelo de negatividade.
Quando perguntado por o jornal A Tarde, se o medo de perder público e dinheiro é causa da mídia não investir na imagem do negro, o historiador e diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais, Ubiratan Castro de Araújo, responde:
«Esse é o lado comercial.
Isso é uma desculpa.
Há dois aspectos:
um é a incapacidade de renovação de padrões 'téticos dominantes e o outro é o preconceito impregnado, por não acreditar que a mulher e o homem negros não possam representar sentimentos, idéias e atitudes mais belas, nobres, mais elevadas».
O mercado publicitário transfere a culpa para o consumidor, que, segundo ele, não gosta de ver o afrodescendente na mídia, mas ele mesmo não tem como se 'quivar e se inocentar do fato de não ousar mudar, criar um outro público.
Traçando um paralelo com o mercado de Salvador, tento compreender como ocorreu a transformação, tão particular à capital baiana, da imagem do negro na publicidade.
Salvador reverteu, pelo menos no que diz respeito à exposição do negro em peças publicitárias, o pré-conceito da imagem do afrodescendente na publicidade, passando a mostrá-lo, muitas vezes, como personagem principal, como símbolo da baianidade e de toda sua história.
A excelente resposta do setor turístico a 'sa valorização da cultura afro-brasileira é um dos principais pontos para a conservação de 'sa 'tratégia de marketing tanto do setor público, quanto privado de Salvador.
Mas questiono até onde a constante presença da imagem do afrodescendente na publicidade soteropolitana é causa da auto-'tima do negro residente em Salvador ser muito maior do que a do negro, que vive em Aracaju.
Mesmo ele sendo apresentado, muitas vezes, de forma 'tereotipada, com os trajes de baianas vendendo acarajé, um «dread locker» jogando capoeira, ritmos e acessórios do candomblé etc.
Esta discussão, quase que inédita num meio de comunicação daqui, se faz necessária por ser Aracaju uma cidade, que 'tá muito afastada dos avanços do movimento negro nacional em relação à presença do negro na mídia.
É sabido que o processo de exclusão do afrodescendente foi criado e se desenvolve dentro de contextos, historicamente, erguidos, mas a postura covarde da sua publicidade, quando se nega a enfrentar uma sociedade conservadora e racista, consegue alimentar, firmar e ampliar 'se processo de exclusão.
Gostaria de um meio que pudesse evidenciar para os falsos-cegos a vergonhosa e (até) constrangedora realidade desse mercado, com o objetivo de alertá-lo para o atraso ético em que se encontra e, a partir daí, mudar seu leiaute.
Número de frases: 48
Exercitar a leitura é algo fascinante e ao mesmo tempo recompensador.
Se a Televisão nos traz modelos prontos de informação -- nós não temos que pensar tanto, o livro nos leva a imaginar um universo que às vezes é desconhecido, mas não menos rico de informações.
Em o processo de aprendizagem buscamos decorar o que aquela determinada imagem ou informação 'conde, o que o filme quis dizer, o que a novela mostrou.
Inconscientemente nos vemos copiando os pensamentos dos filmes, das novelas, do que ouvimos, ou vimos alguém fazer.
Falamos uma língua que não é a nossa!
Em a guerra por audiência, mais lelitores:
TV x Livros, surge a internet.
O virtual, o tecnológico, são «bites»,» downloads», comunidades virtuais, p2p, palavras em inglês, termos que às vezes nos metem medo:
o que é isso?
Mas o que é a internet, se não uma grande Teia que nós entramos e saímos de ela, na hora que queremos.
Claro, sem ter um manual de instrução, alguns ficam presos nos emaranhados de fios.
Como professor de Jornalismo On-line, Online, não quero obrigar os 'tudantes a só pensar na Internet como algo «chato», como uma obrigação de mercado:
«Vocês têm que saber lidar com 'sa ferramenta, pois no futuro ela será a chave de tudo», diria um antigo professor da faculdade em que formei (fiz Jornalismo na UFRN).
Penso na internet, quando elaboro as minhas aulas, como um material didático, importante, mas não menos 'sencial, do que as nossas próprias percepções do mundo.
O que vemos nos portais, nos jornais on-line, é a expressão do que somos, numa velocidade, que até então desconheciamos.
Saner usar a internet como instrumento de aprendizagem, difusão das notícias, dos materiais jornalísticos, do conhecimento sobre as diversas culturas é um desafio que poucos têm aceito.
Se quiser saber mais acesse 'se link ...
é o alerta, ou o pedido, ou ainda, a ordem que mais se vê nos sites.
Mas alguém já se deu conta, que se o internauta não quer saber mais, por quê cansou da leitura, de que vai adiantar um link, uma conexão com mais informações.
Em o processo de comunicação digital, lembro-me do Canadense Marshal Mc Luhan:
O meio é a mensagem, 'creveu ele, mas quando o meio e a mensagem se confundem, qual é o papel dos emissores, quem é o receptor na verdade?
A partir de sistemas colaborativos, do conceito WEB 2.
0, todos nós tendo ou não formação adequada para isso, somos os dois extremos da «cadeia» de comunicação, emitimos e recebemos, recebemos e emitimos.
O que seduz a todos os internautas é a certeza de que podemos nos aperfeiçoar cada vez na forma de contar histórias a partir da Internet, e talvez um dia, as histórias contadas na Web, sejam transformadas num grande livro, afinal, o papel, bem conservado, tem uma longa duração, já as máquinas, um dia, podem pifar!
Número de frases: 24
Bruno Cássio é formado em Jornalismo por a UFRN, e professor de Jornalismo On-line do IESACRE, atualmente concluindo Pós-gradua ção em Comunicação Digital por o IDAAM.
Capela De Santana
A Capela de Santana é um marco na história de Uruaçu.
Era o ponto de encontro das primeiras famílias, todos os acontecimentos se faziam no largo em frente à igrejinha.
Essa Capela foi construída quando o povoado de Santana, sede da fazenda do Cel.
Gaspar, hoje cidade de Uruaçu, já 'tava bastante desenvolvido.
Conforme registros em publicações locais, o coronel decidiu construir um templo católico, uma igreja dedicada à Senhora de Santana.
Esta seria construída com quarenta palmos de vão de comprimento e seis de largura.
Seriam gastos na construção um conto e duzentos mil-réis, como cita o contrato feito na época com o empreiteiro.
Segundo o 'critor Cristóvam Francisco de Ávila, da cidade de Uruaçu, para inaugurar a Capela o Cel.
Gaspar incumbiu o filho Francisco de se deslocar até a Vila de Pilar, hoje Pilar de Goiás, e negociar a troca de uma histórica imagem da Santa, de arte portuguesa dos tempos coloniais.
Esta ficava sentada numa luxuosa cadeira com 'tofamento cor-de-rosa, tendo ao lado 'querdo a Virgem Santíssima apontando para a filha.
Esta imagem foi a principal aquisição para o povoado que 'tava nascendo.
A inauguração da capela se deu no dia 15 de maio de 1922, quando foi instituída a festa do Divino Espírito Santo, bem como as festividades de Senhora Sant'Ana a 26 de julho, e as comemorações do Natal, que se tornaram celebrações tradicionais do lugar.
Dona Olímpia, hoje com 100 anos de idade completados dia 15 de fevereiro de 2007, narra detalhes de como a vida social se fazia em torno da Capela de Santana.
Ela se casou em 'sa igreja, no ano de 1937 com o filho caçula do Cel.
Gaspar, o Sr. José Bonifácio de Carvalho, já falecido.
Com entusiasmo ela conta como todos os encontros familiares, sociais eram feitos no largo frente à igreja.
Havia as festividades que deixaram muita saudade, segundo ela.
Meio século depois, 'sa capela foi demolida em fevereiro de 1978.
Em o local foi erguido por a Companhia Telefônica de Goiás -- Telegoiás -- um prédio padrão destinado ao funcionamento da Central Telefônica de Uruaçu, sistema D.D.D., inaugurado em 04 de julho de 1980.
As residências próximas à Capela de Santana são construções antigas, muitas da época da fundação da cidade, os moradores que vivem nas proximidades, a maioria são parentes próximos do fundador, o Cel.
Gaspar. O impacto causado com a destruição da igreja se fez forte na vida de 'sas pessoas que sempre fizeram de ela o ponto de encontro das famílias, dos amigos, era um ponto 'tratégico de interação entre a comunidade, que assistiu com muita tristeza 'sa demolição sem poder fazer nada.
A Capela de Santana foi reconstruída por a Prefeitura Municipal de Uruaçu no ano de 2004, na gestão da prefeita Marisa dos Santos Pereira Araújo, num ato corajoso, defendendo a preservação da história local.
Para a reconstrução da Capela de Santana, a Prefeitura buscou informações com moradores antigos, fotos que são poucas, inspiração artística de alguns e depoimentos que traduziam os detalhes, e empenho nas pesquisas por parte do 'critor Ezéczon Fernandes de Sá, que tinha na reconstrução de 'sa Capela um ideal fixo.
O valor histórico da Capela de Santana não poderá ser restaurado, mas um pouco de ele 'tá de volta em 'sa reconstrução.
Essa Capela também 'tá sendo reconstruída novamente dentro do Memorial de Serra da Mesa, um dos maiores do Brasil que é um 'paço cultural que contará toda a história da região do cerrado na área do Lago de Serra da Mesa. (
detalhes serão publicados posteriormente).
Seu Emenegídio Pereira da Silva que reside há 30 anos perto da Capela, considera que a demolição foi um ato de afronta contra a população, à memória da cidade.
Ele diz o seguinte:
-- Para nós moradores mais antigos de Uruaçu, 'sa Capela representa alegria, amor, foi uma tristeza muito grande o que fizeram, não ouviram a opinião do povo.
Sobre a reconstrução ele diz:
-- Essa reconstrução valeu muito, guarda a lembrança da Capela tradicional, só que não corresponde à original, é diferente, maior, porém a outra mesmo sendo mais simples, era a original.
Muitos reclamam da falta de atenção da diocese local para com a Capela de Santana.
Segundo alguns moradores, não existe mais missas periódicas, a Santa original 'tá guardada num museu da Igreja Católica, e nem mesmo nos dias principais, nas procissões 'sa santa é trazida para a Capela de Santana.
Colocaram um outra santa substituta no local da Senhora Sant ´ Ana original.
Ficarão histórias, lembranças enterradas que podem voltar à tona, folheando registros como:
«Ali deitado na porta, bem na relva, ou em frente à igrejinha, eu li os primeiros contos ...
contemplei o mundo por as janelas de minha fantasia ..." (
Sobrinho, 1997, p. 11)
As histórias antigas sobre a Capela de Santana geram saudade, poesias como 'sa de minha autoria:
Capela De SANTANTA
Tenho sinos tocando em murmúrios,
Uma dor dentro do peito,
Tenho um amontoado de causos
Sob o amontoado de pedras ...
Ruínas de uma capela
A o som dos sinos que tombaram.
Capela da minha infância
Com causos de pote de ouro enterrado,
Sonhos de criança, memórias do coronel,
Com histórias de um povo
Escondidas nas janelas de pau
De a Capela de Santana
Roubaram o pote de ouro
A janela de pau ficou aberta ...
Roubaram a memória da terra
Enterraram a história
Em as ruínas da capela ...
O olhar agora adulto, sofrido,
Vê a capela reconstruída,
Memoriza os detalhes ...
Perde-se nas lembranças ...
Rebusca potes de ouro, causos, cantigas,
Que o tempo não traz de volta ...
Número de frases: 65
Quem ainda não foi assisitir as Torres Gêmeas, vale a pena conferir.
O atentado de 11 de Setembro de 2001, marcou a história americano para sempre.
O filme relata a história de dois policiais portuários que saem em busca de salvar vidas, após o primeiro avião chocar-se com a primeira torre, interpretado por Nicolas Cage e outro por Michael Pena.
O filme tenta passar o sofrimento e a dor de quem 'tá praticamente a um passo da morte, mas com a vontade de querer viver e muita fé em Deus, o todo poderoso resolve dar uma segunda chance.
Número de frases: 4
Como se faz para ler uma cidade?
Ler um livro parece ser mais simples, porque, ao decodificar a palavra, é só lançar luz sobre o sentido do texto a partir de outras leituras sem ignorar o mergulho idiossincrático do autor ali.
Em um romance, lê-se para saber o final da história e, sendo o leitor mais atento, para saber como o autor trabalhou, pensou, sentiu e se 'forçou até chegar àquelas linhas narradas.
Em a filosofa lê-se para sugar o pensamento do outro até obter conteúdo e riqueza -- lastro intelectual -- e então desenvolver sua própria filosofia, consumindo o pensamento do outro para poder pensar.
Mas uma cidade!
Como se lê?
E São Paulo -- livro grande diante de olhos tão pequenos?
Em que veias fluem sangues tão impuros?
Jogar-se de corpo e alma e morrer tentando?
Não é nas 'quinas que 'tá o encantamento.
É no meio de toda rua.
As 'quinas são apenas o dobrar de páginas.
É o momento do fôlego refeito, para logo adiante extasiar de medo e prazer, entregar-se ao rio de angústia nos lugares pobres e ao fio tênue de contentamento nos nichos nobres.
Sem nunca desprezar o efeito contrário.
Mas como se lê isso?
O que posso tirar de um olhar?
Ler São Paulo: andar por o Morumbi e não ver ninguém;
apressar-se por a XV de Novembro e sentir o ar, o riso, o calor da multidão.
Raskolnikov 'tá presente?
Está. Karenina veio?
Veio. E Capitu?
Também. Estão todos ali.
Mas na avenida Lopes de Azevedo com a rua Gália, o que permanece é o silêncio do lado de fora e Plutão arrotando confiança no interior de seu palácio.
A praça Vinícius de Moraes 'tá no lugar errado.
Estaria melhor no Centrão, entre a Consolação, a Amaral Gurgel e a São João, em algum lugar ali, no triângulo sem glamour mas cheio de vida e de poesia, no meio do caos e do povo, distante da frieza verde dos morumbis.
A praça não é mais plebéia.
Ler São Paulo:
uma brasa riscando a noite em Pinheiros, correndo para a Vila Madalena e ali bebendo a saúde dos seus.
Mauricinhos comentando o cinema do dia.
Escritores quase pobres divulgando sua verve entre o som da rua e do bar e a voz etílica.
Em a Praça Roosevelt, o risco é outro:
salvo mirrados oásis, o artista falido levantando fundos, em meio a putas e veados, intelectuais malogrados e outras naturezas menos ofensivas.
Uns correm por a Rego Freitas e se jogam nas boates gays, encenando o frenético drama de não 'tar certo de sua identidade, como aquele velho Batman de Um Cavalheiro da Triste Figura, de Jorge Miguel Marinho.
Outros, velhacos, em surdina, enfiam-se em colos de meretrizes desfalcadas de grana, em frangalhos, perdidas na noite de Sampa, por a Augusta, nas entrerruas, nas vias de acesso à perdição total.
Há quem queira matar.
Há quem queira roubar, amar, sumir, surgir, refazer-se na angústia de uma solidão por entre gente na madrugada sem tino.
Ler São Paulo:
visitar sebos e não comprar nada.
Comprar tudo e não ler nada.
Trabalhar, trabalhar.
Conclusão de uma leitura:
as pessoas bebem para agüentar o porre de trabalhar todo dia suportando encheção de saco de chefe enrrudecido por o tempo.
Ler a Paulicea:
evocar Baco e aventurar-se na Vila Olímpia;
correr o risco de morrer tentando pegar uma patricinha endinheirada.
Morrer. Morre-se muito em São Paulo.
Não dá pra ler São Paulo.
Impossível cidade.
Nada se 'gota.
Em a verdade, nenhuma leitura se 'gota, pelo menos nas melhores obras.
Mas São Paulo é inesgotável demais para minha compreensão.
E ainda assim é preciso tentar ler a cidade.
É a única coisa válida quando se 'tá dentro da Desvairada, porque é ela, é ela a 'finge que olha para o transeunte, para o trafegante, o motoqueiro, o motorista, o maloqueiro, a diarista e diz:
«decifra-me, ou devoro-te».
Todo dia morrem 200 pessoas em São Paulo.
Poucas são as que falecem por a Boa Morte.
A maioria 'magadora não soube ler, não soube decifrar o enigma da detentora de nosso destino humano.
Número de frases: 57
Depois de alguns anos ouvindo e tendo ficado cansado do rádio-jornalismo produzido em Sergipe, sugeri a companheiros radialistas e jornalistas que buscassem elaborar uma pauta que não ficasse vinculada somente aos temas que as grandes redes nacionais elegeram como prioridade.
Pois como sabemos, nem sempre as prioridades da Veja, Globo, SBT, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, entre outros, são de fato representativas dos interesses da maioria da população.
Em a verdade, 'tão em função dos vínculos econômicos / corporativos que ligam 'sas empresas de comunicação a grandes grupos nacionais e internacionais articulados com outros ramos da economia e a certos 'quemas de dominação e exclusão, como é o caso de brancos racistas da África do Sul, que detêm o controle acionário da revista VEJA, conforme denúncia divulgada através da Rede Bandeirantes e em outros veículos de comunicação.
Em 'sa mesma linha, outro aspecto importante e que me levou a afastar-me da audiência das emissoras locais, principalmente em 2006, foi a falta de respeito a uma regra básica de qualquer manual do bom jornalismo, que é sempre ouvir o outro lado.
Cansei de ver o PT e o candidato a governador, Marcelo Deda, ser linchado, achincalhado ou humilhado por as ondas do rádio e não ouvir o contraponto, a outra parte.
Por isso, passei a utilizar como fonte de informação os sites na internet e / ou a edição impressa dos seguintes veículos:
Carta Maior, Adital, Brasil de Fato, Caros Amigos, Overmundo, Centro de Mídia Independente, Observatório da Imprensa e Carta Capital.
Ou como no caso do rádio, as emissoras Favela FM, de BH e a CBN, 'sa última apesar do posicionamento ideológico da maioria dos seus jornalistas, afinados com o famoso «Consenso de Washington» pelo menos faz um debate de alto nível, o que deixa brechas para vozes dissonantes.
Em a mesma linha de 'sa emissora, temos aqui em nossa província, porém na forma 'crita, o jornal Cinfom que, embora muitas vezes (principalmente no ano de 2006) tenha repetido a suposta «opinião pública» da qual, Veja, Globo, SBT, Folha, Estadão, se julgam porta-vozes, através de seus editoriais, pelo menos não deixou de lado a abordagem ampliada de assuntos que muito interessam a quem mora na periferia, vive de salário mínimo, anda de ônibus, tem os filhos matriculados em 'cola pública, depende do «humor» dos funcionários e médicos dos postos de saúde, não tem acesso à arte e cultura de qualidade e não pode investir em serviços privados de segurança etc.
São assuntos que nem sempre tem recebido o 'paço, a análise profunda, o debate com 'pecialistas, o contraditório, por parte da nossa grande imprensa, a não ser quando acontecem grandes tragédias e mesmo assim com o viés sensacionalista e supostamente «preocupado» com a maioria da população.
Em 'te ano de 2007 voltei a ouvir programas de rádio produzidos em Sergipe, principalmente a emissora 'tatal Aperipê FM, que a partir da conquista do governo 'tadual por a aliança PT -- PC do B -- PSB -- PMDB -- PTB etc., 'tá possibilitando a participação de uma equipe que sabe selecionar dos nossos bons e tradicionais artistas e bandas as melhores músicas, incluindo os grandes sucessos.
O mesmo se sucede com os novos artistas e bandas, como DJ Dolores, Mombojó, Afroreggae, Naurêa e uma pá de gente boa, mas que são preteridas em favor tão somente do arrocha, do brega, do forró transgênico ou eletrônico, os únicos tipos de música que tocam na maioria das emissoras comerciais, o que, conseqüentemente, leva a população a achar que não existe mais nada além disso.
A Aperipê FM também apresenta o programa brasileiro da Rádio França Internacional, que ouvi algumas vezes por a internet e que tem uma pauta que interessa a quem quer entender e discutir os grandes temas da atualidade e também aqueles ligados diretamente à nossa realidade, pois é comum o programa entrevistar artistas, intelectuais, ativistas sociais e políticos brasileiros que 'tão morando, 'tudando, trabalhando ou de passagem por a França.
No caso da outra emissora 'tatal, a Aperipê AM, será necessário mudar muito mais, para que ela se torne uma emissora voltada prioritariamente para a informação plural e de qualidade, que acredito ser o papel 'tratégico para o qual ela parece destinada.
Espero que ela se torne algo tipo uma CBN local.
Será bom para nós e para o novo governo que foi eleito por os sergipanos para colocar Sergipe em condições de dialogar e contribuir para as mudanças que o Brasil e o mundo tanto precisam.
Uma boa referência para isso também são os programas jornalísticos gerados por a Radiobrás, que atende a todas as nossas expectativas:
busca atingir uma gama variada de assuntos de interesse público, com seriedade e profundidade, e ouve o outro lado, mesmo quando é uma opinião contrária ao pensamento do governo federal.
Não apenas em Sergipe, no plano nacional também há situações que precisam de uma atenção 'pecial dos ativistas sociais, políticos e culturais.
Recentemente li com pesar a notícia referentes as dificuldades para a manutenção das atividades da agência Carta Maior, que foi um veículo que serviu de trincheira no ano de 2006 ao enfrentamento do 'quema midiático que pretendeu derrotar o bloco político vencedor das eleições de 2002.
Será que o governo federal e alguns 'taduais comprometidos com as transformações básicas que tanto precisamos (como a democratização da comunicação) não dispõem de dinheiro de publicidade para investir em 'ses veículos, não como favor, mas como obrigação, considerando que as polpudas verbas de publicidade 'tatal são o sustentáculo principal da maioria, quiçá de todos os veículos da iniciativa «privada»?
Acho que nem é preciso lembrar aos nossos companheiros e camaradas do governo federal e dos 'tados que acreditam e fazem a sua parte para ajudar na construção de «outros mundos» que a ditadura militar não foi embora sem que antes se tivesse investido pesado em órgãos de comunicação como a Rede Globo, que vez por outra se lançam contra aqueles que também acreditam e desejam construir «outros mundos».
De entre eles, podemos citar o MST, como um símbolo desse embate entre os que detêm poderosos meios de comunicação para manter o povo na indigência intelectual e ética e aqueles que querem seres humanos à altura dos ideais de solidariedade, tolerância, inteligência e beleza que tanto precisamos para não voltarmos novamente à barbárie à qual 'tamos chegando rapidamente a passos largos.
Para terminar um Salve!!!
para aqueles que lutam para construir e manter Rádios e TV's Comunitárias, sites e blogs.
E não nos 'queçamos de que é preciso interagirmos mais e batalhar muito para que antes do término desse segundo mandato presidencial não continue sendo crime montar uma emissora de rádio para falar do que realmente nos interessa e tocar músicas sem precisar ficar «amarrado» às listas de umas emissoras que tocam músicas que promovem a «prostituição» ou de outras que tocam músicas que promovem a «alienação» e a «intolerância».
Será que não podemos conquistar o direito de ir além da infeliz dicotomia entre Deus e o Diabo nas ondas do rádio?
P.S.:
-- Em o artigo «Algumas reflexões sobre a crise de Carta Maior» Bernardo Kucinski, jornalista, professor da Universidade de São Paulo e editor-associado da Carta Maior, retoma algumas propostas que 'tiveram em discussão junto ao governo federal no primeiro mandato: ( ...)
Entre 'sas propostas 'tá o vale-jornal, que daria a todo cidadão sem recursos suficientes um vale para receber o jornal de sua preferência.
Em uma primeira fase, receberiam o vale jornal cidadãos já cadastrados em programas sociais ( ...).
Outra proposta que o governo deveria retomar era a do programa de apoio à consolidação de veículos sem fins prioritariamente lucrativos, que selecionaria anualmente dez veículos impressos, dez rádios comunitárias e dez sites da internet ( ...).
Seus projetos seriam selecionados por um comitê técnico independente.
Se a Secom e as empresas 'tatais alocassem a 'ses programas e políticas apenas 3 % de suas verbas publicitárias, já se daria um grande salto ma qualidade na mídia brasileira.
2 -- Esse artigo foi 'crito ao mesmo tempo em que se saboreava, ao fundo, músicas da Aperipê FM.
3 A primeira vez em que ouvi falar da banda Mombojó foi através do Overmundo.
4 -- Para quem não quer ficar somente na indignação e quer ir além das palavras, vale a pena aprofundar-se no tema das políticas públicas e solicitar o posicionamento dos deputados e senadores sobre a questão da liberdade para a radiodifusão comunitária.
Um bom caminho é começar por aqueles legisladores que se dizem de 'querda.
5 -- Espero que em breve possamos ouvir o programa de Rádio do Overmundo na Aperipê.
Número de frases: 39
Esse programa tem entre os seus realizadores um overmano de Sergipe, Marcelo Rangel, que também, para nossa surpresa e alegria, foi indicado recentemente para ser o nosso Secretário Adjunto de Cultura.
Estive hoje à tarde nuns sebos.
Vinha de volta da casa de um amigo -- onde ganhei um livro, um abraço e o autógrafo do dono da casa.
Vinha eu feliz, mas poderia ter sido melhor ...
Não foi nada que me desse muito alento:
mais um livro publicado às expensas do autor -- que anda com algumas dificuldades em distribui-lo, às duzias e em consignação, por as livrarias do Rio de Janeiro.
Mas, eu 'tava nos sebos ...
Bem, andar por os sebos é progama dos melhores que conheço.
Encontrei num de eles «O Bobo», do ultra-romântico Alexandre Herculano, autor que não é dos meus favoritos -- mas cuja obra completa é obrigatória àqueles que, como eu, procuram compreender e melhor amar a Literatura Portuguesa, mãe da Brasileira.
Grande surpresa numa etiqueta colorida, colada na contracapa:
«Ganhei 'te livro da FNLIJ -- Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do International Board on Books for Young Peoples -- IBBY -- IV Salão do Livro Para Crianças e Jovens».
Editora Ática -- Segunda Edição.
Detalhe desnecessário:
livro virgem, ao custo de 2 reais, no chão do velho sebo, como lixo ...
O que 'perar de educadores, pessoas adultas, cuja falta de sensibilidade, de tirocínio, os fazem pensar que uma criança possa compreender ou gostar de uma 'crita enviesada, rebuscada e repleta de arcaísmos, como acontece em toda a obra de Herculano?
Querem 'pantar definitivamente as crianças de perto dos livros?
Pois se eu, leitor calejado por décadas, leio Herculano aos trancos e barrancos, voltando e remontando sentenças inúmeras vezes para poder compreender o autor!
Não é à toa que tão pouca gente gosta de livros no Brasil.
Desde a infância 'tamos sempre sitiados por todas as formas e maneiras possíveis de incentivos ao desamor literário.
Os que mais incentivam o afastamento definitivo entre um jovem e aquilo que poderia vir a ser seu maior alento -- livros!--
são os próprios professores e, principalmente, os «planejadores» do sistema de ensino -- cuja visão desfocada e deslocada produz uma 'pécie de 'quizofrenia paranóide, que os impede de discernir entre o seu gosto pessoal e aquilo que uma criança poderia vir a gostar, ou odiar.
Ah ...
Durante o chá, na casa de meu amigo, fui olhado como um morfético tarado, porque comentei que José de Alencar é péssimo autor para ser adotado no curso de primeiro-grau;
que índio arrancando palmeira imperial na base do abraço é mais um helenismo de Alencar -- que renomeou Hércules como Peri e que, entretanto, se 'queceu de trocar a história;
que As Minas de Prata é de fazer mesmo uma criança sentir repugnância por qualquer coisa que lá 'teja entre duas capas;
que a primeira impressão é a que fica ...
Fazer o que, se não gostaram?
Fui me meter entre os doutos da Literatura Brasileira ...
entre os fazedores de livros virgens ...
Número de frases: 29
Não é muito fácil chegar à conclusão de que não é mais possível ser «autêntico».
Palavra batida 'sa (autêntico), já depois de tantas ilusões filosóficas, psicológicas e libertárias a respeito, mas que de momento me serve para desconstruir-me na presença de vocês.
Já há alguns anos acordo pela manhã, quase sempre mal-humorado (por ter que levantar e ir trabalhar num país em que o trabalho inútil é por pouco dinheiro e com muita encheção de saco), e sei que vou ter logo em seguida que bancar um dos personagens que agrade aos meus ouvintes do dia-a-dia e, conseqüentemente, me traga a possibilidade de uma sobrevivência cotidiana facilitada.
Ou, simplificando:
ao acordar sei que terei que fingir ser quem não sou até o ponto de tornar-me, por horas, verdadeiramente 'te outro, para ter das pessoas o que preciso.
E em 'te precisar 'tá incluído tudo.
Sempre foi assim, e sei que quase todos me dirão o mesmo:
é o nosso teatro social e inevitável, day by day.
Bem, mas vejamos antes a rotina de um típico brasileiro de classe média, que tem que se adaptar às demandas das pessoas ao seu redor para não se tornar 100 % em 'croto (para quem não entendeu bem, tornar-se um filho da puta, um destes a que todos têm raiva ou querem distância).
Em primeiro lugar, felizmente, muito felizmente, trago muitos resquícios, em meus modos 'pontâneos de comportamento e expressões, de quando eu era um garotinho e adolescente razoavelmente dócil, cordial, amistoso, realmente simpático, que cativava as pessoas que gostavam de alguém bonzinho;
principalmente as mulheres.
Hoje, com as mulheres que gostam de homens sensíveis, ternos, tentar manter por algumas horas 'te personagem cativante é algo de grande funcionalidade e prazer.
Até certo ponto.
Parecido com 'te aí, e também vindo de uma infância familiar, interiorana e cristã, também preciso manter (raras vezes ainda 'pontaneamente, a maior parte do tempo sabendo que 'tou fingindo) uma teatralização de bondade e preocupação solidária com meu semelhante.
Caras e bocas de preocupação com o seu bem-estar, com as infinitas mazelas sociais que o afligem, com o fato de não querer humilhá-lo nem tratá-lo mal em encontros fortuitos em supermercados, farmácias (o brasileiro adora uma farmácia), ou em qualquer lugar.
Para sobreviver financeiramente, não tenho dúvida:
'te lado de uma bondade cristã que ainda reluz em meu brilho dos olhos é realmente útil.
Espero que dure muito ainda, embora eu já tenha sérias dúvidas se 'te personagem vai longe.
Essencialmente eu sei que ele não faz mais parte de mim.
às vezes rio cinicamente por dentro enquanto meu ar de bondade cativa aqueles que só conseguem ver em mim o que querem ou que conseguem.
Rio principalmente das pessoas humanistas mais ingênuas e prepotentes, que acham que conseguem sentir a «'sência» dos outros ao olhá-los nos olhos, para saber se é realmente «do bem».
Só mesmo rindo!
Chega a ser triste agora que penso a respeito, mas é assim que acontece.
O cinismo 'tá no ar e tem dado a tônica da vida pública brasileira.
Nem o condeno mais ...
Quando tenho que conviver com meus pares de classe média, meus personagens são outros.
Se são mulheres, um pouco do sensível é requerido, por elas, principalmente, mas também por mim:
quando vejo já 'tou eu sendo o sensível que já não sou, principalmente se 'tou verdadeiramente na carência de um romance terno ou de uma companheira dedicada e amorosa;
ou às vezes se preciso de algum favor, algum favorecimento na vida burocrática ou profissional.
Está cada vez mais cheio de mulheres nos governos, empresas, 'colas, hospitais, em todo lugar em que se faz necessário uma CDF, uma caxias, pra fazer tudo como se deve, mesmo que inutilmente.
Já um outro modo de atrair mulheres é ser arrogante.
Pode ser qualquer tipo de arrogância.
Boa parte das mulheres brasileiras de classe média, e gradualmente também as demais, adoram um sujeito metido.
Muitas se dão mal ao se deixarem levar só por isso, já que a maioria dos «fodões» são apenas casca, não tendo poder real sobre nada.
Um típico destes que encontro com freqüência por aí são os que foram apelidados de Pimbas (pseudo intelectuais metidos a besta e associados), geralmente intelectualóides que se mostram entendidos em algum assunto, ou vários, que conversam citando livros, autores, diretores de cinema e tentam usar palavras que pareçam trazer algum saber novo (seduzir trazendo «novidades» ainda é muito fácil no Brasil).
Já para as brasileiras mais ordinárias, um carro importado poderoso, um alto-falante 'tremecendo, um 'capamento de moto enchendo o saco, uma pistola na cintura, um pacote de coca ou de bolinhas no bolso, e uma cara de «eu sou foda» já são o suficiente.
Alguns desses «fodões», coitados, acabam se dando muito mal, por não conseguirem perceber que seu 'tereótipo de poder é apenas 'tampa.
Não conseguem botar um freio entre a demanda social e sexual de poder pessoal e o que realmente são e podem fazer.
Acabam tentando fazer 'te personagem durar no tempo, logo se fodendo de verdade na tentativa dos outros de serem os «tais» ou apenas de sobreviverem.
Já eu tento não voltar a ter qualquer coisa que pareça alguma 'sência com obrigação de durar no tempo.
Já tentei várias vezes, e tudo que encontrei ao final de meses ou anos foi ver-me tentando ser o que não sou.
Acho que sou mesmo um brasileiro 'sencialmente nada.
O típico brasileiro, pra quem ainda vive no mundo das fantasias ufanistas a respeito de 'sa merda, é fruto de uma reunião de culturas que se digladiaram durante alguns séculos até resultar no que sobrou:
'se povo-nada, que se auto-destrói lentamente à medida que continua a ser sugado por as demais culturas canibais do mundo.
àquelas pessoas por quem tenho consideração e respeito (ainda existem umas poucas) eu sempre tento fazer com que respeitem minha solidão a maior parte do tempo, e peço para que não ficem desejando demais que eu seja sempre o mesmo.
Se não suportam a incoerência de meus personagens que se sucedem ao longo do dia, que se afastem um pouco (ou muito), pois minha 'sência são todos 'tes personagens pouco duráveis e ao mesmo tempo o fato de nenhum de eles ser realmente eu.
Talvez apenas aí eu seja alguém:
apenas um brasileiro típico, de decadente início de século;
um humano típico, vazio de alma, de 'pírito, de 'sência, de coerência.
Apenas sigo adiante, por vontades e desejos que não compreendo e dos quais sou apenas um servo.
Por mim mesmo eu parava e ficava só olhando 'se caótico caldeirão de ilusões.
Mas infelizmente faço parte de ele, e preciso fingir dentro das ilusões alheias e também dentro das minhas.
Número de frases: 52
[entrevista com o poeta Ricardo Corona, publicada na Revista Mafuá (www.mafua.ufsc.br) e no Caderno de Cultura do Diário Catarinense]
Em o fim de 2003, quatro 'tudantes da UFES interessados em exibir filmes, criaram um projeto de extensão chamado Videoclube Digital Metrópolis.
A idéia era promover sessões independentes de cinema, sem linha editorial, cuja prioridade máxima era o usufruto da exibição.
As duas primeiras sessões aconteceram no Teatro Metrópolis, que logo fechou as portas.
Aí os meninos começaram a fazer exibições por o campus:
no paredão do curso de Comunicação, no galpão das artes, na grama em frente a biblioteca.
Qualquer lugar era lugar pra exibir.
Foi quando o videoclube se transformou em Cine Falcatrua, apelido dado por a galera que acompanhava o circuito de exibição gratuita dos filmes baixados via internet.
Raridades, lançamentos e novidades passavam na tela do cineclube, que acabou conquistando um público eclético.
O primeiro filme a passar foi Matou a Família e Foi ao Cinema, de Julio Bressane.
O segundo, que ainda não tinha 'treado no circuito, era Kill Bill, de Quentin Tarantino, Europa Filmes.
O Falcatrua também exibiu, antes de sua 'tréia no Brasil, o documentário de Michael Moore, Farenheit 11 de Setembro, Lumière.
Como as exibições eram sempre um sucesso, a iniciativa dos garotos começou a chamar a atenção da mídia, e muitos veículos de comunicação deram destaque ao trabalho do ousado grupo de exibidores.
Até que a Universidade recebeu uma liminar exigindo o encerramento das atividades do Cine Falcatrua.
A ação, movida em nome das distribuidoras Lumière e Europa, acusava a Universidade de «concorrência desleal», e solicitava uma indenização de R$ 480 mil por os filmes já exibidos.
Mas, junto com o problema na justiça, vieram as monções de apoio ao Cine Falcatrua.
O movimento cineclubista nacional, cineastas, 'tudantes, produtores, jornalistas, muita gente se manifestou a favor da manutenção do projeto.
Alguns realizadores autorizaram a exibição de seus filmes como forma de ajudar a fortalecer o Falcatrua.
Cláudio Assis, por exemplo, enviou Amarelo Manga, Paulo Sacramento, o Prisioneiro da Grade de Ferro.
E como o objetivo do Falcatrua nunca foi fazer pirataria, e sim gerar acesso à cultura cinematográfica, o cineclube passou a realizar programações com filmes devidamente autorizados.
Alguns diretamente por os autores, outros publicados em Creative Commons, copyleft e GFDL
Para a galera do Cine Falcatrua, o problema da distribuição das novas tecnologias não é tanto um problema.
É mais uma novidade, uma questão de cair a ficha e aceitar 'sa nova realidade que já 'tá aí.
«O importante é buscar respostas coletivas que agradem e atendam a quem usa.
E o Falcatrua se considera um laboratório de 'sa coisa toda».
Hoje eles atuam não só exibindo filmes, mas também pesquisando e publicando idéias ligadas a utilização de novas mídias aplicadas ao cinema.
Buscam compartilhar conhecimento e criar coletivamente.
Buscam aproximar a produção cultural da cultura real.
Desde o início de 2004, o Falcatrua exibe filmes baixados da Internet em sessões semanais gratuitas, já tendo atingido um público direto de mais ou menos quinze mil pessoas.
E a maioria desse público é formado por gente que, de outra forma, não teria acesso à cultura cinematográfica.
As distribuidoras que entraram com o processo contra o cineclube argumentam que os meninos e ou a Universidade são culpados, vide o nome do projeto.
Eles podem até ser culpados, mas por a irreverência, ousadia, ignorância jurídica, irresponsabilidade talvez.
Mas sinceramente, falcatrua é captar 12 milhões e não terminar o filme.
Falcatrua é imperar o apadrinhamento, o «apanelamento» e a falta de democratização da cultura.
Esse projeto de experimentação divertidamente apelidado de Falcatrua faz muito mais por a formação de público e conceitos audiovisuais do que outras iniciativas ditas sérias;
E remuneradas.
Fabricio, Rafael, Gabriel, Fernanda e Rodrigo, também chamados de Gilbertinho, codinome coletivo, não se sustentam com o Falcatrua.
Quando entra alguma grana, ela vai para o projeto que além de difundir a cultura de cinema, ajuda a problematizar a distribuição e a exibição audiovisual.
O lado bom é que toda 'sa confusão fez o projeto tomar outro tamanho.
As discussões foram ampliadas e quando eles viram já 'tavam em outra.
Começaram a questionar a inviolabilidade do 'paço.
E começaram a pensar em bulir com a sala 'cura, com a produção e com a distribuição, além da exibição.
Entre os seus projetos consta o Festival de Baixa Resolução, todo divulgado e produzido por a internet.
Podiam ser inscritos vídeos encontrados na web, com conteúdo original ou alterado.
E só não entrou na seleção quem mandou o arquivo danificado.
Eram aceitos vídeos de curta, media e longa «kilobaitagem».
«A idéia era brincar com 'sa bobagem de pensar o filme por o suporte, brincar com a 'trutura dos modelos de festivais».
Não havia restrição de suporte, nacionalidade, ano de produção, gênero, duração, inclinação ideológica ou conteúdo.
E o prêmio para o primeiro lugar era uma grade de cerveja, que o vencedor nunca foi buscar.
Produziram também o Agosto Cinema Clube, festival de discutir cinema no bar.
Convidaram quatro indivíduos de outras áreas da cultura, que tinham em comum a paixão por o cinema, e solicitaram que eles 'colhessem um filme, e depois 'crevessem um texto a respeito do mesmo.
O texto foi publicado no jornal, e a Brahma patrocinou o evento com duas grades de cerveja por sessão.
Um motivo a mais pra comparecer na segunda edição, agora no mês de agosto.
A Mostra Falcatrua de Conteúdos Livres aconteceu em Vitória, em Cachoeiro de Itapemirim e em Porto alegre, dentro da programação do Flô -- Festival do Livre Olhar.
Em a tela, uma seleção de mais de uma hora de vídeos produzidos e distribuídos livremente.
E antes das exibições, a galera batia um papo sobre a experiência do grupo.
Essa mostra acabou originando outra:
a Mostra do Filme Livre (Mesmo!),
que aconteceu recentemente dentro da programação do 7o Fórum Internacional do Software Livre, em Porto Alegre, e depois na UFES, em Vitória.
Um apanhado de produções de diferentes origens, suportes e gêneros que tinham em comum a proposta de livre distribuição.
E mais uma vez o Falcatrua ajudou a botar lenha no debate sobre os cruzamentos entre cinema e internet.
O cineclube promoveu também o lançamento do documentário Sou Feia Mas tô na Moda.
Vieram a Denise Garcia, diretora, e a Denise Tigrona, pioneira compositora de funk sensual.
Exibiram o filme em duas sessões, uma na Universidade, outra no extinto baile funk do Clube Rio Branco.
Mais recentemente, promoveram o ousado Festival CortaCurtas.
«O primeiro festival de cinema expandido e aos pedaços».
O festival que acontece dentro da exposição Paradoxos Brasil, resultado do Rumos Artes Visuais do Itaú, propõe uma nova forma de consumo audiovisual, definida por a relação entre projecionista e público.
O projecionista é quem 'colhe como, quando e por quanto tempo vai passar os 265 trabalhos inscritos.
É isso mesmo:
uma cena de um filme grudada num take de outro filme, com o áudio de um terceiro vídeo.
As vezes o filme ganha poética e sutil interferência.
Outras vezes, ganha um minuto e meio de créditos descabidos.
Em a sessão de lançamento do CortaCurtas, teve cineasta desavisado que reclamou.
Um realizador que não leu o regulamento foi tirar satisfações com a organização do festival.
Mas segundo eles, a galera se amarrou e adorou a oportunidade única de assistir às obras picotadas.
Eu teria gostado.
O Falcatrua foi selecionado no Concurso de Idéias para Demos Jogáveis, do Minc, e procuram uma produtora interessada em comprar a idéia.
O objetivo do jogo é produzir um filme.
O jogador precisa arrumar o patrocínio, produzir o filme, dar um jeito de distribuir, exibir.
Vai do início ao fim do doloroso processo cinematográfico.
E mais uma vez a idéia não é só brincar com a 'tabelecida cultura de produção de cinema, e sim levantar outra discussão:
«Tem um sujeito ali usufruindo imagem e som, e tem interação e 'pectação.
O videogame, enquanto linguagem audiovisual, deve ser levado a sério».
Atualmente produzem também o KinoArcade, cine-campeonato de video-game que integra a programação do Game CULTURA 2006, realizado no SESC Pompéia, Paulo.
O KinoArcade promove combates ao vivo projetados em sala de cinema, além de exibição de vídeos feitos com games.
Desde as primeiras sessões o Falcatrua ensina o pulo do gato, passando a quem quiser, os conhecimentos sobre como montar seu próprio e alternativo arsenal de exibição.
Eles publicam cartilhas e zines.
Ajudam a formar público e exibidores.
E também inspiram outras iniciativas de 'sa modalidade de consumir cinema.
Vida longa ao Falcatrua, que é um projeto muito sério!
«target = «blank» \> www.fotolog.net/cinefalcatrua
Número de frases: 91
Ninguém consegue ficar imune a copa.
Um sentimento ufanista toma conta de todos nós, uma 'perança de reconhecimento.
Somos capazes, podemos vencer.
Ver meninos que cresceram nas periferias sociais brilhando no balé televiso da copa, inegavelmente tem sua beleza.
Mas 'se 'paço é efêmero, o respeito que 'ses meninos conquistam pode sumir tão rapidamente quanto seu surgimento.
Basta não fazer gols.
O futebol é um 'paço do mérito físico e tático, não existem cotas p / frangos e pernas de pau.
Em a copa nosso nacionalismo assume tons fascistas, nossos piores sentimentos podem ser externados sem culpas, preconceito e o poder da humilhação pode ser exercido livremente.
Nos tornamos autoritários, supersticiosos, egoístas, etnocêntricos, bairristas, etc..
Ganhar ou ganhar, não existe a menor possibilidade de se aceitar a derrota, nem empate.
Estamos sempre em busca do culpado da derrota, o juiz, o manco, o gordo, o lerdo, o outro.
Litros de cerveja, bombas, gritos histéricos, tvs plasma, bandeirinhas, duas cores básicas.
Experimente desligar-se disso tudo.
Tente não torcer, 'queça o dia do jogo.
Qual o sentido disso tudo?
Reforçar o sentimento nacional?
O ultrapassado 'tado-nação?
Contra quem 'tamos lutando?
Nossos meninos não moram mais aqui.
Onde 'tá o nacionalismo aí?
O futebol é uma farsa injusta, uma seleção natural / artificial, onde o maior dos vilões é o acaso.
A gente 'quece que é só um jogo, como dizia o poeta " Mallarmé:
«um lance de dados jamais abolirá o acaso».
Porque 'quecemos a sorte?
Ganhando ou perdendo, não somos melhores que ninguém.
Boa sorte Brasil.
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama da 'tréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país.
Número de frases: 28
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo.
Post original do blog Motocontínuo
Existe alguém que interessa em O Santo Parto, de Lauro César Muniz, em cartaz no Espaço dos Satyros Um:
ele atende por Marco Antônio Pâmio.
Muito elogiado em sua atuação anterior no 'petáculo Edmond, de David Mamet, dirigido por Ariela Goldmann (ele ganhou o APCA de Melhor Ator em 2006), Pâmio é o único que chama atenção.
O Santo Parto é uma comédia de costumes que coloca a Igreja em xeque e ainda tenta defender a causa homossexual e o sincretismo religioso.
Em 'sa história, o padre José (Marco Antônio Pâmio) engravida e 'tá no dia de seu parto.
Entretanto, apavorado, ele não sabe como vai dar à luz.
Eis que, por acontecimento divino, as portas da igreja desaparecem e do retrato da parede sai o cardeal Quirino (Walter Breda), para lhe dar uma lição de moral.
O texto gira, gira, até que São Jorge ou Ogum (Raoni Carneiro) chega para ouvir o padre e, logicamente, salvá-lo.
O texto de Lauro César Muniz é muitas vezes didático, diletante e maniqueísta.
Explica os problemas da igreja, da homossexualidade e das religiões afro nos mínimos detalhes.
Completamente pró-homossexuais, o texto mostra um homossexual que é aparentemente castigado com um gravidez por ter feito sexo com um homem, para depois de tantas agruras, ser salvo por a intervenção de entidades simpatizantes, num tremendo 'forço do roteiro em trazer o sincretismo religioso como compensador e intercessor da Salvação.
A Igreja figura como o demônio, a besta, a destruidora do amor de verdade, da fé, a usurpadora de Deus em 'se mundo.
A certa altura, uma 'crava simula sexo oral no cardeal, apenas para simbolizar como um membro da Igreja pode ser «rebaixado à condição humana» e demonstrando que o lado «inimigo» é destituído, sim, de moral também:
não é um lado perfeito.
Muniz ainda resvala em certos pontos numa cafonice que poderia ser muito bem-aproveitada por a direção de Bárbara Bruno, mas 'ta, por sua vez, desenvolve um 'petáculo que beira o constrangimento como nas cenas em que entram atores apenas para mudar o cenário de lugar e sair.
Em uma de elas, um heavy metal toca e os atores entram com jaquetas de couro e gritam «Angra! Kiss!», referência ao provável nascimento da Besta.
Em a passagem na qual o padre descreve como conheceu o jovem Elvis (o mesmo Raoni Carneiro), o jovem canta Fever, a canção de Madonna.
Outro ícone óbvio e ainda com direito a passos coreografados e 'talos de dedos.
O problema não é tanto a obviedade, mas o tratamento.
Afora isso, há a seqüência na qual Ogum canta um rap representando, talvez, «o canto dos excluídos», entretanto soando muito deslocado.
Raoni Carneiro e Walter Breda não conseguem construir algo.
Carneiro é monocórdico.
Adota um tom grave como Ogum e sobe à normalidade como o menino Elvis.
Mas só.
Suas inflexões são as mesmas, invariavelmente.
Walter Breda serve como contraponto à Pâmio no início do 'petáculo.
Enquanto isso, restam os outros atores, meros instrumentos da encenação, cujas aparições se resumem à figuração sem função que não a de contra-regras cênicos.
Credibilidade somente a de Pâmio, como já foi dito.
O único em que acreditamos, mesmo sabendo que, na verdade, ele 'tá se 'forçando para acreditar.
A encenação infelizmente não chega ao 'pectador.
O monólogo do padre José e, de certa forma, o encontro de ele com o cardeal seriam o suficiente.
Depois da entrada de São Jorge e outros, a peça se perde e parece interminável.
Número de frases: 34
Morava eu em Ribeirão Preto nos últimos 12 anos onde, por saudade da velha Campina Grande, resgatava algumas pérolas do nordestinês nos proseios com os amigos paulistas.
E além dos ' oxente ', ' vixi ', ' oxe ' e outras expressões tão caras a um nordestino auto-exilado, surgia inevitavelmente o 'tá com a mulesta! '
ou o 'tá com a bixiga! '.
O que, por associação livre, me levava a descrever-lhes algumas entidades nosológicas nomeadas popularmente em nossa região.
Prosseguindo, relatava a uma platéia entre incrédula e desconfiada que havia, por exemplo, a «mulesta dos cachorro» que nomeava a Hidrofobia ou raiva e a «bixiga lixa» que, dizia-se, era o nome vulgar da extinta doença varíola.
Afora a «mulesta dos pinto», eu continuava a instrui-los e em 'se ponto eles faziam uma careta de assombro e nojo.
«Calma! Não há nada de imoral nisso. '
Pinto ' para nós é o filhote da galinha " -- eu os tranqüilizava.
«Certamente», continuava minha explanação, «a mulesta dos pinto não é nenhuma doença sexualmente transmissível, mas deve ser o que nós chamamos de gogo, que é quando uma galinha fica gripada».
«Você convive demais com seus pacientes» -- exclamavam.
«Desde quando galinha tem gripe?"
Era a minha vez de ficar indignado, frente àquela explícita demonstração de ignorância:
«Eu asseguro!
Quando alguém 'tá gripado, com coriza, costumamos brincar:
'tá com gogo '.
Que é a gosma que a galinha expele quando pega gripe.
E vi isso com meus próprios olhos, no galinheiro que tínhamos na nossa casa-chácara lá no bairro de Bodocongó.
O tratamento para galinha com gogo consistia em administrar Melhoral ® infantil diluído no bico da infeliz por alguns dias, em horários regulares.
Se ainda assim o animal definhava e morria, era imediatamente descartado sem consumo " -- eu arrematava, em 'ta aula que mais traía o meu desconhecimento nas reentrâncias e significâncias de nossas expressões do que propriamente me fazia douto aos olhos dos amigos.
Estes riam ainda mais incrédulos do que antes, e convictos de que aves não ficavam gripadas.
O tempo passou.
Quando finalmente a gripe do frango ganhou a mídia, por ceifar a vida de aves e humanos, eu me senti tristemente vingado.
E me remeti aos mesmos ouvintes, para a pergunta redentora:
«Viram? Agora acreditam que galinhas também ficam gripadas?» ...
Moral da história:
se o mal que se iniciou lá na Ásia tiver o mesmo quadro clínico, evolução e prognóstico do «gogo» de nossas galinhas de capoeira, caberia 'pecular:
se antes o Melhoral ® podia curar alguns desses frangos adoecidos, haveria 'perança para os frangos do mundo além da incineração?
Seria necessária uma distribuição preventiva de 'sa medicação para os galináceos do planeta?
Ou será que não há remédio e o inferno das aves é mesmo aqui?
Posso lhes garantir que não deliro, antes que alguns me recomendem uma internação breve (felizmente loucura não se pega por contágio).
Nem recebo verba do fabricante para fazer «propaganda» do uso do tal medicamento.
São apenas divagações da mente inquieta de um contumaz apreciador de peitos de frango.
Ano passado, deixei para trás a cultura country de Ribeirão Preto e mudei para São Paulo, o curral seguro das almas vaqueiras e não vaqueiras do Nordeste.
Não quero me perder do meu nordestinês, mas preciso usá-lo com adequação, sabedoria e autoridade.
Mais do que aspirar a respostas científicas, pensei que o momento é oportuno para finalmente descobrir o que é «bixiga taboca»,» gota serena», «mulesta dos pinto» e tantas outras patologias que o caboclo nordestino nomeou.
Agradeço a quem se interessar por 'sas questões mais epistemológicas que etimológicas.
Mas, por favor, antes que eu ganhe o Nobel de Medicina, por ter descoberto a cura da gripe do frango (porque aí vou ficar meio " amostrado "):
Melhoral ® infantil em eles!!
Ou o pinto melhora ...
ou morre!
Número de frases: 40
Funkeiros que falam «papai do céu».
Funkeiras que não rebolam.
A nova geração do funk carioca 'tá deixando para trás seu lado «proibidão» e apostando numa face mais pop para sair do gueto.
«A gente quer pegar o mundo todo, quer o público infantil, quer tocar na novela», afirma Vagner Rodrigues da Fonseca, o Vaguinho, de 27 anos, um dos quatro integrantes do grupo Os Caçadores.
Embalados por o sucesso da música Dona Gigi, fizeram o show que abriu em 'te domingo o 1º Mega Pancadão no Via Funchal -- uma extensão do Pancadão, noite dedicada ao funk na casa noturna Lov.
e, em São Paulo.
Como Backstreet Boys do funk, Vaguinho, Lekinho, Lekão e Léo se revezam cantando e dançando.
A preocupação em ser pop se 'tende às coreografias, fáceis do público seguir, com poucos passos.
As músicas têm o mesmo padrão:
letras alegres e refrões simples.
Em breve, vão 'trear um videoclipe no canal Multishow.
Para atingir a criançada, será um desenho animado.
«Áudio e visual têm que ser gratificantes para o público», teoriza Vaguinho.
A mistura de funk e pop tem agradado.
Suas músicas já tocaram na novela América, Caldeirão do Huck, Faustão e até no Casseta & Planeta.
Fazem de seis a 12 shows a cada final de semana, com cachês que podem chegar a R$ 10 mil por apresentação.
«Graças a papai do céu», exulta o católico Lekinho, que criou o grupo há oito anos no bairro do Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
Prova maior que o funk 'tá caminhando em direção ao pop é MC Perlla.
A os 17 anos, Perla da Silva Fernandes é uma 'pécie de Sandy do funk.
Evangélica, usa roupas comportadíssimas sobre o palco e não rebola.
O máximo a que se permite é balançar o corpo, de leve, para um lado e para o outro.
Em 'te domingo, na Via Funchal, usava botas, calça jeans comprida e uma blusa que não deixa nada à mostra.
Funk com letra sexual nem pensar.
Cantou Ela Só Pensa em Beijar, sucesso de MC Leozinho;
Glamurosa, de MC Marcinho;
e até um reggae em versão funk.
Aposta do DJ Marlboro, Perlla 'tá sendo moldada para o sucesso.
Sua gravadora é a mesma da cantora Pitty, e o produtor é o mesmo de Marcelo " D2.
«A primeira coisa que fizeram foram tirar ela do morro», conta Anna Penteado, que 'tá dirigindo um documentário sobre o movimento funk.
O 'petáculo do funk bem comportado só foi interrompido por o show do MC Bola de Fogo, aquela da música Atoladinha.
«Um cara que nunca poderia ser fabricado», diz Anna.
Bola de Fogo também é pop, mas de um modo mais bruto.
Tirou seu nome artístico de um dragão -- que obviamente cuspia fogo -- do desenho japonês Digimon.
Não canta proibidão.
«Só putaria», diz.
Com o ingresso mais barato a R$ 80, pouco mais de 500 pessoas rebolavam no Via Funchal quase vazio quando DJ Marlboro -- maior entusiasta da popularização do funk no Brasil -- apareceu para encerrar o Mega Pancadão.
Tocou como se houvesse milhares.
Número de frases: 37
Tudo por o pop.
Há cerca de 3 anos, a jovem Luma Yuri Matsubara surpreendeu no Tokyo JVC Video Festival.
Um pequeno auto-documentário, produzido dentro de um projeto para crianças 'trangeiras e de famílias multi-culturais, simplesmente arrebatou o público internauta e levou o prêmio por ele dedicado através do voto.
Até então, a menina não devia sequer imaginar que suas questões sobre identidade interessavam a tantas outras pessoas.
Luma nasceu no Brasil.
Mas veio pequena para o Japão, com a família.
Estudou em 'cola japonesa e, aos poucos, sua raiz no país de nascimento passou a ser apenas a relação 'tabelecida com os parentes brasileiros.
No entanto, como no caso das outras crianças de dekasseguis, o passaporte verde e o reconhecimento social insiste em rotulá-las como «brasileiras».
A dúvida foi a matéria para o premiado Lemon.
Com uma câmera inquieta, Luma ia perguntando aos parentes e colegas qual era, para eles, a sua nacionalidade.
A resposta, em bom japonês e em bom português, era quase sempre a mesma:
burajiru-jin, brasileira.
A obra, infelizmente, não 'tá mais disponível na rede mundial de computadores.
Poucos anos se passaram e apenas uma coisa não mudou:
o amor de Luma por a câmera.
De lá para cá, a menina produziu outros filmes e 'tá na equipe que gravou / editou os inúmeros depoimentos de japoneses migrantes.
O afinco no registro de 'tórias da migração por uma ótica tão particular, faz da jovem Luma uma 'pécie de «cineasta do movimento dekassegui».
Quanto à sua questão de identidade, a agora moça arrematou em entrevista realizada durante um evento no ano passado:
«eu ainda não sei se sou brasileira ou japonesa.
Minha família é brasileira.
Meus avós são japoneses que foram para o Brasil.
Eu cresci no Japão e então acho que posso me considerar japonesa».
Diz ela pouco antes de arriscar algumas frases em português, língua que decidiu 'tudar.
Pelo visto, apesar de se sentir confortável como japonesa, Luma não é uma menina como as outras.
Seu olhar como cineasta é a prova disso.
Número de frases: 25
Adaptado de original publicado em Alternativa.
Destacar algum disco ou canção da obra de Chico Buarque de Hollanda é de uma enorme injustiça com os demais.
Entre Madalena ir para o mar e Renata Maria sair de ele, muitas águas rolaram e o garoto que viu a banda passar cantando coisas de amor 'tá, agora, completando 63 anos de vida, não apenas de idade.
A os oito, de partida para a Itália com a família, em carta a sua avó, previu o futuro que o destino lhe reservava, com as seguintes palavras:
«Vovó, você já 'tá muito velha e quando eu voltar eu não vou ver você mais, mas eu vou ser cantor de rádio e você poderá ligar o rádio do Céu, se sentir saudades».
Como querendo demarcar 'paço, seu primeiro disco tinha como título seu próprio nome, assim como os que se seguiram, os volumes 2, 3 e 4. Trabalhos de alto nível, dignos de compositores experientes, mas impressionantemente saídos de uma cabeça de vinte e poucos anos, com várias músicas que viraram clássicos da MPB.
Se apenas 'ses seus quatro primeiros discos já o credenciavam como um dos melhores compositores brasileiros, sua obra ao longo de quatro décadas consolidou uma carreira impecável, que sempre transitou, com a mesma perfeição, tanto por canções de cunho político e social, quanto por canções românticas e líricas.
Ao mesmo tempo em que lançou 'ses discos no início da carreira, participou de vários festivais de música popular, freqüentes à época, vencendo, em 1966, com a canção «A banda, e em 1968», com» Sabiá», ironicamente (em se tratando de Chico) consideradas bem comportadas por o público, que preferiu «Disparada» e «Pra não dizer que não falei de flores», de Geraldo Vandré, não menos belas e mais politizadas, digamos assim.
Também em 'sa época, iniciou sua parceria com os já consagrados Tom Jobim e Vinícius de Moraes, amigos de seu pai, o historiador " Sérgio Buarque ":
«Sabiá», «Retrato em branco e preto» e «Pois é» (Tom Jobim -- Chico Buarque) são de 1968, Gente humilde (Garoto -- Vinícius de Moraes -- Chico Buarque), de 1969.
Em os anos 70, suas músicas passaram a apresentar um perfil mais contundente.
«Apesar de você, lançada num compacto simples juntamente com Desalento» em 1970, marcou o agravamento de seus problemas com a censura, tendo sua execução proibida nas rádios.
Também são de 'sa década os álbuns «Construção»,» Calabar», que teve a capa censurada e o título alterado para «Chico canta», Sinal fechado», de título sugestivo, que contava com apenas uma música de sua autoria, disfarçada por pseudônimos e» Meus caros amigos», além de «Quando o carnaval chegar», com a trilha sonora do filme homônimo,» Caetano e Chico juntos e ao vivo «e» Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo».
Também de 'sa década, fechando-a com chave de ouro, mais um disco com seu nome no título, e digno de ele, que antecipava músicas que faziam parte da trilha sonora da peça «Ópera do malandro, lançada em álbum duplo no ano seguinte, entre outras inéditas, inclusive Cálice», de 1973, censurada à época.
Também foram liberadas por a censura e gravadas em 'se disco «Apesar de você» e «Tanto mar», que até então ele havia gravado apenas em versão instrumental, no impecável» LP Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo " ('queci que não deveria destacar, os outros também são impecáveis).
Ao longo da carreira, compôs várias canções ou mesmo trilhas musicais inteiras para peças de teatro e filmes, de sua autoria ou não:
«Morte e vida Severina», «Quando o carnaval chegar»,» Roda-viva», «Calabar»,» Gota d'água», «Os saltimbancos»,» Ópera do malandro», «O grande circo místico»,» Cambaio», entre outros.
Fez músicas sobre mulher, para mulher, mas sobretudo como mulher.
Com açúcar, com afeto, sem açúcar, sem fantasia ...
Maria Bethânia conta que Mãe Menininha do Gantois ficou perplexa ao saber que um homem havia composto «Olhos nos olhos» *.
Se nos anos 70 lutou contra a ditadura, nos 80 vestiu a blusa amarela das diretas pra ver passar a evolução da liberdade, na festa do povo.
A partir da década de 90, passou a alternar trabalhos como compositor e 'critor, tendo lançado, desde então, os livros «Estorvo»,» Benjamim «e» Budapeste».
Em 2006, lançou o CD «Carioca», seguido do show, que lotou os teatros por onde passou, comprovando o apreço incondicional que o cantor desperta, ainda que não tenha se rendido, em 'se show, a um repertório centrado em suas músicas mais consagradas, mas sim nas composições feitas dos anos 80 em diante, incluindo todas do novo trabalho.
Chico Buarque é, realmente, um fenômeno a ser 'tudado.
Dado o seu total domínio da arte de compor, é possível que sua cadeia de DNA seja um pentagrama, com suas canções em partituras e seu genoma 'teja refletido em sua obra, clone de nossos sentimentos.
Olhos nos olhos (Chico Buarque)
Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
A o sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim '
Número de frases: 41
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim Olhos nos olhos, quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz
Munhoz é um produtor e MC de São Paulo.
Ano passado, acumulando participações em coletâneas e um disco independente com seu antigo grupo Ascendência Mista, investiu novamente no 'quema As próprias custas S.A. pra colocar na rua Batidas e rimas vol 1.
O CD conta com instrumentais, que ele assina como Prof. M.Stereo, e raps, aliado a vários novos talentos da rima.
Em o meio tempo ele produziu bases prum monte de gente, e em dezembro de 2005 se deu bem no The Freestyle Mix Contest, promovido por a revista 'tadunidense de tecnologia Wired.
O concurso de remixes era baseado num CD encartado na revista, com músicas de 16 artistas, entre eles Beastie Boys, David Byrne, Gilberto Gil, Dan The Automator e DJ Dolores.
Todas eram licenciadas através de Creative Commons, mas com diferentes restrições.
Veja a faixa aqui.
O remix que Munhoz produziu, usando elementos de canções dos grupos Spoon e Matmos, foi um dos 11 'colhidos pra figurar no CD The Wired -- Ripped.
Mixed. Sampled.
Mashed. Shared.
Você pode 'cutar todas as outras a versões selecionadas aqui.
Depois de sacar a notícia na rede dei uma olhada no Orkut.
Com uma rápida troca de e-mails 'tabelecemos contato via MSN, e perguntei a ele sobre o 'tado das coisas.
O rap nacional tem um circuito próprio, 'truturado e tal.
Como você se vê dentro de 'sa história?
Mano, já freqüentei mais, já fui mais envolvido.
Hoje em dia, o circuito que eu faço é praticamente nas casas underground, que tocam a maioria das bandas, mas numa minoria de elas, que são as que são um pouco mais abertas.
Putz, velho.
Você sabe que em cada cena existem cisões.
Em o hardcore mesmo, existem milhões.
Porque já que vão colocar a gente na prateleira como produtos em algum momento, que seja com os produtos certos.
Velho, mas separação não existe, minha preocupação não é 'sa.
É fazer música e ouvir as pessoas.
São mundos diferentes, mas a força da inércia nunca deve ser desprezada.
Você criar uma transformação na mente e no comportamento das pessoas demanda tempo.
A gente tá tentando repensar, porque a cena tá realmente muito fraca para a gente.
E o circuito maior do rap nacional tem vínculo com rádios etc ...,
também não anda muito bem.
Mundialmente 2005 não foi um ano bom para o rap.
Foi um ano de entressafra, não saiu nada de realmente significativo.
2006 já tá prometendo ser muito melhor.
Até pra você?
Porque em 2005 você lançou um CD mixtape com produções suas, fez shows, tava na final do Banda Antes MTV, e rolou 'sa parada da Wired.
Começando por a Wired.
Ah. Sei lá.
Eu fiz porque achei que podia ser interessante.
Aí, fui selecionado, me mandaram 10 CDs e pronto.
Em a Wired é uma parada instrumental, muito mais para o trip hop.
Eu fiz muitas coisas, trabalhei duro durante o ano, aconteceram coisas pra mim, só que, no geral, foi um ano ruim na verdade.
A gente vive querendo que as coisas se solidifiquem, que apareçam grupos novos de qualidade, que os eventos continuem acontecendo.
E isso até tá rolando, mas é tudo muito incipiente, na minha visão.
Alguns avanços tão rolando:
tão saindo vinis nacionais, o Parteum ganhou artista revelação no Hutúz, eu fiz o 'pecial do Banda Antes.
É trabalho -- a gente ainda tá na época da semeadura.
MP3 ajuda?
Como diria o saudoso Vicente Matheus, isso aí, de baixar música de graça, é uma faca de dois legumes.
Mas em 'sas de disponibilidade, de construção do conhecimento deu um baita adianto, ou você acha que não?
Com certeza dá um baita adianto no acesso.
Mas não ensina as pessoas a ouvir música.
O vinil tinha uma relação diferente.
Você colocava o disco e ficava ali, ouvindo uma parada por meia hora.
Ouvia as músicas na seqüência.
Tá cada vez mais difícil das pessoas se conectarem com a música.
As pessoas têm muito menos paciência e atenção.
Mas na real, a gente passou por duas mudanças de paradigma tecnológico e as anteriores persistem, então tudo coexiste:
vinil, e aí, CD e aí os MP3 players e os iPods.
Só que o lance é o seguinte, hoje um idiota bem informado baixa um milhão de músicas num laptop e vai tocar numa festa.
E aí pode fazer um repertório com nenhuma coerência mínima.
E as licenças de Creative Commons?
Tem um problema sério, que é o seguinte:
desloca a questão dos direitos autorais.
Eu sei que ele 'tá se desenvolvendo ainda, eu sei que, da época em que eu fiz as músicas para o momento atual, já houve até revisões nos tipos de licença e tal.
Mas eu acho falho 'se argumento que artista não ganha dinheiro com o disco.
Os independentes ganham sim.
Em o mínimo custeia a produção do mesmo e coisas do gênero.
Baixar música que não tá mais em catálogo ou difícil de achar, ou então um lançamento pra ver se gosta, é uma coisa.
É uma questão muito paradoxal tudo isso.
Os meios de produção musical foram democratizados, então agora vai ter um inchaço na quantidade, e isso acaba deixando as pessoas cansadas.
E vai ter muita coisa ruim, então as pessoas tão cada vez mais com preguiça de novidades.
Não sei onde isso pára não.
Tá, você começou a fazer batidas usando o quê?
Velho, desde moleque eu tinha piração em bateria eletrônica, mas nunca tive uma.
Cheguei a fazer música usando o PC lá por os idos de 95, nuns trackers via DOS, basicamente umas experiências.
Aí eu comprei uma bateria eletrônica que fazia umas linhas de baixo, mais um sampler baratinho, e gravava nuns 4 canais.
Comecei a fazer música no computador mesmo, mais ou menos na virada de 1999 pra 2000.
Atualmente, o que você tá usando de equipe pra fazer som?
Praticamente o computador.
Um par de monitores de referência pra poder mixar, um controlador midi.
Eu sou adepto da pirataria.
Então uso basicamente o Logic Audio e o Fruity Loops.
Dependendo do resultado o Reason.
E VSTs a rodo.
Um monte de vinis, samples e drumkits que eu fui colecionando com os anos.
Você fez batida pra uma pá de gente, né?
O que saiu mais do seu agrado?
Putz velho, às vezes é complicado, porque poucas vezes eu fiz uma batida 'pecífica pra alguém.
Eu faço e as pessoas 'colhem.
Em a maioria das vezes é assim.
E como você começa?
Por a batida, por a melodia?
Não tenho uma fórmula.
às vezes eu tenho uma melodia e aí vejo o que vou fazer com ela, tento programar as baterias.
às vezes acho um loop e aí monto a bateria em cima.
às vezes corto samples.
às vezes, me arrisco por terrenos bem diferentes, e cada vez é uma forma, cada sample oferece um desafio.
O segredo é nunca perder mais de 30 minutos com uma idéia.
Se não tá fluindo, ou pula para a próxima ou vai ler um livro, ver um filme.
O que você tá usando, que tipo de sample e peças?
Velho, isso varia também.
Música negra, isto é, quase toda música que foi produzida nos últimos 100 anos.
De o blues do delta, passando por vários 'tilos de jazz, rock, até Detroit techno nas suas origens, quando era gueto mesmo, era música de preto -- eram pretos que faziam e pretos que ouviam.
Você se preocupa em deixar o teco inteiro do som original irreconhecível ou não?
Como eu não tenho ligação nenhuma com a indústria até o momento, posso samplear o que eu quiser, sem muitas preocupações.
É legal sempre samplear de uma maneira pouco óbvia, cortar, rearranjar, mudar o tom, o tempo.
Mas? s vezes você acha o loop perfeito e é simplesmente uma burrice cortá-lo.
Tudo depende da profundidade da pesquisa que você faz.
Som bom em São Paulo quem tá fazendo?
Hurtmold.
Se eu for falar do rap, não paro mais.
Mas no hip hop, é o Parteum.
É o único cara que ainda me surpreende, tanto musicalmente quanto rimando.
Porra velho, tem muita gente fazendo um som legal em Sampa.
Cabe às pessoas simplesmente procurarem.
Queria saber do futuro também.
Tem algum plano ou deixa rolar?
Planos eu tenho, só que tô numa fase de bloqueio criativo fudido.
Mas é isso:
minha nova mixtape Beats e rimas volume 2, minha 'tréia como MC solo ainda sem nome, um disco todo instrumental do Prof M.Stereo e um DVD registrando a cena de hip hop independente de São Paulo.
Tipo documentário?
Você que tá fazendo?
Não sei ainda o formato desse DVD.
Mas acaba sendo documentário porque provavelmente vão ser registros de shows e depoimentos.
A gente tá captando imagens aos poucos.
O foco é nos artistas de rap indie ou tem rap nacional também?
Rap indie.
Em a verdade, é um 'quema bem punk.
Não tem equipe, não tem porra nenhuma.
A gente pega os amigos que têm câmera disponível na época, vai filmando e já vai decupando o material.
Eu vou tentar editar eu mesmo.
Tá em fase bem embrionária.
Ninguém faz nada, então o lance é arregaçar as mangas.
Número de frases: 132
Não adianta chorar depois.
Apesar de 'tar situado numa conhecida rua do centro da cidade de Manaus, o lugar passa despercebido por a grande maioria dos transeuntes.
É um casarão antigo, como muitos em Manaus -- talvez por isso não chame a atenção de quem passa.
Mas a discreta placa instalada logo acima dos portões de ferro não deixa dúvidas:
aquele local se dedica à arte amazônica.
Mas não simplesmente de obras que se focam de maneira superficial a tentar mostrar a realidade da região, mas de objetos que, de certa forma, são a região.
Assim são, pois traduzem muito mais que elementos artísticos com pretensões a obras-primas.
Os artefatos expostos são frutos de uma gama incomensurável de sensações;
das mais cotidianas e resultantes das necessidades do dia-a-dia, a extremos de paixões misturados com a impossibilidade da explicação do lado 'piritual do ser humano.
A mágica, como já se pode perceber, não 'tá em adornos externos.
Não se trata de uma questão puramente relacionada com a localização do lugar, muito menos com seu significado para os corretores de imóveis.
O poder que emana do lugar vem daquilo que ele traz com si;
do elo que simples objetos possuem com a História e de sua 'treita ligação com os tempos atuais.
Aqueles cujas delicadas mãos trabalharam sem pretensões de grandeza ou vaidade agora descansam, e seus frutos podem ser vistos por qualquer um de nós, mesmo aqueles que não dão tanta importância para os povos que por aqui habitavam muito tempo antes de nossos colonizadores.
O ambiente recria a História
A o entrar no 'trategicamente mal iluminado interior do Museu Amazônico, situado na Rua Ramos Ferreira, 1.036, Centro da cidade, o observador-visitante poderá, sem quaisquer dificuldades, vislumbrar uma série de elementos artísticos dos povos indígenas amazônicos dispostos de forma lógica.
Lógica no sentido antropológico.
Quem recebe o visitante é Custódio Rodrigues, técnico em conservação e restauro que trabalha no local e leva os interessados a uma nova forma de contemplação dos objetos expostos.
Isso mesmo, nova forma de contemplação.
«Os objetos não podem apenas ser observados.
Deve-se fazer uma contextualização destes artefatos sem generalizá-los apenas por uma etnia, e sim por uma gama maior da região, uma vez que existem várias informações que nos levam a perceber a importância de cada uma de elas, explica Custódio Rodrigues.
Ao longo do caminho, que transpassa por duas grandes salas no térreo e mais seis no segundo andar, o guia «antropológico» 'miúça cada peça, procurando trazer um significado a mais que sua simples função básica de «existir».
«Para começar, não se pode deixar de lado a questão antropológica, já que quando você vai falar destes povos, você inevitavelmente fala do relacionamento de ele com a própria natureza, com a sua crença, com seus mitos, com sua relação com a floresta», diz.
Como exemplo, Custódio mostra uma urna funerária de cerca de dois mil anos de existência.
Segundo ele, a urna representa a crença no pós-vida, ou seja, uma abstração da existência de cada um como indivíduo e de sua ligação com o sobrenatural.
«A pessoa não era simplesmente colocada dentro da urna.
Havia um processo de segundo sepultamento, onde entrava a urna.
Os órgãos eram arrumados em urnas menores, e isso variava conforme a hierarquia do indivíduo na sociedade e que vivia», explica, fazendo uma referência aos antigos povos egípcios, que também faziam distinção social de seus mortos no processo de mumificação.
Passado o recinto dedicado a arqueologia indígena, o guia leva o visitante a segunda parte da viagem nas terras dos «povos antigos».
Agora 'tamos na seção dedicada aos artefatos do cotidiano, onde as peças têm função exclusiva de proporcionar agilidade nas ações.
Entre as peças, destacam-se elementos como redes de dormir, fogareiros, peneiras, balaios e cestos.
«Todo o material usado por os indígenas podia ser encontrado em seu próprio meio, assim os artefatos inevitavelmente possuem uma ligação com a nossa região», explica Custódio, dando como exemplo a rede de dormir, feita de palha de buriti.
A religiosidade e vida dos povos amazônicos
Apesar de 'tarem diretamente relacionados com o dia-a-dia, muitos objetos possuem características artísticas únicas, que segundo Custódio, também 'tão relacionados com as crenças nas divindades.
«Todo o grafismo existente em muitas das peças não foram feitas simplesmente por serem feitas.
Tudo é trabalhado em função de uma mitologia e de uma crença», salienta.
Um ponto curioso citado por o 'pecialista é a «contemporaneidade» da funcionalidade de muitos dos objetos presentes na exposição.
«Se eu comparar, por exemplo, as armas de caça de um guerreiro que sai todo dia para caçar, é o mesmo que um menino que vai para a 'cola e leva a mochila cheia de material didático.
Tudo que ele necessita para a aula ele tem ali», compara.
Mas o contato com outros povos -- principalmente os colonizadores -- trouxe uma série de conseqüências na confecção dos artefatos.
Em certo momento da visitação, o guia mostra uma tábua usada por as mulheres indígenas para ralar alimentos.
A peça usa pequenos fragmentos de alumínio, que facilitam o processo.
«O uso desses metais é um reflexo deste contato», afirma, lembrando que a troca de «tecnologias» pode ser positiva e negativa;
o que caracteriza a natureza da troca são as circunstâncias.
«A tábua com alumínio certamente facilitou a vida nas aldeias, mas deve ter tido também suas conseqüências negativas», pondera» Custódio.
«Muitas de elas devem ter se cortado até dominarem a técnica», argumenta.
Ao longo da caminhada histórica, a trama dos povos tende a seguir para o sobrenatural.
De o cotidiano -- que tem seu próprio elo com a religiosidade -- a exposição vai para o rumo das danças e ritos;
'tes totalmente submersos numa aura de ligação com o divino.
Entre máscaras e vestes de rituais, o visitante quase que pode ser transportado para uma época onde a explicação do mundo visível e invisível só podia ser contemplada mediante contato com o mundo de Tupã.
Máscaras Ticunas servem de exemplo.
O 'pecialista, após admirar as peças por poucos instantes, narra o rito Ticuna da «Moça nova», onde as meninas têm os fios de cabelos arrancados como forma de marcar a passagem para a vida adulta.
«É um ato dolorido.
Quem trabalha realmente em 'sas etnias são as mulheres.
Os homens só caçam;
o serviço pesado é das mulheres», justifica o 'pecialista.
Algo semelhante acontece com os meninos das tribos Sateré-Mawé.
Para provar que é um guerreiro forte, os meninos de 'ta etnia devem usar a famosa luva de palha recheada de formigas Tucandeira.
«Ele coloca a mão dentro da luva e tem que agüentar as ferroadas das formigas, assim fica marcada sua passagem para a vida adulta».
Mesmo na seção dedicada aos armamentos indígenas, a concepção artística permanece presente, seja nos detalhes discretos de pequenas plumas nas zarabatanas, nos conjuntos de arco e flechas, ou nos grandes cocás dos líderes indígenas.
«As plumagens são feitas a partir das penas de aves locais, como arara, gavião, papagaio.
O que impressiona é a combinação de cores que eles usam», afirma Custódio, em admiração.
O percurso, então chega ao fim.
Cerca de 470 peças de 23 etnias podem não ter a capacidade de reconstruir o passado quase épico dos povos indígenas amazônicos, mas sem dúvida alguma podem levar o cidadão pós-moderno a repensar suas origens -- hoje quase tão 'quecidas e superadas como os costumes de boa parte dos povos indígenas que por aqui viviam.
Yupinawaitá; artefatos.
Número de frases: 65
Recortes de indivíduos de diferentes momentos históricos, mas que, juntos, servem de pilar para a conservação de uma bela História que jamais deveria morrer.
Entrar no mundo do Cinema 8 ito é perceber uma grande vontade de fazer e pensar cinema.
O que começou como um cineclube hoje engloba um núcleo de produção e 'tá dando início a uma produtora independente.
Comandado por os cineastas biAh weRTHer, Nina Tedesco, Edu Ioschpe, André Arieta e Frederico Ruas, o Cinema 8 ito existe há seis anos, sempre trabalhando com a desconstrução.
Projetos não faltam pra 'sa turma.
E muito menos diversidade.
O cineclube
Chamado de cine.
CLUBE. 8 ito, é o braço idealista do grupo, mantido por os associados e responsável por a realização de sessões de filmes independentes, oficinas, invasões, circuitos, seminários e um festival, o FLÔ -- " Festival do Livre Olhar.
«O FLÔ saiu de uma vontade que tínhamos de fazer um festival sem purpurina, mais underground, voltado para os alternativos, onde pudéssemos juntar de algum modo outras artes, fosse em ciclos de debate, oficinas ou premiação», explica a biAh weRTHer, diretora, roteirista, diretora de arte e uma das sócias do Cinema 8 ito.
Realizado pela primeira vez em 2003, o FLÔ vai ter 'te ano a sua terceira edição (em 2004 não rolou festival por falta de verba).
Durante o evento, qualquer lugar pode virar 'paço de projeção dos filmes.
Já foram usados locais como o Hospital Psiquiátrico São Pedro, um abrigo de moradores de rua e uma sala de shopping center no interior do Estado, por exemplo.
E desde o começo, a troca de experiências com outros grupos sempre aconteceu.
«A gente trouxe A Organização no ano de 2003 e em 2005 trouxemos a turma do Cinema de Poesia pra exibir e palestrar».
Esse intercâmbio com o resto do Brasil é constante e envolve muita gente.
«Tem o pessoal da Vinil Filmes, de Florianópolis, tem o Porto Lume, aqui de Porto Alegre, o filmelivre.
com, do Rio, o Cinecube Bah!,
que é um núcleo de 'tudantes da PUCRS, tem o Videoclube Falcatrua, de Vitória, o Curta Circuito, de Minas Gerais, tem a galera que exibe curtas na internet, como o Fim de Semana Pictures, e muitos outros», numa lista que parece não ter fim.
O cine.
CLUBE. 8 ito promove também o maior fórum de discussão livre e gratuito do Brasil, a lista Cine 8.
De lá saem a maior parte das co-produ ções, viagens e filmes coletivos, numa demonstração de força da produção independente.
O núcleo de produção
Optar por um cinema experimental tem um preço.
E é um preço que o Cinema 8 ito não se importa de pagar.
Mesmo que isso signifique ficar de fora da chamada «retomada» do cinema nacional. \ \
«Nós entendemos que existe muitas vezes uma confraria assumida, arrogante e cheia de soberba em vários momentos, uma panela muito fechada onde a ' camaradagem ' é que vale.
É da nossa cultura e o nome disso é exclusão».
Com a filosofia de «não ficar chorando em cima desse assunto», o pessoal segue o seu caminho à margem do lobby e dos tapinhas nas costas, promovendo o trabalho da melhor forma possível.
Prova disso é o DVD Geléia de Olhos, primeira antologia do Cinema 8 ito e que por enquanto ainda 'tá em 'tágio de pré-lançamento.
São 11 curtas dirigidos por três diretores do grupo.
«Em o DVD 'tão alguns dos nossos principais trabalhos, exibidos em vários lugares no Brasil e no exterior, alguns premiados.
Está lindo, um belo menu, making of, uma forma muito nossa e encarte e capa muito artesanais, do nosso jeito, porque gostamos de mexer com as cores e a criação diretamente».
Uma coisa muito legal é que todos os DVDs são enviados com autorização para a exibição, sem fins lucrativos, em qualquer cineclube, faculdade, 'cola e até mesmo 'quina.
Isso mesmo, 'quina.
Segundo o site do Cinema 8 ito, «o negócio é formar público para curtas livres».
E nada mais lógico do que uma iniciativa de 'sas.
Afinal, liberdade é um dos lemas desses gaúchos que vivem a sétima arte o tempo inteiro.
Número de frases: 38
Ou, nas ótimas palavras da biAh, «sem silicone, sem maquiagem, sem tapete vermelho, sem frescura, só cinema, do bom».
Música de Ponto é uma coletânea de músicas produzidas durante oficinas realizadas por a Cultura Digital juntamente com os Pontos de Cultura entre 2005 e 2006.
Esta é uma pequena amostra do trabalho com a diversidade cultural, apropriação das ferramentas de comunicação e fortalecimento de uma rede autônoma entre diversos pontos do Brasil.
Baixar todas as faixas do disco (.
mp3) Baixar todas as faixas do disco (.
ogg) Baixar faixas individualmente (.
ogg) Baixar capa, contra-capa e selo do CD (.
svg) Todas as faixas foram produzidas coletivamente em software livre e 'tão licenciadas em Creative Commons.
Você pode baixar, copiar, remixar e redistribuir 'tas músicas livremente.
Softwares utilizados:
Ardour, Jack, Alsa, Hydrogen, Zynaddsubfx, Pd, e outros ...
Muitas outras músicas foram produzidas em 'ses encontros e a seleção para 'te CD foi difícil e subjetiva, como qualquer seleção.
Veja as páginas das oficinas para obter para mais informações, ver e baixar vídeos, fotos e outras músicas produzidas em 'tes Encontros.
Produzido por:
Cristiano Scabello, Christian Osyo, Renato Cortez e Suriam
Número de frases: 15
Capa: Roberto Winter Localizado no coração de Goiânia, do lado de uma igreja católica na 'quina das avenidas Araguaia e Paranaíba, o sebo Hocus Pocus não é um mero comércio de discos, livros e HQs antigos e usados.
Com 14 anos de vida comemorados no sábado de carnaval com muito rock ´ n roll, a loja Hocus Pocus é também uma referência para encontros e informações do mundo do rock em Goiânia.
Reduto da cultura alternativa da cidade, a Hocus Pocus, cujas paredes são recobertas de histórias em quadrinhos, foi uma das primeiras referências para roqueiros goianos antes mesmo do início da cena profissional surgida dos festivais do selo / produtora " Monstro Discos.
«Fazíamos muitos shows de rock dentro da loja, apesar do pouco 'paço.
Bandas da Monstro tocaram muito aqui, como a MQN e Mechanics.
Eles ainda tocam», diz Moacir Oliveira Assunção Jr., o Juninho, como é conhecido o dono do sebo que montou com o irmão publicitário «Luiz Antônio» «Fafau».
Juninho fala do início, quando a Hocus Pocus servia de palco para uma já efeverscente cena roqueira (com predominância punk).
As bandas não tinham onde tocar e o sebo virou palco mensal.
«Fazíamos um show por mês e a banda 'calada ficava encarregada de trazer os equipamentos», relembra Juninho o calendário cujos shows tinham entrada franca e só podiam acontecer aos sábados de 14h às 20h, horário de início das missas da igreja católica» Coração de Maria.
«Ainda é regra, preferimos respeitar 'ses horários para manter a convivência pacífica e evitar reclamações.
Ultimamente temos feitos os shows só nos aniversários do sebo e não mais dentro da loja porque não comporta», informa sobre o palco improvisado que é erguido no 'tacionamento ao lado do sebo.
Ali, onde o dono do 'tacionamento deixa realizar os shows, costuma reunir cerca de 600 pessoas por apresentação.
Mas por que a associação sebo com rock?
Juninho ensaia uma explicação:
«Quando começamos, lançávamos muitos fanzines da cidade e as pessoas passaram a nos procurar para divulgar 'te material.
E como eram zines feitos na maioria das vezes por fãs de rock reverenciando seus ídolos, ficamos conhecidos com o sebo do rock».
Não só por isso, o tratamento, segundo visitantes de carteirinha, também ajudou a construir a fama.
Os irmãos sempre rolavam um som nos lançamentos dos zines e deixavam garrafas de vinho à disposição dos presentes.
Vinho do bom?
que nada, o velho e bom sangue de boi mesmo.
Nosso público é formado por os quebradões, a galera universitária que anda sempre com dinheiro trocadinho no bolso», diverte-se Juninho sobre seu nicho de mercado.
O lojista conta que tentou trabalhar também com revistas novas, edições atualizadas da Bizz e Rock «Brigade,» mas nunca deu certo porque o público queria sempre as velharias».
Além disso, explica Juninho, os contratos com as distribuidoras de revistas exigem sempre um número mínimo de exemplares que a Hocus Pocus não tinha como fazer girar em suas prateleiras.
Hoje, além de HQs, discos e livros do universo roqueiro, a Hocus Pocus trabalha também com material do hip hop, 'tilo que o dono passou a cultuar nos últimos anos.
«Gozado que já venho ouvindo e trabalhando com artigos de hip hop há uns dois anos, conheço bem a galera do rap da cidade, mas eles quase não freqüentam a loja, talvez por causa desse 'tigma que ficou com o rock», revela Juninho.
Jovens e antenados, os irmãos Oliveira Assunção já entraram na era da venda on-line criando uma loja virtual da Hocus Pocus (em www.hocus.com.br).
Em o site, a variedade de produtos usados e novos ('tes em maior número do que na loja real) cresceu, mas Juninho garante que o «point» Hocus Pocus continuará firme no centrão de Goiânia servindo de referência aos roqueiros de plantão.
A rodada de shows por o 14º ano do sebo aconteceu no sábado do carnaval com oito bandas da cidade, cujos integrantes também são clientes de carteirinha da Hocus Pocus.
Número de frases: 28
Confira a resenha feita por o crítico musical e jornalista Tárik de Souza publicada no Jornal Musical (http://www.jornalmusical.com.br/textoDetalhe.asp?
iidtexto = 427 & iqdesecao = 5) em 14/11/2006: Uma voz do tempo dos gramofones anuncia antes da primeira música:
«Gravado na casa dos Cachorros, Altos da Vila Nova, em jornada coletiva por a beira do rio Guaíbaaaaa».
E logo entra um rap / metal servido por cordeona, como dizem no Sul, cuspindo catadupas de palavras em «Tempo encurvado».
Com o nome emprestado a uma lendária figura de rua de Porto Alegre (cujo apelido deve remontar à época do primeiro cabaré Bata-clã, no começo do século passado, no Rio), o grupo gaúcho Bataclã F.C. mistura tudo em Assim falou Bataclan.
Épocas, 'tilos, rituais, liquidificam-se em faixas como «Tarde te amei», onde o reggae inicial cede a outras contra-correntes sonoras que deságuam numa reza para a divindade do candomblé Oxumaré.
Embora o linguajar seja o gauchês na maior parte do tempo (" caborteiro», «chinoca»,» gauderiada», «pelego»,» cochilha», «gaiteiro»,» bolicho "), a influência afro-brasileira, não muito comum por aquelas bandas, interfere também no 'tilizado samba-rock «Linha de São Jorge» (" toca fumaça para o céu / toca sopapo para a Ogun "), com intromissões de acordeon.
Como o pernambucano Mombojó, a inquietação 'tilística do Bataclã FC mistura 'tações em cada faixa.
Guitarras pesadas, scratches, rap, samba e jovem guarda.
«Eu ouço a cordeona ( ...)
enquanto eu sigo detonando o hardcore», dissipa «Amigo Frank».
«Menino pandeiro» (" da 'quina / fazendo hora extra na terra "), de suingado irresistível na quebrada, é sobre um pivete que aprende a manha das ruas:
«Se dormir aqui / não acorda mais / tá ligado, antenado, mocozado».
«Pode chegar» (" porta da rua / serventia da casa ") aborda a Imperadores do Samba (com repique aditivado) e o terreiro da Dona Laci, mas o scratch come solto junto com guitarras roncantes.
De hibridismo (" Minuano na boca do inferno ") em acoplagem (" Assim falou Zé da Terreira "), o Bataclã F.C. bate seus tambores e guitarras contra a mesmice.
Número de frases: 15
E exorcisa o marasmo.
A famosa série Vaga-Lume, lançada por a Editora Ática, com toda certeza marcou uma geração:
«O 'caravelho do diabo», «Éramos seis», A ilha do tesouro perdido» e outros tantos livros, se tornaram peça fundamental na formação cultural (?)
de cada um de nós (os trintões e quarentões de plantão).
O interessante é sair pesquisando -- como faço de tempos em tempos, ou pelo menos quando lembro de fazer -- qual foi o livro de ruptura.
Todos tivemos um livro de ruptura, responsável por o término das ilusões infantis e início das descobertas da vida adulta, pelo menos na 'fera literária.
É relativamente fácil identificar o livro responsável por tal 'trago, principalmente se levarmos em conta que tal experiência sempre deixa seqüelas ...
Com mim foi mais ou menos assim:
iniciava-se a sétima série na saudosa E.E.P.G. Profª Anésia Loureiro Gama (São Bernardo do Campo, SP) e o 'pírito da coleção Vaga-Lume ainda era nosso, senão único, ao menos principal referencial de literatura.
Havia uma professora de Língua Portuguesa muito severa chamada Célia Aiko (nunca vou 'quecer 'se nome), que provocava arrepios e desconforto cada vez que entrava na sala de aula, com seu material debaixo do braço.
Todos já tiveram uma Célia Aiko na sua vida:
odiada a princípio, o valor de 'sa rara categoria de professoras só é notado anos depois.
Com exceção dos autodidatas, todos devemos muito as Aikos da vida, são elas as responsáveis por os primeiros passos da nossa formação intelectual.
Pois bem, ela já havia avisado que teríamos leitura nas férias e que no segundo semestre faríamos uma prova sobre o livro em questão, um tal de «Vidas Secas».
Aquilo foi um «baque» na minha vida, imaginem um guri de 13 anos acostumado a ler histórias em quadrinhos e série Vaga-Lume encarando um Graciliano Ramos logo de cara.
Foi páreo duro!
Os comentários eram unânimes:
ninguém 'tava entendo patavinas!
Ela parecia se divertir com nosso desespero com a proximidade da prova.
O que fazer?
A quem recorrer?
Vamos matar 'sa mulher?
Uma cachorra chamada Baleia?
Que porra é 'sa?
O único remédio foi ler.
Confesso, foi um parto difícil!
Mas com o passar das semanas começamos a nos acostumar com o novo desafio;
digo «acostumar» porque compreender seria exagero frente as nossas inegáveis limitações teóricas.
Acho mesmo que 'sa era a intenção da agora célebre docente, nos apresentar um mundo novo, repleto de possibilidades e também de mazelas, belo e injusto, complexo e fascinante, como comprovaríamos de ali em diante ...
Por outro lado, tenho absoluta certeza que até hoje 'se livro deve causar arrepios em muitos daqueles jovens 'tudantes, horrorizados com o rito de passagem desenvolveram verdadeira ojeriza a literatura de modo geral.
Ora, como diria o general, alguns soldados sempre morrem na batalha.
A conclusão é óbvia, porém necessária:
Graciliano Ramos marcou minha vida.
Célia Aiko marcou minha vida.
E mais do que ninguém, uma cachorra chamada Baleia ainda corre e late na minha mente lado a lado com os heróis dos gibis.
Marcelo Viegas, 33 anos, é cientista social, redator da revista CemporcentoSKATE e colaborador da Rolling Stone Brasil.
Número de frases: 36
Conhecer novas culturas, paisagens e sotaques é uma aventura que amplia horizontes e transforma paradigmas.
Assim é o II Intercâmbio da Juventude Rural Brasileira, evento que começa no dia 28 de junho e segue ao longo do segundo semestre promovendo novas experiências a 120 jovens agricultores de 13 'tados brasileiros.
Onze organizações não-governamentais que investem em projetos de Educação do Campo 'tão participando da iniciativa.
Durante os cinco meses, os intercambistas terão uma vivência de duas semanas em outro meio rural, quando poderão conhecer o trabalho realizado por instituições congêneres e trocar informações visando o aperfeiçoamento mútuo e a melhoria da formação da juventude brasileira que vive no campo.
Enviando uma dezena de jovens e recebendo o mesmo número, as organizações apresentarão suas metodologias de ensino e / ou formação, propiciando aos participantes conhecer diversos tipos de unidades familiares de produção, agroindústrias, comunidades remanescentes, tecnologias alternativas etc.
O intercâmbio do jovem Agostinho Crocetta, de Lauro Müller (SC), será em novembro, mas a expectativa já é grande para sua viagem rumo ao SERTA, ong que desenvolve projetos de educação em Pernambuco.
-- Conheci alguns jovens do SERTA durante a II Jornada Nacional do Jovem Rural, no ano passado.
Vai ser bom reencontrá-los e conhecer o local e a realidade em que vivem.
Também pretendo compartilhar as experiências do meu território, o que aprendi que posso passar para outras pessoas», diz o jovem, egresso da ong Cedejor.
O II Intercâmbio é promovido por a Rede de Fortalecimento Institucional do Jovem Rural, um projeto coletivo formado por seis instituições (saiba quais) que promovem ações de cooperação e defesa conjunta da causa do jovem rural brasileiro.
«O Intercâmbio tem como objetivo favorecer a integração de jovens rurais e 'tabelecer uma rede focada no empreendedorismo, permitindo ações de transformação nos territórios rurais», afirma Luiz André Soares, consultor de Projetos Sociais do Instituto Souza Cruz, uma das organizações promotoras.
Os 'tados envolvidos em 'te II Intercâmbio são:
Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Maranhão, Santo, Bahia, Paraíba e Pernambuco.
I Intercâmbio da Juventude Rural
O I Intercâmbio foi realizado em novembro de 2006, reunindo cerca de 80 jovens e educadores rurais oriundos de sete 'tados:
Número de frases: 15
Bahia, Santo, Paraná, Pernambuco, Santa Catarina, Paulo e Rio Grande do Sul.
Em 2003 'crevi por um breve período textos sobre artistas e Cds para o site www.dissonancia.com. A iniciativa foi muito construtiva, tive minhas primeiras experiências como produtor de conteúdo.
Foram textos bem simples, sem pretensão alguma, um livre exercício de expressão.
Por vários motivos, acabei parando de 'crever.
Em dezembro de 2005, época de minha primeira viagem para Salvador, fazendo a produção executiva do grupo Bataclã FC (Alegre / RS) no VI Mercado Cultural, tive contato com vários artistas e CDs independentes, como Ladston do Nascimento (Gerais), Afonjah (Rio de Janeiro), Benjamin Taubkin (SP), Lucía Pulido (Colômbia), Fernando Tarrés (Argentina), Neto Lobo e a Cacimba (Salvador), Trio Manari (Pará), Ramiro Musotto (Argentina / Salvador), Afoxé Alafin Oyó (Pernambuco), entre outros.
Então pensei que seria importante 'crever sobre 'tes artistas, para dar mais visibilidade aos seus conteúdos, mas novamente fiquei só na vontade.
Em abril de 2006, ao participar da Feira da Música Independente de Brasília, recebi um Cd intitulado «Moqueca Musical», uma coletânea com música produzida no 'tado do Espírito Santo.
Fiquei impressionado com a quantidade de gêneros e grupos que eu desconhecia.
E isso voltava a me fazer pensar:
«quanta gente, como eu, não deve saber que isto 'tá acontecendo no Espírito Santo».
A partir daí, passei a pensar seriamente em trabalhar para ampliar a visibilidade de 'ta produção cultural.
Só faltava um empurrãozinho para começar ...
Em novembro de 2007 levei o empurrãozinho.
Por ter sido o proponente do trabalho do grupo Pata de Elefante, um dos selecionados do Programa Rumos Itaú Cultural Música 2007, recebi uma coleção de DVDs e CDs da edição do Programa Rumos Música 2004-2005.
Resolvi então partilhar observações e dicas sobre 'tes conteúdos, com o objetivo de que várias pessoas possam construir novos mapas de referências do que hoje é a nossa produção musical brasileira.
O que é o Programa Rumos?
Em atividade desde 1997, o Rumos Itaú Cultural é um programa de apoio à produção artística e intelectual sintonizado com a criatividade brasileira.
Rumos colabora para o fomento e o desenvolvimento de centenas de obras e de artistas das mais variadas expressões e regiões do país -- de músicos e cineastas do Norte a 'critores, coreógrafos e artistas plásticos do Sul;
de jornalistas e pesquisadores do Nordeste a educadores do Sudeste.
O caráter nacional do programa mobiliza artistas, 'pecialistas, pesquisadores e instituições parceiras, que fazem da cultura uma linguagem comum de fortalecimento da cidadania e das características múltiplas do povo brasileiro.
Os produtos gerados por o programa são distribuídos gratuitamente a instituições culturais e educacionais e disponibilizados para emissoras de TV parceiras e em 'te site.
Rumos Itaú Cultural Música 2004-005
Em sua edição 2004-005, o programa Rumos Itaú Cultural Música recebeu 1.410 inscrições de músicos de todo o Brasil.
Uma comissão julgadora autônoma, formada por Alexandre Mathias, Elizah, Glacy Antunes, Heloisa Fischer, Kassin, Paulo Freire, Pedro Osmar, Rappin ´ Hood, Sérgio Oliveira, Vitor Ramil e Weber Lopes e por um representante do Itaú Cultural selecionou 50 inscritos (entre artistas-solo e grupos) para integrar, com duas músicas cada um, a coletânea de sete CDs Rumos Brasil da Música.
Coletânea " Cartografia Musical Brasileira "
Além do registro sonoro, todos realizaram apresentações ao vivo, na Sala Itaú Cultural, em São Paulo.
Os shows foram gravados em áudio e vídeo digital, o que resultou num kit com seis DVDs, com parte das apresentações e entrevistas de cada um dos selecionados legendadas em inglês, francês e 'panhol, para possibilitar a difusão internacional desses conteúdos.
Os DVDs, os CDs e dois CD-ROMs de mp3 constituem a coletânea " Cartografia Musical Brasileira.
Artistas do DV D001 Rumos Brasil da Música
O primeiro DVD de 'ta cartografia musical apresenta os artistas Antonio Vieira, Renata Rosa, o duo João Luiz e Douglas Lora, Grupo Amaranto, Trio Curupira, Mombojó, Péri e Tião Carvalho.
Vamos começar conhecendo o trabalho de Antonio Vieira
Olhar sorrateiro, sorrisos e conversa gesticulada.
Assim começam os primeiras imagens do mestre Antonio Vieira.
Nascido em São Luís (MA) em 1920, cantor e compositor com mais de 60 anos de carreira e obra sólida, Mestre Antonio expressa suas raízes, ritmos populares do Maranhão como bumba-meu-boi e o tambor-de-crioula e a poesia do cotidiano com humor e delicadeza.
A o iniciar sua apresentação, saúda aos presentes:
«boa noite meus amigos, 'tou aqui para cantar, só 'pero em 'ta hora, conseguir vos agradar».
Em a seqüência, o artista canta «Em a cabecinha da Dora», composição sua com Pedro Giusti.
Após 'ta música, Mestre Antônio conta como ficou conhecido.
Em a versão oficial contada por ele, isso se deu por o fato de uma vez ter vencido um festival no Maranhão:
tirou primeiro lugar com a música «Papagaio de Papel» e segundo lugar com «Menino Travesso».
Em a versão fictícia que me vem à mente, a explicação é cantada por ele na próxima música intitulada «Cocada», onde convida» mulatas e louras, morenas e negras pra dar uma provada»!
Interessante a visão que Mestre Antonio tem da vida.
Os sabores das comidas de sua terra, a sensualidade, o prazer, tudo em equilíbrio na expressão de sua música.
De o alto dos seus 85 anos, ele aconselha:
«para se viver muito é preciso não ter vícios.
É a minha receita.
Segundo: não comer muita gordura.
Eu se puder comer vegetal, eu não como gordura de maneira nenhuma.
E depois cuidar um bocadinho do corpo».
Por fim, ele fala de sua relação com artistas como Rita Ribeiro (que veio descobrir o trabalho do mestre quando foi para o sul) e Zeca Baleiro, com quem fez um show num teatro em São Paulo.
«Enchemos o teatro.
Em 'se dia eu dei autógrafo por mais de uma hora de relógio!"
conta rindo o querido compositor.
E para que não fique dúvida da sabedoria popular que Antonio Vieira acumulou em sua trajetória de vida, ele encerra sua participação no DVD cantando «Banho Cheiroso», sobre o qual diz:
«você sente uma moleza, sem ter doença nenhuma,
tem a vida atrapalhada, não consegue coisa alguma,
então ouça meu conselho, que é muito valoroso,
e não perca mais seu tempo,
tome um banho cheiroso».
Espero conhecê-lo pessoalmente.
É uma pessoa muito carismática.
Mais informações sobre ele podem ser encontradas aqui.
Foram utilizadas também informações extraídas da cartilha Rumos Itaú Cultural Música 2007-2009 e DV D001 Rumos Brasil da Música.
Número de frases: 63
Os filmes independentes internacionais merecem mais 'paços de exibição -- isto todo mundo que freqüenta festivais deve se questionar ...
Os «little indie films» são muitas vezes exibidos apenas uma ou duas vezes em festivais e nunca mais são vistos por aqui, (nem na TV a cabo, imagine nos cinemas!).
São muitos filmes produzidos anualmente no mundo, para poucos 'paços de exibição em 'te país!
Foi pensando em criar novos 'paços alternativos para 'tes filmes, incontestavelmente ricos em contéudo e 'teticamente interessantes, que criamos o projeto Cine Indie Circuito que chegará em 10 cidades do Estado de São Paulo, bem acolhidos nas Unidades do SESC SP.
Estes filmes são um retrato de uma contemporaneidade, de uma postura, de um mercado, são tão diversos quanto únicos, por isso foram 'colhidos a dedo dentro da programação do Indie 2007 e de outros Indies.
Seus diretores amaram a idéia!
O público ...
'peramos que também possa conhecer um outro tipo de cinema.
Experimentar.
Confira!
Novo Circuito Para Novos Diretores
A partir de outubro, São Paulo irá receber o Cine Indie Circuito (CIC) que exibirá 10 filmes em 10 unidades do SESC SP.
O CIC vai ser exibido em Araraquara, Campinas, Piracicaba, Santana, Santo André, Santos, São Caetano, São Carlos, São José dos Campos e Taubaté.
O Cine Indie Circuito, uma realização do SESC SP e da produtora cultural mineira Zeta Filmes (www.zetafilmes.com.br), surge com o intuito de dar continuidade ao trabalho de formação de público e difusão do cinema independente, em 'paços de exibição descentralizados, iniciado há 8 anos com o Indie -- Mostra De Cinema Mundial.
A mostra, que nasceu em Belo Horizonte, e que já levou mais de 150.000 'pectadores gratuitamente aos cinemas do circuito cultural, tem sua versão paulistana desde 2007 quando aconteceu no CINESESC.
O CIC apresentará três documentários e sete ficções, realizados em 6 países, numa proposta única de criação de novos 'paços de exibição para o audiovisual.
Entre os filmes que fazem parte do circuito foram selecionados obras que participaram da mostra nas edições 2007 e 2006 e que representam a diversidade da produção independente internacional.
A programação apresenta desde documentários sobre música (" American Hardcore "), sobre o povo invisível na Islândia (" Hudulfolk "), filmes de ficção da Malásia (" Casa de Pássaros "), sucessos de público como o divertido " O Livro de Recordes de Shutka ";
filmes de diretores 'treantes como «Carro a Sangue e» «Ladrão de Memórias», além do americano «Monstros de Quatro Olhos» que ficou conhecido por sua proposta de distribuição por a internet.
O Cine Indie Circuito vai percorrer 'tas 10 cidades paulistas de outubro até março de 2009, e todas as exibições terão entrada franca.
Para saber em qual cidade o CIC 'tará sendo exibido basta consultar o site do SESC SP -- www.sescsp.org.br.
A programação começará em outubro no SESC Santana.
Confira no link os horários.
Filmes da programação do CIC:
American
Hardcore (idem), de Paul Rachman, EUA, Documentário, 2006, 100 ´.
A história do punk rock americano entre 1980 e 1986.
Praticamente ignorada, a cena punk rock hardcore do início dos anos 80 foi percussora da música e da cultura que se seguiram.
Haveria Nirvana, Beastie Boys ou Red Hot Chili Peppers se não existissem os pioneiros como Black Flag, Bad Brains e Minor Threat?
Hardcore era mais do que música, era um movimento social criado por jovens marginalizados da era Reagan.
Constituíam uma tribo, enquanto alguns procuravam um mundo melhor, outros 'tavam irritados e querendo mandar tudo para o inferno.
A Balada De A.J WEBERMAN (The Ballad Of A.J Weberman), de James Bluemel & Oliver Ralfe, EUA / Inglaterra, Documentário, 2006, 83 ´.
O retrato da obsessão de um homem.
Em 'te documentário acompanhamos a vida e os crimes do famoso perseguidor de Bob Dylan e inventor da Garbology (a arte feita do lixo recolhido da lixeira de personalidades), A.J Weberman.
De forma irreverente, bem humorada, explora as obsessões de Weberman, sua vida junto aos rebeldes de Nova York, vivendo à margem do sonho americano.
Traz também uma série hilária de conversas telefônicas entre A.J Weberman e Bob Dylan.
Carro
A Sangue (Blood Car), de Alex Orr, EUA, 2006, 75 ´.
Em um futuro próximo o preço da gasolina será muito alto, por isto Archie Andrews, um professor ambientalista e vegetariano, 'tá determinado a encontrar uma fonte alternativa de combustível.
Acidentalmente ele tropeça numa solução:
sangue humano!
Archie se torna um dos poucos a dirigir um carro, atraindo a atenção da obcecada por sexo Denise.
Mas como carros movidos a sangue não andam sozinhos, eles precisam de mais sangue, sangue de seres humanos!
Casa De Pássaros (The Bird House
Nião Wu), de Khoo Eng Yow, Malásia, 2006, 97 ´.
Dois irmãos divergem sobre o que fazer com a antiga casa da família, em autêntico 'tilo Malaca, uma pequena e histórica cidade na Malásia.
Hua quer investir no mercado de ninho de pássaros (uma sobremesa popular entre a comunidade chinesa), mas teria que convertê-la numa grande casa de pássaros sem alertar as autoridades.
Já Keat quer restaurar a casa e transformá-la numa loja de antiguidades.
O pai idoso, assim como a casa, diz pouco, mas sente tudo.
Huldúfolk
102 (idem), de Nisha Inalsingh, Islândia, Documentário, 2006, 75 ´.
Por baixo da calma aparência da Islândia, existe uma nação invisível:
os huldufólk, ou melhor, o povo 'condido.
Investigando as histórias do povo 'condido, sejam, fadas, duendes e todas as coisas com até 90 cm de altura, é impossível não considerar o impacto da posição geográfica e do isolamento do misterioso país.
Este original documentário, entrevista historiadores, 'critores, políticos, fazendeiros e operários que falam sobre o efeito dos «invisíveis» na cultura islandesa.
O Ladrão De Memórias (The Memory Thief), de Gil Kofman, EUA, 2007, 94 ´.
Lukas é um jovem meio perdido, que vive em Los Angeles, e tenta enterrar seus problemas na monótona rotina de atendente numa cabine de pedágio.
Um encontro ocasional com um sobrevivente de Holocausto, repentinamente, lhe traz um mundo e uma identidade que ele abraça com intensidade assustadora:
a dos judeus vítimas da Segunda Guerra Mundial.
Lukas, um não-judeu, começa então a representar sua recém encontrada obsessão.
O Livro DOS Recordes De SHUTKA (Knija Rekorda Sutke), de Aleksandar Manic, República Tcheca / Sérvia / Montenegro / Macedônia, 2005, 78 ´.
Em os Bálcãs há um lugar raro, 'condido do mundo, Shutka, a suposta capital mundial dos Roma (os ciganos de 'ta região européia).
O documentário captura a história inacreditável de 'ta cidade e seus habitantes que promovem de lutas de ganso, caça ao vampiro, extermínio de gênios do mal, festa de circuncisão até as mais absurdas competições, como a de maior coleção de fitas K-7.
Shutka existiria mesmo, você pensará sorrindo.
Monstros
De Quatro Olhos (Four-Eyed Monsters), de Susan Buice e Arin Crumley, EUA, 2005.
85 ´.
Arin e Susan são artistas e vivem em Nova York.
Ele trabalha fazendo vídeos de casamentos, documentando o amor dos outros.
Ela é garçonete e gasta suas noites servindo mulheres de dieta.
Os dois vivem sozinhos.
Um dia se encontram on-line.
Querendo evitar o mundo dos encontros, decidem se comunicar apenas através de meios artísticos.
Via notepads, e-mails e câmeras de vídeo.
Com o tempo, começa a dúvida se a relação de eles é apenas um experimento artístico.
Quarto
314 (Room 314), de Michael Knowles, EUA, 2006, 100 ´.
O mesmo quarto de hotel, cinco histórias sobre casais em 'tágios diferentes de relacionamentos.
Desejos intensos de ligação, as tensões subjacentes e as tentativas de se dizer ao outro o que se quer e, ocasionalmente, conseguir.
Um olhar próximo e íntimo voltado para 'tas pessoas, por vezes até desconfortável, mas que mostra uma verdade universal:
desejar ter uma relação com o outro e saber como alcançá-la são duas coisas inteiramente diferentes.
Tijuana
Me Faz Feliz (Tijuana Makes Me Happy), de Dylan Verrechia & James Lefkowitz, México, 2007, 79 ´.
Tudo que Indio queria de presente por seus 15 anos era um galo de briga vencedor chamado Gyro.
Como seu pai não pode lhe dar o galo, lhe apresenta Brianda, uma jovem prostituta.
A surpresa de aniversário não sai como o previsto, mas Indio 'tá determinado a comprar o galo e tenta fazer dinheiro vendendo empanadas, lavando carros e, finalmente, transportando drogas na fronteira México e Estados Unidos.
Mas o sonho de Indio muda quando reencontra Brianda.
+ + + + + + + + + + + + + + + + Serviço
Cine Indie Circuito (CIC)
Lugar: SESC-SP nas unidades de Araraquara, Campinas, Piracicaba, Santana, Santo André, Santos, São Caetano, São Carlos, São José dos Campos, e Taubaté.
Período:
outubro de 2008 a março de 2009.
Número de frases: 92
Consulte a programação no site www.sescsp.org.br ou se informe por o telefone 0800 11 82 20.
Casal campo-grandense ganha medalha de ouro em concurso de Dança Esportiva
Os dançarinos profissionais e professores Ivan Sousa e Daniele Barilli 'tão na maior festa.
O casal trouxe para Mato Grosso no Sul no último domingo o título de campeão e uma medalha de ouro por serem 'colhidos os melhores competidores da Terceira Copa Esef de Dança Esportiva, realizada em Jundiaí, no interior de São Paulo, no sábado (7).
A Dança Esportiva é a forma competitiva da Dança de Salão que obedece a regras internacionalmente 'tabelecidas por a Federação Internacional de Dança Esportiva.
É também uma modalidade olímpica e já tem cerca de 400 mil praticantes por o mundo.
Dividido por níveis e ritmos:
cinco danças européias ou ' standard', que são valsa lenta, tango, valsa vienense, slow fox e quickstep;
cinco latinas, compostas por cha-cha, samba, paso doble, rumba e jive, uma forma de rock n ' roll e, por fim, a combinação, com as dez danças juntas.
«Estamos muito felizes com o título.
A competição foi bem concorrida, havia muitos casais qualificados participando.
Gente que recebia treinamento com profissionais, enquanto a única experiência que tivemos com um treinador foi em fevereiro deste ano», comemora Ivan.
O casal recebeu orientações da celebre treinadora de Dança Esportiva, Bettina Ried, a precursora da modalidade no País.
Bettina também participou da organização do concurso, ao lado de outros diversos profissionais de " Dança Esportiva do País.
«Apesar de nos conhecer, ela foi muito imparcial», afirma o dançarino.
Segundo ele, a maior pontuação que tiveram foi na modalidade «standard», onde levaram notas máximas por a boa desenvoltura nas performances.
«Elogiaram o fato de evoluirmos na pista por completo e também o nosso figurino», relata Ivan.
Eles competiram com divesos casais e na eliminatória «levaram a melhor» entre sete duplas.
Agora os professores campo-grandenses vão se preparar para a etapa nacional, que será realizada em São Paulo de 19 a 27 de julho, durante o II Congresso Internacional de Dança Esportiva.
Em a Copa ESEF Ivan e Dani, como são conhecidos por os seus alunos, ganharam além da medalha de ouro um certificado de participação no concurso.
Já no Congresso Internacional vão concorrer à uma viagem com tudo pago para uma disputa na Europa, ainda com local e data a serem definidos.
Sobre
O Casal
Ivan de Sousa e Daniele Barilli são casados e se apresentam em Campo Grande regularmente, onde também mantém uma academia de dança de salão.
O casal se conheceu através da dança, 'pecificamente numa oficina de dança de salão.
Ambos são licenciados por a Confederação Brasileira de Dança Esportiva e pioneiros no Estado de Mato Grosso do Sul.
Ivan é graduado em Educação Física e Administração de Empresas.
Iniciou a carreira de bailarino em São Paulo, dançando Street Dance no Grupo Domínio.
Passou por a Academia Jazz In Company, onde aprendeu jazz e balé.
Dançou forró e zouk no Grupo Sol Nascente e foi monitor de dança na capital paulista.
Daniele é graduada em Pedagogia e atualmente cursa 'pecialização em Psicopedagogia.
Teve aulas de Balé moderno e Dança de Salão e é 'pecialista em Dança Criativa.
O casal já teve importância reconhecida por importantes nomes da dança, como o bailarino argentino Hector Bohamia e da renomada treinadora Bettina Ried.
Em 2007, ambos foram convidados para participar de uma apresentação do bailarino em Campo Grande e no interior do Estado.
fonte:
Número de frases: 35
Manuela Barem Acaba de 'trear no Rio de Janeiro a cópia restaurada do filme «O Homem que virou Suco», de João Batista de Andrade, ex-secretário de cultura do 'tado de São Paulo.
O trabalho de restauração feito a partir de cópia em 35mm (o filme original em 16mm de 1980 'tá perdido) traz de volta uma realização cinematográfica 'sencial para mostrar o choque entre a parte dita moderna do Brasil e os representantes das zonas julgadas atrasadas.
José Dumont, em interpretação brilhante e ganhadora de vários prêmios internacionais, apresenta um «nordestino», tipo por o qual o ator ficou marcado, tentando viver em São Paulo.
Mas 'te é um «nordestino» diferente.
Deraldo não é um analfabeto, mas um poeta.
Ele não acha que vai contribuir para o progresso nacional sendo pedreiro, porteiro, garçom ou outra profissão subalterna que faz dos imigrantes do NE uma versão nacional do que representa os latinos para os Estados Unidos.
A violência 'tá em múltiplos níveis:
insultos verbais, perseguição policial e oficial, paternalismo e mesmo comida 'tragada servida aos peões.
Mas a principal ameaça para Deraldo é a internalização do 'tereótipo, mostrada de maneira belíssima através de uma animação sobre a vida do operário Virgulino, que desperdiça a chance de se civilizar e prefere viver a base da cachaça e da peixeira.
A luta de Deraldo é não se tornar 'ta imagem miserável que se tem do nordestino, que de «arretado» facilmente vira «canganceiro» no desconhecimento total que as partes mais ricas do país tem da história e da cultura das outras regiões.
Luta para não se tornar como o seu duplo, o pobre Severino, cujo drama paralelo presente no filme é digno de João Cabral de Mello Neto.
As passagens em que clássicos musicais da imagem monolítica e arcaica do NE são apresentados -- Asa Branca e Mulher Rendeira -- são desconcertantes.
Estas e outras canções embalam as desventuras de Deraldo, caso exemplar do 'forço não reconhecido de pessoas deslocadas de seu lugar de origem para «erguer 'tranhas catedrais» e desbravar seringais.
Número de frases: 13
Uma luta incessante para não virar suco.
Nem lembro desde quando gosto do Pink Floyd, ao que me recordo, me vejo com 15 anos em casa, deitado na cama ouvindo Shine On You Crazy Diamond, que confesso, já a 'cutei 9 vezes em seguida, mesmo com seus 13 min, pequenas confissões de fanático mesmo.
Quando soube do show The Dark Side of The Moon, do Roger Waters, o ex-vocalista e baixista e principal mentor da banda, ainda em agosto do ano passado, já me vi na oportunidade de ver, pelo menos, um resquício do que foi a grandiosidade progressiva ao vivo.
Saí de Cuiabá junto de dois amigos, Breno e João, que também não poderiam perder 'se 'petáculo por nada.
Nós três formamos a nave psicodélica In The Flesh!!
Em busca do negro da lua, parafraseando o disco, de 1973, que recebeu também o nome do show.
Logo na chegada do Morumbi, ainda bem no começo da tarde, já vi as grandes filas formadas, justificando os ingressos 'gotados ainda em fevereiro.
Como tinha o credenciamento de imprensa, fui à sala dos jornalistas, que fica na cabine de rádio, de trás de um enorme vidro, então pensei com mim:
Esperei tanto tempo para ver um show de um dos floydes e agora vou ver tudo de trás de um vidro?
Chamei o Cid, jornalista da Editora Abril (que ali representava a Revista Veja, e que eu tinha conhecido na fila pra entrar no 'tádio), e formos em direção ao gramado, conversamos com os segurança e depois de muita embromação fomos liberados.
Em o gramado, onde ficam as cadeiras, conseguimos um lugar bem perto da «frente», onde se podia ver o show de um belíssimo ângulo.
Quando olhei em volta, vi todo o 'tádio lotado, ali mesmo, já fiquei com o suor frio, 45 mil pessoas com um sonho em comum, que seria realizado em pouco tempo.
É uma visão forte demais para um pequeno floydiano como eu.
às 21h, todas as luzes se apagam, é quando o senhor de 64 anos e sua banda de caras que também já passaram dos 40, entram no palco.
A multidão se cobre de flashs e gritos, clima totalmente favorável para a primeira música, In the Flesh, a primeira música do antológico The Wall, de 1979, talvez o álbum mais conhecido da banda.
Quando termina, Waters pega o violão e soa os primeiros acordes de Mother, com Kate Kisoon no vocal, eu só ouvia a arquibancada cantando aquela canção, que falava de uma criança com medo da guerra, e das incertezas de acreditar no governo.
E depois vêm Set The Controls For The Heart Of The Sun, a música mais antiga do repertório, gravada em 68.
Ainda na euforia das primeiras sensações do público, Waters manda três músicas do Álbum de 1975, Wish You Were Here, dedicado à Syd Barret, ex-fundador e líder da banda, que faleceu em junho do ano passado, por complicações de diabetes.
No meio da Shine On You Crazy Diamond, aparece no telão a foto de Syd, olhei para o lado e pude ver pessoas caindo em lágrimas, foi difícil segurar meu choro, que já 'tava explodindo.
Logo após de Have a Cigar, entra o antológico riff de Wish You Were Here, que recebe o mesmo nome do disco.
O reconhecimento paternal que a música nos proporcionou foi imediato.
Water agora entra no último disco do Pink Floyd com a liderança de ele, The final Cut (1983), que tem toda a base do The Wall que, por ser autobiográfico, desvenda a presença dos conflitos pessoais gerados por o surgimento da 2º grande guerra.
Pra quem não sabe, Roger perdeu seu pai em 1943 no campo de batalha travado em Normandia, no noroeste da França, quando ele ainda 'tava na barriga da mãe, isso trouxe ao cantor ausências que futuramente serviram de bases para quase todas as composições do Pink Floyd.
E de sua posição política quanto à guerra.
Em o momento em que tocou The Fletcher Memorial Home (Fletcher foi o nome do seu pai), no telão mostrou a foto de um soldado com uma faca travada nas costas, com gesto de traição.
E logo depois um quarto com fotos de ditadores e políticos pendurados numa parede, de entre as fotos que apareceram 'tão Osama Bin Laden, Sadam Hussein, Hitler e George Bush, seguidos de frases «arrebatadoras» como " A morte é a solução de todos os problemas.
Sem Homens, Sem Problemas».
Daí em diante, Waters aproveita todo o transe político e aproveita para continuar o protesto apresentando suas duas músicas solo, a primeira são as duas partes de Perfect Sense, do disco Amused to Death, de 1992.
E de 2004, Leaving Beirut, um single que foi lançado somente por a internet resultado de uma experiência em Beirut, capital do Líbano, que ele visitou quando tinha 17 anos.
Uma viagem que o tocou profundamente, o cantor fez questão de contar 'sa historia quando 'tava no palco.
Para completar e finalizar a primeira parte do show, o set list acaba com Sheep, do Álbum Animals que foi lançado em 1977 e que fala sobre as pessoas que andam inocentemente sem querer ver o real perigo que cerca o mundo, que agem como ovelhas (Sheep, em inglês).
Em o disco original tem um porco inflável na capa, e Waters usou 'sa idéia novamente para a turnê, sempre lançando o porco voador com frases 'critas em ele, e quase sempre, frases de protesto, sempre de acordo com o andamento social, econômico e político do país.
Aqui no Brasil, muito se 'peculava do que seria 'crito, o que virou grupo de discussão em rodas políticas por aí.
Mas quando o porco sai voando, se podia ver em letras maiúsculas -- «O Brasil 'tá sendo vendido» -- «Bush, nós não 'tamos à venda», -- fazendo uma alusão a visita do presidente americano.
«Ei, assassinos, deixem nossas crianças em paz», lembrando o assassinato do garoto João Hélio, que foi arrastado por 7 km por ladrões, preso no cinto de segurança.
«Nós não precisamos de educação», também lembrando o The Wall.
Depois de uma breve pausa de 15 mim, tudo volta, e agora é a parte do disco inteiro tocar.
Pra você ter uma idéia, The Dark Dide of The Moon, lançado em 1973, ficou 724 semanas na parada dos E.U.A, vendeu mais de 30 milhões de cópias, e hoje, já cativa e forma sua terceira geração de seguidores.
Em o inicio, Speak to Me, uma batida no coração, a pulsação vai se alastrando por o 'tádio, dando todo o clima para Breath, cantado por o guitarrista David Kilminster.
Cantada por ele é 'tranho, claro que você fica com ciúmes do cara cantar no lugar do David Gilmour, mas logo vê, que quem dá o aval é o Waters, então deixa 'sa passar até chegar à primeira instrumental.
On The Run mostrou que uma viagem psicodélica se faz também com sons e imagens, no telão, ora aparecia um carro de fórmula 1, ora aparecia um metrô, os dois em altíssima velocidade.
O 'petáculo sobre a música prendeu todo mundo.
Depois da tensão causada, logo vêm a famosa introdução de Time, que alimenta a expectativa de qualquer um, numa preparação dos primeiros versos, 'sa foi uma daquelas músicas que o cara levanta gritando com o braço 'ticado.
Quase chorando.
Daí em diante, se vê só os clássicos, primeiro The Great Gig in The Sky, umas das imortais do disco, que no disco é cantada por Clarie Tory.
Quem conhece a música, sabe que ela não é uma canção que você vê ao vivo, é quase impossível imitar aquele vocal.
E isso causou desconfiança de quem iria cantar, e quando Carol Kenyon pega o microfone e vai nos primeiros compassos, o êxtase foi plural, só indo no youtube mesmo pra saber o que foi aquilo.
De a li em diante, vêm Money, que acendeu todos os ânimos de uma vez, em 'se momento, percebi que a banda tinha -- finalmente -- cumprido seu papel, como se eles dissessem: --
Pronto, missão cumprida.
Vi muitos senhores de 60 anos chorarem na introdução de Us and Then.
Propício à apaixonante Any Colour You Like, quebrando a doce e sublime Brain Damage, uma das músicas que mais 'perei antes do show, e que fechou na explosiva Eclipse, que -- desculpe o clichê -- abaixou as cortinas com chave de ouro.
Eu decorei o Dark Side com 17 anos, sabia de toda a 'trutura do disco, até os solos, mas ver ao vivo, me deu a emoção da primeira vez que o ouvi, uma sensação que ainda não consigo explicar, e acho que mesmo quando tiver 70 anos, ainda não vou conseguir.
De aí então, Waters diz obrigado, e sai dando o seu tradicional tchau, claro que sabíamos que ele voltaria, mas qual o artista que não gosta de voltar vendo seus fãns pedindo mais?
Ele demora 2 minutos e volta, com a banda toda e diz: --
OK!! Tira do bolso um bilhete e lê (em português), a apresentação do coral do projeto Guri, que trabalha na inclusão social de crianças de baixa renda.
Elas entram para cantar Another Brick in the Wall, a música que não poderia faltar.
Em a camisa de todos eles têm 'crito «O medo constrói muralhas», mais uma crítica à guerra de Bush.
Ele começa com The Happiest Days of Our Lives, mais uma do The Wall, que na minha opinião, é a mais criativa num curto 'paço de tempo, criado por o Pink Floyd.
Quando ele canta «we don't need to education» o 'tádio se treme, logo porque 'sa é a musica mais conhecida do Floyd no mundo todo, até aqueles que nem sabe quem é a banda, sabem pelo menos, solfejar a canção.
Logo depois, lentamente, ele começa Vera, uma das músicas mais belas e profundas que já foi feita, claro que isso é na minha opinião, quem nunca a ouviu, aconselho não demorar muito, e veja a seqüência Bring the Boys Back Home, que também foi tocada lá, foi completamente excitante, lembrei do filme The Wall, quem é uma cena tão enigmática quanto o quarto no 'paço do filme 2001, uma odisséia no 'paço.
Tudo muito prazeroso.
Para terminar, lá vem a última música, que é a mais pedida nos barzinhos por o país.
Comfortably Nunb e seu incrível solo, na hora do refrão, novamente não vi o Waters cantando, por o tamanhos gritos que seguiam.
Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, como digo, as três horas mais confortáveis que passei, tudo isso, me levando aos mais variados sentimentos.
De lá, me lembrei de cada momento da minha infância, adolescência e juventude, tudo com o som cru da maior banda que já vi na minha vida.
Número de frases: 65
Excepcional. Manifesto
De Defesa De o SESC
http / www.
PetitionOnline. com / gg1 jg2fh / petition.html
O governo federal pretende enviar ao Congresso Nacional projeto de lei que retira pelo menos 33 % dos recursos do SESC para a criação de mais um fundo de financiamento de programas de formação profissional.
Diante desse risco, é nosso dever expor à sociedade brasileira o valor e a importância de 'ta instituição criada, mantida e administrada com recursos privados e amparada por a Constituição Brasileira (art. 240).
«A intenção do Governo Federal de fazer alterações no Sistema S não é nova.
Ainda em novembro do ano passado, no bojo das discussões sobre a prorrogação da CPMF, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a pretexto de desonerar a folha de pagamentos, citou o valor de R$ 13 bilhões de reais arrecadados por ano por o Sistema S, como bastante elevado se comparado ao orçamento dos Estados.
De a intenção para a prática, o Governo Federal foi bastante rápido.
As primeiras propostas de mudanças no Sistema S foram anunciadas no final de março, começo de abril, por os ministros da Educação, Fernando Haddad, e do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi.
Criado há mais de 60 anos, o Sistema S é formado por organizações criadas por os setores produtivos como indústria, comércio, agricultura, transportes e cooperativas, entre outras, que têm como objetivo promover a formação profissional e assegurar assistência social ao trabalhador.
Todas elas são financiadas por meio da distribuição dos recursos que hoje são usados nos próprios 'tados onde são arrecadados, advindos de contribuições a partir de 2,5 % sobre o valor da folha de pagamento dos funcionários.
No geral, são 'ses os recursos empregados por o SENAI na formação de mão de obra para a indústria, por o SESC no desenvolvimento de extensa programação cultural a preços mais acessíveis para os brasileiros dos quatro cantos do país, por o SEBRAE na promoção de inúmeros cursos e eventos para empreendedores, só para citar as organizações mais conhecidas." (
trecho da matéria publicada na Tribuna do Norte)
É inacreditável que o Ministério da Educação, além de não exercer seu papel primordial de criar condição para formar cidadãos que ergam 'te país, ainda queira intervir no SESC, uma instituição que funciona exatamente como exemplo daquilo que o governo não faz.
E é bom que se diga:
a incompetência e descaso com a formação do cidadão brasileiro não é mérito do governo Lula.
Os governos passados foram igualmente descompromissados, até o ponto de chegarmos a realidade ora vigente.
Ou seja, ameaçar o acesso ao SESC um 'paço há 60 anos assegurado para o desenvolvimento pessoal, físico, 'piritual e intelectual dos seus milhões de freqüentadores em todo Brasil-de qualquer dano, deveria sim ser considerado um crime inafiançável contra o direito à dignidade humana, adquirido por os brasileiros graças aos SESCs, que aplicam -- a olhos vistos-seus recursos na Educação, buscando o desenvolvimento integral das pessoas.
O SESC, portanto, não pode ter seus recursos reduzidos, uma vez que é agente 'sencial de Educação -- no seu sentido mais amplo.
Os governos passam, mas o SESC fica e deve servir como exemplo a ser multiplicado.
Vamos agir por a permanência dos serviços prestados por o SESC.
Por toda sua extensa programação cultural, por os cursos de iniciação 'portiva, por o 'paço aberto todos os fins de semana para tribos, turmas, famílias, solitários;
de todas as raças, gêneros e classes sociais.
Quem conhece o SESC e acredita na sua ampla ação de educação permanente, pode assinar o manifesto de defesa de 'sa causa e 'palhar para o maior número de pessoas possível.
O Ministério da Educação 'tá correndo para aprovar seu projeto de Lei e a gente tem de correr para impedir que 'se absurdo deletério se imponha aos nossos direitos conquistados.
Manifesto
De Defesa De o SESC
http / www.
PetitionOnline. com / gg1 jg2fh / petition.html
Para Entender Melhor O Que Está Rolando
Número de frases: 31
www.sescsp.org.br/sesc/intervencaoSESC/index. htm Sair de João Pessoa para Fortaleza -- CE, pra participar da feira da musica, ver um monte de bandas na faixa, palestras, produtores e muita gente fazendo musica -- digo em todas as vertentes e âmbitos -- CDs e Vinis a venda, além de uma cidade grande pra caramba.
Essa era minha missão no dia 19 passado.
Como sabia que iria ter que ser desenrolado em 'sa viagem, levei o mínimo de roupa possível, e um colchão.
O que resumiu bastante minha bagagem e preocupação.
A viagem cansativa e chegando lá nem deu tempo de respirar, fiquei hospedado na casa do pai do batera da banda Os Reis da Cocada Preta junto com abana toda e mais os caras da banda.
Para atravessar a cidade demora uns 45 min..
A gente teve de fazer o percurso duas vezes, pra deixar as bagagens e voltar pra o Sebrae.
A tarde foi entre rodadas de negócios e painéis, de modo que no fim do dia tudo o que eu menos queria era voltar para a casa, fiquei na cola pra arrumar um convite para a festa de abertura da feira, e consegui, cheguei lá e vi um show maravilhoso de Manasses.
Um lance meio violado psicodélico, muito bom, cheio e batuques e sonoridades afro.
Infelizmente não encontrei nenhum link para poder passar.
1:30 da madruga, voltei para a casa, afinal eu 'tava sozinho numa cidade 'tranha.
Em a quinta-feira deu tempo para assistir a Plastic Noir.
Me lembrou demais de Depeche Mode.
Não é a toa que eles são apontados como uma das maiores bandas góticas do Brasil.
O show aconteceu no Centro Cultural BNB e achei muito interessante o público, todo mundo sentadinho com cara de crítico musical.
A banda dando um gás, não quis chamar atenção e fiquei num cantinho lá atrás, dançando de levinho.
Voltei para o Sebrae, mais rodada de negócios e mais painéis, perdi algumas bandas que queria ver.
Saímos eu e Diego (o baterista dos Reis) fomos alugar um carro, pois teríamos de sair de ali para um município vizinho, era hora da apresentação no Bar do Glauber em Maracanaú.
Rodamos cerca de uma hora de carro até chegarmos na cidade, mas uns 40 min procurando bar.
Tava rolando um stress porque a cidade é interiorzão mesmo, aquele clima de «opa, vamos tocar pra ninguém», mas a surpresa foi enorme quando vimos uma rua cheia de» head banguer», indies, grunges, tinha rockeiro pra todo gosto, e era uma rua lotada, 'condida no meio do nada.
Primeiro o show dos Reis, muita gente olhando desconfiada, só nas 'pera.
Jansen puxa uma cover de Queens of the Stone Age pra passar o som e quebrar o gelo, tudo certinho detona em cima um som daqueles e a rua agitada chega bem perto do palco pra ver.
Foi uma noite ótima, não fosse a chegada da polícia na ultima banda, pra nossa tristeza maior ainda, eram os caras da Cerva Grátis.
Fazer o que né?!
Polícia é polícia e a população queria dormir.
Em a companhia de Talles Lucena da banda Joseph K?
nos guiou por Fortaleza para beber, fumar, curtir, pular, gritar e de repente chegar em casa as 8:00 da manhã, com 5 completamente embriagados, 1 com o dedo lascado (na porta corrediça do Doblô) e 1 motorista puto porque não pode beber o que queria, eu mesmo.
Em a sexta-feira tiramos pra curtir, nada de painéis nem rodada de negócios, nem workshop, nem nada, só cerveja e som.
Vi os shows de Red Run e Madame Saatan nos palcos da feira.
Gostei da Red Run, só achei o Inglês meio tosco, não sou muito bom, mas também não sou tão ruim, consegui entender que o vocalista disse que queria «foder com nossas faces».
Mas o som tava bom, pancada mesmo, gostei do naipe.
Já Madame Saatan, foi o máximo, metal diretamente do Pará, com uma vocalista muito gata, pulando se 'goelando, agitando e nem ai pra quem foi lá avaliar, só queria fazer a festa e fez.
Com uma pirralhada ensandecida que 'tava na beira do palco.
Muito boa a banda, mas não conferi até o fim, sai antes porque queria entrar no Hey Ho Rock Bar e sacar a cena local.
Perdi a Macondo e a Inflame, mas ainda pude conferir Os Malditos trazendo um rock bem 80, só que mais psicodélico, uma influência grande de The Doors, letras profundas.
A segunda banda Drive Sex me deixou instigado, era um hard rock muito bem feito, solos fenomenais, ataques de pedais duplos e um vocalista que 'tava entre o Axel Rose e Vince Neil.
De aqueles que qualquer palco é pequeno pra ele.
Pra fechar Joseph K?
mandando seu rock «one two tree four», que para dar uma força ao pessoal do Cerva Grátis deixou que eles encerrassem a noite.
Mais cervas e mais curtição, paramos em casa as 4:00 da matina.
Em o sábado era a volta, entreguei o carro a tempo de chegar no Sebrae ver a reunião da ABRAFIN e o ultimo painel.
Fiquei com a turma do Burro Morto até o dia acabar, e o ônibus chegar.
Cheguei de volta em João Pessoa às 14:00h morrendo de dor de cabeça, afinal não era eu quem 'tava na direção naquele dia e resolvi descontar.
Mas outra coisa me incomodava, eram as idéias e pensamentos que corriam soltas, que me deixavam inquieto acendi um cigarro e fui para a casa tonto, não da cervejada -- ressaca se cura tomando água -- o problema são todas as coisas que vi aprendi e 'cutei nos últimos dias me deixando atordoado.
Número de frases: 44
Sempre me pergunto como tem gente que nem se preocupa em saber disso tudo.
Em uma república de bananas de 'sas que se tem notícias, um lugar onde decisões seríssimas eram tomadas em feijoadas de fim de semana, é que se dá a história desse enlace matrimonial.
A republiqueta tinha como base da economia uma monocultura de bananas.
De vez em quando exportava e produzia alguns ótimos jogadores de futebol, que de certa forma, serviam como insumo na hora de fechar a balança comercial.
Aquela república era feliz e não sabia ...
Em 'sa república de bananas vivia uma mocinha que não podia ver uma barra de calça que já ficava toda ouriçada.
Apaixonou-se pela primeira vez por um português que vivia lhe dando 'pelhos e toda a sorte de bugingangas.
Depois acreditou por duas vezes num homem com um sotaque do sul, que depois ela descobriu ser pai de um monte de pobres e que depois se matou e que depois deixou uma carta testamento que até hoje ninguém sabe se foi ele mesmo quem 'creveu.
Como sabem, a mocinha não era mais donzela.
Agora se deixou enganar por um homem de farda, adorava homem de farda ...
O homem de farda vivia em cima do lombo de seu tanque, e dizia à mocinha que livraria aquela republiqueta de um bando de comedores de criancinhas mais conhecidos como comunistas.
Corria à boca pequena que 'ses comunistas queriam proibir os 'trangeiros de mandar muito dinheiro para seus países e que queriam dividir com outros tantos, as terras de todo mundo, e mais ainda, 'tabelecer a igualdade entre as castas.
O homem de farda iria pôr para correr aquele bando de arruaceiros.
Em o começo, como todo casamento, tudo dava certo.
Mas com o passar do tempo, a mocinha percebeu que aquele homem de farda não havia mostrado sua verdadeira face.
De tempos em tempos ele vendia a preço de bananas não só as bananas, mas todo tipo de coisa que fosse produzida por aquelas cercanias.
Virou chefe do lugarejo, realizou grandiosas construções fazendo uso de vultosas quantias conhecidas como petrodólares.
Depois disso piorou (para a mocinha, cabe a ressalva).
Agora não deixava a mocinha falar direito.
Vez por outra a trancava num quarto e às vezes até a torturava.
Queria que ela pensasse igual a ele, que não era mais um simples homem de farda.
Galgara patentes mais expressivas.
Agora era general.
Vinte e um anos de casamento sofrido.
Só depois desse tempo é que a mocinha conseguiu se divorciar daquele general chato e mentiroso.
Ficou com a guarda das crianças que sofreram «o diabo» na mão daquele pai repressor que as proibiam de ouvir música e até de se reunir com os colegas de 'cola.
«A desquitada é mulher cantável».
Contrariar 'sa afirmação passou a ser sina da mocinha, agora uma jovem senhora.
Ele seguiu solteira por algum tempo, até que começaram a surgir algumas propostas.
Um metalúrgico lá do Abc, um sujeito barbudo, meio carrancudo e sem um dedo vivia no encalço da jovem senhora.
Mas foi outro ganhou seu coração.
Quando todos pensavam que a jovem senhora tinha aprendido a lição, não é que ela achou de se apaixonar por um bonitão caçador de marajás.
Caiu nas lábias sedutoras de um partidão lá das Alagoas.
O partidão, um homem douto, sofisticado, sabia falar línguas estrangeiras.
Cuidava muito bem do corpo, praticava cooper toda manhã.
Em o começo do relacionamento, tudo igual.
Mas agora era melhor.
A jovem senhora ganhava presentes importados:
computador, perfumes, cosméticos, roupas de grife.
Até o carro que ele reclamava ser uma lata velha, ele trocou.
Em a garagem, um suntuoso Mercedes tomava o lugar do prestativo Opalão.
Não deu outra.
Descobriram que aquele monte de presentes era comprado com dinheiro sujo.
Uma tal de lavagem de dinheiro era feita por o maridão boa-pinta e a cambada de colegas que o cercava.
Entre eles um baixinho gordinho e bigodudo que tinha o apelido de PC.
O maridão caçador de marajás voltou para as Alagoas, onde a família tem o domínio de quase tudo por ali.
O seu fiel 'cudeiro, o pançudo PC foi encontrado morto numa cama de Hotel.
Disseram que foi uma tal de queima de arquivo.
Enfim ...
A jovem senhora parecia ter uma sina dos diabos.
Só se pagava com gente que não prestava.
Até que se envolveu por um breve período com um senhor, já vivido e, com um cabelo muito engraçado.
A senhora agora mais humilde, aceitou trocar seu Mercedes por um Fusquinha.
Reformou a casa, levantou mais dois quartos lá no quintal.
Era uma vida modesta.
Mas durou pouco.
Outra vez lá 'tava ela.
De novo disputada por dois homens.
Um de eles, ela já conhecia de outras épocas.
Mais uma vez o barbudo cotó e sindicalista pedia sua mão em casamento.
Não teve chance de novo.
Ela preferiu um professor que tinha morado na França, um grã-fino metido a 'critor e poliglota.
Lá ia a jovem senhora.
Outra mudança.
Outra vida, outros presentes, outros problemas.
Foi um tempo bacana.
Mas como a vida, cheia de altos e baixos.
Ficaram juntos por um bom tempo.
O professor era pomposo, falava bem.
Também era bonitão.
E ela ficou com ele muito mais por causo disso do que por outros motivos.
Aprendeu o que era status quo.
Um negócio chique ...
Mas acabou.
Acabou mais uma vez.
Ela, cansada de ser passada pra trás, resolveu dar uma chance ao pobre barbudo.
Tão insistente era ele.
Mas antes de subir ao altar ela fez questão de comprar um bom terno, ensinar-lha etiqueta aprendida com seu ex-marido, o professor, e ainda contratou uma equipe que lhe dava aulas de como se comportar, como falar, como comer, enfim.
Ele teve que aprender tudo antes do «Sim».
O casamento 'tá durando até hoje.
Tem dia que parece que vai tudo por água abaixo.
Tem dia que melhora.
Tem dia em que ele chega bêbado em casa, tem dia em que ele não sabe de nada, tem dia em que os amigos de eles vestem cuecas cheias de dinheiro.
Todo dia é um dia diferente.
Número de frases: 84
Histórico
A Umbanda, uma religião genuinamente brasileira, foi fundada em 15/11/1908 no 'tado do Rio de Janeiro, e em 2008 'tará completando 100 anos de fundação.
Enraizada na cultura brasileira, evoluiu muito durante 'ses cem anos de existência.
Os rituais que antes aconteciam apenas de forma 'condida por a perseguição que sofriam, hoje contam com grandes instituições e colégios que a fortalecem, até mesmo com uma Faculdade de Teologia Umbandista reconhecida por o MEC.
Presente atualmente em 12 países a Umbanda possui milhares de adeptos em todo o mundo, principalmente no Brasil, onde surgiu, e em Bauru, cidade sede da Umbanda FEST, não é diferente.
Umbanda Em BAURU
Com cerca de 800 templos 'palhados por toda a cidade, atingindo todas as classes socioeconômicas do município, 'timamos um número aproximado de no mínimo vinte mil praticantes diretos da Umbanda.
Naturalmente que 'se número se potencializa se somado a 'te incluirmos as pessoas de outras crenças religiosas que procuram a Umbanda ocasionalmente.
Problema Social A Ser Combatido
Infelizmente o preconceito e a intolerância religiosa enfrentada por 'sas comunidades ainda é muito grande, o que faz que 'ses números tão expressivos não sejam observados facilmente nas ruas.
A grande maioria destes Templos de Umbanda, cerca de 90 %, não possuem identificação em suas fachadas, a grande maioria dos umbandistas, quando questionados sobre sua religião, não se identificam como tais, tudo isso por o temor a animosidade da sociedade, que de uma forma geral critica aquilo que desconhece.
Esses dois procedimentos, tanto da sociedade umbandista como da não-umbandista, causam um ciclo vicioso, gerando assim mais preconceito e mais temor ao preconceito, consequentemente causando a exclusão social de uma grande parcela da comunidade.
A Iniciativa
A Umbanda Fest, organização voltada a promover melhorias para a Umbanda, vem trabalhando fortemente para o fim do 'tigma criado em torno da religião.
Fóruns, palestras, cursos e eventos festivos são algumas das ações já realizadas por a organização.
Os resultados positivos alcançados com 'tas ações já são sentidos na sociedade como um todo, e o marco dos 100 anos da Umbanda não poderia passar em branco.
Foi com a certeza que ações como 'tas ajudarão a Umbanda conquistar o respeito e a visibilidade que lhe é de direito que foi criado o Projeto «UMBANDA 100».
Número de frases: 17
Mais informações, acessar o site http://www.umbandafest.com.br Kowabunga!
Ondas sonoras reverberam por algum lugar entre as montanhas de Minas Gerais.
O pico onde as melhores ondas quebram é Belo Horizonte, a capital da Surf Music brasileira.
A Associação Brasileira de Bandas de Surf Music, Reverb-Brasil, foi criada em 2000.
Surf Music? Em Minas Gerais?
É isso mesmo.
O 'tilo musical já não 'tá mais ligado aos praticantes do 'porte, como na sua origem.
A idéia toda começou com uma simples e eficiente lista de discussão por email entre amigos.
A partir daí, dois de eles, Leopoldo Furtado e Daniel Werneck, resolveram transformar a lista em algo maior e mais organizado.
O nome 'colhido para batizar 'sa iniciativa vem do principal efeito sonoro utilizado nas guitarras.
Bandas de todo o país pegaram 'se tubo, como Os Maremotos (PR), The Surf Motherfuckers (MG), Go (RJ), Los Muertos Viventes (ES), Super Stereo Surf (DF), Gasolines (SP), Os Ambervisions (SC) e muitas outras.
«A gente percebeu que a coisa tinha potencial pra ficar mais forte.
Em a época, eram muitas bandas em BH e tomamos a frente, reunindo todas elas, mais produtores e demais interessados, com a idéia de somar forças», explica Leopoldo Furtado.
Passaram, então, a produzir shows e criaram uma parceria com Claudão Pilha, proprietário do bar e casa de show A Obra, a qual se tornou palco das apresentações das bandas.
Mas as ações do grupo não se restringem aos três.
Como os próprios criadores definem:
«a Reverb-Brasil é todo mundo e, ao mesmo tempo, não é ninguém».
Eles atuam com o objetivo de divulgar o 'tilo dentro e fora do Brasil.
Já fizeram com que vários grupos chegassem às mãos de Phil Dirt, um dos radialistas mais conhecidos dos Estados Unidos e grande conhecedor do gênero.
A própria Reverb teve, por anos, um programa na rádio comunitária Favela FM, no qual tocavam, além das brasileiras, bandas de praias distantes, que se interessaram por a idéia e mandaram seus discos.
Hoje, Belo Horizonte é considerada a capital brasileira de surf music.
A coroação veio de ninguém menos do que Dick Dale, o «pai» das guitarras surf.
Em sua turnê por o país, em 1997, ficou impressionado com a receptividade do público mineiro e usou o nome da cidade no título de uma de suas composições (do disco Spacial Disorientation 2001).
O reconhecimento não parou por aí.
Dois anos mais tarde, uma das mais expressivas representantes da nova safra de bandas surf, a americana Man or astro-man?,
resolveu gravar um de seus álbuns (EEVIAC) por terras mineiras, após sua primeira apresentação em BH (eles retornaram outras duas vezes).
Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe
Apesar da Lagoa da Pampulha 'tar flat * o ano inteiro, tsunamis sonoros alcançam, uma vez por ano, a orla d' A Obra.
A temporada acontece anualmente, desde a fundação da associação, no feriado da Semana Santa.
São quatro baterias de ondas grandes e muito público
O Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe é o maior festival do gênero no país e atrai muitas das bandas que compõem a associação.
Todas as suas edições recebem o nome de «Primeiro», tanto para caracterizar o pioneirismo da iniciativa, como também para que se repita o sucesso da primeira edição.
«Essa edição foi muito legal, mas já de saída a gente sabia que iria continuar, pois muitas bandas ficaram de fora.
Queríamos fazer um festival que abrisse 'paço para todas os grupos de surf music e rock instrumental tocarem», afirma Claudão Pilha.
A cada campeonato, informações são trocadas, amizades feitas, contatos com rádios, selos, programas de TV e websites 'tabelecidos.
Outros shows foram agendados e a lista de participantes cresce.
«Nada melhor do que um festival freqüentado e organizado por pessoas que gostam do que tocam.
Por isso deu certo», justifica Daniel Werneck.
A opção por uma atuação local e descentralizada só fez crescer o número de envolvidos na associação.
Embora o Primeiro Campeonato Mineiro de Surfe seja o mais conhecido, outras apresentações já foram realizadas, como o Hell Surf, em Curitiba, promovido por membros locais da Reverb.
Para entrar em contato com os organizadores, o caminho mais rápido é acessar o site www.reverb-brasil.org.
* do inglês, «achatado».
Corresponde a um mar sem ondas na gíria surf.
Número de frases: 43
Não se deixe levar por a embriaguez da felicidade.
Nunca ninguém é feliz o tempo todo, todo o tempo.
A mocinha na propaganda da tevê 'boça o melhor dos sorrisos ao anunciar o lançamento da goma de mascar dietética, como se um pedaço de borracha com um gosto tão artificial pudesse ser delicioso.
Você gastou quinhentos reais numa vestimenta para um carnaval fora de época, onde vai passar três dias andando numa aglomeração sem igual, bebendo cerveja quente, ouvindo um som rigorosamente desafinado e sendo 'coltado por garotos da periferia, vulgarmente chamados de «cordeiros», que ganham cerca de cinco reais por noite de ofício.
Contrastes declarados?
Situações mercantilistas comuns na realidade consumista que vivenciamos.
Tenha a certeza, prezado leitor, de que o marketing praticado atualmente na venda dos diversos produtos e serviços usa e abusa da sensação benéfica que a felicidade causa em nós.
Se repararmos com a devida atenção, perceberemos a ênfase dada a felicidade instantânea, como se consumíssemos alguns dos produtos ofertados fossemos transportados imediatamente para o mundo mágico de Oz, onde a vida é sempre bela.
Em outros casos, o enfoque abordado se resume na palavra «vida», aonde você pode até morrer amanhã se não provar das benesses oferecidas por determinadas marcas.
Porque a vida é agora, porque viver é tudo, viva o momento, viva!
Não 'tou querendo dizer com tudo isso que devemos nos fechar numa redoma de vidro.
Apenas devemos ficar atentos com o que nos é induzido, da forma mais convincente possível.
Não devemos viver a ditadura da felicidade.
Também sofremos, choramos, erramos, experimentamos.
Não é porque não vivemos num 'tado de constante alegria que somos menores.
Somos apenas humanos, e não anomalias infladas numa bolha de felicidade absurdamente irreal e superficial.
Viva, enfim.
Aproveite o momento.
Seja feliz quando der, quando puder, quando possível.
Não se martirize nem se deixe levar por representações fantásticas de uma realidade factível.
Seja, antes de tudo, você.
Número de frases: 21
Tenho uma visão equivocada do Jornalismo, já me disseram e concordo.
Associo, que crime!,
os membros de 'sa irmandade maçônica aos antigos bardos, bravos narradores de eras remotas, que muito antes do cinema inventaram um jeito de projetar imagens de longínquas odisséias para deleite dos desafortunados que passavam suas vidas miseráveis distantes dos grandes eventos.
Os poetas de então rondavam léguas sem fim, perpetuando os nomes dos heróis, incitando o temor aos deuses, cativando a audiência, as mentes jovens do mundo.
Em 'se ponto devo argumentar em meu favor que sou louco, que me encontro atado à nau da insânia a milhas de qualquer cais.
Afinal, sugiro ter sido o grande Homero nada mais que um precursor da Imprensa!
Os iluminados que compuseram os vedas não obtiveram um furo de reportagem ao dissecar a 'sência sutil dos homens?
E, por acaso, não se valeram de alguns «critérios de noticiabilidade» os felizes autores da Bíblia?
Ora, graças a Deus, naqueles tempos não havia ainda a décima terceira praga, a técnica da pirâmide invertida!
Que temos em 'ses exemplos, quiçá exagerados, mas ainda assim sinceros, que se possa contrapor à Mídia contemporânea e seus cânones?
Simples! São boas histórias contadas de modo excepcional.
Certo, quase ninguém as lê, mas ainda assim reverberam séculos após sua concepção nas mentes de seus leitores e dos leitores de seus leitores.
Desfrutam de peculiar eternidade.
Seguirão sendo contadas enquanto houver humanidade.
Que jornalista hoje 'pera mais que a atenção de uns dias?
Quando entrei para a Faculdade, queria ser um colecionador de 'tórias.
Eu partilharia minhas preciosas narrativas com todos, seria lido com a ânsia que a criança (do século XIX) lia Júlio Verne, ou os relatos de um Crusoé.
Falaria de terras 'tranhas e de costumes 'tranhos, mas não dos encontravéis na face oposta do globo, não, falaria dos que 'tão incrustados no coração da cidade.
Estenderia o mundo aos olhos do mundo, como se apresenta um bicho a si mesmo no 'pelho e ele se 'tranha.
Jornalismo para mim era partilhar experiências, engrandecer a vida de cada pessoa com relatos sublimes.
Que desvio tomamos, que a informação seguiu na contramão do conhecimento?
Em que momento a atualidade adquiriu tal autonomia da História?
Afinal, a Humanidade é mais que o instante, é o constante.
Ficar preso ao efêmero inda há de nos pôr vazios.
Tinha 'sa idéia 'túpida quando entrei para a Universidade.
Mas nada melhor para assassinar a inocência do que constantes doses desse cinismo arrogante dos acadêmicos de alma enrugada.
Eles vivissecam passionalmente seu objeto de estudo, violentam com gozo, tomam posse de cada peculiaridade, cada reentrância formal.
Tornam-se, enfim, donos de certas verdades invioláveis.
Estabelecem dogmas ateus, como quem ergue obeliscos em honra a suas consciências fálicas, rasgando o Céu como à boceta de Pandora.
Aplicam suas regras como quem ata um cão a um canto por uma corrente cortante.
Há certo sadismo de sua parte ao ver o sangue 'correr fino dos animais revoltos.
Valem-se de seu sarcasmo, com um sorriso irritante, um deboche em forma de pergunta retórica ...
Somente quando percebem que o aluno adaptou-se à coleira, sossegam e se recostam em suas poltronas reclináveis para os delírios cotidianos.
Gostam de nos empurrar certos conceitos fugazes, inúteis, frustrantes.
Não admitem, mas temem a criatividade como quem foge à cruz.
Almejam a sociedades perfeitamente regradas, onde reine a infalível Moral, em que cada qual aja conforme o plano, atenha-se ao combinado, e nada seja imprevisível.
Têm frêmitos ejaculatórios ao ler «A Revolução dos Bichos».
A seus aprendizes, carneiros rumo à tosquia, nada resta senão rezar por sua cartilha.
Afinal, é isso que é jornalismo, não?
Ou será que um outro jornalismo é possível?
A resposta, meus amigos, não me cabe dar.
Leia a Bíblia.
Número de frases: 42
* por Diego Calazans, aprendiz de bardo
Em os teus lábios que desejo
São sussurros de sons aos meus ouvidos
E eu preciso desesperadamente de te ouvir
Pois só o teu rir acalma e me dá paz, a paz que busco
Em o teu olhar, nos teus lábios quentes
Quando dizes que me amas
Esses são os sons que quero só ouvir hoje.
De o resto 'tou virando costas, no limite das forças
Sabes, 'tou cansado de ruídos
De os ruídos fabris, dos ruídos da telefonia, dos ruídos da rua em frente
Principalmente dos ruídos em casa.
Em 'ta casa imensa e fria
Fico sem um sítio para o meu silêncio
Que é como gosto de 'tar, de olhos semicerrados e em silêncio
Imaginando-te.
Ou não pensando em nada, despido de ideias.
Abandonado Como um televisor apagado, ali, ocupando um 'paço
que em 'te dia de hoje
Estou mal disposto, ou constipado
E as palavras que te queria dizer não saem
Por isso cerro os olhos e imagino-te aqui
Sinto o teu cheiro, o calor que emanas
O arfar de teu peito excitada
Ou as palavras de amor em gemidos que me dizes baixinho
Enquanto teus braços me envolvem e apertam
Para que eu não fuja de novo do sonho
Ou vire costas a 'te amor tardio e grande
Que é como o sentimos, grande de amor e grande de vontades
Feito de tantas vontades reprimidas e imaginadas
Hoje postas em prática a medo ou nem isso, mas em sobressalto
Que é como fica meu coração quando faço amor com ti
Ou quando quero e adivinhas meus pensamentos
E te ofereces assim, sempre como da primeira vez
Em que te amei e me amaste
E as 'trelas viram como cúmplices, o nosso acto
De amor ou de desejo reprimido
Tantas vezes sussurrado aos meus ouvidos
Em ruídos de sons que quero ouvir
Porque são a tua voz, que amo.
Como te amo a ti, assim simples e em poesia
Que de outra forma não podia ser
O amor simples e verdadeiro é em poesia
Que é como cantam os poetas ou os músicos
E a tua voz que 'cuto é a mais bela canção de amor
Porque a letra 'crita diz que me amas
De corpo inteiro e alma.
Que as nossas almas já se encontraram
Um dia nos dias da eternidade da vida
E hoje voltamos a sermos só um quando fazemos amor
Ou nos beijamos
Ou quando minhas mãos acariciam teu corpo
Sinto que o intervalo da vida que me acompanhava
Se desfez novamente.
Tu 'tás aqui!
E eu quero-te.
E eu amo-te e quero-te de novo!
Uma e outra vez.
Uma e outra vez!
Quero-te e meu olhar diz tudo.
Que se um coração ama
Os olhos lêem e falam o amor todo e em silêncio
Que é como eu gosto de 'tar com ti assim diariamente
Olhando e em silêncio
Escutando os teus sussurros no meu ouvido
Sentindo a pele arrepiada de prazer
Por o prazer que é sentir teus lábios beijando
Número de frases: 67
Ou sentir-te ai desse lado acompanhando-me Hibridismo é uma palavra-chave para entender o trabalho da Sociedade de Estudos Teosóficos -- Sete.
Espiritual e material, virtual e real, controle de propriedade intelectual e liberdade da mesma, ações centralizadas e atuação em rede.
O olhar os dois lados parece ser uma característica importante para as atividades desse modelo de negócio.
Se teosofia parece algo muito distante do mundo da cultura, vale dizer que teosofia é, segundo a Wikipedia, «o corpo doutrinário que sintetiza Filosofia, Religião e Ciência, e que tem como precedente histórico a corrente filosófica do Neoplatonismo dos séculos II e III».
A palavra teosofia vem do grego (theosophia, de theos, Deus, e sophos, sabedoria).
Estudos teosóficos nada mais são do que a observação de culturas em torno da filosofia, da religião e da ciência.
O grupo é coordenado por o professor Jorge Luiz Guimarães que, do Rio de Janeiro, atua virtualmente no país inteiro.
Fundada em 1998, o Sete funciona como uma 'cola de 'tudos teosóficos e de potencialismo, que busca auxiliar os seus alunos / seguidores a aplicar os ensinamentos 'tudados e aprendidos no dia-a-dia.
Por a necessidade de conquistar mais adeptos, o Sete tem como foco atualmente a busca por a criação de mecanismos que ajudem a 'palhar as palavras da teosofia.
Tendo a Internet como a sua principal plataforma de divulgação, o grupo vem se expandindo nos últimos nove anos.
Jorge trouxe da sua experiência anterior como analista de sistemas o contato com as ferramentas da informática para comunicação e captação de clientes.
O trabalho do grupo se destaca por a quantidade de material didático que é produzido e por a forma como é produzido e organizado.
Embora o núcleo de produção de material para leitura tenha surgido na liderança do professor Jorge e da sua mulher Reisla D' Almeida, que juntamente com ele 'tá à frente das atividades, é na abertura à participação dos clientes / alunos que reside a 'perança de que a instituição cresça.
O envolvimento dos alunos no processo de produção de textos e palestras teosóficas é um dos caminhos para isso.
Assim ocorre o processo:
os participantes do Sete se dividem em dois:
membros (alunos presenciais) e buscadores (alunos virtuais).
Os alunos são 'timulados a produzir material sobre os ensinamentos teosóficos que, juntamente com os textos produzidos por os criadores do grupo, são disponibilizados no site da instituição.
Para facilitar a difusão dos ideais teosóficos, todos os textos são disponibilizados sob a licença Creative Commons.
O tipo de licença utilizada é a de livre distribuição com a obrigação de citação da fonte e sem a permissão de alteração de conteúdo.
Os cursos elaborados e ministrados no Sete não 'tão registrados em Creative Commons, ainda permanecendo sob a legislação do direito autoral tradicional.
A fonte de recursos da iniciativa, portanto, não 'tá atrelada ao conteúdo produzido por a instituição, mas aos serviços, ou seja, os cursos oferecidos, presenciais ou virtuais.
Se por um lado é adotado um arranjo conscientemente livre em relação aos termos de propriedade intelectual de alguns produtos, por outro há a manutenção de formas rígidas, aplicada nos produtos finais e geradores de renda.
Mas 'tes parecem ser em parte sustentados e 'timulados por os primeiros, constituindo assim uma cadeia híbrida de modelos de negócios, entre o aberto e o fechado, entre o centralizado e o descentralizado:
o Yin e o Yang.
«Utilizamos a licença Creative Commons por ser um recurso moderno, simples e sem burocracia para nós e para quem acessa nosso material.
Pois não podemos de forma nenhuma ' assustar ' os visitantes de nosso Portal», afirma Guimarães.
Embora as atividades do grupo teosófico pudessem existir num cenário exterior à internet, é em 'se meio que elas encontram a sua maior capacidade de propagação e de atuação ampla.
Esse é o maior diferencial desse grupo teosófico e, de acordo com Jorge, que torna a sua atuação única em relação aos concorrentes.
«Ela [a Internet] é crucial, pois com ela saltamos de uma pequena instituição de atuação local, para uma instituição de atuação nacional, com funcionamento 24x7.
Somos pesquisadores e mesmo sem contar com amplos recursos financeiros, buscamos e encontramos até então tecnologias alternativas baratas ou gratuitas», explica Guimarães.
A atividade que hoje se auto-sustenta e gera um pequeno lucro, é planejada para se tornar a principal referência em 'tudos teosóficos na web.
E para que isso aconteça, é preciso potencializar e otimizar o uso de ferramentas do próprio meio.
Há uma convergência (outra palavra-chave para entender o trabalho do Sete) de 'forços para que a internet se fortaleça como a principal forma de atuação do grupo.
A sustentabilidade da atividade é garantida por a oferta de cursos e palestras.
Em o centro 'otérico também são ministrados rituais e cerimoniais, além de serem realizados atendimentos gratuitos aos novos adeptos.
Portanto, a partir de uma lógica de livre distribuição de conteúdo de cunho 'otérico e religioso -- com o objetivo de conquistar mais seguidores (membros ou buscadores) -- o Sete tem como objetivo final a venda de serviços ligados a 'sa cultura.
O indivíduo entra em contato com a teosofia por meio dos textos livremente divulgados e copiados na internet, a partir desse ponto, caso se interesse por o tema, pode consumir os diversos serviços que a Sociedade de Estudos Teosóficos oferece:
Curso, Workshops, Palestras e alguns atendimentos terapêuticos.
Todas 'sas atividades são oferecidas em duas modalidades, a distância (Via Internet), ou presencial.
O público -- de acordo com Jorge, «pessoas de classe média, com nível de 'colaridade técnico ou universitário, professores, profissionais da área médica e profissionais liberais» -- passa então a ser um divulgador da cultura teosófica e parceiros de negócio do Sete.
Em oito anos de atividade, a 'cola já contou com 130 alunos presenciais e 70 virtuais.
Foram realizadas mais de 80 palestras sobre a teosofia em diferentes regiões do país e mais de mil aulas ministradas.
Essa comunidade de seguidores /divulgadores/colaboradores do Sete se reúne em volta de uma lista de discussão que conta atualmente com 600 membros, duas comunidades no Orkut e do site www.sete.org.br. A interlocução entre as comunidades virtuais e reais parece ser vital para o desenvolvimento e continuidade das atividades da 'cola.
Com muito conhecimento de território, o grupo sabe utilizar bem o marketing viral para 'palhar e criar interesse em relação a teosofia.
Esses são os únicos meios de comunicação entre os participantes, já que 'se grupo 'otérico não mantém nenhuma presença ainda nos meios tradicionais.
Mas criar um jornal próprio e ser mais presente em programas de rádio e TV são próximos passos do Sete.
É um histórico que pode ser considerado atípico, tendo em vista que o modelo de negócio já foi criado e tem se 'tabelecido completamente tendo a nova mídia como suporte, sem mesmo passar por os canais tradicionais de comunicação.
Em 'se contexto, Jorge profetiza sobre os modelos de negócio no futuro:
«A principal fonte de renda no futuro de empreendimentos de serviços para as massas, não virá das pessoas comuns, mas das grandes corporações.
Algo tipo a TV aberta, que é gratuita.
Basta você ligá-la e tem acesso a uma gama de publicações;
o custo e o lucro dos canais de TV vêm da propaganda, dos serviços vendidos às grandes corporações.
Esse é o modelo de negócio do futuro."
Uma das lições que podem ser reconhecidas na experiência do Sete é a da eficiência no manejo de ferramentas gratuitas encontradas na internet.
Os recursos on-line encontrados servem de sustentação para cumprir quase toda a necessidade de divulgação e de contato com os atuais e os futuros parceiros, clientes e membros colaboradores.
Este cenário pode ser facilmente reproduzido em ambientes e áreas diferentes, desde que haja planos bem traçados e focos definidos.
A equação entre conteúdos abertos e fechados, filosofia e religião, 'tudo acadêmico e fé, é o que tem impulsionado o crescimento da iniciativa.
A experiência do Sete vem mostrar que, como 'tratégia para atrair adesões a 'tudos teosóficos, a liberação de textos pode ser um passo fundamental para despertar o interesse das pessoas, provocando questões e rompendo barreiras e preconceitos.
A opção por 'se modelo de negócio é ainda mais relevante no contexto de uma atividade ainda pouco difundida como a do Sete.
Número de frases: 60
A cena no Matão 'tá melhor do que nunca, com uma centena de bandas -- algumas de elas prontas para virar notícia, como O Bando do Velho Jack, Filho dos Livres e Olho de Gato!
Desde que o Rock Brazuca 'tourou no início da década de 80, vários grupos de fora do eixo Rio-São Paulo ganharam destaque.
O país conheceu artistas de Legião Urbana de Brasília, Engenheiros do Hawaí de Porto Alegre, Skank de Belo Horizonte, Camisa de Vênus de Salvador, Chico Science de Recife ...
Depois de aproximadamente duas décadas, Campo Grande tem finalmente a própria cena de rock ' n roll.
A jovem capital sul-mato-grossense, que nos anos 80 abrigava pouquíssimas bandas de rock, hoje conta, pelo menos, com uma centena.
A qualidade de algumas deixa a sensação de que o rock por aqui 'tá maduro e pronto para virar notícia.
Os grupos Olho de Gato, O Bando do Valho Jack e Filho dos Livres ilustram bem o sabor de vitória e o que ainda é 'pinho na bota dos roqueiros do Matão.
As três bandas já possuem músicas conhecidas do público.
São os grupos mais tocados nas poucas rádios da capital do Estado e que mais se apresentam com shows exclusivos de repertório autoral.
São os maiores cachês do MS também em 'te segmento.
O valor oscila entre R$ 1.500 e R$ 3.000 no máximo.
«Um cachê de cinco mil ainda é uma utopia.
Aqui paga-se isso para dupla sertaneja iniciante», compara o baterista Fernando Bola, fundador da banda Olho de Gato, a mais 'tradeira das três bandas, com muitas viagens para o interior do 'tado no currículo.
De acordo com Bola, o grupo fez uma média de 30 shows em 2005.
Tocar em cidades do interior, como Bonito, Corumbá, Ivinhema e Nova Andradina, no entanto, faz com que a banda tenha de abrir mão do repertório próprio e incluir covers na lista de músicas.
«Incomoda. Mas é a realidade daqui e precisamos sobreviver», afirma o baterista.
Uma das pioneiras em 'te segmento em MS, a Olho de Gato surgiu em 1985, em Dourados, numa época em que só havia música sertaneja e duplas paraguaias na cidade.
Passou por diversas formações e em 2003 lançou seu primeiro disco.
A balada Teu Beijo 'tourou nas rádios sul-mato-grossenses e o grupo vendeu rapidamente mil cópias das duas mil que prensou, já 'gotadas.
Em 2005 produziram o videoclipe da Extermíndio, que ainda não chegou na grande mídia e 'tá disponível no site do grupo.
A música foi composta em 1985 e fala da situação precária em que vivem os índios da região.
O videoclipe mostra fotos e cenas fortes de índios guarani e caiuá da região de Dourados, onde existe um grande número de suicídios e um índice alto de índios alcoólatras.
«Vinte anos depois de fazer 'ta música a situação continua a mesma ou pior.
É lastimável», protesta o douradense Bola, autor da canção.
O Olho já 'tá preparando o novo disco, que já tem quatro faixas gravadas, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2006.
«Temos de ir tocar fora daqui.
Mostrar que existem bandas de qualidade em MS», assegura Bola.
Quando o baterista fala ' tocar fora ' ele inclui também a América do Sul.
A banda pertence à lista de alguns artistas de MS que 'tão criando uma relação com a gravadora Kamikaze Records, sediada em Assunção, no Paraguai, e comandada por o músico e produtor " Willy Suchar.
«Com o novo disco pretendemos fortalecer 'ta relação e investir em shows fora do Estado.
Não dá para pensar apenas no Mato Grosso do Sul porque tem uma população só de 2 milhões de habitantes», reflete Bola.
Já O Bando do Velho Jack é o grupo que mais tem conexões além fronteira de MS.
E também a banda com maior discografia do 'tado.
Tem três discos de 'túdio e dois ao vivo.
Um dos sucessos do grupo é o blues Palavras Erradas, disponível no site do grupo em MP3.
O Bando fechou uma parceria com uma produtora de São Paulo, a Oui Produções e Eventos.
Os integrantes do grupo, na verdade, já sentem certa notoriedade na Capital paulista.
Possuem um fã-clube em Campinas e dão autógrafos quando vão à Galeria do Rock no centro de Sampa.
«Muitas vezes nos anúncios de bandas na revista Rock Brigade os caras avisam ' queremos vocalista no 'tilo do Bando '.
É um indício de que 'tamos imprimindo um 'tilo próprio», argumenta o tecladista Alex Cavalheri, o Fralda.
O novo trabalho do grupo vai marcar bem o 'tilo que 'tá sendo comparado por os paulistanos ao South's Rock, referindo-se ao country dos roqueiros do sul dos EUA, também localizados numa área pantaneira como os colegas do " Mato Grosso do Sul.
«O novo disco vai ter um cheiro bem caipira.
Uma fusão de rock, country e blues», avisa o tecladista.
Com lançamento previsto para o segundo semestre de 2006, o novo CD vai se chamar Bicho do Mato, nome da canção do O Som Nosso de Cada Dia, grupo que influenciou muitos nos anos 70.
O álbum tem a participação do bluesman carioca Big Gilson e do dinossauro do rock nacional, Oswaldo Vechione, fundador do histórico " Made in Brazil.
«Em 2005, na comemoração dos 10 anos de banda fizemos um show com o Marcelo Nova.
É importante manter a relação com outros artistas porque pode resultar em outras conexões», garante Fralda.
Mas conexão é a praia mesmo de outro grupo de MS:
o Filho dos Livres.
A comunidade do Orkut da banda superou os mil membros rapidamente, o site é sempre atualizado e os fãs podem baixar as músicas dos dois discos do grupo totalmente de graça.
O sucesso disparado é Meu Carnaval, do primeiro CD Tradições Distorcidas.
Ao contrário do Olho de Gato e O Bando, fundados por os bateristas Fernando Bola e João Bosco, respectivamente, verdadeiros desbravadores do rock do Matão, o Filho dos Livres representa uma geração mais nova.
Guilherme Cruz e Guga Borba têm 30 anos.
São amigos desde os 14 e nunca se desgrudaram.
Nem mesmo quando Guilherme foi 'tudar guitarra e engenharia de som nos Estados Unidos.
«A gente compunha juntos mesmo longe, por a Internet», recorda Guilherme.
Show do Filho dos Livres geralmente é certeza de público.
Seus CDs também evaporam rapidinho.
As mil cópias do primeiro disco foram vendidas em 10 meses.
Lançaram um CD de Natal em 2005 na sexta, no sábado já era possível baixar as músicas no site e à noite o público que foi ao show podia levar para casa um encarte de cor diferente para fazer um disco personalizado em casa.
«Nós fizemos 100 cópias de última hora porque a fábrica atrasou e vendemos tudo em dois dias por 15 reais cada», informa.
O grupo atualmente 'tá em 'túdio produzindo o terceiro disco batizado de República dos Livres Pensamentos.
O Filho dos Livres também é a banda de rock que mais flerta com o chamado rock regional.
Guilherme e Guga admiram compositores como Geraldo Roca, Paulo Simões, Geraldo Espíndola, Carlos Colman e Guilherme Rondon, conhecidos como as matrizes da dita Moderna Música de Mato Grosso do Sul.
É fácil notar a influência por as levadas ternárias das músicas e os instrumentos acústicos, como violão de 12 e viola de 10 cordas.
Além da 'tética em si.
O primeiro disco do Filho tem o projeto visual todo inspirado no patrimônio histórico sul-mato-grossense.
Mas a dupla não quer rotular o próprio som do que quer que seja e pretende seguir o que combinaram ao fundar o grupo, depois de já terem passado por bandas comerciais, como Belladona e Naipe.
«A bandeira nossa é fazer o que dá na cabeça», jura Guilherme Cruz.
O músico de 30 anos, aliás, tem ligação forte com Olho de Gato e Bando.
Produziu o primeiro disco do Olho e assina o novo do Bando.
Exímio guitarrista e produtor experiênte apesar da pouca idade, Guilherme consegue ter equilíbrio para analisar.
«A cena em MS existe culturalmente, mas não quantitativamente.
Não existem lugares, um Circo Voador (RJ) ou um Dama Choque (SP), para que as coisas aconteçam ...
Isso dificulta para que alguém fora daqui consiga captar o que rola no Estado.
Temos bandas boas que fazem trabalhos autorais de pesquisa.
Número de frases: 76
São trabalhos sérios, que buscam algo novo e não apenas copiar o que já existe», argumenta Guilherme.
Edital E Ficha De Inscrição
Pra quem se interessar e quiser apresentar cara e produção em Campão segue o edital e a ficha de inscrição de que falei na Agenda.
Agora é ficar de olho e entrar na onda.
Fundação
De Cultura De o Estado De Mato Grosso De o Sul
Difusão Cultural
Programa De Artes Plásticas
Edição 2007
Regulamento De os Objetivos Gerais
Contemplando as mais diversas correntes das Artes Plásticas e manifestações Artísticas Culturais, tanto de caráter local ou não, quanto na abordagem de outras formas de pensamento e ações artísticas intercambiadas, a Difusão Cultural, integrada à política da Fundação de Cultura do Estado de Mato Grosso do Sul, tem como objetivo principal, potencializar à poética, visibilizando a criação, o pensamento e os fazeres artísticos, através de ações que permitam expor toda produção com 'te perfil.
O Programa de Artes Plásticas pretende valorizar as propostas que, de alguma maneira propiciem reflexões e projeções sobre a extensão dos caminhos das artes plásticas no Estado e nas possíveis parcerias Artísticas.
A visibilidade dos projetos será garantida por exposições que possibilitará o acesso público às obras selecionadas, divulgando no âmbito da imprensa em geral, conteúdos, processos e resultados das ações propostas em 'te programa.
O programa almeja igualmente investir na formação de público para as artes plásticas e manifestações artísticas culturais, alem de 'tas ações de divulgação das obras dos artistas e / ou expositor, por meio de um catálogo impresso e se possível, de documentação em registro digital, também com seminários e debates possibilitando ampliar o conhecimento de interessados em pesquisar e participar de 'sas atividades.
De a Organização
A organização destes 'paços e a realização das exposições 'tão sob responsabilidade da Coordenação do Programa de Artes Plásticas, através da Difusão Cultural, que empreenderá a gestão de todas as etapas deste programa.
Isto incluirá o 'tabelecimento dos prazos e condições necessárias para o cumprimento das regras expostas em 'te Regulamento, assim como a indicação dos profissionais que constituirão a Comissão de Seleção, para os devidos propósitos.
De a Abrangência e Pertinência das Participações
Poderão inscrever-se nos projetos do Programa de Artes Plásticas, qualquer artista das áreas de artes plásticas, artes visuais e manifestações de arte-educa ção, individualmente ou representando um coletivo de criação, nas categorias abaixo listadas:
* Pintura, desenho, gravura, 'cultura, objeto, colagem e instalação.
* Arte digital, vídeo-arte, web-arte, body-arte, performance e linguagem periférica.
A comissão de seleção decidirá a quantidade de participantes para 2007, entre os inscritos individualmente ou representando coletivo de criação, a serem distribuídos entre os 'paços oferecidos.
1.
A considerar em obras prontas -- significam trabalhos que não precisem sofrer nenhum tipo de intervenção para apresentação nos locais definidos para exposição.
Caso não sejam assim, a comissão ira avaliar a possibilidade de seleção.
2. Cada artista selecionado receberá informação suficiente para viabilizar sua proposta de exposição.
3. Será produzido catalogo convite que documentem o projeto, de um total de 1000 unidades produzidas, que serão distribuídos entre as atividades em questão.
Conceito Geral e Definição dos Espaços de Exposições
Cada 'paço propõe uma característica artística básica, de forma, conteúdo, e área física, que represente a característica da expressão, e da ação plástica visual definida em cada 'paço, de maneira a tornar visível às produções desenvolvida com 'te sentido artístico e cultural.
Manter e cumprir os parâmetros 'tabelecidos 'pecificamente para uso de cada 'paço a ser ocupado, inclusive considerando as características físicas 'paciais do local editado.
Projeto «Território Ocupado» -- Espaço da Grande Galeria no Memorial
Território Ocupado por a presença dos artistas que ao longo do tempo legitimaram suas práticas nas atividades de artes plásticas com pintura, desenho, gravura e outros que explorem a 2 D, observar as dimensões possíveis até:
L-1. 70 m x H-1.
50 m, serão acolhidas obras artísticas, que demonstrem a diversidade de linguagens artísticas e a construção da sua tendência poética, resultante da pluralidade do pensamento de cada artista, contemporâneo ou não.
Para participação, o solicitante deverá apresentar documentação da atividade na área, comprovando a produção dos últimos 02 anos e o compromisso da presença em debate, palestra e ou oficina para promover e aproximar assim, a obra de arte do público em geral, demonstrando artisticamente o seu «território ocupado».
Deve-se acrescentar o currículo resumido da atuação em 01 pagina.
* Seleção será feita por comissão de seleção e suas decisões gerais e 'pecificas.
Projeto «3 D» -- Espaço para as Esculturas no Memorial
A Mandioca -- raiz encontrada em todo território 'tadual, de uma beleza visual e plástica, indo além da sua área física e orgânica, 'ta presente nas nossas mesas no cardápio de sustentação alimentar, no caso o corpo físico e na sugestão do projeto, no 'paço integral, tanto físico como no pensamento criativo e analítico, que é possível através da intervenção do artista proponente.
Destinado a expor a produção das mídias em relevo e com a 3 D, os volumes aglomerados e / ou dispersos de maneira atender propostas na área da 'cultura e instalações.
Espaço destinado a exposição de objetos artísticos diversos (passíveis de sofrer avaliação técnica anterior) que atendam a 'ta solicitação e não causem danos ao 'paço, contempla a pesquisa na terceira dimensão, a produção dos volumes e da forma, a inventividade e o resultado plástico visual, a intervenção na matéria, o pensamento criativo, o conteúdo inovador e o conceito que o titulo do projeto apresenta e o 'paço físico do projeto sugere.
* Seleção será feita por comissão de seleção e suas decisões gerais e 'pecificas.
Projeto «WEGA NERY» Galeria no CC.
José Octávio Guizzo Aqui 'ta aberto para as correntes expressivas, desde pintura, desenho, gravura, colagem, 'cultura de pequeno porte e outras linguagens a serem avaliadas.
Solicitar planta baixa do 'paço de exposição.
* Seleção será feita por comissão de seleção e suas decisões gerais e 'pecificas.
Projeto «Parede» Lateral da Galeria no CC.
José Octávio Guizzo Aqui o 'paço tem como fundamento receber, apoiar, 'timular e promover atividades com Linguagens Periféricas, tanto na Arte quanto na Arte-Educa ção, a analisar as solicitações e possibilidades.
Os iniciantes precisam levar em consideração os parâmetros relacionados:
O proponente deve 'tar experimentando a atividade e apresentar na sua proposta de exposição interesse artístico;
Poderá apresentar proposta mesmo não tendo realizado exposição alguma;
Observar que a proposta para exposição de iniciantes é de curta duração, considerar aqui possibilidade de ocupação até 10 dias;
Observar as seguintes medidas para realizar a proposta da ação:
L. 3,78 m..
X H. 2,57 m X P. 0,15 m De as Inscrições
Condições Prévias Para A Inscrição:
-- Realizar o preenchimento completo da «Ficha de Inscrição».
-- É gratuita, e 'tará aberta a partir do dia 02 de fevereiro até 02 de abril de 2007 seguindo as instruções abaixo:
-- A inscrição somente será validada se for enviada à Comissão Organizadora, impreterivelmente até as 17h do dia 02 de abril de 2007,, incluindo cópia impressa da «Ficha de Inscrição» preenchida e assinada, acompanhada dos documentos necessários 'pecificados no próximo item.
-- Produzir em âmbito Estadual ou Nacional;
-- No caso de trabalhos coletivos, a inscrição deverá ser feita em nome de apenas um representante.
Entretanto, todos os integrantes do coletivo deverão atender, a todas as condições descritas em 'te regulamento.
* Observação 'pecificamente para os Projetos «TERRITORIO OCUPADO» e «3 D».
Ser maior de 18 (dezoito) anos, possuir em seu currículo pelo menos uma mostra individual ou uma coletiva, realizada nos últimos 02 anos.
O não cumprimento de qualquer uma das condições prévias constantes em 'te regulamento desclassificará de imediato o participante.
Documentos Necessários à Inscrição
Juntamente com a «Ficha de Inscrição» preenchida corretamente, o participante deverá enviar para análise da Comissão de Seleção os seguintes documentos:
-- 01 (Uma) cópia da carteira de identidade.
-- 01 (Um) currículo resumido de, no máximo 01 (uma) página, corpo 11, apresentando formação e trajetória profissional do participante ou de seu coletivo.
-- 01 (Um) portfólio de no máximo, 05 (seis) páginas, contendo cópia de comprovantes dos dados citados no currículo, tais como certificados, folders, convites, matérias de jornais e revistas, catálogos, etc.
Sobre as Modalidades de Inscrição
Serão aceitas inscrições que atenderem as solicitações do presente regulamento de maneira a contribuir na promoção, difusão e expansão da diversidade de linguagens artísticas, além de possibilitar compreender a participação em outros eventos artísticos, que não somente de caráter local.
Para Participação no Programa Não HAVERA Tema Especificado, Apenas SE Respeitara Os Principios Que Conceituarão Cada ESPACO De Exposição.
As fotos deverão ter o formato entre 13 cm x 18 cm ou 15 cm x 21 cm e serem coladas, separadamente, em folha de papel A4 branca.
O verso de cada folha deverá conter as seguintes informações:
Nome do autor;
título da obra (se houver);
técnica utilizada;
dimensões; ano de execução da obra e valor de negociação, quando houver.
Para obras tridimensionais (até 05 inscritas) para instalações, performances, serão seguidas as mesmas observações acima, com apenas 01 obra inscrita, e serão permitidas até 02 fotos por obra e / ou documentação em CDROM / arquivo jpg.
Obras inscritas em categorias que necessitem de suporte digital, tais como videoarte, web arte, arte digital, instalação áudio e vídeo, deverão ser enviadas em mídia mais adequada à sua compreensão, tais como CDROM e / ou DVD.
A principio o artista proponente de 'sas mídias terá que arcar com a presença e manutenção dos materiais necessários a apresentação desses novos formatos de arte.
Sobre o Envio de Material
Os documentos impressos em papel deverão ser encadernados em 01 única unidade, na seguinte ordem:
Ficha de Inscrição como folha de rosto seguida das cópias:
RG / carteira de identidade.
Currículo e do portfólio.
Finalmente serão anexados as fotos das obras com o seu descritivo, caso a opção de inscrição seja na modalidade obra pronta.
Caso haja necessidade de acrescentar itens digitalizados (CDs e DVDs), os mesmos deverão ser envolvidos por saco plástico, também fixada como última página da encadernação, acompanhados, no verso da descrição dos requisitos técnicos que demandam para visualização e operação de 'sas mídias.
O portfólio contendo as fotos das obras poderá ser apresentado em formato digital, padronizado em Power Point ou slide show em Flash, gravados em CD, contendo todos os dados solicitados na versão impressa.
Todos os demais documentos solicitados deverão ser apresentados conforme 'pecificados no parágrafo: --
Sobre As Modalidades De Inscrição.
Sobre a Postagem
Cada envelope deverá ser lacrado e identificado com o nome e endereço completo do participante.
O envelope deverá ser entregue pessoalmente na Coordenação do Programa de Artes Plásticas ou enviado por os Correios através de SEDEX ou Carta Registrada, endereçado para:
Difusão
Cultural Programa
De Artes Plásticas
Fundação De Cultura De Mato Grosso De o Sul
Rua FERNANDO CORREA Da Costa, 559 CEP.
79002-820. Campo Grande MS, até a data final de postagem confirmada por o carimbo dos Correios, ou entregue pessoalmente no mesmo local.
Serão automaticamente excluídos os envelopes com a data da postagem posterior a 'te prazo, quando não mais serão aceitas inscrições sob nenhum pretexto.
A boa qualidade do material enviado é fundamental para a Identificação do participante.
No caso da opção digital, teste-o antes de enviá-lo.
Material com má qualidade de visualização e / ou identificado incorretamente não será avaliado, sendo o participante imediatamente desclassificado.
Cabe exclusivamente à Comissão de Seleção julgar a qualidade do material apresentado.
Não serão devolvidos os materiais enviados, tais como fotos, CDs, DVD's, portfólios e documentos necessários à inscrição, ficando a Comissão Organizadora responsável, por armazená-los como banco, formando acervo de dados ou por eliminá-los.
De a Comissão de Seleção
A Comissão de Seleção será composta por profissionais de competência e experiência na área de artes plásticas, artes visuais, arte educação, mídias digitais e outros campos de saber;
sendo a mesma indicada e coordenada por a Comissão Organizadora.
A Comissão de Seleção decidirá o número de participantes entre todos os inscritos, distribuídos entre todos os 'paços.
Além dos selecionados, serão 'colhidos participantes suplentes em cada modalidade na hipótese de desistência ou desclassificação de algum dos primeiros selecionados.
A Comissão de Seleção lavrará uma ata sobre as decisões tomadas.
As decisões da Comissão de Seleção são soberanas, não cabendo qualquer tipo de recurso contra os resultados por ela definidos.
A Comissão de Seleção 'tabelecerá critérios internos baseados na qualidade e viabilidade de execução dos trabalhos propostos.
A mesma se reserva o direito de 'colher no mínimo 01 (uma) e no máximo 03 (três) obras de cada participante selecionado para a Mostra (exposição, catálogo e / ou documentário).
-- Com data previamente divulgada, uma vez definido o resultado, a Comissão Organizadora se compromete a comunicar aos participantes selecionados, através de publicação na imprensa e /, e-mail e outra forma possível.
-- Após receber as informações, o participante selecionado deverá confirmar Imediatamente sua participação, à coordenação do programa de artes plásticas, endereçando sua posição em relação ao resultado para:
Difusão
Cultural: Programa De Artes Plásticas:
Rua FERNANDO CORREA Da Costa, 559-Centro -- CEP.
79.002-820. Campo Grande MS --
Tel. 3316.9170.,
sob pena de desclassificação a critério da Comissão Organizadora.
Os selecionados que residam fora da capital, receberão no endereço definido na ficha de inscrição, um termo de formalização da participação no projeto, bem como as instruções da produção.
Os demais firmam o termo na coordenação do Programa.
-- De o Envio, Montagem da Exposição E Devolução das Obras:
O Programa De Artes Plásticas pretende realizar ao final, uma exposição coletiva em Campo Grande MS, em 'tes 'paços editados, com amplo acesso ao publico e extensa divulgação dos projetos.
* Atenção:
O envio e devolução das obras selecionadas são de inteira atribuição
dos selecionados, responsabilizando-se a Comissão Organizadora por o seu recebimento, acondicionamento, montagem e desmontagem, e junto aos artistas reembalar para retorno quando houver..--
Maiores detalhes sobre o envio e devolução das obras, bem como a sua guarda por a Comissão Organizadora serão fornecidos após a confirmação de participação dos selecionados.
Cabe à Comissão Organizadora, e somente a ela, definir o melhor projeto cenográfico para a montagem das obras recebidas.
-- Os custos da permanência para os participantes selecionados não residentes na cidade de Campo Grande serão de inteira responsabilidade dos mesmos.
-- Haverá divulgação de todas as etapas do presente programa, bem como a criação e distribuição de catálogo, textos e imagens sobre o evento, onde todas as obras selecionadas 'tarão disponíveis para apreciação do público em geral.
Será gerado um catálogo com tiragem 1000 unidades, contendo obras selecionadas por o programa, assim como textos elaborados por os integrantes da Comissão de Seleção.
Termos de Concordância
Ao aceitar os termos deste Regulamento o participante declara a originalidade e titularidade das obras.
O participante deverá ser titular dos direitos patrimoniais das obras para os fins previstos em 'te projeto, sob pena de desclassificação em qualquer fase do processo, sem prejuízo da adoção das medidas judiciais cabíveis.
A Comissão Organizadora será isenta de quaisquer responsabilidades, cíveis ou criminais, resultantes de falsa imputação, por o participante, de autoria, titularidade ou originalidade das obras eventualmente apuradas.
Na eventualidade do participante individual ou grupo selecionado utilizar obras artísticas, tais como músicas, obras literárias, lítero-musicais, vídeos, etc, das quais não sejam os autores, para composição da obra selecionada, será indispensável a assinatura de tremo de responsabilidade sobre o uso de direitos autorais de terceiros, isentando a Comissão Organizadora de quaisquer responsabilidades civil e / ou criminal eventualmente apuradas.
Os participantes selecionados firmarão com a Comissão Organizadora um Contrato De Cessão De Direitos Autorais/Conexos e Autorização Para Utilização De Imagem, por meio do qual autorizarão que as imagens, sons e textos apresentados e coletados ao longo de todo o desenvolvimento do projeto que possa ser utilizado, em caráter irrevogável e irretratável, e por tempo indeterminado em todo o território 'tadual e fora de ele, caso seja viável executar 'te procedimento.
O referido contrato outorgará à Comissão Organizadora a exclusividade dos direitos para elaboração de catálogo, e outros produtos e materiais de divulgação do referido programa de artes plásticas (doravante designados apenas " Materiais "), autorizando assim, a exploração e divulgação completa dos Materiais, considerando sua reprodução, transmissão, retransmissão, distribuição, comunicação ao público, veiculação em qualquer tipo de mídia e por qualquer meio ou processo existente (cinema, televisão de canal aberto, televisão) CD Rom, DVD -- imagem e som, Internet e demais processos (multimídia) e sua execução pública comercial ou não, em locais públicos ou privados de freqüência coletiva, tais como aeronaves, embarcações, trens, e quaisquer outros meios de transporte, e em todos os demais locais de freqüência coletiva a que faz referência o parágrafo 3º do artigo 68 da Lei de Direitos Autorais Brasileira, Lei 9.610, de 19/02/1998.
O ato da inscrição dos participantes implica no cumprimento e na aceitação integral de todos os termos do regulamento, valendo como contrato de adesão.
A Comissão Organizadora reserva-se o direito de, a qualquer tempo, desclassificar o concorrente que não cumprir qualquer uma das disposições deste, em todas as suas etapas, incluindo o desrespeito às datas e horários para as apresentações e envio de dados e materiais solicitados, com o ressarcimento por o concorrente dos danos causados à Comissão Organizadora.
A Comissão Organizadora não admitirá agente, empresário, marchand ou quaisquer outros intermediários em seu relacionamento com os participantes do presente projeto, fundamentalmente nos projetos «Território Ocupado» e «Mandioca», em todos os assuntos ligados direta e / ou indiretamente ao programa, tendo como único interlocutor o participante inscrito no projeto.
Prazos e locais pré-definidos em 'te regulamento poderão ser alterados a critério da Comissão Organizadora sem prejuízo de informação aos inscritos ou selecionados.
Os casos omissos no presente regulamento serão solucionados por a Comissão Organizadora, tendo como critério a equivalência dos mesmos direitos a todos os concorrentes, não cabendo qualquer recurso contra suas decisões.
Contatos:
Galvão, Estela ou Marilena:
programartefcms@terra.com.br Difusão Cultural -- Programa de Artes Plásticas --
Tel. 3316.9170
Rua Fernando Correa da Costa --559.
Centro.
Campo Grande / MS
CEP: 79002-820
Fundação De Cultura
De o Estado De Mato Grosso De o Sul
Difusão Cultural
Coordenação De o Programa De Artes Plásticas
Campo Grande MS 02 de fevereiro de 2007 Ilacír Galvão dos Santos
Coordenação do Programa de Artes Plásticas
Fundação De Cultura De o Estado De Mato Grosso De o Sul
Coordenação De o Programa De Artes Plásticas
Ficha De Inscrição para Exposição nos Projetos:
«TERRITORIO OCUPADO» Grande Galeria () Memorial da Cultura "
3 D " Esculturas () Memorial da Cultura
«WEGA NERY» Galeria () C.C.Octávio Guizzo
«PROJETO PAREDE» Lateral da Galeria () C.C.Octávio Guizzo
Nome artístico e / ou Nome do coletivo
Título do trabalho / Projeto
Dados do Responsável Nome Completo:
Data de Nascimento:
RG:
CPF:
Última mostra Individual ou Coletiva, realizada nos últimos 02 anos
Nome:
Data da Realização:
Endereço:
Bairro: Cidade:
Estado:
CEP:
Telefone:
Fax:
E-mail:
Cel:
Área de participação
Obras Prontas: ()
SIM () Não -- Apresente justificativa na proposta
Categoria Artes Plásticas:
pintura () desenho () gravura () 'cultura () objeto () colagem e / ou instalação ()
Categoria Multimídia:
arte digital () vídeo-arte () web-arte () performance () fotografia artística () áudio / vídeo () linguagem periférica ()
A o preencher e assinar o formulário de inscrição, aceito as normas do regulamento deste Edital, que passa a valer como contrato de adesão, concordando integralmente com todos os seus termos.
Local Data:
/ / 2007
Assinatura do Artista Responsável Ficha de inscrição no.
Número de frases: 197
Assinatura do Responsável por a Inscrição Dia 4 de setembro é a véspera do dia mais importante da história do Estado, quando é comemorada a Elevação do Amazonas à Categoria de Província.
Traduzindo: é a independência do Amazonas, a conquista da autonomia administrativa no lugar da submissão ao Grão-Pará.
Um novo tempo!
Em 2008, quando for meia-noite do dia 5 (sexta-feira), uma multidão vestindo camisas pretas já 'tará em festa, aplaudindo, gritando e cantando em mais um inestimável culto ao ritmo eletrizante do rock, a reconstruir nos fãs da cidade uma outra sensação de independência:
a dos altos custos de deslocamento para assistir a shows internacionais que vêm ao país.
Os Scorpions 'tão de volta ao Brasil, e um ano depois, 'tão novamente em Manaus.
Não é fácil amar o rock nos quintais da Zona Franca, uma cidade que aparenta não ter a paixão correspondida se analisada a não-realiza ção de shows internacionais na medida 'perada por os admiradores, mas vendo a música por o viés desapaixonado dos negócios, as dificuldades logísticas para a capital ainda de mostram o motivo-chave deste afastamento colocando a relação ao patamar do amor proibido.
Porém, Manaus se permitiu alguns flertes que geraram shows raros, memoráveis e explosivos.
Estamos na tarde do dia 8 de agosto de 2007, há pouco menos de um ano e um mês, a parte conhecida como «ferradura», do Sambódromo de Manaus, recebia os últimos ajustes para o show do Scorpions.
O bom humor dos alemães desde o desembarque alimenta a perspectiva de uma grande apresentação com o anunciado registro da sua gravação em DVD.
São 18h, o empresário Marcus Martins, 33, checava as instalações dos generosos 110 metros quadrados do camarote onde vai receber amigos e convidados, quando um 'talo metálico acompanhado de gritaria chama sua atenção para a pista:
o portão começara a ser aberto e como uma represa que rompe, deixava passar sem controle o número 'pacialmente possível de pessoas na medida em que se movia:
uma, três, seis, onze, trinta ...
e sob o olhar agora emocionado do empresário, a pequena multidão corre aos berros na direção de um palco ocupado somente por técnicos anônimos ainda à luz do dia.
De emocionado à comovido, Marcus acompanha tudo.
Ele sabe muito bem como a corrida termina.
Seus olhos já 'tiveram a poucos centímetros de um portão fechado, vendo 'te se abrir, e em seguida um palco crescia em sua direção enquanto suas pernas o conduziam numa velocidade que provavelmente desconhecia até aquele momento que poderia alcançar.
Era março de 1991, Manaus acabara de assistir o segundo Rock In Rio por a televisão, mas a inauguração de uma casa de shows com capacidade para 3 mil pessoas prometia a possibilidade da vinda corriqueira de super-astros internacionais.
Já no segundo 'petáculo, a casa trazia uma revelação da cena mundial que passou por o super palco carioca e 'tava no auge.
Com 17 anos, o então 'tudante Marcus, atirou seu corpo de modo quase suicida na divisória em ferro e madeira, onde se agarrou com força suficiente para nenhuma força da natureza removê-lo.
Espaço conquistado, respirou e ainda ofegante pôde conferir um a um de seus amigos de 'cola preencherem aquele 'paço lado a lado.
A cada berro eufórico, um significado:
«'tamos o mais próximo possível e não tem ninguém na nossa frente».
A 'perança tinha nome:
Faith Em o More
De volta ao sambódromo, já recebendo cerca de 200 convidados em sua área Vip, Marcus lembra da expectativa gerada por a vinda do Faith no More para Manaus.
«Aquele foi histórico, o primeiro show internacional de rock na cidade, foi aquela coisa de chegar cedo por volta das 5 da tarde e 'peramos pelo menos 6 horas até começar», explica.
O empresário nem desconfiava que as horas de pé agarrado na grade nem se comparariam aos sete anos de marasmo até a cidade assistir ao show seguinte.
Paul Di'Anno pousou em Manaus somente em 1998, mobilizando os fãs do metal para exibir o seu trabalho independente na condição de ex-vocalista do Iron Maiden, na prática, uma noite transformada da promessa para uma paradoxal apresentação numa quadra de 'cola de samba com duração de apenas 40 minutos.
Há quem classifique até hoje o evento como «o gozo precoce da década».
Depois disso, o internacional silêncio perturbou os ouvidos manauaras até o lampejo de excentricidade do duo hype 'tadunidense White Stripes, em 2005, que 'colhia locais inusitados para gravação de videoclips, e assim como o fundo de um boteco na região das ruínas jesuíticas argentinas, a dupla também decidiu que o Teatro Amazonas era um local dentro dos critérios da inusitabilidade procurada.
Manaus agradeceu, os ingressos 'gotaram em horas para o show que é considerado até hoje, por críticos da mídia dita 'pecializada, como um dos mais importantes já realizados no Brasil, com direito à lotação externa ao Teatro, no Largo São Sebastião, onde telões transmitiram ao vivo a performance de Jack e Meg White para os roqueiros que não conseguiram entrar.
Motivos da 'tiagem
Em a opinião de Marcus, que acompanha o rock na mesma proporção que se alimenta, o ciclo de uma superexposição da indústria da música -- ascensão e queda -- pode 'tar entre os principais fatores conjunturais que colaboraram para a não-continuidade de shows em Manaus.
«Em 1991 haviam muitas bandas no auge, mas o Faith no More veio para ser um divisor-de-águas assim como o Nirvanna, o grunge chamou atenção da indústria tornando também a cena hard rock e heavy metal populares, mas tudo que é popular sucumbe», analisa.
Como um ciclo industrial leva muitos artistas a aproximarem suas composições ao 'tilo explorado no momento, no intuito de chamar atenção de gravadoras e participar dos benefícios financeiros do «boom».
De repente, músicas e bandas 'tão muito parecidas e uma cara homogênea empobrece o cenário.
Porém, o mesmo mercado não perdoa, e em troca de outra novidade para investir o 'gotamento do rock na cena trouxe efeitos mais devastadores ainda.
Outros 'tilos musicais passaram a ser incentivados e por volta do final da década de 1980, as guitarras não povoavam mais o mainstream das rádios e televisões comerciais.
Marcus comenta que demorou para o rock assimilar o golpe.
«Pouco depois de 1991 o 'tilo entrou numa fase morna, grandes bandas saíram da cena que só foi retomada de 2005 em diante», afirma.
Esses fatores somados às dificuldades logísticas de se trazer uma apresentação à cidade ajudam a entender os promotores de eventos no sentido que, onde há dúvida, não pode haver investimento.
Mas atualmente, o rock já mostra uma retomada impulsionado também por o movimento que justifica sua presença em 'ta noite de 2007, a volta à ativa de bandas que construíram o sucesso com um trabalho autêntico, alheio aos modismos.
O rock volta à tona a partir de ícones como o Scorpions.
De a grade à área Vip na vida
Ao invés de procurar os amigos na grade, Marcus hoje confere quem chegou (ou ainda falta) consultando uma lista nas mãos da recepcionista.
Para o show do Scorpions de 2007, solicitou uma área diferenciada (leve 'te termo às últimas conseqüências) e 200 ingressos para revender aos amigos, cerca de 30 destes, unidos em torno do rock deste a época de colégio.
«É o heavy metal que nos une, eu diria que a única coisa que nós temos em comum é gostar de heavy metal e sempre vale a pena reunir todo mundo», avalia, colocando ainda a paixão por o rock como um diferencial positivo na construção de sua vida e de seus amigos.
«A gente trabalha para fazer o que sempre sonhou, quando não 'tamos ouvindo rock a gente trabalha demais.
Aqui tenho amigos que são juízes na capital e no interior, advogados, engenheiros, donos de construtoras o que nos dá o privilégio de poder sair de Manaus para seguir os shows que acontecem dentro e fora do Brasil», revela.
Em o palco, uma banda tocando covers faz o pré-show, apenas mais uma evidência da falta de sensibilidade de promoters com a competente cena doméstica do rock manauara, repleta de bandas com 'trada e trabalho próprio eficiente.
A platéia que já toma grande parte da pista e ocupa metade dos segmentos das arquibancadas interage com a banda sem demonstrar muita euforia diante do repertório sem surpresas audível em qualquer bar de rock da cidade.
De a área Vip à grade no show
Os ingressos dos camarotes 'peciais dão direito de descer as 'cadas e chegar até uma área privilegiada, de pista, colada ao palco.
Atrás deste cerco Vip há outra divisória e uma fila de seguranças que vigiam o 'paço entre o território privilegiado e a pista aberta ao público.
Ocupando seus valiosos primeiros lugares na pista comum devidamente grudadas na grade 'tão as 'tudantes e amigas Jadd Ayala e Manoela Marinho, ambas com 17 anos, cada uma ostentando um sorriso olímpico de quem conquistara o direito de viver um grande momento.
«Cresci ouvindo Scorpions.
Isso é demais, é um sonho que 'tamos realizando», desabafa Jadd, que mesmo sem ser perguntada engatou o relato da conquista da posição.
«A gente chegou 13h30 porque disseram que iriam abrir os portões às 16h, tava chovendo e a gente ficou na frente do portão pegando chuva e tudo.
Foi muito legal, valeu a pena».
Tendo compartilhado toda a 'pera com a amiga, Manoela lembra que mesmo com atraso, os portões só foram abertos às 18h.
«Se a gente não tivesse feito uma manifestação acho que eles não teriam aberto, tinham algumas senhoras e 'távamos preocupadas», revela.
Jadd explica que toda a preocupação desapareceu sob um agudo 'talo metálico seguido de gritaria.
«A gente só saiu correndo, correndo muito, agoniada porque a gente tinha que ficar na frente.
Desde lá não saímos daqui e vamos ser as últimas a deixar o sambódromo».
A 'perança do 'tudante Marcus tem a idade de Jadd, que agora carrega a sua própria expectativa de assistir aos principais ídolos sem sair da cidade, mas se o tempo passar, Jadd já tem planos.
«Vou fazer faculdade, trabalhar e fazer de tudo para viajar para outros países para ver quantos shows puder de outras bandas e dos Scorpions, que ainda vão ter uma vida longa», conta, e feliz mostra uma pista da magia que envolve e mantém a paixão cíclica de gerações que balançam as cabeças sob riffs.
«Conheci o rock por o meu pai e quero poder passar 'sa alegria para os meus filhos.
Meu pai me incentivou muito para 'tar aqui, e é também por ele que vou gritar muito, ele mandou:
vai lá e fica feliz».
Marcus, Jadd e Manoela não se conhecem, mas sabem que, ao lado da legião que ama o rock em Manaus, são personagens ativos e torcedores de um processo.
A o final de mais um raro show, os roqueiros de Manaus podem chegar a uma orgulhosa conclusão:
o de morar num lugar onde o deslumbramento dos ídolos se torna tão intenso quanto a vontade dos fãs em assisti-los.
Prova no empolgante bis interminável dos Scorpions (2007);
no arroubo de Jack White (2005) ao sair do Teatro Amazonas no meio do show para tocar à multidão aglomerada do lado de fora, e para quem arriscou, ser bem recebido em conversar com Mike Patton e os integrantes do Faith no More (1991) como melhores amigos à beira da piscina do hotel.
Depois do show de 2007, Manaus vive a disputa do clássico da Alegria vs.
Frustração, com uma vitória ligeiramente apertada em 3 a 2. Scorpions e Whitesnake marcaram para bem da nação roqueira, ajudados por o show conjunto das alemães Helloween e Gamma Ray.
Os dois golpes na expectativa local fica por os lamentáveis cancelamentos das bandas Deep Purple e Megadeth.
Número de frases: 78
Em 'ta quinta, que os Scorpions ampliem o placar para o bem, numa data tão 'pecial para o 'tado e a cidade, que Manaus seja elevada em definitivo à categoria de rota dos grandes shows de rock.
«Que será como a voz do Amazonas Ecoando por todo o Brasil», foi 'se trecho do hino Acreano que veio em mente quando me deparei com 'sa idéia, do Circuito Fora do Eixo, de Grito Integrado.
Falo em primeira pessoa, pois o grito, penso, parte de um que depois «com» outro vai formando 'sa imensidão de vozes, que mais que gritar propõe-se a ouvir uns aos outros.
O Grito do Rock, marcado para acontecer em cerca de 15 cidades diferentes, em pleno carnaval, é sem dúvidas nenhuma uma ação de ousadia do independente calcada no crescente fortalecimento da cadeia produtiva.
Nacionalmente o Grito Rock é realizado desde 2003 por o Espaço Cubo de Cuiabá e agora ecoa por outro varadouros foras-do-eixo.
O Acre integra o circuito Grito Rock com a organização do selo fonográfico Catraia Records em parceria com bandas e produtores de conteúdo.
O Grito Rock Acreano acontece no dia 19 de fevereiro, a partir das 17 horas, no Galpão das Artes e tem como convidadas as promissoras bandas Marlton, Calango Smith, Blush Azul, Dead Flowers, Matéria Fecal e as já conhecidas no independente Los Porongas e Camundogs.
Mais informações no blog www.gritoacreano.blogspot.com.
Serviço:
O quê:
Festival Grito Rock
Quando:
19/02/2007, a partir das 17:00hs
Onde:
Galpão das Artes (Calçadão da Gameleira, ao lado da Chopperia Sahaara)
Ingresso:
R$ 1,00
Bandas Convidadas:
Marlow
Calango Smith Blush Azul
Dead Flowers Matéria Fecal
Los Porongas Camundogs.
Número de frases: 22
Indo por a Marginal Tietê, é a primeira rua à direita depois do Estádio do Canindé.
Uns 50 metros adiante, entre um amontoado de bares e casas, uma viela vai dar direto no Galinhada do Bahia, tradicional restaurante nordestino comandado por Raimundo Soares, o'Bahia ' em pessoa.
Ele, que já ensinou receitas na TV e até fez a Ana Maria Braga passar por baixo da mesa, prepara um almoço 'pecial para o aniversariante.
«Camarão na moranga, cozido baiano, galinhada com carneiro e buchada."
Não parece o cardápio ideal para quem 'tá fazendo 70 anos, mas ' Bahia ' conhece bem o freguês, tem até foto de ele na parede.
De o lado oposto, claro, da parede que abriga uma pequena 'tátua de Jesus com os braços abertos e uma imagem de Nossa Senhora.
Afinal, o freguês da foto é o Diabo Tropical, é a Encarnação do Demônio, é o Zé do Caixão, que completou 70 anos no último sábado *.
Em plena forma, José Mojica Marins, o cineasta brasileiro que ficou famoso no mundo todo por filmes de terror como à Meia Noite Levarei sua Alma e O Estranho Mundo de Zé do Caixão, chega acompanhado da mulher, 47 anos mais jovem.
É aplaudido por todo o pessoal da mesa, que veio a convite de André Barcinski e Ivan Finotti, autores da biografia Maldito -- O Estranho Mundo de José Mojica Marins.
Barcinski entrega o presente, uma camisa personalizada do Corinthians com o número 70 'tampado nas costas, logo abaixo do nome Mojica.
«O Carlitos Tevez 'tá fora, tenho que aproveitar», brinca Zé do Caixão, segurando ao mesmo tempo, com dificuldade, por causa das longas unhas da mão 'querda, o presente e o cigarro.
Perto de ali, no Canindé, jogariam mais tarde Portuguesa e Palmeiras.
Alguém pergunta ao corintiano fanático Mojica qual é a praga que ele vai rogar no jogo.
Nenhuma." Infelizmente vai dar Palmeiras.
A Portuguesa ataca, se abre, e o Palmeiras aproveita."
Foi profético:
2 a 1 para o Palmeiras, de virada.
Vem o bolo, os parabéns -- " É pique, é pique, é pique ...
é hora, é hora, é hora ...
Rá-Tim-Bum, Mojica, Mojica " -- e Zé do Caixão apaga a velinha com dois assoprões.
«Não é uma data cabalística, nem um mês cabalístico.
É uma data com uma mensagem.
A gente vai voltar a se encontrar no ano que vem, com mais dinheiro no bolso e com saúde», discursa.
Mojica acomoda-se na cadeira de plástico, pede uma caipirinha, e começa a folhear um exemplar de uma revista cuja capa traz a chamada «Sob a Sombra do Diabo».
Um dos textos diz que o personagem Zé do Caixão é o «Belzebu Tropical, uma mistura de Drácula de Bram Stoker com o Diabo».
«Não tenho nada contra», admite Mojica, passando a revista para sua filha, Mariliz Marins, autodenominada ' Liz Vamp '.
Ao lado de ela 'tá Edineide Silva, a 'posa -- embora a união ainda não seja oficial -- de 23 anos.
«Vou fazer um casamento formal, na hora certa», diz o aniversariante, que já faz planos de aumentar a prole, 'tacionada em sete filhos.
«Quero chegar a 13, que é um número cabalístico.
Sete também é, mas se sair de sete tem que chegar a 13." Para os netos, que são 11 (nove meninos e duas meninas), só faltam dois.
O principal plano de Mojica no momento, porém, é terminar a trilogia iniciada em 1964 com o filme à Meia Noite Levarei Sua Alma e interrompida desde Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, o segundo filme, de 1967.
Depois de receber pela primeira vez um financiamento oficial -- cerca de R$ 1 milhão, o cineasta prepara-se para seu mais ambicioso filme, A Encarnação do Diabo.
As filmagens devem começar em junho (" no frio o trabalho rende mais ") e terminar em dezembro, com lançamento previsto para março de 2007.
«É a fita mais cara da minha vida e será a melhor fita do Brasil."
Mojica fala mais sobre a nova produção.
A história começa de onde termina Esta Noite Encarnarei ...,
com Zé do Caixão afundando num lago.
Ele será salvo por um corcunda e se envolverá com a 'posa de um coronel (Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas, Palma de Ouro em Cannes, será convidado para viver o papel).
Zé do Caixão formará um exército de marginais e indigentes, e continuará à procura da mulher perfeita:
«fria, não deve odiar, nem amar."
E vai engravidar sete mulheres de uma vez ...
um numero cabalístico.
Mojica planeja usar entre 350 e 500 figurantes em seu novo filme, cujo uso do computador será restrito aos créditos.
Não há nenhum efeito 'pecial.
«Vou filmar em película, não em digital.
Quero usar meu sistema artesanal.
A diferença é que agora, com dinheiro, vai dar para pagar todos os artistas."
Mojica, no entanto, faz uma ressalva:
o dinheiro da produção não 'tá com ele, mas com sua produtora.
«Tem gente que acha que ando com isso no bolso.
Outro dia um drogado me parou na rua e me pediu R$ 100 mil emprestados."
Quase 17h, o filho de Mojica se despede.
«Tchau, pai».
«Vai com Deus, filho», abençoa Zé do Caixão.
Um pouco emocionado, Mojica então começa a falar de morte.
«Se eu morrer agora, deixo tudo no ar.
Mas se eu morrer no ano que vem, depois de fazer o filme, fica tudo legal.
Quero deixar uma herança para os meus netos." * (
Número de frases: 58
matéria feita no dia 14 de março deste ano) Há dez anos, os habitantes da pequena Maravilha, no semi-árido alagoano, encontraram ossos de um ser gigante, maior que qualquer vaca, cavalo ou onça da região, e atribuíram os restos mortais a uma criatura mitológica que passou a habitar o imaginário local, o monstro conhecido como Zamba!
Não sabiam eles que haviam encontrado ossos de uma preguiça-gigante, animal pré-histórico de mais de 10.000 anos.
Em uma viagem à procura de cavernas em 1997, o paleontólogo Jorge Luiz Lopes entrou em contato com 'tes fósseis através da população de Maravilha.
O lugar tornou-se seu objeto de pesquisa desde então.
Jorge Luis é responsável por o setor de paleontologia do Museu de História Natural da Universidade Federal de Alagoas, e em 'tes dez anos 'tuda a megafauna do sertão de Alagoas, ou seja, mamíferos gigantes pré-histórico.
O mastodonte, que é muito semelhante ao elefante, o a paleolhama, a preguiça-gigante e o tatu-gigante (gliptodonte), eram alguns dos habitantes da verdejante paisagem onde hoje é o sertão alagoano, nos municípios de Maravilha, Poço das Trincheiras e Ouro Branco.
Entre dois milhões e dez mil anos atrás, a região era uma planície úmida, fértil, com muitos rios, bem parecida com as savanas africanas de hoje.
É sobre 'sas histórias mais antigas que a história (período pleistoceno) que os maravilhenses, sobretudo as crianças, jovens e professores das 'colas locais, andam conversando e aprendendo desde a inauguração do Museu Paleontológico de Maravilha, em maio de 2007.
Cidade temática
«Que maravilha de serra, 'te lugar ainda vai ser uma maravilha» foi o que disse um padre que passou no lugarejo há não contados anos, antes chamado de Cova dos Defuntos, local onde foram enterradas inúmeras vitimas de cólera.
Hoje, com a benção do antigo padre e da exuberante Serra da Caiçara, a cidade se chama Maravilha, e alguns de seus mortos, os mais antigos antes do homem, se tornaram verdadeiras celebridades locais e o tema dos fósseis 'tá nas salas de aula e feiras 'tudantis do município.
«O mais famoso e querido por os moradores é a Preguiça-gigante, me contou o 'tudante de segundo ano do ensino médio, Urbano José dos Santos, na manhã chuvosa em que cheguei a Maravilha.
Chuvosa e verde, da caatinga às lavouras de milho.
Ainda bem.
Urbano tem 18 anos e falou da expectativa da cidade em relação ao fluxo de turistas, " o museu e as descobertas podem ajudar no desenvolvimento econômico e cultural, a população entendeu do que se trata e 'tá confiante, investindo em comércio, 'tão construindo uma churrascaria, já aumentou o número de lanchonetes, só tinha uma e hoje são quatro, vão criar uma feira para artesanatos com os bordados e os sabonetes de leite de cabra.
Todos falam em 200 turistas por mês no começo».
Réplicas
Os bichos antigos foram reproduzidos em tamanho natural na praça central, em frente ao museu e na caatinga do sítio Ovo da Ema, um trabalho fantástico do artista Valdo Lima, de Carpina, Pernambuco, que construiu em metal, argamassa e cimento, as réplicas dos bichos na cidade e no mato, e também pintou os painéis do interior do museu.
Por falta de recursos da prefeitura, que toca todo 'te projeto junto com o paleontólogo Jorge Luiz, sem apoio privado, 'tadual ou federal, Valdo precisou voltar a Carpina, e aguarda ser chamado novamente pra produzir novas peças na cidade.
Conversei com o artista por telefone e perguntei como conseguiu fazer bichos que já não existem mais.
Ele explicou.
Em os livros encontrei imagens que serviram de modelo, além das descrições do Jorge Luiz.
Trabalhei um tempo no zoológico de Recife onde aprendi a técnica e observei os animais.
Em 'te momento 'tou produzindo algumas peças para o Museu de História Natural de Maceió».
Maravilha 'tá se tornando uma cidade temática.
A prefeitura e o pesquisador buscam recursos para ampliar o projeto de sustentabilidade turística do município, que prevê mais réplicas na cidade, uma pousada ecológica, programas de educação ambiental e formação de profissionais, criação de unidades de conservação, um parque temático, um museu arqueológico no município de Poço das Trincheiras e um museu geológico em Ouro Branco, outra cidade vizinha em 'sa belíssima região de serras e caatinga no sertão alagoano.
Por enquanto a cidade tem pouca ou nenhuma infra-estrutura para o turismo, mas se depender da empolgação dos maravilhenses, tudo pode dar certo, em 'te lugar a 250 km da capital, um município pequeno numa região pobre, com poucas opções de emprego e renda, pretende buscar no turismo uma alternativa sustentável.
Por enquanto, a melhor hospedagem ao visitar Maravilha ainda é a cidade de Santana do Ipanema, distante 18 km.
Belezas naturais
Em o Museu de Maravilha, descobri que Jorge Luiz 'tava na cidade fazendo 'cavações.
Já havia conversado com ele em Maceió, mas nada como acompanhar o trabalho de campo pra entender melhor a rotina árdua desse tipo de estudo.
Procurei por alguém que conhecesse bem a região pra me ajudar a encontrar Jorge na caatinga.
Encontrei Pepa, jovem com feições de índio, grande e forte, que se mostrou um guia conhecedor do terreno, sujeito gentil e atencioso.
Assistente do Secretário de Educação Claudio dos Santos, Pepa acompanhou todo o processo das descobertas até a criação do museu.
Saímos da cidade por 7 km em 'trada de terra, que 'tá em boas condições, deixando para trás a Serra da Caiçara, segundo ponto mais alto do 'tado (848 metros do nível do mar).
A vegetação foi ficando mais seca à medida que avançávamos.
Pepa falava da vida por ali, dos períodos de 'tiagem, de crescer facheando (caçando) preás e outros bichos nas noites do sertão.
Paramos no Sítio Ovo da Ema, local onde houve a primeira descoberta, feita por o falecido Juarez, que mostrou o osso achado e guardado ao paleontólogo visitante.
Fomos recebidos por Nicelma de Oliveira, mãe de Julio e Nívea, de 8 e 6 anos, e mais um sem número de meninos, amigos das redondezas.
Nicelma disse que gostava da idéia de muitos visitantes por ali, «pra conhecer as pessoas e saber das histórias».
Mas história boa mesmo foi a que ela contou, sobre o toxodonte nas rochas próximas a sua casa.
«Em a semana de inauguração do museu, o pessoal 'tava desavisado desse bicho ali, eu pensei com mim que aquilo ia assustar alguém.
Dito e feito.
O Junior, menino do povoado aqui de perto, tava caçando de noite com os outros, chegaram aqui brancos e gritando de um monstro no mato, largaram tudo lá e saíram correndo."
Imagine o susto!
Pegamos a trilha a pé que levava ao toxodonte, e o impacto visual do trabalho de Valdo em ambiente natural é potencializado.
Imaginei centenas de peças daquelas em toda a região, um vasto museu de réplicas ao ar livre! (
Com material informativo para todos os caçadores noturnos da região, de preferência.)
Seguimos a 'trada, atravessamos um riacho e chegamos ao povoado onde se encontrava Jorge Luiz, com sua equipe de trabalhadores locais, uma colega e sua 'posa, em plena atividade, explorando o fundo das depressões nas rochas.
Comentei com ele de como a comunidade me pareceu envolvida com o tema, ele concordou e disse que " já se percebe a mudança na auto-'tima da população, já reconhecem tudo isso como patrimônio de eles.
É um projeto que demanda tempo, mas tem muita gente envolvida e cobrando mais ações».
Subimos a serra com Jorge Luiz, que precisava fazer fotos da área, caminhamos por uma trilha com vegetação de 'pinhos e rochas enormes, elevando-se sobre o vale.
A paisagem é gratificante, com a Serra da Caiçara ao fundo e as pedras como mirante natural.
Descemos.
Deixamos o paleontólogo e seu pessoal nas 'cavações e voltamos para Maravilha.
Almoçamos na Maria Zé de Bico, que faz um lindo bordado de labirinto e prepara delícias na cozinha para os visitantes com ajuda de suas assistentes.
Comemos lasanha de frango com milho e ervilha, salada, feijão de corda e guisado de bode, um dos pratos mais típicos do sertão.
Enquanto comia, 'cutava Maria.
«Ainda bem que Jorge Luiz descobriu 'sas coisas que 'tavam perdidas aí no Ovo da Ema.
Maravilha não pode ser uma cidade morta, tem que ser uma Maravilha!
E os turistas já 'tão chegando».
Sobre o restaurante, Maria comenta o sucesso dos pratos, «o próprio povo daqui nem faz mais feira, comem sempre aqui em casa».
Maria sabe vender seu peixe e planeja uma reforma no restaurante-casa.
Já ministrou cursos de labirinto em Maceió, Boca da Mata e Maravilha, onde pretende fundar uma cooperativa de artesãos.
Antes de deixar a cidade, passei na casa do senhor Espedito Augusto, professor do ensino de jovens e adultos na cidade, agricultor, «e o que mais aparecer, trabalho de tudo, sou madeira de dar em doido», diz ele na porta da sua casa.
Espedito 'creveu um cordel, que já é famoso na cidade e mostra sua visão de poeta, dos tesouros pré-histórico do lugar.
«Em o meu tempo todo acontecimento virava cordel».
Maravilha no Passado (Trechos)
Autor: Espedito Augusto.
Eu falo para os ouvintes
Que a ciência é capaz
De 'tudar coisas vividas
Trinta mil anos atrás
Estuda os oceanos
Também os seres humanos
E os outros animais
Siga a evolução
Se informe em coisas boas
Não seja ignorante
Falando coisa à toa
Vou falar em animais
que há muitos anos atrás
Viveram em Alagoas
Já houve quem me dissesse
Isso é papo furado
Só quem tem trinta mil anos
Viu se isso foi passado
Acho que é cidadão
Que não tem informação
Ou nada tem 'tudado
Por o 'tudo dos fósseis
Se vê a realidade
Os biólogos 'tudam
E desvendam a verdade
Por o carbono -- 14
dizem se realmente houve
E ainda dizem a idade
Fósseis são restos ou vestígios
De organismos encontrados
Em rochas, tanques lagoas
Cacimbas e outros dados
A paleontologia
Ciência que há dias
Explica 'tes resultados
O que vou dizer agora
Não desrespeita as pessoas
Mas mostra que nossas terras
Toda vida foram boas
Vamos ficar orgulhados
De ver os fósseis encontrados no sertão de Alagoas
Ouça o que 'tou dizendo
Não saia fora da trilha
Para depois transmitir
Para toda sua família
que entre os fósseis encontrados
Lugar privilegiado
Se destacou Maravilha
Os animais pré-histórico
Que existiram na região
Eu vou descrever alguns
Pra sua admiração
Houve um Mastodonte
Semelhante ao elefante
Mas peso e altura não Media até 4 metros
E comia vegetais
Só que não me diseram
Se ele era voraz
Quebraram o seu sigilo
Pesava até 6 mil quilos
E vou dizer os demais
Tinha Preguiça-gigante
Parecida com as atuais
Medindo até 6 metros
Só vendo 'tes animais
Seu peso não era fada
mais de 5 toneladas
Sua altura era demais
Havia o Toxodonte
Um animal enorme
Parecido o hipopótamo
Porém não era ancestral
Também era semelhante
A todos os rinocerontes
De 'sa época atual
Toxodonte vivia
Próximo a rios e lagoas
Comia plantas aquáticas
De 'sas que não enjoam
Seu peso era parada
Até 4 toneladas
Em qualquer balança boa
Um sinal que existia
Muita água no sertão
É vendo os Toxodontes
E sua alimentação
Quando faltou 'sa prática
De comer plantas aquáticas
Veio a sua extinção
O Aqui também existiu
Foi da América do Norte
E migrou para o Brasil
Vê que até os animais
Também correram atrás
De este torrão varonil
Ele era um predador
Pior do que canguçu
Saiu lá do lado norte
Seguindo o céu azul
Em o istmo do Panamá
Ele conseguiu passar
Para a América do Sul
Segundo os pesquisadores
Este bicho tão voraz
Você não faz a idéia
do que ele é capaz
Com sua bruta ação
Ajudou na extinção
De alguns dos animais
Existiu Tatu-gigante
Com o qual vou comparar
Chamado gliptodonte
Que podia até chegar
De o tamanho de um fusco
De esses que hoje só se busca
Somente pra viajar
Pesquisador visitante
Chamado Jorge Luiz Paleontólogo que luta
Pra crescer o país
Com o apoio de Maravilha
Junto a Secretaria
Faz um trabalho feliz
Tendo seu objetivo
Uma melhor intenção
Transformar área 'tudada
Também de preservação
De os sítios paleontológicos
Juntos aos arqueológicos
Encontrados no sertão
Firmar a educação
Cultural de 'sa cidade
Também patrimonial
E ambiental de verdade
Criar museu na área urbana
E de campo, pois toda semana
Número de frases: 204
Se olha a novidade
Um dia desses, lendo um dos jornais da cidade, me deparei com um texto muito interessante, enviado ao periódico por um sujeito chamado Elísio Augusto de Medeiros e Silva.
O 'crito, intitulado «Passeio noturno à Ribeira», tratava, com um saliente saudosismo, dos compassos flutuantes do velho bairro da Ribeira;
suas histórias, seus contextos, suas acontecências.
E nas saudosas andanças literárias e físicas, propriamente ditas, de Elísio, cheguei junto com ele " ao primeiro marco da antiga Ribeira:
O Beco da Quarentena», que por décadas, serviu como lugar de sexo barato, para os menos favorecidos.
«A impressão que tive foi a de que o tempo tinha parado e o «Beco» era filho enjeitado da bela cidade Natal."
De frente ao beco, o «eu -- lírico» de Elísio percebeu ali «pedras revoltas, que 'tão no mesmo lugar, há dezenas de anos, portas abertas, 'cancaradas, sem a menor decência em seus humildes prédios, em ruínas».
O Beco da Quarentena, na Ribeira, não é um beco.
Em a verdade, o local se chama Travessa da Quarentena e é uma ruela de passagem entre as ruas Chile e Frei Miguelinho.
Em o início do século a pequena via era conhecida como a Rua das Donzelas, um verdadeiro «marco social».
Conta-se que ali, a poucos metros do cais do porto, ficavam de quarentena os marinheiros que chegavam com doenças contagiosas e as pessoas da cidade já contaminadas.
Depois o local virou ponto de prostituição.
Como toda sorte de gente perambulava por o Beco, o lugar ficou como maldito.
Reza a lenda que ninguém o cruza de uma ponta a outra.
Impressões do Beco
Em o livro «Breviário da Cidade do Natal», o 'critor Manoel Onofre Júnior termina o trecho intitulado» A Zona " com o seguinte mote:
«O velho beco, com seu ' claro mistério ', continua maldito.
As pessoas decentes o evitam, até mesmo durante o dia, como se o vissem ainda empestado».
Outro seduzido por as histórias do Beco é o poeta Sanderson Negreiros.
Em os versos «Aqui, arcos de sólido abandono / Restos da hora / Inúteis delíquios à luz dos círios de outrora», o poeta faz uma ponte entre a poesia do passado e abandono atual do Beco da Quarentena.
O Cajá das Raparigas '
Enjeitado ', o beco foi testemunha da vida boêmia da Ribeira.
Ali, as risadas das mulheres da vida e dos boêmios deram lugar a um silente existir.
As portas, antes abertas para a alegria dionisíaca, hoje 'tão serradas.
O «Beco» se transformou num lugar evitado por quem passa por os arredores.
O seu Elísio Augusto ainda arremata:
«Todo 'te abandono, a um dos maiores sítios históricos de Natal, assistido, placidamente por um pé de cajá, que -- (garantem!) --
não foi plantado, nasceu, 'pontaneamente, naquele local e, na safra, os seus frutos são disputados na Ribeira, conhecidos como os ' Cajás das Raparigas '».
Crônicas do Beco
O jornalista e professor do curso de Comunicação Social da UFRN, Emanuel Barreto, num texto do seu livro «Crônicas para Natal», registra o beco como o lugar onde» bêbados desvalidos faziam suas farras de desespero».
E os versos continuam ...
«Em a Ribeira há um caminho torto, feio, 'curo.
É a Travessa da Quarentena, onde, há muito, muito tempo, os deuses desvairados
do sexo barato faziam ali suas orgias.
O Beco da Quarentena, como ficou na lembrança popular, é 'se falido porão
da cachaça barata e das mulheres de todos
e de ninguém.
Ali, vez por outra, passantes cortam
caminho, num atalho sem futuro.
Ali, quem sabe, nas noites da velha Ribeira,
fantasmas de bêbados e marias se juntam.
E dançam sua dança de cachaça."
Poesia no Beco
A poeta Civone Medeiros Tonig empresta os versos libidinosos do seu poema Bilhete na Ribeira para anunciar o desfecho do «Passeio» proposto por o " Seu Elísio:
«Quero comer teu riso
Não tema!
É instinto!
Insisto!
Se antena!
Em a madruga ...
Quero te comer no Beco da Quarentena "
O Beco da Quarentena permanece adormecido.
Hoje faz parte do passado lascivo da velha Ribeira de guerra."
Beco da Quarentena, que seu heróis, santos, putas e bêbados orem por nós.
Número de frases: 55
Amém». (Moacy Cirne, com a devida citação)
Em 1984, uma edição da revista Status refletia numa capa com carros voadores e uma personagem trajando roupas futurísticas:
Como será o mundo daqui a 10 anos?
Em o texto eram aventadas as possibilidades tecnológicas da década seguinte.
Novas máquinas, novos remédios e um novo modo de viver.
Onze anos depois, uma edição 'pecial da Veja anunciava na capa:
Computador. O micro chega às casas.
Entre anúncios publicitários da IBM, Macintosh, e de outras fabricantes, o assunto era, principalmente, o impacto social dos PC's na vida de cada um e de todos nós no Brasil e o mercado crescente.
Outubro de 2007, da revista A Rede ilustra com fotos e números um texto intitulado A revolução da banda larga.
A foto em destaque:
o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, cercado por pequenos alunos de uma 'cola pública, na cidade de Piraí (RJ), com laptops novos em folha sendo erguidos e celebrados.
Mesmo com um ar de foto produzida, a propaganda não é completamente sem valor e razão.
Pouco mais de duas décadas separam os três textos, mas as previsões e a realidade verificada entre cada um de eles são muito diferentes.
Atualmente são mais de 7 milhões de usuários de banda larga no país e o número vem crescendo mensalmente.
Esse dado, obviamente, é mais denso na região Sudeste.
Em o contexto de 186 milhões de habitantes 'se é, sem dúvida, um número bastante baixo.
A média de tempo de conexão do brasileiro é de 18 horas por mês.
Mais do que o Japão, por exemplo (onde uma conexão de 120m bps custa apenas 65 euros).
Mas, por outro lado, é certo que os orientais se conectam à internet de diversas outras maneiras além do computador.
Os videogames e celulares têm substituído o PC como principal maneira de se acessar a rede.
mais de 17 % da população brasileira 'tá conectada à internet.
É um dado importante, tendo em vista que em 1995 apenas 1 % da população brasileira 'tava conectada.
Se consideramos que as classes mais ricas já eram e continuam conectadas, o crescimento percentual de acesso foi, principalmente, das classes mais pobres.
É verdade que ainda uma parte da população continua completamente excluída de qualquer uso do computador.
Mas é uma parte da população que 'tá excluída também de diversos outros direitos.
Se um dos principais poréns passa por a inviabilidade de parte da população em adquirir um computador por razões econômicas, as políticas passaram a incentivar a queda do preço das máquinas.
mg
Belo Horizonte não é a capital de nada.
Fora as qualidades gastronômicas e uma suposta hospitalidade dos seus habitantes, a capital é dificilmente reconhecida por ser símbolo de alguma coisa.
Com mais freqüência a capital mineira aceita o título de cidade dos botecos e tenta emplacar outros mais recentes como a cidade do 'porte radical.
O segundo 'tá longe da realidade e o primeiro não é exatamente um motivo de orgulho.
Outros fatos muito mais interessantes podem passar desapercebidos para o olhar menos atento.
Belo Horizonte é a sede latino-americana do centro de pesquisas do Google.
É também uma das primeiras cidades a implementar uma versão on-line do Orçamento Participativo.
Há alguns anos conta com diversos festivais de música eletrônica e de mídias digitais (alguns retomados nos últimos anos).
A capital mineira vai ser um dos primeiros municípios brasileiros a ter 90 % da sua área coberta por conexão a internet sem fio.
Esses fatos 'tão longe de formar alguma identidade, mas talvez um olhar mais atento seja capaz de enxergar alguma linha de lógica invisível entre 'sas características (ou ao menos seria bom que ela existisse).
Recentemente a cidade abrigou o encontro dos Pontos de Cultura, o Teia 2007.
O evento foi de grandes proporções e de protocolos governamentais.
Para alguns, a impressão é que o encontro foi mais significativo para aqueles que já fazem parte da rede do que para quem ainda não sabe bem exatamente o que ela é.
Talvez tenha sido um pequeno retrato de um quadro maior:
projetos existem, idéias são discutidas, e, antes que qualquer resultado seja evaporado, é preciso fortalecer as conexões com o diálogo entre os projetos.
Fernando Rabelo é artista, integrante da ONG Oficina de Imagens e circuit bender.
Opina:
Creio que para a solidificação dos pontões de cultura, para as pessoas que já 'tão ligadas à política, que de alguma forma integram e buscam meios de atuar, o Teia foi de grande proveito pois possibilitou a troca de informação nacional o que já é de grande importância para o crescimento sócio-cultural.
Conhecimento da realidade do outro.
Mas creio que para aqueles que não são envolvidos deixou a desejar no sentido de contextualizar à população 'ses processos de expansão e de modificação cultural.
Como quase todo grande evento cultural (colocando de fora os shows) os mais «entendidos» ou envolvidos é que conseguem absorver a informação produzida nos dias de evento.
De certa maneira, 'se foi um dos principais pontos da fala do físico e artista belga Etienne Delacroix, no Simpósio Tecnologias Sociais:
os dispositivos móveis como agentes de utopias e distopias coletivas, do festival Arte.
mov. O evento foi realizado apenas alguns dias depois do Teia 2007 e, infelizmente, não houve nenhuma ligação entre os dois.
Para o belga radicado no Brasil, é preciso ligar os Pontos de Cultura a outras redes, a outros pontos.
Etienne já foi um importante participante de alguns grupos de metareciclagem e é bem familiar à apropriação de computadores por meio da bricolagem.
Esses grupos realizam muitas vezes um trabalho silencioso, lento e que pode trazer bons frutos.
Porque se a barreira econômica é uma das principais aliadas da barreira tecnológica, é preciso saber que há possibilidades viáveis que já 'tão sendo colocadas em prática por grupos que atuam de forma independente.
Se vivemos um momento no qual há apoio do governo federal para a denominada cultura digital é importante que 'sas possibilidades sejam aproveitadas.
Felipe Fonseca é metarecicleiro e acompanha há um bom tempo as possibilidades entre a tecnologia e os movimentos sociais.
Com a sua experiência, ele avalia hoje de forma mais serena 'se cenário.
«Minha visão tem mudado, claro.
Já vi casos de ' mudança social ' potencializadas por a rede, mas no começo da MetaReciclagem
eu era bem mais messiânico.
Também existe muita conformação
social ratificada por as tecnologias, o uso sem reflexão ou aprofundamento, o fetiche da tecnologia exacerbado por o ritmo incessante das novidades que as redes criam».
Potencializadas porque, dentro e fora da rede, no fim, somos nós que restamos.
Ninguém assume, automaticamente, um novo comportamento ao usar um teclado, um mouse, um monitor e uma conexão a internet.
Ela, infelizmente, não é a solução para os nossos problemas.
E talvez seja mais duro para alguns do que para outros perceber isso.
Como se sabe, depende do grau de idealismo que vamos acumulando durante a vida.
Wilson Gomes, professor da UFBA, 'teve em Belo Horizonte dias antes do Teia 2007 para uma palestra na Assembléia Legislativa de Minas Gerais.
Para ele, não há um novo público politicamente ativo formado por as redes.
O que se constata é:
quem participa online é quem participa offline.
Se não ocorre crescimento da participação de um lado, não haverá, naturalmente, do outro.
A Prefeitura de Belo Horizonte vem investindo nos últimos anos em políticas digitais públicas.
A mais conhecida de elas é a versão on-line do Orçamento Participativo (OP).
O OP digital, embora tenha sido inaugurado em 2001, em Ipatinga (MG), em BH ganhou, naturalmente, maior publicidade.
Em o último ano foram 500 mil votos na versão digital.
De acordo com Edson Martins, assessor de comunicação da Secretaria de Planejamento Urbano, que foi a responsável por a coordenação do OP Digital, a previsão é que a próxima edição ganhe mais recursos interativos e de debate on-line.
«Utilizar a internet para ampliar o debate, comprimir tempo e 'paço, virtualizar a política, me parece promissor, desde que não venha embalado como solução milagrosa ou que se reduza a participação à mera votação.
Uma característica dos usos colaborativos das novas tecnologias é justamente a retomada do social, do convívio, do hábito de debater, trocar informações, conhecer-se por o reflexo no outro, no grupo», afirma Fonseca.
Para Márcio de Araújo Benedito (o China), ex-funcionário da Prodabel (Empresa de Informática e Informação de Belo Horizonte), braço computacional do governo mineiro, a experiência do OP Digital provou que há a possibilidade de formar um novo público politicamente ativo na internet.
Por mais que a prefeitura tenha se 'forçado em colocar pontos de acesso à internet em todos os cantos de BH, alguns ficaram subutilizados porque a comunidade no entorno não internalizou a cultura da vida digital.
Antropologicamente falando, as pessoas de menor renda e 'colaridade não usam máquinas no dia a dia, mesmo as mais simples como batedeiras na cozinha ou lavadoras de roupas, fazem todas as tarefas na mão e de modo artesanal.
Um computador para 'tas pessoas é apenas mais uma máquina, que ela não vai usar por não ter cultura de uso de máquinas em geral, preferindo participar da democracia do jeito tradicional.
Falando sobre o orçamento participativo, temos uma grande parcela da população que tradicionalmente não participa, porque as assembléias presenciais e o calendário extenso não a 'timulam.
Existe ainda os que, além de tudo, não se sentem contemplados porque nenhuma obra em pauta os atende.
Com o processo eletrônico por a internet 'tes grupos têm a chance de participar sendo 'timulados até por a novidade, configurando sim 'te «novo público».
Basta ver a experiência já realizada que mobilizou os comerciantes do Mercado Central, a ponto de instalarem por conta própria um computador com internet para votação e anunciar de hora em hora pedidos de votos no sistema de som interno;
e dos fiéis da Igreja Universal, que votaram maciçamente a pedido dos pastores.
Estas duas agremiações que 'tão no entorno da praça Raul Soares conseguiram em duas semanas virar o placar da votação e vencer os concorrentes depois de 'tarem em terceiro lugar com uma diferença de mais de 2000 votos.
Certamente 'tes que votaram no exemplo citado não participariam com a mesma força se a votação fosse presencial.
Se 'tamos falando da possibilidade de construção de uma 'fera pública virtual, um dos seus principais pré-requisitos é o crescimento do número de acesso, principalmente nas classes mais pobres e normalmente excluídas.
Por mais ardiloso que seja o termo «inclusão digital», ele tem um objetivo claro:
não deixar que o acesso às tecnologias digitais seja mais um fator para reforçar desigualdades.
Tanto o acesso quanto a acessibilidade são dois fatores de extrema importância para que os projetos sejam positivos.
Em relação ao primeiro, o governo vem investindo em planos para que as pessoas possam conectar-se à internet em diferentes pontos da cidade.
Foi anunciado 'te ano que a prefeitura vai criar uma rede sem fio em 90 % da capital.
O projeto inédito no Brasil faz parte do programa BH Digital e vai interligar secretarias, bibliotecas, telecentros, centros culturais, parques, associações de moradores, 'colas, entre outros.
Em algumas regiões o acesso à internet chegará antes do telefone.
Por outro lado, iniciativas que buscaram o mesmo objetivo em algumas regiões da cidade tiveram problemas com o próprio governo.
Uma oficina realizada em 2006 por meio de uma parceria entre a ONG Oficina de Imagens, um grupo de ativistas 'panhóis do bairro Lavapies de Madrid e o centro cultural NUC buscou implementar de maneira barata e prática acesso à internet sem fio no bairro do Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte.
«A curto prazo serviu como um levante de informação e para mostrar que o aparelho funciona, como também aproximar a realidade tecnológica de baixo custo e a necessidade de informação.
A polícia Militar 'teve lá para saber o que 'távamos ' aprontando ' em conjunto com o próprio 'tado, os donos dos servidores de intenet ficaram ameaçando sob pena de ser ilegal fazer tal transmissão, fomos para a TV falar do assunto e iniciou-se uma série de questionamentos como descobrir que colocar pontos nos aglomerados era considerado pouco lucrativo para as empresas provedoras desses serviços», afirma Rabelo, um dos organizadores da oficina.
É importante lembrar que muitas decisões técnicas são decisões políticas.
China foi um dos principais responsáveis por a viabilização da oficina wirelesse no NUC.
Em a sua opinião, o processo é lento e o resultado a longo prazo.
«A oficina wireless faz parte do processo de internalizar na comunidade a cultura digital.
Introduzir uma nova forma de agir e pensar.
Além disso, com o projeto de interligação de toda a cidade por meio de ondas de WiMAX, permitindo conexão e mobilidade em todos os pontos da cidade, moradores de vilas e favelas, antes marginalizados por as empresas de telecomunicações que não investiam em banda larga na região por ser comercialmente pouco rentável, passarão a ter acesso de qualidade, ainda que com antenas de lata», afirma.
Para «Sérgio Amadeu da Silveira,» a inclusão digital pode ser uma luta por a democratização global se de ela resultar a apropriação por as comunidades e por os grupos excluídos da tecnologia.
Mas ela também pode ser só mais uma forma de utilizar o 'forço público de sociedades pobres para consumir produtos dos países centrais e ainda reforçar o seu domínio."
Embora não seja uma luta bem x mal, há diversos pontos de tensão e disputa políticas e econômicas dentro desse cenário.
Número de frases: 112
Essas questões 'tão relacionadas ao nosso futuro que 'tá cada vez mais perto do presente.
O que é o território brasileiro?
Para quem 'tá na frente de um mapa, seus limites são nítidos.
Mas, quem já se aventurou por as fronteiras do norte sabe bem o porquê do título desse artigo.
Lembram da zebra?
Cor sim, cor não.
Pois é ...
Quem vê de perto, vê uma linha pontilhada, onde deveria ser contínua.
O que vou dizer agora pode parecer exagerado.
Pensem o que quiserem.
Podem até achar que é mais um daqueles textos de quem caiu de pára-quedas na Amazônia.
Mas uma coisa é certa, senhores:
temo por a soberania do nosso país.
E tenho meus motivos.
Nossas fronteiras 'tão desprotegidas e nossos militares (muitos de eles), corrompidos.
Aliás, não só eles, como os índios, pesquisadores e jornalistas.
Trabalho com os índios desde 2001, quando decidi 'crever um livro sobre jovens índios suicidas, na fronteira do Brasil com o Paraguai.
Entre os muitos problemas levantados durante os quatro anos que 'tive lá, um de eles, que aparentemente nada tem a ver com as causas do suicídio, foi a presença de paraguaios na reserva.
Como nossos vizinhos têm origem Guarani, se assemelham muito com os índios da fronteira.
Muitos saem de Pedro Juan Caballero e galgam um «pedacinho de terra» na reserva Francisco Horta, em Dourados, Mato Grosso do Sul.
Eles passam despercebidos, são confundidos com os índios e acabam recebendo os mesmos benefícios.
Os Guarani e Kaiowá de Dourados elegem 'se como um dos principais motivos para o afastamento da cultura ancestral e aculturação de seu povo.
Os forasteiros invadem a aldeia, casam com as índias, vendem drogas, são atendidos por a Funasa e aparecem, desnutridos, no Jornal Nacional.
Só mesmo os moradores da aldeia sabem quem é quem.
Viajando a outro extremo.
Os índios de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, também reclamam da presença de forasteiros «índios», na reserva de Cucuí.
Eles conseguem, «no mercado negro», adquirir a identidade indígena, que dá direito a várias regalias, entre elas, afrouxamento das penas e leis bem menos rigorosas.
Mas, em Cucuí, o problema é ainda maior.
Tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela, a região é proibida para brancos.
Só trafegam por lá os militares, os índios e as pessoas por eles autorizadas.
Coincidentemente, é uma das áreas de maior atuação das Farc na Amazônia.
De grandes dimensões territoriais, a fiscalização é difícil e falha:
a reserva se transformou num corredor do tráfico.
Uma via fácil, de mão-dupla, entre os três países.
Longe, é claro, da fiscalização.
Os Batalhões de Selva vivem em alerta constante.
Tabatinga, região conhecida como «a cabeça do cachorro», inferno amazônida militar, vez ou outra, se vê em guerra com o narcotráfico.
Se alguém comete um crime em Tabatinga e cruza a fronteira (que fica a poucos metros), 'tá livre da lei.
O que funciona, a partir daí, são as penas da guerra.
Fora isso, muitos militares 'tão insatisfeitos, com medo e desfalcados.
Se sentem «jogados aos leões».
Mais para cima, na fronteira de Roraima com a Venezuela, região indígena de Auaris, a presença de vizinhos também é denunciada por os Yecuana.
Nômades, eles próprios têm parentes na Venezuela.
Difícil é saber quem é índio de verdade.
Também assolados por uma grave onda de suicídios entre jovens e crianças, os Yecuana dizem que tudo começou com uma planta, trazida por um parente do país vizinho.
De ela, eles extraem o veneno que usam para se matar.
O vai-e-vem na área é grande.
Os militares, que também têm um posto ali, fazem o que podem.
Mais uma vez, a fiscalização é falha.
O território é imenso e a fronteira, imaginária.
Mas, nem só veneno e drogas, carregam os forasteiros.
Muitos, vindos de vários países, se enfiam floresta adentro para cuidar dos índios, fazer negócios lucrativos e garantir permanência na Amazônia.
Uma vez instalados legalmente dentro das reservas, eles 'tão longe da fiscalização pesada.
Conseguem o que querem, dando ao índios em troca, um pouco da dignidade que o Brasil teima em fingir que não existe.
Eliminam a malária, a subnutrição e levam, para fora, amostras de sangue, de orquídeas e minérios.
Para eles, uma troca mais do que justa.
Mas existe um passaporte muito mais poderoso para a Amazônia.
Uma grande parte das propriedades privadas da região já pertence a 'trangeiros.
Estão adquirindo parte da floresta, mesmo sem poder explorá-la.
Qualquer semelhança com o processo histórico da criação do Estado de Israel é mera coincidência ...
apesar dos tempos serem outros.
Pode parecer utopia, mas vale uma reflexão.
Afinal, a melhor 'tratégia para se vencer uma guerra é se apoiar na história.
E se engana quem pensa que só os índios «caem no conto».
Alguns pesquisadores, desencantados com as políticas brasileiras para fomentação da pesquisa, acabam vendendo o 'tudo da vida inteira para empresas de fora.
Dizem que é o único jeito de vê-las saindo do papel ...
e de ganhar algum dinheiro com a «descoberta».
Teorias à parte, sabemos que nossos pesquisadores andam muito bem nos grandes centros.
Mas aqui, ainda sofrem com a falta de recursos.
O Brasil fecha os olhos para onde o resto do mundo os abre.
Os jornalistas?
Indiferentes a quase tudo isso.
Tudo bem, nem tudo que eu disse aqui posso provar, como manda o figurino.
E também, quase ninguém quer publicar.
São anos de pesquisas, conversas, imersões em realidades alheias à que a maioria de nós 'tá acostumado.
Mas muitas eu posso provar, mas não me atrevo!
Voilá ...
Número de frases: 77
Pra fazer um texto sobre Estamira, não se pode ser suave.
Devo começar com alguma provocação, algo assim:
a gente só 'cuta os outros se houver grife na palavra?
Explica-se:
se Jesus Cristo não detivesse a lepra ao mero toque, não trouxesse de volta à vida com um pedido e não tivesse sucumbido e renascido após a cruz, que valor teriam os evangelhos?
As pessoas 'tariam tão dispostas a ir à igreja, preencher copos d' água frente à televisão e amar o próximo como a si mesmo?
Esse, talvez, o 'paço entre o messias e o atual Inri Cristo.
A distância que o separa de Estamira, a protagonista do documentário com o mesmo nome:
catadora de lixo, 'quizofrênica, mulher de sessenta e três anos.
Duela com a tempestade.
Profetiza, às vezes.
Ela não tem marca, nem grife ou glamour, como a mulher que dorme em frente à locadora aqui embaixo de casa.
Parece sorrir todo o tempo.
Está sempre conversando alguma coisa.
Aparentemente, consigo mesma.
Também como o homem que risca desenhos nas calçadas, dois metros de círculos ou quadrados, ou talvez algo com mais significado, mas não pude decifrá-los.
Essas pessoas são todas semelhantes porque nos parecem fáceis de entender.
Existe um momento no filme em que Estamira passa a ser menos protagonista para ser mais objeto de análise;
quando o 'pectador ganha a opção de um veredicto redutor:
a demência da personagem pode se explicar por uma razão genética ou por seus tantos traumas sofridos.
Não há razão para tentar compreendê-la além do superficial.
Como talvez não houvesse para 'se nosso conhecido, se atrás de ele não sobrassem aleijados subitamente curados.
Compartilham características, Estamira e ele:
consideram-se destacados da humanidade, sofreram um bocado e possuem uma filosofia a propagar.
Se a vida daquela mulher fosse acompanhada, editada e publicada em quatro versões conflitantes e / ou complementares entre si, com o efeito, assim, de eternizar a discussão, o que se poderia dizer de ela, daqui a duzentos anos?
Porém isso não será feito jamais.
Observe os textos mais fáceis de se ver na internet.
O de valor que fora de itox por Estamira é tratado como 'talos de sabedoria num todo de loucura.
E só.
Estamira postula um mundo absolutamente abstrato, o que obriga a afirmar a impossibilidade de conhecimento concreto do que constitui o mundo.
A ciência seria limitada, a psicologia também, mesmo a pessoa que afirma 'sa teoria:
ela diz ser a visão de cada um.
Sustenta que sua missão é revelar a verdade e repugna o que chama de «trocadilho», o que mente -- logo, o que disfarça e distorce o real.
O bem e o mal, talvez, e, como é de costume, 'tamos no meio.
Entendendo com «lucidez» o viver dinâmico;
com «sentimento» a parte que «grava e acolhe» os fatos, (compare com o inconsciente da teoria freudiana).
Se 'caparmos das ilusões, seremos «cientes», como ela:
é o que ela diz ter acontecido com Jesus Cristo.
Sem saber ler nem 'crever, aprendeu de tanto ver.
Se o todo é abstrato e 'tamos em aprendizado constante, o mundo muda conforme se evolui o conhecimento que se tem de ele.
Transforma-se de acordo com a interpretação.
Estamira afirma que o homem é o único condicional.
O único ser ligado inexoravelmente ao contexto em que 'tá.
Já se poderia aqui falar em Rosseau, do conceito de que o indivíduo nasce feito folha em branco, e o mundo o faz;
e 'ta teoria de Estamira mesmo determina ou explica a receptividade que darão a ela.
Pois entendemos também os outros menos por o que são e mais por a situação respectiva de cada um.
De 'sa forma, uma catadora de lixo 'quizofrênica não pode ter um raciocínio complexo no detrás de suas idéias.
Assim, os desenhos nos chãos da minha cidade nada dizem.
É também só delírio o que aquela mulher resmunga à madrugada.
São nosso oposto, absolutamente compreensível.
De eles, só se perdoa um rompante de inteligência, como um dito 'pirituoso de uma criança.
Jesus quiçá fosse de mesmo modo recebido -- mas havia os milagres, e amar o próximo e largar as riquezas pareceu logo tão interessante ...
talvez Moisés e similares tivessem sido solenemente ignorados, se não nos coagissem as bolas de fogo e massacres de primogênitos narradas em certo livro.
-- * leia outro texto sobre Estamira no Overblog.
Número de frases: 54
* * veja textos, fotos e trailer no UOL.
Brasileiro elogiado por argentinos é tão raro que vale a pena reproduzir a opinião manifestada no site www.axxon.com.ar, referência latino-americana sobre literatura fantástica:
«Carlos Orsi Martinho ' periodista y, probablemente, el mayor autor del género de terror en lengua portuguesa».
O comentário se deu porque um conto daquele autor foi publicado lá, «Ya no (tradução de» Não mais ") que flerta com a possibilidade do Brasil continuar a ser uma monarquia por influência de uma substância misteriosa.
O reconhecimento do personagem em questão não veio só da parte de nossos vizinhos do Sul.
Em os EUA, também já apostaram no talento de ele, quando o selecionaram para participar de Rehearsals for oblivion (algo como ensaios para o 'quecimento), coletânea em tributo a Robert W. Chambers.
Pouco conhecido no Brasil, mas considerado forte influência de H.P. Lovecraft, o americano serviu de inspiração para os participantes do livro, todos eles dos EUA ou da Inglaterra, sendo o brasileiro o único do projeto a não ter o inglês como primeiro idioma.
Ele, que já podia ser considerado sucesso de crítica entre argentinos, agradou também ao público americano.
Seu conto «The machine» -- referência a «The king», peça teatral fictícia sempre citada nos contos de Chambers e fonte da idéia original para o igualmente fictício Necronomicon lovecraftiano, ambientado durante a última ditadura brasileira, é o mais bem cotado entre os comentários publicados por leitores no site www.amazon.com
Sim, Carlos Orsi Martinho -- ou, simplemente, Carlos Orsi, como prefere assinar os textos ficcionais -- é jornalista 'pecializado em divulgação científica, nasceu em Jundiaí, interior de São Paulo, e pode ser considerado um dos grandes 'critores de nossa língua de histórias de terror.
Mas não só isso, ele é também um dos maiores autores de sua geração quando o assunto é a prima-irmã do gênero:
a ficção científica.
Orsi 'treou profissionalmente como ficcionista aos 21 anos com o conto «Aprendizado» lançado numa das últimas edições da Isaac Asimov Magazine, publicação que a editora Record trouxe ao Brasil bem no início da década de 1990.
Desde então, faz 15 anos que aproveita as chances que lhe aparecem ou que ele mesmo cria.
Já publicou contos e novelas de FC e horror em praticamente todos os 'paços disponíveis no país, desde fanzines como o tradicional Scarium, até a seção de ficção da revista Pesquisa Fapesp, passando por as coletâneas de diversos autores lançadas por a antiga editora Ano-Luz -- da qual ele foi um dos sócios, como Phantastica brasiliana (onde saiu originalmente " Não mais ") e Intempol.
Há ainda os livros solo Medo, mistério e morte, impresso por a Didtática Paulista, em 1996, e O mal de um homem, da já citada Ano-Luz, publicado quatro anos depois.
Porém, o melhor ponto de partida talvez seja uma outra obra com material mais atualizado do jundiaiense.
Tempos de fúria -- Contos de aventura e terror é o nome do livro publicado em 2005 com o selo da coleção Novos talentos da literatura brasileira na qual 'critores dividem despesas com a editora Novo Século.
Os seis contos da coletânea são uma boa amostra de um autor que amadureceu em 'tilo e em influências, deixando um pouco de lado a presença quase sufocante exercida por Lovecraft nos seus primeiros textos, a exemplo, de entre outros, «Sob o signo de Xoth» (presente no livro Outras copas, outros mundos).
Em 'te seu trabalho mais recente, o 'critor explorou novas fronteiras como fica claro já por os autores mencionados na página de agradecimentos;
uma eclética lista formada por gente do nível do brasileiro Monteiro Lobato, do argentino Jorge Luis Borges e do americano Robert E. Howard.
Não apenas as influências variam, também são variados elementos misturados nas 160 páginas de Tempos de fúria.
Os textos que abrem e fecham o livro, «Estes 15 minutos», com 13 páginas, e» A aventura da criança perdida», com 11, são os mais curtos e exemplificam tal diversidade.
O primeiro 'tá mais para o realismo fantástico, com a história de um traficante pé-de-chinelo no Rio de Janeiro.
Em uma viagem, entre os místicos do Nepal, o personagem conhecido como magro fez uma descoberta capaz de mudar sua carreira.
Ele ficou sabendo que a realidade como a conhecemos não é o fluxo linear de acontecimentos que aparenta -- a cada 15 minutos, um universo novo ocupa o lugar do antigo, são pequenos flashes que dão a ilusão de continuidade num eterno liga e desliga.
Uma anologia possível, é Festim diabólico, filme clássico de Alfred Hitchcock.
Em o longa do diretor inglês, somos convencidos de que a trama foi rodada em tempo real, um plano sequência com a duração do filme.
Em a verdade, por questões técnicas, houve a necessidade de se filmar cenas de, no máximo, 15 ou 20 minutos.
Foi na montagem que ocorreu a mágica capaz de nos enganar.
Votando ao conto:
magro conseguiu um truque para burlar a montagem que algum diretor invisível executa em nosso universo e faz planos para tentar levar vantagem com isso.
Em o final, descobrimos a utilidade que pode haver numa balinha de hortelã.
O único problema do conto é que o autor não se decidiu se deveria 'crever o número 15 por extenso ou se deveria usar algarismos.
Trecho:
«O mundo, cara, é cheio de remendos.
Quando ainda existia vitrola, o que a gente chamava de ' pulos da agulha '.
Emendas malfeitas entre os pedaços de 15 minutos.
Costuras ruins.
Merda, tá entendendo?
Como diziam os romanos, Xíti rápens».
Já o outro curta-metragem de Orsi, o que encerra o livro, tem ainda mais ingredientes.
«A aventura da criança perdida» mistura elementos de space opera -- aquele subgênero com cenários interplanetários cujas principais referências são Guerra nas 'trelas e Jornada nas 'trelas, FC hard -- no qual 'critores buscam trabalhar conceitos das ciências exatas sendo o mais precisos possíveis -- e histórias de detetive à Sherlock Holmes.
Em a ambientação criada por o paulista, teremos um futuro em que agências de segurança oficais são formadas por grupos nada recomendáveis, tais como mafiosos italianos e guerreiros islâmicos, competindo por contratos com todo tipo de jogo sujo.
Outro aspecto bizarro deste mundo é a mutação que ocorre no nome das pessoas:
Ângyla e Edowardo são exemplos, sendo que 'te último se trata da criança do título.
O local do desaparecimento é uma interessante 'peculação do autor, uma plataforma espacial que serve para o atraque e o lançamento de naves.
O encarregado para resolver o impasse criado com o sumiço do pequeno Edowardo é o narrador Fersen Quartelmar, que para resolver o caso não precisa nem abandonar seu 'critório, um asteróide com meio quilômetro de comprimento.
Bastam algum conhecimento de física e malandragem para se virar com o jogo de interesses que chama a atenção de gente perigosa.
Trecho:
«O seqüestro e, mais do que ele, a concorrência aberta entre as empreiteiras havia colocado todo o sistema Terra-Lua e respectivas 'truturas orbitais em polvorosa.
Não havia criminoso ou vagabundo livre que não tivesse o braço ou outro apêndice torcido, quebrado ou chutado;
puta que não fosse subornada ou drogada;
preso que não fosse interrogado sob rede neural ou mesmo torturado.
Como o moleque não reaparecia, ficou claro que nada disso 'tava dando resultado».
Voltando à seqüência original dos contos, já que todos os outros se encaixam na categoria média-metragem -- ou seja, textos que apresentam por volta de 30 páginas, temos um dos pontos altos de Tempos de fúria:
«Questão de sobrevivência».
Seus 'tranhos personagens e cenário lembram um tanto as melhores obras do movimento cyberpunk, como Piratas de dados, de Bruce Sterling.
A diferença é que, na criação do brasileiro, o alvo da pirataria é algo mais tangível que bytes.
Em o elaborado pano de fundo da história, vemos São Paulo num futuro tão apocalíptico quanto verossímil.
Em a capital, acompanhamos as reflexões morais de Zé Mateus, um dos líderes do Campo Fidel, dito o maior acampamento urbano do Ocidente e que ocupa a maior parte do centro histórico da cidade.
Em outro ponto do Estado, a ação é comandada por Pedro Minanhanga (Diabo-feito Homem, segundo o autor), empenhado em capturar uma preciosa carga.
Ele e seus companheiros agem no meio de uma favela transformada em área contaminada após um bombardeio, autorizado por o governo.
O resultado foi o surgimento de um local tão inóspito em que basta se respirar o ar sem proteção para encurtar drasticamente a perspectiva de vida.
Para piorar a situação das pessoas que tentam viver no local, outra intervenção pública -- a distribuição de anticoncepcionais na água -- só serviu para impedir que mães pudessem amamentar diretamente seus filhos.
Leite materno, agora, apenas o processado industrialmente, como o daquele carregamento que atravessa o 'tado num caminhão para embarcar no Porto de Santos e ser exportado como mercadoria de luxo.
Com a narrativa dividida entre os pontos de vista dos dois protagonistas, o líder sem-teto com dilemas de consciência e o pragmático agente de campo, o conto segue 'truturado em persongens bem construídos vivendo um contexto igualmente bem delineado.
Carlos Orsi conseguiu dar uma consistência ao conto que outros autores seriam incapazes de obter num romance.
Aos poucos, os leitores recebem informações históricas daquela realidade, como o fato de ter havido uma guerra nos morros cariocas em 2011;
terem ocorrido grandes saques aos supermercados sete anos depois;
culminando com um período de repressão marcado por a chuva bioquímica naquela favela, no início da década seguinte.
Detalhes das motivações e do grau de comprometimento de cada jogador também vão clareando lentamente até os atos finais.
É interessante notar que o autor, apesar de andar no fio da navalha o tempo inteiro, com uma história que poderia cair para o maniqueísmo rasteiro, consegue se livrar das tentações e manter a trama num grau de complexidade exemplar.
Trecho:
«A autoria do epíteto ' Vale da Norte ` era incerta -- se de inspetores de Direitos Humanos da ONU que tinham visitado o local após os bombardeios, ou se de um locutor de telejornal -- mas a expressão pegou.
E o conjunto de ruínas, árvores retorcidas e solo venenoso, calcinado, deixou, de uma vez por todas, de ser o'jardim ' que jamais havia sido».
Se «Questão de sobrevivência» é mesmo um dos cumes do livro, «Desígnios da noite» 'tá mais para um vale.
O conto tem muitas qualidades, sempre naquele binômio de bons e exóticos personagens e cenários.
Em um período de nosso futuro, quando começam experiências de colonização no 'paço, o cotidiano na Terra 'tá bastante modificado.
Para se resolver pendências jurídicas, as pessoas passaram a dispensar advogados para confiar sua honra a duelistas profissionais, agentes que se enfrentam em pelejas que podem terminar em nocaute ou com a morte de um dos contendores.
É o caso do narrador do conto, veterano de duelos e ex-combatente de tropas de elite, conhecido como Marco e que tem uma questão pessoal a resolver.
De positivo ainda, há inovações tecnológicas propostas, como tatuagens utilitárias;
a apropriação inteligente que o autor faz de uma pseudociência, no caso, astrologia zodiacal;
e, claro, o 'tilo do texto -- para quem decora manuais, no quais sempre se condena o uso dos adjetivos, talvez seja um choque a passagem na página 115 na qual são empilhados nove de eles para descrever um relacionamento.
De fato, são muitos pontos positivos, tantos que, talvez, o problema seja 'se mesmo.
Mesmo sendo o maior texto do livro, com 34 páginas, o 'paço é pouco para tamanha fartura de informações, cenas de ação e de investigação.
Caso fosse um plot de uma série, «Desígnios da noite» seria excelente.
Como história única e fechada, peca por o excesso.
Trecho:
«Servotatuagens são o tipo de coisa que se 'pera encontrar em duelistas, atores, acrobatas -- e bandidos comuns.
Cada pigmento abriga um conjunto de circuitos e nanóides programado para ampliar determinadas perícias físicas, acelerar a transmissão de impulsos nervosos, induzir reflexos».
Os dois outros contos de Tempos de fúria formam o que poderia ser chamado das crônicas venusianas de Carlos Orsi.
O primeiro de eles, «Pressão fatal» retoma a mistura de space opera, FC hard e história de detetive, mas com ainda mais eficiência que em «A aventura da criança perdida».
Uma morte suspeita ocorre numa 'tação espacial em órbita de Vênus, responsável por parte do projeto de terraformização do planeta.
A expressão costuma ser mais aplicada a 'peculações sobre Marte, nosso outro vizinho no Sistema Solar, significando o conjunto de ações necessárias para tornar um ambiente extraterrestre compatível com a vida humana.
Curiosamente, quase todos os tripulantes da Eros-III têm nomes franceses -- a exceção é o médico chamado Mendes, cuja personalidade irascível lembra a de seu colega McCoy de Jornada nas 'trelas.
Para investigar a morte, ou o assassinato?,
é convocado o inspetor-gendarme Henri Bernardin, um tipo que, por o sotaque, trejeitos e cuidados com o bigode, lembra muito o detetive mais famoso do staff de Agatha Christie, Hercule Poirot.
Exatamente como ocorre com Fersen Quartelmar -- que, aliás, se formos compará-lo também aos personagens da Dama do Crime inglesa, 'taria mais para o 'tilo de investigação de Miss Marple, Bernardin tem nos conhecimentos científicos sua maior vantagem.
Trecho:
«A atmosfera do planeta era um turbilhonar constante de cores mutáveis, um entrechoque de nuvens e matizes, salamandras azuis devorando javalis 'verdeados que pisoteavam dinossauros vermelhos que comiam salamandras azuis, um caos vagamente harmônico de brilho e textura causado por a combinação do clima feroz do planeta com os dispositivos automáticos de terraformização -- sondas, robôs e nanóides -- com que a Eros-III bombardeava a superfície venusiana».
Para encerrar, o segundo conto ambientado em Vênus e, para dizer o mínimo, um dos melhores textos de FC já criados por brasileiros.
«Planeta dos mortos» começa no clima de um dos grandes clássicos do gênero, Tropas 'telares, do americano Robert Heinlein, uma vez que o personagem que narra a trama é um soldado, cujo nome desconhecemos, lotado no segundo Batalhão de Batedores de Florestas, Esquadrão de Caça, equipado para enfrentar qualquer ameaça.
A terraformização, iniciada no conto anterior, 'tá completa.
O planeta conta com dois continentes, Afrodite e Ishtar, separados por o Mar de Níobe, e com pelo menos um conjunto de ilhas, o Arquipélago de Têmis.
Para ajudar na tarefa, o autor concebeu um mundo em que ocorreu uma formidável descoberta, ou melhor, redescoberta.
Carlos Orsi faz novamente uso de um recurso pseudocientífico aqui, no caso, as teorias do psiquiatra Wilhelm Reich sobre o orgônio.
Em a reinterpretação do brasileiro, os polêmicos 'tudos do austríaco foram reabilitados no início do século XXII como parte de um novo campo de 'tudos:
a neoquântica.
Descobriu-se que existem partículas -- bíons -- que formam a energia que torna a vida possível.
Elas fazem a diferença, «o salto quântico», entre algo apenas orgânico e o que é de fato vivo.
Este é por si mesmo um dos melhores conceitos já trabalhados na ficção científica nacional, tanto que já foi utilizado por outro autor em seu romance de 'tréia:
A mão que cria de Octávio Aragão -- não por coincidência, é ele quem assina a apresentação de Tempos de fúria.
Orsi vai além, explorando a idéia até as últimas conseqüências, dando uma explicação que soa plausível para um dos maiores fetiches dos filmes B de terror.
No meio das divagações dos personagens, há 'paço na trama para muitas e ótimas cenas de ação, as quais o autor parece dever a um daqueles 'critores citados nos agradecimentos.
Afinal, quantas vezes Robert E. Howard fez seus personagens se perguntarem -- o cimério Conan à frente -- como matar algo que já 'tá morto?
A prosa do jundiaiense 'tá em grande forma em 'te conto, principalmente nas linhas finais.
Entre suas qualidades, podemos dizer que Carlos Orsi é um mestre no desfecho das histórias, mas em «Planeta dos mortos» ele se 'merou.
O final é lírico.
Atroz, mas lírico.
Trecho:
«Torsos. Tiros!
Cabeças. Tiros!
Membros. Não pessoas, mas partes -- movendo-se (ou seria a luz?).
Bocas sangrentas.
Olhos sangrentos.
Tiros! Unhas.
Órbitas vazias.
Tiros!
Escuridão».
De a leitura da meia dúzia de textos que formam Tempos de fúria -- Contos de aventura e terror ficamos com uma impressão inusitada.
Afinal não é sempre que encontra um 'critor de gênero capaz de trabalhar tão no limite quanto 'te.
Há algo de iconoclasta em todas as histórias, um distanciamento de autocrítica em cada uma de elas.
Porém, ele não cai nunca nas armadilhas mais fáceis, nas paródias, na carnavalização dos temas.
Há desconstrução, mas ao mesmo tempo há também uma disciplina por trás disso tudo, de quem sabe valorizar as particularidades da ficção científica, do terror, do mistério ...
Isso é raro.
As aventuras vividas por o traficante magro, por o detetive Fersen Quartelmar, por os revolucionários Zé Mateus e Pedro Minanhanga, por o duelista Marco, por o inspetor-gendarme Henri Bernardin e por o soldado sem nome acabam sendo uma amostra pequena da produção de um dos mais prolíficos de nossos autores.
Porém, como já foi dito, é um bom ponto de partida para os interessados em julgar se críticos argentinos e leitores americanos 'tão certos a respeito de Carlos Orsi.
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
Número de frases: 139
Como se sabe, a chuva de granizo que despencou sobre a região metropolitana de Belo Horizonte na quarta-feira, dia 17, causou prejuízos para inúmeras famílias e também para o comércio.
Só que na Comunidade dos Arturos, que fica em Contagem, os danos foram muito além da questão material.
A o 'buracar 80 % das construções que formam a vila quilombola, as pedras de gelo que vieram com a tempestade colocaram em risco um patrimônio imaterial que diz respeito à luta de mais de século encampada por os descendentes do 'cravo Artur Silvério Camilo, que se 'tabeleceu no local nos últimos tempos da 'cravidão no país.
Casas, galpão utilizado para os festejos e até mesmo a capela em que os Arturos celebram seus rituais religiosos tiveram telhas e vidros destruídos, num episódio sem precedentes na comunidade.
«Em 'ses meus 75 anos de vida, nunca vi uma coisa de 'sas.
Já vi muitas chuvas, muitos ventos, tudo muito forte, mas pedras caindo desse jeito eu não tinha visto.
Não tinha como se 'conder.
Tomei um susto», conta ' seu ' Mário Brás da Luz, um dos quatro filhos de Artur Camilo ainda vivos.
«Não sobrou um telhado.
As plantas, nossa horta, tudo ficou acabado.
Não quero nunca mais ver coisa assim.
São Sebastião há de nos proteger», continua ele.
Em a capela, a situação é crítica.
Cheio de buracos 'palhados por o teto, feito com telhas de amianto, e com a porta de vidro igualmente 'buracada, o local, que impressiona por a profusão de cores que vêm dos 'tandartes, fotos, enfeites e imagens dos santos de devoção, agora 'tá uma bagunça.
Tudo teve que ser empurrado para um dos cantos, para evitar a água e o granizo.
Em as paredes, mesmo uma semana após a tempestade, é possível ver as marcas da umidade que danificou a pintura.
O galpão em que a comunidade realiza encontros e faz as refeições -- inclusive, no momento em que a chuva começou, 'tava acontecendo ali uma reunião para definir ações sócio-culturais -- e a casa paterna, marco-zero da comunidade, levantado por o próprio Artur Camilo, também ficaram bastante prejudicados.
Impossível contabilizar o número de telhas furadas.
«Aqui, a grande maioria dos lugares é coberta com telha de amianto.
Onde não tem laje ficou assim», lamenta Jorge Antônio dos Santos, diretor de eventos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Comunidade dos Arturos.
A tristeza dos Arturos diante dos 'tragos em 'te momento é ainda maior, já que eles 'tão prestes a dar início à comemoração mais tradicional de sua cultura, a Festa de Nossa Senhora do Rosário, que, 'te ano, começa em 'ta sexta-feira, dia 26, e vai até o dia 13 de outubro, com novenas, procissões, missa conga, desfile de guardas de Congo e Moçambique, entre outras solenidades realizadas em parceria com a Paróquia São Gonçalo, de Contagem.
«Agora, a gente tem que tentar correr para conseguir dar um jeito no que ficou 'tragado», diz Jorge Antônio.
Apesar de contar com o apoio fundamental da Casa de Cultura de Contagem, a comunidade se vê num momento difícil para angariar recursos e consertar as 'truturas destruídas por a chuva.
«Precisamos de, no mínimo, 200 telhas de amianto», conta» Jorge Antônio.
«A nossa prioridade é arrumar pelo menos a capela, o galpão e a casa paterna», planeja ele, acrescentando que, nos dias 11, 12 e 13 de outubro, em que a Festa de Nossa Senhora do Rosário se concentra no território da comunidade, quase 3.000 pessoas passam por o local.
«Mas a gente queria também dar uma força para as famílias que perderam muita coisa.
Temos pessoas aqui que perderam tudo com a enxurrada que veio depois do granizo e invadiu as casas», lamenta ele.
A partir de conversas 'pontâneas por a Internet, pessoas que acompanham e pesquisam a cultura defendida por os Arturos começaram a se mobilizar e enviar doações.
«Essas pessoas são anjos para nós», diz ' seu ' Mário Brás da Luz.
Número de frases: 29
Quem quiser colaborar com as reconstruções necessárias para a Comunidade dos Arturos, pode entrar em contato com Jorge Antônio dos Santos por os telefones 31 9182-4413 e 3395-8373.
Uma das coisas que nunca gostei nas editoras brasileiras que publicam quadrinhos americanos é o fato de publicarem numa mesma edição várias revistas americanas, geralmente quatro ou cinco.
O grande problema é que eu geralmente acabo comprando uma revista de 100 páginas por causa de uma história somente.
Mensalmente compro as revistas:
Wolverine -- por causa da história do Mark Millar e do John Romita Jr.
x-men -- por a história do Joss Whedon e do John Cassady
Novos Vingadores -- Brian Bendis e David Finch
Marvel Millennium -- (será q só eu odeio o nome de 'ta revista?) --
é a revista que tem o melhor «mix».
Bendis, Warren Ellis e Adam Kubert, Brian K. Vaughan e os excelentes Supremos de Millar e Bryan Hitch.
Se eu pudesse compraria somente 'tas histórias.
As outras geralmente são muito ruins, algumas não valem o papel onde foram impressos.
Será que não seria melhor as editoras publicarem as histórias em seus formatos originais?
Com menos páginas e um valor menor?
Número de frases: 14
Não sei se isso seria vantagem para as editoras, mas tenho certeza que para nós leitores seria muito melhor.» ...
tem capivara, jacaré na damorida, tem tapioca com vinho de buriti, vem festejar a vitória tão sofrida de bem com a vida tomando um bom caxiri ..."
Este é o refrão do engajado forró Dom de Índio, uma das 11 faixas que compõem o CD Caxiri na Cuia -- o Forró da Maloca, lançado por o Conselho Indígena de Roraima -- CIR em 2005.
Com letras que falam da luta por a conquista da Raposa Serra do Sol, mas também sobre a degradação ambiental, como em A Seca e a Queimada, e dos costumes dos índios do lavrado roraimense, como em Índio Preparado, 'te CD, de autoria e execução dos Makuxi e Wapichana, cunha um novo 'tilo musical, o forró indígena.
Ele nasce no seio do vigoroso movimento indígena de Roraima, em suas assembléias, encontros e oficinas, com dezenas de grupos musicais (também conhecidos como grupos de animação) formados majoritariamente por jovens, cantando e dançando músicas com letras inspiradas nas bandeiras levantadas por o movimento (direitos por a terra, educação, saúde, etc), sendo compostas tanto em língua portuguesa quanto em língua indígena e tocadas por músicos autodidatas que domaram a sanfona, o teclado, a guitarra, a zabumba e o triângulo, misturando seus timbres aos sons das maracas, flautas e tambores.
O Caxiri na Cuia foi lançado em fevereiro na 34ª Assembléia do CIR, na aldeia Maturuca, e, posteriormente em março, na cidade de Boa Vista no teatro do SESC, onde mais de 350 pessoas, que receberam na entrada uma cuia com caxiri, lotaram o recinto, numa exemplar confraternização entre índios e não-índios.
Além do forró indígena, a riqueza da música indígena de Roraima também se revela nas músicas ancestrais das 9 etnias existentes que, sob o comando de anciões, têm seu 'paço nos rituais e festas tradicionais, mas também nas assembléias e reuniões do movimento, contando ainda com a participação de muitos dos grupos de animação que se dedicam ao que eles chamam de resgate cultural, criando repertórios com cantos e danças de parixara e tukui, muitas das vezes alimentados por pesquisas que nascem nas 'colas.
Parte deste trabalho poderá ser visto (e ouvido) em breve pois o CIR 'tará lançando até o final de 2006 os CDs Cantos Wapichana e Cantos da Tradição Makuxi.
Todo 'te movimento musical indígena de Roraima faz parte do projeto do CIR Música dos Povos de Roraima, que em setembro de 2006 deu início a uma ação inovadora:
a aquisição de um 'túdio de áudio móvel e a formação de quatro técnicos de áudio indígenas (Tais).
O projeto Música dos Povos de Roraima é realizado em parceria com a organização Som das Aldeias (somdasaldeias@uol.com.br) e financiado por o PDPI (Projetos Demonstrativos para Povos Indígenas).
A Som das Aldeias e o PDPI também 'tão juntas com outras duas organizações indígenas de Roraima realizando projetos de promoção da música indígena:
com a APIRR (Associação dos Povos Indígenas de Roraima), promovendo o 1º Festival de Música Indígena de Roraima, que será realizado em janeiro de 2007, e formando quatro Tais da Terra Indígena São Marcos:
e com a HUTUKARA Associação Yanomami, produzindo o CD de Cantos Yanomami.
Esta ampla e diversificada produção musical atende a dois importantes objetivos dos povos indígenas de Roraima:
valorização de sua cultura musical e utilização da linguagem musical como meio para a conscientização sobre seus direitos enquanto cidadãos brasileiros integrantes de minorias étnicas num país pluricultural.
Recentemente, um terceiro objetivo vem sendo vislumbrado enquanto atividade econômica através da venda de CDs e de shows.
Em 'se contexto, a implantação de um 'túdio móvel de som e a capacitação de técnicos de áudio indígenas possibilitará a autonomia dos povos indígenas de Roraima tanto para o registro com qualidade de suas tradições musicais, quanto para a profissionalização dos grupos musicais, como também para a produção de CDs que possibilitem a difusão de 'ta produção musical a um vasto público interétnico.
Número de frases: 18
A TVE do Rio Grande do Sul tem uma programação voltada para a divulgação da cultura e da realidade do gaúcho no campo e na cidade.
Um dos focos dos trabalhos 'tá na compreensão de uma identidade regional presente na vida do Estado, e que se reflete nas artes, na economia e na política.
Para mostrar e diagnosticar o cotidiano de mais de 400 municípios é que a emissora exibe desde 2003 o programa Paralelo Sul, que é apresentado por o músico nativista Rui Biriva e tem na equipe a produtora Rochele Zago e a diretora Márcia Escobar.
O projeto de resgate da história rio-grandense e o retrato da atualidade do Estado vem sendo desenvolvido há cerca de oito anos, com o programa Povo Gaúcho.
Em a atual fase, já foram percorridas cidades interioranas -- como Serafina Correa, Ibirubá, Cambará do Sul -- e grandes centros -- como Pelotas.
Em 'te domingo, dia 26/11, o programa vai mostrar a cidade de Lagoa Vermelha, situada na região Nordeste do RS, denominada Campos de Cima da Serra.
A equipe da TVE passeiam por o município de 28 mil habitantes, conhecendo a economia e a cultura da cidade.
São destaques do programa a indústria moveleira, a agropecuária, o baile típico gaúcho e a comida campeira.
São mostrados também pontos turísticos como a Igreja Matriz São Paulo Apóstolo, o Centro e Lazer do Assis e a Lagoa Vermelha, cuja cor barrenta dá origem ao nome do município.
A exibição do Paralelo Sul acontece aos domingos, às 13 horas e ele é reapresentado aos sábados, às 19 horas.
A TVErs é o canal 7 de Porto Alegre.
Informações e a programação da emissora 'tão no site www.tve.com.br.
Número de frases: 12
Maiores informações sobre Lagoa Vermelha, você encontra no site www.lagoavermelha.rs.gov.br.
Em o início de setembro, 'treou em palcos cariocas uma nova montagem de O bem amado, peça 'crita por o dramaturgo Dias Gomes no ano de 1963 e que chegou aos palcos brasileiros seis anos depois, tendo no papel do prefeito Odorico Paraguaçu o ator Procópio Ferreira.
Para a atual releitura da «farsa sócio-político patológica» (como definiu Dias sobre sua obra), o produtor Guel Arraes designou Marco Nanini, para recontar a história do prefeito demagogo que quer a qualquer custo construir o cemitério municipal de Sucupira.
Apesar dos talentos incontestáveis de Procópio Ferreira e Marco Nanini, é mesmo a figura de Paulo Gracindo que é associada ao político de Sucupira, com todos os seus achaques e neologismos como «jenipapista juramentado» e «cachacista praticante».
Tanto que, até hoje, O bem amado é considerada uma das páginas mais marcantes da telenovela brasileira.
Por isso, atendendo a um dos pedidos feitos aqui na seção de comentários, recontamos aqui alguns detalhes da cidade de Sucupira.
E a teledramaturgia contou ...
O bem amado.
* * * O início de 1973 trouxe mudanças consideráveis na televisão brasileira.
Estava consolidado o sistema de TV a cores, e coincidiu da primeira telenovela exibida completamente em 'te sistema ser um texto que trouxe o colorido tipicamente brasileiro da dramaturgia de Dias Gomes.
Em o horário das 22 horas, em 24 de janeiro, a TV Globo iniciava a saga de Odorico Paraguaçu (papel histórico de Paulo Gracindo), o prefeito da cidade de Sucupira.
Sua meta principal era a que havia consolidado sua eleição -- a promessa da criação de um cemitério municipal.
No entanto, o prefeito convivia com um inconveniente:
não surgia nenhum morto para a inauguração do local.
Receoso com a falta de apoio do povo que o havia eleito, e convivendo com a oposição que o acusava de desvios de verba da saúde e de outros serviços públicos para a obra faraônica, Odorico tomava uma atitude extrema:
contratar o perigoso matador Zeca Diabo (atuação memorável de Lima Duarte) para ser o delegado da cidade.
A atitude se tornava frustrante, pois Zeca havia se regenerado e não matava mais a torto e a direito.
O prefeito também criava mal entendidos com a intenção de haver um assassinato, mas era sempre mal sucedido, bem como o farmacêutico Libório (interpretado por Arnaldo Weiss) e suas fracassadas tentativas de suicídio.
O dramaturgo Dias Gomes afirmou, em sua autobiografia Apenas um subversivo, que a trama envolvendo Odorico foi inspirada numa situação ocorrida em Guarapari, cidade litorânea do Espírito Santo, na qual o prefeito se elegeu com a mesma promessa do político da ficção.
A partir da idéia, o 'critor acrescentou situações típicas do cotidiano brasileiro, e em nenhum momento a trama passou por as situações comuns em produtos da teledramaturgia -- a «barriga», jargão utilizado para denominar os períodos nos quais não acontece nada de relevante numa novela.
Houve até mesmo uma alusão ao então recente «caso Watergate», quando Dirceu Borboleta descobria que Odorico era o pai do filho de Dulcinéia Cajazeira.
Além de Odorico Paraguaçu e Zeca Diabo, outros personagens se tornaram eternos na memória da teledramaturgia brasileira.
O trio Dorotéia, Judicéia e Dulcinéia (respectivamente, Ida Gomes, Dirce Migliaccio e Dorinha Duval), as «irmãs Cajazeiras» que apoiavam e eram apaixonadas por o prefeito e o ingênuo Dirceu Borboleta criado por Emiliano Queiroz ofuscaram até mesmo o conflito amoroso da novela -- o médico Juarez Leão (vivido por Jardel Filho), que contrariava os interesses de Odorico ao salvar vidas em Sucupira, se envolvia com Telma (papel de Sandra Bréa), filha do político.
Outras atuações de destaque foram dos saudosos Carlos Eduardo Dolabella (como Neco Pedreira, jornalista responsável por o jornal de oposição A trombeta), Lutero Luiz (como Lulu Gouveia) e Zilka Salaberry (no papel da delegada Donana Medrado).
Para o ator Milton Gonçalves foi reservada uma cena marcante no último capítulo:
seu personagem, Zelão das Asas, que afirmava que «quem tem fé, voa», conseguia, enfim, voar.
O cemitério era finalmente inaugurado no último capítulo da novela -- exibido em 9 de outubro de 1973.
Por ironia, o primeiro enterro realizado era o do prefeito Odorico Paraguaçu, que morria assassinado por Zeca Diabo.
Então diretor de novelas, Lima Duarte havia sido convidado apenas para fazer uma participação 'pecial, mas acabou ficando até o final da trama porque o personagem foi muito bem recebido por os 'pectadores.
Tornou-se corriqueiro usar as expressões 'drúxulas criadas por «Odorico Paraguaçu --» donzelas praticantes «e» vamos botar de lado os entretanto e partir para os finalmente».
Outra situação que despertava comicidade em O bem amado eram as tonalidades do figurino.
As cores muito berrantes saltavam aos olhos dos telespectadores, e a atriz Ida Gomes chegou a afirmar que a cor excessivamente branca de suas pernas ficava saturada no vídeo.
O reflexo das lentes usadas nos óculos de Emiliano Queiroz também ficavam fortes no vídeo -- a opção foi colocar apenas a armação de eles.
Outro humor involuntário ocorreu graças à Censura da época, que vetou as palavras «Coronel» e «Capitão» (usadas para designar, respectivamente, Odorico e Zeca Diabo) e também palavras como «ódio» e vingança».
A TV Globo teve de apagar o áudio de 15 capítulos -- mas depois voltou a usar as palavras «proibidas».
Em a época, era comum a TV Globo designar compositores para 'creverem as canções que fariam parte da trilha sonora de suas tramas.
Em O bem amado, a trilha teve a luxuosa autoria de Toquinho e Vinícius de Moraes.
O bem amado teve outra peculiaridade:
trata-se da primeira novela que foi além dos seus sete meses no ar.
Em 1980, teve início o seriado O bem amado.
Em seu primeiro episódio, Odorico ressuscitava, depois de quase ter sido enterrado vivo, e retomava o cargo de prefeito.
A intenção de Dias não foi 'crever uma continuação da novela, e sim usar a cidade de Sucupira para fazer sátiras às situações políticas, em tempos de abertura do Regime Militar.
Voltaram à cena também os personagens Zeca Diabo e Dirceu Borboleta, além das irmãs Judicéia e Dorotéia Cajazeira.
Como a personagem Dulcinéia Cajazeira havia falecido na novela, a solução foi criar Zuzinha Cajazeira, uma prima que chegava à cidade, vivida por Kleber Macedo.
A delegada Donana Medrado não pôde retornar também porque a atriz Zilka Salaberry já 'tava interpretando a Dona Benta no seriado infantil Sítio do Pica-pau Amarelo.
«Dias Gomes «" nomeou» outra delegada -- Chica Bandeira, interpretada por Yara Côrtes.
O seriado teve 220 episódios, e foi ao ar até 9 de novembro de 1984.
* * * Fontes consultadas:
Livros
A Hollywood brasileira, de Mauro Alencar
Memória da telenovela brasileira, de Ismael Fernandes
Página eletrônica
Número de frases: 52
Teledramaturgia -- www.teledramaturgia.com.br
Há 5 anos, Daniela Carvalho deixou casa, família e emprego na cidade de Gurupi (Te o) para seguir o marido que é hippie.
Desde então já percorreu mais de 10 'tados brasileiros e, 'te mês, 'tá na praia da Graciosa em Palmas.
Sempre com um sorriso no rosto e filha de 9 meses, ela atende a população vendendo o artesanato que produz.
«Não 'colheria outra vida.
Ser hippie é ter liberdade, é viver da minha arte, sem patrão», enfatiza.
Além de Daniela, há um grupo de pelo menos 8 hippies circulando por os calçadões e areias da praia.
Esta época, verão quente no Estado, a movimentação de turistas dobra nas três praias que há em Palmas, e junto com os visitantes, cresce também o número de hippie's.
A cidade já faz parte do roteiro de eles que, além das praias, são facilmente encontrados nas feiras e na região serrana do distrito de Taquarussú.
Sandra Reich é hippie há 27 anos.
Tem uma casa em Belém (PA) que considera a sua «sede» -- é lá que moram os filhos e o marido.
«Meus filhos respeitam meu modo de vida.
Mas tiveram suas 'colhas e não me seguem.
Eles 'tudam e, quando tem férias, às vezes, viajam com mim, explica ela.
A maior parte do ano, Sandra passa viajando sozinha por o país.
Ela conta que em cada lugar que chega aplica uma forma diferente de artesanato.
«Aqui no Tocantins, por exemplo, tenho aprendido a manipular o capim dourado.
Tenho aprendido muitas técnicas, também coleto algumas sementes», disse.
Em o seu mostruário várias peças produzidas com o capim, sementes de bacaba, de buriti, açaí e outras frutas e sementes típicas da região.
Sandra e Daniela são dois exemplos de um grupo que hoje é definido como neo hippie.
Continuam com o 'tilo dos hippies das décadas de 60 e 70, cabelos compridos, roupas despojadas, mas a maioria já não vive em grupo.
Após a era do «Verão do Amor» e de «Woodstock», a cultura hippie ganhou 'paço na sociedade e se integrou a outros grupos.
Muitas pessoas começaram a acreditar que o movimento de contracultura havia sido extinto, principalmente porque depois destes eventos muitos hippies tenderam a evitar a publicidade e a imprensa.
Isso ainda é comum mesmo hoje, ao conversar com alguns hippies na feira do bosque em Palmas, sente -- se a ressalva que eles ainda tem de falar sobre o seu universo.
«O pessoal acaba mostrando a gente com o mesmo 'tigma -- sujo, desleixado ou ' drogado '.
E a realidade não é 'sa, defendendo apenas um modo de vida com desapego ao material e defendendo a liberdade», explica um de eles.
Mas, apesar do novo modo de vida, eles continuam a existir como andarilhos.
Ainda acompanham suas bandas favoritas e se reúnem em festivais e encontros para celebrar a vida, como o Burning Man Festival.
Hippie -- origem
O termo Hippie derivou da palavra em inglês hipster, que designava as pessoas nos EUA que se envolviam com a cultura negra, e.
x.: Harry «The Hipster» Gibson.
Os hippies eram parte do que se convencionou chamar movimento de contracultura dos anos 60.
Adotavam um modo de vida comunitário ou 'tilo de vida nômade, negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã, abraçavam aspectos de religiões como o budismo, hinduismo, e / ou as religiões das culturas nativas norte-americano e 'tavam em desacordo com valores tradicionais da classe média americana.
Eles enxergavam o paternalismo governamental, as corporações industriais e os valores sociais tradicionais como parte de um 'tablishment único, e que não tinha legitimidade.
Número de frases: 34
«Rádios Comunitárias:
«Balangando o beiço» por o Direito de Comunicar!
Introdução:
Permitam-me iniciar 'te pequeno capítulo sobre rádios comunitárias com a frase «Balangando o beiço» pelo direito de comunicar.
A expressão balangando o beiço ouvi de Misael, um dos idealizadores da Rádio Favela de Belo Horizonte, na pré-'tréia do filme Uma Onda no Ar de Helvécio Raton, no cinema Odeon, no Rio de Janeiro.
Fiquei pensando que título dar a 'te artigo sobre rádios comunitárias quando me lembrei da fala do Misael e resolvi citar sua frase acrescentando parte do artigo 13 do Pacto de São José da Costa Rica:
Por o Direito de Comunicar.
A expressão:
«balangando o beiço», extremamente significante no dito popular mineiro, traduz a liberdade lingüística da comunicação popular, direta, objetiva, perfeitamente em sintonia com um dos direitos mais sagrados do ser humano, o direito de comunicar.
Creio que o Direito de Comunicar seja o primeiro viés que devemos explorar, desse fantástico instrumento de democratização da comunicação e da sociedade que são as rádios comunitárias.
Em um país como o nosso, marcado por o silêncio das maiorias, desde os processos de colonização aos anos de ditadura militar, era de se 'perar que, ao primeiro sinal de liberdade de expressão, a voz das maiorias se fizesse ouvir nos quatro cantos deste país.
Os poderosos de sempre não conseguiram e não conseguirão calar a voz de milhões de brasileiros e brasileiras que descobriram, através das rádios comunitárias, que existem e que têm o que dizer aos seus, a mim e a você!
É disto que quero falar:
de beiços balangando país a fora, garantindo, na prática civil e revolucionária, o sagrado Direito de Comunicar.
E, para que ninguém se assuste, falo da prática garantida na Constituição Brasileira, apenas violada e desrespeitada por os que se sentem donos do ar, por onde trafegam as vozes de bons e maus, de justos e injustos mas, sobretudo, por onde trafegam as vozes dos que não querem e não vão calar!
Rádios no ar, uma conquista popular
De fato, as cerca de 15 mil rádios comunitárias que 'tão no ar hoje, 'tão graças à luta, à resistência e à criatividade de milhares de comunidades.
Sem querer desmerecer o trabalho de muitas lideranças do movimento de radiodifusão comunitária que, de maneira revolucionária e apaixonada, iniciaram 'se processo no Brasil.
Mas, como um dos que iniciaram 'se trabalho, devo reconhecer que, se a proposta não tivesse sido abraçada e apropriada por as comunidades, nada disso 'taria acontecendo:
o milagre da multiplicação das vozes não teria ocorrido!
Lembro-me bem, como se fosse hoje, o dia em que fui a uma comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro, era início da década de 90 e princípio da popularização das rádios nas comunidades.
O desafio era mostrar a comunidade do Conjunto Habitacional da Capitão Teixeira, no bairro de Realengo, como funcionava uma rádio comunitária, desmistificando a idéia de que só os poderosos poderiam ter um veículo de comunicação.
Quando chegamos na sede da associação de moradores, local onde instalaríamos os equipamentos, já havia muita gente nos 'perando, curiosa em ver se era verdade o que havia sido anunciado.
Com a ajuda de todos e com o velho e bom transmissor da Rádio Cigana (equipamento que usávamos para demonstração nas comunidades), mais alguns aparelhos emprestados por a própria comunidade, instalamos os equipamentos e colocamos a rádio no ar.
A surpresa e a alegria de todos foi indescritível.
Um senhor, que infelizmente não me lembro o nome, me disse:
se eu falar aqui, em 'te microfone, minha mulher vai ouvir lá em casa?
Eu disse que sim.
Ele, ainda descrente, me falou:
se isso for verdade, te pago uma cerveja.
A experiência da Capitão Teixeira floresceu e deu muitos frutos.
Hoje, só no bairro de Realengo e arredores, existem mais de 10 rádios comunitárias.
Como a Comunidade da Capitão Teixeira, outras comunidades sonharam, desejaram e se organizaram para ter a sua rádio no ar.
Hoje, em cada canto deste país tem uma rádio no ar:
grandes centros urbanos, periferias, favelas, pequenos e médios municípios, áreas rurais, aldeias de índios e comunidades de quilombolas, todos e todas botando a boca no mundo e, como diz o outro, «quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!».
O que rola por as ondas da comunicação popular
Descomprometidas com o objetivo de gerar lucro e com a desenfreada necessidade de disputar o mercado, de alcançar altos índices de audiência a qualquer custo, as verdadeiras rádios comunitárias, as que, verdadeiramente, têm um compromisso de contribuir com a democratização da comunicação e da sociedade, livres dos velhos chavões e dos compromissos normalmente assumidos por as rádios comerciais, vêm dando uma grande contribuição à comunicação de massa, à medida que ousam criar novos formatos e a experimentar novas linguagens.
É muito comum ouvir nos encontros, seminários e oficinas em que participo país a fora depoimentos emocionados de comunicadores comunitários ressaltando que a rádio comercial de sua cidade 'tá levando ao ar um programa igualzinho ao que ele faz em sua rádio.
A diferença é que 'se novo jeito de comunicar vem ganhando, cada vez mais, o gosto popular.
Em um contraponto à chamada comunicação globalizada, normalmente pasteurizada em seus conteúdos, as rádios comunitárias 'tão resgatando o bom conceito do rádio «amigo íntimo», que entende e fala a linguagem do ouvinte, dos seus problemas, dos seus sonhos, das coisas que fazem parte de seu cotidiano.
Aos poucos e cada vez mais, as emissoras populares vêm se livrando do modelo absoluto e quase centenário do rádio brasileiro.
Em o começo, é comum as rádios, quase todas, imitarem ou copiarem as rádios comerciais.
Mas, aos poucos, vão percebendo que têm um papel diferente das rádios comerciais e que seu compromisso e seus objetivos são outros.
Temos observado que as rádios que adotam posições extremadas, radicalizadas, que se limitam a copiar as rádios comerciais ou que, do outro lado, resolvem fazer uma programação totalmente alternativa, desconsiderando a cultura radiofônica existente, normalmente, encontram dificuldades para exercerem sua função de integradora, articuladora das diversas expressões sociais e culturais existentes na comunidade.
O importante é a emissora ser capaz de levar ao ar uma programação que se diferencie no formato, na linguagem e, principalmente, no conteúdo, sem traumas ou radicalizações.
O segredo é considerar a cultura radiofônica atual e, aos poucos, ir adicionando elementos novos na programação, capazes de construir uma identidade própria, verdadeiramente envolvida na construção da cidadania.
Apesar da maioria das «emissoras comunitárias» 'tar nas mãos de grupos pouco comprometidos com a diversidade, com a pluralidade, com a democracia, 'tá em curso, entre elas, um processo de redefinição de suas funções e de seu papel na comunidade.
Esses grupos 'tão percebendo que, para consolidar um projeto coletivo, comunitário como deve ser toda rádio comunitária, é preciso ser capaz de incluir todos os seguimentos vivos da comunidade, todas as expressões culturais, filosóficas, religiosas ... Quanto mais
participação, maior o sucesso da emissora.
As que teimam em manter, com exclusividade, apenas os projetos de grupos fechados ou se limitam a defender interesses individuais, acabam saindo do ar ou perdendo totalmente a credibilidade da comunidade.
Viram apenas mais uma rádio no dial.
Uma verdadeira rádio comunitária tem que fazer a diferença.
Ser capaz de incluir o que chamo excluídos da grande mídia e da sociedade.
Sempre gosto de citar o exemplo da Rádio Novos Rumos, criada em 1990, no município de Queimados, uma das primeiras rádios comunitárias do país.
A Novos Rumos foi uma das primeiras rádios verdadeiramente comunitárias.
A maneira como a rádio foi criada, sua organização e seu 'tatuto foram exemplo e modelo para o Brasil inteiro.
Mas, o que mais me impressiona na Novos Rumos é a capacidade que a rádio tem de mexer com a cidade, com a vida social, cultural e política dos seus ouvintes.
Situada a 50 Km do centro da cidade do Rio de Janeiro, Queimados recebe o sinal de todas as rádios comerciais da capital e convive com cerca de 15 outras novas rádios «comunitárias» que surgiram nos últimos anos.
Mesmo assim, segundo pesquisas oficiais, a rádio se mantém em primeiro lugar, deixando bem para trás as rádios que lideram a audiência no Grande Rio.
Isso só acontece porque a rádio vem sendo capaz de manter a pluralidade e a democracia na sua gestão e na sua programação.
Outro dia, visitando a emissora, presenciei uma cena que justifica minhas palavras.
Estava na recepção, quando chegou uma senhora, muito pobre com uma receita na mão.
Ela se dirigiu à recepcionista e disse que queria falar na rádio para ver se conseguia os remédios daquela receita.
Disse, ainda, que há vários dias vinha se dirigindo ao posto de saúde para ver se conseguia os remédios e não era atendida.
Segura do que 'tava querendo, disse à recepcionista:
«moça, sei que, se eu falar na rádio a minha história, na mesma hora, serei atendida».
E, assim foi, ela falou e foi atendida.
Creio que exemplos como 'ses 'tão rolando por os quatro cantos do país, onde há uma rádio comunitária no ar, a serviço das comunidades e da construção da cidadania.
A legitimidade que o 'tado não reconhece
'tima-se em 15 mil o número de rádios comunitárias no ar em todo o Brasil.
Passados seis anos desde de que a lei 9.612 foi aprovada (19 de fevereiro de 1998), não chega a mil o número de rádios autorizadas definitivamente por o Ministério das Comunicações.
Em 'se período, foram cadastrados cerca de 15 mil pedidos de associações que sonham em ver suas emissoras autorizadas.
Enquanto as experiências e os bons exemplos das rádios se 'palham, se multiplicam, beneficiando comunidades inteiras, prestando serviços a órgãos públicos e a associações da sociedade civil, o governo federal, numa atitude que não se compreende, vira as costas para 'se poderoso instrumento de desenvolvimento local.
Infelizmente, o movimento das emissoras comunitárias continua vivendo uma profunda contradição:
se por um lado o governo federal, através de seus órgãos públicos, utiliza as rádios para veicular campanhas fantásticas como as do Programa de DST AIDS do Ministério da Saúde e coisas do interesse do governo, por outro lado, continua desenvolvendo uma brutal perseguição às emissoras.
Dados da ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) dão conta de que houve, em 2003, já no novo governo, 17 % a mais de rádios fechadas do que no ano de 2002.
Mas, os problemas das rádios, com relação ao governo, não se resumem apenas à repressão.
Outro desafio das emissoras é superar a burocracia e a morosidade da análise dos processos no Ministério das Comunicações.
Para muitas comunidades que, desde 1998 pediram autorização ao Estado e até agora não a obtiveram, ter a autorização é uma questão de sorte, uma loteria.
Some-se a isso a falta de transparência e de informações sobre o andamento dos processos que tramitam no Ministério.
Bom seria, se, ao invés de tanta perseguição, o governo se dispusesse a elaborar uma política de comunicação que incluísse as mídias comunitárias como parte 'tratégica de políticas de desenvolvimento local sustentável.
Uma política que, no caso das rádios comunitárias, permitisse maior agilidade dos processos no Minicom, que suspendesse a violenta, desnecessária e, às vezes, ilegal repressão às emissoras comunitárias e que, numa atitude de reconhecimento ao papel das emissoras, houvesse investimento na formação, na capacitação e no desenvolvimento do setor, como reza o artigo 20 da lei 9.612.
Enquanto o quadro não muda, as comunidades, cansadas de 'perar por o Estado, continuam resistindo, criando e recriando 'paços de liberdade de expressão e de cidadania, «balangando o beiço», vencendo o medo e alimentando a 'perança.
Para 'sas comunidades, a Mãe Gentil, Pátria Amada, Brasil, não tem olhado com muito carinho, aliás, com nenhum carinho!
Tião Santos
Coordenador da àrea de Comunicação do Viva Rio
(21) 2555-3787 -- 2555-3750 -- 9632-6155
Número de frases: 87
mailto: tiaosantos@vivario.org.br
Algumas lições do racismo brasileiro que aprendi como publicitário
«Everybody wants.
My intelligence me into difficulties."
Su TUNG P ' O
Foi logo no início da minha vida de publicitário em São Paulo que a declaração de um diretor de arte de um dos 'critórios da Leo Burnett (EUA) me chamou a atenção porque batia com um sentimento que também era meu.
A o ser questionado sobre o que mais o incomodava no fato de ser negro, ele devolveu a seguinte resposta:
«O tempo que sou obrigado a perder me preocupando com isso».
Se fosse um aviso do que 'tava por vir, não poderia ter sido mais claro, pois aqui 'tou eu, em 'te doce novembro, mês da consciência negra, 'crevendo exatamente sobre o negro na propaganda brasileira.
Ou, em outras palavras, 'crevendo sobre algo que praticamente não existe.
Nenhuma outra atividade ou ocupação que eu tenha tido me obrigou a gastar tanto do meu tempo pensando nos mecanismos desse fenômeno, que faz com que as agências de propaganda brasileiras sejam tão brancas, como a de redator publicitário.
É claro que não foi como publicitário que descobri que 350 anos de regime 'cravocrata fizeram um 'trago danado e deixaram marcas que se incorporaram ao nosso cotidiano.
O que me surpreende é que a publicidade tenha me ensinado mais sobre a natureza dissimulada de 'sa herança ibérica do que os livros de Gilberto Freyre, que tive que ler (com prazer) nos meus tempos de 'tudante de Sociologia em Recife.
Talvez eu deva até ser grato por tantas lições de vida que a minha profissão me proporcionou.
Por outro lado, seria muito egoísmo não aproveitar 'ta oportunidade de compartilhar com você, publicitário ou não, negro ou não, algumas de 'sas lições.
Quem sabe assim eu não me vingo e obrigo você também a ocupar mais do seu tempo com um assunto que deveria existir tanto quanto existem negros em nossas agências.
A primeira lição:
a dissimulação, principal arma do racista de fabricação nacional, também pode servir para a defesa da sua vítima.
Quando o assunto for discriminação racial, entre mudo e saia calado.
Em a verdade, você nem 'tava presente.
Outra dica:
adote frases do tipo «talento não tem cor» ou «a falta de negros na propaganda é apenas um reflexo do racismo da sociedade», para justificar o fato absurdo de um país que produziu 'critores como Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa e Paulo Lins, não ter redatores publicitários negros, por exemplo.
Deve ser por que ser 'critor é bem mais difícil do que ser redator.
Nem deixe passar por a sua cabeça o impulso de revelar que você conhece muito publicitário branco que não é tão talentoso assim, e que o pré-requisito parece ser adotado com mais rigor na hora de contratar o negro.
Este sim, tem que ser muito bom para furar o bloqueio.
Também não vá ser ingênuo a ponto de tentar argumentar que se por um lado a publicidade não é responsável por a existência do racismo, por outro ela é uma poderosa arma para a manutenção ou remoção do mesmo.
Isso realmente pega mal.
Coisa desse pessoal que não tem o que fazer e fica criando ONGs.
Se possível, torne-se invisível como tão bem sabe fazer o bom e covarde racista tupiniquim.
Se você for daquele tipo de negro que pode se passar por branco, não vacile:
seja branco de corpo e alma.
Isso aumenta exponencialmente as suas chances de se dar bem.
Se alguém adotar uma postura radical e disser que racismo simplesmente não existe, concorde.
Não o trate como cego, se ele se enquadra em 'ta categoria;
nem cínico, se for 'te o caso.
Muito menos revele que não existe outra classificação possível ou que é bastante improvável que um padrão de comportamento social se repita com tanta precisão e freqüência sem uma ideologia, doutrina ou coisa que o valha, que o sustente.
E quando o álibi -- todo racista brasileiro tem um álibi, pode reparar -- for o repertório?
Olha lá como você vai expressar a sua convicção sincera de que pôr um negro aqui outro ali nas peças produzidas por a agência é pouco, muito pouco, na verdade, migalhas.
Pelo amor de Deus, e da sua carreira, não vá sugerir que contratar profissionais negros deveria ser regra tanto quanto contratar brancos.
E se alguém contra-argumentar dizendo que há falta desses profissionais no mercado, engula a sua certeza de que não precisa ser tão criativo assim para encontrar maneiras de se investir na formação de tais profissionais.
Sugerir que a publicidade é suficientemente rica para proporcionar 'te retorno à sociedade, nem pensar.
Para os raríssimos negros do mercado, um conselho básico:
digira as piadinhas e as insinuações racistas.
Não vá cair na besteira de responder que você, além de fazer na entrada e na saída, também faz na cabeça.
Silenciar é tudo.
Não vá dar uma de Silvino.
Outro risco que você também corre se falar o que pensa é o de ser taxado de chato ou racista ao contrário, como se fosse comum ver negros barrando a ascensão profissional de brancos;
negros impedindo a entrada de brancos em rodas de samba;
ou branco reclamando porque sofreu preconceito racial por parte de um funcionário negro do Iguatemi.
Se você insistir no assunto, aí é promovido à categoria de negro recalcado, pode 'crever.
Racista brasileiro se borra de medo só em pensar que pode ser desmascarado, portanto, se algum de eles se descuidar e deixar cair a máscara diante de você, lembre-se da primeira lição:
dissimule, finja que não viu nada.
Jamais se ache suficientemente inteligente para desafiá-lo.
Principalmente se a sua descoberta for feita a portas fechadas.
Ninguém vai acreditar.
Vão dizer que só pode ser um terrível engano;
que aquela pessoa tão bacana não pode ser racista;
que você tem mania de perseguição;
que 'tá procurando desculpa para a sua demissão;
e por aí vai.
Caso você viole 'ta regra 'tará perdido:
vão exigir provas, te ameaçar de processo, te isolar.
Prepare-se para perder algumas pessoas que você considerava amigas, pois elas vão desaparecer por o mesmo buraco por onde os ratos abandonam o navio.
Este processo purgatório, aliás, é o lado bom da coisa.
Finalmente, uma lição tão simples e tão óbvia que se o inteligente aqui tivesse o mínimo de massa cefálica, teria simplesmente consultado um dicionário, e não aprendido dentro de uma agência de propaganda:
preconceito, meu amigo, é prejuízo.
Número de frases: 66
Em época de se discutir a barbárie nossa de cada dia, que tal mudarmos um pouco o rumo da prosa para um enfoque, digamos assim, menos baixo astral?
Humor, por favor (mesmo que seja ' negro ').
O tema que propomos é assaz conhecido de nós todos, brasileiros, desde que os primeiros contadores de histórias europeus 'tiveram por aqui (os que não foram comidos, é claro):
A Antropofagia.
Chamamos a atenção do leitor apenas para um transcendental detalhe:
a história abaixo narrada, por mais incrível que possa parecer, é rigorosamente verdadeira.
De insofismável conteúdo cultural e, por que não dizer profundamente antropológica (já que não trata apenas de ' canibalismozinhos ', comezinhos e suburbanos), a história fala daquela antropofagia de alto nível, ritual, tradicional, contida nas curiosas e meticulosas maneiras de se destrinchar fibras, carnes e ossos de indigitados inimigos humanos, com intenções altamente simbólicas (logo, de modo algum meramente alimentícias).
Antropofagia artística, poderíamos dizer em suma.
O tema (ainda muito mais relevante se considerarmos os animados dias de hoje) pode servir também para muitas elucidativas, e sobretudo divertidas, reflexões acerca da natureza da alma brasileira, notadamente naqueles pontos que tentam explicar por que vivemos ainda, mais de quatrocentos anos depois da história narrada haver transcorrido, a nos comermos uns aos outros, assim, de forma tão ...
tão sem cerimônia, sem pompa, sem circunstância.
É com 'ta dignificante intenção que lançamos aqui o primeiro capítulo da série ... (
«tchan, tchan, tchan» de Villa Lobos, por favor):
«Barbárie Também É Cultura ":
Hoje apresentando o sensacional episódio:
«O Motim do Monte Calvário» (
Uma história que só poderia ter acontecido no Brasil.) (
Descrita no livreto do " Padre Carlos Bresciani Sj).
Em suas primeiras cartas em 1549, logo assim que chegou ao Brasil, chefiando uma missão jesuíta composta por quatro frades que desembarcaram com o primeiro governador geral Tomé de Souza, na barra da Bahia de Todos os Santos, o Padre Manoel de Nóbrega revelava sincero otimismo com relação a possibilidade de converter nossos índios à fé cristã:
«Todos 'tes que tenham com nós, dizem que querem ser como nós ...
se ouvem tanger a missa, já acodem, e quanto nos vêem fazer, tudo fazem;
assentam-se de joelhos, batem nos peitos, alevantam as mãos aos céus ..."
Contudo, 'ta missão de catequese do gentio local não era de modo algum desprovida de dificuldades como as cartas dos missionários as vezes demonstravam.
Conta-se que certa vez, a despeito da não recomendação do governador geral preocupado com os riscos da empreitada, padre Nóbrega decidiu que se construísse uma casa, ' a modos de ermida ' dentro de uma aldeia de índios, próxima à Salvador a qual eles, os padres, haviam dado o nome de Aldeia do Monte Calvário.
Escalado para em ela morar, um dos missionários, o padre 'panhol João Azpilcueta Navarro contou em suas cartas que ali catequizou vários índios, entre os quais muitos, ' todos os que quiseram ', foram batizados.
A ermida foi passada para o substituto do padre Navarro chamado Irmão Vicente Rodrigues, que em carta de maio de 1552 narra a história seguinte.
«Conta-nos que, numa guerra contra índios adversários, a Bastian Teles, filho do principal da Aldeia do Monte Calvário, foi adjudicado, como troféu da vitória, um preso para ser morto e comido numa grande festa.
Mas Bastian e o pai, principal da aldeia, eram cristãos e não consentiram.
Porém não eram cristãos os parentes da mulher de Bastiam e 'tes, como muitos outros, insistiram para que se aceitasse o preso e fosse comido em grande festa, segundo seu costume.
Quando chegou o corpo do preso já morto, Bastian se opôs, apesar das ameaças que lhe faziam de lhe tirar a mulher.
Diante da fúria dos portadores do corpo, preferiu mudar-se para outra aldeia.
Entrementes, foram avisados do caso o Pe.
Paiva e o Ir.
Vicente, que na ocasião 'tavam juntos na aldeia.
Intervieram repreendendo fortemente, e, com força, conseguiram arrebatar-lho corpo, que, de noite, às escondidas, enterraram na horta da própria casa.
Mas os parentes, que viviam em outra aldeia, ao saberem de 'ta desonra sofrida, vieram armados de frechas e arcos, para desenterrar o corpo.
Opuseram-se novamente os dois " Missionários.
«Acudimos -- narra Ir.
Vicente -- e grande coisa foi não nos frecharem;
fugiram.
às duas horas daquela noite, os dois missionários conseguiram sepultá-lo perto da cerca da cidade, à revelia dos índios, que, naquela hora, jaziam todos embriagados por as bebedeiras da festa.
A o amanhecer, os índios 'cavaram todo o terreno em redor da casa dos padres, inutilmente.
Ficaram revoltados.
O fato se deu entre abril de 1550 e junho de 1551.
Os padres, sob 'tas ameaças, se retiraram a morar dentro da cidade, continuando porém a cuidar da aldeia com freqüentes visitas.
A aldeia continuou por muitos anos.
Pe. Luis de Grã, em Dezembro de 1554, nos diz que muitos de seus habitantes se mudaram, até mudou-se a aldeia toda.
«Andam por a aldeia muitos que eram cristãos e moravam numa aldeia situada aqui perto da cidade (a do Calvário), na qual, os padres, que 'tiveram no princípio, tinham casa e ermida, e ali os ensinavam a grandes e pequenos, a homens e mulheres e, como seu costume é mudar-se freqüentemente, por qualquer capricho queimam a sua choupana em que moram;
ninguém lhes impede, ainda que queimam toda a aldeia.
Mudaram-se e, finalmente, se mudou toda a aldeia.
Para eles eu trabalhava, mas porém seus costumes 'tão sem nenhum sinal de cristão ...
'queceram-se tudo».
«Sim, esquecemo-nos de tudo», poderíamos confirmar hoje mesmo nós outros (com os arcaísmos, por favor!). '
Caranguejamos ', Andamos para trás, poderíamos afirmar também.
Dizem que naqueles banquetes de antanho, nossos silvícolas antepassados (talvez os inventores do ' churrasco ', tal qual o conhecemos) assavam as vítimas com ervas aromáticas.
Hoje em dia nós outros, apesar de sermos orgulhosos urbanóides com freezers e microondas ultramodernos, nem as assamos mais.
E isto é o fim da picada.
Que nos sobrem ao menos alguns guerreiros vivos, para levantarmos, em algum lugar, a nossa nova aldeia.
É só o que desejamos.
Número de frases: 58
(Não perca, brevemente, o próximo episódio: «A Iconografia da Barbárie ") Meu avô 'tá com 89 anos e tá na fase» Xô contar logo o que vivi, que posso ir a qualquer momento " e então fica me contando seus causos.
Um de eles foi quando um professor seu, Aliomar Baleeiro, conhecido com «O Grande Mestre», na faculdade de Direito, implicou dizendo que ele não seria um bom advogado, pois parecia não saber das coisas que eram faladas na sala.
Meu avô voltou para a casa e foi ler cada artigo, cada lei, cada parágrafo de tudo que havia sido 'tudado em sala de aula.
Uma semana depois, ao fim da sabatina, o professor disse:
-- Agora sim, nota 10. Tô vendo que você sabe.
-- Eu não sei de nada.
Eu decorei tudo -- respondeu ele.
Em uma lista de discussão de que faço parte, o tema «Vou parar de beber» 'tava em voga.
Tudo começou quando Miwky disse que a partir daquele dia não bebia mais, gerando respostas inconformadas.
Uma de elas foi de Thilindão, baixista dos Honkers, que reproduzo na íntegra:
«Minha senhora, quer tomar suquinho?
Vai para a lanchonete!
Bar é lugar de gente séria.
Coisa de responsabilidade.
Vai tomar seu sorvete quieta e deixa os profissionais em paz!
De vez em quando eu tiro minhas férias de birita e continuo indo para a night, mas confesso que me divirto bem menos, também me fodo bem menos, mas a gente tá no mundo é pra se fuder e se divertir, portanto, se eu sou um comedor de água vou morrer comendo água.
Posso tirar férias, mas parar pra sempre é desespero.
Aos poucos você vai descobrir outros meios de se sociabilizar, talvez outros amigos, talvez outros prazeres, mas ninguém morre nem perde os amigos porque parou.
Só não me convide pra ir em sua casa tomar um cafezinho, porque isso não é coisa de gente séria.
Se cuide!
Foi bom te conhecer."
A discussão etílica tomou conta.
Uns diziam que a bebida socializava, enquanto outro dizia que não bebia e que mesmo assim era pessoa social, que saía com pessoas que bebiam ...
Eu já bebi.
Bebi até os 25, quando ...
Estudei três anos no Colégio Anchieta.
Um dos mais tradicionais de Salvador.
É o colégio ideal pra quem sabe o que quer da vida aos 11 anos.
Se for medicina ou direito, melhor ainda.
Em o Anchieta, não dava nem pra namorar nos corredores que no meio do chupão se ouvia um «psiu, pode não» do fiscal.
O policiamento era ostensivo.
Em a sétima série, turno vespertino, 1992, duas semanas depois do primeiro dia de aula, entrou um aluno novo.
Por motivos de segurança, não botarei o nome de ele aqui.
Vamos chamá-lo de Leleco.
Leleco já era famoso por suas ações um tanto criminosas.
Era tido como um garoto violento, daqueles que batiam em professor e mandavam o diretor tomar no cu, sem meias palavras.
Leleco também tinha a fama de ser o maior maconheiro da Bahia.
Faltando duas semanas para o fim do primeiro semestre, as aulas terminavam no segundo horário, deixando os dois horários do meio para a execução das provas da 2º unidade e os dois horários finais livres.
Acabávamos a prova e ficávamos no pátio do colégio, conversando sobre a prova, o gabarito, se desde ali já não tinha mais jeito de passar direto ...
Em um desses dias:
-- Leleco trouxe um baseado, e aí? ¬ --
me disse Francisco, que também nunca tinha fumado na vida.
-- E aí?
-- E aí, vai?
-- Não sei, o que você acha?
-- Não sei ...
vai?
-- Rapaz ...
e aí?
-- Porra, man, não sei ...
e aí?
-- Rapaz ...
-- E aí, vão ou não vão, caralho?--
Leleco chegou de repente, já intimando.
Como é que diz «não»?
O Colégio Anchieta ficava no bairro de Amaralina.
Atravessava uma rua e 'tava na praia.
Em a praia, tinha uns barcos de pesca na areia, e ficamos entre 'ses barcos.
Ventava muito e não tiramos a camisa do colégio.
Além de ser a primeira vez que eu fumava, era a primeira vez que eu via um baseado de maconha.
Nem vi como era a maconha propriamente dita, já 'tava fechado.
Já tínhamos dado umas tragadas num cigarro e não foi difícil o processo.
Tirando Francisco, que deu uma babada no baseado, tomando um 'calde de Leleco.
-- Porra, o cara baba, véi!
Não lembro bem de quanto tempo já 'távamos lá fumando, mas lembro que chegou uma mulher, olhou para a gente e fez:
-- Que bonito, três meninos do Anchieta fumando maconha!
Eu congelei.
Francisco fez o mesmo.
E Leleco deu uma de Leleco:
-- Vai tomar no meio do seu cu, sua puta.
Putaquepariu.
Diplomacia zero.
A mulher balançou a cabeça e foi embora.
Leleco voltou a fumar fingindo que nada tinha acontecido.
Em a hora de voltarmos para o Colégio, pois nossos pais nos pegariam lá, eu disse:
-- E se ela 'tiver na porta, 'perando a gente com algum funcionário da 'cola?
O colégio ficava num quarteirão.
Eu fui por a direita, pra entrar por a porta principal, e eles por a 'querda, pra entrarem por a porta do lado.
Entrei na boa, não tinha ninguém.
Mas após 3 minutos, chegam Francisco e Leleco.
Os olhos de Francisco saltavam pra fora.
-- A mulher 'tava na porta 'perando a gente, ela e a coordenadora da sexta-série.
A gente veio aqui te chamar.
-- Aquela puta, vou dar uma broca na cara de ela ...
Ó man, é pra dizer que não foi a primeira vez de vocês, hein?
É pra dizer que vocês já fumavam em 'sa porra, 'tão ouvindo?
Fomos andando em direção à portaria, tudo era meio confuso, e talvez nem fosse por a onda da maconha ...
Fui pego, na primeira vez ...
Caralho, que doideira ...
Em o caminho, ouvindo Leleco dizer por a oitava vez que era para a gente dizer que não tinha sido a nossa primeira vez, tive a sobriedade (acho que não bateu mesmo) de dizer:
-- Sim, mas fumávamos há quanto tempo?
Dois meses?
-- Um mês -- disse Francisco.
-- Um ano -- disse Leleco.
Conseguimos convencê-lo de que era mais coerente uns 4 meses.
A coordenadora da sexta série era jovem e muito bonita.
Em aquele dia, não teríamos muito tempo.
Nossos pais já 'tavam indo nos buscar e ela, que foi pega de surpresa, no fim do seu expediente, quando só tinha ela na coordenação, disse que não levaria imediatamente o caso à direção, mas que «amanhã, quando acabarem a prova, me procurem sem falta».
Dia seguinte, acabamos a prova e fomos para o lado de fora da 'cola, longe dos olhares dos colegas, conversar com ela.
Começou o discurso tranqüila, dizendo que «antes de mais nada, quero que vocês saibam que eu vou levar isso para a direção do colégio, mas não vai ser hoje nem amanhã, quero conversar com vocês antes».
Mantivemos a mentira sobre o nosso tempo de maconheiros.
Ela falou do seu irmão, que entrou em 'sa de maconha e depois foi pra drogas mais pesadas e que tava perdido, sem rumo, tentando sair, mas sem conseguir e blá, blá ...
Em o Anchieta, se fosse mandado para o SOE, era certo que você só receberia uma pequena advertência.
Socorro era uma mãe.
Se fosse mandado para a sala de Ilda, era bom ter uma boa desculpa e rezar para a ela não tá de mau humor, se não era reunião com os pais e mais dois dias de suspensão.
E se fosse para o Diretor, aí, amigo, reze pra sair vivo.
Em 'ses dias, as pessoas perceberam a nossa mudança.
Só andávamos juntos, por os cantos, conversando ...
Todo mundo perguntava o que foi que tínhamos feito e a gente despistando.
Depois de uma semana de conversa com a coordenadora da sexta série, eu 'tava na sala, num daqueles horários de antes da prova, faltando três dias para o fim do semestre, quando entrou o auxiliar de disciplina, o cara que fica por os corredores, dizendo:
-- Ricardo Cury, o Diretor 'tá te chamando.
A sala ficou em silêncio.
Um «pxxxxxxxx» veio da galera do fundão.
O colégio 'tava todo em aulas, fui andando sozinho por o pátio, não tinha ninguém.
Entrei no complexo da direção, subi os degraus velhos, bati na porta grossa de madeira 'cura, ouvi um «Pode entrar», e entrei.
-- Boa tarde, o senhor me chamou?--
disse eu, com um fiapo de voz.
-- Sente-se, por favor.
Sentei.
-- Quer uma água?
-- Não, tá beleza ...
-- Então, Nadja me disse que você tem algo pra me contar ...
-- Hein?
-- Nadja disse que você tem algo pra me dizer ...
-- Ah, é ...
ééé ... você já sabe, né?
-- Não.
Não sei.
Ela me disse que você tinha algo pra me contar ...
-- Ela não te contou?
-- Não.
PQP, teria que contar tudo.
Ele ouviu tudo, calado, não fez uma pergunta, eu mantive a mentira que já fumava há 4 meses e, quando eu acabei de contar toda a história, ele abriu a gaveta, puxou um pedaço de papel que embrulhava algo, abriu 'se papel e mostrou, o que só depois fui saber o que era, uma imensa, gigante e enorme berlota.
Um galho de maconha.
Sem querer eu entreguei o jogo:
-- O que você fumou foi isso aqui?
-- Não sei se foi isso, não.
Ele balançou a cabeça afirmativamente.
Toc toc.
-- Pode entrar.
Era Francisco, que, com um fiapo de voz, disse:
¬ -- Boa tarde, o senhor me chamou?
Ele entrou e, quando arrastou a pesada porta de madeira, pôde me ver.
Seus olhos duplicaram de tamanho.
Fiz uma cara de «ele já sabe tudo», que ele captou na hora.
-- Então, Francisco, quero que você me conte o que aconteceu.
E Francisco falou tudo igualzinho a mim.
Toc, Toc ...
-- Pode entrar.
Leleco nem deu boa tarde.
Sentou na cadeira e ficou olhando para o Diretor.
Contou a mesma coisa.
-- Tudo bem, podem ir.
Amanhã os chamo novamente para uma conversa definitiva.
Amanha era o último dia de aula.
Ou dava merda ou dava merda.
A merda era iminente.
Não tinha jeito.
-- Ô, meu Deus, se ele não contar para os meus pais eu não vou fumar maconha nem experimentar mais nada por muito tempo ...
Dia seguinte, mesma coisa:
-- Ricardo Cury, o Diretor 'tá te chamando.
A sala ficou em silêncio.
Um «pxxxxxxxx» veio da galera do fundão.
E lá vou eu, no meu calvário, colégio vazio ...
-- Boa tarde, o senhor me chamou?--
disse eu, com um fiapo de voz.
-- Sente-se, por favor.
Sentei.
-- Quer uma água?
-- Não, tá beleza ...
Logo em seguida, chegou Francisco, o ritual se repetiu e, logo em seguida, chegou Nadja.
O Diretor começou:
-- O aluno Leleco já foi expulso.
Eu e Francisco nos entreolhamos.
-- Mas ele não foi expulso por causa desse ato.
Ele foi expulso porque fui olhar o seu histórico 'colar e descobri que ele tinha sido expulso do seu último colégio, o Antonio Vieira.
Não era nem para o Anchieta ter aceitado ele aqui.
Foi uma falha grave da nossa coordenação.
E agora a pergunta é «o que fazer com vocês dois?».
Eu e Francisco continuávamos calados.
O Diretor disse exatamente 'sas palavras, de forma bem pausada:
-- Essa noite, (pausa) eu levei o boletim com as notas de vocês para a casa. (
pausa) Ele foi importante (pausa) na decisão que eu tomei ... (
pausa) «Me fudi», pensei eu.
«Me fudi», pensou Francisco.
-- ... Constatei (pausa) que as notas de vocês dois, somadas, (pausa) não dá pra passar direto ...
«PUTAQUEPARIU», pensei.
«PUTAQUEPARIU», pensou Francisco.
-- ... E quando eu coloquei a cabeça no travesseiro (pausa), pensando no que fazer (pausa) ...
decidi que ...
Ninguém respirava na sala.
Dava pra segurar o tempo com a mão.
-- ... não vou contar para os seus pais ...
O silêncio era palpável.
Ele olhou pra mim por 4 segundos e, sem virar o rosto, só mexendo olho, olhou para Francisco por 4 segundos também, e então voltou o seu olhar pra mim para mais 4 segundos, e depois pra Francisco de novo.
-- ... Porém -- gritou ele nos acordando -- se vocês perderem de ano, não poderão continuar aqui.
E se seus pais vierem perguntar o porquê (pausa), aí sim eu contarei.
Juro que tentei, fui para a recuperação de 6 matérias.
Francisco foi pra de 4.
Em a recuperação, eu sempre 'tudava e sempre passava com boas notas.
«É isso que vocês querem?
Que eu decore isso aqui?
Então tome."
Mas, em 'se ano, algo pior ainda iria acontecer.
Durante a recuperação, descobrimos, sem querer, que as provas do colégio eram rodadas na biblioteca, e que as folhas que ficavam mal impressas, borradas ou tortas, recebiam um único rasgão no meio e iam para a lata de lixo da própria biblioteca.
Formávamos um grupo de cinco.
Quatro ficavam conversando com a bibliotecária, fazendo uma barreira, enquanto um metia a mão no lixo pra pegar o tesouro.
Uma vez fomos lá de noite, antes da Limpurb, para pegar todo o lixo do colégio.
E conseguimos, assim, juntos com os restos de um X-Calabresa, boas questões de Geografia e Ciências.
Nunca era a prova toda, eram uma ou duas páginas, o que significava uns dois pontos garantidos.
Como sentava a cara no livro naquela fase, os outros pontos conseguiria facilmente por 'forço próprio.
Esses dois pontos eram só pra garantir, porém, mais ainda, por a aventura por si só.
Quebrar com o sistema.
Enganar o Diretor que não deixava nem dar chupão no colégio.
Em pleno século XXI, no ano de 2006, o punk gaúcho Wander Wildner, numa entrevista para um podcast baiano, o Rockloco ¬ -- rockloco.
podomatic. com -- disse em alto e bom som:
«a culpa é do sistema».
A coordenação percebeu o movimento do lixo na biblioteca e corrigiu a falha.
A última prova era de matemática.
Eu havia 'tudado.
Estava confiante.
E andando com Francisco por o pátio vazio, no dia anterior à prova, que seria no primeiro horário da manhã, vimos um cara da oitava série, Genival, saindo por a janela da biblioteca.
Ele segurava uma prova.
Quando chegou perto da gente, entregou a prova a Francisco dizendo:
-- A biblioteca 'tava trancada, eu entrei por a janela, não tinha ninguém ...
não achei a minha prova, mas achei a de vocês, tome -- e saiu correndo.
Eu e Francisco ficamos paralisados.
Olhando a prova.
Sem acreditar.
Fomos para a casa de ele para responder a prova e a resolvemos naturalmente.
Tínhamos 'tudado.
Ao invés de tirarmos oito, tiraríamos dez.
Mas eu tirei 3,8. Não era aquela prova.
Ou era, como descobri dois anos depois.
Em 1994, no Colégio Mendel, reencontrei com meu professor de matemática do Anchieta, Jorge.
Contei pra ele do episódio, no que ele disse:
-- O problema foi que vocês pegaram a prova original ...
ela ainda nem tinha sido xerocada.
O colégio me ligou meia noite.
Eu tava dormindo.
Fiquei até 3 horas da manhã fazendo outra prova, com uma raiva da porra ...
O que salva é que, no fundo, nem tive culpa.
Mesmo se a prova não tivesse vindo parar em minhas mãos, eu teria sido reprovado.
-- Vai repetir o ano no Anchieta?--
perguntou meu pai.
-- Nem a pau -- respondi.
Francisco passou aproximado, mas perdeu o ano seguinte.
Seus pais foram chamados e o Diretor contou tudo.
Por conta da minha promessa, passei a minha adolescência de cara.
Não fumei um baseadozinho sequer.
Todos os amigos insistiam e eu sempre dizia «não».
Sempre rolava um «você não fuma?!!!!»,
quando algum ser novo era apresentado.
E eu respondia «não, só bebo».
Eu só bebia e observava.
Talvez por isso lembre de tantos detalhes.
Assisti muito aos meus amigos se chapando.
Vi de tudo.
Cocaína, ácidos, muita maconha ...
Observar a onda da cocaína me fez ter asco a ela.
O 'tado em que meus amigos ficavam (ficam), muitas vezes, é ridículo.
Uma vez, um ficou contando durante 3 horas como ele bateu o carro.
Contava e repetia, contava e repetia, sem parar.
E no meio ainda dizia «man, se eu tiver te enchendo o saco me avise».
Eu dizia «não, que nada, pode falar».
E tome a história da batida do carro.
Tem um que toda vez que chega no bar diz que parou:
-- Tô dando um time, tô beleza ...
Aí passam 5 segundos e ele continua:
-- ... Quem é o barão?
Porém, aos 25 anos, no ano de 2003, numa viagem pra tocar em Aracaju, eu resolvi fumar o meu segundo baseado na vida.
E fui pego por a polícia.
Mas isso é outra história ...
Em tempo:
Hoje se 'pantam me perguntando «você não bebe?!!!».
E eu respondo " não, só blá, blá ..." (
1) Every little is magic, de Sting, The Police.
Número de frases: 277
Já faz alguns anos que a onda de reviver os momentos de ouro da Jovem Guarda 'tá em voga.
De um lado, velhos astros, 'quecidos, tentando polir seu antigo brilho ou garantir uma 'trela mais luminosa na calçada da fama da história.
Em o outro, diversas bandas que, ao invés de investirem num repertório inédito, se contentam em repetir sucessos do passado, de preferência sem mudar sequer arranjos e instrumentos originais.
Esta onda trouxe 'peciais na televisão, muitos cabelos brancos, cantores de apenas um sucesso (que, aliás, entraram só no fim da Jovem Guarda) se mostrando como se fossem mais do que jamais foram e muitas homenagens e tributos constrangedores.
No meio de tudo isso, no entanto, surgiu algo diferente e digno de nota.
Uma banda que reúne grandes nomes recentes do rock nacional junto a uma lenda ignorada dos tempos áureos de Roberto Carlos.
O nome do conjunto não deixa margem a erros de interpretação:
Lafayette e os Tremendões.
Lafayette Coelho Vargas Limp é ele mesmo, o mago dos órgãos dos primeiros sucessos de Roberto Carlos na Jovem Guarda e autor, em carreira solo, de uma série enorme de discos instrumentais de grande sucesso por a CBS (hoje, Sony).
Não é nenhum erro afirmar que a percepção auditiva dos jovens dos anos 60 no Brasil seria outra sem os teclados marcantes de Lafayette.
Esta mesma percepção, que influenciou muita gente no passado e gerou, em última instância, a profusão dos teclados bregas e de qualidade duvidosa dos anos 70 e 80, também marcou muita gente boa.
Entre eles, Gabriel Thomaz, líder dos Autoramas, que teve a idéia de reunir grandes nomes de diversas bandas nacionais ao famoso organista para criar os Tremendões.
Que, apesar do seu repertório, transmitem um frescor às músicas que combina o verdadeiro 'pírito de diversão dos anos 60 à evolução dos últimos 40 anos de rock.
O resultado é simples:
potência musical, originalidade, festa e prazer garantido aos ouvintes de seus shows.
Completando um ano de união no último dia 28 de dezembro, a banda formada por Lafayette, Gabriel, Érica Martins (Penélope), Nervoso (Acabou la Tequila), Melvin Fleming (Carbona), Renato Martins e Marcelo Callado (ambos do Canastra), lançou seu primeiro disco.
Respeitando o 'pírito do grupo, o compacto com duas músicas foi lançado apenas em vinil e traz, no lado A, a primeira música inédita dos Tremendões, O Pão Duro, composição dada de presente à banda por um compositor ícone da Jovem Guarda, Getúlio Cortês -- autor de sucessos como Negro Gato.
Desde 2005, eles fazem shows em diversas capitais do Brasil.
Seja por o inusitado da união entre o novo e o antigo, seja por a qualidade da interpretação e do repertório, o fato é que já faz meses que Lafayette e os Tremendões são reconhecidos por a crítica 'pecializada.
O que não é nada fácil, se se pensar que, em princípio, se trata de uma banda cover.
Mas desde quando interpretar o repertório alheio tira o mérito musical de alguém?
É só ir diretamente aos anos 60 e lá vão 'tar os primeiros discos dos Beatles, que, em sua grande maioria, são compostos por reinterpretações de músicas que outros já tinham gravado antes.
Mas não só os garotos de Liverpool, como boa parte das bandas daquele época, se apoiaram inicialmente em composições que não eram originais.
E todos viram no que deu aquela efervescência.
A própria Jovem Guarda, anterior à Beatlemania, mostrava 'ses sinais:
muitas músicas eram versões de sucessos 'trangeiros, que demoravam meses e às vezes anos para aportarem por aqui.
Por tudo isso, ir a algum show de Lafayette e os Tremendões é quase uma catarse.
Quem tem mais de cinqüenta se 'balda.
Quem tem seus vinte e poucos vai ficar é incorformado por 'tar agitando com as mesmas músicas que balançaram os 'queletos de seus coroas.
E quem 'tá longe do lugar em que nasceu vai mesmo se emocionar na hora em que a banda começa a tocar O Portão, lembrando que, por vezes, não há mesmo lugar melhor que o próprio lar.
São mesmo tantas emoções que, no final, o que importa é que o show é mesmo uma brasa.
Número de frases: 31
Mora? Fonte:
Hit Em a Rede
Não é de hoje que o rock e cidadania têm uma certa afinidade.
Eventos como o Live Aid, há 23 anos, reuniu centenas de artistas e milhares de pessoas para lutar contra a miséria na Africa.
Em 2007, o Live Earth, capitaneado por Al Gore, utilizou a música para dar um importante alerta sobre questões ambientais que precisavam ser tratadas com urgência e seriedade.
Bem longe disso, mas muito perto de problemas igualmente graves e que atingem milhares de pessoas, Caren Suzana, vocalista da banda Maça de Pedra, há dois anos faz a sua parte na cidade onde mora, São Leopoldo:
une jovens que se preocupam com o meio ambiente e gostam de rock num movimento chamado Rock Por o Rio que objetiva salvar o que ainda resta de um dos principais rios gaúchos:
o Rio dos Sinos.
Segundo Caren, o início do movimento Rock Por o Rio coincide com uma das maiores tragédias ambientes do país:
a mortandade, em outubro de 2006, de mais de um milhão de peixes, caso que foi considerado um dos maiores crimes ambientais da História do Rio Grande do Sul.
Em a época, Caren trabalhava na Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que fica às margens do Rio, e organizou um evento com diversas bandas de rock para atrair a atenção das pessoas em prol de um objetivo comum:
a importancia de cuidar do ecossistema.
«As pessoas não tem consciência de que o lixo jogado no chão, seja ele industrial ou uma simples latinha de Coca-cola, vai para o Rio.
O 'tranho é que, as mesmas pessoas que não querem tomar água poluída, são as mesmas que poluem o meio ambiente "
Para o Rock Por o Rio que, além do Maça de Pedra é composto de amigos e diversas outras bandas Leopondenses, a preocupação com o Meio Ambiente é constante.
A seriedade do trabalho faz com que o grupo se reúna com entidades municipais e receba apoio na luta por a qualidade de vida.
Graças a 'te apoio, o segundo show Rock Por o Rio já tem data e horário marcados:
dia 12 de julho, às 15h, bem no centro de São Leopoldo.
Não por coincidência um dia antes do " Dia Mundial do Rock.
«Desta vez participarão sete bandas, mas muitas me procuram diariamente querendo participar.
Não posso fazer desse evento um Woodstock, mas se dependesse do número de pessoas que querem se fazer presente, o Rock Por o Rio duraria três dias», -- diz Caren, comemorando o sucesso e o respeito do evento.
Em o ínicio de maio, as fortes chuvas ocorridas no Rio Grande do Sul foram responsáveis por mais uma tragédia de proporções avassaladora:
a maior cheia dos últimos 43 anos ue deixou mais de 1,6 mil pessoas desabrigadas.
Gente que teve que abandonar suas casas apenas com a roupa do corpo.
Mais uma vez, integrantes do Rock Por o Rio unem forças, desta vez sem instrumentos, mas com muita boa vontade:
-- Vamos ajudar a limpar as casas do maior número de pessoas que pudermos auxiliar para que 'tas possam retornar o quanto antes para seu lar.
diz o guitarrista Rodrigo.
Enquanto muitas cidades decretaram situação de emergência a comunidade, empresas e poder público unem, forças para ajudar a amenizar o sofrimento de 'sas famílias.
O Rock por o Rio integrará, nos próximos dias, a Força-tarefa e, assim que as aguas tiverem baixado, irá auxiliar muitas famílias a voltar para o seu lar.
«Desde que as àguas subiram e vitimaram 'sas pessoas, a beira do Rio virou um ponto turístico.
Muitos vêm até aqui apenas para passear, apontar a tragédia, fotografar e lamentar a perda de 'sas famílias.
Número de frases: 31
Nós vamos ajudar o maior número de pessoas que pudermos a limpar suas casas e, desta forma, possibilitar que 'sas retomem o quanto antes a sua vida normal."
Como 'crever sobre um mestre (para mim) como o Figueiredo?
Uma pessoa que apesar de não ter quase nenhum 'tudo (ginásio completo) conhece tudo (ou muito) de filosofia, poesia, literatura, história, religião ...
Fala pelo menos cinco idiomas, viajou o mundo todo durante anos e já morou em casas abandonadas na Inglaterra e em cavernas na África.
Autodidata e pesquisador nato.
Como falar de uma pessoa que prima pela palavra exata e que parece mais um ourives que um poeta?
Não sou propriamente um leitor ávido de poesia, que devore inúmeros poemas e que tenha um conhecimento muito grande das letras.
Gosto. Procuro ler os clássicos mundiais, sejam romances ou poesias, e tenho uma intuição nata para garimpar e avaliar as dicas alheias.
Minha relação com o Figueiredo data de 1997 quando fui procurá-lo na ADAG-SP, agência de publicidade, para 'tagiar na área de marketing político.
Figueiredo me acolheu de tal forma que o rodízio que se faz naturalmente entre os setores da agência não foi realizado e eu fiquei colado a ele auxiliando-o nas suas tarefas.
Atendemos a conta de Jundiaí, Hortolândia, S. José dos Campos, entre outras.
Aprendi muito com 'sa pessoa simples e extremamente inteligente e culta.
Aprendi sobre a minha profissão, mas também sobre a vida e expandi os meus horizontes com as leituras que ele me indicou.
A primeira vez que eu li os Goliardos foi como colocar o carro na frente dos bois.
Não entendi nada.
Não sei porque, já que hoje me parece tão simples e profundo ao mesmo tempo.
Acho que eu já o li pelo menos umas seis vezes, e a cada vez que leio sinto como se 'tivesse junto de ele ouvindo as suas histórias incríveis.
Os Goliardos foram os beatnicks do século XII, como explica abaixo o próprio Figueiredo.
Hoje, ele vem trabalhando junto com o Marcelo Cid, um latinista, traduzindo os poemas dos goliardos para a publicação do livro:
«Sexo, vinho e poesia -- uma antologia de poemas goliardos, os beatniks do Século XII».
Além disso, ele também 'tá lançando por a editora Lazuli um livro para o público infantil chamado «Uma Aventura nas Bermudas» e que 'tará a venda dentro de um mês ou um mês e meio.
Carlos também 'tá trabalhando num novo livro de poesia intitulado Arquitetura da Ausência, que deve sair do forno nos próximos dois anos.
Em 'te final de semana, dia 21 de outubro, ele fará uma palestra sobre o seu trabalho no MENSA, São Paulo.
Entre os livros publicados por ele 'tão:
Estranha desordem (poesia), Goliardos (poesia), 100 poemas 'senciais da língua portuguesa (coletânea de poesias), 100 discursos históricos e os 100 discursos históricos brasileiros.
Para quem quiser adquirir os Goliardos ou o Estranha Desordem pode entrar em contato com o 'critor através do e-mail figueiredo@globo.com, o custo dos Goliardos é de R$ 30,00.
Abaixo uma breve entrevista feita por e-mail com o próprio.
1.
Quando o Goliardos começou a nascer?
Quanto tempo para editá-lo?
-- Goliardos é o meu segundo livro de poesia.
A obra de 'tréia foi Estranha Desordem, editado por a Paz e Terra, em 82.
Goliardos foi publicado em 98.
Não consigo precisar a data do surgimento do embrião.
Pelo menos uns dez anos antes.
Quando ficou quase faisandé, tinha de ser, então, editado, o que foi feito, sem nenhum problema, praticamente.
Em a verdade, o Samir Meserani, que era muitíssimo respeitado, instado por mim a ler o manuscrito -- Por favor, Samir, observe a regra de Ortega y Gasset:
a grande cortesia do Século XX é a não publicação de obras desnecessárias -- recomendou a sua publicação.
2. Quais as traduções que você já fez?
Traduções.
Existem ideologias, aí.
Ideologia emburrece, é claro.
Para mim, o padrão é a tradução que Machado fez de um verso de Shakespeare
When I consider the things that grow -- Se tudo quanto cresce, eu fico a meditar.
Fiz uma tradução do poema «Atlantis» do Auden que 'tá no site ZUNAI.
Basta entrar no Google.
Em o presente, 'tou envolvido na tradução, do Latim, que 'tá sendo feita por o latinista Marcelo Cid, de poemas goliardos, para meu novo livro «Sexo vinho e poesia -- uma antologia de poemas goliardos, os beatniks do Século XII».
3.
De quando a quando durou o seu tour ao redor do mundo?
Em o total, uns seis anos.
Em os anos 70, embora a primeira saída, tímida (éramos uma meia dúzia de malucos, numa Kombi.
Um de eles é um grande músico, o Tavinho Moura) por Uruguai, Argentina e Chile via o extinto transandino (um trem que cortava então os Andes) tenha se dado em 62.
A saidona se deu porque dois contatos meus, na resistência à ditadura, no Rio, foram presos.
Estávamos planejando raptar um ministro do Geisel.
Eu conhecia uma pessoa, um diretor de cinema, que era amigo da filha do ministro e fazia a planta da casa de ele.
Eu era o intermediário.
Aconteceu então que fiz uma festa de aniversário (eu morava numa garagem, na Montenegro, no Rio) e apresentei um para o outro -- os meus dois contatos -- o que foi uma falha na segurança, pois eles só se conheciam por codinomes.
Quando ambos foram presos, um após o outro, concluí que o próximo seria eu.
Fui para Foz do Iguaçu (a porosidade da tríplice fronteira é um fato) e de lá, para a Argentina.
De aí, fui para o Chile, Peru, Colômbia e voltei ao Brasil.
Depois, foi a vez da Europa e norte da África e Europa, novamente -- Portugal, Espanha, Marrocos, Argélia, França, Inglaterra -- daí fomos para o oriente -- Alemanha, Bulgária, Turquia, Afeganistão, Khyber Pass, Paquistão, Índia e Nepal.
Depois, voltamos para a Inglaterra.
Retornamos então para a Índia, passando de 'sa vez por Damasco.
De lá, ziguezagueamos de volta, até a Grécia, de onde fomos para a Inglaterra, Paris e Amsterdã.
Aí, perdemos tudo (?!)
num incêndio, minha filha Luar já havia nascido, eu consegui mais algumas cicatrizes, e resolvemos então vir para o Brasil.
Fomos para Paris, onde passamos o Natal e o Reveillon, daí fomos para a Suíça e de lá, para o Rio de Janeiro.
Muitas foram viagens feitas de carona, dormindo na beira da 'trada.
A gente tinha um fogãozinho sueco a querosene e cozinhava chapatis, arroz integral e comia também tomates, coisas assim, que os camponeses nos davam.
Uma vez viajamos três meses de carona, de Teerã a Londres.
Vivíamos, literalmente, on the road.
Alguma coisa de 'sa viagem 'tá em Memórias de um Hóspede, um texto que 'crevi há uns 15 anos, com o Guará e que, agora, com a morte de ele, no começo do ano, parece que vai ser editado.
Estou, no momento, fazendo uma revisão desse material.
Espero que saia publicado no ano que vem.
Tem, ainda, alguma coisa relatada no livro do Mano Melo, Viagens e Amores de Scaramouche Araújo e em Os Sonhos não Envelhecem, do Márcio Borges.
4.
Como surgiu o interesse por a poesia?
E por a leitura em geral?
R. Desde sempre.
O motor me parece que é uma curiosidade inata.
Eu sempre quis saber que história é 'sa?
E você vai se animando a cada coisa boa que lê.
5. Você pode nos dar alguns dados sobre o Goliardos e sobre os 100 poemas 'senciais?
Demorei uns 10 ou 12 anos para 'crever Goliardos.
Tomas de Aquino dizia que 'crever é uma tarefa infinita.
Alguns versos, ficaram sendo 'critos e reescritos durante uns quatro anos.
Alguns poemas, no entanto, a maioria, na verdade, foram 'critos quase de prima.
Quanto ao livro 100 Poemas Essenciais, trata-se, na verdade, de uma obra política.
O Brasil 'tá em último lugar, segundo uma pesquisa feita por a OCDE entre trinta países, quanto ao entendimento do conteúdo do texto.
A idéia é, vamos dizer, popularizar o contato com a poesia de qualidade, em língua portuguesa.
6. Quem são seus poetas preferidos?
Os poetas que me atingem, e isso varia conforme o momento.
Permanentes são Homero, Dante, Camões, Pessoa, Drummond e os goliardos.
Estou tentando reunir as traduções que posso, de Ésquilo;
veja 'ses versos de ele, na tradução do Junito Brandão:
E os cadáveres amontoados, na sua linguagem muda, revelarão / aos olhos dos mortais, até a terceira geração, que o homem não deve / ter sentimentos orgulhosos, pois a híbris, ao amadurecer, produz / 'pigas de erro e a seara ceifada será tão-somente de lágrimas.
Esses gregos sabiam mesmo 'crever.
Gosto muito de Cesário Verde, Jorge de Lima, Bandeira, principalmente os poemas em prosa, Saint-John Perse, Rimbaud, Elizabeth Barret Browning, principalmente os Sonetos da Portuguesa, Elliot, Rilke, Gôngora, e é melhor parar por aqui, porque senão perde o sentido.
Entre os contemporâneos brasileiros, o Piva tem poemas impecáveis, como «Ode a Fernando Pessoa», que ele 'creveu acho que em 55 e os poemas e as traduções do Cláudio Willer, uma pessoa extraordinária.
Ando com um verso de Heine na cabeça:
«Eu te amarei por toda a eternidade.
E ainda mais».
Para mim isso é quase uma definição do que é poesia.
É o que vai além.
Ou como diz o Piva, um salto no 'curo.
E eu acrescento, num outro poema que 'crevi:
e aí é que 'tão as coisas.
7. Fale um pouquinho da diferença entre prosa e verso?
A importância dentro da literatura?
São dois tipos de textos, com ritmos próprios, e o que vale para um, não vale para outro.
A composição de um poema ou de um texto em prosa depende muito do ouvido.
Como diz o Ricardo Daunt, não existe poema átono.
A experiência concreta morreu de morte morrida.
Importância dentro e da literatura:
a poesia é o que vai além.
Segundo Heidegger, é a fundação do ser pela palavra.
A prosa, por sua vez, chega a ser assustadora, como em Proust, Conrad, Cortazar ou Guimarães Rosa.
Uma frase e surge um mundo inteiro.
O Soares Feitosa diz que o Saramago 'creve poesia.
Pode 'crever poesia, mas não 'creve poemas, quando 'creve prosa.
Por quê? Por causa da andadura.
Fiquei um tempo lendo Love Song of Alfred J. Prufock, do Elliot até pegar a andadura e aí o poema se revelou.
A poesia é, até hoje, meio entoada.
A prosa não.
Isso, todavia, não impede que se leia La prosa del Observatório (Cortazar) quase sem poder respirar (la leve sal de tus senos).
Quanto à importância da literatura:
não se pode imaginar, como diz o Prof. Ottaviano de Fiori, uma civilização sem literatura, porque isso não existe, na História.
8.
Ainda existe uma maneira de ter acesso ao Estranha Desordem?
Claro.
O livro foi um tremendo encalhe.
Tenho um monte de exemplares, aqui em casa.
Número de frases: 132
(Carta Encontrada Por Este Ganso Junto A o Banheiro De Uma Grande Rede De Supermercados Brasileira) Caríssimos senhores,
Peço gentilmente que retirem os gorros encantados à Papai Noel da cabeça dos vossos funcionários.
Talvez, imagino, que se vestir de Papai Noel não seja do interesse de todos os funcionários de vossa empresa.
Em um determinado dia encontrei uma pobre velhinha assustada, perguntando a netinha porque ela andava se vestindo daquele jeito.
A netinha disse:
«vovó, é meu emprego, se eu não fizer isso, eu perco».
Em a páscoa somos obrigados a ver os funcionários das diversas empresas brasileiras vestidos de coelhinho.
Algo que nos remete rapidamente a 'tética proposta por a revista Playboy do poderoso Hefner.
Há alguma chance dos senhores preservarem os funcionários desse absurdo?
Ou seria pedir demais?
Caso minha irmã, minha noiva, minha amante, ou mesmo minha mãe, vá trabalhar com vocês, ela terá que usar as roupas típicas do período proposto?
Em a casa de vocês, os seus filhos também passam o dia enfeitados de Papai Noel?
Coelhinho a Páscoa?
Roupa Junina? Chapéu de matuto?
Sem mais questionamentos,
Um forte abraço,
Número de frases: 16
Plínio Doce. As lembranças vêm de mansinho e quando dou por mim, 'tou lá, em 1974, na 8ª série (hoje a 9ª) no Colégio Santa Clara.
Adorava aquele colégio, grande, construção maciça, com porão, corredores sombrios que eu e algumas colegas mais curiosas, nos aventurávamos a explorar durante as aulas mais desinteressantes, como de Geometria e Ensino Religioso.
As aulas de Geometria eram ministradas por uma 'tudante de Arquitetura, Professora Mafalda Esteves (ela era má até no nome).
Os conceitos básicos de geometria eram exigidos por ela, ao pé da letra, decorada até a vírgula.
Em as provas de Geometria eu era um fracasso, aquilo parecia sem sentido, decorar o que era um ponto ou uma reta -- como definir o que é um ponto?--
não fazia sentido para mim.
E as exigências quanto à 'pessura do grafite?
Que suplício, a ponta vivia quebrando.
Em uma prova, como não conseguia decorar aquela lista infindável de conceitos e definições, preparei a cola, com cuidado.
Mas a aflição me traiu.
Professora Mafalda me flagrou na cola.
Um zero 'trondoso e redondinho.
Todos na classe a me olhar.
Queria que ali se abrisse um buraco onde pudesse 'conder a cara.
Como eu era tímida e o rubor facial me invadia toda vez que eu era o foco das atenções, o episódio foi o bastante para me fazer corar e querer sumir de ali.
Aquilo foi o suficiente para me tirar o sono por uma semana, até que busquei forças (não sei de onde) e pedi à professora para que reconsiderasse a nota, que em casa a situação iria ser uma semana de falatório e talvez até castigo e etc., mas a distinta mestra não se compadeceu com a minha aflição.
Tive que enfrentar as broncas 'peradas (para meu alivio, não recebi castigo em casa).
Em fim, consegui me recuperar até o final do ano.
Não só recuperei a nota, como também recuperei minha criatividade, pois cola colocada debaixo da prova nunca mais, passei a ser mais sofisticada, e mais precavida.
Todavia, passei a detestar Geometria e a pessoa da Professora.
Hoje somos «colegas» de trabalho, mas cada uma na sua área.
Esse episódio moldou minha carreira de magistério.
A nota é relevante sim para uma avaliação, que deve nortear o professor quanto ao trabalho realizado e não uma punição para o aluno que não conseguiu acompanhar o assunto.
Nunca dou uma nota zero.
Outra aula totalmente desinteressante era o Ensino Religioso, ministrada por uma freira do Colégio.
Os temas não falavam dos ensinamentos bíblicos ou da doutrina católica.
As aulas eram de etiqueta social.
Um disparate.
Ninguém acompanhava as aulas.
A professora-freira sempre vinha vestida com o hábito tradicional, como era muito branquinha, magrinha, pescoço comprido, de fala mansa, foi apelidada de Franguinha Depenada.
Seu nome:
Irmã Selma.
Era incapaz de matar uma mosca.
Pelo menos não havia prova, pois a matéria não entrava no cálculo da média de aprovação (aff ...)
e assim procurávamos coisas mais interessantes para fazer, como tentar encontrar o caminho para o porão do Colégio, e quem sabe descobrir algum segredo das religiosas.
Mas 'sa façanha não consegui realizar.
Irmã Selma era uma das que resistia à mudança do hábito por roupas comuns, mas no ano seguinte, todas já haviam incorporado a nova roupagem, ou seja, o uso de roupas comuns.
As lembranças chegam e, em sessão nostalgia, 'tou a percorrer os longos corredores por onde passavam as freiras com seus hábitos 'voaçantes por a pressa dos passos em direção à capela.
Uma vez me encontraram num desses corredores e, como já era conhecida por as religiosas, vieram ao meu encontro.
Como 'tava «perdida» me conduziram até a capela e lá tive que ficar até bater o sinal para a próxima aula.
Sete anos de estudo no Colégio Santa Clara *, sete anos de boas lembranças, e quando passo, hoje, por a calçada do Colégio, um sentimento gostoso de saudade das peripécias juvenis, invade o pensamento, apesar da Geometria e do Ensino Religioso com etiqueta social.
* Colégio Santa Clara, fundado na década de 50 por as Irmãs Dominicanas, 'tá localizado no Setor Campinas, Goiânia.
Colégio particular, católico, tradicional e filiado à Universidade Católica de Goiás.
Número de frases: 43
Continua sendo administrado por as religiosas dominicanas
1. Apresentação
Devido a importância do tema Música Independente, que 'tá muito na moda, diga-se de passagem, a discussão não poderia ocorrer em hora mais apropriada.
Vivemos uma nova era da música brasileira que realmente 'tá sendo «'magada».
Por pouco tempo.
É assustador pensar que, realmente, o Brasil não conhece mais a sua música.
Principalmente na década de 70 houve um grande 'forço para que o país assumisse sua música na totalidade, e que vários elementos não contemplados na MPB oficial fossem também inseridos dentro da música brasileira.
Esses são conhecidos até hoje como tropicalistas.
Pois bem, em 2007 foram lançados 55 títulos nacionais, e mais 74 'trangeiros licenciados, por as quatro grandes gravadoras (Sony, Warner, EMI e Universal).
Estes artistas ocuparam um 'paço de praticamente 88 % da mídia nacional.
De o outro lado 784 títulos (só isso mesmo???)
ficaram com pouco mais de 9 % desse 'paço.
A explicação de 'sa distorção é todo 'quema de monopolização da mídia por parte de 'sas grandes empresas através, principalmente, do velho conhecido jabá.
Hoje muitas vezes institucionalizado (com nota fiscal e tudo, diluído dentro do plano de mídia das emissoras).
Além disso, o que foi pouco discutido no encontro, todo sistema de distribuição dos direitos autorais no Brasil 'tá atrelado a medidas tomadas desde a metade do século passado para atender ao interesse de 'sas então emergentes empresas 'trangeiras.
Enfim, é realmente necessário que o «Brasil conheça o Brasil», e sem dúvida alguma o que de melhor foi produzido musicalmente no país desde os anos 80 e 90 'tá fora desse circuito, e é necessário medidas governamentais para proteger a música independente.
Até aí, tudo bem.
2.
A Convocação
O que primeiramente chamou a atenção em 'se encontro foi a convocação dos participantes.
Organizado por a UBC (União Brasileira dos Compositores), Amar (Associação de Músicos e Arranjadores), 'tas duas últimas membros do ECAD (Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais), ABMI (Associação Brasileira da Música Independente) e o Governo do Paraná através da Secretaria de Cultura, é natural que cada um tenha colocado alguns nomes entre os participantes.
Mesmo sendo dito exaustivamente durante todo o encontro que não era uma assembléia geral, o curioso é explicar a ausência de nomes importantes da cena independente local e até nacional.
«Mas era apenas uma reunião fechada para discutir os interesses dos músicos independentes».
Sim e não.
3.
As Discussões
Em a pauta, diversos temas extremamente relevantes.
Muitas propostas muito bem elaboradas e de um certo consenso geral, como as expostas na apresentação, além de medidas governamentais imediatas para 'timular o setor.
Cito algumas de elas:
-- A volta da educação musical obrigatória no currículo das 'colas brasileiras visando a formação de público --
Instituição de um repertório mínimo de músicas diferentes nas rádios como forma de combater o jabá.
Além disso, a exemplo do que ocorre na Dinamarca, as músicas executadas mais de 5 vezes no mesmo dia, por exemplo, 'tariam sujeitas a um repasse menor progressivamente dos seus direitos autorais e conexos.
-- Regionalização das execuções, ou seja, um percentual mínimo para a produção local como prevê a constituição --
Equiparação do CD ao livro no que diz respeito a sua Imunidade Tributária (apoio ao projeto de lei que deve começar a tramitar no Congresso Nacional)
Esta última proposta até pode ser rebatida, com o argumento de que somente as empresas do setor seriam favorecidas e não traria benefício aos músicos.
Porém, na prática, se a produção do CD ficar livre de alguns impostos, e consequentemente mais barata, é bom negócio também para os artistas independentes auto-produtores.
Opa, mas 'se termo (auto-produtores) não 'tava na pauta!
Pois é, e quando veio à tona é que as coisas começaram a ficar claras.
A ABMI é, na verdade, uma associação de gravadoras nacionais independentes, que têm um repertório riquíssimo e vários artistas brilhantes, porém não representam nem um terço de toda a produção nacional fora das grandes gravadoras.
Essa grande parcela de produtores independentes correspondem a uma produção talvez nunca vista dentro da música brasileira, tanto em quantidade como qualidade.
Também, várias microgravadoras (muitas vezes grava somente o próprio artista) não 'tão presentes nos dados da ABMI.
Por 'se motivo que aquele número de 784 títulos nacionais independentes 'tá muito aquém da realidade, sendo o Paraná, sozinho, responsável por mais da metade desse número em 2007.
Depois foi exposto a possível existência de um financiamento do BNDES para produção de discos independentes a juros baixos, e também uma idéia de propor ao governo que adquira «CDs didáticos», a exemplo do que acontece com livros.
Seria, talvez, CDs para serem distribuídos em 'colas para formação de público.
É, talvez.
Somada a isso, uma grande polêmica sobre o ECAD.
4.
ECAD -- O Capítulo à parte
Realmente foi.
O grande tema de discordância foi o nosso velho 'critório de direitos autorais, um ponto que na verdade não havia visões tão diferentes assim, mas que gerou o grande «racha» do encontro.
Como toda discussão importante, evidente que 'se encontro não seria um consenso lindo em prol da música brasileira.
Vários interesses comerciais e mercadológicos 'tavam em jogo e isso ficou claro.
Não que 'ses temas não devessem ser discutidos.
São importantes, mas era justamente 'sa visão que separava os «medalhões da música brasileira preocupados com sua aposentadoria» e os «os jovenzinhos do fórum, inocentes inúteis» que, na verdade, 'tavam propondo as questões mais óbvias e que também interessavam ao outro lado da mesa.
Será mesmo que havia um «outro lado»?
Esse suposto outro lado assumiu seu principal interesse no mercado, BNDES e editais públicos para compra de CDs, 'quecendo toda uma produção em alta 'cala, antenada nos últimos avanços tecnológicos e dispostos a discutir e propor diversas questões novas e antigas, como foi e é feito nos fóruns locais e nacional.
Esses jovens incluíam diretamente os autores desse dossiê, o goiano Du Oliveira e o experiente Cláudio Ribeiro, além também de nomes como Antônio Adolfo!
Este que já disse publicamente não ser um músico independente e sim um auto-produtor, termo que unifica todos 'ses «jovenzinhos».
Jovens ou nem tanto que, além de 'tarem sim preocupados com as tendências do mercado, também se preocupam com a circulação de sua obra, sua produção em todas as etapas, sua divulgação, seus shows, sua qualidade técnica e artística e com o desenvolvimento do país, que passa inevitavelmente por a cultura.
Afinal, quase 70 % do que é gerado de riqueza por a cultura vem da música brasileira, e grande parte desse bolo não possui CNPJ e não 'tá filiado à ABMI.
Enfim, voltando ao ECAD, o que parece ter sido a grande discordância é a suposta intenção desses auto-produtores em propor o fim de 'sa instituição.
A não ser através de uma grande revolução, isso não seria possível, e realmente não foi dito em nenhum momento.
O que foi proposto, sim, foi a exigência de transparência e eficiência desse importante órgão fiscalizador.
Antes de apoiar incondicionalmente uma instituição, é preciso verificar seus meios de atuação e transparência.
Como praticamente todo direito autoral do país passa por o ECAD, ou seja, dinheiro de todos os compositores do país que é erroneamente mal distribuído para um grupo de quatro grandes empresas 'trangeiras, é necessário que se explique o grande excedente financeiro da instituição nos últimos anos e a maneira de cobrança desses direitos das emissoras de rádio e TV, além dos shows ao vivo, e que 'se mecanismo seja transparente e contemple toda 'sa imensa produção musical independente no país.
Somente através do resgate de sua credibilidade é que o ECAD poderá efetivamente cobrar as quase 60 % emissoras inadimplentes no país, e repassar 'se montante para seus devidos detentores, autorais e conexos.
Essa reformulação e transparência são urgentes, seja através de uma agência reguladora (como foi proposto e ignorado no documento final do evento) ou por a completa reestruturação do sistema de arrecadação e repasse desses direitos no país.
Tais idéias parece não ter contemplado o outro lado, que insistia na importância da existência do ECAD, coisa que não era questionada.
Por mais que a própria existência dos direitos de propriedade intelectual 'teja sendo questionada hoje em dia, principalmente por a explosão da internet, ainda vivemos numa sociedade onde isso é um excelente negócio.
No meio do tiroteio sobrou até para Creative Commons, acusada de ser um novo mecanismo das grandes gravadoras de não pagar direitos autorais.
Para os independentes, é claro (será que faz sentido?).
Mas é ilusão acreditar que todos abrirão mão dos direitos de propriedade intelectual em prol de uma sociedade mais justa.
Enquanto o messias não retornar para nos ensinar o caminho para o paraíso, muita gente vai ganhar dinheiro com isso, e os mais de R$ 50 milhões que «sobram» nos caixas do ECAD quase todos os anos têm dono:
a chamada música independente, que não é contemplada por uma distorção na forma de distribuição desse recurso.
E isso somente analisando 'sa verba excedente.
Talvez não seja interessante para a UBC e Amar mudar muito o jogo, pois de 'sa música independente, certamente, os músicos oficiais com CNPJ devem levar vantagem.
Mas o 'tranho é que, muito provavelmente, até eles mesmos ganhariam mais com seus direitos autorais.
Quem sairá perdendo serão as grandes gravadoras.
Nada mais justo, afinal é por isso que 'tamos discutindo há anos.
Mas a UBC não era a sociedade do ECAD que historicamente representa (ou pelo menos representava) 'sas empresas?
5.
Conclusões É importante analisarmos a importância deste evento para o futuro das discussões sobre música independente, afinal várias figuras importantes politicamente 'tavam presentes.
É importante também percebermos o que realmente 'tá em questão, que são os interesses de uma sociedade plural com diversas manifestações distintas, e é natural que cada segmento defenda seu ponto de vista.
Foi assim no embate entre a cultura e o 'porte sobre a criação da Lei do Esporte, que previa uma divisão dos recursos federais entre os dois segmentos.
Felizmente, em 'se caso, as duas áreas saíram vitoriosas.
Nem sempre é assim.
E 'se encontro mostrou claramente os interesses de uma elite musical brasileira que já apanhou muito, e aprendeu como funcionam os meandros da música brasileira e, sabidamente, 'tão tentando reverter a situação a seu favor.
Ficou claro também, a intenção de uma grande parcela dos músicos auto-produtores reivindicando a participação no processo, que de fato, já ocorre em outras instâncias até mais importantes.
De fato, todo o objetivo desse documento é oficializar a música independente, passível de benefícios governamentais e, naturalmente, excluir uma outra parcela, que na verdade compartilha dos mesmos interesses.
Toda discussão sobre o ECAD expôs, na verdade, 'sa outra dicotomia mais profunda.
A polêmica, de fato, nem tinha tanto pano para a manga.
Uns queriam uma mudança mais radical e outros uma discussão mais demorada e interna.
Nada mais do que isso, e talvez o ideal, em 'se caso, seja um pouco das duas coisas.
Como apontado no livro Contra-Indústria, 'crito por os autores desse dossiê, não há a intenção de se eleger nem bandidos nem mocinhos.
O título não propõe uma revolta contra a indústria, assim como a contracultura não se opunha a cultura.
É apenas uma outra visão de produção, na qual se encaixam os auto-produtores.
A grande indústria 'tá aí e vai continuar.
A questão é somente corrigir as distorções existentes, o que é bem mais complicado do que parece.
De a mesma forma, no fundo não houve «outro lado» em 'se encontro.
Vários pontos são reivindicações comuns, que beneficiariam todos os artistas fora das grandes gravadoras.
Porém, interesses pontuais de um grupo se sobressaíram e, por isso, 'sa divisão.
Portanto, é fundamental que outros interesses também sejam expostos.
Inclusive é necessário conhecer e acompanhar todas as transformações, não só as mercadológicas.
Prova de 'sa 'tranha desinformação de alguns foi uma veemente manifestação de que o CD não 'tá comprometido como objeto de música porque um restrito mercado tem aumentado suas vendas, justamente o de música independente.
Fato ainda inédito, mas até 'perado de um emergente segmento.
«Todos querem 'tar no topo do mundo;
a diferença é entre os que querem 'tar sozinhos e os que querem 'tar com todo mundo».
Essa frase resumiu todo o evento.
Travestidos no discurso de «salvar a música brasileira das garras do capitalismo», o que, como já foi dito, não é um objetivo romântico de ninguém, as empresas nacionais 'tão pleiteando, justamente, mais 'paço dentro do nosso mercado.
O problema é que existem, no mínimo, três vezes mais produtores e artistas fora inclusive das empresas nacionais, e muitos nem almejam qualquer gravadora.
Esses últimos, os modernos auto-produtores, deixaram claro sua intenção de participar de vez do jogo e, a partir de agora, isso é oficial.
Estrela Leminski
Número de frases: 112
Téo Ruiz Pra quem não conhece a história do cinema baiano, pode parecer que a produção local 'tá vivendo tempos de gloriosa retomada tardia, com o sucesso de Cidade Baixa e Eu me lembro.
Mas se a questão for bem analisada, percebe-se que é parte de um processo contínuo de evolução, de ciclos que se abrem e fecham.
«Retomada é um termo que sugere continuação de algo que foi interrompido.
Em relação ao cinema nacional cabe, mas em relação à produção baiana não», explica Sandro Santana, mestrando em Comunicação e Sociedade por a UFBA.
Convoquei o cara que sabia tudo dos filmes de John Ford, atento para a história coletiva dos 'forços cinematográficos de 'tas paradas.
Sem mitificação.
«Em a Bahia tivemos um período, entre os anos de 1958 e 1962, onde floresceu a atividade cinematográfica.
No entanto, foi fruto da inventividade de Roberto Pires, da capacidade de Glauber Rocha enquanto agente catalisador, da agitação cultural que vivia a Bahia naqueles anos e dos terrenos e propriedades que Rex Schindler vendeu para bancar as produções sem nunca ter retorno financeiro.
Com o fracasso financeiro dos filmes e a ida de Glauber e Roberto Pires para o Rio o'Ciclo ' baiano acabou», explica.
Depois da 'parsa produção nos anos 70 e 80, o cinema baiano só voltou ao cartaz com 3 histórias da Bahia, na década de 90.
Sandro acredita que a Bahia ainda 'tá tentando formar cineastas, e que a emergência de um cinema baiano segue distante.
Concordo com ele em 'se ponto, mas penso que precisamos ser mais condescendentes com a parada, vamos jogar fermento, não precisa o bolo solar todo mas se com sabor.
«O caso de um Edgard Navarro é bastante elucidativo.
Após uma carreira de décadas, para fazer o seu primeiro filme teve que vencer um edital do governo do Estado, conseguir mais verbas para a finalização junto ao Ministério da Cultura e ainda que o filme tenha recebido os principais prêmios no Festival de Brasília, dificilmente irá se pagar e, o pior, ainda enfrentará grandes dificuldades para chegar às telas, como qualquer outro filme brasileiro que não 'teja atrelado à Globo Filmes e produtoras que 'tão vinculadas as distribuidoras americanas».
O produtor cultural tem um olhar crítico sobre a política cultural de fomento ao cinema, considerando que é preciso a formação de uma economia de mercado nacional voltada para a produção de cinema que envolva o sucesso comercial de tais empreitadas -- o famoso «fazer um filme que se pague com bilheteira».
Quem impulsiona a retomada atual em nível nacional, considera, são produtoras publicitárias competitivas que trabalham com isenção fiscal e apoio de grandes empresas.
«Para se falar num cinema baiano precisamos pensar em 'tratégias de distribuição e exibição que não se restrinjam a um dia de sonho».
Ok. Em o final, me lembra que apenas 8 % dos baianos têm condições financeiras de ir ao cinema.
Então temos uma pilha encruada de falta de público pagante, mercado publicitário incipiente, quase derruba o vivente que tenta 'calar a parada e chegar lá no alto, pra divisar o horizonte.
Decidimos por o assalto a banco ou a produção inteiramente independente, e vamos ruminar com uma cerveja a vontade de produzir um longa metragem no 'tilo de Em o tempo das diligências.
Número de frases: 20
Uma petição pública convida para um abaixo assinado em defesa dos cursos interiorizados de artes da Universidade do Estado do Rio Grande do Sul -- Uergs.
A petição acentua que «o ensino superior não deve ser um privilégio, mas um bem comum de todos».
O básico na filosofia de instituição da Uergs no governo de Olívio Dutra, 1998 a 2002, é que o conhecimento regional, as diferenças locais em cada região e mesmo a demanda por acumulação científica são diferenciados e necessitariam de 'tímulo de recursos públicos para aflorar.
Esse conceito básico não agrada os defensores da universalidade de um único pensamento.
Aqueles que 'tão sempre certos, seja sobre os céus, os infernos ou mesmo a simples existência terrena ...
a razão de existirem, que é o lucro privado sobre a exploração da produção social
E os caciques, os chefes dos monopólios econômicos, cobram dos capachos políticos que elegeram, a correspondência doutrinária.
Que sobre dinheiro público para a publicidade nos meios eletrônicos e impressos, que deixem eles mesmos de ser cobrados de impostos.
Cortem as cabeças!
Fechem as coisas públicas!
Cortem as despesas públicas!
Diminuam o tamanho do 'tado, que seja mínimo e só suficiente para repassar os recursos públicos às elites que sempre lucraram com centros únicos do saber, sob controle do vetusto, do dinheiro sagrado.
Gritam como a rainha de Alice no País das Maravilhas.
Isso não é novo.
O liberalismo, mesmo o neoliberalismo, não é mais novo.
São praga 'terilizadora da inteligência, que foram sempre, em nome da urgência de um progresso que serve apenas à Matrix ...
seja que sacana ou proxeneta mande na matriz do período.
Será por isso que a Uergs fecharia cursos públicos de arte?
Será que reencarnam aquele nazista que já ia sacar a mauser por ouvir falar em cultura?
A comunidade gaúcha 'tá sendo convidada a pensar sobre isso, e sobre o que fazer com a vontade do atual governo gaúcho, mais uma vez confundindo os negócios privados com o interesse público ...
mais uma vez.
Denuncia a falta de investimentos como método para matar à míngua a iniciativa pioneira do governo da Frente Popular de constituir centros regionais de nível superior públicos:
«Investimentos 'ses em qualificação permanente dos profissionais, na pesquisa, bem como na grade dos cursos oferecidos.
Não podemos admitir que um 'tado como o nosso ceda às pressões das grandes universidades privadas, transformando os nossos cursos de graduação em cursos técnicos ..."» ...
deverão ser contratados professores ao longo dos próximos anos nas áreas relacionadas às artes:
dança, música, teatro e artes visuais.
Para tanto, nós do sul do país, precisamos manter os cursos de graduação em 'tas áreas, com ensino público gratuito e de qualidade, o que já ocorre na UERGS Montenegro.
Mas, devido ao sucateamento, falta de vestibular e a não contratação de professores por concurso público 'tadual, isso tudo 'tá se perdendo».
Se te interessa o debate e saber mais sobre como o público é posto a atender interesses privados, acesse o teor inteiro da Petição em defesa dos cursos de artes da Universidade do Estado do Rio grande do Sul.
Fonte:
http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/ 829
Em 'se linque do Google imagens você encontra tudo e mais um pouco do que ainda queira saber sobre porque a Uergs não interessa aos dois últimos governos gaúchos.
Número de frases: 32
Eu já tinha uma curiosidade daquelas, em saber por que não temos uma indústria rentável de games em 'te país, quando li o texto de Saulo Frauches Joystick «antinostalgia» publicado no Overmundo, fiquei inspirado em 'crever 'te post.
Com a lamentável notícia de que a Sony não lançará oficialmente o Playstation 3 por aqui, e a ânsia dos gammers de plantão em adquirir o novo console da empresa, as Lojas Americanas, numa jogada de marketing 'túpida, vendeu o modelo mais simples do PS3 por R$ 7980,00.
Acredito que a Americanas pesa que somos idiotas a ponto de pagar mais que o dobro do valor do produto, ou, que ninguém conhece um muambeiro qualquer ou outro meio pra adquirir o console da Sony.
Mas penso também que isso não deve ser encarado com 'tranheza por nós, afinal, vendemos e compramos o iPod Nano mais caro do mundo.
Acontece que ao adquirir um console, o fato que mais chama atenção, e deve ser levado em conta, é o interesse comum em adquirir o equipamento desbloqueado para aceitar jogos pirateados.
Atualmente, um jogo original para Playstation 2 no Brasil 'tá, em média, uns R$ 90,00.
Qualquer ambulante ou loja de produtos importados em grande parte das cidades do país vende os mesmos jogos em versões pirateadas por a bagatela de R$ 10,00.
94 % dos jogos vendidos no país são pirateados.
Agora vejamos, no Brasil são vendidos anualmente 600 mil consoles, nossa população ultrapassa a marca de cem milhões de habitantes, temos uma extensa área geográfica, nosso PIB é superior a US$ 500 milhões, apenas 2 % dos domicílios brasileiros têm algum tipo de console -- e mesmo assim, ocupamos a 15ª posição no ranking mundial de videogames, então, por que diabos não temos uma indústria rentável de games em 'te país?
Afinal, 'ses são dados que, supostamente, deixariam os investidores com ' água na boca '.
Em a metade dos anos 80, a indústria nacional de games começou a dar seus primeiros passos.
Títulos como; "
Didi na mina encantada!»,
para Odyssey 2, e «A turma da Mônica», para Master System e Mega Drive -- mesmo sendo apenas versões customizadas de títulos já conhecidos, davam um ' empurrão ' e fazia crescer um novo seguimento de mercado no país.
O mercado brasileiro de jogos eletrônicos.
Acontece que os altos impostos de importações, e óbvio, o descaso político à pirataria fizeram com que 'se mercado sucumbisse.
Pra vocês entenderem melhor, é como se tivessem dado uma rasteira num neném sorridente, fofinho e bonitinho que começava a ensaiar seus primeiros passos.
Atualmente a indústria nacional de games sobrevive produzindo, principalmente, jogos em flash e jogos para celulares, o que é triste, quando se analisa o padrão de games que temos atualmente.
O jogo 100 % nacional de maior sucesso no mercado brasileiro de jogos eletrônicos foi, sem dúvida, os jogos da série ' Show do milhão '.
E como se sabe, não demorou muito para que 'tes caíssem em desgraça, e se você 'tá pensando que isso foi culpa desse mundo ' piratístico ', ' Certa resposta! '
O fato é que o descaso político e, é claro, o descaso social à pirataria, fizeram com que o Brasil ficasse de fora de um rentável e emergente seguimento de mercado.
O grande problema causado por a pirataria não é apenas a questão do ' autor que deixa de ganhar sua grana ' (Se ouve bastante isso no mercado fonográfico), a pirataria aleijou o mercado brasileiro de games.
E se não fosse o advento da internet, acredito que o mercado fonográfico 'taria em crise atualmente.
Essa pirataria nacionalizada atrasou o nosso país.
Serão necessário anos e muita, muita boa vontade pra que 'te mercado se recupere.
Nós fodemos o mercado de games no país.
Eu não 'tou defendendo o alto preço dos jogos eletrônicos, só penso que, se ao menos, em meados de 1985 houvesse uma tributação 'tudada, gozariamos hoje de títulos 100 % nacionais para várias plataformas, Playstation 3, Xbox 360, Wii, sem contar o jogos pra PC.
Eu realmente tenho fé que produziríamos grandes jogos.
Mas vai ver que no fundo eu sou só mais um com 'se sentimento de nacionalismo tardio.
Número de frases: 29
CHIMITE
De entre as manifestações folclóricas existentes em Goiás, 'tá a dança chimite, pouco conhecida no Brasil.
Chimite foi o nome que decidi adotar, bem brasileiro mesmo como é a dança, nada de 'trangeirismos como diz Suassuna.
Como não existe bibliografia a respeito, fui conversando com as pessoas mais velhas e coletando informações sobre o chimite.
Ninguém tem um depoimento firme sobre 'sa manifestação, só sabem que aprenderam com os pais, os avós e nunca se interessaram em saber de onde surgiu.
Até parece piada, mas o Seu Gabriel (87 anos de idade) me contou que um general inglês ou alemão, ele não sabe ao certo, inventou a dança nos acampamentos dos soldados durante a II Guerra Mundial:
Assim ele conta:
-- Inquanto os sordados dançava o forró, o general ficava brincano cum o revorve marca Shimith, e o movimento do tambor do revorver pra la e pra cá fez com que inventasse os pulinhos do chimite.
Outro depoimento do Seu Joaquim também não deixa muito claro a origem da dança:
-- Ah minina 'se chimite nois dança desde piqueno ...
Nois aprendeu cum nosso pai que era baiano, ele dizia que na Bahia prus lado de Xique-Xique o povo sempre dançou o chimite.
Segundo pesquisa da professora Andréa Luiza Teixeira e do professor Altair Sales Barbosa da Universidade Católica de Goiás, 'se ritmo é bem popular no interior da Bahia e em todo o Nordeste brasileiro.
Segundo eles, o chimite é uma dança contemporânea do «for all», ou forró, na época da Segunda Guerra.
Ela teria sido inventada no Rio Grande do Norte por um general de nome Schimidt e foi instituída para a diversão dos soldados nos anos 40, na base militar
De acordo com 'tes pesquisadores, 'te ritmo se popularizou no nordeste e ganhou várias formas se juntando aos ritmos locais levando o nome de Schmidt em homenagem ao seu criador o general Schmidt.
Dependendo da região a dança sofre algumas mudanças.
Em a Bahia é uma dança solta, já em Goiás é dançada por pares.
O chimite é uma seqüência de pulos para frente e para trás, marcados entre o forró, ao som da sanfona.
É um ritmo ágil de passos ordenados que requer grande agilidade dos dançarinos.
Em Goiás, na cidade de Uruaçu, o Grupo de Folclore Serra da Mesa sob minha coordenação, tenta preservar a dança do chimite, divulgando-a em eventos festivos, inclusive com participação das 'colas e universidades, no sentido de pesquisar mais sobre 'sa manifestação.
Esse grupo é composto por pessoas na faixa etária de 15 a 90 anos de idade, e já algumas 'colas 'tão formando grupos com crianças, que aprendem rapidamente os passos.
O chimite é dançado sob o ritmo de sanfona, aqui em Uruaçu é com uma tradicional pé-de-bode executada por o sanfoneiro Vivi, que preserva 'sa sanfona há 53 anos e segundo ele, quando a adquiriu já era bem velha.
O chimite tem feito muito sucesso em todos os lugares onde foi apresentado.
É um ritmo contagiante, assim que começa o toque, todos começam a dançar.
Número de frases: 24
Em o dia 26 de agosto às 20hs no Teatro da Ubro, ouvi o grupo Cravo da Terra pela primeira vez.
Era um show do segundo CD -- Infinito Som, lançado em junho deste ano.
à 'pera da entrada do grupo pude analisar o cenário:
no palco uma bandeira de cetim vermelha e branca postada no alto de onde partiam, em leque, as fitas de cetim finas e coloridas, remetendo nosso olhar às tradicionais festas do Divino.
Aos poucos fui conhecendo um grupo que possui uma sonoridade leve, uma música de caráter lírico e, em 'te CD, com diversos cantos d ´ água que fluem em harmonia com o cenário entremeado de água de 'ta ilha que abriga os músicos / compositores.
O grupo -- formado por Ive Luna -- Vocal, Flauta transversal e Percussão, Mateus Costa -- Vocal -- Contrabaixo Acústico, Marcelo Mello -- Violino, Viola, Violão, Vocal, Otávio Rosa -- Violão -- Vocal, Rodrigo Paiva -- Percussão -- Vocal -- iniciou o show mostrando sua música instrumental, mas também desfilando canções que passeavam elegantemente por o frevo até uma 'pécie de maracatu.
Esse passeio por diversos gêneros musicais me remeteu imediatamente a outros quintetos que muito influenciaram meu gosto musical:
O Quinteto Violado e o Quinteto Armorial.
A experimentação dos gêneros se expande para destacar os diversos instrumentos usados para compor 'se universo musical tão peculiar.
Em 'te show, a percussão é central em algumas canções, mas nunca chega a ser barulhenta ou vistosa demais.
Nem mesmo num samba (" me veste que eu vou, nem que seja para ficar na beira ").
Esse contenção e inventividade se revelam, em seguida, no uso do pandeiro durante a introdução da quinta música quando 'te típico instrumento de samba é tocado para dar uma surda batida medieval.
No entanto, voltamos do medieval e caímos direto na contemporaneidade de uma balada da Praça da Figueira -- uma saga do pixote ilhéu, ou um pivete da ilha.
A 'sa saga seguiu-se um choro leve que aumentou o ritmo para quase chegar a frevo.
O tema da água flui e reflui em todas as canções e aparece na oitava música com uma refinada introdução composta em fuga.
O violino tem papel de destaque servindo para destacar a linha melódica de diversas canções.
«Foi na beira do mar ..."
começa como um blues e vira toada de pescador com uma ritmada percussão -- quase um xote -- com brilhantes toques de violão soando como viola caipira.
Segue-se a «canção da caixa» quando o competente percussionista dá o ritmo e a deixa para a décima canção.
A próxima música apresenta um diálogo inicial do contrabaixo e do violino costurado por a percussão que poderia servir de trilha sonora para um texto de Guimarães Rosa tal como «A terceira margem do rio».
E assim como nas narrativas rosianas, 'sa música se transforma em «redemoinho no meio da rua» e descamba num quente baião.
A densidade sonora continua na canção que diz:» ...
pingo primeiro do meu pranto ...
mar de mim».
Em 'se momento, em definitivo, pensei que 'te show vai ficar na minha memória como Mar de Mim ao invés de Infinito Som.
Para fechar o show, o quinteto 'colheu a faixa título que conta com castanholas tocadas por Ive Luna.
Essa canção mais uma vez cheira e soa como mar e eu percebo que as letras das canções remetem às cantigas de rodas, leves na 'trutura recorrente, mas densas na poeticidade.
Essa é uma música de despedida com força de começo.
Os músicos acompanham com palmas ritmadas o som que deliciosa e colaborativamente fazem.
Eu também bato palmas.
«Vida longa para o Cravo da Terra!"
Para fechar 'sa resenha remeto ao texto do também ilhéu Chico Saraiva (cujo «CD» " Saraivada " foi lançado em 2007 e cuja resenha fico aqui devendo) que serve de introdução para o site do grupo: "
Viva o Cravo-da-Terra!
Flauta, percussão e cordas tramadas com inteligência armorial e iluminadas pela palavra cantada, calma a ponto de ser ouvida.
Som de chuva boa caindo nas folhas e nas águas da Ilha de Santa Catarina."
Produtora:
Marta Cesar:
(48) 9967 3324 contato@cravodaterra.com.br
Para quem não 'teve nos shows na Ilha de Santa Catarina, segue a agenda do grupo:
Agenda
06 de setembro
Cidade: São Paulo
Local: Itaú Cultural -- Av Paulista 149 -- Paraíso
Horário: 19:30 hs
Ingresso: serão distribuidos gratuitamente meia hora antes.
O 'petáculo será transmitido on-line.
07 de setembro
Cidade: São Paulo
Local: Livraria Saraiva do Shopping Morumbi
Horário:
Ingresso:
gratuito 08 de setembro
Cidade: São Paulo
Local: Universidade da Cantareira
Horário: 18:00
Ingresso: gratuito
Ficha técnica:
Nome:
Infinito Som
Artistas: Ive Luna, Mateus Costa, Marcelo Mello, Otávio Rosa, Rodrigo Paiva
Estilos: Popular
Formato: CD
Rótulo: Cravo da Terra
Info: Gravado, mixado e masterizado por Renato Pimentel no 'túdio The Magic Place, de janeiro a outubro de 2007, em Florianópolis / SC.
Auxiliar Técnico
Rodrigo Doug Herd Projeto Gráfico
Paula Albuquerque Ilustrações
Número de frases: 67
Fábio Dudas, sobre fotos de Ale Haro
Geografia E Imigração
Pouco se pode dizer sobre o 'tado catarinense.
Ou melhor:
é difícil falar algo a respeito do 'tado porque, como tal, ele praticamente inexiste.
Explico-me:
cheguei a 'ta conclusão depois de encontrar-me com o crítico literário catarinense Celestino Sachet e sua teoria de que Santa Catarina é um 'tado formado por ilhas culturais.
Em a verdade, Sachet determina o 'tado como sendo formado por diversas ilhas geográficas, étnicas e 'paciais.
A começar por a geografia, Santa Catarina é um 'paço realmente diversificado.
Há a grande planície litorânea, os vales da Serra do Mar e Serra Geral, grandes altitudes dos planaltos e os extensos campos do oeste catarinense.
Sem dúvida, foram e ainda são os rios e as grandes montanhas que dificultam o contato entre as regiões do Estado, mas há motivos um pouco mais 'pecíficos.
Os primeiros portugueses chegaram a Santa Catarina ainda na casa dos 1500. Depois, no século XVII, surge a colônia portuguesa de São Francisco.
Correntes migratórias oriundas da Europa começaram a chegar no 'tado no século XIX.
É quanto aportam por aqui alemães, italianos, poloneses ...
Ou seja, depois de 200 anos tendo como habitantes descendentes de portugueses, índios «civilizados» e 'cravos africanos, os luso-brasileiro tiveram de receber outra 'pécie de gente:
pessoas com línguas 'tranhas, religiões diferentes e costumes 'quisitíssimos.
É quando começa a divisão de Santa Catarina em regiões próprias e independentes umas das outras.
Como de costume, os açorianos permaneceram no litoral.
Os alemães, italianos e poloneses 'tabeleceram-se nos vales e no topo das serras.
A região oeste do 'tado foi colonizada por gaúchos.
Ou seja: ainda que fossem simpáticos uns aos outros, o relevo difícil de ser transposto acabou por encerrar o que poderia ter sido um contato riquíssimo entre povos de diferentes culturas.
Tamanha diversidade só teria a acrescentar na formação cultural de um 'tado.
Poderíamos então dizer:
Santa Catarina é um 'tado de diversas culturas.
Mas não.
O que temos de dizer, infelizmente é:
Santa Catarina não é um, mas vários 'tados.
Desde a criação das colônias européias, cada grupo étnico tratou de se fechar em si mesmo.
Assim foi com os alemães, com os italianos e com os poloneses que, para sobreviverem economicamente, tiveram de abrir mão do idioma original e aprender uma nova língua, o português, para conseguirem se comunicar.
No entanto, o que se pôde ver nos quase duzentos anos de imigração européia é que a determinação dos primeiros imigrantes 'trangeiros no 'tado deu certo por muito tempo:
mantiveram-se os costumes do país de origem e preservou-se a raça;
para os alemães, por exemplo, era crime dividir a valiosa herança genética alemã com italianos ou, muito pior, com negros, índios, mulatos, cafuzos etc.
Além do mais, um fator determinante na incomunicabilidade entre colônias de imigrantes é a sua origem.
Grande parte dos 'trangeiros que chegaram ao Brasil no século XIX (principalmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina) fugia de uma Europa em frangalhos.
Fugiam da miséria em busca de uma Nova Terra onde pudessem produzir, trabalhar e não passar mais fome.
Este fator deve ser sempre levado em conta, uma vez que o exílio na América do Sul foi quase uma obrigação.
De 'sa forma, alemães, italianos e poloneses tiveram de abrir mão da pátria em que nasceram, mas nunca abriram mão da nacionalidade.
Os alemães, por exemplo, viveram o dualismo (muito bem descrito na análise literária de Valburga Huber) da saudade e da 'perança.
Ou seja: sentiam falta da terra-natal ao mesmo tempo em que 'peravam prosperar no Brasil.
Esse dualismo tornou confusa a adaptação dos imigrantes na Nova Terra.
Como foram praticamente obrigados a deixar a Europa, viviam no conflito subjetivo da busca de uma nacionalidade:
eram alemães e italianos na alma, mas socialmente pertenciam a uma nova nação, uma nação que não entendiam muito bem:
agora, habitavam o Brasil.
As Colônias E Suas Manifestações
Por muito tempo, os colonizadores e descendestes destes (depois denominados teuto-brasileiros, ítalo-brasileiros e daí por diante) tentaram manter em suas colônias tradições dos países de origem.
Em o Vale do Itajaí ainda se ouve muita gente falando alemão, da mesma forma como o italiano ainda é a primeira língua de muitos habitantes do 'tado.
Associações foram criadas com o fim de preservar as tradições.
Em os núcleos de origem alemã, os Clubes de Caça e Tiro (que não atiram mais em animais, somente em alvos) e nos núcleos itálicos, os Circolos Italianos são responsáveis, hoje, por preservarem e divulgarem danças folclóricas, gastronomia e costumes dos descendentes de europeus.
Mas as manifestações culturais vão além do simples resgate de tradições.
O 'critor blumenauense Godofredo de Oliveira Neto, uma das poucas amostras de literatura catarinense lida no além das fronteiras regionais, numa entrevista à extinta Revista de Divulgação Cultural da FURB, descreve Santa Catarina como sendo um 'tado dividido em três partes:
o litoral, a região «entre o litoral e o planalto» e o grande oeste:
«O litoral é o 'paço marcado por aquela coisa mais portuguesa e negra, o sotaque manezinho, que vai de São Francisco do Sul a Laguna.
Essa é uma região com a sua cultura, tradição, indumentária, tipo físico e pensamentos ligados ao mar, ao horizonte.
A segunda região não tem nada de peixe, de rede, do horizonte largo, mas também não tem nada de cavalo, ovelha, churrasco.
O Vale do Itajaí é da indústria e do pequeno produtor rural, com tudo o que isso significa, com uma culinária diferente, pensamento diferente, meio fechado. ( ...)
Em o Planalto há o gaúcho, o cavalo, as 'tâncias, o churrasco. ( ...)
E no grande oeste, além de tudo isso, há uma forte agroindústria, região de empresariado muito rico, mas muito pobre do ponto de vista populacional».
Ou seja:
são regiões que não se comunicam naturalmente.
O fazem claro, enquanto partes de um todo institucional, pois são municípios de um 'tado que pertence a um país, isso é óbvio.
No entanto, a relação dos próprios catarinenses com o seu maior símbolo institucional, ou seja, a capital Florianópolis, é dificultada por um ou vários motivos.
Primeiro, e mais evidente, é a distância da capital em relação a boa parte dos municípios do Planalto e do oeste catarinense.
Depois, novamente a barreira geográfica:
Florianópolis também é, literalmente, uma ilha.
O cientista social Márcio Cubiak vê nas elites burguesas do início do século XX a origem da polarização do 'tado catarinense em regiões étnico-culturais.
Segundo Cubiak, as diferenças culturais herdadas do tempo na Europa foram trazidas junto.
«Se analisarmos a União Européia hoje, veremos que as relações entre os países ainda beiram a hostilidade».
Cubiak ainda analisa a ação de movimentos como o Integralismo -- movimento ultra-nacionalista da linha de Getúlio Vargas -- tem a ver com o 'tabelecimento da burguesia catarinense:
«Se não se aliassem aos nacionalistas contra os resquícios de cultura européia, não teriam o poder nunca».
É bem verdade o que diz o cientista político, pois os principais movimentadores políticos de Santa Catarina têm algum tipo de relação com oligarquias antigas, fundadas sobre o sofrimento de toda uma população.
As Relações Culturais Entre Os Guetos Catarinenses
Santa Catarina, vista sob o ponto de vista da capital Florianópolis, é o exemplo do que pode ser um 'tado descentralizado.
Descentralização 'ta tão defendida por o PMDB que anda por extinguir o que era a FCC -- Fundação Catarinense de Cultura.
Não será uma grande perda.
Até então, quem tinha acesso à FCC era justamente o público da Grande Florianópolis.
Não caberia aqui um lamento.
No entanto, se em seus tempos de vida saudável a FCC tivesse efetuado o diálogo entre as partes, então tudo bem, lamentaríamos.
Esse mesmo PMDB descentralizador 'tá à frente das Secretarias Regionais, com sede nos municípios macro-regionais, como é o caso de Blumenau, no Vale do Itajaí, Joinville, no norte do 'tado e Chapecó, no meio-oeste.
Com a extinção do órgão 'tadual de cultura, o que se procura mesmo é investir na regionalidade.
Assim, cada gueto -- ou, eufemismo, região étnica -- poderá promover o que lhe for de interesse.
O Governo do Estado, em 2006, criou o portal RIC -- Rede Integrada de Cultura, que merece uma matéria própria.
O portal, colaborativo, 'tá hospedado em Creative Commons e teria por objetivo justamente integrar o público artístico-político cultura catarinense.
Mas visitando o site, o que se vê é justamente o que já poderia se 'perar:
faltam colaboradores e a gestão portal vai de encontro à dificuldade enfrentada por qualquer governo numa região poli-cultural como Santa Catarina:
é tudo realmente confuso.
Tanto que agora o que parece é que o RIC sofreu um upgrade e tornou-se o Cultura em Rede, site com o mesmo propósito integrador.
Afora as doloridas questões governamentais, a integração cultural catarinense acontece mesmo por as mãos do privado regionalizado.
Seja por os famosos festivais catarinenses, como o Festival de Dança de Joinville, o Festival Universitário de Teatro de Blumenau ou o Festival de Música de Itajaí, seja por a ação integradora em que investe o SESC-SC, com eventos itinerantes que transcendem os limites regionais e procuram justamente promover o diálogo entre cidades e culturas catarinenses.
São de responsabilidade do SESC-SC os maiores e mais importantes eventos culturais catarinenses, como o EmCena Catarina, o Sonora Brasil, o A Escola Vai ao Cinema.
Enfim:
no âmbito catarinense, é difícil proclamar uma identidade:
«Somos catarinenses».
Antes, somos descendentes de alemães, de italianos, de poloneses, de portugueses, de japonenes ...
Como pergunta " Márcio Cubiak:
«Qual é o nosso sotaque?
Qual é o sotaque do povo catarinense?"
Essa é a pergunta para a qual se deve encontrar uma resposta.
Entendendo qual o sotaque do catarinense, se entenderá sua história, a história das suas origens e os rumos que pretende seguir no futuro.
Santa Catarina não é um, mas vários 'tados.
Estados, 'tes, que reformulam em território brasileiro o que acontece em solo europeu, mas ao contrário:
por aqui, o leste é que é desenvolvido e o oeste é agrário.
E, por aqui, bem à moda européia, se é xenófobo municipal e regional.
E é 'sa tentativa exacerbada de preservar o local que impede que nos desenvolvamos e criemos uma identidade cultural sólida.
Mas 'tá nas mãos de quem vê 'sa mudez, começar a falar.
E falar até ser ouvido.
E ser ouvido até ser interpretado.
E ser interpretado até ser compreendido.
Se verá, então, que a máxima «a união faz a força» pode prevalecer em território barriga-verde.
Se for a sério, claro.
Bibliografia:
A fala do crítico literário Celestino Sachet é encontrada no livro Saudade e Esperança, de Valburga Huber;
Valburga Huber, citada como autora, 'creveu o livro Saudade e Esperança -- O dualismo do imigrante alemão refletido em sua literatura.
Obra de caráter importantíssimo para, como dissemos, entender as origens e interpretar os futuros.
Saiu por a EdiFurb em 1993 e hoje encontra-se em bibliotecas e nos sebos da cidade.
A fala do 'critor Godofredo de Oliveira Neto é oriunda de uma entrevista à Revista de Divulgação Cultural da Furb.
A revista foi extinta no papel e 'tá em tempo de ir ao ar no formato eletrônico.
A edição da entrevista é no. 87 ano 27 -- setembro a dezembro de 2005.
A fala de Márcio Cubiak é de uma entrevista que ele me deu e que foi filmada.
Número de frases: 118
Por problemas ténicos de edição, 'ta entrevista não 'tá aqui na íntegra.
Dirigido por Peter Weir, O Show de Truman:
o show da vida, com aproximadamente 103 min de duração e roteiro de Andrew Niccol, foi lançado em 1998 nos Estados Unidos, por a Paramount Pictures.
Peter Lindsay Weir é australiano, de Sydney, e iniciou sua carreira de cineasta em meados dos anos 70.
Recebeu indicações ao Oscar de melhor diretor por os seguintes filmes:
A Testemunha, em 1985, Sociedade dos Poetas Mortos, em 1989, O Show de Truman, em 1998, e por Mestre dos Mares -- o lado mais distante do mundo, em 2004.
Este último, por sinal, obteve mais nove indicações para a tão disputada 'tatueta, ganhando nas categorias de melhor fotografia e melhor edição de som.
Ganhou dois prêmios Bafta de melhor diretor com Mestre dos Mares (2004) e Show de Truman (1998);
o filme Sociedade dos Poetas Mortos (1989) arrebatou um César de melhor filme 'trangeiro e levou Weir a receber sua segunda indicação ao Globo de Ouro como melhor diretor.
A primeira foi com A Testemunha (1985) e a terceira com O Show de Truman (1998).
Já dirigiu cerca de quinze filmes e é conhecido por a capacidade de fazer com que atores de ação e comédia -- Mel Gibson, Harrison Ford, Robin Williams e Jim Carrey -- interpretem papéis dramáticos com desenvoltura e credibilidade.
O filme conta a história de Truman Burbank, um vendedor de seguros, que vive desde o nascimento vigiado por câmeras de televisão, vinte e quatro horas por dia.
Ele leva alegria e 'perança para milhões de telespectadores em todo o mundo, sem saber que é a 'trela de um reality show, mercadoria e vítima de um sistema dominador, que procura atender seus interesses, impondo um modelo social permeado por uma falsa e ilusória ideologia.
É importante salientar, fundamentando-se na teoria crítica, a existência de duas perspectivas abordadas no filme:
a do mundo conhecido por Truman, e a dos telespectadores do grande show.
O programa é cria da indústria cultural, produzido do alto por as instituições sociais dominantes, que determinam o processo de consumo, instaurando na audiência uma reação automática e irreflexiva perante àquilo a ser consumido.
Esse fato pode ser observado nas cenas em que aparecem as garçonetes, os policiais, as duas senhoras e o rapaz da banheira, pois 'sas pessoas 'tão constantemente assistindo ao show, inclusive em seus locais de trabalho e no correr da noite, não demonstrando preocupação com o fato de Truman viver todos os dez mil novecentos e nove capítulos aprisionado para entretê-los e vender-lhos variados gêneros de produtos circulantes no sistema de livre-mercado.
Não são capazes de tomar decisões sem a intervenção de agentes externos (autonomamente) e passam a aderir acriticamente aos valores impostos e dominantes, difundidos por os meios.
Truman, por sua vez, é a personificação de 'sas pessoas.
Vive num mundo controlado, onde produtores se conjugam harmonicamente, determinando os padrões de consumo, tendo como objetivos principais a venda de mercadorias e o lucro acima de tudo, não importando a qualidade do produto, nem se 'tão sendo dignos com a humanidade e a sociedade.
Não importa como Truman se sinta, ele faz parte desse modelo forçado e assim deverá permanecer.
Eis aqui um ponto fundamental do filme, mostrando algumas das fragilidades da teoria crítica.
Em o desenrolar do filme, o diretor vai deixando transparecer um contato feito, em capítulos anteriores, entre Truman e Sylvia.
Ela tentou alertá-lo sobre a condição vivida por ele e por isto foi expulsa.
Desde então, Truman começa a amadurecer um desejo de encontrá-la, de viajar para conhecer outros lugares.
Isto mostra que os indivíduos não são totalmente desprovidos de autonomia, consciência e capacidade de julgamento, como previa a teoria crítica, nem que a mentalidade das massas é algo imutável.
O indivíduo, a partir de um conflito interno, passa a refletir acerca do todo criado, age unidimensionalmente, buscando, conforme Marcuse (apud Guareschi, 1991:59), afirmar, «a partir de sua interioridade», um mundo possível, eternamente superior e 'sencialmente diferente do mundo real.
Os produtores do show fazem de tudo para tirarem 'sa possibilidade de emancipação, tentam instaurar o medo através do rádio e da televisão e, até por meio de cartazes, alertando para o perigo de doenças, ataques terroristas e desastres naturais.
Cristhof, principal responsável por a criação do mundo de Truman, foi perguntado, numa entrevista para a televisão externa, o porquê de Truman nunca ter chegado perto de sair, de descobrir a natureza real do seu mundo.
Ele respondeu que as pessoas simplesmente aceitam a realidade do mundo no qual 'tão presentes, mas que se Truman 'tivesse realmente determinado a descobrir a verdade não haveria como detê-lo.
Aconteceu que Truman não 'tava mais aceitando 'sa realidade de mundo e foi buscar, como bem coloca Guareschi (1991:54), a liberdade de consciência para se ver livre da coerção auto-imposta, a partir da constatação de determinados tipos de frustrações e sofrimentos, causados por a falsa ideologia que lhe impunham.
Enfrenta seu medo do mar e começa a velejar em direção à Sylvia, às ilhas Fiji, à emancipação, à liberdade!
Sobrevive a uma imensa tempestade propositalmente provocada e chega, enfim, ao portão de saída.
Após um rápido diálogo com Cristhof, que tentava persuadi-lo por a última vez, Truman executa sua saudação padrão (de muito sucesso perante o público) -- «caso não os veja de novo, tenham uma boa tarde e uma boa noite» -- acompanhada de uma enorme reverência e atravessa a porta levando ao delírio milhões de telespectadores que, de certa forma, também 'tavam se libertando do consumo desenfreado e irreflexivo.
O Show de Truman é um filme de qualidade e muito interessante para os profissionais e 'tudantes de Comunicação Social e da área de humanas em geral.
Também se adequa a intelectuais e pessoas que gostam de discutir as relações de dominância presentes na sociedade capitalista, justamente porque aborda a manipulação exercida por os meios de comunicação de massa, num contexto de indústria cultural, levando todos 'ses, com alguma base em teoria critica e indústria cultural, a inquirir sobre tais relações.
Referências:
Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda.
Novo dicionário da língua portuguesa.
3. ed. Curitiba:
Positivo 2004.
GUARESCHI, Pedrinho A. In.
Comunicação e controle social.
4. ed. Petrópolis:
Vozes, 2001.
p. 52-67.
Medeiros, João Bosco.
Redação científica:
a prática de fichamentos, resumos e resenhas.
5. ed. São Paulo:
Atlas, 2003.
Oliveira, Luciano A. Manual de sobrevivência universitária.
Campinas, SP:
Papirus, 2004.
WEIR, Peter.
O show de Truman:
o show da vida.
Estados Unidos: Paramount Pictures, 1998.
1 disco de vídeo-digital (103 min.) DVD-VÍDEO.
NTSC.
Resenhista:
GUSMÃO, G. F. * Estudante do curso de Comunicação Social com habilitação em Produção Editorial da Faculdade Hélio Rocha, segundo semestre.
Endereço: Piatã -- Salvador / BA.
* Atualmente curso jornalismo nas Faculdades Jorge Amado A obra cinematográfica Tiros em Ruanda pode ser, de certa forma, considerada mais uma pertencente ao grupo dos híbridos, que voltaram a fazer sucesso no cinema mundial.
Uma produção inglesa da BBC Films, Tiros em Ruanda aborda a discussão também promovida em outra película, Hotel Ruanda, mas de forma híbrida e muito mais real e sensível.
Seu roteiro recupera o genocídio ocorrido em 1994 naquele paíse, sob a ignorância da ONU, que preferiu fingir não perceber o que acontecia.
A luta foi étnica, entre os Tutsis e os Hutus, e quem perdeu foi a humanidade.
Em o filme, o padre Chistopher (John Hurt) cuida de uma 'cola, que recebe voluntários, como o jovem professor Joe Connor (Hugh Dancy).
A Força de Paz da ONU também ocupa a Ecole Technique Officiele, em Kigali, local onde tudo aconteceu, de fato.
Em a obra, que é filmada nos locais reais, participam diversos sobreviventes do genocídio, tanto como figurante quanto na produção, tornando a narrativa ainda mais real.
O ritmo do filme é pouco instigante, pois mostra algo 'perado e distante da emoção, do humanismo.
Porém, sua objetividade e a preocupação com imagens que relatam deixam-no próximo de uma narrativa jornalística, fortalecida por o hibridismo.
Um filme que vale a pena assistir, antes ou depois de Hotel Ruanda.
Número de frases: 73
Para quem assistiu ao programa «Toma lá da cá», na rede globo de televisão, ontem à noite, viu e ouviu piadas e falas embasadas no preconceito racial e homossexual.
Fiquei apreensiva com os temas tratados e a falta de graça apresentada por o autor do episódio.
Como pode um programa transmitido num horário nobre e com um número considerável de audiência, fazer piadas carregadas de preconceito, é a pergunta que fica no ar.
É claro que um programa de humor não tem o interesse e nem a pretensão de levantar temas para reflexão, de uma forma séria, sem zombar de uma situação.
Mas carregar no texto, marginalizando e debochando dos preconceitos, como uma forma de desmoralizar as vítimas, foi de um mau gosto assustador.
Em o auge das discussões para o fim da intolerância nos depararmos com frases preconceituosas é, no mínimo, desanimador.
Cabe a nós, telespectador, ponderarmos na 'colha dos programas que irão nos entreter, sem 'tigmatizar os ranços culturais.
E para quem não tem a opção de mudar de canal, pois já não consegue sair do automático, o ciclo vicioso permanece:
Pré-conceito que gera preconceito.
Sim, isso pode até ser encarado como um pensamento pessimista.
Mas eu acredito que sem a contribuição da mídia para gerar pensamentos reflexivos, nada sairá do lugar.
Número de frases: 11
«Mas por que não nos reinventar?"
O verso acima é da música Três, a primeira faixa do novo disco da Marina Lima, Lá nos Primórdios, lançado agora em agosto.
Bem apropriado para a proposta deste texto.
Afinal, depois de quatro anos enfurnado numa universidade sob o dogma da imparcialidade jornalística, as linhas que virão a seguir são quase como se jogasse tudo para alto.
E provocasse úlceras e síncopes nervosas nos meus ex-professores que tanto insistiram em me ensinar.
Pois é, sou mega-fã de ela, propuseram-mo desafio de cobrir a coletiva de lançamento do novo álbum da cantora e ver no que dava.
Prometi a mim mesmo não farofar.
Se consegui meu intento, saberão ao final de 'tas linhas.
Antes de tudo, um detalhe básico da preparação para a entrevista:
vou pesquisar o quê sobre a Marina?
Que lançou o primeiro disco, Simples Como Fogo, em 1979, perdeu a voz com uma forte depressão nos anos 90 e gravou um Acústico MTV em 2003?
Bobagem. Fã que é fã sabe 'sas coisas de cabeça -- e ainda banca o pentelho debochando de quem não sabe.
Já aluguei meses atrás até Garota Dourada (1984) por o simples fato da Marina fazer uma ponta considerável na película.
Para quem jamais viu 'se achado kitsch, fica a dica.
Ela é a razão não-trash para ver o filme -- a outra motivação é ver Sérgio Mallandro interpretando um rock-star pegador que encanta a Andréa Beltrão.
Medo.
Mas o assunto é a coletiva, marcada no MAM carioca.
Chego lá, bloquinho na mão, hora marcada, crente que ia sentar a lado de um monte de repórteres que fariam perguntas na maior cerimônia para uma Marina sentada em algum palquinho.
Foi aí que me informaram que ela não gosta deste formato careta.
Havia uma grande mesa circular onde os jornalistas que chegavam aos poucos eram recebidos.
E Marina lá, sentada com a galera.
Eis que, antes do início oficial do bate-papo, ela pediu para as pessoas se apresentarem, dizerem para qual veículo 'crevem.
Tinha repórter da Folha, do Extra, do JB online, enfim, um mulão de gente.
Um dos jornalistas presentes começa logo de cara perguntando sobre a turnê do Acústico -- com a velha fórmula de relançar antigos sucessos --, de anos atrás.
Ela soltou um «puuutz», cortando-o de cara, para em seguida ressaltar que adora a MTV mas não gosta de um trabalho de revisão.
Sobre a hipótese de que hoje ela faz «música eletrônica», fez questão de marcar território.
-- Meu interesse por a música eletrônica é que me permite trabalhar em casa, sozinha.
A eletrônica é que nem panela.
Eu utilizo, é um tempero que tenho na minha mão.
Trabalho com violão, guitarra e teclado -- ressalta.
Quem acompanha a trajetória de Marina e 'cuta Lá nos Primórdios entende bem o que se fala.
Alías, faz um bom tempo que não via um álbum de ela com tantas guitarras -- para minha alegria -- e tão enérgico.
O disco atual começa a nascer com os shows que fez no Baretto e, depois, no Auditório do Ibirapuera, em Sampa -- segundo explicação da própria.
A temporada de shows no parque paulista, em novembro de 2005 e janeiro deste ano, teve praticamente todas as inéditas presentes em Lá nos Primórdios -- não foi à toa que aqueles shows se chamavam ... ...
Primórdios! Com direção de Monique Gardenberg, 'tas apresentações pareciam muito mais um 'petáculo que uma cantoria sequencial de músicas.
Tudo marcado, teatralizado, cênico, um 'petáculo incrível.
É aí que entra a parte em que vocês, amigos leitores, ficam com medo de mim.
Fui quatro vezes ao mesmo show.
E, como meu cadastro no Overmundo denuncia, moro um pouco longe da terra da garoa.
Pois é, eu e um amigo meu -- fã também, é claro -- reservamos hotel e encaramos o busão duas vezes -- média de dois shows por viagem.
Alguns colegas falam até hoje que sou meio doido por isso.
Papo de quem não viu o 'petáculo.
Quando saí do Ibirapuera pela primeira vez, 'tava determinado:
«quando ela gravar um disco com isso aí, eu preciso comprar."
Marina começa a falar do sucesso da temporada no auditório paulistano -- em todas as vezes que fui, casa lotada.
E lamentou que Rio e São Paulo não saibam o que se passa um com o outro.
O fato de nenhum repórter carioca ter lembrado os shows paulistas na formulação de perguntas meio que corroborou a teoria.
Eu 'tava me coçando por dentro.
-- Marina!
Eu vi!
Eu vi!
Quatro vezes!--
urrou meu eu-interior, de braços abertos, devidamente reprimido por o meu ego, minha boca cerrada e braços cruzados.
Em a hora de fazer uma pergunta, preferi trocar a babação de ovo queima filme por algo mais coerente com o veículo em que 'te texto será publicado, um site.
Indaguei se ela acha que a internet, no Brasil, já serve para uma distribuição efetiva da produção cultural, para atingir um novo público.
Tive em mente 'se lance de que, na grande rede, há a oportunidade de mostrar o que passa batido na mídia convencional, apesar de não ter deixado isso bem claro na formulação da pergunta.
A resposta (negativa) de Marina, 'tava 'truturada sob outra perspectiva, ainda assim coerente.
-- Com a internet não dá para falar com todo mundo ainda, porque o dinheiro é 'casso -- justifica, ao exemplificar que muita gente no interior do país ainda não tem acesso à grande rede ou computadores.
Curiosamente, ninguém falou nada acerca da perda vocal enfrentada nos anos 90.
Marina respondeu o que não foi perguntado ao destacar que tem cuidado da voz, 'tá feliz com o resultado do trabalho e que as músicas 'tão exatamente como quis cantá-las.
Quando a assessora disse que só havia tempo para mais uma pergunta, já 'tavam meus ouvidos -- ansiosos -- à 'pera de respostas sobre uma nova turnê ou clipes de divulgação.
-- O que você acha de melhor e pior no ser humano?--
perguntou uma mulher loira, para a incredulidade de meu eu-interior, que começou a xingar todos os nomes do universo por tamanho desperdício de oportunidade.
Era a última pergunta!
-- Nossa, tô me sentindo Buda!--
emenda Marina, rindo da inesperada pergunta e arrancando gargalhadas da mesa.
Em o final de tudo, não resisti.
Quis saber se o show do disco será o mesmo feito no Ibirapuera.
«Pergunte para a Monique», rebateu ela, sorrindo, ao deixar claro que vai repetir a parceria dos shows paulistas com a diretora, mas não será uma emulação do que já foi feito.
Para farofar de vez, quando ela 'tava de saída do restaurante do MAM, fui atrás.
Disse-lhe que adorei os shows no Ibirapuera, que vi quatro vezes, e pedi um recado para os fãs de longa data.
Finalmente meu eu-interior dá um drible de Garrincha no meu ego e o farofa-side / tietagem se manifesta.
Ela foi simpática, parou um tempo para pensar, foi direta.
-- Voltei mais convicta que nunca.
Estou no caminho certo.
Em o meu caminho.
E para fechar com chave de ouro, deixou no ar a possibilidade de um novo show em Sampa, para o mês de setembro.
Lá vou eu de novo torrar uma grana com busão, hotel, ingressos ...
O disco
O problema de 'crever um texto e, ao mesmo tempo, assumir gostar do artista em questão é que qualquer elogio sai logo de cara despotencializado.
Eis o problema de falar (bem) do ótimo Lá nos Primódios.
De as 12 faixas presentes, duas são remixes de canções do próprio álbum -- Vestidinho Vermelho e Valeu.
Há regravações da própria Marina, como Difícil, que ganhou uma roupagem mais sombria que na versão original, e inspiradas canções inéditas.
Quem tem saudades da Marina com guitarras pode se deleitar com Entre as Coisas, ou, se quiser algo mais cool, há a dionisíaca " Anna Bella:
«Lá nos primórdios de tudo / Anna Bella me falou / Que não se pode amar sem ser amado, isso não, senhor / Isso é verdade, contudo / Perguntei a ela então / Se o que acontece não segue a regra / Será a vida em vão».
Lá nos primórdios tem um repertório variado, onde 'tá nítida a vontade da cantora em não se repetir.
Há levadas meio bossa-nova, momentos intimistas, guitarras nervosas, baticum eletrônico e até uma mistura funk / tango na música Três.
Bem superior ao último disco de 'túdio (Setembro, 2001, por a finada Abril) gravado por ela.
Seguindo 'ta linha de pensamento, não seria exagero dizer que é o melhor trabalho em 'túdio de Marina nos últimos dez anos.
Número de frases: 89
Palavra de ego que sufocou o eu-interior.
por Ronaldo Machado
O título do último livro de Ronald Augusto (editora Éblis, 2007) é catafórico da poética que o sustenta:
uma 'crita vigorosa, severa, dura e mesmo ríspida na sua função poética, no seu constitutivo 'tético.
Leia-se 'ta aspereza na perspectiva de sua produtividade textual, na sua potência de invenção e intervenção sobre a linguagem.
E, justamente ai, é que se encontra toda a expertise do poeta.
Em o assoalho duro é um livro onde a 'critura se faz entre corrosiva e 'carificante do senso-comum poético.
Um conjunto -- um assoalho xadrez -- de 18 poemas fricativos, 'critos entre 1988 e 2006 dão volume ao magro livro.
jejum ergo coroa destronante / jejum disse jesucristo enquanto / levava à testa renhidos picos / cesto vazio seco sem o pão ázimo / nem azia nem pedrarias beco / básico câmara contraespiã / movediça e 'pecular / desdobrando braços no mais íntimo / do palácio elísio de kublai khan (p. 5)
Como a filosofia de Nietzsche, do qual Ronald é insistente leitor, Em o assoalho duro é um livro para 'píritos livres e que poderia trazer em epígrafe a seguinte confissão:
Doravante solitário e maldosamente desconfiado de mim tomei de 'sa forma, não sem desgosto, partido contra mim e por tudo o que precisamente a mim fazia mal e me era duro ( ...) (
Nietzsche, Humano, demasiado humano, § 4)
A lírica de Ronald é solitária, desconfiada, descontente, partida contra si, mas ...,
mas que se deixa partilhar, que se deixa confiar, que contenta no descontentamento.
Em o poema a seguir isso se evidencia:
caminho cerrado trecho de via interior / mergulho por 'cadaria / meus faróis disparam um túnel na treva porosa / fachopaco não alcanço nunca a desembocadura / ao longo / pegadas no arco de 'sa não-parede / impregnada de úmida música muda / pequenas solertes pessoas / só olhos flutuantes / lagartixas de cera (p. 11)
O ritmo poético constrói a imagem mesma da comunicação poética do livro:
a miopia da linguagem que busca seu leitor por uma 'treita via da selva obscura e porosa (lacunar e corrosiva), que busca a experiência 'tética por o túnel de degraus úmidos da 'critura / leitura, cuja saída 'ta sempre aquém e além do aqui-agora.
Entenda-se:
a miopia é inventada na lucidez, na vertigem do fazer poético.
Em o assoalho duro é um livro marcado por o signo de Lúcifer.
Um livro onde a lucidez amarra imagem-ritmo idéia e se exige no leitor, ensinando, ainda, que a poesia não é fácil e nem é facilitadora, mas que é convite à condição pensante:
( ...) eu pratico / rendilhados de prata e ouro onde / não há sequer / limalha de ouro migalha alguma / que disfarce a prata barata / da casa / e bebo a verde 'meralda salut / cifra da mater natura num / frasco de bolso a meio de xerez / em troca / da pérola mórbida doença -- afecção / a que me afeiçôo -- de um marisco / moribundo ( ...) (
Número de frases: 23
Mais um final de semana se vai ...
E 'se foi coroado por o aniversário do ilustre PIRU!
«Mas que porra é 'sa, Rafa!
Piru?! Aniversário do teu pau?"
Nada ... Calma, cocada!
Não o meu!
O do ForFun -- http://www.fotolog.net/forfun, o Vitor!
Em a foto!
Então ...
ele arrumou um pico logo ali.. pertinho.
no Méier!
Para fazer o aniversário!
Um sitiozinho com um barzinho..
O cara é demais.
Meteu uma sonzera lá.
os amps todos, caixas de som e pam.. chamou várias bandinhas, os amigos todos..
A renda das cervas era destinada a um orfanato!
Quem ia levava 1 kg de alimento não perecível!
Sensacional!
Ele e a galera da banda sempre tem umas iniciativas sensacionais!
Homenageado o Piru.
agora vamos ao título do post ...
Não sou fã dos preconceitos, mas muitas vezes eles dominam algumas de minhas opiniões involuntariamente.
Eu e Marcus dentro da flexa de prata por a ponte.. ouvindo um Ray Charles vs Mil Jackson no jazz and blues, finesse.
Coisa assim.. salto alto e vestido curto sobre pernas finas e longas.
Nice.
«Caralho.
onde que Piru arruma 'ses lugares pra fazer evento?" (
Rafael) " Mermão.
sei lá.
quando disse pra minha mãe que 'tava indo para o Méier ela só mandou eu rezar antes de sair de casa ..." (
Marcus) A gente chegou ali, pegou perto do Maracanã.
Aí segue reto até o cu fazer bico.. logo ali!
Chegou no Méier, sempre beirando a linha do trem, onde rolam as porradas entre torcidas de futebol, sabe onde é?
Sorte que o jogo da final da Guanabara entre Framengo e Madureira era no dia seguinte.
A gente passa em vários picos 'quisitos, muito 'curos.
Os carros já não pagam IPVA por terem mais de 10 anos de idade, 90 % de eles é a gás [nada contra, mas 90 %.
you got the message!],
os ônibus não têm ar-condicionado e as pessoas nas calçadas não tem a dentição completa.
Enfim ...
paramos num posto onde a gasolina é 30 centavos mais barata do que qualquer posto de Niterói -- e não tem bandeira / marca -- para perguntar onde era a tal rua lá.
Fomos bem direcionados e achamos a rua-alvo.
Mas PIRU havia me dado infos bagunçadas ...
cheguei na rua, um ladeirão nervooooooooso!
Flexa de Prata de primeira, motor no 3500 giros dando uma de mulé de malandro.. gritando alto!
Vruuuuuuuuuuuuummm charanga subindo aí eu enganado pego a primeira 'querda que é.
uma descida mais norótica ainda.
Lá embaixo eu não ouço banda nenhuma tocando, paro o carro e ligo para a Pirulino ...
enquanto isso um Uno bem ferrado 'tá atrás de mim com a seta ligada e eu burramente mal parado.
Eu ligo então o pisca-alerta para indicar que 'tava ali parado e o maluco veloz e enraivecidamente bota para a 'querda e passa ao meu lado gritando " Depois é assaltado e não sabe o porquê!!!!!!!!"
E em 'sa vizinhança de muita paz rolou o aniversário que foi muito do caralho.
«O Rio de Janeiro continua lindo ..."
e cheio de diversidade e desigualdade.
Número de frases: 53
Uma pena.
Vou bater um papo aqui com uma das línguas mais talentosas do Mato Grosso.
Um artista por inteiro, um cara sem meias palavras, franco, direto como um soco no 'tômago da hipocrisia.
Dono de uma pintura visceral, um grande colorista, um grande artista.
Esse cara foi colocado entre os 100 maiores artistas do século passado, nos catálogos dos Museus de Arte Moderna, de São Paulo, Paris e Nova Iorque.
Continua ativo, vivíssimo e pintando.
Sempre pintando, 'sa é a sua sina:
pintar, pintar e pintar.
Entre tintas, pincéis e o verbo:
ele fala disparando (palavras) como uma metralhadora verbal, é um cara que beira a insanidade (no bom sentido, é claro!),
mas é muito amoroso, muito querido mesmo.
Somos amigos há mais de vinte anos.
Não dá para abrir mão de um cara desses por aqui.
Mato Grosso é terra de muitos pintores, e bons.
Adir Sodré não 'tá sozinho em 'sa terra de grandes artistas.
Adir soma?
Adir de aderir.
Aderir a quê?
Não sei, acho que é tudo um grande golpe também.
Mas 'tou tentando somar.
Como foi o início de sua carreira?
É uma loucura porque eu nasci pintando.
Pra mim sobreviver, teria que fazer arte de alguma forma.
Seria pintar, cantar, alguma coisa eu ia fazer, dançar que eu não ia, né?
Então, eu morava no interior, comecei a pintar com 10 anos.
Mais ou menos, com 15 eu já queria ser artista mesmo.
Com 20, eu sobrevivia disso.
Onde você nasceu Adir?
Nasci em Rondonópolis, mas só nasci.
Meu pai garimpeiro, nômade, cada filho nasceu num lugar, e fiquei no interior até 14, vim para Cuiabá com 15 e 'tou aqui até hoje.
Seu pai me contou uma história certa vez ...
que vc vivia pintando em sala de aula, dava um trabalho danado, não gostava da 'cola, como é que era isso?
A 'cola sempre foi um horror também, gastavam cadernos por mês, eu gastava um por dia, entende?
Eu não lia com 8 anos, literalmente, como do jeito que acham que é a leitura, equivocadamente, só como leitura de signos verbais.
Eu sabia as marcas de todos os produtos, então eu lia.
Em a loja do meu pai o cara pedia alguma coisa e eu achava o produto.
Para a eu aprender a ler, me bateram.
Com 9 e meio, lá por o 3° e 4° ano não sabia ler, dava golpe em todo mundo, mas literalmente eu não lia e desenhava muito.
E meu irmão dava aula particular lá, o Zé, falou assim:
«O rapaz não lê, no armazém mando olhar lá, pega a marmelada, dizendo que era goiabada», e eu falei que era marmelada.
Você não lê, você lê só marca.
Mas acho que isso 'tá traçado, é o destino, vem como uma fúria enlouquecida, você não 'capa.
A os 20 anos você já sobrevivia de arte ...
que é uma coisa dificílima até hoje, não é?
A gente tenta.
Vai dando murro em ponta de faca, mas dá pra viver.
Já viajei o mundo inteiro, eu tenho o que eu quero.
Tá muito bom o que eu tenho.
O mais interessante é que eu virei cidadão, né?
Isso é o mais interessante.
Como é isso?
E antes?
Mas ninguém é nada em 'se país, entendeu, é uma grande batalha, imagina querer ser artista em 'se país, só sacanagem, bandido, vagabundo, então, acho que a gente fica marginal mesmo.
Eu virei cidadão mesmo porque eu trabalhei pra isso também.
A os 20 anos eu pirei.
Eu queria ir pra São Paulo, queria ver o Masp, que museu é 'se?
Não queria ser pintor daqui.
E como é que você tomou consciência de 'sa realidade, por exemplo, o Masp, como você ficou sabendo?
Ah!
Eu tive uma grande aula da Aline Figueiredo com o Humberto Espíndola.
Era legal né?
Também, são pessoas sofisticadíssimas, eles têm uma visão louquíssima, de vanguarda mesmo.
Eu e o Gervane sempre fomos muito ágeis.
A gente convivia com os livros de eles, com os discos, com tudo.
E devoramos livros, devoramos, devoramos.
Então, o acesso ao bem cultural, é importante?
Sim, muito.
É fundamental, se você não 'tudar não tem jeito.
Tem que 'tudar e muito!
A palavra é disciplina, disciplina!
Nada de graça, não adianta.
Muito 'forço ...
Ezra Pound falava isso, 'se negócio de talento ...
Talento é 10 %, 90 % é 'forço, é trabalho.
Você acredita nisso?
Claro que sim.
Se você não desenhar muito, não melhora nada, não tem jeito, é muita disciplina.
Tem que errar muito pra aprender.
Errar muitas vezes.
Não é pintar uma tela, é pintar 100, 200, 300.
Jogar 99 fora?
Não, vende, tenta vender.
Joga nada fora.
Poema tá ruim?
Guarda, melhora ele depois.
Nada de rasgar papel, papel tá caro, tudo custa muito caro.
Rsrsrs ...
Bom, e ai?
Primeira vez que chegou no Masp, como é que foi?
Aí eu subi a 'cada do Masp, não conhecia ninguém.
Esbarrei numa senhora ruiva, linda, 'tranha.
Aí abri a tela, ela já levou para o Bardi.
Ela comprou uma tela bacana.
Ele pagou só um pouquinho.
Ela pagou caro e ele pagou barato.
Ela falou:
«pode vender é interessante pra você!».
De aí não parei mais, ele me convidou pra expor no Masp.
Depois daquilo, e 'sa exposição que ele me convidou, ganhei a APCA, pintor do ano, em 86, aí não parei mais.
Fui para o Japão, para a Nova Iorque, aí calhou que o Chateaubriand comprou um trabalho meu também, e eu acabei entrando em galerias boas de São Paulo, e Rio.
Só que quando me convidavam não era a elite brasileira, era a elite de fora.
Podia ser uma exclusividade 'tranhíssima aqui, podia ser um pintor folclórico brasileiro, mas eu não tenho perturbação nenhuma.
Pinto uva, maçã, pera, papagaio, tudo eu pinto.
Papagaio vira urubu, né?
Mas é um papagaio.
Então tem 'sa história também da gente ficar sempre no 'canteio, de sempre achar que 'tá à margem também, mas eu dei sorte, eu procurei.
A gente ouve muita gente falar demais também, reclamar, reclamar, e deixar de fazer em função de que acha que não tem condição de fazer, que não tem 'trutura ...
Quem não tem talento não se 'tabelece, não adianta, se vc não nasceu pra aquilo, sai fora, procura outra coisa, fazer arte não é hobby não.
Não é brincadeira.
Qualquer área, se você vai fundo, você se dá bem, não tem 'se negócio de ficar como marginal.
Tá fora de moda 'se negócio de ser marginal, hoje tá muito mais amplo, muito mais aberto, quem trabalha e tem talento vai viver daquilo, com certeza que vive.
Você e o Gervane de Paula se destacaram bastante aqui no contexto da arte na década de 80, inclusive vocês se inseriram em 'se movimento, chamado de Geração 80, teve Parque Lage, aquela grande exposição lá, como é que você vê 'sa inserção de vocês dois num movimento nacional e em pouco tempo de atuação ...
E também tem uma coisa muito 'tranha, você tem que saber penetrar em 'se circuito, que é um circuito terrível.
E agora, com o advento de curadores, você fica fora de tudo.
Se você não tá lá perto, puxando saco do pessoal do Rio e de São Paulo, você não tá em lugar nenhum.
Em 'se país desse tamanho ...
Cuiabá ... ir daqui a Manaus ou ao Rio, é a mesma distância.
Que confusão que é 'sa então?
Fora 'sa confusão, tem todo um glamour, 'sa é a perturbação, eu não tenho paciência.
Não vai ter um trabalho bacana.
Você tem que saber inserir ele, entendeu?
Aí que é complicado, eu acho.
Mas não é fácil.
E agora, com 'se fenômeno, por exemplo, da internet, uma ferramenta hoje que aproxima todo mundo?
Estamos no mesmo 'paço virtual, vamos dizer assim, então não tem distância entre Rio e São Paulo, entre Cuiabá e Manaus, nós 'tamos no mesmo lugar virtual.
Eu não sei como pegar 'sa máquina e usar ela ainda.
Sim, mas como é que você a vê hoje, como possibilidade revolucionária, de aproximar todo mundo?
Isso é tudo, é absoluto, é o futuro de tudo.
Eu não sei como 'sa máquina funciona, tô engatinhando, sou um analfabeto digital ainda.
Só sei que eu acho tudo que quero, entendeu, mas ela é uma arma poderosíssima, não tem jeito, ela é uma arma poderosa.
Ela é um instrumento para trabalhar, que eu não sei ainda.
Você não 'tá só no interior mais, seu nome circula no meio internacional, é conhecido fora daqui.
O problema todo é que é tudo meio instantâneo.
Você 'tá se sentindo fora, out?
Eu quero 'tar out..
Porque eu faço desenho, pintura duvidosa, entendeu?
Eu quero fazer o que eu faço e bem, tentar fazer bem.
E você tem mercado pra isso, fora dos salões de arte?
Sim, eu não posso reclamar.
Você vive exclusivamente da arte?
Só.
Não vivo assim ...
sofisticado, mas vivo assim ...
pagando minhas contas em dia, eu viajo a hora que eu quero, acordo a hora que eu quero, tá bom.
E aquele Adir, por exemplo, menos comportado eu diria.
Ouço muita gente falar, " Ah, o Adir?
O Adir tá morto para a pintura.
Ele 'tá se repetindo."
E agora?
O que vem do Adir?
Vem alguma coisa nova ou você descobriu a galinha dos ovos de ouro?
Eu como disso, entendeu?
Não tenho pudor nenhum.
Que história é 'sa?
Meu trabalho é assim, minha pintura é bem feita.
Não é porque eu vou usar um tema erótico, um tema agressivo, que vai piorar meu nome na história da pintura.
Decorar é preciso, viver também.
Décor não é pecado.
Você é um artista décor?
Sou sim, sou 10, sou 100, vou virar Adir Horror?
Vou virar Frido Kahlo, vou virar Adir Sodré?
Mil. Vou virar mil, dez mil, trinta mil.
É um Picasso da América Latina ...
Little dicks.
E todos ficam te dando títulos, títulos.
A gente tem que comer meu amigo, 'se povo da vanguarda pra fazer uma instalação, pega 20 mil, 30 mil reais ...
vai dar 500 reais pra você ver!
Ficar mendigando pra vender uma tela por mil reais em Cuiabá, acorda!
Como você analisa a inserção do seu nome entre os 100 maiores artistas do século passado nos catálogos dos museus de arte moderna de Paris, Nova Iorque e São Paulo?
É tudo golpe, é tudo instantâneo, eles te colocam e te tiram também, depois volta ou não.
Mas 'tá lá registrado!
Nada é brincadeira, não 'tou brincando há 30 anos.
Não 'tou brincando em serviço.
Tem gente que odeia meu trabalho!
Alguns acham que sou um golpe, tem outros que adoram.
Teve uma curadora japonesa que falou:
«É bom isso aí!».
Tem gente que gosta e não gosta.
Eu acho que é assim.
De quem você gosta na história da pintura?
É ciclo.
Eu gosto muito de Picasso, Matisse, eu gosto de Jack Pollock.
Eu gosto de um japonês agora, um pop japonês, acho que é Murakami, que é bom pra caramba, eu gosto do Keith Haring, então acho que no futuro eu vou fazer uma exposição coletiva, não individual, vou abrir cinco pintores num só Adir.
Heterônimos?
O Adir Horror que é um pop amazônico ...
Pessoa pintor?
Inclusive o Adir Pessoa?
Sim.
Vai ter o Adir e mais 4 pessoas.
Você não quer 'se, compra aquele.
Vai ter o Frido Kahlo, o Adir Sodoré, que é um japonês que faz ideogramas, enfim, vou abrir uma coletiva, não é individual.
Coletivo de um só é muito massa!
Tem toda 'sa coisa da moda, da pessoa eleger você naquele exato momento e depois você 'tá morto.
Como 'tá morto?
Você tem que 'tar sempre lá.
70 % é você ir atrás de São Paulo, atrás de galeria, pra puxar saco de um, de outro, eu?
Eu não sei fazer instalação cara!
Em 'se momento não se pinta, supostamente.
A arte, então, é um grande golpe?
Sim, sofisticado, um golpe de mestre.
E como você analisa a questão da política cultural, pública e privada, parece que tá todo mundo assim, muita gente saturada, de saco cheio de leis de incentivo.
Mas a lei do incentivo leva a muita coisa.
Aqui em Cuiabá mesmo, Mato-Grosso, 'sa lei fez muita coisa interessante.
Mas é preciso melhorar, que as pessoas se unam em categorias e lutem pelo direito de elas.
É tão pouco o que eles dão, cara.
1 ou 2 % não é nada!
Tem uma luta agora para se chegar a 1 % do orçamento para a Cultura no Brasil.
O ministro Gil 'á lutando para isso.
A confusão toda é que fica muita gente mafiosa no caminho, não é?
Muita gente ruim que quer ser conselheiro de cultura, isso e aquilo, mas a lei é fundamental.
Imagina, tem algumas coisas no planeta que alguém tem que financiar, por exemplo, a qualidade do ar universal, ninguém quer pagar ...
Senão todo mundo vai pagar por isso ...
Vamos pagar, e muito caro.
Como convencer a iniciativa privada, a financiar, por exemplo, quem 'tá em processo de formação cultural?
Isso é a cara do Brasil, uma confusão, não tem educação.
Um país que constrói cadeia ao invés de 'cola, Você quer o quê?
Um país que constrói cadeia, e todo mundo foge da cadeia?
Tem que construir 'cola.
O Brasil investe muito pouco em educação, entendeu?
Você pega países com PIB muito menor e que investem muito mais em educação, a gente investe muito pouco em educação ...
Então, a saída é 'sa?
Não tem outro jeito.
Viva a arte!
Sim.
Viva o Adir!
Yes.
* Quer curtir mais Adir Sodré?
Número de frases: 227
Em os arquivos do Itaú Cultural você encontra alguns dos seus trabalhos.
Negativo revelado
«Um historiador chamou o período silencioso no cinema no Brasil (introduzido em 1898 por o italiano Affonso Segretto de «a bela época do cinema brasileiro», dada a quantidade e diversidade da produção ...
mas do ponto de vista do negro brasileiro, isso conta muito pouco.
O cinema mudo coincide exatamente com o período áureo das teorias racistas, quando as religiões afro-brasileiras eram perseguidas por a polícia, e os mulatos claros usavam pan-cake para parecer brancos.
Houve portanto poucos registros de negros em documentários." (
João Carlos Rodrigues) Apesar da patente invisibilidade do negro nos documentários de nosso período silencioso, aludida e lamentada aqui por João Carlos Rodrigues, talvez já se tenha dito, anteriormente, que a rigor não pode ser considerada, de modo algum, incipiente-ou mesmo insuficiente -- a presença da imagem do negro no cinema brasileiro de ficção.
Já nas imagens inaugurais de 'ta nossa cinematografia ' posada ', o negro 'tava lá, de alguma forma impresso.
A lista de filmes é extensa, a ponto de podermos afirmar, com razoável convicção que, do ponto de vista 'sencialmente imagético, nunca houve, exatamente, racismo no cinema brasileiro.
Não conheço ninguém que tenha assistido, sequer a um fotograma do documentário (um docudrama talvez) A vida de João Cândido, o marinheiro, realizado segundo as poucas fontes disponíveis em 1912, com direção de Carlos Lambertini e, sabe-se lá talvez, inspirado no O encouraçado Potenkim " filme clássico de 1906, realizado por o russo Sergei Einsenstein.
Por conta da insuficiência de fontes aliás, o filme sobre João Cândido, acabou se confundindo com o documentário ' A revolta da Esquadra ' também identificado como sendo de 1912, sensacional furo jornalístico do cinegrafista Alberto Mâncio Botelho (único fotógrafo a conseguir entrar no encouraçado Minas Gerais, nau capitânea da Revolta) que conseguiu entrevistar João Cândido líder dos marinheiros da Marinha de Guerra, rebelados contra os castigos corporais.
É lícito se supor inclusive, que a maioria -- senão todas -- as imagens disponíveis hoje deste grande momento da história do Brasil, tenham sido registrados por as câmeras deste grande precursor do documentarismo brasileiro que foi Alberto Mâncio Botelho.
Pois saibam que A vida de João Cândido, o marinheiro foi o primeiro filme censurado e proibido no Brasil por motivos políticos (certamente junto com o'Revolta da Esquadra'de Botelho).
A engrandecê-lo mais ainda, o fato de ter sido também o primeiro filme de ficção, no qual o negro apareceu como protagonista de sua própria história (não se tem a informação se os atores eram brancos pintados.
Vamos acreditar que não).
..." Os atores (no tempo do cinema mudo no Brasil) ainda eram brancos pintados, como os minstrels americanos.
Esse costume persistiu até bem mais tarde.
Em o cinema, o verismo exige negros verdadeiros, e assim surgiram os primeiros atores profissionais, vindos dos palcos:
Grande Otelo, Pérola Negra, Chocolate -- os pseudônimos já ostentam a etnia, informando antes mesmo da própria imagem do intérprete.
Mas seus personagens não cresceram de importância.
Caras imagens 'parsas de filmes invisíveis.
Além do imperdível ' Encouraçado Potenkim ', alguns de nós já assistiram contudo a, pelo menos, algumas das impactantes imagens de «O Nascimento de uma nação» (' The Birth of a nation ' ou, originalmente, The Clansman) de David Llewelyn Wark Griffith (D. W. Griffith), talvez a mais veemente propaganda racista já exibida por o cinema, lançando as bases para a recriação da organização terrorista Klu Klux Klan, grupos de brancos que promoveram muitos linchamentos e enforcamentos de afro-americanos nos Estados Unidos.
Embora o filme de Griffith tenha sido um divisor de águas, lançando revolucionárias técnicas para a linguagem cinematográfica do futuro, surpreendentemente, no plano ideológico, 'tas imagens, ao que tudo indica, não tiveram relação direta alguma com o tema da invisibilidade do negro na mídia brasileira (no cinema inclusive).
As controversas idéias levantadas por o filme, lançado no já distante ano de 1915, parecem ter somente entre nós -- guardadas as devidas proporções -- alguns tardios adeptos, veementes opositores das políticas de cotas e ações afirmativas no Brasil, cujo pensamento, ainda que de forma simbólica, pode ser alinhado com 'te emblemático trecho da sinopse do filme de Griffith publicada por a Wikipédia:
..." A controvérsia que o filme causou gira em torno da premissa de que a primeira Klu Klux Klan restauraria a ordem no sul do pós-guerra, que 'taria «ameaçado» por afro-americanos «incontroláveis» e seus aliados:
abolicionistas, mulatos e republicanos do norte.
O fato é que, navegando num mar encapelado de preconceitos 'téticos ligados ao biotipo de nossa população, não sabemos ainda a que atribuir 'ta hospitaleira ilha de diversidade cultural, 'te inesperado apego, quase fraterno, sempre existente em nosso cinema de ficção por a imagem do povo e do negro, em particular.
Atraído por a imagem de negros e despossuídos, tanto quanto por a pitoresca e dura vida de nossa população ' carente ` em geral (cujos temas 'tão sempre presentes nos roteiros, desde os primórdios), 'te cinema foi sempre bastante popular (ou popularesco), desde a 'colha de seus story lines, baseados desde o início em rumorosos casos que eletrizaram a maioria da população, sendo protagonizados por pessoas comuns, até a franca adoção de um conceito de ' casting ' sem preconceitos biotípicos ou raciais aparentes.
Talvez a pista mais importante de 'ta solidariedade do Cinema para com a imagem do negro do Brasil, a despeito do deslavado racismo das outras mídias, deva ser buscada em outras plagas, bem mais próximas de nós:
A colônias italianas do Rio de Janeiro e São Paulo.
Com efeito, ao nos debruçarmos sobre a bases que formaram o nosso cinema, 'barraremos, fatalmente, numa lista enorme de ' carcamanos ' emigrantes, gente simples, humilde e empreendedora que, construiu aqui praticamente tudo que precisávamos para ter cinema brasileiro.
De Paschoal, Gaetano, Alfonso e João Segreto, passando por Paulo Benedetti até Rogério Sganzerla, são centenas os nomes de italianos e ítalo-brasileiros envolvidos na arte de fazer filmes no Brasil, inventando equipamentos, processos fílmicos, dirigindo, cinegrafando ou atuando, a importância destes europeus na fundação de nosso cinema foi decisiva.
Empreendedorismo, pitadas de Anarquismo, de Comunismo, Socialismo e, logo mais adiante, Neo realismo, eis o que seriam as lentes abertas para a negritude em nossa cinematografia.
«Fita apreendida
Em o dia 27 de junho de 1926 o jornal O Estado de S. Paulo publica uma matéria intitulada Exploração ignóbil.
Um filme deprimente para o Brasil preparado por a companhia Dramática da Atriz Italia Almirante.
A longa reportagem relata a apreensão de um rolo de filme com cerca de 150 metros cenas de batuque que foram feitas no Jardim da Aclimação, supostamente passadas numa senzala de uma fazenda de um nababo português.
«Em certo ponto, um artista não se contem e, por pilhéria, arrebata uma pretinha e sai com ela, dançando.
Os dançadores se alvoroçam e o chefe do batuque separa o par, com ar feroz.
Mas isso não o satisfaz e para vingar-se vai ao grupo de artistas, tira uma atriz e sai com ela, a dançar.
Embalde os colegas tentam arrancá-la daqueles braços, da sanha daquela multidão andrajosa, suada, de catadura hedionda.
Estabelece-se a luta.
E, aos gritos de toda a gente, aparece o fazendeiro, de botas, chapéu largo de cowboy, um tipo anacrônico, que arrebata a moça das mãos do preto, atira por terra o agressor e corta-o de rebenque, surdo às imprecações feitas de joelho.
Enquanto o companheiro apanha os pretos fazem 'gares de pavor».
(Em " Italianos no cinema brasileiro ' artigo de Márcio Galdino)
Positivo velado ...
«Em uma conversa com Vinícius de Moraes, que o guiava para conhecer uma favela no Rio de Janeiro, Orson Welles fez um comentário sobre o que via, direto e profético:
«É um Frankenstein.
É um monstro que vai se voltar contra vocês."
Havendo sido criado por volta de 1940, por o governo brasileiro o Dia da Raça, no qual se criava o conceito algo eugenista da fusão harmônica de " três raças tristes ' (brancos, negros e índios, em 'ta ordem), havia uma intenção oficial de difundir a imagem de que o país era habitado, principalmente, por brancos, com uma taxa mínima de negros e mestiços (intenção a rigor, válida até os nossos dias entre alguns racistas enrustidos)
Foi 'te, sem dúvida, um dos principais fatores que contribui para a ditadura Vargas acionar o Departamento de Estado Americano e provocar a interrupção do documentário It's all true, que o festejado cineasta Orson Welles realizava no Brasil em 1942, descrevendo, principalmente, a saga de um grupo de jangadeiros liderados por um homem chamado ' Jacaré ', do Ceará ao Rio de Janeiro, para denunciar ao governo brasileiro suas péssimas condições de vida.
Segundo o Departamento de propaganda do governo, Welles enfocava, demasiadamente, em seu filme, os negros e a cultura afro-brasileira (no caso, nordestinos -- cafusos para alguns -- com a pele queimada de sol e favelados negros do Rio de Janeiro).
..." Em 19 de maio de 1942, já filmando nas praias cearenses, advém a tragédia.
A mesma jangada original da ida ao Rio foi virada por uma onda forte num dia de mar bravo.
Os quatro homens caíram na água.
Jacaré submergiu, voltou à tona, pediu socorro, nadou desorientado mar a dentro e desapareceu.
Seu corpo jamais foi resgatado.
«Jangadeiro deve morrer no mar» foi a manchete caimmyana de um jornal, atribuindo a citação ao próprio Jacaré.
... Pressionado por todos os lados, com produtores descontentes com a extensão das filmagens, e políticos de cá e de lá furiosos com a ênfase na pobreza e na negritude do episódio sobre o Carnaval, Orson Welles terminou o que viera fazer e deixou o Brasil para nunca mais voltar.
Jamais concederam-lha oportunidade de finalizar «It`s All True», editado parcialmente sete anos depois de sua morte.
Banido, tornado quase invisível, durante muitos anos, os negativos do filme foram recuperados, mostrando imagens épicas fantásticas do nordeste brasileiro, com o movimento impressionista das velas e das ondas do mar do Ceará e da então capital federal, com fortes e trágicos contrastes e nuances de preto & branco.
Visto hoje, com distanciamento, ' It's all " nos aparece como um legítimo filme brasileiro, tão grande a influência que, sabe se lá por que mágicos meios, imprimiu em nossa filmografia posterior, notadamente no cinema de Glauber Rocha.
Talvez fosse mesmo uma tendência, um fenômeno cinematográfico amplo e recorrente, num mundo que, bafejado por os ventos abrasivos da guerra, impulsionava o cinema, inapelavelmente, para a reflexão em imagens, de valores universais 'senciais, tais como a solidariedade humana, a diversidade cultural e a luta contra o racismo, a intolerância e a miséria, seja onde 'tivessem.
Ventos que, geraram em suma, o movimento denominado ' Neo-Realismo ' italiano, famoso movimento cultural surgido no pós guerra cujas maiores expressões foram (olha a Itália de novo aí, gente!)
Rosselini e Vitório de Sica.
Mesmo com o advento do Cinema Novo (segundo se diz, criado por Humberto Mauro) o cinema brasileiro segue tributário dos italianos.
Se algum pai houve não se sabe ao certo, mas, talvez ' la Mamma ' de nosso cinema moderno tenha sido mesmo 'ta avassaladora influência neo-realista de De Sica e Rosselini, em seu amor desmedido por a imagem idílica do povo da itália, 'curecido por o sol do Mediterrâneo e entidade vítima de algozes muito cruéis (o nazi-fascismo que morria e o imperialismo capitalista que surgia voraz), num contexto de caos social impactante.
Talvez tenha navegado por 'tas ondas portanto, a relativa aceitação de uma certa negritude em nosso cinema.
Mas, é bom se frisar que 'te Neo Realismo brasileiro, se impõe mesmo é com o lançamento de «Rio 40 graus» de Nelson Pereira dos Santos e, logo após, com a série ' Cinco Vezes favela ', filme produzido por o vanguardista CPC da Une (lançando os cineastas Leon Hirsman, Cacá Diegues e Eduardo Coutinho -- cujo filme ' Cabra marcado para morrer ', ficou inconcluso.
Reveja o cinema de Glauber Rocha e observe nos formidáveis planos-sequências, aquela visão de um povo heróico e retumbante, 'turricado de sol e sede, enfrentando, 'toicamente, as agruras da natureza e do cruel capitalismo anglo-saxão.
Isto tudo exposto, podemos dizer que sempre houve uma substancial presença de negros nas telas de cinema do Brasil sim, mas, não nos furtemos em perguntar:
Como assim?
Vejam talvez que 'ta, talvez seja uma história boa demais para ser verdade.
Em o cinema, como no Brasil, ' nem tudo é verdade '.
Alma no olho
João Carlos Rodrigues, em seu livro aqui citado O negro brasileiro e o cinema -- enumerou 12 arquétipos (ou 'tereótipos) invariavelmente, disponíveis para atores e atrizes negros no Brasil.
Os mais importantes são os seguintes:
O Preto Velho
O Mártir da 'cravidão,
O Nobre Selvagem,
O Negro Revoltado
O Negro da Alma Branca (trágico elo entre oprimidos e opressores),
O Crioulo Doido (equivalente assexuado e cômico do Arlequim da Commedia dell'Arte),
A Musa Negra.
Há dois com uma nítida conotação sexual exacerbada:
O ameaçador Macho Negro (Negão) que povoa os sonhos racistas com 'tupros e violências;
A Mulata Sedutora (Uma 'pécie de mulher-objeto cor de chocolate, desejada por todas as raças).
Em a obra de João Carlos, todos os personagens negros e mulatos da ficção brasileira se enquadram numa de 'sas categorias.
Assisti, por acaso, um dia destes, ao excelente e bem realizado Também Somos Irmãos, drama de José Carlos Burle com Grande Otelo, Aguinaldo Camargo, Agnaldo Rayol, Ruth de Souza e Jorge Dória, produzido por a valorosa companhia de cinema Atlântida em 1949.
Embora velados, muitos dos 'tereótipos enumerados 'tavam lá.
Já foram de algum modo citados também outros filmes emblemáticos, aqui mesmo em 'ta série, entre os quais Assalto ao Trem Pagador de Roberto Farias.
Bahia de todos os santos (1960), de Trigueirinho Neto, Sinhá Moça (1953), direção de Tom Payne e Osvaldo Sampaio, Carlos Diegues realizou Ganga Zumba (1964), Compasso de 'pera, direção de Antunes Filho, conta o drama de um intelectual negro representado por Zózimo Bulbull, na megalópolis São Paulo, tentando integrar-se na sociedade branca.
Filmado em 1969, O amuleto de Ogum (1974) e A tenda dos milagres (1977) ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, Xica da Silva (1976), direção de Carlos Diegues, Quilombo, de 1984, de 'sa vez como super-produ ção e Chico Rei (1985), direção de Walter Lima Junior.
Em 'ta vasta filmografia, dois fatos saltam aos olhos:
Diretamente ligados à história, aos dramas, e ao modo de ser dos negros do Brasil, nenhum destes filmes foi dirigido por um diretor negro.
Segundo: talvez por 'ta prosaica razão, em todos eles, de algum modo, os personagens negros são 'quemáticos, 'tereotipados ou idealizados, quase sem nenhuma diferença do quadro de ' arquétipos ' enumerado por João Carlos Rodrigues acima.
É fato também portanto que o negro brasileiro 'tá no cinema apenas com o corpo.
Não 'tá presente a sua alma.
Seus olhos não se reconhecem em 'tes corpos travestidos por 'tereótipos os mais diversos, uns frutos do preconceito ou da ignorância, outros fruto da arrogância elitista de uma certa classe cinematográfica voltada excessivamente para uma visão 'treita de nossa sociedade, contaminada por nossos vícios racistas mais recorrentes e sempre, renitentemente, presentes.
Uma alma, senão branca, desvirtuada por a visão 'quemática do filtro torto, com o qual a maioria de nossos cineastas enxerga a alma do negro (e, por extensão, dos pobres do Brasil).
Um dia, a moviola (que em 'te tema parece rodar sempre para trás) talvez avance rumo a um cinema de todos para todos.
As exceções a 'ta invisibiliade, quase paradigmática em nossas telas, são poucas, entre elas, Cajado Filho (1912 -- 1966), " cenógrafo e roteirista de dezenas de filmes de sucesso.
Dirigiu cinco longametragens entre 1949 e 1958, todos infelizmente desaparecidos.
Foi quase certamente o primeiro diretor negro do cinema brasileiro " (João Carlos Rodrigues).
Com um hiato de muitos anos, temos também «As Aventuras amorosas de um padeiro» de Waldir Onofre (cineasta que narra a alma suburbana da zona Oeste do Rio), ' Alma no Olho ', de Zózimo Bulbull, além de títulos 'parsos por aí, a maioria de cineastas negros iniciantes, unidos recentemente por o Centro Afro Carioca de Cinema, criado por Zózimo Bulbull e Biza Vianna que, a partir de referências seminais do cinema africano, do senegalês Ousmane Sémbene, do nigeriano Ola Balogun (que filmou no Brasil nos anos 80'A Deusa Negra ') e de Zezé Gamboa (prêmio do júri no Sundance Film Festival, em 2005), entre outros, todos reunidos num concorrido festival realizado cine Odeon (entre outros 'paços), no Rio de Janeiro em novembro passado, sonham quebrar 'ta muralha de invisibilidade emocional.
Em a crônica de 'tas inconveniências cinematográficas, que 'te grupo de cineastas negros visa superar, há casos até constrangedores, como a salada antropológica, de cunho grotescamente tropicalista e gosto duvidoso (até como cinema) com que Cacá Diegues tratou o Quilombo de Palmares, emblema de um episódio caro a alma libertária de todos os brasileiros.
Sem falar da ' mulata ' lasciva Xica da Silva, quase prostituta, que o mesmo cineasta filmara, alguns anos atrás.
A visão em Ganga Zumba (também de Cacá Diegues) de uma 'crava africana usando hennè nos cabelos (Luiza Maranhão, apesar de tudo uma grande atriz), um incidente não menos jocoso, me impele a contar também um incidente hilário, acontecido com mim mesmo.
Convidado com meu grupo Vissungo para atuar como músico de cena da versão de Sinhá Moça da Rede Globo de televisão, ali por volta de 1986, logo que tivemos o grupo aprovado, eu e meu parceiro Samuka fomos severamente admoestados por uma figura que se dizia do ' Departamento de Pesquisa ' da emissora (ou da novela).
A figura, com toda a arrogância deste mundo nos ordenou:
Vocês vão ter que raspar os cavanhaques!
A o que, trocando um olhar significativo questionamos:
Como assim?
Pesquisadores experientes de cultura negra (a despeito de nossa aparência de pé rapados), acabando de chegar de um intenso trabalho junto á produção de Chico Rei, de Walter Lima Júnior, ouvimos, pasmos, a figura vaticinar, já irritada com o nosso questionamento:
Os negros 'cravos eram imberbes!
Lembrei das dezenas de desenhos de Debret e Rugendas, Thomas Ewbank e tantos outros cronistas europeus, que consultávamos, avidamente, páginas e páginas de desenhos cheios de negros barbudos ou barbados, e tasquei a merecida pilhéria fatal.
A Sra. quer dizer então que eles usavam Presto Barba?
Corte brusco.
Fomos afastados -- ou nos afastamos-de a figuração das novelas da Globo, a bem da reles ordem dramaturgica que professavam -- e ainda professam-por lá.
Pelo menos em 'te caso, não podemos reclamar.
Enquadrados num daqueles arquétipos citados acima (Negro Revoltado), fomos defenestrados e metemos o pé na 'trada da invisibilidade voluntária.
Fazer o que?
Número de frases: 122
Spírito Santo De o analógico ao digital.
Essa conversa 'cutamos há tempo, mas raramente quando o objeto de análise é a TV.
Vivemos um momento de transição, em que o modelo de TV Digital tem sido discutido com veemência.
A questão é que a mídia nacional tem abordado o tema de forma reducionista.
Se limitando a discutir propósitos técnicos, como «alta definição» da imagem e padrões de implantação da tecnologia.
Já temas como interesse público e interatividade tem sido postos de lado.
Buscando agir a favor desses pontos 'quecidos, mais de cem entidades no Brasil têm entrado na briga pelo direito humano à comunicação.
Convidamos o jornalista pernambucano Ivan Moraes, representante da Ong Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF), para nos dar uma introdução sobre TV Digital e sua possível democratização.
«TV Digital?
«Tecnicamente falando, é um sistema de transmissão de dados por meio de um código binário (hoje, transmitimos de modo analógico, através de ondas eletromagnéticas).
Em a prática, algumas coisas vão mudar com certeza.
A imagem, seja lá qual for o padrão 'colhido, será melhor, livre de «fantasmas» ou «chuviscos».
O som também melhora bastante.
Agora, dependendo do padrão que for 'colhido (e do modelo de negócios adotado), outras mudanças também podem ocorrer.
Poderemos ter, por exemplo, uma multiplicação dos canais, dando vez a mais sujeitos se posicionarem publicamente em audio-visual.
De isso também depende a interatividade.
Já pensou pagar as contas por a televisão?
Isso pode acontecer.
Ou não."
Como a digitalização vai afetar a vida das pessoas na prática?
«Pode afetar um bocado ou muito pouco.
Se, por exemplo, importamos o padrão japonês fechado e mantermos o mesmo modelo de negócios vigente, sem alterar em nada a política de concessões de televisão.
O que teremos, então, é a possibilidade da alta resolução para a mesma programação.
Isso, claro, para quem tem grana pra comprar o conversor ou um televisor digital.
Ah, você também poderia ver o Big Brother no seu celular, se você tiver grana pra comprar um celular incrivelmente fantástico e caro.
Agora, se a gente mexe com o modelo de negócios, aí o bicho pode pegar.
E pode ser fantástico.
Hoje, mais de 90 % dos domicílios do Brasil têm televisão.
Pra você ter uma idéia do que é isso, 87 % têm geladeira.
Já pensou se, em dez anos, pelo menos metade desses aparelhos consegue, através da TV Digital, algum tipo de interatividade e acesso à internet?
Seria uma verdadeira revolução.
Isso sem falar da multiplicação dos canais.
Agora, é claro que isso não pode vir só.
Tem que ser precedido por a discussão do modelo de negócios.
Para o caso de multiplicar, por exemplo, é preciso garantir que os novos canais não vão ficar nas mãos dos mesmos concessionários, entende?"
Por que é importante a discussão e o incentivo às pesquisas brasileiras?
«A discussão é fundamental.
Não podemos nos deixar convencer de que se trata de uma discussão técnica, restrita a 'pecialistas.
O papo também é político.
O povo brasileiro tem agora uma oportunidade muito grande para democratizar os meios de comunicação.
Já pensou se os canais forem multiplicados e melhor distribuídos?
Silvio Santos poderia continuar distribuindo os carnês do baú, mas se você quisesse assistir a uma tevê comunitária, ou mesmo à emissora da universidade, ou outra tevê pública qualquer, era só mudar de canal.
Em a Constituição Brasileira fala da «complementaridade dos sistemas privado, público e 'tatal» de comunicação.
Hoje, quase tudo é privado.
Com a TV Digital, teríamos mais chances de conseguir 'sa tal complementariedade.
Quanto às pesquisas brasileiras, elas não começaram do zero.
Ainda no início do governo Lula, quando o ministro das Comunicações era Miro Teixeira, foram prometidos R$ 150 milhões para nossas pesquisas, que deveriam levar ao menos 12 meses.
Corta aqui, corta ali, pouco mais de R$ 50 mi foram gastos.
Mesmo assim, 80 instituições e mais de 1500 pesquisadores (as) trabalharam por oito meses e conseguiram resultados considerados excelentes.
Imagine o que fariam com mais tempo e dinheiro?
Será que não valeria a pena 'perar mais um pouco e investir mais em nossa tecnologia?"
Onde termina o interesse das grandes empresas e onde começa o interesse do público no assunto?
«Veja bem.
A Constituição de 88 diz que a programação de televisão deve dar preferência a finalidades educativas, culturais, artísticas e informativas.
Diz que deve promover a cultura nacional e regional, que deve 'timular a produção independente e que deve respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família.
Agora eu pergunto:
isso 'tá acontecendo?
Para as empresas, o interesse público já foi para o 'paço há muito tempo.
O que vale é o que se pode ganhar com isso.
É preciso que o «da poltrona» não seja mais visto apenas como um consumidor, mas como cidadão.
Se comunicação é direito humano, como é que informação pode ser tratada como mercadoria?
Isso não faz sentido, como não faz sentido usar a lógica de mercado para se regular a televisão.
O interesse público deve prevalecer e isso não é necessariamente incompatível com o lucro das empresas.
Pegando o exemplo da TV Digital, o que é que nós queremos?
Ver o detalhe do bigode do Ratinho?
Ou ter a oportunidade de, através da televisão, conhecer melhor o povo Truká, de Cabrobó ou as bandas que fazem a nova cena musical do Ibura?
Queremos ou não mais canais para que o povo possa se expressar?
Queremos ou não interatividade?"
Tv Digital e Inclusão social.
«Antes de começar uma palestra, eu costumo fazer uma pesquisa.
Pergunto o que o pessoal sabe sobre os povos indígenas em Pernambuco, sobre as comunidades quilombolas.
Pergunto sobre manifestações artísticas em bairros do subúrbio e mesmo sobre a representação parlamentar no Estado.
Depois eu pergunto quem foi a última 'posa de Ronaldinho.
Os resultados são incríveis e deixam clara a invisibilidade da maior parte da população.
Quem não tem acesso aos meios de comunicação é como se não existisse.
E como é que gestores (as) públicos (as) vão fazer política pública pra quem não existe?
Poder se expressar -- e ser compreendido (a) é um direito humano que não pode ser dissociado dos outros."
Para quem trabalha de forma independente com audiovisual, de que forma poderá utilizar a " TV Digital?
«Se houver a multiplicação democrática dos canais, quem trabalha com audiovisual verá multiplicar-se as chances de suas obras serem veiculadas.
Hoje, praticamente são raros os 'paços das produções independentes.
Em a lógica do mercado, as brechas na grade de programação são negociadas e poucos (as) têm condições de cobrir 'ses custos.
Isso também é curioso.
A empresa que é contemplada com uma concessão pública para utilizar um canal.
Aí pega e «loteia» a grade para vender / alugar os 'paços.
É como se você me emprestasse seu carro para eu poder levar teus filhos na 'cola e eu o utilizasse como taxi."
Com o desenrolar dos acontecimentos, você 'tá confiante no resultado final?
«Quando se milita no movimento do direito à comunicação, a gente aprende a comemorar muito as pequenas vitórias.
Para a gente 'tá sendo muito bom ver o debate se 'palhando, ver a quantidade de eventos que 'tão acontecendo no Brasil inteiro e ver também que Pernambuco tem sido uma referência nacional em 'sa movimentação.
Falar de direito humano à comunicação já não soa tão 'tranho e é fantástico ver a quantidade de gente querendo entender mais o que 'tá acontecendo.
Já houve dois adiamentos da decisão, o que a gente encara como vitórias, embora tenhamos a consciência de que não fomos os únicos envolvidos em 'se processo.
Agora, no dia 4 de abril, haverá um seminário no Congresso Nacional para discutir isso.
O CCLF vai 'tar lá, claro.
A própria possível saída do ministro Costa, capataz das emissoras, que deve disputar o governo de Minas, também é um bom sinal para a gente.
Então, por mais difícil que possa parecer 'se embate, a gente sempre fica 'perando o melhor de ele."
Quer deixar alguma mensagem para quem 'tá lendo a matéria e se interessa / preocupa com a problemática?
«Não existe direito que não seja reivindicado.
Se você acha que a televisão não tá legal, que pode mudar, é preciso fazer alguma coisa.
Se você concorda que o povo tem o direito de se comunicar, precisa fazer alguma coisa.
Essa discussão da TV Digital ainda pode render muita coisa e a possibilidade de algo muito interessante acontecer é grande.
Aqui, no Recife, a Campanha «Eu quero discutir TV Digital» já ganha corpo e é vista nacionalmente.
Criamos uma comunidade no Orkut chamada «Eu quero discutir TV Digital» que cresce a cada dia.
É preciso se informar para participar dos debates, dos atos públicos, dos seminários, das audiências.
A gente ainda pode fazer uma diferença.
Para isso, é preciso que as pessoas percebam que não são reféns da mídia e passem a interferir.
E isso não é conversa só para a jornalista, pra publicitário.
É para à advogada, para o engenheiro, pra o cozinheiro, para à motorista ...
Comunicação é uma coisa importante demais pra ser somente discutida por comunicadores e comunicadoras."
TV Digital na web:
www.crisbrasil.org.br
www.intervozes.org.br www.fndc.org.br
www.cclf.org.br www.midiaindependente.org *
Número de frases: 111
Matéria publicada em abril de 2006 na Revista Giro & 1.
Amanhã começa mais um maio, mês que tradicionalmente é marcado por as celebrações e por as discussões acerca da questão da negritude, muito por conta de ser celebrada, em seu dia 13, a Abolição da Escravatura.
Este mês de maio, 'pecialmente, vai concentrar ainda mais festas e discussões em torno do tema, afinal, completam-se nada menos que 120 anos desde que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que extinguiu a 'cravidão no país.
O mais peculiar é que, mesmo depois de tanto tempo e de 'tar em todos os livros 'colares de história, na mídia e nas discussões socioculturais das mais diversas 'feras, a Abolição da Escravatura no Brasil ainda é uma incógnita para a grande maioria da população brasileira.
A impressão geral é que o marco histórico se sucedeu de forma repentina e por iniciativa exclusiva da então princesa.
E mais:
há uma certa lenda de que, assinada a Lei Áurea, os negros até então 'cravos foram relegados a uma subvida social, em que não sabiam nem conseguiam se realocar na sociedade como seres libertos.
Todas 'sas leituras, porém, fazem parte do «imaginário do tronco», expressão que o professor Eduardo França Paiva, do departamento de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) utiliza para definir a visão que a grande maioria das pessoas tem da Abolição.
Especialista em 'cravidão no Brasil e autor de diversos livros, entre eles «Escravidão e Universo Cultural na Colônia (Editora UFMG, 2001)», 285 págs.,
R$ 32,30), Paiva explica que «a história da Abolição ainda é muito mal conhecida e muito mal contada».
«A história da 'cravidão e da Abolição no Brasil é até hoje muito imbuída de abolicionismo.
Continuamos olhando para 'se passado segundo interpretações e fontes do século XIX.
Em 'se caso se repete um maniqueísmo em que há o herói, a vítima e o algoz, mas as coisas nem sempre são assim.
É uma crueldade historiográfica destituir os negros do papel ativo e fundamental que tiveram para que a Abolição acontecesse», afirma o professor.
Para Entender.
Eduardo França Paiva não quer dizer, claro, que os livros que 'tudamos nas 'colas 'tão mentindo.
«A história não é um objeto pronto.
É um organismo vivo, por isso é necessário que ela seja pensada e repensada com as perspectivas que vão surgindo.
É importante entender que houve um tempo em que era conveniente 'crever a História de 'sa forma que a maioria das pessoas conhece», diz Paiva.
Deixando, então, de lado, o modelo propalado e nem um pouco correto sobre a Abolição da Escravatura no Brasil, vamos aos fatos:
«Quando, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi assinada, ela libertou todos os negros que eram 'cravos no Brasil, mas o número de 'cravos era muito inferior em 'sa época, em relação aos séculos XVII e XVIII», explica Paiva, botando por terra o clichê que faz crer que milhões de negros foram libertos a partir da» Lei Áurea.
«Já havia no Brasil e em outras áreas 'cravistas uma longa tradição de alforrias, que eram, na maior parte, compradas por os 'cravos.
Esse número era imenso, a ponto de já no século XVIII a população de forros e de filhos de ex-'cravos suplantar a população 'crava», conta Paiva.
Não há censo oficial, mas 'timativas apontam que na então capitania de Minas Gerais (" a mais populosa, mais rica e mais importante, portanto um bom sumário para se falar de Brasil "), havia 130 mil forros e descendentes de primeira geração, enquanto a população 'crava atingia os 110 mil e os brancos, 80 mil -- um marco importante para 'sa reviravolta é o ano 1850, em que o tráfico de 'cravos da África foi proibido.
«A Lei Áurea foi apenas o reconhecimento de uma realidade que já existia.
O negro teve participação direta em sua própria libertação», conclui o professor, reiterando, então, que a história real não condiz com a imagem de que a Abolição da Escravatura no Brasil foi um ato de benevolência dos brancos.
De o mesmo modo, é leviano afirmar que os negros ficaram relegados a uma subvida após a " Lei Áurea.
«Eles não precisaram se integrar porque já 'tavam integrados social e culturalmente», afirma Eduardo França Paiva.
Comunidade DOS ARTUROS SIMULA 13 De Maio DE 1888
Prestes a completar 120 anos, a assinatura da Lei Áurea é comemorada por comunidades e por órgãos que se relacionam diretamente com a herança africana no Brasil.
Diversos são os eventos festivos e reflexivos ligados ao significado do 13 de maio.
Em Minas, uma das mais tradicionais celebrações é a festa promovida por a comunidade dos Arturos, grupo de quilombolas descendentes do 'cravo alforriado Artur Camilo Silvério que fica em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte -- 'te ano, a celebração será no dia 11.
«A festa, para nós, é uma das formas de tentar manter a nossa cultura e a nossa tradição.
Começamos na matina, com a procissão e as bençãos a partir das 5h da manhã.
Depois, o pessoal todo se uniformiza, toma café e sai o cortejo até o 'paço popular da Igreja Matriz do centro de Contagem.
Lá, cantamos, dançamos a nossa tradição, recebemos as guardas convidadas e simulamos o 13 de maio de 1888 com a leitura da Lei Áurea», explica Geraldo Bonifácio da Luz, um dos Arturos.
«Eu acredito que, hoje, ainda sofremos preconceitos, mas o negro 'tá conquistando o seu 'paço.
Para melhorar isso, eu acho que a tradição é importante», completa.
Outra Escravatura.
O ministro Edson Santos, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), diz que a 'cravidão no sentido trabalhista foi abolida, mas perdura uma outra forma de 'cravatura.
«Perdemos quase cem anos 'condendo nossos preconceitos sob o mito da igualdade racial que veio pós 13 de maio de 1888.
Com isso, os negros foram prejudicados no acesso à educação, ao mercado de trabalho etc..
Já passou da hora da questão dos preconceitos deixar de ser velada e passar a ser discutida amplamente, só assim podemos 'tabelecer igualdade no Brasil», avalia " Edson Santos.
«Apesar de recente, a Seppir tem 'tado próxima dos movimentos e tentamos sempre lutar para erradicar o preconceito.
Temos dado bons passos.
Podemos dizer que o acesso à universidade por os negros já melhorou, com o sistema de cotas.
E acredito que 'ses jovens negros que 'tão nas universidades vão naturalmente fazer uma pressão positiva e o mercado não vai ter como ignorar 'sa massa inteligente», acrescenta o ministro..
Para o dia 13 de maio, a Seppir vai realizar seção solene em Brasília, em que vai lançar o Mapa da Desigualdade Racial no Brasil, elaborado por o IBGE.
Alguns Eventos Acerca DOS 120 Anos da Abolição
2 a 4/5
Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial da Bahia, em Salvador
7/5 I Seminário de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em Brasília
9/5 Fórum Interinstitucional de Gestores e Comunidades Quilombolas, no Rio de Janeiro
11/5 Festa da Abolição com a comunidade dos Arturos, no Espaço Público da Igreja Matriz do centro de Contagem
13/5 Sessão Solene em comemoração aos 120 anos da abolição da 'cravatura no Brasil, no Senado Federal, em Brasília
Manifestação da Federação Mineira das Comunidades Quilombolas em frente ao Palácio da Liberdade, Belo Horizonte
18/5 Apresentação da Cia..
Baobá de Cultura africana na praça da Estação
23 a 25/5
Encontro Lapinha Museu Vivo no Mês da Abolição, na Gruta da Lapinha -- *
Matéria Publicada EM 30.
4.2008 Em o Jornal O Tempo -- www.
Número de frases: 62
OTEMPO.COM.BR Em os cruzamentos da cidade, entre carros e flanelinhas, o toque lúdico dos malabaristas urbanos encantam motoristas que aguardam a luz verde dos sinais de trânsito para engatar a primeira.
A febre de manipular objetos circenses conquistou 'paço e se tornou uma das atividades preferidas de quem quer unir lazer, concentração e, em muitos casos, ganhar uns trocados.
Com ares de novos saltimbancos, uma legião de viajantes 'trangeiros -- que circulam por o mundo passando o chapéu e repassando a arte dos malabares -- desembarcou em Natal nos últimos dois anos.
Esse 'pírito aventureiro parece ter contaminado os natalenses, que o digam David Mãozinha Ferreira e Wanderson Cobra, amigos do uruguaio Nicolas Sena.
Nicolas, 26, mais conhecido como Chino, vem circulando por o Brasil há cerca de dois anos e acabou ' dando um tempo ' em Natal:
«Estou viajando apenas com meus malabares.
Procuro uma praça ou fico num sinal de trânsito para conseguir alguns trocados e seguir viagem», disse.
«Por onde passo, procuro transmitir a arte do malabarismo e ensino a construir os próprios instrumentos», completa.
O trio vem ' trabalhando ` junto há alguns meses e a rotina lembra realmente a maneira ' saltimbanca ' de ser:
«Procuramos apoio de alguma 'cola, e em troca de abrigo e comida realizamos oficinas com as crianças», informa David.
Quando são convidados por 'colas particulares cobram cachê ou pedem doações de roupas -- distribuídas entre crianças carentes de 'colas públicas.
«Basta treinar com determinação que em cinco dias qualquer pessoa já 'tá ' malabarizando '.
Em o meu caso, no segundo dia já 'tava mexendo com malabares fumegantes», garantiu Wanderson.
«O legal é que cada um, naturalmente, acaba se 'pecializando numa modalidade de acordo com a aptidão.
Em o momento 'tou aprendendo a lidar com as bolinhas», explicou David, que prefere a clava e o Devil Stick *.
Wanderson é adepto do Devil e 'tá aprendendo o lançar o Diabolo *, enquanto Chino prefere as bolinhas.
Todos lidam com fogo.
Concentração, auto-'tima, terapia e 'porte
A onda de malabares serviu para mostrar que 'sa arte deixou de ser vista com preconceito e 'tá entrando nas casas através das crianças.
«Em o início pensei que eram apenas desocupados que preferiam ficar pedindo 'molas nos sinais.
Depois percebi que a prática mudou o comportamento de minha filha.
Estava enganada e hoje sempre contribuo com aqueles que 'tão fazendo performances nos sinais», disse a dona de casa Francisca Lacerda, de 47 anos.
Sua filha, Regina Lacerda, 16, já 'tá craque no manejo do Devil Stick * -- a principal modalidade praticada por os jovens.
«Estou mais concentrada», disse a garota que já sabe qual será o próximo passo:
quer aprender a andar de perna de pau e jogar bolinhas ao mesmo tempo.
«É meu sonho!»,
planeja.
Além da concentração, a prática traz outros benefícios para o corpo e a mente.
«Melhora a musculatura, o reflexo, a coordenação motora e desenvolve a consciência de ritmo», explicou o artista de rua João da Noite (pseudônimo).
«A prática ainda melhora a visão periférica e desenvolve a paciência, sem contar a satisfação pessoal e o aumento da auto-'tima proporcionado por a realização de uma nova manobra», acrescenta.
Kadu, 25, outro malabarista de cruzamentos, 'tá treinando com Devil Stick * há apenas dois meses e disse que o aprendizado depende da vontade e determinação de cada um.
«Iniciar é como um gatilho».
Kadu vê no malabarismo uma forma de praticar 'porte, fazer terapia e ainda ganhar alguns trocados.
«Chego a ficar 5 horas treinando sem parar.
Quanto aos sinais, tem dia que fico o dia inteiro e sei de gente que arrecada quase cem reais num único dia!».
Em a sacola dos malabares
Malabarismo: Arte de origem chinesa que consiste em manipular objetos com destreza.
Uma das mais típicas artes de circo.
Embora existam muitos tipos de malabarismo, ele geralmente consiste em manter objetos no ar, lançando e executando manobras.
* Devil Stick:
Um dos instrumentos mais utilizados por os novos malabaristas e da categorias dos sdimples.
Termo inglês para definir o bastão japonês.
Bastão Japonês:
bastão de madeira torneado e enrolado com fitas decorativas, manipulado com duas baquetas.
Apesar do nome, sua origem é chinesa.
Há também as versões Fire Stick (com fogo) e Flower Stick (decorado com fitas que lembram flores -- em chinês ' Hua ` = flor e ' Kun ` = bastão ou haste, então ' hua kun ` = ' bastão florido ') * *
Diabolo: São dois cones de plástico ou de borracha, semi 'feras, que se assemelham a uma 'pécie de iô-iô gigante.
O objetivo é fazer manobras mantendo a rotação constante sobre um fio preso a bastões.
A modalidade é praticada na China há mais de 4 mil anos onde, ainda hoje, fabricam-se Diabolos em madeira e bambu.
Bolinhas:
Também de origem oriental, é das modalidades mais antigas e difundidas do malabarismo.
Normalmente as apresentações acontecem com 3 bolinhas, mas já conseguiram realizar manobras utilizando 11 bolas.
Há versões com fogo (manipulada com um par de luvas 'pecial) e as de alta tecnologia (programável nas cores azuis, vermelhas e amarelas).
Clava:
objeto que lembra um pequeno bastão de beisebol.
A modalidade possibilita a execução com outros aparelhos como facas e tochas.
Muitas fabricam clavas com material reciclado.
Número de frases: 57
Um trio em forma de contos de fada
Tudo começou um dia antes, na quinta, quando fui assistir ao primeiro show do trio Rásimo no bar Ocidente.
Só de saber de antemão a formação e a proposta do grupo já me lambi os beiços.
O projeto é encabeçado por o baterista e percursionista Diego Silveira (nova promessa da composição moderna brasileira, que também toca no Conjunto do Arthur e é um dos fundadores das bandas Faskner e Relógios de Frederico), atacando tachos de cobre e alumínio, tambor africano, tambor paraense, djembe, pandeiro, lixeira e outros utensílios de plástico.
Em o interesse de pesquisar timbres novos e achar sons diferentes, Diego juntou suas idéias e baquetas com seu colega de Relógios de Frederico, o soprista Rodrigo Siervo -- sax barítono, sax de bambu, pífanos e ocarinas (ouçam o Siervo também na Camerata Brasileira) -- e o meeeeeeestre e cada vez mais multi instrumentista Ângelo Primon (hors concours das cordas em Portinho.
Confiram o disco de ele Mosaico) -- viola caipira, sitar, viola de cocho e berimbau -- pra unicamente improvisar.
É inexplicável definir o que acontece numa apresentação de 'sas.
Até porque nem mesmo os próprios músicos sabem e prevêem.
O que se pode dizer é que há uma interação muito forte entre instrumentistas e instrumentos a favor de um único movimento:
fazer música.
Só 'sa atitude já seria louvável.
Porém, o que deu pra perceber no trio Rásimo foi um frescor musical e uma vontade de tocar que há muito eu não via por aí.
O pouquíssimo público presente no Ocidente (explicado por a concorrência do circo da china e de um show da Ultramen no mesmo dia) propiciou um clima ainda mais intimista.
Pra quem pensa que três caras improvisando sabe-se lá por quanto tempo em seus instrumentos inusitados é chato, recomendo dar uma ouvida com cuidado no Rásimo.
A musicalidade que se faz sentir é de causar verdadeira comoção.
Já de início, salta uma linha descoladíssima de sax barítono e nada mais.
Só pra criar um clima.
A partir daí, um mar de idéias musicais começa a tomar conta do ambiente, enquanto Ângelo e Diego vão indo atrás do motivo que o Siervo lançou.
Os timbres que resultam daquela simbiose de sons aparentemente diferentes aos ouvintes mais desatentos são quase palpáveis.
A certa altura juro que tentei agarrar com as duas mãos um solo de sitar do Ângelo, mas logo em seguida me dei conta de que era fisicamente impossível.
Em meio aos climas que vão surgindo -- cada um melhor que o outro, os instrumentos também vão sendo alternados, mas sem perder em nenhum momento a uniformidade do som que ali 'tá 'tabelecido.
Outro fator que fica claro durante 'se desfile de bom gosto musical é a brasilidade dos músicos da Rásimo.
Não sei se ouvi bem, mas até baião eu saquei num dos momentos da apresentação e tenho certeza de que rolou uma citação de «Cidade Maravilhosa» num dos solos de berimbau com slide do Primon!
As melodias tiradas por o Siervo dos seus brinquedinhos de assoprar são de se refestelar e, pasmem, as que Diego concebe nas suas bacias de cobre também são deslumbrantes -- poucos percursionistas conseguem usar suas armas rítmicas melodicamente tão bem.
Creio que o que aconteceu naquela noite no Ocidente foi mais do que um 'petáculo musical.
Foi uma bela e emocionante fábula, com início meio e fim, conduzida por três instrumentistas que têm muita história nova pra nos contar.
Confiram aqui uma amostra.
Música pra ouvir sentado
Aí veio sexta.
E em troca de um quilo de alimento fui ver o novo repertório instrumental do Arthur de Faria & Seu Conjunto na livraria Cultura.
Crianças e idosos saiam da sala.
O Arthur tá compondo cada vez melhor e criando umas peças beeeem dodóis.
O entrosamento da banda é visível.
Mas o mais bacana é que o Art faz uma música inegavelmente de vanguarda, bem-humorado e sem ser chato, além de misturar ritmos latinos (tem bolero, habanera, tango, milonga etc) com um viés jazzístico-mas-nem-tanto que geram umas nuances agradabilíssimas aos ouvidos.
A formação do Seu Conjunto (Baixo, guitarra, bateria, piano, sax alto, fagote e trombone) torna a exposição dos temais ainda mais interessante, em função da combinação dos timbres e da execução dos músicos -- todos cobras que eu nem vou citar, porque senão vira babação de ovo.
O show é completamente instrumental e com muito 'paço pra improviso de todo mundo, inclusive do dono da banda -- que assumidamente não é um improvisador!
E os guris 'tavam endiabrados naquele fim de tarde.
Até porque os temas dão margem a isso.
Os pontos mais altos foram Osvaldo y Astor en Vênus -- tango doente que o Art fez em homenagem a dois papas do ritmo porteño Osvaldo Pugliese e Astor Piazzola, Fables of Faubus -- do grandessíssimo e, ainda bem, louco de atar Charles Mingus-, 25 de Março -- um rápido free jazz valseado que é uma verdadeira loucura -- e o melhor do show:
Prenda Minha.
Só que na versão do Artur.
O clássico do cancioneiro gaúcho ganhou um arranjo polifônico que fez dois casais (já de cabelos bem branquinhos) que 'tavam sentados ao meu lado saírem correndo da pequena sala de audição.
Uma maravilha!
Mais em:
Número de frases: 44
www.seuconjunto.com.br Térence Veras
Banda formada por meninos do interior cearense disponibiliza cd na Internet
Enquanto por as festas de São João no Ceará o hit do momento 'palha sutis refrões como «chupa, que é de uva» ou «senta, que é de menta», Os Cabinha chegam fazendo rock -- e algum 'tardalhaço.
Antes mesmo de ganhar forma física, seu primeiro cd já 'tá disponível para download no Banco de Cultura do Overmundo e no site Trama Virtual.
Mas o que pode haver de tão novo em mais um quinteto que faz referências aos grandes nomes do rock mundial?
A resposta 'tá na certidão de nascimento:
Os Cabinha, banda de iniciação musical da Fundação Casa Grande ('cola de gestão cultural localizada em Nova Olinda, Cariri cearense), é formada por meninos entre nove e 11 anos.
Rodrigo Alves, Renê Nascimento, José Wilson, Arthur Diniz e Iêdo Lopes, são os astros de shows pouco ortodoxos, em que empunham guitarras e contra-baixos de madeira, acompanhados de percussão feita de lata.
E que se diga:
instrumentos construídos por eles.
«Em o palco, eles imaginam que 'tão tocando, enquanto a platéia acredita que ouve», define o coordenador da instituição, Alemberg Quindins.
A descrição é uma referência ao som dos instrumentos das crianças, que excetuando a percussão, é todo feito com a boca.
Selecionados por o Rumos Itaú Cultural, se apresentaram na sede do instituto em abril de 2008, abrindo o show da brasiliense Móveis Coloniais de Acaju.
Antes disso já haviam passado por Salvador, Fortaleza, e (fazem questão de contar) Icó, interior cearense.
Além de músicos, 'ses cabinhas -- sinônimo de «menino» no nordeste -- são radialistas, câmeras, gerentes de laboratório de conteúdo e recepcionistas-mirins, que guiam turistas por a instituição.
Passam sete dias por semana na Casa Grande, que possui entre seus laboratórios o 'túdio de áudio -- o mais bem equipado da região.
E foi lá que a bandinha gravou seu primeiro cd, com a ajuda dos meninos mais velhos, respeitando a pedagogia do ensino não-formal:
não há professores ou inspetores por lá.
O disco, que leva o nome da banda, sairá no segundo semestre de 2008, com tecnologia SMD (Semi Metalic Disc), que barateou o custo da mídia.
Será vendido a R$ 5 reais em máquinas da ONG Eletrocooperativa, instaladas em pontos 'tratégicos do país, dentro do projeto «Música livre e comércio justo».
Por enquanto, pode ser baixado aqui no Overmundo, e também por o site Trama Virtual, por o endereço www.tramavirtual.com.br/os cabinha
Saiba Mais:
MySpace de Os Cabinha:
Número de frases: 23
www.myspace.com/oscabinha Estamira
Mire-veja:
Estamira. Esta mira.
Esta mirada.
Este jeito de olhar.
Esse modo particular de ver.
A singularidade do ser.
Para além dos delírios, dos sintomas, todos facilmente enquadráveis numa classificação epidemiológica, um discurso.
Absurdo, mas não sempre.
E não sem sentido.
Ela repete freqüentemente seu nome:
Estamira. E parece 'tar dizendo:
mire-veja, ouça-me, encare o meu ponto de vista.
Respeite-me.
Acredite-me.
Em o final ela diz algo como:
eu trago a boa sorte, mas a minha sorte não é boa.
Ela se sabe, no fim das contas, infeliz, tratada como lixo a maior parte da vida.
Condenada a viver do lixo, de ele extraindo vida, força e garantindo a sobrevivência dos filhos.
Ela renega Deus.
Ela manda enfiar Deus no cu.
Ela conhece o pode ilusório e massificante que a fé pode assumir.
Blasfema? Ela sabe que em algum momento seus pensamentos perderam a linha da «normalidade».
Mas ela sabe que tem algo a dizer.
Que tem um discurso, uma originalidade, uma personalidade, uma pessoa, por trás da mulher-urubu que mergulha em montanhas de lixo e de ele se alimenta.
Ela é Estamira.
Mire veja:
ela não acredita que ainda existam inocentes.
Ela diz que existem 'pertos ao contrário.
Ela enxerga inimigos, ouve vozes provocadoras, se agita e grita.
Mas ela é Estamira.
Ela é mais uma 'quizofrênica, do tipo paranóide, seu discurso não é inclassificável nos parâmetros médico-psiquiátricos, como li um pensador dizendo num jornal.
Não, ela cabe nos critérios diagnósticos, há um CID (classificação internacional de doenças) para ela, há remédios para aliviar uma parte de suas dores mentais.
Mas há uma mulher, um nome, um rosto.
Ela se diz grata ao lixo.
Ela o freqüenta com gosto.
E não é por nenhum capricho 'copofílico fruto de sua doença.
É porque ali ela se sente gente, ela trabalha, ela encontra nos restos algo que nutre a sua dignidade de cidadã excluída.
Foi de ali que ela conseguiu alimentar a família.
Que reluta em tirá-la do lixo e dos sintomas porque sabe que isso seria lhe tirar uma parte da existência.
Sempre comentei com amigos mais próximos que não dá pra deitar e dormir tranqüilo sabendo que há pessoas se alimentando do nosso lixo.
Porque já me peguei pensando:
«Não vou misturar 'se queijo que 'tou jogando fora com o resto do lixo, senão vou inviabilizar a refeição de alguém».
Para aquém de preocupações ecológicas, embora eu seja um simpatizante da reciclagem, um pensamento que é covardemente conivente com a miséria, a fome, a sub-humanidade a que tantos brasileiros são condenados para sustentar nosso conforto.
Mas Ela 'tá lá.
Vem trazer a verdade.
Vem nos alertar sobre o inimigo, disfarçado, o 'perto ao contrário.
Lembrei de tantas coisas:
de como rimos, às vezes, interiormente, com as construções delirantes de nossos pacientes, ou comentamos depois com os colegas, ou de como apenas os ouvimos rapidamente e logo cortamos a frase para receitar a medicação que os deixará livres de suas inquietações (o que ele terão para colocar no lugar?).
Estamira não quer se livrar da sua loucura.
Ela quer que a sua verdade seja 'cutada.
Lembrei da luta da minha irmã Vitória, lá em Campina Grande, junto com o Ministério da Saúde, para devolver um mínimo de dignidade a centenas de «loucos» crônicos, confinados num hospital psiquiátrico tão antigo e tradicional quanto criminoso, que deixava os doentes em celas, nas quais eles exprimiam suas aflições 'crevendo com fezes nas paredes (como o Marquês de Sade, no filme que eles não viram), trancafiados por décadas, para enriquecer um dono de hospital com fortes vinculações políticas.
De esse trabalho Vitória fez registros, não para obter publicidade, mas porque sua indignação não podia ficar restrita aos seus olhos ...
Fotos, um blog, crônicas.
A experiência irá ilustrar sua tese de doutorado em andamento.
Tudo para tornar mais crível o que seus olhos sensíveis quase secaram ao constatar.
Ela (e a equipe envolvida) deu a eles casa, assistência médica, sessões de cabelereiro e até os levou a um 'túdio para que eles fossem fotografados, cada um com uma foto de si mesmo para enfeitar a parede da nova casa, as chamadas residências terapêuticas.
Pessoas que perderam a noção de valores monetários, de como pegar um ônibus ou acender o fogo para fazer um café.
Ela, contrariando meus rígidos conselhos, transportava-os em seu próprio carro, às vezes, para as consultas, o banco, o mercado.
Deixava-se abraçar por aqueles sorrisos desdentados de hálito fétido e aquelas cabeleiras cobertas de piolhos.
O que lhe importava era o afeto que 'tava dando e recebendo, e respeitar aqueles não-cidad ãos, vivendo como 'cravos, alienados no sentido literal do termo, em pleno século 21.
Um dia Vitória foi trabalhar e descobriu que, sem aviso, uma substituta sem experiência na área fora colocada em seu lugar, por obra daquelas forças ocultas que o mundo da política insiste em deixar fluir.
Mas o que ela plantou, que não 'tá nem palidamente descrito aqui, há de continuar dando frutos.
Mas voltemos à Estamira.
Que usa a lente de Marcos Prado para nos revelar sua missão.
Sua missão tem sido exitosa.
O documentário já correu o mundo, premiadíssimo, e agora nos alerta, emociona, revolve, nauseia, cutuca nossas almas e nossa vaidade tola, nas telas dos cinemas de São Paulo.
Eu precisaria ver de novo, porque de memória não guardei as frases magníficas da sábia Estamira.
A o colocar 'te nome no google, milhares de páginas apareceram, e preferi não ler nada além do que 'tá no site oficial para não «contaminar» os pensamentos deste texto, que no entanto é superficial, não mostra nem de longe o impacto, a emoção e as lições aprendidas com o documentário.
Mas fica 'se registro tosco, para 'se nome sonoro:
ESTAMIRA.
Mire:
veja bem:
me ouça:
me 'cute:
me enxergue:
me toque:
me acredite:
me respeite:
me dê dignidade:
me dê vida!
Me deixe viver!
E ela arremata, como quem indaga, a nós, do mundo, «se é mais inteligente o livro ou a sabedoria», num tratado condensado (numa frase) sobre a criatividade, a força das idéias, da vontade humana, da potência dos sonhos, do discurso individual mas não individualista, que teima em querer ser ouvido:
«tudo que é imaginário tem, existe, é».
Número de frases: 84
O negócio é o seguinte:
se você olhasse um leão na sua frente (considerando que tenha a improvável sorte de não ser devorado), e algum tempo depois visse um outro leão (considerando que seja realmente rabudo de não ser devorado mais uma vez), você saberia dizer se era o mesmo leão ou um outro?
A não ser que seja um domador, um zoófilo com tendências suicidas ou um funcionário do jardim zoológico (ou as três coisas juntas, vai saber), você dificilmente saberia dizer.
E dificilmente sairia vivo, claro.
É 'ta a indagação que dá titulo ao 'petáculo Os Leões, da companhia curitibana A Armadilha, eleito um dos grandes destaques no Fringe (mostra paralela do Festival de Curitiba que de paralela não tem nada, uma vez que é promovida por a própria organização do festival oficial).
A montagem 'tá em cartaz até o final deste mês na unidade provisória do SESC Avenida Paulista, e faz parte do projeto Primeiro Sinal, em que o SESC apresenta produções de grupos jovens em início de carreira, possibilitando uma maior visibilidade para novos talentos.
Tinha que ser o SESC.
Em a trama, dois homens vivem dentro do mesmo apartamento e conversam sobre banalidades.
De 'tas banalidades surgem pensamentos que, apesar de desconexos, vão sendo incorporados a diálogos absolutamente improváveis, num clima surrealista delicioso criado por a dramaturgia obscura do 'panhol Pablo Miguel de la Vega y Mendoza (não parece nome de personagem do Zorro?).
De fato, o texto é um dos pontos altos da montagem -- os outros principais pontos são a direção competente e a cenografia simples e bem elaborada.
Só a iluminação peca um pouquinho por o acende-apaga um tanto excessivo, embora 'te seja um detalhe bastante sutil e relevável.
Confesso: tenho trauma de Natal e não gosto de pisca-pisca.
As atuações de Alexandre Nero e Diego Fortes oscilam entre o clima surrealista proposto por o texto e algumas leves 'corregadas para um naturalismo televisivo vicioso, mas nada que comprometa a qualidade da montagem e muito menos o dinamismo do texto, que entre tantos vaivéns, déja-vus, diálogos e situações improváveis, causam na platéia a confusão proposta por a metáfora do título:
é difícil de se dizer se 'tamos de frente para dois ou apenas um homem que não toma café.
Um desafio interessante para um grupo que se propõe a trabalhar com um texto que não parece ser de tão fácil digestão.
Em a saída, divido o elevador do antigo 'critório administrativo do SESC com dois jovens «culturetes» que comentam sobre a crítica que acabaram de ler no mural, dizendo se tratar da primeira incursão de Nadja Naira na direção.
«Por isso então que é 'sa droga», conclui a garota, numa 'pécie de compreensão sarcástica.
E o rapaz que a acompanha ri.
Número de frases: 18
Particularmente não tive a mesma impressão, saí do teatro satisfeito com o que vi e intrigado por um texto leve e instigante, embalado por a voz de Billie Holiday que ainda ecoava na minha cabeça.
A Mitocôndria Produtora de Idéias lança, dentro do 12ª Goiânia Noise Festival -- entre 24 e 26 de novembro, no Centro Cultural Oscar Niemeyer --, o Guia Goiânia Rock City, um mapa contendo informações sobre os principais lugares ligados ao rock em Goiânia.
Com pesquisa de Geórgia Cynara e Homero Henry, design de Orlando Lemos e colaboração de Eduardo Mesquita e Leonardo Santana, o guia vai informar aos públicos local e nacional os principais elos do circuito alternativo da capital goiana, enumerando empresas prestadoras de serviços e locais de entretenimento que se destacam em 'se meio.
O Guia Goiânia Rock City é uma realização da Mitocôndria Produtora de Idéias, com patrocínio da Monstro Discos, Inside, Studio K, Jump Alternative Club & Cyber, Redrum Underground Wear, Atitude Musical, Musik Hall, Estúdio Casa Velha, Hocus Pocus, Mute Cds e DVDs, Loop Estúdio, Fósforo Records, Alvo Discos, Studio Melody, Distorção Discos, Psicodelic, Vai Tomá no Kuka Bar, Harmonia Musical, Jander Tattoo, Revista Decibélica, Orlando e Gráfica Papillon, e apoio da Maquinária Produtora de Sons, Woodstock Bar, Studio INX e Anti Records.
Vendido a um preço simbólico de 5 reais, o Guia Goiânia Rock City vai colaborar na valorização talentos e serviços locais diante de outros 'tados brasileiros e da própria capital goiana, criando oportunidades de profissionalização para artistas e prestadores de serviço;
para o resgate e divulgação dos 'paços 'quecidos ou desconhecidos de Goiânia e a promoção da democratização da cultura goiana, mostrando facetas pouco conhecidas ou não divulgadas por a mídia local.
Cadeia produtiva
A Mitocôndria decidiu encarar o desafio e realizar 'se mapeamento em razão da atual efervescência cultural alternativa observada em nossa capital.
«Entendemos o rock não apenas como sendo um 'tilo musical, mas como uma vertente cultural marcada por a criatividade e por a ruptura com o tradicional;
um movimento intenso e caótico em sua complexidade, responsável por a criação de novos 'tilos de pensar, se vestir, se divertir, se alimentar», reflete " Geórgia Cynara.
«Queremos mostrar à nossa cidade, nosso 'tado e aos demais 'tados brasileiros a cadeia produtiva que envolve 'se processo cultural em Goiânia -- cadeia 'ta formada tanto por iniciativas já consagradas quanto por aquelas que caminham em busca da profissionalização», completa.
O Guia Goiânia Rock City contém a localização de 'paços culturais, selos e produtoras, 'túdios de ensaio e gravação, equipes de som, lojas de instrumentos musicais, bares, restaurantes, bistrôs, cinemas, sebos, livrarias, lojas de discos, 'túdios de tatuagem, lojas de roupas, parques e museus, além de uma lista de telefones úteis a quem mora ou visita a cidade.
Com o guia, a Mitocôndria Produtora de Idéias quer dar visibilidade a cada parte constituinte de 'sa cadeia, para que se inicie então um processo constante de melhoria da qualidade dos serviços e conservação do patrimônio e do 'paço urbano de nossa capital.
«Em 'ta primeira edição do guia trazemos informações de locais importantes para o rock na atualidade.
Mas não vamos parar por aqui.
Número de frases: 15
Geórgia e eu já começamos uma pesquisa para a elaboração do segundo guia, que deve ser lançado em 2007», anuncia Homero Henry.
Mercado paralelo de CDs faz agora o disco «genérico» que, bem finalizado, 'tá sendo vendido em lojas regulares de Goiânia com preço de original.
Nem sei se a roupa é tão nova, mas vamos lá.
Distinto, de roupa nova e elegante.
Ele já é um velho conhecido dos consumidores de música, perseguido até, mas 'tá de volta à praça sob o garboso nome de «genérico».
A pirataria parece se sofisticar na mesma velocidade das «armas» anti-pirataria e, tal como o samba em seus primórdios, 'tá adentrando os salões da nobreza.
Os bons e já velhos discos piratas 'tão chegando às lojas regulares com nova embalagem.
Bem finalizados, os discos «genéricos» (como são chamados no mercado) vêm com encartes coloridos e até impressão na face do CD, mas não resiste a uma observação mais atenta do produto.
O CD usado para a fabricação é simples, um CDR (regravável), desses encontrado no mercado por preços módicos.
Isto 'tá acontecendo em Goiânia.
A primeira «vítima» da 'tratégia foi encontrada num dos discos mais vendidos em Goiás por 'te 'criba colaborador deste Overmundo.
Duas lojas da rede Bazar Paulistinha, a mais tradicional loja de discos de Goiânia, vende CDs genéricos de Geraldinho Nogueira.
Comprei os dois volumes do famoso contador de causos que 'tá tendo os CDs originais reeditados por o seu idealizador, o publicitário Hamilton Carneiro ('crevo sobre 'ses discos e o artista logo abaixo).
Comprei o volume 1 com emissão de nota fiscal a R$ 18 na loja da Avenida Anhanguera (grande centro comercial da cidade) e o segundo volume foi adquirido por o mesmo preço na loja da rede instalada no Goiânia Shopping (segundo principal centro de compras da capital).
A 'tratégia engana o consumidor menos atento, mas não é muito difícil detectar a precariedade do material usado.
Apesar de colorido, o encarte tem falhas de impressão e os discos, diferente dos originais, não trazem o número de série da fábrica, impresso na face interna (o lado onde o aparelho de som «lê» as músicas).
Submeti os CDs comprados no Bazar Paulistinha a outros lojistas da cidade e à Delegacia do Consumidor (Decon).
Todos disseram se tratar de pirataria.
«Para efeito de processo criminal precisamos levar para análise técnica, mas dá para afirmar com certeza tratar-se de discos pirateados», afirmou o policial William José dos Santos.
O delegado titular da Decon, José Correia, disse que para o Decon não há eufemismos.
«Genérico é o mesmo que pirata».
Também delegado do órgão, José Carlos afirmou que a Decon já tem uma linha de investigação sobre 'te tipo de pirataria, mas nunca conseguiu «dar flagrante» ao ato.
Segundo lojistas do setor, que pediram para não serem indentificados, o mercado de genérico em Goiânia é bem menor do que o da «pirataria normal».
Conforme 'sas fontes, os «fabricantes» de CD genérico não passam de 30, que distribuem os produtos por todo o Centro-Oeste, Triângulo Mineiro e até o interior de São Paulo.
A Decon acha o número alto, mas não sabe dizer o tamanho deste tipo de pirataria na cidade.
O delegado titular José Correia diz que para a Decon abrir uma nova investigação sobre o caso, «é preciso primeiro pegar o original e ver com o dono dos direitos dos discos se não houve nunhum tipo de licença a terceiros para a produção dos discos».
Em a sequência, a Decon tentaria obter dos lojistas onde compraram os CDs genéricos.
Hamilton Carneiro, dono dos direitos autorais dos discos de Geraldinho Nogueira, diz que nunca autorizou nenhuma cópia em série dos CDs.
Resumo da história para mim:
do ponto de vista de Decon, Pronco e organismos do gênero, isso vai dar em nada.
Melhor o consumidor ficar atento na hora de comprar 'se tipo de trabalho regional nas lojas, digamos, oficiais.
O publicitário Hamilton Carneiro informou que com o fechamento da Anhanguera Discos, selo por onde os discos eram distribuídos, ele deixou os dois CDs de Geraldinho Nogueira fora do mercado por dois anos.
O hiato se deu em virtude das negociações sobre os direitos dos álbuns que Carneiro fazia com a família de Geraldinho.
Estimativas dos próprios lojistas e policiais da Decon dão conta de que o custo de um CD genérico não passa de R$ 3,50.
Percorri várias lojas de discos da capital, mas não encontrei outros discos «genéricos» à venda.
Em a verdade, 'se nem era meu objetivo.
Fui atrás de uma pista objetiva e achei o que queria.
Procurei insisitentemente os gerentes da Bazar Paulistinha, mas eles não quiseram se pronunciar sobre o assunto.
Abaixo, resumo a história de Geraldinho Nogueira e a nova reedição dos discos de ele.
Trova reeditada
Um dos artistas mais vendidos de Goiás, o velho Geraldinho Nogueira volta em CD reeditado que 'tréia o selo Frutos da Terra.
São dois volumes com as gravações do prosador caipira no programa Frutos da Terra, da TV Anhanguera (filiada da Globo), apresentado há 22 anos por Hamilton Carneiro.
O formato é Geraldinho soltando sua prosa em causos hilariantes mediados por Hamilton Carneiro e pontuados por modas de viola da dupla André e Andrade.
Caipira mesmo, aqui não tem nada de sertanejo-romântico.
Com o fim da gravadora Anhanguera Discos, que lançou primeiro os discos, o publicitário, poeta e apresentador Hamilton Carneiro retoma a gestão dos discos no selo próprio.
«Retomei porque ainda há uma demanda muito grande por 'te projeto, mas o fiz de uma forma negociada com a família do Geraldinho para dar fim de vez às acusações de apropriação que sofri», disse Carneiro sobre as críticas que recebeu de que ele teria lucrado com a projeção e venda dos discos do programa enquanto a família 'taria supostamente empobrecida.
«Nunca deixei de ajudar, mas agora eu sugeri que contratassem um advogado para 'tabelecer as bases legais do contrato», afirmou Carneiro sobre o contrato fechado com a família 'tabelecendo cotas de direitos artísticos (7 %) e autorais (8,4 %) para a viúva e filhos de Geraldinho.
Hamilton Carneiro diz que a pirataria quase o levou a desistir do projeto.
Depois da primeira edição, os CDs Trova, Prosa e Viola passaram um bom tempo fora das prateleiras das lojas.
Com o novo selo, os dois volumes do CD sai com tiragem inicial de duas mil cópias cada e Carneiro vai trabalhar por enquanto com disitribuição própria em Goiás, Minas Gerais, Brasília e negocia com lojas de São Paulo.
A história de sucesso de Geraldinho Nogueira começou em meados da década de 80.
O 'petáculo Trova Prosa Viola, idealizado por Hamilton Carneiro, reuniu ele, Geraldinho e a dupla André e Andrade durante oito anos por os palcos de Goiás e fez o matuto virar ícone, instigando pesquisadores de universidades brasileiras e sendo assistido por milhares de pessoas.
O disco ganhou primeiro registro em vinil em 1994 e chega agora na segunda reedição em CD.
Era 1984, quando Hamilton Carneiro encontrou Geraldo Nogueira, um «rachadô da arueira»,» capinadô de roça «e» derrubadô de mata " (na definição do próprio Geraldinho) nos arredores de Bela Vista, a 45 quilômetros da capital.
O talento puro do matuto foi incialmente testado nos comerciais da extinta Caixego (banco de Goiás).
Analfabeto (" minha caneta é a enxada na saroba», dizia o sertanejo), Geraldinho era dono de metáforas que retratavam o jeito simples e ao mesmo tempo criativo do homem do campo.
Hamilton sabia que havia descoberto um talento nato.
Concebeu então o show Trova Prosa Viola em que contava com a dupla caipira fazendo um fundo musical concernente às peripécias semânticas de Geraldinho.
De a turnê que começou em Quirinópolis, o 'petáculo chegou ao televisivo Som Brasil, da Rede Globo, à época sob o comando de Lima Duarte, e provocou a procura de vários pesquisadores de Letras e Comunicação Social de universidades do Rio Grande do Sul e São Paulo interessados em investigar o fenômeno Geraldinho.
Hamilton Carneiro conta que já recebeu 16 propostas de imitadores de Geraldinho.
«Mas todo imitador não passa de arremedo, fica caricato, não dá.
Mazzaropi e Oscarito só tiveram um, assim como Geraldinho Nogueira», compara.
O formato do show virou marca.
Geraldinho e seus «causos» seguidos das toadas de André e Andrade, a maioria de elas 'critas por o próprio Hamilton, com temas próximos ao que havia acabado de ser contado.
O show começava a ganhar o país quando Geraldinho morreu, em 5 dezembro de 1993, vítima de trombose intestinal.
A produção tinha agendado apresentações no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, Rio Grande do Sul e Salvador.
De os ensaios para o segundo show, ficaram outros causos de Geraldinho e novas músicas de Hamilton nas vozes de André e Andrade, que 'tão reunidos no segundo volume agora reeditado.
Outras vezes prometido, Hamilton Carneiro garante que 'te ano sai a versão em DVD das gravações.
Número de frases: 68
Em o meu último artigo aqui publicado recebi uma reprimenda da Criss para quem o artigo «Os Sapatos de Van Gogh» não se enquadra nos princípios do overmundo de ser um quadro de discussão sobre a cultura genuinamente nacional.
Em a hora eu respondi que Van Gogh e outros genios faziam parte da cultura universal.
Ela disse q eu era incapaz de admitir que 'tava errado e que, de fato, eu tinha infringido as regras do overblog.
Não concordo com a Criss mas também não fiquei inteiramente satisfeito com a minha resposta.
Porque a defesa intransigente da cultura popular (e, em 'pecial.
a sertaneja) brasileira é uma das minhas trincheiras de luta e, no entanto, não é Van Gogh, nem Sheakspeare, nem Mallarmé ou Racine, nem Bunüel nem Herzog que consttui ameaça à preservação das tradições culturais do Brasil.
Muito ao contrário, o conhecimento da grande arte dos gênios da música e da pintura, os grandes clássicos da literatura mundial, enfim, dos grandes artistas, aquilo que permanece arte passados muitos anos, aquilo que, via de regra, os seres humanos se sentem elevados ao simples contato com eles só reaviva a importâsncia da defesa intransigente das tradições populares.
O que ameaça o Bumba meu Boi é a novela das oito e não «A Cavalgada das Valquírias, de Vagner».
As manifestaçõesculturais locais e regionais se ressentem da cultura de massas e o papel da tv aplastrando as diferenças regionais, criando 'teriótipos deserve positivamente a luta por a preservação da nossa identidade cultural.
Número de frases: 9
A grande arte, inclusive por sua autenticidade e originalidade ímpares, em nada subtrai, ao contrário acrescenta em termos acuidade sonora, visual e imagética
Literatura. É 'te o assunto do Bar do Escritor, que surgiu no iorGut em 3 de agosto de 2005 e logo mostrou-se interessante àqueles que tinham coragem de opinar sobre a produção textual alheia.
O objetivo é difundir as boas letras, sem 'quecer de meter o pau em quem fez besteira, pois 'tamos num bar e aqui não é lugar para etiqueta nem urbanidade, apenas a boa e velha sinceridade.
É um lugar anárquico, onde há apenas uma regra:
as críticas são feitas ao texto, jamais ao autor!
Em 'te intuito pensamos alcançar a melhor maneira de dizer o que realmente pensamos sobre a obra em questão sem ofender os «ilustres» e «sensíveis» 'critores que participarem de nossas rodadas literárias.
Em tempos:
o 'paço é de todos para criticar, ser criticado, ofender-se ou aprender a melhorar.
O Bar não é o lugar para quem busca elogios fugazes.
A 'trutura define-se num blog (www.bardoescritor.blogspot.com) para diálogo com os interNautas, rodadas de «drinks» literários no Ezine de Literatura (www.bardoescritor.net) e a discussão ferrenha, mal-educado, apaixonada e anárquica na comunidade Bar do Escritor no iorGut (http://www.orkut.com/ Community.
aspx? cmm = 3891757).
Nada mais, nada menos.
Número de frases: 12
Participe. E divirta-se.
Nossos ancestrais deixaram marcas nas paredes das cavernas, as conhecidas pinturas rupestres.
Eles usavam substâncias tiradas da natureza, através de ervas, folhas e muitas vezes sangue de animais.
Eles precisavam retratar o seu cotidiano e encontraram um jeito, consciente ou não, de se comunicarem com nós.
Apesar de todo 'se tempo, tem muita gente por aí que, envolvida na necessidade de retratar o cotidiano, não perde a oportunidade e se vira com o que tem.
É o caso de Vera Aparecida, 48 anos, artista plástica, carioca, que vive hoje em Roraima e trabalha também como enfermeira.
Vera, que há anos desenvolve um trabalho de resgate e valorização da cultura negra, através de quadros que retratam o cotidiano de 'ta etnia (isto inclui uma série maravilhosa de auto-retratos), um dia recebeu um convite inusitado «pra trabalhar num posto de saúde dentro do mato», como ela disse, numa maloca Yanomami.
«Não consigo ficar sem desenhar», disse ela ao me contar toda a sua experiência com os indígenas.
Vera falou também que, em 'se feliz convívio, teve a possibilidade de retratar o cotidiano do povo usando apenas papel e caneta 'ferográfica!
Seus quadros foram expostos na Intendência, importante Centro Cultural de nossa cidade.
Vejam só o que ela me disse:
Vera, eu 'tive na sua exposição e como te disse, eu fiquei impressionado ao saber que os quadros haviam sido feitos com caneta e papel.
Nem se percebe devido a sutileza e perfeição de seus traços.
Como surgiu 'sa idéia?
Eu fiquei dez meses em área indígena.
Fui trabalhar na área da saúde e me apaixonei por o cotidiano dos Yanomami.
Sou artista plástica, como é que eu vou guardar toda 'sa memória, toda 'sa lembrança?
Em a área indígena você não tem nenhum recurso, não tem tinta, material de desenho, você sabe, os índios não se deixam fotografar e como eu sei desenhar ...
Então eu peguei papel ofício, caneta preta e comecei a retratar toda a minha convivência com os indígenas.
Os desenhos foram acontecendo nos meus intervalos de trabalho no posto de saúde dentro do mato.
Após eu preparar todos os medicamentos, eu desenhava.
Não sei fazer nada sem desenhar.
Sempre tô com a caneta na mão fazendo meus rabiscos e sempre sai alguma coisa.
Vera começou a desenhar uma criança e aos poucos os outros foram apreciando o seu trabalho.
Os personagens retratados em seus quadros são todos conhecidos de ela e isso se deu devido a grande convivência com 'te povo.
«Todo 'se cotidiano foi desenhado em tempo real.
Eu olhava pra eles no seu dia-a-dia e ia desenhando.
A cada trabalho que eu fazia de um personagem real, 'se personagem se mostrava para os outros, que logo queriam que eu os desenhasse também.
Acabou que eu tenho malocas inteiras retratadas, desde o cachorro até o Tuchaua, que é a autoridade máxima na maloca».
Através da arte, a aproximação de Vera com 'ta etnia foi tão grande que quando adoecem e precisam vir para a cidade se tratar, sempre entram em contato com ela.
«Inclusive aconteceu hoje.
Recebi um telefonema de um de eles, disse ela.
O dia-a-dia na maloca entre remédios, 'ferográfica e papel, não demorou muito para despertar o interesse de médicos e enfermeiros por os seus desenhos.
A idéia da exposição surgiu daí, quando um dos médicos se propôs a ser o curador da I Mostra, como diz Vera:
«Foi quando ele viu 'se resultado de papel e caneta, que na verdade é muito simples e poderia ter sido feito com carvão ou urucum.
Os índios se pintam com urucum e genipapo, mas como eu não tinha intimidade com 'se material, usei a caneta mesmo, então surgiu a proposta da exposição.
Nós conseguimos fazer 'sa mostra com 23 quadros, mas eu tenho mais de 100 desenhos feitos 'perando uma oportunidade para a apreciação do público».
Inclusive desenhos feitos por meninas das malocas.
Vera disse que na sua próxima exposição irá inclui-los.
«Devo ter uns 10 desenhos das meninas Yanomami».
Falamos um pouco também sobre a receptividade da população com os seus quadros.
Sabemos que a discriminação ao povo indígena é muito forte em Roraima.
Iniciativas como a de Vera, em retratar o cotidiano deste povo, contribuem bastante para que 'sa imagem seja modificada.
Trabalho sério que não começou agora, pois há anos já desenvolve projeto similar com a cultura negra.
«Muitos se assustaram, eles não sabiam que eles trabalhavam tanto.
Você sempre ouviu dizer que eles são preguiçosos?
Eu também.
Mas eles trabalham muito.
E entre todos os trabalhos expostos lá em Intendência, 'se foi o que teve a melhor aceitação.
Muitos professores que visitaram a mostra retornaram com grupos de alunos.
Ninguém sabe como é o cotidiano de eles e eu retratei tudo, foi o que eu vi.
Eles brincam com o ratinho do mato, o porquinho do mato quando pequeno, eles lidam com aquilo com o maior carinho.
Eles se emocionam (ela se emociona) ...
Eu gosto muito de falar do negro, das milhares de cores que temos e agora a do índio, que eu não conhecia, só no dia 19 de abril, mas eu respirei o que eles respiraram, eu fui caçar, eu brinquei com eles.
Eles 'tão aí e precisam ser respeitados».
Muito orgulhosa de ser negra, Vera é de 'sas pessoas simples, cheias de vida e que ao falar nos seus trabalhos com 'sas etnias começa a se emocionar.
Sabe que precisa continuar e criar, criar e criar ...
Tem até vontade de levar 'ta exposição a outros 'tados do país.
Quem sabe um dia até consiga e como ela mesma diz:
«Esta etnia existe, é viva e tem que ser respeitada, tanto quanto o negro, digo negro porque trabalho a cultura negra.
Negros e índios.
Resolvi fazer 'sa mostra, que é a primeira e em homenagem a 'se povo que é tão discriminado, tanto quanto a população negra.
A gente tem que tar sempre se olhando e revendo nossa história.
Fortalecendo 'se lado que há entre o branco, o negro, o índio ...
Minha história se resume na paixão que tenho por gente».
Vera Aparecida
Número de frases: 66
Contato: (095) 9123 -- 8359
Era uma vez uma linda donzela chamada Rosa.
Bem educada, doce e talentosa, freqüentava bailes e reuniões da alta sociedade acreana de 1941.
Cantava, tocava piano e acabara de concluir os 'tudos do magistério.
Era admirada por o aspecto acaboclado e por a ousadia em se dispor a alfabetizar crianças e adultos, privilegiados ou não.
Rosa não fazia distinção.
Lecionava numa 'cola pública próxima à sua casa e, numa de suas caminhadas diárias, notou que um dos presos do alambrado a olhava de modo diferente, como se a conhecesse, como se a desejasse.
Ficou assustada e constrangida com o assédio.
Passou a evitar aquele trajeto.
Firmino havia sido preso por assassinato.
Em a cela de madeira e arame, 'perava ansiosamente ver a professora passar para sentir o alento daqueles passos, ser preenchido.
Ela renovava seu ânimo, dava-lhe forças.
Não foi preciso muito tempo para Firmino achar que Rosa -- descobrira seu nome através de Euzébio, o carcereiro e, por mais irreal que pareça, seu amigo -- também o correspondia, que precisava vê-lo, nem que fosse por meio minuto enquanto caminhava sem poder parar e arriscar-se a perder o horário das aulas.
Não entendeu por que a moça não aparecia mais.
Euzébio, vendo a aflição do amigo, ofereceu seus préstimos para 'crever uma carta com a promessa de entregá-la a Rosa e voltar com a resposta.
Mas, por saber que a professora jamais responderia, 'crevia, ele mesmo, sem qualquer remorso por manipular a história de amor insólita e irreal.
Foram muitas cartas.
Um dia descobriu que Rosa havia noivado e se casaria logo.
Decidiu que seria melhor parar imediatamente o jogo e 'creveu uma carta de rompimento, que fez Firmino entrar no mais profundo desespero ao saber que a moça não mais o 'peraria.
Enlouquecido, aproveitou o dia em que ele e seus companheiros limpavam as ruas (o policiamento era 'casso e os presos não descumpriam as ordens) para abordar Rosa em seu caminho.
Assustada, não entendia o que aquele homem falava e por que cobrava explicações.
Viu que 'tava armado, começou a gritar!
Firmino, inconformado, a 'tocou várias vezes.
A história de um dos crimes mais violentos contra uma mulher do Acre é representada no 'petáculo «Rosa Vermelha», por a Cia..
Garatuja de Artes Cênicas, com texto e direção da atriz e historiadora " Regina Cláudia.
«Garatuja é rabisco, desenho de criança, antes que você pergunte.
As pessoas acham que é alguma palavra indígena!" (
risos). Regina é daquelas que levam uma conversa agradável o tempo que for preciso.
Nasceu em Rio Branco, mas foi criada num seringal perto de Xapuri e jura que nunca ouviu falar em Chico Mendes, até sua morte.
«O acreano não conheceu o Chico vivo, nem sabia quem era.
A não ser os outros sindicalistas que militavam com ele», disse a autora de «Chapurys», 'petáculo que conta a história dos cem anos da cidade, vencedor do prêmio Funarte / Petrobras, em 2005.
Fez oficinas de teatro em vários Estados e fundou a Garatuja em 1990, com o médico e ator Raimundo Castro, que pouco tempo depois, consciente da carência da população por profissionais de saúde e arte, optou por a primeira.
Em os 17 anos de trabalho, a Cia..
Garatuja 'truturou-se como uma entidade cultural, sem fins lucrativos, com elenco fixo de 12 atores e bailarinos.
O repertório possui mais de 15 dramatizações adaptadas de 'critores como Maria Clara Machado e Silvia Orthof ou 'critas por alguns membros da própria Companhia.
Oferece, ainda, aulas de dança e oficinas de teatro para crianças e adultos.
Regina afirma que os 'petáculos da Garatuja seguem três vertentes distintas:
teatro infantil, dança e drama.
«Rastros», 'petáculo de dança contemporânea sobre a fauna do período plistoceno na Amazônia, o balé dos animais gigantes, foi apresentado em Manaus, Ribeirão Preto, Cuiabá, Porto Velho e mais oito cidades do Acre.
«A Escovinha Mágica», um texto educativo sobre higiene dental, também 'crito por Regina, já passou por praticamente todas as 'colas de Rio Branco.
Mas foi na tragédia que Regina encontrou um modo eficaz de tocar as pessoas através do principal assunto que motiva sua 'crita:
o feminino.
«É feminino, mas não é feminista.
As mulheres daqui e de qualquer parte são notáveis!
Escrevo sobre heroínas que desafiaram costumes, enfrentaram guerra, preconceito e indiferença.
São todas histórias reais».
Mulheres Invisíveis
A comovente história da professora Rosalina da Silveira, a «Rosa Vermelha», junto com a das» Mulheres Invisíveis», obra que relata o sofrimento de Alda Braga, a ex-prostituta que tirou sua própria vida depois de ser abandonada por o amante que a sustentava, ou Angelina Gonçalves, que comandou um seringal de terçado na mão e lutou na Revolução, seriam suficientes para entender o empenho de Regina em mostrar às mulheres do Acre suas mulheres.
No entanto, vai além de apenas encenar fatos.
Outra invisível corajosa foi aquela que passou a sangrar seringueiras após a morte de seu marido.
Precisava levar comida para dentro de casa, alimentar menino.
Em o velório, recebeu um pedido de casamento do amigo de anos, ocupante do seringal ao lado, que não pretendia ver a viúva ser vendida por o dono da terra a outro desconhecido que substituiria o trabalho do morto.
Ela aceita o pedido, tempos depois, para não ter de encarar o desconhecido.
«Não 'tou lembrada do nome de ela agora, são tantas que têm 'sa mesma história ..."
Os homens não aparecem nas cenas, apenas suas vozes.
A interpretação das atrizes sugere que eles 'tão ali, mesmo sem forma e substância.
São tocadas e influenciadas por a simples idéia de proximidade.
«Assim podemos olhar para elas com mais clareza», reflete, «hoje, podemos».
«Rosa Vermelha» foi contemplada com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, patrocinado por a Petrobras, em 2006.
Número de frases: 59
A banda cearense Plastique Noir foi 'calada para o WGT, o maior festival gótico do mundo, em Leipzig, Alemanha.
O quarteto segue atrás de patrocínio até lá -- quando se apresenta em maio de 2007.
O vocalista Airton S conta o que representa o Plastique e seu acento na subcultura gótica
O nome é francês (" plástico negro ") e a 'tética soa 'tranha aos olhares mais puros.
O Plastique Noir, rara banda de estilo gótico dark new wave -- vertente do rock originária do punk, ganha boa projeção em pouco mais de um ano.
Airton S (vocalista) conversa sobre o convite para o Festival Wave Gotik Treffen (WGT).
O evento é o maior festival gótico do mundo e será realizado durante os próximos dias 25 a 28 de maio de 2007, em Leipzig, Alemanha.
mais de 150 artistas de todo mundo, adeptos e simpatizantes do goticismo se reúnem entre palcos e barracas de produtos medievais, góticos e culturais.
O Plastique Noir busca apoio público para bancar as passagens de avião até lá.
«Eles (do WGT) confirmaram o convite há um mês.
Havia um edital do Ministério da Cultura para custear passagens de artistas que fossem para fora, mas fecharam as inscrições logo quando a gente foi convidado», situa Airton.
De fato, o convite parece corroborar para que o release da banda seja devidamente respeitado.
Airton S (voz), Márcio Benevides (guitarra), Danyel Fernandes (baixo) e Max Bernardo (teclados e sintetizadores) 'tão no grosso das manifestações culturais de Fortaleza que não se bitolam em clichês e penam para conseguir bons 'paços.
Parte da imprensa local deve correr atrás agora.
Antes do WGT, o Plastique Noir 'tará na Bahia em março de 2007, na maior festa do gênero no Nordeste:
a Darktronic.
O vocalista conta das origens do grupo até a oportunidade alemã.
Pontua a ocupação do tecladista Max Bernardo -- na linha da própria 'tética da banda.
Max é agente funerário.
«Ele vende a possibilidade de você jazer, faz seguro de vida.
Costuma dizer que prepara o último desejo da pessoa em vida», diz, entre tantos assuntos.
Obscuros ou não.
Até o 'tranhamento local:
«no show de abertura que fizemos para o Engenheiros do Hawaii, as pessoas riram, houve um certo 'vaziamento à frente.
Mas todo show da gente aparece um cara de sobretudo para dizer ' vocês salvaram a minha noite '.
A gente ri muito disso também.
Nossos ensaios são bem engraçados».
Qual foi o caminho até o convite para tocar no Festival?
Airton S -- Sempre foi vontade do Max.
Uma meta que ele 'tabeleceu.
E a gente sempre quis produzir material e jogar para fora daqui.
Sem menosprezar o local.
Ele mandou material e já vinha martelando isso há dois meses com eles (a produção do WGT).
Nossa primeira demo (Offering) chegou na mão de eles.
E a gente já tinha referências de lá por contato com o Elegia (SP), banda que já tocou duas vezes no Festival.
Vocês têm informações do Festival a respeito do público?
É um perfil mais curioso ou é aquele tipo de platéia que só acolhe os headliners?
Airton S -- A coisa é bem democrática.
É a celebração de uma subcultura.
Por ser um festival temático, antes das pessoas irem porque vai tocar 'sa ou aquela banda, elas vão para o WGT.
Gostam do novo.
O festival tenta trazer um certo exotismo.
Para eles, uma banda do Brasil é inusitada.
O release da banda começa com uma observação sobre o tédio da cena local em relação a algumas possibilidades artísticas que não seriam bem exploradas por aqui.
Hoje vocês vêem uma tendência diversa rolando ou a coisa continua 'tagnada em 'se sentido?
Airton S -- Com certeza temos outros ares.
A gente tem que, inclusive, reformular aquele texto.
O problema é que a base do release é a mesma desde o início da banda, só nos preocupamos em atualizar as conquistas que tivemos.
O boom da tríade Karine (Alexandrino) Montage-Cidad ão (Instigado) não havia ainda.
Temos referências novas.
O ano de 2006 foi divisor de águas.
Todo mundo 'tá viajando -- antes todos sabiam quando uma banda daqui viajava para fazer show.
Hoje não.
Sendo de maior ou menor porte, muitas bandas conseguem viajar com seu trabalho.
Isso é ótimo.
O fanzine Guilda começou e despertou uma idéia de montar uma banda tal qual o perfil do Plastique Noir.
Como anda o trabalho com a publicação?
Airton S -- Parada.
Completou um ano e só saiu o número zero.
A procura é grande.
Tem lojas em São Paulo que têm disponibilizado.
Era para sair de dois em dois meses.
Todos 'crevem para o zine.
Tem ensaios sobre a cultura gótica beirando o academicismo ...
Mas a gente já 'tá começando a fazer o número 1.
Demora porque somos muito perfeccionistas.
O número zero foi lançado na quinta edição da (festa) Dança das Sombras.
Em a próxima, a Rebel Rockets (grupo cearense já extinto) vai fazer uma reunião -- eles foram a primeira banda gótica daqui.
Devo cantar com eles agora.
A gente costuma dizer que continuamos de onde eles pararam.
É notável que a proposta da banda dialoga com o mundo de forma universal -- e absorve isso de forma convicta.
Vocês percebem um 'tranhamento local?
Airton S -- Sim.
Mas já foi pior.
O que a gente sempre quis deixar claro é que houve um equívoco de algumas gravadoras para tentar vender o doom metal como se fosse gótico.
Então a primeira coisa que a gente fez foi procurar comunidade (no orkut) de góticos em Fortaleza.
Começamos, sem arrogância, a «doutrinar» 'se público que é mais teen, influenciado por bandas como o Nightwish.
Muitos passaram a investir na drum machine (bateria eletrônica que a banda usa).
Até o George Belasco (músico local) comprou uma (risos).
A nossa (Sister Hurricane) é maravilhosa.
Porque baterista é uma raça ruim, reclama de tudo.
Já ela não discute nada e não erra o tempo das músicas.
Ao que parece, o circuito de festivais independentes tem definido um calendário forte de eventos com bandas que têm algum compromisso com a carreira, não apenas com a questão comercial.
Vale dizer que o Plastique Noir já surgiu desde o início direcionado a 'se mercado?
Airton S -- Sim e não.
Sim, porque isso vem como conseqüência, ao meu ver.
Mas sempre tivemos cuidado em focar na subcultura gótica.
E a gente não vê isso como uma bitola 'tilística.
Ela tem uma infinidade de possibilidades.
Mas nos festivais rola sempre mídia, que é bem-vindo, a gente não nega 'sas possibilidades.
Sou meio temeroso de público, mas a galera costuma elogiar.
A gente tá fazendo um clipe de Silent Shout.
Em animação.
A gente brinca dizendo que vai ser o primeiro clipe surrealista do Ceará.
Busquei uma figura humanóide se debatendo sem boca.
O 'tereótipo aponta que o dark é uma pessoa negativa -- pois aborda a morte de forma natural e 'sencial.
Qual é o maior equívoco de 'sa impressão?
Airton S -- O (equívoco) central de todos é 'sa relação que não existe.
Pois somos pessoas que rimos à beça, por exemplo.
E gostamos muito de música melancólica e outras formas de obscurantismo porque há algo de belo nisso.
Me sinto bem ouvindo.
A gente não confunde fazer música gótica com ser gótico.
O gótico até tem um pouco disso.
São pessoas meio recatadas, não se definem como góticas.
Esse 'tereótipo se deve em certa parte por ignorância, porque o nascimento da palavra surge de maneira sarcástica.
Sempre foi divertido celebrar isso.
A gente não procura a solidão para se 'conder.
Plastique Noir -- Para contatos e informações da banda:
(85) 3225.1097. Email:
airtonoir@gmail.com. Site:
www.plastiquenoir.kit.net. Mais informações e imagens do Festival WGT:
www. wave-gotik treffen.
Número de frases: 112
de Matéria publicada anteriormente no jornal O Povo em 3/1/2007 Em os anos 80 se falava (e se ouvia) muito do rock de Brasíila.
Em os anos 90 tivemos o fenômeno Raimundos, que se destacou entre as outras bandas da cidade.
Com o começo do novo século o destaque do Centro-Oeste tem sido a cena em Goiânia, com a criação da Monstro Discos e da realização dos festivais Bananada e Goiânia Noise.
Uma nova cena da região parece despontar também no Mato Grosso, com o sucesso recente da banda Vanguart, de Cuiabá.
Mas Brasília 'tá longe de entrar no ostracismo musical.
Lucy and the Popsonics foge do rock ' n roll convencional e mistura elementos eletrônicos e do punk em sua música, que tende ser a nova vedete da cidade.
A banda já fez shows em boa parte do Brasil e 'tá para lançar seu primeiro CD, por o selo Pulsorama, de Brasília, que deve se chamar A Fábula (ou a farsa) de Dois Eletropandas.
Abaixo trecho de entrevista que eu fiz com eles no final de janeiro para 'trear minha coluna brasileira no programa português Plano B, do DJ Mau Amor, na Rádio Castrense, em Lisboa.
O programa vai ao ar nas tardes de sábado (15h no Brasil) na Rádio Castrense (www.radiocastrense.net).
Quanto tempo tem a banda?
Fernanda:
A banda surgiu no final de 2005, tem pouco mais de um ano.
Como decidiram montar a banda?
Pil:
A gente já era namorado e vimos que a tecnologia hoje propiciava montar uma banda sem a necessidade de um baterista.
Como a gente não queria envolver mais pessoas para não ter aquele trabalho para marcar ensaio, a gente fazia em casa mesmo no computador, só nós dois, depois dos almoços de domingo.
Fenanda:
A gente fez três músicas de forma bem tosca, só para gente conseguir se ouvir, e o Pil enviou para um festival aqui em Brasília e fomos pré-selecionados.
Então a gente viu a necessidade de ter um som de dez minutos pelo menos.
Vocês já tocaram em alguns festivais no Brasil.
Quais festivais vocês já tocaram?
Fernanda:
Os mais importantes foram o Porão do Rock, aqui em Brasília, Laboratório Pop, no Rio de Janeiro, Calango, em Cuiabá, Bananada, em Goiânia, Jambolada, em Uberlândia.
Esses foram os mais importantes, mas tiveram outros e também viajamos sem ser para festival.
Pil:
Já tocamos em São Paulo, no Rio, Porto Alegre, Florianópolis, Uberlândia, já falou.
Quais as influências da banda?
Fernanda:
Stereototal, The Kills
Pil: Peaches, Le Tigre, Prototipes, que a gente descobriu agora, Ramones, Kraftwerk, Sex Pistols.
Qual a importância da internet para divulgar o trabalho de vocês?
Fernanda:
Em a internet se encontra tudo free.
As pessoas ouvem falar de uma banda e é muito fácil acessar o myspace, gastar uns dois minutinhos e ouvir uma música ou duas da banda.
Inicialmente a gente até pensou em não lançar CD, nem nada.
A gente pensou em lançar tudo por a internet mesmo.
Pil:
Essas bandas que a gente falou que são influência, 90 % de elas a gente conheceu por a internet.
A música nova hoje não tem tempo de chegar no disco, ela é produzida e colocada na internet.
É ali que você tem acesso mundial a tudo o que é produzido.
E a gente acha, que além disso, se tem a possibilidade de manter o relacionamento com bandas, produtores, com a galera que só curte mesmo música.
Ali é o canal ideal.
Projetos para o futuro?
Fernanda:
A gente até agora tem um single, são duas músicas e 'tão disponíveis na internet, de graça.
Estamos gravando um disco, em que colocamos o nome de A Fábula, ou a Farsa, de Dois Eletropandas, e vai ter seis músicas lá.
Pil:
Vai ter dois clipes do disco.
Estamos fazendo umas 'quetes para colocar no ar, sobre o processo de gravação do disco e sobre a história dos eletropandas é um negócio bem experimental.
A gente já fez e ficou bem legal, tudo para o YouTube, tudo para internet, uau!
Entrevista em áudio na íntegra em:
www.myspace.com/robertaar.
Contatos de Lucy and the Popsonics:
My Space:
www.myspace.com/lucyandthepopsonics Trama Virtual:
www.tramavirtual.com.br/lucy and the popsonics
Comunidade no Orkut:
www.orkut.com/ Community.
aspx? cmm = 1284985
Fotolog: www.fotolog.com/lucy popsonics
Número de frases: 60
Publicado originalmente no blog Facada Leite-Moça (www.facadaleitemoca.blogger.com.br).
Sérgio Carvalho É um desafio 'crever uma coluna que pretende colocar em pauta assuntos como a arte e a cultura.
É claro, que «aqui mesmo», vocês encontrarão tropeços, mas que eles sirvam de ponto de partida para discussões que nos ajudem a avançar no raciocínio.
E por favor, vamos transformar 'se 'paço num fórum para o debate de idéias.
Se eu e vocês não conseguirmos, pediremos ajuda de 'pecialistas.
Passei os últimos dias pensando o que abordar em 'ta 'tréia.
O exercício de 'crever uma coluna é um pouco solitário e de apenas uma identidade.
Então, é importante que a participação do leitor seja com identidade, afinal 'tamos falando de idéias.
Elas terão de ter remetente.
Se não tiver, não entra na discussão.
Vamos exercitar nossa democracia.
Eu falo, você ouve.
Você fala, eu ouço.
Ou melhor, eu 'crevo, você lê, você 'creve eu leio.
Em um terceiro momento discutimos os pontos de vista.
Mas por onde começar?
Como diria a «Clarice Lispector,» vamos começar por o começo».
Será que o melhor caminho seria tentar traçar uma radiografia simplória das manifestações artísticas desse 'tado ou um perfil das manifestações culturais?
O segundo item me parece mais interessante para começarmos a conversa.
Mas onde 'tá a nossa cultura?
Cairemos na vala comum de falar que nossa cultura é bovina, quando Mato Grosso do Sul tem um dos melhores mercados da música eletrônica do país?
Se é bovina, cadê o museu do boi?
Por que não temos o maior encontro da América Latina de tocadores de berrante?
Por que ainda não saímos daqui com uma comitiva de gado refazendo o caminho dos colonizadores?
Quem sabe os chamados produtores culturais ainda não tiveram tempo de pensar sobre o assunto.
Devem 'tar muito ocupados com outros processos culturais.
Ou podemos pensar ainda que os gestores da cultura do nosso 'tado 'tão focados em festivais onde as 'trelas principais não são os elementos da nossa cultura.
E quando digo nossa gente, desculpem, mas nem nasci em 'sa terra tão maravilhosa.
Sou do interior do nordeste de uma terra onde o som da sanfona, o tilintar de um triângulo e a batida seca da zabumba, arrepiam, emocionam.
Faz qualquer nordestino querer voltar para casa.
E aí vocês podem até perguntar, porque não volta então?
Porque na mesma medida que 'ses sons me emocionam, é de encher a alma ouvir o som também seco da viola de cocho com aquele canto chorado dos cururuzeiros do Pantanal.
É de encher a alma a harpa visceral da fronteira, enraizada nas nossas tradições.
Também emociona ver a dedicação dos Malaquias na Festa do Divino, no centro norte do 'tado.
Impossível não falar sobre a festa do Banho de São João, na região do Pantanal.
Essas sim são manifestações autênticas de uma cultura rica e singular.
Que os gaúchos não entendam a colocação a seguir como uma crítica, por favor.
Mas temos Centros de Tradições Gaúchas 'palhados por 'se 'tado inteiro.
Senhores gestores, vamos seguir o exemplo e criar nossos centros de tradições Guató, centros de tradições Terena, Kadiweu.
Vamos identificar nossa cultura e rápido.
Ela pode não ser indígena, ou pode ser bovina.
Ela pode não ser pantaneira, ou pode ser fronteiriça ou urbana.
Mas é preciso saber onde ela 'tá.
Está lançado então o desafio.
Queremos ver e participar do maior encontro do país dos tocadores do instrumento tombado como patrimônio da história nacional, a viola de cocho.
Definitivamente não podemos deixar que outros 'tados produzam o que me parece ser nossa obrigação.
Então, vamos fazer «aqui mesmo»?
Sérgio Carvalho é jornalista e graduado
também em História na Fucmat.
E-mail:
Número de frases: 50
sergio.Carvalho@tvmorena.com.br Brasileiros são bobos.
Todos, em 'pecial os endinheirados, pois não tem bobo maior que aquele que se acha 'perto.
Uma das provas de como somos bobos é nossa necessidade de validação no âmbito internacional, exemplos abundam:
se fizermos um intercâmbio, temos mais chances de conseguir um emprego numa grande empresa;
se 'tudamos numa faculdade 'trangeira, todos se impressionam;
todo ano achamos que vamos levar o Oscar de filme 'trangeiro;
se um músico nacional toca no Central Park, só pode ser porque ele é muito bom, certo?
Hmmmm, mais ou menos.
Claro que há entidades das mais diferentes 'feras que, independente de nações, têm uma qualidade ímpar e servem de parâmetro por merecimento.
Mas fama não é sinônimo de qualidade.
E é em 'se ponto que chego a Starbucks.
A rede acaba de abrir sua primeira loja no Brasil, 'tá em obras para a segunda (ambas no Shopping Morumbi de São Paulo) e prepara-se para abrir não sei quantas mais.
Starbucks 'tá no mundo inteiro, um comediante americano disse que descobriu 'tar no fim do mundo quando saiu de uma e havia outra Starbucks do outro lado da rua ...
Um dos produtos brasileiros por excelência, o café é parte chave de nossa história, de nossa economia e do nosso dia-a-dia.
Apesar de ter se desenvolvido aqui 'sencialmente por uma necessidade internacional, a cafeicultura perde cada vez mais 'paço para os colombianos;
mas internamente a cultura do café ainda segue em frente.
Por experiência própria, posso dizer paulistas em particular são muito rigorosos com o café que bebem;
conto numa mão a quantidade de pessoas que vi tomarem café " descafeinado ";
«chafé» -- aquele que permite-nos ver o fundo da xícara -- jamais;
adoçar o café coletivamente na jarra então, pena de morte.
Tomamos café em casa, na padaria, na cafeteria, no trabalho e na casa dos outros;
no café da manhã, depois do almoço e no lanche.
Para alguns, como eu, é motivo de orgulho;
para outros é puramente corriqueiro.
Pois veio a Starbucks direto de Seattle para nos mostrar «outra maneira de beber café» e eu fui lá conferir se há realmente algo de 'pecial, ou ameaçador na gigante corporativa do cafezinho.
O atendimento é padrão fast-food, com 'tações de açúcares e afins 'palhadas na loja;
o diferencial fica na tentativa de deixar tudo mais pessoal;
seu nome é perguntado para que depois você receba seu pedido.
Brinquei com meu amigo dizendo que daria um nome falso, mas acabei dando o verdadeiro e a atendente entendeu errado e me chamou de Felipe.
Marcos, um entusiasta da rede, foi inclusive reconhecido por um dos baristas.
Pedi um Frappuccino de Café, uma 'pecialidade da casa, que achei ser válido para avaliar minha satisfação;
e um Café Brasil Blend, o teste de fogo, afinal o que seria o Brasil Blend, na concepção do Starbucks?
Resultado: de 1 a 10 o Frappuccino levou nota 8;
o Frappuccino Mocha (uma mistura de café com chocolate) levou 6, pois não havia sequer traço de gosto de café, mesmo sendo gostoso;
já o tal Brasil Blend levou míseros 5, não tinha nada de excepcional nem de abominável -- o que marca em ele é a tampinha que vem no copo e faz você se sentir uma criança de cinco anos tomando naquelas xícaras plásticas.
Ainda sobre o café «de verdade», Marcos acha que» aparentemente a mesma quantidade de grãos usada no pequeno é usada no médio e no grande, deixando o café mais ralo, no 'tilo americano mesmo."
ele completa que nas versões Mocha o chocolate sempre mascara o sabor do café.
Deixando a crítica pseudo-culinária de lado, confesso que fiquei muito apreensivo quando soube da entrada definitiva da rede no Brasil.
Não tenho nada contra redes internacionais em si, o que me incomoda é que tenho orgulho do papel do café na nossa cultura, e a chegada do Starbucks me pareceu uma afronta.
Não existe uma tradição nacional de hambúrgueres, por 'se parâmetro podem vir quantos Burger Kings couberem.
Meu medo era baseado no efeito Starbucks que observo desde os primeiros rumores de que ela chegaria no Brasil:
cafeterias nacionais como Café do Ponto, Fran's Café e California Coffee hoje possuem em seus menus bebidas derivadas de café das mais variadas e com os nomes mais 'quisitos;
seguindo as tendências ditadas por a gigante 'tado-unidense.
Se o formato for cada vez mais copiado por outras redes e lojas menores, em conjunto do alastramento da própria rede, podemos ter uma queda em qualidade do tradicional café de padaria.
Eu sei que parece apocalíptico, mas não creio que seja totalmente maluco.
Existem produtos nacionais dos quais devemos nos orgulhar, e cada um de nós, querendo ou não, encontra um de eles.
Nunca fui ufanista, mas sempre gostei do café.
Esse é o meu time.
Mas depois de visitar de fato a loja, confesso que 'teja um pouco aliviado, considerando a mediocridade do produto, combinado com o preço (salgado) praticado, me parece que se o Starbucks realmente colar, será por causa dos mais bobos, aqueles que têm dinheiro e acham que são 'pertos.
Número de frases: 49
«sirvam nossas façanhas de top-model a toda Terra».
Em 1957 neve chegou a acumular 1,30m e isolou a cidade de São Joaquim na Serra Catarinense
O amanhecer gelado e 'curo do dia 20 de julho de 1957 anunciava a maior neve da história do Brasil.
Eram 11 horas quando caíram os primeiros flocos em São Joaquim -- em segundos -- a neve era intensa.
O 'petáculo se 'tendeu sem parar até às 17:30 horas.
Em alguns lugares, no interior do município, o acumulado chegou a um metro e trinta.
Levou quatro dias para a neve derreter completamente
O que era belo no início logo se tornou preocupação.
A cidade ficou isolada por dias.
O alimento se 'gotou e aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) lançavam fardos com alimentos num campo de futebol próximo da cidade.
A água para o consumo e a preparação de alimentos era da própria neve coletada e derretida.
Casas frágeis não agüentaram o peso da neve no telhado e desabaram.
Foram dezenas de desabrigados
Vidal Cândido da Silva Neto, 78 anos, então com 27 anos de idade, morava em sua fazenda no interior de São Joaquim.
Conta com 'panto da intensidade da neve.
Isolados, por volta das 16 horas os campos em volta da fazenda foram cortados por barulhos ininterruptos de grandes galhos de araucárias partindo e caindo ao chão devido ao peso da neve.
O 'trondo assustador partia de todas as partes da mata.
Acreditavam terem perdido todos os 100 porcos que 'tavam soltos no campo.
Para o 'panto da família, quando a neve começou a derreter dias depois os animais se movimentaram lentamente até chegar ao abrigo.
Pássaros mortos eram encontrados aos milhares por o chão.
Até mesmo as galinhas eram retiradas uma a uma de dentro da neve.
Ficou a lembrança e o susto.
Durante todo aquele inverno, a semana da neve foi a única em que a temperatura 'tava baixa para o normal da época.
O restante da 'tação foi quente, conta Vidal.
Nenhuma outra neve voltou a tomar tanto corpo como aquela.
Ele acredita que devido a quase extinção dos pinheiros na serra, a região não atrai mais tanta umidade, o que não dá condições de nevascas maiores.
Aliado ao aquecimento global, acha cada vez mais difícil ver algo semelhante.
Hoje, Vidal Cândido mora em sua fazenda pousada, onde recebe hóspedes o ano inteiro.
Número de frases: 28
www.fazendaipe.com Por que 'crever -- ou ler -- um artigo sobre um filme nacional produzido há mais de 30 anos, sem que haja uma razão impositiva para tal?
Em primeiro lugar, porque rever O Amuleto de Ogum hoje é ter a atenção despertada para potencialidades que o atual modelo de financiamento da atividade cinematográfica, que mantém o poder decisório nas mãos dos diretores de marketing das empresas -- os «novos censores», 'tá condenando ao ostracismo, com suas diretrizes que privilegiam produções caras, de tratamento temático duvidoso e 'tética hollywoodiana.
E, o que é pior, em sua maioria desprezadas por o público.
Em segundo lugar, por a constatação que o filme dirigido por Nelson Pereira dos Santos inaugurou uma nova proposta temática, 'tética, mercadológica, para o cinema produzido no Brasil -- proposta 'ta que sugere vigoroso embate dialético com o momento atual, no qual a distribuição e a exibição encontram-se 'tranguladas e monopolizadas.
Portanto, antes de mergulharmos no universo do filme em questão, faz-se necessária a compreensão das diretrizes que norteavam a produção cinematográfica no período:
o Amuleto de Ogum foi produzido em 1974, quando o país começava a viver, após os «anos de chumbo» que se seguiram à decretação do Ai-5, o início da lenta e contraditória distensão política que caracterizaria a presidência de Ernesto Geisel.
A o binômio repressão-desenvolvimento acrescentava-se a necessidade do Estado buscar legitimizar-se ideologicamente.
Além de prosseguir investindo pesadamente em telecomunicações, o governo passaria a priorizar políticas para o setor cultural, desempenhadas a partir de uma malha de 'tatais reestruturadas para tal fim.
Diversos 'tudos, entre eles os de Ana Cristina César (Literatura não é documento.
Funarte, 1980), de José Mário Ortiz Ramos (Cinema, Estado e lutas culturais.
Paz e Terra, 1983) e de Tunico Amâncio (Artes e Manhas da EMBRAFILME.
Eduff, 2000), revelam o quão complexo, para ambas as partes em questão, eram os mecanismos de produção 'tatal de cinema.
Simplista falar em cooptação, ingênuo desprezá-la.
Assim, a intervenção do Estado na produção cinematográfica, que a partir da segunda metade da década de sessenta, com a criação do INC (Instituto Nacional de Cinema) e da EMBRAFILME (Empresa Brasileira de Filmes), acirrara-se, ganha outra dimensão após a publicação do Plano Nacional de Cultura, em 1974, com o aumento do capital da EMBRAFILME e, no ano seguinte, com a criação do CONCINE (Conselho Nacional de Cinema, órgão normativo e fiscalizador).
Criado a partir de propostas de uma comissão do MEC destinada a repensar a 'truturação da atividade cinematográfica brasileira, o novo modelo se revelaria, inicialmente, extremamente eficaz.
Estavam criadas as condições para o cinema brasileiro viver, ` a exceção da mítica belle époque (1899-1911), a melhor década de sua história em termos de presença de mercado, chegando a atingir trinta e cinco por cento do público anual de 'pectadores, cifra inédita num mercado permanentemente ocupado por o produto 'trangeiro.
O Amuleto de Ogum, inauguraria, nas telas do país, 'sa relação direta do cinema brasileiro com o universo popular, prenunciando o momento de conquista do mercado.
Três anos após o tropicalista Como Era Gostoso o Meu Francês, Nelson Pereira dos Santos troca o Brasil do século XVI por a atualidade, o tupi-guarani por o pivete de rua, as imagens paradisíacas de Parati por a cinza urbano de Caxias, epicentro da violência então desenfreada da Baixada Fluminense.
Em a seqüência inicial, um cego, vivido por o compositor e cantor Jards Macalé, 'tá prestes a ser assaltado, quando, 'quivando-se, passa a contar, através de sua música, a história do filme, narrada inicialmente em flashback.
A ação remete à zona rural.
Uma mulher desespera-se ante o assassinato do marido e de um filho (em claras referências a Vidas Secas, que Nelson dirigira em 1963, a atriz é Maria Ribeiro, funcionária do laboratório Líder que o diretor trouxera para o cinema naquele filme, no papel de Sinha Vitória;
e o nome do filho morto é Fabiano, homônimo do personagem principal do livro de Graciliano Ramos).
Temerosa de que o outro rebento tenha o mesmo destino, a mãe recorre à umbanda, para que feche o corpo do pequeno Gabriel, tornando-o invulnerável às armas.
Em seguida vemos um rapaz andando por as ruas de uma cidade.
Créditos informam que dez anos se passaram.
Gabriel, o menino de corpo fechado, cresceu, e acaba de chegar a Caxias.
Artifícios narrativos bem-executados e eficazes abrem o filme (utilização inventiva do narrador, flashback seguido de elipse que leva a ação dez anos à frente, mas ainda num tempo diegético anterior ao que se passa a seqüência inicial).
Assim, com um arsenal narrativo ao mesmo tempo simples e sofisticado, 'tá 'tabelecida, em poucos segundos, a premissa básica da trama, que passa então a ser desenvolvida.
Gabriel (Ney Santanna) é incorporado ao bando do bicheiro Severiano (vivido por Jofre Soares, outro ator descoberto por Nelson, numa de suas mais notáveis atuações).
Lúmpen-mercenário de uma guerra civil não declarada, torna-se pistoleiro.
O fime traça, em imagens diretas, desprovidas de maneirismos e centradas nas figuras humanas, a ebulição da violência no cenário desolado da Baixada, contrapondo grupos de extermínio, policiais, bandidos;
antecipando, ainda, a instrumentalização da infância por o crime organizado.
A função metafórica que os «menores» perseguidos, torturados, mortos, certamente desempenhava, à época de lançamento do filme -- na qual os porões da ditadura ainda não haviam sido desativados -- tende, talvez, a ser ignorada por o 'pectador atual, habituado à banalização do convívio entre infância e violência.
Gabriel envolve-se, como matador profissional, numa 'calada de assassinatos.
Após uma desavença por um prato de comida no interior do bando, é baleado.
Porém, numa seqüência de grande impacto dramático, após os disparos, seu corpo permanece intacto, desprovido de ferimentos, graças ao amuleto que traz ao pescoço.
Tal invulnerabilidade, ao mesmo tempo que lhe confere poder dentro da quadrilha, o potencializa como adversário imbatível.
Em a tentativa de anular o que pode vir a ser uma fonte de problemas, Severiano planeja uma armadilha para Gabriel e ele cai:
após assassinar, desavisadamente, um figurão, vê-se obrigado a foragir-se.
O refúgio de todo 'se cotidiano de violência é a boate de Madame Moustache, onde populares, prostitutas e até mesmo o tradicional gay mestre de cerimônias (vivido por o cineasta Luiz Carlos Lacerda, o " Bigode ") convivem sob luz avermelhada e uma trilha sonora composta de baladas dos Rolling Stones, com a qual o insinua-se um comentário a um tempo lírico e irônico sobre o Brasil pretensamente cosmopolita dos anos setenta.
Música, aliás, é um dos pontos altos do filme.
A excepcional trilha sonora de Jards Macalé, jamais lançada comercialmente, combina referências à obra anterior do compositor a músicas inéditas, compostas a partir da visão do filme na moviola.
Macalé faz uso da percussão única de Edson Machado como contraponto à montagem frenética de cenas de assassinato, chegando ao requinte de reutilizar os agudos do carro de boi da seqüência final de Vidas Secas como ornamento sonoro (numa seqüência censurada à época, na qual «menores de rua» são torturados).
Equivale a um curso de composição para cinema.
O filme imiscui à ficção tonalidades documentais, seja no retrato da vida em São José -- bairro então mal-afamado de Caxias -- ou através da participação de figuras proeminentes da sociedade local protagonizando, no papel de elas mesmas, sem constrangimento algum, a cena do jantar em que Gabriel é chamado a integrar o grupo de matadores.
Personagem principal do argumento original de Chico Santos que inspirou o filme, Tenório Cavalcante, o folclórico político da religião, empresta dados biográficos tanto ao bicheiro Severiano quanto ao novato Gabriel.
Graças ao parentesco com o ator Emannoel Cavalcante, as seqüências passadas na casa de Severiano -- incluindo o tiroteio final -- foram filmadas na «fortaleza» de Tenório.
O envolvimento de Gabriel com a amante do bicheiro, Eneida (atuação luminosa de Anecy Rocha), causa a ira enfurecida de Severiano, que, frustrado após várias tentativas de assassinar o rapaz de corpo fechado, decide recorrer aos serviços de Gogó, um pai-de-santo de caráter duvidoso.
Gabriel, por sua vez, retorna à umbanda, buscando força e proteção.
É a chance para o filme contrapor o embuste mercantilista de aproveitadores à umbanda tradicional, com a mise en scène sublinhando a dimensão mítica da religiosidade afro-brasileira.
Nelson alcança momentos superlativos de uso da técnica cinematográfica para efetuar tal contraposição, dialogando, entre outros, com o cinema do indiano Satyajit Ray.
O retrato da religião popular sem sociologismos paternalistas causou a ira enfurecida da 'querda comunista.
A imprescindível biografia do cineasta 'crita por a jornalista Helena Salem (Nelson Pereira dos Santos -- O Sonho Possível do Cinema Nacional.
Record, 1996), cita o reconhecimento dos umbandistas por o papel que o filme teria supostamente desempenhado no processo de legalização dos cultos, então vítimas de intensa discriminação.
A visita de Eneida e Gabriel à família de ela, num bairro de migrantes nordestinos em São Paulo, onde são recebidos com festa e música, é um momento do filme que carrega, como observa José Mário Ortiz Ramos na História do «Cinema Brasileiro,» a energia do momento da filmagem impressa em cada fotograma».
Filmado de maneira semi-documental durante uma feijoada em família, logo após o casamento (na vida real) de Ney Santanna (que vem a ser filho de Nelson) com a atriz Nádia Lippi, a sequëncia capta emoção e alegria genuína nos olhares e gestos das pessoas que circundam a mesa, expressando, como aponta o pesquisador «João Luiz Vieira,» um tom antropológico sempre excelente».
Aliás, a construção da personagem Eneida, pivô do conflito entre Gabriel e Severino, representa um dos momentos em que o olhar de Nelson para o universo feminino, rica linha de estudo de seu cinema que permanece inexplorada, revela-se mais generoso e libertário.
Ela não se deixa aprisionar por o poder de Severiano ou por o amor possessivo de Gabriel.
De o confronto com o machismo dos amantes produzirá a conquista da independência, partindo livre e senhora de si.
As seqüências finais apresentam uma elaborada montagem -- quesito usualmente em destaque em se tratando de Nelson Pereira dos Santos.
Alteram-se entre o tiroteio na casa de Severiano, o destino da mãe de Gabriel, ameaçada de morte, e a consumação da aparente morte de ele.
Antes de, no flashforward que encerra o fime, o cego proferir sua última e surpreendente revelação, a penúltima seqüência, com Gabriel ressurgindo do fundo do mar, merece figurar com destaque na antologia do filme nacional.
Gustavo Dahl, em seu belo artigo de homenagem aos 70 anos de Nelson, O primeiro descolonizador, enxerga na " ressurreição catártica do herói, sua reaparição, forte e purificado mas com armas na mão ...
uma metáfora do país, do cinema brasileiro, do próprio Nelson.
Há sempre um novo que não se deixa matar e que renasce " (Cinemais (14)).
O filme faz um pastiche do cinema de ação norte-americano com condimentos brasileiros, sem abdicar da auto-ironia e do apelo popular.
Filma tiroteios e até mesmo perseguições, desfazendo o mito -- então renitente -- da incapacidade do cinema brasileiro para a ação.
à defesa de um cinema popular (que, para desgosto das «elites culturais» radicalizaria ainda mais no filme seguinte, Em a Estrada da Vida, sobre a dupla sertaneja Milionário e José Rico), Nelson soma uma investigação sobre o misticismo religioso brasileiro e a violência cotidiana dos centros urbanos.
buscando, em suas próprias palavras, colhidas por «Helena Salem,» a procura da origem -- de onde vim, quem são meus pais, quais são minhas raízes, como destransar a repressão que sofri na 'cola, no colégio, na universidade».
Investigação 'sa que resultou numa obra de perfil verdadeiramente popular e que apontou caminhos para o cinema então produzido no Brasil.
Sem deixar de levar em conta os diferentes contextos que separam o país de hoje daquele de 30 anos atrás, talvez valha a pena rever O Amuleto de Ogum e refletir sobre a relação entre cultura popular, cinema brasileiro e -- 'sa entidade hoje fugidia -- público 'pectador.
Número de frases: 71
O Creative Commons é um projeto de licenciamento baseado integralmente na legislação vigente sobre os direitos autorais.
As licenças do Creative Commons permitem que criadores intelectuais possam gerenciar diretamente os seus direitos, autorizando à coletividade alguns usos sobre sua criação e vedando outros.
Ele é um projeto voluntário:
cabe a cada autor decidir por seu uso e qual licença adotar.
Existem várias modalidades de licenciamento, desde mais restritas até mais amplas.
A licença mais utilizada do Creative Commons não permite o uso comercial da obra.
A obra pode circular legalmente, mas quando utilizada com fins comerciais (por exemplo, quando toca no rádio ou na televisão comerciais), os direitos autorais devem ser normalmente recolhidos.
Essa licença possibilita a ampla divulgação da obra, mas mantém o controle sobre sua exploração comercial.
O projeto tem sido criticado recentemente por representantes das sociedades que fazem a arrecadação e distribuição de direitos autorais, como a UBC (União Brasileira dos Compositores) ou o Ecad.
Tais críticas são compreensíveis.
Essas sociedades vivem há muito tempo uma crise de legitimidade de duas naturezas:
interna e externa.
Interna porque precisam conviver com a insatisfação permanente de seus próprios membros.
Apesar do aumento significativo da arrecadação do Ecad (de 112 milhões em 2000 para 260 milhões de reais em 2006), 'ses recursos ainda não chegam adequadamente à maioria dos autores.
Quando chegam, isso ocorre após a dedução de taxas de administração que não são 'tabelecidas por o mercado, mas arbitradas, já que o Ecad detém o monopólio sobre sua função.
A segunda crise de legitimidade é externa.
Com o surgimento da cultura digital, o número de pessoas que passaram a criar obras intelectuais multiplicou-se enormemente.
Enquanto isso, todas as sociedades arrecadadoras do mundo, quando reunidas, representam menos de 3 milhões de autores.
É muito pouco.
Esse baixo número de representados contrasta com o crescente número de novos criadores na era digital, ansiosos por modelos inovadores de gestão e exploração das suas obras.
O Creative Commons ajuda a atender parte desses anseios e por isso é criticado.
Já as sociedades arrecadadoras, por sua vez, permanecem com um grave dilema institucional.
A o verificar o 'tatuto do Ecad, por exemplo, nota-se que o poder de voto dentro da instituição é dado de acordo com o volume de recursos arrecadados por suas sociedades-membro no ano imediatamente anterior.
Ou seja, quem arrecada mais dinheiro tem mais voto.
É uma representatividade não de pessoas, mas de poder econômico (em vez de democracia, plutocracia).
Isso praticamente inviabiliza o surgimento de novas associações de autores.
Especialmente associações que reúnam a nova geração de músicos, por natureza arredios à ineficiência, à burocracia e à ausência de transparência.
Quando um artista licência sua obra através do Creative Commons, ele não abdica de maneira alguma dos direitos sobre ela.
Ele permanece a todo momento como dono da totalidade dos direitos sobre a sua criação.
Essa situação é diferente, por exemplo, do modelo em que criadores intelectuais transferem a totalidade dos seus direitos para um intermediário.
Em 'sa situação, sim, o criador deixa de ser o dono de sua obra.
A partir desse momento, nada mais pode fazer com ela.
É inegável que autores e criadores têm o direito de optar sobre como explorar sua obra.
Mas é claramente do seu interesse poder conjugar a manutenção dos seus direitos com a distribuição e exploração de suas obras.
Quando um grupo musical como o Mombojó licência suas músicas através do Creative Commons, isso não impede -- se o grupo assim desejar -- o lançamento de disco com 'sas músicas por uma gravadora.
Ao contrário, maximiza o alcance da sua criação, legalmente, enquanto preserva o controle sobre sua exploração econômica.
Esse é apenas um dos caminhos que os criadores da nova geração 'tão interessados em trilhar.
O desafio é inventar novos modelos, gerando formas de sustentabilidade econômica mais eficientes e democráticas para a criação intelectual, mais adequados à nova realidade digital.
Trata-se de um desafio para toda a sociedade.
O Ministério da Cultura tem sido elogiado no Brasil e no mundo por ter abraçado 'sa discussão, incentivando a busca de soluções criativas para seus impasses.
Por causa desse pioneirismo, o ministro Gilberto Gil realizou o discurso de abertura da assembléia geral da Organização Mundial da Propriedade Intelectual em Genebra no ano passado, convite raro para autoridades brasileiras.
O Creative Commons responde apenas por permitir algumas possibilidades de experimentação, que já foram adotadas por muitos artistas zelosos de seus direitos.
Apesar de voluntário, hoje existem cerca de 150 milhões do obras licenciadas através do projeto.
Ao mesmo tempo, seu 'copo vai muito além das obras musicais.
Um dos seus aspectos mais importantes é o chamado Science Commons, que fortalece e amplia a disseminação do conhecimento científico.
Assim, o Creative Commons demonstra que, em 'ta época de grande autonomia gerada por a tecnologia digital, é possível que o direito autoral seja exercido diretamente, e com grande facilidade e praticidade, por os autores e criadores, e não apenas através de intermediários.
Artigo publicado no jornal O Globo no dia 28 de setembro de 2007, com o título " Solução Criativa.
Número de frases: 47
«O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente." (
Fragmento do poema «Mãos Dadas» de Carlos Drummond de Andrade)
Segundo o 'critor matogrossense Ricardo Guilherme Dicke, é na literatura que reside " o 'plendor da linguagem.
Um povo sem literatura é um povo sem alma, sem história, sem memória."
Apesar de 'tar há décadas 'crevendo e conquistando prêmios nacionais, Dicke, que ultrapassou a marca dos 70 anos de vida, ainda permanece como novidade, pois sua obra é inacessível ao grande público.
Mesmo o leitor mais culto não consegue ter acesso a seus vários romances publicados, pois sempre foram editados com tiragem reduzida e nunca foram alvo de uma distribuição mais planejada.
Em a opinião de muitos ele é um 'critor para poucos, é pouco atrativo para um mercado que privilegia obras fáceis, de rápida degustação, como um fast-food, tipo os indefectíveis livros de auto-ajuda que se 'palham por as prateleiras das livrarias.
O mercado vive das ondas passageiras da moda, dos best-seller descartáveis, como seringas a aplicar doses de mediocridade no leitor que segue a cartilha do sucesso, mediado por as listas dos mais vendidos.
Mas quero colocar aqui uma questão que venho matutando:
o que é novo em literatura?
O que é novidade?
O 'critor jovem ou as letras de um velho 'critor que permanecem inéditas?
Ora, a novidade pode 'tar em ambos os casos, em algum de eles ou em nenhum.
Certas 'critas são extemporâneas como toda obra de arte que tem o poder de atravessar o tempo e passar a ser referência fundamental para a história humana.
Para um momento como 'se que vivemos, de extrema saturação da informação, de permanente criação de novos meios de difusão, do fenômeno internet, com os blogs se multiplicando como praga e possibilitando publicar todo tipo de produção, 'crita, falada, cantada, fotografada ou filmada, enfim, fica extremamente difícil definir uma tendência dominante como se sucedia até recentemente na história das artes.
Os movimentos artísticos eram manifestamente sucessores de movimentos imediatamente anteriores, se tornavam 'cola, um substituía o outro, rompia com os preceitos que vigoravam.
Novo é o quê, se a maioria daquilo que se apresenta como nova literatura não se qualifica para continuar sendo lida depois de seu tempo?
Rimbaud, por exemplo, será tão velho que os jovens não precisem conhecer sua obra mínima?
Claro que, quem trabalha com criação tem mais é que procurar conhecer seus semelhantes, suas referências, seus interlocutores, seus pares, em 'sa sandice que é 'crever.
A maioria dos 'critores não permanecem, não resistem ao tempo, isso é óbvio.
Difícil é acreditar que só por ser jovem alguém seja capaz de ocupar o lugar de determinados 'critores que reúnem muito mais condições de vencer o 'paço-tempo e continuar sua trajetória na história humana.
É muito comum que determinados movimentos de jovens 'critores surjam com a impetuosidade típica de quem quer desbancar os 'critores «mais velhos» em nome da renovação.
Mas isso é complicado
Existe uma idéia que perpassa várias cabeças pensantes em Mato Grosso de que vem acontecendo um boom literário jamais visto por aqui.
Muito de 'sa impressão vem por a quantidade de pessoas que 'tão 'crevendo, por a ampliação das facilidades para se publicar, por os vários movimentos que vêm se aglutinando em núcleos onde 'critores, professores universitários, editores e livreiros debatem questões como circulação, incentivo à leitura, o papel das novas editoras, enfim, pessoas que 'tão agindo para fomentar a cadeia produtiva e 'timular o mercado desse segmento.
Mato Grosso tem uma tradição literária de peso que avançou para além fronteiras com os 'critores e poetas:
Ricardo Guilherme Dicke, Wlademir Dias Pino, Silva Freire e Manuel de Barros, que também é matogrossense, se destacaram numa linha de ruptura, de experimentação, de um diálogo com as vanguardas literárias.
Outros bons 'critores e poetas, que dialogaram com a tradição, como os poetas João Antonio Neto e Ronaldo de Castro, ambos de uma geração sonetista com pinceladas de modernismo.
Tivemos um poeta-acadêmico (Academia Brasileira de Letras) que foi o Dom Aquino Corrêa;
a 'tranha modernidade de José de Mesquita do começo do século passado e que só agora começa a chamar a atenção de alguns 'tudiosos.
A literatura de vanguarda do Wladipino, por exemplo -- ele nasceu no Rio de Janeiro mas adotou Cuiabá como sua cidade -- não passou em branco diante dos círculos literários mais importantes do país, tanto que se envolveu numa rusga com os concretistas de São Paulo, Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari & cia, através de manifestos públicos em que se contrapunham frontalmente em embates científico-etéticos, cada um querendo afirmar seu modus operandi;
o instinto barroco-surrealista do genial Ricardo G. Dicke que faturou diversos prêmios nacionais e ainda hoje demonstra um vigor extraordinário com sua obra que vem despertando cada vez maior interesse das pessoas.
As novas gerações se sucederam e hoje vem surgindo uma novíssima que aparece com um discurso renovador mas que não oferece ainda um painel tão claro de suas produções, ainda não dá para definir uma revolução na 'crita, não há novidade no sentido de uma literatura que 'tremeça o chão desse imenso Matão e se afirme a despeito de tudo que ainda vem se firmando.
O recém formado Coletivo Arcada Dentária reúne parte desses jovens 'critores que se lançam com manifesto e tudo mais, adeptos de novas ferramentas, tipo internet, cooperativismo e receitas mercadológicas, que são importantes, mas não refletem uma mudança radical na 'crita, no modo de narrar, de compor um poema, ou isso perdeu o sentido?
Vi no Zine nº 1, impresso, reflexos do velho surrealismo, flertes com a literatura pós-guerra do século passado, dos beatniks, do existencialismo, enfim, referências diversas que apontam para uma 'crita bastante pertinente com 'ses tempos cibernéticos onde nada permanece, onde tudo passa velozmente.
Hoje você compõe um poema e já o publica, ou melhor, posta, e 'sa produção multifacetada se nutre de elementos típicos da contemporaneidade, incorporando a internet e outras influências da cultura de massa.
Mas isso não basta para se afirmar como novidade.
Existe uma produção literária em Mato Grosso que vem se delineando desde a década de oitenta e que só agora 'tá se consolidando:
Lucinda Persona, por exemplo, vem sendo reconhecida como uma das mais importantes poetas da cena contemporânea do Brasil;
Yvens Scaff vem conquistando 'paços há muito tempo com uma produção que mantém uma regularidade em publicações, com poemas, contos e textos voltados para o segmento infanto-juvenil;
Gabriel de Matos é outro que vem 'crevendo, publicando e conseguindo distribuir seus livros com uma boa constância, até mesmo nas 'colas, via programa nacional de incentivo à leitura;
Wander Antunes 'tá conquistando importantes mercados internacionais, sendo premiado como um dos melhores roteiristas publicados em solos europeus.
Tem outros nomes surgindo, tem mais gente boa por aqui.
O poeta Antonio Sodré, do núcleo literário do bando Caximir, que desde a década de 80 vem consolidando sua carreira;
nos círculos da UFMT, agora surgem novíssimos e bons poetas como o Odair de Moraes, Gláuber e outros.
Juliano Moreno, poeta, contista, produtor cultural, editor da revista Fagulha, expôs com muita sinceridade:
«O que tem de prevalecer é o desejo de fazer.
Se o princípio é o mercado para fazer literatura, tem que analisar o perfil do brasileiro que não foi educado para ler como fonte de conhecimento e prazer.
O processo é muito dinâmico.
Aqueles que colocarem a literatura acima do conceito de fama, sucesso, egocentrismo é que irão permanecer e serão avaliados no futuro.
O que mais importa é 'sa vontade de comunicar, o desejo de 'crever é que deve mover.
Expor ali a sua visão de mundo, suas inquietações.
Acho que a gurizada não deve se preocupar muito com politicagens.
Literatura exige um exercício permanente de 'crita e um mergulho na gente mesmo pra produzir e tem que ser radical."
O velho poeta Drummond, tão (e) terno.
De novo o poema " Mãos Dadas ":
«Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros."
Sei lá!
O mundo é tão grande!
O (n) ovo 'tará sempre por nascer.
Novidade é o sol nascer todo dia e a gente poder sentir que hoje tudo é diferente de ontem.
Número de frases: 63
A era da canção parece chegar ao fim.
Mesmo que o fim seja ditado por décadas, não subestimo o minuto nem o silêncio, não superestimo a década e os milênios, vãos, música ligeira.
Os discos serão alvos de exposições, serão artigos de colecionadores, 'tarão suspensos, inertes, dentro de salas climatizadas ...
será não sei só que nada serei ser e não há som aqui.
Não.
Cessam os direitos reservados, cessam os pagamentos aos radialistas, cessam os assessores, cessam os amigos de amigos, cessam as prateleiras, cessam os locais, cessam as obrigações, cessam ...
Não cessará a canção.
Este formato de letra, melodia e harmonia.
Que se multipliquem os formatos, os não-formatos, os «decompositores», as desarmonias, os grunhidos ...
Canção é somente barulho organizado.
Platéia.
Muitos correm, acompanham os passos ao seu lado, não sabem bem para onde correm, mas correm, alguns ficam parados, outros correm num contra-fluxo.
Para o primeiro:
ouvir somente através do grande ouvido coletivo.
Para o segundo:
não ambientado ao caos, ficam imóveis procurando onde pôr as mãos, os ouvidos.
Para o terceiro:
diálogo, sempre diálogos, movimento por força da discussão dos meios dos meios.
Eu.
Ninguém ousaria usar 'te pronome numa crônica ou crítica, nós que somos do terceiro, usamos, mas dialoguem, há 'paços, números infinitos.
Número de frases: 20
Não sou punk.
Nunca fui punk, mas 'cuto punk, entre outras coisas.
Isso foi o suficiente para me interessar por o documentário Os Punks São Legais na Mostra desse ano.
Fui com o mínimo de informações ou julgamentos pré-concebidos ou adquiridos, o que creio ser uma atitude saudável em documentários.
Portanto àqueles que acreditam 'tar indo ver uma massiva homenagem ao punk, ou uma aula de história sobre o 'tilo, 'tejam avisados:
não é nada disso.
O filme é sobre punks, não sobre o Punk.
Dito isso, não gostaria de entregar muito mais e tampouco colocar aqui o julgamento com o qual saí da sessão.
Pode parece contraditório com meu parágrafo inicial, mas minha idéia a respeito dos punks não mudou muito graças ao filme, e se você prestar atenção isso de fato não contradiz o início do texto, e mesmo que sim, minha opinião sobre os punks aqui é irrelevante, o que conta mesmo é o que tenho a dizer sobre o filme.
E ele é um bravo 'forço de um diretor visivelmente empolgado, que se envolve com seu tema e não tem vergonha de mostrar.
Ao contrário dos documentaristas panfletários de hoje, sua voz é quase inaudível ao longo do filme, e suas opiniões não nos são ditadas, são mostradas.
Ou melhor, não há opiniões, há fascínio, que fica bem claro.
Caso não saiba absolutamente nada sobre punk, não se alarme, o filme ainda vale muito a pena.
Ele não se importa com o conhecimento adquirido fora de ele, ele apenas apresenta a situação atual do punk, seja como 'tilo musical, 'tilo de vida ou simples «'tilo».
Conhecer o punk através desse filme pode de fato ser uma experiência muito interessante, que eu recomendo e até gostaria de vivenciar, pois pode levá-lo a crer que 'ta é a expressão legítima e definitiva das massas oprimidas, o que com certeza foi no passado e não deixa de ser hoje, mas não mais como a única.
É aí que 'pectadores com algum conhecimento do assunto podem dividir-se entre cínicos e empolgados.
O que vale mesmo é que todos os personagens têm algo a dizer, e encontraram no punk a melhor forma para se expressar.
Não existe qualquer outra constante e com certeza não há regras.
Douglas Crawford consegue transparecer a 'sência da atitude punk através do filme, não só como o produto acabado, mas na própria forma de produzi-lo:
Um sujeito com algo a dizer que resolver se expressar como podia, sem a ajuda de ninguém, e que precisava de um trabalho normal para sustentar isso.
Somos todos punks, afinal, quem não quer ser legal?
Em as palavras do próprio Crawford:
Não pareço punk para você?
Número de frases: 23
Muito se fala sobre o preconceito que os nordestinos sofrem nas grandes capitais do sudeste, mas em minhas andanças por 'sas bandas, vi pouco disso na verdade.
Claro que sou nordestino fajuto, nasci na cidade de São Paulo, mas tive minha formação em Maceió, capital do 'tado de Alagoas, desde os três anos de idade (ou seria um paulista fajuto?
Ou ainda um alagoista?).
Preconceito declarado, discriminação mesmo, nunca vi, mas um desconhecimento inacreditável da mais básica geografia brasileira, isso muito.
Não posso contar, nos dedos das mãos e dos pés, quantas vezes me encontrei em 'ta situação:
Alguma festinha ou reunião de qualquer natureza, onde algum cidadão, minutos depois de me conhecer (quem apresenta já diz de onde você é, como um sobrenome, mas nada contra) chega e me pergunta:
«sim amigo, mas lá em Fortaleza, tal e coisa?"
como se fosse na 'quina da minha casa!
Então eu respondo que Fortaleza 'tá tão distante de Maceió quanto Belo Horizonte (aproximadamente).
Aliás, foi lá em BH que uma vez um amigo do meu amigo me disse «poxa, você é do Nordeste, quando passar por a Passarela do Álcool, lembre que eu blá blá, num sei o quê por lá».
Respondi pra ele que nunca 'tive em Porto Seguro, ele achou 'tranho, por eu ser nordestino, mas expliquei que a tal Passarela é bem mais perto de onde ele mora que Maceió algumas centenas de km.
É do lado de BH.
Muito sujeito cheio de título, curso disso e daquilo, já chegou pra me perguntar se Maceió é a capital de Aracaju, entre outras atrocidades.
Ajuda aí né amigo?
Se fosse uma coisa rara de acontecer, vá lá, tudo bem, mas acredite, é constante e corriqueiro.
Muito me 'tranha que o carioca seja carioca, com sua identidade e lugar no 'paço territorial desse Brasil nacional, e não sudestino.
O carioca é carioca, o mineiro é mineiro, tal qual o paulista e também o capixaba.
Ninguém é sudestino.
Essa coisa do termo «nordestino», e até do orgulho de sê-lo, é um tanto equivocada, coloca todo mundo no mesmo saco de farinha, da mesma forma que as generalizações» baiano «e» paraíba», tão usadas em São Paulo e Rio de Janeiro respectivamente.
Nada contra os baianos e os paraíba (nos), muito pelo contrário, mas, bem, eu sou alagoano, não porque isso seja lá grande coisa, sem 'sa de nacional-fascismo do tipo " minha terra, minha cultura e minha praia são melhores que as dos outros.
Se discordar, peixeira».
Nada disso, é uma questão de dar nome aos bois mesmo, e de recuperar aquelas aulas de geografia que, sem dúvida, muita gente Brasil afora matou ou bombou forte.
Esse termo, tão usado, tão comum, o «nordestino», alimenta a preguiça em relação a pensarmos melhor o nosso País, conhecê-lo o mais de verdade possível, sem colocar» aquele amontoado de 'tados pequenos», seus povos e culturas, sotaques e costumes, na mesma categoria:
«Os nordestinos».
De Maceió até Recife são menos de 300 Km, Alagoas já fez parte da capitania de Pernambuco.
No entanto, em Maceió, eu vou à casa De o fulano, e em Recife eu vou à casa De beltrano, entre todas as incontáveis diferenças.
E viva a diferença!
«O nordestino» é uma construção cultural e histórica que perpetua o preconceito de uma forma muito sutil.
Portanto eu digo:
Por o fim do nordestino!
Vamos acabar com isso gente, deixa de 'sa ...
Antes de terminar, preciso contar mais um causo desses, um dos meus preferidos.
Estava hospedado na casa de uma amiga de Alagoas que vive em Porto Alegre.
Em 'sa época, ela morava com uma 'tudante de Relações Exteriores (!)
gaúcha de vinte e poucos anos que me disse o seguinte:
«Antes de morar com uma nordestina, eu pensava que o nordeste era ali onde tem a seca e aquela coisa toda ...
como chama mesmo?"
eu respondi «sertão» e ela continuou «isso mesmo, achava que o sertão era o nordeste e que o norte era ali onde tem aquelas praias tropicais bonitas com coqueiros».
E pra acabar com a conversa:
um brinde aos paraibanos, pernambucanos, potiguares, cearenses, baianos, sergipanos, alagoanos, maranhenses e piauienses!
Número de frases: 40
Quando um contista morre uma 'trela se apaga.
Bom, se isso não acontece, deveria.
E hoje deveria 'tar apagada uma 'trela das grandes para lembrar a passagem do autor de alguns dos melhores textos que já li.
Fausto Wolff era um pouco que tudo o que eu gostaria de ser quando crescer:
jornalista, combativo, mordaz, surpreendente, divertido.
Era um grande 'critor.
Nascido em Santo Angelo / RS em 17 de outubro de 1940, começou, aos 14 anos, a trabalhar como repórter policial e contínuo do jornal Diário de Porto Alegre.
Em o Rio de Janeiro, para onde mudou aos 18 anos trabalhou em diversas redações de jornais como «A Tribuna da Imprensa» e «O Globo», além de ter sido um dos editores de» O Pasquim».
Até a última sexta-feira, dia 05 de setembro de 2008, mantinha coluna no Jornal do Brasil.
Fausto viveu dez anos na Europa, onde ensinou literatura nas Universidades de Nápoles (Itália) e Copenhague (Dinamarca).
Escreveu dezenas de peças teatrais e mais de 20 livros, entre maravilhosos contos, poesias, ensaios e literatura infantil.
Seu livro «à mão 'querda» recebeu o prêmio Jabuti em 1997.
Casado com a psicanalista e 'critora Mônica Tolipan, Wolff deixa duas filhas e dois netos.
Descobri seu texto com o inacreditável romance à mão 'querda, que peguei emprestado numa biblioteca pública porque era volumoso e o nome do autor, 'quisito.
Como 'tava de férias precisava de algo longo para ler.
E o nome do autor era diferente ...
Assim, perdida dentro de minha ignorância, foi por muita sorte coloquei meus olhos em seu texto genial.
A partir daí li ainda O nome de Deus, A milésima segunda noite e O lobo atrás do 'pelho ('te há poucos meses durante os passeios com meu bebê ainda recém-nascido).
Depois disso não fui mais a mesma como leitora nem como arremedo de 'critora.
Fausto Wolff, posso dizer, influenciou-me na maneira de pensar o conto e disse o que eu gostaria de ter dito e da maneira que gostaria de ter 'crito.
É com muita tristeza que recebo, com atraso por conta dos preparativos da festa de aniversário de um ano do meu filho, a notícia da sua morte.
É com muita tristeza não por questões filosóficas ou religiosas.
É com muita tristeza por puro egoísmo, mesmo.
Com muita tristeza porque seus textos não 'critos farão falta.
Com muita tristeza porque seu texto não 'crito é aquela 'trela apagada que eu gostaria continuasse por aí, brilhando.
Número de frases: 25
Restos de chapas de metal sem utilidade, descargas velhas de moto e de carro entulhadas no chão de uma oficina.
Qualquer pessoa diria se tratar de ferro velho e não veria nisso nada de sublime.
No entanto, a retina de Júnior Leônio é capaz de enxergar longe.
Ele é um artista nato, cuja criatividade e o talento impressionam ao primeiro contato.
Seu olhar sensível pode perceber em 'sa matéria inerte formas angelicais e em elas descortinar uma existência mista de atribulação e graça.
Vê alguém que amava a música da vida, a harmonia dos sons do mundo e que de eles fora privado por uma precoce partida.
Esse garoto gloriense é capaz de ouvir 'sa pessoa a tentar convencer o Criador de que precisa voltar ao mundo dos vivos, e consegue vê-la retornando, conversando com os pais e tocando novamente sua guitarra.
De 'sa vez, tocando para a glória de Deus.
Assim, Júnior dá formas à sucata e faz surgir uma nova realidade, recria no metal, aparentemente inútil, «O retorno do anjo» (foto acima).
Filho de Leônio Carlos da Silva e Maria dos Prazeres Oliveira Silva, Júnior Leônio da Silva, primogênito dos seis filhos do casal, nasceu em Nossa Senhora da Gloria e já aos quatro anos mostrava-se mais observador e criativo que o comum dos meninos de sua idade.
Em 'sa época, manipulando um pedaço de arame, criou sua primeira peça:
uma pequena bicicleta.
Feito que a todos deixou admirados.
A arte já o havia 'colhido, embora Júnior ainda não o percebesse.
Leônio passou a infância lidando, sem o saber, com aquilo que seria a matéria-prima de sua arte, pois seu avô comprava sucata no ferro velho.
Inocentemente, o futuro artista plástico brincava com ela e deixava que sua imaginação criasse asas.
Mal sabia que as fantasias que construía em sua imaginação também o 'tavam construindo e fazendo germinar em ele uma sensibilidade incomum aos demais.
Há dois anos, observando o ferro velho do avô, palco de suas fantasias infantis, Júnior foi tomado novamente por a necessidade de criar e, diante de uma descarga de carro, chapas de metal, picaretas, canos e de pedaços de vergalhão, ocorreu-lhe retratar o transporte comum das pessoas mais velhas do sertão.
Surgiu então o «Jegue e o Nordestino», outra de suas mais conhecidas 'culturas.
A partir daí sua produção acelerou e hoje, aos vinte e cinco anos de idade, já conta com aproximadamente 70 peças entre 'culturas de metal, quadros, desenhos e 'culturas de madeira.
Quanto a 'tas últimas, o artista explica:
«Em a verdade, a natureza se encarrega de produzir arte, eu apenas dou-lhe alguns retoques».
Em 2000, com o apoio de seu amigo Messias Cordeiro, Diretor do Projeto Luz do Sol, participou de concursos e exposições nacionais, como o «III Concurso Nacional de Artes Arte de viver» da Jansen Cilag, em São Paulo / SP;
1ª Amostra Nacional de Prática em Psicologia, em São Paulo / SP;
II Prêmio Arthur Bispo do Rosário, em São Paulo / SP e o VI Festival Nacional de Arte Sem Barreira, em Brasília / DF.
Em 2001, participou do 1º Festival de Arte Sem Barreira, em Aracaju / SE e, em janeiro de 2002, realizou a 1ª Exposição «Arte em Ferro», em Nossa Senhora da Glória.
Júnior afirma que a obra do artesão Véio e de outros artistas plásticos nacionais tem influenciado seu trabalho.
Ele diz ser ainda um artista em formação:
«hoje observo trabalhos de artistas consagrados e procuro amadurecer minha arte para poder me expressar cada vez melhor».
Graças a Antônio Cruz, 'tudou desenho e pintura com o professor Elias Santos, na Galeria de Arte Álvaro Santos.
Infelizmente, como acontece com a maioria dos artistas do interior, faltam-lhe ainda mais apoio e incentivo dos órgãos governamentais, ou até mesmo de entidades que lidam com arte e cultura para divulgar o trabalho desse fabuloso artista plástico.
Por conta disso, suas peças ainda são privilégio de um público restrito:
familiares e amigos.
O público dos grandes centros não o conhece tão bem ainda.
De 'sa forma o trabalho de Júnior continua sem uma avaliação precisa de seu potencial cultural e artístico.
Número de frases: 35
Atualmente, o artista 'tá a 'pera de patrocínio para divulgar seu trabalho em exposições por o Estado e, principalmente, em Aracaju.
Depois que o primeiro homem subiu no muro, apertou o bico e «tacou o nome» a cidade nunca mais foi a mesma.
Amada por alguns (mais gente do que se imagina) e odiada por quase todo o resto, a pixação se afirma como um dos elementos visuais que caracterizam a paisagem das grandes cidades.
Vandalismo, rebeldia juvenil, chame como quiser.
Fato é que o cinismo passa longe quando os pichadores se declaram como «artistas de uma arte proibida».
Em tempos que a arte salta das galerias e invade as ruas com intervenções corroboradas por tendências e teorias a pixação se organiza para se consagrar a cada madrugada em seu 'paço de origem, a rua.
Em o dicionário Aurélio o verbo pichar consta com a grafia ch, mas na 'crita e na fala dos adeptos o «x» entra em cena, redefinindo o verbo como pixar.
Uma breve investigação histórica sobre a pixação no Rio de Janeiro aponta para o 'crito:
«Celacanto provoca maremoto!».
A frase ocupou um considerável 'paço em muros da Zona Sul carioca no final da década de 70.
O responsável por a primeira pixação na cidade maravilhosa foi o jornalista Carlos Alberto Teixeira, na época 'tudante da mais tradicional universidade particular do Rio.
Carlos chegou a dar entrevistas para jornais e fazer trabalhos de artes plásticas apoiado na fama acumulada por a pixação.
O grande boom da pixação aconteceu com o final da ditadura civil-militar, acompanhando o afrouxamento da violenta repressão.
Já no começo dos anos oitenta a expansão da pixação ganhou o subúrbio carioca.
A arte proibida deixava de ser exclusividade dos meninos classe-média e invadia muros e mentes da Zona Norte até a Baixada Fluminense.
Desde então pixadores de diferentes procedências sociais transformaram a cidade no cenário de uma batalha que até hoje mancha de tinta paredes, muros, monumentos e vários outros alvos possíveis.
Hoje em dia a pixação extrapola os limites de muros e marquises.
Está na internet (em fotos, vídeos e textos), flerta ainda com a tela do cinema e demonstra uma certa complexidade de organização.
Prova disso são as chamadas Reu, grandes reuniões onde pixadores de todo o 'tado se encontram para trocar experiências.
Recentemente, no início do mês de março, aconteceu no bairro de Brás de Pina (subúrbio do Rio) o Xarpi Rap Festival.
O Festival funciona como uma grande Reu, e serviu de ponto de partida para elaboração deste texto.
«Não dá dinheiro mas alimenta a alma, gosto do que represento nas ruas "
Troquei uma idéia com Nuno DV (Destruidores do Visual), uma figura que começou no xarpi em 90 e que segue na ativa até hoje, " Tinha um pessoal no colégio Castel Nuovo (Arpoador), todos faziam alguma coisa:
futebol, luta, surf.
Mas em comum todos eram pixadores.
Entrei em 'sa de pixação pra tentar fazer parte daquele grupo».
Nuno trocou de 'cola e carregou com si a fama de aluno rebelde.
Chegando ao novo colégio conheceu SAF, " daí a pixação passou a ficar séria.
SAF me levou pra fora da zona sul (Benfica, Ramos, Olaria, Caxias, Madureira).
Um belo dia conheci a reunião de pichadores.
Cheguei lá, assinei um caderno e, pra minha surpresa, geral 'tava ligado no meu nome.
Aí passei a gostar desse reconhecimento 'tranho que a pixação traz, e queria mais e mais."
E quando o feitiço vai contra o feiticeiro, o que será que passa na cabeça do pixador quando sua própria casa é alvo da arte proibida?
«Já aconteceu, quando eu morava na Ilha do Governador, provei do meu próprio veneno.
Só cocei a cabeça e ri.
As pessoas passavam, me viam pintando o muro e falavam: '
'ses moleques não tem mais que fazer '.
Eu só pensando:
eu sou um desses moleques».
Essa e outras tantas questões são inevitáveis, na tentativa de entender como funciona a mente de um pixador.
«Quem tá de fora nunca entende, pra falar a verdade nem quem tá dentro entende.
Eu não consigo explicar o motivo de pixar.
Mas só de sentir o cheiro da tinta, isso já resume todos os motivos pra mim».
O processo é complexo, mas envolve aspectos como satisfação pessoal e o reconhecimento do grupo.
Nuno segue explicando:
«A pixação é uma forma de comunicação visual, só que pra um grupo fechado e direcionado.
Um analfabeto que tenta ler um texto não vai conseguir, o xarpi é por ai.
Só quem «'tuda» na 'cola da rua e se forma na «faculdade da tinta» consegue ler».
Os critérios da rua são subjetivos e acabam classificando os pixadores de acordo com sua conduta.
«Você vai vendo o valor da coisa e vai selecionando o teu alvo.
Hoje eu não picho nada que seja tombado, nem igreja ou 'cola.
Tem pixadores e pixadores, quem é de dentro sabe quem é quem».
Existe até mesmo uma eleição que 'colhe os melhores do ano em categorias como:
melhor no topo, melhor na marquise, melhor de cabeça para baixo, e assim por diante.
Existe ainda as chamadas «seletinta», Nuno faz parte da 40°,» O sonho e o objetivo da molecada é assinar uma das seletintas, mas pra entrar em 'sas seleções você tem que receber um convite».
A ilegalidade torna o xarpi uma atividade mais sedutora, mas, por outro lado, o que se observa é um gradual desinteresse na repressão aos pixadores.
Nuno, que depois de uma pausa nas atividades nunca mais rodou (foi pego por a polícia), se diverte com a situação:
«A pixação não tá incomodando a polícia.
Eles vêem os pixadores como merda.
Se te pegam nem levam (pra delegaria), só arrancam um dinheiro e te mandam embora».
Em a prática não existe uma punição 'pecífica para quem pixa, nas ruas o que impera é a lei da propina, " a gente brinca que já tem até tabela do arrego (propina):
Soldado da PM é 10 pra cada;
Cabo é 20 de cada;
Sargento é 50.
Mas quem rodar para a oficial é bom tem um bom cartão.
Tu acredita que um cara rodou e passou um cheque para o policial?».
Curiosamente a ascensão do grafitti tem ajudado a aliviar a barra dos pixadores.
A fronteira entre o que é entendido como arte e como vandalismo vai se 'treitando cada vez mais.
Mas como será que 'sa relação se desenrola na prática?
Sem bandidos e mocinhos
Seja nas mais descompromissadas conversas de boteco, ou em elaboradas teses acadêmicas, a pixação e o chamado Funk Carioca são termos constantemente invocados.
Em muitas das discussões sobre cultura urbana que tive a chance de presenciar, no bar ou na academia, os termos eram trazidos à tona em argumentações que hierarquizavam 'sas expressões culturais.
A situação é mais comum com o Funk, perdi a conta de quantas vezes 'cutei pessoas entendidas no assunto colocando o batidão como uma cultura periférica menor em relação ao Hip-hop.
A ingenuidade de 'sa hierarquização entende o Funk como uma música sem qualidade poética ou conteúdo político.
Ao passo que o Hip-hop sim representaria uma alternativa de entretenimento e organização social para as populações periféricas.
A relação pixação / grafitti é comumente entendida da mesma maneira, e afetada por dois agravantes:
muitos dos grafiteiros são, ou dizem ser, ex-pixadores;
a pixação, diferente do Funk, é uma atividade ilegal.
De aí, o discurso mais comum apresenta o pixador como uma figura delinqüente, que suja a cidade e o grafiteiro como sua forma evoluída, o cara que usa da mesma linguagem (o spray em parede) só que de uma maneira artística.
Para quem observa de fora, o grafitti pode parecer uma salvação para o desvio de conduta que é a pixação.
Mas a experiência que tive numa rápida incursão por o mundo do xarpi não vai de acordo com 'sa lógica, pelo contrário, o que pude perceber é que nenhum dos pixadores parecia precisar ser salvo.
Que o mundo veja -- Pixando a tela da sétima arte
Além de dominar os muros da cidade, o xarpi (pixar na língua dos pixadores) passou a ganhar atenção 'pecial dada por uma olhar bem 'pecífico.
Há alguns meses 'tá rolando na rede o trailer do documentário Que o mundo veja -- retratos da Pixação carioca.
O vídeo é uma produção independente capitaneada por o cineasta Jefferson Oliveira (Don).
O próprio documentarista já teve uma breve experiência colocando nomes por a cidade, e me explicou como 'sa vivência influenciou a realização do vídeo:
«Sempre fui muito curioso sobre 'te universo que é o xarpi.
Assisti a alguns documentários, uma linguagem feita por gente nova, que falava muito de graffiti.
E todos 'tes vídeos colocavam os pixadores como uma coisa ruim.
Quase como se o graffiti fosse a salvação na vida dos pixadores ...
e por o que eu me lembro da época em que eu tacava nome, eu não me sentia um bandido ou um delinqüente».
A proposta de fazer uma abordagem diferenciada sobre o tema começou com a 'colha dos entrevistados, " Decidi que só entraria no filme quem taca ou já tacou nome um dia.
Nada deste formato quadradão que se costuma fazer por aí, tipo:
um pixador fala de suas questões e depois entra um psicólogo dando um suposto aval técnico sobre aquele personagem.
Se tivesse que ter um psicólogo, que 'te psicólogo tenha um dia tacado nome».
Escolhidos os personagens, Don direcionou as entrevistas a partir de duas principais questões:
pixação, vandalismo ou arte?
Como você, pixador, é visto por a sociedade?
A primeira impressão levantada por o documentarista é que nenhum dos seus entrevistados se sentia como, um bandido, " São pessoas dos mais variados 'tilos e classes.
Mas o principal é que ninguém que entrevistei parecia querer ser salvo, saca?
Entrevistei nego que tá 'tabilizado profissionalmente, tem 'trutura familiar e muitos já são formados.
Tem empresários, médicos, policiais civis, federais e militares, bombeiros, historiadores, DJ ´ s, tatuadores ...».
Um dos aspectos que mais chama atenção no vídeo é a abertura dada por os entrevistados.
Os personagens são acompanhados por Don em «missões» em plena luz do dia e, além disso, dão as entrevistas apenas com uma pequena tarja preta cobrindo os olhos.
«Botei aquela parada ali contra a vontade de eles, eles mesmo não queriam tarja nenhuma.
Mas isso ai ainda é só o trailer.
A coisa vai 'quentar mesmo quando vier o filme!».
Em processo de edição, no ritmo de uma produção totalmente independente, o documentário deve ficar pronto no segundo semestre de 2008.
Por enquanto, só o trailer já bateu a casa das 43 mil visualizações.
Reu -- o Xarpi organizado
«Nós 'tamos mais organizados que o grafittii, sabe por quê?
A maior parte de eles pinta por dinheiro, a gente aqui 'creve o nome por amor».
Essa foi uma das frases que 'cutei durante o Xarpi rap Festival, uma grande reunião de pixadores que aconteceu no começo do mês de março no bairro de Brás de Pina, subúrbio do Rio de Janeiro.
As chamadas «Reu» (abreviatura de reunião) acontecem com freqüência há alguns anos em diferentes bairros da cidade.
Recentemente a «Reu da Penha» é a que vem se destacando por agrupar o maior número de pixadores sob um viaduto do bairro.
Empolgados por o sucesso de 'tas reuniões o pessoal da Família Five Stars resolveu produzir uma Reu um pouco maior, foi assim que nasceu o Xarpi Rap Festival.
Confesso que fiquei impressionado, logo que cheguei ao local avistei dezenas de carros 'tacionados na ladeira em frente ao Clube Coimbra.
Havia sido informado que as Reu costumavam receber de 400 a 500 pessoas, entre gente do xarpi e curiosos.
Portanto, a expectativa para 'ta noite era muito grande.
Já na porta encontrei alguns amigos, e assim que entrei no clube me senti mergulhando no túnel do tempo, não que eu já tenha sido do xarpi, mas a trilha sonora da festa foi marcada por o Funk que dominava os bailes em meados dos anos 90.
Me senti em casa, encontrei vários outros amigos que cantam rap.
Conheço poucos MC ´ s que realmente fazem xarpi, mas, como bons observadores da paisagem urbana, muitos de eles narram a presença das letras por os muros.
Em São Paulo, o grupo Mamelo Sound System canta na música " Cidade Ácida:
«Pixações aos milhões em todas as sessões, na cidade sem exceções / identidade das ruas, uma única textura tatuando tradições e driblando viaturas pra lançar a real mais pura de quem já não atura calado a vida dura / Isso é que é contra-cultura».
Em o Rio, MC Funkero canta a " Máfia do Spray:
«Somos terroristas, cultura de rua, máfia do spray!»,
citando dezenas de nomes de grafiteiros e pixadores.
Em a poesia do Rap o xarpi tem 'paço garantido como mais um braço da expressão contra-cultural.
Estas reuniões e festivais funcionam como 'paços de socialização para o pessoal do xarpi.
Diferentes siglas e famílias se encontram, trocam impressões e assinaturas em cadernos que funcionam como álbuns.
A onda é pegar a 'critura daquele xarpi que você enxerga nos pontos mais absurdos, os adeptos vão «trocando» e colecionando 'sas 'crituras.
Esse processo acaba fortalecendo a tradição do xarpi.
Prova disso é o duplo movimento que acontece hoje na pixação:
por um lado, é visível a volta de grupos que atuavam nos anos 80;
por outro, cada vez mais jovens digitalizam o xarpi, são dezenas de blogs, fotos e vídeos 'palhados por a rede.
São os próprios pixadores que se ocupam de registrar e expor na rede o resultado de suas «missões».
Como bem alerta a música do " MC Funkero:
«Antes de você chamar o meu xarpi de delinqüente não se 'queça que seu filho pode 'tar entre a gente».
Don vai além:
«Você pode 'tar deitado numa mesa de cirurgia e o médico que 'tá salvando sua vida pode ser um pixador».
Mais do que apologia ao xarpi, o que se percebe em 'sas movimentações acerca da pixação é a vontade de debater o tema.
Os meninos que sujavam a cidade nos anos 80 e 90 cresceram.
Cresceu junto com eles o desejo de «botar a cara», admitir que a ilegalidade alimenta mais do que reprime e que os modelos de repressão vigentes não funcionam.
Número de frases: 143
O ponto fundamental é promover um debate de forma adulta, além da sombra da madrugada, distante da luz da viatura.
Em o dia 9 de abril último, a cidade de Campinas do Piauí viveu um dia diferenciado:
é que, para comemorar os 110 anos da inauguração da «Fábrica de Laticínios dos Campos» e os 150 anos do nascimento de seu idealizador, o Dr. Antonio José de Sampaio, encontraram-se na cidade delegações da Fundação Cultural do Piauí -- FUNDAC, do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional -- IPHAN, e uma plêiade de conselheiros e convidados da Fundação Nogueira Tapety -- FNT.
A FUNDAC e o IPHAN vieram exibir, na cidade, o documentário " Fábrica de Manteiga e queijo ..." produzido por o IPHAN em parceria com a Associação Brasileira de Documentaristas -- ABD-PI.
à tarde, em várias 'colas e, à noite, num telão defronte à Fábrica.
O documentário foi bastante aplaudido por todos.
A FNT, além de participar da exibição do documentário, organizou uma festa comemorativa das efemérides (com direito a bolo e discurso).
Até o Hino Nacional foi entoado por os presentes.
As datas, no entanto, não foram comemoradas apenas em Campinas do Piauí.
Em discurso da tribuna, o senador João Vicente Claudino, lembrou a data e declarou-se aderente à causa da restauração da «Fábrica de Laticínios dos Campos».
O professor Fonseca Neto utilizou-se de sua coluna semanal no «Diário do Povo» para 'crever sobre o significado da comemoração dos 150 anos do nascimento de Antonio José de Sampaio.
Comentando o livro do professor Marcos Vilhena, «Vôo de Ícaro -- tensões e drama de um industrial no sertão», lembrou o quanto ainda é necessário resgatar a memória do visionário cientista.
Campanha
Fábrica De Sonhos
Todas 'sas manifestações representam o coroamento de uma campanha promovida, desde junho último, por a Fundação Nogueira Tapety -- FNT, visando a restauração da «Fábrica de Laticínios dos Campos».
O principal instrumento inicial da campanha foi uma «Carta Aberta ao Governador do Piauí» quando foram colhidas cerca de mil assinaturas protocoladas devidamente na Secretaria de Estado de Governo.
Em dinâmica própria, o eixo inicial da campanha mudou, deixando de ser um incentivo à busca de um Mecenas, via Lei Rouanet -- evidentemente inexistente -- para tornar-se uma luta por o tombamento, em nível federal, do supracitado edifício como 'tratégia para obter a almejada restauração do prédio.
Não por acaso, a proposta de tombamento, formalizada por a FNT junto ao IPHAN, foi protocolada no dia de Santa Luzia, 13 de dezembro de 2006, apenas alguns dias após o aparecimento de dois livros, o já aqui citado «Vôo de Ícaro -- tensões e drama de um industrial no sertão», do historiador Marcos Vilhena, lançado em Teresina na Oficina da Palavra, no dia 19 de novembro de 2006 e o outro» Os 500», de João Castanho Dias, livro que, ricamente ilustrado, demonstra o pioneirismo da iniciativa do Dr Sampaio ao construir a segunda mais antiga Fábrica de Laticínios do Brasil.
Outra adesão importante à campanha se daria através da repercussão do livro do historiador que mereceu rasgados elogios -- o livro, seu autor, e o programa de pós-graduação da UFPI -- em discurso pronunciado no dia 12 de dezembro de 2006 na tribuna da Câmara Federal por o deputado Nazareno Fonteles, vice-líder do PT naquela casa legislativa.
Encantado com o tema, Fonteles decidiu ratificar, em todos os seus termos, a proposta de tombamento apresentada por a FNT.
O Bispo da Diocese Oeiras-Floriano, Dom Augusto Rocha, em ofício protocolado no IPHAN, manifestou seu apoio incondicional à proposta de tombamento apresentada por a FNT, lembrando os tempos em que o prédio abrigou sacerdotes que por ali passavam em desobriga.
Por solicitação da Câmara Municipal de Campinas do Piauí, a Assembléia Legislativa do Piauí -- ALEPI, enviou ao presidente do IPHAN, Luiz Fernando Almeida, em Brasília, uma Moção de Apelo solicitando seu 'pecial empenho na tramitação e final aprovação da proposta de tombamento da Fábrica.
Convém lembrar que, anteriormente, pedidos nos arquivos do IPHAN, já havia dois outros iguais pedidos:
o primeiro, apresentado em 1977, por o então Procurador Geral do Estado, Dr. José Eduardo Pereira e o outro, um abaixo assinado, constante de quase 400 signatários campinenses, formalizado em 2000, por ofício da então Secretária Municipal de Educação, Professora Maria do Socorro Alves Moura, que suplica «por tudo o quanto é sagrado» a restauração de aludido prédio.
Um outro inesquecível marco da campanha foi, sem sombra de dúvidas, a «Visita dos Intelectuais à Fábrica de Sonhos, organizada por a FNT, realizada no dia 24 de janeiro de 2007» (Dia da Adesão do Piauí ao Grito do Ipiranga) e capitaneada por os professores Cineas Santos e Fonseca Neto, visita que contou com o decisivo apoio da reitoria da UFPI que disponibilizou o transporte dos intelectuais saindo de Teresina e passando por Oeiras até Campinas do Piauí.
Em os jornais teresinenses, a visita rendeu a primeira reportagem de capa (na edição dominical do Diário do Povo do Piauí, 30 de janeiro de 2007) sobre a Fábrica de Laticínios de que se tem notícia.
A adesão de tantos políticos, líderes religiosos, intelectuais e participação engajada da comunidade local ilustra uma campanha vitoriosa, e o encaminhamento dado por o IPHAN no sentido da aceleração dos 'tudos técnicos também denota isto.
A campanha, no entanto, foi bem mais longe!
Milhares de e-mails recebidos e enviados;
a troca de ofícios com órgãos públicos e privados;
a publicidade dada no «Portal do Sertão» (www.fnt.org.br), sítio virtual da FNT, para a " Fábrica de Sonhos ";
dezenas de artigos publicados em portais tanto de Teresina como em nível nacional;
enfim, uma profusão de comunicações pontuais e difusas que, reunidas, formariam um livro.
Atenção:
As fotos que ilustram 'ta matéria integram um ensaio do internacionalmente conhecido fotógrafo e ambientalista André Pessoa, principal mentor da luta em defesa da preservação da Serra Vermelha.
Trata-se de contribuição pessoal do fotógrafo à Campanha «Fábrica de Sonhos».
Número de frases: 36
Alguns personagens da história da música assistem a ela tão perto e poucos parecem ir até eles para conhecer sua visão.
Dé Palmeira é um desses.
Baixista da formação original do Barão Vermelho, a entrevista com ele foi uma boa oportunidade de ver a caminhada do rock brasileiro e aproximação do gênero com a mpb, ao longo dos últimos vinte e cinco anos.
«O trabalho não é só do artista que 'tá na capa do CD, é preciso uma equipe boa pra um CD ficar bacana».
A frase é de ele, que atualmente é diretor, produtor e, sobretudo, baixista do elogiado (e muito bom mesmo) show /dvd/cd «Adriana Partimpim».
Membro da formação original do Barão Vermelho, integrante seminal do movimento que fez do rock, música pop no Brasil, na década de 80, ele é dono de uma história e uma bagagem que nos cativou o interesse em entrevistá-lo.
E devo admitir, sempre que via a dancinha e a pose do Dé nos vídeos e fotos das antigas do Barão, ele sempre me despertou curiosidade.
A conversa foi feita ao longo de imensos e-mails no mês de dezembro, com alguns ajustes já em janeiro.
Isso é importante para se compreender o ritmo da conversa.
bm:
Você começou a ' carreira ` de músico no rock, numa época em que não se pensava muito em se ter uma ' carreira ' de roqueiro no Brasil, já que o cenário não favorecia.
O que vocês tinham em mente, pretensões e objetivos, quando formaram o Barão?
Dé Palmeira:
Hummmm ... bom, ninguém naquela época tinha pretensão nenhuma de começar uma «carreira de roqueiro», como você disse.
Éramos apenas adolescentes, amadores querendo tocar.
Eu tocava em duas ou três bandas simultaneamente, acho que o Frejat também tinha outras bandas ...
enfim, a gente só queria se divertir.
Tem um episódio engraçado que já foi falado algumas vezes mas eu acho que é legal contar.
O Léo Jaime tinha feito um ensaio com nós antes do Cazuza.
Como ele não gostou muito do som, sugeriu o Cazuza para a vaga de vocalista dizendoque era uma cara super legal, gente fina e, «filho do dono da gravadora Somlivre».
Ele olhou para a gente e ficou 'perando a nossa reação, mas nós nem ligamos, parecia que ele 'tava falando grego.
Ninguém 'tava nem aí pra isso, só queríamos que o vocalista fosse maneiro e gostasse do nosso som.
Ninguém pensava em gravar LP, em fazer carreira, nem se o pai de ele tinha uma gravadora, nada disso.
É uma coisa que mudou muito, tempos depois os caras já montavam uma banda querendo ficar ricos e famosos!
Existia no Rio de Janeiro naquela época, um lugar que fez toda a diferença para as bandas que 'tavam começando a tocar e as que já tocavam e faziam o circuito «undergound».
Chamava-se «Circo Voador» e foi, todos sabem disso, o berço desse movimento chamado «Rock Brasil» ou «BROCK» (palavra que abomino)!
O Circo fez a diferença porque era o lugar mais democrático do mundo.
Era um palco onde aconteciam shows de música, peças, dança, performances etc..
Ele desempenhou um papel fundamental na época, como plataforma de lançamento, laboratório, e milhares de coisas que fizeram com que todo aquele pessoal que tinha a sua banda, o seu grupo de teatro, etc, pudesse trabalhar e ser visto por a cidade inteira, por o Brasil inteiro.
Hoje isso já não acontece mais.
Não que eu ache que o Circo de hoje devesse, obrigatoriamente, fazer a mesma coisa (embora pudesse), mas não existe mais um lugar assim no Rio e, com isso, não há mais 'paços pra 'coar uma enorme produção artística, cultural e de entretenimento.
Para as bandas então é pior.
O Ballroom, no Humaitá, que foi demolido, era o único palco decente que tinha na zona sul.
Em os outros bares é preciso pagar pra tocar.
Para um grupo, ou artista, que 'tá começando isso é mortal.
Os empresários da noite não têm o menor interesse nisso.
Talvez, agora, com a grande movimentação dos bares da Lapa, isso seja atenuado um pouco.
Então, olhando em perspectiva, a minha geração teve uma oportunidade de ouro.
Um lugar pra tocar quase de graça.
Isso, definitivamente, faz diferença.
bm:
Como foi a sua entrada no grupo, já que normalmente só se sabe / fala da entrada do Cazuza?
DP:
Eu entrei no Barão antes do Frejat e do Cazuza.
O Maurício e o Guto eram meus conhecidos e me chamaram para uma audição.
Cheguei lá toquei, eles gostaram e me convidaram para o time.
bm:
Outra questão é sobre a sua saída da banda em 1990.
Isso foi perguntado para você num comentário do blog do Antonio Carlos Miguel, mas a resposta ficou no ar.
O que aconteceu e quais eram seus planos na época?
DP:
Uau! Só assunto novo?
Bruno não faz isso com mim!!;)
Decidi me afastar da banda por motivos musicais.
Você quer detalhes né?
Bom, o que eu posso dizer é que eu já não via muito futuro pra mim sendo apenas músico de uma banda de rock no Brasil.
Achei que, pra mim, já 'tava bom aquela experiência e fui tratar da minha vida.
bm:
Sobre suas composições.
O seu nome, como o de vários outros parceiros doCazuza, ficou um pouco de lado na biografia de ele, devido ao enorme sucesso da assinatura Cazuza / Frejat.
Mas você 'teve ao lado de ele em algumas pérolas, como «Minha flor, meu bebê» (a minha favorita), «Mulher sem razão»,» Mais feliz e «" Preciso dizer que te amo» -- 'sas três últimas em parceria, também, com Bebel Gilberto.
Não sei se existem muitas outras suas com ele.
Depois da morte do Cazuza, me lembro agora de «Pense e dance», com o Frejat e o Guto Goffi, se não me engano.
Em suma, você é autor de poucas canções, mas só manda clássicos.
De que forma seu lado ' compositor ` continuou na década de 90 e, se você puder, comente o processo de criação desses ' clássicos '.
DP:
Bom, não acho que meu nome tenha ficado assim tão de lado na biografia do Cazuza.
O Frejat foi o seu principal parceiro, autor, ele sim, de verdadeiros clássicos que mudaram o perfil da musica brasileira e é natural que se dê mais atenção à dupla do que às outras parcerias.
Minhas composições com Cazuza são bem poucas, na verdade nem sei quantas, mas não devem chegar a dez.
Trabalhamos mais depois que ele saiu do Barão e nos tornamos mais próximos.
Duas de elas viraram «standards» nacionais como «Preciso dizer que te amo», que tem várias gravações com Marina, Léo Jaime, Bebel, Emílio Santiago, Cássia Eller, Zizi Possi etc ...
A outra é «Mais Feliz» que na gravação da Adriana Calcanhotto se tornou um inesperado hit radiofônico.
Sob o processo de criação de 'sas músicas, o livro que a Lucinha Araújo fez chamado:
«Cazuza, Preciso dizer que te amo» traz entrevistas e comentários sobre várias parcerias inclusive 'sas.
(Trecho retirado do livro Preciso dizer que te amo, Ed. Globo)
sobre ' Minha Flor, meu bebê: '
Tive muita dificuldade em terminar 'sa música.
Já 'tava com a letra, fiz a primeira parte e não conseguia terminar a segunda.
Cazuza começou a gravar e me cobrava e eu, nada.
Meu irmão, o Ricardinho, que é guitarrista, 'tava tocando com o Cazuza no disco e também me trazia os recados:
cadê a música?
Um belo dia, meu irmão chega em casa e diz:
terminei a música para você!
Como? Ele 'tava no 'túdio gravando, precisavam da música e como eu não comparecia, terminou pra mim.
Foi a música que me deu menos trabalho, porque eles fizeram para mim.
E eu e o Cazuza, malandramente, resolvemos não dar parceria para ele.
O Ezequiel [Neves, produtor] sacaneava, porque a música ficou linda e ele dizia:
parece aquelas coisas do Lupícinio Rodrigues, famoso por pagar cachaça para alguns e ficar com a música.
Mas, enfim, o Ricardinho é meu irmão, brother mesmo, uma flor de pessoa e ficou tudo certo.)
bm: Considerando sua resposta no livro, me vem uma pergunta.
Vocês fizeram isso com seu irmão só de sacanagem?!
Seu irmão não ficou muito puto com vocês não?!
hahahah ...
DP:
Não cara, é claro que não teve nada disso.
O Ricardo é um gentleman e me ajudou a finalizar a seqüência de acordes finais.
A história é longa e nem sei se vale a pena ...
Em a entrevista para o livro ficou parecendo sacanagem, mas não foi assim que aconteceu exatamente. (
sabe como é imprensa né?
hahahah ...) Eu na época achei tudo certo mas depois percebi deveríamos ter dado aparceria.
bm:
E nos anos 90?
Como foi sua trajetória?
DP:
os anos 90 minha produção musical foi, como de costume, modesta.
Trabalhei um pouco com o Fausto Fawcett, que eu acho genial, e fiz algumas coisas 'porádicas com o Alvin L e com o Humberto Effe.
Também compus com o Gil e o Liminha a música «Quero ser seu funk» do disco «Parabolicamará» de 92.
Em 'sa época eu me afastei muito do ambiente Pop / Rock e trabalhei como DJ de uma casa noturna obscura no Rio.
Tocava às quintas e sábados.
Meu contato com musica era basicamente 'se.
bm:
Como foi 'se trabalho de DJ's?
Que tipo de DJ vc era?
hehe ...
DP:
O Gustavo Corsi (guitarrista dos Picassos Falsos, Marina, Gabriel Pensador, etc ...)
me convidou.
Ele já era DJ da casa e me chamou pra formarmos uma dupla.
Em o começo queríamos tocar apenas musica negra americana dos anos-70.
Depois a gente viu que era difícil de ficar só um tipo de musica, abrimos para uma seleção mais variada e tocávamos de tudo.
De Motown a Clementina, e por aí ...
Foi um período onde eu aprendi bastante e revi muitos conceitos, mas nunca pensei em ganhar a vida com 'se ofício.
bm:
Em uma entrevista recente que fiz com Wagner Tiso, ele comentava das dificuldades em se criar um ' clássico ` nos dias de hoje, seja no cinema, sejana música, ou em qualquer outra manifestação artística.
Ele atribuía isso a velocidade do consumo da arte nos dias de hoje.
Você, como autor de alguns ' clássicos ' (hehe) também enxerga assim ou acha que não isso não mudou?
DP:
Eu li a entrevista no seu site, o Wagner é um mestre e sabe o que diz.
Ele tem uma certa razão quando atribui 'se tipo de coisa aos novos hábitos de consumo de massa.
A maneira de se ouvir musica mudou, ninguém mais tem tempo pra ouvir um disco por inteiro.
Os próprios artistas têm culpa nisso também.
Há uma porção de Cd's onde apenas duas ou três músicas são boas.
O resto é embromação.
O download de musicas é uma coisa sensacional, na minha opinião.
Mas também acho que isso faz com que as pessoas prefiram baixar uma canção de cada artista em vez do álbum inteiro.
Acho também que ainda 'tamos numa fase de transição, onde os formatos ainda não 'tão definidos.
A tecnologia de transmissão de dados ainda é cara e lenta.
Só quando isso for sendo absorvido por a indústria é que poderemos ter um panorama mais definido.
Com as novas tecnologias sendo aperfeiçoadas, você vai poder comprar uma canção por o celular em qualquer lugar que se 'teja.
bm:
Depois de sair do Barão, você chegou a tocar com o Lobão e ainda teve uma outra banda, a Telefone-Gol.
Em 'sa época em que formou 'se grupo, você pensava em voltar a viver a rotina de uma banda ou isso foi só uma brincadeira?
DP:
Quando eu decidi sair do Barão, já ensaiava com o pessoal do Telefone-Gol.
A idéia era montar a banda e sair tocando por o Brasil.
Gravamos uma demo na Warner e outra na EMI, mas os tempos 'tavam mudando mesmo.
O cenário já não era mais o mesmo e não existiam mais os lugares pra tocar no Rio.
O país passava por a crise do Plano Collor ou seja, a maré não tava pra peixe.
Como ninguém se interessou por o trabalho ficou difícil levar a banda adiante.
Ou talvez o trabalho não fosse lá 'sas coisas mesmo ...
Haha! Logo depois, fiz parte da banda do Lobão na turnê que comemorava os seus dez anos de carreira e fizemos um show muito legal no Circo Voador.
Mais tarde, junto com o Fausto Fawcett e Carlos Laufer montamos a «Falange Moulin Rouge» que era a banda que acompanhava o Fausto e as Louras no show «Básico Instinto».
A banda tinha o Dado Villa-Lobos, João Barone, Laufer e eu.
Gravamos um CD por a Sony e fizemos três anos de turnê.
Ou seja, rotina de banda sempre foi o meu forte.
bm:
Depois, se não 'tou enganado, você seguiu a vida de diretor musical e músico de apoio.
Tendo sido integrante de uma das bandas mais famosas do país, como você enxerga o fato de passar a trabalhar por algoque vai levar a assinatura de outra pessoa?
DP:
Depois de terminar a tour «Básico Instinto», eu fui» trabalhar " de DJ, como já disse, e fiquei em 'sa por uns três anos.
Só depois é que voltei a trabalhar como músico.
Gravei e toquei ao vivo com o Lobão novamente nas turnês dos CD «Noite» e «A Vida é Doce».
Toquei também com o Kid Abelha durante dois anos e fiz alguns shows com o Gil em 'sa época.
O trabalho não é só do artista que 'tá na capa do CD, é preciso uma equipe boa pra um CD ficar bacana e eu me sinto orgulhoso de fazer parte de uma assim hoje em dia.
Todas as experiências que eu tive me ajudam no meu trabalho atual.
Ter feito parte do Barão me traz vantagens porque eu entendo bem os dois lados.
bm:
Depois do Barão e Telefone-Gol, seus principais trabalhos nem sempre 'tiveram ligados ao rock, certo?
DP:
Não? Não sei!
Mas isso é ruim?
Isso é bom?
Minha humilde opinião:
sou um músico brasileiro, nascido em 1965, portanto pós-tropicalista e não posso me dar ao luxo de, em 2006 me interessar por um gênero apenas.
O Brasil é imenso, o mundo é vasto e não podemos deixar de olhá-los com curiosidade.
bm:
Ainda há 'paço para o rock na sua vida hoje em dia?
DP:
Fala sério!
Que pergunta é 'sa??!!;)
Outro dia fui convidado pra produzir o DVD de uma dupla romântica gaúcha e acabei de fazer a trilha sonora de um documentário onde foi só roquenrol:
baixo, bateria e guitarra!
Porradaria franciscana!
Mas acho que sempre, em tudo o que eu fizer terá um pouco de rock.
bm:
Por mais 'quisita, e até pedante, que possa ter soado a última pergunta, acho que ela não é de todo.
Pergunto isso pois o próprio Antonio Carlos Miguel é um que já 'creveu que o rock já não lhe apetece tanto, bem como o Marcelo Camelo o fez numa entrevista recente, e outras pessoas que vêm no rock uma porta de entrada para a música, mas ao longo da vida, vão se afastando, colocando seus interesses em outros focos ...
DP:
É, mas não é o meu caso.
Eu gosto muito de tocar e ouvir rock, não é o único gênero que eu aprecio mas eu não deixei de gostar disso porque passei a ouvir outras coisas.
Mas eu entendo o ACM e o Camelo, às vezes é preciso por o rock no seu devido lugar!;)
bm: Atualmente, como falamos, você trabalha com a Adriana Calcanhotto, no 'petáculo /disco/dvd «Adriana Partimpim».
Você foi o produtor do disco, diretor-artístico do show, além de tocar na banda.
Quais foram as referências que vocês utilizaram em 'se trabalho, já que há tanto tempo, acho que desde os trabalhos do Toquinho nas décadas de 70 e 80, que grandes nomes da música brasileira não se aventuram em 'se formato?
Quais as principais diferenças que você enxerga entre o que vocês fizeram e o que se fazia há 20 anos para as crianças, que no caso éramos eu e meus amigos ... (
hahaha)?
DP:
É, 'se foi um dos trabalhos mais bacanas que eu participei em toda minha vida.
Em a verdade não trabalhamos com muitas referências, as canções foram arranjadas e produzidas de uma maneira muito livre.
O que houve de fato foi um entendimento muito grande de toda a equipe do tipo de atmosfera que a Adriana queria imprimir.
Não só a banda, mas os diretores, o cenógrafo, o iluminador, os técnicos, o video maker etc ...
Todos os profissionais que participaram foram contagiados por o mesmo entusiasmo e vontade de criar sem clichês e prisões e armadilhas que o mundo «Pop» inventa para a si mesmo.
Não vejo muita diferença em 'ses trabalhos, acho que existe, sim, uma coisa que os une que é a maneira com a qual eles abordam o universo infantil, sendo lúdico, mas não menosprezando nem excluindo nenhuma faixa etária.
bm:
Partindo da sua frase:
«criar sem clichês e prisões e armadilhas que o mundo «Pop» inventa para a si mesmo.» ...
Quais desses clichês são os que mais frequentemente aparecem no seu processo de criação e aos quais vc, frequentemente, precisa se policiar, se é que isso é tão racional assim e se é que existe um ...
DP:
Talvez a pior coisa seja ficar batendo na tecla do:
«isso é rock «ou» issonão é rock», «isso é MPB»,» isso é MTV»!!;)
bm: Como você falou de se interessar por outros gêneros, sobre misturar o rock com 'sa coisa brasileira e eu já li em algumas coisas sobre o seu interesse por a bossa nova, surge a pergunta ...
Em a minha opinião, o Cazuza foi um dos que mais se aproximou de uma fusão do rock com 'te gênero, principalmente em «Faz parte do meu show», que traz aquela cadência rítmica bem clara da bossa nova e uma letra que apela para figuras visuais e textuais do rock, como» te levo para a festa e testo teu sexo / com ar de professor».
Como se dá e qual é a sua relação com a bossa nova, já que ficou evidente que você, querendo ou não, hahah, é um ' roqueiro '?
DP:
É, acho que foi a primeira vez, depois de muito tempo, que uma bossa nova 'tourou nas rádios.
«Faz parte do meu show» tem arranjo do Waltel Blanco que é um maestro da bossa nova.
Fez arranjos para o João Gilberto e etc ...
Não é exatamente uma mistura, mas tem suas peculiaridades como a seqüência de acordes maiores sem dissonância, coisa que não existe muito em bossas.
Sempre ouvi bossa nova desde criança e isso foi uma influência muito grande.
Gosto imensamente de João Gilberto e Tom Jobim.
Outro dia ouvi uma frase que dizia assim:
«a bossa nova era tudo o que o Brasil devia ter sido e não foi»!
E acredito nisso piamente, houve um desvio de rota e deu no que deu.
bm:
Pra terminar, o Caetano Veloso, no Tim Festival, comentava que shows de Strokes e Kings of Leon o atraíam pois ele tinha curiosidade em saber onde tinha ido dar tudo aquilo que ele viu surgir quando 'tava na Inglaterra, no fim da década de 60 e que, de certa forma, ele trouxe para cá, se não na música, pelo menos numa ' postura rock ' n roll '.
Você, como participante ativo do movimento que fez o rock se tornar música pop no Brasil, como enxerga a renovação atual do gênero, no país e fora de ele, se é que você acompanha e tem interesse nisso?
DP:
Claro que eu tenho, eu 'tava até junto do Caetano em alguns desses shows!
Antes de mais nada é preciso entender que o Rock não nasceu na Inglaterra nos fim dos anos 60, e sim renasceu lá no começo dos 60. Vi os Strokes e eles são uma banda legal principalmente ao vivo, mas não fazem um som propriamente novo.
Vi o Kings of Leon, gosto do Kings Of Convenience, gostei do show do Vincent Galo ...
Mas entre 'sas bandas prefiro o Flaming Lips, (só não fui no «Claro Q é Rock» porque 'tava trabalhando) White Stripes e o Jet, que é outra banda que acho muito legal, fazem um som super calcado nos anos 60 / 70 e são muito bons.
Acho que tem coisas muito boas.
E você disse bem:
Rock no Brasil é musica Pop.
Aqui no Brasil temos a Pitty que já é uma «star», o Cachorro Grande como a banda darling da MTV.
Vejo o pessoal do Leela aparecendo mais, Autoramas, etc..
Mas eu acho que o pessoal aqui ainda prefere emular as bandas de fora quando pra mim, o mais interessante é misturar tudo e criar um som próprio.
Os Paralamas são a única banda da minha geração que misturou a musica brasileira com o pop rock.
Eu tiro o meu chapéu pra eles.
Acho que ser um «roqueiro» (detesto 'sa palavra) é um pouco mais do que só tentar imitar o som que vem de fora.
Em 'se sentido o recado dos Tropicalistas nos anos 60 e do Chico Science nos 90 ainda não foi completamente entendido.
bm:
Concordo ...
DP:
É, a coisa toda tem que ser diferente, e vou te dizer, isso me influenciou muito quando pensei em largar o Barão.
Esse papel de «roqueiro brasileiro» me incomodava muito.
bm:
Só uma observação dentro de 'sa sua resposta.
Acho que 'se formato de rock de bandas, com um trabalho autoral explodiu, de fato, na Inglaterra e no início da década de 60.
E foi com 'se ' formato inglês ` que o rock ' explodiu ' no Brasil na década de 80, concorda?
DP:
Não sei, pode ser.
Isso já rolava nos USA antes, mas lá era «Som de Preto e Favelado».
Quando as bandas inglesas surgiram, elas faziam covers dos artistas americanos.
Não tinha nada de autoral, depois é que eles se apropriaram do 'tilo e o recriaram de uma maneira mais sutil e mais bacana.
Em os anos 80, no Rio, a influência era o «Pós Punk» e a «New Wave».
E eu vou te contar, muita gente em 'sa época achava que o rock tinha começado em 75 com a explosão do Punk na Inglaterra!!;)
Bruno Maia também mantém o site www.sobremusica.com.br.
Número de frases: 258
Visita lá!: +)
A corrupção no Brasil, 'tá classificada junto a 163 países na base na percepção de corrupção entre autoridades públicas e políticos, no chamado INDICE De Percepção De Corrupção.
O Brasil caiu oito posições 'se ano, comparado ao ano passado e 'tá em 70° lugar no ranking total.
E em 14° entre os países da América.
Mas por que desse resultado?
O Brasil é tão grande e tão rico, porque 'tá tão alto seu índice de corrupção?
Será que faltam leis ao combate da corrupção?
É duro que não, as leis penais brasileiras são o suficiente para combater a corrupção.
O problema é o jeito que se aplica às leis em 'ses atos corruptos por parte da policia, o que é muito mal feito aqui no Brasil infelizmente.
A corrupção existe sim e ela 'tá por toda parte, nos bancos nas lojas nos dinheiros, ela é inestimável, o que 'tá acontecendo hoje em dia e que a mídia 'tá cada vez mais e mais denunciando atos corruptos de deputados, prefeitos, senadores, policiais e etc, mas o problema é muito mais do que falta de aplicações de leis penais na criminalidade, mas sim como devemos lidar com ela.
Em o nosso país não existe uma justiça séria, é claro que no Brasil existi sim pessoas honestas, mas há também um numero muito maior de pessoas sem ética e sem respeito por o próximo, que pensam só em si mesmas.
Existe um sistema de corrupção tão forte aqui que, as faltas de cumprimentos de leis, e a falta de valores humanos 'tão exterminando os valores éticos brasileiros, fazendo com que muita pessoas não pensem no futuro do Brasil, fazendo que o Brasil se torne cada vez mais um país mal visto por todos, em outras palavras, o Brasil ficara cada vez mais infernal para viver, o que já 'tá acontecendo em alguns lugares do Brasil.
A honestidade hoje em dia aqui, 'ta cada vez mais extinta por os corruptos desse país cruel, mas não podemos desistir temos que alcançar nossos valores humanos temos que ter ética sobre o próximo, pois agora 'tá vindo uma nova geração, os mais velhos tem a missão de fazer em que seus filhos e netos virem críticos e revolucionários para melhoria da vida desse país.
Vamos ao combate a corrupção, vamos denunciar, vamos a evitar, vamos preparar nossos filhos para que um dia saiba lhe dar sozinho na vida em 'se país, vamos brigar por os nossos direitos, vamos dizer Não A Corrupção.
Número de frases: 14
De onde viemos?
Para onde vamos?
As duas maiores questões com que o homem impregnou o universo até então alheio a vontades foram exatamente as pendengas que motivaram um grupo de artistas, produtores e jornalistas a olhar de maneira crítica a situação de descaso e de politicagem que envolve a produção cultural do Amazonas ...
duas perguntas que se fundem numa:
«Como 'tamos?».
Bem, temos um festival de ópera que já dura dez anos moderno-montando Wagner para a turista americano achincalhar;
e um festival internacional de cinema que, na terceira edição, quase não foi visto, pois as sessões no Teatro Amazonas 'tavam bem vazias e os telões armados em terminais de ônibus -- em prol da famosa «popularização» da cultura --, exibindo os filmes do Um Amazonas (festival de filmes de um minuto produzidos por aqui), não conseguiam conquistar a atenção do povo na difícil disputa com a novela da hora do rush «à Espera do 213».
Temos o Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS), onde nossos jovens aprendem violino tocando o instrumento 15 minutos por semana, durante seis meses no ano, para daqui a 326 anos, quem sabe -- faz figuinha, faz figuinha!--,
poder fazer parte da prestigiosa Amazonas Filarmônica;
e uma Fundação Villa-Lobos em crise -- «Ser ou não ser Secretaria Municipal de Cultura, eis a questão» --, que enquanto não se decide, também não sabe o que faz com os antigos projetos.
Temos uma infinidade de 'paços culturais -- e em 'se caso não entrarei no mérito das programações -- bem 'palhados por o ...
Centro da cidade;
temos mostras de dança cheias de 'petáculos de dança de salão;
e mostras de teatro em que regionalismo significa trocar lobo-mau por onça-pintada malina.
De o interior, temos conhecimento das festas de bicho, como o Boi de Parintins e o Peixe Ornamental de Barcelos;
e das de frutas, como a do cupuaçu em Presidente Figueiredo;
da melancia em Manicoré;
do açaí em Codajás e do guaraná em Maués, num Estado que não possui auto-sufici ência nem em cheiro-verde, como constatou o professor de história Maurício Pardo, mais conhecido como Jabá, vocal dOs Tucumanus.
Temos Ordem dos Músicos.
Temos cadernos de cultura 'pecializados em grades de tevê;
fundo para a Cultura com conta vazia;
artesanato que às vezes -- se 'quece dos recursos que a Amazônia oferece e se rende ao barbante.
Temos um reconhecido amadorismo em formatar projetos culturais, o que dificulta ainda mais a difícil arte de se utilizar leis de incentivo à cultura numa região de isenção fiscal para a Indústria;
e grupos artísticos de resistência mesmo, trabalhando na periferia geográfica e midiática, como o Movimento Hip Hop Manaus, o Clube dos Quadrinheiros, e a revista Sirrose, sempre 'barrando na falta de recursos para seus projetos, sem desistir de tocá-los para a frente.
Em 'tes dois últimos tópicos 'tá embutido um outro problema que já deu muito pano para a manga aqui no Overmundo:
infelizmente sofremos de uma castrante dependência do poder público, que gere recursos de maneira centralizada.
Em poucas palavras, possuímos políticas culturais voltadas para 'petáculos e números de um lado, e de outro, artistas e grupos que se apóiam em 'se 'quema formando panelas pra tirar um troco sem muito trabalho.
Desconhecemos não só as manifestações que vêm do interior do Estado, como as da própria periferia da capital, e talvez por isso mesmo, soframos o sério risco de ficarmos 'tagnados.
Assumo a responsabilidade por os juízos de valor enunciados no texto, pois como 'creveu «Manoel de Barros,» não pode haver ausência de boca nas palavras».
Também foi a insatisfação com o cenário cultural do Estado, entretanto, que motivou o grupo formado por a jornalista Dulce Gusmão, a 'critora Regina Melo, o teatrólogo Nonato Tavares, a produtora Lídia Lúcia e as atrizes Koia Refkalefski e Débora Medeiros a realizar o seminário «Cultura e Cidadania -- Caminhos para uma mudança», entre os dias 17 e 19, no Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas (Caua).
«Nós descobrimos que não somos um grupo de doidos, ensandecidos», brinca Dulce, referindo-se ao sucesso do evento, que contou com a participação de gente de diversas searas artísticas e até mesmo de cientistas do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) na platéia dos debates.
O seminário foi todo realizado na base da camaradagem;
ou, melhor dizendo, na base da inquietação geral, pois todos os palestrantes aceitaram participar de graça, expondo idéias a partir de temas como «História, Raiz e Diversidade Cultural»,» Percepção Cultural e Cidadania», «Políticas Públicas e o Fazer Cultural»,» Ética, Comunicação e Cultura «e» Cultura e Descentralização».
Para citar alguns nomes, ministraram palestras o professor Renan Freitas Pinto, da Editora da Universidade Federal do Amazonas (Edua);
o 'critor Márcio Souza;
o artista plástico Otoni Mesquita;
os antropólogos Sérgio Ivan e Selda Vale da Costa;
a jornalista Ivânia Vieira;
a secretária de Ciências e Tecnologias, Marilene Correa;
DJ Tubarão, do Movimento Hip Hop Manaus;
o luthier Paulo Mamulengo e o ator Fidélis Baniwa.
Depois dos três dias do evento, temos que o bojo de 'sa macaíba é a necessidade:
-- de transparência na ocupação dos 'paços culturais públicos e da gestão dos recursos para a cultura;
-- de dar mais atenção ao interior e à periferia manauara e -- de criar mecanismos para que isso tudo seja cobrado.
De acordo com Dulce, a partir desses pontos, foi um consenso a criação de um Fórum Permanente de Cultura.
A ordem agora é se unir para fazer pressão, ocupar os 'paços com a «nossa cara, nossa voz», resume, tocando num ponto muito delicado da cultura amazonense:
o respeito aos conhecimentos indígena e popular.
O Memorial dos Povos da Amazônia criado recentemente por a Secretaria de Estado da Cultura (Sec), por exemplo, é um imenso vazio na Bola da Suframa, um «elefante branco», nas palavras da jornalista, e poderia ser um local 'tratégico para se fazer uma ponte entre cultura e ciência da região, um dos principais pontos levantados por a secretária Marilene Correa.
A criação do Fórum é uma certeza;
só há dúvidas quanto à sua formatação (subdivisão -- ou não -- em câmaras setoriais, etc.), e no dia 23 de novembro será divulgado o documento que resultou dos debates, que será devidamente publicado no banco de cultura do Overmundo.
É provável que você só o encontre por aqui, pois apesar de ter sido divulgada a realização do seminário na imprensa, forças ocultas impediram a publicação de matérias sobre a criação do Fórum e a insatisfação de tanta gente com a Cultura de cê maiúsculo.
É ...
Número de frases: 52
Fire Action, Sure Shot, Vortex, Hawkman, Cosmic, Rally, Gemini 2000, Monster Bash, Medieval Madness, Revenge from Mars, Scared Sttif, Circus Voltaire, Tales of the Arabian Nights, Tommy.
Você é capaz de reconhecer algum desses nomes?
Isso depende de quantos anos você tem.
Se não passou dos 20, é provável que não.
Mas se você nasceu até a primeira metade da década de 80, deve compartilhar com mim a constatação de que os fliperamas acabaram.
De febre de uma geração para se tornar item de colecionador, a decadência de 'sas máquinas de diversão foi rápida e fulminante.
Leonardo Ribeiro tem mais de 40 anos e coleciona memórias.
Lembranças de uma geração em forma de armações metálicas que piscam e criam pontos imaginários.
Ele tem a lembrança fresca de quando a sua paixão surgiu.
«Eu devia ter uns 8 ou 9 anos e saía com minha tia ou minha avó para comprar algumas coisas no centro comercial do Bairro Betânia.
Atraído por as cores do caixote, eu pedia dinheiro pra jogar nas máquinas eletromecânicas.
Era maravilhoso ouvir a Fire Action, por exemplo, dizer: '
Boa sorte com a sua Bola Extra! ',
ou a Titan: '
Como você joga bem! '
carregado com aquele sotaque americano», lembra.
Atualmente, em Belo Horizonte, é quase impossível localizar um fliperama.
É provável que a situação se repita nas outras capitais.
Há apenas dois no centro da cidade hoje em dia.
Os remanescentes (um na rua São Paulo -- próximo à Galeria do Ouvidor, e outro na Tamóis, quase 'quina com Rio de Janeiro) 'tão prontos para ser fechados.
«Fliperama no centro acabou», confirma Marcos Barbosa, gerente comercial da Perene Ltda, a principal empresa que comercializa máquinas de pinball e arcade em Belo Horizonte.
Em a verdade, não só no centro.
Nem os shopping centers, para onde haviam migrado as máquinas na última década, resistiram.
Se no auge eram mais de 700 'palhadas em 200 locais da capital mineira, hoje 'se número 'tá reduzido a menos de um terço.
E, de acordo com Barbosa, a situação só vai piorar.
Em a visão da sua empresa, que há 33 anos é a pioneira em 'se mercado e proprietária dos últimos dois fliperamas do centro de BH, 'se é um caminho sem volta.
«O público adolescente a gente já perdeu.
Somente freqüenta as nossas lojas quem tem vinte anos ou mais», afirma Barbosa.
A história, que começou no Brasil, na década de 30, com as primeiras máquinas em Poços de Caldas, a cidade de cassinos do interior de Minas Gerais, 'tá próxima do seu fim.
O empresário mineiro Eduardo Marras não sabia que aquelas máquinas que trazia para Minas Gerais na primeira metade do século passado representavam o início de uma era marcante.
Com o passar dos anos, o Brasil se revelou um mercado tão promissor que se tornou o único local fora do Japão no qual a grande empresa Taito produziu suas máquinas.
Pouco mais de setenta anos depois, os fliperamas 'tão em pleno processo de extinção.
E sem direito a continue.
Para impedir que uma importante parte da cultura de uma geração vire ferro retorcido num sucateiro, Ribeiro e um grupo de amigos montaram um clube de preservação de pinball.
Com um importante acervo que já reúne mais de 40 máquinas (de entre elas raridades).
«O preço médio de uma TAITO em funcionamento gira em torno de R$ 1.000, podendo chegar a R$ 6.000 ou mais, no caso de uma Cavaleiro Negro reformada.
A revenda é fácil, desde que o preço seja justo e a máquina 'teja em boas condições.
Estou tentando fazer minha parte distribuindo pinballs por os pubs e bares de Belo Horizonte», explica Ribeiro.
Um novo desafiante
A partir do ano 2000, a expansão das lan-houses no país fez com que os adolescentes trocassem os flippers por o mouse e o teclado.
As «lans» (Local Area Network, ou em português, rede de área local) foram criadas por os coreanos, os experts em diversão eletrônica.
Antes disso, o processo de extinção dos fliperamas já havia sido desencadeado por a popularização da geração de videogames de 16 e 32 bits.
O mercado pirata que alimenta os consoles caseiros garante uma rápida e eficiente atualização de novos produtos.
O mesmo não acontece com as máquinas de fliperama e a arcade, que acabaram tendo a produção abandonada aos poucos.
Repetindo os passos dos fliperamas, as lans atualmente são mais do que um local para jogar:
tornaram-se um ponto de encontro, principalmente para o público adolescente.
Destino certo de alunos durante e após o horário 'colar, o movimento em 'ses ambientes é tão grande que foi necessária uma medida do Juizado da Infância e da Juventude de Belo Horizonte para moderar e restringir o acesso dos adolescentes às mais de 150 lan-houses da capital.
A história se repete.
Para acabar com 'sa má fama, os proprietários resolveram 'timular os 'tudos:
aluno com notas boas ganha desconto na hora de jogar.
Se as lan-houses têm se mostrado como um negócio lucrativo, o seu irmão mais velho, o fliperama, já não é um bom investimento há alguns anos.
Pagar R$ 1,00 em média para jogar alguns minutos se tornou desinteressante quando se pode, por o mesmo preço, jogar uma hora em algumas lan-houses do centro de BH.
Zé Gomes vê isso acontecer diariamente.
Ficheiro de um dos últimos fliperamas da região central da capital mineira, para ele, a situação hoje é a mais difícil nos seus mais de 15 anos de profissão.
«Mas ainda tem gente que sai do outro lado da cidade só para vir jogar aqui», observa.
Ele cumprimenta por o nome todos que ainda compram fichas na mão de ele.
Com um tom de ironia melancólica, eles comentam sobre o movimento.
Um de eles interrompe:
«vamos trabalhar, Zé».
Zé não responde.
Apenas olha para o lado e sorri com o canto da boca como se dissesse «por aqui não há muito trabalho».
Imagens das produções da Taito no Brasil.
Número de frases: 62
Para quem tem interesse em saber mais sobre a história do pinball, confira o resto do site.
entrevista concedida a Tiago Jucá Oliveira, da revista O Dilúvio
Ele 'tá fora da mídia, não toca na Jovem Pan, não aparece no programa do Faustão e não toca no Planeta Atlântida.
Mesmo assim, tem um disco que vende bem aqui e na Europa, e é convidado por vários artistas pra compor e gravar junto.
Este é BNegão, ex-vocalista do Planet Hemp e do Funk Fucker, atualmente em carreira solo com os Seletores de Freqüência, além de comandar o Turbo Trio, sua nova experiência sonora.
Ao lado de Totonho e do Mombojó, foi um dos pioneiros no Brasil a liberar para download na internet todas as faixas do CD «Enxugando o Gelo».
Você pensa que ele perdeu com isso?
Mas que nada!
Depois de três anos continua sendo um dos 20 álbuns mais vendidos por a distribuidora Tratore e seus fãs por a Europa só cresceram graças ao mp3.
Pow cara, tu já abraçou diversas bandeiras, como legalização da maconha, música livre e agora é o movimento anti-jabá ...
... to sempre incomodando eles, hehe.
Pois como 'tá 'ta parada do Jabasta, que é o movimento contra o jabá?
O movimento anti-jabá 'tá ganhando corpo, botando a cara a tapa, porque a galera que tem exposição na mídia não mete a colher porque fica bolado com retaliação ou alguma coisa.
Você tem que se desapegar de tudo, é muito mais fácil você se lascar do que a parada acontecer, mas só que é necessário a parada acontecer, colocar para a discussão.
Pois do jeito que 'tá não tem como ficar.
Tem uma galera que é independente e todos passando por momentos absurdos, que não era pra ser isso.
São várias rádios, e rádio é concessão pública.
Então nego tem obrigação de tocar produção nacional.
São concessões políticas, que neguinho vai dando pra um e pra outro, e aí faz um comércio da rádio de ele.
Comércio tem que ser no comercial, já diz o nome:
comercial, na hora do intervalo.
E ainda dão a desculpa covarde que a parada não tem qualidade.
Então as paradas que tocam no mundo inteiro e não tocam aqui não tem qualidade pra cá, sacou.
A qualidade no Brasil é medida por a grana.
Aí chega a um ponto que Nação Zumbi não tem qualidade, Ivan Lins que ganhou um Grammy e é um cara considerado no mundo todo não tem qualidade, JT Meirelles não tem qualidade, Moacir Santos não tem qualidade, Mundo Livre S / A não tem qualidade.
Só tem qualidade as 10 bandas que tocam no rádio.
São pagas por as multinacionais pra tocarem.
Além de ser ruim pra quem ta ouvindo, é ruim para a economia, porque são 10 bandas que 'tão sugando até o último pingo de gota pra lucrar pra caralho, poderiam ser 100 bandas, ou milhares, que nem é fora do Brasil.
Se fossem só 10 bandas no Japão ou na Inglaterra, eles iam quebrar.
A visão 'treita do capitalismo selvagem faz 'sa situação e a gente vai jogar 'sa areia no olho pra seguir incomodando.
Você liberou seu «CD Enxugando o Gelo» para download.
Quais conseqüências desse ato?
Vou te dar dois exemplos práticos:
o medo da galera liberar a parada é a coisa interferir na venda.
Eu botei o disco dois meses depois no Copyleft (trocadilho com copyright, copyleft pode ser traduzido para " deixe copiar "), que é o pai do Creative Commons, eu não tinha 'ta licença ainda.
Desde sempre 'tá no top 20 dos mais vendidos da Tratore, uma distribuidora que tem vários títulos.
Sem contar a parte da Europa, nossos maiores cachês e nosso maior público 'tão lá hoje em dia, graças a situação ridícula do jabá.
Em a Europa existe o jabá também, a grande diferença é 'ta, não é que não tem jabá lá fora, tem, mas só que tem também.
Aqui é só isso, oito ou oitenta, ou tem ou morre.
Em a Europa a gente toca pra mil pessoas em Londres, duas mil em Barcelona, tocamos no Roskilde Festival da Dinamarca, com cachê grandaço.
Se juntar tudo que a gente ganhou em 2003 não dá metade do que ganhamos lá.
A gente tá fazendo shows no circuito médio, não 'tamos fazendo no circuito mainstream e nem no circuito punk.
Tocamos no Scotch Club em Barcelona pra duas mil pessoas, e a galera do lugar sabendo as músicas.
E não era para a colônia brasileira, porque os brasileiros lá fora tão mais ligados em parada que toca na rádio, hit, pra lembrar do Brasil.
E a gente não tem hit nenhum em rádio, haha, neguinho não vai nem conhecer.
Sua obra 'tá aberta para obras derivadas?
Em 2005 você participou da trilha do Narradores de Javé, composta por o DJ Dolores, e modificada por vários artistas.
Ela vai ser aberta.
Isso é maneiro pra ver onde vai dar.
A diferença em relação ao DJ Dolores é que ele 'colheu a galera.
Essa parada de deixar aberta é que tudo pode acontecer.
É legal isso, internet é mais ou menos isso, eu não sabia se ia atrapalhar a venda, se ia tocar na Europa.
Eu acreditei na parada e seja o que Deus quiser.
Isso é importante, tirar a moldura do quadro o máximo possível, deixar a pintura ir até onde tiver que ir, pois um quadro a moldura limita.
Eu não quero mais saber de expectativa nem de porra nenhuma, seguindo o preceito budista de não expectativa, a parada me levou a lugares que nunca imaginei na vida.
Tô fazendo show com quase todas minhas influências.
Fiz dois shows com Chuck D, tocando com o Public Enemy no palco, fiz show com Tony Allen e gravei com ele, batera do Fela Kuti, o cara que inventou o afrobeat.
Aqui no Brasil toquei com João Parahyba, do Trio Mocotó.
São caras que 'tão no meu DNA musical.
Tudo isso porque tirei a moldura do quadro, sem se limitar.
Você tem que deixar fazer o seu trabalho e deixar a parada fluir.
Número de frases: 61
«Alô».
«2-5499, bom dia».
«Perdoa-me, foi engano».
Este foi o diálogo inicial da novela que iria se transformar na primeira produção do gênero a ser mostrada diariamente no Brasil.
O par romântico -- que se conhece devido a uma ligação errada -- era interpretado por Tarcísio Meira e Glória Menezes na novela ' 2-5499 Ocupado ', que a TV Excelsior começou a colocar no ar em julho de 1963.
Quando 'treou, a produção era exibida em São Paulo às segundas, quartas e sextas e a emissora enviava os videoteipes de ' 2-5499 Ocupado ' para as outras Capitais.
A Excelsior do Rio de Janeiro, em setembro de 1963, percebendo que poderia atrair mais publicidade e habituar o 'pectador a acompanhar a trama, resolveu exibir a novela diariamente.
Com isso, acabou abrindo caminho para o gênero ganhar mais público.
' Tinha antipatia por novelas e aceitei fazer porque achei que fossem assistir.
Mas a novela repercutiu entre pessoas que não gostavam de teatro.
Desde então, aprendi que novela é imprevisível ', afirma Tarcísio Meira.
Mas a primeira novela diária a fazer sucesso no país foi ' O Direito de Nascer ', em 1964, na TV Tupi, que tornou populares os personagens Mamãe Dolores, Albertinho Limonta e Maria Helena.
Quem imperava no Brasil naquela época era mesmo Glória Magadan.
A exilada cubana ficou conhecida por 'crever dramalhões ambientados em países distantes do Brasil.
Sua primeira novela na Globo foi ' O Skeik de Agadir ', em 1966, com o'sheik ' vivido por Henrique Martins e a mocinha interpretada por Yoná Magalhães.
A autora cubana era capaz de desatinos.
Como matar o personagem de Sebastião Vasconcelos, só porque ele usava barba e bigode e ficava parecido com Fidel Castro. '
A Glória não destacava os costumes e as belezas do país.
Isso foi mudando aos poucos ', lembra Marieta Severo.
A atriz 'treou na novela aos 19 anos, como uma vilã, a princesa árabe Éden de Bassora.
A personagem de Marieta, na verdade, era o misterioso Rato, que durante toda a novela só mostrava as mãos enluvadas e cometia diversos assassinatos.
Foi com ' Beto Rockfeller ' que o brasileiro começou a se reconhecer nas tramas das novelas.
A produção, exibida na TV Tupi em 1968, modificava o conteúdo habitual das novelas ao apostar em situações e personagens bem brasileiros.
Vivido por Luiz Gustavo, o protagonista se infiltra na alta sociedade paulistana para tentar subir na vida.
Em o rastro de ' Beto ', a Globo aposentou o 'tilo ' Magadan ` e passou a produzir tramas calcadas nos costumes brasileiros, sob a batuta de Janete Clair.
A autora 'treou na emissora em ' Véu de Noiva ', em 1969, arrebatou o público com ' Irmãos Coragem ', em 1970, e transformou a Globo em líder de audiência.
Além de ambientar a trama de ' Irmãos Coragem ` num garimpo de Goiás, Janete criou personagens bem populares para os irmãos vividos por Tarcísio Meira, Cláudio Cavalcante e Cláudio Marzzo. '
O incrível é que ' Irmãos Coragem ' falava de disputa de terras em plena repressão militar.
Foi um avanço ', pondera Milton Gonçalves, que dirigiu ' Irmãos Coragem ' e é atualmente o ator com contrato mais antigo na Globo.
Já ' O Bem-Amado ', em 1973, foi a primeira novela exibida em cores no Brasil.
A trama de Dias Gomes enfocava o prefeito baiano Odorico Paraguaçu, papel de Paulo Gracindo, e a inauguração do cemitério de Sucupira.
Foi a primeira novela brasileira a ser vendida para o exterior, começando por o México e chegando à América Latina. '
O Bem-Amado despertou a consciência política no brasileiro.
Foi importante as pessoas terem recebido bem 'ta novela ', acredita Lima Duarte, que fez o inesquecível Zeca Diabo.
Três anos depois, a Globo exibiu ' Escrava Isaura ', adaptação de Gilberto Braga para romance de Bernardo Guimarães.
Com a 'treante Lucélia Santos como a 'crava branca do título, a produção foi vendida para mais de 100 países. '
Até os monges do Himalaia já me reconheceram.
Ninguém 'perava que uma novela brasileira chegasse tão longe ', ressalta Lucélia.
...
De capítulo em capítulo, a novela diária se transformou no produto mais importante da televisão brasileira, ganhou projeção internacional e se tornou um símbolo de brasilidade em todo o mundo.
Mas o auge do gênero aconteceu com ' Roque Santeiro ', em 1985.
A novela de Dias Gomes e Aguinaldo Silva fez o Brasil parar para acompanhar a história de Viúva Porcina e Sinhozinho Malta.
Os dois últimos capítulos da trama tiveram inimagináveis 100 % dos televisores do país sintonizados em ' Roque Santeiro ', feito até então alcançado apenas por ' Selva de Pedra ', em 1972. '
Sucesso como o de Roque Santeiro não tem explicação e dificilmente acontece duas vezes ', avalia Aguinaldo.
Em 1988, a Globo colocava no ar ' Vale Tudo ', de Gilberto Braga, uma das mais ferozes críticas sociais ao Brasil e que levou o país a indagar ' quem matou Odete Roithman? ',
papel de Beatriz Seggal.
O vilão vivido por Reginaldo Faria não é punido no final da trama e a novela acaba com ele fazendo o gesto de ' dar uma banana ` para todos. '
Vale Tudo questionava até que ponto valia ser honesto no Brasil ', relembra Gilberto.
A extinta Manchete, com ' Pantanal ', provocou a terceira modificação importante no gênero.
A novela de Benedito Ruy Barbosa contava a saga da família Leôncio, uma das grandes criadoras de gado da região pantaneira sul-mato-grossense, e havia ficado oito anos na gaveta da Globo. '
Antes, as novelas só tinham 10 % de externas. '
Pantanal ' inverteu 'ta ordem e mudou a maneira de produzir novela no Brasil ', valoriza Benedito.
Em 1997, a mesma Manchete transformou Taís Araújo na primeira protagonista negra de uma novela brasileira com ' Xica da Silva ` e no mesmo ano o SBT assustou a concorrência com a infantil ' Chiquititas ', adaptada do original argentino. '
Conquistamos um público que queria histórias mais tradicionais ', avalia a protagonista Flávia Monteiro.
Mas apenas a Globo chegou aos final da década de 90 com o'know-how ` e saúde financeira para realizar superproduções diárias. '
Terra Nostra ', em 1999, virou uma 'pécie de continuação de Benedito Ruy Barbosa para a novela ' Os Imigrantes ', exibida na Band em 1981, só que tratando apenas da imigração italiana.
Em a direção, Jayme Monjardim, o mesmo que em 2001 iria dar tratamento épico para ' O Clone ', de Glória Perez, com gravações em Marrocos e uma trama inusitada que misturava clonagem, cultura árabe e a irreverência do subúrbio carioca.
...
& A novela mais antiga do mundo é a americana ' The Guiding Light ', do canal CBS.
Ela foi criada no rádio em 1937 e permanece na TV desde 1952.
& A primeira história contada na TV Brasileira foi ' A Vida Por Um Fio ', em novembro de 1950, dois meses após a inauguração da pioneira TV Tupi de São Paulo.
Era uma adaptação de Cassiano Gabus Mendes para o filme americano ' Sorry, Wrong Number '.
& A novela ' A Deusa Vencida ', exibida por a TV Excelcior em 1965, é considerada a primeira superprodução do gênero.
A trama era de Ivani Ribeiro e marcou a 'tréia de Regina Duarte.
& A primeira novela com texto totalmente brasileiro para a TV foi ' Ambição ', de Ivani Ribeiro.
Exibida em 1964, na TV Excelcior, a trama focalizava uma moça pobre que desejava ascender socialmente.
& As primeiras novelas da Globo foram ' Ilusões Perdidas ', de Ênia Petri, e ' Rosinha do Sobrado ', de Moysés Weltman, ambas exibidas em 1965.
& Dias Gomes 'treou na Globo ao assumir ' A Ponte dos Suspiros ', em 1969, com o pseudônimo de Stela Calderón.
Foi a última novela supervisionada por Gloria Magadan na Globo.
A cubana foi dispensada da emissora e encerrou a sua carreira de autora no Brasil com o fracasso ' E Nós Aonde Vamos? ',
na TV Tupi, em 1970.
& ' Redenção ', do autor Raimundo Lopes, teve 596 capítulos.
Produzida por a TV Excelsior de São Paulo e apresentada às 19h, a novela foi exibida entre 16 de maio de 1966 e 2 de maio de 1968.
Francisco Cuoco interpretava o médico-protagonista que chegava à cidade de Redenção e despertava a paixão em três mulheres vividas por Miriam Mehler, Lourdes Rocha e Márcia Real.
& ' O Machão ', de Sérgio Jockyman, foi a segunda maior novela, com 371 capítulos.
Produzida por a TV Tupi, entre 5 de fevereiro de 1974 e 15 de abril de 1975 no horário das 20h30, a novela era protagonizada por Antônio Fagundes.
O ator se desentendeu com a emissora e se transferiu para a Globo antes do desfecho final.
A novela era uma adaptação da novela ' A Indomável ', que Ivani Ribeiro 'creveu para a TV Excelcior em 1965 já inspirada em William Shakespeare.
& ' Os Imigrantes ', de Benedito Ruy Barbosa, teve 333 capítulos e é considerada a terceira maior novela diária exibida no Brasil.
A produção da TV Bandeirantes ficou no ar no horário das 18h30 entre 27 de abril de 1981 e 4 de junho de 1982.
A trama contava a história dos imigrantes que ajudaram a construir o Brasil do Século XX.
A novela ainda rendeu uma continuação, ' Os Imigrantes -- Terceira Geração ', de 7 de junho a 29 de outubro de 1982 também na TV Bandeirantes, mão conseguiu cativar o 'pectador.
& ' O Bofe ', de 1972, e ' O Rebu ', de 1974, ambas 'critas por Bráulio Pedroso, 'tão entre as novelas mais inovadoras da tevê brasileira.
Em a primeira, os personagens eram bem 'quisitos, com direito a travesti alcoólatra vivido por Ziembinski.
Em a segunda, a própria trama era avançada para a época.
A novela toda se passava na noite em que acontece um assasinato numa festa.
...
Número de frases: 87
* Matéria publicada por a agência TV Press em 6/7/2003.
1. O vigia Juarez Dias Fonseca, 63, cumpre há vinte anos o que chama de ' castigo ' com a chegada da Semana Santa.
Sua tarefa é cuidar de um centro comercial localizado na Avenida Sete de Setembro durante todo o feriado.
«Cheguei hoje (quinta-feira) e só vou sair no sábado pela manhã», afirma.
Em o sábado à tarde, ele volta ao centro comercial para sair somente na segunda-feira, quando o comércio abre novamente.
Apesar de passar quatro dias consecutivos fora de casa, Juarez não se preocupa em preparar vestuário e alimentação para enfrentar a maratona.
«Minhas filhas trazem roupas e comida para mim», explica.
Quando questionado sobre o que faz durante todo 'te tempo, o vigia revela-se um homem pragmático e religioso.
«Fico tomando conta de 'sas lojas», diz.
De acordo com ele, o único fato que altera sua rotina durante a vigília é a encenação da Via Sacra, que ocorre na Sexta-Feira da Paixão e passa em frente ao centro comercial onde trabalha.
«Como sou católico, me preparo do jeito que deve ser:
monto uma mesa com um crucifixo, um terço e faço minhas orações».
Juarez diz que o ponto localizado em frente à sua mesa é a terceira 'tação da Via Sacra, quando Cristo cai por a terceira vez.
Juarez retribui a visão privilegiada do evento guardando as tradições da Páscoa: '
Acho muito ruim o fato das pessoas não cumprirem os rituais.
Mas quem é católico ainda respeita as tradições», afirma.
2. O corretor Natan Rodrigues, 20, passeava por a área interna da Catedral com sua mulher, a dona de casa Márcia Oliveira, 22, e a filha Nauana Oliveira, de 7 meses.
De acordo com o rapaz, eles 'tavam aproveitando o feriado para tentar 'quecer o stress do dia-a-dia:
«Viemos aqui para amenizar a correria dos dias de semana», diz.
Márcia declara quem foi ela quem deu a idéia de ir à Catedral, pois tinha muita curiosidade de conhecer o lugar.
A família mora no Mutirão e não costuma fazer passeios fora de seu bairro.
«Como temos uma filha pequena, ainda dá muito trabalho andar de ônibus com ela», justifica Natan.
3.
A costureira Odenilda dos Santos, 38, assistia à apresentação de uma banda evangélica no entorno da Catedral.
Ela aproveitava o feriado para fazer compras no Centro da cidade quando foi ' capturada ' por o som da banda " Ministério de Louvor da Comunidade Athus:
«Estava procurando alguns utensílios para a minha casa quando ouvi as músicas que eles tocavam.
Achei as canções muito bonitas e parei para assistir ao show», explica.
A costureira, que freqüenta a Igreja Universal do bairro de Petropólis mas não tem nenhuma religião, diz que sempre passa por ali-mas nunca havia visto a banda tocando.
«Vou ficar até o fim da apresentação», disse a costureira.
Número de frases: 29
A discussão girava sempre em torno da mesma idéia:
falta de espaço para ensaiar.
Diante da falta cria-se uma alternativa simples e que, até o momento, mesmo diante dos percalços e da mudança de algumas pessoas (que passaram por o local e agora circulam 'poradicamente), parece funcionar muito bem.
Estou falando da Yellow House (ou casa amarela):
que de amarelo mesmo, se eu não 'tiver enganado, desde a primeira mudança, só tem o nome.
As lendas que circulam para justificar a mudança da cor são muitas, mas a mais sensata é a de que a mudança foi para 'pantar os chatos, mas os chatos sempre aparecem (aparece lá hoje à noite?
E o cara vai!).
A casa que surgiu como uma alternativa para unir uma fatia de músicos com afinidades várias (e muitas diferenças também) se transformou numa referência para os rockeiros da cidade de Chapecó.
É claro, como não poderia deixar de ser, para alegria geral da nação, 'sa referência não é unanimidade, afinal de contas, abrange apenas uma parte do cenário chapecoense (creeeedo, até parece uma metrópole!).
Aquilo que era para ser um ponto de encontro para ensaiar, fazer (pensar) música, se transformou (também) num local onde as pessoas se reúnem para várias outras coisas, entre elas (as que eu posso citar):
simplesmente se encontrar no fim de tarde, bater papo, falar da mulherada, para fazer churrasco (ou outro rango qualquer, mas sempre fincado naquele conceito de culinária boa e barata) e fazer um 'quenta antes de ir para uma festa (isso, é claro, quando a festa não rola por ali mesmo).
O ponto existe há mais de seis anos, e o intercâmbio que, no começo era restrito ao universo chapecoense, trouxe para o local também o pessoal dos grupos que passam por a terrinha e que tem afinidades com as bandas da cidade.
Só para dar um exemplo, passaram por ali Frank Jorge, Júpiter Maçã, Marcelo Birck, Egisto Ophode, Julio Reny, Os Jeans, Pipodélica, Faichecleres ...
e por aí vai.
De esses encontros regados a cerveja (ou não), aconteceram jam sessions (algumas de madrugada) para deixar a vizinhança de cabelo em pé.
O endereço mudou várias vezes.
Oficialmente, contabilizam três, sempre mantendo aquela relação de amizade (e cordialidade) com a vizinhança:
nós (da casa) mantendo viva a idéia de-fazer música e eles (os vizinhos) achando que nós 'tamos fazendo-barrulho, e com 'sas mudanças um monte de histórias -- algumas de elas disponíveis na página da Yellow no Orkut.
A decoração é o charme do lugar, qualquer semelhança com arte é mera coincidência.
Poderia dizer mais, uma aula de bom gosto, ou seria o contrário, isso não importa.
Cada um dos participantes levou alguma coisa para o local.
Quando falo em alguma coisa (cama, sofá, geladeira, fogão, cachorro ...),
quero dizer algo que, normalmente, não tinha mais serventia no seu lugar de origem.
O lugar aos poucos foi se transformando numa 'pécie de Bric (uma loja de móveis usados) com as paredes marcadas por cartazes que contam um pouco da história da cena musical da cidade.
Esses cartazes são dispostos aleatoriamente sem que haja uma organização ou, quem sabe, a organização se dá por a falta.
Em as paredes, por mais que pareçam tomadas por uma poluição visual, sempre há 'paço para o último cartaz da última festa que aconteceu no último fim de semana.
Misturam-se os cartazes dos shows realizados por as bandas do local, com os cartazes daqueles artistas que, muito mais do que ídolos, servem, por que não, de inspiração.
Quem paga por 'sa confusão toda?
As contas da casa são divididas entre os membros honorários (os sócios patrimoniais) e os eventuais participantes -- um universo que gira oficialmente em torno de nove pessoas.
Além do dia marcado para levantar a grana para acertar as despesas, tem o dia da limpeza, que segundo nos revela um dos (ex-) participantes (mas que continua freqüentando assiduamente o local e por motivos maiores não posso revelar que é o Michel), é o dia em que as pessoas, ninguém entende direito o porquê, desaparecem.
A casa, obviamente, fica vazia.
Outra, e 'sa é recente (com registro em Ata e tudo):
foi institucionalizado o dia de cortar a grama.
Como tu vês, não é fácil 'sa vida de rock star em cidade pequena.
Assim, o barco segue e a vida na Yellow continua, se de um lado sempre tem alguém pronto para ligar os instrumentos, do outro lado, tem alguém pronto para botar fogo no carvão e fazer a churrasqueira funcionar.
Para alguns, muitos de passagem, 'sa é a combinação perfeita da Yellow.
Para outros, a questão musical 'tá no primeiro plano e o restante é apenas (in) conseqüência.
Independente das relações conflituosas, o local tem dado uma parcela de contribuição para as movimentações musicais que ocorreram na cidade nos últimos anos.
Hoje, ensaiam no local as bandas Red Tomatões, Variantes, WalterMellon, Mister Magoo, Power Trio e mais uma ou outra banda 'poradicamente, como é o caso do Repolho.
De 'ta união de músicos, em que um 'tá sempre contribuindo para o trabalho do outro, permanece ainda a The Yellow House Big Band Show -- formada por integrantes de várias bandas para apresentações em eventos 'peciais, uma 'pécie de jam mais ou menos ensaiada.
Número de frases: 40
Desde o final de 2003 as Câmaras Setoriais vêm dando um impulso novo na cultura deste atual governo.
Em 2004 e 2005 o crescimento foi qualitativo com a criação de diversas Câmaras Setoriais, entre elas 'tão:
teatro, circo, literatura, música, dança e etc ...
O objetivo maior das Câmaras é 'tabelecer diretrizes para uma política cultural de Estado voltada para o setor, discutir e avaliar programas em execução e mobilizar 'forços e informação para ampliar as ações 'pecíficas aos vários aspectos de cada segmento (MINC, 2005).
Para isso o governo tem procurado 'tabelecer contato com os movimentos, entidades representativas, fóruns 'taduais, etc ...
para que juntos possam refletir a política cultural de cada 'tado.
Em Roraima, o Fórum Permanente de Teatro aderiu em 2005 à solicitação do governo e conseguiu representatividade regional.
Pôde inclusive participar da Conferência Nacional de Cultura, o que contribuiu bastante para elencarem prioridades em 'te segmento no 'tado.
Em o início de 2007 'tá prevista, inclusive, a criação da Federação de Teatro de Roraima.
Representantes de diversos grupos de teatro do 'tado já 'tão se reunindo para discutirem o 'tatuto que deverá ser apresentado na reunião de instalação da Federação.
A dança no 'tado de Roraima segue os mesmos passos do teatro.
Após o Fórum Estadual de Cultura, representantes de algumas academias de dança resolveram se reunir para avaliarem o panorama no 'tado e perceberam a necessidade de organização do segmento.
Ainda não 'tão todos, mas já é um começo.
«A dificuldade de agregar os colegas para discutirmos sobre o segmento no 'tado, pra fortalecer mesmo, foi o que nos uniu», diz Márcio Costa, da Academia Master Class.
A importância dada à cultura no atual governo, no qual diversos editais já foram lançados favorecendo a todos de forma bem transparente, o próprio Portal da internet do MINC possibilitou uma melhora na comunicação.
«É possível saber quais são as verbas destinadas à dança», lembra ele.
O 'tado de Roraima ainda 'tá fora deste circuito, mas em breve muitos projetos 'tarão sendo inscritos e sem dúvida nenhuma, concorrendo de igual para igual como os outros 'tados do Brasil.
Hoje fazem parte de 'sas discussões, além de Márcio Costa, Cristina Rocha, que é também uma das personalidades da dança no 'tado, assim como Isabel Santos, representante da dança de salão e Raquel Queiroz, que representa o Movimento Hip-Hop.
Ações para atrair a comunidade da dança fazem parte das pautas discutidas em 'te grupo, que ainda 'tá em fase de 'truturação, mas que já tem planos de intercâmbio entre as academias, realização de cursos e eventos.
«O maior problema do trabalho de dança na cidade é a má formação, são poucos profissionais capacitados na cidade.
E o fórum vem pra ajudar, pra orientar e melhorar o trabalho de dança.
Estamos interessados na formação», diz Márcio Costa.
Ele comenta ainda que só agora a sua academia conseguiu o apoio do Governo Federal, através do Ministério do Desenvolvimento Social, que viabiliza a realização do Projeto Adote uma Bailarina.
Este projeto tem como objetivo atender a crianças da periferia de Boa Vista (hoje atende a 150), oferecendo aulas de dança como uma contribuição para a formação desses jovens.
Em breve Roraima será apresentada ao público no circuito nacional de dança, embora as academias já representem o 'tado por conta própria, sem nenhum incentivo das 'feras públicas locais.
Número de frases: 25
Este texto foi 'crito a quatro mãos (se levarmos em conta o teclado do computador) e à distância.
Cada parágrafo por um, por e-mail, ao longo de três dias.
Se ficou bom para os outros lerem não temos certeza, mas a verdade é que foi bem divertido.
Talvez não fosse preciso avisar, mas não custa:
sendo coletivo e alternando ômi (Pedro Paulo, itálico) e mulé (Helena, redondo), não 'tranhem o uso de palavras no masculino ou no feminino, dependendo do parágrafo.
Conheci Zé Cruz em 2002, nas gravações do CD O samba é minha nobreza.
O projeto, minha 'tréia como cantor profissional, me proporcionou uma convivência de três meses -- duração de nossa temporada no Cine Odeon, no Centro do Rio -- com o dono da voz «malandreada» que eu já conhecia dos sambas Conversa de malandro e Responsabilidade (sincopados de Paulinho da Viola), gravados nos anos 60 por o conjunto A Voz do Morro -- que, além de Paulinho e Zé Cruz, contava com Zé Kéti, Elton Medeiros e Jair do Cavaquinho, entre outros craques.
Pois o nosso Zé, «sumido» do samba desde aquele tempo, era uma das atrações de O samba é minha nobreza (concepção de Hermínio Bello de Carvalho, direção musical de Paulão Sete Cordas), num bloco em que cantava sambas-choro se acompanhando no chapéu de palhinha -- arte na qual (até onde se sabe) é o único remanescente.
Foi lembrando daquele tempo e daquela ótima convivência que propus à amiga Helena Aragão que fossemos conversar com Zé Cruz em sua casa, no bairro de Benfica (zona norte do Rio), para repartir com os leitores do Overmundo o tanto de causos que ele tem pra nos contar. (
Pedro Paulo Malta) Convite aceito, fui me preparar para a conversa.
Puxei na memória a imagem daquele senhor franzino, que subia ao palco do Nobreza com chapéu e gogó e conquistava a platéia com versos de amor.
Fiz a clássica busca no Google para procurar informações e fiquei surpresa em ver que há pouquíssimas referências ao sambista no universo ilimitado da internet.
Quando chegamos, ele 'tava sentado numa cadeira em frente a seu pequeno prédio.
Esperava por nós muito alinhado, com calça e camisa social, cabelo penteado e um sorriso.
Zé Cruz completou 80 anos em fevereiro.
A saúde anda pregando umas peças, que o fizeram emagrecer bastante nos últimos tempos.
Ainda assim, achei o senhor bem elegante e comunicativo.
Subindo para o apartamento no primeiro andar, já foi berrando a frase que virou a marca da entrevista:
«OH TÉIA!!!" E lá vinha Dorotéia, companhia de vida inteira e 'pécie de memória ambulante do malandro. (
Helena Aragão) Só que, ao contrário de Pantaleão (personagem de Chico Anysio famoso por o bordão com que rifava histórias cabeludas: " É mentira, Terta?"),
nosso contador de causos do telecoteco abre seu anedotário com uma defesa da própria legitimidade:
«Pra contar o que eu conto tem que ter sido criado aqui na Mangueira, onde vivo desde os oito anos», conta Zé, que desde cedo se encantou por os personagens do morro.
«Todo dia às quatro da tarde eu 'perava Geraldo Pereira passar por o Largo do Pedregulho, a caminho de casa, no Morro de Santo Antonio, voltando do trabalho.
Ele vinha subindo e eu começava a cantarolar um samba de ele: '
Por que é que você quando passa por mim não me dá mais bonjour ... ` (
cantarola Pode ser, de Geraldo e Marino Pinto, gravado por Isaurinha Garcia) " De sincopado em sincopado, Zé chegou à Rádio Vera Cruz, para onde foi levado por o radialista Washington Fernando, que o chamava de ' O Magistrado Sincopado '.
Foi lá que, um dia em 1958, teve a sorte de cantar para Dilermando Pinheiro, que lhe ensinaria a rara arte que domina até hoje:
o batuque no chapéu de palha.
De o encontro na rádio até a batucada derradeira de Dilermando, em 1975, Zé Cruz foi unha e carne com o amigo.
«Como ele era?
Um canalha, no bom sentido.
Bebia como uma porca, comia muita pimenta.
Né, Téia?"
Depois de receber o olhar aprovador da 'posa, ele pega o chapéu amarelo, herança de Dilermando, e conta:
«Mandei consertar e 'cangalharam todo.
Perdeu toda a malícia».
Mas afinal, o que explica a malícia do chapéu de palha?
Além da foto de Dilermando colada na parte de dentro, como os peões fazem com a de Nossa Senhora Aparecida antes dos rodeios, existem alguns macetes.
Até porque o chapéu é comprado na chapelaria e não numa loja de instrumentos.
Zé dá a receita:
«Tem que ser um chapéu de palhinha ou palha de arroz.
Aí você compra tinta 'malte e dá duas ou três mãos, para ficar mais durinho».
Para alguns, isso seria apenas um pandeiro improvisado.
Para Zé, fez toda a diferença e alavancou sua carreira artística.
Aluno de Luiz Barbosa ('te o primeiro chapéu-de-palhista -- como 'crevia Sérgio Porto -- de que se tem registro), Dilermando Pinheiro também ensinou a Zé Cruz os sambas que seriam seu carro-chefe, a maioria de eles retirados do repertório de Cyro Monteiro -- um dos ídolos (e depois amigo) do Zé.
Era com eles, inclusive, que nosso personagem se apresentava em O samba é minha nobreza:
«Eu queria ser asfalto pra você pisar em mim, eu queria ser um cravo e florir no seu jardim ..." (
Eu queria, de Roberto Martins e Mario Rossi), " A minha Rosinha é melhor do que doce de coco ..." (
A maior mulher do mundo, assinado por «Jorge de Castro),» Oh, meu Santo Antonio, meu maior amigo, não consinta que meu bem faça ingratidão com mim ..." (
Santo Antonio amigo, de J. Cascata, José Gonçalves e Marino Pinto).
Em os últimos dias de temporada no Cine Odeon, nem mesmo um braço quebrado (num tombo na 'cada de seu prédio) o impediu de fazer bonito no encerramento de nossa temporada:
«Passei a madrugada toda ensaiando para não fazer feio, pois sabia que ia 'tar cheio.
Dei um jeito de encaixar o'Arroz ' (nome de seu chapéu) no gesso, dei meu recado e foi aquele aplauso todo no fim." (
Veja e ouça Zé Cruz cantando os três sambas no vídeo que pode ser baixado aí do lado)
Aplausos fizeram parte da rotina da dupla Zé Cruz e Arroz nos anos 60.
Não só na temporada radiofônica, mas sobretudo na carreira do conjunto A Voz do Morro (que durou de 1965 a 67 e lançou três LPs: Roda de samba vols.
1 e 2 e Os sambistas).
Foi graças a Zé Kéti, colega na gráfica onde trabalhava e já referência no mundo do samba, que o xará Cruz enveredou de vez no mundo dos breques e partidos-altos.
«Nós saíamos do trabalho 17h30 e íamos para o meio artístico, que era a região da Praça Tiradentes.
O Zé Kéti era muito querido e, como sempre 'tava do lado de ele, achavam que eu era compositor também».
Se (quase) nunca compôs (" fiz meus bois com abóbora, mas não tinha muito jeito "), 'colhia bem o repertório e dava interpretação sob medida.
Ou, no caminho inverso, faziam sambas sob medida para sua interpretação malandreada -- foi o caso dos supracitados Conversa de malandro e Responsabilidade, feitos por um jovem Paulinho da Viola e registrados por Zé nos dois discos da série Roda de samba.
Em 'ta fase áurea como sambista, viajou o Brasil inteiro e ganhou «troféu à beça» com o conjunto.
«Mas ficou tudo na casa do Zé Kéti», conta.
Foi também a época mais afortunada do chapéu-de-palhista.
«Tinha que conciliar trabalho e samba.
Trabalhava a noite toda na gráfica para poder viajar.
Ganhei dinheiro pra caramba.
Agora não tenho mais nada».
E aí foi a vez de Téia falar, sucinta como sempre, e pela primeira vez sem ser convocada:
«Se tivesse juízo, né ...».
Zé concorda:
«Sempre fui muito de farra, queria andar bonito ...
Mas pelo menos nunca deixei faltar nada em casa».
Até porque o trabalho entrou cedo na vida de Zé, como acontece com tantos brasileiros, por conta das necessidades.
Seu pai, Antônio, trabalhava com política na cidadezinha de Monte Alegre, distrito de Santo Antônio de Pádua, na região noroeste do 'tado do Rio.
Foi lá que Zé nasceu -- José da Silva Cruz, em 4 de fevereiro de 1927 -- e de onde, devido às complicações do trabalho de Seu Antonio, Dona Maria saiu rumo ao Rio de Janeiro com os outros filhos:
Maria, Irineu e Luzia.
Ficou Zé, mais velho dos meninos, para acompanhar o pai.
«Eu 'tava com seis anos quando armaram uma emboscada para ele, num comício.
Deu uma confusão danada e meu pai morreu atropelado por um caminhão."
Acolhido por uma tia paterna cujo marido tornou-se um pesadelo para Zé (" Ele não gostava do meu pai e descontava em mim, com uma palmatória atrás de outra."),
veio para o Rio um ano depois, encontrando sua família já 'tabelecida na comunidade da Mangueira, mais 'pecificamente na localidade do Pedregulho.
Lá, Dona Maria acabou se casando com o frentista Joaquim de Almeida, um português que, beneficiado por uma herança da Terrinha, comprou uma casa em Oswaldo Cruz e levou a ' nova família ' para morar com ele no reduto portelense.
«Mas enrolaram o português, tomaram a nossa casa e minha mãe morreu, desgostosa."
Com 14 anos, Zé não teve outra alternativa senão trocar os 'tudos na Escola Uruguai por trabalho:
primeiro numa farmácia, depois como mensageiro de uma companhia telefônica e mais tarde como impressor de off-set -- seu oficio mais constante nos anos seguintes.
Mas nem tudo foi 'pinho no período da adolescência.
A os 15, Zé conheceu Dorotéia e logo o namoro engatou.
Casaram-se tempos depois, ela com 21, ele com 22, quando conseguiu acumular o trabalho na gráfica com outro no " Ministério da Justiça.
«Temos pouquinho tempo de casados ...
Só 57 anos», brinca Téia.
Em 'se tempo, a família cresceu com Zezinho, o filho legítimo que chegou a ganhar as páginas de jornais quando atuou, ainda na infância, no filme Gimba -- presidente dos valentes, de Flavio Rangel.
Mais tarde, Zé e Téia incorporaram ao grupo Neílton, filho de coração.
«Uma vez o Zezinho conheceu uma moça baiana e eles tiveram aquele entrosamento.
Vi que ela tava sempre com um molequinho.
O namoro acabou e o menino acabou ficando com a gente.
Hoje é todo mundo amigo, ele visita a mãe, mas quem criou foi a gente», conta Zé, mostrando, maravilhado, a foto da neta " Giovanna.
«O Neílton me deu 'se tesouro, a mulher mais bonita da televisão!
Hoje vivo para ela."
Só para ela?
«Téia! TÉIA!»,
gritou Zé.
A 'posa tinha se distraído na cozinha e não atendeu de pronto seu chamado.
«Não faz isso com mim não, Téia!"
Zé não disfarça que só faz sentido existir com as mulheres de sua vida.
Não só elas, mas também aqueles pedacinhos de felicidade que habitam a pequena sala do seu apartamento:
quadro do time do Vasco de 1982 ao lado da foto do grupo A Voz do Morro.
Discos de vinil tão organizados quanto os recortes de jornais e revistas (não só com matérias sobre ele, mas também sobre amigos do peito: Dilermando, Zé Kéti, Moreira da Silva, Nelson Sargento, Cristina Buarque e até mesmo o Pedro Paulo!).
Carteirinha de componente da Ala da Bateria da Mangueira e partes de fantasias da 'cola.
E, claro, os dois chapéus que viram instrumentos de trabalho.
Aliás, não falta disposição de professor para ensinar o batuque peculiar a potenciais chapéu-de-palhistas do futuro.
Para se candidatar, basta ter coordenação motora, manemolência e muita simpatia.
Número de frases: 113
Né, Téia?
Horácio Quiroga era 'pecialista em biografias.
Sempre que podia, 'crevia sobre algum sujeito de relevância para a humanidade.
Gosto do jeito que Quiroga trabalha:
aguçando os pontos catastróficos do autor, no ímpeto da revanche final.
Ler biografias é bom.
Eu gosto.
Faz bem a saúde.
Mas, ler biografia de brasileiros, faz mal a saúde, dá náusea, vontade de vomitar.
Todos eles, com raríssimas excessões, são filhos das elites;
impressionante.
Ariano Suassuna, filho de famílias nobres de Pernambuco.
Franklim Távora, bacharel em Direito, político de grande «porte».
Guimarães Rosa, também.
João Cabral de Melo Neto, também.
José de Alencar, Manoel Bandeira, Oswaldo de Andrade, Manoel de Andrade, todos eles.
Como posso levar a sério um país, que não deixa os miséraives 'crever romances?
Como posso?
Charles Dickens e Herman Melville 'creveram obras-primas:
Grandes Esperanças e Moby Dicky.
Dois livros fantásticos, insuperáveis, belíssimos, eram afinal, dois miseráveis.
Albert Camus ganha o nobel, 'creve O Estrangeiro -- um clássico do absurdo 'crito por uma filha de uma lavadora de roupas.
Porém, o que diabos há com o Brasil?
Temos um exemplar de miserável:
Machado De ASSIS.
Vejamos, há algum 'critor brasileiro, maior, mais rico, mais fecundo, mais famoso no exteior, do que o Machado de Assis?
Não, não há.
Ele era um miserável.
Se o Brasil tivesse deixado, desde sempre, os miseráveis 'creverem seus livros, a literatura brasileira seria melhor.
Mas não, eles não podem 'crever, porque os filhos da elite precisam 'crever seus romances pitorescos.
Ariano Suassuna é um grande intelectual?
É sim.
É de uma erudição impressionante.
Os seus melhores textos são os textos acadêmicos.
Em ele você pode ver toda a erudição de Suassuna.
É um grande intelectual.
Porém, é um grande 'critor?
Não sei.
Eu não sei.
Acho que é.
Franklim Távora é um bom 'critor?
Não, ele não é.
Há quem goste é claro, mas há quem goste de Guaraná Jesus também.
O Maranhão inteiro gosta.
Vamos fazer assim:
Vamos reunir todos os analfabetos funcionais do Brasil e pedir gentilmente, que todos 'crevam um livrinho.
Depois, vamos passar para francês, e disputar prêmios junto aos grandes 'critores.
Foi isso que Émile Cioran fez, não?
Viu que a Romênia não ia dar certo, pulou fora para a França -- lá foi 'cutado, e como foi!
Número de frases: 49
Quem passou perto da Funarte no sábado (02/09) por volta das dez da noite deve ter se assustado.
De lá vinha um tremor que se alastrava por o chão em todas as direções.
Mas calma!
Não era um terremoto no Planalto Central, era Mestre Salustiano que se apresentava na sala Plínio Marcos, absolutamente cheia de gente, que em sua maioria dançava hipnotizada por a música e energia que enchiam o ambiente.
Mas o «target =» blank " FestivalBrasília de Cultura Popular teve muito mais.
Desde o fim da tarde a batucada já ecoava.
Um grupo de pessoas começou a batida em frente à sala Plínio Marcos -- desconfio que era um misto dos participantes do festival -- que foi aumentando e tomando corpo conforme mais 'pectadores, dançantes e músicos se juntavam à brincadeira.
Havia pessoas que dançavam com toda graça e facilidade, já familiarizadas com a marcação.
Outras, não tão familiarizadas com o maracatu, também não conseguiam ficar paradas e dançavam em seu ritmo próprio.
Algumas ficavam olhando atentas, mas não se arriscavam a dançar.
Grupos de conversa também se formavam por o gramado.
Esses foram um dos únicos padrões durante a noite:
diversos modos de interagir / reagir com as apresentações.
Por causa do tempo meio chuvoso -- com exceção de 'sa batucada descontraída que aqueceu os músicos e o público -- as apresentações de sábado ocorreram dentro da sala Plínio Marcos da Funarte.
A voz do Seu Teodoro ecoou por a sala enquanto, sem cerimônia, crianças brincavam no palco com o boi.
De ali a pouco já havia várias pessoas junto com a banda ocupando o 'paço, tentando aprender os passos que as meninas enfeitadas com penas ensinavam, tornando o público também parte do 'petáculo.
A batucada e a história entoada por seu Teodoro continuavam a ecoar -- e com que felicidade ele dançava e interagia com os novos integrantes do 'petáculo!
Fazia parecer até fácil dançar e cantar com aquela enorme fantasia.
Ainda bem que seu Teodoro veio para Brasília!
Ele chegou do Maranhão nos tempos da construção, em 1963, e desde então mantém a tradição do bumba-meu-boi na cidade.
Hoje o Bumba Meu Boi do Seu Teodoro é Patrimônio Cultural Imaterial do Distrito Federal e o grupo tem em torno de 40 pessoas (fora o público!).
Agora é o momento em que me faltam palavras e por isso vou apenas compartilhar minhas sensações.
Pouco depois do Bumba Meu Boi do seu Teodoro deixar a sala, percebi que 'tava pendurado sobre o palco, do lado 'querdo, um enorme (longo) feixe de tecido amarelo que descia até o chão;
suspenso sobre o palco, do lado direito, um longo cordão que terminava numa argola -- 'ta bem grandinha também.
E ali, como que materializadas, duas acrobatas!
Cada qual com colantes e maquiagem combinando com seus respectivos pano e argola, de tal modo que não distinguíamos o que era gente do que era objeto.
Simplesmente lindo!
Eram as meninas do Circo Payassu que dançavam ao som de Ventoinha de Canudo, grupo composto por quatro pífanos, caixa, zabumba e prato.
Em 'se momento eu desci feito louca para a margem do palco para tentar bater fotos, quis chorar por não ter uma câmera e nem experiência na arte da fotografia para poder captar fielmente a mágica do que 'tava acontecendo.
Minha adrenalina atingiu o máximo e confesso não ter conseguido fazer minha audição e visão funcionarem juntas, não lembro da música!
Só me lembro das acrobacias, da coreografia aérea que faziam e de como ela seguia perfeitamente o ritmo da música.
como se já não bastasse, a malabarista que 'tava no pano amarelo surgiu no chão (digo surgiu porque não a vi descendo nem caminhando até o outro lado do palco) embaixo e ao redor da malabarista da argola branca fazendo um 'petáculo com fogo, a junção foi a medida certa de cores e sincronia.
Hipnotizante! E eu lá com uma câmera de celular tentando captar tudo!
Já não pensava em mais nada, só que eu tinha que registrar aquilo tudo, não só eu pensava isso, porque ali em volta havia mais umas cinco pessoas-câmera.
Foi quando me dei conta de que havia se formado uma grande roda de pessoas no palco para brincar também ...
foi encantador!
Depois disso eu pensei:
ainda tem Mestre Salustiano e a Rabeca Encantada, eu preciso de uma máquina melhor e que alguém que tenha mais intimidade com câmeras tire as fotos para que eu possa curtir mais o 'petáculo, senão vou ter fotos, nada a dizer e minha cabeça vai fundir com tanta informação!
O Daniel Duende foi com mim ao Festival, desde o fim da tarde 'távamos dividindo as impressões, a câmera de celular com a qual eu tirava as fotos é de ele, e durante a batucada fora da sala Plínio Marcos ele tirou fotos enquanto eu dancei até meu limite -- aqui quero deixar meus agradecimentos a ele por me ajudar, tanto nas fotos quanto na companhia.
Fomos então pegar uma máquina melhor e ele ficou encarregado de tirar as fotos durante o 'petáculo do Mestre Salustiano.
Eu queria dançar!
Se antes o público já era grande o bastante para tomar o palco, pense que a 'sa altura da noite o público havia triplicado!
Mestre Salustiano era aguardado como o grande evento da noite.
Sem desmerecimento, mas é que Mestre de longe ...
lá de Aliança, zona da mata norte de Pernambuco.
O chão tremeu, literalmente;
o pequeno grande Mestre Salustiano sumia no meio de tanta gente, mas a música preenchia tudo!
Cada um sentiu a beleza da sua voz e da sua rabeca, foi de arrepiar, de dançar, de sorrir ...
Os grupos de dançarinos se alternavam, os trajes e os ritmos também, era festa!
Só as roupas típicas e os instrumentos diferenciavam os integrantes da trupe do Mestre Salustiano dos festejantes que os cercavam.
Formaram-se pares de dança e ninguém ficava parado.
Confesso que não sabia se dançava, se tentava tirar fotos ou se saia do palco para observar tudo lá de cima, fiz de tudo um pouco e a energia da noite foi das melhores!
Não há muito como explicar, mas o desejo era de que não acabasse.
E não acabou!
Foi o tempo de uma noite para descansar, porque domingo teve mais ...
Quem se dispôs a ir sábado não desanimou por conta da chuva, mas domingo não chovia e a festa foi no gramado.
A quantidade de pessoas era incrivelmente maior e a energia do ambiente era outra, nem melhor nem pior, só outra.
Cheguei um pouco antes do Maracatu Rural Piaba de Ouro e Mestre Salustiano começarem a tocar.
Acho que era Cacuriá Filha Herdeira que tocava a última música enquanto eu andava do carro até o gramado.
Fui dançando até chegar onde 'tava aglomerado o povo, mas já era tarde, não consegui ver 'se grupo tocar.
Fiquei meio triste, mas a quantidade de brilho e cores que ocupou o gramado em frente ao palco me animou ...
era a Piaba de Ouro!
E lá 'tava Mestre Salu no palco com a sua rabeca na mão e o seu sorriso no rosto!
Parecia o carnaval que Brasília nunca teve!
A mistura de cores dos vestidos rodopiantes das meninas me fascinou:
verde, azul, vermelho, vinho, preto, todos bordados de colorido e prata ou dourado.
E a voz anunciando:
«Eu só ando com a Piaba de Ouro, sou Mestre Salu tocando maracatu no meio do povo!"
e a densidade do povo aumentava!
Todos tentando ver a dança dos integrantes da Piaba e as cores se misturando;
de longe dava para ver o 'tandarte, parecia um arco-íris!
Fiquei novamente hipnotizada!
Tenho um fraco por o que é colorido ...
E a voz do Mestre pedia:
«Quero ver as meninas dançando ..."
e precisava pedir?
Quem queria ver dançava mais quietinho -- o 'paço era pouco -- mas quem se contentou em ver de longe teve 'paço de sobra!
Cada um a seu modo curtia o 'petáculo.
A noite ainda contou com palhaços e forró.
Tudo muito clássico!
Os palhaços com as brincadeiras clássicas e o forró clássico de Brasília:
Pé de Cerrado.
A banda cantava:
«Eu sou marinheiro das águas, eu venho do alto-mar;
abre as águas, deixa o meu navio passar."
Mar no cerrado só se for de gente!
E foi o que teve no Festival Brasília de Cultura Popular:
um mar de gente, muita música, muita brincadeira, muita coisa boa!
Ainda teve Coco Raízes de Arcoverde, a batida do bumbo fazia pular até os mais tímidos e os mais cansados (era o meu caso).
Em 'se ponto da noite eu já 'tava sentada longe do palco e do mar de gente, pensando se ia embora ou 'perava o Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro -- que foram os idealizadores do evento, mas a batida era tão boa que eu levantei e gastei minhas últimas reservas de energia para dançar o Coco Raízes!
Uma das apresentações que eu mais queria ver era a do Seu Estrelo, que eu já conheço e adoro!
Mas não consegui ficar mais ...
fui embora exausta depois do Coco.
Fui ...
mas já ansiosa por o festival do próximo ano -- acho que consigo recuperar minhas reservas de energia até lá -- pensando numa frase do " Mestre Salustiano:
«Se Deus não me tirá a vida, próximo ano nóis vem pra cá!"
Venha sim!
Eu e Brasília agradecemos sua vinda 'se ano e 'peramos a próxima!
Número de frases: 98
Em a minha humilde opinião -- e há quem concorde com mim --, ocorre com o funk carioca fenômeno semelhante àquilo que outrora se deu em relação ao samba.
Explico:
Quando do prenúncio do século XX, o samba era 'sencialmente executado e ouvido numa área geográfica 'pecífica -- a Cidade Nova, na época conhecida como Pequena África.
As casas das «tias» baianas que habitavam 'ta área se transformavam em verdadeiras 'colas musicais, onde negros ex-'cravos e seus filhos praticavam uma curiosa mistura do lundu africano e do maxixe europeu, mistura 'sa que foi adquirindo 'tilo próprio até consolidar-se como samba.
Indissociável da cultura dos 'cravos recém libertos, o samba não raro era visto por as autoridades como «a música de negros e vadios», o que complicava a vida de qualquer um que perambulasse por a cidade com um violão debaixo do braço.
Mesmo na casa das tias, em dias de festa, cabia ao samba apenas o 'paço da cozinha e dos fundos, enquanto o choro, dotado de maior prestígio, ocupava a sala de visitas -- conforme depoimento de Pixinguinha ao Mis.
No entanto, é consenso entre os pesquisadores do tema que a chegada de Vargas ao poder altera substancialmente 'te panorama;
o projeto de construção da identidade brasileira implementado por o 'tadista, e alicerçado por o mito das três raças que ganhava força com Gilberto Freyre e modernistas como Mário e Oswald de Andrade, alçou o samba à condição de símbolo da tal identidade nacional que era naquele momento forjada.
Além disso, a profusão de músicos brancos que iam às casas das tias e aos morros do Estácio para ouvir o samba -- muitos residentes da minha querida Vila Isabel, como Noel Rosa, Almirante, João de Barro e Francisco Alves -- contribuiu para que 'te 'tilo musical tivesse cada vez mais a aceitação e o aval das elites.
Hoje, e já há muitas décadas, ninguém 'tranha que o samba pouse nos olhos azuis de um Chico Buarque ou se reproduza na pele clara de uma Marisa Monte.
Agora vejam bem:
o funk, em sua vertente carioca, ou seja, oriundo da mesma cidade, desenvolveu-se majoritariamente em comunidades pobres, e antes mesmo de 'tampar as páginas dos jornais já movimentava, nos anos 80, centenas de milhares de jovens, notadamente negros, nos diversos bailes 'palhados por os subúrbios do Rio de Janeiro.
Mais de meio século se passou, e é evidente que o contexto histórico, político e social foi alterado;
não obstante, continuávamos -- e continuamos -- a viver a hipocrisia do racismo instituído que associa, na cabeça de muitos, funk, população negra e criminalidade.
Em a década de 90 o tom não foi diferente:
quem vive na cidade -- e mesmo alhures -- tem vivo na memória o surto de arrastões que se alastrou por a cidade nos idos de 1993, 94, comumente atribuídos a «galeras funk» por os jornalecos que nos mantêm «informados».
E quem não conhece alguém que defende a tese de que «funk não é música»?
Pois bem: é bom lembrar que o samba, comparado aos outros 'tilos musicais que eram ouvidos no início do século, era considerado simplificado demais, quase sem base harmônica, muito mais calcado no caráter percussivo e rítmico, ou seja, um tom de crítica deveras similar àquele que ouvimos hoje em relação ao funk.
Entretanto, em que pesem todas as críticas e preconceitos que perduram até hoje em relação ao funk, é fato que, cada vez mais, as elites têm demonstrado interesse por o «som de preto, de favelado», como cantam Amilcka e Chocolate.
Em as áreas mais nobres da cidade do Rio, não é difícil encontrar academias lotadas de brancos de classe média aprendendo coreografias de funk e danceterias com DJs que tocam 'tas músicas, assim como não é necessário pesquisar muito para encontrar, nas páginas dos tablóides cariocas, alguma «notícia» sobre fulana famosa da vez que «rebolou até o chão» em alguma boate de 50 reais a entrada.
Cético que sou, no entanto, duvido muito que o funk algum dia alcance o patamar que hoje cabe ao samba, mesmo se for criada um Liga das Escolas de Funk, ou se o Lula lançar uma versão do hino nacional em ritmo de funk, ou mesmo se o Chico Buarque regravar o Bonde do Tigrão -- talvez a menos provável das três opções.
Número de frases: 21
O 'pecial Mão na Massa mostra detalhes e segredos do ofício de músicos instrumentistas (integrantes de bandas ou artistas solo), djs e produtores.
Enfim, gente que trabalha em favor dos nossos prazeres auditivos.
Em 'sa edição, Emerson Calado, percussionista de uma das mais bem-sucedido bandas independentes do Brasil:
o Cordel do Fogo Encantado.
O músico falou das suas preferências e influências musicais (que vão do Mestre Ambrósio a Slipknot), dos equipamentos, da sua história, do processo de composição das músicas do Cordel, entre outros temas.
Produção e reportagem:
Ad Luna
Edição: Daniel Rotatori
Câmeras: Daniel Rotatori e Daniel Seda
Direção Geral: Walter Abreu
Blog Ad:
Número de frases: 11
http://www.interdependencia.blogspot.com/ Hoje me dei conta que já faz um ano e meio que não moror mais em casa,
E o melhor disso tudo foi perceber o quanto minha vó é genial!
Ela sabe tudo e de todos os assuntos.
E ela sem nehuma palavra conseguiu que eu fizesse coisas cotidianas,
que minha mãe não conseguiu em anos de ladainha. (
ela que num leia isso!).
Ela tem a 'tranha habilidade de ensinar com o olhar, com o silêncio, com o sorriso ...
Hoje assistindo um documentário sobre Henfil, ela chegou na sala.
Olhou pra mim e eu, como se tivesse contando uma novidade disse:
-- Olha vó, um documentário sobre Henfil, aquele cartunista ...
Antes que eu terminasse ela cortou a minha frase cheia de si,
e tratou de discorrer sobre o assunto como se falasse das fofocas da miça.
Ela simplesmente tornou absoleto o que eu ia continuar a assisti,
falando com propriedade de toda a vida do cartunista.
Ela me surpreende.
Se assisti o documentário até o fim?
Sim.
Fui Tomé Bebé ...
Ver pra crer.
E pasmem, ela sabia tudo mesmo.
Muito mais do que eu!
que por vezes me acho sabedora de vários assuntos alheios.
Número de frases: 22
Perto do meio do ano passado, aqui e ali, começaram a pipocar os pioneiros podcasters do Brasil.
Transmitindo diretamente de suas casas para o mundo, via internet, diversos programas, principalmente de informação (noticiosa ou técnica) e musicais, invadiram a rede brasileira.
Existem muitos destes podcasts iniciais (como são chamados 'tes programas disponibilizados via feed) bem interessantes, como os de Fred Leal e Gui Leite, que seguem fazendo história.
Porém, muitos dos pioneiros já desistiram, por diversos motivos.
Muitas vezes é o descompromisso que faz com que os novos programadores desistam, simplesmente deixando de fazer seus programas sem qualquer explicação.
Há pelo menos uma exceção a 'ta regra, no entanto:
Alexandre Nix, que comandou, diretamente de Copacabana, um dos melhores podcasts da net nacional, intitulado Nightripper.
Versando sobre o blues em suas mais variadas vertentes, seus ouvintes puderam se divertir com sua franqueza, seu relativo mau humor e a grande seleção musical.
Também foi ali que muitos brasileiros puderam ter contato com uma visão particular do desastre em Nova Orleans, dada por Nix num programa que, sozinho, vale uma aula de música.
Foi com Alexandre Nix que o Overmundo conversou no final de 2005 sobre seu programa, os motivos do fim e sobre sua opinião acerca do futuro da transmissão via podcasting.
Confira:
Quando começou o nightripper?
Maio de 2005.
E durou quantas edições?
35
Qual a sua intenção ao criar o podcast?
Eu queria aproveitar que o boom dos podcasts brasileiros 'tava começando para divulgar o gênero entre os internautas.
Blues não é um gênero musical normalmente divulgado, então a minha idéia foi apresentar as músicas e contar um pouco sobre a música e os artistas.
Porque o pod acabou?
Era uma idéia que vinha do início ou simplesmente aconteceu?
Em o início eu não tinha idéia de quantas edições faria.
Eu sabia que não era algo para se fazer ano após ano, mas não pensava muito a respeito.
O que aconteceu é que depois da décima edição eu fui percebendo que o pod deveria terminar em algum momento em que me sentisse satisfeito ...
Em certo momento fiquei satisfeito com a amostragem que apresentei.
O Nightripper 'tava no ar quando aconteceu a tragédia de Nova Orleans.
Como isso refletiu no programa?
Refletiu num episódio em homenagem à cidade.
Eu tinha retornado de lá no começo do ano e foi bem triste fazer aquele episódio.
Acabei apagando e fazendo novamente porque a primeira versão 'tava extremamente depressiva, muito longe do 'tilo do programa e até de uma das características marcantes da ' filosofia ' que o blues traz:
a superação do que lhe aflige.
Quais você crê que sejam as possibilidades do podcast?
Eu imagino que seria muito interessante aliar o podcast com a tecnologia wireless e equipamentos de som padrão de forma que qualquer um pudesse ouvir seus programas diretamente em seus rádios, ouvir no carro um programa recém produzido poderia ser bem divertido, mas por outro lado não vejo um interesse comercial que justifique tal coisa.
Não acho que o podcast será muito mais do que é hoje.
Em a verdade não acho podcast nada revolucionário.
Em o que você acha que 'se movimento todo em torno do podcasting vai dar, então?
Em nada?
Basicamente.
Mas temos aqui duas vertentes básicas de podcasts:
o informativo e o musical.
É claro que um podcast pode ser as duas coisas, mas acho melhor falar dos dois 'tilos separadamente.
O musical, por exemplo.
O público que ouve música no rádio continuará a fazer isso porque vai ouvir rádio, porque isso integra o ouvinte com a massa.
Ele não 'tá interessado em música folclórica norueguesa ou polca.
O público que tem acesso ao podcast também tem acesso ao que o podcaster pode oferecer, então aí é só uma questão de comodidade versus interesse.
Para que vou ficar 'perando um podcaster me mostrar uma música nova da minha banda predileta se eu também posso acessá-la através da internet?
A coisa funciona parecida com os podcasts informativos.
Se o podcaster transmite alguma informação que não saiu antes nos meios de comunicação de massa ou na internet, é algo que gera interesse entre os ouvintes.
Mas ele se responsabilizará por a verdade dos fatos?
O ouvinte terá confiança em ele?
Acho meio complicado isso.
É por isso que o Nightripper terminou.
Quem quiser ouvir blues agora pode simplesmente procurar por si só.
Quem não tiver disposição pra tal, que ouça rádio.
E quem quiser ouvir o Nightripper, ainda pode?
Ele ainda 'tá disponível?
Nope!
Não tenho como manter os arquivos pra sempre no ar.
O Odeo (catálogo de pods internacional) não faz isso ainda?
Talvez.
Não sei.
Acho que sim.
De repente dá pra ouvir por lá.
Mas muitos 'tão com problemas (como fast forward).
Número de frases: 63
A verdade é que não dou mais a mínima para a podcast.
Fala ai pessoal,
Dia 12 de novembro tem Video Games Live no Claro Hall.
O maior show da game music terá uma apresentação no Rio de Janeiro, e a Petrobrás sinfônica e Coral executarão temas de sucessos de games como Final Fantasy, God of War, Castlevania, além de temas dos clássicos Zelda, Mario Bros, Sonic, Frogger e Space Invaders numa apresentação sinfoeletrônica
Vale a pena conferir.
Para maiores informações visitem:
Número de frases: 6
www.videogameslive.com.br Um domingo (atípico) em Oeiras:
A o abrir os olhos e acordar em 'se domingo, 1º de junho de 2008, às sete horas da manhã, as seqüelas da noitada se fazem presentes na (dor de) cabeça e na garganta (seca).
Este é o resultado das cinco doses de mangueira (excelente e marvada cachaça do Piauí) ingeridas, no dia anterior, durante uma animada conversa com os autores do livro «Passos do Bom Jesus: Narrativas de Fé», Stefano Ferreira e Pedro Freitas Jr., em pleno Café Oeiras.
A ressaca não me impede, no entanto, de lembrar que, de ali a pouco, às 8h da manhã, na «Doce Colina» (Bairro Rosário), haverá uma solenidade para a entrega da insígnia «Esperança Garcia», distinção que me foi outorgada, e a outros homenageados, por o grupo folclórico» Congos de Oeiras».
Trata-se, portanto, de ignorar o mal-estar e preparar-se para a jornada que logo mais se inicia.
Dois copos transbordantes de água geladinha dão conta da garganta e um banho, quase frio, ajuda a mitigar a dor na cabeça.
Vestida a camiseta que ganhei dos «Congos de Oeiras» há dois anos, quando eles foram a Olímpia-SP por a segunda vez, e tomado um café bem forte para 'pertar, eis-me pronto para empreender a minha incursão à Igreja do Rosário, onde, depois de uma «Missa-Afro», se darão as citadas homenagens.
A 'ta altura, no entanto, já são 8:20h da manhã.
O dia 'tá lindo, o céu azul e o sol forte e eu chego à Igreja já sem aquela sensação de desconforto.
A missa, abrilhantada por jovens dançarinos do Grupo de Consciência Negra Quilombo do Rosário, além da beleza plástica da liturgia é extremamente energizante, e os cantos sacros adaptados ao ritmo frenético dos atabaques alegram, sobremaneira, o ambiente.
Terminada a missa, por volta de dez horas, o Flávio, presidente dos Congos, procede a entrega das insígnias que vêm acompanhadas de um certificado e da transcrição manuscrita da carta, 'crita em 6 de setembro 1770, por a 'crava Esperança Garcia, solicitando que sejam coibidos os desmandos do administrador da Fazenda Algodões, então do município de Oeiras.
A carta foi descoberta, anos atrás, por o antropólogo e, hoje, cidadão piauiense, professor Luiz Mott.
A honrosa distinção foi a mim conferida por ter indicado, aos organizadores do então 41° Festival de Folclore de Olímpia-SP (em 2005), o grupo folclórico «Congos de Oeiras» para representar a Velhacap -- e o Piauí -- naquele evento de magnitude nacional.
De lá para cá os Congos tem sido presença obrigatória, tamanho o sucesso que fizeram, nas sucessivas edições daquele Festival.
como se pode ver o mérito é inteiramente do grupo que, em Olímpia, encantou a todos.
Coube-me, apenas, a honra de ter sido o elemento catalisador deste processo que levou o Piauí a participar, pela primeira vez, daquela efeméride.
Posso me orgulhar disso, embora não saiba se mereço a homenagem por o pouco que fiz.
Seja como for, vou procurar fazer por merecê-la.
Não vou citar os demais agraciados porque, tenho certeza, vou acabar cometendo uma injustiça e deixando alguém de fora.
Após a cerimônia foi servido um «café» sem café, mas com pães e bolos variados, sucos e refrigerantes que foram largamente consumidos em menos de meia hora.
É como dizem, nem cachorro vira-latas comeu, porque nada de comestível sobrou para ser jogado no lixo.
Segundo round:
Uma tarde com uma equipe da National Geographic
Retornado à casa, por volta das onze da manhã, tive o premonitório bom senso de soltar o corpo na cama por cerca de duas horas e meia.
Embora sabendo que o nosso amigo e colaborador do «Portal do Sertão», André Pessoa, grande fotógrafo internacionalmente conhecido, 'taria chegando a Oeiras por volta das 14:30h, não podia imaginar quão intensa seria a movimentação, à tarde, ao lado dos repórteres da National Geographic.
Acompanhar a passagem, por Oeiras, da equipe de campo do «Across the Amazon» -- 'te é o nome da reportagem que eles 'tarão fazendo nos próximos dois meses -- é, ao mesmo tempo, cansativo e gratificante.
Eles partiram de João Pessoa (Ponta do Seixas), o ponto mais a leste do Brasil no Atlântico, com duas Toyotas super turbinadas e carregadas com mais de uma tonelada de equipamentos e pretendem chegar, dentro de dois meses, no extremo Oeste às margens do Pacífico -- Ponta do Talara, no Peru -- uma cidadezinha 800 km ao norte de Lima, atravessando a Amazônia e a Cordilheira dos Andes, Machu Pichu, inclusive.
Uma aventura e tanto!
Sabendo disto, dá para entender a necessidade de uma rigorosa e auto-imposta disciplina do grupo.
Eles irão deparar com muitos desafios daqui para a frente!
Qualquer vacilo e o cachimbo cai ...
A seriedade se reflete no currículo de 'ta plêiade de comunicadores:
André Pessoa, (fotógrafo e jornalista), Edison Silva (diretor de fotografia), Eduardo Toledo Lima (piloto e mecânico), Jean-Robert (produtor), Renato Castanho (líder da expedição e segundo cinegrafista), sob a direção da Lygia Barbosa, cineasta.
Todos são feras, cada um na sua 'pecialidade.
Uma equipe do mais alto nível, provada em combate!
Até o motorista é qualificado com experiência em outras incursões do gênero.
Há, no entanto, uma exceção;
um investimento do grupo, assim eu classificaria o jovem Gustavo Nascimento (técnico de som), de apenas 22 anos, integrado às feras que apostam que ele sairá ileso e vitorioso do seu «Batismo de Fogo».
E olha que não é qualquer batismo (nem qualquer foguinho).
Todos mexem muito com ele, André principalmente, mas a gente sente que, por trás disso, há um grande carinho.
Eles o tratam como se fosse um irmão caçula.
Aliás, não é para menos, o garoto é simpático desde o primeiro sorriso, uma graça de pessoa.
Se 'ses caras vão rodar mais de 8 mil km e atravessar uma cordilheira de 3 mil metros de altitude nos próximos 70 dias --, dureza danada -- acho que, em compensação, a aventura começou tranqüila, prazerosa e 'timulante aqui em Oeiras ...
Três Excelências, puro encantamento!
Em a matéria, explicou-ma Lygia, nada deve parecer previamente encomendado o que implicou numa encenação no caso das gravações com as «bandolineiras» (grupo musical Bandolins de Oeiras formado por senhoras da terceira idade).
Devia ser passada a idéia, segundo a qual, a equipe chega, por um mero acaso, na Praça das Vitórias, justamente no momento em que as «Meninas» -- Petinha Amorim, Lilásia Freitas, Rosário Lemos e Nieta Maranhão -- 'tão tocando na Matriz, eis o roteiro.
Acompanhadas por Josué, no violão e Tom Chico, no contrabaixo;
elas não 'tão podendo contar com a participação ativa da Zezé Ferreira, que fraturou o braço numa queda, recentemente, em São Paulo quando participaram do Piauí-Sampa, inclusive concederam entrevista ao Programa Jô Soares.
Esta, porém, mesmo impossibilitada de tocar, se faz presente na Igreja, em solidariedade ao grupo.
Em o interior da Catedral o que se opera não é um milagre, mas a feliz conjugação de três fatores.
O sublime conjunto musical «Bandolins de Oeiras» é Quem dá o show;
a singela beleza que reina no interior do venerando templo, previamente iluminado, é o ambiente Onde o show se materializa enquanto a equipe de profissionais da expedição «Across the Amazon» se responsabiliza por Como divulgá-lo de forma clara e límpida.
O produto resultante só pode ser cousa de primeira!
A satisfação da equipe de reportagem com o resultado alcançado em Oeiras, pode ser notado no semblante de cada um dos seus integrantes.
Finalizam o trabalho fazendo tomadas do pôr-do-sol na Praça das Vitórias e, depois de recolherem toda a parafernália utilizada (é muito equipamento!),
vão todos descansar na «Pousada do Cônego».
à noite, o jantar no Cônego tem a dupla função de alimentá-los e, ao mesmo tempo, mostrar uma refeição tipicamente oeirense, como pede o roteiro.
Preparado por a quituteira Solange Lopes, e coadjuvado por a proprietária da pousada, Waldinéia Ferraz, o jantar, servido num de seus charmosos ambientes, incluía paçoca, Maria Isabel, saladas, e até um leitão a pururuca, apresentado em vasilhas de barro e servidos numa mesa de madeira maciça.
Assim, mastigando, e se auto filmando e fotografando, terminam a reportagem sobre Oeiras, primeiro capítulo de uma viagem de mais de 8 mil km.
Assim terminou, também para mim, um domingo diferente em Oeiras!
Número de frases: 60
Hummm ...
O que você acharia de comer um lanche considerado uma refeição saudável, bem balanceada do ponto de vista nutricional e com valor energético baixo:
306,56 Kcal?
Depois que o queijo é derretido em banho-maria então, ai, ai ...
'se valor se reduz ainda mais.
Talvez seja o verdadeiro pecado da gula.
O sanduíche Bauru 'tá prestes a completar 80 anos (velhinho sim, mas em grande forma e muito atual, viu?),
é detentor de fanáticos apreciadores (me incluo em 'se grupo com certeza) em todo o Brasil e até no exterior e possui hoje diversas versões -- algumas bem próximas da original, outras longe, muito longe mesmo, assumindo características bem regionais devido à inclusão de vários ingredientes.
De tão gostoso e famoso, o sanduíche já tem sala própria em museu, selo de qualidade para evitar ser confundido com seus «clones» e pedido de inclusão como Patrimônio Cultural no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Selo, museu e patrimônio cultural
Para preservar a história do sanduíche o COMTUR -- Conselho Municipal de Turismo de Bauru lançou, em 2006, o programa «Bauru Tradicional».
O objetivo é certificar bares, lanchonetes e restaurantes que servem o Bauru com os ingredientes originais.
Alguns restaurantes e lanchonetes fora de Bauru e até do Estado, 'tão procurando a Secretaria de Cultura para obter a certificação.
Para homenagear ainda mais o sanduíche, foi criada uma sala no Museu Municipal de Bauru 'pecialmente para isso.
A partir da criação do selo e da sala no museu, um projeto ainda maior teve início:
obter por parte do IPHAN o reconhecimento do sanduíche como Patrimônio Cultural.
Segundo Henrique Aquino, diretor de Proteção do Patrimônio Cultural da cidade de Bauru, isso pode acontecer muito em breve.
«A fase de documentação e fundamentação para que o pedido tenha sucesso 'tá bem adiantada».
A idéia surgiu quando o acarajé recebeu 'sa certificação.
«Assim como o Acarajé, o Bauru também é reconhecido dentro e fora do Brasil», compara.
Se isso acontecer, o Bauru será um dos primeiros pratos nacionais a receber 'se tipo de reconhecimento.
O início
Em o início da década de 1930, no bem freqüentando bar Ponto Chic no Largo do Paissandu, em São Paulo, o bauruense Casimiro Pinto Neto, sem imaginar, lança um dos lanches mais famosos do Brasil.
Apelidado por seus amigos de Bauru, doce homenagem ao colega vindo do interior do 'tado de São Paulo, Casimiro chegou ao bar com fome e pediu ao chapeiro para abrir um pão francês, pôr queijo e um pouco de albumina (ele havia lido que a carne era rica em 'ses elementos).
De aí, somou-se à receita improvisada rosbife.
Mas não ficou por aí.
Ainda achando que faltava vitamina pediu para acrescentar tomate.
Voilà! De aquele dia em diante, a criação começou a ganhar fama e o Bauru se tornou conhecido Brasil e mundo afora.
Por muito tempo, a receita era 'sa, mas em 1950 ganhou um novo ingrediente considerado opcional:
pepino.
Um antigo garçom do Ponto Chic e um dos fanáticos apreciadores do lanche, seu José Francisco se mudou para a cidade de Bauru e decidiu manter a tradição do sanduíche, montando sua própria lanchonete, o Skinão Lanches.
Ele chegou a distribuir gratuitamente o sanduíche à população, para que ela tomasse gosto por o Bauru.
Com sua morte em 2002, seu filho Marco Antonio assumiu os negócios e a defesa do tradicional sanduba.
Bauru de frango ou ovo?
Que heresia!
Não é difícil encontrar alguém que tenha experimentado um «Bauru falsificado», com ingredientes capazes de arrepiar os fãs da receita tradicional.
Há uma comunidade no Orkut que hoje 'tá com quase 100 membros.
Lá eles discutem sobre os tipos de Bauru e suas experiências com os lanches que já comeram na vida.
Um dos membros diz:
«Sou bauruense e também freqüentei muito o Skinão.
Moro em Salvador há três anos e por aqui o Bauru é uma 'pécie de torta de frango ...
muito 'tranho!"
Outro conta:
«Pedi um Bauru no Rio de Janeiro e ele veio com um ovo frito.
O cara do bar me garantiu que 'se era o legítimo.
Grande picareta ..."
Em outra comunidade, que reúne cerca de 1.700 membros -- o que dá uma idéia da popularidade do sanduba, há tópicos de discussão sobre a variação da receita em todo o Brasil e depoimentos que confirmam que o Bauru já conquistou fãs no exterior:
«Uma vez, recebi uma comitiva de chilenos, argentinos e mexicanos que vieram conhecer a Hidrovia Tietê Paraná, quando eles desceram do avião no aeroporto de Bauru me contaram que todos achavam que Bauru era somente o nome do lanche e que não existia uma cidade com 'se nome».
Perceberam a importância do sanduba?
O legítimo Bauru
Gostaria de disponibilizar um vídeo com o passo a passo da receita, mas como não foi possível ...
Vamos à receita:
Ingredientes:
o 1 pão francês sem miolo
o 3 fatias de queijo mussarela
o 3 rodelas de tomate
o 3 fatias de rosbife (veja a receita abaixo)
o 2 rodelas de pepino (picles) -- opcional
o Sal e orégano a gosto
Modo de preparo:
Prepare numa assadeira um banho-maria:
coloque um pouco de água e leve ao fogo para aquecer.
Abra o pão em duas partes e retire o miolo.
Em uma das partes, coloque as fatias de rosbife frio, as rodelas de tomate e as de pepino.
Em o banho-maria, coloque as fatias de queijo.
Quando 'tiver derretido, coloque o queijo na outra fatia de pão e una as duas partes.
O calor do queijo aquecerá os demais ingredientes do sanduíche.
Receita de rosbife:
o 2 kg de lagarto;
o 3 colheres de sopa de manteiga;
o Caldo de um limão;
o Sal e pimenta do reino a gosto.
Pré-aqueça o forno em 200º C. Limpe a carne, retirando a gordura externa.
Tempere e deixe marinar por uma hora.
Em uma frigideira grande ou chapa de ferro, coloque a manteiga e leve ao fogo forte para derreter.
Coloque o lagarto, frite os lados, até ficar bem dourado.
Em uma assadeira untada, leve ao forno por 45 minutos.
Retire e leve à geladeira por uma hora.
Corte em fatias bem finas, de preferência no fatiador de frios ou com faca elétrica.
Agora é só correr ao mercado mais próximo, comprar os ingredientes e preparar 'sa maravilha!
Bon appétit!
Número de frases: 81
Em o mundo encantado dos livros didáticos de 'cola (bota aí doses cavalares de etnocentrismo), algumas civilizações ocupam um lugar congelado no imaginário popular:
o Egito deixou de existir no noticiário logo após Cleópatra, gregos usam 'cudos e lanças até hoje e Cabo Verde é aquele lugar exótico que servia de entreposto para os 'cravos que Portugal levava ao Brasil colônia.
Toda 'sa lenga-lenga é para destacar o'sacode ' que o compositor e bandolinista Rodrigo Lessa dá no marasmo ao lançar o quinto álbum autoral da carreira, De as ilhas mestiças.
O CD, que tem 12 faixas inéditas, 'tabelece hoje um diálogo musical entre Rio de Janeiro, Cuba e o arquipélago de Cabo Verde -- sim, a mesma Cabo Verde ignorada dos noticiários e refém dos livros 'colares.
O prenúncio do que 'tava por vir pode ser conferido aqui mesmo no Overmundo.
Ano passado, Lessa publicou no site uma 'pécie de diário de bordo -- em que relatava a experiência de ter feito uma viagem até Cabo Verde para captar participações de músicos locais.
Para quem não leu, vale resgatar o texto e curtir desde fatos inusitados aos detalhes dos encontros com alguns artistas.
Momento Quizz:
você sabe qual a capital de Cabo Verde?
Tem lá no diário.
Mas 'te texto é só uma introdução.
Para falar do novo álbum, ninguém melhor que o próprio Rodrigo Lessa.
Em entrevista via Skype, ela fala da viagem, das inspirações, do elo cultural entre Cuba, Cabo Verde e Brasil e conta como foi feito o disco.
Clique no botão ao lado e ouça.
Escute também a faixa Rala Coxa -- a última do álbum, publicada por o próprio Rodrigo.
Observação:
a conversa foi pensada para sair no programa de rádio do Overmundo.
Número de frases: 17
Como o papo rendeu e partes seriam cortadas para caber no formato da rádio, decidi publicar a entrevista inteira aqui."
Não existe maneira de pôr em palavras o que acontece no Carnaval do Recife».
Foi com 'sa frase que o cantor Lenine justificou o convite que fez aos amigos Zélia Duncan, Gabriel O Pensador e Vanessa da Mata para tocarem na festa e participarem do seu show, que aconteceu no palco armado do Marco Zero da cidade, no domingo (26/02).
O músico tem razão.
Mesmo com o interesse crescente da mídia nacional e internacional em torno do evento (cerca de 50 jornalistas brasileiros e 'trangeiros cobriram a festa 'te ano, segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura do Recife), dos flashes televisivos e das matérias a respeito, é no meio do festejo que o cidadão encontrará elementos sensoriais para ter uma idéia mais precisa do 'petáculo.
Por mais que se fale, se noticie, um (a) amigo (a) comente, só 'tando lá pra entender como uma festa mexe tanto com a capital e um Estado inteiros.
Este ano, o Carnaval Multicultural do Recife homenageou o 'critor Ariano Suassuna e o cantor local Claudionor Germano -- um dos grandes símbolos vivos da folia pernambucana e o maior intérprete do falecido compositor Capiba.
Iniciado em 2001, ainda no primeiro mandato do atual prefeito do Recife, João Paulo (PT), o modelo de descentralização do carnaval aquece a economia de bairros da periferia e leva shows gratuitos de artistas consagrados para quem dificilmente poderia pagar para assistir-lhes.
Nação Zumbi, mundo livre s / a, Martinho da Vila, Elba Ramalho, Mart ` nália, apresentaram-se no Alto José do Pinho e Ibura.
Locais que podem encontrar paralelo com o Campo Limpo, em São Paulo, a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, ou o Primeiro de Maio, em Belo Horizonte.
O aspecto democrático é bastante enfatizado por a imprensa e artistas locais, além do próprio povo.
De fato, no Recife não há cordões de isolamento nem exigência de compra de abadás para curtir a folia, como se vê em Salvador, por exemplo.
A tradição dos maracatus de baque solto e baque virado, bois, ursos, troças, caboclinhos e dos blocos de pau e corda é mantida por a própria comunidade.
Avós, netos e netas, filhos, amigos e vizinhos compartilham juntos do trabalho de confeccionar as fantasias, dos ensaios, dos desfiles.
Não há bairro da capital pernambucana que não tenha alguma movimentação carnavalesca.
São manifestações culturais totalmente desvinculadas da mídia, de paradas de sucesso, do Domingão do Faustão, da bênção de jornalistas «descolados» e da lógica da indústria cultural.
É a verdadeira cultura alternativa.
Paradoxalmente, o que mais se ouve nas rádios locais, em 'se período, não reflete o que acontece nas ruas.
Toca-se muita axé music no dial pernambucano.
E as celebridades?
O observador mais atento verá que o culto a celebridades domina de maneira quase doentia o noticiário de boa parte de jornais, revistas, sites, TVs.
Aconteceu festival tal, show tal, então vamos atrás de Sicraninha da novela, Fulaninho do BBB.
A impressão que se tem é a de que a presença desses seres superiores traz legitimidade a qualquer evento.
Dedução bastante questionável, visto que muitas de 'sas criaturas 'tão ali apenas por um vultoso cachê e não por interesse natural.
Em geral, no carnaval do Recife a disposição e composição dos palcos não facilitam o conforto e a exposição de todo o 'plendor dos Vips.
O cantor baiano Caetano Veloso -- uma «very important people» com conteúdo -- passeava tranqüilamente entre a multidão, participou e foi alvo de brincadeiras do Quanta Ladeira (bloco anárquico fundado e comandado por os amigos Lenine, Lula Queiroga e por o músico e produtor Zé da Flauta), subiu ao palco do Marco Zero junto com Antônio Nóbrega e Ariano Suassuna, andou por os becos 'quisitos que dão acesso à celebração da Noite dos Tambores Silenciosos e assistiu ao desfile dos maracatus de baque solto, também no Marco Zero, no lugar com melhor visão:
do chão.
Ad Luna é baterista do Monjolo (banda pernambucana radicada em São Paulo) e editor-adjunto do site Showlivre.
Número de frases: 28
com Queridos, há 5 meses 'tou trabalhando no British Council num programa de residências artísticas chamado Artist Links e irresistível é a tentação de dividir 'ta informação com vocês:
O Artist Links é um programa conjunto do Arts Council England e do British Council, com o apoio do Visiting Arts, cujo objetivo é o desenvolvimento e a implementação de uma rede de associações colaborativas que resultem em intercâmbios, 'tágios, produções conjuntas e oportunidades de desenvolvimento entre países.
O projeto realça o direito dos artistas de transitar em busca do desenvolvimento de seu trabalho e incentiva um ambiente de culturas cruzadas entre a Grã-Bretanha e outras culturas através de períodos de residência e pesquisa.
Iniciado em 2003, o programa piloto apoiou e construiu pontes culturais entre Inglaterra e China.
Usando sua vasta experiência nos cenários das artes do Brasil e da Inglaterra e seu profundo conhecimento da diversidade cultural desses países, o Artist Links agora oferece a artistas que vivem na Inglaterra e no Brasil a oportunidade de passar uma temporada no outro país desenvolvendo sua prática artística.
O programa conta com parcerias em ambos países com importantes instituições de arte que compartilham dos mesmos objetivos e podem oferecer apoio profissional aos artistas durante sua residência.
O Programa 'tá aberto a artistas em todos os 'tágios de sua vida artística e praticantes de formas de arte que incluem Música, Artes Cênicas e Dramaturgia, Live Art, Literatura, Artes Visuais, Escultura, Novas Mídias e Artes Digitais, Dança e outras práticas artísticas.
A qualidade artística da proposta constitui um critério de suma importância.
A duração de uma residência dependerá do projeto -- e do orçamento -- proposto por cada artista.
Não há um formato particular de residência, e isso dependerá do projeto -- e intuito -- de cada artista.
Os projetos serão selecionados através de um processo aberto e selecionados por profissionais do Arts Council England e do British Council, com base em avaliações externas de profissionais da arte do Brasil e do Reino Unido.
A próxima rodada de inscrições será iniciada em 28 de novembro de 2007 e encerrará em 21 de janeiro de 2008.
A seguir, novos processos de inscrição serão realizados a cada 6 meses.
É oferecido um subsídio de até 10.000 libras para cada projeto apresentado.
Então, se você tem um projeto em mãos, por favor, não se acanhe.
As inscrições abrem diam 28 de novembro de 2007.
Visite o website:
www.artistlinks.org.br
Dúvidas? Fale com mim.
O Reino Unido 'tá passando por um momento de fascinante efervescência no campo das artes e em 'te aspecto o Brasil também tem muito a oferecer, portanto acho 'te intercâmbio de idéias e culturas pra lá de interessante.
Até agora seis artistas brasileiros já embarcaram para o Reino Unido através do Artist Links e 2 artistas britânicos 'tarão vindo para cá ainda 'te mês.
Não há como não rolar conexões e colaborações extremamente produtivas.
Vamos lá?
Número de frases: 23
` Eu não gosto do Nelson como pessoa, acho ele um puta de um hipócrita!"
A frase dita de pronto, como num fluxo de consciência, é pronunciada por uma atriz que acaba de interpretar uma hora e vinte minutos da peça mais teatral de Nelson Rodrigues.
Em a pele da Dona Flávia, personagem que é o fio condutor da história, Katiuska Azambuja mergulhou por meses na biografia e obra do autor.
Junto com o elenco, conheceu dois filhos de Nelson e é claro ...
De perto ninguém é normal e Nelson não seria diferente.
Mas ao mesmo tempo que causa repulsa, atrai como um imã.
A atriz é a prova.
Ela se destaca com uma interpretação contundente, metralhando a platéia com petardos rodrigueanos:
«Os parentes têm o direito de exigir», aplica na prima-libertina Dorotéia, a tal que dá nome a peça que Nelson 'creveu em 1949 com apenas 37 anos.
Ele havia comprado a sua casa própria um ano antes e 'tava digerindo o fato de ter censurada a peça Senhora dos Afogados.
Sofria. De paixão inclusive!
Dizem que Nelson fez Dorotéia para Eleonor Bruno, a Nonoca, mãe de Nicete Bruno, com quem o autor teve um tórrido romance, mas acabou voltando para a mãe de seus filhos, a Dona Elza.
Ou seja, Nelson fez Dorotéia pensando na outra.
É um dado importante.
São 'tas ' falhas de caráter ' que provocam a ira de gente como a atriz que assume que o autor que ela própria encena é um «hipócrita».
Em a verdade, poucos autores são amados e odiados com a mesma intensidade.
Com Dorotéia, Nelson colocava a sua dramaturgia em sintonia com o teatro do absurdo.
A Cantora Careca, de Eugene Ionesco, é de 1950.
Justamente o ano que Dorotéia 'treou no Rio de Janeiro, em 7 de março.
Metade da platéia aplaudiu e a outra foi embora calada.
Levou cinqüenta e sete anos para Dorotéia chegar em Campo Grande.
Parece mentira, mas é verdade!
A temporada atraiu aproximadamente 1.500 pessoas, um público excelente para uma peça de teatro da cidade.
Jogada certeira da diretora Andréa Freire, comandante da Oficina de Criação Teatral.
Para comemorar os 14 anos de atividades com o grupo, em vez de ir para um teatro ' convencional ` com pouca garantia de público, preferiu armar o circo várias vezes no Armazém Cultural (ex-Estação Ferroviária) para apenas 120 'pectadores por sessão.
Andréa explica:
«Queria fazer fora de teatro porque as pessoas não vão ao teatro local para ver artistas locais em Campo Grande.
A idéia foi levar o teatro para onde as pessoas 'tão.
Então concebi 'ta montagem para qualquer tipo de espaço coberto, 'cola, clube, associação ...
Desmistificar que o teatro é só o palco italiano.
Em a verdade a gente não tem 'te 'paço tão comum em São Paulo e Rio de Janeiro.
E outra coisa era fazer o 'petáculo para poucas pessoas, até porque a gente queria fazer muitos.
Não adianta fazer três dias no Palácio Popular de Cultura e ter 500 pessoas!
E é fundamental ter o exercício do palco.
Porque o interessante é passar por 'te processo de entender a peça, o autor e representar.
Só melhora, fazendo.
Para mim o 'petáculo ficou bom na sétima apresentação com os atores mais dominando a situação. ' `
Toda família chega o momento que começa a apodrecer '
Antes de ter participado do seminário e ter visto a peça (duas vezes), tive um encontro com o primogênito de Nelson, o'furacão ' Joffre Rodrigues, que veio divulgar o filme Vestido de Noiva ('crito em 15 dias por Nelson) no Festival de Cinema de Campo Grande.
Deu para sentir toda a carga paterna em cima daquele sujeito, que chora e ri e alterna 'tados de 'píritos sombrios e melancólicos.
Seu pai não podia o pegar no colo, por causa da tuberculose.
Sei lá o que isso pode representar, mas não deve ter sido fácil ser filho mais velho de Nelson!
O fato, no entanto, é que o filme Vestido de Noiva é ruim, correto, mas ruim.
Depois veio ao seminário o Nelsinho, filho de Nelson conhecido por sua barba imensa e ser torcedor fanático do Fluminense como seu pai."
Eu entendo bem mais de futebol que meu pai, mas ele 'crevia bem mais é claro», compara Nelsinho.
Todos já conhecem a sua história.
Foi preso na ditadura militar e torturado.
Dizem que a tortura do filho foi um dos maiores desgostos de Nelson.
Depois de conhecer os dois filhos do autor e 'cutar as histórias, além de relembrar a biografia de Ruy Castro sobre o dramaturgo, você acaba impregnado de pensamentos rodrigueanos.
E não dá para negar.
Nelson era um grande 'critor, acima de tudo um frasista de mão cheia."
Jovens, envelheçam!».
Com apenas duas palavras ele move um mundo de pensamentos.
E Dorotéia?
Bem, é uma peça muito louca de Nelson e a versão da Oficina segue a rubrica do autor.
As atrizes usam máscaras de verdade, como indica o original.
A história é surreal, o que me surpreendeu por se tratar do tão realista Nelson Rodrigues.
Foi ele que 'creveu «nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais».
Não tem nada de surreal nisso.
Mas em Dorotéia tem!
E aí o dado de que Nelson 'creveu a peça em sua fase de amor-secreto com a ' amante ' talvez explique tantas metáforas.
Um jarro e um par de botas são os personagens masculinos da peça.
Não é à toa que muita gente, mesmo meio século depois de ser 'crita, sai com a sensação que Dorotéia não diz coisa com coisa.
Acho que nem tanto.
Nem comparo, por exemplo, quando fui ver Mattogrosso, de Gerald Thomas e a Companhia Opera Seca, no Teatro Municipal de São Paulo.
Muito lindo, mas realmente não entendi nada.
Dorotéia é bem mais palatável."
Me sinto um pouco como os atores quando apresentaram Vestido de Noiva, com as devidas proporções claro.
A gente 'tá trazendo uma coisa q o campo-grandense nunca viu.
O palco, posição do público, a iluminação, tema, o autor ...
Vira prazer porque é surpresa.
Quem levanta e vai embora 'tá no direito.
Tem gente que vem falar com mim e diz que não entendeu nada e acho bom também.
É um público virgem disso, analisa Mariane Gutierrez, a Dorotéia.
Nelson seria bem mais direto:
«Burro nasce que nem capim».
` Ser bonita é pecado '
Eu confesso que preferia um nelson-rodrigues rasgado.
Clássico, com maridos traídos e 'posas fogosas em cena.
Mas Dorotéia por ser mais sutil, provoca mais a imaginação.
E aí 'tá o segredo de Dorotéia.
Ela te faz usar a imaginação.
Basicamente a história é simples.
A ex-prostituta e vergonha da família Dorotéia aparece na casa das primas viúvas vestidas de preto e pede para ficar.
Mas Dorotéia é uma praga para a família em que as mulheres sentem náuseas na noite de núpcias e não enxergam homem em sua frente.
Dorotéia vai ter que se tornar feia para ser aceita.
E o peão gira em 'te embate entre a prima linda demais e o trio feioso, que se 'conde atrás de seus leques e mora numa casa sem móveis e sem quartos.
Repressão e volúpia sexual o tempo todo.
Um jarro aparece para assustar as personagens e um par de botas representa o noivo de De as Dores, a filha da Dona Flávia, que vai acabar não tendo a náusea.
Muito pelo contrário.
Em a segunda vez que fui assistir tinham vários 'tudantes da mesma classe na platéia.
Foi engraçado ver o garoto prestar a atenção na peça tomando tereré.
Com um público menos sisudo que na 'tréia, que teve uma grande quantidade de ' vipes ', o lado cômico do texto de Nelson aparece forte.
O resultado é a gargalhada de um rapaz que se diverte bastante com as pérolas ditas por as personagens.
O ambiente intimista gerado por a iluminação (um acerto da peça) e a economia no cenário (outro acerto), constituído apenas por algumas cadeiras e um altar, ajuda a concentrar a platéia no que 'tá sendo feito no palco.
E o texto de Nelson explode."
Não acredito em mulher de pele boa».
A música feita 'pecialmente para a peça por Evandro Higa caiu bem também.
Ele se inspirou no teatro japonês kabuki, que também tem uma tradição da ' tragédia e farsa '.
A música pontua bem o 'petáculo.
` Você tem um hálito muito bom para uma mulher honesta '
A equipe da peça 'tá envolvida com o universo de Nelson desde novembro de 2006.
Com direito a ida num prostíbulo para ver «a vida como ela é» digamos.
A diretora Andréa Freire garante que somente nos projetos futuros existe a possibilidade da equipe começar a ganhar algum dinheiro."
Depois de 'ta temporada vamos tentar voltar no começo de junho.
A gente tem que conseguir grana.
O prêmio bancou tudo isso e ninguém ganhou nada.
Gastamos o valor do prêmio a conta-gotas.
E a idéia agora é vender o 'petáculo.
Já temos propostas de prefeituras do interior.
Vamos oferecer para sindicato e 'colas.
Temos que viabilizar.
O legal em 'te processo é revelar talentos.
Estas meninas 'tão desde outubro numa dedicação franciscana.
E se não for assim não monta, porque é muito texto. '
Depois de ter visto a peça e pensado bastante em Nelson, fico com a sensação que o autor é mais um dos gênios brasileiros que 'tão longe de receber as honrarias que merecem.
Em solo carioca falar de Nelson é quase que um lugar-comum (será?).
Mas garanto que o resto do Brasil, o Brasil de dentro velho de-guerra, precisa urgentemente de doses cavalares de Nelson.
Levar 57 anos para Dorotéia chegar em Campo Grande é um pecado cultural digno de vergonha.
O brasileiro que nunca viu uma peça de Nelson ou simplesmente não sabe do que se trata é um legítimo ignorante.
Porque o pior ignorante é aquele que não conhece o legado cultural de seu próprio país.
Isso sim a verdadeira tragédia nacional.
` Tudo que não tem testemunha deixa de ser pecado '
A ficha técnica do 'petáculo Dorotéia é a seguinte:
Texto
Nelson Rodrigues Direção
Andréa Freire Elenco
Adelaine Lima, Ana Luiza Laurentino, Conceição Leite, Jurema de Castro, Katiuska Azambuja e Mariane Gutierrez
Cenários e figurinos
Telumi Hellen Assistente de direção e administração
Belchior Cabral Música de cena
Evandro Higa Iluminação
Renato Machado Preparação corporal
Miriam Gimenes Preparação de voz
Inesila Montenegro Produção
Andréa Freire e Belchior Cabral
Contra-regra André Luiz
Assistente de cenários e figurinos
Márcia Gomes Confecção de cenários
Professor Cláudio Lucchese e alunos do Curso de Arquitetura da Uniderp
Confecção de figurinos
Rosária Escobar Freire, Ladir Nantes de Melo e alunos do Curso Seqüencial de Moda da Uniderp
Assistentes de produção
Pedrina Gomes, Bianca Ribeiro, Mauricéia Leite, Haroldo Braga e Maycon Coene, Maria Alice, Paulo Bragantini, Rosária Escobar Freire, Thaís Capusso e Celso Ramos
Operador de luz
Cadu Fluhr Projeto gráfico
Saulo Flores Site
José Marques Fotógrafos
Número de frases: 148
Elis Regina, Eduardo Medeiros e Vânia Jucá Não vou dizer que foi de todo ruim.
Tenho 33 anos.
Ou seja, já tô cansado e crescidinho para encarar de peito aberto a avenida.
Não tenho mais saco nem 'pírito para agüentar sopapos indiscriminados -- pescoções vindos de sei lá onde -- e baculejos de PM.
Eles cheiravam minha mão, pediam meus documentos e me encaravam meio desconfiados.
Também pudera:
eu tinha cabelos longos, geralmente tava meio chumbado e sempre animadinho e insistia em usar umas camisas invocadas.
Claro que tive meus grandes momentos.
Onde damas e moçoilas protagonizavam com mim cenas que mereciam o registro póstumo para os amigos na quarta de cinzas.
Em aquela época, a gente curava ressaca com umas cervejas no Miloca's Bar -- qualquer hora coloco no guia.
E a resenha era uma ocasião mágica.
Os acontecimentos 'peciais foram infinitamente superiores aos ruins.
A os tais baculejos e tapões no pé do ouvido.
Que, afinal de contas, fazem parte da folia, a gente queira ou não -- e acreditem:
eu gostaria muito de não ter levado alguns sopapos.
Só acho que quem quer conforto total pode ir prum retiro, onde o café da manhã é bacana, segundo dizem.
Mas eis que eu, já meio cansado de aventuras, resolvi curtir o carnaval num dos camarotes daqui.
O mais acessível financeiramente, mais próximo do fim do percurso Barra -- Ondina -- uma grande vantagem em si, os daqui sabem o que eu falo -- e o que parcelava em 10 x no cartão de crédito.
Era um presente pra minha 'posa;
ela gosta da folia.
Não tinha como eu me sentir entrosado.
Um bando de mauricinhos, patricinhas, playboys, gringos gente boa e outros «pero no mucho», povoavam o 'paçoso local.
Era realmente grande, com uma puta 'trutura bem montada.
Minha sorte é que meu irmão mais novo aderiu à cerveja e ao cigarro -- duas modalidades olímpicas que eu larguei faz tempo -- e que meu cunhado também resolveu praticar viradas de copos.
Havia um restaurante japonês -- o Takê, muito elogiado por todos -- garçons atenciosos, internet, massagistas, lanchonetes, cinema, um animador despreparado, boate, uns caras e moças fantasiados de anjo, entre outras coisas.
Quase um shopping.
E foi assim que me senti.
Dentro de um vasto shopping.
Asséptico demais;
com a frieza e a impessoalidade características das praças de alimentação, com aqueles garotões passeando entre vitrines, enquanto mastigam seus hamburgueres.
Não fossem os trios elétricos que paravam bem frente ao camarote, e o burburinho das pessoas, eu juro que iria procurar um bom capuccino ou as lojas Americanas.
De onde 'tava, dava pra ver a rua por completo.
Milhares de pessoas dançavam, curtindo a festa;
'premidas e felizes naquele alvoroço.
Dentro das cordas, uma multidão com seus abadás coloridos;
as garotas com seus shorts e os bacanas com seus bíceps.
Ao redor do bloco outra multidão.
Não menos feliz e animada.
Acompanhava tudo, dançando e curtindo da mesma forma.
Eu li Bakunin, Proudhon, 'ses caras.
Teria motivos suficientes para entrar numas de desbancar a festa.
Poderia ficar aqui dissertando sobre «alienação das massas», de como uma revolução socialista resolveria todos os nossos problemas.
Quem sabe até fazer um paralelo -- numa total e descabida vontade de usar um clichê -- com o Panis et Circenses.
Mas não dá.
Eu tenho o rabo preso.
Já pulei e curti bastante a tal folia momesca.
Isso quer dizer que no caso da revolução triunfar um dia, eu seria justamente fuzilado ao lado dos mauricinhos de bíceps avantajados e dos pagodeiros com seus penteados 'quisitos.
A diferença entre nós seria somente notada no momento exato do fuzilamento:
enquanto eles cantariam alguma música do Chiclete com Banana, eu, certamente, entoaria Bravo Mundo Novo da Plebe Rude.
Só por uma questão de estilo.
A coisa funcionava assim:
depois de passar por o percurso, os trios e blocos paravam um pouco em frente ao camarote.
Diziam frases bacanas, animavam o povo -- incluindo aí meu irmão e meu cunhado, meio alegrinhos.
Chiclete com Banana leva até hoje o povo ao delírio coletivo, literalmente.
Seguindo 'se rastro vinham outras bandas menos " tradicionais ":
A Zorra (sim, é um nome de banda), Psirico (idem), Rapazolla (idem ibidem), Babado Novo, entre outras.
Lá embaixo, a quantidade de pessoas aumentava progressivamente, de forma assustadora.
Em a maior parte do tempo todo mundo 'tava bem feliz.
Confraternizando-se de forma até bonita.
Menos eu, que ainda acho axé-music uma grande porcaria.
Por isso, não era o cara mais eufórico ali.
Volta e meia rolava uma briga e confusão.
E a polícia surgia para resolver, lá do seu modo extremamente gentil, o problema.
A gente procura um motivo muito simplista para entender e justificar a violência da festa.
Grande parte dos argumentos que ouvi até hoje se resume às questões sociais e comportamentais.
É como raspar a superfície, na minha opinião.
Toda e qualquer teoria se baseia em fatos relativamente recentes, como se o desvario e a já citada violência fossem características sem nenhuma relação com a história do Carnaval.
O buraco parece que é mais embaixo, meu nêgo.
A festa surgiu antes da Era Cristã.
Segundo «José Carlos Sebe *,» nas margens do rio Danúbio os romanos celebravam o culto aos grãos 'colhendo um belo jovem que deveria viver como rei fazendo o que quisesse».
Contudo, " Depois, o rei imaginário era imolado e voltava-se a vida normal."
Ou seja, já era uma senhora farra.
A origem do próprio nome suscita uma confusão dos diabos.
Ainda segundo Sebe, algumas fontes defendem que ele 'tá ligado ao triunfo do Cristianismo -- que veio depois da festa, sendo mais aceito o termo Carnevale.
Algo parecido com «adeus à carne».
Outra tese explica que a palavra «Carnaval» veio da combinação de duas outras:
carrus e navalis, que» ...
sugere a festa Dionisíaca, onde um carro, carregando um imenso tonel, servia vinho ao povo, na Roma antiga."
Dá pra imaginar um imenso tonel de vinho circulando por as ruas de Roma, numa época em que era divertido assistir dois sujeitos duelando até a morte? * *
Em o Brasil, a festa teve seu inicio com os Entrudos.
O que, por si só, já dava uma boa dor de cabeça ao Estado.
Ainda conforme o livro do João» ...
começava a surgir o entrudo ..."
que era um» ...
jogo do começo do século, aonde as pessoas iam para rua e jogavam vários produtos, umas nas outras.
De entre os líquidos tinha urina, perfumes, ' caldos coloridos ` conhecidos como ' sangue de diabo '.
Os líquidos eram acondicionados nas chamadas ' frutas do entrudo ', ou simplesmente ' limões '».
Em 1850, uma portaria do governo proibia o tal Entrudo.
Já tinha baderneiro em 'sa época.
Dizia a lei:
«Fica proibido o jogo do entrudo.
Qualquer pessoa que jogar incorrerá na pena de 4 a 12 mil-réis e, não tendo o que satisfazer, sofrerá de 2 a 8 dias de prisão.
Sendo 'cravo, sofrerá 8 dias de cadeia, caso o seu senhor não o mandar no calabouço com 100 açoites."
Uma simpatia.
O Carnaval é uma de 'sas manifestações que 'tão arraigadas na nossa cultura.
Tornou-se algo inevitável.
Diante de sua força e beleza -- mesmo que muitas vezes distorcida -- a festa se eternizou.
Ela se modifica, se transforma;
mas em 'sência permanece a mesma coisa:
um hiato, um momento em que as pessoas se desprendem das convenções sociais e dos medos.
A etiqueta e as regras de conduta perdem parte de sua força.
Dando lugar ao desvario que se mostra de forma violenta, enlouquecida e, por que não dizer, terna.
Mesmo que sujeitos como eu iniciem uma cruzada contra a festa supostamente violenta e alienante, qualquer argumento seria vazio.
O Carnaval é algo mais forte e presente do que imaginamos, enquanto olhamos displicentes à multidão segurando nossa latinha de coca-cola.
E era assim que eu me sentia.
Distribuindo alguns sorrisos simpáticos para bêbados desconhecidos.
Enquanto lá embaixo a coisa pegava fogo.
Tentava, num relativo 'forço, me imaginar lá no meio da confusão, da verdadeira festa.
Descobri que não tenho mais saco pra tal empreendimento.
Já faz algum tempo que prefiro um canto sossegado com um livro.
Ou uma farra numa mesa de bar -- uma bebedeira Dionisíaca ou Homérica;
contanto que alguém pague a conta.
Quem sabe uns dias numa trilha, perdido no mato?
Sou um desses caras que saía com os amigos do bairro para encarar a festa de frente, mesmo achando as músicas umas merdas e presenciando cenas de pancadaria gratuita ou não.
O importante era cair na farra.
Tirar uma onda de bacana, jogar tudo para o alto.
O legal era poder ver um velho e ensimesmado professor de química travestido de Mulher Maravilha, tentando me agarrar em pleno Campo Grande.
O problema é que me tornei um dos «convertidos».
Minha profissão de cozinheiro, minha barriga proeminente e o fato de não ter mais fôlego para andar uns quilômetros dando «pulinhos» desajeitados me transformaram num cara de hábitos mais singelos.
Quem sabe ano que vem eu perco a barriga e volto ao camarote.
Mais disposto e empolgado.
E menos intelectualóide.
Notas:
* Sebe, José Carlos, Carnaval, carnavais, São Paulo, Editora Ática, Série Princípios * *
Admito que tal parágrafo parte de um assumido 'tereótipo.
Nem sei se a época em que o vinho era distribuido para todos era a mesma das famosas lutas no Coliseu.
Aliás, torço pra que não tenha sido.
Outras fontes:
1-Nossa História edição 16
2 -- Góes, Fred de, O país do carnaval elétrico São Paulo editora Corrupio 1982.
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país.
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo.
Número de frases: 133
Redonda é perfeita.
Não uma circunferência perfeita, modelar -- mas, ainda assim, perfeitíssima.
Começa na Ponte, termina na Ponta.
Ou o inverso:
nasce na Ponta, encerra-se na Ponte.
Entre uma e outra, águas claras, larga faixa de praia, três ou quatro pousadas, muito jogo de bola no finalzinho da tarde, jangadas que retornam mansas do mar, cumbucas cheias de lagosta.
Uma comunidade de pescadores cujo índice de violência é quase nulo, uma 'cadaria que nos conduz ao cenário de cartão-postal por excelência, vastas plantações de cajueiros e coqueiros, uma praça chamada Boca do Povo.
Uma sessão de cinema.
Perfeita, não custa repetir.
A meio caminho da Ponte e da Ponta, local de muita conversa e também de trabalho, um amplo 'paço como que originalmente destinado a grandes festejos.
curtas-metragens projetados num telão cujas dimensões superam em muito qualquer vela de jangada, por exemplo.
O pescador confirma:
«Aqui nos reunimos durante as festividades, no São João, final de ano, carnaval.
O 'paço é sempre 'te.
Tudo acontece aqui».
Em aquela noite de quinta-feira, 12 de julho, não seria diferente.
Muito menos igual aos outros 364 dias do ano.
Antes, um parêntese.
Primeiro: procure imaginar-se em terras de Icapuí, município distante 200 km de Fortaleza.
Está-se a um passo do vizinho Rio Grande do Norte, a palavra denuncia.
Melhor: anuncia.
Ali diz-se «o peixe é de Raimundo»,» a cerveja é de Henrique " -- que maravilha.
Em Redonda, uma das mais belas praias de Icapuí, identificar os extremos -- as tais Ponte e Ponta -- é fácil.
A qualquer hora do dia, com os pés atolados na areia, olhe para o seu lado direito.
Antes da curva, a Ponte, um enorme paredão rochoso cor de açafrão.
Parece falésia, ou uma duna caduca, já sem mobilidade, encolhida no seu cantinho.
«É um rochedo», explica Sidnéia Luzia, 28 anos, pescadora, massagista, jogadora de futebol e, agora, cineasta.
Enfim, duas das grandes atrações de Redonda, ela e a Ponte.
De o alto do rochedo, fica fácil entender os motivos que levaram os nativos de lá a batizar aquela praia de Redonda.
As pontas parecem tocar-se, o rochedo e a praia de Ponta Grossa, a alguns quilômetros de ali, formando-se um grande arco, um quase círculo.
Um paraíso sem saídas de emergência.
Um pouco antes do almoço, a caminhonete branca do projeto Revelando os Brasis encosta junto ao meio-fio.
Dentro de ela, além de duzentas cadeiras de plástico e as tralhas que, se bem-encaixadas e aparafusadas, transformam-se, em algumas horas, num baita telão de cinema, há uma cópia dos filmes que logo mais, a partir das 19h30, seriam projetados como parte do Circuito de Exibição nas Cidades -- Ano I. Realizado por a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (Minc) em parceria com o Instituto Marlin Azul, Revelando os Brasis vem percorrendo, de uma ponta a outra do país, em duas rotas distintas, desde 24 de maio último, os quarenta municípios contemplados -- mais vinte e uma capitais -- em seu primeiro ano de vigência.
Entre eles 'tão, além de Fortaleza, as cidades de Icapuí e Croatá, no Ceará, ambas com menos de vinte mil habitantes, um dos critérios para 'colha das propostas.
Ela é rara
«Uma amiga me falou do projeto, disse que eu tinha de participar.
Estávamos em 2004.
Eu falei que queria contar a minha história, mas não sabia como.
Ela disse ' você 'creve do seu jeito, depois eu faço a inscrição '.
Ela fez, sim.
Eu também queria muito conhecer o Rio de Janeiro, era um sonho», relembra Sidnéia, diretora de Uma pescadora rara no litoral do Ceará, documentário que, em quinze minutos, não consegue dar conta da vida da menina.
Não por ser deficiente ou vago.
Ao contrário, o curta é bem dirigido, tem ótimas imagens e cenas belíssimas do cotidiano de Sid, como é conhecida em sua comunidade.
O problema 'tá em 'se mesmo cotidiano abordado no filme.
De as quatro e trinta da manhã, quando levanta para entrar, em dias alternados, no mar, até o cair da noite, Sid quase nunca pára.
Pode ser vista, sim, cortando, montada numa moto duas vezes maior que ela, a praia de Redonda, ciceroneando os amigos de fora ou apenas dando umas voltas.
Em o mais das vezes, 'tá fora da vista de todos, no alto de um coqueiro ou na cozinha de casa.
«Um dia, 'tava em casa, o telefone público tocou.
Era pra mim, fui atender.
Essa amiga disse ' Sid, teu sonho de conhecer o Rio vai se realizar '."
Ela pára.
Aqui, Sidnéia chora.
Estávamos na pousada onde a equipe do projeto, dos montadores do telão ao fotógrafo, ficara hospedada.
Sid, de frente para o mar que conhece como o quintal de casa, ironizou o próprio choro.
«E ainda dizem que eu sou forte."
Ainda em 2004, como um dos quarenta selecionados, ela foi ao Rio, viu o Cristo em seu eterno abraço, tirou fotografias, conheceu as praias, fascinou-se.
E, em pouco mais de uma semana, adquiriu noções de roteiro, produção, câmera e som.
«A rotina era intensa, a gente mal tinha tempo de visitar a cidade, conhecer alguma coisa."
Em a volta, chamou Valdo Siqueira, amigo e produtor, para ajudar na confecção do documentário.
O resultado, pronto em 2005 e exibido numa sessãozinha na praça Boca do Povo e, em outra maior, no Cine Ceará daquele mesmo ano, ainda teria uma prova de fogo, marcada para de ali a algumas horas.
Os vultos de Maria
Maria Clara assiste à montagem sentada no batente de uma construção em alvenaria inacabada.
Parece acompanhar tudo com atenção, enxergar cada movimento realizado por a equipe que, em algumas horas, transforma um emaranhado de alumínio e correntes num cinema de fazer inveja a qualquer um, porque armado sob um céu magnífico e de frente a um cardume de jangadas multicores.
«Eu tô aqui, mas não tô vendo muita coisa.
Só os vultos», diverte-se a senhora de " setenta e poucos anos."
Ela procura saber o que, afinal, 'tá acontecendo.
«Foi a Sid quem trouxe pra cá?"
Operada de catarata há alguns meses, Maria Clara diz não ter se recuperado totalmente e, por isso, não poder acompanhar a sessão de cinema.
«Sim, o filme é sobre a menina.
Eu sei que ela é muito danada, faz coisas que só homem faz.
Trepa em coqueiro, vai para o mar."
Ela, dona Maria, cala-se, apruma a cabeça na mão e olha para o alto.
Um homem dá, trepado num «coqueiro» metálico, voltas e voltas com uma corrente, o que a impressiona, mesmo sem conseguir imaginar muito bem a que altura ele 'tá.
«A menina é danada mesmo."
Maria também.
Atrás da mercearia de Ribamar, o serrote 'tende-se chão acima.
A 'cadaria, com cerca de 250 degraus acidentados, serpenteia entre as rochas.
É lá do alto da serra, antes de chegar ao cajueiral, que vem " dona Maria Clara.
«Eu venho pra cá tomar ar, conversar.
Aqui é minha vida, meu avô morava ali em frente», diz apontando.
Hoje, dona Maria vive com um dos filhos numa casinha.
Os demais cuidaram em 'palhar-se Ceará afora e adentro.
«Venho no final da tarde, volto umas oito horas.
Ninguém mexe com ninguém, ninguém rouba ninguém, ninguém mata ninguém."
Ela coça os olhos com o nó dos dedos, arregala-os um pouco.
Em seguida, cospe no chão.
«O último que mataram aqui foi morto por alguém de fora."
O arquiteto de Redonda
A calmaria de Redonda, mais as categóricas afirmações de Maria Clara, são confirmadas por José Ribamar, ex-pescador, comerciante de 55 anos, mestre de obras e avô coruja.
«Eu vivo aqui, mas nunca fui assaltado.
Eu posso é deixar 'se comércio aberto, 'ses botijões de gás aí que não acontece nada.
A não ser que seja alguém de fora."
Rogério, pele queimada, aparência de surfista e amante do reggae vai na mesma toada:
«Se você vier pra cá, pra uma festa e cair por aí, vem alguém e te leva para a casa, te coloca num quarto.
Ninguém mexe com ti, não».
Ribamar, evangélico, ainda 'tá em dúvida se assiste ou não ao filme de Sidnéia.
Perguntado, demonstra certo interesse, mas logo sai para despachar um freguês.
Quando volta, é com outro assunto debaixo do braço.
Ribamar considera-se o grande construtor de Redonda.
«Tá vendo ali?
Fui eu que levantei.
Ali do outro lado, também.
Essas casas todas aqui na frente eu construí ou ajudei a fazer», inventaria, sem modéstia.
Não fosse o acidente que sofreu no mar -- «Caí na jangada e bati com as costas num pedaço de madeira» --, ainda 'taria assentando tijolos na comunidade.
Itamara Maria Cecília, 1 ano e 4 meses, aproxima-se, desconfiada.
O avô derrete-se, sorri.
Um riso contraído, quase duro.
Depois de explicar todo o processo de captura da lagosta e de venda do apurado a uma única empresa, a Compescal, Ribamar confessa:
«Não saio daqui, Redonda é tranqüila».
Não quero morar em outro lugar bem que poderia ser o lema de Redonda, o seu mantra, a que rapidamente nos acostumamos e passamos a entoar.
Eis o perigo de lá.
Redonda no " retângulo mágico "
Marcada para as 19h30, a aparição de Sidnéia na tela grande só aconteceu mesmo às 20 horas.
É que, por uma feliz ou infeliz coincidência, realizava-se, naquele mesmo instante, uma missa alusiva aos trinta dias decorridos desde a morte da avó de Sid, dona Germana, aos 78 anos.
A igreja, pintada com um azul clarinho e 'premida entre blocos de casas pertencentes à pousada O pescador e a particulares, encheu-se num repente.
Crianças, jovens e adultos de Redonda disputavam cada metro quadrado do interior do templo e, do lado de fora, os parapeitos das duas janelas.
De a 'cadaria da pousada tinha-se uma 'timativa aproximada do quanto dona Germana era importante para aquela comunidade de pescadores.
«Ela era uma benzedeira, rezadeira.
Ajudava todos aqui a fazer a ' passagem ' de uma forma tranqüila.
Todos procuravam ela», tentou explicar Sidnéia, para quem a avó era, além de tema do próximo documentário (A os mortos de morte morrida, vencedor do edital da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, ainda em fase de produção), um porto-seguro.
Em a cidade, logo após a «morte morrida» de dona Germana, o burburinho resumia-se a saber quem, ali, podia substitui-la nas suas funções.
A resposta veio rápida:
ninguém.
Pouco antes das oito horas, as ondas quebrando calmas na praia, Redonda ocupa as duzentas cadeiras disponíveis em frente à tela, as calçadas próximas, os muros, os meios-fios, a traseira do caminhão-projetor, os banquinhos de cimento.
O tampo da mesa de sinuca no alpendre do bar vira uma 'pécie de arquibancada.
Os demais, sem incômodo aparente, ficam de pé, olhos arregalados.
Querem ver Sid.
Sid, cujo nome, admite, vem de Sidney Magal, chega acanhada.
Ainda na apresentação, agradece aos que a ajudaram durante a produção do filme.
Faz questão da presença dos amigos, do pai, que, mais tímido que a própria filha, cruza a platéia para postar-se ao seu lado.
Em seguida, vai embora.
Ainda abalado por a morte da mãe, ele não aguarda a exibição.
Dias depois, Sid relata:
«Nem lembrava mais de ter visto meu pai chorar.
Em aquela noite, ele chorou».
Quem disse que pescador é 'se rochedo em forma de gente?
O filme começa com o barulho ensurdecedor das águas do mar, num final de tarde ou começo de manhã, já não se sabe.
A platéia suspira, silenciosa.
Em seguida, vêm os depoimentos.
Vanderlei Bezerra, dono da pousada:
«Mulher não foi feita pra tá no mar.
Nem mulher, nem criança».
«Ele tinha dito coisa pior, a gente teve que cortar na edição», revelou Sidnéia.
A platéia ri bastante a cada nova declaração mais ou menos cômica.
O «Senhor de Rosa», por exemplo, arranca gargalhadas ao comentar as múltiplas atividades de Sid.
Entanto, nem só de graça vive o cinema, aqui ou em qualquer parte do mundo.
Regilene da Costa, pessoa muito querida de Sidnéia, casada e hoje morando na França, em meio a tantos risinhos e piadinhas, põe, sem medo, o dedo na ferida de Redonda.
«Uma vez minha mãe disse pra mim: '
Mulher, num vai lá na casa da Sidnéia, não.
Ela pode querer te agarrar '».
Regilene foi.
à revelia da mãe, eram muito amigas.
Firmes, as palavras de Regilene parecem mexer um pouquinho com o público, que, mesmo rindo, demonstra certo nervosismo.
Em o dia seguinte, em rápida conversa, Sid explica.
Após a primeira exibição do documentário em Redonda, ainda em 2005, Regilene ficou dois dias sem ter onde dormir.
A mãe a expulsara de casa quando assistira ao depoimento que a filha havia dado.
Sid acabou acolhendo a menina em sua casa.
Mais alguns depoimentos e o filme termina.
Quinze minutos entre o silêncio e os aplausos.
Fortes e demorados, guardados 'pecialmente para aquela quinta-feira de julho.
Givanaldo, de 11 anos, ainda sentado na primeira fileira:
«Gostei mais quando ela entra no mar, empurrando a jangada».
O amigo discorda:
«Legal foi ela jogando bola».
Fosse jogando bola, subindo em coqueiros, empurrando a jangada ou empunhando uma câmera, Sidnéia, no final das contas, concretizara um sonho:
contar a própria história.
A própria e, com ela, a de Redonda.
Porque ali, de uma forma ou de outra, todos se parecem, têm traços comuns, dores comuns.
Dizer de um é dizer de todos.
Em seu último depoimento, nos instantes finais do curta, dona Germana confirma a impressão de quem chega de outras terras.
Enquanto trança, habilidosa, uma toalha, ela conversa com a câmera.
«Eu gosto muito de Redonda.
Aqui é tudo uma família só.
Quando um tem uma dor, o outro sente."
Número de frases: 174
É Fundição Progresso, é terça virando quarta, férias 'colares, pleno verão a todo vapor lá fora.
A chuva cessou e mesmo que não tivesse, a Fundição 'taria cheia.
Toda semana é assim na Roda do Casuarina.
A juventude, mais dourada que nunca em 'te janeiro farto em praias e em aplausos aos pôres-do-sol, toda lá.
Gatinhas passistas sambistas desde criançinha, gatinhos surfistas que dizem no pé, garotos irados do skate e marrentos do hip hop, dreadlocks, 'covas progressivas, bonés, chapéus de palha, hipongos, lourinhas e black power:
todos conhecem os versos de despedida do velho bamba:» ...
não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar ..."
Todos sambistas de raiz.
Sambistas de infância.
O Casuarina é o mestre-salas, faz as honras com graça e louvor.
A temperatura sobe, o melhor lugar do mundo é aqui, o melhor lugar do mundo é o samba.
É tudo luxo e riqueza.
Agora a cadência é lenta, o tom é menor,» ...
ensaiei meu samba o ano inteiro ...
e ela jurou desfilar pra mim ..."
A juventude dourada do Rio de Janeiro, a galera que todo o Brasil queria ser, os antenados, os descolados, os hype, os indies, os roots e os alternativos, extasiados e emocionados levantam os braços abertos e sobem a voz pra cantar " Mas chegou o carnaval e ela não desfilou.
Eu chorei, na avenida eu chorei, não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei."
Quem diria, Benito de Paula, que depois de tantos anos, do seu sumiço da mídia, em pleno mundo de atropeladas e sucessivas novidades e daquele monte de críticas, seu bom e velho samba-jóia Retalhos de Cetim, aquele mesmo que abalava o Programa do Chacrinha, faria a noite bela e jovem do Rio cantar, dançar e se emocionar em 2008?
Longa vida ao Casuarina, pois sua causa é das mais nobres!
A bênça, Benito di Paula!
Está 'crito:
do samba vieste, ao samba retornarás.
Número de frases: 22
Surgia em 2001, o primeiro site dedicado ao rock de MT, o MTROCK, que tinha como principal objetivo criar núcleos entre os músicos, promover o pop e o rock cuiabano, e proporcionar oportunidades para as bandas se apresentarem ao vivo.
A ousada proposta justificava-se por o hiato e ausência de eventos que agradavam ao público, e principalmente aos músicos e artistas.
Como (até os dias atuais) não existe muita oportunidade para quem faz Rock em nossa região, nós tínhamos que criá-las.
Pensar no artista e ser inteligente, dar 'trutura para a cultura rock local faria com que Cuiabá fosse tão produtiva quanto qualquer outra capital brasileira, fatos que acabaram se concretizando.
Bandas de rock surgem em São Paulo, Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro, Recife, até mesmo em Campo Grande.
Não víamos motivos para que talentos daqui de Mato Grosso não pudessem 'tourar nacionalmente.
Dizia o release mtrock:
«Mato Grosso, 'tado que tem se desenvolvido assustadoramente, superando as expectativas de muitos, e tem adquirido e absorvido a cultura pop rock como outras tantas grandes capitais brasileiras.
Quando se fala em cultura cuiabana, ou por que não dizer mato-grossense, todos se lembram de rasqueado, cururu, siriri.
Porém, existe também a cultura rock aqui em Mato Grosso, com várias bandas com possibilidades comerciais.
Muito se engana quem não olha o lado do movimento rock como cultura original cuiabana».
«Tendências se misturam, criando um cenário novo, amplo e repleto de novas idéias e representantes de 'ta cultura.
Atualmente alguns bares cuiabanos exploram o pop e o rock tanto quanto a MPB, dance e vários outros ritmos.
Porém, o melhor lugar para se ver uma banda de rock é justamente num evento de rock.
E, pensando justamente em aumentar o público que curte 'se tipo de som, 'tá sendo criado 'te movimento.
Oferecer mais alternativas de diversão paras pessoas é uma das outras metas."
O site ficou conhecido com usuários em todo o país, e realizou inúmeros eventos rock, como por exemplo as edições Cena MTROCK (casa cuiabana), Zona Metal (Asfaz), Festival Rock Cidadão (Museu do Rio, o primeiro festival de rock em Cuiabá com dois palcos e som ininterrupto, com cerca de 20 bandas), Salada Rock (parceria com 'paço cubo), campanha Rock Vai à Escola (parceria com colégio master, onde várias bandas se apresentaram ao vivo), RIFF 2002, RIFF 3, ROCKWEB, entre outras várias gigs, culminando no ótimo show da Pitty em 2004, evento que muitos consideram um dos mais bem organizados já realizados na cidade verde.
à época, o site tornou-se referência na cena rock matogrossense, e também um local de encontro do público rock cuiabano, os membros da comunidade mtrock usavam o site para se comunicarem.
Sessões do site como Acervo (primeira coleção de mp3 de bandas regionais pra download na net), e Teleguiados (a polêmica e explosiva sessão de torpedos do site) entraram para a história da cultura regional e dos mitos pop na lembrança coletiva do público.
Artistas locais como Amauri Lobo, Nação, Gabiroo, Papo Amarelo, Strauss, Base Oculta, Alicia Jones, Deefor, Caximir, Lynhas de Montagem, entre outros vários, tiveram seu trabalho impulsionado a nível global, tornando suas canções ainda mais conhecidas, fato 'se que se refletia nos shows, tornando o trabalho autoral das bandas de MT mais reconhecido.
Canções «Como» «da Nação, «Provisório» da Gabiroo, «Paraíso Guimarães» do «Papo Amarelo»,» O Que Há Pra Se Fazer?" da «Alicia Jones,» Verdades sobre a Mesa da Strauss», «Esquecer» da Rotação 45, entre inúmeras outras, tornavam-se realmente conhecidas, e começou a se formar um embrionário público consumidor de rock em Cuiabá, que enfim podia ir em mais eventos e ter acesso aos produtos das bandas, bem como a um site rock local, isso bem antes dos blogs e orkuts.
O MTROCK foi lançado num tempo em que a efervescência cultural (principalmente roqueira) cuiabana começava a sair da 'tagnação, com agentes culturais interessados em fazer acontecer, como o Espaço Cubo, Blecaute (Ivan Tormentor), o pessoal do underground, entre outros.
Os (cult) hits chapa e cruz não pararam de pipocar desde então:
«Lugar Distante da Donalua», República do Adeus «do» Contingente Imigrante, Bin Laden «de Lopez,» Saideira «da Quatro Línguas,» Festival «da» Causa Nova, «Noite Serena da Zagaia», O Lado Humano Nâo Acompanha o Tecnológico da Caximir», e muitas outras canções começaram a circular rapidamente, e tornaram-se sucessos locais.
Fato extra:
o site oferecia rádio on line para quem quisesse ter o rock mato-grossense como fundo musical em casa ou no trampo, ajudando as músicas dos roqueiros de MT serem absorvidas para alguém além dos amigos das bandas.
Em os eventos do site participaram além das bandas citadas acima, outros talentos locais como Extremunção, Durangos, The Breeze, Dick Tracy, Zorato, Blue Jack, Noise Jam (atual Fuzzly), Dupla Face, além de vários.
Número de frases: 27
A lista é extensa, quem sabe outro post ...
Essa coisa de deixar algo pra depois sempre dá merda.
Ano passado, quando eu andava com o CD da banda pra onde fosse, eu conheci um restaurante a quilo e na hora de pagar a conta de 14 reais, eu mostrei o disco para o dono do restaurante.
Como o disco custava 10 reais, eu dei mais 4 e ficou por isso mesmo.
Depois voltei lá e ele me chamou de Zeca, pois o nome da banda era ZecaCuryDamm e, por na foto do disco eu 'tar em primeiro, ele achou que meu nome era Zeca.
Corrigi, dizendo que Zeca era o do meio (na foto) e que meu (sobre) nome é Cury.
Então, quando eu chegava no restaurante de ele, era sempre «e aí, Cury, tudo bem?»,
«Bom dia, Cury», «Como vai, Cury?».
Beleza.
Mas aí eu saí da banda e ele soube e, a partir daí, ele parou de me chamar de Cury.
Acho que ele pensou que era meu nome artístico e que por isso não ficaria bem, por as circunstâncias, continuar me chamando de Cury.
Até aí, tudo bem, mas o problema é que ele passou a me chamar, e não tenho a menor idéia do porquê, de Maurição.
Um belo dia, fui lá e ele:
-- E aí, Maurição, como é que tá 'sa força?
Em a hora eu achei que ouvi errado ou que ele deve ter falado com alguém e eu pensei que foi com mim ...
mas, num outro dia, quando voltei lá, foi a mesma coisa:
-- Grande Maurício, como é vai, tá tocando em algum lugar?
Como tinha muita gente ao redor, ele tava no caixa, gente pagando, achei que não ia ficar bem eu corrigi-lo naquele instante e deixei pra fazer isso outro dia.
Aí eu passei um tempo sem ir lá e 'queci 'sa história.
Mas quando voltei:
-- Fala, Maurição, tá sumido, qual foi?
Uma merda.
Demorei pra falar e, como passou tanto tempo, fiquei sem jeito pra dizer que meu nome não é Maurício.
Muito menos Maurição.
Já paguei com cartão de crédito, cheque, até preenchi, com letras maiúsculas, uma cédula para um sorteio de um quadro que ele tava fazendo.
Cliente: RICARDO CURY.
Mas não adiantou.
Voltei lá e ele ainda me apresentou à sua 'posa:
-- Esse aqui é Maurição, um amigo meu, tá 'crevendo um livro.
Fico pensando no dia que o livro sair e eu for querer pagar o almoço com ele.
Fudeu. Vou ter de fazer um livro exclusivo, assinando Maurício Cury.
Ou Maurição.
* * * A luz laranja, com a sigla EPC, que fica no canto 'querdo do painel do meu carro, um Gol, acendeu.
-- Vá logo ver isso -- disse meu pai, após uma carona.
Deixei pra depois.
Ainda na banda, eu fui numa feirinha (Feira das Artes) que acontece periodicamente no Largo da Mariquita, Rio Vermelho, e lá conheci Seu Juraci.
Ele tem 68 anos e faz parque de diversões de brinquedo.
Eu fiquei impressionado com o trabalho de ele.
Tudo é feito com lata e de forma artesanal.
Tem roda gigante, carrinho de cachorro-quente, de pipoca, carrossel, gangorra, balanço ...
todos pintados com as cores primárias (azul, amarelo, vermelho) e com um acabamento impecável.
E tudo se movimenta.
A roda gigante roda, o balanço balança, o carrossel gira ...
E o parque todo em movimento gera uma imagem bastante inspiradora.
A banda tinha (ou tem) uma música chamada Parque.
E na hora que vi o parque na Feira das Artes, tive a idéia de fazer o clipe de 'sa música com Seu Juraci.
Seria um clipe / documentário de 4 minutos, com ele dizendo seu nome, idade, profissão, e respondendo às diversas perguntas sobre o parque que ele faz, tendo a música intercalando as suas respostas.
O fato de Seu Juraci me parecer bastante comunicativo, inteligente e 'pirituoso ajudou na certeza de que o clipe seria viável.
Mas eu deixei a produção desse clipe pra depois e aí foi tarde.
Eu saí da banda e blá, blá ...
Dia desses, uma prima disse que ouviu meu nome na TVE, dizendo que uma música minha 'tava concorrendo a um prêmio.
Fui saber do que se tratava e era a tal música Parque.
Fui ouvir qual versão da música 'tava concorrendo e constatei que era a versão gravada ainda com mim na bateria.
«A música também é minha, é a versão com mim tocando, gosto da idéia e Seu Juraci merece.
Vou fazer o clipe», pensei.
Porém, ainda 'tava receoso, e, assim, quase um ano depois:
-- Alô, Seu Juraci?
-- Sim.
-- Aqui é Ricardo.
Falei com você um dia na Feira das Artes, eu tinha uma banda, não sei se você se lembra, falei sobre um clipe ...
-- Você é o menino que meu deu o CD?
-- Isso.
-- Até hoje tô te 'perando.
Esse «até hoje tô te 'perando» era tudo que eu precisava ouvir.
Liguei para alguns amigos que poderiam ajudar e o cineasta " argentino-brasileiro Jerónimo Soffer disse que iria com mim.
Dez para as sete da manhã eu buzinei em sua residência.
Seu Juraci mora longe e sua oficina fica na sua casa.
Pegamos a Avenida Bonocô, chegamos na AV.
San Martin já engarrafada, pegamos o caminho pra São Caetano (já engarrafadíssimo), nos perdemos duas vezes e às 10 horas conseguimos chegar na casa de ele.
E às 10 e 15 constatamos que as duas mídias que eu comprei no dia anterior, exclusivamente para 'sa gravação, não eram compatíveis com a filmadora.
-- É por isso que a gente saiu cedo, pra dar tempo de resolver os problemas -- disse o sábio Jero.
Após mais um louco engarrafamento de volta, chegamos no Extra da Rótula do Abacaxi às 11:30, e constatamos que no Extra não vende a mídia Mini-DVD.
-- Vamos no Shopping Iguatemi, é por isso que a gente saiu cedo, pra dar tempo de resolver os problemas -- disse o entusiasmando Jero.
Mas, na saída do Extra, ouvindo a porra da música Parque, a voz de meu pai dizendo «vá logo ver isso» ecoou em meu ouvido.
Saía fumaça do carro.
Até aí tudo bem, mas de 'sa vez era do motor.
E com a luz da temperatura piscando loucamente.
Parei o carro no posto e o frentista disse que era apenas o recipiente que 'tava sem água.
Achei 'tranho, sempre ponho água, mas achei mais agradável acreditar que o problema era só aquilo mesmo.
500 metros depois eu veria que não.
O carro fritava.
-- Isso aí é a válvula que regula a passagem de água -- disse o mecânico da primeira oficina que encontramos.
Ele tirou a tal válvula dizendo que aqui na Bahia não precisa da válvula.
-- Hein?
-- Essa válvula é para os carros do Sul, pois lá é frio, portanto, para o carro 'quentar mais rápido, tem 'sa válvula pra bloquear a passagem da água.
A sua tava bloqueando direto e por isso o carro 'tava 'quentando.
Depois de 'sa explicação é impossível não se convencer de que agora o problema 'tava resolvido.
Mas já eram quase duas da tarde e achamos que seria melhor deixar a gravação do clipe para o dia seguinte.
Ainda tinha de comprar novas mídias, voltar tudo, a luz já não 'taria tão boa, a gente já não 'taria tão bem ...
Dia seguinte, Jero desistiu e eu fui sozinho.
Em pleno engarrafamento louco da Avenida San Martin, às 7:30 da manhã, eu ouvi a voz de Jero no meu ouvido, «É por isso que a gente saiu cedo, pra dar tempo de resolver os problemas».
«Válvula «e» carros do sul» são a PUTAQUEPARIU.
Nem a Mystery Machine de Scooby Doo fazia mais fumaça.
Encostei o carro em frente a uma borracharia.
-- Isso deve ser a injeção eletrônica ¬ -- disse o borracheiro.
Ele mexeu em tudo, futucou, mandou eu ligar o carro, desligar, ligar de novo, desligar e disse que eu tinha de achar um mecânico.
Enchi o reservatório de água, e consegui andar por 300 metros.
Tive de subir no meio-fio pra não atrapalhar o trânsito.
O Sol de 9 horas, no meio do engarrafamento, naquela avenida, se torna um Sol de meio-dia.
Eu derretia de calor.
Eu e o carro.
Derretendo, com raiva da música, do carro e da tecnologia que inventou o Mini-DVD, olhei para a frente e vi que tinha parado em frente a uma Igreja Universal do Reino de Deus, onde tinha uma placa enorme com os dizeres «Pare de sofrer, entre».
Confesso que quase entrei.
Até pra perguntar se ali tinha algum mecânico.
Em uma loja de baterias (para carros), o dono me disse que entrando logo ali, virando à esquerda e depois 'querda de novo, tinha um mecânico.
Fui e achei Seu Santana com seu macacão que nunca foi lavado.
Mexeu em tudo e, com um cigarro na boca, mandou eu ligar o carro, desligar, ligar de novo, desligar, ligar de novo, para a então dizer:
-- É a bombinha.
Era o quarto diagnóstico em menos de um dia.
Após conseguirmos parar o trânsito pra que eu desse uma ré por a contramão, para a eu não ter de fazer o retorno lá na casa da porra com o risco do carro explodir, cheguei, junto com Seu Santana, na oficina de Seu Juscelino.
Já eram 10 e meia.
De novo o liga e desliga e Seu Juscelino, que é chamado por Kubitschek por todo mundo (imagino que isso seja com todo Juscelino do Brasil), disse que o defeito era no ventilador do motor.
E, pela primeira vez, recebi um prazo para o conserto.
-- Passe aqui às 16 horas que ele tá pronto.
A Igreja Universal nunca foi tão tentadora.
Resolvi pegar um táxi e voltar para a casa.
Em o dia seguinte pegaria o carro.
E quanto ao clipe, achei melhor desistir.
Comecei a achar que tinha alguma força negativa atrapalhando.
O parque não tava nada divertido.
De dentro do táxi, liguei pra Seu Juraci cancelando tudo.
-- Mas rapaz, vai deixar pra outro dia?
Vai desistir assim tão fácil?
Venha que tô 'perando -- disse ele.
Era tudo que eu precisava ouvir.
Pedi para o taxista dar a volta.
Grande Juraci.
Filmei ele construindo a roda gigante, a gangorra, o carrossel ...
-- Herdei a profissão de meu pai, que era artesão, mas antes eu fazia brinquedos de madeira, só que tive as ferramentas roubadas e, como não tinha dinheiro para comprar outras novas, tive de me virar com as que sobraram, passando, assim, a trabalhar com as latas, o que fez com que eu criasse dignamente todos os meus filhos com os parques -- disse ele, que vende para o país todo.
Disse também que gostava de trabalhar ouvindo Jean Michel Jarre, Roberto Carlos e Secos e Molhados.
Terminei a gravação com uma imagem do parque todo em movimento, com Seu Juraci no centro, sorrindo e dizendo:
-- Meu nome é Juraci.
Sou artesão.
Faço parque de diversões.
E 'se é o Juraci Parque.
Em tempo:
para ver Seu Juraci, acesse http://www.fotolog.com/saltimbancos1 / 30523757
O seu telefone de contato é 71-3259-4726. (
Número de frases: 138
1) Parque, de Damm e Maurição.
Pessoal, infelizmente, por falta de espaço não deu pra colocar nem na Agenda e nem no Guia.
Confirmem os eventos através dos telefones e e-mails existentes no roteiro.
1 -- Te Encontro NA APPERJ --
Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro, Oficina Editores, Sérgio Gerônimo & Márcia Leite convidam:
2ª segunda-feira do mês, em maio de 2007, dia 14, no Savana Grill, às 19h, Rua Conde de Baependi, 62, Laranjeiras.
Boletim informativo Deleites.
Roda de poesia.
Informações por os tel:
(21) 3328-4863 / 2447-0697 ou e-mail:
apperj@apperj.com.br 2 -- Poeta Saia da Gaveta --
no Engenho de Dentro, Av..
Amaro Cavalcanti, 1661, no SESC, com coordenação de Neudemar Sant ` Anna (apperjiana) e a idealizadora do projeto Teresa Drummond, ocorre toda 2ª terça-feira do mês, das 18h às 22h.
O rodízio de poesia é acompanhado com música de Maury Sant ` Anna.
Entrada: R$ 4,00, com 50 % de desconto para idosos, 'tudantes e comerciários.
Informações por o tel:
(21) 9252-9031 / 8767-0581 ou e-mail:
poetasaiadagaveta@ig.com.br 3 -- Terça Converso no Café --
com o grupo Poesia Simplesmente e seus convidados, toda terça-feira, a partir das 18:30h. Em o Teatro Glaucio Gill, Pça Cardeal Arcoverde, Copacabana, entrada:
R$ 4,00. Mais informações por o e-mail:
poesiasimplesmente@gmail.com.
4 -- Sarau'$' Vintém De Cobre ' (Homenagem à Cora Coralina) --
bimensal no 2º sábado dos meses ímpares, 16h, começa em abril.
Em a Estrada da Cachamorra, 133, casa 62, em Campo Grande.
Coordenação de Sonia Abreu (apperjiana).
Informações por o tel:
(21) 2406-5883 / 9967-9305 ou e-mail:
keshwari@bol.com.br, soniabreu @ click 21. com.
br 5 -- AJEB-NACIONAL --
Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, convida para uma tarde de descontração com poesia, música e canto, toda 4ª segunda-feira do mês, às 15:30h. Local?
Confederação das Academias de Letras e Artes do Brasil, na Rua Teixeira de Freitas, 5/3 o andar.
Coordenação de Lourdes Balassiano (apperjiana).
Informações por o tel:
(21) 2235-1508 6 -- Fórum Poesia --
acontecerá toda 4ª feira do mês de abril, maio e junho, às 19h, com término dia 07 de junho, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.
Local: Av..
Pasteur, 250 -- Urca.
Curadoria de Laura Esteves (apperjiana) e colaboração de Tanussi Cardoso (apperjiano) e Marcus Vinicius.
Informações e programação podem ser obtidas por meio do endereço eletrônico www.forum.ufrj.br/agenda.html ou e-mail:
info@forum.ufrj.br.
7 -- CEP 20.
000 -- 17 anos de resistência:
poetas convidados, teatro & música.
Espaço Cultural Sérgio Porto, Rua Humaitá, 163, no Humaitá.
Coordenação: Chacal.
Apoio Rio Arte.
Mais informações por o tel:
(21) 2266-0896 ou e-mail:
vitorpaiva@uol.com.br 8 -- Entardecer De Poesia & Arte --
a ALAP, Academia de Letras & Artes de Paranapuã, faz sua reunião toda 1ª segunda-feira de cada mês, na CONFALB, Confederação das Academias de Letras e Artes do Brasil, Rua Teixeira de Freitas, 05/3° andar, Lapa, a partir das 15:30h, com coordenação de Eliane Mariath (apperjiana).
Retorno em março de 06.
Mais informações por o telfax:
(21) 2293-3054 ou e-mail:
alap.Rj@ig.com.br.
9 -- Circuito Literário Conversa Com Verso --
itinerante, último sábado do mês, a partir das 16h, Campo Grande.
Em março dia 31, na residência de Fátima Oliveira, Estrada Rio São Paulo, 379.
Coordenação: José Maria.
E-mail:
conversacomverso@yahoo.com.br 10 -- Sarau Poesia nos Arcos --
às 19:30h, no Bar e Restaurante Ernesto -- Largo da Lapa, 41 -- próximo à Sala Cecília Meireles.
O evento é coordenado por Nilton Alves (apperjiano) e acontecerá toda 1ª segunda-feira do mês.
Mais informações por os tel:
(21) 2289-0463 / 9998-4918 ou e-mail:
alvesnilton@domain.com.br 11 -- Chá DOS Poetas --
leitura de poemas por os seus autores.
Coordenação de Antonio Alberto, na AAFBB -- Associação dos Antigos Funcionários do Banco do Brasil, na Rua Araújo Porto Alegre, 64/10° andar, Centro.
Toda segunda quinta-feira do mês, às 15h.
Entrada: R$ 3,00, com direito ao chá completo.
Mais informações por o tel:
(21) 2262-8317, fax:
(21) 2262-2817. 12 -- Boa-TARDE Poesia --
última quarta-feira do mês, às 15h, na sede da AAFBanerj (Av..
Nilo Peçanha, 50, grupo 309 -- Ed.
DePaoli). Coordenação de Carlota Duarte (apperjiana) e Dartagnan Holanda (apperjiano).
Lançamentos de livros, poetas homenageados, rodada de poemas.
Mais informações por o e-mail:
mcfd@windnet.psi.br 13 -- Seresta E Poesia --
organização de Belmiro Ferreira, toda última 5ª feira do mês, na Biblioteca de Botafogo, Rua Farani, 53, das 14 às 17h, com apoio da Associação dos Amigos da Biblioteca de Botafogo.
Mais informações por o e-mail:
belmirof@uol.com.br 14 -- Clube da Poesia --
poetas comentam e 'tudam seus poemas, ciranda de poesia, 1ª quinta-feira do mês, das 16 às 18h, no SEERJ, na Rua Heitor Beltrão, 353, Praça Saens Peña.
Coordenação de Dartagnan Holanda (apperjiano) e Carlota Duarte (apperjiana).
Mais informações por o e-mail:
seerj@uol.com.br 15 -- Sarau Poesia em Movimento --
última sexta-feira do mês, das 19 às 22h, na Rua Arquias Cordeiro, 614 sobrado 201, Méier.
O sarau será uma noite com música de Marcelo Lemmer, caldos deliciosos e poesia dos integrantes do Poesia em Movimento.
Cada encontro um convidado poeta e a homenagem a outros.
Coordenação: Rosa M. Prista.
Mais informações por os tel:
(21) 9831-4604 / 2269-6572 ou e-mail:
rosa m.Prista@ig.com.br
16 -- POESILHA ACONTECE --
artistas, cantores & poetas encontram-se toda 3ª quarta-feira, rodízio de poesia, no restaurante Gruta da Ilha, Estrada do Dendê, 1249, Moneró / Ilha do Governador, a partir das 19h, entrada franca.
Coordenação e apresentação de Áureo Ramos (apperjiano).
Mais informações por o e-mail:
aureoramosr@bol.com.br 17 -- Tardes Poéticas da Casa do Poeta do Rio De Janeiro --
penúltimo sábado do mês, na Rua Barão, Pça Seca.
Roda de poesia, performances, concursos.
Coordenação de Romildes Meirelles. Mais informações por o e-mail:
jpjornalismo@ig.com.br 18 -- República DOS Poetas -- "
O Museu resgata os poetas que Platão expulsou da República!"
Sarau toda 2ª sexta-feira do mês, a partir das 19h, no Museu da República, Palácio do Catete, na Sala Multimidia, no Catete, entrada franca.
Coordenação de Ricardo Muniz de Ruiz com poetas convidados e sobremesa dos poetas presentes.
Mais informações por o e-mail:
ricardomunizderuiz@yahoo.com.br 19 -- O CHARAU --
segunda 5ª feira do mês, às 17h, no Teatro do Sindicato dos Escritores do Estado do Ro de Janeiro, na Av..
Heitor Beltrão, 353, Tijuca.
Coordenação de Angela Carrocino (apperjiana) e João de Abreu Borges.
Mais informações por o e-mail:
angelacarrocino@hotmail.com 20 -- XII Concurso Nacional De Poesia Francisco Igreja / 2007 --
homenagem ao poeta luso-carioca idealizador dos Cadernos de Poesia Oficina e da APPERJ.
Realização da Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro.
Coordenação de Márcia Leite. Inscrições até 31 de julho de 2007.
Veja o regulamento.
Encerramento e festa de premiação setembro de 2007, no auditório Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, Cinelândia, entrada por a Rua México, às 17h.
Mais informações por o tel:
(21) 2447-0697 / 3328-4863 ou e-mails:
apperj@apperj.com.br; monteiro leite@yahoo.com.br
21 -- POEMASHOW --
última 2ª feira do mês, no Cotton Club, a partir das 19:30h, Av..
Atlântica, 4240, Mezanino do Shopping Cassino Atlântico, após às 20h entrada por a garagem, Rua Barata Ribeiro.
Reservas, por o tel:
(21) 2227-5404. Produção e apresentação de Tavinho Paes.
Couvert de 5 reais.
Mais informações por o e-mail:
octaviopaes@hotmail.com 22 -- Todas Elas & Alguns De eles --
evento poético bimensal da APPERJ.
Idealização de Márcia Leite, supervisão de Sérgio Gerônimo, no CEDIM, Rua Camerino, 51, Centro, às 16:30h um enfoque da voz feminina na poesia contemporânea.
Mais informações por os tel:
(21) 3328-4863 / 2447-0697 ou e-mail:
apperj@apperj.com.br 23 -- Sarau NA Casa --
Quinta Cultural apresenta «o ponto de encontro das artes», apresentação de D'Artagnan Holanda & Gilberto D' Alma, poesia, performances teatrais, apresentações musicais e de dança, sebo do sarau, toda 2ª quinta-feira do mês, a partir das 20h, entrada franca.
Local: Casa de Cultura Elbe de Holanda, rua Eng.
Rozauro Zambrano, 302, Jardim Guanabara, Ilha do Governador.
Contate por o tel:
(21) 2466-0061 ou 2466-0100.
Mais informaões por o saite http://www.cceh.com.br ou e-mail:
divulgacao@cceh.com.br. 24 -- Filé De Peixe --
às 19h, geralmente na 3ª sexta-feira do mês, poesia, cinema e música, Bar Big Norte, na Rua Barão de Mesquita 444, 'quina com a Araújo Lima, quase em frente ao Sesc-Tijuca.
O Filé de Peixe é um evento artístico e cultural empenhado como meio de visibilidade e interação para novos cineastas, poetas e 'critores, bem como músicos do cenário independente carioca, aberto a livre manifestação de linguagens, 'tilos e vertentes.
Uma realização Aplanta Produções e Peculiaridades, em parceria com Sobrado Cultural -- Imac.
Mais informações por o e-mail:
aplantaproduz@yahoo.com.br 25 -- Movimento in Verso --
promovido e idealizado por o SabaSauers (Clauky Saba, Alexis Sauer, Gustavo Saba), o evento Movimento inVerso é realizado quinzenalmente, às sextas-feiras, no Barteliê, Rua Vinicius de Moraes, 190 / 03, Ipanema ('quina com Nascimento e Silva), a partir das 20h -- 5,00. Subam a bordo da palavra e venham experimentar, fazer e respirar a arte.
Poesia, música, teatro e tudo mais!
Mais informações por os tel:
(21) 9955-9139 e-mail:
clauky@gmail.com ou http://movimentoinverso.blogspot.com
26 -- Ponte De Versos --
3ª segunda-feira do mês, às 20h, na Livraria DaConde, Rua Conde de Bernadote, 26, Lj 125, Leblon.
Coordenação de Thereza Motta e Gilson Maurity.
Poetas convidados são o prato principal, a sobremesa é você e ainda tem a saideira.
Entrada franca.
Estão sendo reunidos poemas para a segunda antologia da Ponte de Versos em comemoração aos oito anos de existência, com previsão de lançamento em junho de 2007.
Mais informações por os tel:
(21) 2265-1144 e 8763-2885.
Mais informações por os e-mails:
tmotta@uol.com.br, pontedeversos@uol.com.br
27 -- POEXISTÊNCIA Poesia --
ocorre no 2° sábado do mês, em setembro excepcionalmente será no 3° sabado, das 18 às 20h, no IBDD, na Rua Artur Bernardes, 26 A, Catete.
Um poeta homenageado, um poeta convidado, que será entrevistado e poderá «vender seu peixe» à vontade, uma curta apresentação de um músico convidado e 'paço aberto para todos os presentes dizerem seus poemas.
Coordenação de Antonio Sciamarelli, Roberto Woo e Claudio Lima Carlos.
Mais informações por o e-mail:
poexistencia@yahoo.com.br 28 -- Conversas Casadas --
na última terça-feira do mês, às 19:30h: entrevista com poetas, músicos, compositores, cineastas.
Coordenação de Cristina da Costa Pereira, Eduardo Camenietzki, Fernando Sá e Helena Ferreira, no Casas Casadas, Rua das Laranjeiras, 307, Laranjeiras.
Apoio: Prefeitura do Rio, Culturas e Rio Filme.
Mais informações por os e-mails:
cristina 'critora@estadao.com.br
29 -- Ratos DI Versos --
ocorre quarta-sim (7 e 21 mar), às 19h, no Beco do Rato, Rua Joaquim Silva, Lapa.
Palco aberto e a presença dos Ratos de carteirinha:
Iverson Carneiro, Dalberto Gomes, Maristela Trindade, Carluxo, Marcelo Nietzsche, Maurição, Juliana Hollanda, Bia Tavares e quarta-não (14 e 28 mar) no Artesão, 20h, rua Conde de Irajá, 115.
Mais informações por os tel:
(21) 9505-3847/8156-7538 ou e-mail:
dalbertogomes@starmedia.com ou acesse www.verbologue.zip.net
30 -- Dizer Poesia -- Universo da Leitura --
coordenação: João Luiz de Souza.
Uma iniciativa artístico-cultural extensionista da Universo -- Universidade Salgado de Oliveira, em parceria com o Belmonte, a Ong Leia Brasil, a Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro e com a adesão de centenas de poetas, artistas, 'critores e amantes da poesia, a partir das 20:30h, no Belmonte, Jardim Botânico, 2° piso, Rua Jardim Botânico, 617, tel:
(21) 2511-0256), com entrada franca.
Mais informações por o e-mail:
a.Cultura@nt.universo.edu.br 31 -- Sarau João do Rio --
última 4ª feira do mês, coordenação:
Brasil Barreto, Gilson Nazareth e Marlene da Silva;
acontecerá dia 30 de agosto de 2006, na sede da AMAL (Associação de Moradores e Amigos de Laranjeiras), rua Pinheiro Machado, 31 / 2° andar, Laranjeiras, início às 18:30h. Exposição Poética de Rua, de exemplares da mídia poética alternativa desde 46 anos atrás:
Coleção do curador da Mostra Brasil Barreto.
Participação do grupo dramatização de poesia:
Cataversos com Alex Topini, Diogo Tribuzy e Marcelo Felippe.
Os poetas presentes, que quiserem, se apresentarão às suas vontades sem nenhuma vigilante regra.
Mais informações por o e-mail:
joaodorio2004@yahoo.com.br 32 -- Botando Banca (livro de poesia) --
É hora de ficar livre dos atravessadores:
distribuidores e livreiros.
Tudo direto do autor ao leitor!
Traga seu jornal alternativo, sua revista, fanzine, livros de prosa e verso, seus álbuns de desenhos e gravuras.
Coordenação do poeta Brasil Barreto, na Praça Del Prete, Laranjeiras.
Todo sábado de 10 às 18:30h. Contacte Brasil Barreto por o tel:
(21) 3977-7735. Mais informações por o e-mail:
joaodorio2004@yahoo.com.br 33 -- Salão Poético De a AABB --
o quinto Salão Poético da AABB ocorrerá às 16h, dia 27 de maio, no Salão Margarida, da Associação Atlética Banco do Brasil, Av..
Borges de Medeiros, 829, Lagoa.
Coordenação de Eurídice Hespanhol (apperjiana).
Para inscrições ou informações os telefones são:
(21) 2274-4722, Biblioteca do Clube ou (21) 9999-6497, ou email: ehm.Pessoa@gmail.com.
34 -- Poesia, Você Está NA Barra (POVEB) --
coordenação de Mariangela Mangia e Aluizio Rezende (apperjiano);
2ª sexta-feira do mês, no Areal, 'paço do condomínio Novo Leblon, onde 'tá a quadra alternativa de volei, Av. das Américas, Km 7, Barra da Tijuca, em frente ao Shopping InfoBarra, a partir das 19h.
Apoio: APPERJ -- Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro -- www.apperj.com.br Mais informações por o email:
marimangia@yahoo.com.br 35 -- Corujão da Poesia -- Universo da Leitura --
coordenação: João Luiz de Souza.
Uma iniciativa artístico-cultural extensionista da Universo -- Universidade Salgado de Oliveira, na Letras & Expressões, Av..
Ataulfo de Paiva, 1292, Leblon, das 24h às 4h da madrugada, toda terça-feira.
Poetas e público presente podem dizer poemas de suas próprias autorias ou de seus autores prediletos.
A entrada é franca.
Mais informações por o e-mail:
a.Cultura@nt.universo.edu.br 36 -- Madonna --
poeta Mano Melo interpretando o poema Madonna no YouTube www.youtube.com/profile?
user = vjmrs
37 -- Sarau Marginal --
coordenação de Alexandre Souza (Arcano);
no Farol da Ilha, Praia da Bica, 1191, Ilha do Governador, entrada franca, a partir das 19h, apresentação de dança, leitura e interpretação de poemas e recital aberto (leve seu poema).
Mais informações por o e-mail:
arcanosoturno@yahoo.com.br 38 -- Sarau Revolução DOS Versos --
é um encontro de poetas e artistas da região da Leopoldina.
Coordenação de Dennys Andrade; última 4ª feira do mês, no Olaria Atlético Clube, às 19h, na rua Bariri.
Mais informações por o e-mail:
dennys82@globo.com 39 -- Poetas Sem Fronteiras --
evento para libertação dos textos engavetados e dos talentos reprimidos.
Toda manifestação literária ou musical será muito bem-vindo.
Recreio dos Bandeirantes, a partir das 19h.
Coordenação: Valéria Bersot, Shirley Vanhaes, Eurídice Hespanhol (apperjiana).
Apoio: Revista eletrônica Desfolhar-Y www.desfolhar.com e APPERJ -- Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro -- www.apperj.com.br.
Mais informações por o e-mail:
ehm.Pessoa@gmail.com 40 -- Chá E Poesia --
evento com renda obtida em prol do Instituto Thiago Moysés, que dá assistência às crianças portadoras do HIV / AIDS, do Hospital Graffeé e Guinle.
Local: Vila Conrado, Rua Golf Club, 34, São Conrado, dia 14 de abril, às 17h.
Coordenação geral de Sandra Reis.
Convite a 30 reais.
Mais informações por o e-mail:
reis.Sandra.Rj@gmail.com 41 -- II Encontro De Poetas do Rio De Janeiro -- Poesia Conversa Com Verso --
encontro organizado por o Circuito Literário Conversa Com Verso, acontecerá no dia 5 de maio, às 18h, cada poeta terá direito a declamar um poema.
Haverá uma identificação para cada grupo.
Será servido coquetel.
A entrada será um quilo de alimento não perecível.
Em a Lona Cultural Elza Osborne, Estrada Rio do A -- 220, Campo Grande.
Coordenação de:
Dalberto Gomes, Sonia Abreu (apperjiana), Neuci Gonçalves (apperjiano), Rita Gemino, Renato Reis, Silvana Fernandes.
O encontro será filmado por o Cactos Intactos.
Mais informações por os e-mails:
dalbertogomes@hotmail.com, dalbertogomes@yahoo.com.br, soniabreu @ click 21. com.
br, neucigoncalves@pwz.com.br, ritagemino@ig.com.br, renatorreis@gmail.com, silviaarte@yahoo.com.br
42 -- XVIII Concurso De Poesia -- ALAP / 2007 (homenageado Acad.
Florestan Japiassu Maia) -- tema livre, categorias:
infantil, juvenil e adulto.
Inscrições até 20 de setembro;
premiação em 05 novembro, na CONFALB, Rua Teixeira de Freitas, 5/3° and, Lapa.
Enviar para rua Santa Amélia, 88/1011, Tijuca, 20260-030.
Mais informações por o tel:
(21) 2293-3054 ou e-mail:
alap.Rj@ig.com.br 43 -- Poesia no Largo das Letras --
poesia, música, performance, 3° sábado do mês, a partir das 18h, na Livraria e Café Largo das Letras, Rua Almirante Alexandrino, 501, Largo dos Guimarães, Santa Teresa.
Produção e apresentação:
Graça Carpes.
Apoio: Magnífica (Cachaça do Brasil).
Mais informações por o tel:
(21) 2221-8992 ou e-mail:
poesia@largodasletras.com.br 44 -- Jasmim Manga Com Poesia --
toda 3ª feira, a partir das 19:30h às 23:30h, coord:
Bebeto e Eduardo Tornaghi, no Jasmim Manga Cyber Café, Largo dos Guimarães, 143, Santa Teresa.
Poesia, música, performance.
Mais informações por o e-mail:
bebeto tornaghi@yahoo.com (
diretamente do sitio da Associação do Poetas Profissionais do 'tado do Rio de Janeiro)
Número de frases: 274
http://www.apperj.com.br A gravadora britânica Soul Jazz lançou há uns dois meses a coletânea Tropicália -- A Brazilian Revolution in Sound.
O disco traz um encarte detalhado que pode ajudar muito o estrangeiro que começa a se interessar por o início da contra-cultura brasileira nos anos 60 -- ainda que tenha alguns erros nos nomes dos personagens que criaram o movimento e omita alguns compositores (como Roberto e Erasmo Carlos em «Vou Recomeçar», cantada por Gal Costa).
A opção do selo -- célebre por suas seleções de música jamaicana, jazz e pós-punk -- foi por canções aparentemente não tão emblemáticas do movimento tropicalista, mas que, de certa forma, aliam a influência do rock psicodélico com exotismos brasileiros «pra gringo ver».
É claro que você pode ouvir as 'senciais «Domingo no Parque», do» Gilberto Gil», Tropicália, em que Caetano Veloso sintetiza a visão de Brasil do movimento, e «Panis Et Circensis», com Os Mutantes.
Além de «Sebastiana», com» Gal Costa, Take it Easy My Brother Charles», com «Jorge Ben, Bat Macumba», em desnecessárias duas versões, e muito mais.
A o terminar o disco, no entanto, fica a sensação que a Tropicália era uma resposta verde e amarela ao rock que se fazia em Londres e San Francisco.
É só ouvir faixas como «Ave Gengis Khan», dos Mutantes -- com um arranjo de órgão típico de surf music careta pra diabo, mesmo para a época, o rock clichê de Alfômega ou a brincadeira de Tom Zé em misturar palavras em português com nome de 'trelas internacionais em» Jimmy Renda-se».
Além de «divulgar a produção brasuca ao mundo», o trabalho faz o favor de minimizar grosseiramente um movimento que bebe muito da cultura pop mesmo, mas de uma maneira muito mais diversa e provocativa do que qualquer Jefferson Airplaine ou Cream jamais pensou ser.
A coletânea parece preferir o que o tropicalismo oferece de semelhante e reconhecível à música hemisfério Norte.
Com isso, corre do que 'sa geração ofereceu de inovador, visionário e interessante.
A Tropicália se tornou uma realidade consistente no mercado fonográfico brasileiro com o lançamento da coletânea Tropicália ou panis et circensis, em 1968.
Era ali que se os artistas vindos da Bahia (Caetano, Gil, Gal Costa e Tom Zé) se uniam ao até então desconhecido grupo de rock paulista, Os Mutantes, à musa da bossa nova, Nara Leão, e ao arranjador vanguardista Rogério Duprat para mostrar uma nova proposta de música brasileira.
O grupo era ambicioso e desejava sacudir a música brasileira com uma abordagem irônica e debochada -- que retomava a tradição da literatura modernista brasileira, principalmente Oswald de Andrade -- e criava canções que citavam a nova realidade urbana do brasileiro com personagens de TV, quadrinhos e do imaginário popular, emoldurados em sons que emulavam da música de vanguarda, às tradições do cancioneiro de apelo popular e, notadamente, o rock e pop -- vistos até então como uma invasão 'trangeira na música nacional.
Tavam falando de quem?
Com isso, os artistas propõem uma visão de Brasil que parte da referência internacionalizante da bossa nova, mas com um profundo interesse por a Jovem Guarda, por as exageradas baladas românticas dos anos 50, o tango e a música latina -- vistos por o 'tablishment da época como música de mau gosto 'tético e politicamente alienada.
Os artistas ainda trabalham com elementos da música concreta, eletrônica e dodecafônica.
Tudo para embalar uma abordagem extremamente vanguardistas e letras com conteúdos que, a todo momento, tentam dialogar com um Brasil urbano e turbulento, da segunda metade do século XX.
Infelizmente, a fixação 'trangeira com o trabalho de Os Mutantes -- que, no final, é o único do grupo tropicalista que realmente se preocupava 'sencialmente em fazer uma música pop atualizada aos moldes das novidades internacionais -- e a vontade de «vender» a música brasileira para um público interessado em rock psicodélico acabam por colocar a coletânea da Soul Jazz a milhas de distância da coletânea original de 1968.
A seleção musical revela uma má-vontade 'pantosa dos gringos de, por meio da Tropicália, tentar entender um pouco melhor o que se sucedia na música brasileira.
É até engraçado, uma vez que, no encarte -- apoiados por o «Verdade Tropical», do Caetano Veloso, a relação da música com o contexto brasuca é ressaltada fortemente.
Musicalmente a galera preferiu ir no mais fácil e pular a lição de casa.
A o meu ver, a intenção do movimento 'tava longe do fazer rock com cores típicas.
Pelo contrário, a vontade era de interferir diretamente na música brasileira e nas suas convenções.
Não era uma tentativa de ser aceito por o mercado internacional, mas de trazer uma música atualizada também, mas como um processo antropofágico e pop.
Uma arte que queria falar universalmente do Brasil, mas para os brasileiros.
A o ouvirmos a coletânea da Soul Jazz parece que 'se pedaço da música do Brasil foi uma invenção do Beck, do Kurt Cobain e do Sean Lennon.
Número de frases: 26
Ainda bem que a sensação é errada.
O Brasil inteiro vai ter a oportunidade de assistir no dia 27 próximo, às 23h, na TV Cultura, o filme «Guerrilha do Araguaia -- As faces ocultas da história», versão para a TV, conforme explica o cineasta Eduardo José de Castro, autor do documentário:
«a versão para a TV tem apenas 52 min..
Agora em 2008 'taremos com a versão longa de 1h36 min participando de festivais.
Temos já propostas de Portugal e Canadá».
O filme é um trabalho que entre outros fatores surgiu em 2007 em 'paços alternativos graças à persistência de Eduardo Castro, um goiano que morou 17 anos em Araguaína.
Ele retratou um momento dramático e controverso da história do Brasil que não somente envolveu militantes do PCdoB e das Forças Armadas durante o regime militar, como também involuntariamente a gente humilde do sul do Pará e da região tocantinense do Bico do Papagaio.
Era a década de 1970 e o acontecimento ficou conhecido como a Guerrilha do Araguaia.
Segundo o cineasta, o filme nasceu de uma conjugação de fatores positivos.
«Costumo falar para muitos que 'te filme foi um presente para mim, pois as coisas conspiraram para que ele fosse feito», diz com um sorriso de satisfação.
«Em 1991, quando ainda morava em Araguaína, eu tinha uma câmera VHS e com ela entrevistei duas ex-guerrilheiras, Elza Monerat e Criméia de Almeida, quando uma comissão foi a Xambioá exumar o único corpo identificado até hoje, o de Maria Lucia Petit».
Esse material ficou guardado por 14 anos até que o cineasta tomou ânimo e resolveu voltar ao projeto.
«Foi em 2005 quando fiquei 40 dias na região entrevistando camponeses», assinala.
Em o final do mesmo ano um novo impulso.
Foi quando as premiações de um outro trabalho seu, A Resistência do Vinil, aumentaram-lho apetite para atacar definitivamente o projeto.
Em dois momentos azados o projeto foi acelerado.
Primeiro quando 40 ex-recrutas do exército da época foram a Brasília para uma audiência na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e depois por ocasião da presença de quase todos os ex-guerrilheiros na capital federal para o recebimento de indenizações da anistia.
«Ouvi todo mundo», festeja o cineasta.
Também 'tá no filme, fazendo contraponto e apimentando a história, o coronel Lício Maciel, o «Dr. Asdrúbal», personagem importante do evento.
Mas toda a história é construída em torno do ex-guerrilheiro Danilo, entrevistado por Eduardo Castro em duas oportunidades.
A última de elas quase num golpe de sorte.
«A coisa mais impressionante, que deu um novo rumo cinematográfico ao documentário, foi o segundo encontro com o Danilo.
Após o encontro em Brasília, ele havia sumido.
Eu o queria de novo, afinal era ' o personagem '.
Depois de muito procurá-lo, ele foi localizado e 'tava a duas quadra de minha casa passando uns dias com o irmão.
Em a mesma hora criei o pulo do gato do documentário que é o encontro do Zezinho do Araguaia (também ex-guerrilheiro) e Danilo.
Eu acredito que 'te seja o grande barato do filme.
O resto foi muito 'tudo e trabalho de neurônios para chegar ao resumo final».
Por sinal, a finalização do documentário teve grande participação do público.
«Em a realidade, quando comecei a exibi-lo nos locais onde tinha filmado ainda 'tava montando, com as reações do público eu dava mais ou enxugava determinados personagens até chegar à versão final», confessa.
Os depoimentos dos camponeses envolvidos involuntariamente na briga são um dos pontos fortes do filme.
Revelam a extrema dor de uma gente simples que sofreu muito durante a luta, uma luta que para todos eles era completamente 'tranha e quase incompreensível.
Localidades Onde EM 2007 O Filme Foi Exibido
Junho Festival FICA -- Cidade de Goiás-GO
Julho Porto Franco-MA
Araguaína-TO Xambioá-TO
Araguanã-TO São João do Araguaia-Pa
Palestina-PA São Domingos-PA
São Geraldo-Pa
Setembro Mostra Cine em Ar -- Porto Nacional-TO
Cine SESC -- Gurupi-TO
Novembro II Mostra de Parauapebas -- Parauapebas-PA
Dezembro Xambioá-TO
Endereço do Documentário Em o YOUTUBE
A Resistência do Vinil -- 1 Em o YOUTUBE
Número de frases: 45
A Resistência do Vinil 2 Em o YOU TUBE Nem só de super-heróis vive o Skate.
Para cada Rodrigo TX Gerdal ou Bob, existem milhares de heróis anônimos, cuja obstinação e amor ao carrinho mantém o Skate vivo e forte.
São eles que consomem as peças assinadas por os profissionais, garantindo a sobrevivência das marcas e o fortalecimento do mercado.
Sem os anônimos não existem os super-heróis.
Ser herói de quem?
Ser herói para que?
São partes entrelaçadas e importantes de uma mesma 'trutura, mais importante que ambos, mas que -- em contrapartida -- não sobrevive sem eles:
o Skate.
Não consigo deixar de pensar numa coisa que o Chuck Treece disse em 'sa mesma edição:
«somos todos importantes para o skate».
Essa frase endossa a idéia por trás de 'sa matéria, que é valorizar os heróis anônimos do Skate.
Como Junior, skatista de Tubarão (SC), que cruza as 'tradas do Brasil no seu caminhão.
Isso mesmo:
um caminhoneiro que anda de skate, cuja história será contada a partir de agora ...
Criado na boléia
Nascido e criado em Tubarão (SC), Sálvio Sandrini Junior conheceu o skate em 1985.
Mas antes disso já havia conhecido outra grande paixão da sua vida, o caminhão.
«Desde pequeno eu viajo com meu pai, que é caminhoneiro também.
Isso aí já vem de família», afirma Junior, cujo apego ao caminhão ficou visível durante a sessão de fotos:
a cada três tentativas da manobra, ele ia dar uma olhada na sua carreta Scania vermelha, carinhosamente apelidada de «Bruto».
«Deixa eu ver como o Bruto 'tá», falava Junior, averiguando se tudo 'tava OK com seu instrumento de trabalho, 'tacionado a poucos metros do local.
Bruto intacto, Junior voltava para a sessão.
O ritual repetiu-se pelo menos umas cinco vezes durante a sessão de quarenta minutos no monumento da Castelo Branco (SP).
Antigamente Junior se dividia entre o skate e o surf.
«Tubarão é pertinho da praia, fica uns 15 km do Farol de Santa Marta, aí eu só queria saber de ficar na praia».
O tempo passou e vieram as responsabilidades da vida adulta:
«Eu saí do exército e percebi que tinha que fazer alguma coisa.
De aí caí na 'trada», diz.
Filho de peixe, peixinho é, e Junior adotou a profissão do pai.
Já se vão doze anos desde sua primeira viagem, sempre contando com a companhia do skate.
«Desde a época que eu viajava com meu pai eu já levava o bico de tubarão debaixo do banco do caminhão.
Quando parava eu já dava um rolezinho, umas batidinhas», conta.
Trilho ambulante
O seu caminhão carrega muito mais do que as cargas que garantem sua sobrevivência.
Carrega marcas e símbolos que identificam sua opção diferenciada de vida.
Em o lugar das tradicionais frases de caminhoneiro, na traseira do Bruto 'tá 'crito em letras garrafais:
SKATEBOARD. Logo abaixo a frase «Crucificados por o sistema», título do álbum do Ratos de Porão, uma de suas bandas favoritas.
Pra completar o quadro ainda tem uma batelada de adesivos de skate, inclusive um da Cemporcento.
Mas a carga mais preciosa que o Bruto transporta não é tão leve quanto um adesivo.
Como nem sempre é garantido encontrar cidades com bons picos para andar de skate, Junior resolveu 'se dilema carregando a tiracolo um trilho.
«Comecei a levar o trilho faz uns dois anos, porque eu passava por umas cidades que não tinham picos para andar.
Então eu decidi fazer o trilho e comecei a levá-lo com mim, 'clarece o 'perto caminhoneiro, que agora não passa mais perreio.
Em a pior das hipóteses procura um chão liso, descarrega o trilho e 'tá garantida a sessão.
E o que pensam os outros caminhoneiros sobre o skate?
«Eles nem acreditam, têm uns que acham que é brincadeira, que eu 'tou me ' fazendo de bobo '.
Não sabem que eu gosto de verdade, que é tipo uma cultura mesmo», relata.
Não é só no caminhão que Junior carrega a influência cultural do skate:
«Lá em casa as prateleiras são feitas com shapes velhos».
Desbravando o Brasil
A rotina desgastante da vida na 'trada tem pelo menos uma grande compensação:
conhecer novos picos para andar de skate.
Quando encontrei com Junior, levei a edição 114 da CemporcentoSKATE, aquela que tem o Paulo Galera na capa.
Os olhos do caminhoneiro brilharam:
«Já andei em 'se monumento», disse ele apontando para a capa da revista.
«É em Ipatinga (MG), né?».
Além de Ipatinga, já levou seu caminhão, seu trilho e seu skate para muitas outras localidades desse Brasilzão:
«Leste de Minas, Belo Horizonte, Itabira, Jaraguá do Sul, Valadares», vai relembrando.
«Aí a galera das cidades já fala: '
Olha, o caminhoneiro tá aí! '.
Tem um monte de gente que só me conhece por caminhoneiro, não sabe nem o nome», se diverte Junior, absolutamente a vontade com o apelido de Caminhoneiro do Skate.
Apesar do skate funcionar como uma terapia para combater a solidão da 'trada, certa precaução é necessária.
Afinal não dá pra correr o risco de se machucar mais seriamente no meio de uma viagem, com o caminhão carregado e um cliente à sua 'pera.
«Não posso me atirar, fazer loucura ...
Uma vez andando sozinho numa pista em Minas, caí de cabeça e não sabia nem onde eu 'tava (risos).
Perguntava para a molecada: '
Onde é que eu tô?
O que 'tou fazendo aqui? ' (
risos). Passei um perrengue desgraçado (risos)».
É rir pra não chorar, não há dúvida.
E os acidentes caseiros também causam transtornos profissionais:
«uma vez em Tubarão eu quebrei o braço, aí tive que viajar com meu coroa um mês.
Ele dirigindo e eu do lado incomodando, de braço quebrado (risos)».
Medo na Régis Bittencourt
Além do sono, o maior perigo para o caminhoneiro são os assaltos, tão frequentes nas rodovias brasileiras.
Por isso a segurança é um tema central na vida desses trabalhadores.
É preciso 'tar sempre alerta:
fritar o peixe olhando o gato, como diz o ditado.
«A segurança o cara tem que procurar.
Se o cara vacilar ...
Eles levam», admite.
«Hoje roubam muito é no vacilo do caminhoneiro.
Conversa com qualquer um, dá idéia pra qualquer um, é onde o pessoal cai».
Em 'ses doze anos de profissão, Junior só passou por uma situação de real perigo.
Ele relembra:
«Foi uma vez na Serra do Noventa, na chegada de São Paulo, na Regis Bittencourt.
Subindo a serra, umas quatro da tarde, encostaram do meu lado, mandaram eu parar, daí deram um tiro.
Eu parei, mas eles 'tavam meio distantes, então eu abri a porta e saí correndo, catando cavaco.
Não levaram o caminhão porque eu não 'tava junto.
Essa já é uma das vantagens do skate, né cara?
Tava no hip, ví os caras, já abri a porta e pulei direto.
Quando eles desceram do carro eu já tava longe, tava com a agilidade de um gato (risos)».
Foi só um susto, mas deixou lembranças bem desagradáveis.
«Foi cabreiro, e hoje eu sei porque o nome é cagaço:
fiquei com vontade de cagar o dia inteiro (risos).
Fiquei uns dois meses com aquela angústia de achar que tinha alguém me seguindo».
Na contramão do 'tereótipo
As aparências enganam.
Quem olha o Junior chegando no seu caminhão, camiseta do AC / DC, cabelo comprido e o corpo forrado de tatuagens, logo imagina que ele se enquadra no 'tereótipo do doidão, que cai na 'trada e enfia o pé na jaca.
É justamente o contrário.
É um cara tranquilo, muito apegado a família e casado há sete anos.
«Bem casado, bem casado, apaixonado pra caralho», confirma com a felicidade 'tampada no rosto e pegando o celular pra mostrar orgulhoso as fotos da família Sandrini.
A 'posa Fabiane, as filhas Natália (7 anos) e Vitória (5 anos), além do pastor capa-preta Ozzy.
As filhas já incorporaram o 'tilo de vida do pai skatista:
«ah, pai, queria ter dinheiro pra ter dar um skate», vivem repetindo as pequenas, enchendo de orgulho o pai coruja.
A rotina é implacável, a 'trada chama e Junior chega a ficar uma semana longe de casa.
Mas isso é o máximo que ele agüenta.
Então volta para Tubarão, e têm de 3 a 4 dias para matar a saudade da família e andar de skate com seus amigos.
«Mas não tem 'sa de data:
Dias dos pais, aniversários, qualquer dia é dia.
Só Natal e Ano Novo que é sagrado.
Mas a saudade fortalece, o amor fica bom (risos).
E também mantém minha mente livre de besteiras», confidência com um sorriso no rosto.
O skate também ajuda a manter a mente sã:
«Eu me divirto tanto andando de skate que eu não preciso fazer 'sas loucuras que a rapaziada pensa que eu faço.
Pego o skate, dou um rolê, começo a gritar, a falar palhaçada ...
chego em casa fico com minha gata, minhas filhas, meu cachorro e tá sossegado».
Pé na 'trada e borda queimada
Estrada sem música não dá, e Junior carrega mais de 150 CD ´ s no porta-luvas (" todos originais "), fora os mp3 ´ s com discografias completas de bandas como Black Sabbath (tá explicado o nome do dog), Led Zeppelin e AC / DC.
De as novidades, ele cita Wolfmother.
Além do skate, tem também um violão na boléia do seu caminhão:
«Gosto de tocar um violão.
Mas só um rockzinho mesmo, um Ramones ...
Gosto mesmo é de rock ' n ' roll.
Música boa, como diz o outro, tem a música boa e a música ruim.
Eu gosto de música boa!»,
afirma com convicção.
Como todo caminhoneiro, Junior passa mais tempo viajando do que em casa.
Mas quando 'tá em Tubarão, é facilmente localizado no Anjeloni, um mercado abandonado que foi transformado num pico de street por a galera local.
«É a Anjela Crew», diz.
Acostumado com a solidão da 'trada, o caminhoneiro também se satisfaz com um rolê mais introspectivo:
«De vez em quando, o que eu gosto mesmo é chegar em casa depois de viagem, pegar meu mp3 player, ir pra ' barranca do rio ` (que é toda arborizada e com asfalto bem lisinho) e sair remando sem rumo, 'cutando som.
Ventinho na cara, um ollie pra cá, um ollie pra lá ...
Chego em casa satisfeito.
A mulher até fala: '
Tava precisando né? '.
Tá na veia, cara», conta, demonstrando na sua fisionomia a paz de 'pírito que momentos como 'se são capazes de proporcionar.
Caminhoneiro de profissão e skatista de alma, Junior não consegue enxergar a vida sem suas duas grandes paixões.
«Se eu viajar e não levar o skate pra dar um rolezinho, acho que ia entrar em depressão.
E o caminhão tá no sangue também.
Se eu ficar um mês em casa já começo a discutir, tenho que ir para a 'trada mesmo.
Aí volta tudo ao normal.
Pé na 'trada e procurando borda queimada».
Número de frases: 142
[Matéria originalmente publicada na revista CemporcentoSKATE, edição 115] Em CG há alguns meses um bar 'tá agitando as noites de sexta-feira com o Blues da banda Cachorro Velho.
Dna. Edir toca o bar Rota 16 na garagem de seu apartamento, que fica em cima da conveniência Gabas, na 'quina da Av..
Rouxinol com Rua Marquês de Lavradio, na entrada do Bairro Tiradentes.
O blueseiro Sérgio Spengler a convenceu a por música ao vivo pra rolar, pra compensar que um monte de gente tinha ficado órfão depois que fechou um «point» muito freqüentado no centro, um Cyber Café na Av..
Afonso Pena quase 'quina com 14 de Julho.
Então, Sérgio tem levado bons músicos ao local, inclusive o guitarrista Eric, e a atração do momento é ele no vocal com a banda Cachorro Velho (Pipo, batera, João, baixo, e Zé Henrique, guitarra).
A iniciativa merece destaque porque são muito limitadas as opções musicais na noite campo-grandense.
Pra quem gosta de Blues, Sérgio e a banda Cachorro Velho brindam tudo o que é bom de ouvir, com o acréscimo de algumas canjas costumeiras, como a do «yours, truly» que assina 'te comentário.
Só para melhor situar, as opções musicais da noite campo-grandense se concentram nos 'tilos pop rock, covers de bandas de rock, pagode e sertanejo.
Então, o bar Rota 16 foge totalmente do «normal», inclusive quanto à sua localização, porque o Bairro Tiradentes já é periferia e, até há muito pouco tempo, era mais conhecido por causa da bandidagem.
Em CG foi aprovada há alguns anos a lei seca que proíbe a venda de bebida alcoólica depois das 22h00.
É discutível se isso realmente contribui para diminuir a criminalidade e a violência doméstica, mas com certeza prejudica o comerciante e profissões como a do músico.
Então, o Blues no Rota 16 nunca vai além da uma hora da manhã, porque o alvará para venda de bebida alcoólica é caro.
Uma noite de 'sas, soube-se que a polícia 'tava em diligência nos arredores e o Blues acabou à meia noite.
Número de frases: 14
Nada como viver num país livre.» ...
Primeiro passo é tomar conta do 'paço
Tem 'paço à bessa
E só você sabe o que fazer do seu
Antes ocupe.
Depois se vire ..." (
Torquato Neto) Pronto!
Ocupamos! E é em 'se 'pírito que viemos aqui contar um pouquinho da história do Cuca São Paulo.
Mas antes é preciso dizer que nossa ocupação é diferente.
Diferente porque o lugar que nos instalamos não 'tava vazio ou improdutivo.
Pelo contrário! A partir de agora vamos dividir com as entidades 'tudantis (Une, UBES, UEE-SP e UPES) um 'paço que é palco de uma efervescência política, referência para o movimento social e para sociedade brasileira.
Agora, a histórica e lendária sede da Rua Vergueiro vai ser também um pólo de cultura e arte.
Isso mesmo, o Centro Cultural Gianfrancesco Guarnieri, começa a ser construído com alicerce sólido.
Bem, voltemos à nossa história ...
Há quatro anos nascia o 'paço Cuca São Paulo, a primeira experiência e uma grande vitória do nosso movimento, um ponto de encontro de grupos do cenário artístico paulistano, de coletivos, de 'tudantes e de uma galera disposta a pensar cultura nas universidades.
Em o Centro Esportivo e Educacional Raul Tabajara, charmoso 'paço planejado por Mário de Andrade, demos vida a oficinas, rodas de samba, peças de teatro, mostras, seminários ...
Mas aí o Sr. José Serra, talvez apostando no nosso enfraquecimento, ao entrar na prefeitura, tomou a sede do Cuca.
Então, fomos dividir um novo 'paço com a companhia de teatro Vento Forte, e lá continuamos com uma programação voltada para o diálogo e para a produção cultural, até que mais uma vez tivemos que deixar o local em nome da política de Serra, marcada por a rejeição e descaso com a cultura e com a arte.
Durante 'ses anos, o Cuca virou Ponto de Cultura, integrando uma grande rede articulada entre as mais ricas manifestações culturais do Brasil, deixou sua marca nas Bienais de Cultura e participou de diversas outras atividades da Une, como as Caravanas da Reforma Universitária e Paschoal Carlos Magno.
Esta última percorreu 15 'tados brasileiros consolidando o Circuito Universitário de Cultura e Arte.
Foram grandes os desafios por os quais os cuqueiros passaram.
Hoje, entramos numa nova fase e novas demandas aparecem.
A construção do Centro Cultural Gianfrancesco Guarnieri 'tá a todo vapor.
Aos poucos, a sede da Une começa a ganhar uma nova cara.
Pensamos uma 'trutura que atenda às nossas necessidades.
Tenda e palco para abrigar as apresentações, 'túdio com tecnologia para gravações de áudio e vídeo, ateliê coletivo e bliblioteca.
A partir daí, o Cuca São Paulo volta a ser ponto de encontro, 'paço que prioriza o diálogo entre velhos e novos cuqueiros, artistas, 'tudantes, intelectuais, comunidade ...
um local de valorização da diversidade cultual típica da terra da garoa.
Queremos em nosso Centro um pedacinho do Cuca de Recife, do Araguaia, de Manaus, do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, de todos os outros que já existem e dos que 'tão por vir.
Queremos conversar e trocar idéias com outros Pontos de Cultura.
Queremos que por o Cuca passe o rap e o repente.
Queremos também que ele seja um 'paço de resistência, de ebulição artística, que pense cultura e que continue com a marca da eminência política.
Enfim, queremos muita coisa e não abrimos mão de construir o nosso Centro Cultural em conjunto com todos que consideram relevante a cultura como elemento necessário para nossa transformação social.
Entrem!
Número de frases: 34
A casa 'tá com a porta sempre aberta.
O site Você Filmes é o 'paço perfeito pra deixar sua criatividade rolar solta.
A idéia principal aqui é a Interatividade na criação de filmes!
Você pode assumir papéis como Diretor e Roteirista de um filme.
Como Diretor você pode produzir cenas para seus próprios filmes e publicá-los no site para que outras pessoas assistam.
Como roteirista você pode assistir as cenas de filmes criadas por os Diretores e enviar sua própria idéia sugerindo um roteiro para a próxima cena que o Diretor deve produzir.
Se seu roteiro for aprovado por o Diretor ele será filmado e 'tará disponível aqui no site para que todos vejam!
Você se diverte, aprende, interage, mostra seus filmes para o mundo, e o melhor é que você faz tudo isso de Graça!
Conheça agora e faça sua história!
Número de frases: 9
http://www.vocefilmes.com.br Em 'ta noite tem circo para os adultos.
Diferente dos tempos antigos, os circos multinacionais de hoje atraem muito mais o público adulto.
Talvez seja o valor do ingresse.
Ou talvez a ausências de animais se sacrificando para ganhar algumas minguadas palmas.
Em o circo atual até a famosa lona e o picadeiro deixaram de existir.
Agora o 'petáculo acontece num palco de teatro.
Voltado a grande atração da noite, caminho até chegar no famoso teatro da capital paranaense que abrigará mais uma noite do show.
Nos entorno s do teatro percebo a movimentação típica das noites de gala.
Entro no recinto e até localizar minha poltrona participo de mais uma aula da «educação» típica da nossa terra.
Enfim acho o local onde permanecerei nas próximas duas horas me entretendo.
O ambiente já 'tá cheio.
Faltam alguns minutos para o Maio Espetáculo da Terra começar.
Como lá dentro a temperatura 'tá mais elevada do que lá fora, retiro minha jaqueta, permaneço em pé e deixo meu 'paço reservo.
O show tem início.
A o meu lado 'tá a minha namorada e no outro um até então Senhor.
Com toda a «simpatia» do mundo, 'se Senhor 'trangeiro pede:
«Pare de tirar fotos!"
Sem reação e com medo de causar um incidente internacional paro imediatamente após o «gentil» pedido.
Minha namorada sugere trocar de lugar.
Aceito.
Este é um daqueles momentos que não temos reação imediata, ela só vem depois de alguns minutos.
E o pior, só depois de trocar de lugar que analiso a situação.
Não utilizo flash para fazer as fotos.
Está certo que é uma máquina digital, porém nem utilizo a tela de cristal líquido?
Em nova poltrona, agora ao lado do corredor, volto a registrar na retina e na lente o 'petáculo.
A atração já começou e vejo um rapaz se movimentar mais rápido que o meu piscar de olhos.
Em sua mão 'tá uma 'pada (ela até parece de mentira, pois o cidadão a movimenta tão rápido que parece de papelão).
Após alguns pulos e piruetas inimagináveis surge um casal e duas cordas paralelas.
Novos rodopios e movimentos «humanamente impossíveis» auxiliados por as cordas.
A altura dos movimentos é considerável.
Nenhum equipamento de segurança 'tá presente no palco.
Antes do casal acabar a apresentação aparecem várias argolas.
Grandes e pequenas.
Uma encima da outra num total de três sobre três.
E lá vem um monte de sujeitos pulando no meio das argolas, e eles pulam simultaneamente nas nove argolas.
De um lado vem um e pula ao mesmo tempo em que outros dois fazem a mesma coisa.
Parece tudo tão fácil e impossível ao mesmo tempo.
Caso um mortal tentasse algo do gênero seus entes ficariam apenas com as lembranças do fulano.
Ainda 'tupefato com a atração anterior, não percebo que a nova atração já 'tá preparada.
Algumas mulheres no centro do palco.
De repede uma das moças 'tá emaranhada numa rede.
E lá vão mais algumas piruetas realizadas em altura considerável.
Em alguns leves movimentos a moça não 'tá mais emaranhada.
Agora ela usa a rede como cordas para realizar o seu trabalho.
Nossa!
A moça nem acabou a sua apresentação e meninos preenchem o palco brincando com chapéus de palha.
Ao fundo um 'pantalho completa a cena.
São três, quatro, cinco chapéus simultâneos.
Eu particularmente não consigo manter nem duas laranjas.
Um de eles joga o chapéu para cima, bem alto.
Em o chão realiza algumas, acho que três, cambalhotas até o chapéu deslizar enigmaticamente em sua mão.
Meus olhos não conseguem distinguir mais o número de chapéus, pode ter certeza de que são muitos.
Então um sobe nos ombros do outro e aquele recebe mais um nos seus ombros e, nova troca de chapéus.
Agora três fazem a base, dois encima e um mais no alto trocando nem sei mais quando chapéus.
Depois de tantos chapéus voando, a atração agora são meninas com curtas cordas com peso nas pontas.
O malabarismo 'tá no corpo e no impossível que as meninas fazem.
Novas meninas no palco, 'tas trajando roupas típicas chinesas.
Parece um show de mágica.
Alguns movimentos rápidos com as mãos e o impossível acontece:
A mão da moça não pára de gerir bolas vermelhas.
E elas trocam de roupa no palco, mas é tão rápido como o trajeto de um projétil.
Tempo para tomar fôlego.
Uma voz do além diz que teremos quinze minutos para colocar os neurônios no lugar.
Com novo ar nos pulmões a cortina é aberta.
Em o palco quatro barras de ferro na vertical.
Elas são bem altas.
Aparece um bando de malucos que as utilizam para a apresentação.
São dez que usam o instrumento para entreter o público.
E lá se vão várias acrobacias até entrar um novo casal que utilizam o equilíbrio para demonstrarem a sua arte.
Sai o casal e várias meninas entram em cena.
Todas elas equilibram diversos pratos com as duas mãos.
A atração não 'tá em equilibrar os pratos, mas nas acrobacias que fazem sem deixá-los cair.
Uma de elas coloca a sua cabeça em cima da cabeça da outra e se equilibra.
Uma pirâmide de copo é equilibrada na boca de outra menina.
A nova atração também 'tá no equilíbrio.
Dois homens «de borracha» utilizam o corpo do outro para ...
se equilibrarem.
Nova atração que prima o equilíbrio.
Agora são vasos na cabeça.
E lá se vão mais piruetas sem deixar os vasos caírem da cabeça.
E são acrobacias impossíveis de se fazer normalmente, imagine com vasos na cabeça.
Agora uma moça começa a se equilibrar no tablado com três cadeiras.
Mais duas, mais duas ...
Perdi a conta, mas ela 'tá numa altura considerável.
Está é a única atração do 'petáculo que é utilizado equipamento de segurança.
Para encerrar o show a atração 'tá na movimentação, no equilíbrio e nas piruetas dos integrantes do último numero circense.
Em o grand finale todas as pessoas participantes do 'petáculo sobem ao palco para receberem as palmas entusiasmadas da platéia.
Em a saída nova lição de «educação» até chegar à rua.
Saio do recinto feliz de ter participado de 'sa grande apresentação de circo.
Para os vencedores que chegaram até aqui vale algumas explicações.
O 'petáculo que presenciei aconteceu no palco do teatro Guaira, Curitiba, no começo do mês de outubro.
Número de frases: 91
A atração circense descrita foi realizada por o Circo Internacional da China.
Em o período do Estado Novo, o prefeito de Oeiras era o Coronel Orlando de Carvalho, avô do mais importante e festejado 'critor do Piauí na atualidade, OG Rego de Carvalho.
Bem ao 'tilo das iniciativas caras ao regime ditatorial da época, havia, na antiga capital, um mensário 'colar, de nome Fanal (farol) em que se publicavam, além do editorial, cujo conteúdo mereceria um 'tudo à parte, as melhores redações de alunos das 'colas públicas de Oeiras.
Em o Fanal nº 04, de 31 de março de 1940, numa mesma página figuram a redação denominada «A Feira», de autoria do já citado 'criba aos 10 anos de idade, e uma outra,» A Escola», redigida por um certo José Hipólito.
O flagrante mostrado no Fanal, que une duas figuras públicas que têm lugar destacado no imaginário oeirense, mostra, também, como a vida das pessoas dá voltas.
O premiado autor de «Rio Subterrâneo», vive hoje, aos 77 anos, em Teresina, cercado de cuidados e carinhos por a sua dedicada 'posa, a jovem e bela professora Divaneide Maria e do entusiasmo, mesmo que de longe, manifestado, de seus admiradores.
O José Hipólito (Marinho), popularmente conhecido por «Zé de Helena» e também chamado, por alguns, de «Brisa do Mar», apelido que recebeu, ainda no final dos anos 40, de José Tapety, então prefeito de Oeiras, é hoje jardineiro aposentado da municipalidade, pessoa querida e respeitada por todos e o homossexual mais velho e também, sem dúvida, mais famoso da Capital da Fé.
Para o professor Luiz Mott, mentor do grupo gay da Bahia e decano da luta por a homoinclusão no Brasil, trata-se, o Zé de Helena, da Bicha-Mor de Oeiras.
O Famigerado ZÉ De Helena
Entre os causos que os oeirenses contam de ele 'tá uma frase que teria pronunciado referindo-se aos machões da primeira capital: --
Atire a primeira pedra aquele que nunca adormeceu nos meus braços!
Imaginativo e visionário, celebrizou com o apelido de «O Castelo do Zé de Helena» os baixios de uma caixa d' água localizada na Praça da Bandeira, onde teria, em companhia de adolescentes, protagonizado cenas de amor ...
Certa vez, procurado por um filho de sua madrinha de batismo, que morava na vizinhança do «Castelo», teria recusado o» affaire " alegando: --
Se fizer isto com você, como vou conseguir, amanhã, encarar a madrinha?
Apaixonado por Roberto Carlos, foi a Picos para assistir a um show do Rei num 'tádio de futebol.
Quando a orquestra entoou os primeiros acordes da música «Emoções», no meio da arquibancada lotada soltou um grito tão forte e vibrante que o 'tádio todo voltou-se para ele, identificando-o, em uníssono, Zééééé de Helenaaaaa!!!!!!!!
Em 1984, no primeiro «jogo da saudade», hoje uma tradição em Oeiras, onde confraternizam, anualmente, solteiros e casados maiores de 35 anos, o Zé de Helena, então em pleno vigor dos seus 55, roubou a cena, mais uma vez, quando, inopinadamente, enquanto o jogo se desenvolvia, dentro das quatro linhas, acredite se quiser, percorreu o gramado do Estádio Gerson Campos, formalmente trajado de garçom, gravata borboleta, inclusive, e carregando uma bandeja onde oferecia água gelada numa jarra.
Detalhe crucial da sua inesquecível " performance ":
a água era servida em copos de cristal.
Um luxo!
Certa ocasião anunciou aos quatro ventos que 'tava se aposentando, que não mais se dispunha aos amores fortuitos.
Isto animou um velho magistrado de hábitos e convicções extremamente conservadores a dizer, brincando, ao Brisa:
-- Puxa vida, Zé de Helena, justamente agora que eu 'tava me animando a experimentar o babado ...
Nem teve tempo de terminar o pensamento, recebendo resposta fulminante do Zé --
Veja bem, Doutor Fulano, para uma autoridade tão o importante como o Senhor, é claro que posso abrir uma exceção! (
afinal, tenho um currículo a zelar, deve ter pensado)
Para que se possa aquilatar a fama que desfruta até hoje, ainda recentemente, numa viagem de Teresina retornando a Oeiras após uma cirurgia na vista, usando óculos escuros e tendo seu rosto protegido por uma toalha, o simples anúncio efetuado por Carlos Rubem que descobriu sua presença no ônibus, já em Floriano, provocou «frisson» entre os companheiros de viagem.
Educadíssimo, levantou-se da poltrona e cumprimentou a todos com um salamaleque.
Até pessoas que sequer conheciam Oeiras já tinham ouvido histórias protagonizadas por ele, gente que fez questão de levantar de seu lugar apenas para cumprimentá-lo.
Aliás, mostrando que seu lado gayato ainda se manifesta, dia desses, ao encontrar a filha do Dr João Orlando, oftalmologista que o operou, perguntou-lhe: --
Cadê o médico dos meus olhos? ...
Desafeto
Declarado: Um Rival
Mas há também quem se dedique a falar mal do Zé de Helena.
E 'te nunca adormeceu em seus braços.
Quem quiser ouvir impropérios de vários quilates dirigidos ao nosso «Brisa do Mar» é só puxar conversa com o Lucídio Freitas, não por coincidência, a segunda bicha mais velha de Oeiras.
Corroído por a inveja e os ciúmes, Leleca, como também é conhecido, 'pecializou-se nisto.
Uma pena!
ZÉ De Helena, Missionário
Sempre devotado, hoje totalmente, à religião católica, Zé de Helena se faz presença obrigatória nos eventos religiosos que ocorrem na Capital da Fé, participando ativamente de toda as celebrações sacras.
Em a procissão do «Bom Jesus dos Passos», onde, todos os anos, uma jovem denominada popularmente, em Oeiras,» Maria Beú «(personagem que corresponde à bíblica Verônica) a cada novo» Passo», profere um cântico exibindo o sudário, já é tradicional a figura do Zé de Helena responsabilizar-se por o banquinho em que sobe a cantora para que possa ser vista por os milhares de fiéis, entoando uma melopéia.
Procurado, num desses eventos por o humorista João Cláudio Moreno, Zé de Helena desculpou-se por não poder dar-lha devida atenção: --
Estou numa missão!,
teria dito.
Outra missão, 'ta herdada de sua mãe, Helena, a que nosso herói se dedica, é a organização da festa anual de Nossa Senhora do Carmo.
Realizada na Igreja do Rosário, a festa consiste na celebração de uma missa pontifical com distribuição dos disputados 'capulários que ele adquire com a participação de outros devotos da santa.
Há, em seguida, procissão, foguetório e confrataernização ...
Note-se que, não é por acaso que Oeiras ostenta o epíteto de Capital da Fé, sendo 'ta apenas uma das dezenas manifestações do seu vasto calendário religioso.
ZÉ De Helena, Escritor
Os dotes literários do menino José Hipólito Marinho -- que, aos doze anos, colhia como uma abelinha, em «A Escola», o néctar do saber retirando-o da boca da professora -- não se perderam no velho Zé de Helena.
Prova disto é que, quando decidi editar o tablóide " O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil -- n.
° 3 inteiramente dedicado ao professor Possidônio Queiroz, tive a grata surpresa de receber, das mãos do Zé de Helena, um artigo sobre Possidônio.
Sua contribuição foi publicada na última página, a mais «nobre» do jornal, e devo dizer, valorizou, em muito, o charmoso tabloide.
Teve quem não acreditasse que tinha sido realmente ele o autor de ...
«Emoções "
Zé de Helena
Em os meus 76 anos já me sinto cansado por o tempo.
Em algumas festividades e reuniões eu vou, e em outras, nem mesmo sendo chamado, não tenho vontade de ir;
mas o Santo Sacrifício da Missa como também uma sessão magna dirigida por a professora Rita Campos, na qual se comemorava o centenário de nascimento do Professor e Dr. Possidônio Nunes de Queiroz -- eu o chamava «Divina Arte» -- senti um imenso prazer ao assistir o decorrer de tudo:
os bandolins que falavam mais alto;
a suavidade da flauta, idêntica à do pai, tocada por seu filho caçula, Pastor Francisco Queiroz, observei a 'critora que disse do nascer do Instituto Histórico, mas que se 'queceu de falar do 'touro da champanhe que, como garçom, servi naquele momento solene em que Oeiras é relíquia.
Falar de Possidônoio Queiroz é não 'quecer dos seus momentos mais célebres, como da primeira vez em que Dom Avelar Vilela veio a Oeiras, na década de cinqüenta e, em sua homenagem, Possidônio compôs uma valsa que foi executada em solenidade no Cine-Theatro Oeiras.
Dom Avelar, no agradecimento, disse que Possidônio colhia aquelas notas musicais sobre o orvalho da madrugada, sob um sol de manhã primaveril, imagem linda que achei.
Outros momentos:
Possidônio descrevendo Oeiras para o Núncio Apostólico e pedindo a ele que não houvesse a mudança da sede da Diocese, sua voz era a voz de todo povo oeirense.
Coitadinho, não foi ouvido!
Possidônio já cansado e ocultando uma dor, inspirado falou -- na inauguração não sei de que -- falou sobre o tempo.
Nunca eu assisti um pronunciamento tão emocionante!
Depois disso ele recolheu-se em silêncio, somente o Dr. Bill era o mais íntimo de seu viver;
parece-me, salvo engano, que em 'tes momentos foi que ele teve a inspiração de compor a grande valsa " Pensando em ti ";
em silêncio, falou do amor, foi o tempo que a historia levou.
Aqui descreveu aquele que o serviu, viu tudo e sabe!"
Zé de Helena
Os Oitenta Anos do ZÉ De Helena
Pois não é que 'ta Brisa do Mar, que, de há muito, torna Oeiras mais fresca e alegre, vai, em setembro próximo, completar oitenta anos?
Esta data, todas as pessoas com quem eu conversei em Oeiras foram unânimes em concordar, não pode passar em brancas nuvens!
Há uma proposta, lançada por a Fundação Nogueira Tapety -- FNT, de revitalização do «Castelo de Zé de Helena», situado no centro histórico da cidade, transformando-o numa lanchonete temática decorada com fotos, 'critos e outros objetos iconográficos que preservem a sua memória, homenageando-o, assim, ainda em vida.
Ela já conta com a simpatia da Prefeitura Municipal de Oeiras, proprietária do imóvel e pode receber apoio de outros parceiros, institucionais ou não.
Se 'ta idéia vingar, sem dúvida, será muito bom, mas ainda não o suficiente.
Os oitenta anos de Zé de Helena devem virar um dia de grande festividade em Oeiras.
Número de frases: 80
Todos os que convivem e conviveram com ele, homens e mulheres, sabem que se trata de uma figura impoluta, transbordante de humanidade e que merece todas e cada uma das homenagens que lhe forem prestadas em OeirasI
Histórias são vividas no plano real e significadas no plano simbólico.
Os fatos, 'ses sim, são a própria coisa [ou relação de coisas] existente, plasmada.
De outra ordem dá-se a narrativa conceitual desse mesmo fato.
Ao longo da História e do desenvolvimento dos métodos e formas comunicacionais, muitos, variados e até conflitantes foram os códigos, e conseqüentes formas de encadeamento do conhecimento.
Vamos nos concentrar num de eles, surgindo no século XIX, consolidando-se no século XX e que entra no século XXI completamente metamorfoseado:
o Cinema.
E aqui cabe ressaltar o Cinema com inicial maiúscula, como a representar o exercício da manifestação sígnica-cultural através da série de práticas laborais necessárias a sua existência.
O não-entretenimento, que fique bem claro.
Não há uma homogeneidade de definição do cinema.
Entretanto, um dos pilares de 'sa manifestação é a existência de uma peça audiovisual disposta à apreciação de um público motivado convencionado num tempo e um 'paço definidos.
E aqui aponto duas situações:
uma sala, tela branca 'tendida ao fundo, projetor de película [35mm], cadeiras enfileiradas em seqüência, pipoca e sal a gosto e um grupo de pagantes.
A outra seria um campo aberto, uma tela de televisão, as 'trelas e convidados sentados no chão.
Essas duas situações, aparentemente contrárias, podem ser definidas como a finalidade [ou fim último] da realização cinematográfica:
a fruição da obra por o público.
Mas uma diferença básica [e fatal] marca a ponta final das duas situações e vai definir a cadeia produtiva, desde o começo das empreitadas:
o dinheiro como mediação de troca entre a obra exposta [exibição] e o público.
Uma é paga, a outra é gratuita.
E será 'sa intermediação do dinheiro, da mensuração da obra num valor monetário para a sua fruição, que irá definir a sua concepção.
Uma coisa é a realização de uma obra cinematográfica para fins de mercadoria;
outra diametralmente oposta e em nítida rota de colisão é uma obra cinematográfica como resultado de uma prática simbólica reconhecida como de grupo;
social, econômica e temporalmente.
O cinema processo surge como conseqüência das novas formas de trabalho imaterial buscando uma consciência de grupo.
Pressupõe o imperativo não só da criação do novo, mas da releitura do velho para a sobrevivência de práticas eco-sociais e sua conseqüente inserção e transformação na contemporaneidade.
Sabedoria tradicional interferindo nas novas exigências de existência.
O velho e o novo de mãos dadas na construção de novas simbologias.
Buca Dantas
Número de frases: 28
Diretor do filme «Viva o Cinema Brasileiro!"» { ...
Eu sempre desconfiei de 'sa profissão, que começa com cu e termina com dor "
Adão Iturrusgarai Entrevistar a Xiclet é realmente um desafio.
Ela é tão intensa, tão falante, tão engraçada e 'pirituosa, que fica muito fácil perder totalmente o foco da conversa, sem 'perança de encontrá-lo.
às vésperas da inauguração da 27ª Bienal de São Paulo, a fundadora, administradora, assessora de imprensa (e muitas vezes da limpeza) da Casa da Xiclet, passeia orgulhosa por a galeria me apontando e contando detalhes dos trabalhos dos artistas pouco conhecidos.
Para vários de eles, aquela é a primeira exposição de suas vidas.
«Eu não entendo por que 'ses meninos artistas ficam se juntando em 4 ou 5, para rachar um 'paço na Barra Funda, onde montam um ateliê.
Mais outro ateliê?
Pra quê?
Pra correr atrás de curador como sempre?
Eles deviam sim, é montar sua própria galeria!"
E foi exatamente isso que ela fez.
Adriana Matos Alves Duarte, mais conhecida como Xiclet, se cansou do hermético mercado paulistano de arte e resolveu criar um 'paço totalmente diferenciado na Vila Madalena, onde qualquer um pode expor.
Sim, qualquer um.
«Sem-curadoria, sem-seleção, sem-juros, sem-jabá, sem-entrada e sem-patrocinador», é só se inscrever nas chamadas das exposições (as que ainda têm vaga), pagar uma taxa em torno de R$ 100,00 e dar uma ajudinha na montagem e na faxina, que 'tá tudo certo.
A Casa da Xiclet, que completou 5 anos de vida na semana passada, promove diversas mostras bem-humorado o ano todo.
A quantidade de artistas jovens que passa por ali é assombrosa.
Eles vêm de todos os 'tados do país num número inalcançável para qualquer galeria tradicional no Brasil."
As galerias não dão mais conta da quantidade de artistas talentosos que existem por aí.
Não tem 'paço para todo mundo.
Agora os artistas precisam se virar em outros lugares».
E como que a Casa da Xiclet ficou tão conhecida e prestigiada por os jovens artistas?
Adriana acertou na mosca:
«Eu faço tudo por a internet." Um site html, um perfil no Orkut (bem movimentado, aliás), uma conta de Multiply e um belo mailing.
Diferente das galerias, a Casa 'tabeleceu uma comunicação muito direta com o público-alvo, com a ajuda de 'sas ferramentas da cibercultura.
Tudo isso unido à popularidade que Xiclet já havia construído no mundo presencial, mais matérias na Folha de São Paulo, Caros Amigos e índices no guia Mapa das Artes, gerou uma grande divulgação boca-a-boca, o marketing mais eficaz que pode existir.
E dá dinheiro, Xiclet?
«NÃO! De jeito nenhum. É gostar. É acreditar." Com tanta irreverência, não é de se admirar que os temas das exposições façam paródias com nomes e personalidades da arte em São Paulo.
A investida mais ousada aconteceu no ano passado com a exposição «Quero ser amiga da Lisette».
Vamos lembrar que a tal «Lisette» se trata de Lisette Lasagno, a curadora geral da 27ª Bienal de São Paulo, que foi pessoalmente conferir o que Xiclet 'tava aprontando.
Para a alegria de todos os participantes, Lisette " adorou a coletiva!
Até ficou com um trabalho de um artista.»,
sorri Xiclet.
Para a Bienal deste ano que tem o tema «Como viver junto», a anti-galerista 'tá organizando a exposição paralela» Como viver longe», que já 'tá com edições lotadas de artistas inscritos.
Xiclet com Jabá
Adriana não tem medo de fazer uma curadoriazinha de vez em quando.
O novo 'paço da rede Xiclet será a «Letxic», uma galeria» Com-cu-radoria, com-seleção, com-jabá, com juros e com tudo."
Em 'te 'paço criado por Flávia Vivacqua, a Galeria Favo, serão expostos os melhores trabalhos participantes das mostras da Casa.
Esta 'colha mais cuidadosa, segundo Xiclet, vai facilitar a venda das obras:
«Não existem galerias de médio porte aqui.
É caro demais comprar arte de qualidade no Brasil.
Como eu exponho artistas jovens ou recém-formados, o preço que cobro é justo e acessível."
O 'paço das duas galerias é bem diferente.
Enquanto a Casa da Xiclet mantém um ambiente informal, cheio de traços da personalidade de Adriana e sem muita exclusividade de 'paços individuais para as obras, a Letxic se aproxima mais da arquitetura das galerias paulistanas de peso.
Finalmente se criou um segmento alternativo no mercado de artes visuais da metrópole, sem abrir mão dos meios democráticos de seleção.
Veneza e a Periferia
O modelo democrático da Casa da Xiclet não é nenhuma novidade.
Não pelo menos em Veneza, a cidade das gôndolas, do festival de cinema, e da maior e mais importante bienal do mundo.
Em 1993, o Aperto, o salão paralelo à Biennale di Venezia para jovens artistas, foi criado em moldes similares de seleção, privilegiando as categorias que normalmente ficam de fora num evento deste porte, a saber:
artistas jovens, países em desenvolvimento e artistas jovens de países em desenvolvimento.
Mas um mínimo de filtragem acontecia no Aperto.
Existia de fato uma seleção para preservar um «padrão Veneza de qualidade».
E além do mais, os organizadores não recebiam os artistas em suas próprias casas como recebe Xiclet.
E o melhor:
os organizadores do Aperto não tiveram a brilhante idéia de criar unidades da galeria nas periferias carentes da cidade.
A originalidade de Xiclet alcança um nível inédito em 'ta idéia, que envolve duas casas nas periferias da Grande São Paulo.
Uma de elas fica em São Mateus, e a outra no Parque Continental em Guarulhos, respectivamente administradas por «Jailtão» e «Giulliano».
Parte das obras inscritas nas coletivas, serão expostas em 'tas Casas das periferias.
Xiclet vai propor para os artistas que doem suas obras para realizar a exposição também nas ruas.
Terão direito a legenda e tudo.
Mas se alguém quiser levar a obra, ninguém irá impedir.
Hans Ulrich Obrist, um dos curadores mais importantes e criativos dos últimos dez anos, já havia desconstruído a antiga idéia de exibição com exposições nômades como 'sa.
Mas Obrist é gente muito grande, e só expõe gente muito grande.
Seus artistas não são novatos e livres o bastante para se desapegar de suas obras nas ruas de uma periferia qualquer.
A não ser que isso seja uma proposta.
Número de frases: 65
Mas só se for uma proposta de curador de Bienal.
O IDiálogo de Multiplicadores do Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto do RS foi além das nossas expectativas mais otimistas.
A começar por as instalações perfeitas da Cia de Arte, que nos disponiblizou além de seu confortável e amplo teatro, uma outra sala ampla, cozinha, internet, telefone e seu equipamento de luz e som, bem como a atenção e o carinho de seus associados.
Pela manhã tivemos os jogos para atores e não atores do Te o, ministrados com seu costumeiro brilhantismo por o nosso camarada John, coringa nato, a todos os oficineiros trazidos por o mesmo de Alvorada, por a Maristoni de Viamão, e a Patota Bacana de Guaíba, com a Déa e o Araxane.
mais de 40 oficineiros, casa cheia!
Também contribuiram com os jogos os multiplicadores Nelmar, Núbia e Araxane.
Ainda pela manhã, aguardando o almoço, que saiu mais tarde, descemos para o ótimo teatro da Cia de Arte onde fomos surpreendidos por a passagem de cena da Patota Bacana.
A segurança e propriedade com que as meninas passaram suas falas, o ritmo, a presença no palco foram muito comentadas e não faltaram as merecidas congratulaçãões ao Araxane e Déa, coringas experientes, também auxiliados por a Suri, Núbia e por o John na preparação das atuadoras.
Não dá para 'quecer o lanche, composto de deliciosas bolachas integrais, chá e café preparados por a nossa dedicada multiplicadora Maristoni.
A economia popular solidária presente no I Diálogo do TOPP / Sul, provada, aprovada e comprovada na prática.
Após o caprichado almoço, servido por o próprio e no Bistrô da Cia de Arte, cercados por obras de arte da Bienal B, que ocorre paralela a Bienal do Mercosul de Porto Alegre, com muitas pessoas chegando, interessadas por o Te o, fomos brindados com a peça de bonecos do «Grupo Camaleão, A ÁGUIA QUE QUASE VIROU GALINHA», segundo a idealizadora» Tânia de Castro «em formato de contação de historia com bonecos, música e objetos o grupo trabalhou com a lenda africana chamada» A UIRACU " (a Águia).
Esta lenda também é contada por Leonardo Boff que cria uma metáfora da condição humana no seu livro, «O Despertar da Águia».
Também contada por Ruben Alves no seu livro Historias de Bichos."
A peça de bonecoas se revelou uma ótima introdução a proposta do Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto feita por mim, que aproveitei o momento para frisar 'tas questões tratadas na peça:
-- Esta é minha plenitude?
-- Nunca aceitaremos o conformismo.
Bem consoante com a Estética do Oprimido, da qual falei em 'te momento.
Enquanto aguardávamos no Bistrô os preparativos para a aguardada apresentação de Teatro-Fórum com a Patota Bacana convidei o John para ir demonstrando os jogos do Te o, o que foi feito, para alegria e descontração do numeroso público presente.
O Teatro-fórum «O Assalto» foi apresentado a seguir, praticamente sem falhas do início ao fim.
Com um figurino bem construído, o que auxiliou demais a compreensão da cena, num ônibus urbano, onde os passageiros de diferentes classes sociais entram num conflito, permeado por o racismo e a injustiça social, o Teatro-fórum teve cinco intervenções, seguidas de muito debate.
Impressionou a capacidade dos personagens principais em dar continuidade as diversas situações de desenlace que foram apresentadas.
Para finalizar com chave de ouro subimos para a sobreloja da Cia de Arte, onde a Nádia tinha montado o projetor para a apresentação da montagem provisória do vídeo-documentá rio, usando como trilha sonora a trilha composta por a nossa equipe musical do II Curso de Multiplicadores do TOPP/RS para a cena que foi apresentada no Odomodê.
Demais a emoção!
Vimos com saudade todos os colegas envolvidos nos jogos, pintando a nossa bandeira, as crianças da oficina do «Invasão Cultural» atuando com brilho e todos cantando o Hino do Brasil que nós queremos.
Não posso deixar de citar a grande contribuição para a produção deste Diálogo da colega Maristoni Moura, que abraçou a produção com coragem e dedicação, da Patrícia Dornelles da RRS do Minc, que auxiliou na parte organizativa e do gerente da Cia de Arte, José Vicente Goulart, o Zé Vicente que não poupou 'forços para o sucesso deste I Diálogo, e da Tânia de Castro, vice-coordenadora da Cia de Arte, integrante do Fórum de Culturas Populares do RS, que não titubeou em abraçar 'te histórico encontro de conscientizaçã o e aprendizagens mútuas que o Teatro do Oprimido nos propicia.
E do Geo, que lá do Rio nos incentivou e que na hora de depositar a ajuda financeira do CTO foi muito rápido, em função do feriado nacional, para que o evento acontecesse.
Depois de tudo isto, os multiplicadores presentes ficaram com gosto de quero mais, claro, e já se preparando para o II Diálogo em Pelotas, no dia 28/10.
«Põe mais água no feijão», mama Sirley e camarada Dilermando!
Grande abraço,
Eduardo Sejanes Cezimbra, da Comissão Organizadora do I Diálogo do TOPP/RS por o Fórum Estadual de Culturas Populares do RS.
Número de frases: 30
Segunda parte da entrevista com o diretor argentino Javier Torre.
-- Em a sessão de gala o senhor pediu desculpas aos cariocas por algum eventual erro na filmagem da cidade.
Onde o senhor acha que pode ter errado?
-- Estou ainda 'perando que alguém me diga que eu errei, que o Rio não era assim, que as pessoas não se vestiam assim, que o mar era de outra cor, que tal boate não existe ...
Mas ninguém falou.
Até o momento, ninguém falou que 'tá ruim.
Então, eu fico mais tranqüilo.
Mas 'tou 'perando porque, como eu falava, é mais difícil filmar os anos 80 do que a invasão portuguesa do século XV porque ninguém sabe a roupa dos portugueses.
Tudo você pode organizar.
Por exemplo, tem um problema com as cabines telefônicas.
A menina da produção falava que naquela época não tinha cabines telefônicas azuis no Rio de Janeiro.
Mas precisava que o personagem falasse de uma cabine telefônica.
Então, eu punha a câmera e não dava.
Eu queria excluir a cabine telefônica, mas sempre aparecia na praia.
Então, eu deixei um pedacinho da cabine telefônica.
Até agora, ninguém veio falar da cabine telefônica.
-- A mim, o que mais causou 'tranhamento foram os ônibus.
Foi o que eu pensei, como cineasta, uma das coisas mais difíceis de filmar na rua, em filmes de época, são os equipamentos urbanos:
os ônibus, as cabines telefônicas ...
-- ... as placas dos carros ...
-- ... a arquitetura dos prédios.
Então, isso me incomodou um pouco ...
Como os ônibus de Buenos Aires são muito antigos, pensei que a produção poderia ter imaginado que os ônibus daqui também eram modelos antigos.
Mas agora deu para entender, como foi uma coisa meio clandestina não dava para ficar 'perando os ônibus passarem para começar a filmar.
-- São pequenos detalhes que você vê, às vezes, nas grandes produções americanas também que podem atrapalhar a história.
Mas, acho que, em 'se caso, a história passa.
-- O senhor teve em Gramado com o filme.
Sentiu diferença entre o público do Rio e o de Gramado?
-- Muito boa pergunta ...
Deixa-me pensar ...
O público de Gramado era um público mais familiar e, com respeito, um pouquinho mais provinciano.
Aqui o público é mais questionador.
Um público um pouco gay que tem uma visão mais profunda sobre o filme, 'tá buscando repostas, 'tá buscando verdades.
Um público mais perigoso, no sentido de encontrar os defeitos do filme, de descobrir se a história tem problemas ou não tem problemas.
O público de Gramado é mais carinhoso, muito festivo, muito bom, muito generoso e o público daqui é mais duro, mais cosmopolita, mais vivido.
São distintos.
Felizmente, os dois recepcionaram bem.
Eu temia ...
Primeiro, eu temia a quantidade de público aqui.
Como eu falei, os filmes argentinos ou latino-americanos, na Europa e nos Estados Unidos as salas 'tão quase vazias.
O público sai das sessões.
Em Cannes, você vê que o público sai das sessões.
Aqui não.
Eu não vi pessoas saindo da sala.
Gostei muito do público daqui, um público lindo, um público cinéfilo, pessoas que vêem muito cinema.
São diferentes.
Não falei com todos, mas o público foi muito respeitoso, muito agradável.
Não tem 'se negócio de ' filme argentino ` ou ' cineasta argentino '.
Outra coisa que eu tive muito ... '
Ah, um argentino veio filmar aqui no Rio, não dá ... '
Eu vi que as pessoas gostam de que tenha filmado aqui.
Eu pensei que as pessoas fossem rejeitar.
A teoria que eu tenho é que as coisas são imprevisíveis.
Você 'pera isso e sai aquilo.
-- O senhor é filho de Leopoldo Torre Nilsson, um importante diretor argentino com uma filmografia extensa, então o cinema 'tá presente na sua formação desde a infância.
Como foi a sua formação como cineasta?
-- Foi muito boa.
Eu me criei num mundo, como falávamos, muito cultural onde as pessoas 'tavam envolvidas com literatura, com cinema.
Os cineastas passavam por a minha casa.
O Glauber Rocha visitava a minha casa quando eu era menino.
Tinha 15 anos e o Glauber Rocha dormiu na minha casa quando 'teve em Buenos Aires, coisa que ninguém sabe.
Ele era muito amigo de meu pai.
O Joaquim Pedro de Andrade e outras pessoas que são míticas eram do meu relacionamento familiar.
Eu comecei a trabalhar como técnico muito jovem.
Terminei a 'cola e comecei a trabalhar como assistente de direção, fiz muitos filmes.
Sou uma pessoa com uma boa formação técnica.
Você pode achar que isso não é importante.
Mas eu acho muito importante conhecer as técnicas de cinema.
Sou um homem que conhece as lentes, que sabe definir o som de um filme.
São coisas que ajudam.
Agora, eu tenho um filho que também 'tá fazendo cinema, eu 'tou produzindo um filme de ele.
E ele também começou muito jovem ...
Tem suas dificuldades, mas é lindo.
Meu pai era uma pessoa muito querida, muito importante.
Ele ganhou aqui um festival nos anos 60, um prêmio que davam aqui no Rio.
Minha casa era futebol e cinema.
O cinema brasileiro era muito conhecido na Argentina quando eu era menino.
Via-se Glauber, se via Nelson (Pereira dos Santos), os filmes de Joaquim Pedro.
Tinham muitos cineastas que eram famosos e respeitados, falavam-se de eles e eram reconhecidos na Argentina.
Hoje 'se conhecimento não é tão grande.
O cinema americano invadiu tudo.
Os meninos sabem tudo dos atores e diretores americanos e pouco do Brasil.
É um problema grave e isso tem que mudar.
-- Como o senhor vê a produção argentina hoje?
-- Está bem.
É uma cinematografia muito variada, com pessoas novas que 'tão fazendo filmes muito interessantes e com uma presença crescente nos festivais internacionais.
É muito interessante o que se passa.
A produção de cinema cresce, mas tem um problema que é a distribuição.
Nós fazemos muitos filmes, mas temos problemas para distribuir dentro de todo o território nacional.
Não sei como é aqui no Brasil.
Você faz o filme, o filme é bom, tudo bem ...
Mas, depois, é mais duro o que acontece depois do filme pronto do que quando você tem que fazer o filme.
Isso é muito curioso.
Antes, a coisa mais difícil era fazer o filme.
Hoje, o mais difícil é ter o filme já feito porque o relacionamento com a distribuição é muito complexo.
O cine americano tem 90 % das telas, o que é muito, tem uma 'trutura de promoção e de publicidade nos jornais e na TV.
Não dá para comparar a imensidão dos blockbusters da Disney, da Miramax com um filme que você tem aí ...
O grande problema da Argentina é cultural e de distribuição comercial.
-- É a mesma coisa que acontece aqui no Brasil.
Produz e tem dificuldade de exibição.
Eu 'tive na Argentina e li alguns artigos com críticas muito pesadas a isso.
Mas, como no Brasil, percebi que os cineastas argentinos têm procurado fazer filmes que vão ao encontro de um grande público.
Quando eu 'tive lá a imprensa 'tava comemorando que o Patoruzito tinha dado um milhão de 'pectadores ...
-- ... dois ...
-- ... o Clube da Lua tava com quase 700.000 'pectadores ...
O senhor se preocupa com isso, em fazer um cinema que alcance um grande público?
-- É muito importante ...
Mas as produções que você citou que tem dado 'sa grande quantidade de público são produzidas por os canais de televisão.
Então, se Vereda Tropical fosse produzido por um canal de televisão, eu vou te assegurar que fazia 500.000 'pectadores.
Porque a campanha publicitária de promoção do filme é arrasadora.
Os canais de televisão promovem certos filmes que eles produzem, com todo o direito de produzir, mas que fazem ' dumping ', parecido com o das produções de Hollywood.
Eu não quero dizer que são meus inimigos, mas há uma competição desleal.
Eu, como diretor independente, não produzido por a televisão, não posso competir com Clube da Lua que é produzido por a televisão e que tem o poder do canal mais poderoso da Argentina.
Eu não tenho poder de nada.
Eu sou meio próprio poder.
Então, a competição é muito difícil.
Se você joga com o Ronaldo no seu time e eu jogo com aquele menino ali.
É desigual, é competição desigual.
Dois filmes argentinos, iguais e com igual qualidade artística, um produzido por a televisão e outro não produzido por a televisão tem uma diferença de 500.000 'pectadores de largada.
Os filmes não produzidos por a televisão correm o risco de fazer 1.000 'pectadores, 10.000. Esses cineastas independentes, que não 'tão com a televisão, se falam que seu filme deu 10.000 'pectadores é um sucesso.
Entre as películas produzidas por a televisão que fazem 500.000 'pectadores, se fala que é um fracasso.
Isso é inacreditável!
Quando a televisão faz um filme com 1.000.000 de 'pectadores, eles consideram que foi um fracasso.
Quando o diretor independente faz 50.000, se considera um sucesso.
Essa é a loucura e a perversidade da exibição de cinema na Argentina.
Eu sou um diretor independente e vivo com 'sa problemática.
Eu não tenho auspício da televisão e não só não tenho o auspício como sou silenciado por a televisão Argentina.
A televisão não exibe meus filmes, quer dizer, não passam.
Clube da Lua é o dia todo na televisão, os atores são convidados na televisão, a cada meia hora você tem publicidade.
É complicado.
Eu não sou contra Clube da Lua.
Eu respeito muito o filme e o diretor.
O que eu falo é que as condições de promoção são desproporcionais.
-- Aqui no Brasil nós vemos a mesma coisa.
Temos a Globo que produz filmes e a problemática é a mesma.
Aqui se diz que um filme que dê grande público acaba colaborando com os demais porque vai se criando um público para o filme brasileiro.
Isso se diz também na Argentina?
O senhor acredita nisso?
-- Como teoria é lindo e é crível.
Quem sabe em longo prazo pode ser.
Até agora eu não tenho provas.
Até agora o que eu posso provar é que os filmes produzidos por a televisão 'tão em muitas salas de cinema, ganham 'pectadores, passam dos milhões e os filmes independentes cada dia têm menos ...
Dois mil, três mil, cinco mil ...
Essa teoria de que os filmes da televisão ganham territórios é verdadeira.
Mas, ganham só para eles.
Eu sou vítima desse sistema, não sou privilegiado desse sistema.
Eu, pessoalmente, sou vítima desse sistema.
Não tenho Síndrome de Estocolmo para dizer que 'tou tendo benefício.
-- Como o Estado, na Argentina, fomenta a produção de cinema?
-- Tem uma lei recente, de alguns anos, que dá subsídios.
Tem uma comissão que seleciona os filmes que vão ser realizados e depois você recebe dois subsídios:
um para exibição na televisão que significa que você não devolve o dinheiro que recebeu em troca de exibir o filme na televisão;
e outro que é um subsídio por sala.
O subsídio por sala significa que você cobra outra entrada por cada entrada que você faz.
Esse subsídio 'tá sendo todo levado por os filmes produzidos por os canais de televisão porque eles dão grande quantidade de público e cobre todo subsídio.
O outro subsídio que é o de recuperação industrial é o que a maioria dos cineastas independentes 'tão fazendo seus filmes.
E 'tamos tendo 40 a 50 filmes por ano.
É um financiamento muito pequeno.
Você quase não termina o filme com ele.
São cerca de 430.000 pesos que são quase 150.000 dólares de subsídio.
Então, você precisa conseguir outro dinheirinho para terminar o filme senão não consegue.
Geralmente, os produtores independentes se ajustam para fazer o filme só com isso, 'sa é que é a verdade.
Você fala que consegue mais, mas não consegue nada.
Você tem outro problema na Argentina.
Como o país é muito barato para 'trangeiros, você tem muitas produções de publicidade que vem de países da Europa e do Japão para filmar na Argentina e pagam muito bem aos técnicos.
Então, você não consegue técnicos para trabalhar porque você não pode pagar o que eles ganham.
Então, você fica pressionado porque tem que fazer muitas coisas que são mais caras que o pouco dinheirinho que você tem.
O cinema sempre foi difícil.
Você falou do meu pai ...
Quando eu era pequeno, meu pai vendia casa, comprava casa.
Sempre foi difícil.
O negócio do cinema 'tá dominado completamente por os americanos e, dentro da Argentina, por os canais de televisão.
E nós, independentes, temos uma parte cada vez menor na indústria.
Eu não sei se o objetivo da televisão é ficar com tudo, eu falo isso na Argentina.
É um objetivo hegemônico.
Até porque nem a televisão é Argentina.
A Telefe é da Telefônica da Espanha.
Não é argentina.
Quando se fala em televisão ...
A televisão argentina não existe mais, é internacional.
Então, 'sas coisas são muito complexas ...
Televisão argentina?
Quem é a televisão argentina?
É a Telefônica.
A Telefe é o canal mais poderoso e é controlado da Espanha.
A televisão argentina é só uma imagem.
O capital é Telefônica.
A Telefônica é proprietária de muita coisa na Argentina.
-- Eu tenho percebido que muitos filmes argentinos são co-produ ções com a Espanha.
Isso não facilita a produção de filmes?
-- Tem muitas co-produ ções com a Espanha, por sorte.
Tem o apoio da Ibermedia também, não sei Ibermedia apóia o Brasil também.
E tem algumas produtoras privadas 'panholas que co-produzem filmes argentinos.
O que significa co-produzir?
Pôr atores, pôr técnicos, às vezes dão material sensível.
Não dão dinheiro.
Asseguram a distribuição na Espanha.
Mas se você 'tuda isso, vai ver que os filmes sendo co-produ ções, são co-produ ções com a televisão argentina, também.
Cada vez mais, você vê filmes que têm muito sucesso em Argentina e Espanha são produzidos por a televisão.
É um conglomerado de interesses muito complexo.
-- Os filmes em co-produ ção entre Argentina e Espanha sempre retratam a fuga de argentinos para a ex-metrópole.
Roma do (Adolfo) Aristarain, por exemplo, trata disso.
Como é 'sa situação de fuga na Argentina?
-- Uma coisa que me chama muita atenção, e eu falei com as pessoas aqui, é que os brasileiros não vão embora.
Ao contrário, os argentinos vão embora.
Isso é um problema.
Eles vão para a Espanha, para os Estados Unidos, para a França, para Israel ...
Vão embora, os argentinos.
Eu moro perto do consulado da Espanha, então minha observação da realidade política argentina é quantidade de pessoas que 'tá fazendo fila na porta do consulado da Espanha.
Caminhando para a minha casa, eu vejo 200 metros de fila de argentinos indo embora.
Quer dizer que a situação não 'tá tão boa.
Ano passado, a situação era boa, aparentemente boa, você via muito menos gente.
Esse ano começou a ter mais gente de novo.
Tem 'sa coisa do exílio.
É um fenômeno real.
As pessoas têm que sair para sobreviver economicamente, para dar de comer a suas famílias.
Tem uma coisa cultural também.
O argentino gosta da Europa.
O brasileiro gosta da Europa, mas não como destino.
O argentino gosta da Europa como destino, como 'quema cultural, sempre tem a tentação da coisa cultural européia.
Os grandes 'critores argentinos morrem no exílio:
Borges, Puig ...
Os mais famosos vão para fora.
Borges 'colheu morrer fora da Argentina.
Então é um fenômeno social real.
Muitos argentinos tiveram que ir para o exílio na época das ditaduras militares.
É um fenômeno, também, dos jovens.
Os jovens querem provar uma vida nova na Espanha, 'pecialmente.
Porque se vê a Espanha como um paraíso.
Espanha tem uma imagem de um país rico, moderno, da União Européia.
Tudo isso é tentador.
Isso não é verdade porque você vai para a Espanha trabalhar de garçom, de chofer de táxi.
Mas na fantasia ...
Depois eles voltam, também.
Tem muitas pessoas que voltam.
Aquela fantasia do exílio dos anos 60 e 70, que o exilado era herói ...
O exilado passa a ser quase marginal, um sem-trabalho ...
O marginal hoje é humilhado, hoje ele é venerado.
O exilado argentino hoje é um pobrezinho.
O exilado dos anos 70 era um herói.
Isso mudou.
Então, muitos querem voltar depois.
É muito difícil se colocar profissionalmente na Europa hoje se você não tem um contrato, um passaporte.
Tem pessoas da Ásia, da África, de todas as partes chegando à Espanha.
Pretender viver na Europa hoje, para um argentino, é tão complicado quanto para um equatoriano ...
Acaba sofrendo muito.
Vão procurar o final de um sofrimento e encontram o princípio de um sofrimento pior.
-- Aqui no Brasil nós tivemos há pouco tempo notícias de grandes mobilizações populares na Argentina.
Qual a natureza de 'sas manifestações?
-- A sociedade argentina muda muito e 'tá sempre com novas 'peranças que terminam frustradas.
Esse é um momento muito crítico.
O novo presidente trouxe muitas 'peranças de mudança, de renovação, de luta contra a corrupção, de eliminação do crime organizado.
É uma resposta muito complicada a que ele tem que dar.
A situação de angústia que a Argentina viveu há quatro, cinco anos foi um pouco superada.
Mas o caminho que falta é muito longo.
Tem muitas manifestações, muitas vezes legítimas, de pessoas que querem reivindicar seus interesses ou suas necessidades.
Então, quando há pessoas que tiveram seus filhos assassinados por a polícia ou as pessoas que não conseguem trabalho reclamam, eu acho isso legítimo, completamente legítimo.
O equilíbrio que tem que fazer um governo que quer ser progressista, mas que sofre pressões para não ser progressista, é muito complicado.
Eu tenho o desejo de que (Néstor) Kirchner (presidente da Argentina) seja um presidente que tenha êxito.
Também ele corre o perigo de ser um presidente que prometeu e não fez, o que aconteceu com o Alfonsín, alguns anos atrás.
Era um presidente progressista, que tinha um conceito de cidadania com ele, e terminou aprisionado por os poderes tradicionais que o derrubaram.
Kirchner tem mais força, tem mais personalidade.
Mas os poderes que o 'tão pressionando são os mesmos:
Fundo Monetário (Internacional), Mundial, o G-7 ...
A pressão é contínua.
É muito difícil se mover dentro desse 'quema.
Tem grupos de todos os tipos pressionando:
grupos de extrema direita, grupos monopólicos, grupos de piqueteros que reclamam, famílias com filhos assassinados por a polícia.
Tem aspectos muito complexos ...
Esse é um momento de definição de muita coisa.
Desgraçadamente, os poderes internacionais têm uma força tão brutal que, às vezes, impedem que governos com boas intenções cheguem a seus objetivos finais.
Porque o Kirchner que teve como maior inimigo na campanha eleitoral o Fundo Monetário, foi o presidente que mais pagou ao FMI em 'ta última década.
Então, eu não compreendo.
Será que alguém o telefona?
É um mistério.
Será que alguém diz: '
se você não pagar, eu vou fazer isto '.
A fortuna que a Argentina paga diariamente ao FMI, se fosse aplicado na saúde pública, na construção de habitações, na luta contra a marginalidade, a Argentina seria um país normal.
Por que isso se dá?
Eu não sei.
Porque Kirchner é uma pessoa progressista.
É uma pessoa como eu e você, não é (Carlos) Menem.
Então, é um momento muito crítico.
Acho que o Lula 'tá passando por uma coisa muito parecida.
Será que alguém telefona para o Lula?
Eu não sei.
Ninguém vai saber.
-- Voltando para o cinema, o senhor 'tá preparando algum novo filme?
-- Estou 'crevendo.
Vai ser para o próximo ano.
Agora, vem a 'tréia do Vereda Tropical em Buenos Aires e vão ser dois meses de trabalho.
Depois vamos ver.
Ano que vem eu quero filmar.
-- Com tanto contato com o Brasil, um filme feito aqui, o senhor já trabalhou com o José Wilker ...
-- O Wilker?
Ele 'tá igualzinho!
O que ele faz?
Eu o vi outra noite aqui e tinha vinte anos que não o via.
Ele 'tá igual.
Será que ele faz alguma coisa?
É incrível!
-- ... com 'sa ligação toda com o Brasil, o senhor faria como Puig, largaria tudo e viria morar no Rio de Janeiro?
-- Eu gosto muito do Rio, mas eu sou muito portenho.
Gosto muito de Buenos Aires.
Eu só posso 'tar aqui num tempo providencial e depois voltar.
Eu não posso ficar longe da Argentina.
Eu gosto de lá, com mil problemas.
Mas eu me sinto bem na Argentina, gosto da minha vida lá.
Gosto de vir aqui-mas ...
Tem aquela piada que diz o inferno tem mulheres maravilhosas, sauna, piano-bar, tudo o que tem de melhor ...
Então, o cara fica uma semana e passa para outra sala.
Em a outra sala, começam a pegá-lo, a fazer coisas horríveis com ele.
E ele diz: '
Mas, vocês disseram que o inferno era aquela outra sala? '
É aquela outra sala é só para turistas.
Agora que você é residente fica em 'sa. '
Número de frases: 316
É assim, não é?
Canudos não se rendeu.
Exemplo único em toda a história resistiu até o 'gotamento completo.
Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram.
Eram quatro apenas:
um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados (
Euclides da Cunha: Os Sertões)
Quixeramobim guarda em seu corpo marcas de homens e tempos ancestrais.
As inscrições em baixo relevo da Pedra do Letreiro testemunham a ação de homens e mulheres que por ali paravam há mais de sete mil anos.
São também memórias e olhares de outro Tempo as pinturas rupestres na Fazenda Guarani, a Casa de Câmara e Cadeia, a luta dos índios Kanindés, os passos de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro.
Em o ano de 2007, com a visita de Zé Celso Martinez, Quixeramobim começa 'culpir no corpo-sertão mais uma marca tão significativa quanto atemporal.
Zé Celso, fundador do Teatro Oficina, gênio da cultura, 'teve na cidade para reconhecer o 'paço que acolherá seu grupo e a apresentação do 'petáculo Os Sertões.
Mais do que reconhecer, Zé deflagrou uma grande luta nacional por o que ele tem chamado (muito apropriadamente) de DESMASSACRE de Canudos.
A os menos íntimos de 'sa tragédia, cabem 'clarecimentos.
O Arraial do Bello Monte, fundado por Antônio Conselheiro e renomeado Canudos por o Exército, foi destruído há 110 anos.
O Arraial tornou-se, em cinco anos de existência, a segunda cidade da Bahia, com 25 mil habitantes.
Sua população era formada basicamente por ex-'cravos, indígenas e sertanejos pobres.
A comunidade constituiu-se como uma linha de fuga para milhares de brasileiros que ousaram romper com o sistema perverso ao qual eram submetidos.
Para destrui-la, foram necessárias quatro expedições militares e um contingente (enorme para a época) de seis mil homens.
A tragédia foi transposta para a literatura por Euclides da Cunha, no épico magistral Os Sertões.
Em a virada para o Séc XXI, Zé Celso devorou-o para o Teatro.
Canudos foi destruída a primeira vez por o Exército com apoio da Igreja Católica;
dez anos depois, foi reconstruída por sobreviventes e sertanejos outros.
A partir da Ditadura de 1964, uma represa viria a ser construída, inundando a segunda Canudos.
A terceira, situada ao lado da represa, existe hoje com uma economia precária.
Mas resiste, como tinha de ser.
Cento e dez anos depois, o 'petáculo Os Sertões surge como um vulcão a reclamar o desmassacre de Canudos.
Em 'se contexto, Zé Celso foi a Quixeramobim.
Foi sentir de onde partiu Antônio Conselheiro, ainda Antônio Maciel.
Foi ver com seus olhos a terra que pariu o maior líder popular da História Brasileira.
E lá, entre 14 e 18 de Novembro próximo, no feriado da República, a arte detonará uma explosão ao contrário da de 1897: Os Sertões!
De Euclides e Zé Celso, do povo e do mundo, de Conselheiro e Dionísio, o 'petáculo prossegue no DESMASSACRE de Canudos, do desejo libertador e afirmativo, do humano em seu mais profundo poder.
A cidade então se preparou para receber o ilustre visitante que chegou com vento da boca-da-noite.
Zé deu entrevistas, fez fotos e, sobretudo, fecundou vida, (mais) sonho e trabalho no Sertão do Ceará.
Seus passos seguiram por o Centro Histórico, pisaram o terreiro do Conselheiro, a residência de Manuel Bandeira até se banharem de noite e luz na Ponte Metálica.
Depois, Zé definiu o local em que será fincado o miolo do vulcão:
o antigo Clube Quixeramobim será o 'paço das apresentações.
Em o Coração do Ceará, o Teatro Oficina demarca o epicentro do Desmassacre de Canudos.
Em o centro do Ceará, depois de girar mundo, os Sertões se encontram com o começo de tudo para transmutar o fim.
E, por tudo o que foi e será, Quixeramobim 'pera todos aqueles que desejam partilhar do banquete iniciado com a visita do Zé.
O 'petáculo acontecerá entre os dias 14 e 18 de novembro próximo.
As marcas, as reverberações, as revolições, a memória, o desmassacre, 'ses ficarão para sempre!
Evoé!
Nota:
Número de frases: 44
A expressão «miolo do vulcão» é de Jessier Qurino.
As artes plásticas foi a primeira expressão reverenciada por a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), na programação 'pecial de outubro, que comemora os 30 anos de criação do Estado.
Depois do sucesso da exposição que foi inaugurada no museu de Arte Contemporânea (Marco), no último dia 2, composta de obras de 30 artistas que representam a trajetória das artes plásticas de Mato Grosso do Sul até os dias atuais, aconteceu ainda no Museu da Imagem e do Som (Mis, uma palestra com o consagrado artista, Humberto Espíndola, primeiro artista do centro-oeste brasileiro que conseguiu projeção nacional.
A palestra aconteceu no último dia 4 e conseguiu dar ao público presente um panorama da história e dos artistas do Mato Grosso Uno e depois da divisão.
Humberto Espíndola é um artista de um senso de humor aflorado.
Iniciou o evento dizendo que não é um palestrante oficial e que 'tava mais acostumado é conversar com turmas de crianças nas 'colas do Estado.
«Eu sempre conto para elas que descobri meu talento, fazendo desenhos com a mangueira d' água, nas paredes do quintal da minha casa.
Em aquela época, Campo Grande era uma poeira só.
As chimbicas levantavam o pó na cidade inteira e o serviço das crianças era limpar o quintal», disse.
Em 1h20, Humberto contou muitas curiosidades sobre a época de sua infância.
Segundo ele, naquele tempo, ninguém 'timulava os jovens a fazer carreira artística.
Havia muito preconceito.
«Ninguém dizia:
Olha como ele desenha bem!
Vai ser artista!
Diziam: Ele vai ser engenheiro!»,
observou. A o contar sobre seu início como artista plástico, lembrou que aos 13 anos foi para São Paulo, capital, para fazer aulas de pintura, pagas por um tio que percebeu seu talento.
«A o entrar na casa do meu mestre, fiquei deslumbrado com todos aqueles quadros que eu via!
Ele era aquele típico pintor de boina e barba branca.
E sempre perguntava o que eu queria copiar», afirmou.
Em 'te momento é que teve suas primeiras aulas de perspectiva.
E depois de fazer seus desenhos, o professor fazia os retoques e finalizava um quadro totalmente diferente.
«Com o tempo não quis mais 'tudar pintura e a partir daí é que começou a nascer realmente o artista Humberto Espíndola», explicou.
E abriu um parêntesis:
«O pior sentimento que um artista pode ter é a vaidade.
Achar que sabe tudo.
O artista tem que ter auto-crítica.
Um trabalho sem auto-crítica, não é nada!».
Depois que volta de São Paulo, teve a oportunidade de ver a artista Lídia Baís pintar um de seus quadros alegóricos, pois apesar de ser uma mulher reclusa, era gentil e simpatizava com os pais de Humberto.
Ele rememorou fatos curiosos sobre a vida de Lídia.
«Em a época que aconteceu a Semana de Arte Moderna de São Paulo, na década de 1920, Mário de Andrade enviou cartas para a Lídia Baís.
Só que naquela época a mulher era muito reprimida.
Em uma cidade de 17 mil habitantes, como era Campo Grande, onde todo mundo morava em volta da igreja matriz, uma mulher artista era considerada louca.
Ela não teve coragem de participar, mas ela poderia ter sido uma Anita Malfatti " lamentou.
Ainda de acordo com ele, Lídia tinha pureza de coração e era uma pessoa muito mística.
Ele sempre a via quando acompanhava a mãe à missa.
Lídia pintou cerca de 100 quadros.
«Ela é principal ícone da nossa cultura.
Alguém que sofreu tanto na mocidade, tem que ter sua obra recuperada», disse Humberto Espíndola.
Após falar sobre Lídia, o artista plástico lembrou de alguns artistas 'trangeiros que vieram para Mato Grosso de 1930 a 1950.
Muitos vieram para a região trabalhar como fotógrafos e depois tornaram-se pintores.
Entre eles 'tavam os 'panhóis Miguel Perez, que montou uma lojinha chamada Fábrica de Quadros na rua Calógeras, e José Hidalgo, que fazia fotografias políticas.
Havia também os pintores Antônio Burgos, Mário Bodis e as pintoras Iná Metelo, Hernestina Carmo e Inês Correa da Costa.
Humberto Espíndola contou também sobre a década de 60, época em que foi 'tudar jornalismo em Curitiba-PR.
Em a faculdade, 'tudou história da arte e voltou a pintar, depois de um longo período sem produzir, desde a adolescência.
Em 'te período, o seu lema era 'candalizar.
Começou a pintar telas de mulheres com grandes olhos, e começou a ser chamado de pintor moderno.
Em 'te momento, é que ele conhece sua futura parceira de trabalho Aline Figueiredo, uma moça rebelde, filha de fazendeiro do Pantanal.
Foi ela quem iniciou um movimento cultural em Campo Grande e teve a idéia de fazer a 1ª Exposição dos artistas Mato-Grossenses.
De 'ta exposição, participaram 17 artistas, entre eles:
Dalva Maria de Barros, o corumbaense Jorapimo e " Ilton Silva Aline Figueiredo sempre foi uma mulher muito persistente.
Para a exposição, ela queria trazer como jurado o diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp), Pietro Bardi.
Só que ele não aceitou o convite.
Mas não dando-se por satisfeita, ela foi bater na porta de nada mais nem menos do que o poderoso Assis Chateaubriant, dono do Masp.
Ela sabia que ele queria descentralizar a arte brasileira e conseguiu convencê-lo a mandar Bardi para ser jurado da mostra», contou.
Além de ele, foram jurados da mostra Parisi Filho e Valdemir Martins.
A exposição aconteceu no Rádio Clube.
O artista Reginaldo Araújo ficou com o 1° prêmio, seguido de Jorapimo e Dalva Barros.
Mas segundo Humberto, 'ta história não teve um final muito feliz.
O diretor do Masp participou da primeira mostra a contragosto e depois fez duras críticas aos artistas mato-grossenses numa das revistas culturais mais lidas na época.
«Esse foi um golpe duro para mim e para a Aline.
Só que fizemos um pacto.
Iríamos 'tudar muito para conseguir realmente sermos artistas que conseguissem representar o Mato Grosso nacionalmente.
Mato Grosso não existia no cenário nacional.
Iríamos começar a 'crever a história das artes plásticas do Estado.
Depois de 2 anos perseguindo 'te objetivo é que consegui criar a série de obras que fala sobre a Bovinocultura.
Em 1967 ganhei o prêmio no salão de artes plásticas de Brasília tendo conquistado os críticos do Rio de Janeiro e São Paulo.
Depois disso, Pietro Bardi até ficou meu «amigo», comemorou Humberto.
Com o reconhecimento nacional, Aline Figueiredo e Humberto Espíndola fundaram a Associação de artistas plásticos de Mato Grosso que reuniu a primeira leva de artistas plásticos mato-grossenses, nos anos 70.
Surgiu em 'sa época, a conhecida Conceição dos Bugres.
Em 'te momento universidades 'tavam instalando-se em Mato Grosso, sendo que a Universidade Federal de Mato Grosso fixou-se em Cuiabá.
Foi criada então a Associação Mato-grossense de Arte que tinha sua sede na UFMT.
Esta associação organizou um museu dentro da universidade que foi um marco para a cultura do Estado.
«Esta iniciativa permitiu uma programação cultural e deu início à formação do público cultural de Mato Grosso», explicou o artista plástico.
Em 1977, ocorre a divisão do Estado e inicia-se um movimento cultural idealizado por Henrique Spengler para buscar-se uma identidade para o " Mato Grosso do Sul.
«Para encontrar uma identidade, o artista tem é que trabalhar, produzir muito», observou Humberto.
A partir deste movimento aparecem nomes como Jonir Figueiredo, Miska, Lúcia Barbosa, Nelly Martins, Teresinha Neder, Áurea, Ana Ruas, Ana Carla Zahran, Thetis, Lu Sant ' ana, Genésio Fernandes, Carlos Nunes, Vânia Pereira, Neide Ono, José Nantes, Fernando Marson, Roberto Marson, Juracy, Cecílio Veria, Isac Saraiva, Elis Regina Nogueira, Irani Brum, Bucker, Heron Zanata e Ovini Rosmarinus, que buscavam a afirmação da arte sul-mato-grossense em diversos salões de arte brasileiros.
Humberto Espíndola afirmou que nos salões são doadas muitas obras, sem critério algum.
Tem muita porcaria também, mas as premiações valorizam os artistas e formam a base dos acervos históricos».
Uma das funções da arte é criticar a sociedade, mostrar o que não querem ver.
A arte lê o pensamento de um período histórico.
O artista deve refletir seu meio ambiente.
A obra tem que ter força social, durabilidade.
Humberto apontou Evandro Prado, Douglas Colombelli, Priscila Paula Pessoa e Patrícia Rodrigues como a última geração de artistas que vêm apresentando um trabalho crítico para a sociedade de Mato Grosso do Sul e dão força para a arte Sul-mato-grossense.
Após discorrer sobre a história das artes plásticas, o palestrante falou ainda sobre a influência da arte dos países que fazem fronteira com o Estado.
«A arte que se faz hoje nos países fronteiriços tem uma alma semelhante no colorido e na quantidade de elementos.
Deveria-se ser feito um projeto cultural no centro da América do Sul, já que existem muitas semelhanças musicais e artísticas entre os povos da região.
Em a rota cultural entre Assunção, Pedro Ruan Caballero, La Paz e Campo Grande existe um público latente de cerca de 5 milhões de pessoas que não pode ser desprezado.
Mas os artistas não olham para o interior e preferem depender do eixo Rio-São Paulo.
Devemos criar um circuito interno, encadeado e independente».
Ainda segundo o artista Humberto Espíndola, os artista sul-mato-grossenses acostumaram-se com seu isolamento.
E para agravar 'ta situação, afirmou que existem salas e 'paços culturais, mas não existe o financiamento de projetos para a circulação das obras.
Mas lembrou da contribuição que o Festival de Inverno de Bonito e o Festival América do Sul vêm dando às artes plásticas ao fazer o intercâmbio e divulgação de artistas.
«Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, atualmente 'tão empatados na produção de artes plásticas de maneira harmoniosa.
O problema da identidade não existe.
A gente tem muita coisa a fazer para a composição da arte sul-americano.
Temos um papel muito 'pecial na América Latina.
Número de frases: 97
Os políticos têm que ter consciência disso, finalizou Humberto Espíndola.
Milênios antes do engenho humano tê-lo tornado possível, nosso velho sonho de voar como os pássaros ganhou a forma de uma lenda, na Grécia antiga.
Histórias como a de Ícaro anteciparam e mobilizaram a vontade de um número incontável de pessoas ao longo das eras, servindo ora como fonte de inspiração ora como alerta.
De certa maneira, a ficção científica pode ser considerada sucessora de 'sa linhagem de narrativas mitológicas, com o diferencial de ter substituido a intervenção dos deuses por uma dose -- em alguns casos, ligeira pitada -- de empreendedorismo humano e de conhecimento aplicado.
Um exemplo prático desse moderno cânone mitológico foi o primeiro livro de um dos desbravadores do gênero literário:
A máquina do tempo, de H. G. Wells.
O 'critor inglês fundou um novo mito quando fez seu Ícaro anônimo desafiar não os céus mas aquilo que chamou de quarta dimensão, numa viagem ao futuro.
A idéia por trás da obra de 1895 permanece como referência a gerações de 'critores do mundo inteiro e, no Brasil, curiosamente, tem servido como porta de entrada para debutantes da FC.
O Universo Intempol é um caso exemplar, pois surgiu no conto de 'tréia de seu criador, Octavio Aragão, e logo se tornou a oportunidade para lançar vários iniciantes, como Jorge Nunes.
Fora daquele ambiente, time travel também vem sendo o mote dos romances de outros viajantes.
Assim foi com Osíris Reis e o capítulo inicial de sua saga, Treze milênios, e é assim com o objeto de atenção deste texto, o primeiro romance do paulistano filho de húngaros Tibor Moricz.
O título do livro, lançado na primeira metade de 2007, já remete àquela idéia da ancestralidade das antigas mitologias na árvore genealógica da ficção científica:
Síndrome de Cérbero.
Esse é o nome do cão monstruoso que vigia a saída de Hades, a terra dos mortos, nas lendas gregas, um ser que enfrentou o herói Orfeu e o semideus Héracles -- ou, Hércules, para os latinos.
Em a capa da obra, numa pintura de William Blake -- curiosamente não creditada em parte alguma da publicação -- a criatura aparece na forma mais conhecida, com as três cabeças prontas para destroçar quem tentasse fugir do destino pós-vida.
A explicação para se evocar a besta-fera só vai chegar ao leitor na página 280, quando faltam pouco mais de 50 para o fim do texto.
O protagonista da obra, narrador da trama, queixa-se de seus azares:
«Por que eu?
Estou mergulhado em 'sa sopa de impressões até o pescoço.
Vivo às portas do inferno, enlouquecido por a inconstância e por a dúvida.
Nem dentro nem fora.
Sinto-me como Cérbero.
Não serei eu a viver deslocado da realidade?
Uma pessoa à margem da história?
Afastado da verdade, uma sombra?».
Só que não é ao reino de Hades que 'se Cérbero involuntário 'tá subordinado.
Pode-se dizer que o destino de ele se perdeu nos domínios de Chronos, aquele que, na mitologia grega, personifica o tempo, um ente que já existia antes mesmo de surgirem os primeiros titãs, deuses ou humanos.
Vamos ao enredo para tentar entender o porquê daquele desabafo shakespeareano feito por o protagonista quase ao fim da jornada.
Antes de mais nada, o nome do personagem em questão é Leonard Cameron e não, ele não é brasileiro.
A história contada em Síndrome de Cérbero, apesar de começar numa data de forte simbologia para o Brasil -- em «algum dia de abril de 1964», coincidindo, portanto, com o primeiro sinal da última ditadura que vivemos em 'te país -- se passa inteiramente nos Estados Unidos.
O início ocorre, mais precisamente, no dia 18 de abril de 1964, numa pequena cidade do 'tado de Massachussets, chamada Greenville.
Durante um piquenique em família, quando ele contava com dez anos de idade, um acontecimento marca o fim da infância de Leonard.
O rapaz presência o assassinato do pai, Robert Cameron, um político progressista com boas chances de se tornar senador, morto com um tiro na testa desferido por um criminoso nunca descoberto.
Além de político em ascensão, Robert era o ídolo máximo do filho.
Testemunhar o crime marca de tal forma o garoto que o mundo de ele começa a perder o sentido na mesma hora.
Ao longo de toda a narrativa, de modo obsessivo, a mente de ele sempre divaga e retorna ao mesmo ponto, àquela primeira década de vida feliz ao lado da figura paterna.
Leonard Cameron tem uma chance de realmente voltar fisicamente àquele período do tempo, muitos anos depois do atentado.
Em fevereiro de 2004, já com 50 anos, leva uma existência banal, sem amigos, sem amantes, sem parentes.
Depois de se formar de modo não muito brilhante em física por a Universidade de Yale, conseguiu emprego numa instalação particular de pesquisa no 'tado de Connecticut.
Como superintendente de Operações da Fundação Leicester, surge a oportunidade de acompanhar e de favorecer com relatórios positivos -- algo que representa verbas mais generosas e maior liberdade de ação -- certo experimento de um dos cientistas da instituição, Barnard Caldwell.
Trata-se de um equipamento que, aparentemente, permite deslocamentos no tempo com o vetor oposto ao da máquina imaginada por Wells no século XIX, sempre para o passado.
Uma rápida explicação para o funcionamento do maquinário é dada na página 29.
«Para facilitar, a descoberta final foi a seguinte:
o tempo não é linear.
Ele se comporta como uma corda com suaves ondulações.
Barnard chamou cada ondulação de arco», simplifica Leonard e complementa a seguir:
«Imagine uma reta imaginária cortando 'sa corda no meio.
Teremos vários arcos, cada qual com uma extensão de tempo definida.
Cada extensão de tempo exatamente igual a 28h17 m06s.
Ou seja, qualquer coisa que volte ao passado, ocupará um dos arcos na corda de tempo de milhões de anos de nosso planeta».
Com isso, foram abertas as portas para o atormentado Cérbero desafiar a lógica paradoxal de Chronos em sucessivas viagens com o objetivo de salvar Robert Cameron e mudar o próprio destino.
Os efeitos colaterais não demoram a surgir.
Alguns são puramente fisiológicos e, relativamente, fáceis de se contornar:
após cada deslocamento, a cobaia humana perde grande quantidade de líquidos corporais, sofre de sensibilidade à luz e fica bastante desorientada.
Outras implicações são mais complicadas de se descrever e bem mais graves.
Além de emprestar certo ar sobrenatural a várias passagens do livro -- mesmo que existam explicações racionais, ligadas à física de partículas -- elas conseguem tornar a existência de Leonard cada vez mais miserável.
Porém, por mais bem conduzidas que sejam as jornadas físicas ao passado, as mesmas que fazem a alegria dos fãs de FC, o grande curinga do livro 'tá nas reminiscências do protagonista.
A todo momento, mesmo em meio à mais fantástica experiência científica já realizada, a consciência do homem sempre volta a divagar por aquele período de seus primeiros 10 anos de vida, juntando peças e dando pistas falsas sobre acontecimentos dos quais os leitores acompanham desdobramentos cada vez mais complicados.
O autor se revela muito competente em 'te jogo de idas e vindas na narrativa e no tempo.
Talvez o melhor exemplo 'teja na abertura, no prólogo que antecede os curtos capítulos da obra.
Em aquelas 30 primeiras páginas, os momentos em que o narrador descreve pequenos detalhes de sua infância são carregados de impressões táteis, olfativas, gustativas, visuais e auditivas:
a travessura com uma bicicleta, a última pescaria com o pai, os primeiros momentos do piquenique trágico, a posição do vento, a altura da grama.
O contraste fica evidente com o desdém insensível, inodoro, insípido, translúcido e taciturno com que são comentados os eventos após a morte de Robert:
a adolescência solitária, a primeira transa, a vida universitária, o emprego aborrecido e mesmo a dinâmica por trás da viagem no tempo.
Ao longo das páginas, há outros bons exemplos desse controle narrativo seguro e eficiente que ajudou a dar forma a um dos mais bem construídos personagens da ficção científica nacional, dono de uma série de camadas de vida interior e de mudanças de humor que o tornam excepcionalmente crível.
Contudo, se o destaque fica para o lado psicológico de Leonard, a parte mais dinâmica também é uma atração e tanto.
Por força das circunstâncias, no vaivém cronológico, ele é forçado a entrar em ação a todo instante, a se meter em lutas corporais, perseguições, fugas e afins, apesar de ser uma pessoa reconhecidamente fora de forma depois de meio século de ócio improdutivo.
A sequência em que ele invade uma propriedade murada é 'pecialmente digna de atenção e, provavelmente, carrega algo de auto-ironia, uma vez que a criatura é apenas cinco anos mais velha que seu criador, nascido em 1959.
Tibor Moricz se mostra um ótimo 'critor em 'sas pequenas partes que formam o seu romance de 'tréia.
Não é de se 'tranhar que ele, um publicitário na metade profissional de sua vida, tem recebido prêmios por narrativas mais curtas.
Dois de seus contos de temática FC já levaram honrarias que prestam homenagem a autores consagrados do gênero.
Em o XI Concurso de Contos de Araraquara -- «Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, Ordem Crepuscular» -- história de ambientação 'pacial à Jornada nas 'trelas -- foi uma das vencedoras.
De a mesma forma, um exercício de estilo também sobre questões temporais, «Filamentos iridescentes», ganhou o I Prêmio Braulio Tavares, promovido por a maior comunidade em língua portuguesa dedicada à ficção científica do Orkut.
Em o conjunto de capítulos que formam o romance de 332 páginas, o autor também se sai bem, já que mantém um domínio da trama que, em mãos menos habilidosas, poderia fazer daqueles arcos e cordas temporais um verdadeiro nó cego.
Pelo menos na maior parte do tempo.
Quase ao final da obra, quando chega o momento de aparar as pontas dos paradoxos cronais e da parte policial, algo acaba sobrando.
Apesar de um personagem prometer que «nada ficará sem justificação», pelo menos uma pergunta se mantém sem resposta e dá a impressão de que 'te mesmo personagem, por as regras do jogo, sabe mais do que deveria.
É como um gol de mão em nosso time aos 44 do segundo tempo.
A rigor, poderia ser uma deixa e tanto para um próximo livro e o enredo de Síndrome de Cérbero se prestaria perfeitamente a uma obra derivada, contada sob um outro ponto de vista, resultando em algo ao mesmo tempo complementar e com vida própria.
Material assim já foi feito na literatura de FC por o americano Orson Scott Card, em sua saga de Ender;
ou ainda, para ficar no subgênero da viagem no tempo, em certos momentos da trilogia cinematográfica De volta para o futuro.
Resta saber se 'ta é mesmo a intenção do autor e, claro, se o mercado nacional 'taria maduro o suficiente para 'se tipo de franquia.
Fora isso, 'caparam alguns deslizes no texto que não resistiriam a uma revisão mais rigorosa.
A maioria dos casos é de redundâncias, como aquele «imagine uma reta imaginária» do trecho citado páragrafos atrás.
Mas há mais, há olhos que olham, pilhas de coisas empilhadas, elos que fazem ligação, pessoas certas de suas certezas, quem encara algo de frente e sobe em cima de algum objeto.
Nada que comprometa o prazer de se ler uma boa trama bem contada, todavia são detalhes que poderiam ser resolvidos facilmente na edição.
Mas a editora responsável por o lançamento -- JR, mais conhecida por trabalhar com publicações 'píritas -- também tem seus méritos por publicar uma obra muito bem acabada, com diagramação e tipologia agradáveis.
Ficam registradas a ausência do crédito da pintura de capa e uma sugestão para aumentar a gramatura das páginas:
num livro repleto de paradoxos e de pistas 'palhadas por o texto, virar e revirar as folhas é uma necessidade constante.
Quando elas são muito finas, como em 'te caso, acidentes tendem a acontecer ...
Tibor Moricz, apesar de ter se lançado tardiamente ao mercado -- nos textos de apoio do livro, informa-se que ele 'creve desde a adolescência, mas vinha resistindo a publicar seu material --, mostrou-se uma ótima contribuição à FC nacional e ainda promete outras obras para breve.
A mistura de viagem no tempo, aventura policial e romance psicológico tornam Síndrome de Cérbero um dos livros de literatura fantástica mais interessantes lançados em 'ta última, e produtiva, década no país.
Quanto aos apaixonados por aquela neomitologia fundada por H. G. Wells, há pouco mais de 110 anos, 'ses ganharam uma nova obra para influenciar mais sonhos que envolvam desafios aos limites impostos por Chronos.
Sonhos que vão continuar enquanto ciência e tecnologia não os tornarem realidade, como elas fizeram com nosso desejo de voar.
A vantagem é que isso até pode demorar outros tantos milênios, a exemplo dos que separaram a lenda de Ícaro da invenção do avião;
afinal, no caso das viagens no tempo, alguns milênios a mais ou a menos não representam nada no fim.
Serviço:
O livro pode ser comprado virtualmente na Saraiva, Cultura, Fnac e Cia dos Livros.
O preço normal é R$ 38 reais, mas ele 'tá em promoção por R$ 24,50 no www.submarino.com.br
Este texto encerra um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretendeu traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
Número de frases: 100
A 2ª edição da Revista Beleza Pura!
já 'tá no ar e vai provar que mentir faz bem.
A mais nova revista eletrônica do Rio Grande do Norte, Beleza Pura!,
'tá com sua segunda edição no ar.
Esse mês ela traz como matéria de capa uma discussão científica sobre um dos nossos hábitos mais comuns, mentir.
Descubra como funciona o cérebro dos mentirosos e como é possível identificar a mentira.
Além disso, a revista traz o resgate lúdico da cultura popular na sessão «Colcha de Retalhos» relembrando as antigas Cantigas de Roda;
contagia o leitor com a crônica " Em o 'curinho do cinema ";
orienta sobre a importância do reconhecimento dos 'paços interiores de cada um na Coluna " Divã da Flor ";
e debate as perspectivas de uma nova área de conhecimento em entrevista com Sônia Maia, Coordenadora do Curso Superior de Lazer e Qualidade de Vida do CEFET-RN.
Em as colunas Jeito Feminino e Jeito Masculino, dois temas que vão mexer com os leitores:
a feminilidade feroz da mulher na lua cheia e o dilema da infidelidade conjugal.
Lançada em março deste ano no site www.cantinhodaflor.com/belezapura, a revista é formada por uma equipe de profissionais 'pecializados na área de Qualidade de Vida e tem a proposta de oferecer um conteúdo leve e agradável, que vá além de uma simples leitura, mas que possa contribuir para uma verdadeira melhoria no modo de vida dos leitores.
Mais informações:
Flor Atirupa
Número de frases: 15
floratirupa@cantinhodaflor.com http://www.cantinhodaflor.com A revista Tarja Preta prometia ser libertária quando surgiu, na forma de um fanzine muito tosco (que, na verdade, é um seqüela de outro fanzine, chamado Cucaracha Zine), em abril de 2004.
Afinal, desde os tempos de Mil Perigos e Dum-Dum, duas publicações hoje extintas, não se via uma reunião de talentos tão criativos para os quadrinhos nacionais.
Criativos e com o compromisso (ainda que nunca formalizado) de não se comprometerem com o que já existia antes de eles.
Sediada no Rio de Janeiro e capitaneada por Matias Maximiliano Acevedo, mais conhecido por o público leitor como Matias Maxx, Tarja Preta não tem pudor algum e fala do assunto que for, do modo que for, consciente de que sua consciência 'tará limpa ao fim da edição.
Os quadrinhos e textos se sucedem de modo vertiginoso, ao mesmo tempo em que a qualidade de cada número melhora.
Pois se, na 'tréia, a revista era impressa em papel jornal vagabundo e apenas em preto e branco, logo na edição seguinte a capa já tinha uma segunda cor.
Em o quarto número, surpresa:
o papel da capa já era branco e brilhante, sinalizando que a revista 'tava vendendo, tinha achado o seu público e que 'te queria mais.
O que importa, no entanto, é a revista sair.
Mesmo porque os autores não ganham um tostão para fazer a Tarja Preta, fazem mesmo é porque gostam de quadrinhos.
E não são quaisquer quadrinistas:
no time 'tão, além de Maxx, relativos veteranos (como Allan Sieber, MZK, Schiavon e Adão Iturrusgarai) e nomes recentes (como Dúnia, Danilo e Leonardo).
Pessoas como eles garantem a qualidade da publicação, que é assumidamente incorreta e polêmica.
Podemos dizer, por exemplo, que a revista trata muito sobre, digamos, agricultura.
É que o personagem-símbolo da publicação, o Capitão Presença (criado por Arnaldo Branco e em cada edição reinterpretado por diversos artistas), é um super-herói adepto do cigarrinho de cânhamo, pronto para ajudar aqueles que necessitem de alguma ajuda em horas de aperto.
Cada edição também é recheada com diversos textos sem temática definida, que podem versar tanto sobre música como sobre o Fórum Social Mundial.
A mistura -- sexo, drogas, rock ' n ' roll e algo mais -- funciona justamente porque o aspecto anárquico da publicação abre 'paço para que todo tipo de opinião.
E, é claro, isso torna a revista também heterogênea.
Portanto, quem procura uma publicação sem altos e baixos, uniforme, que agrade do começo ao fim, 'queça.
Ela pode mesmo agradar, mas não é por conta de uma visão plana do humor.
Porque, no fim das contas, é disso que se trata:
uma publicação extremamente bem-humorado, na boa consigo mesma.
Por conta desse bem 'tar é que Tarja Preta não possui periodicidade definida.
Apenas em fevereiro, por exemplo, foi lançada a quinta edição da revista.
É um modo de fazer com que o leitor não se canse, de que as idéias se renovem, de que os artistas envolvidos não se sintam pressionados com prazos e, sim, criem material para a Tarja com a cabeça fresca, quando puderem, como puderem.
Além, claro, de sinalizar que uma nova edição só sairá se se tiver algo para ser dito -- afinal, 'ta é a lei tácita de todos os fanzines.
A revista é saudada também por a crítica.
Pudera: hoje em dia, ela é a publicação nacional mais barata do mercado, custando apenas dois reais e tendo 96 páginas (originalmente, tinha 64, mas ela ' engordou ' sem custo adicional para o leitor, o que é louvável num país que aumenta preços a cada 'peculação econômica).
Número de frases: 28
Geralmente lançada em festas, Tarja Preta também tem um site (http://www.cucaracha.com.br/tarjapreta), no qual há informações sobre a origem do projeto, blog e também como adquirir as edições da revista.
Agora que descobri o Overmundo, achei um local adequado para publicar também minhas elucubrações.
Como jornalista, costumava 'crever todos os dias e ver as matérias publicadas na manhã seguinte.
Ou, produzia para o noticiário da TV Morena e via as matérias no ar no mesmo dia.
Hoje, tenho contribuído para sites 'trangeiros, em inglês, e nada de português.
Por isso, decidi começar de novo em 'te meio eletrônico que chega aos quatro ventos.
Vou recordar como comecei vim a ser músico profissional.
Foi no final da década de 60.
Em 67, depois de quase sete anos de seminarista, no Paraná e em Pindamonhangaba, voltei a Campo Grande e procurei logo o que fazer.
Minha família morava na rua Dr. Arlindo de Andrade, do outro lado do córrego e paralela à hoje chamada av..
Ernesto Geisel (detesto ver ruas e avenidas com o nome de energúmenos da ditadura militar), e o vizinho do lado direito era o mestre Mauro, reformado como maestro da banda do exército, um mulato nordestino alto e gordo que tocava saxofone alto.
Ele era perfeito no instrumento como o nosso mestre Assis.
Lia tudo, 'crevia arranjos e tinha um sopro lindo.
Convidou-me para integrar a banda de ele como contrabaixista.
Jogou na minha mão um «baixo de pau» paraguaio, de três cordas, coisa que eu nunca tinha tocado antes.
Eu já tocava violão e trumpete e lia razoavelmente bem (hoje não gosto de tocar lendo porque, aos 59 anos, preciso de óculos e é bem chato.
Prefiro decorar logo).
O repertório eram músicas de baile, em arranjos distribuídos por a SBACEM.
A banda era formada por dois saxofones, um tenor e um alto, um trumpete, baixo, bateria e cantor.
Minha primeira apresentação foi no puteiro mais importante da cidade, o da Mara (na, hoje, Joaquim Murtinho, quase 'quina com a Fernando Corrêa da Costa), que 'tava aniversariando.
Os caras da alta sociedade 'tavam presentes.
Em aquela época, os fazendeiros e ricões levavam as mulheres ao Rádio Clube e, depois, iam se divertir na Mara, que tinha só mulheres de primeira qualidade.
Recém saído do seminário e ainda virgem, foi um tormento tocar o contrabaixo entre minhas pernas enquanto via aquela profusão de garotas sensuais rebolar nos braços dos figurões.
Mas tive a minha primeira paga como músico.
Fiquei com mestre Mauro alguns meses até ser convidado por o sargento Loureiro, guitarrista, para tocar mais vezes e com melhor cachê na União dos Sargentos, ainda contrabaixo, mas elétrico.
De aí, Antônio Mário, o band-leader da banda do Rádio Clube, me convidou para tocar com ele.
É que meu irmão Virgílio, que tocava contrabaixo, havia se mandado, deixando para trás meu outro irmão, Mário, que tocava guitarra-base.
Fui. Foi interessante.
Eu era uma 'pécie de coringa, porque, além do contrabaixo, eu tocava também guitarra-base e o trumpete.
Por isso, podia fazer naipes com o saxofonista Agapito.
Logo eu já 'tava trabalhando como jornalista, tendo começado no Jornal do Comércio, dos padres salesianos, e passado para o Diário da Serra, e como professor de inglês do Yázigi Method, e do Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.
Quando entrei para a Faculdade de Direito (Fucmat), ficou difícil continuar tocando todas as quintas-feiras e sábados.
Um primo meu, o Roberto Lara, já havia assumido o contrabaixo no Rádio Clube.
De aí vieram os Festivais de Música de CG, organizados por a professora Maria da Glória Sá Rosa, nos quais tive intensa participação nas três edições, e o Teatro Universitário Campo-grandense (TUC), no qual participei de quatro peças.
Em agosto de 1970, fui embora, como bolsista da Inter-American Press Association, 'tudar na Universidade do Texas em Austin.
E isso é outra história.
Eu só voltaria a morar em CG em 1989 ...
Número de frases: 37
O cantor e compositor Odair José anda eufórico nos últimos meses.
Está lançando Só Pode Ser Amor, disco de nº 32 da trajetória de ele.
É uma aposta de retomar a carreira de forma mais 'truturada e 'tá saindo um mês depois de chegar às lojas uma homenagem vinda do rock independente com convidados ilustres do pop nacional, como Paulo Miklos, Zeca Baleiro, Pato Fu e outros (Vou tirar você desse lugar -- tributo a Odair José, Allegro Discos).
Odair desmancha-se em elogios 'pecialmente ao que fizeram das músicas de ele o grupo mineiro Pato Fu e o titã Paulo Miklos, que cantou a faixa-título do tributo.
Os discos têm servido também para uma nova e mais profunda revisão crítica da obra desse goiano de Morrinhos que passou à história como cafona.
Ou deixou de passar à historia, na visão do historiador Paulo César Araújo, que 'creveu um livro analisando artistas como Odair e sua época, os anos 70, um tempo de rito de passagem na ordem política e social do Brasil (Eu Não Sou Cachorro Não -- Música popular cafona e ditadura militar, Editora Record).
Em a longa conversa que teve com Overmundo, por telefone, de sua casa na Granja Viana, refúgio dos artistas na capital paulista, Odair José reavaliou a carreira, mostrando-se feliz com a volta ao circuito musical ancorado na indústria do disco.
O inevitável rebobinamento de sua criação serve de mote também para Odair José atacar a postura da crítica musical.
Diz que o termo brega «nunca» o incomodou porque foi inventado na última década para 'tigmatizar o que 'taria fora da órbita pessoal dos críticos.
Falou como foi ficar afastado da mídia nos últimos anos, a volta aos poucos à cena (poucas e 'colhidas vezes, por exigência própria, diz), relembrou passagens marcantes de ele e de seus pares da MPB e anunciou ainda a intenção de gravar um DVD.
Confira os principais trechos da entrevista:
Como é receber uma homenagem de 'sas de uma geração que praticamente não conhece sua carreira?
A primeira reação foi de susto, saber que queriam fazer 'se tipo de coisa.
Eu não pensava que a obra merecesse tanto.
Principalmente porque é uma releitura por quem foi feita.
Segundo, me senti muito lisonjeado.
De certa forma, é um passo a mais dentro do trabalho da gente.
Veja bem, queiram ou não, vai ser sempre uma coisa nova para 'se público que não conhece, como você disse, o trabalho do Odair José.
Isso aí não é o todo;
são quase 500 músicas gravadas, mas já é alguma coisa né?
É um recorte interessante.
Fico surpreso por exemplo com o que o Pato Fu fez com Uma Lágrima, que é parte da minha ópera-rock.
Você conseguiu fazer 'sa ópera-rock como queria?
Porque ela não teve muito sucesso à época ...
Como queria fazer a gente não consegue ...
Isso foi um disco lançado por a BMG, por volta de 79, o que já foi um erro porque era para ser um álbum duplo e saiu em dois discos separados.
Quebrou o conceito, da ordem da coisa e tudo.
Mas a gente fez teatro, fiquei um ano fazendo teatro com uma produção do Guilherme Araújo.
Foi mesmo um grande sucesso, diria até que foi um fracasso.
Mas a nível de mídia na época foi bom, saiu muita coisa.
Nem tanto positiva porque as pessoas achavam que o Odair José não devia fazer aquilo.
Mas eu fiz mais como uma coisa de músico, o músico queria fazer.
Os seus fãs não entenderam?
Porque hoje 'se disco é relíquia, não?
Em a época foi «pô, por que ele foi fazer isso?»,
não entenderam.
Acharam que eu 'tava querendo jogar fora aquilo que era o popular, como se diz, a coisa simples, popular, para tentar atingir uma coisa mais sofisticada, o que nunca passou por a minha cabeça e nem o trabalho da ópera-rock era sofisticado.
Aliás, ópera-rock foi um nome que era apelido de eles, dos jornalistas, porque para mim ele chamava-se apenas O filho de José e Maria e nada mais.
Eu nunca disse que era uma ópera-rock.
Eu gostava até mais do nome original, tem mais a ver com as histórias de bordel.
Em a verdade, é uma história cantada em música do princípio até o fim.
O seguimento da vida de uma pessoa.
E 'sa releitura do tributo com o Pato Fu, que gravou Uma lágrima, achei fantástica.
Seu novo álbum 'tá saindo por uma gravadora de médio porte, o que significa isso na sua carreira agora?
Significam quatro obras.
Porque tem um DVD no meio.
Esse novo disco é um trabalho que lembra muito aquilo que as pessoas de um modo geral identificam no Odair José.
É o primeiro disco que 'tá saindo por a Deckdisc por um contrato de três anos.
Este DVD será lançado 'te ano?
Olha, eu já deveria até ter feito um DVD, porque DVD já faz parte do mercado faz tempo.
E eu não fiz exatamente por isso, para fazer, tem que fazer direito.
Tudo na vida tem que procurar fazer direito.
Eu nem sempre consegui fazer as coisas muito direito, com 'sa preocupação.
Mas agora, no contrato, a empresa colocou isso como risco de contrato, vai se fazer.
Não sei quando, mas vai fazer.
Agora, o disco 'tá saindo agora, saiu promocionalmente, parece aí que para o final de janeiro, princípio de fevereiro, o pessoal 'tá correndo com um CD promo.
E você volta lançando um disco com poucas músicas próprias, por quê?
Eu só tenho duas músicas no disco.
Por incrível que pareça, pela primeira vez eu só tenho duas músicas minhas num disco meu.
Tem composto pouco?
Não exatamente, eu sempre fui um compositor que canta.
Eu me considero mais um repórter musical do que compositor.
Eu faço a reportagem e devolvo aquilo em nível de melodia.
Mas em 'se disco eu só gravei duas porque eu ouvi muita coisa.
E de repente as coisas que eu 'tava ouvindo tinham mais a ver com as coisas que a gente queria do que as que eu 'tava 'crevendo.
Quer arriscar um repertório diferente do seu?
Não, o disco 'tá muito a minha cara, mas é que lancei discos nos últimos anos que deram muito certo.
Fiz um junto com Os Fevers em 99/2000 e depois o Passado e presente, que tem seis canções inéditas que acabaram não tendo a repercussão que elas mereciam, acho.
Então tem coisa de dois anos que eu não gravava nada inédito.
O que tem no mercado é muita coletânea minha.
Eu quis um lançamento novo porque as coletâneas são muito repetitivas, o repertório é sempre o mesmo.
Engraçado, eu tenho mais de 400 músicas gravadas e os caras repetem sempre aquelas vinte músicas em coletânea.
É uma tristeza.
Os seus primeiros discos 'tão em poder de qual ou quais gravadoras?
De a CBS, que hoje virou Sony-BMG.
Tomara que junte tudo numa só, que fique tudo num lugar só.
Mas muita coisa disso não 'tá reeditada, imagino.
Pois é.
A gente tem conversado ultimamente sobre a hipótese de lançar isso em caixa.
Fazer um acordo com a empresa.
Em a verdade, o meu trabalho 'tá na Sony, na Universal, na EMI, alguma coisa na Som Livre e na Warner.
Mas aí é mais complicado de negociar por serem gravadoras diferentes, não?
São, mas eu tenho umas pessoas que 'tão pensando em fazer uma caixa no original.
Eu acho complicado, mas é bom.
Porque o original, pelo menos umas 100 ficaria bacana lançar em caixa, mas lançar no original, como foi gravada.
Tem de ver se ainda se consegue convencê-los disso.
Como foi para você manter a carreira afastado da mídia nos últimos anos?
O negócio da mídia funciona assim:
a gente faz televisão, toca o disco no rádio, o rádio realmente toca aquilo que ele acha que deve tocar.
Você não pode mudar isso.
E a gente, depois de certo tempo, eu 'tou aí com 35 anos gravando, trabalhando, você não pode ficar todo ano ali «olha, eu tô aqui de novo».
Em o meu modo de ver, acho que chega uma hora em que a pressa e a quantidade não são importantes.
Eu acho que chega uma hora em que você até cansa as pessoas do que você faz, da sua imagem.
Eu pelo menos penso assim.
Eu nunca vi o disco anual como uma regra.
Acho que você pode ver até a fazer como eu fiz, todo ano um disco em determinada época.
Mas acho que ele pode vir a ser de dois em dois anos, por que não?
Acho que você tem de fazer quando tem um produto bom.
E 'se período fora de mídia, você até é convidado.
Eu mesmo às vezes não vou porque acho que não tenho nada para fazer lá.
Você tem recusado convites de TV?
às vezes sim.
O que eu vou fazer lá?
Cantar A Pílula?
Isso eu não tô a fim de fazer.
O dia em que eu tiver alguma coisa que eu acho que valha a pena ir, eu vou.
O disco novo entra em 'se caso?
É ...
a gravadora vai correr atrás, eu vou correr atrás.
O Tributo ao Odair José é uma coisa móvel.
Que eu de repente 'tou sendo convidado para ir e eu vou.
Talvez com uma pessoa ligada ao projeto, uma banda, enfim, fazer uma pescada, como eu me identifico melhor e de repente fazer um show junto com o pessoal.
A mídia é um pouco disso, na minha cabeça você tem de ter um motivo para você 'tar na mídia, até porque a própria mídia acho que funciona melhor de 'sa forma.
Um disco como 'se recoloca em discussão o tema do brega, o que acha disso?
Eu vejo, eu leio, até entendo que exista o negócio, 'se tipo de composição, de músico, de cantor como queira, que faz um trabalho menor e tal, acho que isso sempre houve.
E como o [historiador] Paulo César coloca no livro de ele [Eu não sou cachorro não -- Música popular cafona e ditadura militar], e também no negócio que ele 'creveu aí no encarte do tributo, existe uma valorização maior às vezes de determinados tipos de música, a música mais trabalhada.
A MPB que eles falam existe, mas eu, quando fiz sucesso, nunca reparei em 'se negócio de ser brega ou não.
Não sei se porque o que eu sei fazer é isso, é o que fiz em minha vida toda e é o que eu gosto de fazer.
Não quer dizer que eu não goste de outras coisas.
Eu sempre ouvi muito de tudo.
De clássico a rock, baião, moda de viola, mas não quer dizer que o fato de você ouvir faça você ter capacidade para fazer.
Acho que o grande talento do ser humano é procurar fazer aquilo em que ele realmente é competente.
Esse termo o incomoda?
Não, não me incomoda.
Nunca incomodou?
Não, porque ele não existiu sempre.
Esse negócio do brega, para mim, na verdade, é um adjetivo novo, de dez anos para cá ...
Recente?
É, na minha época não tinha isso.
Como assim?
Não, eles usavam, as pessoas falavam, mas eram mais termos como «cafona», os adjetivos eram diferentes.
O adjetivo na verdade, no meu modo de ver, ele prevalece, ele define para quem 'tá dando o adjetivo, quem 'tá adjetivando a coisa, então é você que 'tá dizendo.
Aquilo que você 'tá se referindo como brega, pode não se achar.
O brega, na verdade, foi dado como uma coisa de mau gosto.
Em a verdade, não é.
É pejorativo.
O brega tem mais aquela coisa do puteiro, não é verdade?
Eu acho que nasceu um pouco daí.
O que é o puteiro?
Eu vou lá no «brega», o brega aqui era um puteiro, a zona.
E que tipo de música se consome naquele ambiente?
Ah, o Odair José toca muito lá.
Ah, então, o Odair José é brega.
Acho que veio um pouco disso, de 'sa associação.
Depois ficou a coisa do gosto, o brega é o mau gosto.
Gosto é o gosto de cada um.
Eu acho que a associação do brega vem daí.
E não me incomoda.
Aquela música Eu vou tirar você desse lugar fala de uma prostituta.
Se a gente for analisar do ponto de vista histórico, temos artistas hoje que foram enormes sucessos na década de 70 e que no entanto são execrados por a mídia.
Zezé Di Camargo e Amado Batista atualizariam 'se raciocínio?
Quando eu cheguei ao Rio de Janeiro, saí de Goiânia e fui para lá porque era assim que funcionava.
Ainda hoje é um pouco assim.
Hoje já se permite você fazer o sucesso e morar em Goiânia.
Aliás, eu morei um tempo aí e não devia nem ter saído, 'tou a fim de voltar.
Mas quando comecei o meu trabalho, quando eu 'tourei mesmo em 1972 com a música Eu vou tirar você desse lugar, eu tive muito acesso à mídia 'crita.
Em o rádio eu tocava a toda hora.
Eu, junto com outros artistas, como o Roberto Carlos, os caras da evidência na época.
Quando você é o cara da evidência, você faz parte da programação de rádio, você faz parte daquilo senão o cara não tem audiência.
Então, eu fazia parte disso.
Em a televisão, eu tive inclusive um contrato com a TV Globo, fiquei dois anos contratado, eu tinha a obrigação de aparecer quatro vezes no mês e ganhava por isso.
E a mídia 'crita, a revista e o jornal falavam muito do Odair José.
Eu não tinha 'se problema de não 'tar ali.
Eu não me lembro bem se as pessoas diziam se aquilo era ruim ou era bom.
Mas hoje os jornais do eixo Rio-SP não dizem nada de Zezé Di Camargo e Amado Batista
O que a mídia muitas vezes não deu a mim, ou talvez não dê ao Zezé e ao Amado Batista, é de parte da imprensa 'crita por causa das pessoas que 'crevem.
O Zezé não tem problema de tocar no rádio, hoje ele é o cara que toca no rádio, o cara do rádio precisa de ele, o da TV também, 'se tipo de coisa ele não tem.
O problema do 'crito aí é o cara que 'creve que não gosta daquele tipo de música.
E dá a opinião de ele tentando formar uma opinião pública, mas geralmente não consegue.
Se você pegar por exemplo um Tárik de Souza [crítico do Jornal do Brasil], ele vai dizer que o trabalho do Zezé di Camargo não presta.
Quando na verdade o Tarik fala a opinião do Tarik e nada mais.
E olha, ele é meu amigo, mas ele fala para um segmento que o Zezé nem 'tá preocupado em conquistar, é mais elitizado.
Eu nem tenho procuração do Zezé para falar isso, mas eu quando fiz sucesso, acho que a parte 'crita me tratou melhor do que tratou os dois a que você se refere.
Mas infelizmente hoje é assim, uma parte da mídia 'crita, que faz a coisa mais elitizada, que procura formar uma opinião de que só o Chico Buarque é bom, só o Caetano Veloso é bom, existe 'se tipo de gente otária.
O Chico Buarque é bom?
O Chico Buarque é ótimo, mas o Zezé di Camargo também é ótimo.
Você, como crítico, tem de saber ver isso.
Quando os Beatles apareceram, o norte-americano que gostava só de jazz não foi aos jornais dizer que os Beattles eram uma merda.
Foi ao jornal dizer que o cara era bom naquilo que ele 'tava fazendo.
E é isso que o crítico às vezes no Brasil não faz.
É uma cegueira então?
É uma cegueira.
Como crítico, você não é obrigado a dizer que gosta do meu trabalho, mas também você não tem o direito de querer formar a cabeça dos outros sobre o que você gosta.
Acho que você tem de informar, não querer formar a opinião.
O encarte do tributo traz uma foto sua com Caetano Veloso.
Que encontro foi 'se?
Eu fiz um show com o Caetano Veloso aqui em São Paulo em 1973.
Em 'ta foto, 'tamos sentados numa mesa de uma casa no interior de São Paulo, não sei se Piracicaba ou Sorocaba.
Eu fui do Rio de Janeiro até lá onde ele 'tava passando uma temporada, numa casa.
Em o momento de 'sa foto aí eles 'tavam se reciclando, passando um tempo na casa de um amigo, descansando mesmo.
Essa foto foi uns quinze dias antes do show que a gente ia fazer no Anhembi.
Eu sentei e a gente 'tava conversando sobre o que cantaríamos juntos.
E eu 'tava mostrando para ele alguma coisa, não me lembro da música mais.
Lembro que em 'sa passada de violão eu cantei para ele algumas coisas que ainda não haviam sido lançadas em disco e ele falou que a música da pílula ele não cantaria ...
Foi em 'sa época que a música foi censurada?
Você a mostrou para ele antes?
Ela já tinha saído.
Era uma coisa que 'tava na moda.
Ficou pouco tempo no ar, a censura de ela foi muito rápida.
Ela saiu e com um mês nas rádios acabou proibida.
Ele falou «Pílula eu não canto».
Esse encontro foi isso, nós fomos cantar no Anhembi.
Agora em 'se encarte tem umas coisas interessantes.
Tem uma foto, e eu nem sabia, que sou eu e um cara que produziu a minha ópera-rock, um cara ligado à bossa nova, o Durval Ferreira.
O Durval do Tamba Trio?
Exatamente.
É o Durval Ferreira, um dos maiores violonistas da bossa nova.
Aí entra outra ironia da crítica, o cara pega um disco como 'se meu, mete o pau e não vê que quem 'tava tocando violão e guitarra era o Durval Ferreira.
Então diz que é uma merda, como pode ser uma merda se é o mesmo cara que ele curte na casa de ele e não se cansa de elogiar no jornal?
O Durval Ferreira foi o produtor do disco, foi quem me contratou para fazer o disco.
Para mim foi uma surpresa boa ver ele aí.
Eu não sei onde o Sandro arrumou 'sa foto.
É verdade que os Titãs fizeram uma música para você, qual?
Nós ameaçamos vários trabalhos juntos.
Inclusive, o Marcelo Fromer, antes daquele acidente que o matou, 'tava projetando ele mesmo fazer um disco com mim.
E a gente ia sentar para organizar tudo e aí ocorreu aquela tragédia.
Sempre fui próximo de eles, principalmente do Marcelo, do Paulo [Miklos], da banda toda, mas desses dois de um modo mais 'pecial.
Eu fiz um disco para a Universal chamado As minhas canções, meio que acústico.
Eles chamam de acústico, o meu trabalho sempre foi acústico, então para mim continua sempre do mesmo jeito.
Em 'se disco eu gravei uma música inédita de autoria do Paulo Miklos, Arnaldo Antunes e Marcelo Fromer, chamada Baby.
Mas eles fizeram para você?
Não exatamente, 'sa música existia e ninguém tinha gravado.
Aí ela veio parar na minha mão.
O diretor Marcos Pierre, da Universal falou, «Odair, eu tenho uma coisa inédita dos caras, quer ouvir?».
Claro que quis né, aí rolou e gravamos.
Mas eu nunca mais 'tive com eles.
Quando eu resolvi fazer um DVD no início do ano passado, eu ia convidar o Paulo Miklos para cantar com mim, e engraçado que eu nem sabia que 'se tributo ia rolar, fiquei pensando no Paulo porque ele tem um harmônico muito bom e imaginei fazer uma coisa de violão e voz com ele, talvez role ainda, quem sabe.
Eu pensei também em chamar o Ney Matogrosso que gravou uma coisa minha uma vez [Cante uma canção de amor só pra mim, do disco Bandido], o Leonardo, que gravou com o irmão [Leandro] uma música minha também, Cadê você.
Direitos autorais lhe rendem bons proventos ainda?
Direito autoral, se fosse melhor renderia muito mais.
Direito autoral é muito mal administrado.
Não por quem administra, sei lá.
O sistema é errado.
O sistema permite muitas falhas, muitos desvios, quando chega na mão da gente, na verdade ...
Eu, como classe média, viveria de ele, daria para viver, mas o direito autoral no Brasil tem muitos vícios, muita sonegação, a televisão não paga, as rádios não pagam tirando algumas exceções.
As grandes rádios evidentemente não pagam porque 80 % de elas 'tão nas mãos de políticos.
Político não paga direito autoral.
Mas o Ecad também não é nenhum exemplo de correção, é?
É um negócio complicado.
Direito autoral vai para o Ecad, que arrecada, aí já manuseia a forma de ele, de ali vai para a sociedade, que manuseia da forma de ela, é muita gente;
para chegar nas mãos do compositor, que na verdade é o dono da obra, é o último que vê a cor do negócio, e já chega burilado sem ele burilar nada.
Como é a agenda de shows de Odair José hoje?
Olha, se quiser correr atrás do trabalho tem toda semana.
Mas o que acontece é o seguinte, às vezes não é um trabalho com a qualidade que eu gostaria.
Você é muito exigente em 'se aspecto?
Não é ser exigente.
Tem de ter qualidade, ou pelo menos um valor que te permite uma mínima produção.
Se não, não dá para trabalhar.
Baseado nisso, eu poderia fazer toda semana shows, mas às vezes não se faz.
Eu faço uma média de 50 shows por ano.
Tem previsão de lançar seu novo disco em show em seu Estado?
Olha, a gente vai fazer alguma coisa. Quando
ele [o diretor da gravadora] vier com 'sa história de DVD vou sugerir que a gente faça no formato da [gravadora] Atração aí na capital.
Montar a banda aí mesmo, só levar alguma coisa, algum complemento do Rio e São Paulo.
A minha idéia era 'sa.
Eu queria cantar com o Marcelo Barra [cantor goiano, contemporâneo de Odair em Goiás], que eu gravei no projeto Noites goianas [coletânea de artistas goianos], inclusive Saudade Brejeira, eu e o Carlinhos Borba Gato gravamos em 1981 [a música entrou na trilha do filme 2 Filhos de Francisco].
O Marcelo tinha gravado e eu gostei e gravei também.
Quando eu pensei no DVD, pensei " vou convidar o Marcelo que canta muito bem para cantar com mim.
Então, eu tinha 'sas idéias, vamos ver.
Número de frases: 259
Após ' retiro ' de uma década, músico acreano grava primeiro CD e já se ouve por aí que ele é o Iggy Pop do Norte
O artista -- Juscelino Araújo Vila Nova, Pia Vila, acreano de Rio Branco, 47 anos, dos quais 28 dedicados à música -- é um «autêntico remanescente da era glacial», como define o músico Jorge Anzol.
Após um ' retiro ' da 'trada sonora, que durou mais de uma década, que ele costuma definir uma fase «quati», termo usado por o acreano para o sentido de recolhimento, Pia Vila vive um de seus melhores momentos.
Conseguiu lançar seu primeiro CD, intitulado Aldeia sideral (2004), num show que ficou na história por reunir antigos parceiros, e levar para o 'paço da Concha Acústica, em Rio Branco (Parque da Maternidade), um coro de jovens que pulavam, cantavam suas letras, e agitavam acompanhando Vila.
Mas o grande balanço na carreira de Pia aconteceu mesmo em 2005.
O mito Pia Vila participou do Festival Varadouro, mexendo com a adrenalina do público.
Em o show rock, soul e blues e pitadas de mastigadinho, o Aldeia sideral de Pia Vila.
Por Fernando Rosa, do Senhor F, que cobriu o evento, ele foi batizado de «Iggy Pop do Norte».
O CD Aldeia sideral, sem ares de revival, traz à tona o ícone do rock acreano desde os anos 70 com o clássico repertório:
Plantação de bacuri, Garota gasolina, Rio 'tranho, Pra desafinar e Padrinho Sebastião.
Ícone
O contato com o universo da música aconteceu na infância, os pais nordestinos apresentaram ao menino os ritmos da região.
O quintal da casa se transformava num enorme palco, uma reunião de amigos que adoravam brincar de cantar.
O primeiro violão ganhou aos 19 anos do amigo, o jornalista Chico Pop, um dos grandes incentivadores da cultura.
Era o incentivo que faltava para Pia construir uma trajetória efervescente como um dos maiores ícones do rock acreano.
A herança musical deixada por os pais proporcionou ao artista criar um trabalho marcado por uma diversidade de ritmos, entre eles o xaxado, o baião, o forró, o blues e o rock.
Pia acabou criando, juntamente com seus parceiros Felipe Jardim e Beto Brasiliense, o chamado 'tilo e ritmo batizado de Mastigadinho.
Este trabalho 'tá registrado no CD Flora sonora.
O CD Aldeia sideral:
Repertório
1. Há quanto tempo, rapaz
2. Rio 'tranho
3. Aldeia sideral
4. Estrela do mar
5. Padrinho Sebastião
6. Plantação de bacuri
7. Pra desafinar
8. Rainha da floresta
9. O Trem da viagem
Número de frases: 29
contato (068) 3223-1065
«Acorda Recife, acorda / Que já é hora de 'tar de pé / Levanta o carnaval começou / Em o bairro de São José ..."
E o Galo da Madrugada, hein?
O que dizer?
Pois é, «ao som dos clarins de Momo», o maior bloco carnavalesco do mundo (www.overmundo.com.br/guia/galo-daA-madrugada) mais uma vez mostrou porque sempre é uma das melhores pedidas do Carnaval do Recife, arrastando 1,5 milhão de foliões por as ruas 'treitas dos bairros de São José e Santo Antônio.
Se você quiser brincar apenas um dia na cidade, 'colha o sábado de Zé Pereira no Galo.
«Vem pessoal / Vem moçada / Carnaval começa no Galo da Madrugada», diz o seu hino.
Pra mim, foi um dos melhores desfiles desde que saio no bloco.
Em 'te ano, tinha de tudo que se possa imaginar, a começar por o galo de 30 metros de altura, com roupa e crista novas, colocado em cima da ponte Duarte Coelho.
Ah! E tava com uma sombrinha no bico homenageando os 100 anos do frevo, claro!
Tinha fantasias pra lá de criativas e foliões pra lá de malucos, grupos fantasiados, como o " Aquecimento Global? Só com Frevo!" Sim, porque a irreverência é a tônica do bloco!
Acessem o www.pernambuco.com/carnaval/ 2007/ galeria.
asp e confiram as fotos.
O percurso de 6 km 'tava dividido para todos os gostos:
quem quis se 'premer no ruge-ruge, a rua da Concórdia e a Avenida Guararapes ficaram intransitáveis.
Fugi de lá, porque sempre rolam muitas brigas entre as «almas sebosas», como se diz por aqui.
Mas, quem preferiu brincar na «tranqüilidade», o trecho que ia da concentração no Forte das Cinco Pontas até a Floriano Peixoto era o mais legal, e foi lá que 'baldei ao som de todos os frevos, na troça» Pode Ser Talvez Não Seja».
É isso mesmo!
Dentro do Galo, há dezenas de outros blocos e troças, e 'se aí é muito bom mesmo!
E vocês acreditam que teve criatura que chegou no Galo às 8h da manhã e saiu às 3h da tarde para pular na tradicional Ceroulas de Olinda e no Homem da Meia-Noite?!
Só pra situar:
as agremiações do carnaval de Pernambuco são divididas em blocos, clubes, troças, maracatus de baque virado (nação) e de baque solto (rural), caboclinhos e tribos, bois, ursos, afoxés e 'colas de samba.
Não vou falar de todas elas, mesmo porque não consegui ver nem um terço, mas apenas da que participo de corpo e alma que são os blocos líricos.
Esses blocos são considerados os mais bonitos do Carnaval, por as fantasias bem elaboradas, sempre em alusão a algum tema.
O acompanhamento é feito por uma orquestra de pau-e-corda e alguns poucos metais, diferentemente das orquestras de frevo-de-rua dos clubes e troças.
As músicas são chamadas frevos-de-bloco e são consideradas as mais belas, por a poesia e lirismo.
O meu bloco é o Cordas e Retalhos (www.overmundo.com.br/guia/bloco-cordas e-retalhos), que em 'te ano homenageou os compositores de frevo.
O desfile aconteceu na segunda-feira, quando rola o Encontro de Blocos Líricos (são mais de 30 em toda a região metropolitana), e foi lindo.
Particularmente me emociono sempre quando o meu bloco vermelho e branco toma conta da ponte Maurício de Nassau, que dá acesso ao Recife Antigo.
Esse dia é muito concorrido, pois os blocos a cada ano têm se superado na criatividade e em número de participantes, provando que a tradição desse tipo de agremiação 'tá mais viva que nunca.
Os meus favoritos, além do Cordas, foram o Bloco da Saudade, o Pierrôs de São José e o Flor da Lira de Olinda.
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país.
Número de frases: 33
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo.
Cafuné é meu primeiro longa-metragem.
Pra mim ele representa não só uma primeira incursão numa narrativa de maior duração, mas tabém uma nova direção a partir dos meus curta-metragens.
Pela primeira vez, ao invés de vestir a pele dos morros cariocas, 'tou contando uma história do meu ponto de vista, ou seja, de classe média.
Uma classe média que, embora de uma maneira totalmente diferente, também é afetada por a violência e por as questões das quais falei nos meu curtas -- e que cria suas próprias respostas e reações.
No que diz respeito à produção, filmar o Cafuné não foi muito diferente de filmar um curta.
Ganhamos o prêmio para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura, que tinha a brilhante limitação de não permitir que os premiados captassem mais dinheiro além do prêmio recebido -- no nosso caso, de R$ 600.000,00.
Digo brilhante porque longas têm um processo parecido com uma bola de neve:
muitos dos ditos BOs juntavam mais recursos de outras fontes e se tornavam filmes médios ou grandes.
Assim, imbuídos de 'pírito low-budget, saímos para fazer 'se filme relativamente complexo, com locações em toda a cidade e elenco grande, e conseguimos colocá-lo na lata por 400 mil reais, filmando em três semanas com uma câmera DV 24 quadros e editando na minha ilha em casa.
Mais 150 mil foram gastos no transfer para 35mm (obrigatório por contrato) e finalização e ainda ficamos com um troco para a difusão do filme.
Mas na hora da distribuição, as coisas não seriam tão simples.
Tínhamos um filme com linguagem diferenciada, nenhum elenco global e pouquíssimo apelo comercial.
De cara, por exemplo, o distribuidor apontou um problema intrínseco ao filme que era o final.
«Muito aberto», «não amarra nada»,» díficil para o público».
Mas já sabíamos, em 'se ponto, que faríamos uma distribuição digital do filme, a princípio por uma questão de custo:
o preço total da distribuição digital equivale a uma cópia 35mm. Com cópias em 35mm, precisaríamos fazer uma cópia pra cada sala;
com a distribuição digital, o filme não tem cópias e pode ser exibido em quase todo circuito de arte nacional por o mesmo preço.
A Rain Networks (www.rain.com.br) é a empresa que equipou os principais cinemas desse circuito com projetores digitais e criou uma rede de distribuição virtual de filmes.
E se 'távamos fazendo uma versão digital do filme, porque não assumir 'se final múltiplo e fazer filmes múltiplos?
Afinal é só uma questão de reeditar o que eu tinha na ilha em casa e mandar para a Rain.
Dito e feito:
o público, dependendo de qual sala vai assistir o filme, pode ver tanto o final original em 35mm, mais «aberto», quanto a versão digital, que» opta " por uma das possibilidades de fim, deixando satisfeitos tanto o distribuidor, quanto 'se diretor que vos 'creve.
Outra surpresa foi no trailer.
Eu sabia que não queria um trailer normal, um rápido resumo do filme, e sim um trailer que respeitasse o tratamento de linguagem que dei ao filme, com a câmera parada, em planos-seqüência, sem alterar a montagem.
A o checar o processo da Rain, descobrimos que o trailer 'tava incluso no pacote e que não teria custo.
Então porque não várias cenas?
Acabamos criando sete «curtas», trechos de um ou dois minutos do filme que passam aleatoriamente antes das sessões de circuito, graças à tecnologia de distribuição digital, e que respeitam o ritmo original do filme.
Mas como colocar 'se filme na rua?
O filme brasileiro desse perfil entra numa ou duas salas e fica no máximo algumas semanas em cartaz.
Um final muito frustrante depois de se investir tanto tempo e dinheiro num projeto ...
Tínhamos que descobrir novos meios de distribuição, para um público que tenha um interesse em 'se tipo de produto audiovisual.
Nossa sorte é que, olhando os canais alternativos de distribuição, percebemos que muita coisa interessante 'tá surgindo.
Os cineclubes 'tão extremamente organizados, montando redes próprias de distribuição -- interessados não em filmes comerciais, mas em filmes brasileiros, de contestação e pesquisa de linguagem.
Diversas ONGs por todo país 'tão investindo em cursos livres de audiovisual e formação do olhar, criando uma nova geração de 'pectadores.
E por fim, os internautas usam cada vez mais o computador para trocar longas inteiros, gravando-os em DVD ou assistindo no próprio monitor.
Assim nossa 'tratégia partiu da vontade de falar pra 'sas pessoas, passando o trailers em 'colas e cursos próximos às salas onde o filme vai 'trear, e exibindo o próprio filme em lugares longe das salas e perto do público de baixa renda.
Por isso o Cafuné 'tá sendo lançado com uma licença Creative Commons de uso não comercial, ou seja, ele pode ser exibido sem autorização prévia em qualquer evento desse tipo.
Divulgamos isso para os cineclubes, 'colas e 'paços alternativos.
E vamos disponibilizar, no mesmo dia do lançamento, com a bênção do distribuidor, o filme inteiro para download por a Internet, usando as mesma redes que hoje se usam para piratear conteúdo audiovisual por a rede:
eMule, bitTorrent, Kazaa.
Quem achar o Cafuné por a rede pode baixar, queimar um DVD e assistir sem medo de 'tar quebrando a lei.
Até onde sabemos, é a primeira vez que um longa brasileiro é distribuído sob 'ta licença, a primeira que se lança um longa no circuito comercial e na internet ao mesmo tempo, e a primeira vez que um longa brasileiro usa as redes de compartilhamento de arquivos para distribuição com o consentimento dos autores.
E mais:
incorporando totalmente a não-linearidade proposta por o filme, 'sa licença também vai garantir o direito dos usuários de editar o filme para uso próprio, ou seja:
eles podem dar ao filme o final que julguem melhor, usando o seu programa de edição caseiro preferido para isso.
O próximo passo, quem sabe, é criar uma ferramenta que permita que os novos editores do Cafuné compartilhem suas experiências.
E quem sabe, quando lançarmos o DVD do filme, que ele tenha não só a «Versão do diretor», mas também algumas» Versões dos internautas» ...
ps.:
dia 25 de agosto o filme também 'tará disponível aqui no banco de cultura via BitTorrent
ps 2: no YouTube tem vários trailers do filme, inclusive alguns que não chegaram a ir para os cinemas:
Número de frases: 51
www.youtube.com/videos/bvianna Salvo melhor juízo, não me parece correto dizer que Natividade é o berço cultural do Tocantins.
É verdade que o próprio conceito de cultura é muito amplo.
Embora seja uma cidade antiga, eis que fundada por volta de 1734, portanto, com mais de dois séculos e meio de existência, há alguns aspectos por os quais o título de berço cultural há de ficar mesmo com Porto Nacional.
Um destes aspectos é o número de jornais fundados em Porto Nacional.
Exposição recente organizada por os Professores Lailton da Costa e Aurielly Painkow, na ULBRA, em Palmas, mostra o extraordinário elenco de jornais que teve vida duradoura, mas também efêmera em Porto Nacional.
O primeiro jornal portuense foi O Folha do Norte (1891), do Coronel Frederico Lemos e Luís Leite Ribeiro.
Sua tipografia foi comprada em Paris.
O segundo foi O Incentivo (1902), também de Frederico Lemos e Luis Leite Ribeiro.
O terceiro foi O Norte De GOIAZ (1905), fundado por o Médico e depois Deputado Federal Dr. Francisco Ayres da Silva.
O quarto foi o Jornal do Povo (1920), do Coronel Frederico Lemos, Quitiliano da Silva e Rafael Fernandes, dirigido por Abílio Nunes.
O quinto foi o Folha DOS Moços (1930) dos Frades Dominicanos, feito por alunos da Escola Santo Tomaz de Aquino.
O sexto foi o GOYAZ Central (1945), do PSD, orientado por Adelino Gonçalves e Abelino Ayres.
O sétimo foi A NÓRMA (1953), fundado por Osvaldo Ayres da Silva que também fundou O Porvir (1922).
Pode-se mencionar ainda outros jornais, entre os quais, O POLICHINELO (1919), de Osvaldo Ayres.
O Porto Nacional Jornal (1964), de Antônio Poincaré Andrade.
Brasil Central (1985), tendo como Diretor Getúlio Matos.
O PARALELO 13 (1986), fundado por Edson Rodrigues e Edivaldo Rodrigues.
Em Natividade, a não ser muito posteriormente, se tem notícia da existência de algum jornal, como O Corisco (1927), fundado por José Lopes Rodrigues e Voz do Norte (1929), fundado por o Médico Quintiliano Silva.
Este jornal reapareceu em 1934, com a direção de André Ayres.
Mas isto não tira a importância de Natividade.
Tanto é que o explorador, geógrafo, cartógrafo e engenheiro militar italiano FRANCESCO TOSI Colombina, quando elaborou o Mapa da Capitania De Goiás e do Brasil Central, em 1749, veio pessoalmente, em lombo de burro, de Goiás Velho até Natividade, conforme ele mesmo 'creveu:
«De a Vila De Santos, Guardando Os Pontos De Longitude E Latitude E Com A Diligência Que PODE Usar Um Viandante De Passagem, Fiz A Derrota (ROTEIRO) Até Esta Vila Boa, Continuando Depois Até Natividade E Recolhi-ME Outra Vez A Esta Vila».
Como se vê, o mapa foi feito por encomenda do Capitão-General de Goiás, Dom Marcos de Noronha.
Tosi Colombina viajou em lombo de burro, saindo de Vila Boa e passando por Natividade, quando elaborou o mapa da Capitania de Goiás, inclusive o Roteiro para se sair de Santos e se chegar a Natividade, por o caminho de Vila Boa (veja-se sobre o assunto, o livro FRANCESCO TOSI Colombina, de Riccardo Fontana, Brasília, 2004, obra patrocinada por a Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal).
Entregou o Mapa, com dedicatória e explicações ao futuro Vice-Rei do Brasil-Dom Marcos de Noronha-, no dia 06 de abril de 1751, conforme ele mesmo 'creveu.
Como prêmio, recebeu licença para explorar por dez anos, a 'trada carroçal que seria construída de São Paulo ao Planalto Central, passando por Goiás Velho e indo a Natividade, alcançando várias minas de ouro, além de uma Sesmaria de três em três léguas, para plantação de pastos e instalação de pontos de apoio.
Conforme Alencastre 'creveu, em 1863, página 124, nos ANNAES De a Província De GOYAZ, o projeto não foi executado por falta de verbas. (
Sobre a vida completa de Tosi Colombina, veja também o Dicionário BIOBIBLIOGRÁFICO Regional do Brasil, letra T, no site www.mariomartins.com.br).
Mas há também outros aspectos, por os quais Porto Nacional há de ser sempre considerada berço cultural do Tocantins.
Embora o povoado de Porto Nacional tenha sido fundado por Antônio Sanches, em 1738, ou seja, quatro (4) anos depois de Natividade, a vida cultural em Porto Nacional sempre foi mais intensa.
Os 'critores, por exemplo, nascidos em Natividade, podem ser contados nos dedos:
1) Francisco José Pinto de Magalhães (1760).
2) Frederico Nunes da Silva (06.07.1900).
3) José Lopes Rodrigues (01.12.1908).
4) Maximiano da Mata Teixeira (15.08.1910).
5) Amália Hermano Teixeira (23.09.1916).
6) Carlos Pacini Aires da Silva (23.03.1949), além de poucos da nova geração.
Quintino Pinto de Castro 'creveu sobre Natividade, mas era filho de Porto Nacional (31.10.1892).
Já os 'critores de Porto Nacional podem ser assim enumerados:
1) Luiz Ferreira Lemos (21.06.1839).
2) Francisco Ayres da Silva (11.09.1872).
3) J. Aires da Silva (1900).
4) Osvaldo Ayres da Silva (30.11.1905).
5) João Fernandes da Conceição (10.08.1912).
6) Eulina Braga (21.04.1914).
7) Eli Brasiliense Ribeiro (18.04.1915).
8) Durval da Cunha Godinho (1919).
9) Antônio Luiz Maya (18.12.1926).
10) Pery do Espirito Santo (1927).
11) Ruy Rodrigues da Silva (28.10.1927).
12) Joaquim José Oliveira (1937).
13) Antônio Maia Leite (07.08.1938).
14) Jamil Pereira de Macedo (1939).
15) J. Cantuária (1940).
16) Gesina Cardeal Barros (07.07.1941).
17) Zezuca Pereira da Silva (1943).
18) Pedro Tierra (Hamilton) (26.07.1948) 19) Jones Ronaldo Pedreira (29.11.1952).
20) Célio Costa (19.12.1953).
21) Marinalva Barros (1955).
22) Célio Pedreira (13.04.1959).
23) Márcia Costa (24.03.1960).
24) Regina Augusta Reis (26.02.1960).
25) Renato Godinho (12.07.1960).
26) José Carlos Ribeiro (15.11.1969).
27) Eurivan Gomes (02.11.1976), além de tantos outros velhos e novos que a exigüidade de espaço não permite mencionar.
Juarez Moreira Filho (03.07.1953) não é referido aqui por ter nascido em Ribeiro Gonçalves, no Piauí.
Quanto a Natividade, localizada no Sudeste do Estado, a 218 quilômetros de Palmas, com cerca de 11 (onze) mil habitantes, continua com suas belezas naturais, além de ser a única cidade do Estado com o titulo de Patrimônio Histórico Nacional, conseguido em outubro de 1987.
Sua importância histórica é fundamental, porque além de ter sido sede da Comarca do Norte, em ela viveu Joaquim Teotônio Segurado, conforme 'creveu Suzana Barros.
Mas o título de Berço da Cultura oral e 'crita do Estado do Tocantins há de ficar sempre com Porto Nacional.
* Mário Ribeiro Martins
é Procurador de Justiça e Escritor.
(mariormartins@hotmail.com)
Fone: (063) 99779311 1xxx(063) 3215 44 96
Caixa Postal, 90, Palmas, Tocantins, 77001-970.
www.mariomartins.com.br (
Número de frases: 75
Reprodução Permitida, Desde Que Citados Este Autor E O Título) Digitalização
De Fotos:
Um Processo Fácil, Rápido e Barato!
Por:
Paulo R. Aleixo
Você Sabia, que para conseguir fotos digitais não é necessário ter uma máquina fotográfica digital?
Sabe aquela «maquininha» que anda encostada e rejeitada por conta dos avanços tecnológicos e que você nunca mais usou ...
Pois é com ela mesma que você poderá tirar suas " fotos digitais ..."
Você deverá proceder como de praxe para tirar suas fotos:
Pegue sua máquina, coloque um filme (Cor ou P&B) e saia por aí 'banjando talento e criatividade.
Quando terminar de bater as fotos, leve o filme ao laboratório e ...
... Em 'te momento você deverá procurar um laboratório que ofereça Serviços Digitais.
Chegando lá informe ao atendente que você quer revelar suas fotos e depois digitalizá-las, ou seja, gravá-las num CD.
É simples assim!
Este CD poderá ser visualizado em seu micro, no DVD, laptop, etc.
Dicas:
1) -- Diga ao atendente do laboratório que você não quer que «amplie» as fotos.
Peça para ele fazer apenas «uma prova» ou «índex».
Esta prova te dará condições de visualizar suas fotos sem ter que ficar «procurando-as» nos negativos.
Aí, se você quiser, poderá pedir para ele ampliar apenas as que forem convenientes no momento, além de selecionar somente as fotos que você quiser o custo do serviço será bem menor do que se você ampliar (imprimir em papel) todas as fotos do filme.
2) -- Este processo pode ser utilizado também para aquele «montão» de negativos que 'tão 'quecidos dentro da última gaveta de sua 'tante ou 'crivaninha, etc., onde poderá haver aquela foto de um primeiro encontro, ou daquela viagem super bacana, daquele (a) amigo (a) que se foi para longe, ou de um acontecimento marcante que você queira «reviver» ou enviar para alguém via e-mail, postar no overmundo, ou em «seu álbum» na web.
Em fim motivos não faltarão para você digitalizar seu acervo fotográfico
3) -- Outra dica importante é que eventualmente você poderá ter que utilizar uma foto que tirou e que 'teja lá no início de um filme de 36 poses, que você acabou de colocar na máquina.
Digamos que seja a 3ª, 4ª, 5ª foto, etc..
Não se desespere, não é necessário sair por aí tirando todas as fotos restantes para revelar o filme, ou simplesmente «perder» 'tas fotos no processo de revelação.
Vá ao laboratório levando a sua máquina e explique ao atendente que você quer que ele revele somente as fotos que foram efetivamente tiradas.
Ele então irá abrir sua máquina numa «câmera 'cura», cortar o filme e lhe devolver a máquina com o restante do filme que ainda não foi utilizado.
Você terá sua foto disponibilizada para o que necessitar e também o restante do seu filme para tirar as fotos que desejar, no momento que quiser.
Em 'te caso você perderá aproximadamente umas três ou quatro poses.
4) -- Quer conhecer mais algumas fotos que foram digitalizadas!
Acesse o meu perfil e / ou algumas fotos que postei no banco de cultura -- artes visuais.
As imagens que se encontram lá foram capturadas com um equipamento analógico:
Uma Nikon N80.
Quero '
Virar'Um Fotógrafo!
SE Você não possuir equipamento fotográfico e quiser adquirir um.
Considere a possibilidade de comprar um Analógico, ou manual, que poderá atender as suas necessidade com um custo bem menor do que os digitais.
Pois com o mesmo valor de uma «maquininha» digital de alguns poucos mega pixies, você poderá comprar um equipamento semiprofissional.
Dê preferência para as marcas que possibilitem a você aproveitar as lentes cambiáveis analógicas nas máquinas digitais, pois quando você quiser migrar para 'te modelo, poderá aproveitar todas as suas lentes e filtros, etc. que tiver adquirido.
Há no mercado revistas 'pecializadas que trazem muitas dicas interessantes para quem quer se aventurar no mundo das lentes.
Há também seções de classificados onde podem ser encontradas muitas variedades além de anúncios com endereços de lojas que vendem equipamentos novos e semi novos.
Em São Paulo a «boca» da fotografia 'tá localizada no centro da cidade, nas 'quinas das ruas «Sete de Abril» com «Conselheiro Crispiniano».
Próximo ao Teatro Municipal e ao Shopping Light, lá você encontrará várias «boas casas do ramo».
Agora é só empunhar a máquina e sair por aí clicando e digitalizando ...
Número de frases: 44
A COMUNICAÇÂO NA Capoeira se divide em:
Musica (letras e toques), Instrumento, Movimentos Fisicos, SIMBOLO e Fundamentos!
A Musica é a parte mais rica do tema e começa com o Mestre da malicia Pastinha declamando para o aluno ao pé do berimbau:
Menino preste atenção no que eu vou dizer, oque eu faço brincando voçe não faz nem zangado, não seja vaidoso nem precipitado, na Roda da Capoeira Ah, AH, Pastinha ja 'ta calcificado!
seguido por o canto que fala de todo sofrimento e discriminação por que passam os de sua raça:
Ai meu Deus oque é que eu faço, para viver em 'te mundo, sendo sujo sou malandro, sendo limpo vagabundo!
Pode continuar com uma musica de incentivo:
Jogue com o menino que ele é bom até demais, ou de alerta:
Jogue com mim com muito cuidado e-Cuidado moço que 'ta fruta tem caroço!
seguido de um aviso aos prepotentes:
Por favor não maltrate 'te negro!
Mas não tem só mensagens para os jogadores, tem tambem para os capoeiristasque irão jogar:
Voçe quer ver 'ta roda ficar boa cante o coro e bata palma, que é pra não ficar a toa!
e para os 'pectadores:
Quem nunca viu venha ver licuri partir dênde!
Uma curiosidade interessante ocorre na musica:
Eu VI Falar no Besouro Manganga (e não Cordão de Ouro) eu não conheci Mas VI Falar no Besouro Manganga!
A o pé-da-letra Quem Vê Falar é o Surdo, Nós Ouvimos mas para preservar a Metrica Vocal (que facilita na transmissão do Axé) IMPORTANTISSIMA NA Angola é que Ouvir virou VI, senão cantaria-mos assim:
Eu ouvi falar no Besouro Manganga, Eu não conheci-mas ouvi falar no Besouro Manganga!
Se antes o repertorio era grande, hoje se tornou interminavel sendo lançado um CD acada 15 dias, por isso findo a parte das letras de musicas com a mais conhecida mensagem para jogadores e 'pectadores:
Adeus, Boa Viagem, eu vou me embora, Boa Viagem, eu vou com Deus, Boa Viagem e com Nossa Senhora, Boa Viagem!
Toques:
Quando eu entro em 'te assunto me lembro que Quanto Mais Estudo Menos Sei, pois ha controversias para que serve alguns toques.
Um Mestre afirma que IÚNA é para de formados e outro que é Toque FUNEBRE.
Para mim Toque FUNEBRE É Angola, que chama o silêncio e prepara o 'pirito para o sobrenatural de Almeida!
Em 'te assunto não boto minha caneta no fogo e só AFIRMO oque é unaminidade:
Angola --
Jogo mais embaixo, malandreado e alegre.
São Bento De Regional -- Jogo mais em cima 'timulando a luta.
Santa
Maria -- Para o jogo de pegar Dinheiro com a boca.
Cavalaria --
Toque 'tranhamente em desuso que antigamente servia para avisar que a POLICIA ja vinha, apesar de existir na Policia da Época varios «Capoeiras»!
Hoje a Capoeira 'ta «Infestada» de Policias (um de eles até ja me assaltou) não seria a hora de levantar 'te toque quando da presença desses elementos na Roda?
MÈ, MÈ O TOMÉ, Cavalaria De Pé Ô TOMÉ!
Instrumentos:
De os varios instrumentos utilizados na Capoeira, o Berimbau é o unico que se comunica com os capoeiristas e atraves do toque, determina o tipo de jogo.
Quando ALGEM INCLINA O Berimbau Para O Centro da Roda 'ta chamando uma dupla para o pé do berimbau.
SE Bater Insistentemente no Fio do Berimbau Sem Encostar A Moeda, 'tá alertando aos outros que mudara o ritmo.
O Mestre Deputado em seu livro ensina um toque para a formação da Roda.
Movimentos
Fisicos: Os movimentos fisicos de comunicação são poucos
ja os Movimentos De DISTRAÇÂO eram muitos, mas com a democratização da Capoeira oque foi lazer de malandros e desordeiros passou a ser 'porte para homem, menino e mulher.
O aprisionamento de ela em academias «RETIROU» o perigo proporcionado por 'tranhos mal intencionados
mas empobreceu-a nos movimentos de distração muito utilizados na Angola
É da Angola tambem o movimento Parada de Angola -- Passo-a-Dois ou Chamada, quando a postura de um jogador determina o tipo de movimento a ser tomado por outro.
Se alguem agachado ao pé do berimbau 'tiver de punhos fechados e o dedo indicador apontado para o céu (teto) 'ta pedindo para cantar!
Finalizando: Em apresentações havendo roda livre se entrar alguem 'tranho imediatamente os melhores jogadores ou lutadores do grupo olham para quem comanda 'perando de ele um sinal de cabeça ou com os olhos para Comprar (cortar) o jogo.
Fundamentos:
de 1975 a 1982 visitei varias academias (eram poucas na época) e varias rodas conhecendo praticamente todos os nomes Grandes cito:
Touro, Dentinho, Gogó de Ouro, Poeira, Pantera, Neco, Beiçola,
'tes da Zona Norte do Rio, ja da Zona Sul praticamente todos hoje nomes Nacionais ou Inter:
Peixinho, Camisa, Toni, Garrinha, Nestor Capoeira, Itamar, Lua Rasta, Leopoldina, Neco, Claudio Moreno, etc..
Esta entrada é só para tocar no Calcanhar de Aquiles da Capoeira:
Fundamentos!
Oque é Fundamentos?
É saber muitas Chamadas, é saber compor a Bateria (banda) na Angola ou Regional, é saber receber um Mestre e posiciona-lo na Bateria, ésaber de entre os Mestres na Bateria e na saida qual CANTA A Ladainha?
É Só Isso, não é nada disso, ou é isso e muito mais?
Pressupondo que Fundamentos seja isso tudo, da Zona Norte só vi o Poeira fazer uma Parada de Angola e é um dos caras mais completos em 'te e outros itens!
De a Zona Sul apenas o Toni fez uma vez e foi com mim, nem Peixinho, Camisa e os outros acima citados.
Eles Não Conheciam as Chamadas, Conheciam mas Não Achavam Importantes?
Entendiam que Tem Hora Certa Para USA-LA!
Criatividade:
item terrivelmente nefasto para Nossa Arte chegando as raias da loucura, irresponsaveis PATINAM em Rodas, vão desuniformizados em Batizados, Batismo de Berimbau, Graduação de 2 Cordas de Mestre para a mesma pessoa (Este texto foi 'crito em 01-1997 agora seria-será normal ja que tem Grupos de Angola usando Corda) 2 Duplas numa mesma Roda, ou 3 jogando entre eles na mesma Roda.
Por outro lado o item quadruplicou os movimentos ja existentes na Capoeira, impossibilitando na minha opinião os velhos professores, (incluindo-me) a graduarem seus alunos acima da 3ª Corda, por não termos condições fisicas de fazer 'tes saltos acrobaticos ou morais de reconhecer que 'tamos parados no tempo a nivel de conhecimento e sem coragem alguns é claro, de dançar forró numa Parada de Angola com a desculpa de ser movimento livre permitido por a Capoeira.
Em novembro mais um aniversario da morte de PASTINHA e muitos outros da sua admiração, Me ADMIRO Hoje Capoeirista SE Prestar Pra Certas Coisas!
Capoeiristas se prestam hoje pra muito mais coisas do que ele imaginava chegando muito perto de ser a Capoeira como ele dizia:
Uma Coisa Vagabunda, Uma Coisa Qualquer!
Amizade --
União: Sou conhecido como o cara que vai numa Academia pra depois sair falando, mas enquanto 'tou lá sou chamado de Mestre, contra-mestre e outros titulos por «meninos» chamados de Mestres.
Se sou mesmo Mestre deveria falar após a Roda, mas uma Tradição Nefasta da Capoeira, a soma de Admiração + RESPEITO + AMIZADE ou de 2 destes itens, tem deixado Nossa Arte em Má situação, se falar na casa de um amigo acaba a Amizade e ADMIRAÇÂO, se falar na de um desconhecido a amizade nem começa.
Em alguns lugares a União serve para que incompetentes não sejam incomodados e nem que seu negocio acabe (exploração da Capoeira) valendo até pauladas naqueles que têem a AUDACIA de entrarem no seu covil, digo academia como foi o meu caso.
Esses elementos Não são guindados por a Capacidade, Amor a Arte, Dedicação, entendendo-se por Dedicação busca de conhecimentocomo forma de Evolução não para garantir Titulo ou Ego, Eles são guindados por Amizade e Admiração de uma parcela da comunidade aonde atuam.
Cultuados eles podem até Errar, que seus Erros serão perdoados desde que eles façam o mesmo!
Para eles oque vale é 'se pensamento que li no Informativo Muzenza de 03-1996: É Melhor Arriscar Coisas Grandes E Belas
Atingir Triunfo E Glória Que Formar Fila Com Os Pobres De Espírito
Que Não CONHECEM Nem Vitória Nem Derrota!
Coitada da Capoeira:
Isso não é para quem quer mas para Quem Tem Material Humano Para FAZÊ-LO!
SIMBOLO:
Em a decada de 80 um Mestre do Rio se fez de doido e ensinou «animais» violentos que sairam disseminando pancadaria nas rodas, Batizados e apresentações, e até entre eles mesmos, marginalizando a Capoeira e dificultando sua ascensão e aceitação por a sociedade.
As «patadas» das cavalgaduras deram imensa má fama ao mestre (a ponto de ele dizer: Tem Gente «que SÒ Musculos E IGNÔRANCIA) prejudicando o Conceituado Grupo ao qual integrava e fazendo com que num ato de» MEA CULPA " se retirasse e formasse sua própria Entidade!
Por causa de 6 duzia de Abestalhados até poucos anos atrás o SIMBOLO representava a Violência causando verdadeiro Terror quando visto a beira de rodas, a ponto do Mestre declarar:
Com As Pedras Que Me ATIRAM Construirei O Meu Castelo!
De 1975 a 1982 andei muito no Rio e só me lembro de uma camisa com um simbolo uma pantera de um grupo-e numa calça um berimbau com um pé desenhado no meio de outro grupo.
Em aquela época para se saber quem era aluno de quem precisava-se andar em Academias.
Hoje, basta olhar o simbolo na camisa para se saber que é «Aluno do Fulano».
Antigamente a melhor roupa de domingo do Capoeirista era um Terno De Linho Branco, Agora a melhor roupa de domingo do Capoeirista é:
Seu Uniforme De Grupo!
Que tristeza, Tomara Que Eles Não Virem MUAY THAY!
Texto
de Renato Palmas Azevedo o Leiteiro
Para a Minha Verdade só existe uma réplica A Mentira! (
Leiteiro) Nenhum
Aluno pode falar Ih Maior É Deus de PASTINHA NA Roda
somente aos Grandes É Permitido!
NA Capoeira Não EXISTE Isso Não PODE, só Isso Não Deve!
Número de frases: 97
Por Rodrigo Capella *
Muito se tem falado que o déficit de leituras no Brasil só pode ser solucionado com um maciço investimento em alfabetização, vindo de iniciativas privadas ou públicas.
Puro engano.
Ensinar as pessoas a 'crever os respectivos nomes não contribui para o aumento dos livros lidos.
Precisamos, sim, de um programa baseado no conceito de letramento.
Justificando: a pessoa toma gosto por a leitura somente quando entende o que 'tá lendo e constrói mentalmente os cenários descritos, envolvendo-se com cada uma das páginas, letra a letra.
Esse contexto, embora óbvio e 'sencial, 'tá presente em menos de 10 % das 'colas e universidades brasileiras, segundo dados que obtive junto a profissionais de 'sa área.
A explicação:
na maioria das instituições, crianças e adolescentes são submetidos a tarefas desgastantes, principalmente a de ler livros difíceis e, posteriormente, realizar uma prova sobre a história, conflitos e personagens apresentados.
Atividades como 'sa contribuem e muito para que, infelizmente, leitores traumatizados e angustiados se afastem definitivamente dos livros, por melhor que 'ses sejam.
Fica claro, então, que a leitura, seja ela em âmbito 'colar ou familiar, não deve ser obrigatória, e sim 'timulada a todo instante.
Uma alternativa é deixarmos de lado as normas existentes e desenvolvermos atividades associadas ao letramento, apresentado anteriormente.
O método:
professores e pais criam tarefas educacionais, como por exemplo, a encenação de um trecho do livro, e mostram, para as crianças e adolescentes, que a leitura é importante para despertar a criatividade, enriquecer o vocabulário, se 'crever corretamente e até mesmo construir novas amizades.
Com 'sa postura, formamos leitores interessados em ultrapassar as fronteiras do conhecimento, em traçar metas ousadas e em devorar Machado de Assis, Sir.
Athur Conan Doyle e as mais complicadas obras de Gabriel García Márquez.
E o melhor:
quem se apega aos livros, dificilmente consegue viver sem eles.
(*) Rodrigo Capella é 'critor, poeta e jornalista.
Autor de vários livros, entre eles «Transroca, o navio proibido», que vai ser adaptado para o cinema, e» Poesia não vende».
E-mail:
Número de frases: 21
contato@rodrigocapella.com.br Em o terminal tudo parece 'tar seqüencialmente organizado em filas, filas de ônibus, filas para tomar os ônibus, filas para sair dos ônibus, filas dos toldos que cobrem as plataformas onde os passageiros aguardam os ônibus, filas de placas com as indicações dos destinos dos ônibus.
A o Terminal da Parangaba, fica reservada a particularidade de que a maioria das indicações nas placas traz o nome Parangaba.
Parangaba / isso, Parangaba / aquilo.
Alguns destinos são mais lúdicos, 'tranhos aos olhos de quem só perambula por uma pequena região da cidade, ao redor da Aldeota.
Onde será que fica Veneza Tropical?
Certamente que não é Recife, a tal «Veneza brasileira».
Pode ser que fique perto do Sítio Córrego.
Córrego ... Água ...
Canal ... Veneza.
Também há o Alto da Paz.
Esse remete ao céu ou talvez ao paraíso.
O «alto» lembra as nuvens e a «paz» se encarrega do resto.
Não fosse o permanente ressoar dos motores dos ônibus, o Alto da Paz seria o caminho do céu.
Um céu indeciso naquele dia.
Havia chovido antes, mas o cinza insistente persistia anunciando uma chuva que não foi.
Para o comércio que funciona no terminal, talvez a chuva trouxesse mais movimento.
Afinal, como indica o auto-explicativo nome de uma loja, lá «Tendtudinho».
É possível comprar desde artigos de papelaria, passando por perfumaria e até roupas e sapatos.
As lojas aceitam cartão de crédito e tudo.
Só é 'tranho imaginar como as pessoas, sempre apressadas, dedicam algum tempo provando sapatos ou peças de roupa.
Em o período da manhã, 'sa descrença fica mais evidente, pois o movimento costuma ser fraco.
Os comerciantes garantem que durante a tarde e a noite as coisas são diferentes.
Decerto que sim.
Há bancas de revistas, restaurantes, lanchonetes -- salgado com suco ou caldo de cana é a pedida --, além da sorveteria «Caramba!».
O que mais chama atenção, em se tratando dos 'tabelecimentos instalados no terminal, são os locais relacionados diretamente ao dinheiro.
Novamente aparecem as filas:
defronte ao banco, à loteria, aos pontos onde é possível pagar contas, fazer empréstimos, investimentos e até seguros.
São os lugares onde se vê mais gente.
Por mais que a pressa seja grande, sempre sobra um tempinho para lidar com o dinheiro.
Fazer um jogo da sena, um saque no banco, até um empréstimo.
Dinheiro que não deve ser gasto por lá.
A falta de simpatia dos vendedores e o excesso de pressa não colaboram muito para que as lojas sejam movimentadas.
Para quem possui um tempinho a mais, há internet disponível por R$ 1,50 por hora.
Aliás, " Você tem Orkut?
Então entre para a nossa comunidade.
Ando no Terminal Ponto Com», anuncia um cartaz.
É o clubinho dos internautas brasileiros chegando aos terminais de ônibus, a quem usa o transporte público e não tem internet em casa, e para quem é freqüentador assíduo, não pode deixar de participar da comunidade de discussão do Orkut.
Enquanto isso, a movimentação nas lanchonetes parece aumentar e, às 10h30 min da manhã, há quem tome sopa e almoce, todo mundo apressado.
Os comerciantes também 'tão apressados, porque alegam 'tar ocupados e não poder falar.
Então, a plataforma repleta de pessoas 'perando seus ônibus, algumas subindo, outras descendo torna-se um foco bastante convidativo.
É impressionante como a imagem é absolutamente cíclica.
Os 'paços onde as filas se organizam se enchem e se 'vaziam a intervalos não exatamente regulares.
Os ônibus chegam e despejam as pessoas, como que num ato de repulsa instantânea.
O mesmo ato, num sentido diametralmente oposto, se dá quando o tão 'perado ônibus chega.
Enquanto isso, cada um procura se acomodar na fila, sem se preocupar com a pequenez -- apenas aparentemente -- de guardar um lugar melhor.
Todos os olhares se dispersam por todos os pontos possíveis.
Algumas pessoas conversam animadamente ou desanimadamente com seus colegas de itinerário, outros ouvem as conversas alheias, outros lêem, alguns ficam 'táticos, com o olhar perdido, absortos em seus pensamentos.
Eis que surge um ônibus e, quase instantaneamente, todos os olhares e atenções convergem ao mesmo ponto:
o letreiro.
Infelizmente não é o Parangaba / Náutico.
Ou seria o Parangaba / Papicu?
Tanto faz, as filas são iguais.
Todos relaxam novamente.
A cada ônibus que aparece, a 'perançosa reação se repete.
Assim, sucessivamente, os passageiros aguardam sua condução.
Uma hora ela aparece.
Logo, a lei dos mais ágeis se 'tabelece.
Todos ficam em posição, aguardando a largada, que é dada com o abrir das portas.
Os primeiros logo se acomodam em seus lugares, os que não deram sorte ficam em pé.
Número de frases: 59
O ônibus segue seu caminho, e a plataforma volta a ficar vazia, 'perando mais e mais filas permanentemente.
Isa Lorena Poeta desde menino, Antônio Tenório Cassiano, mais conhecido como Paraíba da Viola, veio ao mundo em 1942, no dia 25 de julho, no Sítio Bom Conselho, no município de Teixeira, hoje Maturéia, na Paraíba.
Baluarte da cultura popular, como é denominado por os colegas de profissão, o filho de Seu Cândido Tenório e dona Francisca Cassiano já foi pedreiro, carregador, eletricista e alcoólatra, e hoje trabalha de segunda a sábado, de 8h30 às 21h, na Banca dos Trovadores em frente ao Mercado Modelo, centro da cultura artesanal da cidade do Salvador.
Homenageado em dezembro de 2005 por a Fundação Gregório de Matos como Poeta Popular, não imaginava chegar tão longe quando, em 75, aos 32 anos, desembarcou na Bahia, mais precisamente em Conceição do Coité, para passar um mês na casa da irmã Veronice.
Com ele, três dos seis filhos e a mulher, Yolanda Gerônimo Cassiano, a quem se refere muito carinhosamente, de quem não se separa de jeito nenhum:
«É a razão de meu viver».
Antes da Bahia, o tocador aportou em São Paulo por três meses, mas a situação não era adequada ao homem avesso às metrópoles.
O município de Conceição do Coité fica a 208 km de Salvador e é pra lá que seu Antônio «foge» em busca do aconchego da família sempre que o tempo dá uma brecha.
Lá moram os filhos, os onze netos e um bisneto, que a preocupação do cotidiano faz sumir o nome, logo recuperado com uma consulta rápida, feita por telefone a Coité:
Ítalo Mota Tenório.
Quando nasceu o primeiro filho, Cândido Tenório Neto -- batizado como o avô -- Paraíba tinha 23 anos.
A partir daí vieram Maria, Adriana, Ione e Dorinha;
e de eles Paraíba ganhou os netos:
Antônio, Ricardo, Carla, Fábio, Juninho, Wesley, Daiane, Daniele, Diana, Henrique e Íris.
Pois é.
São muitos nomes e muitas datas pra uma cabeça só.
Mas seu Paraíba, na medida do possível, vai dando conta das coisas e nos ensina:
«Não faça nada pra servir aos outros que não funciona.
Só faça o que seu coração pedir».
E o de ele pede e ele atende.
Foi assim com a labuta, as viagens, a bebida.
«Eu conto minha vida profissional depois que parei de beber pra cá», diz o violeiro, que largou a bebida há 16 anos.
A conquista se deu após o ingresso, em 23 de setembro de 1989, no Grupo de Alcoólicos Anônimos de Conceição do Coité, onde participava ativamente das reuniões que acontecem às 20h das quartas e sábados e que hoje só vai, quando sobra um tempo.
As reuniões realizadas em Salvador ele não freqüenta.
Não gosta.
Ele afirma que foi a cachaça e mais ninguém quem o levou a participar das reuniões.
«Enquanto me chamavam pra ir, eu não fui.
Quando deixaram de me aperrear, eu fui», diz, com jeito teimoso.
Há mais de cem anos o cordel 'tá presente no Brasil, em feiras ou em centros de turismo, como o pátio de São Pedro, em Recife, ou o Mercado Modelo, onde seu Paraíba ganha a vida.
Mas 'sa literatura popular impressa já existiu em diversos países, como na França até o século XIX e em Portugal, nas primeiras décadas de século XX.
Gênero da poesia popular, do cordel nasceram e nascem histórias e 'tórias, folhetos, cantadores e até teses.
O professor francês Raymond Cantel (1914-1986), que chamou a atenção para os 'tudos sobre a literatura de folhetos do Brasil, realizou uma intensa pesquisa nos anos 50 e 70 entre cordelistas e gravadores.
Foi quem identificou a raiz européia em 'sa literatura brasileira.
Cordel é uma alusão à maneira como são expostos os livretos, presos num barbante como roupas 'tendidas num varal.
Sua origem, de denominação erudita, 'tá ligada às cantorias e desafios acompanhados de viola e atualmente, uma das maiores coleções brasileiras do gênero se encontra no Rio de Janeiro, na " Casa de Rui Barbosa.
«Eu venho da lama», diz ele, orgulhoso de sua história de luta.
E acrescenta, com seu bom humor:
«Mas nunca andei seboso».
Assim é Paraíba da Viola.
A Morte de Dr. Iêdo, o único cordel 'crito (já depois dos trinta anos), é hoje faixa dois do Cd gravado em 2003 com o também cordelista cantador Antonio Queiroz, e se tornou possível por conta de seus 'forços:
«Foi Deus e eu sozinho», diz ele, com um misto de tristeza e orgulho no olhar.
Mas a tristeza é logo rebatida com um sorriso largo e cativante e permanece, assim como o orgulho de um homem de sessenta e três anos, consciente de sua vida, determinado e teimoso, que não tira nunca da carteira a oração de São Francisco de Assis, também conhecida como a Oração do Amor.
O restante da criação do repentista é toda cantada, versinhos sem versão 'crita.
Em forma de prosa, de preferência em redondilha maior, o cordel consiste em versos de sete sílabas contadas até a última tônica.
São seis versos compondo a sextilha.
As rimas acontecem no segundo, quarto e sexto versos:
ABCBDB. As capas do folheto são simples, com dizeres chamativos e muitas vezes com ilustrações, desenhos ou trabalhos plásticos, como a xilogravura, de artistas populares e sempre se referem às histórias que ali serão narradas.
Em as edições nordestinas, as ilustrações geralmente são em preto e branco e feitas de modo artesanal, mas atualmente já existem edições ou reedições feitas com alguma sofisticação gráfica e capas em cores.
Mas a maneira como é feito se torna assunto mínimo diante das narrativas, sempre bem construídas e criativas, trazendo, das ficções de amor, humor e aventura aos cordéis circunstanciais, aqueles que são relatos de fatos acontecidos, como é o caso da morte de Dr. Iêdo, o médico que teve seu falecimento narrado por Paraíba:
Em uma caminhonete
Parada sem luz traseira
Tava a noite traiçoeira
Deu o que a vida promete
A morte é como gilete
Corta e não avisa o dia
Nem mesmo ele sabia
Se soubesse se livraria
Coité em peso chorava
Quando Iêdo padecia
Paraíba da viola, dos cordéis, de Coité, de dona Yolanda.
Paraíba do repente que te pega de repente e te leva a consumir, de forma diferente, divertida e abrangente, a cultura brasileira, aquela verdadeira, cujas raízes fincadas 'tão no povo e de ele emana para consumo desordenado e gostoso.
Seu Antônio Cassiano é um desses barbantes fortes, que não passam ilesos em tempestades, mas não deixam cair seus folhetos.
Número de frases: 62
«O som é seco como o chão sob os pés calçados em sapatos simples (ou no chão).
Por as ruas, com repiques de tambores e chiados de gungas, brasileiros cantam a própria fé " Murilo Gontijo
A comunidade ' Arturos ' mantém viva tradições negras do Brasil, em pleno coração da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
Assim é criado um belo contraste entre os monumentos e modos urbanos e a centenária tradição negra.
O grupo tem a origem ligada ao negro Artur Camilo Silvério, nascido em 1885 e sua 'posa Carmelinda Maria da Silva.
Arthur, hoje são Arturos (descendentes), de 'sa forma, a família é mantida e alimentada pela raiz inicial, o pai.
Já no nome pode-se atestar a força da ancestralidade:
filhos, netos e bisnetos.
Desde então, são mais de 108 anos de tradição.
Atualmente os Arturos constituem um agrupamento com cerca de 400 negros, que habitam uma propriedade familiar, no local denominado Domingos Pereira em Contagem.
A comunidade é representada juridicamente por a Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Contagem.
O papel principal da Irmandade é cuidar da organização das festas.
Foi fundada em 1972, é composta das guardas de Congo e Moçambique.
A guarda de congo é responsável por abrir os caminhos nos cortejos.
O moçambique é responsável por conduzir os reis e rainhas, guardar e proteger o Reinado, são os últimos no cortejo.
Os capitães ditam o canto e são autoridades.
Entre eles, a autoridade máxima é do capitão-mor.
Embora o presidente da Irmandade seja um capitão, ele apenas assina as documentações necessárias.
Os idosos decidem tudo dentro da comunidade.
Conforme a tradição são muito respeitados e são considerados de valor fundamental na cultura vivenciada por o grupo.
Eles são os responsáveis por a bonita e orgulhosa comunidade negra, também são eles que transmitem os ensinamentos e a devoção a Nossa Senhora do Rosário, manifesta através do congado, herança deixada por os pais.
Os costumes são transmitidos de pai para filho, por as conversas e contação de histórias, sendo assim, repassado o modo de ser Arturos.
O grupo expressa fundamentalmente as realizações artísticas culturais com a celebração do sagrado.
A cultura negra é mantida por meio de manifestações do grupo.
Em o Batuque, os participantes dançam descalços.
Em o Candomblé, na tradição dos Arturos é um ritual interno, conduzido por os principais capitães do grupo.
Em 'se ritual eles 'tabelecem o contato com Nossa Senhora do Rosário e com os antepassados, mantendo um elo entre os vivos e mortos.
Esse é um dos movimentos que destaca o culto das raízes africanas dos negros.
Em os altares, entre coroas e bastões existem imagens de santos católicos, pretos velhos, São Cosme e Damião, Iemanjá e São Jorge.
As Festas
Em as festividades até as roupas utilizadas por o grupo conservam as tradições negras.
Elas são no 'tilo das utilizadas na época da 'cravatura.
Os eventos são marcados ao som dos tambores e o contato dos pés no chão.
Os Arturos mantém um calendário festivo anual.
As principais comemorações do grupo são:
a Festa da Abolição da Escravatura.
Em ela, é comemorada a Lei Áurea.
Este é também o momento no qual a Irmandade rememora a 'cravidão.
A Festa de Nossa Senhora do Rosário, é considerada a comemoração mais importante da comunidade e representa o amor máximo da grande mãe.
A tradicional Folia de Reis, em janeiro, relembra o ato bíblico dos três reis magos.
É uma das mais belas manifestações de eles.
A importância desse grupo étnico, no contexto cultural, extrapolou nossas fronteiras ganhando reconhecimento internacional.
Atualmente a comunidade é considerada por os 'tudiosos como uma das manifestações mais genuínas da cultura negra tradicional no Brasil, por a música, roupas e encenações.
Recentemente o grupo participou do filme Filhas do Vento, do diretor Joel Zito Soares.
Além disto, a Irmandade é um recorrente objeto de 'tudos acadêmicos.
CD Livro '
Cantando e Reinando com os Arturos ', foi um cd -- livro lançado por o grupo.
Concebido e realizado por mestres de Congado da comunidade, o trabalho foi muito bem conduzido por uma equipe técnica que envolveu pesquisadores, técnicos de som e designers.
O cd -- livro divulga uma das mais importantes expressões da cultura religiosa afro-brasileira presentes em Minas, representada por a comunidade quilombola.
Os diferenciais do cd -- livro são a autenticidade e beleza.
Tanto a concepção, quanto a realização é da própria comunidade. '
Cantando e Reinando com os Arturos ', evidência fielmente a visão que os membros têm de si e que desejam divulgar.
O livro conta a historia dos Arturos contém belas imagens.
Em a capa e contra capa, existem dois cds com 52 faixas de áudio compostas por músicas cantadas nos festejos do grupo e dois admiráveis depoimentos, com a narração de Antônio Maria e do falecido Capital Mor Geraldo Artur Camilo.
Para não deixar 'se trabalho «morrer» os Arturos já planejam uma nova edição.
Calendário Festivo:
Janeiro --
Folia de Reis -- Encerramento da Folia de Reis
Março / Abril --
Sábado de Aleluia, abertura do Ciclo de Reinado (o ciclo se 'tende até dezembro, período em que eles participam como convidados em festejos das demais comunidades congadeiras).
Maio --
Festa da Abolição da Escravatura Outubro --
Festa de Nossa Senhora do Rosário
Dezembro -- Realização do Ritual da Festa João do Mato --
Encerramento do Ciclo de Reinado -- Abertura do ciclo Natalino
Saiba mais sobre os ARTUROS:
Cantando e Reinando com Arturos, Contagem.
2007 ALVES, Regina Helena & BORBA, Denísia M. Projeto quilombos:
Comunidade negra dos Arturos.
Belo Horizonte. Anais do 7º Encontro de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais.
2004 GOMES, Núbia Pereira de Magalhães & Pereira, Edmilson de Almeida.
Negras Raízes Mineiras:
Os Arturos.
Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 1988.
LUCAS, Glaura.
Os Sons do Rosário:
um 'tudo etnomusicológico do congado mineiro -- Arturos e Jatobá.
Escola de Comunicações e Artes da USP: 1999.
Santos, Erisvaldo Pereira dos.
Religiosidade, identidade negra e educação:
o processo de construção da subjetividade dos adolescentes dos Arturos.
Dissertação de Mestrado em Educação:
Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 1997.
SABARÁ, Romeu.
A Comunidade Negra dos Arturos:
o drama de um campesinato negro no Brasil.
Faculdade de Filosofia, Ciências Sociais e Letras da Universidade de São Paulo, 1997.
Silva, Júnia Bertolina.
O Congado na Comunidade dos Arturos:
Catolicismo ou Culto Africano?
Monografia para obtenção de bacharel no curso Ciências Sociais:
Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, 2002.
Número de frases: 92
O Cheiro do Ralo, que traz Selton Mello no papel de um personagem bizarro, é o nome do novo filme do mesmo diretor de Nina.
Infelizmente, devido possivelmente ao baixo orçamento, o filme conta apenas com 15 cópias para serem distribuídas por todo o país.
E se digo infelizmente é porque trata-se de um grande filme a que muitos 'tarão privados até que, eventualmente, ele seja lançado em vídeo.
Mas, por outro lado, não se trata também de um filme para multidões.
Afinal de contas, o personagem principal tem tudo para parecer antipático.
Sórdido, egoísta, egocêntrico e bizarro, o personagem central teria tudo para despertar a antipatia do público.
Entretanto, durante a maior parte do filme, o que se ouve são boas risadas.
Fruto de uma história bizarra, de uma cenografia atemporal, de uma boa trilha musical, e de uma interessante combinação entre tragédia e humor surge um filme 'sencialmente original.
O enredo mostra o processo de enlouquecimento de alguém que, para se 'tabelecer profissionalmente, teve que se tornar insensível.
E como, diria um pensador russo, a insensibilidade é algo que, para fazer parte do ser humano, requer muita prática.
O personagem do filme a praticou e agora 'se hábito parece ter se tornado numa segunda natureza, isto é, em algo que o modelou a sua maneira de pensar e de sentir.
Acostumado, portanto, a comprar tudo aquilo que o satisfaz, ele não consegue mais se relacionar se não for de 'sa forma.
Tudo, pra ele, tem que ser comprado a um valor que depois, a sua venda, lhe seja revertida em lucro.
Entretanto, paradoxalmente, 'sas cenas de avareza total são contrapostas a episódios no qual ele 'banja dinheiro com artefatos aparentemente inúteis e sem valor que, no entanto, lhe servem para preencher o vazio criado, talvez, por 'ta própria racionalidade cuja rigidez o conduz a momentos de desvario e a um processo de enlouquecimento original.
O enredo tem tudo para ser uma narrativa dramática e chocante.
No entanto, o resultado foi uma obra de humor refinado.
Mais do que isso, diria também que ele é a alegoria de um processo comum no qual as vezes entramos:
praticantes de uma racionalidade e uma avareza diária, intercalada por um 'banjamento com coisas caras que nos entretem em finais de semana.
«De as coisas que eu perdi, as que mais sinto falta são aquelas que não existem;
as que não são materiais e que não se pode comprar."
Redigido de memória, 'ta fala do personagem é talvez a chave de acesso para compreensão de um filme que, segundo o modo de pensar do protagonista, custou pouco mas que pode nos acrescentar muito.
Número de frases: 21
: Odeio Pessoas que falam sobre o chão rachado do planauto da borborema se as mesmas não tocaram nem o carpete de seu carro ...
Nunca viram e sentiram a seca de perto mas, no entanto, fazem musicas que falam de ela como se a 'tivesse vivido ...
algumas musicas remetem tempos bons, que a sanfona não retardam jamais ...
Porém morrem com a musicalidade fraca e rala a que são atribuidos ...
Falar do sertão pra mim é coisa do DENOCS ...
Não perderei meu tempo com fontes de inspiração ridiculas, só pra dizer que sou um bom compositor.
Não quero que minha musica faça parte da industria da seca.. não quero que minha musica faça parte de uma cisterna vazia!!!
Edição 1 da revista Vias de Fato
Número de frases: 8
Editor: Paulo Gauche.
A praça fica às escuras, começa a exibição.
A cena simbólica já se repete Brasil afora.
O projeto Revelando os Brasis, que entra em seu terceiro ano, 'tá levando uma mostra itinerante bem diferente das convencionais para cidades de todo o país.
Ele propiciou e vai continuar propiciando a produção de dezenas de filmes por pessoas de municípios com menos de 20 mil habitantes.
Selecionados depois de enviar uma história por escrito, os 40 participantes da primeira turma, de 2005, foram ao Rio de Janeiro ter aulas de roteiro, som, iluminação, pesquisa, produção.
Depois, voltaram para botar a mão na massa.
Agora, os resultados voltam aos berços -- todos desprovidos de cinema -- com caminhão, poltronas, tela móvel.
É luxo só.
Serão 61 exibições dos filmes produzidos no primeiro ano em 40 cidades e 21 capitais, numa reunião de 'forços do Ministério da Cultura, do Instituto Marlin Azul (do Espírito Santo) e da Petrobras.
Não se surpreenda se encontrar muita coisa sobre isso no Overmundo nos próximos dois meses.
O site, por meio de alguns colaboradores, vai pegar carona (literalmente) e acompanhar parte dos 25 mil quilômetros rodados para lotar ruas e mostrar filmes.
Bom para o projeto, que poderá contar com a observação de pessoas de fora.
Excelente para a rede do Overmundo, sempre interessada em desbravar regiões ainda não tão exploradas por aqui.
Tudo a ver:
uma comunidade que produz e compartilha idéias culturais vai 'crever, ler e trocar idéias sobre um projeto onde cidadãos sem intimidade com cinema fazem seus próprios filmes.
Não somos os únicos filando carona.
Dois fotógrafos da oscip carioca Observatório de favelas, do Complexo da Maré, vão acompanhar as caravanas por inteiro, registrado tudo e juntando material para um possível livro ao fim do projeto.
De 'sas simbioses de projetos muita água boa deve rolar ...
Dada a parceria, fui conferir a inauguração do circuito.
Uma hora Rio de Janeiro-Vitória.
Três horas Vitória-Muqui, cidade ao sul do 'tado com belos casarões antigos, 'tação de trem, folia de reis e uma população de cerca de 14 mil habitantes que gosta de festa e de novidade.
Muqui abriu o Revelando os Brasis, e por isso recebeu muitos forasteiros -- como o secretário de audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, a pesquisadora Ivana Bentes e alguns jornalistas.
Em o lanche, Orlando contava como vivemos tempos que propiciam projetos como 'te.
«A população brasileira cresce com a referência da linguagem da televisão.
Há cada vez menos medo de equipamentos, cinema deixou de ser algo inalcançável», afirmou, contando ainda que quer implementar uma parceria com o Ministério da Educação para levar o ensino de linguagem audiovisual para as 'colas.
* * Tela e cadeiras a postos, praça cheia apesar da chuva fina.
O apresentador sobe ao «palco» para dar início à noite.
Fala bastante e culmina com uma meta com cara de sonho:
«Que todo brasileiro possa fazer sua própria imagem».
Um grito:
«Selton, olha pra cá!"
Corta para a platéia.
Era uma menina no meio de várias, todas empunhando câmeras de celular e digitais, loucas para gastar toda a memória com fotos do mestre de cerimônia Danton Mello -- o irmão de Selton, também ator global, e isso importava mais para elas que a confusão de nomes.
O tal sonho não parece tão distante, a tecnologia tem ajudado, como se pode ver.
Poucos minutos depois, numa inversão pouco usual na rotina, elas veriam o astro desaparecer na multidão para acompanhar no telão, junto com todos, a saga de um cidadão da cidade, daqueles que se vê todo dia.
E filmada por outro muquiense, o 'tudante Ériton Berçaco.
Brilhantino é uma daquelas figuraças que certas cidades incorporam ao ambiente.
Com uma corcunda saliente e mais de 70 anos, anda com um saco nas costas e mora há décadas numa caverna.
Em o filme, o senhor de agilidade invejável fala de sua rotina, do porquê da moradia improvisada, da família.
E canta, canta muito, sendo, digamos, protagonista e autor da trilha sonora do curta, que tem Monsueto, várias de «Roberto Carlos (" cantor não sou porque não quero desbancar o rei», conta na tela), algumas pérolas bregas e marchinhas (como a sugestiva» De aqui não saio, daqui ninguém me tira ").
Mas se parte da população antes via aquele senhor com alguma indiferença, havia alguém atento a seus passos.
Enquanto Ériton agradecia o apoio de uma pá de gente, de João da farmácia ao dono do açougue, ao meu lado, Vera Lucia Cândido, funcionária da 'cola local, contava-me que o rapaz sempre se ligou naquela vida peculiar.
«Lembro que na terceira série ele fez uma redação sobre o Brilhantino.
E sempre falava que queria contar a história de ele.
Ériton cresceu, foi morar em Vitória para completar os 'tudos, hoje faz mestrado em Letras.
Mesmo com tantas janelas abertas, foi em Brilhantino que pensou quando teve a oportunidade de fazer um filme.
«Brilhantino» é um barato, mas assistir ao filme na praça de Muqui foi experiência 'pecial.
Ok, qualquer exibição pública de filmes numa cidade pequena deve reservar algumas doses de emoção.
Mas ali o fato do personagem ser uma figura quase folclórica da cidade ajudou a criar um clima de cumplicidade com o que aparecia na tela.
Antes da exibição, ele foi chamado ao palco.
Viu o pessoal gritar seu nome e, animado, repetiu o que fez em boa parte do filme:
cantou. A mulher do meu lado berrou:
«Ihhh, dá corda pra você ver, ele não sai mais daí.
As pessoas se divertiram com a cantoria, impressionaram-se com a facilidade com que ele sobe em árvores, morreram de rir com o chuveiro feito com 'corredor de macarrão e olharam com bastante curiosidade a «casa» 'condida que, provavalmente, nunca iriam visitar.
A vida de Brilhantino talvez não mude muito depois deste dia.
Mas a aproximação com a população por as imagens de cinema deixou sua marca.
Em seguida, boa parte do público continuou por lá para ver os outros três curtas feitos no Espírito Santo (" O Sonho de Loreno, de Alana Almondes ";
«O Último Tocador», de Valbert Vago, e «Bate-Paus», de Jorge Jacob).
Encerrada a sessão, seguiu-se a programação com o intuito de mostrar o melhor da cidade:
jantar na paróquia e grito de carnaval, com banda de sopros, bebidas e Brilhantino puxando danças e trenzinhos com alguns de seus oito filhos e 16 netos.
A 'ta altura eu já 'tava acabada, mas coleguinhas mais animados garantiram que a festança seguiu madrugada adentro por os (poucos) bares da cidade.
* * Muqui pareceu curtir muito a farra cinematográfica.
Vamos ver o que o resto da jornada trará de novidade.
Para acompanhar via Overmundo, é só ficar de olho na tag revelando-os-brasis.
Boa viagem e até a próxima sessão!
Número de frases: 66
Hoje resolvi futricar nuns textos antigos e eis que 'barro em 'te registro pra lá de emocional de um encontro com Adélia Prado, ocorrido em Goiânia, se não 'tou equivocada no dia 26 de maio do ano passado.
Foi um dia de alegria para o meu coração devotado à poesia da borboleta pousada Adélia Prado.
Aliás, a primeira vez que a poesia de Adélia soprou no meu ouvido foi com um verso dito por um amigo, lá no começo da década de 80, como uma frase solta que me possuiu irremediavelmente:
«Uma borboleta pousada.
Ou é Deus, ou é nada».
A pontuação do verso nem é a que registro na frase.
Fato é que 'te verso me acompanhou desde então e me levou de mala e cuia à poesia de Adélia.
Mas como eu ia dizendo, aquele dia foi de alegria para o meu coração.
Primeiro que tinha tudo para ser mais um de correria em meio às urgências do trabalho e da vida, não fosse o fato poético Adélia Prado.
Fiquei sabendo da vinda de ela a Goiânia por a jornalista Tacilda Aquino, que tenho tido o prazer de ler aqui no Overmundo.
Mas como era um acontecimento sem alarde na imprensa, 'queci o assunto, e no final da manhã do dia 26 recebo um telefonema da minha amiga dizendo que 'tava saindo para uma entrevista com Adélia.
Mais que depressa me ofereci para acompanhá-la e também fotografar, claro.
Adélia chegou acompanhada do marido (o Zé que já conhecemos por as aparições em muitas histórias da 'critora), por volta de meio dia.
Em seguida almoçaria na Paróquia São Francisco com Frei Marcos, autor do convite para a palestra da poeta sobre o sagrado e a poesia para futuros padres.
Em o começo fiquei meio que intimidada por a energia de Adélia.
E numa pequena sala do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás (IFITEG), pouco iluminada, fiz o que pude dentro das minhas limitações de fotógrafa amadora para captar um pouco do que via e sentia por o olho mágico da câmera.
Uns gestos, umas expressões e uma energia bem conduzida pontuando a entrevista, a fala saborosa de Adélia.
Também contou que foi ao Mercado Central de Goiânia para sentir a alma das pessoas do lugar e que gosta desses pontos de muvuca, onde a vida acontece sem os artifícios da homogeneização dos shoppings.
E eu só ouvido e clicks.
A princípio cautelosos, os clicks foram ficando frenéticos numa perseguição ao gestual da intrépida Adélia.
Eta mulher ligeira, meu Deus!
Depois, claro, o autógrafo de Adélia no livro Quando Eu Era Pequena, um cobiçado luxo na 'tante que passou antes por as mãos da minha sobrinha caçula.
Lamentei também não ter levado para autógrafo os outros livros que tenho de Adélia, com as marcas de todas as impressões de leitura a lápis.
à tarde, na palestra, completamente benzida por a magia do encontro com Adélia, deliciei-me com a fala cheia de atitude da poeta mineira, ágil como uma formiguinha lava-pé.
As impressões do momento mágico 'tão no texto a seguir.
Penso que vale a pena dividi-las aqui, com algumas imagens.
A borboleta pousada
A única coisa que faltava para completar o encanto de uma tarde de maio com as palavras de Adélia Prado, ao vivo e a cores, aconteceu:
choveu em Goiânia.
Benditas as palavras de Adélia, bendita a chuva, ambas com o toque do sagrado.
E que mulher enérgica, 'perta e afiada como uma formiguinha lava-pé (e olha que em sua fala notei que ela fez umas três referências a formigas), de 'sas que não deixa a gente 'quecer onde ela tocou.
No caso de Adélia, sempre o coração.
Suas palavras ficam ali, formigando, ardendo, despertando, enlevando ...
Além das palavras, prestei muita atenção aos gestos da poeta mineira -- que ganhou o mundo com os pés fincados na sua aldeia Divinópolis, que já havia me encantado com o toque sagrado das suas palavras.
A bela imagem cristalizada pela palavra poética de Adélia, que pairou como uma revelação na minha alma, é a da borboleta.
«Uma borboleta pousada, ou é Deus, ou é nada».
Essas palavras pintam divinamente o que há de sagrado na entrega de Adélia à poesia e dentro de mim ressoa como um mantra, cada vez que leio, cada vez que balbucio, e sinto a borboleta também pousada dentro de mim, como um afago da mão de Deus, me pedindo para ser inteira, em tudo quanto sinto, sonho e faço.
Fiquei também encantada com o despojamento de Adélia, que declarou ter recebido como um presente o convite do Frei Marcos para fazer uma palestra sobre o sagrado e a poesia para jovens e futuros padres e missionários, na comemoração dos 25 anos do Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás.
Assistiu sentada na platéia a apresentação cultural de crianças, contando causos, e uma encenação teatral de um jovem frei.
Gostei da «pregação» de Adélia, uma devota que entende do riscado dos rituais da Igreja Católica e do arrebatamento da linguagem poética.
Segundo ela, sagrado e poesia são como dois braços de um mesmo rio, emanando da mesma fonte divina.
Mesmo no momento de maior impaciência, segurou-se na delicadeza mineiríssima para colocar um ponto final na leitura de um longo perfil que os organizadores do evento prepararam, desses com as preciosidades de um minucioso currículo vitae da 'critora.
Mudou o tom e a prosa para uma conversa com a platéia.
Expôs o que sentia e como via 'se registro que permeia sagrado e poesia.
De forma bem humorada e lúcida, cativou a todos com sua prosa, a leitura de alguns trechos de poesia, suas e de Drummond.
Com sinceridade à flor da pele e dos gestos, respondeu perguntas da platéia e de 'critores.
Esgrimista tarimbada com as palavras, várias vezes disse não ter compreendido a pergunta.
«Quando não dou conta de responder alguma coisa, leio um poema do Drummond».
Anotei a fórmula.
Outras, nem chegou a responder, dizendo simplesmente que não sabia.
Mas o bom mesmo foi vê-la responder as perguntas diretas da platéia, de 'sas sem qualquer traço de intelectualidade.
Erótica é a alma, como é 'se negócio?
E Adélia explicou para o deleite da gente.
O corpo sem a alma é nada.
E quem sentiria prazer com um corpo morto, sem alma, é necrófilo.
E doença é outro departamento.
Sem mística, Adélia se expôs e se abriu em abraços e sorrisos com todos que a procuraram para autógrafos, com livros trazidos da 'tante de casa -- que os leitores carregavam como tesouros, e muitas fotografias.
Senti não ter levado para autógrafos Cacos para um Vitral, Coração Disparado e Bagagem.
Mas pela manhã, na entrevista, completamente entretida com a agilidade dos gestos de Adélia fugindo à perseguição dos meus clicks, tive a oportunidade do seu autógrafo com a expressão sincera de um «tomara você fique amiga de Carmela», a personagem de seu mais novo livro, Quando Eu Era Pequena, o primeiro infantil com cheiro de memorial da poeta.
à tarde, durante e depois da palestra, gastei o memory stick da minha Sony na tentativa de capturar nos gestos a 'sência de Adélia.
Gostei do resultado, embora pudesse ser mais, muito mais.
O encanto de Adélia é ser ela a borboleta pousada com o encanto de sua poesia na nossa alma.
O pouco domínio técnico que tenho sobre a máquina fotográfica, um computadorzinho cheio de botões e recursos amplos -- mas 'tudou lutando bravamente para superar 'sa deficiência --, me deixou com uma fisgada dolorida na alma por não ter conseguido captar a ligeireza dos gestos de Adélia, uns tão sensuais ...
Que exuberância de gestos, leveza, sensualidade, num simples tocar os cabelos e virar a cabeça ...
Cena digna de película.
Realmente dona Adélia, erótica é a alma;
e todas as palavras ditas e 'critas com alma.
Número de frases: 67
De o inicio aos dias de hoje:
um panorama sobre o cinema Latino Americano
O cinema latino americano tem vivido um momento muito 'pecial.
Em os últimos anos, a cada dez lançamentos nas telonas e nas locadoras, pelo menos um filme é de origem latina.
Isso ainda é pouco, mas já é um sinal da ascensão do filmes realizados por nossos hermanos.
Em as revistas 'pecializadas em cinema e cultura sempre há citações sobre os últimos lançamentos nos cinemas e dvd's.
Vale lembrar que a indústria cinematográfica latina americana não começou agora.
Desde os anos 30, o Chile já realizava filmes, como o importante El húsar de la muerte, de Pedro Sienna.
Então partimos daqui, mostrando um panorama da cultura cinematográfica latina americana.
Em a década de 60, houve um encontro entre figuras importantes, como Sergio Muniz documentarista brasileiro, o argentino Fernando Birri, o colombiano «Gabriel» " Gabo " Garcia Márquez e os cubanos Julio Garcia Espionosa e Titon, a fim de discutirem a produção cinematográfica nos países latino americanos e de criarem o Centro Experimental de Cinema.
A partir desse encontro, resultaram anos mais tarde o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas (ICAIC) e a Escuela Internacional de Cinema e TV (EICTV) também em Cuba.
Não foi só Cuba que se preocupou em criar 'colas e grupos de discussões.
Em 1956 foi criada a Escola de Cinema de Santa Fé na Argentina, 'ta dirigida por Fernando Birri.
Em meio a toda 'sa ebulição, houve um grave declínio na cinematografia latina entre as décadas de 60 e 70, desencadeada por alguns motivos como as crises econômicas e o boom do cinema norte americano.
No entanto, foi a partir desses encontros e reflexões que se cria uma cinematografia como forma de protesto, reorganizando o sistema de exibição, daí criando uma cultura cinematográfica na América Latina.
Porém, não se pode 'quecer que o cinema é uma forma de expressão, daí ele ser utilizado como instrumento de manifestação e contestação.
Jorge Sanjinés, importante cineasta Boliviano, foi um exemplo disto, ao realizar o filme «A coragem do povo, em 1971».
Vindos de diferentes 'colas, os diretores pretendem, em sua maioria, fazer filmes com uma identidade particular e daquele povo, formando público e uma cultura na região.
O cinema latino americano tende a uma contextualização histórica, e isso fica bem claro em filmes como:
Valentin, de Alejandro Agresti, Machuca de Andrés Wood e Morango e Chocolate de Tomas Titon Gutierrez e Juan Carlos Tabio.
Desde 1995 o Instituto Nacional do Cine e do Audiovisual Argentino (Incaa) aprovou uma lei de fomento e regulação da atividade cinematográfica baseada na cobrança de taxas sobre as entradas nas salas de cinema, sobre a venda de fitas de vídeo e DVD, além da taxação da publicidade na TV.
Este projeto possibilitou que se reascendesse a produção cinematográfica na Argentina.
Aliando-se a isso, o Festival de Mar Del Plata, que, em 1996, voltou à ativa depois de mais de 20 sem muitas perspectivas.
E foram de festivais como 'te que surgem nomes da importante «retomada» do cinema argentino como Lucrecia Martel, Pablo Trapero e Adrián Caetano.
Em Cuba o Festival de Havana tem igual importância e recebe realizadores da América Latina e outros locais para mostrar as novas películas feitas por diretores e diretoras latino americanos.
Ainda temos Festival Viña Del Mar no Chile, Festival de Cinema de Guadalajara no México e assim por diante.
Entre lançamentos, festivais e os clássicos do cinema latino americano nas locadoras, vale a pena conferir os novos e antigos realizadores dos vizinhos para ver o quanto buenos são nossos hermanos.
Número de frases: 27
Maria Elisa Macedo
Interessante observar como, com o passar dos anos, uma idéia abrangente e inclusiva acabou por torna-se um tanto quanto distante da sua 'sência!
Muito disso, por culpa da preguicite aguda de jornalistas em apurar as coisas direito.
Falo de uma lenda que de tanto ser repetida acabou por se tornar verdade!
A de que o tal Mangue, MANGUEBIT ou MANGUEBEAT é fundamentalmente a mistura de ritmos regionais com rock, rap, funk etc.
Bem, para maiores reflexões sobre o tema reproduzo (e ressuscito) uma entrevista que fiz com um dos «cabeças» do Não-movimento Mangue, o jornalista Renato L. Ela foi publicada originalmente no site que serviu como minha conclusão de curso da UFPE.
Faz tempo isso, viu!
hahaha ... O Zé Mané recém-formado na época não pôs a data no texto, mas ele é do finalzinho dos anos 1990.
O nome do site era Manguenius www.terra.com.br/manguenius e o link direto para a entrevista é 'te:
http://www.terra.com.br/manguenius/artigos/frme-entrevista renatol.html
Indie Rock Feito em Recife Também É Mangue???
HOHOHOHO " Renato L:
«Mangue Não É Fusão!"
por Adelson Luna (nota: atual, Ad Luna)
Muita gente reclama que já 'tá com o ouvido cheio de lama de tanto 'cutar 'ta palavra:
Mangue. No entanto, também são muitas as pessoas que ainda não apreenderam o novo conceito que ela adquiriu depois de processada por as mentes inquietas dos mangueboys (olha aí de novo ...)
Chico Science, Fred 04, Jorge Du Peixe, Mabuse e outras figuras não menos importantes.
Nada que uma boa lida no texto «Caranguejos com Cérebro» não desse jeito ...
Em 'ta entrevista, o jornalista e DJ Renato L, 37, explica por que o tal rótulo pode agregar desde a ciranda de Lia de Itamaracá ao hardcore do Devotos.
Renato também é um criadores do site Manguetronic (www.manguetronic.com.br) e colunista da revista eletrônica A Ponte (www.aponte.com.br).
MangueNius -- Quais foram seus primeiros trabalhos como jornalista?
Renato L -- Nunca atuei na grande imprensa, sempre trabalhei em coisas mais ou menos alternativas.
Fiz, na década de 80, os programas New Rock, na Transamérica, e o Décadas, na Universitária FM -- ambos com a participação de Fred [04].
De o final dos anos 80 até mais ou menos 93, vivi uns quatro anos na mais inteira vagabundagem.
Não fiz praticamente nada ...
Organizava uma festa aqui outra ali, raros free-lancers, praia ...
Mas, foi, de certa forma, a época mais rica da minha vida, pois naquele período (entre 89 e 90) fiz um monte de amizades, 'cutei sons novos e foi quando o núcleo base da Cooperativa Cultural Mangue se formou.
Fred e eu havíamos voltado a andar juntos (ele tinha ido atrás de uma namorada em São Paulo, mas não deu certo) e, por meio de Mabuse [nota:
um dos responsáveis por o Manguetronic], conhecemos Chico [Science] e Jorge [Du Peixe] num apartamento nas Graças que era o Q.G. da moçada.
Lá também morava Hélder, o DJ Dolores.
Todo mundo sempre passava por lá, quase todo dia, pra conversar sobre música, trocar discos ...
Fred já tocava no mundo livre s / a e Chico -- que trabalhava na Emprel, como funcionário público -- tinha uma banda de hip hop chamada Orla Orbi.
MangueNius -- Como surgiu a idéia de se criar a Cooperativa Cultural Mangue?
Renato L -- Estávamos reunidos no bar Cantinho das Graças, quando Chico chegou dizendo:
«Fiz uma jam session com o Lamento Negro, aquele grupo de samba-reggae, peguei um ritmo de hip hop e joguei no tambor de maracatu ...
Vou chamar 'sa mistura de mangue».
Aí todo mundo sugeriu:
«Não, cara!
Não vamos chamar de mangue só uma batida ou limitar ao som de uma banda.
Empresta 'se rótulo pra todo mundo, porque todos 'tão a fim de fazer alguma coisa ..."
Então foram surgindo idéias de todos os lados.
Foi realmente uma viagem coletiva.
MangueNius -- E 'sa história de mangue bit e mangue beat?
Renato L -- Em o começo, chamávamos a história apenas de mangue, não tinha 'sa de bit ou beat.
Depois, Fred 04 fez a música Mangue Bit [do disco Samba Esquema Noise] e parte da imprensa começou a se referir ao lance com o acréscimo do bit e daí também era fácil confundir com o beat, de batida.
E a coisa fugiu ao nosso controle.
Jamais a gente queria chamar aquilo de movimento, achávamos o termo muito pretensioso.
Ainda hoje há uma grande preocupação minha e dos outros (Fred, a galera do Nação Zumbi etc) de preservar, dentro desse rótulo, o sentido da diversidade.
Mostrar que se você identificar o mangue como a vibe [vibração, sentimento] do Recife, dentro desse sentido cabe o hardcore do Devotos:
ele é tão legitimamente pernambucano quanto o coco, acredito.
MangueNius -- Resumindo, mangue é diversidade ...
Renato L -- Desde o começo, naquela mesa de bar, a gente se preocupou em definir o mangue como um ecossistema cultural tão rico, tão diversificado quanto os manguezais.
Mangue não é fusão de coisas eletrônicas com ritmos locais, por exemplo.
O mundo livre, que é a banda parceira do Nação Zumbi em 'sa história, quase não trabalha com sons regionais;
a parada de eles é música pop com samba.
Hoje em dia, acho que não é mais mangue o chapéu de palha e os óculos escuros, a batida do maracatu com uma guitarra pesada à Lúcio Maia -- aliás, isto nunca foi.
O som da Nação sempre foi muito rico, não se resumindo a 'se clichê.
Mangue, hoje em dia, continua sendo a diversidade, o senso de cooperação entre as bandas que vêm se 'palhando por outras áreas. (
Nota: VEJAM Bem, Isso Foi Dito no Fim DOS ANOS 1990.
REPITO!) MangueNius -- Como você analisa o panorama musical do Estado depois da morte de Chico Science?
Renato L -- A morte de Chico foi uma desgraça, uma tragédia, pois aconteceu na hora em que ele 'tava no ponto de explodir.
O último show da Nação com Chico, que aconteceu no Clube Português, me deixou tão de cara quanto o primeiro;
e olhe que eu já havia visto muitas apresentações de eles.
Foi impressionante.
Se você comparar a performance vocal de Chico do primeiro para o segundo disco, vai perceber que o crescimento é de mil por cento.
Me pego ainda hoje, quando 'cuto uma batida envenenada, pensando em quanta coisa ele não poderia fazer com isso.
Por outro lado, acredito que sua morte serviu, paradoxalmente, para um fortalecimento da cena.
Aumentou o moral da moçada:
todo mundo tomou consciência de que tinha de levar a coisa para a frente, tentar se manter unido.
A elite política, a oligarquia do Estado, só passou a tomar conhecimento do que era o Mangue a partir da morte de Chico:
começou a rolar patrocínios, uma aceitação maior.
Apesar de eles ainda não terem percebido a real dimensão da coisa.
MangueNius -- Voltando ao «movimento» ...
E o manifesto Caranguejos com Cérebro?
Renato L -- Em a verdade, aquilo não era um manifesto, era um release que foi 'crito apenas por 04.
Muita gente pensa que eu também o 'crevi, mas não foi.
Em aquela época, por coincidência, Fred 'tava trabalhando, como free-lancer, na TV Viva, num vídeo sobre os manguezais.
Então, quando Chico veio com 'sa história do mangue, Fred 'tava cheio de informações sobre o assunto.
Então, como já havíamos realizado vários shows, resolvemos fazer o «book do mangue» e ficou decidido que ele 'creveria o texto.
Ficou um puta texto e, quando chegou na imprensa, começou a se chamado de manifesto.
MangueNius -- Você participou da produção do Acorda Povo -- projeto que levou oficinas de arte e shows das bandas Nação Zumbi, Devotos e outras convidadas para bairros da periferia da Grande Recife, que avaliação você faz desse evento?
Renato L -- Cara, aconteceu tanta coisa positiva em 'se projeto.
Em as oficinas, por exemplo, sempre havia mais gente interessada do que as vagas disponíveis.
Tem gente que já 'tá até trabalhando com o que aprendeu nos cursos de moda, de reciclagem e grafiti.
Também deu pra ver como é grande o público da periferia interessado na cena.
A integração entre grupos e público era tão forte, que até chegamos a realizar um seis ou sete shows sem nenhum segurança.
Só houve alguns problemas com os funkeiros, pois 'ses só iam apenas pra brigar.
Eles fazem parte de uma cultura baixo-astral ...
Particularmente, conheci muitos lugares por os quais nunca tinha andado e foi ótimo passar sete meses junto com a galera das bandas.
Por outro lado, deu pra sacar como a cidade é carente em termos de cultura:
há vários logradouros públicos subutilizados, locais que podiam ser movimentados com pouquíssima grana.
MangueNius -- Ao que parece, existe um consenso de que os festivais de música realizados por aqui (Abril Para o Rock, Rec Beat, PE no Rock, Rock na Praça, Soul do Mangue etc.) 'tão crescendo tanto em termos de qualidade quanto em participação de público.
Qual sua opinião a respeito?
Renato L -- Discordo num ponto.
Acho que o Abril Para o Rock é uma exceção em 'sa regra:
ele vem perdendo qualidade ano após ano ...
O Abril 'tá passando por uma fase que muitos festivais alternativos passam:
começam alternativos, depois vão crescendo e se tornam mais comerciais.
Há casos em que se consegue um equilíbrio entre a criatividade e o lado econômico.
Creio que o Abril 'tá se encaixando naquele primeiro aspecto:
o comercial.
Tudo bem, é preciso dar os méritos a Paulo André por ter realizado o APR durante todo 'se período, ninguém tá querendo negar a sua importância para a cidade etc..
Mas, analisando friamente, há problemas de programação, que chega a ser preguiçosa:
é o exemplo de 'sa aposta no rock dos anos oitenta -- o qual, já naquela época, não era 'sas coisas todas.
MangueNius -- Muita gente reclamou da acústica do local ...
Renato L -- A acústica do Pavilhão do Centro de Convenções é péssima.
É como você ir a um festival de cinema e assistir a filmes com a imagem desfocada.
É preciso fazer algo:
ou muda de lugar ou encontra outra solução.
Ainda sobre a programação, soube que já ofereceram a Paulo André boas bandas pop de fora para tocar no Abril Para o Rock e ele não trouxe.
Grupos como o Asian Dub Foundation e Atari Teenage Riot.
Seria importante para a cidade que atrações como 'sas tocassem por aqui;
elas dariam um curto-circuito na molecada.
De todos os grandes eventos que ocorrem hoje no Estado, pra mim, o festival que tem o maior potencial para se transformar na coisa mais importante desse circuito é o Rec Beat Carnaval.
Ele tem uma base muito legal e Guty [Antônio Gutierrez, produtor do evento] é um cara inteligente;
tem seus defeitos, mas vem crescendo como profissional.
MangueNius -- Há pouco tempo, houve uma certa tensão entre jornalistas e músicos locais.
Qual sua opinião a respeito?
Renato L -- Não faz bem a imprensa dar um tratamento acrítico à cena e às bandas.
No entanto, acho, de maneira geral, o jornalismo musical do Brasil fraco;
e não acho que o pernambucano seja uma exceção.
Acho que a imprensa pernambucana é muito desinformada em relação a uma série de tendências de música pop que surgiram após o rock dos anos 70.
Também não há nenhum jornalismo com suficiente conhecimento para falar de música eletrônica;
no máximo, eles falam sobre Chemical Brothers e Prodigy.
E 'sa parada de música eletrônica é fundamental em 'sa cena toda, até no próprio conceito do mangue;
pois ele apareceu no início das raves, que foi uma coisa que fez com a galera se movimentasse.
Por outro lado, vejo gente reclamando porque algum jornalista falou mal de sua banda ...
Número de frases: 127
Cara, isso não é motivo pra reclamar, é a opinião de ele, que tem de ser respeitada.
Foi na semana passada, num canal de TV:
uma matéria elogiando a lei Cidade Limpa, que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, fez passar para eliminar os outdoors e a mídia externa nos prédios da cidade.
A matéria tinha um tom visivelmente chapa-branca, ou seja, quase uma matéria paga de tão favorável.
Os repórteres diziam (e mostravam, através de simulações por computador) como a cidade tinha ficado mais limpa, mais «clean» até (palavras de uma entrevistada no meio da rua).
Claro que a visível subjetividade foi inteligentemente equilibrada (não muito, mas valeu a tentativa) por uma observação, quase ao final da matéria:
como substituir os anúncios por algo que embeleze a cidade?
A matéria procurou responder a 'ta pergunta exibindo alguns exemplos de arte nos prédios que já existe na cidade -- a saber, trabalhos de Tomie Ohtake e Maurício Nogueira Lima.
Tudo muito bonito.
E necessário.
Pois, paradoxalmente, a cidade ficou mais cinzenta e triste com a retirada dos outdoors e dos anúncios nos prédios -- e aqui cabe uma observação:
o secretário de turismo do município afirmou, na matéria, que São Paulo é praticamente a última grande cidade do mundo a se livrar da mídia externa, porque nenhuma de elas faz mais isso.
Sou obrigado a dizer que o secretário disse uma inverdade, pois Tóquio, Nova York e Barcelona não se desfizeram de suas mídias externas -- Barcelona, depois de Seis anos de negociações, só conseguiu liberar o centro histórico da cidade.
Tóquio e Nova York nem isso.
Mas não vou discutir aqui a validade ou não da lei do Sr. Prefeito:
passou, foi sancionada, então é lei -- seja justa ou não.
Também não vou criticar nem defender os donos das empresas de mídia externa, muito embora a maioria 'magadora de eles não 'tivesse agindo contra a lei até 'sa lei 'pecífica ser aprovada.
E também não 'perem que eu ataque ou defenda o Sr. Prefeiro Gilberto Kassab -- embora eu, como toda pessoa com um mínimo de bom senso, tenha ficado chocado com o piti histérico e absolutamente fora de controle que o prefeito deu há algum tempo, agredindo verbal e fisicamente um ex-empresário de mídia externa que procurava fazer uma manifestação (justa ou não, uma manifestação só era recebida na porrada nos tempos da ditadura, daí o meu 'panto e a minha surpresa).
Este pequeno texto tem outro objetivo:
uma proposta aberta ao Sr. Prefeito Gilberto Kassab.
Obras de grandes artistas plásticos são belas e necessárias -- mas por que só elas, ou, por outra, por que só artistas consagrados deveriam ter 'se 'paço?
Por que não o grafite, que é uma das marcas registradas da cidade?
Sugiro isso logo depois de passar por o túnel de acesso à Avenida Paulista, que foi recentemente repintado por grafiteiros para homenagear o centenário da imigração japonesa.
O projeto, que teve a curadoria do grafiteiro Binho Ribeiro e contou com a participação de artistas do grafite reconhecidos internacionalmente, como Titi Freak e Kboco, foi uma realização do Projeto Sol Nascente, do qual participam a Prefeitura de São Paulo e a agência de cultura japonesa Yanus Quality.
Incrivelmente, não existe um site 'pecífico exibindo os grafites -- a imagem que ilustra 'ta matéria foi retirada da Revista Made in Japan (todos os direitos reservados).
São Paulo foi a cidade onde ocorreu a explosão do grafite brasileiro na década de 1980, com o saudoso Alex Vallauri.
A ele, em pouco tempo, se juntaram nomes como John Howard, Hudinilson Jr, Celso Gitahy, Rui Amaral e, mais recentemente, Os Gêmeos, Donato, Binho Ribeiro, Cobra e uma infinidade de artistas urbanos.
A cidade foi aos poucos ficando menos cinza, mais colorida, mais bonita.
Os grafiteiros 'tão conseguindo conquistar um 'paço cada vez maior na cidade -- mas 'se 'paço ainda é pequeno, e na cidade cabem todos os artistas:
de Tomie Ohtake aos Gêmeos (sem comparação de qualidade, notem bem).
Fica aqui, portanto, a sugestão aberta ao prefeito de São Paulo:
Sr. Kassab, vamos grafitar São Paulo!
Vamos colorir e embelezar nossa cidade com os grafites!
Número de frases: 33
A cidade e os cidadãos agradecem ....
...
... Recebi uma proposta irrecusável.
Ir a uma reunião cuja pauta era não ter pauta.
Uma coisa assim, assim meio aberta, meio despretensiosa.
Chamaram da primeira reunião da Rede Museus, Memória e Movimentos Sociais e o email de convocação dizia mais ou menos o seguinte: ...
...
«Os objetivos da reunião são:
propiciar o encontro e a troca de experiências entre pessoas que atuam no campo da cultura, da memória e do patrimônio, e 'tabelecer uma agenda para o desenvolvimento de projetos 'pecialmente voltados para comunidades populares e movimentos sociais.» ...
Mais ou menos, não.
Dizia exatamente isso.
Seguido por data e local do evento:
dia 23, às 14h, no Palácio Capanema.
De modo que precisar as atividades que se dariam ali, seria mera 'peculação.
A proposta era mesmo chegar e se apresentar.
Botar a boca no trombone.
E, por isso mesmo, criar uma pauta.
Em as palavras do diretor do Departamento de Museus e Centros Culturais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DEMU-IPHAN), José do Nascimento Júnior, a idéia era «colher subsídios para a formulação de um edital com 'se objetivo de institucionalização de museus e pontos de cultura com projetos relacionados à memória das comunidades».
Pausa.
...
...
A Rede Museus, Memória e Movimentos Sociais deve apoiar a implantação de centros culturais, museus, instituições e projetos de memória e patrimônio em comunidades.
Também há um objetivo claro de fomentar a criação e aplicação de cursos, oficinas e projetos de pesquisa.
A iniciativa resultou de uma articulação entre o Departamento de Museus e Centros Culturais, o Programa de Pós-gradua ção em Memória Social da Unirio e o Museu da Maré.
Outra pausa ...
...
O Departamento de Museus do IPHAN foi criado em 2003, mas passou a funcionar apenas em 2004.
Seu principal objetivo à época era criar e implementar uma política nacional de museus, trabalho que vem sendo realizado com êxito desde então.
...
O Coordenador Técnico do DEMU, Mario Chagas, foi quem disse que, para novos tempos, o melhor é que haja uma nova tipologia de museus, com novas formas, novas propostas.
«Os museus têm muito a contribuir com os movimentos sociais, as comunidades populares.
Mas, para isso, é importante que eles sejam democratizados."
Foi ele também quem criou a imagem:
«O museu é uma ferramenta de trabalho, como um lápis, um computador.
Nosso objetivo aqui, inclusive com 'sa reunião, é democratizar o uso de 'sa ferramenta.» ...
...
Mas a imagem que mais rendeu frutos durante a reunião não foi bem 'sa, foi outra.
Foi o diálogo do verbo com a verba que o representante da ABM propôs.
A dificuldade que é transformar um projeto viável num projeto sustentável a partir da dura e penosa etapa de captação de recursos."
Assim como na Física, no campo da Memória, não há 'paço vazio.
O problema é que se tem o verbo, mas não se tem a verba."
Alguém lembrou o Lenine e foi um passo para que 'se assunto se tornasse a tônica da reunião.
Perdi a conta de quantas vezes alguém usou a expressão bonitinha para extravasar a realidade.
Mas a conversa sobre dinheiro não tirou o brilho do encontro.
...
... Então, para iniciar os trabalhos, ou melhor, para de fato construir a reunião, os presentes foram convidados a se apresentarem.
Eu mesmo tive de pegar o microfone e anunciar:
«Sou Viktor, jornalista, 'tou aqui cobrindo 'te evento para o Overmundo, um projeto de internet colaborativa sobre cultura de todo o Brasil."
Vieram também a Ângela, da Casa do Pontal;
a Vânia, do Museu do Folclore Edson Carneiro;
a Patrícia, do Museu da Limpeza Urbana, do Caju;
o José Luís, do Sebrae-RJ;
a Joana Darc e a Regina, da Unirio;
a Mauriléa, da comunidade de favelas da Grande Tijuca;
o Luís Antônio, o Antônio Carlos e a Cláudia Rose, do Museu da Maré;
a Nira, do Comitê Olímpico Brasileiro;
o Leandro, do Museu de Arte Contemporânea de Niterói;
o Aldo, do Morro da Babilônia;
a Denise, da Ação Comunitária do Brasil, a Isaura, da Fundação São Joaquim de Assistência Social;
a Lúcia, de Caxias;
a Regina, Diretora de Cultura do município de Tanguá;
a Cristina, da USP;
o Lucas, da Casa do Pontal;
a Vanilda, de uma ONG de Vigário Geral;
a Lígia, da UFF;
a Ana Cristina, mestre em Memória Social por a UNIRIO;
a Alessandra, aluna de pedagogia da UFF;
a Maristella, designer e coordenadora das oficinas de sucata de Santa Teresa;
a Nadja, doutoranda búlgara de Princeton que pesquisa atualmente o Museu da Maré;
a Cláudia, que pesquisou o Museu Imperial na sua tese de doutorado;
o Valdemir, do projeto Museu da Resistência;
e outros, uns mais tímidos, uns menos.
Foram 46 pessoas, 20 comunidades.
A grande maioria era, sim, do Rio de Janeiro, mas a idéia é começar a expandir a partir daqui, chamando mais e mais comunidades, e, claro, ouvindo demandas mais 'pecíficas de cada um.
A Cláudia Rose Ribeiro, no final da reunião, sugeriu também que se chamasse o pessoal da iniciativa privada, até porque o assunto teimava em anaforizar o verbo e a verba, e já que se 'tava falando em investimento e recursos, o melhor era abrir o leque de investidores.
Sugestão prontamente acatada.
...
... Aldo Maciel, líder comunitário do Morro da Babilônia lembrou com algum carinho que " o Chapéu-Mangueira já teve seu papel de pioneiro.
Hoje 'se pioneirismo cabe à Maré, mas muitas personalidades que hoje vemos por aí saíram de nossas lideranças, como é o próprio caso da Benedita da Silva."
Mas a memória das comunidades não vive só de passado.
Alessandra Norato, que participa de um projeto de oficinas de contação de histórias nas comunidades próximas ao Guaxindiba, em São Gonçalo, relatou o movimento dos moradores para reivindicar uma praça para o local, já que a atividade dos contadores de histórias ocupa um papel importante na tradição da região.
«É o poder da memória de modificar o urbano», disseram ...
...
Muitos dos debatedores começaram já ali na reunião a traçar parcerias ponto a ponto.
Alguns ofereciam oficinas e exposições, outros requeriam.
E em 'se ponto foi fácil unir o útil ao agradável.
A o sustentável.
Nascimento Júnior falava da necessidade de uma «sustentabilidade social» e deu o exemplo das oficinas de conservação de fotografias, que fizeram algum sucesso.
«A memória oral das comunidades costuma usar bastante a fotografia como suporte», constatou.
Antônio Carlos Vieira, um dos coordenadores do Museu da Maré, dizia que «memória é também lugar de conflitos», para lembrar que memórias sobem e descem ao sabor de quem as rememora.
E o Coordenador Técnico do Departamento de Museus emendou, dizendo que o IPHAN opera " contra o gueto.
Nós operamos com os movimentos de memória em comunidades populares, mas contra os guetos!
Guetificar é fazer cercar-se e deixar restar apenas a luta interna.
É preciso vencer o preconceito em relação às favelas, e também é preciso vencer o preconceito em relação aos museus.
Os museus não são apenas instrumentos da elite.» ...
...
...
E não que não houvesse mais nada a ser dito, como metaforizaram os representantes do IPHAN para dar cabo do encontro quando ninguém mais se manifestou em favor de pedir a palavra, nem que a reunião houvesse chegado ao fim efetivamente, mas era preciso devolver o auditório.
Era preciso criar uma pausa.
E encerrar aquela reunião, até que a próxima tome seu lugar, e novas pessoas se ajuntem ao grupo. (
Você se interessou?
Pode entrar em contato com o DEMU-IPHAN por o telefone (21) 2220-8485 ou por o email demu@iphan.gov.br e quiçá participar da rede ...)
Só não sei se na próxima reunião as apresentações levarão tanto tempo ...
Número de frases: 103
João Brasileiro 09/10/2006
A Lenda Gaúcha do Negrinho do Pastoreio,
que aborda questões sociais de raça, poder, religião e algumas outras discuções que os puritanos não acham de «bom tom» fomentar, agora será lançada em forma de novela-grafo visual por a Editora Conrad.
Como diz a publicação de um dos colaboradores do «re-enredo»,» Rodrigo dMart:
«O projeto mescla ilustração, fotografia, colagem, prosa e poesia.».
Não é preciso ser um vidente-evidente para prenunciar um boom-midiológico que 'tá por vir ...
A mídia e a crítica, em 'se caso, virão que «nem mosca no charque»!
Segundo o idealizador da novela, Índio-San (Everson Nazari), que, como foi citado em posts anteriores no Blog Yo-Hoy [http://yohoy.blogspot.com], terá sua primeira HQ publicada por a Conrad (www.conradeditora.com.br), a releitura da Lenda do Negrinho do Pastoreio vem sendo trabalhada há cerca de 3 anos, com muito investimento «braço-intelectual e» já foi visto por olhos importantes da mídia nacional.».
Para saber mais, http://outropastoreio.blogspot.com/
Para visitar o sítio eletrônico do projeto:
http://www.pastoreio.org/ O projeto tem a assinatura de Everson Nazari (Índio-San), Santa Maria-RS, desenhando ilustrando e enlouquecendo no design e os textos do Rodrigo dMart, Pelotas-RS, (leia-se: Doidivanas)
Número de frases: 11
Big Hug -- e bom caminho a quem passa!
Desde a mais tenra idade tive interesse por quadrinhos, fosse por a facilidade da leitura que eles proporcionavam, fosse por a farta disponibilidade de material em minha casa, fosse simplesmente por o gosto natural que em mim aflorou.
E lá se vão quase três décadas desde o primeiro contato.
Em a época os maiores sucessos eram os da Disney e de Maurício de Souza, todos do eixo Rio-São Paulo ou dos Estados Unidos da América.
Em meados de 1983 e 1984, todavia, tentei aprender a desenhar alguns traços e entrei na 'cola pública chamada Atelier Central, mantida por o Governo do Estado do Rio Grande do Norte.
Lá notei que existia localmente uma incipiente 'trutura de quadrinhos, tendo conhecido a revista Maturi e os alguns dos seus colaboradores.
O nome já fomentava a curiosidade.
Maturi significa «o que 'tá para vir» (além de significar o nome de um marisco e da castanha de caju ainda verde), e era editado por o Grupehq, uma associação de desenhistas e roteiristas composta por Luís Élson, Adrovando Claro, Aucides Sales e outros.
Consegui adquirir alguns exemplares em sebos ou bancas de jornais ao longo do tempo.
Achava muito interessante a tentativa de romper com os tradicionais 'tilos industriais de quadrinhos.
O tempo passou e pouco vi a respeito do desenvolvimento de 'sa forma de arte em nosso Estado, ao contrário do que ocorreu em todo o mundo, com um avanço 'trondoso no aspecto tecnológico.
Como um exemplo um tanto grosseiro cito a internet, que possibilita uma maior interação envolvendo artistas, editoras e público consumidor.
Recentemente tive a grata surpresa do reativamento da Maturi, com uma edição 'pecial, e perspectivas de novos números.
Contente, apressei em comprar um exemplar na Garagem Hermética, talvez a única loja 'pecializada no tema em Natal.
A o lê-la, notei que alguns dos quadrinhos consistiam numa mera reedição.
Uns muito criativos, outros nem tanto.
As tiras chamadas Trombstone, Pivete e Traças são muito engraçadas, mas falta uma definição do que cada linha corresponda a uma pequena 'tória.
A temática nordestina abordada na Maturi, mostrada em Antônio Silvino -- O rifle de ouro e Vaqueiros, mais uma vez peca por tentar mostrar um faroeste caboclo sem enredo forte, como quem conta uma história sem clímax ou sem um fundamento mais envolvente que não o de apenas «retratar por retratar» aquele ambiente.
O cartunista Henfil, que morou em Natal na década de 70, procurou os Estados Unidos antes disso no afã de aprimorar suas técnicas e tratar da saúde.
Lá chegando recebeu sugestões no sentido de colocar títulos e ser mais objetivo nas tiras, o que lhe garantiu franca aceitação em inúmeras publicações de peso, tal como o Chicago Tribune.
E não se trata de querer «pasteurizar» o quadrinismo local, o que poderia obliterar as necessárias particularidades culturais.
Busca-se, sobretudo, uma forma que impressione melhor o leitor.
De qualquer forma, deito loas à indústria cultural do meu Estado, pugnando por o seu ressurgimento e desenvolvimento, não só com as revistas em quadrinhos, mas também com 'colas de arte que possam engrandecer o intelecto da população e trazer mais e melhores frutos para nossa terra.
Número de frases: 23
Companhia de Comédia Os Melhores do Mundo completa 10 anos de uma história que começou bem antes.
Ricardo Pipo (à direita) conta um pouco de ela para o Overmundo.
A primeira vez que vi Welder Rodrigues e Ricardo Pipo foi em 1991, no Jogo de Cena, um evento antes quinzenal e agora mensal que mistura um pouco de tudo que existe em arte:
teatro, música, dança, poesia, pintura e muito improviso.
Mais conhecidos apenas como Welder e Pipo (assim mesmo, 'crito em 'sa ordem), eles apresentavam um 'quete do 'petáculo de comédia besteirol A culpa é da mãe.
Nunca vou me 'quecer do Welder saltando como uma rã por todo o palco, enquanto Pipo cantava Sapo Cururu.
Foi um sucesso.
E o elenco, que contava ainda com as irmãs Madelene e Madelon Cabral, Rudney Silveira e Adriana Nunes, aproveitou o nome do 'petáculo para batizar a nova companhia teatral.
Nascia ali A culpa é da mãe.
Se não o primeiro, certamente o mais famoso grupo de teatro a surgir em Brasília.
Que além da peça de 'tréia ainda protagonizou, entre outros, É a cara do pai, Romeu e Julieta e Hamlet.
«Hamlet foi a nossa única peça que não era comédia», diz» Pipo.
«Mas a platéia riu assim mesmo.
Eu interpretava a Ofélia e Welder se desdobrava em vários personagens, que é o que ele mais gosta, ser uma 'pécie de coringa."
Mas nem no mundo do humor tudo é riso.
E por problemas com o produtor o grupo precisou mudar de nome.
Pipo explica melhor:
«Um belo dia achamos que era hora de viajar por o Brasil.
Como nosso produtor 'corregou no quiabo, abrimos mão de ele, do nome do grupo e de nossas vidas regressas e rumamos para o Rio de Janeiro».
De Brasília para o mundo
Já famosos em Brasília mas ainda ilustres desconhecidos em outras terras, partiram para a 'colha de um novo nome que os apresentasse bem.
Entre várias opções, optaram por Cia de Comédia Os " Melhores do Mundo.
«Achamos que uma forma do brasileiro 'tar na mídia é sendo melhor do mundo em alguma coisa.
O Paulo Autran deu mole, pegamos o título para a gente.
Agora já era!
Melhores no mundo do Teatro somos nós», 'clarece " Pipo.
«Nossas mães agradeceram horrores».
O ano era 1995.
E com novo nome veio a nova formação.
Agora, além dos remanescentes originais Welder, Pipo e Adriana Nunes, passaram a fazer parte Adriano Siri, Victor Leal e Jovane Nunes.
Assim, desembarcaram no Rio, no histórico Teatro Ipanema, por onde passaram grupos como Asdrúbal Trouxe o Trombone e a Banda Blitz.
A temporada não foi das mais bem sucedidas.
Em um janeiro 'caldante, subiam no palco pontualmente às 20h, quando no horário de verão as praias ainda 'tão cheias.
Mas eles 'tavam mesmo determinados a fazer jus à nova alcunha.
Decididos a expandir ainda mais suas fronteiras, apresentaram-se em várias cidades, como São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia e Ribeirão Preto.
Por fim, acabaram aportando mais uma vez no Rio.
De 'sa vez com contrato com a Rede Globo.
Pipo tem várias lembranças da época:
«Fizemos o Linha Direta.
Eu era a cara do assassino e o porteiro do meu prédio no Leblon ficava olhando torto pra mim com aquele olhar de ´ já vi 'se bandido no Datena ´».
«E fizemos também um quadro no Domingão do Faustão, uma verdadeira gincana que batizamos de Teatro Com Obstáculo.
Em o caso, o obstáculo era o próprio Faustão», ri.
«Foram seis domingos ao vivo, tentando reproduzir um texto que sofria de restrições jurídicas, com razão, por parte da emissora.
E ele ficava interrompendo nas únicas piadas possíveis.
Foi uma experiência e tanto.
Só não foi melhor porque não repercutiu em nada na bilheteria, que era o que 'perávamos conseguir.
Alcançamos audiência por cinco domingos.
Em o dia em que perdemos no Ibope para o Domingo (i) Legal fomos levados até a saída, obrigado».
Trabalho duro
Apesar de todas as dificuldades, Os Melhores do Mundo não se cansam de colher os louros.
Já são 10 anos de fundação do grupo e mais de 30 peças representadas para milhares de 'pectadores.
Só Sexo, o maior sucesso, teve mais de 400 mil pagantes.
Além disso, Welder e Pipo agora são os apresentadores oficiais do Jogo de Cena.
É trabalho à beça.
Pipo, claro, tem um comentário engraçado a respeito.
«Estamos em cartaz em todos os finais de semana do ano, de quarta a domingo, às vezes com duas sessões por dia.
Só paramos no Natal e Ano Novo.
Em um ano, trabalhamos muito mais do que a Câmara Legislativa de Brasília em toda sua existência.
Mas 'sa é uma comparação covarde».
Continuando com o plano de conquistar o planeta, os Melhores do Mundo agora se aventuram em outras áreas.
Em o último Festival de Cinema de Brasília apresentaram à 'pera da morte.
A primeira incursão cinematográfica do grupo tem a participação de Chico Anysio e conta a história de um submarino russo que afunda.
A os tripulantes nada mais resta do que 'perar a fatídica hora chegar.
A produção dividiu a opinião da platéia, mas tem o mérito de ser possivelmente o primeiro filme brasileiro inteiramente falado na língua de Boris Iéltsin.
Com legendas, é claro.
E em 2006 lançam o primeiro DVD, com uma versão do 'petáculo Hermanoteu na Terra de Godah.
No meio de tantos trabalhos, pergunto a Pipo o que mais gostou de fazer em todos 'ses anos.
A resposta é rápida.
E bem humorada:
«Gosto do conjunto da obra.
Até porque temos apenas seis personagens, quatro vozes, oito perucas e três piadas, que se revezam em trinta 'petáculos.
Número de frases: 71
O dia em que perceberem isso 'tamos perdidos!"
Chegou a mais nova rede colaborativa da web:
o Mugg.
com. br, um canal de notícias sobre música feito inteiramente por o usuário.
Inspirado em idéias como Digg e o Overmundo, o Mugg pretende ser um ponto de encontro para aqueles que procuram informações sempre atualizadas sobre bandas, artistas e shows.
«O objetivo é reunir num só lugar novidades sobre o mundo da música que muitas vezes encontramos salpicadas na grande mídia e pulverizadas em blogs e sites mais alternativos da web.»,
afirma Guilherme Neumann, designer, um dos criadores do projeto.
«Além de reunir notícias, queremos, acima de tudo, construir uma comunidade sólida para os que gostam de música, uma plataforma aberta para discussão, trocas e socialização entre aqueles que participam», afirma.
Em o Mugg, é assim:
você é o repórter, revisor e editor.
Qualquer um pode enviar notícias sobre seu artista favorito, indicar posts legais de blogs 'pecializados, publicar artigos, reviews de shows, críticas de CDs e divulgar a sua banda!
Além disso, você e a comunidade Mugg decidirão o que ficará em destaque na home do portal, através do sistema de votos em cada notícia.
Quanto mais bem votado, mais bem colocado ficará o seu texto na página principal do site.
«Por isso, para funcionar, o Mugg precisa da participação constante dos internautas -- seja enviando notícias, ou apenas votando em elas e comentando», diz Guilherme.
Como participar
Qualquer pessoa com um endereço de e-mail pode participar do Mugg.
Basta se cadastrar gratuitamente no site e automaticamente começar a publicar no portal.
Existem duas maneiras de publicar uma notícia no Mugg:
a primeira é fornecendo o link da matéria original da internet e adicionando seus comentários e críticas -- aqui o Mugg se assemelha ao Digg, em seu sistema de indicação de links.
A segunda forma de publicar conteúdo no Mugg é enviando um texto original, de sua autoria, para o site.
«A nossa idéia inicial era gerar discussões a partir do que sai na mídia, nos blogs e nos outros mil lugares onde se fala de música na web» afirma Mariana Esteves, jornalista, também criadora do projeto.
«Mas vimos que também precisávamos de um 'paço para que as pessoas publicassem matérias originais, textos sobre sua banda independente, opiniões sobre um show ...
Assim temos as duas opções:
indicar um artigo da web ou publicar seu texto original e exclusivo no Mugg», diz.
Os usuários também terão uma página com seu perfil, onde ficarão disponíveis todas as informações sobre sua participação no site -- notícias enviadas, comentários feitos e votos recebidos.
«Mais importante do que ser um bom canal de informação, entendemos que um site que se apóia no usuário como fonte de conteúdo deve servir como uma plataforma eficiente de networking.
O Mugg acabou de nascer, mas temos planos para que ele evolua como uma rede de relacionamento poderosa, baseada num vínculo muito forte existente na web:
o gosto musical das pessoas», afirma Mariana.
Novidades no Mugg Blog
Guilherme e Mariana manterão o Mugg Blog (mugg.
com. br / blog), que será o principal canal de comunicação entre a equipe do site e seus usuários.
Em o blog serão divulgadas todas as novidades com relação ao projeto e onde serão recebidas as sugestões e críticas dos internautas.
«Em breve lançaremos também o Mugg Cast, o podcast que vai repercutir os assuntos publicados no Mugg e, claro, tocar o melhor da música que 'tá rolando por aí.
O podcast e outras novidades e melhorias serão divulgadas no blog», diz Guilherme.
Mugg na web
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Número de frases: 40
Contato: editores@mugg.com.br Meus sete anos -- o primeiro ano na 'cola
Joana Eleutério Pensar a respeito do assunto e tentar lembrar um episódio marcante, pitoresco, histórico ou divertido tornou-se um exercício interessante.
Em a simplicidade de uma enorme família do interior de Minas, vivendo na zona rural, nossa vida tinha poucas novidades, não tinha grandes alegrias e nem muitas tristezas.
Com pais extremamente comportados e enquadrados, nós éramos crianças que «entravam mudas e saiam caladas» em quase todos os ambientes.
Tínhamos poucos direitos e muitos deveres.
Assim tão educadinhos, e sabendo «de cor e salteado» o lema dos pais e dos educadores daquela época, -- final da década de 50 -- «criança não tem querer», meus pais nunca receberam reclamações de professores ou de 'colas e nem de vizinhos.
Décima filha, com seis irmãos mais novos e nove mais velhos, eu 'capei pela tangente.
Criei um mundo de sonhos e fantasias que me davam direito a ter amigos secretos e tão pequenos que cabiam na palma de minha mão.
Eles viviam debaixo da terra e nos cupins.
Construíam verdadeiras cidades subterrâneas.
Eu podia brincar com seus minúsculos carrinhos e eles me contavam tudo sobre a sua vida debaixo da terra.
Pena que eu não podia entrar lá, só eles saiam pra brincar com mim.
E, a qualquer barulho se 'condiam novamente ...
Só eu podia vê-los.
Menina muito sonhadora, eu brincava, sozinha, horas a fio.
Só quando meus irmãos e primos iam nadar no açude, eu me juntava a eles e me 'baldava.
Este temperamento até deixava os adultos preocupados, principalmente minha mãe.
Até começar a 'tudar na cidade, em Bom Despacho, eu era considerada pouco inteligente e muito desatenta.
«Esta menina vai ter dificuldades para aprender, diziam!"
Minha cidade fica a 160 kim de Beagá, por a BR 262 sentido Uberaba.
Em a 'cola da cidade, o que mais me surpreendeu foi o seu tamanho:
muitas salas, dois andares, pátios e uma quadra.
Tinha ainda uma enorme cantina, onde sempre eram servidos mingaus e outras merendas gostosas.
O Grupo Escolar Coronel Praxedes, o mais antigo e tradicional da cidade ocupava um quarteirão quase inteiro, pertinho da Praça da Matriz e também da Praça da Estação.
Além de ele, naquele ano de 1959, só havia outro -- o Grupo Escolar Flávio Cançado, que funcionava no antigo seminário.
Meus coleguinhas eram crianças bonitas, cheirosas, bem vestidas e muito bem penteadas.
Eram muito clarinhas, não tomavam tanto sol como a gente lá da roça.
E falavam de um jeito tão diferente também.
Eu achava tão bonito e ficava caladinha, só observando e ouvindo.
A nossa professora era excelente e eu logo aprendi a 'crever e a fazer contas.
Minhas redações e desenhos faziam sucesso.
A professora sempre 'colhia as melhores redações e lia alto para toda a turma -- eu ficava feliz 'cutando o que eu tinha inventado na voz de D. Célia Resende.
Eu me sentia uma verdadeira 'critora.
Tão feliz como quando declamava a Canção dos Tamanquinhos ...
O que eu mais gostava era quando a professora contava 'tórias e depois os alunos faziam teatrinho.
Eu sempre ficava na platéia, quase sem respirar, de tão bonito que eu achava.
A 'tória da D. baratinha se tornou inesquecível.
A Bete, aluna nota dez em tudo, não tinha vergonha de nada e quase sempre fazia o papel principal.
Ela fez muito bem o personagem da Baratinha.
Hoje ela é médica, mas continua sendo a «Bete Barata», apelido que ganhou naquele dia, até mesmo como uma homenagem por sua excelente performance.
Eu a admirava muito.
Mas, uma vez, não me lembro o motivo, nos 'tranhamos na saída da 'cola.
Com toda turma e os alunos de outras turmas que também 'tavam saindo e fazendo uma torcida danada, eu fiquei valente.
Segurei-a no canto do muro e fui apertando, apertando e sendo ovacionada por a molecada, até por os meninos da quarta série.
Hoje eu penso:
Eh, Bete Barata, a nossa salvação foi a vice-diretora.
Se ela não aparece!! ...
Ela salvou você e me tirou daquele papel ridículo de valentona, que eu 'tava representando.
Em o dia seguinte, 'távamos conversando de novo e nem nos lembrávamos da traquinagem da véspera.
E eu me pergunto até hoje de onde surgiu aquela briguinha tão boba!
Número de frases: 50
A vida cotidiana no Brasil atual se baseia, fundamentalmente, na construção ou fuga de problemas intencionalmente criados por outros brasileiros.
Enquanto uma ilha quase desértica e 'téril de riquezas naturais como a Inglaterra tem um povo que há séculos vive da exploração (material e psicológica) de outros povos (como o brasileiro), a maior parte dos brasileiros há décadas tem vivido à custa de criar problemas para outros brasileiros se enrolarem e, ao tentarem se desenrolar, terem gastos financeiros com os serviços daqueles que prometem resolvê-los.
A maior parte do tempo útil do brasileiro é dispendido com situações desse tipo.
O melhor para a vida seguir adiante o mais alegremente possível é não conseguir enxergar tal processo de criação de problemas no dia-a-dia.
Infelizmente não é 'te meu caso.
Em os últimos sete dias, por exemplo, 'tive às voltas, de modo mais nítido, com uma sacanagem de 'tas.
Há dez anos usando o mesmo monitor de computador da multinacional IBM, o coitado enfim pediu arrego, tornando-se inútil para os (em boa medida também inúteis) novos softwares de que ingleses, americanos e alguns orientais conseguiram nos deixar dependentes (material e psicologicamente;
principalmente deste último modo, no meu caso).
Acabei comprando um monitor usado de 20 polegadas por 250 reais, muito barato se comparado ao monitor novo de mesmo tamanho.
Obviamente eu não preciso de algo tão grande;
mas exatamente isto é a tal dependência psicológica de bugigangas tecnológicas de que falei logo acima.
Compra-se sem saber muito bem por que, mas compra-se como se fosse imprescindível.
Comprando o monitor gigante e inútil com preço inicialmente muito bom, logo comecei a descobrir que eu teria que gastar mais várias horas e alguns bons reais para fazê-lo funcionar.
Isto, claro, caso eu não quisesse pagar mais do que ele me custou para advogados e burocratas tentarem judicialmente desfazer a minha compra.
Por se tratar de um monitor que uma outra multinacional vendeu em 'cala industrial para alguma grande empresa ou algum órgão do superfaturado governo brasileiro (muito provavelmente para ser subaproveitado em algum departamento burocrático e inútil), comprei-o sem seu cabo de transmissão de dados.
Segundo o picareta que me vendeu, um dos milhões de brasileiros jovens que vivem informalmente à custa de inventar falsos problemas de informática para outros milhões de brasileiros gastaram sua grana em consertos fictícios ou desnecessários, ele já comprou os monitores, certamente de um outro atravessador igualmente picareta, sem os cabos originais.
Estes, muito provavelmente, o tal atravessador vendeu separadamente para aumentar seu lucro, ao ter que viver de negociar sucata tecnológica para consumidores periféricos como o brasileiro -- eu, no caso.
Logo descobri que o tal cabo, por se tratar de um monitor fora do padrão, não era encontrado em lojas comuns;
se é que seria encontrado.
E já os cabos vendidos em lojas comuns distorciam a imagem.
Antes, contudo, de descobrir por mim mesmo que o problema era a ausência do cabo original, eu já havia passado uns três dias carregando canhestramente um monitor de 32 kg para a cima e pra baixo, e ouvindo de «experts» que o problema poderia ser minha placa de vídeo, a placa-mãe, ou meu computador inteiro.
Eu já 'tava pra lá de arrependido por ter economizado uns 300 reais em tal compra.
Se eu tivesse optado de cara por um monitor novo, bastaria eu enrolar mais alguns pacientes (já que sou um médico tipicamente brasileiro) e conseguiria passar adiante 'sa despesa extra numa boa.
Para quem ainda não sabe, boa parte do trabalho médico consiste na criação de falsas necessidades para a população consumir, à medida que 'ta se ilude à 'pera de curas, vidas longas e saudáveis e de beleza.
Mas não, por 'crúpulo e por falta de gana por dinheiro, bem como por falta de apreço por o trabalho incessante, sou um médico que precisa economizar em monitores.
Não faço muito bem meu papel de fazer girar a roda da invenção de problemas e de criação de falsas necessidades para os outros.
Felizmente, quando eu já 'tava me conformando com o fato de ter perdido uns 400 reais em 'sa história toda (já que a porra do monitor não iria mesmo funcionar!),
sem falar em várias horas de andança de carro e a pé embaixo de um sol filho da puta de quente, além de muito grilo por 'tar perdendo tanto tempo com algo tão idiota, encontrei uma loja grande e vazia que vende (caro) produtos tecnológicos fora do padrão (quer dizer, que não apenas produtos baratos e de má qualidade produzidos na China ou Taiwan).
Enfim, com mais algumas dezenas de reais deixados em 'sa nova loja (já havia desistido de contar), pude correr para casa e ligar o meu monitor «novo», e voltar a me refugiar do canibalismo à brasileira (ou seria capitalismo?)
onde isso ainda me parecia possível -- na vida virtual (ou, literalmente, na que não existe).
Acho que não é à toa que os brasileiros «dominam» a internet, como ouço dizer por aí.
Número de frases: 31
Devem 'tar tentando fugir sem precisar sair do lugar.
O underground parece ser o fruto dileto de uma reforma da organização da cultura ocidental que se articulou nos últimos 50 anos.
É comum observar que não apenas o senso comum, mas textos de várias ordens -- de matérias jornalísticas a abordagens teóricas -- tratam os fenômenos sócio-culturais ligados à eclosão do underground como revolucionários, como responsáveis por transformações profundas na sociedade ocidental.
Há, porém, outras percepções do fenômeno.
Uma de elas se remete a uma legítima revolta dos jovens contra os valores dos mais velhos, causando rebuliço suficiente para a transformação dos costumes tradicionais, mas que, seqüencialmente, haveria sido capturada por a mesma lógica que combatera.
Em 'se caso, fala-se de uma iniciativa algo saudável que teve seu percurso desviado para o caminho comercial, quedando refém.
Uma noção eminentemente rousseauniana:
a sociedade corrompe as boas intenções.
Há uma outra possibilidade de compreensão, capitaneada por o argentino, radicado no México, Néstor García Canclini.
Em 'ta perspectiva, parece inevitável pensar a contracultura underground como inserida no mundo do consumo, porém o ato de consumir pode ser entendido como um ato político.
Para Canclini, correlato ao consumo há uma iniciativa de pensar o social, de reelaborar o seu sentido, logo, trata-se de uma nova forma de cidadania.
O underground, em 'se caso, poderia se constituir como uma proposta privilegiada de redefinição dos papéis sociais.
A proposta, aqui, é sugerir uma nova interpretação da contracultura nascida pouco antes da metade do século passado, que aqui é chamada de underground.
Ocupando um lugar marcado.
A hipótese central que orienta 'te texto remete à compreensão do underground como um dispositivo de poder, nos moldes propostos por Michel Foucault.
Não se crê, aqui, ser possível compreender ter havido qualquer movimento revolucionário no underground.
Há, sim, algo que se pode chamar de «reforma», uma rearticulação do centro da identidade.
Os objetivos de 'sa reforma e os usos subseqüentes 'tão por ser melhor examinados.
Estudos como o de Thomas Doherty -- que aborda a «juvenilização» dos filmes -- e de Maria Rita de Assis César -- que aborda os discursos sobre a adolescência -- sugerem que pode não ter havido uma revolta 'pontânea da juventude.
O mais plausível, em 'se caso, é afirmar que houve uma adequação discursiva entre as demandas dos adolescentes -- postos numa zona existencial turbulenta desde a criação do conceito de adolescência -- e os interesses de pessoas bem mais velhas, que apostavam na necessidade do retorno ao modelo liberal de gestão política e econômica.
Isso significa dizer que não houve um movimento revolucionário de autoria de hippies, punks, mods ou de qualquer outra das pós-modernamente chamadas tribos urbanas.
Tudo indica que lhes foi insuflada uma rebeldia -- bem definida por Erich Fromm, ainda nos anos 50, como fruto de um profundo ressentimento contra a autoridade que encontra sua pacificação no 'tabelecimento de uma nova autoridade, absolutamente semelhante à antiga ou na conquista da aceitação do rebelde por o autoritário.
Logo, talvez não seja exato falar num movimento jovem «capturado» por o «sistema».
Tudo faz crer que o movimento jovem foi fomentado por o sistema, leia-se o sistema do capital, como uma forma de desterritorialização das identidades.
Se, por um lado, é uma afirmação delirante dizer que alguém tramou o surgimento das tribos do underground, ou inventou o próprio termo underground, não é absurdo afirmar que 'ses fenômenos se deram no 'paço discursivo da rebeldia, bastante adequado ao 'tablishment.
A perspectiva do consumo como ato político é bastante interessante e sensata.
No entanto, prescinde de uma compreensão macropolítica que pode ser encontrada no conceito de Império, de Antonio Negri e Michael Hardt.
Se não se tomar em conta 'sa noção, é possível entender o mundo do consumo como existente por si só e, daí, entendê-lo como um campo profícuo para reflexões e atitudes políticas.
No entanto, se for tomada a lógica de ação imperial, é impossível não dirigir a atenção para o modo como 'sa ação se desenvolve e, principalmente, como é 'truturante do universo social.
Um poder 'truturante.
Fala-se, então, de um poder macropolítico que se instala, como nunca antes havia ocorrido com tamanha eficiência, nas articulações micropolíticas.
Como bem explicou Félix Guattari, tem determinado não apenas o pensamento, mas o desejo.
Tudo indica que se trata de um imperativo, aos moldes do Império de Negri e Hardt, o que nos remete a uma macropolítica que se articula micropoliticamente, no plano da cultura.
Em 'se caso, é viável afirmar que o underground ocupou, de forma exemplar e bem comportada, um 'paço já previamente existente na cultura e na sociabilidade ocidental.
Em outros termos, foi implantado para suprir uma necessidade política da 'tratégia imperial.
Em o contexto de 'ta hipótese, parece viável pensar que há uma inequívoca identidade entre as propostas dos jovens e «jovens» do underground e a lógica 'trutural dos pendores da economia política postos em marcha em 'se mesmo período.
Há que se considerar, ao seguir 'sa linha de interpretação, que a necessidade de inserção de uma considerável parcela da população no processo de produção e consumo se tornava imperativa.
E que, mais importante ainda, o aparato produtivo industrial precisava de sérias adequações para melhor seduzir tanto 'sa faixa populacional -- os jovens -- bem como às demais, que acabariam, no percurso, vinculadas simbolicamente ao referencial da juventude.
Parece difícil negar que houve uma efetiva modificação na «solda» que perpassa as relações socioculturais nas últimas décadas.
É costume do senso comum referir-se a 'sa modificação como uma «liberação dos costumes», e não falta quem teça loas a isso.
No entanto, parece ter acontecido, mais propriamente, uma «neoliberalização».
Em outras palavras, as relações sociais, em todos os níveis, passam a ser referenciadas num molde de consumo, modelo de organização econômica vigente a partir desse período.
Em 'se contexto de tentativa de mercantilização de todas as 'feras do convívio social, a contracultura parece ter se 'praiado como uma articulação simbólica bem 'truturada que funcionou predominantemente para alimentar 'se movimento sociopolítico na 'truturação das relações sociais.
Como já bem disse Pierre Bourdieu, o poder simbólico só é 'truturante porque é 'truturado.
No caso do underground, é possível notar que a aplicação desse dispositivo de poder parece muito bem arquitetada.
Faz com que gente dócil se faça de indócil e incensa um tolo ideal de rebeldia.
Sofrendo com alegria.
Uma forma interessante de entender o posicionamento do underground na sociedade ocidental é pensá-lo como um «rito de passagem», uma 'pécie de» rito de iniciação " ao fascinante mundo do consumo:
consomem-se drogas e consome-se cultura, sonhos, música e corpos.
Principalmente, o underground ensina que pessoas são também consumíveis sem culpas.
É o que é possível observar ao se 'tar próximo de uma de 'sas tribos, ou «galeras».
O discurso da rebeldia underground se articula exatamente contra a sociedade «normal», mas parece intrinsecamente envolvido com ela.
Não há qualquer tom revolucionário a ser notado.
Confirmando a semântica do discurso rebelde referido por Fromm, um articulista da, há muito extinta, revista Fairplay, Eurico Lima Figueiredo, 'crevia, em março de 1968, no meio do rebuliço hippie, que o hippie transferiria para o próximo a responsabilidade de sua vida.
Isso, tanto no sentido de que alguém teria que zelar por o seu sustento quanto em relação à postura alienada perante as grandes questões da realidade.
O foco é, claramente, micropolítico.
Deixando intocada a realidade macropolítica, na verdade comungando com ela, o underground se posiciona como o ritual de iniciação que o ocidente jamais teve oficialmente.
Em ele, os jovens da classe média urbana aprendem que deverão se converter ao rebanho que é abatido lentamente no cotidiano da contemporaneidade.
São instruídos sobre como deverão proceder para se sentir felizes, apesar de toda a desgraça de sua condição, a condição pequeno-burguesa no mundo dito pós-industrial, no qual a carne da pequena-burguesia substitui a do proletariado.
Através do álcool, de outras drogas e do consumo cultural fechado em comunidades 'tanques, aprendem a reagir com alegria às sangrias do sistema.
A dor passa a ser até mesmo divertida.
Número de frases: 61
O dia começou bem cedo, o relógio marcava 07:40h da matina quando cheguei na Cinelândia, ponto de encontro dos grafiteiros que participariam da pintura.
Encontrei gente dormindo nos bancos da praça.
Era uma galera que encarou a aventura de seguir para a Volta Redonda virado, vindo diretamente de uma noitada no boêmio bairro da Lapa.
Muita disposição!
Mas como todos ainda não haviam chegado deu tempo de caçar uma padaria e engolir aquele pão na chapa quentinho.
Pouco a pouco o povo foi chegando, alguns já conhecidos de trabalhos em comum, outros conhecidos das festas de rap, a maioria ainda 'tava por conhecer.
As 08:30h o time 'tava completo, os atrasados que vinham dos bairros mais distantes finalmente chegaram e o ônibus foi invadido numa empolgação que contrastava com uma manhã de sábado.
Me senti num daqueles passeios 'colares onde todo mundo corre pra sentar no banco dos fundos e comandar a bagunça.
Amog, grafiteiro responsável por a curadoria do evento, fez a chamada.
Conferiu, todo mundo presente, lá vamos nós!
Partimos numa viagem de aproximadamente duas horas rumo à cidade do aço, apelido dado graças a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), gigante 'tatal fundada por Getúlio Vargas.
A idéia que se tem é que a cidade cresceu ao entorno da siderúrgica.
Eu já volto a falar de Volta Redonda, objetivo final da viagem, mas até chegar lá tínhamos um grande caminho por a frente.
Atravessamos a Linha Vermelha, via expressa cercada por favelas, Gais (grafiteiro da Nação) ia apresentando cada uma de elas, dizendo não só o nome, mas contando também algumas 'pecificidades de cada lugar.
Em o final da «apresentação» emendou dizendo que:
«'sas comunidades precisam de cor na vida de elas, precisam de grafitti e muito!».
A voz, devidamente equalizada por a noite não dormida, soou de forma profética, numa sintonia perfeita com a missão daquele dia.
A pintura faria parte da programação do Encontro de Valorização da Vida, evento organizado por o Centro de Valorização da Vida, aquele famoso serviço de telefone que, através do número 141, presta apoio emocional no sentido da prevenção de suicídios.
O pessoal do CVV 'colheu o grafitti como linguagem para interagir com o público, a partir daí buscaram uma parceria com a Coordenadoria da Juventude do município e viabilizaram a ação.
No dia anterior a pintura, aconteceu uma oficina de grafitti com o tema «Valorizando a vida por a arte».
A pintura do muro, com a presença de alguns dos grandes nomes do grafitti carioca, seria a seqüência deste trabalho.
A viagem seguia animada por o freestyle de Acme que, junto com OCrespo, forma o grupo Rimas e tintas.
Projeto que une rimas improvisadas com grafitti e prova de que o hip hop realmente funciona como uma grande cultura composta por elementos que se relacionam entre si.
Distraído por as rimas mal percebi que já 'távamos chegando, o relógio marcava 10:30h quando 'tacionamos exatamente ao lado do alvo do dia, o muro do Instituto de Educação Professor Manuel Marinho, localizado na Vila Santa Cecília, um bairro central de Volta Redonda.
O sono que já batia em alguns dos viajantes rapidamente foi deixado de lado.
Todo mundo pulou do ônibus, partindo ao encontro do muro já na busca do melhor pedaço para realizar as pinturas.
Ninguém quer ter o grafitti atrás de uma árvore ou qualquer outro obstáculo que dificulte a visibilidade do trabalho.
Muro dividido, tinta na mão, era hora de iniciar os trabalhos.
O começo da pintura é um momento interessante, pois cada grafiteiro trabalha de uma maneira diferente.
Alguns trazem um 'boço do grafitti feito no papel e vão aos poucos transpondo aquela idéia para o muro.
Outros chegam atacando o muro com um dinamismo e uma rapidez que parecem 'tar psicografando a pintura.
Acompanhar o processo de realização de um grafitti também é algo bem bacana.
Poder ver cada fase da pintura, o 'boço, os primeiros traços, até o preenchimento e os acabamentos e perceber os caminhos percorridos por o artista até alcançar aquele resultado final.
A pintura corria tranqüila, muita gente que passava por o local parava pra ver.
É curioso como o grafitti chama atenção das pessoas que, rapidamente, referenciam e criam um antagonismo entre grafitti e pixação.
como se um alcançasse o status de obra de arte e o outros fosse apenas um ato de transgressão e vandalismo.
Obviamente são processos diferentes, que alcançam resultados diferentes, mas, queira ou não encarar isso, ambos tem as mesmas raízes.
Distante de 'tas questões filosóficas, as crianças são as mais atraídas por a comunicação proposta por o grafitti.
O relógio já passava das 14:00h, o termômetro indicava 35°, o sol castigava a moleira dos grafiteiros que iam terminando o trabalho.
A maioria nem parou pra almoçar, era um gole na garrafa d ´ agua, alguns na cerveja, e bola para a frente!
Quando a maioria das pinturas já 'tava concluída, descobriram que havia um outro muro «liberado».
Essa foi a primeira boa notícia, a segunda era que o muro era gigantesco, a terceira é que 'tava na sombra.
Lembra do Gais, que tinha virado a noite e tudo mais, falei de ele lá no início do texto, a 'ta altura 'tava tirando um belo cochilo a sombra de uma árvore.
Quando soube do muro novo, deu um pulo e avisou:
«Te o pronto pra outra, eu sou da rua!».
Eu mesmo, apesar de ter tido uma noite bem dormida, já 'tava mais pra lá do que pra cá, encarar aquele solzão não era moleza.
Partimos todos para o paredão que foi devidamente atacado sem dó por violentos golpes de tinta.
O 'paço deu um novo ânimo para 'sa rapaziada que, tendo muro e tinta, não deixa faltar inspiração.
Para mim foi incrível conhecer o rosto dos caras que já observo atuando nas ruas a anos.
Como disse, 'tava presente um time com os melhores grafiteiros do 'tado.
Só pra citar alguns, posso falar do Criz, do Ment, do Stille, da Anarkia, do Nitcho, do Bives, além dos locais, Tommy e Mano Tim.
Artistas que conseguem criar um 'tilo próprio e diferenciado que, com um pouquinho de 'perteza ao olhar os muros do Rio de Janeiro, você também pode reconhecer.
Haviam pessoas ali que são a mais de dez anos envolvidas com grafitti, é o caso de Marcelo Eco e do Acme, que no meio de uma conversa desabafou:
«Em um dia como 'se o que vale é a vivência, a experiência e a troca de idéia que você vai ter.
Pra mim isso é o mais importante».
A tarde ia caindo, o calor baixando, e a pintura continuava.
O ônibus 'tava marcado para voltar ao Rio às 17h, mas ainda havia muito trabalho a ser feito.
Um prazo final de 17:30h foi dado, alguns conseguiram cumprir a meta, mas nem todos.
O perfeccionismo dos que precisam de um tempo maior para concluir sua pintura cria em todos uma certa compreensão que aos poucos vai vencendo o 'gotamento físico.
Afinal, apesar de ser um tipo de arte efêmera, o grafitti vai permanecer naquele muro até segunda ordem, portanto deve 'tar de acordo com as expectativas de seu autor.
A maratona se 'tendeu até mais um pouco, a hora já não importava mais.
O trabalho acabou no momento que 'tava concluído.
Fiquei encantado em perceber que todos aqueles caras, e uma menina, 'tavam ali por o puro prazer de pintar.
Alguns são profissionais da área que, de diferentes formas, ganham a vida através do grafitti.
Mas naquele momento não havia dinheiro envolvido.
A impressão que se tem é que se você botar uma lata, um muro e uma boa causa 'ses loucos chegam em qualquer lugar e só vão parar de pintar quando acabar a tinta ou o 'paço, porque a disposição, 'sa parece que não acaba.
Número de frases: 66
Cheguei em casa por volta das 21:00h, e a lição que tirei deste dia, e que se encaixa perfeitamente na proposta do CVV, é que você pode ter momentos em que precisa deitar a sombra da árvore, desde que exista desejo na vida a ponto que você possa levantar num pulo e gritar «tô pronto pra outra!».
Deparado com um lugar que você vai se acostumando, mas que, a alguns minutos da apresentação, se torna inóspito e aterrador.
Adicione aí uma pitada de 'tréia e uma cena que se passa longe do 'paço cênico onde quase todo o 'petáculo se passa.
Pronto. Estão postos no caldeirão todos os ingredientes que fazem uma 'tréia de um 'petáculo teatral ser bem emocionante.
Ao menos para o ator.
Ouvindo vozes, um tec-tec de quem desce de 'cada, algumas pessoas se dirigindo ao local errado e zás-elas levam aquele susto e encontram o ator.
Esse, bem do medroso, começa a tremer e suar frio.
Ele deve 'perar que todo o público 'teja naquela ante-sala, 'premido, para poder iniciar.
A mão pesa e crispa, envolve o objeto de cena num formigamento.
O lábio seca automaticamente e os braços retesam ao lado do corpo.
A perna 'tanca, afunda quase, magnetizada feito um ímã contra um metal.
E a laringe, ai, a laringe, fecha.
Desastre total.
Todo o público 'tá à 'pera.
É preciso proferir a primeira fala.
Nada que uma boa inspiração (de ar) não cure.
Os pulmões se enchem, a laringe abre e a mente clareia.
E é dada a largada.
Foi assim no primeiro dia do final-de-semana de 'tréia nos Satyros, com o «Amores Dissecados».
Estreei, na verdade, reestreei, porém eu travei legal no primeiro dia, sei lá o porquê.
Crise de ansiedade, talvez, algum mal da Modernidade aí ...
E tive que usar da ginga.
Afinal, sou brasileiro e não desisto nunca.
Passado o susto, sei bem como vai ser daqui até o final de julho.
Em os outros dias eu já vou 'tar bem melhor.
Melhor acostumado na primeira cena.
De aí é só aparar arestas.
Em o domingo foi (fui) mais tranqüilo.
Essa cena inicial do 'petáculo sempre muda de lugar quando mudamos de teatro.
às vezes ela é feita no 'paço cênico de toda a apresentação, às vezes é no hall, outras na porta do teatro, no corredor de acesso, no bar, e assim vai.
Em 'ta ante-sala nos Satyros, tem um gostinho legal de suspense, de ver as pessoas descendo a 'cada do Espaço Dois e chegando ali, na minha frente, se perguntando:
«Que raio de peça é 'sa que vai ser feita aqui na ante-sala?»,
«E eu, onde vou sentar?»,
«Ai, em 'se frio, vou pegar pneumonia em 'se chão «ou» Que menino estranho!».
Quietinho no meu lugar, na 'pera por todo o público, eu fico ouvindo cada uma ...
E depois enceno o amor etéreo, divino, digamos, religioso ...
Foram 28 pessoas no total em 'se sábado de 'tréia (02/06) e 34 no domingo (03/06).
34 no domingo!!!
Isso porque saiu pouco na mídia.
Ótimo. E o domingo superando o sábado!
Ainda bem que muita gente não tem saco para o Faustão.
Que bom ...
Mas a verdade mesmo é que os Satyros formou público.
Tem sempre alguém chegando ali, bem desavisado, querendo assistir alguma coisa.
De aí, cabe aos grupos fisgar ...
Beeeeeeeeeeeeeeeeem gostoso.
Número de frases: 46
Ser ator é beeeeeeeeeeeem gostoso.
Foi a primeira vez que conheci uma tribo indígena.
A ocasião era pertinente, eu 'tava a serviço do semanário onde trabalho aqui em Palmas.
A cidade em questão era Tocantínia, que completava 54 anos de existência.
Localizada a 80 quilômetros da capital do Estado, a cidade foi construída na margem direita do Rio Tocantins e tem sua história baseada nas missões portuguesas de catequização dos índios.
Com aproximadamente seis mil habitantes, mais da metade é indígena e vive em aldeias, mas não é fácil se surpreender com a quantidade de índios que já moram na cidade.
Foi 'sa a surpresa que tive ao chegar em Tocantínia.
Nunca havia visto tantos índios.
Quem mora em Palmas já deve ter ouvido a pergunta «você vê muito índio por as ruas?».
E eu sempre respondo «raramente vejo, na universidade tem alguns».
Mas o número nem chega perto do tanto que tive a oportunidade de ver.
Passando por a principal avenida da cidade, a avenida Goiás, pude ver dezenas de eles.
De todas as idades.
Crianças, homens, mulheres e idosos.
Fiquei feliz diante da possibilidade de conhecê-los, mas aí residia minha preocupação.
Fui conhecer a Aldeia Krité (que no idioma Akwê significa casa grande).
Que na ocasião sediava a I Feira de Sementes do Povo Xerente.
Distante 12 quilômetros de Tocantínia, fiquei impaciente diante tanto calor que passei.
Muito sol, pouco vento.
Pronto.
Eu 'tava dentro de uma aldeia indígena pela primeira vez na minha vida.
Isso representava algo que eu contaria para meus filhos e netos.
No entanto, o choque a descer do carro foi maior do que toda minha empolgação.
Senti um balde de água fria sendo jogada em minha cabeça depois do que vi.
Fechei os olhos e abri outra vez para ter certeza se aquilo era verdade ou não.
Era a mais pura verdade.
Aqueles índios não eram os índios que eu imaginava.
Em o som de uma casa tocava «quando ela me vê ela mexe, piri, piri, piriguete».
Ninguém 'tava vestido como os índios que mostram nos livros e na televisão.
As roupas eram iguais a que 'tão na moda das novelas globais.
Nada chique, caro, mas tudo com o mesmo design.
Fiz todas as entrevistas necessárias, dei uma volta por a aldeia, que não parecia aldeia.
Havia casas simples, de adobe cobertas de palha, todas em formato de círculo, um campo de futebol no meio (campo de terra seca) no meio.
Uma casa, onde tocava a música da piriguete, as paredes eram de tijolinho, as janelas eram venezianas, mas para compensar tanto progresso talvez, a cobertura era de palha.
Eu 'tava triste, desapontada.
Ninguém ali 'tava caracterizado como os índios que a gente imagina.
O mais parecido era um senhor que tinha um cocar muito simples em sua cabeça.
Só isso.
Aconteceram algumas apresentações de 'portes típicos da cultura indígena.
Corrida com Tora e cabo de guerra foram os que eu vi.
Em 'te último tive a oportunidade de tirar umas fotos, mas garanto que não pareciam índios.
Em o fim da manhã, fui falar com uma senhora que me chamava ao saber que eu era jornalista.
Reclamou da vida, da seca, da fome.
Me pediu ajuda «fala lá para o prefeito, para o governador, eles têm que ajudar nóis».
Enquanto eu ouvi suas preces e sentia meu coração gritar ao ver aquela mulher pedir comida, com os olhos mais cansados que já vi, algumas pessoas tinham seus corpos pintados por outra mulher com a cara mais ranzinza que já vira antes.
Pelo menos um traço da cultura de eles, a pintura corporal.
Gravei o pedido da senhora, prometi ajudar e fui embora cheia pensamentos tristes na cabeça.
Número de frases: 47
Ivo Pitanguy, Julio Iglesias, Michael Schumacher e seu Pedin.
Essa é a lista de pessoas que eu sei que possuem uma ilha.
Os três primeiros eu não conheço pessoalmente, mas já vi suas ilhas em revistas, com suas casas chiquérrimas e seus barcos luxuosos.
Já o seu Pedin virou meu amigo depois de alguns minutos de conversa e uma dose de cavalheirismo que eu achei linda linda linda.
Já fazia algum tempo que um fotógrafo amigo insistia para irmos fazer uma matéria «na ilha do cara».
Mas nunca dava tempo, sempre aparecia outra coisa pra fazer.
Até que um dia deu certo.
Chegamos na margem da maior lagoa do Mocambinho, zona Norte de Teresina e de lá já avistamos a casa.
Gritamos, buzinamos e nada do homem aparecer.
Voltamos no dia seguinte, bem cedo, e tivemos a sorte de ver o danado saindo de canoa.
Chamamos e ele, meio desconfiado, veio até nós.
Achou meio 'tranho 'se negócio de entrevista, de gente desconhecida ir na casa de ele, mas topou.
Disse que ia resolver uma coisas e voltou uns 20 minutos depois.
Em a beira da lagoa, eu, o fotógrafo e mais uma amiga.
Ele se aproximou e encostou a canoa para a gente subir ...
mas quem disse que a corajosa aqui conseguiu?
Entrei na canoa e tremi tanto que ele me mandou descer pra não virar a canoa com todo mundo dentro.
Deu meia volta e levou meus amigos para a ilha, eu fiquei com a maior cara de tacho, triste e desapontada por não ter ido.
E foi aí que o cavalheirismo do pescador me surpreendeu.
Ele deixou os dois, voltou pra me buscar sem eu pedir e colocou uma tábua no meio da canoa para a eu sentar, de um jeito que não tinha perigo de cair, mesmo que eu continuasse tremendo (sim, eu tremi de medo de novo!).
Eu atravessando a lagoa e tentando 'quecer aquela musiquinha «se a canoa não virar, olê, olá, eu chego lá».
Enfim chegamos e ele começou a contar sua história.
Vive sozinho na ilha há quase dois anos, depois que a mulher o botou pra fora de casa.
«Eu gosto de tomar umas pingas e ela ficava zangada demais.
Aí um dia a gente brigou e ela mandou eu sair e não voltar mais, senão ia mandar me prender.
Falou até com a delegada!
Aí a delegada me chamou pra conversar e perguntou se eu tinha para onde ir, eu na hora me lembrei de 'sa ilha, porque sempre ficava por aqui quando saía para pescar.
Disse para a ela que como eu sou pescador tinha que viver era junto dos peixes, aí me mudei», revela.
A casa do seu Pedin não tem nada do luxo das casas dos seus companheiros donos de ilha -- o Schumacher, o Pitanguy e o Julio -- mas ninguém pode reclamar de que chegou lá e não tinha onde sentar.
Pense num lugar que tem sofás por todo lado!
Contei uns oito ou dez, só fora da barraca, dentro também tem.
Por falta de educação, de bom senso ou sabe-se lá por qual motivo, é impressionante a quantidade de sofás e colchões que são jogados nas lagoas de Teresina.
Seu Pedin recolhe todos os que consegue e leva para a ilha.
É em eles que ele recebe os amigos pescadores que descobriram um lugar ótimo para fazer festas.
«Vem todo mundo para cá, a gente toca violão, come peixe assado na hora e toma cachaça e montila.
É bom demais, fica um monte de canoa ' 'tacionada ' aqui perto.
Os pescadores agora só querem comemorar aniversário aqui na ilha, eu sempre recebo com prazer, é um jeito de ter companhia», revela, mostrando seu lado promoter e despertando nas duas repórteres uma vontade danada de festejar um aniversário lá também.
E solidão, seu Pedin?
Não sente, não?
«Agora eu vou sentir mais, porque meu menino que mais vinha me visitar morreu tem pouco mais de um mês.
Os outros quase nunca vêm aqui, de família mesmo era só ele que tinha mais atenção com mim.
Há pouco tempo, quase que ele ganhava um vizinho.
Um outro pescador se separou da mulher e ia ocupar a ilhota que fica bem próxima da de ele.
«Eu já tinha até me animado, mas aí arrumaram uma casa pra ele e ele resolveu ficar na terra mesmo.
Ia ser bom se ele viesse porque eu ia ter com quem conversar».
E de energia elétrica?
Televisão? Não sente falta, não?
«De isso aí não.
Gosto do meu sossego aqui, de ficar de noite só ouvindo os barulhos da noite mesmo.
É fresco aqui, não faz nem calor.
Fico na minha rede e me balanço até dormir.
Não gosto de negócio de televisão, não.
Quando eu ainda era casado era mais um motivo de briga, porque a mulher queria ver diabo de novela toda hora».
Quando perguntamos se ele já tinha levado alguma namorada para conhecer a ilha, ele riu e ficou sem jeito, mas contou uma história engraçada.
«Eu queria trazer a mulher aqui, e ela com um medo danado da canoa, com medo de morrer, de cair na lagoa e se afogar.
Eu disse para a ela: '
Mulher, deixe de ser besta, que se você tiver que morrer afogada vai morrer lá na sua casa, engasgada com um copo d' água '».
E ela veio, seu Pedin?
«Veio nada, um medo monstro de se afogar».
O pescador afirma que não tem planos de deixar a ilha.
Não comprou, não alugou, não pediu emprestada, mas se sente dono do pequeno pedaço de chão onde já plantou feijão, mandioca e amendoim e construiu sua cabaninha.
à sombra do angico branco lindo e imponente que dá sombra e enfeita seu pequeno mundo, ele diz que ninguém vai tirá-lo de lá.
«A prefeitura pode é mandar em Teresina todinha, mas lá na terra.
Aqui na minha ilha, não.
De aqui eu não saio».
Número de frases: 65
Mafuá é um bairro de Teresina onde se localiza um mercado público.
Em a parte exterior do mercado, que dá para a Rua Lucídio Freitas começou a funcionar, 35 anos atrás, uma minúscula loja (2X2?)
denominada «Armarinho São Francisco» onde se vendiam, como em outras lojas do ramo, botões, zipers, agulhas, linhas e outras miudezas.
A Dona Zefinha, que criou o negócio, faleceu há oito anos, deixando-o, de herança, para Cícero Manoel, seu filho.
Este Cícero Manoel -- figura mansa, porém inquieta, formado em letras (UFPI) mas artista plástico, por profissão e vocação -- desde que assumiu o posto da mãe começou a comprar, trocar e receber e aceitar doações de livros e revistas de arte, gravuras, desenhos e pinturas, CDs e vinis diversos, cartões, fotos, etc., objetos que passaram a conviver com as mercadorias à venda no armarinho.
Em quatro anos aquele acervo cultural cresceu tanto que foi necessário modificar a disposição dos móveis (e, mesmo, adaptá-los para outras funções).
Cícero reservou, por exemplo, uma parede só para pendurar as pinturas, desenhos, fotos e gravuras.
Uma 'tante-expositora de mercadorias da loja, construída e desenhada por seu pai, virou expositor de livros e revistas de arte e apenas uma das três paredes do cubículo foi reservada para as mercadorias do armarinho.
Estava criado, no Mercado do Mafuá, o «Espaço Cultural São Francisco».
Se, nos primeiros anos, o acervo era mostrado sem maior cuidado expositivo, a partir de 2005, no dia 4 de junho, Cícero resolve inaugurar uma nova fase:
com uma vernissage matutina, que se constituiu num generoso café da manhã servido, a partir das sete e meia aos convidados, abre a exposição do artista plástico teresinense «Gabriel Archanjo -- pinturas e desenhos».
Foi em 'te dia que eu conheci o lugar.
E tão impressionado fiquei que publiquei, dias depois, num portal teresinense, a seguinte crônica:
Arte & Hospitalidade no Mercado do Mafuá
por Joca Oeiras
Café, leite, beiju, cuscus, bolo frito, queijo de coalho, suco de laranja, melão e melancia.
Foi 'te o cardápio servido em 'ta manhã de sábado durante a inauguração da exposição «Gabriel Archanjo pinturas e desenhos» no Espaço Cultural São Francisco».
E eu fui o primeirão a chegar, às 7,30h da manhã, no local onde se desenrolou 'te desejum artístico.
O Gabriel Archanjo é um grande artista cuja obra me encantou desde o dia em que tive o primeiro contato com ela, e com ele, na Oficina da Palavra, apresentados que fomos por o professor Cineas Santos.
E é claro que os trabalhos do Gabriel valorizam qualquer Galeria do mundo.
Mas, que me perdoe o meu amigo, as 'trelas do dia foram, sem sombra de dúvida, o Espaço Cultural São Francisco e o seu dono, o também artista plástico Cícero Manoel.
Imaginem uma pequena loja de armarinhos (3m X 4m) em que dois dos três cantos e quase todas as prateleiras são ocupadas com livros e objetos de arte.
Agora localizem 'ta loja na rua da frente do mercado do Mafuá (Lucídio Freitas, 1633).
É 'te o «Espaço Cultural São Francisco».
Em o acervo, obras do próprio Archanjo, 'culturas de Carlos Martins, pinturas e desenhos de autoria do dono, livros de arte, gravuras variadas, fotos antigas, objetos de adorno, revistas e até alguns exemplares do «mais charmoso».
O Cícero é o meu candidato ao Troféu Resistência que, ouvi dizer, foi instituído por o João Cláudio Moreno.
Muito mais que isto, no entanto, fiquei encantado com a hospitalidade do nosso anfitrião.
Como fui o primeiro a chegar, secundado por o poeta Fred Maia e o dramaturgo Tarciso Prado, pudemos ver sua dedicação à montagem da farta «mesa» (o balcão da loja) composta por todas as delícias acima relatadas, o cuscus ainda quentinho respirando embaixo do papel filme.
Um monte de gente bacana chegando, gente como o Machado Junior e a sua nova namorada, a Débora, que veio dar um abraço no Gabriel (que chegou lá só no final, o tímido) e a gente ficou comendo e conversando e se 'premendo no 'paço exíguo mas de uma dignidade incomparável.
Eu gosto de tratar meus hóspedes muito bem e também sei reconhecer 'ta qualidade nas pessoas:
o Cícero foi um grande anfitrião, sempre preocupado que não faltasse nada.
De repente, imaginem só quem resolveu aparecer vestido de padre?
O próprio João Cláudio Moreno, provando, mais uma vez, que «o hábito não faz o monge, mas fá-lo parecer de longe» (como dizia o Millor quando ainda era Vão Gogo).
E o João é um camarada cujo carisma galvaniza a platéia mesmo quando faz parte de ela.
Rimos muito com ele e eu, em particular, fiquei muito feliz por tê-lo encontrado.
Então, acho que todo mundo que lá 'teve há de concordar, foi demais prazerosa e divertida 'ta nossa manhã de sábado no Espaço Cultural São Francisco, no Mercado do Mafuá, zona norte, Teresina.
PS Os trabalhos expostos não 'tão à venda pois, ou pertencem ao acervo do Espaço ou, seis de eles, são da coleção particular do João Cláudio Moreno que os emprestou para a mostra.
Há, no entanto, alguns desenhos do Gabriel que se encontram à venda, mas não expostos.
Eu, por exemplo, já sou o feliz proprietário de um de eles.
Creio que o trabalho do Cícero é, por todos os títulos, elogiavel.
Mas já se evidenciam, ele mesmo começa a tomar consciência disto, alguns problemas.
A sua incansável atividade e o prestígio que o local adquiriu entre os formadores de opinião em Teresina -- todos os jornais diários divulgam os eventos do 'paço -- tem trazido muita gente ao local, evidenciando um projeto que é maior que o 'paço físico que ele ocupa, embora um de seus principais encantos, senão o principal, é onde ele se localiza.
Fiquei comovido quando me disse que sua amiga Ana Marcia, uma das melhores arquitetas piauienses, «elaborou um projeto visando a ampliação do 'paço fisico da loja»!
Sei bem que a marca referencial da arquitetura é a utilização racional dos 'paços mas, mesmo que, por uma mágica arquitetônica, o projeto da Ana Marcia conseguisse triplicar o 'paço, ainda assim, e muito rapidamente, ele voltaria a se mostrar modesto nas proporções.
Talvez o Cícero, apoiado, inclusive, por a Prefeitura de Teresina, proprietária do Mercado do Mafuá, e por outras instituições de amparo à cultura, pudesse, de alguma forma, 'tender a todas as dependencias daquele 'paço público a Arte que ele, tão valentemente, busca preservar.
Seria uma bela saída!
A resistência cultural ocupando novos 'paços.
PS.
Número de frases: 48
O dono do Armarinho São Francisco nunca me perdoaria se eu não deixasse bem claro que os novos e antigos clientes da loja recebem o mesmo tratamento personalizado que receberiam caso a Dona Zefinha ainda 'tivesse no comando.
Natal, a cidade do Sol, viveu alguns dias da sua história sob a tutela de um governo comunista.
Mesmo abafado em pouco tempo por a força das tropas federais, 'se evento, até hoje, causa muita polêmica quando é relembrado.
NASCE Um Mito
Quando a munição acabou, não houve alternativa para os exatos 42 soldados que defendiam o quartel da Polícia Militar.
O comandante, Luís Júlio, orientou os combatentes a saírem por os fundos do prédio, que ficava às margens do rio Potengi.
Em a tentativa da fuga, um dos soldados foi abatido por a artilharia rebelde.
Luiz Gonzaga morreu deixando a marca de sua mão manchada de sangue na parede do quartel, tornando-se herói da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.
Outra versão diz que Luiz Gonzaga era apenas um agregado da Polícia que vivia por as redondezas do quartel.
Durante a resistência, ele teria cuidado da munição dos soldados.
Sua morte teria se dado numa situação diferente da alegada por a polícia.
Trajando somente um calção, Luiz Gonzaga foi atingido por um tiro disparado por Sizenando Figueira, participante do levante comunista.
A insurreição de 1935 em Natal começou há pouco mais de 70, no dia 23 de novembro.
Oficiais tomaram o 21º Batalhão de Caçadores, em nome do tenente Luís Carlos Prestes, principal liderança comunista do Brasil à época.
A revolução dominou Natal em questão de horas.
A única resistência armada foi oferecida por o quartel da Polícia Militar, onde teria acontecido a morte de Luiz Gonzaga.
A Polêmica
A versão de que Luiz Gonzaga foi o herói da resistência ao levante comunista não foi contestada até 1985.
Em 'ta data, quando a insurreição completava 50 anos, o jornalista e pesquisador Luiz Gonzaga Cortês publicou no jornal O Poti, um artigo (parte de uma série de 19 artigos publicados entre os dias 26 de maio e 24 de novembro de 1985, intitulada " O comunismo e as lutas políticas no Rio Grande do Norte ") o que viria a desmentir a história oficial.
Cortês encontra algumas contradições nos testemunhos do ex-chefe de polícia João Medeiros Filho.
Em o livro «Meu depoimento de 1937», a lista oficial publicada com os combatentes mortos não trazia o nome de Luiz Gonzaga.
A o reeditar o livro, com o nome de «82 horas de subversão, em 1980», o suposto soldado teria sido incluído.
O relatório citado por o pesquisador foi feito depois que o movimento rebelde se dispersou.
Em a madrugada do dia 26 de novembro, chegou até Natal a notícia de que tropas vinham da Paraíba com o intuito de restabelecer a ordem.
Os dirigentes do Partido Comunista, em reunião, decidiram desistir do intento e, em sua maioria, fugiram.
Antes disso, Natal tinha vivido o único governo comunista 'tabelecido em território brasileiro.
Os rebeldes tiveram o completo controle da cidade durante os dias 24, 25 e 26 de novembro.
Em 'se 'paço de tempo, o governo constituído baixou por a metade o preço do pão e do bonde, além de confiscar carros e o dinheiro que 'tava nos bancos da cidade.
Todos 'ses fatos foram largamente utilizados por a ditadura do Estado Novo, implementado por Getúlio Vargas, poucos anos depois da derrota dos comunistas, como exemplo da suposta bagunça que tinha sido a insurreição.
É em 'sa análise que a teoria da adulteração se encaixa.
O testemunho de outros envolvidos no caso também coloca em dúvida a veracidade da condição de soldado de Luiz Gonzaga, afirmando, inclusive, se tratar de propaganda anticomunista.
Giocondo Dias, um dos líderes da revolução declarou ao ' Poti ', que se trata de «uma absurda falsificação histórica, mais um elemento da indústria do anticomunismo».
Sizenando Figueira, algoz do ' soldado ' Luiz Gonzaga, completou:
«Fazem discursos para os comunistas serem odiados por a população».
A Resposta
Pouco mais de sete décadas depois a história não 'tá completamente 'clarecida.
A Polícia Militar, através da pesquisa da sargento Célia, amparada por extensa documentação, atesta que Luis Gonzaga realmente foi soldado.
O comprovante do alistamento é datado de 31 de outubro de 1935.
Essa versão condiz com o que disse " João Medeiros Filho:
«Ele era um dos municiadores da metralhadora, a cargo do tenente Pedro Vicente».
Quanto ao relatório, o ex-chefe de polícia admitiu a adulteração, mas afirmou ter feito de «boa fé».
«Houve uma adulteração de um livro para o outro visando harmonizar os textos», disse João Medeiros.
O alistamento se deu menos de um mês antes da insurreição comunista.
Segundo o Coronel Ângelo Mário de Azevedo, o pequeno 'paço de tempo entre o alistamento e a efetiva participação na resistência se deve ao fato de, naquela época, ainda não havia concurso para soldado.
«Qualquer um que quisesse poderia entrar na corporação».
A sargento Célia ainda apresenta como comprovação, a nota de falecimento e exclusão do soldado, datada de 24 de novembro de 1935.
Além do documento que trata da promoção por bravura ao posto de Cabo.
Posteriormente, Luiz Gonzaga também foi promovido ao posto de 3° Sargento, em 1º de janeiro de 1952.
Porém o decreto só veio a ser publicado em 22 de março de 1954.
Em 15 de agosto de 1977 o governo do Rio Grande do Norte instituiu a ' Medalha do Mérito Policial Luiz Gonzaga ', sendo uma das mais altas honrarias do Estado.
Outras Histórias
A história da Insurreição de 35 sempre foi repleta de informações desencontradas e boatos.
Os acontecimentos foram contados de diversas formas diferentes e muitas vezes contraditórias.
Por exemplo: o paradeiro do governador Rafael Fernandes.
Jornais da época, como a Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), atestavam que o governador se encontrava abordo de uma ' canhoneira mexicana '.
Outras versões falam de asilo no consulado do Chile;
de fuga em avião francês, até à versão mais acertada, que afirma o governador ter se abrigado no consulado da Itália.
Conta-se, também, que os revoltosos teriam feito grande número de saques no comércio da cidade, quando, na verdade, foram efetuados por a própria população.
Segundo Praxedes de Andrade, um dos líderes do movimento, disse, em entrevista ao jornalista Moacyr de Oliveira há alguns, que «isso só teria ocorrido por conta do comércio não ter aberto as portas, apesar do governo ter ordenado o funcionamento normal».
O próprio nome como ficou conhecido a Insurreição abriga uma polêmica. '
Intentona ' é uma palavra pejorativa que vem do castelhano e é traduzida como «tentativa louca».
Segundo o historiador Hélio Silva, seu uso era parte de uma campanha do governo Vargas para desqualificar o movimento comunista brasileiro.
Outra polêmica trata de uma suposta «ordem de Moscou».
A história oficial relata que a Revolução fez parte de uma 'tratégia para implantar um governo comunista no Brasil.
Historiadores como Marly Almeida Viana discordam de 'sa versão.
«Nunca houve qualquer diretiva da Internacional no sentido de um levante armado no Brasil».
A veracidade de um bilhete que foi enviado para a coordenação 'tadual do Partido Comunista é mais um ponto que precisa ser 'clarecido.
Apesar de ter sido planejado para ocorrer no dia 27, o levante em Natal foi antecipado para 23 de novembro de 1935.
Mesmo depois sete décadas passadas e diversos 'tudos, as dúvidas permanecem.
Filipe Mamede
Isaac Lira VEJA Tambem:
Conheça a história de Amélia, umas das 29 mulheres que fizeram parte da Insurreição Comunista de Novembro de 1935.
Número de frases: 72
Poema dedicado ao Músico Kléber Antonioli (Dono do violão) Poderia começar o texto a partir daquilo que considero o pré-texto, ou seja, aquele devaneio inicial antes de colocar as idéias propriamente ditas e organizadas no papel (credo, isso parece do tempo da máquina de escrever!).
Como vou falar de cinema, 'pecificamente do trabalho realizado por o cineasta Chico Caprario, o devaneio inicial seria uma forma de tentar aproximar a produção deste uruguaio de Montevidéu -- que há muito tempo 'colheu Santa Catarina para morar, do público interessado, fiquei matutando a respeito de algumas coisas (questões), e como não tinha uma idéia 'pecífica para dar o pontapé inicial, parto do devaneio que era mais ou menos assim:
Chico Caprario «O Spielberg Catarinense»,» O Godard Barriga Verde», O Kubrick não sei da onde», o novo não sei das quantas que, se vocês preferirem, pode ser chamado de neo-alguma coisa ...
e de repente vem àquela voz imperativa de algum ponto do cérebro para dar um basta:
Chega!
Salvo por o gongo.
Deixo o devaneio de lado e parto efetivamente para o que interessa.
Alguém pode dizer:
Nossa Senhora, meia página de enrolação para falar do Chico, aquele cidadão que passa todo o dia na frente de casa (algumas vezes com uma câmera na mão), sonhando em trabalhar com cinema.
Talvez isso seja o que eu considero mais 'tranho quando me proponho a pensar o universo cultural:
o tempo necessário de amadurecimento para que as pessoas reconheçam o profissional que há muito tempo desenvolve um trabalho independente no campo (cultural) de atuação.
Vejam, parece que o reconhecimento se dá apenas a partir do momento em que a televisão ou algum outro veículo de comunicação coloca o carimbo do lado dizendo:
isso vocês podem assistir ou consumir.
Reforço que não 'tou pensando o texto a partir do se é bom ou se-é-ruim, e, muito mais do que isso, 'pero que 'tas poucas linhas que 'crevo para falar do trabalho de Chico Caprario não se transformem numa 'pécie de carimbo.
Considero que um dos trabalhos mais importantes realizados por o Caprario, e aqui preciso ampliar o crédito a todas as pessoas que compõem o universo da Sarcástico Produções (Cudo, Th.
Skárnio, Guto Lima, Eliezer Kühn), foi a «Invasão da TV», um programa que foi veiculado por a TV Floripa, um canal comunitário de sinal fechado.
Foram 56 horas ininterruptas no ar.
Com uma programação variada, mas com foco no campo cultural.
Algumas das matérias veiculadas foram pré-gravadas, mas o grosso do material foi realizado ao vivo.
Imagine só, o ser humano no aconchego do seu lar ligando a televisão e dando de cara com um bando de mascarados -- no melhor 'tilo Resgate do vôo 771, Pânico no ar, Seqüestro de ('ses filmes que a Globo veicula insistentemente nos Corujão da vida) ...,
ao vivo com câmeras em punho simulando metralhadoras, apresentando para os sistemas televisivos uma proposta diferenciada de programa de TV.
Tá bom:
alguém vai levantar a bola de que isso parece ser possível apenas numa canal fechado, mas não sei, tenho as minhas dúvidas.
Outro agravante, que sinto a necessidade de citar, é que isso aconteceu às vésperas do famigerado 11 de setembro de 2001.
Depois desse acontecimento não sei se a invasão sarcástica da TV florianopolitana teria a mesma aceitação, quem sabe sofresse represálias, ou ainda, tirando um pouco os pés do chão, os norte-americano seriam capazes de cortar as relações diplomáticas com o Brasil.
Um pouco do sarcasmo do Chico:
«ô povo sem humor».
Enfim, a invasão teve uma repercussão, para o grupo, interessante, mas não foi a única atividade realizada por o grupo na TV comunitária, houve ainda o programa «Apêndice» -- mais ou menos trinta programas de vinte minutos, veiculados semanalmente (vale lembrar que hoje as pessoas podem assistir ao programa «Apêndice» nas páginas do zine eletrônico «Sarcástico» -- www.sarcastico.com.br)
O primeiro trabalho que projeta e apresenta Chico, em 'te caso como ator, ao meio catarinense, foi uma participação no papel de um tarado num curta de cinco minutos que se chama «O Último Orgasmo, direção de Uriel Júnior realizado no ano 2000».
Depois deste, em 2002, Chico roteiriza e dirige o seu primeiro curta-metragem:
«Sorria, Você Está Sendo Filmado» -- em 'te Chico também atua, no papel do tenente Clemente.
O curta é uma critica bem humorada aos sistemas de vigilância eletrônica que policiam os cidadãos mundo afora.
E viva a democracia e a liberdade do mundo pop pós-moderno.
Em «As Diversas Mortes de Adélia, de 2004», Caprario fica responsável por a direção;
o roteiro é de Marcelo Esteves baseado num conto de Amílcar Neves.
Este curta e o «Sorria Você Está Sendo Filmado» foram exibidos por a RBS-TV no programa Curtas Catarinenses.
Ainda em 2004, Chico (na companhia de Eliezer Kühn) dirige e roteiriza o documentário «Brazilian Mariculture», que tem origem num projeto realizado por a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e realizado em parceria com a Universidade de Victória, no Canadá.
Os trabalhos para 2006 incluem:
«Em o Topo da Floresta (A vida na Copa das Árvores)», um documentário sobre a vida na copa das árvores na floresta Atlântica, uma reconstituição de como isso se dava no início do século XX (direção e roteiro);
e ainda, a produção executiva de «O Pescador de Sonhos», uma co-produ ção luso-brasileiro da Zeppelin Filmes (Portugal) e da Cuca Filmes (Brasil), uma animação em 3D com lançamento previsto para o primeiro semestre deste ano.
Número de frases: 40
Thats All Folks Estou acabando de fazer a segunda visita.
Segunda visita, porque fiquei maravilhada com o que vi, aprendi e recordei.
Meus parabéns, é o que mais do que nunca precisamos, cultura, cultura.
As palavras ficaram ecoando ad eternum no vazio acústico da minha cabeça.
De o lado de fora eu ouvia, Ele 'tá lá dentro ainda?
O que 'tá fazendo?
Ele 'tá lá dentro?
Eu saquei meu caderninho e comecei a anotar coisas para compor a 'tréia de meu diário de campo.
Nunca tive a menor paciência para um diário de campo, por isso, acho que fiz bem em não ocupar meu moleskine com isso por enquanto.
Só arranjei um 'pacinho na última folha de meu caderno de aula mesmo.
Um Notebook modelo Pleno, de cada dura laranja, pautado, 96 folhas, 17,5 cm x 24,5 cm.
Talvez eu ainda mude 'sas anotações para o meu moleskine, mas por enquanto, elas ocupam meia página da minha última página.
E literalmente meia página, já que rasguei horizontalmente o restante para anotar um telefone que acabei perdendo.
Cultura, cultura.
Essas palavras eu plagiei de um livro-caixa, capa dura, revestida de papel preto, 100 folhas numeradas.
Havia um outro parecido na entrada, onde eu pus apenas Viktor Chagas, meu nome, 25 anos, minha idade, Rio de Janeiro, procedência.
Eu poderia fantasiar, é claro, dizer que eu venho do Recife, mas acho que o bom tom em 'sas ocasiões não é colocar a naturalidade, mas a praça de residência.
Pois bem. Eu cheguei ainda a voltar ao livro-caixa da entrada, posto que o trajeto do museu era circular.
Voltei lá também porque comprei o livro de contos e lendas da Maré.
A menina simpática da portaria me disse que o livro era vendido e o cordel era de graça.
Peguei um de cada e comecei por o fim.
A visita foi toda guiada.
Antônio Carlos Vieira, o Carlinhos, falava e gesticulava com grande entusiasmo para a pequena comitiva que havíamos formado.
Apenas eu e Rose (não confundir com a Cláudia Rose) não conhecíamos o museu, por isso, os comentários eram direcionados.
Doze meses, doze horas, o museu é como um lápis mas também é como um relógio.
É tempo de lembrar.
E, como no princípio era o caos, na Maré, é o tempo da Água.
Fotos do acervo de Dona Orosina Vieira e uma panorâmica de Augusto Malta.
A malta prossegue.
No meio da sala, um barco ornamentado para a procissão.
O mar vai virar sertão.
Os textos são da Cláudia, ele avisa.
São muito bonitos.
Uma menininha pequeníssima chega e vai logo abraçando o Carlinhos.
Ele sorri como se dissesse, Filhos ...
Mas o tempo do Futuro será imediatamente anterior ao corredor com o livro-caixa sobre o púlpito.
E eu ainda não cheguei lá.
Carlinhos explica como os aterros da Maré foram feitos por os próprios moradores, com restos e sobras do cimento ora usado nas obras da Avenida Brasil, ora usado na construção da Linha Vermelha.
O mar vai virar sertão.
E é por isso que já não fazem mais sentido as palafitas que se sustentavam sobre quatro ou mais patas no alagadiço do que foi a Maré de Dona Orosina, a primeira moradora a chegar na região e montar sua casa com pedaços de madeira que vinham boiando nas marolas da baía.
Vem gente de tudo quanto é 'tado.
Vem principalmente gente que trabalhava mesmo na construção da Avenida Brasil e da Linha Vermelha, as principais linhas de acesso do centro ao subúrbio (jeito carioca de falar periferia).
Lacerda viu os aterros e levou à Maré a Nova Holanda.
Ou levou à Nova Holanda a Maré.
E Carlinhos disse que no início havia alguma resistência a gente de 'ta ou daquela comunidade, mas que hoje em dia, as coisas não são tanto assim.
A Maré, para quem não sabe, não é exatamente Uma favela, são dezesseis.
São dezesseis comunidades, que, unidas, formam o Complexo da Maré.
Um bairro.
Minha idéia é justamente 'tudar o que de cidadão teve o jornalismo e a mídia de maneira geral para aquelas comunidades.
Há mais ou menos 30 anos foi o jornal comunitário União da Maré o que primeiro forjou a idéia de comunidades unidas.
Comunidades que eram unidades de um todo, e a coisa, portanto, não era simples, era complexo.
Agora, 30 anos depois, o jornal O Cidadão tenta construir uma identidade mareense, como ele próprio define.
Experiências de comunicação comunitária fogem à lógica do jornalismo civil, que é como se costumava explorar uma 'pécie de jornalismo civilizador surgida no início do século XX, e aproximam-se à do jornalismo cidadão, como eu quero tratar disso, tanto enfocado nas temáticas de novas tecnologias.
Eu sou um sujeito afeito às novas tecnologias, mas quis justamente me distanciar desse universo para ter contato com gente.
Gente é fundamental, gente.
Por isso, na palafita, achei engraçado quando Carlinhos disse que tem gente pegando panelas e utensílios de cozinha que ficam expostos na casa montada dentro do museu.
Disse e pensei, É sinal de que ainda servem para alguma coisa.
Se tivesse já lido o livro-caixa na hora em que ouvimos a história, certamente eu me lembraria da caligrafia de criança que dizia «Foi muito legal sabe porque eu quebrei tudo», desse jeitinho mesmo, sem tirar nem por.
Mas os tempos ainda não tinham passado.
Ou nós ainda não tínhamos passado por os tempos.
Foi só depois de um (ou dois) tempo (s) é que vimos a 'cola de samba, o time de futebol, uma parede de tijolos e, no teto, um guindaste!
Carlinhos advertiu, Esse guindaste era do tempo (o tempo, sempre ele) da fábrica do porto.
Já 'tava aqui no galpão e nós achamos que podíamos deixá-lo aí em cima.
Ainda funciona ...
e sorriu.
A gente passou por o União da Maré, por as 'crituras de quando os moradores finalmente conseguiram regulamentar sua situação, por os brinquedos de criança.
Chegamos no tempo do medo.
O Luiz ou o Carlinhos, não sei bem ao certo, lembrou que, assim como as panelas, alguns meninos andaram levando as balas que faziam parte da exposição.
Eram balas usadas.
Balas de fuzil, de revólver, de metralhadora.
Longes de serem balas de goma, de hortelã, de tutti-frutti.
Quando falamos do caso das panelas, mais tarde, a Rose levantou uma hipótese de fetichização do objeto de museu, com a qual eu concordo inteiramente, mas eu contrapus a idéia de ela dizendo que balas, por mais 'tranho que possa soar, são objeto de fetiche seja em que 'paço for, no museu ou no meio da rua.
Então foi que chegamos ao tempo do futuro.
Aqui ainda 'tá um pouco vazio, advertiu alguém.
Tinha apenas uma maquete da Maré feita por crianças da Escola Bahia.
Já levaram alguns carrinhos também.
E foi aí que eu percebi que levar objetos num museu é importantíssimo.
Os objetos são suvenires.
Suvenires não apenas no sentido material da coisa, suvenires do ponto de vista conceitual mesmo, de lembrança, do primeiro passo para a constituição da memória social.
O Carlinhos contou que a idéia do tempo do futuro é que o 'paço seja um museu sobre o que já passou por o museu, fotos das exposições, o passar do tempo.
Uma 'pécie de metamuseu.
A primeira vez que ouvi o termo metamuseu foi há bem pouco tempo.
Ainda 'te ano, na verdade.
Quando fui à Casa de Cultura de Ituiutaba, que não é exatamente um museu, mas um grande acervo de coisas sobre assuntos os mais diferentes.
Tinha uma coleção de máquinas de escrever, uma coleção de bichos empalhados, uma coleção de uniformes 'colares.
Tudo num 'paço que mal dava para se andar.
Ouvi com atenção meu pai sugerir ao pessoal da Fundação Cultural de Ituiutaba que se focasse o museu em alguma realidade próxima à cidade, e que se reunisse o acervo numa reserva técnica, separando o que é útil e o que será descartado.
Aí, ele disse, e meus olhos de metajornalista brilharam, que havia uma grande chance de se fazer ali num 'pacinho que fosse um metamuseu, contando a evolução da Casa de Cultura, o processo de constituição do museu, seu histórico e por aí vai.
Em a Maré, o metamuseu ainda não 'tá pronto.
Apenas um ano talvez seja cedo.
Mas foi depois de sair do tempo do futuro que então me deparei com o livro-caixa, o bendito livro-caixa.
Folheei, folheei e não conseguia parar de folhear.
Achei curioso o livro-caixa ter depoimentos de gente tão íntima daquela memória toda, gente que via ali o que o Halbwachs diria que é a grande diferença entre o que é memória e o que é história.
Memória é vida, gente.
Em um outro breve texto que 'crevi ('se com um arzinho mais acadêmico para diversificar), eu dizia que, para mim, não há metamuseu melhor que o livro-caixa no 'treito corredor que encerra o Museu da Maré.
Porque, no fundo, o livro-caixa que 'tá ali aos nossos olhos e que, na maioria dos museus, costuma quase ser desprezado, é também ele um objeto de museu (um lugar de memória, diria Nora).
É livro que não é para ser lido, mas para ser 'crito, mas sobretudo um livro que, se lido, transporta no tempo o leitor.
E o leitor, por mais óbvio que possa parecer, não é um leitor, é um releitor, posto que ele lê o que os que o antecederam leram.
Para marcar minha humilde passagem, já com o projeto (ou a imaginação museal, diria meu pai) de constituir objeto de pesquisa para mim mesmo, pus no livro um modesto comentário.
Uma frase curta e breve, que simbolizasse minha entrada naquele novo mundo.
Pisei fora do museu ainda com aquelas palavras ecoando na minha cabeça, Cultura, cultura.
Eu pensei cá com mim se realmente era 'sa a questão.
Reli o comentário que anotei no meu caderno de aula:
«é o que mais do que nunca precisamos».
Pensei no Chartier.
Nunca nem vi uma foto do Chartier, de modo que para mim ele é um nome sem imagem.
Mas imagino o Chartier assim como quem imagina o Woody Allen, talvez com o aro dos óculos menos grosso.
O que quero dizer é que se o que vi no museu não foi nada mais do que a memória viva da Maré, cultura não é exatamente o que falta.
Há quem diga que favela não é lugar de museu e que favela não é lugar de cultura.
E, aí posso ouvir o Chartier entrando e dizendo que cultura popular é uma categoria erudita.
Criada, antes de mais nada, para ou ser uma categoria completamente autônoma, ampla e vaga (afinal, o que ou quem é o povo a que se refere o adjetivo popular?),
ou ser uma categoria excludente:
é cultura popular o que não é cultura erudita.
Eu concordo com ele (quem ousaria dizer que não concorda?).
Ou seja, não!
Não se avexe, não, Salete Maria.
Você sabe amarrar o cadarço do seu tênis porque tem memória ou porque tem cultura?
E soube 'crever o depoimento no livro-caixa do Museu da Maré por quê?
Em a minha humilíssima opinião, memória e cultura são duas cabeças do mesmo bicho-de-sete ...
Estou acabando de fazer a primeira visita.
Primeira visita, porque fiquei maravilhado com o que vi, aprendi e recordei.
Número de frases: 121
Pretendo voltar ...
Fome, «omê», me e ...
Não mais um circuito fechado, círculo vicioso de necessidade, no qual o centro sou eu, o homem, o tal.
Agora, é a hora da 'trela brilhar, hora de transformação.
Fome?
Fome, sim!
Mas fome de justiça, oportunidade, vida, cultura, carinho, liberdade, paz, mudança, saúde, expressão ...
Fome de homem com «H» de humano, de agente modificador que se solidariza e se inconforma com uma sociedade desigual.
Porque a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte.
Pois a burguesia fede, quando não tece o amanhã.
Agora, é a hora do 'petáculo da vida.
Explosão, mutação, não ao não, educação ecoando na consciência do indivíduo.
Revolução, protesto, morte para o discurso vazio e seco.
Voz ao fraco, ao humilde e ao marginalizado.
Vida digna, com respeito e com Vida.
Mas e, agora, José?
Agora, não mais Ter, mas Ser.
Ser sem clichê, sem sonegar direito, sem banalizar a sobrevivência.
Acertando o passo de um descompasso, onde é aço a 'sência, e, máscara, a busca brusca de uma identidade e a caça de uma vida menos Severina.
Que me desculpem Taine, o Deus Fado e o Capitalismo, mas chega de sermos joguetes, frutos de uma condição, porque, agora, é a hora.
Que conservem as máquinas, a tecnologia e a comunicação digital, mas eliminem a solidão social.
Vamos caminhar e cantar seguindo a canção, dando a mão a tudo que é «nego» torto do mangue ao cás do porto, pois somos todos iguais lado a lado ou não.
Consta nos astros, nos signos, nos búzios.
Eu li num anúncio e no 'tatuto.
Eu vi no 'pelho.
Está lá no Evangelho.
Garantem os orixás.
Ser ou não ser não é mais uma opção, mas questão de cidadania.
Chega de vida seca, de morte e vida seveirna, de cortiço, de ser José, José Ninguém.
Olhe tudo por outro ângulo, com um olhar diferente de quem descobre a binômia de ser feliz mesmo brincando com ossos como se fossem boizinhos;
comendo feijão com arroz como se fosse príncipe, o máximo.
Agora, é a hora de sorrir para os outros na rua, não a atravessando com passo tímido nem subindo a construção como se fosse máquina.
Sim, é hora de construir e de projetar, mas um futuro menos solitário.
É hora de produzir e reproduzir alegres rumores, sons de brincadeiras de roda, balanço de crianças rangendo compassadamente em sombreados galhos de mangueira.
É hora de acolher os velhos, de festejar a vida, de incluir os discriminados, de compartilhar os frutos da própria criação, de quebrar rotinas e destruir o consumo consumidor da seiva vital.
Junto, com 'perança, arquitetamos o amanhã, pois um galo sozinho não tece uma manhã.
Mesmo que não falemos a mesma língua, que a música, que anuncia a mudança, seja melodia inesgotável, 'pontânea e universal aos ouvidos de toda a humanidade, traduzindo sentimentos, fugindo ao tempo e ao 'paço, como faz o som de Bethoveen, Prokofiev e Schoenberg.
É preciso cooperação, conscientização, reflexão.
Ação, porque quem faz a hora, não 'pera acontecer.
São necessárias identidades pessoais, coletivas, Querer, pois para conseguir o que se quer basta amarrar o arrado a uma 'trela e ficar grávida de futuro.
Fome, agora, transcende ao significado de conseqüência biológica.
Precisa-se de fome de solidariedade, principalmente, para a nação, pois somos filhos deste solo que é mãe gentil, é a pátria amada Brasil.
Número de frases: 42
Acabei de pedir meu passaporte na Polícia Federal.
Tive que vasculhar muita coisa em casa para achar todos os documentos que eles exigem para «nos ajudar» com o trâmite necessário.
Como seria bom se já houvesse uma «imagem virtual» da minha pessoa física nos registros do governo, para eles não exigirem que eu seja o guardião dos documentos que me identificam!
O governo não confia nos seus próprios registros, querendo que eu os guarde para ele!
Para que pagamos impostos, então?
Bom, isso é outra história.
Pedi hoje.
O passaporte, me foi dito, chega dia 19 de abril.
Dia do índio.
Todo dia era dia de índio, diz a música que Pepeu castigava na guitarra.
Mas será que castigava mesmo?
Índio tocava atabaque, flauta, chocalho.
Instrumentos em que fazia diferença a força que se aplicava para extrair-lhes som.
A guitarra não.
Talvez 'sa seja a grande revolução do rock -- a perda da vinculação entre a força física aplicada ao instrumento e o volume do som que de ele sai, perda 'sa ocorrida no momento em que Leo Fender eletrificou o violão pela primeira vez.
Fica aqui a reflexão -- quanto da magia de Hendrix deriva do fato de ele tirar expressão do instrumento sem relação visível ou necessária com o 'forço de tocá-lo?
Será que 'sa magia é o que se procura nas festas de indie rock brasileiras, com as «air guitars»?
Como o Brasil se adaptou a 'sa descoberta?
Armandinho, Dodô e Osmar, onde ficam em 'sa história?
O que mudou na postura do artista de rua, quando um simples instrumento de corda ficou audível a milhares de pessoas?
Número de frases: 20
E qual o novo papel da expressão percussiva de um Olodum, por exemplo, para um público acostumado a 'se desvínculo força-volume?
Nada mais natural que Roberto Maxwell entrevistando Caesar Moura por o MSN.
Eu, porque vivo conectado 24 horas por dia, num processo que pode 'tar se tornando psicopático.
Caesar, porque pode se orgulhar de ter sido o primeiro autor brasileiro a 'crever um 'petáculo teatral onde a internet é o tema principal.
Quer Tc?,
'crita em 1999 e encenada pela primeira vez em 2001, mostra como as pessoas colocam a máquina como mediadora das relações sociais e afetivas.
A partir daí, Caesar debateu nas suas peças teatrais a família, o consumismo, o universo gay ...
E, recentemente, retomou a carreira como cantor com um som bem distante daquilo que se reconhece como Música Popular Brasileira.
Longe das fileiras que endeusam os mitos da MPB, é na ginga da black music que ele canta «protect your heart / use your credit card» no refrão de RENT Boy, que o autor liberou para ser compartilhada no Overmundo.
Por o MSN, eu e Caesar conversamos sobre a carreira de ele e muitas outras coisas.
O texto integral foi mantido, assumindo o jeito de 'crever na internet e outros detalhes que a rapidez do meio produz.
Mas, vá com calma ...
says: (
02:46:52) Comeca contando, obvio, onde comecou o Caesar Moura.
C A E S A R says: (
02:48:37) Começou no momento em que passei a ver meu trabalho como trabalho e não como sonho.
O mundo não colabora com os sonhos pq o mundo é contra tudo que é «irreal».
Mas o mundo colabora com o movimento, com a concretização.
says: (
02:48:57) E quando foi 'se momento?
C A E S A R says: (
02:51:39) Quando desisti de tudo.
Trabalho com arte, com cultura, num país chamado Brasil.
É muito difícil.
Vc pensa em desistir o tempo todo.
Mas só quando larguei tudo vi que eu tenha feito tudo errado.
says: (
02:52:13) Em 'se momento da desistência, o que voce foi fazer exatamente?
C A E S A R says: (
02:53:42) Em o começo fiquei sem chão.
Não fiz nada, vegetei.
Eu sonhava em ser artista desde os meus 2 anos de idade.
Um dia Fui para o interior da Bahia.
Fui tabalhar como redator publicitário lá.
says: (
02:54:16) O que te trouxe de volta e o que voce trouxe de la?
C A E S A R says: (
02:57:12) O que me trouxe de volta foi a falência das relações que construí lá.
Não das relações, mas de uma relação em 'pecial.
Resolvi voltar para o Rio de Janeiro.
Mas de lá eu trouxe o reconhecimento de quem eu sou.
Se até aquele momento eu julgava me conhecer, depois que voltei tive a certeza de que só naquele momento eu poderia ter uma dimensão de quem eu sou.
says: (
02:58:07) A partir disso, que voce comecou a se dedicar a 'crever as pecas com as quais voce trabalha hoje, como Quer Tc?
e Consumidos?
C A E S A R says: (
03:00:47) Não.
Eu já 'crevia desde muito antes.
Isso tudo aconteceu em 2000.
Eu 'crevo desde sempre.
Peça eu comecei a 'crever em 1994 ...
Mesmo ano que comecei a fazer Teatro.
Mas tudo que 'crevi depois do meu retorno, Consumidos, Borboletas e tudo o mais, veio de maneira mais consciente.
Eu sabia o q eu queria 'crever e comecei a lidar com o processo de uma forma mais autoral.
says: (
03:02:24) Então, Quer Tc?
eh anterior a isso, mas a primeira montagem soh se deu em 2001, 2 anos depois da peca ter sido 'crita.
E ano passado, acabou tomando todo o seu tempo, numa temporada em varios locais do Rio.
Como a peca resistiu a tanto tempo?
C A E S A R says: (
03:04:56) Acho q é pq ela antecipou coisas que só agora 'tamos tomando consciência.
Em 1999, quando terminei o texto, a internet, as salas de bate-papo virtual 'tavam aqui há 3 anos no máximo.
Era tudo muito novo.
Mas no texto eu já falava da tecnologia influenciando as relações humanas, eu já falava da «urgência» que a máquina nos impõe.
Em a época isso era original.
Hoje isso é constatação.
As pessoas..
C A E S A R says: (
03:06:29) Se identificam com isso.
Por isso a resitência e a força do texto.
Um dia vão montar de novo e será interessante para vermos q já pensavam nisso antes ...
Ou q, na melhor das hipóteses, nos assustamos com algo inofensivo.
Acredito q 'se texto ainda tem muito tempo de vida.
says: (
03:06:51) Quem eh o publico que tem visto Quer Tc?
C A E S A R says: (
03:09:32) Todo o tipo de público.
Os adultos sacam as sutilizes das tramas e se sensibilizam mais.
Os adolescentes são mais vicerais!
Escolhem seus personagens preferidos, reconhecem nas ruas, criam comunidades no orkut.
E o pessoal da terceira idade se surpreende com tudo.
Acaba sendo a melhor forma de terem contato com uma tecnologia que não diz nada para geração de eles.
says: (
03:11:12) Depois de Quer Tc?,
voce promoveu as leituras de Consumidos, um texto que fala da atualidade atraves de um cliche antigo que eh o da familia migrante na cidade grande?
Por que retomar a ideia do migrante «engolido» por a metropole?
A que 'sa metafora de serviu?
says: (
03:11:34) (Depois, de cidade grande não tem interrogacao.)
says: (03:11:58) (
A que 'sa metafora Te serviu?)
C A E S A R says: (
03:14:21) Eu morei no interior da Bahia durante 4 meses.
Foi uma realidade completamente diferente da minha.
Nasci e Fui criado numa grande metrópole que é o Rio de Janeiro.
Acho q Consumidos foi o resultado desse período que passei lá.
Me sentia um Godzilla caminhando entre os pequenos prédios da cidadezinha baiana.
O texto é um reflexo disso.
says: (
03:15:12) Qual eh o valor de falar de consumismo numa sociedade onde a arte virou um artigo de consumo?
says: (
03:15:44) Como a arte pode ser isenta para falar de consumismo?
Ou melhor, ela precisa ser isenta para falar de consumismo sendo ela mesma um produto?
C A E S A R says: (
03:19:42) A arte para mim é a capacidade de repensar a sociedade.
Ela mais q ninguém tem 'sa possibilidade.
Triste seria se ela não fizesse isso.
Enquanto ela fizer, não terá sido «vendida»,» consumida».
Por isso a importância de se utilizar de um meio como o texto teatral (como poderia ser a letra de uma música ou uma foto ou um quadro ...)
para falar de uma questão social na qual a arte tb 'ta ...
C A E S A R says: (
03:19:52) incluída na lista de «vítimas» ...
says: (
03:21:14) Depois do Consumidos, voce comecou a fazer leituras de um texto polemico que aborda a homossexualidade como tema central.
Borboletas fala do que exatamente?
C A E S A R says: (
03:22:32) Fala do preconceito e de algumas sequelas que ele gera no nicho que «vitimiza».
says: (
03:23:21) Dai, botar armas nas maos dos dois protagonistas eh uma reacão a 'se preconceito ...
C A E S A R says: (
03:26:55) Rs.
Sim. Mas é preciso entender que as armas são metáforas.
Geralmente o homossexual é visto como um cidadão pacato, inofensivo, engraçado e caricato.
Ninguém conta histórias sobre gays assassinos ou bandidos ou heróis de guerra pq acham q gays jamais seriam assim no «mundo real».
Mentira. Por isso coloquei armas nas mãos das personagens principais.
Ninguém é inofensivo.
Principalmente alguém que ...
C A E S A R says: (
03:27:27) é discriminado.
Além de tudo, sou negro.
Sei bem do que 'tou falando.
Rs says: (
03:29:17) Mesmo com toda 'sa sua fala, o texto 'ta longe de ser uma defesa inconsequente dos homossexuais.
Por o contrario, ele eh bem critico acerca da homossexualidade, não como orientacão sexual, mas como cultura e sub-cultura de guetos.
Em que ponto a cultura gay dos dias de hoje precisa ser criticada?
Isso não 'ta fora da agenda do «reconhecimento» dos gays?
C A E S A R says: (
03:33:28) Se vc diz para o seu filho que tudo q ele faz é certo, ele crescerá sem saber o q é errado.
E sofrerá com isso no convívio em sociedade.
Será excluído até q desenvolva meios de sobreviver Em o sistema.
Afinal, falamos mal do sistema, mas no fundo tudo o q queremos é ser aceitos.
Até aí, pra mim, mal algum.
Só não acho q devamos fazer «qualquer coisa» por isso.
Critico a maneira como a maioria dos ...
C A E S A R says: (
03:36:20) homossexuais vivem a sua homossexualidade na Era Moderna pq acho que 'tão colaborando com o atraso na aceitação do óbvio:
temos Todos os mesmos direitos independentes de cor, credo ou do gênero sexual que levamos para a cama.
Em 'se ponto, acho q a cultural gay deve ser criticada, sim.
says: (
03:37:17) Que comportamentos seriam 'ses que os homoxessuais de hoje tem e que merecem a sua critica?
C A E S A R says: (
03:42:09) Para mim, a mais grave é a legitimização do «enrustido».
Não sei se isso acontece nos outros países, mas no Brasil virou moda «ninguém ser gay» pq se «assumir gay» é «assumir um papel de afeminado», papel que o próprio meio gay ridiculariza.
Isso é um retrocesso!
Deveríamos caminhar para a aceitação integral de quem se é, até pq 'sa aceitação traz não só a naturalização na maneira como são ...
C A E S A R says: (
03:42:32) vistos por os heteros, mas uma naturalização dentro do próprio meio.
C A E S A R says: (
03:43:59) Não 'tou aqui ...
C A E S A R says: (
03:44:34) Promovendo uma «caça as bruxas».
Sair se apresentando ...
C A E S A R says: (
03:44:55) Como gay por as ruas é tão anti-natural quanto alguém se apresentado como hetero ...
C A E S A R says: (
03:46:29) Mas não se pode confundir as coisas.
Quando alguém se assume, assume para si as «responsabilidades» sociais de 'sa opção.
Muitas vezes os homens não se assumem pq não querem assumir 'sas «responsabilidades» e na maioria da vezes são eles os maiores algozes sociais dos homossexuais.
says: (
03:47:01) Voltando ao seu trabalho, eu acabei pulando WALK, MEN!
que foi a unica montagem que eu vi.
Essa peca fala de familia e, sendo uma pessoa tão proxima de voce, eh impossivel não reconhecer o Cesar nos personagens.
O que te levou ser tão confessional?
C A E S A R says: (
03:50:26) A necessidade.
Eu precisava exorcizar aquilo.
Precisava falar dos meus fantasmas.
Vc sendo próximo, deve ter reconhecido vários.
Rs says: (
03:52:58) A tua montagem de WALK, MEN!
e os teus textos mostram uma veia forte do pop.
Alias, creio que vc eh um dos poucos artistas no mundo do teatro que não tem medo de se dizer influenciado por a musica pop -- mesmo a mais chiclete hahahahahha -- ou por os seriados americanos e outras coisas que são frequentemente considerados como lixo cultural por as altas rodas ...
Ate onde voce se apropria desses discursos e ate onde vc se afasta de eles no seu trabalho?
C A E S A R says: (
04:02:29) Essa é a maneira q encontrei de ser consumido, não vendido.
Quando 'crevo ou componho, quero ser ouvido.
Procuro meios então de conectar o que tenho a dizer com quem quero que 'cute.
Adoro lixo pop!
Todo mundo gosta!
Só não tenho medo de parecer menos inteligente ao assumir isso!
Rs.
says: (
04:03:35) A entrevista ja 'ta gigante ...
Fala, então, do teu retorno a musica.
Pq voltar a ela exatamente no momento em que a sua carreira como dramaturgo decolou?
C A E S A R says: (
04:06:06) Tem coisas q preciso dizer e q só servem se for cantando!
Tem uma 'trutura na música q me fascina ...
música, clip, show ...
Através de um único ponto vc fala três línguas diferente!
Através de uma letra vc canta, vc se expressa nos clips e vc vai para o palco ...
São três 'tágios a partir de uma única música.
Um album tem 10 no mínimo.
Imagina o tanto de possibilidades?
Número de frases: 204
Taquiprati -- Diário do Amazonas -- Manaus.--
25/02/2007 A Amazônia Perdida
José " R. Bessa Freire
«Em o puede Oviedo decir cosa chica ni grande, porque no fué digno de lo ver ni de lo entender» (Bartolomé de Las Casas, Historia de las Indias, T. V, p. 116).
Em 'sa segunda-feira de carnaval, milhões de foliões, despreocupados com os destinos da pátria, caíram irresponsavelmente no samba, enquanto um patriota permanecia alerta e vigilante.
Seu nome:
Hélio Jaguaribe, o HJ.
Ele não sambou.
Ficou de prontidão, como sentinela da nacionalidade na guarita do Rei Momo.
Graças ao seu plantão cívico descobriu, 'tarrecido, que 'tão roubando a Amazônia do Brasil.
Escreveu, então, um artigo denunciando os larápios, com dicas de como recuperar o patrimônio subtraído.
«A perda da Amazônia», publicado segunda-feira na Folha de São Paulo, identifica o tamanho do roubo.
De saída, apresenta o inventário hiper-conhecido das riquezas da região:
a maior floresta tropical, a maior bacia hidrográfica e a maior biodiversidade do mundo, reservas gigantescas de ferro, bauxita, cassiterita, urânio, diamante e outros minerais.
Todas 'sas riquezas -- segundo HJ -- 'tão passando por um processo de «acelerada desnacionalização».
Quem são os agentes desse processo?
Como atuam?
É preciso ter muita coragem para dar nome aos bois.
Jaguaribe tem.
Para ele, o Brasil 'tá perdendo a Amazônia porque foram feitas -- quem diria!--
«insensatas concessões de áreas gigantescas a uma ínfima população de algo como 200 mil índios», que se tornaram donos de «cerca de 13 % do território nacional».
Desassombrado, ele acusa os índios sem medo de pegar, em represália, uma flechada na bunda, envenenada com curare.
O dedão dos gringos
Parece de um primarismo atroz, mas é isso mesmo que você leu:
a culpa é dos índios.
Segundo HJ, eles são demograficamente inexpressivos, não possuem armas, nem exércitos, mas são política e economicamente fortes, porque abocanham 13 % do território nacional, têm uma «lucrativa profissão com contas em Nova York e telefone celular», além de poderosos aliados:
as Ongs, as Igrejas e os norte-americano.
Em a Amazônia, mais de cem Ongs -- diz Jaguaribe -- 'condem atividades reprováveis «sob a aparência de pesquisas científicas».
Já a Igreja Católica «atua como ingênua protetora dos indígenas», facilitando» indesejáveis penetrações 'trangeiras».
Quanto às igrejas protestantes, seus «pastores improvisados são concomitantemente empresários por conta própria ou a serviço de grandes companhias».
HJ generaliza com extrema facilidade, sem citar fontes.
Não hesita em recorrer a desgastados chavões da direita nacionalistóide, quando revela as 'tratégias para decepar a Amazônia e criar dentro de ela várias pátrias:
«O objetivo que se tem em vista é o de criar condições para a formação de ´ nações indígenas ´ e proclamar, subsequentemente, sua independência com o apoio americano».
Portanto, embora não diga em que consiste 'se «apoio americano», fica claro que por trás de tudo 'tá o dedão dos Estados Unidos.
Diante de acusação tão grave, os leitores 'peravam que HJ fosse conseqüente e propusesse medidas para afirmar a soberania nacional, tais como:
a criação de mecanismos para fiscalizar as Ongs e as Igrejas, a modernização do Exército brasileiro, a organização e mobilização popular contra o imperialismo americano, a expulsão das multinacionais que desrespeitam as leis brasileiras, o protesto do Brasil na ONU, um pedido de 'clarecimento ao Governo Bush e, se necessário, o rompimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos.
Mas nenhuma medida de 'sas foi pensada por HJ.
Ele é bonzinho com os americanos e com os empresários, com quem fala fino.
A bronca de ele é com os índios, com quem engrossa a voz.
Em o Brasil de HJ, não há lugar para o que ele denomina de «culturas paleolíticas ou mesolíticas no âmbito de um país moderno».
Por isso, a única solução que apresenta é anular as «concessões gigantescas» de terras indígenas e reduzi-las «a proporções incomparavelmente mais restritas».
Se HJ teme efetivamente a perda da Amazônia com «apoio americano» e, apesar disso, faz carinho aos gringos, é porque nem ele mesmo acredita no que diz.
Ou então não é o patriota que pretende ser.
Sua proposta, na realidade, pretende liberar as terras indígenas para o agro-negócio.
Jaguaribe se entrega quando, entusiasmado, faz seus cálculos:
«O dendê, nativo da Amazônia e em ela facilmente cultivável, constitui uma das maiores reservas potenciais de biodiesel.
Em apenas 7 milhões de hectares, numa região com 5 milhões de km², é possível produzir 8 milhões de barris de biodiesel por dia, correspondentes à totalidade da produção de petróleo da Arábia Saudita».
Ou seja, sem índios, é possível transformar a Amazônia num gigantesco dendezal.
Fica claro que a defesa da Amazônia aqui é apenas um pretexto para justificar a ocupação das terras indígenas.
O perfil de HJ
Quem é, afinal, o autor de tal proposta, em que fontes se baseia e de que lugar 'tá falando?
Hélio Jaguaribe, com 83 anos, formou-se em direito por a PUC do Rio de Janeiro, lecionou em três universidades norte-americano e nas Faculdades Integradas Cândido Mendes.
Publicou no Brasil e no exterior 33 livros e dezenas de artigos, entre os quais um sugestivamente intitulado «A história é implacável com os 'túpidos».
É o que Gramsci chamaria de um «intelectual orgânico».
Como é que um moço prendado, culto e com tanto prestígio, membro da Academia Brasileira de Letras, pode ser tão ignorante e dizer tanta besteira quando fala de índios?
Acontece que HJ nunca colocou os pés numa aldeia, não fez qualquer pesquisa de campo, e os seus livros não trazem sequer uma palavra sobre o assunto, até porque 'sa não é sua área de conhecimento.
Está encantado com a biodiversidade da Amazônia e nem sequer suspeita que grande parte de ela foi construída por as culturas indígenas.
Não tem legitimidade, nem autoridade e nem humildade científica para tratar do tema.
Ele podia ter consultado a vasta bibliografia etnográfica para não pagar o mico de achar que as sociedades indígenas são «culturas paleolíticas»,» atrasadas «e» obstáculos à modernidade».
Escreve sobre os índios, que não pesquisou, cometendo a proeza de não citar sequer um só dos tantos 'tudos existentes em 'se campo.
Por isso, não entende o significado do uso da tecnologia, como o telefone celular, e acaba sendo desrespeitoso, leviano e impreciso, quando insinua que os índios têm conta bancária em Nova York, sem citar o nome de nenhum de eles.
Baseado apenas em relatórios da Agência Brasileira de Inteligência/ABIN, Jaguaribe desdenha as fontes etno-históricas.
De 'sa forma, ignora o processo histórico, quando considera impropriamente as terras indígenas como «concessões» feitas aos índios, como uma dádiva, e não como o reconhecimento, por a Constituição brasileira, de um direito e de uma situação existente antes mesmo da formação do Estado nacional.
Ninguém «deu» terras aos índios.
O legislador apenas reconheceu a terra de eles.
Seu pai, o general Francisco Jaguaribe de Mattos sabia muito bem disso, pois foi -- quanta ironia!--
cartógrafo da Comissão Rondon.
A imprecisão e a leviandade de HJ se refletem até na forma com que ignora os dados oficiais.
Em o seu afã de diminuir o tamanho das terras indígenas, reduz a população a «algo como 200 mil índios», quando uma simples consulta ao Censo de 2000 realizado por o IBGE mostraria a existência de 734.127 indivíduos, metade dos quais vivendo em aldeias.
Pouco se conhece da atuação empresarial e partidária de HJ.
Em uma entrevista a Kumasaka e Barros, ele contou como criou, em 1953, uma empresa privada, a Cia..
Ferro e Aço de Vitória, que presidiu por uma década.
Depois foi viver nos Estados Unidos.
De regresso, fundou uma empresa multinacional latinoamericana, que comercializa equipamentos, a LATINEEQUIP.
Os dois empreendimentos contaram com recursos de bancos públicos:
o primeiro com apoio de Getúlio Vargas, o segundo, do Banespa.
Presidente de um banco de investimento, HJ diz que é obrigado a realizar outras atividades, porque aqui no Brasil «é impossível ou quase impossível se viver do salário de professor universitário».
Em a entrevista citada, ele confessa que fica 'tressado com 'sa situação de ser «empresário o dia todo, e de noite, intelectual».
Serviu ainda ao governo Sarney, que encomendou de ele o Projeto Brasil, e ao governo Collor, do qual foi Secretário da Ciência e Tecnologia, sendo obrigado, para isso, a renunciar aos cargos partidários que tinha no PSDB, partido que ajudou a fundar.
Talvez seja oportuno concluir, lembrando aqui dois renomados 'panhóis do século XVI, que registraram em livro sua experiência na América.
O primeiro de eles, Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdez, foi prefeito de Santo Domingo, cronista do rei e autor da ´ Historia General de las Indias ´, publicada em 1547.
O segundo, Bartolomé de las Casas, padre dominicano e bispo de Chiapas, no México, 'creveu ´ Historia de las Indias ´, em cinco tomos.
Mantiveram uma longa polêmica.
Oviedo, em sua obra, 'creve que os índios são burros e de fraca memória.
Las Casas não perdoa e ironiza:
«Como é que Oviedo sabe disso, se não conhecia nenhuma língua indígena, não sabia o que os índios sabiam.
Esse fato deve ter sido inspirado a ele por revelação divina».
E finaliza, advertindo:
«Se na capa do livro de Oviedo 'tivesse 'crito que seu autor havia sido conquistador, explorador e matador de índios e ainda inimigo cruel de eles, pouco crédito e autoridade sua história teria entre os cristãos inteligentes e sensíveis».
O que poderíamos 'crever na capa dos livros de Hélio Jaguaribe?
Sua biografia 'tá no site www.netsaber.com.br/biografias.
Lá, as pessoas podem registrar o que pensam de ele.
Nadel Brader 'creveu:
«Arrogante, preconceituoso e hipócrita».
Luciana Costa registrou:
«Babaca. Um cara de mentalidade paleolítica».
Sem concordar com ofensas pessoais, suspeito que ambos resumiram o que muitos pensam.
De minha parte, digo apenas que a história será implacável com quem só 'creve de noite.
Desconfia, leitor (a), dos que usam teus nobres sentimentos de nacionalidade e do teu amor ao Brasil para atacar os índios.
Estão querendo te confundir.
Não 'tão defendendo a pátria, mas seus interesses particulares.
Número de frases: 101
«Emergência!
Um choque rápido ou o Recife morre de infarto!"
Em 26 de novembro de 1990, o Jornal de Commercio de Pernambuco divulgava uma pesquisa feita por o Institut Population Crisis Commitee de Washington em que Recife aparecia como a «quarta pior cidade do mundo para se viver».
Enquanto isso, um grupo de amigos se perguntava " ( ...) o que
fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos?
Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade?"
A resposta 'tava nos manguezais da cidade de Recife: "
Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e 'timular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.
Essa injeção de energia seria dada por um ( ...)
«circuito energético», capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop."
Foi assim que Fred Zero Quatro, da banda mundo livre s.
a., relatou a articulação de um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil nos últimos anos:
o Movimento Manguebeat.
Esses são trechos de «Caranguejos com Cérebro», o» Primeiro Manifesto " desse movimento.
Tudo começou entre festas e mesas de bar, e se chamava Cena Mangue.
Em as palavras de Renato L», o «ministro da informação» de 'sa cena:
«Eu 'tava no Cantinho das Graças, um bar sem qualquer atrativo freqüentado por a galera.
Em a mesa acho que bebiam Mabuse, Fred, Vinicius Enter e outros.
De repente, Chico apareceu e sem nem sentar foi anunciando " olha fiz uma jam session com o pessoal do Lamento Negro e mesclei uma batida disso com uma batida daquilo e um baixo assim ...
vou chamar 'se groove de Mangue!
Em a hora, ficamos sem saber o que era mais interessante, o som ou a palavra usada para sintetiza-lo.
Aquele era o rótulo!
Como todo mundo tinha um sonho em mente e um 'boço de trabalho em conjunto havia se delineado em algumas festas, a tentação de ampliar o conceito surgiu de imediato."
O conceito Mangue, então, foi ampliado para a criação de uma Cena, termo inspirado na Cena Punk criada por Malcom Maclaren.
Tendo se iniciado em torno das bandas mundo livre s.
a. e Chico Science & Nação Zumbi, a Cena ultrapassou o campo da música, incorporando outras áreas, como o cinema (com o chamado Árido Movie) e a moda (com coleções como a do 'tilista Eduardo Ferreira).
Foi em 1992 que Fred Zero Quatro 'creveu «Caranguejos com cérebro» que, originalmente, não era um manifesto.
Era, sim, um release 'crito para uma coletânea que mundo livre s.
a. e Chico Science & Nação Zumbi pretendiam lançar conjuntamente.
Recebido euforicamente por a mídia local, o release foi o 'topim para a transmutação da Cena em Movimento.
A imprensa divulgou o release como manifesto e passou a chamar a Cena de Movimento, acrescentando o adendo bit ao rótulo Mangue, devido à música Manguebit (mundo livre s.
a.). Posteriormente, se confundiu a sonoridade de bit com beat, e chegou-se à forma como o Mangue ficou conhecido internacionalmente:
Movimento Manguebeat.
Inicialmente, os mangueboys rejeitaram o enquadramento como movimento, pois acreditavam que o termo «cena» era mais adequado para designar o ambiente lúdico e diverso que pretendiam criar.
Gradualmente, foram aceitando a denominação de movimento dada por a mídia, num processo que revela um diálogo entre a mídia e os artistas da Cena.
Hoje se fala em Cena, em Movimento, em Bit, em Mangue, em Beat.
Mas também se pergunta:
o Mangue -- Beat ainda existe ou se perdeu com a década de 1990?
Há bandas novas em Recife que dizem nada ter a ver com o Mangue, e alguns as chamam de off-mangue.
Já há outras que se dizem filiadas àquela Cena criada no início dos 90's e são vistas como fazendo parte do que se tem chamado de Pós-mangue.
Polêmicas à parte, parece unanimidade que, ainda existindo ou não, Manguebeat se tornou uma referência no cenário cultural brasileiro.
Para mais sobre o Mangue, acesse o blog «Em a lama» (http://rejanecalazans.blogspot.com/), que divulga os caminhos e descaminhos da pesquisa " Mangue:
a lama, a parabólica e a rede», que se desdobra num documentário sobre a Cena.
Lá tem dicas de leitura, clipes, sites, etc. sobre a Cena Mangue que surgiu no início da década de 1990 e seus desdobramentos na Cena de Recife atual.
Número de frases: 44
Cena SOM:
Música no Teatro é a programação musical do teatro Universitário (UFC -- Fortaleza / CE).
Idealizado por a TEMBIÚ -- Alimento de Alma, a proposta do Cena SOM é levar apresentações musicais para o palco do teatro, garantindo elementos cênicos para a expressão musical.
Sem «forçar a teatralidade» no trabalho musical ali apresentado, o Cena SOM convida os músicos e as bandas participantes a pensarem um pouco mais no que significa ocupar o 'paço do palco teatral, diferentemente de como se ocupa, também com a música, as faixas de um disco ou as ondas do rádio.
Com o registro audiovisual das apresentações, a equipe técnica do Cena SOM fará uma edição das imagens e formatará como programa de TV, a ser veiculado ainda em 2006, num programa semanal por a TV Ceará (canal 5).
Estamos articulando parcerias e buscando o melhor formato para a temporada de 2007;
ainda em dezembro desse ano vamos montar uma programação a partir do material recebido desde julho de 2006, mês de lançamento do Cena SOM.
quem não enviou sua proposta, não deixo para a última hora. *
adiante-se! *
basta enviar Até * Dia 15 De Dezembro DE 2006 (sexta-feira) * para a Associação Solar os seguintes materiais:
1-CD com algumas faixas do trabalho a ser apresentado;
2) * release * do grupo / artista (breve texto de apresentação do grupo / artista) + histórico;
3) concepção cênica do 'petáculo (breve texto com a proposta de ocupação do 'paço do teatro: cenário, figurino, direção, iluminação, * performance *, participações / convidados ...
em miúdos, " como será o show?");
4) ficha técnica com mapa de palco e fotos.
A Associação Solar fica na avenida da universidade, 2327-A -- benfica -- cep:
60020-180 / Fortaleza-CE -- fone (85) 3226-1189. mais informações, ligue pra mim: (85) 9607-6013 ou 'creva: tembiu@gmail.com
o * Cena SOM:
Música no Teatro * privilegiará as propostas musicais que aproveitem os recursos cênicos do teatro para incrementar a apresentação e também aquelas que trazem à cena novas composições, ou seja, música autoral.
entretanto releituras e rearranjos serão 'tudados.
é isso.
mais detalhes, a gente conversa.
atenciosamente,
rodrigo de oliveira
Tembiú -- Alimento de Alma
Número de frases: 25
(85) 9607-6013 e 3214-5514 Realizar um evento de rock independente, com bandas autorais em pleno carnaval em Macapá é um ato de quem gosta mesmo da sonzeira que só o Rock ´ n Roll em todas as suas vertentes faz.
Assim o Grito Rock Amapá foi prestigiado por um público de verdadeiros amantes de sons que vão além dos repiques e tamborins.
O interessante foi que o evento correu com tranqüilidade desejada por todos os que organizam uma programação como 'ta, ou seja, tudo correu dentro do 'perado.
Dia 17/02 (Sábado)
Após as mesas de discussões à tarde, que contou com a presença de diversas bandas, assim como representantes de ECAD, Quem abriu a noite de sábado foi banda 1821, seguida de Pierrot, Arma de Fogo, NDA, SPS 12, Alan Yared, Palheta Perdida, Zeta e stereovitrola.
Este dia teve como destaques as bandas 1821, que passou um tempo desaparecida e agora voltou apresentando um repertório que mostra o quanto o Grito Rock Amapá perderia se não contasse com 'ta apresentação.
Arma de Fogo também não decepcionou, apesar da ausência do Guitarrista Felipe.
Outra que não poderia ficar de fora é a banda Pierrot, Cujo vocalista a guitarrista Moiséis também demonstrou muita criatividade em seu trabalho.
NDA Rock também foi infalível em sua apresentação, mostrando um bom trabalho conjunto e que 'tá pronta pra entrar em 'túdio novamente.
Outra que merece destaque é a banda SPS 12, que fez um show impecável, fazendo com que o público que acompanha a banda vibrasse bastante, aliás a banda vem acumulando ótimas apresentações por onde passa, restando apenas um incentivo maior pra que a banda deslanche de vez.
Um momento muito empolgante foi a apresentação da banda Palheta Perdida, que tocou de cuecas levantando risos e aplausos da galera.
Outro que se apresentou bem foi Alan Yared e banda, que mostrou um trabalho bem consolidado em suas bases Pop Rock.
O público presente também comentou bastante a respeito de 'ta apresentação.
O mesmo foi dito sobre a banda Zeta, cuja apresentação foi impecável.
A banda já é bastante prestigiada onde passa e conta com figuras conhecidas e com história na cena rock de Macapá como Cleverson Baia na Guitarra e vocal.
Mas quem encerrou a noite em grande estilo foi a banda stereovitrola, que agora não conta mais com Anderson na guitarra solo.
A banda agora toca numa 'pécie de Power Trio Sintetizado, já que conta com Patrick fazendo o vocal e guitarra, Marinho no Baixo, Rubens na Bateria e Matrix no sintetizador.
De aí você se pergunta:
mas não era um Power Trio?
Então posso responder que não e sim um Power Trio sintetizado.
Assim a noite foi concluída com 'ta apresentação, a melhor da banda em minha opinião, que tocou faixas inéditas e outras já conhecidas, mas que ainda não 'tão gravadas como 1969 e a ótima Canção para Syd Barret.
Dia 18/02 (Domingo)
Em o Segundo dia quem tocou foi Corleones, onde os irmãos Alahor e Alan, líderes da banda, se mostraram em posição de destaque em 'ta formação recente e que promete muitos bons frutos.
Em seguida foi a vez da Marttyrium, que também lançou seu CD demo no festival.
Com seu Estilo White Metal eles mostraram por que vêm alcançando posições de destaque no meio musical macapaense mostrando letras bem trabalhadas acompanhadas de ótimas distorções e riffadas, sem contar com o ótimo vocal de Ronix, 'ta é mais uma banda que dá gosto de trabalhar.
Samsara Maya também surpreendeu, não poderia ser diferente, já que qualquer um pode fazer uma banda do caralho se juntar Alexandre na guitarra e vocal, Téo na guitarra, Adriano no baixo e Careca na Bateria.
Uma proposta que junta bastante solo de guitarra e letras bem trabalhadas fazendo uma das melhores apresentações do Grito.
Balzabouth segue firme com o seu 'tilo Black Metal e mostrou maturidade em seu trabalho e um público fiel.
Além de tocar músicas contidas em seu Cd Obscurum Lacus como Synfonia Funeral e Standarte de Satã, ainda tocaram músicas inéditas, mostrando que a aceitação da banda vem crescendo à medida que as pessoas passam a compreender melhor a proposta.
Sangria entrou no palco pra mandar ver.
O Vocal de Cacau realmente é muito bom.
Imagine você numa parede de um bar barulhento e querendo chamar uma pessoa do outro lado com um grito, só que 'te grito deve ser bem alto e bravo para chocar quem 'tiver lá.
Se der pra visualizar o que 'tou falando então você entenderá melhor o que quero dizer sobre o vocal de Sangria.
Talvez o 'pírito do Grito Rock tenha invadido os membros da banda e passado para os presentes, que reverberaram bastante com 'ta apresentação.
Tudo acompanhado de letras e instrumentos bem trabalhados de responsabilidade de Anderson (Guitarra), Buba (Baixo) e JP (Bateria) fazendo som autoral há mais de cinco anos na cidade.
Quem fechou o Grito Rock Amapá foi Santo Graal de Belém do Pará.
Presentes em Macapá desde o sábado a banda 'teve observando tudo o que rolou em 'tes dois dias de programação e levarão informações importantes para a maior cena do Norte do país.
Foi uma experiência muito construtiva tanto para quem é daqui quanto para eles, que foram muito educados com a organização do festival.
Em o palco a banda só fez o que deveria fazer.
Tocaram para os que ficaram suportando o cansaço e a correria da programação extensa.
Não poderia ser diferente, pois a banda demonstrou toda a maturidade acumulada em 'tes oito anos de 'trada e não decepcionaram o fiel público Underground.
Tudo isso regado de explosões do conjunto e vocal bem trabalhado da performática Izabele.
Parabéns.
Em o fim tudo deu certo.
O Grito Rock Amapá vai ficar para a história do Rock Amapaense como uma das primeiras ações que visam fomentar o trabalho de bandas independentes, assim como os agentes que giram em torno da cena.
Esperamos que em nossas próximas ações consigamos aproximar melhor outros produtores e músicas em torno de uma melhor construção coletiva.
O Amapá ganhou 'paço importante no que diz respeito à interação com outros centros onde a cena 'tá mais consolidada.
Agora é hora de pensar no futuro, aprender com nossos erros, passar a se organizar melhor, 'quecer o individualismo e assumir a responsabilidade de tocar 'te projeto para a frente.
A conquistas de valorosos parceiros, que acataram a proposta ousada do circuito Fora do Eixo e aplicada regionalmente por o Coletivo Palafita deu certo e 'peramos que ainda no próximo período possamos fazer muito mais por o sonho que 'tá em cada um que participou ativamente ou não deste processo.
Isso se traduz em ações como a Coletânea de Rock Amapaense, Maratona de Fotografia, o Festival Açaímilombra e o II Caldeirão Universitário.
Número de frases: 50
Até logo.
Dia 15 de dezembro Oscar Niemeyer completa cem anos, algo inimaginável para a maioria dos mortais.
Para ele, no entanto, um século é pouco para concretizar todos os seus sonhos e idéias.
Oscar não é um homem apegado ao passado.
Diz que lá ficaram muitas tristezas e perdas.
Por isso, olha o futuro com o mesmo entusiasmo com que abraçou sua obra maior, Brasília, há quase cinquenta anos.
Só um homem muito visionário poderia embarcar no projeto futurista idealizado por Juscelino Kubitschek, construir a nova capital do país no meio do Planalto Central.
Com um clima quase desértico do Cerrado, tendo como parceiros da empreitada Lúcio Costa e milhares de trabalhadores que para lá se mudaram, Brasília foi fundada, em 21 de abril de 1960.
Chamar Niemeyer de gênio já virou clichê.
Ele 'tá muito além disso.
É mais preocupado com» ...
o homem e sua luta.
A Arquitetura não é importante», segundo suas próprias palavras.
Hoje, graças às inúmeras publicações e homenagens ao seu centenário, é possível compreender 'te ser 'pecial por trás do famoso arquiteto.
Niemeyer 'tá construindo em Niterói, Rio de Janeiro, uma Fundação com seu nome.
Será um complexo que abrigará, de entre outras coisas, um Teatro Popular e a Escola de Arquitetura e Humanidades, numa 'pécie de síntese de sua vida e sua obra.
Além da Arquitetura, sua Escola será aberta a profissionais de todas as áreas, para quem busca mais conhecimento em História, Literatura, Filosofia ...
Pessoas que queiram participar mais efetivamente na luta do ser humano por uma vida mais digna.
Um percentual das inscrições será reservado aos bolsistas e toda receita será revertida para financiar a Escola, que não possui qualquer patrocínio.
Apenas mais um traço da personalidade deste homem, que entendeu o concreto armado como ninguém e conseguiu dar-lhe leveza e suavidade com suas curvas inconfundíveis.
Com um toque de arte e a imaginação de um mágico, transformou a Arquitetura em Poesia.
E agora 'tá fazendo Escola ...
Número de frases: 22
Comecei na 'cola como uma 'trela semelhante àquelas que admirava desde pequena.
Primeiro por a idade (6 anos), depois, por o braço engessado, motivo de inveja de nove entre dez alunos e mais ainda, já sabia ler e 'crever.
Pequena, tímida e, graças à minha mãe, já sabendo ler muito bem, brilhei por algum tempo.
O braço quebrado, porém, trouxe uma dificuldade:
sou canhota e quebrei justamente o 'querdo.
Então, por mais que afirmasse meu imenso saber 'crever, ninguém acreditava porque fui obrigada a fazê-lo com a desacostumada mão direita.
Desfez-se assim, o brilho da incipiente 'trela.
Até hoje, 'crevo com ambas.
A 'cola, Grupo Escolar Vasco dos Reis, no Setor Sul (bairro da classe média de Goiânia), era, por a proximidade, o celeiro dos meninos pobres de parte do meu bairro, o Setor Universitário.
Em 'ses tempos jurássicos (ano 1969), os ricos moravam no centro, que geograficamente, ficava a um córrego de distância da minha rua.
Em a prática, a distância era medida em anos-luz.
E, no meio, a 'cola, abrigando meninos pobres e alguns remediados.
De a minha rua, todas as crianças iam juntas para a 'cola e era uma festa e uma bagunça lindas.
Posso quase rever aquele bando de meninos magricelas e seus malabarismos rua a fora, sempre implicando uns com os outros enquanto as meninas, de mãos dadas, iam mais atrás desvendando, entre si, grandes segredos.
Que saudade!
Havia o Damião, menino mais velho que decidiu ser para sempre criança e nunca deixar o Grupo Escolar.
Era, segundo minha mãe «um capeta em figura de gente» e nos atormentava por todo o curto caminho entre a casa e a 'cola.
Depois do portão, porém, era um lorde.
Com as professoras, claro.
O Grupo Escolar, pequeno e antigo, mal continha os ímpetos olímpicos de seus alunos, por isso, a «hora do recreio» era desfrutada fora dos muros, enlouquecendo a vizinhança.
A construção, no meu tempo, já era velha;
as salas feias, de paredes descascadas e as janelas altíssimas (para uma criança) davam um tom de penumbra constante.
As carteiras, de duplas, rangiam e, desse ranger, os alunos mais corajosos faziam a festa nas tardes monótonas sobre a tabuada.
Pobres professores!
Não, eu não me incluía entre eles, isso era coisa de meninos e não de meninas, sempre quietas como bonecas.
Ali, encontrei-me definitivamente com os livros e com inesquecíveis professores, como Dona Dalva, que sempre me premiava com pequenos textos ('critos à mão!)
e castigos memoráveis, como 'crever cem vezes «não devo conversar na sala de aula».
Sim, apesar de tímida, sempre fui tagarela.
Estudava na cartilha Sodré (Deus, nunca mais havia me lembrado de ela), pequena, de capa verde com uma menina de tranças.
Mais tarde, na terceira série, passamos para um imenso livro de leitura feito aqui mesmo em Goiânia.
A leitura sempre foi o ponto alto das aulas, em voz alta, em grupo.
O lanche, ou «merenda» como se diz por aqui, era horrível.
Porém para nós, meninos pobres, sempre foi 'sencial.
H avia um mingau feito de leite em pó enviado por os EUA, por meio da «Aliança para o Progresso», programa de ajuda patrocinado por John Kennedy.
Durante as festas 'colares, sempre éramos lembrados da felicidade de poder contar com tal gororoba.
Memoráveis eram os dias de «tirar fotos».
Todo mundo bonito, uniforme impecável, saias compridíssimas, blusa sobre camiseta, com o distintivo da 'cola, bordado à mão e uma fila de meninos quietinhos como filhotes de demo.
O resultado era um binóculo (a coisa mais surreal do mundo) com nossa imagem perdida lá dentro, pequenina.
Ainda guardo uma de 'sas em que 'tou na mais gloriosa banguelice dos meus sete anos.
Que vergonha!
Lembro-me do meu encantamento com a diretora da 'cola.
Sempre foi 'pecialmente atenciosa, apesar de rígida na disciplina.
Mas o que me deixava encantada era o seu nome:
Vênus, como uma 'trela, um planeta e me admirava demais que alguém pudesse ter recebido o nome de um astro.
Para mim, gente assim só podia ser alguma coisa muito próxima dos anjos.
Eu, que sempre sofri todo tipo de gozação por causa do meu nome 'tranho, invejava a diretora por 'se belíssimo Vênus.
O meu nome, ao contrário, sempre serviu de mote para toda rima ou musiquinha inventadas por os meninos para me atazanar.
Sarava era o mais comum, seguido de Sara ...
má, ambos motivos de cachoeiras de lágrimas dentro da 'cola.
Fiquei ali até o final do curso primário.
Anos depois, voltei como professora, para aquelas antigas salas que viram passar minha infância tímida e feliz.
Número de frases: 51
Jardim de Infância, pequeno 'paço de fantasia e aprendizado, mundinho feliz todo à parte.
É o Jardim da 'cola onde sempre 'tudei a concentrar a maior parte de minhas lembranças 'colares felizes.
Três doces, belos anos em meio às tias, aos brinquedos do pátio e da salinha, ao coelho, às galinhas, à horta onde plantávamos e que nos permitia, cheios de orgulho, levar para o almoço de casa alfaces e rabanetes.
Jardim de Infância de uma 'cola privada de Porto Alegre, localizado num ponto alto da cidade à sombra de figueiras seculares.
Um Jardim que hoje, lembrando, me parece realmente bom, com professoras e funcionárias dedicadas e carinhosas, e com ambiente alegre e bonito que nos confortava da distância do lar.
Se não recordo com igual ternura os demais anos de 'cola (ainda que recorde com carinho), isso se deve à gradual perda de algo que 'tava presente no Jardim e que 'tivera presente em toda a 'cola até o final dos anos 80, graças à sabedoria de uma diretora 'pecial:
algo difícil de definir, mas que talvez possa ser resumido na capacidade de transmitir de modo eficaz valores de respeito (ao outro, ao que é de todos), amizade e solidariedade, além de aliar à abertura ao diálogo uma maior dose de disciplina.
Os crescentes níveis de agressividade entre alunos e desprezo por professores e por as coisas comuns da 'cola (realidade que penso presente também em outras 'colas privadas desse período) não são, contudo, de única responsabilidade da 'cola, e sim, certamente e em grande parte, de responsabilidade dos próprios alunos e de seus pais.
Feliz percebo, hoje, a retomada daquele 'pecial modo-de-ser da 'cola que tanto gostava.
Mas isso é outra história ...
Vamos à história que mais quero recordar.
Era uma vez um Jardim de Infância para o qual chegávamos com alegria, na expectativa de encontrar o pátio 'paçoso, com toda aquela areia, os bichinhos, a horta.
A sala com os brinquedos das meninas e os brinquedos dos meninos, rigorosamente separados.
Tintas coloridas, giz de cera, massinha de modelar.
Toalhas individuais com nosso nome bordado, almofadas idem para a aguardada hora da leitura:
todos deitados no chão, luz apagada, a imaginação voando solta.
Os momentos de música e dança com a tia Marion, entusiasta, ao piano.
A festa de Natal, com o tio Wilson, professor de ginástica e nosso herói, mal disfarçado de Papai Noel.
Vestir-me de prenda na Festa Junina e na Semana Farroupilha:
a flor vermelha no cabelo, xale nos ombros sobre o vestido, até batom nos lábios, ocasião única em que as mães nos maquiavam.
Uma delícia, lembrando.
Doces anos de Jardim, é verdade, mas que tanta doçura não engane.
Para uma menina tímida, sonhadora e um pouco medrosa como eu era, o Jardim podia revelar-se um território quase «hostil».
Então, era uma vez o mesmo Jardim de Infância, onde os boletins, com relatório e parecer das professoras sobre o desenvolvimento dos alunos, retratavam uma menina introspectiva que trocava o «r» por o «l», que tinha medo de saltar, que hesitava em brincar de roda com as colegas, preferindo restar sentada no banco a observar, em companhia das tias.
Um Jardim onde a colega que deixou 'capar um xixi nas calças era levada ao banheiro para se lavar, voltava para a sala enrolada numa coberta (sem as calças, que 'tavam secando) e era colocada numa cadeirinha separada dos demais, como se 'tivesse de castigo.
O medo que acontecesse com mim também!
Até hoje não entendo o porquê daquilo.
Será que não havia calças do uniforme de reserva para eventualidades do tipo?
Um Jardim onde, para a festa de Natal, a algumas poucas meninas seria designado o tão almejado papel de anjo, a alguns meninos o papel de rei mago, além dos 'pecialíssimos cargos de José e Maria, e onde todos os demais deviam contentar-se em ser ...
pinheiros (meu caso).
Como era feita 'sa 'colha não sei, mas posso dizer que não era mediante um procedimento democrático, não mesmo.
De o alto dos meus seis anos senti cheiro de «influências» no ar, talvez foi por ali que comecei a desenvolver meu apurado senso de justiça.
Todas as manhãs no Jardim iniciavam com ...
brinquedos! Uma maravilha, não fosse a verdadeira batalha feminina diariamente travada (não sei se o mesmo se passava com os meninos).
A porta da sala se abria e todas se lançavam num atropelo para ver quem conseguia ficar com as bonecas mais bonitas e desejadas.
Minha falta de agressividade e de 'pírito de competição não colaborava, contentava-me com as sobras.
Resignada, 'piava com devoção aquele grupo de colegas lindas e loiras, lideradas por uma menina que era uma pequena barbie em carne e osso, brincando triunfantes de casinha com suas perfeitas filhas de plástico ou tecido.
Até que um dia ...
Até que um dia me enchi daquilo e, caso inédito, corri mais do que todas e consegui apanhar nos braços a boneca mais disputada.
Não podia acreditar, era fantástico.
Girava com a boneca nos braços, a erguia para cima, admirando seus cabelos de lã azul e vestido de mesma cor, os bracinhos abertos para mim, como a dizer:
«Mamãe, finalmente 'tamos juntas!».
Não durou muito tempo, minha felicidade e meu triunfo.
A tal líder das meninas tratou de arrancá-la de meus braços em segundos, restituindo-a a quem deveria detê-la:
a si própria, pequena tirana que tanto poder exercia sobre nós.
Reagi como sempre reagia e como seguiria reagindo por tantos anos:
chorando. Não aos berros, minha timidez não permitiria, mas chorando baixinho, um choro doído, invisível.
Em aquela mesma noite, em casa, bolei um plano diabólico.
Depois do jantar, 'condida, armei-me de papel e canetinhas para 'quematizar minha idéia.
Em o pátio da 'cola havia uma ponte feita de cordas grossas que era a grande diversão do recreio.
As crianças em fila se equilibrando, agarradas nas cordas, a ponte que balançava, até que se chegava são e salvo do outro lado.
Meu plano:
cavar um buraco bem fundo logo ao final da ponte, disfarçado detrás de uma árvore 'trategicamente localizada, atrair a atenção de minha inimiga para aquele lado e vê-la, desesperada, despencar na enorme cratera, 'folar os joelhos, rasgar o uniforme.
Vingança! Posso me ver, aos cinco anos, fazendo 'te desenho no chão da sala, com direito a cores e flechas explicativas.
Pela primeira vez me sentia forte, satisfeita com mim mesma por a minha audácia e coragem.
Saboreava por antecipação o gosto da vingança, que me parecia doce, muito doce.
Mais tarde descobriria como 'tava errada.
Mas não no dia seguinte.
Pois era uma nova manhã, as coisas de volta à normalidade, as meninas de sempre com as bonecas de sempre.
A hora do lanche, a hora da 'tória.
Um pouco de magia restituída.
E sabiamente decidi arquivar o meu plano.
Jardim de Infância ...
admito. Uma saudade gostosa eu sinto.
Desejos de pintá-lo todo cor-de-rosa, passar a borracha em qualquer outra cor.
Não importam as bobas lembranças lacrimosas que incrivelmente sobrevivem ao tempo, vindo assaltar a menina já crescida de hoje.
Memórias de uma garotinha romântica e silenciosa que às vezes, apenas às vezes, voltava para casa tristonha.
Mas sempre apaixonada por o seu Jardim.
* Dados:
Nome da 'cola:
Colégio Farroupilha
Perfil: privada, laica, fundada em 1886 por famílias de origem alemã
Cidade: Porto Alegre / RS
Período em que 'tive no Jardim de Infância:
1983-1985 * Um pouco da história do colégio (fonte " Wikipédia Pt.):
«Foi fundado em 1886 por a Deutscher Hilfsverein (Associação Beneficente Alemã), uma associação criada para auxiliar os imigrantes alemães e seus descendentes.
A 'cola recebeu o nome de Knabenschule des Deutschen Hilfsvereins (Escola de Meninos da Associação Beneficente Alemã) e, inicialmente, ocupava algumas salas alugadas da comunidade evangélica, no centro de Porto Alegre.
Em 1895, foi inaugurado o prédio próprio, na rua São Rafael, atual avenida Alberto Bins.
A Escola de Meninas começou a funcionar oficialmente em 1904.
Em 1911, começou a funcionar o jardim de infância, o primeiro do Rio Grande do Sul e terceiro do Brasil.
Durante a década de 20, começou a adotar o ecumenismo nas aulas de religião, sendo a primeira 'cola da capital a tomar 'sa atitude.
Em 1929 foram unidas, definitivamente, a Escola de Meninos com a Escola de Meninas.
Com o crescimento, em 1962, a 'cola foi transferida para um novo prédio, construído num terreno que havia sido adquirido em 1928, denominado Chácara das Três Figueiras, e que acabou por dar o nome ao bairro que ali se formou».
Número de frases: 83
Se fosse iniciar 'se relato sobre o término da Jornada Nacional de Literatura como a maioria dos jornais, diria que o circo da cultura 'vaziou, a enorme lona colorida foi desarmada e a 12ª edição da festa das letras encerrou -- como o fim de uma feira de livros, em que as 'tantes são desmontadas e as obras recolhidas.
Mas, de fato, as jornadas de Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, não se restringem a apenas um evento de comercialização de livros, com a presença de seus autores.
Críticas à parte -- eu mesmo as farei mais adiante, a programação de cinco dias de atividades é apenas a concretização de uma movimentação cultural interminável.
A lona realmente foi desarmada, mas os assuntos ali abordados seguem outro rumo.
Agora, 'sas discussões têm a missão de incentivar a formação de novos leitores, o principal objetivo da Jornada.
Os professores, maioria a ocupar o circo, difundem as idéias dentro da sala de aula, a fim de provocar o aluno à leitura.
Frente a frente com o autor, o participante da Jornadinha -- crianças e a adolescentes -- foi desafiado a folhear as demais obras dos 'critores presentes, além daquelas lidas durante o período de preparação para o encontro, chamado de pré-jornada.
Para simplificar a idéia -- sempre defendida a unhas e dentes por a idealizadora e coordenadora da manifestação cultural, Tânia Rösing --, o encontro, considerado o ápice da movimentação e realizado a cada dois anos, é o momento de contato direto dos leitores com os autores dos livros lidos.
Em 'ta 12ª edição, a Jornada recebeu mais de 100 'critores, oriundos de nove países, e mais de 200 artistas.
Após cinco dias de correria e a duas horas do encerramento oficial da festa, minha última missão -- praticamente impossível -- era uma conversa com a professora Tânia.
Quase desistia de tentar uma palavrinha antes do início da solenidade quando a enxerguei de longe, vestida com o moletom azul usado por toda comissão organizadora.
Acelero o passo e chego até a coordenadora da Jornada.
-- Professora Tânia, já podemos fazer uma 'pécie de balanço final?,
pergunto.
-- Claro, vamos até a sala de vocês (imprensa), responde.
Calma e aparentemente feliz, Tânia Rösing sentou-se no local ocupado por os 'critores durante as entrevistas coletivas.
Antes de qualquer pergunta, ela dispara:
«quero dizer que tudo valeu a pena!
Nós levamos muito tempo preparando 'sa jornada, até porque continuamos com as atividades realizadas em 'colas enquanto organizávamos o evento em si».
Se a Jornada como evento se encerrava em menos de duas horas daquela conversa, a professora já guardava no bolso uma lista com nomes de autores que manifestaram interesse em retornar para a 13ª edição.
Sinceramente, entrevistei Tânia umas seis vezes em dois anos.
Em 'sas conversas, ela nunca deixou -- e nem cansou -- de comparar a Jornada com outros eventos de literatura realizados no país.
«As pessoas precisam entender por que somos diferentes de uma bienal do livro, de um salão do livro.
Essas feiras recebem milhares de crianças, mas elas entram numa ponta e saem na outra, sem saber a que vieram e sem conhecer um autor.
Aqui há uma preparação dos leitores», orgulha-se.
Entre um gole de água e outro, aquela descrita como fenômeno da natureza cinco dias antes respondia pergunta a pergunta, sempre com argumentos fortes.
Para tentar desviar a conversa de assuntos facilmente respondidos, questiono se a Jornada atingiu seu limite ou ainda pode expandir.
Ainda mantendo a calma, Tânia pára e pensa.
Após uma pausa de 10 segundos, ela me olha e comenta:
«a jornada pode crescer sim, eu não digo em número de pessoas, mas em atividades paralelas».
Sempre 'perta ao conversar com jornalistas, ela garante que a maior preocupação da comissão organizadora é manter a qualidade.
LIC x Jornada
Criticada por a maioria dos 'critores, a decisão do Conselho Estadual de Cultura de vetar a liberação de cerca R$ 1,1 milhão à Jornada, através da Lei de Incentivo à Cultura, parece não ter prejudicado o andamento da programação.
Sinceramente, acreditava que o parecer comprometeria o evento.
Com exceção dos atrasos nos aeroportos ou problemas de saúde de autores, nenhuma atividade foi cancelada.
Em a minha última pergunta à professora Tânia, questiono a posição contrária do Conselho pela primeira vez em 26 anos de Jornada.
«A partir de agora, 'sa reprovação é uma questão jurídica.
Nossa assessoria trabalhará para ver como resolverá isso.
Eu não tenho mais nada a falar sobre 'se assunto», responde bem menos calma.
Tânia evitava se pronunciar sobre o assunto, mas os autores faziam questão de alfinetar o Conselho.
O parecer contrário ao patrocínio foi criticado incessantemente durante os cinco dias -- só eu ouvi mais de 20 manifestações contrárias.
Apesar de não exercer influência sobre os membros responsáveis por a decisão, a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, cancelou sua passagem por a Jornada.
Em os corredores da movimentação cultural, informações garantiam que um dos motivos da ausência da governadora era a insatisfação com a decisão do Conselho de Cultura.
Em a minha opinião, 'se não foi o único fator.
Como a educação pública do Estado enfrenta uma de suas maiores crises e Yeda protagonizou ações que descontentaram alunos e professores, ela possivelmente se livrou da vaia mais constrangedora desde a sua posse.
Em a cerimônia de encerramento da Jornada, quando a organização tentava evitar qualquer ressurreição da polêmica da Lei de Incentivo à Cultura, os 'critores Ignácio de Loyola Brandão, Júlio Diniz e Alcione Araújo tornaram público um documento elaborado em conjunto com os imortais da Academia Brasileira de Letras em prol da movimentação cultural.
Com mais de cinco mil assinaturas, a manifestação deve ser encaminhada aos membros do Conselho Estadual de Cultura -- pelo menos 'sa foi a promessa dos «três tenores» da Jornada.
«Através desse documento, queremos mostrar a 'sas pessoas o quanto 'tão erradas e precisam abrir mais os olhos», comenta Júlio Diniz.
(Só para lembrar: na justificativa do parecer contrário à liberação dos recursos para a Jornada, o relator do processo, conselheiro Luiz Paulo Faccioli, apontou diversos questionamentos sobre o evento.
Entre eles, o fato de que as inscrições são cobradas.
Como parte do dinheiro que custeia a realização da Jornada vem dos cofres públicos, Faccioli entende que deveriam ser gratuitas.
O relator chegou a ser afastado do cargo a pedido da governadora, mas garantiu o retorno com um mandado de segurança na Justiça.
Por e-mail, tentei entar em contato com Faccioli para detalhar os argumentos que levaram o Conselho a vetar o fincanciamento da Jornada e também ouvi-lo sobre os manifestos contrários liderados por os 'critores presentes na manifestação cultural.
Através de mensagem eletrônica, fui informado de que ele 'tá em viagem no exterior e que só responderá minha mensagem após o retorno.
Em meio a toda polêmica, Faccioli evitou se manifestar sobre o assunto).
Com o término da Jornada e sem a aprovação da LIC, uma pergunta permanece sem resposta:
quem quitará 'sa dívida superior a R$ 1 milhão?
O valor corresponde a um terço do orçamento total do evento.
A dúvida, não respondida por a professora Tânia durante nossa entrevista final, ganhava versões nos bastidores do circo da cultura no último dia.
Atento, ouvia as conversas -- oriundas de pessoas sem ligação com a organização.
Em a 'peculação mais provável, 'pécies de testemunhas dão conta de um acordo firmado boca a boca entre a coordenadora da manifestação cultural e a prefeitura.
Metade da terra para tapar o buraco viria do poder municipal e o restante da Universidade de Passo Fundo, promotora do evento.
Até agora, nada confirmado.
O Boeing, como a Jornada foi descrita por Ignácio de Loyola Brandão, ainda balança.
E a turbulência insiste em continuar, agora no setor financeiro da Jornada.
De a polêmica polonesa ao historiador italiano
Se fosse dividir a visita dos mais de 100 'critores à Jornada Nacional de Literatura, pelo menos três episódios seriam obrigatórios:
a presença do premiado Mia Couto, a polêmica provocada por o polonês Miroslaw e a passagem do italiano Ginzburg.
Com o romance «O outro pé da sereia», o moçambicano Couto venceu o prêmio Zaffari Bourbon e retornou ao seu país com R$ 100 mil na bagagem.
De poucas palavras e tom de voz baixo, ele ainda ficou sabendo na Jornada que é um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura.
Boa Sorte!
Enquanto Couto recebe prêmios, o desconhecido autor polonês Miroslaw Bujko protagoniza polêmicas -- a maior da Jornada desse ano é de ele.
O 'critor participava de um painel de discussão quando recebeu um bilhete da platéia.
A nota, encaminhada justamente por um grupo de cinco 'tudantes polonesas, pedia para que ele se calasse e parasse de envergonhar o seu país.
Sem dúvida nenhuma, a maior 'trela da Jornada foi o historiador italiano Carlo Ginzburg -- a opinião não é apenas minha, e sim da imprensa em geral.
Animado, ele topou conversar com mim -- ou pelo menos tentar.
Durante 15 minutos, tentamos nos entender em idiomas distintos, até eu descobrir que ele fala inglês.
Um pouco tarde demais, restavam mais 10 minutos de entrevista.
Em o curto tempo, o italiano e eu dissertamos sobre o conflito entre história x ficção.
Aliás, a dualidade é o tempero favorito nas obras do 'critor, como no caso de «Queijos e vermes».
O próprio italiano se caracteriza como um autor que 'creve em tópicos literários.
«Eu 'crevo histórias com uma consciência literária.
Isso tem um pouco de influência da minha família.
Minha mãe era novelista».
Pergunto ao europeu a partir de quando a ficção passa a ser prejudicial à história.
Visivelmente acostumado a responder 'se questionamento, o italiano revela que a ficção pode ser prejudicial ou útil à história.
«Para ser crível, a ficção precisa fazer referência a um evento histórico.
Mesmo no romance, onde muito é ficção, há algo que aponta para um contexto histórico.
Portanto, pode ser usado por historiadores como fonte histórica», explica e confunde ao mesmo tempo.
-- Como assim?
Então você fala em usar a literatura como resgate histórico?,
pergunto.
-- Exato, como uma fonte histórica.
Mas claro que o contexto precisa ser muito bem analisado e aquele não pode ser o único instrumento a ser analisado para 'se resgate, rebate.
-- Isso é um assunto que poderia render horas e mais horas!,
completa.
Manifesto solitário
Praticamente 'condido na enorme dimensão da manifestação cultural, o 'critor e funcionário público Júlio Pérez ensaiava um protesto silencioso na penúltima noite da Jornada.
Apontado como corajoso por alguns participantes, bateu de frente com a comissão organizadora.
O motivo:
a ausência de autores locais.
O valente 'critor montou uma mesa justamente na entrada do portal das linguagens, onde 'tão gravuras de 'critores presentes em outras edições da Jornada.
Sobre a mesa, colocou cerca de 10 exemplares de sua obra, intitulada «Expresso instante», e arriscou uma última ousadia antes de sentar:
fixou sobre a 'trutura das gravuras um cartaz com as seguintes palavras:
autor local.
Não precisava de mais nada.
A presença de Pérez já incomodava a organização.
Enquanto entrava no pavilhão onde 'tava montada a sala de imprensa, percebo o protesto solitário do passo-fundense e me aproximo.
Quando me apresento ao senhor como repórter, ele abre um sorriso e inicia uma seqüência interminável -- eu sequer consegui ficar até o final de seu discurso -- de críticas à Jornada.
Durante a conversa, Pérez foi convidado a se retirar mais de uma vez daquele local por a organização, mas permaneceu fiel ao seu manifesto.
«Há uma falta de consideração com os autores locais e regionais.
Batalhamos por a literatura, porém, num evento de 'sa grandeza, não somos chamados e nem é reservado um 'paço para o autor local», comenta.
Apesar das críticas, o poeta, que finalizou recentemente um romance, reconhece o mérito do evento em formar leitores.
«A Jornada pode ter formado leitores, mas nunca gerou um 'critor.
Isso porque jamais incentiva o autor local».
O passo-fundense insatisfeito vai além dos comentários sobre a ausência de 'critores regionais.
Durante nossa conversa -- em 'se momento, vários outros jornalistas também pararam para ouvir a manifestação, Pérez reforçou uma antiga crítica à manifestação cultural.
Para ele, a Jornada transformou-se num evento de professores e alunos.
«Está ficando um negócio masturbatório, sabe.
Vamos trazer outras pessoas, além daquele grupo fechado».
Em 'sas alturas da entrevista, mais de 10 pessoas rodeavam aquela pequena mesa, montada em local 'tratégico.
E o poeta continuava firme em sua cadeira discursando:
«E 'se prêmio de literatura?
Em a última edição, deram R$ 100 mil ao Chico Buarque.
O que ele tem a ver com Passo Fundo?
O cara pega o prêmio, vai embora, não deixa nada para a cidade, enquanto aqui tem muitos que 'tão batalhando por a cultura local».
Se o objetivo de Júlio Pérez era chamar a atenção, conseguiu.
Mas, com exceção do Overmundo e de um blog local, mantido por um jornalista, nenhum outro veículo de comunicação levou a sério os argumentos do autor.
«Se colocarmos isso, vamos nos incomodar.
É melhor deixar em branco», me disse um repórter de um jornal.
Em contato com a organização, fui informado de que a Jornada reserva 'paços tanto para sessões de autógrafos como para lançamentos de obras de autores locais.
Segundo a coordenação da Jornada, inúmeros 'critores regionais participavam das atividades da programação.
Despedida
Entre críticas, protestos contra o Conselho Estadual de Cultura e a certeza de que a cada edição a Jornada expande-se e cumpre seu papel de incentivar na formação de novos leitores, a guerreira e polêmica Tânia Rösing despediu-se dos 'critores e participantes.
Com a voz embaraçada e quase chorando, deu o seu tradicional adeus:
«Até 2009!
Mas não 'queçam que jornada não acaba.
Em seguida, começaremos a preparação para a próxima, e as atividades de leitura continuam».
Junto no palco com Tânia, a 'critora, poeta e atriz Elisa Lucinda apresentou um texto seu elaborado em Passo Fundo, em homenagem à Jornada Nacional de Literatura.
O material -- ainda à mão quando Lucinda leu ao público -- foi 'crito no hotel onde a atriz 'tava hospedada.
Aliás, Elisa Lucinda ganhou o carisma dos passo-fundense e, no encerramento, beijou o palco onde se centralizam os debates, sob a lona de circo.
Abaixo, o texto da 'critora.
Revolução a passos fundos
Acabo de chegar de uma lona de circo, cinco mil pessoas ouvindo a palavra, gritos, torpor.
Estamos no Rio Grande do Sul e o frio aqui é papo de gente grande, no entanto uma magia poderosa e revolucionária aquece e enriquece o interior desse Estado de modo a dar inveja a muitas grandes capitais por aí.
É a festa da literatura, aqui.
A palavra não fica presa às 'tantes eternamente ou enredada em ambientes pretensiosos e excludentes.
Não. A arte mágica de criar realidades, a poderosa força da 'crita de várias culturas nacionais e internacionais fica sendo moradora de Passo Fundo.
A 'crita do mundo habita os bares, os comércios, você vai numa farmácia e lê um verso de Marina Colasanti, um trecho do Mia Couto, uma beleza de Antônio Skármeta.
Há poesia dentro dos coletivos, nas paredes das paradas, um ônibus-biblioteca 'pecial chamado Fabuloso, que vai a todos os lugarejos desembarcando em praças com uma vida nova dentro de milhões de páginas.
Sem contar que seis meses antes da grande festa, toda a população daqui, de entorno, lê as obras dos visitantes-'critores que vão chegar.
Ônibus vêm das cidades vizinhas onde muitas vezes não há cinema, nem teatro, entupidos de crianças cada uma de uma 'cola como times, professores do ensino fundamental e universitários, 'tudantes de letras, tudo pulsa em torno da palavra, tá tudo dominado!
De modo a não ser segredo pra ninguém que a revolução que aguarda o Brasil é educacional.
Aquele 'petáculo, fervente das cinco mil pessoas aplaudindo o pensamento de todos nós da mesa, dando gritinhos e assobios de contentamento aos pés da poesia, me remeteu à jornada íntima de minha vida que me fez e me faz voar até aqui nas asas da poesia.
Lembro de eu gostar de palavra.
Desde pequena era como um brinquedo pra mim.
A partir daí uma seta cruza o tempo e o motor é de ela, e o avião é ela, e a vela é ela, o barco, o trem.
Vinte e um anos de Rio de Janeiro e no desenho vejo seu amadrinhamento de mim, o modo requintado e muito simples com que pousou como um pássaro na janela do meu olhar e me expôs às mais duras provas sob a sua guarda.
Salas de aula, bares, teatros, recitais, livros feitos em casa e, à mão, primeiro em pequena 'cala, mas sempre de ela é que veio meu pão.
A poesia é um ato de compaixão, uma declaração de amor de um homem pra outro.
A humanidade respira no verso do outro, no verso do irmão.
Tiro por mim:
como divindades feitas de puro verbo, quantos Quintanas já salvaram meu peito?
Quantas vezes já rezei Adélia, Bandeira, Drummond?
Quantas vezes não morri porque agarrei na mão de Manoel de Barros?
Dormi no colo de Cecília, não me perdi por pertencer ao rebanho de Caeiro e aprendi com a angústia como uma Clarisse.
É bom ter poema pra cada ocasião, é mágico como um oráculo, a mesma poesia num outro dia ganha outro sentido, por isso nunca se acaba de ler um livro de poema, é leitura infinita.
São milhões de identidades e emoções cujos personagens somos nós autores poetas e toda a humanidade que representamos e a qual damos voz.
Quando dei por mim, de tanto 'colher a poesia, percebi que ela tinha me 'colhido também;
é professora de minha atriz, responsável por mim nas telenovelas, cinema, teatro, empresas, 'colas, palestras e festas.
É meu pistolão, faz lobby pra mim e eu sou empresária de ela.
A Escola Lucinda de Poesia Viva já 'tá no Espírito Santo a ensinar aos professores a fazer da poesia aula, show.
Uma menina me pergunta, naquele circo vivo de arte, se eu vou me inspirar e registrar de algum modo a Jornada.
Me vejo em ela.
Vou, eu disse, sem saber que aquela Jornada revolucionária é o motivo da minha revolução.
Com 'se texto da Elisa Lucinda, mesclando a magia da Jornada com a poesia, finalizo 'se terceiro e último relato sobre a 12ª Jornada Nacional de Literatura.
Espero que tenham apreciado um pouco do «lado B» de 'sa movimentação cultural.
Eu continuo como colaborador do portal, publicando detalhes da Capital Nacional da Literatura.
A próxima história é sobre um ilustre desconhecido passo-fundense:
Tarso de Castro, o fundador de O Pasquim.
Até mais
Livros mais vendidos na Jornada
Em 'ta edição, só a livraria da Universidade de Passo Fundo comercializou mais de 12 mil exemplares de livros -- número 20 % superior ao registrado em 2005.
Autor de «Menino maluquinho», Ziraldo liderou as vendas, com a obra» Menina das 'trelas», que vinha acompanhada com um kit.
Abaixo, as publicações mais vendidas.
1º lugar -- «Menina das 'trelas», de Ziraldo (360 exemplares);
2º lugar -- «O outro pé da sereia», de Bia Couto -- obra vencedora do Prêmio Zaffari e Bourbon de Literatura -- (178 exemplares);
3º lugar -- «Aventuras e desventuras do gato Gali-" leu», de Paulo Becker -- obra do gato personagem da Jornadinha -- (133 exemplares);
4º lugar -- «A fúria da beleza», de Elisa Lucinda (120 exemplares);
(Fonte: Livraria da Universidade de Passo Fundo)
Outras matérias sobre a Jornada Nacional de Literatura --
Primeiras impressões --
Número de frases: 192
Jornada de críticas, histórias e, ufa, literatura «Eu gosto do seu trabalho».
Foi a primeira coisa que eu disse à artista plástica Rosana Paste quando nos conhecemos numa de suas exposições.
Mas só muito tempo depois eu fui entender o tamanho do sorriso de ela diante do meu comentário.
É que pra que 'sa 'cultora, a arte é extensão da vida;
E trabalho, extensão do prazer.
Natural de Venda Nova do Imigrante, Rosana é do tipo que invade nossa varanda e olhar, testemunhando e transformando os fatos.
Sua presença é sinestésica.
E é impossível dissociar criador de criação, porque sua obra também é assim, adquire sentido na interação.
Suas peças incitam o 'pectador a tatear, e se transformam em extensão do gesto.
Seu movimento existe a partir do movimento de quem observa.
Tronco, olhos, pernas se movem, e começa a viagem que nos leva a um ordem sensorial mais profunda.
Mas sem alarde, a percepção simplesmente se dispersa e o corpo interage sem pensar.
Em a exposição Escultura de 1998, 'tacas de ferro torneado, solitárias, ocupavam o 'paço do teto ao piso.
Círculos de ferro fundido com rodinhas brotavam do chão.
E o portal de alumínio torneado na parede do fundo da galeria se transformava num convite minimalista para a dimensão imaginada por cada um.
Suas peças são concretas, bem desenhadas, com formas limpas e evidentes, e cujo sentido se constitui a partir do 'paço que ocupam.
Talvez como herança da performance, linguagem explorada por Paste no início da carreira.
A lança de ferro obriga o 'pectador a devorar o teto com pálpebras e mirar o chão, que o regala com os dentes expostos.
Rosana já usou inox, chumbo, ferro torneado, pele de coelho e vidro soprado pra construir obras duras e inflexíveis que, paradoxalmente, ganham mobilidade e sentidos múltiplos a partir da interação.
A mobilidade das ações de quem olha destoa da rigidez das formas, não deixando o olhar deter o instante que passa.
As 'talactites de aço, sólidas, industriais, se lançam de todos os lados.
Surgem das paredes, do teto, do chão.
Se olham, mas não se encontram.
Convergem, mas não 'tabelecem contato, a não ser por a fragilidade do vidro, em 'feras que mais parecem bolhas de sabão prontas pra 'tourar nas pontas de algumas lanças.
Os corpos metálicos e pontiagudos apontam para uma direção que nem sempre o 'pectador segue.
A equilibrista Rosana não 'creve nada nas entrelinhas, deixa tudo exposto nas linhas pra quem quiser ler.
E uma boa leitura requer imaginação, e produz lugares possíveis que originam novas imagens e pensamentos no leitor.
Tiago Mesquita 'creveu no texto de apresentação do catálogo da artista:
«A 'cultora procura atos dispersos por um fluxo de sensações simultâneas, onde uma coisa não continua na outra».
E é isso ai.
Não por acaso o texto se chamava Presente Perfurado.
Rosana trabalha com a efemeridade.
Não nega o passado, nem teme o futuro, mas vive no presente com a liberdade de poder mudar de idéia.
A exposição retrospectiva da carreira, no ano de 2005, assumiu a feição da artista, que tem um 'tilo de vida marcado por a naturalidade e por a despreocupação responsável.
A mostra era um álbum pessoal, coroado com uma das obras tatuada nas costas de Paste em grandes dimensões, e com tatuagens em miniatura do mesmo desenho distribuídas aos convidados.
Objetos das diversas fases dos 15 anos de criação expunham e celebravam a aliança entre uma arte e um modo de ver o mundo.
É arte visual sim, e é trabalho, como ela gosta de dizer.
Trabalho que mescla aridez e fecundidade, exagero e ponderação.
Resultado de 'forço, suor, solidão, amor.
Tá tudo lá nos objetos que se misturam ao público, construindo a sintaxe da forma.
E desde 2002, ela desenvolve um projeto para uma individual.
Mais uma vez, toda pensada em 'cala.
Em altura, largura, profundidade, inox e mármore.
E o 'paço se torna elemento ainda mais forte em 'sa nova fase.
«Não vejo mais uma galeria comportando meu trabalho.
Por a natureza de ele, por o tamanho mesmo.
Queria expor nuns cinco jardins, sei lá."
Rosana tem 6 individuais e diversas coletivas em Vitória e outras capitais do país.
Faz direção de arte para cinema, e é professora das disciplinas Vídeo e Escultura na Universidade Federal do Espírito Santo.
Atualmente é também Secretária de Cultura da UFES.
Tem 38 anos, é leonina e gosta de preto e branco.
Contato:
Número de frases: 52
rosanapaste@bol.com.br Afaste os móveis da sala, tire os controles remotos do caminho e deixa-a ali.
Assim como os grandes e velhos elefantes, sua TV vai 'maecer sozinha, isolada num canto da casa, junto aos restos do videocassete e da vitrola.
Logo ela, que sempre veio cheia de garantias até a próxima Copa do Mundo, vibrou com atrações dominicais, e que chorou tantas lágrimas em horário nobre.
Mas a vida é assim mesmo, continua sempre ...
nas cenas do próximo capítulo.
E o próximo capítulo tem dia e hora marcados.
A partir das 20h do dia 2 de dezembro, o Brasil entra na era da TV Digital, ou melhor, começa a olhar por o buraco da fechadura de uma nova era da televisão.
A primeira transmissão será realizada apenas para a grande São Paulo através de um pool de emissoras de TV aberta.
O que muda no meu futebol de domingo?
Por enquanto, muito pouco.
Inicialmente, as mudanças apenas consistem numa sensível melhora na qualidade de som e imagem, qualidade Digital.
Os engenheiros envolvidos devem pensar:
como assim apenas?
Não imagina todo o aparato que há por trás disso.
Calma!
É também o fim da famigerada antena coletiva do condomínio, e do pai de família berrando de cima do telhado «Vê agora! Melhorou?».
A TV Digital poderá ser sintonizada com uma simples antena UHF, como aquelas de antigamente, em que se colocava Bombril para tentar melhorar a recepção do sinal.
Basta um set-top box ou conversor (que chega por salgados R$ 800 em média), e a anteninha vai poder captar o melhor que uma HDTV pode oferecer, sem fantasmas, sem chuvisco, e em 'ses novos tempos, sem Assolan.
Toda 'sa revolução chega um pouco tarde ao Brasil, uma década depois da internet.
A radiodifusão analógica, exibida em aparelhos de tubo de raios catódicos, é uma senhora de quase 60 anos.
A não ser por o surgimento da transmissão em cores e do controle remoto, a TV mudou muito pouco desde que surgiu.
Uma tecnologia que congelou no tempo, e ainda assim mantém fiéis que, no Brasil, passam em média quase cinco horas por dia sintonizados.
Foi necessário que um parente mais jovem e mais antenado com as novas tecnologias surgisse para acabar com 'se marasmo.
É assim, da junção dos novos hábitos criados por a rede mundial de computadores com os velhos hábitos de assistir à televisão, que surge a TV Digital.
Um casamento meio incestuoso, daqueles que põem todo mundo a comentar:
a dama de meia-idade encontra o jovem descolado.
O casamento é tão polêmico que, antes mesmo de se consumar, já deu a primeira ninhada, de trigêmeos.
IPTV, Web TV e TV móvel (via celular ou outros aparelhos portáteis) vêm mesmo pra confundir tudo, multiplicando os meios de acesso e os formatos de programas da TV tradicional, e elevando a experiência audiovisual a níveis ainda intangíveis.
Cada um desses rebentos nasce com características muito próprias.
A experiência de assistir a um audiovisual na tela do I-pod no ônibus para o trabalho (TV Móvel) certamente será bem diferente de assistir a um programa sentado no computador (IPTV ou Web-TV), ou mesmo no sofá da sala (IPTV, TV Digital).
É muita novidade para 'se pequeno texto.
De todas as formas, a grande revolução da TV Digital reside nos genes dominantes paternos:
o DNA da internet traz um genótipo bem evoluído, que se manifesta em características bem 'pecíficas como interatividade, multiprogramação, conteúdo sob demanda, acesso direto e distribuição sem intermediários, todas a serviço do velho hábito de parar os olhos numa tela com imagens em movimento.
Então o que vai ter em 'sa TV aí?
Poucos sabem de verdade, mas muitos já arriscam de fato.
Radiodifusores, telefônicas, conglomerados de comunicação, distribuidores e produtores de conteúdo, pontocoms, desenvolvedores e, por que não, usuários e telespectadores, todos são candidatos a tutores dos trigêmeos superdotados da televisão.
Como disse o Ronaldo Lemos em texto para o Overmundo, quem descobrir a linguagem das novas mídias ganha um doce e, de quebra, um promissor mercado a ser explorado na interseção da televisão com a internet.
Os novos recursos disponíveis são tantos que poucos conseguem efetivamente vislumbrar como colocá-los em prática.
A TV Digital, por exemplo, vai permitir que o 'pectador tenha em mãos um canal imediato de resposta via telefone ou banda larga, basta apertar o controle remoto para interagir com o seu programa favorito.
Mais do que um simples telespectador, a TV vai passar a conversar com um retroalimentador, sem o expediente de institutos de pesquisa de opinião.
Gostou do carro do galã da novela?
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Outra grande mudança diz respeito à multiprogramação e conteúdo sob demanda.
As tecnologias digitais permitem que, no mesmo 'paço de transmissão de um canal analógico comum de hoje, sejam transmitidos até quatro canais com qualidade de som e imagem superiores à TV atual (qualidade Standard Definition ou SD, as outras modalidades de transmissão, HD e HD Full, lançam a experiência televisiva a um nível ainda maior).
Ainda sobra 'paço para outros canais de comunicação, por exemplo, para o envio de conteúdos 'critos, imagens, músicas e coisas que a gente ainda nem consegue imaginar.
Como disse um amigo, com a TV Digital você pede uma pizza por o controle remoto e a redonda surge quentinha de dentro da televisão.
É quase isso!
Com a diferença que você não poderá comê-la.
Ahn, e o que mais?
Tem mais.
Além de oferecer quatro programas simultâneos, seu canal preferido vai permitir que você não 'teja interessado em nenhum de eles, e sim num documentário sobre as chinchilas peruanas exibido numa madrugada perdida de três semanas atrás.
Isso é conteúdo sob demanda.
Você nunca mais vai perder o Boa Noite!
do casal de apresentadores do telejornal porque chegou em casa um pouco mais tarde.
É o fim da grade de programação 'tática, imutável e imposta por as emissoras.
E talvez o fim da publicidade como a conhecemos hoje, em formatos limitados por o tempo e 'paço na programação.
Mas não o fim dos publicitários.
Os criativos são os que 'tão mais próximos de faturar o almejado quindim das novas mídias.
Publicitário, roteirista, redator, cineasta, videomaker, diretor, 'tilista, designer, editor, programador, inventor, desenvolvedor, usuário, artista e telespectador, bota aí qualquer coisa que termina em «ário»,» ista " e or:
Mentes criativas de todo o mundo, uni-vos!,
o artífice das novas mídias também converge para um só palavrão:
conteudista.
E o que eu tenho com isso?
Sai na frente quem 'tiver pensando daqui para o futuro.
A publicidade e o marketing, principalmente aqueles voltados para ações diferenciadas na internet (não 'tamos falando de banner e pop up, que imitam os formatos da velha publicidade), terão papel preponderante na busca de uma nova linguagem para 'sa nova televisão.
O fim da grade de programação pode representar também o fim do intervalo comercial, e se não há um 'paço 'pecífico para publicidade, tudo vira publicidade.
Merchandising vira programa de TV e programa de TV vira merchan!
São inúmeros os exemplos de programas televisivos em que isso já acontece, só que, daqui para o futuro, há 'paço e tecnologia disponíveis para reinventar todos 'ses formatos, e eles precisam ser reinventados pra ontem.
A disputa por o bolo publicitário, e logo por audiência, vai continuar sendo a grande briga dos veículos de comunicação.
O anunciante é a massa desse bolo, o telespectador o recheio e a cereja é de quem tiver as melhores idéias primeiro.
As emissoras de televisão aberta, o menino gordo que ataca a mesa de doces antes do parabéns, agora vão ter que aprender a dividir melhor as guloseimas.
Mais do que nunca, é o telespectador, ou seja lá o nome desse novo tevente, quem vai ter o poder nas mãos, algo muito além dos superpoderes do controle remoto.
É o velho poder de 'pectador-consumidor aliado ao poder de produtor, programador e distribuidor de conteúdos.
E você, vai ficar só olhando?
Ps.:
O dia seguinte à 'tréia da TV Digital no Brasil é o Dia Nacional de Combate à Pirataria, 03 de dezembro.
Sobre o assunto pirataria na TV Digital, merece uma leitura bem atenta o texto de Diogo Moyses e Oona Castro, postado também aqui no Overmundo.
Fala sobre as travas anti-cópia que querem colocar na TV digital brasileira.
Número de frases: 78
Achei 'sa fotografia da minha turma uniformizada ao lado do Padre Gerardo numa velha caixa de sapatos, sob uma pilha de outras também já gastas por o tempo.
Liguei para o Joca na expectativa de ainda poder publicá-la em minhas Dores e alegrias de uma 'cola à beira-mar, mas era tarde -- o artigo havia saído da fila de edição e entrara em votação.
Lamentei, mas ele me sugeriu 'crever um texto, inspirado na fotografia, sobre minha experiência religiosa no colégio interno, na Ilha da Marambaia.
Foi o que fiz.
O filósofo romeno Mircea Eliade, no clássico O mito do eterno retorno, disse que «quanto mais religioso é o homem, mais real ele é».
Não sei porque, a frase me soa hoje adequada às lembranças que guardo do Padre Gerardo, a maioria de elas menos afeita às coisas do 'pírito que à sua condição humana.
Além do gosto excessivo por vinho, Padre Gerardo era também excelente artista.
Pintor de mão cheia -- lembrava Rubens nas cores e tons -- e 'cultor, sua obra retratava quase sempre a natureza da ilha e temas religiosos.
Morando sozinho numa casa simples, ampla e confortável, o padre recorria ao trabalho voluntário de duas moradoras da ilha (mãe e filha) para ajudá-lo a organizar a vida doméstica, o que acabou alimentando boatos entre os alunos.
Uns diziam que ele mantinha relações sexuais com mãe e filha.
Outros, que era homossexual e alguns até insinuavam que ele seria um refugiado nazista.
De certo mesmo, eu e meu irmão sabíamos apenas que era um ser humano -- demasiadamente humano, diria Nietzsche --, bom amigo e nosso salvo-conduto não só para o céu, que à época acreditávamos merecer, como para as belas ilhas da região, onde o ajudávamos a celebrar missas.
A possibilidade de ser coroinha surgiu por acaso.
A Igreja de Nossa Senhora das Dores, centro da vida religiosa na ilha, comunicava-se com o pátio interno da 'cola por uma porta que ficava sempre aberta, como se nos convidando a entrar.
Evidentemente, poucos atendiam ao convite, a maioria preferia freqüentar a sala de jogos, a quadra de 'portes ou apenas adormecer sob a fronde dos eucaliptos centenários que nos ofereciam sombra, perfume e um generoso colo de raízes onde curtíamos a sesta.
Até que em setembro, mês da padroeira, descobrimos que todos os dias, após o jantar, teríamos que render graças compulsórias à Mater Dolorosa.
Foi aí que -- por destino ou graça da santa -- resolvi ser coroinha, menos por vocação do que por a possibilidade de gozar o privilégio que a função concedia de viajar aos domingos para celebrar missa na região.
Uma rara oportunidade de sair da ilha mesmo por algumas horas.
É claro que o exercício da função tinha um outro lado, aliás o principal:
aprender a liturgia da missa, que incluía chegar à igreja antes de todos, nos paramentar e arrumar a mesa com os acessórios da missa.
Em a hora da cerimônia, entrávamos com o padre e nos ajoelhávamos em frente ao altar, nos persignando.
Durante a missa ficávamos sentados numa cadeira atentos aos gestos do padre.
A o começar a liturgia de consagração, pegávamos as pequenas jarras (galhetas) com água e vinho para servir ao padre.
Em 'te momento, só de implicância, eu colocava no cálice mais água que vinho.
O padre falava baixinho " mais vinho!,
mais vinho " e se servia ele mesmo.
Quando ele levantava a hóstia para a consagração, eu tocava uma sineta -- era a hora da missa que eu mais gostava.
Terminada a cerimônia, o Padre Gerardo nos servia biscoitos e suco.
Já no segundo mês como coroinhas, entramos na 'cala de viagens.
Nossa primeira missa fora da 'cola foi na ilha de Jaguanum, perto de Itacuruçá.
Saímos por as 10 horas da manhã no Tintureiro e por volta das 11 horas chegamos.
Em o trajeto, Padre Gerardo tomou bastante vinho.
Em a ilha não havia cais.
O barco parou a alguns metros da praia e um pescador nos apanhou numa pequena canoa.
A igreja ficava do outro lado da ilha, onde se concentravam as poucas casas, e era tão pobre que o sino não tinha sequer badalo.
Convocamos os fiéis batendo com um vergalhão na campânula oca.
Após a missa, nos reunimos num trapiche à beira-mar onde os moradores haviam organizado -- como era praxe -- um lauto almoço regado a suco, cerveja, cachaça e muito vinho de garrafão.
Após o almoço, enquanto eu e meu irmão mergulhávamos de uma enorme pedra na água gelada, Padre Gerardo bebia vinho e conversava com os fiéis.
De repente vimos uma correria.
O padre havia ficado tão bêbado que borrara as calças, literalmente, sendo socorrido por os pescadores que lhe deram um bom banho, uma calça limpa e uma rede para descansar.
A o fim do dia, com ele ainda meio zonzo, pegamos o barco de volta para a 'cola.
Foi um domingo inesquecível.
Quando passei para o terceiro ano -- entre os 13 e 14 anos -- fui eleito líder das atividades socioculturais da 'cola (GT de Cultura) e resolvi abandonar a função de coroinha.
A nova função, além de me parecer mais interessante, também oferecia privilégios como o de visitar a família a cada dois meses e manter a chave da biblioteca, onde passamos a nos refugiar da missa para rezar por cartilhas não tão virtuosas como o catecismo, mas sem dúvida mais atraentes.
Todavia, antes de deixar de ser coroinha, participamos ainda de um último passeio que Padre Gerardo organizou:
uma excursão ao Morro da Velha, o ponto mais alto da ilha, com 641 metros, onde havia uma cruz de madeira.
Saímos pela manhã num grupo de talvez 10 ou 12 alunos, acompanhados por monitores -- o padre não foi por causa da idade.
Subimos durante aproximadamente duas horas por a mata fechada e cheia de mosquitos.
Enfrentávamos além do calor e dos mosquitos, o medo de uma lenda fantástica sobre um baú que teria sido 'condido por um frade no alto do morro, à época dos 'cravos, e em cujo interior haveria -- não se sabe porque -- um caderno para assinaturas e uma caneta.
Segundo a lenda, quem tentava chegar ao baú acabava se perdendo na mata.
Coincidência ou não, após duas horas de caminhada morro acima, alguém gritou " olha a cobra!" --
e foi uma correria só, cada um para um lado.
Parte do grupo se perdeu na mata fechada e somente eu e mais quatro pessoas chegamos ao topo.
Lá no alto, acabei saindo na porrada com um colega chamado Tesourinha, com quem tinha uma rixa antiga, mas fomos prontamente apartados por os outros.
Serenados os ânimos, entre mortos e feridos 'capamos todos.
Mas o passeio que deveria acabar ao meio-dia 'tendeu-se até o fim da tarde, quando o último aluno chegou à 'cola todo sujo e picado de mosquito.
Terminei assim meu tempo de coroinha e -- de quebra -- ainda ajudei a reforçar a misteriosa lenda do baú.
Adendo
Pesquisando no fim de semana sobre a Escola Técnica Darcy Vargas no Orkut, descobri a comunidade «Eu Estudei na Ilha de Marambaia», organizada por o meu ex-colega de ginásio Carlos Alberto.
Além de foto dos desfiles de Sete Setembro em Mangaratiba, da 'cola, da turma em sala de aula e de algumas meninas -- moradoras da ilha -- que 'tudavam em regime de externato, o texto cita o nome de vários colegas e de professores que lecionaram na 'cola à época.
Por considerar que acrescenta informações que me fugiram à memória e enriquecem minhas recordações 'colares, reproduzo aqui o pequeno texto como adendo:
«Eu 'tudei na Escola Técnica Darcy Vargas, também Colégio Estadual Darcy Vargas, entre os anos de 1966 e 1969, que à época tinha como Diretor da Unidade de Ensino o Professor Adaury Alheiros da Silva e, como Diretor da Parte Administrativa, o Professor Manoel Bastos (Alojamentos, Alimentação, Diversão -- futebol, sala de jogos, Religião, Lavanderia, etc.).
Foi um belo e feliz período de minha vida, que guardo com muito carinho, pois tive o privilégio de desfrutar de um lugar abençoado por Deus, de praias lindas, limpas e belas (Praia Grande, do Sino, do Saco, etc.).
Assim como tive o privilégio de usufruir uma ótima formação educacional, ministrada por os professores:
Adaury (Geografia), Leonel Mareto (Artes Industriais), Cyro da Silva (História Geral), Jader Bruno (Álgebra), Otacílio Araújo (Aritmética), Lilia de Souza (Português), Odilon Zorzi Ciência), Ademir Elester (Inglês), Prof. Cruz (Desenho), Francisco Eugenio (Desenho), Maestro Antonio Camargo (Música) e mais Abdias D' Avila, Jackson Oliveira, Marly Nadege, Nilton Oliveira, Orlando Santos, Regina Fernandes, Sergio Vilar.
Tive contato com muitas pessoas das quais ainda me recordo e sinto saudades, como as alunas moradoras da Ilha:
Maria Aparecida Pires, Isa Fontes do Nascimento, Ivone, Maria Aparecida Borges, Maria das Graças, Teresa, Nilce e os internos Francisco Cosme F. Carvalho (Vovó), Ademir Lima de Carvalho, Paulo Mauricio (Tachinha), José Roberto Marinho, Arnaldo Schunk, Antonio Carlos Melo (Neguinho), Eduardo José de Melo (Gagarim), Janir (Bae), José Domício dos Santos (Cachimbau), Adair Silva Gonçalves, Cirilo, Pedro Paulo Pereira Portes, Hélio Dias Rodrigues, Gercino e Gilberto José do Nascimento, Wanderley Gomes de Almeida, Adão, Zarnof, Derly, Jorge Rodrigues da Silva (Calango), Lauro Correa, Hélio Fraga, João Vicente, Hidelbrando (Zé Carioca), etc..
Número de frases: 67
Foi numa época mágica e que tenho muitas saudades."
O filme Tropa de Elite, de José Padilha, ocupa as manchetes de jornais há meses, desde que uma cópia inacabada da obra caiu na rede carioca de distribuição informal de produtos audiovisuais.
Polêmicas levantadas, os articulistas dos jornais 'creveram, os soldados do Bope opinaram, os sociólogos analisaram, os alunos da PUC protestaram ('ses maconheiros irresponsáveis), e os produtores do filme sonharam com o tilintar das caixas registradoras.
Ninguém quis saber, porém, da opinião dos intrépidos trabalhadores do Mercado Popular da Uruguaiana, infalível farol que orienta os piratas a singrar o formigueiro humano do Centro do Rio.
A instituição verdadeiramente lançou o filme, que chega aos cinemas na sexta-feira 5, e poupou aos produtores alguns milhões de reais em gastos com publicidade.
O camelódromo da Uruguaiana respira Tropa de Elite.
Lá, até quem não viu o filme.
É o caso de Rodrigo, 21 anos, funcionário da sofisticada tabacaria que funciona numa das mais nobres alamedas do mercadão.
Entre cigarrilhas sabor café au lait, garrafinhas metálicas de uísque pra guardar no bolso de dentro do paletó e faquinhas para cortar os «puros cubanos» à venda no 'tabelecimento, ele explica o aparente paradoxo.
«Não vi o filme, porque, trabalhando aqui direto, não tenho gás pra ver nada quando chego em casa.
Fico cansadão.
Mas em todas as televisões do camelódromo passa Tropa de Elite o dia inteiro.
Aí eu acabei vendo quase tudo, mas vi um pedaço em cada barraca.
Pena que 'sa aqui em frente só passa o Tropa de Elite 1», conta.
O um, o dois e o três
Tropa de Elite 1?,
há de se perguntar o leitor desinformado, acreditando que a história do capitão Nascimento é parte de uma série.
É que, nas ruas, o documentário Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles, virou Tropa de Elite 2;
e foi seguido por Tropa de Elite 3, uma compilação de flagrantes de violência policial filmadas em operações em favelas cariocas.
Victor, um mulato de 18 anos nascido para vender, desfaz qualquer mal-entendido.
«Tem o um, o dois e o três.
O um é o filme mesmo, com o Wagner Moura, é maneiro.
O dois é um documentário sobre tráfico e violência no Rio, mas, tipo assim, vamos dizer, não é a realidade.
E o terceiro é boladão, é uma coletânea de cenas reais de invasão da polícia nas comunidades, neguinho matando geral, botando dentro do caveirão.
O três é a real, é o mais maneiro, tudo filmado por cinegrafistas», diz.
Victor opina que o filme -- «o um», que fique claro -- é bastante realista e ele não acha que a fita faz um elogio à truculência policial.
«Em o filme os polícias entram na comunidade como?
Esculachando geral, quebrando geral.
que nem na vida real.
Isso é muito vacilo, mas, se eu fosse polícia, ia ser assim também.
Não é fácil ser polícia não».
Poucos segundos depois, ele convence a reportagem de Palma Louca a levar por dez pratas os volumes 2 e 3 de Tropa.
A cópia do documentário de João Moreira Salles era de ótima qualidade, com extras e tudo mais.
A compilação de cenas reais, porém, não rodou de jeito nenhum.
Bad disc, informava o combalido aparelho de DVD.
Em o dia seguinte, procurado por a reportagem, Victor trocou a cópia bichada por uma boa e brindou-me com um «cartão fidelidade».
Com 10 compras na mão de ele, eu ganho um dvd de graça.
Faltam 8. O garoto vai longe.
Talvez vá tão longe quanto Manoel, 53, que comanda o que parece ser o maior 'quema de venda de jogos e dvds piratas da Uruguaiana -- o que não é pouca coisa.
Quando aparece freguês, Manoel aciona por o Nextel uma entidade chamada Jogador que providência os produtos requisitados por o cliente, que chegam em segundos por as mãos de seus muitos ajudantes.
São dezenas de funcionários, todos tensos e em permanente comunicação com o Jogador por seus walkie-talkies de última geração.
«É só extorsão, ameaça, desrespeito ao morador "
O instinto de vendedor faz Manoel falar de seu principal produto ao potencial cliente.
Com 38 anos de morro do Turano, ele garante que tem autoridade pra fazer a crítica 'pecializada de um filme como Tropa de Elite -- o original.
«O que o filme mostra não é nada perto do que 'ses caras da PM, do Bope, da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais, a «tropa de elite» da Polícia Civil) fazem na realidade.
É só extorsão, ameaça, desrespeito a morador, chamar senhora de idade de vagabunda.
Tinha que mostrar mais coisa ainda», conta.
E pondera, com um misto de admiração e terror:
«Mas os caras do Bope são foda.
Batem de frente mesmo, com eles não tem desenrole».
Não é o que pensa Pablo, 26, que anuncia ao microfone as ofertas imperdíveis da loja de CDs e DVDs gospel Fogo Puro.
Evangélico, ele assistiu apenas a Tropa de Elite 1. Usa anéis dourados em ambas as mãos, brinco dourado na orelha direita, calças apertadas, blusa apertada, luzes no cabelo.
E acusa:
«O Bope se chama tropa de elite porque eles só roubam de R$ 20 mil para a cima.
É por isso.
Mas 'sa é a realidade e o filme mostra isso».
Como assim, Pablo?
O filme mostra um Bope que não é corrupto.
Qual é a realidade então?
Pablo, confuso, se enfada da entrevista e volta a anunciar no microfone um DVD sobre a vida de Moisés.
Exclusivo da Fogo Puro.
Fogo puro é também o que parece animar o 'pírito de Marina, transcendental mulata de 22 anos, colega de trabalho do temperamental Pablo na loja de artigos evangélicos.
Ela conta que viu Tropa de Elite e gostou muito, 'pecialmente da atuação de «Vagner Moura,» o Olavo de Paraíso Tropical».
Ela entende que o filme faz a denúncia do 'tado lastimável em que se encontra a Polícia Militar do Rio e engata um sem número de histórias sobre violência policial que presenciou no Morro da Providência, onde mora.
«O Bope só mata quem tem que matar "
Marina diz que nunca viu o Bope em ação em sua comunidade e que não se assusta com a possibilidade disso vir a acontecer.
Depois de ver o filme, ela confia plenamente na honestidade e justeza dos homens do " Capitão Nascimento.
«Tudo o que o filme mostra é bem a realidade mesmo.
E o Bope só bate em quem tem que bater, só mata quem tem que matar», diz, pontuando a frase sanguinolenta com um sorriso encantador.
Mas Marina, quem deve apanhar e quem deve morrer, na sua opinião?
Você acha certo a polícia bater nas pessoas, matar gente?
«Certo não é, mas 'se é o trabalho de eles, né?».
Vai saber.
Não sei mais.
O fotógrafo também não.
A equipe de reportagem se entreolha, se pergunta se já deu, se é hora de encerrar.
Também não sabemos.
Achamos que sim, mas não temos certeza.
E aí, qual vai ser?
Vamos em 'sa?
Marina interrompe a indecisão e desfaz o impasse:
«Olha só como a minhas mãos são macias».
Nossa, Marina, são mesmo.
Tem até uns brilhantes nas tuas unhas.
«Eu uso hidratante direto, sabe?
Eu me cuido».
Jura?
«Juro.
Em que site vai sair a reportagem?"
Aqui ó, deixa eu anotar pra você.
«Eu tenho um site também, vou 'crever aqui pra vocês, tá?"
Claro.
«É do concurso Garota da Laje.
Tem um vídeo meu e tem umas fotos minhas também.
Gente, tão lin-de as.
Entra lá pra votar em mim».
Vou votar sim, claro, pô.
Aliás, Marina, é barbada.
Já ganhou, já ganhou.
Número de frases: 99
Este texto foi originalmente publicado na revista eletrônica Palma Louca.
Junho de 2008. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
Os marcos geográficos ainda são resquícios de uma concepção atrasada, raízes de um tempo onde tudo tinha sua existência local e limitada.
A primeira década do século XXI anuncia, mais do que nunca, o fim do mundo como o conhecemos.
Ou, como 'te movimento anárquico chamado internet interfere diretamente na forma de se fazer, vender e comunicar cultura.
Em 'pecial, a música.
Em 'te momento, enquanto as vendas de CD's encolhem expressivamente ano a ano, gravadoras, empresas, produtoras, bandas e público buscam novos caminhos para financiar um mercado que gera 50 bilhões de dólares anuais.
Não existe hora pior para se viver quanto eras de transição.
Onde tudo desmorona, seca, renasce.
O que conhecíamos é destruído, os padrões abolidos, o caos instalado, e o mercado e as pessoas, o capital e os seres humanos, continuam girando, perdidos, tateando as novidades ainda com um certo receio, sem saber como agir.
Presos entre as tradições e o que de novo se anuncia, vamos aprendendo, a custa de muitos tropeços e um «pasmo 'sencial» a cada semana, cada mês.
A verdadeira revolução social da música 'tá só começando.
I -- Prenúncio do Fim
Todas as formas tradicionais de se vender música 'tão agonizando, tentando entender como, em 5 anos, tudo se modificou.
Rick Rubin, um dos maiores nomes da indústria, alto-executivo da Columbia Records, afirmou recentemente ao The New York Times que " numa era com música digital, iPods e todas as ferramentas para pirataria nosso modelo de negócios parece um dinossauro.
A única forma da indústria musical sobreviver é se reinventar totalmente."
A declaração não vêm à toa.
Somente no ano passado, as vendas de música no suporte físico (CD ' S e DVD's) caíram 13 % no mundo, de US$ 18,3 bilhões para US$ 15,9 bilhões de dólares.
Em o Brasil não é diferente.
Em o mesmo período, de 2006 para 2007, a quantia movimentada por 'se mercado encolheu de R$ 454,2 milhões para R$ 312,5 milhões, redução de 31,2 %.
Foram vendidas 31,3 milhões de unidades, 17 % a menos que o ano anterior.
Em 1997, o Brasil ocupava o sexto lugar no ranking, com lucro total de US$ 1,2 bilhões de dólares e 100 milhões de unidades vendidas.
Em 10 anos, nos valores da moeda 'tadunidense, a redução é de aproximadamente 550 %.
loja com milhares de CD ' S:
imagem ultrapassada
A gravadora EMI (integrante das «Big Four», os quatro maiores conglomerados de música no mundo, completado por a Universal, Sony BMG e Warner, que detém aproximadamente 70 % do mercado mundial), anunciou no início de 2008 um corte de 1 terço dos seus funcionários, além da redução dos gastos com marketing e da dispensa de vários artistas.
O grupo 'pera com isso economizar US$ 391 milhões ao ano.
Eduardo Ramos, fundador do selo independente Slag Records, simboliza 'ta mudança: "
O comércio físico de música virou comércio de arte / nicho.
Quem compra formatos físicos ou são consumidores de artistas extremamente populares ou de nicho, o que sustentava a indústria era o meio termo, que parou de comprar cds por completo ...
o que resta do comércio é ser o mais 'pecífico possível ...
saber com quem você 'tá lidando.
Os selos morreram completamente ...
hoje em dia selos prestam serviços para bandas.
Não tem como pensar em lançar CDs, então não existe muito como ganhar dinheiro como selo que tem como atividade principal lançar discos."
Enquanto isso ...
II -- O avanço da música digital
A derrocada do suporte físico simboliza o movimento inverso que a música em formatos digitais experimenta.
Segundo último levantamento da IFPI (Associação Mundial da Indústria Fonográfica), as vendas de música digital totalizaram 3,05 bilhões de dólares em 2007, número 48 % maior que em 2006.
Este nicho representa agora 15 % do mercado global:
cifra que era de 0 % em 2003.
Somente nos Estados Unidos, as vendas de canções via internet e celulares agora respondem por 30 % da receita total da indústria.
E o Brasil segue o mesmo fluxo.
O país, que nos últimos dois anos viu o nascimento de lojas online do UOL, Terra, a criação de diretórios locais do MySpace e LastFM, o suporte de empresas ao Trama Virtual, remunerando artistas por o número de downloads, registrou números extremamente expressivos em 2007.
O setor já representa 8 % do mercado total de música no país, movimentando R$ 24,5 milhões.
76 % disto vem da telefonia móvel e 24 % da internet.
As receitas por as empresas de telefonia subiram 127 %, enquanto a web teve crescimento de, simplesmente, 1.619 %.
A tendência é natural e tem um suporte sólido.
O Brasil conta atualmente com 130,56 milhões de linhas ativas de telefonia móvel.
Aumentando nada menos que numa média absurda de 2 milhões de linhas ativadas a cada mês (eram 100 milhões em janeiro de 2007).
Com o crescente barateamento de celulares mais avançados, que tem função de mp3 player, vídeo e internet (40 % dos aparelhos atuais já são capazes de baixar faixas), potencializadas por o lento mas considerável penetração do padrão 3-G, transferindo dados com velocidade de banda larga, em até 7 MB por segundo, além de inúmeras outras funcionalidades.
Outro dado importante é que, até o final de 2009, a Anatel prevê que os sinais das operadoras deverão cobrir todo o território nacional.
Atualmente apenas as cidades acima de 30 mil habitantes têm 'sa cobertura.
O mercado de telefonia fixa / móvel, banda larga e TV por assinatura fatura hoje R$ 150 bilhões anuais.
O setor de internet também registra bons números.
O Brasil têm hoje 40 milhões de internautas, sendo metade residenciais (de entre os quais 75,6 % tem banda larga) e metade de uso em outros ambientes, como no trabalho, em lan-houses, 'colas, etc..
O país é ainda é líder mundial em tempo de navegação por usuário, com 22 horas e 59 minutos ao mês.
Previsões dão conta de que, em 2012, a música digital irá representar 40 % do faturamento do mercado fonográfico mundial, gerando 4,2 bilhões de dólares por a web e 17,5 bilhões através música móvel.
O ITunes, loja virtual lançada por a Apple em 2003, tornou-se, em 5 anos, o maior veículo de vendas de música nos Estados Unidos, respondendo por 19 % do mercado e vendendo mais de 5 bilhões de faixas em 'te período.
Somado ao concorrente Napster, que nasceu de forma ilegal em 1999, sendo o primeiro programa relevante de P2P (compartilhamento de arquivos), e que em maio de 2008 anunciou o lançamento de sua loja online, os dois serviços juntos disponibilizam mais de 11 milhões de faixas para download, ao custo de US$ 0,99 dólar cada, reunindo catálogo de todas as grandes gravadoras e milhares de selos menores.
ITunes:
5 bilhões de faixas vendidas
III -- A internet e o mercado de música independente no Brasil
As possibilidades, como vimos, 'tão abertas.
O mundo da música em 2008 é radicalmente diferente do que era em 2003.
Em 5 anos, tudo se expandiu, solidificou, novas ferramentas, softwares, lojas, idéias e sites surgiram, os meios digitais ficaram acessíveis à uma parcela infinitamente maior da população.
Para qualquer banda independente, ficar refém de grandes gravadoras e da velha maneira de se fazer e consumir é uma necessidade do passado.
O MySpace, principal site de relacionamento focado na música, conta com 30 milhões de usuários e 5 milhões de bandas cadastradas.
O SMD -- Semi Metalic Disc -- produto inventado no Brasil, permite prensar e vender seu próprio disco à um custo ínfimo, comercializado com o preço padrão de R$ 5 'tampado na capa:
com direito à tudo que um «CD» " tradicional " oferece, comportando até 60 minutos de gravações e com uma série de medidas inteligentes que baratearam o produto final.
Ótima pedida para quem ainda precisa do suporte físico para vender em shows, enviar para a mídia 'pecializada, etc.
MySpace: plataforma para novos lançamentos
A internet disponibiliza inúmeras ferramentas, todas gratuitas, para quem quer fazer seu próprio site, divulgar sua obra, registrar, disponibilizar para download, tornar seu nome conhecido no cenário.
A «cena» brasileira de música independente passou a se fortalecer recentemente, dando origens à inúmeros festivais e coletivos em várias cidades do país que promovem shows, eventos e facilitam todo o processo da cadeia produtiva para que bandas surjam e aconteçam para o público ao qual se dirige.
Um dos maiores exemplos é o festival Grito Rock, que em 2008 aconteceu em 44 cidades brasileiras e 3 gringas -- sendo Montevidéu no Uruguai, Buenos Aires na Argentina e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia -- firmando-se como o maior evento do gênero no país, envolvendo mais de 500 bandas e presente em 20 'tados.
De este movimento surgiu o Circuito Fora do Eixo, que veio para integrar as pessoas envolvidas em 'te processo.
Léo Santiago, editor do portal, explica a proposta: "
O Fora do Eixo nasceu da movimentação que já existia em algumas cidades como Cuiabá, Uberlândia, Goiânia ...
diversos profissionais se reuniram em 2005 e viram a necessidade de se organizarem justamente para criar um circuito interligando tudo o que 'tava acontecendo em várias regiões do país e a partir daí começar a pensar ações conjuntas em prol do desenvolvimento da cena independente.
Vale lembrar que na mesma época foi criada a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), o que deu ainda mais gás ao cenário."
Festival Fora do Eixo:
uma das iniciativas
Para fazer frente ao monopólio da indústria, enfrentar o comodismo do público e alguns conceitos arraigados na mente dos próprios artistas é necessário toda uma concepção diferenciada, e séria, de se construir as coisas, como explica Léo:
«A 'cassez de recursos financeiros, de veículos de comunicação e mesmo de população exige muito mais cuidado e 'forço na hora de implementar ações, tudo é feito de forma solidária:
existem objetivos a serem alcançados em conjunto e a auto-avalia ção também é feita coletivamente.
Acho que a grande questão do mercado independente hoje é ser cada vez mais auto-sustentável e diversificado.
Existe um circuito com seus próprios veículos de comunicação e bandas que nasceram ali e podem sobreviver tocando em 'te circuito.
Isso é fantástico, uma coisa impossível há poucos anos atrás quando não tínhamos a internet."
Christian Camilo, da banda Instiga, de Campinas -- SP, é um desses músicos que desde o início utilizaram da internet para fazer todo o trabalho de divulgação.
Em três anos de trabalho de base na web, o grupo já alcançou mais de 156 mil acessos no MySpace (disparado um dos maiores números entre bandas brasileiras), lançou 2 álbuns -- o terceiro 'tá por vir -- e foi destaque por a BBC londrina, como uma das 20 «next big thing» e também da própria equipe do MySpace Brasil.
Para ele " ter a chance de divulgar sua banda e 'palhar sua música é uma maneira de poder alcançar um nível de expressão que só era possível as grandes corporações e aos ricaços que se aventuravam no mercado.
Hoje, «ter uma banda na mídia» é quase a concretização de 'sa democracia artística -- é da classe média que vem a maior contribuição em tempos de internet."
E para os produtores?
Para quem organiza shows e faz a coisa acontecer ao vivo, como a internet funciona?
Malu Aires, fundadora do festival BH Indie Music, ressalta que " as mídias não são convencionais, são eletrônicas e alternativas, portanto se faz necessária mais veiculação 'pontânea extinguindo o famoso jabá e publicações pagas.
O público também se difere em idade e exigência, 'tando mais informados do que nunca.
E o tempo é mais longo para quem emprega capital próprio e privado nas produções.
A tecnologia é vital na divulgação de um trabalho independente.
Devemos somar recursos com inteligência e equilíbrio de ações para um longo prazo."
Instiga: reconhecimento através da internet
Tantas facilidades podem criar um outro problema:
o público se perder em meio à tantas bandas e tantos caminhos.
A avalanche de grupos -- muitas vezes de qualidade duvidosa -- sobrecarregam a mídia, os canais de divulgação, patrocinadores, shows.
O que diferenciaria um grupo no atual momento da música mundial?
como se destacar em meio a tantos nomes?
O acesso fácil criaria o reconhecimento instantâneo?
Indo além, ainda não restaria, entre a imprensa, um resquício de preconceito contra as bandas indie, fazendo com que elas não conseguissem 'paço em veículos de maior alcance?
Estes são problemas que não 'capam a quem participa do cenário.
É o que afirma Dary Jr., vocalista e letrista do Terminal Guadalupe, de Curitiba / PR, banda que se firmou na internet e obteve bom reconhecimento de grandes medalhões da imprensa:
«Um jornalista anglófilo e modernete do eixo Rio-São Paulo pode até dar uma torcidinha de nariz, mas não há como ser indiferente a um trabalho de qualidade.
É o que eu sempre digo para as bandas afoitas em criar uma ampla rede de relacionamentos na mídia:
você pode até ser herdeiro do Roberto Marinho, mas se a canção que fizer não for boa ...
pirotecnia visual e marketing?
Sorry. A música é quem manda, amigo."
Felipe Gurgel, assessor de comunicação do projeto Noise-3D e baixista da banda O Garfo, de Fortaleza, completa:
«Contrariando a expectativa que o senso comum tem de encontrar fórmulas prontas, 'sas mudanças colocaram a gente num trânsito caótico de informação musical.
Diria que nenhuma de 'sas (ferramentas da internet) atingem uma forma ideal.
Mas acho que 'se «trânsito caótico» tem uma carta na manga muito interessante:
você 'tabelece um filtro para que artistas talentosos de fato encontrem seu público."
Terminal Guadalupe: no fundo, o que importa é a música
Felizmente, a qualidade não deixou de ser fator primordial para que uma banda mereça o 'paço conquistado.
Tudo que foi citado até agora encontra seu lugar numa série de festivais que surgiram e 'tão se solidificando na cena, com maior ou menor sucesso, caso do Abril Para o Rock, no Recife, o Mada e De o Sol, em Natal, Bananada de Goiânia, o Jambolada de Uberlândia/MG, o Calango, em Cuiabá / MT e tantos outros.
Além disso, empresas / marcas vêm, nos últimos anos, apoiando de forma intensa 'te movimento favorável através da criação de seus próprios festivais e / ou do patrocínio e uso de bandas «alternativas» em comerciais, caso da TIM, Claro, Natura, Nokia, Portal Terra, Motorola, Vivo, Unimed, Sony, Orloff, Campari, Toddy, Levi's, West Coast, Usiminas, Sol, Oi, Petrobrás ...
com tendência a aumentar.
É o apelo de um público diferenciado tornando-se atrativo financeiramente.
Há música sendo feita, reconhecida, girando e acontecendo em todos os cantos do Brasil.
Se antes incipiente, a internet e o formato digital é agora uma realidade acessível que deverá em pouco tempo tornar-se a principal fonte de lucro da indústria.
Fazendo uma ponte entre passado e futuro, além de exemplificar como a mídia fica em 'te caminho, Paulo Floro, editor da revista eletrônica O Grito, diz que " todo dia surge uma nova idéia que explora a web de maneira inteligente e lucrativa, mas ainda não se chegou a um modelo ideal (e talvez nunca chegue).
Como jornalista, acredito que o disco, enquanto conceito deva existir.
A idéia de «álbum» é muito importante para firmar o trabalho de uma banda, para ter uma idéia e uma unidade juntas num único conjunto, que é o disco.
Mesmo que não seja lançado fisicamente, sua existência já funciona como agendamento, o que para imprensa é muito importante.
O disco não irá morrer, o que 'tá entrando em decadência são as formas de distribuição e comercialização tradicionais.
As bandas precisam compreender 'te momento se quiserem adquirir relevância nos próximos anos."
Se em 5 anos o mercado mudou completamente, com alguns destes acontecimentos descritos aqui, será no mínimo curioso acompanhar, e participar, do que os próximos 5 nos reservam.
De aí a importância de mover-se, não ficar parado -- movin ' on up -- e 'tar atento para que todas as engrenagens sejam bem exploradas, com criatividade e trabalho sério.
O velho mundo diz «adeus».
Você tem apenas que dizer «olá» para a verdadeira revolução social da música em todos os tempos.
O «do it yourself» nunca foi tão verdadeiro.
Retomamos o poder.
Faço bom uso de ele.
Fontes:
Todas as fontes para 'ta matéria, além de outras reportagens, dados, levantamentos e assuntos relacionados 'tão reunidos no link que fiz no D elicious:
Número de frases: 142
Mercado Música.
Caros colegas que acessam o Overmundo:
É com grande satisfação que venho declarar que sexta-feira passada, ali pelo meio da tarde, coloquei o ponto final no meu primeiro e explosivo romance:
O Inquilíbrio Subjeto, um delírio anarco-satírico sobre um 'critor delirante e anarco-satírico.
O livro ficou, me desculpem a falta de modéstia, muito bom.
Vou mandá-lo por e-mail -- ou por carta -- para várias editoras e tenho certeza de que será publicado com uma grande tiragem.
Provavelmente será indicado ao Jabuti no ano que vem e marcará minha 'tréia particularmente brilhante no morno cenário na nova literatura brasileira.
Foi aí que tive a idéia:
há pouco tempo me cadastrei no Overmundo e tenho me surpreendido com a quantidade de pessoas que realmente lêem e comentam os textos alheios.
Já fazia algum tempo que eu 'crevia crônicas diárias -- sobre filmes, livros, cotidiano e o que mais me passasse por a cabeça -- num blog obscuro do universo virtual -- www.brasilia2700.blogspot.com -- e era raro -- na verdade raríssimo -- receber algum comentário.
De os poucos que recebia, alguns eram grosseiros e deselegantes.
E eis que comecei a meter o bedelho no Overmundo e fiquei imensamente satisfeito ao perceber que o texto era acessado e comentado construtivamente por os outros internautas.
Copiei e colei, por exemplo, do blog no Overmundo, um texto banal e bobinho sobre a expressão «uai» e recebi muitos comentários.
Isso me surpreendeu positivamente e me deu pilha para continuar navegando por o Overmundo e postando meus textos.
Até que tive a idéia:
talvez eu possa publicar o romance recém terminado no próprio Overmundo.
Como? Não sei.
Aguardo sugestões.
Em fonte 12 e 'paço 1,5, o corpo do texto tem 49 páginas A-4, o que, segundo minhas contas, equivaleria a um livro de bolso -- ou algo do tipo.
Eu postaria os textos diariamente?
Dia sim-dia não?
Semanalmente? E quantas páginas a cada vez?
E com qual título?
Talvez pudesse postar todas com o nome do livro -- O Inquilíbrio Subjeto -- e numerar cada publicação.
O Inquilíbrio Subjeto 1, O Inquilíbrio Subjeto 2 e assim suvessivamente.
Isso aconteceria no Overblog ou no banco de cultura?
Outra coisa para se discutir.
Muitos 'critores atualmente lançam livros no universo virtual justamente por a facilidade de comunicação com possíveis leitores.
Claro que todos que lessem minha pequena obra-prima na verdade 'tariam sendo agraciados com a minha benevolência literária -- e participando de um momento histórico da literatura brasileira contemporânea já que o livro, como se auto-define na sua teia caleidoscópica de referências, é " único, selvagem, original e revolucionário."
Polêmicas não faltarão porque a obra é hostil com uns e outros, faz apologia de atitudes não muito politicamente corretas, mas carrega, antes de tudo, uma carga de puro dinamite literário em seu útero.
Muitos vão criticar O Inquilíbrio Subjeto.
Outros vão odiá-lo.
Mas tenho certeza absoluta de que a maioria há de severgar sobre o peso de sua infinita originalidade.
Vejam bem:
vocês, colaboradores do Overmundo, serão os primeiros leitores do meu livro.
Antes de vocês, os únicos que leram foram eu -- o autor -- e minha namorada, numa ensolarada tarde de domingo, embaixo de uma mangueira, representando em voz alta os personagens -- o que recomendo ostensivamente que seja feito para maior absorção dos elementos teatrais da obra -- e rindo da minha excêntrica, extravagante e provocativa loucura.
De aqui a alguns meses -- vá lá, 1 ano -- o livro 'tará na prateleira de «lançamentos» na livraria e se você quiser lê-lo -- todo mundo vai 'tar falando de ele e todos os resenhistas e colunistas vão 'tar se debruçando sobre ele -- vai ter que desembolsar uns trocados -- provavelmente R$ 24,90 -- por um livrinho que -- agora -- pode ser lido na íntegra -- e inédito -- na Internet.
Está lançada a proposta.
Talvez seja uma péssima idéia abarrotar os arquivos de Overmundo com os delírios de uma suposta nova revelação da literatura brasileira.
Ou talvez seja uma idéia brilhante.
Aguardo sugestões.
Número de frases: 41
Caminhos e Re-voltas de Antônio Conselheiro
Durante o mês de novembro e início de dezembro, o grupo do Teatro Oficina 'teve em turnê com o 'petáculo Os Sertões no Ceará e na Bahia.
A turnê, que em si já seria um grande acontecimento cultural, ganhou muito em mais em significado por os os locais da encenação:
Quixeramobim e Canudos, respectivamente a terra natal de Antônio Conselheiro e o lugar onde 'te fundou o Arraial do Belo Monte, seu inferno e Paraíso.
Em Quixeramobim, a Companhia fundada por Zé Celso Martinez apresentou a obra entre os dias 14 e 18 de novembro.
De lá seguiu para Canudos onde a encenou entre os dias 28 de novembro e 02 dezembro de 2007.
Estive presente nos dois momentos e, sobre isso, passo a 'crever agora.
Quixeramobim e Os Sertões de Zé Celso
Muito antes da 'tréia da peça, o Município se mobilizou para receber e participar do 'petáculo.
Durante dez dias, foram exibidos nas 'colas das zonas urbana e rural, documentários sobre a história de Canudos e Antônio Conselheiro, seguidos de debates.
As rádios locais faziam entrevistas e 'cutavam a população sobre as expectativas da peça.
A nudez e a linguagem da Companhia eram um dos temas mais abordados.
Os hotéis da cidade ficarm lotados desde o primeiro dia de novembro.
Muitos turistas se hospedaram em casas particulares.
Tudo para que Quixeramobim comportasse mais de dois mil visitantes durante os cinco dias de 'petáculo.
Em o dia 17 de novembro, um dia antes da 'tréia, o evento foi aberto com um grande cortejo por as ruas de Quixeramobim.
Os atores saíram com figurinos do 'petáculo e arrastaram uma multidão por diversos pontos históricos da cidade.
Em a Igreja Matriz, onde Antônio Maciel casou com Brasilina, foi encenado um novo casamento, ao som da Banda de Música Municipal.
O final do Cortejo foi na casa onde nasceu e viveu Antônio Conselheiro.
Foi armada uma réplica do Teatro Oficina com capacidade para oitocentos lugares.
Todos os dias a casa 'teve lotada.
Uma romaria de amantes do teatro e Canudos se deslocou para Quixeramobim.
A 'tréia:
A Terra
Em o primeiro dia, 'panto e admiração eram evidentes nos olhares da platéia.
Grande parte de ela sequer tinha assistido a uma peça teatral.
Em o 'petáculo de profunda beleza, são representadas as bases geográficas e naturais do que virá a ser o Sertão.
Um ponto de grande destaque foi a encenação do oceano.
Um enorme tecido azul entra em cena, desenrolado e conduzido por os atores.
No meio da cena, o tecido foi sacudido por uma rajada de vento que o levantou abruptamente, compondo um belo improviso, como ondas marítimas reais levantadas no meio do oceano.
Diante das primeiras aparições de atores e atrizes nus, a reação foi imediata.
Olhares seduzidos, outros repelidos, a maioria atenta.
No meio da platéia, de repente, pôde-se ouvir alguém bradar:
«Isso é um cabaré, um cabaré!»,
era um senhor que em seguida se retirou.
Segundo dia:
O Homem I:
De o Pré-Homem a Re-volta
O dia seguinte foi recheado de comentários sobre a 'tréia do 'petáculo.
Em os bares, nas padarias, nos lugares cotidianos o assunto era o mesmo:
a peça e a nudez.
Opiniões divididas, mas Teatro lotado.
Todos queriam ver.
Estima-se que quase a mesma quantidade de pessoas da capacidade do Teatro ficou de fora, 'perando alguma desistência.
Lá dentro, a peça contava a fundação e a formação do Homem até as multideterminações étnicas do brasileiro e do sertanejo.
«O tipo brasileiro é um tipo sem tipo», bradavam os atores.
Houve críticas a Bento XVI e ironias a Bárbara Eliodora.
Parte dos católicos presentes se irritou com a referência (embora cabida) ao Chefe do Vaticano.
No entanto, a beleza e o bom humor do 'petáculo sobressaíram-se.
Em o dia após a segunda parte, os comentários dos quixeramobinenses giravam em torno de muitos assuntos da peça, mas paravam, principalmente, num só:
a Buceta de Pandora ou Oráculo Vaginal, a cena em que uma atriz simula um monólogo com sua vagina enquanto a imagem focada de 'ta é projetada no telão.
Em a fila para o terceiro dia, o bom humor cearense dava sua marca:
«Já vi isso [a vagina] fazer muita coisa, agora falar foi a primeira vez», comentava um senhor.
Terceiro dia:
O Homem II-Do Homem ao Trans-homem
Com a platéia já se habituando à linguagem do Teatro Oficina, o terceiro 'petáculo contou a história de Antônio Maciel, de sua transmutação para Conselheiro, da fundação de Canudos, da sua prosperidade e do início das ameaças de destruição.
As alegorias, as metáforas e citações que desfilaram em cena gerou um inusitado debate entre a assistência:
o que é uma verdade.
Alguns diziam que Conselheiro não era aquilo, outros contra-argumentavam que tudo era um como se fosse», uma linguagem figurada.
O fato é que a praça de alimentação, na hora do intervalo ou antes do início dos 'petáculos, virava um campo de debates sobre as mais diversas temáticas suscitadas por as apresentações.
Quarto dia:
A Luta I
O começo do fim.
Em A Luta I, narra-se a história da Guerra de Canudos, desde o incidente da entrega das madeiras em Juazeiro da Bahia até a Terceira Expedição.
Articulando-se à Guerra de Canudos, citações de problemas atuais que são muitos similares ao que significava Canudos para o Brasil.
Em uma de elas, surge Rosinha Garotinho propondo a construção de um muro em torno do Arraial de Conselheiro.
Evidente ironia ao que se propôs quanto às favelas do Rio de Janeiro.
Em 'sa direção, aparecem também Condeleeza Rice e Silvio Santos.
Quinto dia:
A Luta II
Último dia de 'petáculo.
Sente-se em Quixeramobim um clima saudoso e doído.
Apesar de algumas resistências, a população foi se envolvendo com a história de seu mais famoso filho.
«Esse lugar não será o mesmo», ouvia-se de diversas bocas.
Em a quinta noite, o 'petáculo iniciou-se fora do Teatro.
O público entrava de mãos erguidas e era revistado por o Exército Republicano.
Euclides chegara ao cenário da Guerra.
As vicissitudes dos últimos embates são mostradas de modo contundente e emocionante.
Conselheiro morre em cena dirigida por Glauber Rocha.
A o final, com muitos da platéia em lágrimas, 'cuta-se o coro cantar:
«Ah! Sertão / tão sem ser / sertão / Rocha Viva / Voando, ando / Ser 'tando, ser 'tando ...
/ Serestando ...
Tão sem ser ..."
Impressões outras
Os Sertões levou «1968», Oropa-França-Bahia para Quixeramobim.
Não num compartimento, mas numa magnífica 'piral de tempo.
O sertão cearense retoma questões cruciais:
a sexualidade, o corpo, a paixão por a vida.
Tudo sob uma ótica singular.
Nunca um evento causou tanto impacto na Região.
Após Os Sertões, pastores evangélicos foram protestar na Câmara Municipal e nas rádios locais;
jovens fundaram um grupo de teatro;
todas as edições dos livro de Euclides foram emprestadas da Biblioteca Pública;
foram promovidos mais de dez debates na rede pública de ensino sobre a peça e o livro;
a sexualidade e o corpo tornaram-se temas centrais nas rodas de conversa da cidade, seja na praça ou nas igrejas.
Definitivamente, Os sertões inseriram Quixeramobim no cenário cultural do Ceará.
Passado vinte dias do fim da temporada, a cidade ainda respira o assunto, o que ratifica todas as suspeitas:
o 'petáculo 'tá para além de um evento, ele ficou entranhado no afeto dos quixeramobinenses, revirando desejo, incomodando morais, fazendo pensar, serestando ...
Em os caminhos de Conselheiro:
Os Sertões em Canudos.
Depois de Quixeramobim, a última parada de Antônio Conselheiro:
Canudos, onde o 'petáculo foi apresentado nas três últimas noites de novembro e nas duas primeiras de dezembro de 2007.
Cumprindo o destino recriador de seu líder, a atual Canudos é a terceira.
A primeira foi destruída por o exército;
a segunda 'tá submersa nas águas da represa de Cocorobó.
O município de hoje tem catorze mil habitantes, onze mil a menos do que a primeira Canudos.
Sua precária condição econômica é decorrência direta dos fatores que destruíram as duas primeiras:
o descaso do Estado Brasileiro e o desejo de excluir da história tão contundente pedaço de Brasil.
Por outro lado, a região transborda beleza e força.
Estar em Canudos, visitar os locais da Guerra e do sonho vivido daquele povo é uma experiência 'tonteante.
Vizinho à atual cidade, existe o Parque Histórico de Canudos, uma gigantesca área de preservação, onde 'tão sinalizados os locais mais importantes para a comunidade conselheirista, bem como os pontos onde se desenrolaram os episódios da guerra narrados por Euclides da Cunha e outras testemunhas.
Exclui-se disso, evidentemente, o núcleo central da cidade, já que 'te submergiu nas águas do Cocorobó.
O que o visitante encontra são os pontos que se situam no entorno da represa:
Alto da Favela, Vale da Morte, Pelados, Hospital de Sangue, Alto do Mário, Fazenda Velha, o leito seco do Vaza-Barris, etc..
Todos 'ses pontos são largamente descritos por Euclides da Cunha em Os Sertões.
Para a peça, foi montada a mesma 'trutura de Quixeramobim.
Desta vez, no Estádio Municipal de Canudos.
O Estádio ainda 'tá em construção.
Há apenas alguns lances de arquibancada e um gigantesco muro cercando um vasto terreno vazio e plano.
Tudo isso no topo de um serrote.
Tal arranjo colocava o Teatro e os participantes frente-a-frente com o pôr-do-sol.
De todos os pontos da cidade, avistava-se o Teatro-Estádio Olimpo.
Os 'petáculos começavam ao cair da noite sertaneja, entre 17:30 e 18:00h. A o atravessar os portões, a sensação era de penetrar uma tela de René Magritte ...
O sol ruge mergulhava na boca da noite 'trelada.
à esquerda, nuvens 'curas contrastavam com um imenso muro que, 'pecular, refletia as últimas luzes do dia vindas do oeste.
Adiante, o Teatro Oficina saído de São Paulo e pousado em pleno Sertão.
Era noite?
Era dia?
Não se podia dizer, apenas sentir o cenário perfeito para se contar a história de Canudos, que é a história de muitos sertões.
Os canudenses, assim como os quixeramobinenses, 'tranharam a linguagem do 'petáculo.
Alguns diziam não entender o que assistiam.
Dona Maria José, 61 anos, afirmou:
«não 'tou entendendo umas coisas mas mesmo assim é bonito de ver».
Outros defendiam o 'petáculo como uma ação cultural necessária para a região:
«Zé Celso é isso ...
E a peça é uma ficção como o livro do Euclides.
A gente tem é que aproximar 'ses 'petáculos do Sertão, botar o povo pra pensar.
Canudos não é só reza, é pra ousar também.
Que outros Sertões venham para o Sertão», afirmou Gildemar dos Santos, morador de Uauá, cidade vizinha de Canudos.
Para comportar tantos turistas, os moradores da cidade alugavam quartos e até casas inteiras.
Entre os visitantes, 'tiveram as atrizes Mariana Ximenes, Maria Padilha e o Senador Eduardo Suplicy.
Mariana Ximenes participou de algumas cenas do Homem II.
No dia anterior, sua presença na platéia causou um pequeno alvoroço que chegou a interferir no bom desenrolar de uma cena.
Eduardo Suplicy fez conferência na tarde do dia primeiro.
à noite, assistiu à peça, participou de uma cena e fez um discurso antes do início do segundo ato.
Para não finalizar
Cento e dez anos depois do fim da guerra fratricida, uma multidão se reuniu em torno da história de Canudos e da formação do povo brasileiro.
Quatro mil pessoas em Quixeramobim, quatro mil em Canudos.
Impressiona as paixões que o tema desperta.
Passado vinte dias da última apresentação no Ceará, as rádios locais e as 'colas ainda fazem debate sobre os tema.
Estudantes, pesquisadores, artistas, religiosos, políticos se deslocaram para os dois municípios para celebrar os feitos de Antônio Conselheiro e rememorar a grande tragédia brasileira.
Três grandes imãs da cultura:
Antônio Conselheiro, Euclides da Cunha e Zé Celso Martinez.
Trinta horas de 'petáculo e vidas inteiras reviradas por o empuxo existencial do Teatro Oficina.
Recordemos tudo para que repitamos nada.
Quixeramobim não será mais a mesma.
Canudos, também não.
Importa saber, ao final, se o Estado Brasileiro continuará de costas para os sertões do norte baiano e para o crime que implementou contras seus filhos.
Que o Brasil desmassacre Canudos e Antônio Conselheiro e que a tragédia canudense deixe de se repetir nas favelas, no campo e nas periferias das cidades de todo o mundo.
Número de frases: 159
Depois desse tempo todo de movimentação no circuito independente, ocorreu o surgimento de uma série de festivais, jornalistas, agentes e artistas dos mais diversos segmentos além música.
O que prova o caráter de transformação política através da cultura, o que acaba sendo na verdade, um dos «fins», dos objetivos finais de todo 'se trabalho.
O que acontece de fato é que os trabalhos iniciais se deram com a música por ser 'te o segmento artístico «menos difícil» para o início de movimentação cultural em cenários que se encontravam viciados e inertes.
Mas 'sa máxima de só o segmento artístico «música» 'tar efetivamente presente em eventos e festivais valia só até o momento em que se criasse uma rede de integração que conectasse os festivais, fizesse com que novos festivais surgissem e, por conseguinte, colocasse em contato próximo todos os agentes de 'sa história toda.
De aí ao surgimento de entidades como a Abrafin (Associação Brasileira dos Festivais Independentes) e o Circuito Fora do Eixo (CFE, para os íntimos).
As duas entidades surgiram a partir de reuniões no Goiânia Noise 2005.
Em a verdade, as discussões haviam se iniciado já no Calango 2005, em Cuiabá.
Em a programação do «Calango na Mesa» 'tavam importantes representantes do independente nacional, entre eles, o pessoal do Goiânia Noise.
Ali ficou definido então que era de extrema importância nos festivais o debate referente à cadeia produtiva e mobilização política.
A próxima reunião havia sido marcada para o Noise.
Em o festival goiano 'tiveram presentes ainda mais representantes de uma série de festivais de vários 'tados brasileiros.
Em reuniões realizadas diariamente no Sebrae, foi criada a Abrafin -- Associação Brasileira dos Festivais Independentes, já com alguns dos pré-requisitos necessários para a associação de festivais.
Paralelo, porém não alheio a isso tudo, 'tavam representantes de 'tados brasileiros que representavam a produção cultural bem longe do eixo rio são Paulo.
De Mato Grosso, o Espaço Cubo, representando o Festival Calango e a Catraia Records, do Acre, representando o Festival Varadouro.
Esses dois coletivos realizaram reuniões um pouco mais informais que as do Sebrae.
De os quartos do hotel, nascia o Circuito Fora do Eixo e suas premissas básicas:
Distribuição, Circulação e Produção de Conteúdo.
Sem pré-requisitos de filiação, o Fora do Eixo vai além das questões geográficas, não excluindo agentes situados «no eixo» que 'tejam interessados em compactuar desse modelo de raciocínio e de trabalho.
Pois bem, assim como foi pioneiro na questão dos debates com vista na cadeia produtiva dos festivais, o Festival Calango obteve o mesmo com a questão das artes integradas.
O primeiro dos links se deu muito naturalmente com o audiovisual.
Fato é que toda banda necessita de um clipe, um vídeo institucional que seja.
Isso fora a 'treita relação que o audiovisual mantém com a comunicação, através do surgimento de uma pá de novas mídias, sites de suporte como o You Tube, inserção de coberturas de festivais independentes em redes nacionais, mesmo que em canais fechados (ainda!)
e etc..
E isso se 'tende para literatura, artes plásticas, teatro, artesanato e tudo o mais.
Mas enfim, sendo um pouco mais 'pecífico, concentro as palavras no segmento literatura, que particularmente é a Arte Integrada que mais me seduz.
Pra começar, do que seria preciso?
Bom, ali em cima, no começo, disse que o fim, o objetivo final de tudo era a transformação política e social (quando em 'calas maiores), não é mesmo?
Então. se a gente for pensar no segmento artistico «literatura» 'pecificamente, é fatal cairmos na questão do aumento da demanda social por a leitura.
Isso, além de modos de distribuição, venda e publicação.
Em a real, acaba que o desafio é bem parecido com o enfrentado por a música no começo da história.
Até um tempo atrás era utópico à maioria 'magadora das bandas conseguir circular, gravar e distribuir o cd.
Situação que nos dias de hoje 'tá bem menos complexa, após o surgimento de uma infinidade de selos, produtoras e festivais.
Foi pensando nisso que no inicio desse ano concebi a Cativa, um projeto de editora que visa atender a 'sa demanda, porém, no segmento literário.
A idéia é a seguinte:
Aumentar a demanda social por a leitura;
e dar voz às produções literárias contemporâneas, uma vez que 'sa produção existe e cresce, porém, muitas vezes se vê cercada por muros de desconhecimento -- a tal falta de demanda social por a leitura.
Para oficializar o lançamento da Cativa, organizamos a produção de um mini-documentário com a Próxima Cena (núcleo de audiovisual do Espaço Cubo) e lançamos ambos (editora e vídeo) na Casa Fora do Eixo, domicílio das guitarras independentes do circuito que vêm dar show em Cuiabá.
Em o vídeo, intitulado «Letras de Mato Grosso», entrevistamos uma série de 'critores, poetas e chargistas de Cuiabá a respeito da atual produção e movimentação literária do 'tado.
Artistas como Eduardo Ferreira, Wander Antunes, Ricardo Leite, Lorenzo Falcão e outros deram a opinião a respeito, com a temática girando em torno do já constatado " produção tem;
o que não tem é demanda e movimentação eficaz».
Depois disso tudo, ficou óbvio:
algo em 'se sentido precisava ser feito no Língua de Calango, a etapa de literatura do Festival Calango.
Era a maneira mais próxima de aproveitar um circuito já existente para dar vazão à onda toda.
Por exemplo, voltando um pouquinho, vamos à março de 2007, quando na realização do primeiro Festival Fora do Eixo, em São Paulo.
Ali foi a primeira vez que se falou efetivamente do assunto literatura dentro do circuito.
O que rolou é que a multimídia Walquíria Raizer (Festival Varadouro -- AC) se deslocou até o festival na terra da garoa com o intuito de pesquisar a mesma idéia:
o lançamento de um livro na 'truturada rede do Circuito Fora do Eixo.
A idéia e os ideais casavam com a proposta da recém concebida Cativa.
O resultado disso tudo foi que «O Segundo Ponto das Reticências» -- o livro de poesias de Walquíria Raizer -- é a primeira obra parceira da Cativa e o primeiro livro lançado «oficialmente» (com o perdão da palavra) no Circuito Fora do Eixo, com logo na contracapa e tudo.
Até aí tudo lindo.. mas como fazer obras como 'sa chegarem nas mãos certas?
Foi a partir daí que a Cativa deu início à concepção do Língua de Calango 2007.
A problemática:
Existiam dois pontos fundamentais a serem contemplados:
discussão de idéias entre os agentes e trabalhos por a demanda social da leitura.
A solução plausível:
Um debate 'pecífico sobre literatura no Calango na Mesa e uma densa inserção da literatura no Calango na Escola.
Contextualizando.
O Calango na Escola é um projeto de incentivo à cultura que visa a inserção e difusão das manifestações culturais contemporâneas da cidade no meio 'tudantil, com vistas à aproximar e interar artista e aluno, assim como o desenvolvimento das potencialidades artísticas de cada um, tornando-os agentes de si e de sua sociedade cientes de que a cultura não se compra em mercado.
O programa é desenvolvido em 'colas públicas e particulares com o foco em 'tudantes do ensino médio.
Em o Calango na Escola são realizados shows, concursos, exposições, oficinas, mostra de vídeos, entre outras atividades.
A inserção do «Língua» no «na Escola» se deu da seguinte maneira:
concursos de redação, poesia e desenho.
Como prêmio, revistas sobre a cena independente e livros também do circuito alternativo -- como por exemplo, O Herói Hesitante (Danislau Também-MG), Gorjeta e Destino Oeste (Ricardo Leite-MT), O Segundo Ponto das Reticências (Walquíria Raizer-AC), entre outros.
A intenção é que 'ses prêmios não sejam meros produtos de recompensa, mas um 'tímulo a mais no fomento à leitura e à 'crita.
A curadoria dos concursos é também formada por 'critores e por editores de cadernos de cultura de jornais de grande circulação, como Lidiane Barros e Lorenzo Falcão (Folha do Estado e Diário de Cuiabá, respectivamente).
Já no Calango, no debate, decidimos realizar o lançamento das obras dos debatedores convidados para o festival.
Eram eles Fábio Giórgio (SP) e Walquíria Raizer (AC), e as obras «Em a Boca do Bode» e «O Segundo Ponto das Reticências», respectivamente.
Em o último dia, no stand montado de maneira simples, com um tapete sobre o chão e uns puffs, as publicações foram sensação pra quem se interessa por livros e foi ao Calango.
Satisfação impressa no sorriso das adolescentes encantadas por terem acesso a um livro de poesias inéditas e de quebra, conhecer a 'critora presente no festival ou na atenção ininterrupta do garoto que passou quase toda a noite de domingo com o na «Boca do Bode» sob os olhos, 'tudando os bastidores da chamada vanguarda paulista de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e outros.
Plena ilustração do aumento da demanda, em caráter não-consumista, porém ...
cultural.
Pós Calango, ainda 'tive no Festival Se Rasgum (Belém-PA), tocando com o Macaco Bong.
E por lá conheci ainda mais interessados na idéia, como Ismael Machado (autor do livro «Decibéis sob mangueiras», que historia a cena de Belém) e o também jornalista Alex Antunes (Bizz, Folha de São Paulo, Rolling Stone, criador da Set e autor do falado» A Estratégia de Lilith ").
O interessante é a maneira que Alex divulga sua obra nos festivais:
por ser também produtor musical (produziu os tributos a Arnaldo Baptista e a Luiz Gonzaga) Alex faz uma apresentação de música eletrônica na qual entoa passagens do livro.
Por a internet conheci também o trabalho do Sol na Garganta do Futuro (Vitória-ES), que «parece uma banda, se apresenta como tal», e envolve também cinema / vídeo, poesia, performance, etc..
Ou seja, a possibilidade de links com o que já rola no circuito é imensa.
Outro exemplo de caso foi a vinda do Acre ao Calango 2007.
Em o line-up de shows, a pop rock da Camundogs;
na literatura, as poesias de Walquíria Raizer;
e, na cobertura, a equipe da Tv Aldeia, que produziu 3 edições de programas sobre o Calango e os televisionou para 22 municípios do Acre.
E mais gente conectada é o que não falta.
Além dos já citados aí, temos Pablo Kossa, produtor da Fósforo Records (GO), autor do livro " 10 Anos de Goiânia Noise ";
Danislau Também (performer do Porcas Borboletas e autor do «Herói Hesitante» -- MG);
O Sassá, guitarrista do Trilobit (PR) e sensacional chargista -- trabalha com a revista de humor «Muamba».
Temos ainda o DemoCognítio (GO), um zine literário de excelente qualidade, o Lado R, um zine de Natal (RN), que surpreende por a qualidade gráfica e por seu conteúdo informativo e carregado de humor ...
e por aí vai ...
E isso só de começo, não contabilizando os inúmeros que existem por aí com obras publicadas ou não, alimentando blogs e demais veículos com conteúdo desse tipo.
E cara, a qualidade dos trabalhos é incontestável.
Tanto em 'tética, quanto em conteúdo.
O Ricardo Leite, por exemplo, 'se ano concorreu no HQ Mix na categoria desenhista revelação e foi selecionado entre desenhistas do mundo todo para o Dreanworks Tales, antologia mensal em quadrinhos da Titan, 'trelada por os personagens de animações dos 'túdios DreamWorks, como Shrek, O Espanta-Tubar ões, Madagascar e Os Sem-Floresta.
Desenhista cuiabano!!!
Fazer virar 'sa literatura fora do eixo é tão impossível quanto era um tempo atrás uma banda de Cuiabá concorrer ao VMB;
ou uma banda do Acre ser destaque na Bizz e na capa do Jornal do Brasil.
Ou seja, a distância é bem mais curta do que parece e diminui à medida que aumenta a empolgação dos literatos.
E por o que tenho observado, a galera tá indo com tudo e a tal da distância tem ficado cada vez mais pra trás.
Pobrezinha ...
Número de frases: 97
Texto também disponível no http://www.cativacuiaba.blogspot.com
cobertura completa no www.hellcity.blogger.com.br
Depois de algumas reuniões, últimos acertos e últimas correrias.
Materializamos uma idéia!!
Começa o primeiro evento dos Voluntários da Musica, de longe, víamos todas as equipes se 'forçando, assumindo sua responsabilidade, construindo os detalhes para a realização de um bom acontecimento.
à tarde, houve uma reunião, cada comissão separadamente, sobre como seria o plano-de-guerra para o Aumente o Volume, cada um tentando ser o mais democrático possível.
A comissão de Sonorização preparou todo o palco, assim como a instrumentoteca, juntou os representantes das bandas e fez o sorteio da ordem de apresentação, modelo mais democrático encontrado.
A comissão de Distribuição fez todo o mapeamento em 'sas duas semanas que antecediam o evento, encontrando Cd's, Ep's e livros, montando uma significativa banquinha bem na entrada das salas, fazendo sorteios de Cd's no palco, e ainda vendendo uma coletânea que, vamos dizer, foi uma das sensações lá no Misc.
Vendendo musicas das bandas que tocavam no dia.
A comissão de Produção de Eventos acertou todos os detalhes, como programar o Misc para o dia, a cerveja acabou algumas vezes, por conta do incrível aumento de publico (que somaram mais de 400 pessoas), mas sempre que acabava, tinha um carro 'pecífico só para comprar mais cervejas, o bar não ficou mais que 7 minutos sem cerveja.
O pessoal da Próxima Cena, uma das vertentes do Instituto Espaço Cubo, parceiro da Volume, gravou o show de todas as bandas, e ainda fez um enlace de entrevistas, todas as bandas foram entrevistadas após o show, o material completo será editado e logo será disponibilizado na Net.
Você verá aqui no HellCity!!
Em a sala de projeção, houve apresentações de vídeos e clipes de bandas locais, ainda houve algumas reprises, respondendo aos pedidos dos participantes.
A comissão de Comunicação foi formadas por 12 repórteres e 3 fotógrafos, todos atentos ao que acontecia, fazendo entrevistas com todas as bandas, produtores, pessoas que acompanhavam o show.
Em a sala de imprensa, via-se a movimentação, tudo isso pra fazer a cobertura ao vivo das bandas.
Além do que acontecia ao redor.
Uma hora de 'sas, quando desci pra ver o show do Lord Crossroad, chego perto do Eduardo Ferreira, do Caximir, e digo:
Iai? ... Isso ta muito louco, isso que é Rock ' n ' Roll, ele gritava entusiasmado.
Agora é só 'perar o Aumente o Volume 2, com o mesmo 'quema de show, várias bandas e tudo mais.
Abraços e até ...
:: posted by Hell City Blogger at 3:09 PM
Domingo, Janeiro 28, 2007 Lord Crossroad
Enfim Rock!
por Thiago Dezan
Estou no meu segundo show do Lord Crossroad e a cada musica que 'cuto me surpreendo e fico feliz por saber que ainda existem bandas que fazem som de verdade, como nos velhos tempos, e honram a cena independente, coisa que se tornou muito rara por causa da emopidemia que corre solta por o mundo afora ...
As grandes potencias do mundo já declararam 'tado de calamidade publica e salve-se quem puder, médicos 'pecialistas da área indicam fones de ouvido e mp3 com todas musicas do Led Zeppeling, banda que é a maior influência do Lord.
Acho que o público com mais de 14 anos e sem olhos pintados concorda com mim.
Tenho que terminar 'sa nota agora para assistir ao fim do show do Lord Crossroad.
Banda Extrauma
Por Odair
Influenciadas por bandas como AC / DC e Guns ' n ' Roses, a banda Extrauma demonstrou muita segurança, calma e técnica em palco.
O nome Extrauma surgiu de uma analogia ao Hospital Sotrauma, onde ocorreram as primeiras reuniões da banda.
O público que assistiu à banda ao vivo gostou muito do que viu e do que ouviu, gritando enquanto a banda tocava, isso foi que deu mais segurança e firmeza no palco, disse o guitarrista Dartanhan.
Em a última música a banda mistura:
Baião com o Rock e uma letra recheada de metáforas, o que fechou bem o show.
Lazzy Moon
Por Dewis Caldas
Antes da banda entrar, alguns olhares pra saber o que «'sas garotas» 'tão querendo fazer.
Quando começa, não se percebe uma 'tranheza, e sim um publico que ficou ligado, mesmo os mais «machões», que 'tavam com os braços cruzados, batiam o pé pra acompanhar a batera, que era executada com empolgação.
A apresentação ia se seguindo, os olhares aumentavam, segundo Issaf, vocalista e baixista, o show foi bom, tivemos algumas alegrias, «foi legal ver o pessoal interessado em sacar o som», ressaltou.
A o final, ainda rolou um cupido, ou melhor, Oh!
Cupido vê se me deixa em paz!!
A galera aceitou, cantando junto.
Claudia's Parachute
Por Priscila Kerche
A banda utilizou-se do som «bem-tocado» para levar ao conhecimento do público uma música nova.
Se sentira em casa -- onde, aliás, o palco se torna pequeno demais -- chamando para visita o guitar-hero Bruno Kayapy para tocar a promessa de " quase principal ";
e Hélio Flanders, para o cover de Outlaw Blues (Bob Dylan).
O vocalista dos vangs ainda aproveitou o poder de ficar sozinho no palco e ainda assim sustentar o público de uma banda completa para mandar «Semáforo» à la guitarra-e-voz.
Em o vocabulário do caludia's Gabriel:
Uma diliça!
Pleyades
Por Alfa Canhetti
A apresentação de Pleyades foi muito agradável.
A banda ta bem ensaiada, riffs originais e a junção daquele som pesado com o vocal melancólico foi aprovado por o público.
Teve até um desabafo do Bruno (vocal) sobre o aumento da tarifa do transporte público " Se aumentar pra 2,05 a gente pula catraca sim.
Foda-se empresários "
O som dos caras é considerado por eles como «filosofia da vida» e " ruídos "
A banda acabou de gravar CD e 'tão finalizando a agenda desse primeiro semestre «agora a gente tem que se apresentar e divulgar nosso trabalho».
Eles se apresentaram no Grito Rock no primeiro dia, 17/02 (sabado) às 1:50.
Quer conhecer mais sobre Pleyades?
Entre na comunidade " Pleyades "
ou no fotolog:
www.fotolog.net/pley ades
Chilli Mostarda Por Jaqueline Pereira
Com som incisivo e altas performances, a banda composta por Chabô no vocal, Frog na batera, Mayconn, guitarra, Capilé guitarra, Pink baixo, efervesceram a galera no Misc, que no momento já tinha um público de aproximadamente 300 pessoas.
Capilé de produtor à guitarrista declarou:
«Uma das melhores noites de Cuiabá da minha vida, e eu nem sou da Volume, mas quem falar mal, eu vou dar na cara, foi lindo!" --
disse A banda pretende lançar um EP, com 8 músicas antes de ir para Sampa, no dia 15/02, onde tocarão Grito Rock Jaú, tocam na capital e em Mogi das Cruzes.
A banda declara que Cuiabá precisava de um movimento que reunisse um número grande de bandas.
A nova formação do Chilli mostarda existe há um ano.
A banda 'teve na capa do Overmundo, por a segunda vez -- (Músicas polêmicas)
Maiores informações da banda:
www.chillimostarda.com.br Orpheus
por Ney Hugo
Ainda em seus primeiros shows, a Orpheus é uma das bandas novas da capital.
Tendo feito seu primeiro show nas Prévias do Festival Calango no ano passado, a banda veio realizando uma série de pequenas apresentações em 'colas da rede pública da cidade.
Hoje no MISC, a banda mostrou mais um pouco de seu pop rock, conseqüência das influencias oitentistas (Legião Urbana, traduzindo).
Mais bacana ainda em 'sa história é que a banda já vem na perspectiva direta da Volume.
Segundo o guitarrista Jair Miau, que participa da comissão de sonorização, " participar da Volume significa ter consciência de não ficar 'perando por os outros.
É ir lá e fazer!"
Alguém discorda?
Audiovisual entrando em cena!
Por Thiago Dezan
Tão rolando ainda várias intervenções, como entrevistas com músicos, cobertura de shows para produção de democlipes e mostra de vídeos, que por sinal superou as expectativas e teve grande sucesso de publico, a empolgação era tamanha que os melhores curtas-metragens foram reprisados.
Os filmes 'tão por conta da Próxima Cena, que é o núcleo de audiovisual do Espaço Cubo, formado por 'tudantes da UFMT, membros do Cubo e jovens com muita, mas muita força de vontade e criatividade.
Espero 'tar certo a respeito dos meus comentários e que o publico tenho continuado na sala de projeções por os vídeos e não por o ar condicionado!
Acabou De Sair O VOLUME 1!
por Talyta Singer
Acabou de sair o primeiro zine da Comissão de Comunicação!
Aliás, saiu e já acabou.
Aí embaixo você confere o resultado do que a equipe na tarde de hoje:
SNORKS
Por Kleber
Com um som cada vez mais definido a Snorks vem roubando a atenção do público punk rock de Cuiabá para os palcos em que toca, com uma harmonia agressiva contrastando com vocais melódicos a banda chama atenção não só do publico punk, mas de todos os outros presentes no platéia.
Poucos meses na 'trada, e já mostram um som definido que falta em bandas com muito mais «experiência» que os garotos, mais experiência só se for de 'trada é claro, pois com o trabalho que a banda realiza na Volume, nas áreas de comunicação e sonorização, eles vêem se capacitando para uma autogestão.
Entrevista
Kleber: O que vocês vêem de mudanças com a implantação da volume na cena?
Felipe -- A volume na minha opinião foi um dos melhores movimentos que eu vi no cenário rock, é onde não existe uma concorrência com as bandas, é a primeira vez que vejo um coletivo de bandas se unindo para um maior conforto e beneficio de todas.
Kleber:
O que acharam do evento?
Felipe -- O evento foi ótimo, com casa cheia, mas fez falta uns retornos de voz no palco, mas a organização foi perfeita e saiu tudo como no planejado.
AOXIN
Por Issaaf Karhawi
O bom da Aoxin é que os caras fazem um som pop, não pop ruim, pop de popular mesmo.
Além de terem a idade dos fãs, os puxam para o show até com palminhas sincronizadas.
O som é pesado e além dos integrantes (que são muitos!)
irem de um lado para o outro, de cima e pra baixo, compulsivamente, vão pratos e palhetas juntos!
Destaque para os dois frontmen e o público histérico e 90 % feminino!
E vale ressaltar o óbvio, a Aoxin é também uma banda da Volume que afirmaram que a idéia já rola no underground mas não da forma organizada e unida que vem sendo concretizada por os voluntários da música.
Eles ainda ressaltaram que o evento foi bem organizado e mesmo com tantas bandas não rolou bagunça e desordem, faltou, reclamaram, mais tempo para a apresentação.
LICOTYPE
Por Gustavo ZaZu
Para os integrantes da banda o nome surgiu da falta de idéias e opções.
A principio o nome era um nome provisório e ao passar do tempo se tornou o nome definitivo da banda.
Cada integrante tem uma influência diferente e 'sa mistura de gostos musicais dá a origem ao som forte e agressivo de Licotype.
Para banda o show em geral foi bom, mas eles 'peram melhorar a cada apresentação.
Em a opinião do publico a banda não deixou a desejar nos aspectos de presença de palco e instrumental.
Em as musicas tocadas, a que mais chamou atenção foi a ultima, que tem como nome Vida Enfim, levada por a grande influência de bandas como FRANZ FERDINAND.
Banda Rhox além do Volume
Por Sika
A Rhox, que em abril 'tará fazendo dois anos de 'trada, foi a primeira banda no Aumente o Volume, tocando cinco músicas, sendo que 2 são inéditas mas sem nomes «Eu geralmente nunca coloco nomes nas minhas músicas, e quando a música tem nome, na maioria das vezes 'queço», comenta o 'quecido vocalista André Luis.
Os caras, que mostraram total «Tempestade destruidora» no evento, acham que a experiência de fazer parte da Volume é muito significativa em prol da cultura mato-grossense, que julgam 'tar carente, mas que colaboram o máximo para que isso se reverta.
Começa o Aumente o Volume!!
Por Dewis Caldas
O primeiro evento dos Voluntários da Música, apresentando 11 bandas de Cuiabá, das mais distintas influências.
Tudo já 'tá pronto aqui no MISC (Voluntários da Pátria, nº 57).
Além das bandas 'tamos mostrando toda o corpo da Volume, como a sala de distribuição, que vende os produtos das bandas da Volume, a equipe de sonorização, com toda a 'trutura de palco.
A produção de eventos se atendo à toda infraestrutura, e a comunicação, que 'tará lançando notas simultâneas de todas as bandas que tocarem.
Então vamos lá.
Ingresso:
R$ 2,05.
Número de frases: 132
Cobertura completa no www.hellcity.blogger.com.br Visitem um antiblog ...
Visitem o antiblog:
http://kastrowisk.zip.net Em 'se 'paço destinado ao ato de explorar ao máximo minhas angustias e solidões, não existe lugar para imagens belas ou de encantadoras paisagens ...
Esse 'paço é somente de letras;
letras que simbolicamente são gotas de sangue.
Meu ser 'tá ali, aprodecendo nas palavras que são cuspidas de forma direta e rápida.
Meu antiblog é a minha sombra, minha fuga da dor e de toda 'sa tragédia que é conviver com seres que não conseguem enxergar que não passam de pequenas criaturas vazias de tudo.
Esse antiblog é para aqueles que não 'tão muito afim de compatilhar o lado «falso» da existência ...
Venha para o subsolo e descubra outras idéias.
Eu me faço em poesia ...
Poesia que 'corre na vala e evapora para o infinito.
Eu faço poesia de raiva e por rancor.
Número de frases: 12
Eu faço poesia para 'quecer de mim.
Não costumo muito ir a missas, nem sequer tenho uma religião, como se diz no orkut, «Tenho um lado 'piritual independente de religiões».
Mas ontem foi uma ocasião 'pecial e eu fui.
Então o padre diz «Diferente da matemática, no amor, a soma de dois é um», claro que já é um dizer antigo, mas nunca tinha pensado de 'ta maneira.
E então ele continua ...
«Nós acostumamos a 'quecer o passado e o futuro ...
Todos os dias as pessoas ficam em 'se frenezi de ir e vir e correria e stress diário, o sol se levanta e se põem todos os dias da mesma maneira a séculos e fará isso por muito mais tempo ..."
E não é que ele 'tava sendo óbvio mas muito coerente nos dizeres?
As pessoas 'tão infartando por perder uma venda, 'tão matando por muito pouco (mesmo q fosse muito), e 'tão brigando umas com as outras por besteira ...
e o sol indo e vindo, sempre com a mesma calma.
Será que antigamente as pessoas tinham uma melhor visão geral da vida?
E por isso não infartavam tanto, brigavam tanto e roubavam tanto?
Para que tudo isso se vamos um dia morrer?
Não é melhor aproveitar todo nascer e pôr so sol alegremente, com a consciência limpa, de que não fez mal a ninguém, que você ajudou alguém a ser mais feliz?
Que fez mais um amigo ao invés de perder mais um, ou 'quecer?
Muitas perguntas, mas a minha resposta é apenas uma.
Tudo vale a pena, se não fizer mal a ninguém.
Vamos aproveitar sem se aproveitar.
Deixe que o sol se ponha mais um dia sem termos acabado com a natureza, sem termos feito mal a vida.
Vamos deixar que ele nasça e com ele uma nova 'perança!
Número de frases: 20
«Poeira»!!!
Se você já viu no «Teatro», poderá ver no» Cinema»!!!
«Poeira» no Teatro
Texto incluso no 'petáculo " Raízes do Pantanal "
Texto: Augusto César Proença
Direção: Erika Matiolli
Raízes do Pantanal é um apanhado de textos de várias obras de Augusto César Proença incluindo «Poeira».
Augusto César Proença Sul-mato-grossense nascido em Corumbá.
A novela que dá nome à peça, «Raízes do Pantanal» conquistou o Prêmio Brasília de Ficção em literatura e a «Poeira» foi premiado na França.
Concepção da Direção:
A concepção da Direção foi inspirada na pesquisa realizada por:
Albana Xavier Nogueira e Waldomiro Aparecido Vallezi, na ocasião, ambos professores da UFMS-Universidade Federal de MS -- Centro Universitário de Aquidauana, que reinterpretaram a sígnica do universo natural pantaneiro onde os mesmos 'tabelecem os mais diversos níveis de codificações, de acordo com os fatores sociais, culturais, regionais, econômicos, que condicionam suas visões de mundo.
A Direção inspirou também na obra do 'critor Lucelino Rondon Corrêa, nascido em Campo Grande MS, filho e neto de pantaneiros, piloto aposentado, criado na Fazenda Porto Ciriaco á beira do Rio Aquidauana, inspirou Ana Lúcia Orsi, em sua tese sobre o Pantanal;
começou a colher dados e a gravar informações sobre enchentes, animais em extinção e outros.
Veio então a idéia de catalogar termos tendo sido publicado o primeiro «Glossário Pantaneiro», valorizando as tradições e a cultura de um povo.
Ficha Técnica
Texto: Augusto César Proença
Adaptação: " Edson da Silva Profeta "
Direção: Erika Matiolli
Elenco: Vanessa Marques e Profeta
Sonoplastia: Ellys Natalia
Cenário: O grupo
Figurino: Rita de Fátima
Iluminação: O Grupo
Sinopse: O 'petáculo retrata o pantaneiro no seu habitat natural, num mundo de signos verbais e não verbais que o obriga, por força da sobrevivência, codificá-los e / ou decodificá-los, relação 'sa que 'tabelece com si, com os outros e com a natureza.
Premiação:
V Festival Campo-GRANDENSE " O AMBIENTE EM CENA "
Melhor 'petáculo
Melhor Ator Melhor Cenário
Indicação Direção
Atriz Obs:
O 'petáculo «Raízes do Pantanal» é do Grupo Teatral Minas da Imaginação e já circulou em varias cidades de Mato Grosso do Sul.
Já participamos de vários projetos culturais, mostras de teatro e eventos diversos.
Esta hoje com mais de 200 (duzentas) apresentações
«Poeira no Cinema "
Terminam as filmagens do curta-metragem " A Poeira "
Escritor corumbaense consegue patrocínio do Ministério da Cultura.
O curta-metragem baseado no conto «Em 'sa poeira não vem mais seu pai» de Augusto César Proença foi selecionado entre 170 inscritos.
Corumbá (MS) -- O projeto A Poeira, curta-metragem baseado no conto «Em 'sa Poeira Não vem mais seu pai», do 'critor corumbaense Augusto César Proença foi premiado por o Ministério da Cultura/TVE -- Brasil e receberá incentivos para sua produção.
O filme foi selecionado entre 170 proponentes de todo o Brasil e tem o roteiro feito por o próprio autor.
Este será o primeiro curta-metragem, de ficção, de temática infanto-juvenil, a ser rodado inteiramente numa fazenda do Pantanal.
A produção utilizará equipe e atores de Mato Grosso do Sul e exibido em Rede Pública de Televisões Educativas do país e do exterior.
O filme terá a direção do cineasta e professor da UFMS Hélio Godoy coordenador do documentário «Banho de São João», apresentado a comunidade corumbaense no mês de junho do ano passado.
Sinopse
O filme de 13 minutos conta a história de um menino que perde seu pai vaqueiro do Pantanal num acidente de cavalo.
As lembranças da valentia do pai e da paisagem pantaneira ficam para sempre guardadas, inspirando coragem e bravura, sendo aguçada por a poeira dos «tropéis» das patas raspando a terra.
Os personagens são compostos por a mãe (Joelma Nogueira), pai (Adilson Oliveira) e o menino (Wellington Fernandes).
Godoy afirmou que o filme é destinado ao público infanto-juvenil, já que o edital que o premiou era conhecido como Curta-Crian ça III.
Em todo o Brasil 'tão sendo produzidos e «A Poeira» é o único representante do Centro-Oeste.
Segundo o diretor todas as pessoas da equipe de filmagens são residentes em Mato Grosso do Sul, ao contrário da maioria dos filmes que sempre trazem pessoas de fora.
Autor do Texto
Augusto César Proença é membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e já teve cerca de nove obras publicadas, entre elas:
Snackbar -- 1979;
Raízes do Pantanal -- 1989;
A Sesta -- 1993;
A condução -- 1995;
Pra qualquer lugar -- 1995;
Em 'sa poeira não vem mais seu pai -- 1996;
Pantanal: gente, tradição e história -- 1997;
Corumbá de todas as graças -- 2003;
Memória Pantaneira -- 2004.
O autor foi premiado no Concurso de contos " Ulisses Serra ";
2° Lugar na Obra:
«O vaqueiro Narciso --1979 "; Prêmio de Edição:
«Concurso Academia Valenciana de Letras e Contos O Tio Valença» / RJ;
Prêmio de Edição -- Concurso da Editora Litteris Conto Paz e Amor -- RJ -- 1998;
1° Lugar Grande Concurso de Contos e Poesia do Brasil Editora Litteris -- RJ -- obra:
«A Sesta --1997». Escreve artigos para o site Capital do Pantanal e é membro da comissão que 'tá organizando uma coletânea sobre o poeta Lobivar de Matos.
Número de frases: 68
Será que quem 'tá buscando «ter um produtor» sabe realmente o que 'tá procurando?
A palavra " produtor "
Em a prática, não do ponto de vista acadêmico ou da pouca legislação que regula assuntos de ordem cultural no Brasil, a palavra «produtor» é empregada para denominar as pessoas que desenvolvem, de forma amadora ou profissional, uma atividade ou um conjunto de atividades de suporte para realização de uma ação cultural.
Trocando em miúdos, a pessoa que trabalha preparando um programa de rádio é chamada de produtor;
a pessoa que trabalha preparando um programa de TV é chamada de produtor;
a pessoa que organiza a gravação de um CD é chamada de produtor;
a pessoa que organiza um evento cultural é chamada de produtor;
e por aí vai.
Em a música, os mais comuns empregos da palavra «produtor» são para designar:
-- a pessoa responsável por o projeto de produtos e serviços culturais (produtor cultural proponente de um projeto de gravação e show de lançamento de CD);
-- a pessoa responsável por o conceito artístico (produtor musical);
-- a pessoa responsável por o registro da propriedade intelectual dos fonogramas (produtor fonográfico);
-- a pessoa responsável por o suporte administrativo nas atividades de produção de CD e organização de shows (produtor executivo).
É comum também se utilizar a palavra «produtor», no meu ponto de vista de forma equivocada, para se referir a pessoas que fazem divulgação e assessoria de imprensa (profissionais da área de comunicação), agenciamento (profissionais da área comercial e de marketing) e gestão de carreira artística (empresário).
Isso ocorre nas situações em que o produtor executivo acaba acumulando funções que são exercidas por 'tes outros profissionais.
Com tantas variações para os significados da palavra produtor, mais importante que querer ter um produtor é saber qual tipo de produtor se 'tá procurando.
Avaliar as necessidades
Para que um músico saiba que tipos de produtores poderão ser importantes no desenvolvimento do seu trabalho, é importante aprender a avaliar suas próprias necessidades.
Muitas vezes se pensa que a necessidade é ter um empresário quando na verdade a real necessidade é aprender a cantar.
Muitas vezes se pensa que a necessidade é gravar um CD quando a real necessidade é aprender a compor e fazer arranjos.
Muitas vezes se pensa que a necessidade é vender shows quando a real necessidade é aprender a ter uma postura profissional.
Muitas vezes se pensa que a necessidade é conseguir uma gravadora que invista dinheiro para veicular sua música quando a real necessidade é investir na construção de formação de platéia através de um site na internet.
A visualização da carreira artística do ponto de vista de sua inserção na cadeia produtiva da economia da cultura (produção, distribuição, comercialização e consumo) irá fornecer boas pistas sobre que profissionais poderão agregar valor ao trabalho do músico.
Os formatos de trabalho
Definidas as necessidades e que produtores poderão atendê-las, é hora de se pensar em qual formato se quer trabalhar.
É o artista que contrata o produtor ou o produtor que contrata o artista?
Não há regra para isso.
Há situações em que o músico contrata os produtores que necessita e há situações em que os produtores contratam os músicos que 'tão procurando.
O importante é que a relação seja profissional e haja um contrato onde 'tejam definidas claramente as responsabilidades de cada um e as formas de pagamento.
Abordagem e apresentação
Utilize recursos como e-mail, orkut, sites, etc para se apresentar brevemente e solicitar os procedimentos necessários para apresentar seu trabalho.
Expectativas
Muita gente procura produtores que 'tejam dispostos a investir em seu trabalho.
Isso 'tá cada vez mais raro, fato que leva a muitos artistas a aprenderem a ser seus próprios produtores.
Há também os que se preocupam excessivamente se o produtor que irá trabalhar com eles fará tão bem o trabalho quanto eles próprios fazem.
Excesso de perfeccionismo pode afastar bons profissionais.
O que realmente pode se 'perar do trabalho de um produtor?
Tudo o que for combinado.
Para isso, é fundamental ter um contrato.
Então ...
Número de frases: 40
... mais importante que querer «ter um produtor» exclusivo é poder «contar com serviços de um produtor» para realização de atividades onde um olhar diferenciado, trajetória profissional e formação possam contribuir com o desenvolvimento da sua carreira artística.
Eu gosto de ver investimentos inteligentes e benéficos para a cultura mineira.
E um excelente exemplo disso é a Stereoteca 2007, que traz encontros [musicais] inéditos, fusões inusitadas e parcerias instantâneas toda quarta-feira (a partir da próxima até Outubro), no charmoso teatro da Biblioteca Pública Luiz de Bessa.
A Stereoteca trará diversidade de ritmos, de gêneros, de geografias:
centro e periferia, morro e asfalto descendo de quadros fixos e experimentando os flashes da locomoção.
A proposta é percorrer do rap à MPB, da surf music mineira ao regional, da música eletrônica àquela considerada simplesmente pop, com apresentações regulares (toda quarta-feira), em local acessível (Praça da Liberdade) e a preços populares (a inteira é R$ 6).
Segundo uma das idealizadoras do projeto, «Danuza Carvalho,» fazer com que os artistas [mineiros] se prestigiem " é o maior objetivo de 'sa biblioteca onde ninguém vai pedir silêncio, que pretende repetir (e aumentar) o sucesso da 'tréia, no ano anterior.
Em 2006, cerca de quatro mil pessoas marcaram presença em 'se que foi um dos mais bem sucedidos projetos culturais de Belo Horizonte.
A casa cheia em todos os shows incentivou a produção a aumentar a duração da Stereoteca em 2007.
Serão 19 shows durante 'sa edição, sendo sete lançamentos de CD:
Makely Ka, Alda Rezende, Carlinhos Ferreira, Antônio Santanna, Meninas de Sinhá, Celso Moretti e Guarda de Moçambique.
Curadoria
«Além do reconhecimento da platéia, ( ...)
nos surpreendemos positivamente com o envolvimento dos artistas.
Fomos procurados por muitos músicos querendo participar», conta Danuza.
Tanto foi o retorno que em 2007 nenhuma figurinha será repetida nos palcos da Stereoteca:
convidar artistas que não se apresentaram em 2006 foi uma das preocupações da curadoria do evento.
A seleção de talentos ficou por conta dos jornalistas Kiko Ferreira (Rádio) e Wagner Merije, em conjunto com a própria Danuza Carvalho (Agência de Cultura Casulo).
Também é a curadoria que propõe os encontros -- muitos dos músicos nunca haviam dividido um palco.
FIDELIZAÇÃO
Assim como ao chamar colegas para parcerias musicais, os artistas realizam trocas e exercitam a cooperação, a distribuição de um álbum ilustrado é a 'tratégia de divulgação da organização para chamar atenção do público para o projeto.
O material é uma atração à parte, com ilustrações feitas 'pecialmente por os artistas Fred Paulino, Alexandre B, Fernando Rabelo, Ju Mafra, João Maciel e Wally.
O projeto foi elaborado de maneira artesanal, com colagens e textos manuscritos.
Concebido por Fred Paulino (Osso Design), o caderno de programação dos shows foi confeccionado com base em duas idéias, que 'tão diretamente ligadas ao 'paço em se realizam os shows (uma biblioteca) e à proposta musical do projeto (parcerias musicais inusitadas).
Promoção
As dez primeiras pessoas que apresentarem álbuns completos levam, no fim do ano, uma coleção de CDs.
Para conseguir as figurinhas, basta comparecer aos 'petáculos e garantir tanto o livreto ilustrado como as figurinhas adesivas de caricaturas dos artistas e ilustrações relacionadas ao seu 'tilo musical.
Realização
O Stereoteca é produzido por a Casulo e por o Mercado Moderno.
Através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o projeto captou R$ 200 mil da Telemig Celular, empresa parceira também em 2006.
Segundo a representante da operadora, Maristela Fonseca, o diálogo entre artistas é um dos principais interesses da Telemig no projeto, que também se interessa por o formato de apresentações regulares ao longo do ano num teatro de boa 'trutura.
Outro parceiro crucial é a Rádio Inconfidência, que além de colaborar na curadoria também veicula os shows toda sexta-feira, às 22 horas (FM 100,9).
Segundo Gustavo Reis, a Stereoteca tem mérito não só em divulgar novos artistas, mas também em formar público consumidor de cultura, e reflete a «ideologia» da rádio, que pretende tocar «música inteligente sem ser pedante nos próximos 70 anos».
Diálogo
Paralelo às apresentações musicais, acontecerá um ciclo de debates em parceria com o coletivo Espaço Cubo.
Em os dias 27, 28 e 29 de Junho, no Meia Ponta / Espaço de Cultura Ambiente, o Stereocubo discutirá «Música daqui para frente:».
A organização ressalta que a organização do Stereocubo é trabalho voluntário de todos os envolvidos.
«O patrocínio é importante, mas produtores podem procurar ferramentas e parcerias para fomentar a cultura também», defende Danuza, que evita se prender a recursos captados no mercado.
Em 2006, o Overmundo co-produziu o Stereomundo:
ciclo de debates que discutiu jornalismo cultural, cultura no terceiro setor, música fora do eixo e produção colaborativa na internet.
Um dos convidados do ano passado foi antropólogo Hermano Viana
Serviço O Stereoteca começa na quarta-feira, 6 de junho, com o show do primeiro CD solo de Makely Ka.
Excepcionalmente na quinta-feira, 7 de junho, Alda Rezende completa a programação de abertura do projeto.
Até o dia 3 de outubro, 38 artistas mineiros se apresentam no Teatro da Biblioteca Luiz de Bessa.
Os ingressos são vendidos na bilheteria apenas no dia do show, custam R$ 6 (a inteira) e garantem um pacote de figurinhas.
Número de frases: 45
Em o site tem a programação completa e dá para baixar um MP3 de cada artista.
Viagens e " Alucinações
Le Suicide " -- Por Simbioze
Um dos maiores profissionais da área de tratamento de imagens digitais mora na cidade de Uberlândia / MG e tem como hobby ensinar as pessoas como ler e entender a vida por meio das imagens.
Jean Carlos, mais conhecido por Simbioze, após assistir o filme «Dandelion» (Direção: Mark Milgard), criou uma de suas maiores obras, talvez a de maior impacto na sua carreira, que é «Le Suicide».
Para Simbioze, 'ta imagem «tenta mostrar a lado fraco do ser humano, que em algum momento da vida, numa situação difícil, se deixa levar por ele».
Quando o artista cria algo, ele a visualiza e tenta montá-la.
A dificuldade 'tá em torná-la fiel ao seu pensamento.
Simbioze 'clarece que todas as imagens por ele criadas tem um pouco sobre sua pessoa.
Obviamente, em «Lê Suicide», a sua intenção não é demonstrar que ele pensa em se matar ou algo do gênero, mas sim ilustrar como se sentia após assistir o filme» Dandelion».
Número de frases: 10
Esclarece ainda que faz montagens com photoshop e tratamento de imagens com o conhecimento de designer adquiriu aos longos dos anos e procura sempre ajudar as pessoas que querem aprender, disponibilizando material sobre Photoshop na minha página http://simbioze2.multiply.com/ Ministério da Cultura
O lançamento do primeiro pacote de «Vídeos de Bolso» -- feitos por meio de máquinas fotográficas digitais, celulares e afins -- será realizado nos dias 3 e 4 de maio, em Brasília e em São Paulo, respectivamente.
Uma iniciativa do Ministério da Cultura, do Ponto de Cultura Vila Buarque, de São Paulo, e da TV Brasil -- Canal Integración.
O objetivo é 'timular e disseminar as técnicas de produção de conteúdo audiovisual de baixo custo.
Em 'ta quinta-feira, em Brasília, comparecem à cerimônia os secretários de Programas e Projetos Culturais (SPPC / MinC), Célio Turino, e de Políticas Culturais (SPC / MinC), Alfredo Manevy.
Será realizada a partir de 19h, no Espaço Cultural Renato Russo (W3 Sul, quadra 508).
E, em São Paulo, o lançamento na sexta-feira (4), acontece às 19h, no auditório da Ação Educativa (Rua General Jardim, nº 660, Vila Buarque).
O Ponto de Cultura e o Projeto Vídeo de Bolso
O Ponto de Cultura Vila Buarque desenvolve projetos com atividades culturais e sociais nas áreas de rádio, vídeo, cinema e Internet além de cursos, oficinas e debates.
Trata-se de um projeto de cultura digital que tem como proposta promover atividades culturais e sociais, com o objetivo de integrar os moradores e freqüentadores da Vila Buarque, região central da cidade de São Paulo.
Durante as oficinas realizadas por o Ponto de Cultura foram produzidos cerca de 40 «Vídeos de Bolso», por meio da parceria com a TV Brasil -- Canal Integración, viabilizados e 'timulados por o Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania -- Cultura Viva, do Ministério da Cultura.
As oficinas de «Vídeos de Bolso» surgiram a partir da constatação de que existe uma tecnologia de captação de imagens de baixo custo, como por exemplo, as filmadoras caseiras, as máquinas fotográficas digitais, celulares, scanner de imagens e download e mixagem de material na Internet.
Essas ferramentas favorecem a democratização da produção e disseminação de conteúdos audiovisuais.
As oficinas 'timulam a produção de conteúdos em formato pequeno, que não deve exceder 5 Mb, e ter, no máximo, 60 segundos de duração.
Para participar
Os interessados em participar da oficina «Vídeos de Bolso» deverão ter algum dispositivo móvel, como:
celular, smartphones ou PDAs (equipados com câmera fotográfica e / ou captação de áudio / vídeo) ou câmera fotográfica digital.
São concedidas bolsas integrais para os que residem, trabalham ou 'tudam em Vila Buarque.
Para as ONGs e entidades que queiram enviar representantes, também há bolsas.
Para os demais, será cobrada uma taxa de R$ 350,00.
http://www.cultura.gov.br/noticias/noticias do minc / index.
Número de frases: 21
php? p = 25941 & more = 1 & c = 1 & pb = 1 Um caçador de tendência é um cara que sai por aí 'carafunchando o que 'tão vestindo, falando, fazendo, comendo, gostando e mais um monte de gerúndio.
Ele é contratado por a indústria e seus parceiros para inspirar inovações e obviamente antecipar lançamentos.
A conseqüência 'perada -- além do truque óbvio de dizer que a marca é inovadora -- é de ganhar um mercado que já existe.
Se uma grife lança uma coleção com a cor que já 'tá nas ruas, ela ganha os adeptos que já procuram a cor em questão, para dar um exemplo rasteiro.
Tendência portanto é querência.
E por mais que a Miranda Priestly (Priest de sacerdote, portanto, Priestly, sacerdoticamente) tente explicar que uma cor é muito mais que uma simples cor (sic) -- é um 'talo quase transcendental de gênios genialmente geniais -- o objetivo é mais prosaico -- e muito mais razoável, considerando justamente que é uma «idéia» (assim, entre aspas mesmo) que movimenta bilhões de dólares e comprimidos de antidepressivos.
Portanto, sob 'se ponto de vista, 'ses caçadores aí fazem todo o sentido, mesmo quando eles são -- como é muito comum -- chupadores ágeis de idéias alheias.
Em tempo de internet, caçar tendências chupadas é moleza e engana muita gente «ocupada demais» por aí.
Caçadores de tendências não são nem inúteis nem gênios.
Mas o que inebria são os ditadores de tendências.
Esses são Mirandescos.
Ditar tendências é apropriar-se de uma de 'sas querências já queridas por as pessoas e dar uma forçada, uma anabolizada devidamente midiatizada.
É mais ou menos pegar a tal da cor -- para permanecer na caricatura -- e gentilmente influenciar os canais de acesso à informação de que 'sa é a cor que 'tá «pegando», que é» tudo», que é o «ó», e que você é um lixo se 'tiver com outra.
Casou a fome com a vontade de comer.
A «tendência» que já é «querência» vira histeria, uma necessidade quase que fisiológica, a base da pirâmide de Maslow:
mais vital 'tar vestindo lápis lazuli do que comer, «comer» ou des-comer.
Pois, apesar do ingênuo-quase 'túpido roteiro, apesar do bom-mocismo forçado, do e do «o Diabo Veste Prada» -- mais raso, mais digerível do que «Prêt à porter» do Altman -- tem lá seus ensinamentos:
«Caçadores e ditadores de tendências, eles ainda vão te pegar».
Número de frases: 18
Aconteceram no período de 18 a 22 de agosto, na Escola Municipal Tiradentes, em Nossa Senhora da Glória, durante os turnos da tarde e da noite, as oficinas de Literatura de Cordel do projeto «Glória Cantada» em Versos, que idealizamos e executamos, sob o patrocínio do Programa BNB de Cultura -- Edição 2008.
As oficinas produziram bons frutos.
Além do 'tímulo à leitura da Literatura de Cordel, conseguimos lançar a semente para a sua produção.
Alguns dos participantes das oficinas já 'tão com projetos de 'crever seus próprios folhetos.
Um de eles, João Paulo, manifestou, inclusive, a vontade de realizar uma adaptação de um folheto do cordelista Gauchinho (de Nossa Senhora da Glória-SE) para o mangá, pois João é um desenhista aficcionado por a técnica oriental.
A propósito, as oficinas provocaram a descoberta, por parte de alguns de seus participantes, das obras do cordelista Gauchinho, pois 'tas também foram lidas e discutidas durante as atividades, e despertaram o interesse dos alunos não apenas por os clássicos do cordel, como Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde.
mas também por 'se poeta gloriense.
O trabalho com a literatura popular provou a importância da arte como ferramenta pedagógica e do prazer 'tético como elemento motivador da aprendizagem.
Mesmo aqueles que produziram poucos poemas ao longo da semana o fizeram com prazer e leram orgulhosos seus trabalhos para os demais.
Alguns de eles ainda 'tão empenhados em concluir as tarefas propostas, mesmo depois de encerradas as atividades das oficinas, pois «pegaram gosto» por a produção de literatura.
Em o mais, é só conferir alguns resultados:
«Essa cidade tem festa
Em o dia de São João,
Tem dança e tem bebida
Pra quem gosta de quentão.
Vamos logo celebrar
E agora vou cantar
As belezas do sertão
E em ela também tem reza,
O povo com devoção
Em a Festa da Padroeira,
Sempre foi a tradição!
Eu quero homenagear
E agora vou cantar
As belezas do sertão " (
«Josimar Alves Rodrigues) * * *» O cordel é alegria,
Estou gostando demais.
Não quero que acabe mais,
Pois me dá sabedoria.
Isso não é fantasia
É pura realidade,
Digo com sinceridade.
Pena que tem que acabar,
Com saudades vou ficar,
Com muita felicidade».
(" Lilian Alves da Cunha) * * *
«Lembro com muito carinho
De as rimas tão bem rimadas
E que todos nós fizemos!
De 'sas tardes animadas
Que jamais 'queceremos.
Agora só lembraremos.
... Estou tão emocionada!
Saudade é o que deixou,
Digo isso com emoção.
As tardes que tive aqui
Levo em meu coração.
As poesias de cordel,
Que me levam até o céu,
Fazem a mais linda canção.
Despertou em nós paixão,
Agora vou versejar
Toda 'sa trajetória
Que tivemos de cantar,
Aprendemos de repente,
Mas foi tão sinceramente,
Os versos e seu rimar».
(" Iasmim Santos Ferreira) * * *
«Eu vou lhe contar um pouco
De 'sa nossa tradição.
Ela tem muitas belezas,
Merece nossa atenção,
Por isso vou expressar
E agora vou cantar
As belezas do sertão.
É com bastante alegria,
De o fundo do coração,
Saber que em nossa cidade
Há bastante devoção.
Um pouco eu vou falar
E agora vou cantar
As belezas do sertão».
(" Elimária de Oliveira e Luiz Carlos de Oliveira) * * *
«Eu agora vou contar
Uma tristeza da vida:
Meu vovozinho morreu
Sem nenhuma despedida.
O seu nome é Zé Cruz,
Ele agora é minha luz,
Mas foi tão triste a partida».
(" George dos Santos) * * *
«Amigo, preste atenção
O que tem me acontecido,
Tô sofrendo de paixão,
Por isso tenho sofrido
O problema vou falar,
Você vai se admirar,
É que fui me apaixonar
Por o Oitavão Rebatido».
(Thaís Lima Moreira e " Douglas Lima Moreira) * * *
«A minha vida é bela
Como um vaso de flor
Que canta cheio de amor
Com um sorriso de aquarela
Uma canção de paixão
Que me lembra do sertão
E não paro de rimar
Esse canto popular,
Criado em minha janela».
(" Thaís Lima Moreira) * * *
«Alunos e professores,
Prestem muita atenção
Em o que agora vou falar
Com uma grande emoção.
Vamos todos nos unir
Para o 'tudo fluir
De 'sa minha narração.
Não jogue o lixo no chão,
Jogue ele na lixeira
E disciplinem também A criança bagunceira
Pra que não brigue com um amigo
E faça de ele inimigo,
Porque não é brincadeira.
Uma dica de primeira,
Que não pode dar errado:
Estudar sempre para a prova,
Para obter resultado,
Pra que o fim do ano letivo
Em a mente vire um arquivo
E você seja aprovado.
Aluno mal educado
Parece mais irreal.
Fala mal com os professores
E com todo o pessoal.
Seja aluno obediente,
Respeite tudo o que é gente,
Pra você ser bem legal.
Escola é fundamental
Cabe homem e menino.
à noite vão os adultos,
De manhã os pequeninos.
Digo com sinceridade:
Respeito e dignidade
Já faz parte do ensino.
B om é fazer poesia,
R omântica se puder.
U nião é o que preciso,
N amorar dá muito riso
O timismo e muita fé».
(" Bruno Rafael de Souza) * * *
«Eu vou contar agora
A história da região
Que foi dita por um velho
Que conheceu Lampião.
Você vai se admirar
E agora vou cantar
As belezas do sertão».
(Roberta Fernandes Feitosa e " Anne Caroline Silva Aragão) * * *
«O político de hoje
Só quer saber de ganhar
às custas do eleitor
E a vida melhorar.
Ele nunca trabalhou,
Agora ele quer mudar».
(" Maria da Conceição Santos Ferreira) * * *
«Vamos praticar 'portes.
Esporte nos dá prazer.
E você que não pratica,
Pratique pra você ver.
Esporte traz igualdade,
Respeito e dignidade.
Pratique pra ter lazer.
Não só pra sentir prazer.
Esporte é educação,
Espírito coletivo,
Leva a sentir emoção.
Pratique-o com amor,
Mesmo 'tando com dor.
Tem que ter superação!" (
«Laelson Batista de Oliveira) * * *» Eu não posso ir embora
Sem antes isso dizer:
Que tudo na nossa vida
Sempre há de crer e aprender,
Para que em algum dia,
Repleto de alegria,
Alguém você possa ser." (
«Márcia Regina Oliveira) * * *» Quando 'tiver triste não Lembre o que aconteceu
De ruim, mas dos momentos
Mais felizes que viveu,
Tudo o que você passou
E das coisas que criou
Logo quando amanheceu».
Número de frases: 182
(Marcela Alves Feitosa) Kem Kem é o nome do Cyber café / Lan house de Hassi Lebied, uma aldeia aos pés da grande duna de Merzouga no Marrocos.
Hassi Lebied é microscópica.
Não 'tá em nenhum mapa.
Para chegar lá, pegue a 'trada que vai para o sul do Marrocos (só tem uma) e fique atento às placas ...
Se der sorte, você chega lá.
E lá não é muita coisa:
meia dúzia de ruas sem asfalto, mal iluminadas, casebres baixos, uma penca de dromedários mascando os dentes e sombras fugidias de mulheres veladas e berbères azuis.
Com exceção de poucos turistas que se aventuram de 4X4 ou atraídos por o exotismo de um «céu que nos protege», Hassi Lebied é uma miragem na 'trada que leva a Merzouga, importante centro turístico no deserto marroquino.
à noite em Hassi Lebied é desolada:
a duna ausente, o frio paradoxal, o silêncio opressor e vez por outro o foco azul de um led a iluminar passos acelerados.
Só uma luz colhe os insones vespertinos.
É o Café Kem Kem, o maior pólo de entretenimento e de negócios da região.
O Kem Kem é assim, uma 'pécie de bar de Guerra nas Estrelas em Tatouine (aliás, também desolada aldeia do Marrocos).
Os murmúrios no Skype (analfabetos não teclam) e o batuque dos teclados mobiliam a atmosfera.
Cutsa barato o Kem Kem:
alguns Dirhams a hora ou seja, quase nada.
Nada de azaração (país muçulmano oblige) mas muita concentração.
Jogam, lêem, conversam, informam-se, assistem seriados e filmes da rica produção marroquina, batem papo com parentes presos na Argélia ou Somália vizinhas, amigos que emigraram, namoradas de um dia, 'panholas, francesas, alemãs.
Também vendem, compram, encomendam, fecham negócios no Kem Kem, exportam artesanato, contatam grupos de turistas.
O dromedário 'tá caro (cerca de dez mil Dirhams) porque quando chove o preço sobe, mas quem sabe em Ouarzazate, contrate-se um bom tropel.
Em o Kem Kem a gente fica sabendo das coisas.
E no Kem Kem também, quando não se tem nada para fazer, porque não se tem nada para fazer sempre em Hassi Lebied, a gente vai lá, e fica vendo o povo, tomando um chá de hortelã, 'perando o sono chegar.
O dono do Kem Kem não 'tá rico.
Nem pobre.
Tem lá seu negócio e vai bem.
Os computadores são novos, a conexão boa, e quanto mais pontos colocar, mais gente vai ter para passar o tempo, conversar, comunicar-se, fechar negócios.
O Kem Kem é junto com a mesquita o lugar referência de Hassi Lebied.
A mesquita é pra falar com Deus, o Kem Kem é pra falar com os homens.
E existem Kem Kems assim em todo o lugar.
Em Marrakesh a oferecida, em Fés a recatada, nas menores e mais longínquas aldeias, no Atlas inacessível, no deserto negro, ao longo da marcha verda na 'trada colonizadora do Sahara ocidental.
Porque Internet e telefone celular tem para todo canto no Marrocos.
Questão de soberania.
Questão de coesão nacional.
De identidade.
E precisei atravessar meio mundo para entrar no Kem Kem de Hassi Lebied.
Mas tem Kem Kem em baixo do meu nariz.
Para todo lado, nos mais pobres rincões, das mais às menos organizadas periferias do Brasil.
E aqui o que seria?
Questão de inserção social?
De acesso ao inacessível?
De produção cultural?
Quem tem o que falar, depoimentos (como vários aqui já feitos), mas principalmente pesquisas, 'tudos sobre o fenômeno das Lan-houses brasileiras?
O que é que 'tá acontecendo e como é que a gente tem que enxergar 'sa terceira ou quarta via da inclusão digital?
Número de frases: 43
Salve!
Em a festa de celebração da Ordem ao Mérito Cultural 2006, onde entre muitos artistas os mestres da cultura popular se fizeram presentes, demonstrando assim o respeito por o trabalho de Dona Teté do Cacuriá do maranhão, Mestre Verequete do Carimbó Paraense, Mestre Eugênio do Fandango do Paraná e uma das bandas mais antigas do Brasil, a familia Biano da Banda de Pife de Caruaru que foi lançada para o mercado fonográfico por o Gilberto Gil em 1972 com a letra criada para Pipoca Moderna, no disco Experesso 2222.
E na festa da OMC 34 anos depois uma oportunidade rara de rever Gil e os Biano juntos, as imagens foram feita por a minha modesta camera digital, observem que Gil 'ta segurando a capa do Vinil Expresso 2222.
Número de frases: 3
boa viagem ...
Observação: Esta matéria foi originalmente publicada na revista brasileira editada no Japão «Look», voltada à comunidade brasileira no Japão, e postei-a aqui com algumas adaptações porque achei ser válida em 'se contexto.
Bancos de couro e conforto na Mercedes novinha.
O relógio marca oito da noite mas o sol ainda 'tá alto lá fora em 'sa época do ano.
Estou num táxi por as avenidas de Paris!
Residindo no Japão por anos, passei os prévios meses sonhando enquanto fazia meu trabalho de brasileiro / peão de fábrica, e chegar aqui foi a primeira etapa de um passeio de quinze dias por as terras do velho mundo onde, como turista / fotógrafo, meu objetivo era conhecer um pouco as pessoas e a vida desses lugares mais do que visitar os spots famosos.
Como bagagem, apenas uma mochila com poucas roupas, câmeras fotográficas e filmes.
Em o bolso, uma quantia de mil euros e um mapa da Europa.
Para completar, o item primordial:
um bom par de tênis.
Sem muito direito a extravagâncias, encontrei conforto básico mas suficiente num hotel de duas 'trelas perto da grande 'tação de trem Gare du Nord.
É notável a quantidade de 'trangeiros imigrantes nos subúrbios da cidade e, de repente, senti uma certa tensão em ficar andando por ali com todo o dinheiro que tinha no bolso.
às dez e meia adormeci olhando as casas brancas por a janela do quarto com o céu ainda exibindo um restinho de azul.
Em o dia seguinte peguei o metrô e cheguei à ilha da Cité, no centro da cidade, num dia ótimo para fotografar.
Andando ao longo do rio Sena e por a Champs Élysées, faz-se o encantador roteiro Notre-Dame, Louvre, Arco do Triunfo, torre Eiffel e outros.
Aqui entendemos por que parisienses e italianas tem fama de serem as mulheres mais bem vestidas no mundo e também por que 'ta cidade continua a inspirar tantos artistas.
Apesar da maioria dos franceses ser realmente bem francesa, o 'sencial eu conseguia comunicar.
Sabendo no total umas cinco palavras, eu cumprimentava em francês para mostrar respeito por a cultura, perguntava se sabiam falar inglês e só então pedia a informação.
Geralmente as pessoas procuravam ser prestativas, mas em Paris sempre há exceções, mesmo em lojas e restaurantes.
Em o terceiro dia da viagem economizei uma diária de hotel e provei um delicioso talharim a bordo do trem noturno, cruzando a França de Norte a Sul em direção à Itália.
Em a cabine de segunda classe viajavam seis pessoas em bancos que, dobrados, se transformavam em camas.
Me enturmei com uma família de simpáticos franceses indo passar suas férias na Itália;
Elan, Elizabete e Ilan, de quatro anos.
Enquanto isso, lá fora os campos verdes com seus riachos cristalinos no interior da França passavam rápido.
Eram idênticos aos das pinturas.
às nove horas da manhã do dia seguinte eu chegava em Florença, na Itália.
Florença é uma cidade pequena com uma quantidade fantástica de museus e monumentos e também de turistas, 'gotando as vagas dos hotéis na alta temporada e deixando a cidade bem mais divertida e lucrativa, principalmente nos trajetos entre o Domo, Galeria Uffizi, 'tação Santa Maria Novella e tantos outros lugares.
Em Florença pode-se ir praticamente a qualquer parte a pé e os hotéis ficam todos perto do centro da cidade.
O clima de início de verão 'tava excelente, e em todos os lugares havia aqueles típicos restaurantes com mesinhas ao ar livre e seus vinhos mil, embalados ao som de serenatas;
também pizzerias, trattorias e sorveterias fantásticas.
Em 'se ponto da viagem comecei a sacar que saía muito mais barato almoçar uma pizza ou um panini (sanduíche muito comum na Itália) sentado nos degraus dos monumentos do que fazer uma refeição num restaurante, onde paga-se também por o serviço.
Estava difícil encontrar arroz, pois tanto em Paris como na Itália ele é substituído no dia a dia por batata, pão ou pasta, mas o que encontrei e não 'perava foram jovens brasileiros trabalhando no Mercado, uma feira que circula a antiquíssima basílica de San Lorenzo.
São como dekasseguis na Itália, que vão para trabalhar muito e tentar ganhar dinheiro.
Mais uma vantagem de Florença é a sua proximidade com outras cidades famosas da região da Toscana:
Pisa, Bolonha, Siena e os famosos vinhedos de Chianti.
Um pouco mais além 'tava Roma, meu próximo destino.
Após três horas no trem fui direto ao hotel, bem próximo à 'tação central Termini;
tracei um itinerário no mapa, saí andando até os lugares e vi que em Roma tudo fica muito mais interessante na medida em que conhecemos a história da cidade e do mundo.
Caso contrário, lugares como o Coliseu tornam-se apenas montes de pedras e tijolos;
então se você achar 'tar em falta com a cultura local, vale pagar um pouco mais por uma visita com guia.
O ponto alto de Roma para mim foi o Palatino, uma grande área de relevo acidentado e ruínas por toda parte;
ruínas que demarcam lugares e cenários incríveis que até hoje continuam a caracterizar a história da nossa civilização -- os templos das Virgens Vestais, Apolo e de Vênus, as casas de Júlio César e César Augusto e os palácios e jardins que em outros tempos acolheram festas grandiosas e convidados ilustres, como a própria Cleópatra.
Todos reunidos aqui, no coração de Roma, cercados por um silêncio profundo que só é quebrado por o som do vento que vai carregando, aos poucos, as marcas do homem.
Indo para o norte, passamos por o Panteon e chegamos à piazza del Popolo.
Pertinho de lá pode-se vislumbrar um final de tarde romântico nos degraus da piazza Espanha antes de voltar ao hotel.
Há atrações para todos os gostos em 'ta grande e belíssima cidade e, se não souber onde ir, é só perguntar às pessoas locais.
Elas normalmente terão orgulho em indicá-los à você.
Dois dias depois voltei para Florença, onde decidi fazer a maior parte do meu ensaio de fotografia.
Arranjei um lindo apartamento de 500 anos de idade por apenas 3,5 euros a diária;
fui me acostumando com o local e com a língua, conseguia passar os dias melhor e gastando cada vez menos e agora visitava restaurantes chineses sempre que sentia saudades de comer arroz!
Passava os dias quentes na banca de frutas do Junior, brasileiro de Uberlândia, e à tarde ficava nas praças ou às margens do rio Arno observando os lugares e as pessoas e fazendo uma foto aqui e outra ali.
Diferente do francês, o jeito do italiano é realmente parecido com o do brasileiro e as pessoas no geral são bonitas, alegres e receptivas.
Tanto nas lojas quanto por as ruas é divertido ver os famosos ícones italianos;
da arquitetura, iguarias e sapatos às roupas íntimas e outras coisas que conferem tanta popularidade a 'te país.
Encontrei pessoas do mundo todo, inclusive brasileiros de várias partes do Brasil mas, apesar da maioria de nós que vive aqui no Japão ter condições de fazer passeios fabulosos, havia zero dekasseguis desfrutando a vida em 'te riquíssimo continente.
O que 'tá acontecendo?
Se é por não acreditarem que fazer uma viagem de 'sas seja possível, aqui vão alguns toques para acalentar os seus planos:
Chegue lá:
Fui em maio e dei sorte de conseguir bons preços e de pegar um ótimo clima, semanas antes do alto verão e da alta temporada.
Com antecedência e um pouco de procura é possível conseguir passagens cujos preços não ultrapassam cem mil yenes (uns 980 dólares).
Hospede-se:
Pesquise por a internet e reserve as primeiras noites antes de embarcar.
Prefira acomodações nas proximidades das atrações para economizar tempo e dinheiro com transporte.
Albergues da juventude cobram em torno de 3 a 4 mil yenes (25 a 35 dólares) por noite e oferecem cozinha e café da manhã, enquanto nos campings o preço é ainda menor.
Alimente-se:
Aqui vale mais a razão do paladar do que a da palavra.
Muito tomate, azeite e frios na maioria dos pratos, além dos deliciosos sorvetes, frutas, doces, pães e vinhos.
Em os restaurantes a porcentagem por o serviço geralmente vem inclusa na conta e nos baratíssimos 'tabelecimentos árabes e chineses não é necessário dar gorgetas.
Mas o mais econômico mesmo é comprar os ingredientes nos supermercados e prepará-los você mesmo.
Comunique-se:
Tudo ficará mais fácil e proveitoso se você souber falar um pouco da língua local.
O inglês é idioma principal nos grandes centros turísticos da Itália, mas nem sempre o mesmo acontece em Paris.
Transporte-se:
Por a Europa viaja-se fácil e principalmente de trem.
Visitei apenas Paris, Florença, Pisa e Roma por conta do tempo e do dinheiro mas da próxima vez quero ter maior disponibilidade para conhecer outros lugares.
Trajetos mais longos podem ser feitos também de avião ou navio.
Fotografe:
Em geral 'tes são ótimos lugares para fotografar tanto em colorido quanto em preto e branco.
Faça um curso básico de fotografia ou melhore sua imagens incluindo uma lente de visão ampla e utilizando o flash em horários de sol forte.
Leve muitos filmes ou 'paço no cartão de memória, porque no verão a melhor luz para fotos, a luz da tarde, dura horas.
Ame:
Não importa a idade, as coisas lá podem ficar muito românticas.
Esteja avisado então.
Uma boa viagem e arrivederci!
Número de frases: 84
Colagem com fotos dos filmes ' Birth of a nation ', de W.D.Griffith (atenção para o ator pintado de ' negão ' prestes a ser linchado por a KKK) e Moleque Tião de José Carlos Burle
Cinema para quem precisa
Interior / Dia
O fato é que, para sermos justos (e deixando de lado 'te quase interminável rol de invisibilidades de nosso ' apagão imagético '), foi nas dimensões hospitaleiras do veículo cinema, da tela grande, que se asilaram e se tornaram visíveis muitos atores não-brancos fabulosos.
Em 'te âmbito de dramas empolgantes, tivemos Eliezer Gomes, o Tião Medonho (do clássico Assalto ao trem pagador de Roberto Farias), que foi também o caseiro psicopata de Anjo negro, de Walter Hugo Khouri, e o 'cravo-cavalo de Jeane Moreau (em Joana, a francesa de Cacá Diegues).
Um ator autodidata, de ' dimensões shakesperianas ', segundo disse um crítico na época, mas, quem se lembra?
Pelo visto, poucos.
Belo e bravo cinema do Brasil.
Bucólicas ou violentas imagens, suburbanas ou rurais, às vezes sagas grandiosas, nas quais os não-brancos apareceram sempre com a alma de certo modo inteira.
Generoso e ainda efêmero cinema nacional.
Sempre tão precário como indústria.
De Bulbul à la Benguel
De vez em quando um mea-culpa doloroso é carpido por 'tes cerca de 30 % de incluídos.
Geralmente nas telas do cinema, momento no qual a imagem dos 70 % mais feios aparece gloriosamente colorida, incômoda e corrosiva, tanto aplacando talvez culpas internas (como autoflagelação de mentirinha), quanto desmascarando internacionalmente nos Hollywoods e Berlins da vida, a cegueira extrema daquele Brasil branco, sarado e siliconado, que não cansa de olhar o outro Brasil por o retrovisor.
O pior é que, ao que tudo indica, o grande e perturbador aspecto do problema não é ainda 'te.
Não. Não é.
A coisa é ainda um pouco pior.
Pasmem se ainda puderem mas, por o que se vê exposto em 'ta mídia, é branca também a maioria das pessoas comuns visíveis, os transeuntes flagrados por câmaras fotográficas ou de TV, dando opiniões e entrevistas, freqüentando praças de alimentação de shopping centers.
São brancos, do mesmo modo, os freqüentadores de bibliotecas, de cibercafés, de bares genéricos ou temáticos, de centros culturais, assim como o são os professores universitários, os aposentados com dignidade, os funcionários públicos acima de meio 'calão, as socialites autênticas ou emergentes, as recepcionistas de lanchonete ou de butique, os modelos e manequins, os praticantes de cooper na orla, os ciclistas e motoristas de fim de semana, até os mortos nos acidentes de trânsito o são.
De o mesmo modo, branca é a maior parte dos 'pectadores de cinema e teatro, os atletas de 'portes (normais ou radicais), assim como também são brancos a maioria das prostitutas do calçadão, os jogadores de frescobol, de voleibol, de basquetebol.
Cá entre nós, já notaram que são cada vez menos negras também, até as empregadas das telenovelas?
Milton Santos, o brasileiro que chegou a ser considerado o maior geógrafo do mundo (ele mesmo, um dos muitos invisíveis gênios negros deste país), costumava perguntar onde 'taríamos 'condendo os nossos milhões de não-brancos.
Em guetos infectos como na antiga África do Sul?
Seriam mesmo guetos infectos as nossas milhares de favelas?
Ou não?
A relativa invisibilidade de não-brancos em nossa televisão, aliás, é um episódio digno de várias novelas.
Desde o tempo do dramalhão A cabana do pai Tomás, no qual ator Sergio Cardoso apareceu pintado de preto, passando por o beijo -- até hoje 'candaloso -- do crioulo Zózimo Bulbul na ' loura Norma Benguell, pouca coisa mudou.
Corte / Tela 'cura / Silêncio
O impressionante Aguinaldo Camargo, o nunca demasiadamente citado ícone Grande Otelo, Milton Gonçalves, Antônio Pompeu, os saudosos Marcos Vinícius e Paulão Barbosa, Cosme dos Santos, Luiz Antônio Pilar, Maurício Gonçalves, Norton Nascimento, Roque Pitanga, Lui Mendes, entre outros, são parte de uma dinastia de duas ou três gerações que, com raras exceções, sempre representou eternos 'tereótipos do bandido, do policial, do porteiro, do traficante, do motorista e, quase sempre, do indefectível 'cravo doméstico, assim meio Uncle Thomas, meio Pai João ('cravo rebelde de novela, sempre morre sozinho, abandonado por os ' irmãos ').
Também para duas gerações de atrizes a mesma galeria de tipos chapados, 'tereotipados.
Ruth de Souza, Chica Xavier, Zezé Mota, Neuza Borges, Iléa Ferraz, Mariah da Penha, Isabel Fillardis, Thaís Araújo, Maria Ceiça, Cida Moreno e -- vá lá -- Camila Pitanga, entre tantas outras, revezam-se em papéis similares, geralmente jovens mucamas oferecidas, velhas 'cravas resignadas (ou alegres e prestativas domésticas).
às vezes, para variar, desbocadas prostitutas.
A não ser quando representando 'cravos de alguma senzala de padrão global, os atores negros de nossa teledramaturgia quase nunca são ocupados assim, em grupo, em núcleos (como ocorreu aliás uma vez, quando uma família negra de classe média exibiu seus conflitos na TV).
Geralmente as telenovelas, quando existem papéis 'pecíficos «para negros», costumam ocupar de cada vez apenas um ou dois atores ou atrizes negras» de plantão».
Este plantão envolve sempre a mesma galeria de personagens 'tereotipados citados, o que faz com que a carreira de ator ou atriz para negros no Brasil seja uma atividade de pouco ou nenhum futuro, atraente apenas para os loucos mais abnegados.
A natureza e a dinâmica dos mecanismos que acionam 'ta invisibilidade a que 'tão relegados os não-brancos em nossa teledramaturgia são dois grandes mistérios de nossa sociologia.
Tudo nasceria de um acordo tácito entre teledramaturgos?
Seriam mecanismos regidos por secretos memorandos internos trocados entre a alta cúpula das emissoras?
Estariam baseados em 'tratégias de comercialização, em pesquisas de mercado nas quais o consumidor não-branco apareceria como um segmento desinteressante ao mercado?
Ou seria culpa da desmobilização política da classe, do conjunto de artistas negros, da opinião pública não-branca deste país?
Talvez seja 'ta a faceta mais cruel do racismo à brasileira:
seu caráter de omertá, a lei do silêncio, instituição fantasmagórica mas onipresente, rígida e complexa, apesar de não 'tar 'crita;
tácita; sórdida porém tolerável;
seguida à risca por uma multidão de cúmplices, beneficiários de uma injustiça impossível de ser inteiramente identificada e compreendida por as vítimas, porque não pode ser atribuída diretamente a ninguém, já que todos os indivíduos que a praticam aprendem, desde de criancinhas, a repetir o surrado discurso que diz: "
Se há racismo, os racistas são os outros».
Plano Americano
Corte De todo jeito, se todos nós sabemos que um rostinho levemente europeu definitivamente não corresponde ao perfil étnico da maioria de nossa população, o que 'taria havendo então?
Algum tipo de loucura, de neurose coletiva?
Estaríamos vivendo todos um problema tão grave de auto-'tima que, mergulhados numa profunda crise de identidade, acabamos por nos atolar na paranóica negação de nossa própria imagem?
Ou seria uma cínica e 'perta «ação afirmativa» às avessas, algum corporativismo racista do tipo «primeiro o meu, depois o do judeu»?
Seja lá o que for, é bom que deixemos logo de ser brancos para sermos francos.
Já não é possível encontrar inocentes em 'te roteiro de sutis omissões e comodismo interesseiro.
Se não nos surpreendemos mais com isto, indignemo-nos, pois!
Dizem que um dia destes, um apatetado George W. Bush perguntou ao presidente do Brasil que o visitava:
«Vocês tem mesmo negros por lá?"
O'branco ' Lula, dizem, ficou vermelho e depois sorriu amarelo.
Indignemo-nos pois, antes que, sem nenhuma população que represente a cara do nosso Brasil cor de anil, em resposta a um destes Bushs da vida, só nos reste, dizer:
«Tivemos negros sim, mas, com o tempo, eles foram sumindo, sumindo ..."
Spírito Santo (Original e parcialmente publicado em Observatório da Imprensa em 14/05/2003)
Veja isto.
Número de frases: 60
Uma campanha do bem
Queridos amigos 'tamos num momento peculiar no bom combate de sanear e democratizar o órgão máximo de representação do Músico Brasileiro, a Ordem dos Músicos do Brasil!
Depois de muito debate com Músicos de 17 Estados Brasileiros:
Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paulo, Janeiro, Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Pará, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe, Maranhão, Alagoas, Bahia e Paraíba lançaram uma Cartilha sobre a proposta de uma nova lei que substitua aquela que regulamentou nossa profissão a lei 3857/60, promulgada em 1960 por o Presidente Juscelino Kubistchek.
Segue uma versão resumida da proposta:
Prezados colegas músicos.
Recentemente, buscamos sua adesão à campanha por mudanças na OMB e contra o processo de cassação do músico Eduardo Camenietzki.
Graças à sua participação, a campanha tem sido um dos maiores fatores de mobilização e de união da classe musical na História do Brasil.
Agora, queremos lhes apresentar o conjunto de propostas que temos para a regulamentação da nossa profissão, para mudanças na OMB e nas nossas relações de trabalho, através do documento que apresentamos aqui.
Este documento é uma cartilha explicativa, que resume para o público em geral e a imprensa, as propostas pactuadas por o Fórum Nacional de Música na Câmara Setorial de Música do Ministério da Cultura, 'pecificamente sobre relações trabalhistas e OMB.
Não se pretende um documento definitivo.
Tem como propósito buscar um aprofundamento das questões, no exame por a coletividade dos músicos através da sua ampla divulgação, e na avaliação por parte das representações parlamentares da sua viabilidade e meios de sua implementação sob forma de Lei.
Em 'se sentido, os mesmos Fóruns Permanentes de Música dos Estados, que compõem o Fórum Nacional, e apresentaram 'sas propostas ao Governo via Câmara Setorial de Música, as 'tão encaminhando aos parlamentares representantes das suas respectivas regiões.
Conclamamos todos os músicos a participarem das assembléias, encontros e debates regionais eventualmente promovidos por os Fóruns de seus 'tados, em torno de 'sas propostas e do seu encaminhamento.
Temos que participar.
Forum
Nacional De Música As propostas dos Fóruns de Música para a OMB
Os Fóruns
O Fórum Nacional e os Fóruns Estaduais de Música, criados por iniciativas de mobilização dos músicos com a finalidade de apresentar propostas de políticas públicas para a música aos nossos representantes políticos, através da Câmara Setorial de Música do Ministério da Cultura, vêm aqui apresentar as principais transformações propostas para a Ordem dos Músicos do Brasil e a Lei 3857 que regulamenta a profissão do músico, para que possam 'tar em harmonia com as aspirações e com as necessidades profissionais do músico na atualidade.
Essas propostas foram desenvolvidas em debates, pesquisas e acompanhamento jurídico durante todo o ano de 2005, e foram defendidas e pactuadas na Câmara Setorial de Música por os representantes dos Fóruns Estaduais.
Além da participação na Câmara Setorial de Música, os Fóruns têm promovido uma campanha por mudanças na OMB, através da lista de assinaturas em desagravo ao músico Eduardo Camenietzki, vítima da arbitrariedade da direção do órgão, que cassou seu registro profissional.
O show " Fora de Ordem!" promovido por o Fórum de Música do Rio, realizado dia 27 de março, no Rio de Janeiro, foi até agora o grande momento de manifestação da insatisfação da classe musical com a Ordem, tendo adesão de grandes nomes da nossa música, e contou com o apoio do próprio Ministro da Cultura.
A OMB
Tendo sido criada em 1960, através da Lei nº 3.857, a Ordem dos Músicos do Brasil -- OMB não acompanhou as transformações sociais e políticas do país, sendo motivo de inúmeros questionamentos e reclamações, inclusive tornando-se alvo constante de ações na justiça movidas por músicos de todas as regiões do Brasil, que se manifestam contra a obrigatoriedade de filiação e pagamento de anuidades a uma entidade que não tem correspondido aos anseios da classe que representa em sua principal atribuição institucional que deve ser a da defesa da profissão de músico.
As propostas dos Fóruns de Música
Nossas principais propostas, a serem encaminhadas sob Projeto de Lei ou Emenda a Projeto de Lei, seguem o princípio de que todo indivíduo que se propuser ao exercício de atividade musical, em qualquer gênero ou 'pecialidade, tem como direito fundamental a liberdade de expressão artística e ao trabalho em 'sa profissão.
Garantidos por a Constituição da República, 'ses direitos 'tarão assegurados a todos aqueles que 'colham a atividade musical como profissão ou como opção de trabalho artístico, respeitando-se as qualificações profissionais e a regulamentação do trabalho das diversas atividades musicais, conforme apresentamos a seguir:
1.
A OMB passará a se denominar Conselho Federal de Música -- CFM, vinculado ao Ministério do Trabalho, com mudanças nas suas finalidades e atribuições.
Os Conselhos Regionais da OMB passarão a se denominar Conselhos Regionais de Música.
2.
Todo músico que 'tiver em atuação profissional devidamente comprovada tem direito ao registro no Conselho Federal de Música, e será considerado Músico Profissional sem necessidade de prestar exame à banca examinadora, que será mantida como opção para qualificação profissional.
3.
Qualificação profissional em níveis de formação:
superior, 'tagiário, médio e básico, com reconhecimento dos profissionais de nível técnico e popular.
4.
Penalidades disciplinares e censura serão abolidas da legislação, exceto nos casos de violação aos preceitos éticos da profissão.
5.
O músico terá seu direito de exercício da profissão garantido, independentemente do pagamento das anuidades ao Conselho, as quais garantirão seu direito de registro e de acesso aos benefícios auferidos por o órgão, sendo sua cobrança efetuada nos moldes a serem definidos administrativamente.
6.
Recadastramento de todos os músicos inscritos nos Conselhos Regionais.
7.
Eleições diretas e integrais dos Conselhos Regionais de Música e suas diretorias, abolindo o sistema de «terços», e com direito de participação de todos os músicos inscritos com situação regularizada.
8.
Abertura de novas frentes de trabalho, ampliando o quadro de funções e campos de atuação profissional criados por o avanço tecnológico, como novas mídias e música eletrônica.
9.
Revogação do Cartão de Contratante na DRT (Delegacia Regional do Trabalho).
Os Conselhos Regionais de Música serão responsáveis por a atualização dos registros dos profissionais da música e também dos registros das empresas que os contratam, enquanto prestam seus serviços a terceiros.
10.
Reformulação e desburocratização da Nota Contratual.
11.
Criação de nova modalidade para contratação de trabalho eventual na forma de Trabalho Avulso, com intermediação dos contratos por os sindicatos.
Esse sistema contempla os profissionais que necessitam de empresa (CNPJ) para serem contratados por órgãos públicos ou entidades que exigem Nota Fiscal para pagamento das remunerações de prestação de serviços.
12.
O recibo de quitação de remuneração do músico por o serviço musical prestado em gravações não poderá ser substituído por termo de cessão de direito, preservando-se, com instrumentos contratuais adequados, a relação de trabalho que caracteriza os serviços de gravação.
13.
Inclusão na legislação previdenciária do reconhecimento da profissão de músico, com benefícios 'pecíficos para atividade profissional.
14.
O Conselho Federal de Música atuará na fiscalização do trabalho, verificando apenas a regularidade dos registros dos profissionais junto às empresas em que os profissionais prestarem seus serviços.
Brasil, 05 de abril de 2006 Fórum Nacional de Música:
Alex Mono (PE), Álvaro Santi (RS), Amaudson Ximenes (CE), André Alves (PR), André Novaes (RJ), Ana Terra (RJ), Claudio Guimarães (RJ), Du Oliveira (GO), Eduardo Camenietzki (RJ), Edu Montenegro (RN) Flávio Oliveira (RJ), Francisco Carlos Oliveira (BA) Guilherme Brício (RJ), Jefferson Motta (DF), João Bani (RJ), Makely Ka (MG), Maria Alice Martins (MS), Paulo Sarkis (RN), Rênio Quintas (DF), Roberto Frejat (RJ), Rodrigo Quik (RJ), Sandra de Sá (RJ), Teo Lima (RJ), Tibério Gaspar (RJ), Wilms Daniel Bastos (PA) Zélia Duncan (RJ);
Amilson Godoy (SP) Juca Novaes (SP) (
Número de frases: 62
O Fórum Paulista Permanente de Música, em confiança ao coletivo dos músicos endossa 'se documento com a reserva de propor modificações nas proposições que considere extrapolar o consensuado na Câmara Setorial de Música.)
Autor: Alexsandro Rosa Soares -- Graduando em Letras por as Faculdades Integradas Padre Humberto, Graduado em Normal Superior por o Instituto Superior de Educação de Itaperuna.
Resumo:
Este artigo tem como objetivo promover uma discussão sociológica do momento político vivido no Brasil atualmente, devido às eleições para Presidente e demais cargos, bem como discutir o papel importante da política na mudança da índole dos indivíduos.
Palavras-chave:
educação, política, sociedade, ser humano.
Ninguém nasce feito.
Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte.
Paulo Freire
Eu prometo!
Prometo evitar dizer:
Eu prometo, pois o sentido deste sintagma já se perdeu por as nuvens e sabe Deus quem irá encontrá-lo.
Ainda bem que promessa não é dívida, porque se fosse, nosso país teria uma dívida bem maior do que a dívida externa para pagar.
Uma dívida com cada um de nós brasileiros, que a todo momento se depara com situações inescrupulosas realizadas com o nosso dinheiro suado depositado na 'perança de se ter um país melhor.
Ligo a TV e vejo o maior 'petáculo de todos os tempos 'tampado na face de quem puder agüentar até o final do terceiro ato, onde os protagonistas são os nossos governantes, que prometem, dizem que fazem, dão suas justificativas para serem reeleitos, sorriem, ficam sérios, fingem que nada acontece ...
É um querendo aniquilar o outro, cada um com seus projetos pessoais, com seus ideais particulares.
Parece até que eles se 'quecem de que 'tão ali para decidirem a vida sócio-econômica de uma população com milhões de habitantes e que a grande camada vive a beira da miséria, pedindo somente condições decentes de trabalho para viver.
Os expectadores?!
Quem são??
Ahh!! Somos nós, o Povo que luta de sol a sol para pagar o salário desses protagonistas, que andam por aí de carro do ano, casa na praia, viagens por o exterior e muito ...
muito dinheiro na cueca, que agora é o lugar mais seguro para se depositar.
Devemos bater palmas para eles.
O poder de convencimento é impressionante.
Quem é Fernanda Montenegro?
Quem é Tarcísio Meira?
Esses ilustres e maravilhosos atores são mínimos diante de tanta perfeição, como o Deputado Fulano de Tal, o Senador Ciclano e o candidato a presidente, amigo dos pobres e necessitados.
E o picadeiro fica armado, só que de forma inversa.
Os palhaços não participam ainda da apresentação principal.
Ficam 'táticos, desolados, jogados ao relento como se eles fossem simplesmente expectadores.
como se não fossem eles que contratassem os protagonistas.
Em 'te 'petáculo se vê de tudo!
Frases do tipo:
«Eu respeito você!"
«Eu prometo!"
«A luta continua companheiros!"
Continua? Para quem?
Ah sim, com certeza continua para o povo, que luta todos os dias para sua sobrevivência, para alimentar os filhos deste solo!
O que 'tão fazendo com nossa pátria amada?
Onde querem chegar?
Ainda ouço pessoas dizendo que não irão votar em ninguém, é tudo igual mesmo, para quê perder o tempo.
Vejamos a desvalorização da palavra, da promessa, do respeito e do compromisso assumido diante de tanta gente.
A sociologia, a Filosofia, a Pedagogia, a Psicologia, enfim, as áreas relacionadas aos seres humanos dizem que a educação prepara na formação da criança as condições 'senciais de sua própria existência, é através de ela que a criança se socializa, então meus amigos leitores e educadores, temos que repensar nossa contribuição para a socialização dos políticos corruptos que passam por nossa vida, enquanto alunos, filhos, amigos e iguais.
Diante de tantos 'cândalos e promessas, me sinto como Elisa Lucinda na sua poesia Só de Sacanagem, onde a atriz e 'critora diz:
que seu coração 'tá aos pulos, o meu também 'tá e acredito que o seu coração, que lê 'te artigo em 'te momento, também 'teja, vendo a cada dia as dificuldades aumentando e nossas 'peranças se 'vaindo por o ralo.
Não sei até quando agüentaremos tanta hipocrisia e falta de caráter, mas tenho a certeza de que como Elisa Lucinda, sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser dá para mudar o final.
Eu prometo tentar!
Bibliografia
LUCINDA, Elisa.
Só de Sacanagem.
Disponível em http://www.papelfuleiro.com.br/textos/textosodesacanagem.htm, Acesso em 06 de setembro de 2006.
Freire, Paulo.
Política e Educação.
Número de frases: 52
Ed. Cortez, 3ª ed. São Paulo, 1993.
Deixará vácuo a realização insana de informar com inteligência e pobreza de recursos financeiros.
Está fora de combate o sítio NoMínimo, uma festejada experiência de informação, criatividade, humor e crítica de nosso brasil brasileiro, mulato e inzoneiro.
Recuamos aos tempos de Pasquim fechando e percebemos que a ditadura, lá armada, aqui da torneira que não deixa pingar na horta dos pobres, é a mesma.
Para não dizer do cheiro forte do sangue, lá;
nem das flores sem perfume desse passamento, aqui, deixemos a fala aos colaboradores do sítio NoMínimo, um mais novo, para sintonizar com a atualidade e um futuro possível por mais tempo, e um mais antigo, como os da minha juventude, qua atualiza o que já caminhamos juntos.
Primeiro de tudo, no entanto, o comando, os últimos a deixar -- com honra -- a nau que atraca, pára motores, lança âncoras e despede a tripulação, sem já o combustível para novamente zarpar.
«Editores, blogueiros, colunistas, funcionários, colaboradores assíduos ou ocasionais, enfim, todos os nomes abaixo relacionados que ajudaram a criar o site (humm ...)
de jornalistas mais querido do Brasil comunicam sua morte súbita em 'te 29 de junho de 2007, vítima de inanição financeira decorrente do desinteresse quase geral de patrocinadores e anunciantes em sua sobrevida na web.
NoMínimo deixa órfãos cerca de 150 mil assinantes entre os mais de 3 milhões de visitantes que, em média, se habituaram a passar por aqui todo mês nos últimos 5 anos.
Seus realizadores também sentem muito o triste fim desse 'paço livre, democrático e criativo de trabalho, mas se despedem com a sensação de dever cumprido com o jornalismo e a camaradagem que nos une ..."
Nó sítio, ainda remanesce a mensagem a nautas incauatos e menos avisados de que não mais há viagens:
A os leitores de NoMínimo
Os editores do site comunicam que não obtiveram sucesso nas inúmeras gestões realizadas em busca de novos patrocinadores e anunciantes que garantissem a renovação de conteúdo jornalístico interrompida há um mês.
Decidem, então, fechar em definitivo a redação de NoMínimo a partir de 1o.
de agosto de 2007.
A todos que nos acompanharam em 'ses últimos 5 anos, obrigado e até mais.
De os mais antigos, busquei um gip-gip nheco-nheco, na 'crita de Ivan Lessa, longe e tão perto daqui, de Londres, como sói e soía, como doía e ainda dói encontrar inteligência e perspectivas positivas na imprensa nossa de cada dia cada vez mais do milênio passado.
Diz Lessa de sua recorrida diária por jornais, blogues e sítios brasileiros, e semanal de poucas revistas:
«Dá, no máximo (sem jogo de palavra), uns 10 minutos por dia.
Fico mais tempo EnTubando (copiráite registrado) clipes de música ou cinema.
Ou me movimentando por a jornalada globalizante.
Outros 15 minutos.
Em matéria de brasilidades, assunto em que não sou autoridade, o lugar por onde mais tempo zanzava eu, todos os dias, era o sítio NoMínimo, que, ôi zumzumzum, bateu asas e avoou."
E, porque viver não é preciso, deixemos com a meninada uma fala para atualizar a leitura dos tempos, que bicudos ainda repetem as mazelas dos tempos pontudos de tão antes, tão antes que, por um tempo aqui no Overmundo dáva-me eu por um pouco satisfeito com o rumo da prosa, do verso, das tintas, do som e da inteligência em progresso.
Passo atrás.
Mas recuemos disparando e fazendo as contas porque nossos dias 'tão por chegar.
Ou venceremos todos juntos.
Não é agouro que faço.
É apenas um aviso aos navegantes de 'sa nossa outra destemida nau.
De o Daniel pra toda a Galera:
Game over (Continue?)
Respondendo, enfim, à dúvida de alguns leitores:
o nomínimo chega ao fim e o Jogatina acaba junto.
Não digo que é definitivo.
Pode ser que o blog ressurja numa possível reencarnação deste próprio site ou em qualquer outro lugar, mas por enquanto é «game over» mesmo. (
E a tela pisca em contagem regressiva:
Número de frases: 37
CONTINUE? 10, 9, 8 ...)
O Carnaval de 1932 foi de muita alegria para o bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Por o sexto ano consecutivo Mestre Camarão ganhou o título de melhor mestre-sala desfilando por o seu Rancho Carnavalesco, o Arrepiados.
E naquela época o voto era popular!
Camarão recebeu 45 mil 503 votos no concurso instituído por o Jornal do Brasil.
Os Arrepiados, ao lado do União da Aliança eram os dois ranchos carnavalescos criados por os operários da Fábrica de Tecidos Aliança.
Até a terceira década do século XX a fábrica ficava exatamente aqui, nos fundos da Rua Gal.
Glicério, então chamada apropriadamente de Rua Aliança.
A crise da Bolsa em 1929 combinada com recessão no Brasil e grandes 'toques acumulados de tecidos de algodão coloca aquela pequena indústria têxtil em declínio e em 1935 o que resta de ela é comprada por o empresário pernambucano Severino Pereira da Silva.
A intenção era utilizar as máquinas em outras tecelagens de menor porte já que havia um decreto governamental que restringia a aquisição no exterior de máquinas para indústrias consideradas de superprodução.
Mas isso já é uma outra história.
A família de Cartola (o Angenor de Oliveira) antes de se mudar para a Mangueira morou nas encostas de Laranjeiras e seu pai trabalhava na fábrica.
Reza a lenda que lembrando das cores dos Arrepiados -- verde e rosa -- foi que Cartola sugeriu a cores da hoje Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.
Outra versão diz que foi para lembrar as cores do Fluminense, cujo campo ele podia avistar do alto do Morro Mundo Novo, próximo onde morava (meio forçada 'sa, hein, tricolores ...).
Mas Camarão, aliás o tecelão João Pereira Subtil, ganhou 'se apelido ainda garoto quando começou a trabalhar na Fábrica Aliança, onde seu pai Álvaro já trabalhava e exatamente como ele, com pele branca e excessivamente avermelhada por o calor, já ostentava o apelido.
Primeiro «Camarãozinho» e só mais velho 'treando no rancho como Mestre Camarão depois de terem, pai e filho, feito parte do Cordão Flor da Primavera.
Os Camarões acabaram formando uma dinastia pois o apelido passou para um dos alunos do rancho que por sua vez passou para o irmão também mestre-sala.
A tradição carnavalesca no bairro das Laranjeiras é portanto centenária, o que faz com que hoje seja o bairro com o maior número de blocos de carnaval do Rio (quiçá do mundo?).
Por as minhas contas tem treze blocos mas posso 'tar errado.
É aqui também, exatamente onde existia a Fábrica de Tecidos Aliança que, desde 1999, sai um dos Blocos de Carnaval que mais gosto, por o seu 'tilo completamente diverso da grande maioria dos outros blocos do carnaval de rua do Rio.
Trata-se do Gigantes da Lira.
O bloco teve sua origem no trabalho com crianças realizado por o grupo teatral do Palhaço Dr. Giramundo e seus Gigantes da Lira.
Dr. Giramundo é a atriz Yeda Dantas, paraibana de Catolé do Rocha, terra natal também do cantor Chico César.
Uma das ramificações do trabalho de Yeda é o Acorde Gigante, um grupo vocal composto por 6 cantoras vestidas de melindrosas em verde-e-amarelo cantado marchinhas de carnaval.
São As Bandeirosas.
Outro é a Fuzarca da Lira, uma banda de Palhaços.
Yeda realiza um trabalho de teatro de rua e palco (teatros, praças, feiras, festivais, circos) e seu personagem Dr. Giramundo já é muito conhecido no Rio e se apresenta em várias outras datas festivas como Aleluia, Santo Antônio, Independência, Natal ...
Yeda, que também é diretora de teatro, conseguiu reunir autênticos personagens do mundo do circo e do teatro em curiosas versões de palhaços, pernas-de-pau, malabaristas, saltadores, extra-terrestres e nêgas-malucas, vindos de diversos segmentos do movimento cultural do Rio de Janeiro.
O bloco sai sempre no sábado que antecede ao Carnaval.
Pra começo de conversa o bloco prioriza as crianças.
E portanto seus pais.
Que portanto bebem menos.
E um bloco de carnaval cujo nível alcoólico é mais baixo sempre é mais simpático.
Laranjeiras congrega muitos casais jovens na faixa dos 20 e 30 anos que se encontram na pracinha aos sábados na Roda de Choro (onde toca o Choro na Feira) e acabam fazendo da saída do bloco o Carnaval para seus filhos.
Vão todos fantasiados e é uma festa bonita.
E em segundo lugar o bloco tem uma banda (Banda Gigante regida por o maestro Edmar) com bateria e uma seção de metais, que toca todas as marchinhas e os antigos sucessos do carnaval de todos os tempos enxertando outras canções que são cantadas por todo mundo.
Como Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro.
As músicas de blocos de carnaval de modo geral são ruins, as letras sofríveis e o pior:
são repetidas ad nauseam até o final do desfile!
Tá na hora dos blocos ampliarem o seu repertório e deixarem de ser trampolim para compositores que querem mesmo é compor para as 'colas de samba (tá certo, não são todos).
Acabam construindo letras quilométricas que contrariam, a meu ver, o princípio básico dos blocos:
a brincadeira e a descontração.
E isso o Gigantes da Lira tem de sobra:
o Boneco Gigante da Lira (4 metros de altura), criação de Aluísio Augusto, inspirado nos bobos-da-corte e nos folclóricos bonecos Olindenses;
a apresentação de dois 'pecialíssimos casais de mestre-sala e porta-bandeira:
o casal mirim e o casal gigante (na perna de pau) encantam todos, principalmente as crianças, com suas evoluções, assim como o impagável Rei Mominho.
É isso aí, alegria, brincadeira e descontração o Gigantes da Lira tem demais!
O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama do Carnaval do Brasil, sob a ótica de colaboradores 'palhados por todo o país.
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag carnaval-2007, no sistema de busca do Overmundo.
Número de frases: 50
A frase do título de Leonel Kaz no início do livro Olho da Rua pipocou na minha cabeça assim que fui convidada por a «central Overmundo» para cobrir a passagem do projeto «Revelando os Brasis» por a Paraíba.
É bem verdade que a equipe do projeto não se restringiu apenas às cidades do sertão e, para melhor absorver o sentido da coisa, o ideal seria que substituíssemos «sertão» e «Nordeste» por «interior» e «Brasil».
Sendo assim, «Em o interior do Brasil brotam fábulas».
Foi 'se o 'pírito dos 25 mil quilômetros percorridos em todo o país por duas equipes aparelhadas com um super telão e a magia do cinema em seus caminhões.
Quem tem acompanhado aqui no Overmundo a saga de 'sa super viagem sabe do que 'tou falando, e sabe também que 'sa história de magia do cinema nunca tem tanto efeito quanto quando apresentamos 'te universo a pessoas que, provavelmente, não teriam um contato próximo e palpável com tal experiência, a não ser com filmes em DVD's, geralmente piratas, exibidos nas TV's de 14, 20 e 29 polegadas em suas salas.
Claro que aceitei o convite, e ansiosa por histórias, saí de João Pessoa às 11:30 do dia 4 de julho rumo à Gurinhém pra encontrar com a equipe do projeto por lá.
Nunca havia ido a Gurinhém, não sabia nem por que área localizava-se tal cidade, mas foi enorme a surpresa quando cheguei.
Tinha aquelas características mais adoráveis de cidadezinhas:
uma praça central com um boteco, pessoas receptivas e curiosas, clima agradável e ruas calçadas com paralelepípedos, intercaladas por 'tradinhas de terra.
O que eu não 'perava era que aquelas ruas tivessem tantas histórias e que me surpreenderiam tanto.
O projeto selecionou uma pessoa de cada cidade por onde passou para colocar uma câmera em suas mãos e deixá-la contar uma história qualquer dentro de sua realidade.
Em Gurinhém, a grande 'colhida foi Maria José da Silva, a Tuca, de 33 anos, que conheci assim que cheguei ao local combinado para o encontro.
Ela era aparentemente tímida, mas bastou uma breve conversa pra saber que 'távamos diante de uma mulher forte e vencedora, pronta a me revelar uma vida que eu não imaginaria.
Clássica filha do meio rural, cresceu na agricultura e batalhou tanto, que enfrentou as dificuldades tão comuns à pessoas nascidas naquela realidade.
Fez graduação em Letras e mestrado em literatura, agarrou as possibilidades que ela mesma conquistou e teve seu primeiro contato com a produção em áudiovisual a partir do Revelando os Brasis.
A filha de agricultores agora é mestra, diretora de cinema e orgulho da cidade.
Quem poderia imaginar?
«Aqui não se encontram muitas oportunidades, você tem que correr atrás dos seus objetivos e enfrentar muita coisa.
Não conheço mais ninguém por aqui que realmente tenha entrado numa faculdade, feito mestrado, saído da realidade em que nasceu.
Essa história de fazer filme nunca me passou por a cabeça.
Se era coisa de outro mundo até pra mim, imagina para o povo de Gurinhém, que nunca nem entrou numa sala de cinema!"
O que a Tuca falou faz muito sentido, a prova viva disso tive caminhando por a cidade a seu lado.
Ela virou exemplo, virou 'trela.
Em cada 'quina vinha alguém falar com a nossa diretora, dar os parabéns.
Algumas pessoas recuavam, perguntavam se podiam falar, ficavam intimidadas, afinal não 'tavam acostumadas com aquela movimentação.
«Mulher, parabéns, você é uma vencedora!
Muita gente não gosta quando eu falo, mas verdade seja dita, você 'tá certa em ter procurado outro rumo ...
Quem se conforma com isso aqui não vai pra lugar nenhum», disse uma das pessoas que encontramos por o caminho.
Me pareceu radical demais, mas ela tem mais gabarito que qualquer um de nós que não vive a realidade daquela gente.
Depois de alguns minutos de silêncio, quando já 'távamos mais a frente, Tuca virou pra mim e disse:
«Tá vendo, quando você me perguntou sobre a maior satisfação em ter feito todo 'se trabalho, era disso que eu tava falando.
É muito bom ver o reconhecimento do povo da minha terra, é muito bom mostrar que nossa vida não se limita às coisas que a nossa cidade oferece.
E 'sa oportunidade de trazer o filme pra ser exibido aqui, pra todo mundo ver, 'timula muita gente».
Sábia Tuca.
Sete e meia da noite, tudo pronto para a exibição.
Praça cheia, gente pra tudo que é lado.
Entrei naquele clima e fiquei ansiosa pra ver não só o documentário, mas os olhinhos brilhando de todo mundo que chegava ao local.
O prefeito da cidade mandou um ônibus pra buscar as pessoas que moravam em Manecos, comunidade próxima à cidade, onde o documentário da Tuca foi produzido, contando a partir de depoimentos dos moradores a história da Comadre Florzinha, lenda que envolvia os caçadores da região.
O ônibus chega e começa a exibição.
Fiquei lá na frente pra ver.
Famílias inteiras não tiravam os olhos da tela, riam, reconheciam as pessoas, comentavam ...
Coisa linda de se ver, uma noite que muitos ali vão lembrar pra sempre, inclusive eu.
Após a exibição, a prefeitura organizou uma apresentação do grupo de música e de duas quadrilhas da cidade, mas eu não fiquei pra ver, fui para a pousada depois de me despedir do pessoal da cidade, todos muito alegres e gratos com o pessoal da equipe.
Já era tarde e, no dia seguinte, pegaríamos 'trada novamente rumo à próxima cidade:
Pitimbu, litoral da Paraíba.
Sete horas da manhã, pontualmente.
Depois de um café da manhã maravilhoso, fornecido por o Junior e sua 'posa, donos do restaurante local, colocamos nossas mochilas no carro e no caminho comentamos tudo:
as figuras que encontramos na cidade (que é motivo pra um outro artigo), o fantástico número de pessoas que foram ver a exibição e toda a receptividade dos moradores.
Estava ansiosa para ver se a reação em Pitimbu seria a mesma.
Pitimbu
É notável a diferença entre o interior e o litoral.
Mesmo sendo ainda uma cidade pequena e bem carente, o clima é outro.
Assim que chegamos encontramos alguns problemas, e o maior de eles, sem dúvida alguma, foi a questão da politicagem, o clássico caso de uma cidade quase que 'quecida por a prefeitura, que tenta se aproveitar de qualquer movimentação paralela para se fortalecer.
O filme do local contava o dia-a-dia de uma marisqueira, profissão comum e bem sofrida da região.
Quando eu digo que é bem sofrida, entenda com seu significado mais puro:
rotina puxada, problemas ecológicos com a 'cassez dos mariscos e as velhas questões políticas, numa cidade onde não se encontra muito apoio e preocupação com a profissão.
Por razões como 'tas, a pureza no semblante das marisqueiras é detectada apenas numa segunda observação.
São desconfiadas e acostumadas a pouca trégua da vida, e por isso a relação com elas tem que ser bem cuidadosa.
A prefeitura tentou mudar o lugar de exibição dos filmes sem comunicar à direção do Revelando os Brasis, o que não agradou muito a Adelma, diretora do documentário local.
Adelma não reclamou, afinal seu emprego dependia da prefeitura local e ela não queria criar problemas.
Além disso, confundiu as Marisqueiras e deixou a produção do projeto um tanto quanto chateada, preocupando-se em deixar bem claro que a prefeitura não tinha autonomia alguma para uma decisão precipitada, muito menos sem informar à direção do Revelando, que teve toda a preparação de sua mídia para um determinado local.
A prefeitura queria fazer a 12 km desse local combinado, num município mais afastado de Pitimbu.
Bom, o fato é que o problema foi resolvido com todas as partes, depois de muito explicar às Marisqueiras.
Situação complicada, elas dependiam do ônibus público para chegar ao local onde as exibições aconteceriam.
Fomos falar com o assessor do prefeito e ele informou que não havia com o que se preocupar, pois o ônibus 'taria à disposição.
Fiquei com uma pulga atrás da orelha, mas a principio 'tava tudo resolvido.
Mesmo com todos os problemas, a cidade era linda.
Difícil não ser, aliás, já que o litoral paraibano por si só já 'banja beleza por todos os ares.
Descobrimos que a desconfiança e 'se 'pírito de receio com tudo que vem de fora 'tava mais presente na população do que poderíamos imaginar.
Aquela paz e tranqüilidade que ronda os ares do interior não existia mais.
Lá os problemas com prostituição eram mais fortes, as crianças eram mais 'pevitadas, o olhar não era tão acolhedor assim, era tudo muito tenso, exigia dedicação em dobro, tudo tinha que ser muito bem feito.
Mas 'távamos lá pra exibir os filmes, e no horário marcado 'tava tudo pronto.
Havia muitas, mas muitas crianças correndo por o local, empolgadas.
Estávamos preocupadas com a história do ônibus, quase uma hora depois do horário marcado e ele ainda não tinha aparecido.
E quase que ele não aparecia, descobrimos que só chegou para apanhar as Marisqueiras um tempão depois, quando boa parte já tinha desistido e ido para a casa.
A prefeitura alegou que um pneu havia furado, o que se podia fazer?
Complicadas mesmo 'sas questões, ficamos muito tristes, mas as poucas Marisqueiras que vieram chegaram a tempo, já que demos uma atrasada na exibição 'perando por elas.
Não vou mentir, toda 'sa situação ofuscou um pouco o clima de encanto que a noite oferecia, mas aquele telão enorme parecia por alguns instantes ser maior que qualquer problema e, no final, a realização do filme foi uma vitória merecida daquela gente.
A despedida foi em tom de agradecimento, 'távamos certos que aquilo tudo tinha sido muito bom para o fortalecimento, afirmação pessoal e coletiva daquela cidade, que em outra situação não teria uma oportunidade parecida.
Tantas fábulas em 'se Brasil ...
Tantas histórias e diferenças em cidades tão próximas ...
Voltei na manhã seguinte pra João Pessoa e pensei que eu só 'tive em duas!
A equipe seguiu viagem no outro dia, rumo a contar e ouvir mais histórias.
Ensina-se muito, são oferecidas muitas oportunidades para aquela gente, mas pode apostar que quem pegou carona e viajou com 'se projeto belíssimo aprendeu muito mais, e não voltou a mesma pessoa.
Pode-se ver problemas de verdade, assim como reais alegrias e um sentimento gigantesco de objetivo atingido, de ter feito algo realmente bom.
Não tem preço.
Há coisas que, realmente, só o cinema e suas movimentações proporcionam.
Número de frases: 87
Transição é o tema abordado por o segundo longa de Cao Hamburger
1970. O Brasil sofria o auge do regime militar sob o governo do general Emilio Garrastazu Médici.
Em junho, mesmo com a situação política conturbada por a qual o país passava, a seleção de Pelé, Tostão e Rivellino conquistou o tricampeonato do mundo de futebol no México.
Foi também em 'te mesmo ano que os pais do garoto Mauro saíram de férias.
Pelo menos é 'se o pontapé inicial do filme «O ano em que meus pais saíram de férias», segundo longa do diretor Cao Hamburger, cuja 'tréia acontece dia 02 de novembro.
Mauro, interpretado por o ator-mirim Michel Joelsas, é filho de dois militantes que são obrigados a se exilar devido à repressão da ditadura.
Mauro é então levado de Belo Horizonte para São Paulo para viver com o avô (Paulo Autran), um judeu morador do bairro do Bom Retiro. (
Para aqueles que desconhecem, o bairro é famoso por ter abrigado imigrantes, tanto brasileiros, nordestinos vindos para o sudeste em meados da década de 60, quanto 'trangeiros, destacando-se em 'se último judeus e italianos).
O menino, porém, é obrigado a viver com Shlomo (interpretado por o ator amador pernambucano Germano Haiut), também judeu e vizinho de seu avô que morrera no mesmo dia em que o menino chegou a São Paulo.
O homem passa a adquirir importância significativa na vida do garoto.
É então em 'te mesmo momento, em meio a toda aquela tensão causada por a ditadura e as expectativas dos brasileiros com a copa do mundo no México que se desenvolve a história.
Embora consiga restituir o cenário da época e construir um clima de tensão muito melhor que muitas produções que abordam o tema, a intenção do filme não é a de narrar os acontecimentos referentes ao período histórico cujos resquícios ainda se encontram presentes.
Tanto a ditadura quanto a conquista do tri funcionam apenas como pano de fundo para o filme;
um contexto histórico que cria relações com aquilo que de fato se deseja mostrar.
«O ano em que meus pais saíram de férias» gira em torno do menino Mauro e das situações que ele é obrigado a enfrentar.
É uma história que almeja e consegue de modo simples, porém excepcional, representar o momento de transição de um garoto que aos poucos deixa de ser criança para iniciar o momento de preparação para a adolescência.
Aquela fase intermediária, conflituosa na qual aquilo que foi já não é mais.
A maneira encontrada para isso foi colocar Mauro num universo 'tranho a ele, obrigando-o a conviver com pessoas e realidades diferentes da sua.
Para ilustrar 'se momento na vida do garoto, Cao recorreu a métafora do goleiro.
Assim como o jogador 'tá fadado a uma condição solitária durante uma partida de futebol, Mauro também 'tá sozinho num ambiente diferente daquele a qual era acostumado em Minas.
Vale lembrar que o sonho do menino, incentivado por o pai, era de se tornar goleiro.
A 'colha do ano de 1970 se justifica de forma cabível como cenário ilustrativo do filme.
Assim, como o país enfrentava um clima de tensão, devido à pressão provocada por a ditadura misturada a expectativa da copa do mundo, o menino Mauro também passava por um momento de instabilidade.
A passagem da infância para a adolescência, marcada tanto por as dúvidas por as quais uma criança naturalmente é obrigada a passar, como por a inconstância das situações que o garoto foi obrigado a enfrentar.
A ansiedade gerada por a promessa feita por os pais de retornarem no início da copa e os momentos de felicidade proporcionados por a copa do mundo e por a descoberta de novos amigos, do amor, da solidariedade e até mesmo da sexualidade.
E o êxito é alcançado graças à forma que Cao utilizou para transmitir ao 'pectador o momento de transição.
Os diálogos são 'cassos sim, mas nada que transforme o filme em algo monótono.
Os gestos substituem a fala de uma maneira muito melhor, retornando aquele velho, porém verdadeiro clichê, de que um ato vale mais do que mil palavras.
O final previsível não retira nenhum dos méritos alcançados durante o desenvolvimento do filme.
Apesar de triste, mostra que Mauro venceu toda aquela inconstância própria da vida de qualquer criança e potencializada por as situações a que foi obrigado a enfrentar.
Agora ele 'tá pronto para viver ...
e voltar.
«O ano em que meus pais saíram de férias», representa a transição na carreira do diretor Cao Hamburger, uma vez que ele deixa de dirigir para as crianças (para quem não se lembra ele dirigiu tanto a série como o filme» Castelo Rá-Tim-Bum ") e passa a fazer filmes para adultos.
E isso, ele mesmo afirmou na palestra do dia 26 de outubro na PUC Minas.
Número de frases: 34
Em o início da tarde de uma quinta-feira saí de casa a fim de encontrar o homem que, muito provavelmente, deve ser numericamente o maior produtor de carrancas da região do São Francisco:
o juazeirense Paulo Roberto de Jesus Santos ou, como é mais conhecido, Paulo das Carrancas.
Há 25 anos, ele já havia fabricado 32 mil carrancas.
Entrei no ônibus coletivo com uma referência básica, o nome do bairro:
«Piranga». Mas fui tranqüilo, acreditando que a popularidade das carrancas entre os habitantes de 'ta parte inspirada do Brasil seria proporcional ao reconhecimento de um de seus mais atuantes produtores.
Ledo engano.
O cobrador achou o nome 'tranho e o motorista trocou de marcha enquanto balançava a cabeça como se dissesse:
«Nunca ouvi falar».
Depois de caminhar por um bom tempo por as ruas de um dos bairros mais carentes de Juazeiro, um rapaz, ao perceber minha motivação de 'tar ali, apontou para um homem de meia-idade, que repousava sentado num tronco de umburana entre tantos outros troncos 'palhados por o terreiro.
Para chegar até ele só caminhando sobre pedaços da árvore típica da caatinga e doada aos 'cultores da região por fiscais do IBAMA que as apreendem por extração irregular.
Vendo os exemplares de umburana à 'pera das mãos do artesão para receber «uma solução plástica de elevado conteúdo artístico e emocional», como diria Paulo Pardal, recordei-me de um artigo do teórico frankfurtiano» Walter Benjamin:
A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica (1936)».
Fiquei imaginando que se Benjamin tivesse sobrevivido às agruras da segunda guerra mundial (" suicidou-se em 1940, na fronteira 'panhola, sob o temor de ser entregue por a polícia franquista à Gestapo "), teria um forte argumento para atualizar seu artigo:
o fenômeno social das carrancas do São Francisco.
Contextualização
Coincidentemente, o ano da morte de Benjamin marca o fim do ciclo das embarcações no Brasil, momento em que as carrancas passam a ter outra significação social e cultural, deixando de ser usadas somente como figuras de proa para serem fruídas como objetos de decoração no interior das casas, feiras artesanais, museus, exposições, coleções e 'tabelecimentos comerciais.
Com o advento de 'sa nova função social, que é a do valor de exposição, as carrancas passam a ser elaboradas no sentido de satisfazer a «encomenda», o desejo de quem as quer possuir, bem como objetivando um retorno financeiro.
Esse acontecimento já fora descrito por Benjamin com relação às artes:
«à medida que diminui a significação social de uma arte, assiste-se no público a um divórcio crescente entre o 'pírito e a fruição da obra.
Frui-se sem criticar, aquilo que é convencional;
o que é verdadeiramente novo é criticado com repugnância».
Marilena Chauí, de forma muito atenta ao contexto histórico que possibilitou a 'crita do artigo de Benjamin, assinala no livro «Filosofia» que " ao 'crever sobre a mudança das artes, nos anos 30, Benjamin tinha presente uma realidade e uma 'perança.
A realidade era o nazi-fascismo e a guerra;
a 'perança, a revolução socialista».
Levando a analogia entre os processos de transformação das artes, de forma genérica, e das carrancas, de forma particular, cabe uma paráfrase da reflexão de Chauí.
A o 'crevermos sobre as carrancas, em pleno século XXI, temos em vista uma realidade muito forte:
O capitalismo e a cultura de massas.
Agora cabe uma pergunta não muito simples de responder:
Qual é a nossa 'perança?
Vejamos ...
Como uma figura sombria, disforme, zooantropomorfa e com uma expressão de ferocidade intrínseca agravada por uma generosa juba conseguiu atravessar gerações e se tornar o ícone da região do São Francisco?
Longe da pretensão de fazer um 'tudo da história das mentalidades, a explicação pode 'tar associada ao aspecto ritualístico atribuído às carrancas por os narradores fantasiosos, que encontraram na função totêmica uma fácil explicação para a origem incerta de tal manifestação da arte popular.
De ornamento das barcas passou-se também a atribuir a 'sas curiosas figuras a função mágica de salvaguardar os barqueiros, viajantes e moradores contra as tempestades, perigos e maus presságios.
Uma crença que, medidas as proporções, perdura até hoje.
O fato é que a dimensão religiosa das artes, muito comum nas primeiras manifestações culturais, deu aos objetos artísticos ou às obras de arte um caráter singular.
«Sua qualidade de eternidade e fugacidade simultâneas, seu pertencimento necessário ao contexto onde se encontra e sua participação numa tradição que lhe dá sentido», como 'creve Marilena Chauí.
A o desenvolver tais argumentos, Chauí se refere a uma característica presente no vínculo interno entre unidade e durabilidade, que é a autenticidade da obra de arte.
«A própria noção de autenticidade não tem sentido para uma reprodução, técnica ou não», aponta Benjamin.
E, em seguida, traz um dado relevante para o objeto (Carranca) em questão:
«Mas, diante da reprodução feita por a mão do homem, e considerada em princípio falsa, o original conserva sua plena autoridade».
Será?
As carrancas produzidas por Paulo foram analisadas na monografia mais completa 'crita sobre 'sa arte popular, o livro «Carrancas do São Francisco, de Paulo Pardal».
Em 'ta obra, Pardal ressalta que as carrancas-vampiro (assim denominadas por apresentarem vistosa dentadura branca onde sobressaem os caninos) refletem um sentimento coletivo muito desligado do protótipo original.
Como protótipo original Paulo se refere às carrancas produzidas por o saudoso Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1882-1985).
O mais notável carranqueiro do São Francisco ficaria desolado ao saber que poucos 'cultores têm a audácia de fugir ao padrão imposto por a clientela.
A experimentação, um dos pressupostos da criação artística, ficou mesmo atrelada à figura de Guarany.
Carrancas, Carranqueiros e Carranqueiras
Nascido em 1882, mas registrado no dia 2 de abril de 1884, na cidade baiana de Santa Maria da Vitória, Guarany inaugurou o século XX 'culpindo sua primeira Carranca, aos 19 anos.
50 anos depois, foi considerado o responsável por 2/3 das carrancas 'culpidas no século XX para as barcas do médio São Francisco.
Até os 98 anos, revelou-se, em cada Carranca 'culpida, um artista de refinada sensibilidade e melhor representante das soluções plásticas de elevado conteúdo artístico e emocional.
Não por acaso, a cada peça criada atribuía um nome próprio, fruto de sua imaginação prodigiosa e de referências a animais pré-histórico e à mitologia indígena.
Foi assim que surgiram Aratuy, Muturân, Salaô, Tôrian Jerome, Melozán, Borêta, Zulcão, Muritan, Peroni, Xateiro, Caxalot, Tatuy, Zucuidro, Chipam, Igatoni, Brutuan, Capebolo, Capiñago, Mastodonte, Megatério, Galocéfalo, Medostantheo, Brontosário, e tantos outros nomes (in) decifráveis.
Mas, ao me despedir de Paulo das Carrancas naquela tarde de quinta-feira, senti que 'te exercício teórico-analítico sobre a produção das carrancas, à luz da teoria crítica, não contempla a dureza dos dias sertanejos, marcados por a falta de incentivo, abandono e 'quecimento.
Algo que inequivocamente se reflete na dureza com a qual eu fui recebido.
Diferentemente do que havia feito há um tempo atrás, quando 'tive com outros colegas fazendo pesquisa de campo sobre «a permanência (ou não) da aura na (Re) produção das Carrancas», Paulo se recusou a falar.
Contrastando com a disposição em exibir suas produções ao clique da câmera, naquela tarde não foi possível tirar fotografias.
O encontro não durou nem cinco minutos.
Tempo suficiente para dizer que tem se dedicado a fazer outras coisas, muito além da produção das carrancas.
Se em 1983 ele dizia, num depoimento que compõe o livro " O Velho Chico:
sua vida, suas lendas e sua história», do jornalista Wilson Dias, que faltava «o incentivo e o apoio dos órgãos ligados ao setor de cultura popular e turismo», em 2008 ele prefere nem comentar mais nada:
silêncio e 'quecimento são palavras muito próximas.
Palavras que ainda ressoam na vida da artesã Ana Leopoldina dos Santos, mais conhecida como Ana das Carrancas.
A trajetória da mulher que, para sobreviver, transformou o barro numa figura zoomorfa já rendeu um perfil biográfico:
«Ana das Carrancas:
A dama do barro», do jornalista Emanuel Andrade, e uma matéria 'crita por Pedro Bial para o Jornal Nacional.
Só tem uma coisa:
o reconhecimento veio acompanhado de um profundo silêncio.
Decorridos dois anos de um derrame que deixou Ana sem movimentos e fala, deu-se início a uma nova percepção cultural sobre a importância da artesã, hoje Patrimônio Vivo de Pernambuco, por parte dos próprios vizinhos que passaram a visitar com mais freqüência o Centro de Arte e Cultura Ana das Carrancas.
Quando Ana tinha voz, revelou ao músico Wagner Miranda, autor de uma música em homenagem a ela, que a parte mais certa da letra era a que dizia:
«O reconhecimento demorou e veio lento chegou de fora pra dentro».
O problema é quando o reconhecimento teima em não chegar, legando aos carranqueiros e carranqueiras do São Francisco um silêncio involuntário que se mistura à necessidade diária.
É de 'sa arte que minha família tira o sustento para sobreviver», afirmou Paulo Roberto de Jesus Santos em 1983.
Atualmente, às vésperas de completar 35 anos de carrancas, nem isto ele pode dizer.
Número de frases: 73
Um problema que muitos Webdesigners freelancers encontram ao vender seus serviços para pequenas empresas é a montagem de preço.
Muitas vezes 'se perfil de cliente quer muita coisa e pagar um preço muito pequeno, o que inviabiliza, em muitas ocasiões, a realização do negócio.
Um desses casos é a manutenção do site.
A atualização constante do conteúdo, direto no código é trabalhosa e toma muito tempo do designer, que tem razão de cobrar por isso.
Mas o cliente, que também tem razão, se nega a pagar uma pequena fortuna mensal para atualizações simples de texto.
A solução normalmente encontrada é instalar um CMS (gerenciador de conteúdo) ou chamar um programador parceiro para construir um administrador do site.
Essa solução é boa mas ou encarece o preço do site ou faz o designer ter que dividir o pouco dinheiro ganho com o seu parceiro.
O PontoMat (www.pontomat.com.br) se propõe a ser 'sa mão-na-roda para o designer, permitindo que ele transforme o site 'tático de ele num projeto dinãmico que pode ter seus textos controlados remotamente de uma forma muito fácil.
E melhor:
É gratuito!
O PontoMat funciona assim:
O Designer entra no site, cria uma conta e já sai criando seus textos.
Ali é gerado um código (O Texto Pontomat:.
MAT) que ele vai inserir no Html de ele e voilá:
'se texto passa a ser dinâmico no seu site 'tático, que pode ser puro Html.
Para atualizar o seu texto, basta entrar em sua conta no PontoMat e editar ali mesmo.
O seu texto dinâmico será atualizado em todos os lugares onde você colou o seu ' Texto.
MAT '.
Assim, o site do PontoMat passa a ser o administrador do conteúdo de texto do seu site, sem custo adicional nenhum e facilitando a gestão do conteúdo do site dos seus clientes.
Número de frases: 19
É isso aí, o PontoMat pode ser a solução para garantir um troquinho a mais nos seus freelas e viabilizar aos designers venderem (ou criar seus próprios sites) dinãmicos tendo apenas o trabalho de criar um site 'tático.
A magia dos dias 'tá nas surpresas da vida.
Aquilo que toca e sacode o nosso mortal cotidiano.
Gosto da minha vidinha sossegada, mas também sou uma pessoa de viradas bruscas -- nunca inconseqüentes, de 'sas de dinamitar pontes, virar a casa de pernas para o ar, bater a porta e não olhar para trás.
Gosto do remanso do sossego na medida do possível, o que não me impede de mergulhar em rio grande mesmo sem saber nadar.
Compro com gosto os meus desafios e pago à vista.
A potência crescente dos 40 rascando a planície do 'pelho, que gosto cada vez mais, me deu o charme que só a independência dá, como daquelas mulheres saídas de um filme de Truffaut, e também a compreensão de que o único comportamento que posso mudar é o meu.
Então, eu sou o meu maior desafio, sempre.
E como não acredito em regeneração de personalidade, não tenho a fantasia de mudar as pessoas, apenas tocar e ser tocada.
Esse é o encanto.
As mudanças são cá com mim, nas batalhas interioranas.
E uma das recentes batalhas que travei (ainda travo) com mim para mudar comportamento 'tá nas tecladas por o mundo virtual.
Resisti à internet até o limite da honra -- os detalhes não vêm ao caso.
Aquela minha vidinha pacata, com a crença de que o olho no olho é a medida do mundo, foi por água abaixo ou para o ciberespaço mesmo.
Mas como não sou uma pessoa emperrada, inflexível às mudanças, corri contra o prejuízo, de mouse em punho.
E sigo com a consciência de que não quero ter 300 amigos virtuais se não consigo cuidar bem dos que contaria com folga nos dedos das mãos.
E o método que mais gostei para 'sa navegação em 'paço virtualmente aberto foi o dos 'barrões.
Explico: aprumo-me diante do computador com um plano de navegação e, em busca de uma coisa 'barro em outra digna de mais atenção e lá vou mudando de rumo, como uma folha ao vento.
Dizem que internet é viciante.
Por enquanto, instigante.
Sei também dos riscos que corro.
É aquela história:
se a gente dança com o diabo, ele é quem modifica a gente.
Meu lado Sancho Pança, acredito, há de garantir as desplugadas dos delírios de Dom Quixote em mim.
Até aqui, tudo bem.
Creio que posso usufruir das infinitas possibilidades das janelas virtuais.
Afinal, não quero ser e nem me sentir excluída do mundo que me chega à tela do computador.
Devo ser mesmo um exemplar interessante dos seres que se adaptam com facilidade às mudanças do meio, no sentido darwiniano da palavra adaptação.
Em pouco mais de um ano de existência no mundo virtual, um bebezinho, já consegui o meu lugarzinho ao sol na janela do Windows, com várias caixas postais e 'paço na grande rede.
Transportei da minha gaveta e do 'condidinho da alma a minha Caixinha de Alfazema -- que nasceu como título de um poema ainda na década de 80 -- para o ciberespaço, com cheiros, matizes e palavras.
O lugar mágico da intimidade das minhas palavras aberto público.
E como penso que uma 'quizofreniazinha bem dosada não faz mal a ninguém, os meus diálogos do absurdo -- freudianos, jungianos e quixotescos -- encontraram o caminho da 'finge em 'se mundo dos bits, em que tudo 'tá por um click.
Com todo o experimentalismo da palavra e das imagens, lá 'tão os meus diálogos da 'finge.
Ah, e também as cartas do paraíso.
Olimpo virtual -- A internet é mesmo um lugar de deuses e loucos.
Uma rede onde se encontra muita bobagem e futilidades, mas também possibilidades, descobertas, desafios e coisas que valem a pena.
A pescaria tem de ser paciente e orientada de dentro, com feeling e muito prumo na navegação.
E o cuidado com a palavra e a privacidade, redobrado.
Afinal, é como atirar garrafas ao mar.
Elas voltam.
E as nossas pegadas são todas visíveis.
A ciranda começa simples (eu lhe encontro / você me encontra / nós nos encontramos) e complica com o trança-trança das redes.
Tem gente que vive na rede e para a rede (Deus que me livre!).
A internet é um mundo com chave fácil para a fantasia, falsas dulcinéias, moinhos de vento e quixotes ensandecidos.
É um mundaréu perfeito para as perdições de Alice.
Portanto, alices, cuidado!
Mas a ciranda virtual é interessante.
Tenho feito upgrade em matéria de domínio das nossas tecnologias da informação e soltado os meus verbos nas free ways do ciberespaço.
Esbarrei em deuses e loucos, com aquele friozinho das surpresas.
Algumas surpresas dignas de arquivo e pulos para o mundo real.
Outras só mesmo com o exercício de um verbo fresquinho, fresquinho:
deletar. Sigo com minha navegação em clicks impulsivos, cheia de curiosidade, vou 'barrando e descobrindo, e tocando e sendo tocada.
Em o começo, a timidez, o medo da exposição.
Depois relaxei.
Encarei como um desafio, um brinquedo novo que 'tá me forçando a exercitar prazeres que deliciavam o fundo das gavetas ou se perdiam na confusão dos arquivos do computador, o que apelidei dos perdidinhos de HD (hardware).
Os versos, a prosa, os pensamentos que comeram com gosto as palavras 'critas, as fotografias e as minhas sentinelas da memória aos poucos 'tão se habituando ao livre trânsito da internet.
Mandei meus soldadinhos de chumbo para a reserva.
Com a costumeira cautela vou clicando, sondando, ousando e trocando palavras, impressões e conhecimentos com gente que provavelmente nunca verei do lado de cá da tela do computador.
Mas e daí, se o meu rio grande de hoje é a internet?
Que seja.
E lá vou, com o charme daquela independência de uma conquista nova, um bicho de sete cabeças que tento domesticar ao meu favor.
Sem 'quecer dos perigos da dança com o diabo, exercito o verbo «clicar».
Número de frases: 62
O cartaz de Toalete prometia que eu faria xixi de tanto rir.
Se eu tivesse pago por os ingressos, teria pedido meu dinheiro de volta alegando propaganda enganosa.
Melhor, teria dado cabeçadas na parede por ter gasto algum dinheiro com um 'petáculo tão ruim.
Felizmente me sentei longe do palco, pois a vontade era a de arrancar o tênis e arremessá-lo com a 'perança de atingir algum dos atores.
Fiquei frustrado por não haver motivos para carregar um tomate ou leguminosa na mochila (não até 'te dia), senão teria arriscado o arremesso lá do fundão mesmo.
Pois bem.
Como o título já sugere, o texto de Walcyr Carrasco propõe uma bisbilhotagem num banheiro feminino de um hotel de luxo, por onde passam todos os 'tereótipos-padrão presentes nas piores comédias comerciais (que apostam na mesma fórmula de sucesso):
nordestinos, evangélicos, secretárias-amantes, cariocas, louras burras, patricinhas e socialites fúteis, góticas lésbicas, prostitutas, pobres, muçulmanos, e, claro, homossexuais, invariavelmente afetados e 'palhafatosos (e que invariavelmente se travestem e adoram uma peruca loira).
Todos eles desfilam num verdadeiro circo de aberrações:
são personagens e situações tão sem profundidade que até mesmo o humorístico Zorra Total consegue ter uma construção de personagens mais elaborada.
O 'petáculo aposta no mau gosto e no preconceito para tirar risadas gratuitas o tempo todo, duvidando da capacidade mental da platéia.
De este jeito fica fácil de se fazer teatro, pegando uma forte carona no formato do extinto Sai de Baixo, de cujas piores temporadas participou a atriz Márcia Cabrita, também presente em 'te elenco.
Além do universo do toalete, não existe nenhum fio condutor de todas as histórias, sendo que muitas de elas nem sequer se caracterizam como histórias, de tão pobres que são.
Se assemelham, em todos os sentidos, aos quadros de A Praça é Nossa, em que o personagem aparece, gorfa algumas piadas prontas e em seguida desaparece para todo o sempre.
Para que se tenha uma idéia do quão grotescas são 'tas 'quetes, numa de elas uma personagem conta:
«Eu 'tava vindo para cá e no carro eu decidi fazer um boquete no Arnaldo.
Veio um carro e bateu atrás, e eu engoli o pau do Arnaldo."
Uma fineza só.
Mas a platéia, quase lotada, não se incomoda com uma peça que menospreza sua inteligência.
Pelo contrário, delira com a chuva de bocetas, putaqueparius e vaitomarnocus vociferados aos montes, e ao final aplaudem com a mesma satisfação com que aplaudiriam o show de piadas de Ari Toledo (que 'tá em cartaz a poucas quadras de ali).
É graças a 'petáculos como 'tes que o teatro não é levado a sério:
qualquer 'tratégia de formação de público desce por o ralo (ou melhor, por a privada) quando não existe padrão algum de qualidade no que é oferecido.
E o pior:
'te desserviço à cena teatral é beneficiado por a lei Rouanet.
Enfim, depois de pouco mais de uma hora e meia (que pareceram uma eternidade), um desfecho terrivelmente ruim, como já era 'perado.
Como eu 'pero que depois desse texto os leitores da Bacante queiram passar longe do teatro Gazeta, não vejo problemas em contar o que acontece:
com um rapidíssimo monólogo sentimentalóide no momento «solidariedade, a gente vê por aqui», a única personagem presente em todas as cenas -- uma faxineira evangélica -- conta que quanto mais ela trabalha no toalete, mais ela acredita que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.
Enquanto William Shakespeare se revira em seu túmulo, ela se masturba com um vibrador.
Número de frases: 28
E viva o requinte e a nobreza da arte teatral.
Alberto De a Paz
Recebeu do Conselho Estadual de Cultura, a Medalha do Mérito Cultural, como «Patrimônio e Memória do Estado de Goiás».
Rei mouro (Iedo) e Imperador cristão (Evaldo) das cavalhadas de Santa Cruz de Goiás conduziram Alberto da Paz (Albertão) ao palco do Teatro Goiânia, no dia 05 de maio de 2008, às 20 horas, na entrega do «Prêmio Jaburu», quando foi homenageado.
«Patrimônio cultural não é só monumentos edificados.
Há uma dimensão imaterial, intangível, que tem o mesmo valor».
à margem da GO-020, (Rodovia JK) a 128 km de Goiânia, 'tá Santa Cruz.
Tão próxima e tão distante da Capital!
Foi considerada uma das primeiras povoações, no início do desenvolvimento de Goiás.
A formação do arraial originou-se por a mineração.
Aventureiros, negros 'cravos e garimpeiros foram os primeiros habitantes.
Apesar das perdas materiais e simbólicas, Santa Cruz manteve firme sua fé, sua crença e seu folclore;
as manifestações religiosas e culturais é que nos impulsiona ...
Quando falo em folclore, me vêm à mente muitas imagens:
minha Tia Diana que contava causos;
cantava embolada;
tocava violão.
Vem de ela muita coisa que guardo na memória.
Tio Américo, que me presenteou com uma caneta quando pequena e disse que eu nunca me separasse de ela.
Tio Júlio: todos, músicos;
e, também meus Pais, principalmente minha mãe, com sua medicina alternativa, sua habilidade para o artesanato, sua disposição para qualquer serviço.
De entre todas 'tas imagens, vem precisamente e com nitidez, a imagem de Alberto da Paz (Albertão).
Olhos opacos, ( ...);
Se falar numa música, ele canta, para ensinar o que sabe.
Se falar numa dança, imediatamente ele ensina alguns passos.
Hoje, Diretor do Conselho Consultivo da Comissão Municipal de Folclore -- uma maneira de homenageá-lo -- não mais integrando ao time das cavalhadas.
Continua às vezes na folia, apesar de debilitado por a falta de saúde.
Nome artístico «Ás de Ouro», Inspetor da Guarda Civil, violeiro e cantador de folias e danças populares, poeta, rei cristão das cavalhadas (cavaleiro por 56 anos), marcador de quadrilha, contador de causos ...
Deixa registrado em nossa memória, o universo do camponês goiano, através das danças e músicas folclóricas.
Sua história se entrelaça à história de Santa Cruz e de todo Estado de Goiás.
Sua impressionante vida se apresenta com extrema grandeza, como poderoso gesto de sedução da memória.
Não é um gesto qualquer.
É uma volta ao tempo, onde se vivia simplesmente em função do bem 'tar;
da união;
da alegria ...
Onde era cultivado o prazer por as coisas naturais e belas da vida, através da arte.
Alberto uma criança grande e feliz, não quer ver a história de Santa Cruz morrer.
Com sua vida artística, muito contribuiu para nossa cultura.
De tudo que aprendera sobre folclore, sua maior paixão foi, e é, as Cavalhadas.
Conheceu 'ta manifestação folclórica, ainda era criança.
Disse Alberto.
«Terezinha, 'crava, teve um caso com Berto um Senhor de Engenho, em Pilar de Goiás, deste caso vieram dois filhos clarinhos.
Seu marido Benedito achou 'tranho quando viu Euzébio um menino clarinho.
Depois veio Terezinha também branquinha.
Benedito pensou:
«Como pode um casal de negros gerar filhos claros?"
Revoltou-se e brigou.
Alguns negros eram a seu favor e outros contra.
Houve muita morte.
Benedito morreu em 'ta rebelião.
Os negros favoráveis a ele fugiram levando o casal de crianças:
Terezinha e Euzébio.
Eram ajudados por negros de outras fazendas, que lhes ajudavam 'condido dos feitores.
Vieram até Santa Cruz.
Aqui chegando os coronéis deram abrigo aos negros fugidos, em troca de serviço.
Chegou a Pilar de Goiás, tempos depois, a notícia de que os negros 'tavam em Santa Cruz.
Os Capitães do mato vieram atrás de eles;
a turma de coronéis os rechaçaram;
voltaram para Pilar ...,
nunca mais puseram os pés em Santa Cruz, por medo de serem em número maior os negros de 'ta região.
Para livrar de uma revolta os Coronéis de Santa Cruz mandaram os negros refugiados para Bela Vista de Goiás, de acordo com os Coronéis de lá, indo junto:
Terezinha e Euzébio.
Passara o tempo.
O casal de criança foi registrado e batizado por os Coronéis que os 'timavam muito.
Ficaram com nome de Tereza Marques das Neves do Pilar e Euzébio Marques do Pilar (Neves, em homenagem à neve, que achava bonita demais).
Francisco Teixeira da Motta Coronel da Guarda Nacional era poliglota (falava: tupi-guarani, francês, alemão, português e 'panhol), aprendeu ouvindo os 'trangeiros.
Aprendia com eles seu idioma e os ensinava o português;
era um rapaz de posses.
Casou-se com Tereza, antiga Terezinha -- 'crava fugida, educada por os coronéis -- Francisco recebeu após o casamento, a Espada de Honra ao Mérito das mãos do Conde de Assumar, Governador de Goiás.
Francisco Teixeira da Motta e Tereza tiveram um filho:
Alcebíades Teixeira da Motta.
Quando moço aqui em Santa Cruz, Alcebíades exerceu as seguintes funções:
Ouvidor (Juiz de Direito) Rábula (Advogado leigo) Prosador (Contador de história) e Intendente (Prefeito).
Alcebíades Teixeira da Motta casou-se com Angélica Teixeira dos Santos.
De 'ta união, no dia 24 de janeiro de 1920, às 05h30 min de sábado, nasceu Alberto da Paz, que sou eu.
Desde pequeno eu aprendi a gostar de folclore.
Meu primeiro contato com a congada e outras danças e músicas folclóricas foi assim:
Saindo da fazenda Pico, fui pra outra de nome Cubatão, cujo proprietário era Balizaria Leopoldina de Moraes.
Também exercia lá em 'sa fazenda, a profissão de vaqueiro e roçador de pastos.
Fiquei lá até aos 17 anos.
Depois fui trabalhar com Manoel Teixeira Araújo, fiquei até os 19 anos.
Em 'ta época conheci Luis Teixeira de Araújo, pai de Manoel, que morava na fazenda vizinha.
Ele era folclorista, violeiro, catireiro ...,
aprendi com ele quase tudo que sei sobre folclore:
Folia de Reis;
Catira; Folia de São Sebastião;
Cana Verde; Roseira;
Engenho de Maromba; Passeio Bom;
Quadrilha ... A Congada eu aprendi com Manoel Cristino, carpinteiro e dançador de congo e também com Benedito Rebolo, um Senhor oriundo de Rio das Pedras -- MG.
Mas eu nunca enveredei por 'se lado;
gostava era de ser cavaleiro das Cavalhadas.
Fui também marcador de Quadrilha.
Quando conheci a encenação das cavalhadas, meados de 1924 a 1925.
Fiquei encantado!
A os 17 anos corri pela primeira vez, como um cavaleiro cristão.
Em o ano de 1945, com 25 anos de idade assumi como contra-guia:
cavaleiro que abre as cavalhadas, na hora que vão os Reis, um para cada lado. (
Há um contra-guia mouro e um cristão).
Em 1948, com 28 anos de idade, passei a guia (rei cristão), ficando até o ano 2000;
minha última cavalhada!
A primeira encenação das cavalhadas em Santa Cruz foi em 15 e 16 de agosto de 1826 coordenada por Raspasiano Adagomanto.
Não registraram 'ta história para posteridade, portanto, infelizmente não sabemos quem é Raspasiano, nem porque ele trouxe 'ta encenação para cá.
Só sabemos que as Cavalhadas, nada mais é que a representação da guerra entre o Império Francês contra os Turcos Mouros.
Guerra por religião, política e paixão.
Sei um bocado de danças de troca de pares, pode improvisar versos na hora.
A gente dançava e cantava nos pagodes!
«Pagode», Fátima, era festa de 'cravo (eu era tratado como um).
Nós reuníamos pra dançar e cantar, acompanhados de sanfoneiro e violeiro.
Dois cantador alternados cantavam as músicas, enquanto desenvolvia a dança.
Mas o povo ajudava.
Quando a gente chegava ao pagode, no começo ficava desanimado.
Ficávamos ali por o terreiro, encostado nas paredes, uns cabisbaixos, outros mais cendeiros (assanhados) tiravam as mocinhas pra dançar.
Eu desconhecia as dança chique de salão, mas sabia pisar num pagode!
Era um belo bailado de saia rodando!
«Dois poetas, ou dois trovadô» (assim chamava os cantadô) animava com as músicas conhecidas, ou ia improvisando os verso na hora.
Aí ficava bonito!
O salão ficava apinhado de gente.
Se um levantasse o pé, pode ser que conseguia descer, de tanto que ficava cheio.
Era um amassa barro, levanta pó, ...
mas tudo dentro do ritmo.
O suor descia, a boca secava ...
mas ninguém cansava!
Uns tomavam uma pinguinha num gole só, outros só tomava água, «pra dá uma moiadinha» na boca.
Como a gente era feliz!
Em um tinha pobreza, num tinha nada que apagava a alegria de 'tar num pagode.
As casas eram de pau a pique, chão batido;
rancho mesmo!
Virava um poeirão danado ...
mas todo mundo se divertia!
A festa acabava de madrugada.
Chegávamos em casa e nem bem pegávamos no sono, íamos acordando com o canto da Saracura Três -- potes: -- '
três potes, três potes» ...
Elas cantavam no começo e no fim do dia.
Era o trem mió do mundo ouvi as bichinha cantá!"
Nossas Tradições São Passadas De Geração em Geração.
São Recebidas E Repassadas De Maneira Intuitiva E Afetiva, Deixando no Coração De Cada Um De Nós A Certeza De Que, Por a Arte, Podemos Iluminar A Vida.
Para Nós, É Importante A Continuidade, A Memória, O Recordar Os Tempos Idos.
Enquanto Vivenciamos Uma Arte, Estamos De Alguma Forma Contactando Nosso Passado.
Em Uma Determinada Música Um Vê O Pai, Em Uma Dança Outro Vê O Avô E Assim Por Diante ...
Tradição descende da palavra latina «traditione» que significa entrega, outorga;
assim, a tradição é o ato de transmitir ou propagar valores 'pirituais de geração em geração e em 'ses valores podem-se incluir fatos, hábitos, usos, costumes, lendas, e muitos outros valores de apreço ou de rejeição, de um povo ou parte de ele, sobre certa reminiscência ou memória.
Assim é Alberto da paz (Albertão), uma pessoa do povo, que nos enriquece com seus saberes, sua memória inigualável, suas crenças, suas lendas, seus causos.
Uma homenagem justa, a um Ícone do Folclore Brasileiro.
Aparecida Teixeira de Fátima Paraguassú
Presidente da Comissão Municipal de Folclore de Santa Cruz de Goiás.
Depoimentos
Sobre Alberto
Em a década de 1970 tive o privilégio, entre as autoridades presentes, na Cavalhada, inclusive o Governador do Estado, de receber a maior homenagem da festa, a «argolinha» conquistada, na ponta da lança, por o rei cristão, Alberto da Paz.
Estavam com mim no palanque, a folclorista Regina Lacerda e o 'critor, meu compadre, Bernardo Élis.
Conheci o Alberto, em Goiânia, desde o tempo em que fora Inspetor da Guarda Civil, violeiro e cantador de folias e danças populares, com o nome artístico Ás de Ouro, fazendo dupla sertaneja com o Campo Grande.
Ultimamente, todas as vezes que passava por Santa Cruz, o visitava em sua casa, que ainda mantinha um pelourinho do tempo da 'cravidão, ele, quase cego, ao ouvir minha voz, exclamava entusiasmado:
-- «Waldomiro Bariani Ortencio, que prazer!».
Bariani Ortêncio -- Presidente da Comissão Goiana de Folclore
O que posso dizer é que ele 'tá na minha memória de criança, e que o gosto por as cavalhadas eu adquiri ouvindo-o falar, cantar, tocar ...
Eu tenho uma verdadeira admiração e respeito por ele.
Sim, ele é inspirador!
Ouvindo-o cantar nas folias, não há quem não se emocione, não chore, não respeite a sua fé!
Eu tenho na memória, registrado com saudade:
o tom de sua voz, o olhar, os gestos e a imponência ao representar, ao contar os causos todos.
Muito lindo!
E não é nada material, mas sim o 'pírito de alguém que ama sua terra, sua origem, sua historia!
Moema Nepomuceno, Brasília-DF.
Número de frases: 162
Todos pensam que Pelé foi o grande goleador de todos os tempos, o único a passar dos 1000 gols, e que Romário é um babacão que fica jogando até os 40 anos e contando gols de amistosos no Qatar pra alcançar a sonhada contagem.
Pois se preparem:
Pelé não é o maior goleador de todos os tempos.
Pelé alega ter marcado 1284 gols em 1375 jogos.
Em 'ta sua conta, ele não se prende a jogos de Primeira Divisão, muito pelo contrário.
De entre os 1284, encontram-se 14 gols em 11 jogos por um tal «Time Militar», gols por um combinado Santos / Vasco, gols por o Sindicato dos Atletas de São Paulo e, pasmem, até gols em jogos beneficentes.
Até hoje, não sei como a Fifa reconhece 'ses gols.
De os 1284, 519 foram marcados nos chamados jogos «não-oficiais», ou amistosos.
Apenas os 765 restantes teriam sido marcados em jogos oficiais (lê-se: Copa do Mundo, Copa Libertadores, Campeonato Brasileiro, Campeonato Paulista, Campeonato Norte-Americano, Torneio Rio-São Paulo, etc.).
Anotem aí:
765.
Gerd Müller é o maior artilheiro alemão de todos os tempos.
Em os rankings históricos, soma 735 gols em 793 jogos.
Portanto, ainda 'taria 549 gols atrás de Pelé.
Estaria. Acontece que, em 'ta contagem de gols de Gerd Müller, 'tão somados apenas os gols de jogos Oficiais, a grande maioria em campeonatos da extinta Alemanha Ocidental.
E, assim como Pelé, Gerd também jogou seus jogos não-oficiais.
E não foram poucos.
Aliás, muito mais que Pelé.
E marcou muito mais.
Foram 726 gols em apenas 423 jogos.
Somando-os aos 735 oficiais, temos 1461 gols marcados por Gerd Müller, o que o credenciaria ao maior goleador da história do futebol.
Credenciaria, pois seus gols não-oficias não são reconhecidos por a Fifa, sabe-se lá o porquê.
Logo, lhe restam apenas os oficiais 735.
Romário teve¹ sua carreira nos anos subseqüentes.
Anos em que não se disputa 50 amistosos por ano, nem se joga por o time do exército ou algo parecido.
Em jogos não-oficias, marcou apenas 192 gols.
Já nos seus 968 jogos oficiais, marcou 754.
Se fizermos um ranking somando os gols em jogos oficiais e não-oficiais, temos a seguinte ordem:
1) Gerd Müller, 1461 gols;
2) Pelé, 1284;
3) Romário, 946².
Agora, se levarmos em conta apenas os gols em jogos oficias, chegamos a uma surpreendente conclusão:
1) Pelé, 765;
2) Romário, 754;
3) Gerd Müller, 735.
E a conclusão é:
bastaria Romário jogar o Campeonato Carioca desse ano para se tornar o maior artilheiro de gols oficiais da história do futebol.
Claro que a Fifa não vai reconhecer isso, afinal, Pelé é um mito.
Mas eu vou!
¹ Em a verdade, ainda tem.
² Em sua contagem pessoal, Romário inclui gols na sua fase de amador;
por isso, 'tá mais próximo do gol número mil.
Número de frases: 42
Que a programação da televisão não é boa todos sabemos, e que a programação da Rede Globo, particularmente, é mais ainda alguns discutem.
Creio que por o quesito técnico que a Globo tem alguns se deixam seduzir e 'quecem que o visual não importa mais que o conteúdo.
Bem, para muitos o visual é o que importa, mas falo para aqueles que são do outro lado de 'sa sociedade da imagem.
Para aqueles que se ligam muito mais no visual, creio que seja bom ler outra opinião que não a sua, para ter o conhecimento da existência de outro lado das coisas.
O único programa que acompanho regularmente na televisão é Malhação.
O programa é destinado a crianças, adolescentes e jovens em sua temática principal, mas é aberto a todos da família.
É veiculado normalmente entre 17h30 e 18h e tem em sua trama adolescentes numa 'cola.
Mas algumas coisas são bastante interessantes de serem comentadas e refletidas, se pensarmos que 'se é um programa de grande alcance e moldador de visões de mundo.
Creio ter dito que a qualidade técnica dos programas Globais são bastante agradáveis e 'se quesito será devidamente ignorado aqui, pois comentarei sobre o roteiro do programa, sua 'trutura narrativa e seus conceitos básicos.
Encaramos anualmente uma mudança nos personagens protagonistas e a manutenção ou não dos personagens secundários ('crevo «dos personagens» pois não com si me acostumar com «das personagens» e creio que isso não interferirá na leitura de ninguém, já que «das personagens» é um preconceito contra o bom senso).
Uma das premissas básicas do programa é ser uma 'cada a novos artistas.
Então reclamar da performance dos atores juvenis é ser por demais crítico com aprendizes, tento sempre repara na evolução destes ao longo do tempo em que ficam no ar, no 'paço que é dado aos personagens e o desenvolvimento de eles dentro do contexto disponível.
Outra faceta das reclamações vem da parte das falas, em que relegam aos atores às falas dos personagens.
E isso já é culpa de quem 'creve o programa.
O roteiro de Malhação é tão 'drúxulo que chega a ser constrangedor em vários momentos.
Sempre no começo de uma nova «temporada» o programa nos apresenta personagens determinados que vão participar da galera da comédia e os protagonistas que vão entrar nas armações dos «vilões» e as ações «heróicas» das pessoas do bem.
Curioso notar que sempre há um casal que é separado por outro casal a fim de cada um ficar com o par do outro.
O tema, par perfeito que se merece, 'tá sempre em voga com uma previsão de nunca se modificar.
Então temos um programa que sabemos o que vamos ver ao longo do período.
Essa previsibilidade do roteiro nos dá um descrédito no nível de sua qualidade.
Mas vemos por aí 'critores que trabalham com o óbvio e ainda sim saem-se tão bem que 'quecemos que 'tamos vendo algo previsível e nos importamos em como a previsibilidade será lidada ao longo da obra.
O que não é o caso do programa.
Ele nos apresenta situações (as tensões) cujas soluções já antecipamos e vemos o desenrolar das ações correrem do jeito que imaginamos, por o simples fato de que ano após ano elas se repetem sem muitas variações.
Outro erro do roteiro é não respeitar os personagens em suas 'sências.
Se um personagem é bom ele poderá cometer erros, mas nunca maldades descabidas.
Se alguém não tolera chantagens as aceita só porque isso fará uma determinada situação se desenrolar é algo puramente manipulado por o roteiro sem o menor respeito a elaboração daquele personagem.
Mas digamos que o roteiro fosse altamente manipulador ao nível de trocar noções, convicções e ideologias dos personagens só para se adequarem ao roteiro, que o fizessem sempre ou então de forma eficaz.
Mas mesmo assim há ainda falhas grotescas quando vemos personagens ter ações inconsistentes com um ritmo de pensamento que tem, tornando-as horas uma pessoa genial e outras uma verdadeira toupeira.
O que é altamente influenciado por o ritmo de vida que levam.
Parece que acordam às oito da manhã, tem aulas das nove ao meio dia, com direito a intervalos e ainda ter o dia todo a viver.
Sem contar com o 'paço amostral da vida que vivem.
Onde só existe um clube, uma clínica médica, uma 'cola, um bar-boate, etc..
Parece que só o que interessa ao roteiro é deixá-los o mais junto possível para poder fazer suas manobras.
E criar as situações mais ridículas do mundo.
O que é uma pena, já que se fosse um programa descompromissado com a realidade, ele poderia fazer suas loucuras que a coisa iria ficar reduzida ao nível da obra.
Mas, infelizmente, ele é um programa que se preocupa com uma boa parte «educativa».
O que mais uma vez o roteiro falha.
Já que ao incluir suas lições de moral e suas explicações nunca vê um problema dos dois lados, dos três lados e quantos lados tiver o tal problema abordado.
Tendo uma visão altamente parcial da realidade que se passa fora do programa, transformando o mundo dentro do programa altamente improvável se ser comparado ao mundo real.
E portanto suas lições não tem tanto impacto assim, deixando 'sa parte, a educacional, bem destituída de validade, o que baixa o nível do programa em sua intenção.
Começo então a perceber que 'sa elaboração do programa é de algum modo manipulada a criar uma realidade opcional na qual as pessoas iriam querer viver.
Onde as pessoas se mobilizam com a maior naturalidade, onde o dinheiro nunca é problema, onde pessoas deixam lanches inteiros sobrando em mesas, nunca se preocupam com seu futuro, pois ele será determinado por as mãos do Roteista.
A segunda causa da minha insatisfação do programa é sua 'trutura narrativa.
Ela não deixa 'paços para o 'pectador fruir conjuntamente com a obra.
Ela é fechada e lacrada a sete chaves e por isso mesmo nunca alguém se identificaria com algum personagem, mas sim com suas atitudes.
Essas que podem ocorrem em qualquer personagem de um lado «bom» ou «mal» do grupo.
Esses lados nunca prezam a inteligência para resolver nenhum problema.
Os diálogos importantes são sempre deixados para o fim da «temporada» e num passe de mágica tudo se resolve, e tudo é devidamente 'quecido para o outro ano.
Seguindo qualquer mote de novela popular global.
Narrando a vida de diversas pessoas elas se resumem aos interesses do programa.
Deixando-os inertes do mundo real, onde pessoas discutem sobre coisas «normais» do seu dia a dia, programas de televisão, filmes, acontecimentos, impactos globais, livros que lêem, e demais características que as tornariam mais personagens humanas que simples peças num jogo desenvolvido «às coxas» por a produção.
O que falar de um grupo de crianças que acha um mapa que por ventura seria do «tesouro» e vão quebrar o chão de um 'tabelecimento à noite para achar o tal «tesouro» e quando entram em cena 'tão devidamente fantasiados com lanternas de mão, capacetes de pedreiros, e uniformes que numa vida normal custariam o olho da cara, mas as simples crianças 'tão lá como que ridículas em ação.
Esse tipo de incongruência nos é mostrado a toda hora.
Essa opção de narração é devidamente cômica, se fosse algo afastado de uma realidade, ou devidamente inserido em ela, mas não, isso só serve de maneira a não se justificar de qualquer forma.
Enfim, o programa peca em seus conceitos básicos.
Seriam eles o educativo e o de entreter o 'pectador.
Em seus dois níveis ele falha de modo grosseiro só restando saber como que ele faz tanto sucesso, já que é previsível, incongruente e altamente não justificável.
Adendo:
Como não considerar que no universo de Malhação a teoria das improbabilidades funciona à toda?
Acontecem séries de atos e ações altamente improváveis numa vida real, e mesmo no mundo proposto para nós.
As situações desenvolvidas só aconteceriam se o rumo das coisas fosse aquele único e só aquele.
O que é mais difícil de acontecer do que ganhar na mega-sena.
E olha que ninguém nunca ganhou na mega-sena dentro do programa.
Número de frases: 63
leandroDiniz
O sonho de uma família feliz sempre existiu no imaginário da classe média brasileira da década de 90: 'tabilidade econômica, filhos educados, lazer e saúde garantida.
É em 'te contexto que A Casa de Alice -- filme de Chico Teixeira, premiado em 3 festivais internacionais de cinema -- retrata de forma detalhada e sincera a vida de uma família de São Paulo, na qual descobrimos diversos mundos paralelos, cheios de segredos e crises, guiados por o egoísmo de cada personagem e que nos levam a refletir sobre nossas vidas e famílias enquanto resquícios de uma época turbulenta da qual fazemos parte.
Com um orçamento modesto, a produção do filme conseguiu caracterizar de forma bela e sincera o apartamento em que a família vive, expondo com clareza as características de uma realidade que é pouco tratada por o cinema nacional e que se bem trabalhada pode resultar em ótimas produções independentes.
O nível de identificação com os personagens é tão grande que a impressão que fica é que a história poderia ter acontecido com qualquer um de nós, ao nos depararmos com elementos e situações que fizeram parte da vida da maioria das pessoas:
traições, quotidiano pacato, questões econômicas, desejo de ascensão social, crenças populares, entre outros conflitos familiares.
A naturalidade das atuações não só convence como nos coloca como personagem indireto da história.
A brilhante atuação da protagonista Carla Ribas nos mostra uma mãe de família cansada e entediada, que procura por algo que a faça se sentir viva novamente, como reviver uma paixão da juventude, mas que além disso deve cuidar da casa, dos filhos e do marido -- um homem frio e distante dentro de casa, mas que mostra seu outro lado fora de ela.
Os filhos, ociosos e problemáticos, vivem à margem, inertes e impotentes em relação à situação dos pais, como quando éramos crianças e apenas podíamos ver a vida passar diante de nossos olhos.
O egoísmo do ser humano é o principal tema do filme, o qual o diretor constrói mostrando a visão de cada um dos membros da casa em relação ao que acontece ao redor de si, suas preocupações, desejos e medos.
Somos apresentados também aos amigos e vizinhos da família -- que é composta por pai, mãe, três filhos e avó -- e é aí que percebemos o quanto a família parece 'tar afastada da realidade, trancafiada entre as paredes do moralismo, da vergonha e da inveja, entre outros preceitos negativos da sociedade.
A cada cena, descobrimos mais segredos dos personagens, nos deixando cada vez mais ansiosos por a conclusão da história.
A fragilidade do ser humano é colocada em evidência com as brigas e discussões entre irmãos e vizinhos.
Até a matriarca da família, que é a única que se 'força para manter o lar que 'tá à beira de um colapso, de pé, é fragilizada por a doença e por o desprezo.
De forma gradual e progressiva, somos levados à epifania do filme -- a grande sacada -- que nos choca e nos arrebata, ao vermos tudo que já 'tava condenado a desmoronar, cair de vez, quando seu único pilar que ainda o sustentava é retirado.
Os resquícios de 'perança que poderiam haver desaparecem e então podemos finalmente voltar a realidade, por mais parecida que 'ta seja à do filme.
Resta apenas a nós reconhecermos nossos defeitos e dar lugar a um pouco mais de sinceridade e respeito ao próximo.
* Site oficial:
Número de frases: 18
www.acasadealice.com.br Cantora, compositora e violonista, Patrícia Mello 'tá aprontando Espirais.
Quer lançar 'te seu primeiro CD solo ainda em 2007.
A cidade, uma drum ' base como ela mesma define, é uma faixa do disco novo e pode ser conferida na página virtual de ela.
Em A Cidade Patrícia fez letra e música, faz voz, violão e co-produ ção.
A produção é de Heinoê Ferreira, que também faz a programação eletrônica, e DJ Duke Jay (da Bataclã F.C.) dá uma banho nas picapes.
Patrícia iniciou na música como flautista da Orquestra Infanto-juvenil da Ufrgs e 'tudou na Escola da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA, por três anos.
Dedica-se profissionalmente à Música Popular Brasileira como cantora.
Apresenta-se em diversos 'paços culturais do Rio Grande do Sul.
Realizou tournée nacional por quase dois anos com o show Música do Mundo, apresentando-se em Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.
De retorno a Porto Alegre, Patrícia dedicou-se também ao violão e à carreira de compositora e participou de diversos eventos.
Fez shows em todas as edições do Fórum Social Mundial realizadas em Porto Alegre.
O trabalho de Patrícia tem fortes influências da Bossa Nova, do Jazz, do Blues e do Samba e, mais recentemente, do Funk.
Ela canta com balanço um repertório de qualidade.
Compõe solo letra e música.
Em as parcerias, geralmente é quem faz a música.
Patrícia também participa de diversos projetos sociais com oficinas de música, atua como atriz e produtora cultural.
Musicou poemas de Paulo Paim (do livro «Vida, Sonhos e Poesias» do senador gaúcho), compôs e produziu a trilha original da peça infantil «Mama Íria», de Lisete Berttoto, além de assinar a Direção Musical da peça.
Número de frases: 17
Apesar do Brasil ser um país onde se lê aproximadamente 0,7 livros /habitante/ano, o mercado livreiro e editorial tem se mostrado uma fonte de renda das mais promissoras.
De qualquer maneira, é de se 'perar que uma nação que se dá o luxo de informatizar praticamente a totalidade de suas atividades burocráticas e empresariais, não continue a trilhar, culturalmente, o mesmo caminho -- e no mesmo ritmo -- que a Somália, Ruanda e Nigéria.
O povo se ilustra cada vez mais, dia a dia, vê e sente a necessidade de expandir seus conhecimentos e sabe que, a despeito da televisão, o livro ainda é a melhor e a mais barata maneira de adquirir informações.
Assim, tanto do ponto de vista editorial quanto do consumo de livros, a tendência é melhorar.
No entanto, ainda é preciso lutar contra muitos obstáculos, contra muitas artimanhas desenvolvidas por os distribuidores e livreiros, artimanhas 'tas geradas por uma política econômica nacional de juros altíssimos -- que no mínimo inibem os investimentos -- e que, «contaminando» o pensamento dos que trabalham em 'te ramo, prejudicam seriamente o desenvolvimento de um mercado que, a exemplo do que ocorre nos países desenvolvidos, é um dos mais lucrativos.
A taxa de desconto cobrada por muitas distribuidoras, superando os 50 % do preço de capa, deveria ser menor.
Não houvesse uma porcentagem tão alta e o livro poderia chegar ao consumidor por um valor bem menor, facilitando vendas e possibilitando o acesso à cultura para um maior número de pessoas.
A mentalidade colonialista que impera na maioria das editoras brasileiras -- mentalidade 'ta provavelmente ditada por uma tendência que vem do próprio povo e que 'tá no velho ditado «santo de casa não faz milagre» -- determina a preferência editorial por autores 'trangeiros, em detrimento dos patrícios que, certamente não têm menos valor que um Sheldon, um Robbins ou um Higgins.
Temos brasileiros que 'crevem muito bem, que possuem idéias excelentes e que poderiam se tornar grandes, desde que editados e, evidentemente, lidos.
O preconceito pior parte dos livreiros -- contra o qual nós temos lutado muito -- de que o livro de bolso não tem aceitação por parte dos leitores, é um outro fator impeditivo de uma maior divulgação dos livros no seio do grande público.
Um livro de bolso pode conter exatamente o mesmo texto que uma edição de luxo, com a vantagem de custar menos, justamente por não pensar em ostentação e apresentação luxuosa.
O valor daquilo que 'tá 'crito é imutável.
Ou presta ou não presta e cabe ao editor, antes do leitor, saber filtrar aquilo que irá levar às prateleiras das livrarias.
São 'pinhos que aqueles que desejam ingressar em 'se mercado, têm de vencer.
É uma luta que se deve abraçar contando como principal arma, a necessidade que o povo brasileiro vem demonstrando, de melhorar seu nível cultural para que, não apenas em reservas cambiais, de fato passe a trilhar o caminho do Primeiro Mundo.
O brasileiro sabe que para se equiparar a qualquer outro povo mais desenvolvido, o requisito primordial é a cultura e, exatamente por isso, vem procurando aumentar em primeiro lugar, o seu nível de leitura.
Autores novos, talentosos, surgem a cada dia.
Porém, 'ses gênios continuam apagados porque seus trabalhos não são divulgados, não são publicados, não são vendidos, não são lidos.
São os preconceitos e os temores das editoras os principais motivos para que 'ses novos luminares jamais apareçam.
Há os mais ousados, os que se arriscam uma vez, levam sua obra a uma gráfica, mandam imprimir e ...
infelizmente, fracassam.
Esse fracasso foi determinado principalmente por a falta de orientação editorial.
Uma gráfica simplesmente executa o serviço gráfico que, inclusive, pode ser muitíssimo bem feito.
Contudo, fazer um livro não é apenas mandar imprimir cento e tantas páginas de papel.
Há que se editar o livro.
Há todo um processo de revisão, desde a simples revisão datilográfica e ortográfica, até mesmo a delicada e sutil revisão literária, em que o editor apreende a idéia do autor e a retransporta para o papel, colocada em termos claros, lisos, 'correitos e de fácil entendimento.
Por isso a necessidade de uma editora.
Temos visto obras de bons autores, bem 'critas e com idéias excelentes, que não conseguiram «decolar», simplesmente por falta de quem as editasse convenientemente.
O custo editorial não é barato mas, as vantagens vistas no produto final são inegáveis.
Uma obra que tenha o respaldo de uma editora e que não seja uma mera «produção independente», tem toda uma tecnologia e todo um know-how em sua execução, que permite a aceitação pública mais imediata.
Aceitação que vai desde a apresentação do livro, com a 'colha de uma boa capa e um bom título, até a elaboração da idéia, no miolo do livro e a sua explanação ao leitor.
Fonte:
Número de frases: 32
www.ryoki.com.br/textos.htm Beto Leão (*)
Pouco a pouco, Goiás vai conquistando o 'paço que lhe cabe no cenário cinematográfico nacional.
Sem muita tradição na arte de fazer filmes, os goianos têm aperfeiçoado a cada dia as suas técnicas, idéias e narrativas audiovisuais, o que tem permitido uma maior visibilidade das produções goianas nos festivais nacionais e internacionais.
Em 1999, ano em que o FICA 'treou no calendário dos grandes festivais internacionais, o cineasta João Batista de Andrade prefaciou meu livro Bennio -- De a Cozinha para a Sala Escura, em que demonstrava seu «'panto com a absoluta ausência de um cinema goiano».
De acordo com o pensamento na época do então coordenador geral do Festival Internacional de Cinema e " Video Ambiental, nos últimos anos, lutando contra todas as regras e, mesmo, contra a má vontade dos que pensam controlar a cultura brasileira, o cinema brasileiro saiu do eixo Rio-São Paulo e mostrou que criatividade existe onde for possível exercitá-la.
Em 'ses anos tenho visto, tanto no mercado quanto nos festivais nacionais e internacionais (com sucesso), filmes de Pernambuco, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Minas, Paraná, Santa Catarina, Santo e tantos outros 'tados, onde, aliás, houve a preocupação de se criarem apoios locais.
E nada de Goiás."
Já naquele primeiro ano do FICA, em que participaram apenas cinco produções goianas, um convênio entre a Agepel (na época Fundação Cultural Pedro Ludovico) e a ABD-GO possibilitou a finalização de três curtas-metragens, em 16mm e 35mm -- Santo Antônio dos Olhos d'Água, de Kim-Ir-Sen, Bubula, o Cara Vermelha, de Luiz Eduardo Jorge, e O Pescador de Cinema, de Angelo Lima, dois dos quais participaram da mostra competitiva, sendo que um de eles (Bubula, o Cara Vermelha), fez carreira nacional e internacional, ganhando diversos prêmios.
Os dois últimos mais A Lenda da Árvore Sagrada, de Eládio Garcia Telles, prêmio de melhor produção goiana no 1º Fica, foram selecionados no 10º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, e na Jornada Internacional de Cinema da Bahia.
Finalmente, o Brasil 'tava começando a conhecer um pouco do cinema goiano, já que a última aparição em festivais nacionais havia acontecido em 1978, quando José Petrillo saiu com o troféu Candango de melhor curta-metragem em 35mm com seu Cavalhadas de Pirenópolis.
Passados 'ses oito anos desde a primeira edição do FICA, a realidade é bem outra para o audiovisual goiano.
Em o próximo mês de julho, a IV MoVa Caparaó -- Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó, festival capixaba que dedica todos os anos uma janela aos filmes premiados no FICA, apresenta em sua mostra competitiva nacional seis produções de Goiás, das treze produções selecionadas.
São eles:
Coque do Buriti, de Gel Messias;
Flower Power, de Sérgio Valério, Lamento, de Kim-Ir-Sen Pires Leal;
É da Raiz, de Ângelo Lima, e Minha Árvore, de Andréia Miklos Mocó.
Em maio último, o 4º Festival de Cinema de Maringá apresentou em sua mostra competitiva seis produções goianas:
14 Bis, de Guilherme Gardinni;
A Resistência do Vinil, de Eduardo Castro;
Coque do Buriti, de Gel Messias;
É da Raiz, de Angelo Lima, Goiânia -- Sinfonia da Metropóle, de Rodolfo Carvalhaes;
O Filme que Nunca Existiu, de Sérgio Valério.
Rapsódia do Absurdo, de Cláudia Nunes, participou do Cine PE 2007, em abril, e do 14º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, em maio.
As mostras e festivais, independentemente de se ganhar prêmios ou não, são muito importantes para qualquer cinematografia porque permite o contato do público com diferentes 'téticas e linguagens.
Na medida em que o cinema goiano 'tá inserido em 'se contexto, ele só tem a crescer, uma vez que recebe críticas de outros profissionais do meio e os realizadores podem comparar o que 'tão fazendo, tanto em termos de 'truturação de roteiros quanto na própria 'trutura narrativa, com outros filmes / vídeos do resto do país.
Com o advento do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Estado deu o pontapé inicial para tornar-se um pólo de exibição e de produção do cinema goiano.
Em suas nove edições, o FICA vem 'timulando os cineastas goianos a produzirem mais e melhor a cada ano, ainda que as produções locais, em sua maioria, careçam ainda de aperfeiçoamento técnico e artístico, principalmente no gênero ficção, mas também no documentário.
O FICA tem demonstrado que o cinema perdeu a ingenuidade diante do grau de perigo que as agressões descontroladas do homem têm causado ao meio ambiente, principalmente no século passado, cujas conseqüências 'tamos vendo refletidas no atual milênio.
Uma prova disso é que o tema das mudanças climáticas é o mote dominante na atual edição do festival, tanto nos filmes quanto no Fórum sobre o Clima, que trará a lume os impactos na biodiversidade e no meio ambiente do continente sul-americano, com particular ênfase no território brasileiro.
Em 'se contexto, para que as produções goianas possam competir em pé de igualdade com os filmes ambientais nacionais e 'trangeiros é necessário que os realizadores tenham pleno domínio das técnicas narrativas cinematográficas de uma maneira geral.
A fim de fazerem filmes ambientais competitivos, os realizadores goianos têm de exercitar também a feitura de filmes ficcionais que dialoguem de forma intelegível com o público.
(*) Beto Leão é jornalista, pesquisador de cinema e documentarista.
Atual presidente da ABD-GO, 'creveu os livros Bennio -- De a Cozinha para a Sala Escura, O Cinema Ambiental no Brasil, Cinema de A a Z -- Dicionário do Audiovisual em Goiás, Goiás no Século do Cinema (em parceria com Eduardo Benfica) e é um dos autores da Enciclopédia do Cinema Brasileiro.
Número de frases: 33
Fazer teatro não é tarefa fácil.
Em Mato Grosso do Sul é mais difícil ainda.
O Estado 'tá longe de ter um circuito interno de apresentações, as peças mais vistas são os caça-níqueis com astros globais e cursos com qualidade para a formação de atores começam a pipocar só agora nas universidades.
O intercâmbio com grupos de fora do 'tado fica restrito aos projetos da Secretaria e Fundação de Cultura de MS e os festivais América do Sul, em Corumbá, e de Inverno de Bonito.
Um dos grupos de Campo Grande que luta para criar um mercado interno no Estado e sente 'te isolamento regional é o Teatral Grupo de Risco.
É um dos mais antigos da cidade e tem no currículo apresentações em assentamentos, postos de saúde e 'colas municipais.
Fundado em 1988, funciona como uma cooperativa de pessoas que atuam em diversas áreas.
Muitas vezes os projetos dos participantes são individuais e mesmo assim levam a assinatura do grupo.
«Depende do volume de trabalho.
Tem ano, como o de 2005, que não tem como sustentar 15 pessoas com projetos coletivos», explica Lu Bigattão, fundadora do Teatral.
Um exemplo destes vôos solos é o documentário Caá -- A Força da Erva desenvolvido principalmente sob o comando de Lu.
O documentário de 60 minutos mostra a cultura da erva-mate e o cotidiano da Companhia Mate Laranjeira, a principal na época e vital para a saúde econômica da fronteira do 'tado.
Caá é um desdobramento da peça Mbureo -- A Saga dos Ervais.
Para montar a peça o grupo levou dois anos de pesquisa e sobrou tanto material que a realização do documentário foi natural.
«Em 2006 quero que 'te documentário circule.
Vou distribuir DVDs para as 'colas da fronteira e promover debates nas universidades após a exibição», anima-se.
A história do Teatral Grupo de Risco começou com a peça infantil A Lenda do Vale da Lua, um texto de " João das Neves.
«Tinha música ao vivo.
Ficamos alguns anos em cartaz com casa lotada», lembra.
O grupo começou a trabalhar seriamente com bonecos com a peça Coragem moçada, que ficou cinco anos em cartaz.
Era final da década de 80 e outra realidade.
«Fazíamos de três a quatro apresentações por dia.
Em 1989 foram 400 apresentações», contabiliza.
O trabalho com os bonecos feito por Lu com Wilson Motta gerou o programa infantil Corixos e Coxixos, exibido atualmente por a TVE Regional.
Outra peça importante do grupo foi Quem Matou Zefinha?,
montada por " Leandro Melo.
«Em 'ta peça as pessoas aprenderam a tocar instrumentos, cantar ...
O grupo foi ao Chile e passou por vários 'tados brasileiros», conta.
O Teatral Grupo de Risco se destaca bastante no chamado teatro educativo.
Com o apoio do Ministério da Saúde realiza há cinco anos duas peças:
João Cuiúdo e Mulheres em Cena.
Ambas falam de prevenção.
São muitos os pedidos para peças do gênero não só enfocando a saúde, mas o meio ambiente, o trânsito, a educação fiscal ...
«Em 1998 fizemos 50 apresentações em Ribas do Rio Pardo, Água Clara e Nova Andradina com uma peça que falava sobre a situação dos trabalhadores carvoeiros», conta.
Lu reconhece que a verdadeira vocação do teatro não é bem 'ta, mas não tem muita saída.
«Fazemos teatro educativo com muita qualidade.
Mas mesmo assim chegou uma hora que não agüentava mais fazer teatro com o objetivo explícito de ensinar.
Por isso montei a peça da saga dos ervais.
Sentia falta de algo mais lúdico», argumenta.
Ela reconhece que, com a chegada das leis fiscais, a classe teatral ficou mais profissional e teve de aprender a mexer com dinheiro.
Sente certa melancolia quando pensa no seu retorno de Sampa com o curso de Artes Cênicas da USP na mão e muitas idéias na cabeça e o clima de batalha que havia quando montaram o Teatral.
«A gente fazia um sopão e ia criar.
Dinheiro não era tão importante», recorda.
Confira abaixo a entrevista com Lu Bigattão:
Manter o grupo com o perfil mais cooperativista é conseqüência do número reduzido de apresentações ou tem a ver com o próprio perfil dos integrantes do Teatral?
As duas coisas.
Todo mundo tem vontade de ter algo próprio.
Uns mexem com dança, site de cultura ...
Não dá para ficar exclusivo do grupo.
Só se o ano 'tiver bastante ' trampo ' é possível que as pessoas se sustentem das performances coletivas.
Montamos a peça dos ervais em 2004 e circulamos 2005 por a Funarte para Cuiabá e Dourados.
Pouco trabalho para o grupo coletivamente.
O ano passado foi superfraco.
Não deu para manter 15 pessoas.
Por isso não dá para fugir muito do teatro dito educativo?
Mas o teatro educativo caracteriza muito o Teatral.
Porque as pessoas pensam em teatrinho de 'cola quando ouvem falar em teatro educativo.
Nós conseguimos fazer sem perder a qualidade.
João Cuiudo é uma peça linda.
Usamos perna-de-pau, máscaras, maquiagem, os atores tocam ...
Mulheres em Cena é um teatro popular e as pessoas se apaixonam por a peça.
O resultado do teatro educativo depende de como ele é feito.
Se for bem feito, sem perder a questão da arte ...
Mas chega uma hora que enjoa.
Eu mesmo pensei: '
não agüento mais fazer teatro educativo '.
Aí fui montar a peça da saga dos ervais.
Queria fazer uma coisa que não tivesse que ensinar nada.
Acho que 'ta peça foi muito pouco apresentada e deveria voltar com força 'te ano.
O sul-mato-grossense 'tá preparado para encarar a realidade ou idealiza muito ainda 'ta relação entre os povos da fronteira?
Acho que isto não tem a ver apenas com a fronteira, mas com o processo de colonização em si.
A Maristela Yule, por exemplo, acabou de lançar o documentário Arigatô -- Um Olhar Sobre a Imigração Japonesa em Campo Grande.
Fica claro também que a colonização foi feita com a exploração do homem por o homem.
Antes não tinha nada e tiveram de construir com trabalho pesado 'tradas, ferrovias, pontes ...
A América do Sul inteira foi construída assim, com o colonizador 'cravizando.
A peça mostra como se deu a colonização.
Foi uma coisa violenta?
Foi. Mas foi com outros também.
Japoneses, italianos ...
Você sente que o sul-mato-grossense entende do que o documentário trata ou, apesar da proximidade, desconhece totalmente a nossa história com os países da América Latina?
Damos as costas para a América Latina, sim.
Não sabemos nada do que acontece no Paraguai.
Quem é o artista da Bolívia?
O que rola no Chile e Venezuela?
Sou doida para ir a Machu Picchu, mas é muito mais fácil viajar para Miami com os pacotes econômicos.
De Machu Picchu ninguém sabe nada.
Mas sabemos tudo sobre os EUA e Europa.
Porque a Globo mantém correspondentes lá.
Não interessa ter uma rede latino-americana de notícias, porque não é divulgado.
Existe o medo de ser assaltada no Paraguai, por exemplo.
É um preconceito incrustado.
Como é ser ator de teatro de Mato Grosso do Sul?
Existe conexão com outros grupos, por exemplo?
Muito pouco.
O Festival de Inverno de Bonito (www.festinbonito.com.br) e o Festival América do Sul (www.festivalamericadosul.com.br) trazem grupos de fora, como o Galpão.
Teve o Festival de Bonecos do Sesi em que conhecemos grupos do país inteiro.
As trocas são em 'tes festivais e eventos ou projetos da Fundação de Cultura de MS (www.fundacaodecultura.ms.gov.br).
A gente vive muito isolado mesmo.
Não se tem a capacidade de 'tar circulando.
O Ministério da Cultura tem aberto alguns editais e tem sido importante.
Vamos fazer um documentário, fomos para Cuiabá ...
Mas ainda é um suspirinho.
Falta 'ta troca, 'ta circulação.
A gente tem muito pouco acesso.
O teatro é uma arte difícil e artesanal.
Mesmo lotando um teatro, se não tiver patrocínio tem-se prejuízo.
O teatro precisa da proteção dos órgãos públicos ou ele não sobrevive.
Como você analisaria o teatro produzido em MS?
Tem bons trabalhos pontuais e interessantes.
Mas se faz muita coisa ruim.
Desde que voltei em 1988, tem coisas que mudaram para melhor e outras para pior.
Eu era jovem naquela época e havia muita garra.
Mesmo sem patrocínio montávamos as peças.
Em a coletividade.
A gente fazia um sopão para comer e ia criar, fazer as máscaras ...
Pedia pano para um, tecido para outro, uns iam costurar.
As coisas tinham vigor e a concorrência era menor.
Lembro que ia a dez 'colas e nove compravam meu trabalho.
Aí começaram as leis de incentivo, com dinheiro rolando.
Por um lado amadureceu o trabalho e profissionalizou.
Por outro, tirou 'te tesão que tinha.
Mas é claro que era uma época em que o dinheiro não era tão importante, nós não tínhamos filhos ...
Éramos da contravenção e a energia saía de ali.
Hoje temos filho na 'cola, contas e 'tamos em outro pique.
O ator quer saber quanto vai ganhar e a coisa é mais econômica mesmo.
Então a arte 'tá muito institucionalizada.
Em todos os campos a arte perdeu um pouco o tom de contravenção e a crítica ao sistema.
Número de frases: 127
O Teatral Grupo de Risco é formado por Lu Bigattão, Leandro Melo, André Furquim, Roma Román, Wilson Motta, Márcia Gomes, Rane Abreu, Isac Zampieri, Fernanda Kunzler, Emmanuel Mayer, Arce Correa, Aline Duenha e Paulo Matozzo.
Em as cidades do interior de São Paulo, mesmo sendo o «Estado mais rico da federação», o cinema ainda é coisa para poucos.
Há poucas salas, em poucas cidades, geralmente, com a programação comercial hollywoodiana já conhecida.
Diante de um quadro como 'se, fazer cinema então, nem se fala.
O que se vê, com algum 'forço, são produções de vídeo feitas com 'forço por apaixonados por a sétima arte ou 'tudantes de cursos universitários e oficinas 'porádicas que surgem de vez em quando.
E se a qualidade fica, em geral, aquém do cinema profissional -- mais por falta de recursos que de idéias, há por trás das produções histórias encantadoras.
A que você vai ler agora é, a meu ver, uma de elas.
Em a cidade paulista de Itararé, vivem aproximadamente 50 mil habitantes que, para assistir a uma sessão de cinema, precisam viajar quarenta minutos de carro até a vizinha Itapeva.
Ou seja, é possível que muitos de eles nunca tenham visto um filme na tela grande.
Assim como, com certeza, muitos nem imaginem que ali em sua terra natal já foram produzidos por um só morador, pelo menos, dez filmes que carregam uma peculiaridade extemporânea:
são filmes mudos.
O autor de 'sa «façanha» é o itarareense George Souza, um jovem de 25 anos que mora com a mãe aposentada e o tio, 'tuda música erudita (violino e piano) e ganha um salário mínimo -- ou menos -- por mês com pequenos bicos:
pintando, reformando e decorando casas ou, 'poradicamente, tocando violino e piano em casamentos.
Com as dificuldades financeiras, George teve de optar por o mais barato quando resolveu fazer «cinema».
Adquiriu uma câmera VHS por novecentos reais, em 1998, com o «patrocínio» da mãe, e fez um único curso de fotografia por o Instituto Universal Brasileiro, pioneiro dos cursos à distância já antes da era digital.
«Por aqui (na região de Itararé) não há nem workshops na área, mas desde o começo eu tive uma visão profissional e um cuidado técnico», conta.
«A idéia, no começo, era ganhar dinheiro com os filmes, mas sem recursos tive de ser amador».
Foi também na falta de recursos que 'barrou na hora de 'colher a linguagem que usaria, o que acabou se transformando na marca de seu trabalho.
«Eu queria fazer filmes falados, mas não tinha como.
Quando conheci (os filmes) de Charles Chaplin, resolvi que faria daquele jeito, sem fala», lembra.
Além de optar por a linguagem muda, Chaplin deu outra idéia a George:
criar um personagem que 'tivesse em todos os seus filmes.
Assim, surgiu «Georgitos», que à maneira de Carlitos veste-se, geralmente, com um terno desengonçado e uma cartola.
«Georgitos é uma coletânea de personagens, como se fosse neutro.
Ele pode ser solitário e também sacana, tem várias facetas».
Perseverança
Com o curso de fotografia feito, o equipamento em mãos, o personagem e as histórias criadas, o artista de Itararé ainda enfrentaria outros percalços.
Sem tanto acesso à internet, na época, teve de pesquisar cinema em bibliotecas da região que nem sempre contavam com um acervo farto.
«Também recorri a locadoras e bancas de revista para locar e comprar filmes».
O gosto por a arte ele não sabe como adquiriu.
«Nem eu sei.
Só lembro que gostava de filmes clássicos e, aos 16 anos, vi um do Gordo e o Magro.
Ali, resolvi que queria fazer cinema».
O talento, entretanto, extrapola a produção dos vídeos.
George, que 'tuda música erudita há sete anos, toca violino e piano.
De aí que as trilhas de seus filmes, em alguns casos, são compostas por ele.
Também já fez teatro, o que o encorajou a encarar as câmeras e atuar como personagem principal de suas produções.
George também é o figurinista e o cenógrafo de suas produções.
Construiu, nos fundos de sua casa, um palco ao ar livre com recursos para montar e desmontar a cada cena se necessário.
«É um lugar pequeno, com 25 metros quadrados.
A cobertura é um lençol para quando preciso de luz artificial.
Também gravo bastante nas ruas», conta.
Já as roupas ele busca em brechós e, às vezes, até as costura.
«Me preocupo com a ambientação de época, mas nem sempre consigo resolver isso e ficam algumas discrepâncias.
Procuro usar materiais recicláveis para o que preciso».
Os outros atores, entretanto, ele é obrigado a «puxar por o braço» para as participações.
Ele trabalha com amigos e conhecidos que aceitam, com muito custo, participar.
«às vezes, uma produção que demoraria uma semana leva um mês porque alguns desistem, ficam com vergonha.
Mesmo porque, muitas vezes, eu não tenho idéia do que vai acontecer ao final das gravações e tenho de convencê-los que aquilo será exibido em algum lugar», conta.
Até hoje, entretanto, George conseguiu fazer apenas duas exibições de alguns de seus filmes.
Uma de elas foi no teatro de Itararé.
Para tanto, teve de alugar um projetor, arcar com a divulgação em 'colas e lojas.
O resultado, segundo ele, foi desastroso.
«Resolvi cobrar R$ 2,00 para ver o interesse real do público.
Em dois dias, foram apenas cem pagantes.
Fiquei frustrado».
A outra foi num festival de cinema de Itapeva.
A era digital, entretanto, começa a ajudá-lo.
Ele já tem vídeos no Youtube (o mais acessado, porém, teve pouco mais de setecentas visitas) e, a partir de agora, terá aqui no Overmundo para que mais pessoas possam conhecer o «Chaplin de Itararé».
Para começar, você pode ver uma 'quete feita por o artista em http://www.overmundo.com.br/banco/georgitos-e-as-maozinhas Mas outros vídeos ainda virão.
Fique de olho!
A comparação
Chamar George Souza de «Charles Chaplin de Itararé» pode parecer exagero.
Mas a comparação deve-se a algumas semelhanças entre os dois, 'pecialmente, a aspectos pessoais de suas vidas:
-- Os dois nasceram em famílias pobres, mas apesar das dificuldades resolveram arriscar a vida artística;
-- Chaplin iniciou a carreira no teatro;
George também já 'teve nos palcos;
-- O gênio do cinema era também músico e compôs as trilhas sonoras de vários de seus filmes.
George 'tuda música erudita há sete anos;
toca piano e violino, assim como o artista inglês;
-- O diretor viveu longe do pai desde pequeno;
George mora com a mãe e o tio, também sem o pai.
-- Chaplin fazia cinema mudo porque, na época, não havia tecnologia de áudio suficiente;
George não tinha recursos técnicos e financeiros quando começou a produzir suas obras.
-- Chaplin 'crevia, produzia, dirigia, atuava, editava e fazias as trilhas sonoras de seus filmes;
George também;
-- Chaplin criou o personagem Carlitos, um vagabundo gentil e engraçado que usava um terno 'garçado, sapatos maiores que seus pés, bengala e cartola (ou chapéu-coco), que aparece em todos os seus filmes;
Número de frases: 77
George criou Georgitos, que carrega as mesmas características;
Segundo a descrição da comunidade do Orkut «Tiopês -- A Revolução», 'sa nova linguagem da internet, com seu jeito» engraçado e incorreto», conquistou muitos adeptos.
Sinto informar que quem 'tá incorreta é a comunidade.
O Tiopês até ficou popular, mas nada tem de engraçado.
É só mais uma forma mongol e trabalhosa de se comunicar.
como se já não bastassem as abreviações exageradas e o miguxês insuportável me confundindo, ainda preciso me 'forçar para entender uma cambada de gente que «'revec assëm» e acha cool.
Engraçado é imaginar os 3,250 membros de 'sa comunidade demorando meia hora para 'crever cada frase.
Porque, convenhamos, é dificílimo 'crever errado.
Imagina o trabalho que deve dar alternar caixa alta e baixa, substituir «s» por «x» em todas as palavras e, no caso do tiopês, inverter a ordem das letras e colocar acentos aonde eles não devem 'tar.
É frescura demais para mim.
A graça dos erros de português 'tá na 'pontaneidade.
Em a capacidade do cara 'crever faço com «ss», jeito com» g», formular frases incoerentes e acreditar, de verdade, que aquele é o jeito certo de 'crever.
Ainda assim, em 90 % dos casos, é mais fácil entender uma pessoa que realmente ignora o padrão correto da língua, do que 'se bando de pseudos 'crevendo «errädoán».
Esses dialétros cibernéticos são muito prejudiciais para a língua portuguesa porque os jovens, de um modo geral, acabam ficando muito mais tempo na internet do que lendo livros, revistas e jornais.
Então, ao 'creverem de forma incorreta diariamente, durante horas, eles acabam se acostumando com isso e achando muito mais natural 'crever errado do que certo.
Espero que quando o miguxês e o tiopês saírem de moda, a tendência seja 'crever português.
Porque, se continuar desse jeito, daqui a pouquissimo tempo precisarei dividir meu tempo entre faculdade, namoro, academia, a coluna no Faz Sentido e aulas de alfabetização virtual.
E 'se seria um desperdício imenso de tempo, dinheiro e inteligência.
Número de frases: 18
A cena surreal aconteceu no meio de um debate sobre mercado para a música independente.
No meio de um claro embate de idéias e das perguntas de uma platéia atenta e participativa, uma voz arrogante, de uma mulher que se dizia jornalista da Folha de S. Paulo, começou a questionar a importância dos debatedores, desmerecendo cada um de eles de um modo vulgar e que revelava seu total desconhecimento sobre o que 'tava acontecendo ali.
A ignorância colocava público e palestrantes em xeque:
qual a importância daquele assunto e de quem o 'tava expondo?
Qual o sentido daquilo?
Quando eu me propus a 'crever sobre o Humaitá Pra Peixe, festival de música que ocorre há 12 anos na cidade do Rio, também fui colocado em xeque.
Afinal, o que havia de novo para se 'crever sobre o HPP?
Eu tive que concordar que uma dúzia de anos é tempo suficiente para análises, teorias e para que se digam muitas obviedades.
Coisas como apontar o evento como celeiro de novas bandas, vitrine de valores musicais ou, ainda, ponta-de-lança para os futuros sucessos sonoros.
Tudo isso não deixa de ser verdade, mas o que mais haveria lá?
Eu me propus a descobrir e, durante todo o mês de janeiro (e um pedacinho de fevereiro), me misturei ao público para observar.
Tentar descobrir a cola que gruda tudo aquilo.
Resolvi que não iria ouvir nenhuma banda antes dos seus shows.
O site do HPP fornecia a possibilidade de conhecer um pouco do trabalho de cada artista que 'taria tocando.
Mas, para ir despido de qualquer julgamento, eu me impus o desconhecimento total.
Ou quase, pois já conhecia o trabalho de uma das bandas, o Cidadão Instigado.
O que foi bom:
a quantidade de nomes que não me era familiar só me fez prestar atenção em reações, no público, no ambiente.
Em os nove dias oficiais de shows, teve de tudo.
Bandas adolescentes fazendo o mais puro emo, pra delírio de uma galera que ainda nem pensa a sério no serviço militar.
Rock mais ácido, para ouvidos menos delicados.
Rock com vozes melodiosas, para sentidos agridoces.
Sons viajantes, atormentados e atormentadores, que deram um tom lisérgico à platéia.
Pedaços do céu e do país, expostos em sobrenomes de artistas que revelaram um tom de qualidade para a música popular.
Guerra de rima e poesia, com palavras duras e ritmo cadenciado.
Sempre com a participação expressiva do público, fosse ele de superlotar o Sérgio Porto, fosse modesto a ponto de todos poderem se sentar.
É um belo painel musical.
Só que muitos festivais por o Brasil também o são.
Mas o HPP possui um bom diferencial:
a realização de um debate, versando sempre sobre o mercado musical para o cenário independente e das bandas emergentes.
Ele já acontece há três anos e, na edição de 2006, contou com a presença de jornalistas de mídia impressa e eletrônica, um representante do novíssimo mercado de comércio musical via internet e dois artistas, um consagrado e o outro independente.
Pessoas de qualidade inquestionável:
Frejat (Barão Vermelho), Gabriel Thomaz (Autoramas), Wilson Cunha (Multishow), Antônio Carlos Miguel (O Globo) e Felippe Lerena (iMúsica).
Digo, inquestionável para todos, menos para a pretensa repórter de Folha.
Em a verdade, ela não era repórter coisa nenhuma.
Mas a questão de ela tinha razão de ser.
De muitos modos, foi o que me motivou a ir até o Humaitá por todo um mês.
Eu ainda não tinha exatamente uma resposta.
E sentia tudo meio vago em minha cabeça até o dia seguinte ao debate, um 2 de fevereiro nublado em que haveria um show de encerramento numa noite extra do festival.
Era um tributo ao músico Liô Mariz.
Liô, nascido Leonardo Mariz de Oliveira Resende, era compositor e vocalista do Som da Rua, banda carioca que se apresentara na edição passada do HPP.
Em o último dia 13 de dezembro, Liô morreu num acidente envolvendo o seu Fiat Uno com um coletivo.
Uma perda sentida por toda a cena musical do Rio, da qual Liô era defensor e para a qual trabalhava ativamente.
Integrantes de 'ta cena tiveram a feliz idéia de homenageá-lo numa noite extra do HPP, atitude que foi levada avante por Bruno Levinson, organizador do festival, e por todos os envolvidos com a produção do evento.
O ambiente não tinha nada de triste.
Bem ao contrário, o que se via era um ar de contentamento de todos os que chegavam ao centro cultural.
Integrantes de várias bandas se preparavam para a homenagem, que aconteceu poucos dias antes do aniversário de Liô Mariz, 5 de fevereiro.
Alguns iriam tocar, outros apenas assistir.
Dava pra contar gente de pelo menos 15 bandas locais por lá, além de muitos fãs.
Um dia lotado, que contou basicamente com o boca-a-boca para a divulgação.
Compareceram, efetivamente, pessoas que queriam ajudar a fazer o barulho que Liô gostava que fosse feito nos shows do Som da Rua.
A homenagem começou com vídeos comemorativos exibidos antes da apresentação de duas bandas 'peciais, compostas por membros de bandas heterogêneas e que se juntaram 'pecialmente para o tributo.
E, então, o barulho começou.
Especificamente, com um minuto de barulho, o contraponto perfeito aos mórbidos minutos de silêncio em solenidade.
O que se viu depois foram interpretações inspiradas de músicas de Mariz, sempre acompanhadas por o público, que, aos poucos, foi se envolvendo no ambiente.
Após os dois mini-shows de homenagem, foi a vez do Som da Rua entrar no palco.
E era claro, em 'te ponto, que aquele show era, para a banda, a confirmação do carinho do público por eles, eleitos em enquete popular do Globo Online como o conjunto preferido dos 'pectadores.
E foi emocionante, com a participação do irmão de Liô, Marcelo, e de Arnaldo Brandão.
A o final, todos subiram ao palco para cantar Só uma canção, música que era o carro-chefe do primeiro disco da banda.
A letra diz, em certo momento:
«Pois tudo que restou fomos nós».
Cantado por mais de vinte músicos simultaneamente num palco, naquela situação, aquilo adquiriu outro sentido.
Pois, como havia sido anunciado antes da primeira banda, naquela noite nós todos éramos Liô.
Mas, na verdade, era mais que isso.
Em aquela noite, a união em torno da homenagem a um nome participante de uma cena deixou exposto o elo que há para que a mesma exista.
Esta união é a idéia.
O Humaitá Pra Peixe reflete, na verdade, 'te sentido de corrente, ao fazer com que haja uma cena que o apóie.
Pois todos que um dia já passaram por o palco do festival são, cada um, um dos peixes que ajuda a formar o cardume, que só cresce a cada ano, e que só existe porque peixarada que se preze tem que se manter unida.
É 'te o 'pírito de um evento que, realizado a duras penas financeiras em 2006, continuará ainda por muito tempo.
Teoria elaborada?
Análise profunda?
Nada disso.
Mas é a importância real do Humaitá Pra Peixe existir.
E é também o único sentido de eu 'tar aqui, 'crevendo 'te texto:
Número de frases: 74
o 'pírito deste cardume faz valer cada palavra.
Imagine que todo domingo acontecesse um mini-festival de rock gratuito no centro de sua cidade.
Uma vez por semana bandas como Los Hermanos, Detonautas Roque Clube, Matanza, Forgotten Boys, Autoramas e Leela dividiriam palco com a banda do seu amigo, para que ele pudesse mostrar suas primeiras composições para um público de cerca de 1000 pessoas.
Além de um cachê simbólico, todos os artistas teriam direito a transporte e alimentação.
Tocariam num palco bem 'truturado, com aparelhagem de som e luz profissionais e telões de projeção.
Em 2002 e 2003, 'sa utopia se chamava Freakshow, e era uma realidade para os moradores de Volta Redonda, cidade do interior do RJ.
Idéia que nasceu quando Carlos Braz e Alexandre Braz -- que, apesar do sobrenome, têm como único parentesco os anos de convívio no underground -- perceberam que a prefeitura 'tava investindo em shows gratuitos no Memorial Getúlio Vargas, uma das principais praças da cidade.
Organizaram todo o conhecimento adquirido nos eventos independentes que a dupla produzia desde 2000, e bateram na porta da secretaria de cultura com um projeto embaixo do braço.
A idéia era aproveitar o palco montado no Memorial Getúlio Vargas para promover um festival de rock mensal, trazendo artistas de outras cidades para Volta Redonda, mas mantendo 'paço garantido para as bandas locais.
Desgastados por a falta de recursos do underground, aproveitaram a chance para tratar os independentes como profissionais e oferecer o que acreditavam ser o mínimo 'sencial:
transporte, alimentação, boa 'trutura de apresentação e um cachê simbólico.
Dependendo do sucesso dos shows mensais, o Freakshow ganharia uma mega-edição anual, com três palcos, pistas de skate e um número maior de bandas se apresentando.
«Juntamos todas as matérias que haviam sido publicadas nos jornais, montamos um projeto e fomos com a cara e a coragem», diz Alexandre Braz, ou, como prefere, Xan.
«Mas não pense que foi fácil, pois demorou um pouco pra furar o bloqueio de secretárias e conseguir enfim falar com o Secretário de Cultura».
O preço do 'forço se mostrou válido quando o Secretário de Cultura rebateu com uma contra-proposta:
por que não fazer do festival um evento semanal?
«Ele não 'tava conseguindo público com shows de pagode aos domingos, e nos ofereceu o dia para um evento semanal», explica Xan.
«Ficamos um pouco preocupados, mas resolvemos encarar o desafio».
Desafio não só por a periodicidade, mas também por uma autonomia que eles não 'tavam dispostos a comprometer.
«A exigência principal da organização era que a banda tivesse um trabalho autoral», diz Carlos Braz, que também toca na banda Iguanas.
As edições semanais traziam sempre três bandas (uma local e duas de fora), telas para a criação de grafites, e 'paço para vendas de cds independentes e distribuição de fanzines.
Totalizando cerca de 150 shows, o Freakshow trouxe para Volta Redonda bandas dos mais variados lugares.
Passaram por ali Mukeka di Rato (ES), Blind Pigs (SP), MQN (GO) e até mesmo os belgas do Flatcat.
Com público médio semanal de 1000 pessoas -- mas chegando a ter as ruas do centro da cidade fechadas por o show do Los Hermanos, no dia da final da Copa do Mundo de 2002 -- o evento colaborou, também, para o aquecimento do comércio local.
«Nasceu um mercado informal em torno do Freakshow que crescia a cada semana», afirma Carlos.
«A ponto de ter sido necessário criar limites, para que o público tivesse 'paço garantido».
O projeto do mega-festival anual sofreu alterações por parte da prefeitura, e teve suas três edições rebatizadas como Volta Redonda do Rock.
Além abolir o bloqueio às bandas cover, os artistas locais foram selecionados por um sistema de votos por a internet, o que deu margem para fraudes reconhecidas por a própria organização.
«Como o mega-festival não mantinha alguns objetivos básicos do Freakshow, preferimos não usar o nome», explica Xan.
«Ajudamos sim na organização e na seleção das bandas principais das duas primeiras edições.
Em a terceira, nós só fomos comunicados quando já 'tava tudo pronto».
O sucesso do evento semanal, porém, permaneceu:
indicado ao prêmio Dynamite de melhor festival em 2002, o Freakshow foi o mais votado do Estado, com o quinto maior número de votos de todo o país.
«Existem grandes festivais independentes acontecendo em diversas capitais no Brasil», situa Carlos, «mas o problema é que eles se tornaram grandes demais, e por isso não são mais tão democráticos como o Freakshow».
«Além do mais», completa,» normalmente 'tes festivais são anuais.
Que eu saiba nunca houve no Brasil um festival independente com a freqüência que o Freakshow tinha».
Ainda assim, em 2004, o ano eleitoral levou os recursos que mantinham o Freakshow de pé, e os domingos foram para a gaveta.
Mas os fãs de música da região não foram os únicos órfãos deixados por o fim do evento:
«Recentemente a Secretaria de Cultura fez um show do Detonautas na cidade, e a banda cobrou, do Secretário, a volta do Freakshow», afirma Xan.
A banda passou por o evento em 2002, antes de lançar o primeiro disco por uma grande gravadora.
E deixaram a promessa de que, se o evento voltar, eles fazem questão de tocar novamente.
Número de frases: 41
:: Originalmente publicado no Chappa.
Criada em 2004, a Casa da Animação é um 'paço cultural e social.
Localizada no município de Sabará, a 25 km da capital do Estado, a casa realiza filmes de animação, curtas-metragens, séries televisivas e peças de teatro.
Uma das principais preocupações do projeto é desenvolver ações que incluam a comunidade local.
Crianças, adolescentes e idosos de baixa renda participam de oficinas e outros trabalhos artísticos e sociais juntamente com os profissionais da casa.
A Casa da Animação nunca teve o objetivo de ser um 'túdio de animação tradicional, por isso a opção de funcionar como uma ONG.
A sua idealização 'tá ligada ao diálogo com a comunidade e a prefeitura.
A idéia surgiu como um?
projeto de um homem só?
Silvino Fernandes, natural da cidade mineira de Mantena, 'tudou e trabalhou na Suíça e em Portugal (onde ainda possui a produtora de audiovisual Abre-te Césamo) na área de animação gráfica, dirigiu peças teatrais e filmes de animação, voltados, principalmente, ao público infantil.
Após 17 anos, o diretor retornou ao Brasil e inaugurou a casa como uma forma de aplicar a sua experiência em terras lusitanas.
A 'colha por uma cidade do interior foi feita em razão da opção por descentralização do projeto, criando um centro de referência exterior aos pontos da região Sudeste que recebem mais atenção da mídia, principalmente o eixo Rio-São Paulo.
A casa, próxima ao centro de Sabará, funciona num grande sítio, e já existem planos de expansão do 'paço.
A área construída já conta com um galpão multimídia, 'túdio, café, biblioteca e videoteca.
A construção foi bancada inteiramente por o idealizador.
O suporte dado aos jovens animadores é feito por meio de empréstimos de computadores, câmeras e demais apoio técnico e artístico necessário para pessoas que queiram desenvolver lá os seus projetos.?
Como 'tamos inseridos numa comunidade muito carente, 'tamos também desenvolvendo um trabalho social com as crianças, e o envolvimento da comunidade é o melhor possível, 'pecialmente com o público infantil?,
afirma Silvino.
O contexto atual
De acordo com o diretor, a animação em Minas Gerais e no Brasil enfrenta uma fase próspera na área publicitária.
Já os filmes de ficção não contam com a mesma?
sorte?? Sinto uma grande distância (em relação?
publicidade), pois precisávamos de melhores roteiros, idéias mais fundamentadas e acima de tudo um maior orçamento para o desenvolvimento do mercado da animação?,
aponta.
Em dezembro do ano passado, foi realizado em Sabará o 1º Encontro Nacional de Animação.
A intenção dos organizadores foi discutir e apontar novos caminhos para o ramo no país.
O evento contou com a presença de grande número de animadores e 'tudantes de todo o país, além de representantes do Ministério da Cultura, Secretaria Estadual de Cultura e da Associação Brasileira de Cinema de Animação.
De este encontro saiu uma agenda que foi enviada a todos os participantes com uma série de medidas concretas que serão tomadas a fim de implementar a discussão e participação dos animadores no mercado de trabalho.
Número de frases: 28
De aqui para frente, a Casa da Animação pretende realizar mais encontros nacionais, continuar e ampliar a participação social em relação à comunidade, criar mecanismos de financiamentos para a produção de filmes e séries de animação e viabilizar uma infra-estrutura de 'túdios de vídeo e áudio para aumentar a sua capacidade de produção.
«Heitor Reis (*)» Os 'tudos do professor Perseu Abramo ...
situam o jornalismo praticado por o mercado como um instrumento de controle político das elites, contrário aos interesses maiores do povo brasileiro." (
Hamilton Octávio Souza em «Padrões de manipulação na grande imprensa», de Perseu Abramo, pág. 17, da Editora da Fundação que leva seu nome)
Com a criação da TV Lula, ele, como bom caudilho, pretende indicar os membros do Conselho Gestor, demonstrando a distância que ainda 'tá do 'tadista que pensa ser ou quer nos fazer acreditar que seja.
Seguirá o mesmo caminho das TV 'taduais que se dizem públicas mas são 'tatais e governamentais, vivendo sob o temperamento do governador de plantão.
E, começando assim, ela jamais será pública, pois, modificar a cultura organizacional que será formada entre os que ali começarem a trabalhar, criará raízes tão profundas que não as conseguiremos arrancar ...
Consertar o 'trago que o clima da corte palaciana determina, o favorecimento político e toda a forma de interesses 'cusos, fartamente documentados por a mídia, será algo praticamente impossível.
Assim como o entulho autoritário de 1964 que nos persegue até hoje.
Vejam no que deu as tais Agências Reguladoras, teoricamente públicas, mas, na prática, um aparelho privatizado por os donos do capital para explorar a classe trabalhadora e consumidora.
Mas, politica é assim mesmo.
«Politiquinha brasileira «num» 'tado oligárquico e autoritário», como diria Marilena Chauí ...
Ou que o presidente é apenas o motorista da elite, na visão de João Pedro Stédile e Dom Mauro Moreli.
As práticas do PT são as mesmas do PFL, PMDB, PSDB e outras organizações criminosas legalmente constituídas:
Enganar o povo para agradar aos ricos.
Infelizmente não são mais as regras de sua Carta de Princípios e nem as proclamadas por Perseu Abramo, o qual não viveu o suficiente para noticiar a morte da 'trela moralmente decadente que ele contribuiu para que brilhasse um dia.
A o lançar na mídia um balão-de-ensaio, sondando a 'colha da jornalista Tereza Cruvinel, da Rede Globo, para presidenta de sua TV, Lula acredita ser ela competente, praticando mais um grande eqüívoco!
A competência de cada profissional pode 'tar a serviço dos oprimidos ou dos opressores.
Realizar um trabalho sério para os opressores é contribuir para a manutenção de sua dominação sobre os oprimidos.
Sintetizando Horacio Verbitsky e Antonio Gramsci:
Competência jornalística verdadeira é difundir o que os poderosos não querem que se saiba.
O resto é tendenciosidade, propaganda, omissão ou mero diletantismo filosófico!
Lula optou por o Sistema Globo de TV Digital e 'colheu a dedo com quem quer andar:
Hélio Costa, Franklin Martins e Tereza Cruvinel.
Fundamentar uma decisão na hipótese de que trabalhar na Globo implica em competência, é jogar no lixo tudo que Perseu Abramo defendeu:
«Não se deixem deslumbrar por as técnicas e por as novas tecnologias.
Elas de nada valem, se não forem utilizadas com profundo sentido ético e com a visão clara de que a imensa maioria da sociedade, em todos os países, ainda luta para libertar-se da exploração, da opressão, da desigualdade e da injustiça." (
Perseu Abramo, na PUC-SP, dezembro de 1995, citado por José Arbex Jr, em obra citada)
O PSOL, através de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adi) junto ao Supremo Tribunal Federal, 'tá contribuindo, para explicitar, ainda mais, o despotismo do Executivo Federal, que governa por decretos e Medidas Provisórias, seguindo o mesmo 'tilo da Ditadura Militar e de FHC, tentando nos fazer engolir, à força, o ultrapassado Sistema Globo de TV Digital, importado do Japão, enquanto temos um, brasileiro, muito melhor.
«Em o conceito de partido ideológico [de Gramsci] são agrupados os aparelhos e organizações da sociedade civil, tais como, a imprensa, as editoras, as igrejas, as associações culturais, acadêmicas, profissionais ou comunitárias, as 'colas privadas e públicas, sindicatos de entre outras.
As entidades da sociedade civil que contribuem para a veiculação de uma concepção orgânica de mundo, como as analisadas em 'ta pesquisa, se constituem em partidos ideológicos." [
Andréia Ferreira da Silva -- UFG -- www.anped.org.br/reunioes/ 28/ textos / gt08 / gt08327int.
rtf.] A grande mídia funciona como um partido, concordando com José Arbex Jr. na introdução da obra citada, pág. 8.
O grande e saudoso Leonel Brizola, demonstrando seu conhecimento da obra de Antonio Gramsci sobre os partidos, ou por sua observação acurada, defendia:
«A TV Globo é o maior partido político do Brasil e deveria pedir seu registro como PRG -- Partido da Rede Globo." (
Jornal do Brasil, 19/06/1989)
E prometia, o nosso Hugo Chávez nacional:
«Em a primeira hora do primeiro dia do meu governo, vou quebrar o monopólio da Globo». (
Veja, 14/06/1989)
Não é à toa que Mr. da Silva foi vaiado, quando apareceu no enterro deste grande brasileiro ...
Vamos torcer por sua breve reencarnação!
«Padrões de manipulação na grande imprensa» é um livrinho básico, cujo conteúdo de umas 60 páginas é algo que não cabe dentro das mentes mentecaptas de nossos jornalistas, vendidas aos grandes empresários da comunicação ou aos interesses políticos nos três níveis do Estado.
A o que tudo indica, se o utilizam, é apenas para fazer exatamente o que condena o grande mestre ...
«Os 'tudos do professor Perseu ...
situam o jornalismo praticado por o mercado, como um instrumento de controle político das elites, contrário aos interesses maiores do povo brasileiro." (
Hamilton Octávio Souza em «Padrões de manipulação na grande imprensa», de Perseu Abramo, pág. 17, da Editora da Fundação que leva seu nome)
Lei no 5.250, de 09/02/1967
Capítulo III -- DOS Abusos Em o Exercício da Liberdade De Manifestação De o Pensamento E Informação
Art. 12. Aquêles que, através dos meios de informação e divulgação, praticarem abusos no exercício da liberdade de manifestação do pensamento e informação ficarão sujeitos às penas de 'ta Lei e responderão por os prejuízos que causarem.
Ora, se a grande mídia 'craviza a sociedade através da manipulação da informação e o faz, contrariando os interesses maiores do povo brasileiro, ela é, realmente uma instituição criminosa.
Uma quadrilha organizada.
Portanto, caso levemos a sério 'te, que tem seu nome na fundação do Partido dos Trabalhadores, colaborar com a grande mídia é, sem dúvida, crime de traição ao nosso país e ao nosso povo!!!
Quanto ao Lula, é também traição aos princípios de seu partido, que nortearam a 'colha deste nome.
Quem trabalha para a Globo ou qualquer outra empresa de comunicação de porte, comete crime contra a ética, contra a honestidade intelectual, contra a democratização da comunicação, contra nossa luta para construir uma democracia de verdade e contra os próprios interesses nacionais.
Claro que, num país com 74 % de analfabetos e semianalfabetos, não podemos cobrar 'ta consciência, com a mesma intensidade, de faxineiros da empresa e de jornalistas formados e diplomados.
Mas ainda há coisa muito pior que tudo isto! ...
É que, de uma forma extremamente natural e doce, a quase totalidade de nossos comunicadores 'tão loucos para vender sua consciência, num pacto satânico com o 'pírito de Roberto Marinho, em troca de algumas moedas de prata, igual qualquer mercenário ou prostituta.
Judas midiáticos ...
Infelizmente, as 'colas onde 'tudam e nem as entidades de classe da categoria os vacinam contra tal coisa.
Todos formados e diplomados ...
Assim, seu título universitário se torna apenas um alvará que os permite se venderem como material de consumo nas engrenagens de um sistema maligno de concentração da riqueza que domina o planeta.
Há um excelente texto sobre a «prenstituição», tendo os EUA como foco, mas vale como referência para a mídia nacional:
http://www.ielusc.br/~borges/base 2003/m od doc.
php? id = 0160
O testamento político de «Aloysio Biondi, Por a Culatra», também pode servir para reflexão, nos abrindo os olhos e ouvidos, em 'te momento de trevas deontológicas (éticas, para os íntimos) por o qual passamos, a Idade Mídia:
http://www.vermelho.org.br/museu/classe/ Classe 191/191 na.htm & not01.
(*) Heitor Reis é engenheiro civil, militante do movimento por a democratização da comunicação.
Nenhum direito autoral reservado:
Esquerdos autorais (" Copyleft ").
Número de frases: 69
Mas, como nem tudo são más notícias, A Cafeteria vai reabrir em breve, em outro lugar bem próximo (segundo promessas).
Em o ar há quatro anos, o blog Mothern fez a cabeça das «modernas mães» brasileiras e rende frutos como livro e programa de TV.
Elas 'tão juntas há mais de quatro anos, compartilhando momentos tristes e felizes.
Eram duas, agora são milhares.
O blog «Mothern» surgiu como várias experiências bem-sucedido da internet:
uma idéia despretensiosa, mas que não tarda a descobrir que existe um grande público que se identifica com ela.
Juliana Sampaio e Laura Guimarães são as motherns fundadoras do blog / movimento das mulheres mães (mothers) e modernas (modern).
O primeiro rebento de 'sa parceria foi o blog.
O «filho», que completou quatro anos em janeiro desse ano, virou um 'tilo de vida.
O que teve início como um diário on-line descontraído, logo virou fotolog, comunidade no orkut e uma coluna na revista TPM.
«Sim, com certeza o Mothern extrapolou o formato de blog.
Não sei se chega a ser um movimento, mas foi uma idéia que cresceu e ganhou braços e pernas, irmãos, irmãs e filhotes.
Muita gente gosta do jeito que vemos a maternidade e se identifica com isso», explica Laura.
O livro de visitas do blog é uma comunidade à parte.
Ele se mantém ativo por as leitoras e, mesmo que as duas autoras fiquem sem postar nada de novo por um tempo, já criou vida própria.
Já são quase 50 mil posts e mais de 750 mil acessos desde a criação.
«Umas leitoras aparecem, outras somem, outras 'tão lá desde o começo, mas é sempre um 'paço vivo e de muita troca de informações, até emocionante às vezes», completa Laura.
Essa mobilização e interatividade não aconteceria se a internet não fosse o suporte.
Em o ano passado, o blog virou livro (algo que tem se tornado cada vez mais comum):
Mothern -- Manual da Mãe Moderna.
Em ele 'tão reunidas dicas, desabafos, risadas e choros das duas mães:
as primeiras experiências com crianças em supermercados, como distrai-las numa manhã de sábado de ressaca, como dividir as tarefas com o marido, enfim, um guia pessoal e sem firulas para marinheiras de primeira viagem ou mães já «'coladas».
A narrativa se torna interessante exatamente porque nenhuma de elas é psicóloga ou fala sobre a maternidade com uma visão profissional, e provavelmente por isso outras diversas mães se identificaram com as suas palavras.
Alguns «posts» foram retirados do blog, portanto para ter acesso à filosofia completa, é preciso comprar o livro.
O próximo passo do Mothern é um programa para a TV por assinatura.
As duas motherns explicam que a separação entre uma mãe moderna e tradicional não é tão simples.
Já tem um tempo que as mulheres não são (ou não são somente) «a mãe perfeita e dedicada vestida de bata cor-de-rosa».
De acordo com elas, pode ser uma opção muito «moderna» abrir mão da carreira profissional para cuidar dos filhos.
O que difere uma mãe moderna, então?
A resposta pode ser um paradoxo, mas, na opinião de Juliana, o diferencial é ter ao seu lado um «fathern», ou seja, um marido que divida com ela a tarefa de ser mãe, um companheiro» moderno».
Número de frases: 30
«Sinto que os homens também 'tão correndo atrás, 'tão percebendo que ao deixar de lado uma participação mais ativa no dia-a-dia de seus filhos, eles também perdem uma vivência que é única e super rica, 'sa de acompanhar em close-up o desenvolvimento de um serzinho humano», afirma.
Há algumas semanas, fui ao Canecão assistir a Orquestra Petrobras Sinfônica regida por Wagner Tiso e Carlos Prazeres, com Lenine, Dominguinhos, Jacques Ghestem (trombone) e Naílson Simões (trompete) como convidados.
Em a verdade, o encontro da orquestra com os compositores faz parte de uma série chamada MPB & Jazz, dirigida por Wagner Tiso.
Cheguei uma hora antes e só consegui a mesa mais à direita, no que eles chamam de «balcão nobre».
O Canecão 'tava completamente lotado.
Não nego que fui muito por causa da participação de Lenine, mas fui surpreendido (?)
no momento em que Dominguinhos subiu no palco;
acho que eu o tinha «'quecido», em meio à turbulência ...
Por algum distúrbio infantil que desconheço, a música que mais me influenciou é 'sa de cuja matriz Dominguinhos é o grande herdeiro, que nasce com os sertanejos e ganha sua forma final com Luiz Gonzaga.
Digo disturbio não porque não saiba as razões de minha predileção, mas porque é um pouco 'tranho que eu tenha sido tomado por ela tão cedo e que ela tenha determinado tanta coisa em minha relação com a música.
Eu deveria sentir a música popular do Pará com mais intensidade que a música nordestina, já que nasci em Belém.
Em as festas de junho no Pará -- eis a explicação -- o que eu mais ouvia era Luiz Gonzaga.
Não lembro bem se porque tocava mais que Pinduca;
é bem possível, pois até hoje, ainda que em poucos lugares, é a música de Luiz Gonzaga o sinônimo maior das festas de São João.
Depois de Gonzaga, passei a distinguir Dominguinhos, Genival Lacerda, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Sivuca ...
Mas, voltando ao Canecão.
Quando Dominguinhos tocou os primeiros acordes na sanfona, com a orquestra Petrobrás ao fundo, minha infância e adolescência foram salpicadas de lembranças leves e reconfortantes.
Eu 'queci que 'tava cercado de um público que em nada lembrava os amigos e as namoradas do passado, de um momento da vida que guardava pouco daquela época ingênua onde eu comecei a ouvir a música nordestina.
Ele tocou PRINCESINHA Em o Choro (Dominguinhos), Lamento Sertanejo (Dominguinhos / Gilberto Gil), De Volta Para o Meu Aconchego (Dominguinhos / Nando Cordel), Gostoso Demais (Dominguinhos / Nando Cordel) e Eu Só Quero Um Xodó (Dominguinhos / Anastácia).
A o final, RESPEITA JANUÁRIO e Asa Branca (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) junto com Lenine.
Não fosse por ele, o repertório «apropriado» poderia ser clichê demais;
bem, se não fosse por ele.
Quando quebrou a frieza da platéia perguntando se nós 'távamos com medo de aplaudir, já 'tava com todo o público nas mãos.
Devia ser por causa da orquestra e do ambiente híbrido, sei lá ...
mas ele envolveu a todos de um modo emocionante.
Quando as vozes em uníssono cantavam " 'tou de volta para o meu aconchego ..."
deixavam a cidade do Rio de Janeiro lá fora, envergonhada.
Entre as preciosidades, disse que foi-se o tempo em que ele gravava discos com grande 'trutura, reunindo todos os músicos de que gostava.
Segundo ele, só o Chico ainda pode se dar ao luxo, já que ele é «biscoito fino».
A queixa bem humorada é triste.
Dominguinhos é um dos compositores mais profundamente brasileiros que existem.
Sua música poderia iluminar muito de um país que agoniza.
Se temos hoje que gostar da «música da periferia» porque ela resulta da miséria, do abandono do Estado, da fuga, há algo extremamente contraditório se construindo.
Cresci numa periferia de Belém, dentro do mesmo lugar onde nasceu o Brega e, mais recentemente, o Tecnobrega paraense, um dos mais louvados representantes de 'sa música periférica.
Toda minha família mora lá, em 'se mesmo lugar, para onde viajo duas vezes por ano e reencontro as novas produções pipocando nas rádios de rua.
A música me é familiar, profundamente próxima, nos termos, na dança, no 'cracho;
sei que sou parte de ela, e nunca precisei afirmar ou negar sua existência.
Mas, no entanto, todavia, não me sinto em ela, e não reconheço a 'sência de minha gente emanando apenas de ali.
Ultimamente tenho entrado em algumas discussões que beiram o ridículo, porque à 'sa altura quem acompanha 'ses debates nos blogs deve achar que eu odeio Brega, que sou um falso paraense!
que merda ...
porque eu adoro ...
porque sempre foi a antítese da tristeza que vez por outra nos possui.
O mais engraçado:
quem defende o Tecnobrega e afins, acha que quem não gosta é chato, intelectual, burguês, arrogante, etc., ou seja, acham que eu sou tudo isso!
mas pera aí (como se diz em Belém), por que eu devo gostar de um modo «aberto» de Tecnobrega e afins?
qual o grande «argumento», se é que há ...
porque o povo gosta, o povão, a massa, a choldra como diz o Gaspari?
é? ah, então eu sou um completo retardado?
sim, porque eu deveria gostar de Tecnobrega porque o Brasil descobriu nossa música não é isso?
de repente, eu acordo, vou ao Terruá Pará em São Paulo, assistir a muitos dos meus amigos compositores, parceiros até, músicos maravilhosos!
e não acho a menor graça na Gabi do Tecnoshow -- só não gostei de 'sa parte do show, fiquei assim meio envergonhado ...
aí eu me transformo num chato?
mas eu já conheço desde que nasci meus caros!
e sempre gostei, mas era um gostar distinto de quando eu ponho um disco do Dominguinhos e choro ...
é difícil de entender?
Número de frases: 55
Caros leitores desocupados, a srta Lispector já dizia:
as palavras são por vezes desnecessárias.
Elas mais encobrem do que 'clarecem.
Sozinhas, por vezes, morrem sem ter prestado qualquer serviço.
Uniões 'táveis e harmoniosas garantem a sua sobrevivência.
Por isso, talvez, a nossa dificuldade em definir coisas com poucas palavras.
Também daí, talvez, a nossa dificuldade em combiná-las conforme nosso gosto.
Elas têm quase vida própria.
Em 'te aspecto, a srta Lispector e eu concordamos:
não é muito seguro se envolver com algo que tenha vida própria.
Número de frases: 10
Sabe como é.
O artigo abaixo é mais uma provocação!
Um chamado para o debate coletivo.
Acredito que o Overmundo também tenha 'ta vocação e precisa ser explorada.
D.E.B.A.T.E. Então vamos lá:
em Campo Grande 'tá acontecendo um movimento (lento, bem lento) que com certeza já pipocou, 'tá pipocando ou vai pipocar em várias cidades brasileiras.
Lanço duas perguntas para abrir as discussões:
quanto do orçamento do seu município vai para a cultura?
E os artistas locais 'tão fazendo o que para conseguir um percentual maior?
Conheça a realidade de Campo Grande, capital de MS!
Um movimento da classe artística de Campo Grande vem ganhando corpo.
Após debates entre artistas, produtores culturais, autoridades e vereadores cresce o movimento batizado de Campanha 1 % para a Cultura.
Trata-se de uma reivindicação para que 1 % do valor do orçamento do município seja destinado à cultura.
O orçamento de Campo Grande atualmente é de R$ 1 bilhão e 200 milhões e são destinados R$ 300 mil para a cultura, algo em torno de 0,025 %.
O objetivo é que até o dia 15 de dezembro de 2007 seja entregue na Câmara de Vereadores de Campo Grande um plano para que o 1 % para a cultura 'teja na peça orçamentária para o ano de 2008.
A decisão seria então tomada por o prefeito Nelson Trad Filho de aceitar ou não o pedido e transformar a campanha em lei municipal.
Já foram realizadas oito reuniões para debater o assunto.
Está previsto para o mês que vem uma audiência pública na Câmara dos Vereadores com pessoas de outros municípios envolvidas com campanhas semelhantes e que já conseguiram o 1 % do orçamento para a cultura em suas cidades.
A Universidade Federal de MS 'tá oferecendo um curso de formação para profissionais ligados à cultura chamado Industria Cultural:
Artes Criativas, Economia da Cultura e Comunicação.
Uma nova reunião aconteceu no último dia 30 também para dar prosseguimento ao planejamento de como será o projeto entregue à Câmara dos Vereadores.
O vereador Athayde Nery (PPS) explica que a audiência pública que vai acontecer será a base para a justificação da campanha do 1 %.
Ele ressalta que será preciso fazer um levantamento da vocação de Campo Grande para a cultura e que deverá ser entregue um plano detalhado de como será utilizado o dinheiro, dividindo para todas as áreas artísticas da Capital."
Temos que mostrar que 'te 1 % vai ajudar a classe artística a se profissionalizar e que não é uma aventura.
Que 'te 1 % vai gerar retorno financeiro, ajudar o turismo, criar empregos e uma cadeia produtiva para a cultura na cidade.
O orçamento atual é pequeno e precisa aumentar», acredita o vereador.
A presidente da Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande (FUNDAC), Solimar Alves de Almeida, é favorável a campanha.
Ela segue a linha de raciocínio do vereador Athayde de que a classe artística precisa mostrar como vai utilizar 'te 1 % para convencer o prefeito, mas garante que Nelson Trad Filho é sensível à causa.
Ela lembra que no ano passado o prefeito já se mostrou favorável quando precisou assinar o protocolo de intenção para Campo Grande se cadastrar e se inserir no Sistema Nacional de Cultura e que a verba do município para a área seria justamente de 1 %."
Tanto eu aqui na FUNDAC como o prefeito somos favoráveis.
Agora tem que resolver o lado burocrático e os artistas chegarem a um consenso quanto à proposta.
O poder público 'tá sensível e acha pertinente a campanha», garante Solimar.
O aumento da verba municipal para a cultura é mais que desejado por os artistas e personalidades que atuam na área.
Um exemplo é a professora Maria da Glória Sá Rosa, que 'tá envolvida com a questão cultural da cidade desde a década de 50.
Para ela, o governo tem o dever de valorizar mais a cultura."
Apoio totalmente a campanha do 1 %.
Mas sei que os artistas só conseguem as coisas na teimosia.
Tem que insistir», aconselha."
O prefeito (Nelsinho) deve sancionar 'te pedido dos artistas sim.
Ele dá valor e 'timula a cultura.
Só falta amadurecer a idéia e organizar para convencer ele», completa.
A bailarina, coreógrafa e professora de dança, Gisela Dória, lembra que a cota de 1 % é o mínimo aceitável.
Gisele reivindica também que o município crie um departamento dedicado as artes cênicas para os profissionais terem onde 'tudar as teorias relacionadas as suas áreas e de 'ta maneira se profissionalizar realmente."
Um departamento é até mais importante que um corpo de baile municipal.
Porque temos que formar profissionais e não apenas bailarinos, mas professores, cenógrafos, iluminadores ...»,
enumera. Gisela se formou na Inglaterra, deu aulas no Canadá por dois anos e há duas décadas 'tá envolvida com a dança campo-grandense."
Este 1 % não é um favor, mas um direito da classe artística.
Em a verdade, seria o valor mínimo aceito.
Cultura não é perfumaria», atesta.
O cantor Carlos Colman também é solidário a campanha.
O compositor e professor de música garante que se o 1 % for oficializado uma verdadeira revolução pode acontecer na cultura campo-grandense e de 'ta maneira modificar a relação entre artistas e governantes."
Atualmente os artistas que desenharam o que chamam de música de MS são tratados como cidadão de segunda categoria.
Este 1 % pode melhorar o nível de tudo, porque atualmente as fundações 'queceram o objetivo principal que é divulgar e promover cultura para só investir em entretenimento», opina Colman.
Um dos primeiros a levantar a bandeira por a campanha do 1 % foi o jornalista e cineasta Cândido Alberto da Fonseca.
Foi ele que primeiro se dirigiu aos vereadores sobre a necessidade de aumentar a verba do município para a cultura."
O movimento começou quando os artistas acharam uma imoralidade um orçamento de apenas 300 mil para a cultura de uma capital como Campo Grande.
Os políticos devem muito a sociedade brasileira e os artista não são pedintes, mas uma categoria 'pecial de trabalhadores e queremos ser tratados com profissionais por o município», alerta Cândido.
O vereador Athayde vai mais longe e lembra que a campanha para aumentar a verba do município para a cultura é só o começo de uma luta para atrair mais investimentos para a área em MS."
Este movimento serve também para ajudar na negociação com os deputados 'taduais e federais.
De as emendas propostas por os parlamentares em Brasília não tem um centavo para a cultura.
Ninguém vai ao Ministério da Cultura propor algo para a arte de MS.
Número de frases: 61
Talvez 'te movimento do 1 % quebre 'ta barreira do silêncio e comece uma parceria com deputados federais e 'taduais», assegura o vereador.
Hoje senti vontade de me organizar.
Tirar a poeira da alma, passar um pano molhado nos sentimentos, limpar as gavetas do coração, jogar fora o lixo do desejo, colocar os arquivos da memória em ordem alfabética, tirar as teias de aranhas do teto da saudade.
Senti vontade de mandar consertar minha bússola quebrada, ajustar o relógio desse nosso tempo louco.
Faxina geral em mim.
Olho em volta:
a casa brilha, cheira bem.
Quase tudo 'tá em seu lugar.
Não é um reflexo de mim.
Tenho dentro de mim uma casa velha como o mundo, um castelo assombrado por velhas lembranças e velhos fantasmas.
Incômodo? Não.
Conforto. E também excitação de saber que sempre 'tarei descobrindo um cômodo a mais, uma porta secreta pra algum lugar 'tranho e novo.
Deixo tudo como 'tá.
Guardo no armário os baldes e as vassouras com os quais pretendia me limpar.
Tenho preguiça de começar 'sa limpeza.
Tenho apreço por as minhas 'tantes empoeiradas e a bagunça desse meu pequeno mundo caótico que me surpreende de vez em quando.
Número de frases: 16
Qualquer dia da semana, no meio da tarde, é só passar por alguma rua de qualquer bairro mais antigo de Teresina --;
Centro, Matadouro, Vermelha, Poty Velho -- pra sentir um gostoso cheirinho de café.
Apesar do calor, é tradição por aqui tomar um cafezinho de tarde, sempre acompanhado por uma delícia tipicamente nordestina:
o bolo de goma.
Não, não, ninguém aqui anda comendo chiclete com café, não.
A goma do bolo é a farinha de tapioca, que também faz beiju (conhecido como tapioca em vários cantos do país), bolo frito, broas doces e salgadas, petas, enfim, uma infinidade de delícias que combinam perfeitamente com um café quentinho, passado na hora.
O bolo de goma é uma instituição!
Aqui no Piauí o povo não vive sem, em outros Estados do Nordeste eu sei que tem também, mas acho que aqui a paixão é maior mesmo.
Qualquer pão, por mais quentinho e fresquinho que seja, sempre fica de lado quando aparece um bolo, mesmo que seja do dia anterior.
Sim, há quem prefira abrir mão de comer o bolo quentinho, recém-saído do forno, para comer no dia seguinte, quando já 'tá mais duro mas igualmente gostoso.
Outra curiosidade é que quando se vai contratar uma empregada doméstica, a candidata já ganha pontos se souber fazer o «bolo de sal» -- ele é chamado assim também.
A massa básica é bem simples:
a goma, ovos, leite, sal e óleo.
Algumas variações levam queijo, que faz uma grande diferença e dá uma nova textura e sabor.
A farinha também muda a cara do bolo.
Se for tapioca fininha, tipo polvilho, ele fica liso, com uma casca mais crocante e o interior macio e fofo.
Se for «de caroço», o bolo fica cheio de bolinhas.
As padarias já sabem o segredo para fazer o cliente levar mais que o pão francês e o leite de cada dia e 'tão expondo variedades de bolo de goma direto no balcão.
Oferecem a «rosca», que é o bolo grande, redondo;
a pamonha, que pode ser feita de tapioca fina ou de caroço e é tradicionalmente assada em folha de bananeira (nas padarias usam papel alumínio), petas (sequilhos salgados do tipo é impossível comer só um e quando você vê já devorou o pacote-inteiro), cariri -- bolinho salgado que 'farela na boca), e claro, o beiju feito na hora, com recheio de queijo de coalho e manteiga da terra.
Ficou com água na boca?
Pois anota aí uma receita facinha, facinha de bolo:
Bate no liquidificador uma xícara de leite, ½ xícara de óleo, 4 ovos, três xícaras de farinha de goma (ou polvilho / fécula de mandioca / tapioca), um pires (ou um pacotinho) de queijo ralado, sal a gosto (cuidado porque o queijo de pacote já é muito salgado).
Depois de bater por uns 5 a 8 minutos, põe numa forma de buraco no meio, levemente untada com óleo.
Forno por uns 30 a 40 minutos.
Quando 'tiver quase pronto você prepara um café.
Se, como eu, você não 'tá lá muito preocupado com a quantidade de calorias / dia, experimente o bolo ainda quente, com manteiga derretendo em cima ...
E bom apetite!!
Número de frases: 28
Ainda bem que me enganei.
Conto a história do princípio.
O 'critor é metade sueco, metade português.
Enfim, europeu.
Desde que saiu da Suécia, em 2001, dá aulas na África:
Cabo Verde, Moçambique, e hoje mora em Angola.
Fiquei logo meio desconfiado ...
Sei que é uma generalização 'túpida, um preconceito.
Mas vários desses europeus apaixonados por os trópicos, ou por o Terceiro Mundo -- que surgem por aqui para nos ajudar, geralmente me parecem ingênuos na sua procura de expiar culpas ou incentivar «autenticidades».
Quase nunca 'condem por completo o sentimento de superioridade, de saber o que é bom para nós.
Querem que sejamos «diferentes», exóticos -- e tudo acaba com um gosto meio cafona de realismo mágico ou» macumba politizada para turista».
Então, quando abri o livro, o Perdido de Volta de Miguel Gullander, eu 'tava cheio de receio.
Logo na primeira página há referências à possessão e, na segunda, a uma «negra linda».
Mas o clima já era todo alucinado, uma alucinação com ares de pop art, de história em quadrinhos ou de bad trip 'tilo William Burroughs.
Então continuei a leitura, um tanto curioso.
Em o capítulo 2, a temperatura abaixa para 27 graus negativos, nas ruas de Estocolmo.
A África vira um 'petáculo numa sala de teatro alternativo.
E no próximo capítulo, quando chegamos na ilha do Fogo (ilha magnífica, onde já pisei, e encontrei aquele povo que planta uvas na cratera do vulcão -- juro que não foi alucinação ...),
já 'tamos a bordo de uma Toyota, igual a todas 'sas vans que cuidam do transporte coletivo delirante e informal da maioria das cidades periféricas do mundo.
«Estou em casa», respirei aliviado.
Ou 'tou também perdido de volta, como sempre me sinto em qualquer lugar, não importa se é um baile funk ou uma conferência sobre neurociências em Natal ...
Esse mestiço luso-sueco se revela a cada página um 'critor mais interessante.
Perdido de Volta é o nome da van da ilha do Fogo.
Lá, como em todos países africanos de língua portuguesa, as vans têm nomes próprios.
Miguel Gullander cita alguns:
«Pomba «Branca»,» Dois Canhões, um «Tiro», Lisboa no Coração» etc..
O motorista explica por que batizou sua van de Perdido de Volta.
A explicação é tão boa, e serve para 'clarecer tanta coisa de nossa globalização 'calafobética, que me sinto na obrigação de copiar tudo aqui:
«Estas Hiaces [uma marca de van Toyota, extremamente comum em toda a África] são o transporte público daqui.
Elas aparentemente não têm horário, nem rota 'pecífica.
Aparentemente. Lá porque nós, gentinha, não sabemos o que vai acontecer, e guiamos descontraidamente, ao acaso, por onde vai apetecendo, isso não quer dizer que o caminho não 'teja já traçado.
Eh! [ ...] Por mais falta de cumprimento de horário, de rota -- por mais desconhecido que seja o caminho -- por mais desnorteado que pareça ser o destino, por mais perdido que se 'teja, 'ta carrinha acaba sempre por ir aonde a necessidade exige -- acaba sempre por passar onde é preciso.
Recolhe quem deve recolher, e até dá, por vezes, uma boléia -- e, mesmo que ande perdida na noite, na chuva, nos caminhos sem vivalma, -- perdida, ela acaba sempre por regressar de volta onde pertence, a casa."
Descrição perfeita de nossa condição pós-moderna, não é mesmo?
Em o sistema de som da Perdido de Volta do livro 'tava tocando kuduro, a música pop-favelada eletrônica de Angola que conquistou rapidamente Moçambique, Verde, os bairros pobres de Lisboa e Paris, e agora vira moda em pistas de dança «antenadas» de Berlim ou Londres.
Em o resto do livro somos embalados por gangsta-rap e punk-hardcore straight-edge, e nos deparamos com uma pichação na parede da biblioteca de Oeiras, " Portugal:
«Queremos um tsunami!"
Quem pichou, já deve saber:
tudo ao redor é tsunami.
E o livro apenas descreve nossa descida coletiva para cada vez mais fundo no maelstrõm (fenômeno «natural» da mitologia viking / nórdica, da qual Miguel Gullander é profundo conhecedor).
Mudou o mundo?
Ou mudaram apenas os jovens europeus apaixonados por o Terceiro Mundo?
Tudo mudou, principalmente nossa percepção diante do mundo:
impossível manter a imagem daqueles trópicos tradicionalmente selvagens, intocados por a modernidade, de certa forma puros (mesmo na sua devassidão, mesmo na sua injustiça social).
Tá tudo dominado e conectado.
E o livro do Miguel Gullander vem nos anunciar:
o mundo ficou bem 'tranho.
Muito mais 'tranho do que os absurdos habituais das narrativas do realismo mágico.
-- Este meu texto, até agora, é meio ficção, é meio invenção.
O leitor desconfiado que conduzia a narrativa não sou eu.
É apenas um recurso retórico, para prender -- com a polêmica nossa de cada dia adorada por os cadernos culturais dos jornais -- a atenção dos outros leitores, que terão contato com minhas palavras através do Overmundo.
Se você 'tá lendo até aqui, a minha 'tratégia deu certo, ou pelo menos não deu totalmente errado.
Em a verdade não comecei a ler o livro com desconfiança.
Afinal, foi presente do José Eduardo Agualusa e do pessoal da editora Língua Geral.
Admiro a literatura de Agualusa há muito tempo.
Até 'crevi o prefácio de seu primeiro livro editado no Brasil.
Não gosto apenas dos seus livros, mas também da sua maneira de pensar o mundo, ou o mundo da língua portuguesa em particular.
Se ele gosta de alguma coisa, vou gostar da mesma forma.
Então, se o livro foi lançado por a sua editora, tenho certeza que vou aproveitar bem a leitura.
E ainda por cima a editora é a Língua Geral.
Minha afinidade com sua linha editorial é enorme.
Fiquei pensando, ao ler o Miguel Gullander:
o Overmundo poderia igualmente se chamar Língua Geral -- temos objetivos muito semelhantes, focos complementares.
A editora Língua Geral, que lançou seus primeiros livros no final de 2006, também quer descentralizar a produção / difusão / circulação da informação cultural no Brasil.
Não lança apenas a literatura dos países africanos de língua portuguesa entre nós.
Lança autores que 'crevem em língua portuguesa em qualquer canto do mundo, inclusive em recantos brasileiros fora-do-eixo.
A proposta não é regionalista, mas sim cosmopolita, mesmo falando uma só língua, e mesmo descobrindo apenas uma parte do mundo.
Um mundo que 'tá certamente perdido, mas aqui 'tá de volta, em eterno luso-retorno, o tempo todo.
E quando leio Perdido de Volta me sinto vizinho do Miguel Gullander, nós dois perdidinhos e em casa, casas do mesmo tipo (já muito diferentes daquela casa portuguesa com certeza, do famoso fado ...),
não importa se situadas em costas opostas do Atlântico.
Bem, reconheço:
nossa casa é uma van Toyota, surfando no caos do oceano, para dentro e fora do maelstrõm.
Então todo 'te texto foi uma cantada, um bilhete dentro de uma cibergarrafa:
Eh! Miguel (e todos os outros autores da Língua Geral), que tal mandar notícias aí de Benguela -- ou de qualquer outra van de residência -- para cá, para 'te vasto e igualmente delirante (como queria o poema de Murilo Mendes que nos batizou) Overmundo?
Número de frases: 74
É impossível analisar a questão da qualidade na TV como um evento separado do resto da sociedade.
A o olharmos só para a ponta do iceberg, corre-se o risco de tomar apenas medidas paliativas, alternativa muito comum para um país acostumado a ser governado por meio de medidas provisórias.
Não se pode também, afirmar que a televisão é a vilã e o público o mocinho em 'sa novela, ou vice-versa, a vida real é muito mais complexa que o produto de maior sucesso de 'sa fantástica caixa eletrônica.
Ambos os lados tem uma grande parcela de culpa no mar de mediocridade em que a televisão brasileira 'tá mergulhada.
Obviamente, o ponto crucial para a melhora da TV 'tá na educação das pessoas.
Não apenas na educação 'colar, porque senão não teríamos órgãos regularizadores nos países desenvolvidos, mas na formação cultural da sociedade como um todo.
O ser humano parece ter uma tendência a gostar do bizarro.
Se ele adora ouvir a briga dos vizinhos, como não deliciar-se com as baixarias na televisão?
Está claro que os órgãos regularizadores têm de ser mais atuantes, como até 'tão sendo, houve uma razoável melhora na programação de cerca de cinco anos pra cá.
Mas é preciso agir com bem senso, ter critérios claros e uma ampla discussão com a sociedade, pois não se pode correr o risco de afundarmos num processo ditatorial.
O que ocorre no meio acadêmico, à partir do conceito de Indústria Cultural criado por os franfurtianos Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, é uma 'pécie de «demonização» da TV.
Sempre se ouve que os meios de comunicação de massa são instrumentos de manipulação das pessoas.
E são, é verdade.
Mas são apenas as caixas de ressonância de uma manipulação que começa na 'cola, no trabalho, na política.
O próximo passo é entender os meios de comunicação e utilizá-lo com sabedoria, favorecendo a sociedade.
O Nazismo utilizou-se do rádio e do cinema, os grandes meios de comunicação da época, para se expandir e doutrinar novos membros.
Por que não começar uma revolução do bem, levando cultura e 'clarecimento à população através da televisão?
Como fazer isso é outra grande discussão, mas o pontapé inicial tem que ser dado.
Todas as televisões abertas são concessões públicas.
Ou seja, eu e você temos o direito de interferir no que assistimos, temos direitos sobre os canais.
Os donos de emissoras têm que prestar contas com a população, não apenas brigar a qualquer custo por os pontos na audiência.
Se houver uma mobilização, pode haver uma grande mudança, e quem sabe no futuro a televisão seja o 'pelho de uma sociedade mais inteligente e 'clarecida.
Número de frases: 22
Estabelecer uma fotografia sincera, autoral, apropriando-se da imagem e construindo um discurso pessoal.
De forma resumida, 'se é o objetivo do Projeto Contato, uma 'cola de fotografia e 'túdio fotográfico de Porto Alegre que produz cursos, projetos e expedições fotográficas.
Criado em fevereiro de 2004 por o Flávio Dutra, o Gerson Nunes, a Lúcia Simon e o Nede Losina após uma viagem do grupo à Patagônia (Argentina) com o Núcleo de Fotografia da UFRGS, o Projeto Contato vem desenvolvendo um intenso trabalho de fotografia, principalmente em ambiente natural, com diversas atividades em andamento.
Preocupação ambiental
«Desde o nosso inicio como fotógrafos trabalhamos com a fotografia em ambiente natural e temos 'sa preocupação ambiental bem clara.
Nossos cursos e oficinas de natureza contam com a participação de biólogos ou guias de caminhada, pessoas ligadas a 'sa questão», lembra o Nede Losina.
Muitos trabalhos são feitos em reservas ambientais e unidades de conservação, em parceira com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e o IBAMA, que apóiam o grupo com palestras, alojamentos e as autorizações necessárias.
Prova disso é a Exposição Parque Estadual de Itapuã, realizada em 2004.
O parque existe há mais de trinta anos, mas ficou fechado por um bom tempo, sendo reaberto em 2002, com a maior parte do 'paço destinada à conservação de ecossistemas.
O Projeto Contato levou 14 fotógrafos em duas saídas de campo, durante os meses de abril e maio, em que foram documentadas várias áreas do parque, como o Pontal das Desertas, a Lagoa Negra, a Praia do Tigre, a Trilha da Pedra da Visão, a Trilha do Hospital, o Banhado do Olavo, a Praia da Pedreira, a Ilha do Junco, a Prainha, o Farol de Itapuã e a Praia de Fora.
O resultado foi a exposição de 76 fotografias num shopping da capital durante a Semana do Meio Ambiente de 2004 e que, em novembro do mesmo ano, entraram para o acervo permanente da Sala de Exposições do Centro de Visitantes do Parque Estadual de Itapuã.
Como demonstração da preocupação ambiental no trabalho, a entrega das imagens ao parque e a abertura da exposição envolveram uma coleta de lixo na Praia de Fora, com a participação mais de 60 pessoas.
O valor da experiência pessoal
Além do caráter documental desse tipo de projeto, o lado autoral se manifesta no trabalho dos fotógrafos, numa interpretação muito particular dos assuntos.
«O Projeto Contato busca e incentiva a fotografia como uma experiência pessoal, como produto final de um trabalho e não como uma ferramenta pra chegar a um objetivo», lembra o Nede.
De aí vem o conceito de «fotografia com» F «maiúsculo», que passa por a discussão das imagens, relacionando o objetivo do fotógrafo à interpretação das fotos por os colegas e instrutores, avaliando composição, técnica e linguagem.
«Procuramos mostrar as imagens como elas foram feitas, sem manipulações digitais ou montagens posteriores à obtenção.
Sempre brincamos que as fotos que aparecem no site serão apresentadas com um selo de qualidade ' digital free ', atestando a não manipulação das fotografias e, quando acontecer, as manipulações serão informadas».
Um bom exemplo de 'sa naturalidade 'tá no Projeto Porto Alegre, um conjunto de saídas fotográficas entre março de 2005 e fevereiro de 2006 com o objetivo de retratar diversos aspectos da cidade, dos 'paços aos habitantes.
O principal foi valorizar o lado pessoal e criativo por parte de cada fotógrafo, sempre em imagens em preto e branco.
Algumas de 'sas fotos foram selecionadas e expostas no final de março.
Uma nova etapa do projeto vai se 'tender até o final do ano, quando deve ser realizada uma grande exposição fotográfica com cópias manuais.
Em 'se mês de junho 'tá programada a apresentação da Exposição Parque Estadual de Itapuã com imagens feitas em março último.
Em setembro as imagens serão doadas para o acervo do parque, numa entrega comemorada com um dia de campo em Itapuã, além de diversas atividades no local.
Número de frases: 24
E pra começar bem o ano de 2007, mais uma viagem à Patagônia deve acontecer em fevereiro, certamente aliando a preocupação com o meio ambiente à prática da fotografia autoral, duas marcas tão presentes na filosofia do Projeto Contato.
Hijack, núcleo de DJs Element Trance e exposição de artes plásticas serão as outras atratividades artísticas, além do lançamento do regulamento da 5ª Bienal da Une.
Com o repertório contagiante da Cabruêra e uma exposição multimidiática das telas do holandês Maurits Cornelis Escher em animes, o Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca) da União Nacional dos Estudantes (Une), de Campina Grande, dá o ponta-pé inicial nas atividades culturais deste ano, no dia 16 (sábado), marcado para as 22 horas.
O evento é um resultado de mais uma novidade que o Ponto de Cultura trouxe:
uma parceria com a Eco Produções, formada por produtores independentes que pretendem trazer, quinzenalmente, muita reverência à arte no local.
O lançamento do regulamento da 5ª Bienal de Ciência, Arte e Cultura da Une, a se realizar em janeiro / fevereiro de 2007, no Rio de Janeiro, será apresentado.
Este ano, a Bienal traz o tema Brasil-áfrica:
um Rio chamado Atlântico, polêmica discussão acerca da cultura afrobrasileira.
E, para completar a cena musical, a banda de pop rock Hi Jack e os DJs do núcleo Element Trance (Madjey, Eco e Pitsy), formarão seus sets com sons variados e também dançantes.
O prédio onde funciona o Cuca-CG pertence à Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e foi 'ta instituição quem realizou uma reforma na 'trutura, desde o início de agosto.
Dois balcões para bares foram instalados, um ao lado da nova sala de aula (antiga administração) e outro próximo aos banheiros.
O 'paço agora poderá abrigar cerca de duas mil pessoas com a construção de uma saída de emergência que foi criada para uma maior segurança do público.
E uma nova pintura (externa e interna) foi feita no local, além de grades de proteção, portas e instalações elétricas renovadas.
Sobre 'te primeiro evento, o diretor administrativo do 'paço, Edson de Aguiar, informou que a parceria entre o Cuca e a produtora Eco cria uma nova possibilidade de atuação, «descentralizada e bem menos presencial da nossa equipe».
Em a divisão, a Eco fica com algumas datas para eventos, mas Edson enfatizou que os cuqueiros e novos voluntários 'tarão juntos nas atividades.
«Realizaremos eventos também, mas ficaremos mais integrados aos novos projetos de gestão cultural, como a elaboração de oficinas artístico / culturais», explanou o diretor.
Voluntariado sempre existiu e continuará a ser a mola propulsora para o melhor funcionamento do Cuca-CG.
Em o ano passado, alguns representantes de classes artísticas e produtores culturais se agregaram ao 'paço para fortalecer a atuação.
Fredi Guimarães (músico), Flávio Metralha (movimento hip hop) e Safira (pedagogia) foram alguns dos que marcaram presença e contribuíram com as atividades.
Este ano, cerca de 20 pessoas ('tudantes, profissionais da área de exatas, desportistas e artistas), 'tão se reunindo intensamente com o intuito de reorganizar o quadro de pessoal e injetar novas idéias e articulações para movimentar a cena local.
Outro tipo de produção de eventos poderá ser feito com os produtores independentes.
«Quem tiver algum projeto cultural, deve procurar a coordenação de Cultura para mostrar o projeto e marcar uma possível data para a realização», disse Edson.
Em a atuação do ano passado, foram mais de 10 eventos realizados por segmentos culturais da cidade, entre eles, o 30º Festival de Inverno (mostra musical noturna).
O Encontro para a Nova Consciência deste ano realizou o Rock na Consciência no 'paço.
Algumas calouradas, eventos dos cursos de Arte e Mídia e Desenho Industrial (UFCG) também foram vistas no Cuca-CG.
Europa / Brasil:
Cabruêra faz show no Cuca-CG
Entre as idas e vindas à Europa, de junho a setembro deste ano, a Cabruêra fará um show «na veia» com os Sons da Paraíba em 'ta noite, no Cuca-CG.
Em a turnê de 18 shows agendada em nove países europeus, a banda ainda se prepara para seguir viagem para o POPKOMM (maior feira de música da Alemanha).
Em seguida, a Cabruêra toca no Quasimodo (mais antigo e importante clube de jazz de Berlin) e segue viagem para o leste europeu, onde se apresentará na cidade de Praga, no Palac Akropolis (famoso templo da música), na República Tcheca.
Cinco representações nordestinas brasileiras 'tarão no Popkomm.
De a Paraíba, somente a Cabruêra levará a mistura de ritmos da nossa localidade, que é de interesse global, característica da world music.
«Podem 'perar energia, pois vamos mostrar os sambas, cocos e cirandas do novo CD e mais outros sons que a gente toca e inventa», comentou Arthur Pessoa, vocalista e violonista da Cabruêra.
Satisfeitos por terem feito tantos shows lá fora e contentes por «'tarem em casa», como Arthur costuma saudar o público da Borborema.
A Cabruêra nasceu em Campina Grande na Paraíba em 1998.
HIJACK:
o som que veio das Lourdinas
Formada por quatro rapazes que se reuniram pela primeira vez nos corredores do colégio das Lourdinas, em Campina Grande, a banda Hijack promete trazer um som alegre, que mostrará várias performances para músicas dos Beatles, Pink Floyd, Led Zepellin, Pearl Jam, entre outros.
Sua quarta formação se reuniu há um ano e conta com os músicos André Guedes (vocalista e baixista), Giordano Frag (guitarrista solo) e os irmãos «Daniel» «Spiker «(baterista) e» Rafael Doug " (guitarra base).
E eles prometem um som envolvente que costuma atrair «um bom público», como ressaltou» André Guedes.
«Nós lapidamos um 'tilo próprio de conquistar um público cada vez maior», disse o vocalista que considera o cover da banda um dos mais bem feitos na cidade.
Executando um repertório com sucessos que vão do rock pop atual ao rock dos anos 70, 80 e 90, Hijack -- que quer dizer «seqüestro» em inglês -- tem apresentado um show extrovertido lotando casas de shows com as apresentações.
André Guedes, líder do grupo e único integrante que 'tá desde a primeira formação, conta que apesar de todas as dificuldades que uma banda de garagem passa para chegar aos palcos, a banda Hijack atingiu um nível acima das expectativas de aceitação.
A banda possui material gravado em shows, inclusive em diversas apresentações em rádio FM de Campina Grande.
Hijack gravou um clipe para a divulgação de composições próprias também, em parceria com o Departamento de Artes (Dart) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Festivais de rock, festas promovidas por colégios e universidades, boates, bares e calouradas, congressos, shoppings e clubes daqui e de outras cidades da Paraíba formam a trajetória da banda.
Thiago Guedes:
(83) 8867 -- 1112
Escher A arte visual do panfleto deste evento foi pensada de acordo com as novidades que o Cuca-CG 'tá trazendo.
As 'cadas de Escher, uma impressão de evolução.
Este é o sentimento que Maurits Cornelis Escher passa aos cuqueiros.
O artista é holandês, nasceu em junho de 1898 na cidade de Leeuwarden, na Holanda.
Seu aprendizado em desenho começou numa 'cola secundária em Arnhem.
Posteriormente, de 1919 a 1922, 'tudou na Escola Superior de Arquitetura em Haarlem, onde aprendeu técnicas gráficas com Jessurun de Mesquita, que o influenciou profundamente.
O homem que deveria ter sido um arquiteto impressiona a todos quando afirmou que, " com freqüência, me sinto mais próximo dos matemáticos do que dos meus colegas, os artistas."
Viveu na Itália, residindo em Roma (1922), migrou para a Suíça (1934), Bruxelas e Baam (1941), onde morreu em março de 1972, na Holanda.
Seu trabalho foi grandemente apreciado por matemáticos e cientistas.
Embora não tivesse formação em 'sas áreas, produziu intrincados padrões repetitivos, 'truturas matematicamente complexas e perspectivas 'paciais desconcertantes.
Escher, na Espanha, encontrou uma de suas maiores fontes de inspiração:
a Alhambra (antigo palácio e complexo de fortificações dos monarcas islâmicos de Granada, no sul da Espanha).
Os precisos e intrincados detalhes ornamentais formam a viva imagem dos 'quemas geométricos que tanto lhe entusiasmavam.
Pode-se dizer que a raiz de sua visita à Alhambra e à mesquita de Córdoba, a obra de Escher, que havia se baseado na representação de paisagens, até então, variou seu rumo para os 'tudos matemáticos que tão famoso os deixaram.
Traz uma larga convivência na Suíça, Bruxelas (1937-1941) e, mais tarde, em Baarn, no seu país de origem, onde residiria até sua morte, em 27 de Março de 1972.
Sua prodigiosa visão abstrata nos deixou uma interessante e extensa obra na qual se conjugam a arte a matemáticas de uma maneira interessante.
Precisamente foi isso o que abriu as portas dos círculos artísticos da época, já que, por outra parte, despertara grande devoção entre matemáticos e físicos.
Seu trabalho foi ganhando reconhecimento, sobre tudo, durante os últimos anos de sua vida e atualmente tem adquirido tal fama que, inclusive se vendem posters, camisetas e outros acessórios com seus trabalhos como tema.
Fonte:
Número de frases: 67
Escher Gallery O Encontro dos Países Lusófonos, que teve início na noite de quarta-feira, no Mendes Plaza Hotel, divulgou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
Entretanto, o tema mais abordado entre os participantes, o autopreconceito, não 'tava na pauta do evento.
As palestras discutiram os 60 anos de Declaração dos Direitos Humanos e as preocupações em relação ao preconceito.
Mas, de acordo com os portadores de deficiência, o preconceito entre eles próprios é o que mais prejudica.
Kelly Muniz, de 36 anos, diz que foi a primeira cadeirante a ser contratada como agente comunitária de saúde em Santos e conta que, assim como todos os deficientes que conhece, também era preconceituosa com si mesma.
Mas hoje, ela não se importa.
«O pior preconceito para um deficiente é o que ele tem com ele mesmo.
Eu trabalho há cinco anos como agente comunitária e, hoje, não me importo mais se alguém não fala com mim por 'tar num mau dia, ou se me indicam para trabalhar em outro lugar.
Antes, era como a maioria dos deficientes, que acham que tudo é por causa da deficiência».
Já o Engenheiro aposentado Marcos da Silva reclama sobre as paraolimpíadas e o pouco reconhecimento que os deficientes têm.
«Sempre acompanho as paraolimpíadas e, como todos sabem, o Brasil sai na frente.
O reconhecimento disso é totalmente momentâneo.
Isso quando ele realmente existe.
O mais comum é você ouvir alguém se surpreender com o desempenho do atleta com ar de pena.
Sem contar que o investimento em ela é muito menor do que nas Olimpíadas», diz ele.
Quando o assunto é sensibilidade para com o deficiente, a cidade de Santos se destaca entre as demais.
É o que mostrou a palestrante " Flavia Maria de Paiva Vital.
«A cidade foi 'colhida para ter o evento realizado por ser a que mais tem sensibilidade com os deficientes e o assunto em si.
A Prefeitura tem se preocupado bastante com os problemas apresentados e um exemplo disso é o bondinho, que agora é acessível para os cadeirantes.
Número de frases: 19
Mas, claro, não é da noite para o dia que tudo vai ser feito e é por isso que 'tamos aqui».
Coquetel Molotov não é somente um artefato de guerrilha urbana.
É também o nome de uma das melhores revistas de música no Brasil.
Em a verdade, a coisa é ainda mais complexa:
a revista é a vertente impressa de um projeto que inclui também um programa de rádio, a organização de festivais com bandas internacionais (Teenage Fanclub, Dungen e outras) e dois selos de música (Bazuka e o próprio Coquetel Molotov).
Mais bacana ainda é saber que tudo isso acontece no Recife, graças ao trabalho de gente como Ana Garcia, que figura abaixo em entrevista revelando um pouco mais sobre o projeto.
A segunda edição (na verdade o número 1, pois antes só tinha saído o número 0) da revista acaba de ser lançada.
Possui uma das programações visuais mais originais e bonitas dos impressos culturais brasileiros (feita por a Mooz), foi licenciada através do Creative Commons.
Isso significa que qualquer pessoa pode republicar as matérias, desde que seja para fins não comerciais.
E vale a pena:
'ta segunda edição traz na capa o Cidadão Instigado, novo queridinho da música nova brasileira.
Traz também matéria com o Architecture in Helsinki (apontada como promessa para 2006), M. Takara, The Silvias (da Paraíba), além de entrevistas exclusivas com o Wry (banda de Sorocaba, radicada em Londres), Almir de Oliveira e o ícone da eletrônica indie Kevin Blechdom.
Por fim, há uma imperdível descrição em quadrinhos da passagem por o Brasil do grupo sueco Dungen, feita por o próprio baixista da banda (Mattias Gustavsson).
O site da Coquetel Molotov pode ser acessado aqui.
Já falei demais.
Com a palavra, Ana Garcia:
Como surgiu o Coquetel Molotov?
O Coquetel Molotov surgiu em 2000 como um programa de rádio na Universitária AM.
Em 'sa época, era uma brincadeira nossa que amávamos muito.
O programa acontecia duas vezes por semana e chegamos a entrevistar vários artistas locais e de fora por telefone.
Mas fomos expulsos da rádio sem um motivo aparente -- chegamos ao local e disseram que era o nosso último dia.
Até hoje eu não entendo direito o que aconteceu.
Mas, acho que isso foi um passo 'sencial para o nosso futuro.
Decidimos continuar com o programa, fomos para uma outra rádio e desenvolvemos outras idéias.
Logo surgiram o site e o festival Em o Ar Coquetel Molotov.
Conseguimos fazer o nosso primeiro festival com os meninos maravilhosos da Slag Records e trouxemos pela primeira vez ao Brasil o grupo 'cocês Teenage Fanclub e o sueco Hell on Wheels.
A experiência foi maravilhosa e inesquecível.
Hoje, 'tamos na Universitária FM, 99.9, mas não sei até quando porque não conseguimos um apoio, temos um podcast, montamos dois selos (Coquetel Molotov e Bazuka Discos), criamos uma revista, colocamos um novo site no ar e temos também o festival Coquetel Molotov Independente, além do Em o Ar que terá a sua terceira edição em agosto.
O fato de 'tar em Recife dá uma visão privilegiada para a Revista?
Eu acho que o fato de 'tar em Recife pode ajudar na hora de pedir apoio ao governo do Estado ou à Prefeitura Municipal.
Por exemplo, aqui a SEDUC (Secretaria de Educação e Cultura), através do Chefe de Gabinete Rodrigo Barros, dá um apoio enorme, algo que provavelmente não teríamos no Sul.
A revista só foi financeiramente viável por causa do governo.
Mas ao mesmo tempo, no Sul deve ser mais fácil conseguir um apoio de empresas privadas.
Em 'se ponto de vista, sim, é um privilégio ser de Recife.
Mas eu acho que isso também é fruto do trabalho que 'tamos fazendo há cinco anos.
Se for pensar no respaldo da revista em si, eu acredito que possa ajudar, mas tem um limite.
Não é mais novidade que Recife 'tá fervendo e tem muita coisa acontecendo, como nas grandes capitais do país.
O interesse em obter uma cópia da revista vem de todas as cidades, praticamente.
O mais engraçado é que grande parte das pessoas que não moram em Recife conhece o Coquetel Molotov apenas por o site, às vezes nem sabem que somos daqui, mas fica interessado por os artistas que 'tamos 'crevendo a respeito.
A revista é focada em musica interessante de todo o mundo.
Como a revista 'tá vendo e quer ver a musica brasileira de hoje?
Eu acho que o primeiro editorial da nossa revista responde isso um pouco.
Primeiro, é 'sencial dizer que o Coquetel Molotov tem quatro pessoas que 'cutam música de uma forma completamente diferente e também dependemos de muitos colaboradores que normalmente 'crevem sobre o que querem, sem ser dada uma pauta.
Olhamos para a música brasileira da mesma forma que olhamos para a música 'trangeira -- queremos sentir algo com ela.
Obviamente que procuramos 'crever sobre artistas que deveriam ter mais 'paço na mídia, mas isso não é regra ...
Queremos passar o que sentimos quando 'cutamos um artista 'pecífico e normalmente temos interesse de passar os bons sentimentos, deixamos as bandas ruins para outras pessoas 'creverem a respeito.
Por exemplo, achei o disco novo do Cidadão Instigado inacreditável e eu tinha que colocá-lo na capa.
Quero que todo mundo conheça 'se artista.
Essa é a forma que vemos a música em geral.
Acho que tem coisas inacreditáveis acontecendo no Brasil, desde 3 ET's Records a Erasto Vasconcelos a Totonho e os Cabras a Tecnoshow.
Só precisamos de espaço para 'crever sobre todos.
A revista foi licenciada em Creative Commons, tal qual o Overmundo.
O que levou a is so?
Depois de cinco palestras com Ronaldo Lemos sobre o Creative Commons, chegamos à conclusão de que 'se era o caminho para a revista.
Algumas pessoas ficam com medo do CC por não entenderem direito do que se trata, mas muitos artistas recifenses e de Olinda adotaram a licença, o que fica mais natural ainda para o Cm adotar.
Também achamos que facilita a publicação das nossas matérias em outros veículos, o que é muito importante para todos dentro desse projeto, as 'pecificações 'tão todas lá -- O melhor de tudo foi perceber a reação dos colaboradores, todos, inclusive os 'trangeiros, concordaram e acharam a idéia genial.
Planos para o futuro?
Lançamos recentemente [as bandas] Rádio de Outono (Coquetel Molotov) e Chambaril (Bazuka Discos), então, 'taremos trabalhando em cima de eles.
O Coquetel Molotov Independente 3 será no final de janeiro, 28/01, gratuitamente no Pátio de São Pedro, em Recife.
Em fevereiro sai O Troco, o disco da Profiterolis por o Bazuka Discos.
A segunda revista sai em março.
A terceira edição do Em o Ar Coquetel Molotov será em agosto.
Número de frases: 62
E durante isso tudo, iremos lançar alguns discos, continuar atualizando o site, fazendo o programa de rádio e organizando diversos eventos menores por aí.
Por Marvin Sandom e Binho Santos.
Em 'te sábado, 17 de maio, às 10:00 hs, aconteceu na Creche Ary Pimentel, em Parada de Lucas, um evento denominado Um Dia Com a Família.
Estiveram presentes ao evento pais, educadores e os alunos da Oficina de Violino do AfroReggae.
Quem 'teve no evento teve a oportunidade de ouvir:
«Eu Sei Que Vou Te Amar «e» Asa Branca», entre outras.
Algumas pessoas impressionaram-se com as crianças tão pequenas tocando tão bem.
Houve também muitas brincadeiras e atividades infantis.
O evento também contou com uma farta mesa de guloseimas.
O objetivo de trazer a família e a comunidade em geral para dentro da 'cola parece ter sido alcançado, ou se não, deu um grande passo, pois vimos crianças e adultos num evento de muita harmonia.
Um dos eventos, de entre muitos que os alunos de violino já participaram, foi a Semana Afrolclore, em 2007.
Este evento deu supercerto.
A Semana Afrolclore uniu também Instituição e comunidade.
Este ano 'tá sendo pensada uma segunda edição do evento, que, provavelmente, acontecerá em agosto, com um envolvimento maior da comunidade e das oficinas do AfroReggae.
Número de frases: 14
Só três letras que significam algo muito 'pecial!
O que seria das crianças sem as mães?
Eis a questão:
O que será realmente ser mãe?
É só ter responsabilidades?
Não ... É poder gastar dinheiro com balas, brinquedos, roupas, material 'colar ...
E ainda ter que trabalhar!
É ouvir pirraça de adolescente em crise, é se emocionar com as primeiras palavras que sempre são Mamãe e sempre, sempre repetir as frases:
Vá 'covar os dentes!
Já fez o dever?
Tá na hora de dormir!
Tira a toalha molhada de cima da cama!
Pior é que a gente sempre 'quece!
Uma coisa ruim é ver a mãe sofrer ...
Dá um nó na goela, um aperto no coração, que nem quando ela briga porque eu não fiz o dever!
E mãe sofre por tudo ...
Mas mesmo assim eu vou querer ser mãe!
Eu fico tão feliz quando ela pode me buscar na Escola, quando a gente dá risadas, quando fura onda na praia de mãos dadas ...
As vezes a gente briga mas depois faz as pazes!
Coisas de mãe ...
Número de frases: 20
Coisas de filha!
Qual o sentido da vida para um Pentium 233?
Para onde vão os videocassetes que não funcionam direito?
Como evitar a proliferação de mouses 'tragados dentro dos armários?
Existe vida para os aparelhos eletrônicos após a superação tecnológica?
A metareciclagem tem uma resposta para todas as suas dúvidas existenciais.
A solução 'piritual frente à angústia causada por a crescente voracidade de consumo de aparelhos tecnológicos é o desapego.
Doar, compartilhar, consertar e botar para funcionar é o caminho para a ascensão tecno-'piritual.
Como o Dalai Lama disse uma vez:
«A revolução tecnológica é positiva.
Um dos principais objetivos do budismo é a iluminação.
E iluminação significa saber mais.
Se a tecnologia facilita o acesso à informação e a comunicação entre as pessoas, ótimo."
Vez ou outra surgem 'sas idéias «do bem», que crescem 'condidas e à parte da atenção das pessoas.
Ninguém sabe direito como nascem, qual a sua origem, para onde vão ou quem 'tá por trás de elas.
Isso não é muito importante.
A metareciclagem é uma de 'sas idéias.
Quando comecei a me interessar e pesquisar sobre o tema, percebi que já havia várias idéias e projetos surgindo em diversos cantos do país que buscam se apropriar de tecnologias para mudanças sociais.
Você vai encontrar por aí iniciativas distintas que se afirmam como metarecicleiros.
Esse é um campo no qual é muito mais necessário realizar do que teorizar.
A idéia extrapola o simples reaproveitamento de computadores velhos.
O necessário é dar um fim social a toda tecnologia «'tacionada» que você possui em sua casa.
Compreender que outras pessoas podem fazer algum uso daquilo.
Uma boa forma de tentar descobrir o que pode 'tar rolando localmente na sua região sobre metareciclagem é acessar os arquivos da lista de discussão nacional sobre o assunto e procurar por o nome do seu 'tado ou da sua cidade.
Vale dar uma olhada e entrar em contato.
Fui atrás de algumas metareciclagens que 'tão ocorrendo ou sendo planejadas em Belo Horizonte.
Descobri programa de rádio, 'paço de reunião e produção cultural (e agora um Ponto de Cultura), um metacafé e uma lista para doação de equipamentos diversos.
Alguns de eles em fase embrionária, e outros já com monitores ligados.
Felipe Fonseca, um dos participantes e organizadores do principal site sobre o tema no país, fala que as dificuldades de colocar em prática os projetos são muitas:
«de uma resistência à maneira aberta e livre que tentamos dar para a apropriação tecnológica, até uma visão míope que tenta entender a metareciclagem como mero projeto de reaproveitamento de computadores velhos (o que é uma visão muito limitada do que a gente tem a propor)».
É natural que 'se tema se misture ao de inclusão digital, embora não 'teja necessariamente limitado por ele.
Uma das principais razões de 'sa distinção é exatamente por onde começa a mobilização.
Enquanto a inclusão digital 'tá mais ligada a políticas governamentais, a metareciclagem já parte do sempre atual «faça você mesmo».
De as Zonas Autônomas Temporárias, às questões da inteligência coletiva, a metafísica das redes Hakim Bey lança para Pierre Lévy que toca e deixa Mcluhan de cara para o gol.
Adicione a 'se debate também o movimento do software livre que parece ganhar força no país.
A equação pode ser interessante.
Computadores reutilizados + software livre + coletivos organizados e movimentos sociais =?
Vamos encontrar a resposta só com o tempo.
Se não a acharmos, poderemos concluir que a crítica de Fonseca faz sentido.
Sem dúvida que vivemos um momento de expectativas em relação à capacidade de mudança (inclusão, transformação, revolução: 'colha o seu termo predileto) social com a possibilidade apresentada por as novas tecnologias.
Inevitáveis futurologias e «apocalipssismos» surgem o tempo todo.
O nosso papel agora é de sentarmos, começarmos a analisar mais friamente o momento que 'tamos vivendo:
experiências como a Wikipédia (e os demais wikis), o Youtube e o próprio Overmundo.
Cabe a nós descobrirmos se realmente vivemos uma fase mais «humana» da relação entre homens e máquinas (uma potencialização de comunhão e aproximação entre os indivíduos com auxílio da tecnologia), ou se tudo não passa mais uma vez de uma grande expectativa que depositamos sobre o tema.
E como falei em budismo acima, tem aquela música do Darma Lovers que cabe bem aqui:
«nos chamam seres humanos, um tipo bem 'tranho de bicho.
Heróis de circo mexicano, animais reprodutores de lixo, nos chamam seres humanos ...
Mas isso nem sempre somos».
Número de frases: 48
Em uma de suas inúmeras visitas a Goiânia para acompanhar os festivais promovidos por a Monstro Discos, o crítico, produtor musical, roqueiro doido e ainda por cima jurado do Ídolos, Carlos Eduardo Miranda apontou, com seu indefectível sotaque gaúcho:
«Mas bah, velhinho ...
as bandas de Goiânia são as maiores do festival!"
Miranda disse isso depois de constatar que, nos shows das principais bandas locais, os teatros de Centro Cultural Martim Cererê ficavam abarrotados, naqueles que invariavelmente eram os shows mais eletrizantes da maratona musical.
Além disso, há tempos uma pergunta botava a cabeça do pessoal da Monstro pra matutar:
Qual a diferença entre BANANADA e GOIÂNIA NOISE Festival?
A resposta é que não tínhamos isso muito claro ...
De aí que, em 'te ano, dentro do conjunto de mudanças que a Monstro pretende implementar em seus festivais, resolvemos buscar uma resposta para 'ta questão.
Para isso, as considerações do Miranda foram fundamentais.
O grande objetivo dos festivais Monstro sempre foi tentar 'tabelecer um diálogo honesto e eqüitativo entre a produção musical goiana e aquela que ocorre entre outros Estados.
Goiás é periferia?
Sim, mas não no rock!
Em o rock, Goiás fala de igual para a igual com qualquer região do Brasil e, muito provavelmente, do mundo.
Chegou então o momento de tentarmos consolidar 'ta situação, que nos é favorável.
E a idéia é que, a partir de agora, o BANANADA seja o festival de priorização desse bicho maluco e irreverente chamado rock goiano.
E isso já será colocado em prática na edição deste ano, que ocorre entre os dias 19 e 21 de maio, no Centro Cultural Martim Cererê.
A idéia de priorizar o rock goiano é uma política que já vinha sendo implementada por a Monstro.
Em a verdade, o que queremos agora é dar uma sistematizada nisso, para que a imagem do rock produzido por aqui acabe se fixando nas cabeças do resto do País.
A coletânea GOIÂNIA Rock CITY foi uma primeira ação em 'te sentido e será o principal lançamento fonográfico do selo durante o Bananada 2006.
O Bananada 2006 será, deste modo, um evento que lança o foco de sua atenção na prata da casa.
Continuamos com dezenas de bandas de outros Estados.
O mesmo número, pra dizer a verdade.
Mas o que interessa pra nós é que, agora, jogaremos os destaques para os artistas locais.
Nada mais natural, então, que bandas daqui sejam headliners das três noites do festival.
O Miranda já tinha sacado isso ...
Então, dá-lhe Violins, MQN, Rollin'Chamas, Valentina, Barfly, Señores, e The Rockfellers para fechar as três noites do festival.
E ainda bandas de uma novíssima e competente geração goiana como Pelúcias, Trissônicos, Lake, Iscariot, RPDC, Bang Bang Babies, Sangue Seco e Johnny Suxx n the Fucking Boys.
Em relação às atrações de fora, a idéia foi a de trazer novidades, muitos de elas que nunca tocaram nos festivais da Monstro.
Afinal, no passado, bandas hoje conhecidas nacionalmente como Cachorro Grande, Bidê ou Balde, Moptop, Hurtmold, Matanza, Canastra, Retrofoguetes, Ludov (ainda quando era Maybees) e tantas outras tiveram nos festivais da Monstro suas primeiras oportunidades para tocar fora de seus quintais e reconhecem publicamente a importância desses shows em sua trajetória musical.
De 'sa forma, entre as atrações não-goianas do Bananada 2006, temos Sangria, Os Boonies, The Feitos e Porcas Borboletas, entre outras.
Ou ainda grupos mais conhecidos como Pelebrói Não Sei, Dead Rocks, Mustang e Bois de Gerião, que 'tarão lançando no festival seus novíssimos discos.
Por tudo isso, o Bananada 2006 chega a sua oitava edição com uma cara nova.
Ou nem tanto, uma vez que 'sa edição apenas reforça a idéia de apresentar ao público bandas novas, diferentes, ousadas e honestas, mapeando o que há de mais interessante no rock independente brasileiro na atualidade, incluindo aí as bandas de 'sa tal Goiânia Rock City.
Programação
Sexta feira 19/05
02:00h -- MQN (GO)
01:30h -- Señores (GO)
01:00h -- Barfly (GO)
00:30h -- Mustang (RJ)
00:00h -- Automata (BA)
23:30h -- Eta Carinae (PE)
23:00h -- WC Masculino (GO)
22:30h -- Uncle Butcher (SP)
22:00h -- Suzana Flag (PA)
21:30h -- Shakemakers (GO)
21:00h -- Mordeorabo (MG)
20:30h -- Satanique Samba Trio (DF)
20:00h -- Pétala Mecânica (GO)
19:30h -- Bang Bang Babies (GO)
18:30h -- abertura dos Portões
Sábado 20/05
02:30h -- Violins (GO)
02:00h -- Nem (GO)
01:30h -- The Rockefellers (GO)
01:00h -- The Dead Rocks (SP)
00:30h -- Netunos (RJ)
00:00h -- Sangria (BA)
23:30h -- Trissônicos (GO)
23:00h -- Lunettes (SP)
22:30h -- Los Porongas (AC)
22:00h -- Lake (GO)
21:30h -- Os Boonies (RN)
21:00h -- Lucy and The Popsonics (DF)
20:30h -- Downers (GO / DF)
20:00h -- Cine Capri (GO)
19:30h -- RPDC (GO)
19:00h -- Iscariot (GO)
18:00h -- abertura dos portões
Domingo -- 21/05
00:30h -- Rollin'Chamas (GO)
00:00h -- Valentina (GO)
23:30h -- Motherfish (GO)
23:00h -- Bois de Gerião (DF)
22:30h -- Pelebroi Não Sei (PR)
22:00h -- Supercordas (RJ)
21:30h -- Seven (GO)
21:00h -- The Feitos (RJ)
20:30h -- Innocent Kids (DF)
20:00h -- Bando do Velho Jack (MS)
19:30h -- Porcas Borboletas (MG)
19:00h -- Johnny Suxxx n ' The Fucking Boys (GO)
18:30h -- Sangue Seco (GO)
18:00h -- Pelúcias (GO)
Número de frases: 83
17:00h -- abertura do portões
Music News -- 5/5/2008 -- Por James Lima
Wilson Simoninha lança em 'ta semana por o selo S de Samba o CD «Melhor» com produção de Max de Castro.
São quase seis anos sem lançar material inédito desde o CD Sambaland Club lançado em 2002.
Como negociador do disco na Distribuidora Brasilmúsica!
tive o privilégio de 'cutar o CD inteiro em meados de outubro de 2007.
O disco é uma viagem muito gostosa de ritmos com um repertório muito bem 'colhido e executado, e de cara a faixa «Melhor», que hoje 'tá com outro nome no disco» É Bom Andar a Pé " (Gabriel Moura/Pedro Moura) me emocionou, e por o jeito acabou emocionando a todos os outros ouvintes da faixa, se transformando no título do novo CD.
Fora a linda homenagem que o artista faz na faixa de sua autoria «26» Dezembro para seus filhos, é de arrepiar!
E muito mais.
O disco conta com a participação de músicos, compositores e cantores como:
Seu Jorge, Jorge Ben Jor, Luiz Vagner, Proveta, Willian Magalhães, Cláudio Zoli e o próprio produtor e irmão Max de Castro.
Mas para respeitar a divulgação e os meus colegas dos outros veículos que só receberam o CD em 'tes últimos dias, não vou fazer uma matéria sobre o disco, e sim sobre o artista e suas influências.
Mostrando ainda sua opinião sobre várias outras questões.
Clique aqui e 'cute com exclusividade (
faixa para divulgação e promoção):
«É Bom Andar a Pé» (Gabriel Moura/Pedro Moura) (Streaming legal -- autorizado por a Gravadora S de Samba)
Entrevista com Wilson Simoninha -- 02/05/2008
Por: James Lima
1-Mn -- Como você se definiria.
Quem é Wilson Simoninha artista, e quem é o Simon (apelido que os amigos o chamam)?
Simoninha -- Vamos começar com a «missa de corpo presente» rsrsrsrs.
Um lutador, pois tudo o que consegui, na vida e na música, sempre foi com muito 'forço.
Sou também muito caseiro, adoro futebol, o Palmeiras, meus amigos, viajar e cada vez mais não me levar tão a sério, sei lá coisas normais.
Ansioso e muito crítico com mim mesmo.
Sempre acho que posso fazer mais em todas as áreas da minha vida.
De certo isso constrói, mas também pode destruir.
Como artista (meu alterego declarado) um músico cantor que até compõe e produz.
E o Simon é tudo que sou quando não 'tou artista.
2-Mn -- Quais foram as bandas e os artistas que te influenciaram e influenciam em sua carreira?
Simoninha -- A lista é grande.
Em o meu primeiro CD o Vol. 2 na contracapa cito alguns.
É difícil falar de poucos, 'cuto música desde muito cedo.
3-Mn -- O que você 'cuta com freqüência, e quais seus CDs de cabeceira?
Você tem algumas dicas de novos trabalhos e talentos para o leitor 'cutar?
Simoninha -- Escuto as novidades, novos trabalhos de gente nova ou não.
Hoje Deixo o Ipod em shuffle e vou descobrindo e relembrando músicas e sensações.
Os CDs de cabeceira dependem do meu 'tado de 'pírito.
às vezes é para a música me levar, uma coisa mais no emocional.
Outras vezes é para 'tudar, mais cerebral.
E pode ser o mesmo CD como, por exemplo, o Whats going do Marvin Gaye, depende mesmo do que eu 'tou procurando e sentindo no dia.
Meu gosto é bem eclético, no Myspace descubro trabalhos maravilhosos.
Têm cantores, músicos, bandas e compositores é fantástico.
Me lembro de uma banda chamada Letieres leite & ORKESTRA RUMPILEZZ.
Tem o China (de recife para mundo) com seus mil projetos.
A Verônica Ferriani que 'se ano deve lançar um disco produzido por o Bid.
Para o bem da música tem muita gente fazendo coisas legais.
4-Mn -- O fato de você ser filho de um grande artista te ajuda, ou a pressão é maior na sua carreira?
Simoninha -- Olha o fato de ser filho do Simonal e com toda história que ele viveu deveria me afastar da música se de fato não fosse tão importante para mim.
Mas é difícil avaliar pois tive e tenho muitas dificuldades mas também sempre recebi muito amor das pessoas.
O que sempre procurei fazer é acreditar no que sinto e no que tenho a dizer.
Fazer música no Brasil é um exercício de persistência.
Quanto a pressão, bem canalizada, faz até bem, da mais força, é um desafio.
Nunca serei o Simonal.
Sou o Simoninha sei que carrego um pedaço do meu pai com mim e tenho um tremendo orgulho disso.
5-Mn -- Hoje você é pai, você 'tava preparado para 'ta mudança radical?
O que isto mudou na sua vida?
Simoninha -- As mudanças são fundamentais.
Eu queria muito viver isso e 'tou aprendendo.
Com certeza mudei e minha vida mudou.
O tempo começa a passar e deixamos coisas incríveis para trás mas ganhamos outras também incríveis.
Estou adorando viver 'se momento.
6-Mn -- Você como pai apóia a volta da «matéria música» nos currículos 'colares?
Você acha que isto pode ajudar de certa forma antecipar a criança ou jovem a desenvolver o talento ou até o gosto por a boa música?
Simoninha -- A música faz parte da vida, aprender a se expressar (desde de cedo) através de ela, não faz de você um musico, mas te torna mais sensível e isso é mais importante.
Acredito que as artes são fundamentais na formação de uma criança.
Boa música é algo muito subjetivo, o mais legal é melhorarmos a formação das nossas crianças para serem advogados, médicos, engenheiros, músicos, atores enfim qualquer profissão.
E com isso buscar uma sociedade mais desenvolvida e justa.
7-Mn -- Você não acha que falta uma política cultural mais focada no artista ao invés da indústria do disco?
E o que você acha que poderia ser feito em 'ta questão?
Simoninha -- Sem dúvida.
Em 2000 eu falava que 'távamos no começo de uma revolução.
E ela continua, veja quanta coisa já mudou.
O artista e uma nova indústria independente hoje são uma realidade.
Acredito que muito ainda vai mudar.
A sociedade 'tá mudando e a música
faz parte de ela.
Estamos presos a certas coisas do passado, mas agora enquanto 'crevo isso algum garoto inventa algo que pode deve ser parte do nosso futuro.
As discussões sobre novas mídias, novas formas de remuneração, internet e etc ...,
são fundamentais.
8-Mn -- O CD físico, você ainda acredita em 'te formato?
Porque?
Simoninha -- Acredito que não.
Ele ainda é um dos padrões, se reinventa (Blue-ray) em capacidade e forma, mas a própria indústria de tecnologia e seus novos e velhos usuários vêm experimentando outras formas com bons resultados.
Convergência de mídias será o futuro?
Se nem o MIT sabe ao certo, não serei eu que saberei.
Quem viver verá.
9-Mn -- Você utiliza ferramentas virtuais para divulgar seus trabalhos?
Quais? E quanto tempo você se dedica em 'ses 'paços por dia?
Simoninha -- Sim.
MySpace, You Tube e por o mundo digital afora.
Bastante. Mas sempre tento tirar algum dia longe do computador.
10-Mn -- Hoje existe uma PEC no Congresso Nacional para tentar a extinção parcial ou total dos impostos na cadeia produtiva de um CD ou DVD musical.
Como existe no mercado livreiro.
Como isto ajudaria o artista, o mercado e o consumidor ao seu modo de ver?
Simoninha -- Vou me repetir, bastante.
O problema não é o imposto é a bi e as vezes até a tri tributação.
É claro que a relação com o preço final melhoraria.
Se hoje vende menos, se investe menos, se produz menos.
Uma política mais sensata pra o setor, acompanhada de uma discussão sobre o que se pode mudar para o futuro que já bate a porta, e que de certo deveria incluir até novas leis e regras, seria muito bom.
Sonho meu ...
Música traz divisas é uma das melhores propagandas para o Brasil, gera empregos.
O grande domínio cultural americano, a partir da metade do século passado no mundo, só foi possível por a grande divulgação de sua música, cinema e etc ...
O nosso governo tem um papel fundamental nisso, para 'sas mudanças.
E não é só subsidiar precisamos nos reinventar.
11-Mn -- Hoje você é sócio de uma gravadora, como 'tá sendo 'ta experiência?
Simoninha -- Prazer e dor.
É difícil, mas vale a pena.
Eu e meus três sócios da SdeSamba, o Dimi, João e Jair mais nossa pequena e talentosa equipe
nos sentimos fazendo parte de 'sas mudanças aprendendo e errando mais indo em frente.
12-Mn -- Em sua opinião, qual o maior problema que os selos têm para lançar e divulgar seus novos produtos?
Simoninha -- São muitos.
Todos 'ses sempre falados.
Mas como não podemos parar, temos que correr para que as novas soluções apareçam.
Existem boas iniciativas por todos os lados.
Precisamos juntar todas 'sas e de fato começar algo novo.
Por exemplo, a internet é uma realidade, mas em termos de recursos gerados (pelo menos por aqui) é pouco.
Como divulgação funciona em determinados nichos em outros não.
É preciso amadurecer as relações entre artistas e empresas.
O subsidio é importante, mas as parcerias podem ir além.
São muitas necessidades e existe a música de consumo rápido, existe quem busca uma carreira a um público que quer consumir música de graça, e outro que a valoriza.
Se cada um continuar a querer simplesmente «defender o seu» a curto prazo pode até funcionar, mas enxergo um futuro sombrio.
13-Mn -- Desde 2002 quando lançou Sambaland Club você não lança um trabalho de inéditas, porque ficou 'te tempo todo sem lançar um CD?
Simoninha -- Em 2002 após o lançamento fiz minha primeira grande turnê internacional, na volta surgiu a idéia de fazer um CD e DVD ao mercado europeu.
Foi o que produzi em 2003 e acabou tendo seu lançamento aqui em 2004.
Em o começo de 2005 'tava começando a produzir um CD de inéditas e surgiu o convite da MTV / Trama para fazer o DVD com as músicas do Ben Jor.
Em o final de 2006 já fora da Trama, tive que 'perar e trabalhar o lançamento do nosso primeiro projeto 100 % S de Samba o CD Simples do Jair Oliveira (por sinal excelente).
Em 2007 lançamos o Nega da Luciana Mello e o DVD Simples.
Além disso, refizemos nosso 'critório de shows, me aperfeiçoei na direção de vários shows, fiz diversas participações em CDs e DVDs, tive dois filhos, não parei.
14-Mn -- Este trabalho do CD «Melhor» é diferente dos trabalhos anteriores?
Quais foram 'tas mudanças?
Simoninha -- Sinceramente não sei se é diferente.
Ele é fruto de 'sa evolução desses oito anos que separam do Vol 2.
Acho que o maior mérito é não ter que me preocupar em provar nada para mim e para o público.
Sei que é um bom trabalho e claro que torço para que as pessoas gostem.
Eu não mudei só me sinto mais maduro.
15-Mn -- Em 'te CD você reúne várias parcerias e participações 'peciais, fale um pouco de 'sas pessoas e como isto de certa forma influenciou o trabalho do CD?
Simoninha -- É natural sempre trabalhei bem em parcerias.
E em 'se CD deixo claro isso, 'sa influência é positiva e o Max com certeza me ajudou a trazer isso de 'sa forma natural.
16-Mn -- Para terminar, quais são os próximos passos na sua carreira?
Simoninha -- Focar o lançamento e levar o show para o maior numero possível de pessoas.
O CD digital e físico já 'tá saindo no Japão.
Também vamos trabalhar para lançá-lo na Europa.
É importante lembrar que é um trabalho independente com todas as dificuldades que isso representa, mas o prazer de realizar e de nossas pequenas vitórias fazem tudo valer a pena.
Número de frases: 143
Joca Vergo dança.
Coreografa. Empolga.
Estimula a que dancem.
Propicia 'paço de aprendizado.
É aplaudido.
Recebe prêmios.
Viaja o mundo.
É ovacionado.
Joca Vergo dança!
Tem em Porto alegre uma companhia de ele.
Eu recordo quando o programei em 1994 ao lado da Favela Divinéia, numa praça, sob uma lona, no chão, no programa Circo Fora do Centro.
O palco fora montado para rock e samba.
Tomado da parafernália tradicional.
Fizemos um improviso em acordo e pusemos o linóleo num tablado ao nível do chão.
A platéia ficaria em pé se 'premendo junto ao tablado para assistir a um solo de Joca.
Nosso primeiro programa de rua com dança.
Quando aparece em cena, poucas luzes, pouco 'curo no palco, Joca em malha colante provoca chistes preconceituosos de algumas crianças e jovens.
Infla o peito.
Assume a postura de que vai dançar.
Cala a platéia.
Faz um solo irretocável e inesquecível de sete minutos.
A platéia aplaude, delira, assovia, pede bis ...
Aprende a ver e gostar de dança.
Todos querem tocar, conversar, querem até autógrafos de Joca.
De as demais vezes que programamos dança no projeto de Descentralização da Cultura já havíamos aprendido:
o palco seria exclusivo para o programa, mais alto do chão para que se vissem também os pés dos bailarinos, linóleo, breu e forração dupla, para amaciar as quedas, os saltos, os passos.
Sempre admirada a programação, sempre aplaudida, sempre requerida, já sem os chistes e apupos preconceituosos dos primeiros programas.
Joca Vergo é um artista popular de cultura.
O sucesso de ele, em Porto Alegre e no mundo, deve-se à qualidade do trabalho e do que 'tuda e cria, mas deve-se também, eu penso, a que 'se homem de 'pírito simples, ousado, desafiador é também um grande amigo da difusão popular das artes.
Em a turnê européia, Joca Vergo integrou o 'petáculo Voalá.
Voalá!,
uma companhia teatral Argentina, apresenta o 'petáculo Kaosmos.
Voalá é radicado na cidade argentina de Santa Fe.
O grupo experimental tem o céu como cenário.
As cenas se desenvolvem com os artistas suspensos por panos e cordas por uma grua hidráulica.
Depois de três meses viajando por a Espanha -- Alicante, Murcia, Santiago de Compostela, Madrid, Valência, Barcelona, Cartagena -- e Portugal -- Porto y Santa Maria da Feira, chegou a Bogotá, na Colômbia, vindo de Tenerife e Ilhas Canárias.
Joca 'tá feliz, diz que foi uma viagem alucinante com uma produção perfeita.
Há aqui um video da última apresentação em Bogotá.
Mais fotos e videos nos endereços a seguir.
A companhia de Dança por ela mesma
Histórico da Joca Vergo Cia. de Dança
O coreógrafo Joca Vergo tem sido premiado em vários Festivais Internacionais de Dança no país e no exterior como Bailarino e coreógrafo:
1º Lugar no Festival Internacional da Amazônia 2000;
1º Lugar Festival da Internacional da Bahia 1998, 2º e 3º Lugar no Festival da Sogipa 1994 e 1º;
2º, 3º Lugares em várias sucessões do Festival do Bento em Dança e Menção Honrosa de 1994 à 1999. Indicado ao Prêmio Quero-Quero, «Melhor Espetáculo» Amplitude por o SATED-RS em 1994 e Melhor Bailarino em 1992.
Trabalhou com grandes diretores de teatro:
Camilo de Lélis;
José Possi Neto; Deolindo Checcucce;
Lia Rogatto;
Elisa Mendes; Dilmar Messias ...
E grandes Coreógrafos:
Alexandre Sidedoff;
Cecy Franck; Ronald Brow;
Eva Schul; Heloisa Perez;
Valério Césio, Andréia Druck.,
Ana Mondini; Lia Robatto ...
A Joca Vergo Cia. de Dança é uma cia.
jovem, mas com muitos artistas talentosos.
O coreógrafo e diretor artístico têm trabalhado com a Cia. há cinco anos.
Inicialmente desenvolvia um trabalho solo, com os seguintes 'petáculos:
Personaria; Sobre o Banco, A Torre a qual ganhou o Prêmio IEACEN -- Instituto de Artes cênicas do Estado do Rio Grande do Sul em 2002.
Com o 'petáculo «Filtro Solar» ganhou 04 Indicações aos Prêmios Açorianos de Dança 2003 na cidade de Porto Alegre:
Melhor Coreógrafo Joca Vergo, Melhor Bailarina Marilice Bastos, Melhor Figurino Duda Cambeses e Melhor Produção Roze Paz.
Foi convidado por o Grupo Caosmos de teatro aéreo da Argentina como convidado 'pecial para participar do 7º Festival de Teatro Callejero de Bogotá -- Colômbia.
E uma turnê por várias cidades da Colômbia.
Em 2005 ganhou 04 Indicações ao Prêmio Açoriano de Dança com o 'petáculo «Fragmentos Personários», Melhor Concepção Cênica Joca Vergo, Melhor Bailarina Marilice Bastos, Melhor Trilha Original Maninha Pedroso, Melhor Figurino Joca Vergo.
Em dezembro de 2005 realizou a pré-'tréia do Espetáculo «A Torre» -- Prêmio IEACEN de Dança.
A Cia foi convidada para o III Festival de Dança de Obera na Argentina em 2004.
Convidada para abertura do III e IV Festival de Dança de Bagé.
Apresentação no Fórum Social Mundial de 2005.
Única Cia de Dança selecionada para o Festival Palco Giratório Sesc-RS 2006.
Prêmio de Intercâmbio do Ministério da Cultura Governo Federal.
Convidada para encerrar a VI Semana Internacional de Cultura em Facatativa,
Bogotá -- Colômbia 2006
Convidado para encerrar o VIII Festival de Teatro Callejero de Mesitas Del Colegio
Bogotá -- Colômbia 2006.
08 Indicações ao Prêmio Quero-Quero Alergs / Satedrs 2006 com as seguintes indicações:
«Melhores Espetáculos Fragmentos Personários e A Torre», Melhor Coreógrafo-Joca Vergo;
Melhor Bailarino Joca Vergo;
Melhor Trilha Original Maninha Pedroso;
Melhor Produção Joca Vergo;
Melhor Cenografia Pablo Cuello; Melhor Bailarina Marilice Bastos.
Recebeu o prêmio Prêmio Quero Quero Alergs / Satedrs 2006 com o 'petáculo "
Uma festa pra encher os olhos.
Essa era a primeira sensação de quem entrava no Cuiabá Skate Park, para o lançamento do coletivo virtual Overmundo, no dia 10 de março.
O ambiente 'tava totalmente decorado com figurinos antigos do bando Caximir, máscaras, 'culturas feitas de lixo da artista multimídia Anna Marimon, jornais pichados cobrindo as paredes, arte-instala ção, iluminação adequada.
O ambiente 'tava preparado para a festa.
Logo na entrada já havia sinais de que aquela seria uma noite diferente.
E foi ...
A mostra audivisual ficou um pouco prejudicada por a velha questão do som.
O ambiente muito grande 'palhou o som, não houve uma adequação acústica (falha nossa, da organização) em que pese a qualidade extraordinária do equipamento patrocinado por a Secretaria de Cultura de Cuiabá, o mesmo em que as bandas tocariam mais tarde.
Mesmo ligado ali, o som dos filmes deixou a desejar.
Mas a galera não se importou muito pois o clima 'tava muito bacana.
Logo depois entrou o grupo de Teatro Fúria com um fragmento da peça " Toma lá, dá cá!"
que fez a galera ficar totalmente concentrada na apresentação.
Se apresentaram, muito apropriadamente, na piscina (pista 'tilo banks), transformando-a numa 'pécie de arena com a galera em volta.
Comovente o que apresentaram, amor e ódio sem palavras, as contradições pautando a relação entre dois seres humanos, um deficiente físico e o companheiro que o acompanha.
O público sentiu o impacto, aprovou plenamente.
A casa a 'ta altura 'tava super lotada.
Gente de todo jeito, roqueiros, jovens, outros nem tanto, jornalistas, artistas, a diversidade cultural muito bem representada por o público presente.
Overmundo no ar.
Todos querendo saber do coletivo virtual.
Cuiabá presente no Overmundo, a turma entendeu o recado, já 'tão participando ativamente.
Os shows se sucederam com intensa vibração das pessoas.
O bando Caximir abrindo a noite em grande estilo fazendo o lançamento de seu segundo CD com performances, poemas e muita música.
Magnetismo, provocações, arte total no ambiente que vibrava a cada novo lance do grupo que tem mais de vinte anos de 'trada.
Depois tocaram sucessivamente:
Lord Crossroad, uma das grandes revelações do rock matogrossense na atualidade;
Fuzzly que acabava de chegar de uma turnê por Buenos Aires na Argentina, São Paulo (tocaram no Outs), Florianópolis e Campo Grande (MS) mostrando que stoner-rock se faz muito bem por aqui;
o CD dos caras, «Middle of nothing», mereceu cinco 'trelas na avaliação da revista 'pecializada em rock, Dynamite.
Em a sequência, Strauss, outra banda veterana em Cuiabá, com seu velho e bom rock ' n roll.
Depois a banda crossover Zagaia do super guitarrista Drailler de Souza, figura lendária da hell city, também detonando seus riffs de alto teor etílico.
Fechando a noite Chilli Mostarda, banda do ex Donalua, Fabrício Chabô, outra figuraça que vem somando para o crescimento de uma cena alternativa bastante diversificada e criativa em Cuiabá.
Madrugada, Overmundo na cabeça, galera saindo de ali com algo mais na efervescente cena cultural múltipla brasileira.
O país da diversidade.
Número de frases: 32
Ela é francesa.
Ele é inglês.
Ela é loira, com o cabelo nos ombros, olhos azuis e o inconfundível charme francês.
Ele é alto, um tanto quanto desengonçado, cabelo médio e levemente bagunçado.
Ela usa vestidos, seja no inverno ou no verão.
Ele não foge do básico:
sapato, calça jeans, camiseta com 'tampa legal e casaco de terno com risca de giz.
Ela gosta do Godard.
Ele gosta dos Kinks.
Ela mora em Nova York.
Ele mora em Londres.
Ela vai para Londres.
Ele vai encontrá-la por acaso.
Sim, eles vão ter um affair!
Era uma típica tarde Londrina, Mark deixava a Marc & Spencer (famosa cadeia de lojas de roupas) rumo a parada de ônibus.
Seu humor não era dos melhores.
Havia dois anos que ele trabalhava no mesmo lugar, e seus colegas de trabalho continuavam a importuná-lo com trocadilhos referentes ao seu nome e o da loja.
Para piorar a situação, era inverno.
Seus dedos 'tavam congelando, e apesar de serem cinco da tarde, a noite já se fazia presente.
Flocos de neve começaram a cair junto com o cortante vento que gelava a todos na rua.
O ônibus 149 demorava a chegar, e Mark 'cutava em seu I-Pod o BBC Sessions dos Kinks.
Enquanto seus ouvidos eram entretidos por Ray Davies e companhia, seus olhos não se desgrudavam de uma bela moça que tentava atravessar a tumultuada Essex Road, carregando sacolas de compras das mais diversas butiques inglesas.
Atraído por aquela figura angelical que aparecera em seu caminho, Mark não pensou duas vezes ao oferecer ajuda para a linda mulher.
-- Olá!
Parece que você não comprou o suficiente hoje ...
-- O que???
-- Hum ...
perdão, 'tava só sendo irônico.
Em a verdade eu ia te oferecer ajuda com todas 'sas sacolas. (
Pelo visto ela não gosta de ironias, mau começo).
-- Ok!
Sabia do popular senso de humor britânico, só não imaginava que seria vítima de ele logo no meu primeiro dia aqui.
Vou aceitar a sua ajuda, se pudermos ir até a próxima quadra, 'tou no Hilton aqui de Angel.
-- Claro!
Será um prazer te acompanhar.
A propósito, meu nome é Mark.
-- Sophie!
-- Prazer!
-- Prazer!
Eles chegaram ao Hilton.
Ela subiu com as compras.
Ele ficou na recepção.
Ela demorou alguns minutos.
Ele viu algumas mulheres nuas no The Sun e leu as notícias 'portivas do The Guardian.
Ela desceu.
Ele ainda 'tava lá.
Ela o convidou para tomar um café no bar do hotel.
Ele aceitou imediatamente.
Uma das primeiras coisas que Mark percebeu foi o sotaque peculiar de Sophie.
E a pergunta foi inevitável:
-- Você não é daqui, certo?
-- Não ...
moro em Nova York, mas nasci na França.
(França ...
uma francesa!?
10 milhões de pessoas circulando por Londres e eu encontro logo uma ...
uma francesa!!
Meus antepassados certamente não aprovariam).
Mas era tarde demais.
O charme e exuberância de Sophie impediam qualquer tentativa que Mark pudesse ter de querer odiá-la.
Trocaram mais algumas palavras, onde ele contou sobre a sua rotina diária de trabalho e ela falou da 'tressante vida de uma artista plástica que 'tá passando alguns dias na Europa na 'perança de relaxar um pouco.
Ele aproveitou a deixa, e pediu se ela gostaria de ir com ele a algum pub ou boate.
Ela já conhecia Londres de uma outra viagem, roteiros turísticos não se faziam necessários em 'se caso.
O inglês então propôs:
-- Eu gostaria de te levar para um dos meus lugares preferidos, o 100 Club, ali no centro de Oxford.
-- Hum ...
mas o que tem lá?
-- Um grupo novo vai tocar.
Chamam-se Pipettes.
-- E o que eles tocam?
-- Ah ...
na verdade são elas.
Três meninas com vestidinhos de bolinha que emulam girl groups dos anos 60, aquela coisa meio Motown, acho que você vai gostar!
-- Confesso que é um programa nada usual para mim.
-- E se 'tivéssemos em Paris, para onde você me levaria?
-- Ah, para uma corrida no Louvre, como no Bande a Part do Godard!!
Sophie não sabia o que era Motown.
Mark não tinha idéia de que filme e diretor a francesa 'tava falando.
Os dois pegaram um metrô até Oxford Street e rumaram para o número 100.
Compraram os ingressos (como um bom cavalheiro, ele pagou), desceram as 'cadas, assistiram ao show, subiram as 'cadas e voltaram para a 'tação de metrô.
-- Bom, acho que nos despedimos por aqui.
Quero acordar cedo amanhã para aproveitar meu último dia em Londres.
à noite pego meu vôo de volta para os Estados Unidos.
-- Bem, acho que isto é um adeus.
-- Você quer que seja?
-- Hum ...
não sei, você quer?
-- Acho que não.
-- Concordo com você.
Era quase meia-noite, por sorte conseguiram pegar o último metrô para Angel.
Foram para o Hilton e subiram para o quarto de Sophie, onde tomaram champagne francês, se embebedaram como ingleses, e passaram uma noite inesquecível juntos.
Acordaram por volta das duas da tarde no outro dia.
A o sair do hotel, pararam no primeiro restaurante que encontraram e pediram por um Fish & Chips.
Enquanto as mãos engorduradas pegavam as batatas, Mark disse para Sophie que havia um último lugar em que ele gostaria de levá-la.
Pegaram um ônibus e foram para Waterloo.
-- Sei que não vai fazer muito sentido para você, mas eu precisava ver o pôr do sol aqui em Waterloo.
-- Realmente não faz muito sentido.
Mas eu já desisti de tentar te entender ...
agora eu apenas 'tou tentando passar 'ses últimos momentos ao seu lado da melhor maneira possível. (
risos) -- E 'tá conseguindo?
-- Pode apostar que sim.
Com um último beijo, selaram o derradeiro encontro, enquanto o sol ia se pondo vagarosamente ao fundo.
Em dois dias, finalmente o caminho dos dois toma um rumo diferente.
Mark pega um ônibus de volta para casa, mas durante o trajeto recebe uma mensagem no celular:
«Oi amor ...
a mamãe já 'tá melhor, 'tou voltando para Londres amanhã.
Me 'pere com a janta feita.
Te amo».
Sophie pega um metrô e volta para o hotel.
Chegando no hall de entrada, pede para o recepcionista se há algum recado para ela.
O funcionário entrega um bilhete para a francesa com os seguintes dizeres:
«Onde anda a minha 'posa linda que não dá notícias?
Te pego amanhã no aeroporto, um beijo.
Te amo!».
Número de frases: 114
Mark e Sophie 'tavam cada um de um lado da cidade, mas o pensamento de eles era o mesmo -- " Quando será o meu próximo affair?"
Encontrei com o Pio Lobato pela primeira vez nas filmagens do projeto Música do Brasil em Belém do Pará.
Não me lembro ao certo como foi a apresentação:
acho que ele descobriu que nós 'távamos na cidade e apareceu no hotel dizendo que fazia faculdade de música e queria 'crever sua monografia sobre as guitarradas.
Fiquei logo interessado no trabalho pois não é todo dia que gente com formação musical acadêmica se interessa por tradições populares discriminadas como bregas.
O mais interessante era que Pio tinha 'cutado os discos e 'tudado o 'tilo instrumental da guitarrada, mas -- apesar de morar em Belém -- nunca tinha tido a oportunidade de conhecer pessoalmente os mestres inventores de 'sa música, como Vieira e Aldo Sena.
Convidei-o imediatamente para acompanhar nossas andanças paraenses, o que foi providencial e até membros sua banda, a potente e bem inteligente Cravo Carbono, acabaram acompanhando o Vieira na filmagem -- o mestre apareceu na locação sem seus músicos.
O Vladimir Cunha, overmano paraense que na época tocava na Mangabezo, presenciou tudo e até participou de uma improvisação guitarrada / psychobilly com Vieira fazendo seu número completo, isto é, tocando guitarra nas costas ou com copos.
Tenho o maior orgulho de ter contribuído para 'se encontro.
Pio passou a ter contato freqüente com o Vieira, e isso foi fundamental para a formação da banda Mestres da Guitarrada, que reapresentou 'sa surf music amazônica para as novas gerações brasileiras.
Antes do lançamento do CD dos Mestres -- repito:
é a melhor capa de CDs de todos os tempos -- só era possível 'cutar guitarrada garimpando sebos de discos à procura de LPs lançados no início dos anos 80.
Eu entesouro alguns exemplares.
Por exemplo, Lambada e Quebradas, lançado em 1982 por Lima -- O Guitarreiro do Amazonas, que na verdade é pseudônimo do paraense Vieira (vai entender! ...).
Esse disco contém uma versão guitarrada supimpa para Bat Masterson, trilha de seriado de TV muito popular na minha infância.
Outra obra notável da minha discoteca:
Guitarradas Lambadas Ritmo Alucinante, assinado por Carlos Marajó (será outro pseudônimo?
nunca consegui descobrir quem é ...),
que tem entre suas faixas o Boleraço, a Melô do Aço e a Lambada Pauleira!
Sempre achei que a trilha sonora mais característica da Amazônia, cada vez mais minha região favorita do Brasil, é um barquinho passando ao longe com o barulho pó-pó de seu motor desengonçado, tocando uma guitarrada no radinho de pilha.
É talvez o 'tilo de música para guitarras elétricas mais original que apareceu no Brasil, ou tão original quanto a sonoridade da guitarra baiana.
Tanto na Bahia quanto no Pará, na base da originalidade 'tá a releitura local de vários 'tilos cultivados por grupos de choro, isso misturado com pré e pós Jovem Guarda (no caso da Bahia também com frevo pernambucano) e com um gosto por ritmos calientes vindos do Caribe, que geraram muitas modas no Brasil desde o início do Século XX.
Pio Lobato, naquele encontro do Música do Brasil, me passou timidamente uma fita cassete com as experiências que já fazia a partir da guitarrada.
Quando 'cutei, fiquei maluco.
Mesmo antes de colocar a mão nos softwares de produção musical, Pio já reprocessava as linhas melódicas com loops, ecos e outros efeitos psicodélicos.
Achei que ali 'tava o Robert Fripp brasileiro, com suas frippertrônicas regadas à tucupi.
Algumas faixas daquela fita cassete já se tornaram clássicos do lado mais bacana do underground nacional, como o Recado Para Lúcio Maia, ou a Psicocúmbia que coloquei até na trilha do Deus é Brasileiro, filme de Cacá Diegues.
Mas não é que o Pio não pára de me surpreender?
Semana passada chegou às minhas mãos seu novo CD, adequadamente intitulado Tecnoguitarradas.
Já tinha 'cutado o Cyber do Pio aqui no Overmundo, mas não 'tava exatamente preparado para o trabalho completo, que já é um dos meus discos favoritos de 2007 (que pode ser comprado entrando em contato com a loja do Ná Figueiredo, ponto central para a inovação na cultura urbana de Belém).
Pio criou um novo gênero, mixando a guitarrada com o tecnobrega.
Quem primeiro me falou do tecnobrega foi o Vladimir Cunha.
Com ele e com o Pio fomos a várias festas de aparelhagem, e conheci os 'túdios do Beto Metralha (produtor pioneiro do tecnobrega) e do DJ Iran (inventor do cybertecnobrega).
Pio começou a trabalhar com 'ses produtores pós-periféricos e o resultado é perfeito, unindo dois pólos -- temporais e 'tilísticos -- da evolução do pop paraense, o elétrico junto com o eletrônico.
Em Tecnoguitarradas, aquela batida e os tecladinhos deliciosamente «infantis» do tecnobrega (tipo De a da De a do Trio, 'sas coisas que eu chamei, num de meus raros momentos criativos, de " kraftwerk de palafitas ") formam a base para melodias lindas das guitarradas.
O simples, exercitado por Pio nas excursões acompanhado os Mestres da Guitarrada, repetido inúmeras vezes, cria complexidades boas para fazer o povo «quebrar» em qualquer pista de dança.
E o fato das faixas aparecerem coladas uma nas outras transforma o CD em mixtape ideal para animar festas de qualquer tipo de aparelhagem.
Os ritmos variam alegremente de música para música, indo até um drum ' n ' bass final, mostrando como o tecnobrega absorve / absorverá influências de todos os cantos, do reggaeton-bachata à champeta-trance (isso -- não resisto em deixar o link -- sem falar na Calle 13 ...),
criando um território realmente e ciberlivremente pan-americano ou global.
Tomara que 'se disco caia no gosto popular, fora do mundo da «qualidade».
Vale a pena o 'forço de tentar colocar 'sas músicas no rádio AM de toda a Amazônia.
Estou ansioso para voltar por lá e ouvir uma tecnoguitarrada bombando no tocador de MP3 dos caboclos nos seus barquinhos, por todos aqueles rios e florestas e cidades e festejos.
Número de frases: 42
Por " Diógenes de Souza e Monique Sá
«Eu 'tava chupando cana quando alguém me disse que ele havia chegado na cidade.
A minha curiosidade me levou a enfrentar o medo e fui ao seu encontro.
Perguntei quem era o'coronel ', ele então se apresentou.
Ouvia falar que era valente e quis conhecê-lo.
Era Virgulino Ferreira, Lampião.
Me cumprimentou, pegando na minha mão de menino, tinha uns oito anos.
Ele e seu bando 'tavam em Dores (município sergipano), minha cidade natal.
Quando se revelou para mim, pediu que eu levasse seus homens ao quartel da cidade».
Essa é apenas uma das histórias que João Batista de Oliveira, 95, contou naquela manhã de terça-feira, no Asilo Rio Branco, em Aracaju, onde vive há sete anos.
Conhecido por a sobriedade e por o 'tado de saúde, que o destaca em relação aos demais internos, João não se privou de nos contar suas fábulas.
«Por a história de vida, Seu João acaba se tornando uma ' celebridade '.
Muita gente vem aqui entrevistá-lo.
Para isso, a gente sempre pode contar com ele.
Afinal, é receptivo, tranqüilo e faz amigos rapidamente.
Se ele lhes contar tudo, vocês ficarão aqui por um mês, apenas ouvindo suas histórias», tratou de apresentá-lo a assistente social do Rio Branco, Amanda de Carvalho.
Conversamos no quarto de ele, o primeiro à esquerda assim que saímos da recepção do asilo, seguindo a mesma direção.
O lugar é bem arejado, iluminado, fresco e confortável.
Os móveis são poucos (uma cama de ferro, uma cadeira de balanço, um guarda-roupas, uma cômoda, TV e rádio gravador), mas os objetos e as fotos que decoravam o local reforçavam tudo o que ele dizia.
O piso do chão lembra um tabuleiro de xadrez;
uma das portas do quarto leva à varanda, onde 'tava quando chegamos.
Sentou-se numa cadeira de balanço à nossa frente, com a dificuldade que a idade lhe impõe.
Os olhos claros, mareados a todo tempo -- talvez por causa da ausência dos cílios -- pareciam sucumbir ao peso das pálpebras e, juntamente com a pele branca, não negavam a descendência européia, «da ' raça ' holandesa».
A voz desgastada chega a soar incompreensível, dificultando o nosso entendimento.
Nascido em Nossa Senhora das Dores, município sergipano, em 23 de junho de 1913, João é o caçula de 10 filhos (oito homens e duas mulheres) e o único que ainda 'tá vivo.
Casou-se e logo foi morar no Rio de Janeiro, a convite do cunhado.
«Toda a vida o Rio foi violento.
Não havia um dia em que não visse gente morta».
Lá, ele trabalhou como barbeiro e, mesmo sendo analfabeto funcional, foi a profissão que lhe proporcionou 'tabilidade e os dois salários mínimos de sua aposentadoria, pagos ao asilo mensalmente.
Ele chegou ao Rio Branco em 2001.
Seguindo o exemplo de seu pai, que também morou na instituição, João parece se importar pouco com sua expectativa de vida, mas 'tá longe de ser uma pessoa desiludida.
Para ele, não importa viver como seu falecido pai, 100 anos.
«Depende da vontade de Deus».
Mesmo sendo fruto de uma grande família, João foi patriarca de uma menor.
Casou-se em 1933 com a mulher que ele considera sua eterna companheira.
Ao todo, foram 45 anos juntos, relacionamento do qual nasceram as filhas Cilene e Marlene, que não obedeceram à ordem natural dos fatos e foram «embora» deixando o pai.
Atualmente, ele diz viver sob expectativa das visitas que seus dois netos e sua neta (que atualmente mora na Inglaterra) fazem.
A alegria que consta nas fotos da família, não só no mural de cortiça aos pés da cama, mas em dois porta-retratos sobre a cômoda, não faz parte do rosto de Seu João.
Talvez por a idade, ou mesmo por alguma tristeza retida.
Mas 'te é um enigma que não conseguimos desvendar.
Perguntamos se ele se sentia sozinho, ou até abandonado.
Ele nega categoricamente e acha que é melhor que fique ali, pois não quer atrapalhar seus entes.
«Estrela» do Rio Branco, Seu João é constantemente 'colhido para dar entrevistas e receber visitas.
Por sua lucidez e simpatia, acaba por cativar os repórteres a ponto de eles sempre voltarem quando precisam de uma fonte.
«A Globo me incomoda, vem aqui direto para conversar com mim.
Ele se orgulha por tal proeminência e nos mostra, inclusive, algumas folhas de jornal em que constam matérias com suas fotos ou declarações.
Mal sabe ele que, numa de elas, a manchete fala de maus tratos contra idosos.
Enquanto conversávamos, Seu João teve que ceder a mais uma entrevista.
A pauta tratava de um projeto da Faculdade Pio Décimo, também em Aracaju, que realiza ações 'timulando o convívio e atividades entre idosos e cachorros adestrados.
Dois de eles, Íris e Tom (um labrador e um dálmata), 'tavam lá durante a gravação e foram elogiados:
«São da melhor qualidade.
Eles não fedem».
A jornalista, bem simpática e bonita, pareceu intimidar Seu João, pois as respostas das primeiras perguntas eram curtas.
No entanto, com o decorrer da matéria, passou a dar boas declarações.
«Ele é uma figura», disse um dos adestradores dos animais.
Alguns minutos depois, a equipe se despede.
«Quando precisarem, 'tou aqui.
Tenho 95 anos e o juízo perfeito, não sou como os outros não.
Coitados ...». Nossa conversa continua e voltam às lembranças dos tempos da infância breve e pobre, quando tomava banho de rio nu, junto com amigos, «sem nenhuma maldade».
Os relatos, com detalhes, tratam também de «assombrações» e figuras folclóricas como o «fogo corredor».
O dia-a-dia de 'sa «celebridade» nada se assemelha ao das demais.
A conversa com os outros internos e os passeios por a cidade, promovidos por o asilo, tratam de quebrar a rotina.
As excursões já passaram por o zoológico, bairros aracajuanos e por igrejas.
O Rio Branco, nas palavras de ele, destoa da imagem que as pessoas geralmente têm de 'sas instituições.
Não existe qualquer detalhe que demonstre a falta de cuidado com os idosos e nem quartos sujos, por exemplo.
O lugar que muitos acham que representa o desprezo à velhice demonstra o respeito, o cuidado e a dignidade que se necessita em idade mais avançada.
A «prosa» foi boa, a conversa foi extensa, os assuntos se 'tenderam.
Mas às 11h, o sino do asilo toca, indicando a hora do almoço, e também a nossa partida.
Deixamos Seu João após uma longa sessão de fotos.
Com um sorriso, ele nos pergunta se somos noivos:
«apenas amigos».
Completou com um convite:
«voltem mais vezes, venham com mais tempo».
Número de frases: 73
Com certeza ainda havia muitas histórias a contar.
De o dicionário:
Fúria s.
f.: acesso violento de loucura;
braveza, cólera;
ira; sanha;
raiva; inspiração;
'tro; entusiasmo;
fervor; pessoa furiosa;
mulher desgrenhada;
divindades infernais, na mitologia pagã.
Em Aracaju -- pelo menos no meio artístico, cultural -- há mais um sentido para 'sa palavra.
Furia é uma pessoa, um cara.
Melhor. Um artista plástico, autor de colagens incríveis, de clara inspiração quadrinística.
Um pensador marginal, um intelectual (por que não?),
que apesar da pouca 'colaridade, já leu bem mais que muitos professores universitários.
Aventureiro da música e da literatura.
Alguém cujos «acessos violentos de loucura» se transformam em «inspiração» para produzir arte;
que consome e produz cultura com «fervor» e «entusiasmo».
Alguém, enfim, comum.
Mas cuja «cólera»,» ira», «raiva» da mediocridade e do senso-comum o movimentam para fazer a diferença.
Ainda que ninguém veja.
De fato, a alcunha lhe cai muito bem.
A seguir, conheça O Fúria.
Quem é você?
Sou João Antônio do Nascimento nascido em 15 de junho de 1974.
Gosto de bons livros e boa música.
Sem radicalismos.
Gosto de cinema.
Uns dizem que sou extremamente chato.
Sou artista plástico.
Espanco bateria de vez em quando.
Não tenho nenhuma pretensão de ser músico.
Sou extremamente inconstante.
Por que Fúria?
Em o fim do anos 80 tinha uma banda de funk do Rio de Janeiro chamada Fúria.
Esse grupo tinha uma música que emplacou sucesso nacional.
Em a época, meu visual era completamente punk.
E um dos moleques da minha sala botou na cabeça que punk e funk eram a mesma coisa.
Então tentei explicar que não era.
Enfim terminou numa briga de sete pessoas na sala de aula.
Em o outro dia o colégio inteiro 'tava me chamando de Fúria.
Sem querer proclamei 'ta alcunha que hoje prefiro invés do meu nome.
O que te deixa furioso?
A raça humana e sua tão pretensa inteligência.
Tanta racionalidade e um futuro de caos é o presente para as novas gerações.
O que você faz e já fez da vida?
Trabalho numa livraria e num bar ao mesmo tempo.
Em o turno da tarde trabalho na livraria.
Em o turno da noite trabalho no bar fazendo de tudo.
Desde os drinks até servir.
Já trabalhei em vários lances.
Já fui mestre de cerimônia em festival de rock, servente de pedreiro, entregador de jornal, atendente de loja de música, roadie de banda.
E trabalhei muito de graça em produções locais.
Já viajei a metade do país de carona.
Enfim nada demais.
Me fale sobre suas colagens.
Meu trabalho consiste no remanejamento de lixo publicitário, revista, chapas de radiografia, cola e o que pintar na cabeça.
Dei início ao processo criativo nos meados de 1987.
Foi em 'sa fase que 'tava mergulhado na produção de fanzines, art pop, vídeo clipes, quadrinhos etc e tal.
Meu processo criativo é muito inconstante.
São surtos!
Pra mim é um ato quase fisiológico, necessário.
Pode ser uma imagem que vejo na rua, uma frase que ouço dentro do ônibus e desperta um turbilhão.
Então ponho discos na vitrola e deixo me levar por a força da criação.
Minha inspiração vem de tudo que tá ao meu redor.
Expus em 2000 na Galeria J. Inácio uma individual com 46 obras, o detalhe é que foi minha primeira exposição oficial, em 1997 expus na galeria da biblioteca de Universidade Federal de Sergipe;
ainda em 2000 participei de uma coletiva na Galeria Álvaro Santos, em 2003 expus na Casa laranja, e por último fiz um curso de xilogravura com o professor Elias Santos que resultou numa coletiva na Sociedade Semear.
Depois não fiz mais nada.
Ando meio morto.
Por quê?
Não tenho mais 'paço para armazenar;
a política sergipana não tem um direcionamento responsável e expor do próprio bolso é oneroso demais;
e não tenho mais tanto tempo como outrora.
Além das colagens, que outras atividades artísticas desenvolve ou já se arriscou?
Já cantei em banda de trash metal, toquei percussão num projeto maluco que nunca rola ensaio.
E fiz tanta jam session que perdi as contas.
Fui um dos fundadores de uma das bandas mais porrada da história do underground sergipano:
Camboja. Fiz participação na ExTxC ...
uma das coisas mais bizarras daqui de a cidade.
Atualmente a única atividade que me consome por completo é o trabalho.
Tem meses que não crio nada.
Também faço desenhos horríveis, nem penso em expor.
Só.
Você já leu muito e de tudo.
De onde veio a paixão por a leitura?
Veio dos quadrinhos.
De Turma da Mônica a Moebius.
Todos eles me transportaram para o universo fantástico da leitura.
Muita coisa.
Virginia Woolf, James Joyce, Richard Farina, John Fante, Fernando Pessoa, Paul Auster, Balzac, são tantos que passaria dias enumerando.
O que você tem orgulho de ter lido?
Com o que mais se identificou?
Me identifiquei com um autor alemão:
Anton Enrhezweig -- A Ordem Oculta da Arte ou Psicologia da Imaginação Artística, é um livro que trata da vida e independência da obra de arte.
Recomendo.
O que detestou?
Detesto best-seller.
Procuro me afastar do que não presta.
É tanta coisa boa e obrigatória pra ser lida que não dá pra perder tempo com o monte de lixo exposto na praça.
Qual seu grau de 'colaridade?
Fundamental.
Sou o semi-analfabeto ousado.
Não me incomodo com tal fato.
Tudo que aprendi foi de maneira lenta e deliciosa.
Pensa em cursar a universidade?
Não penso em cursar nenhuma 'cola superior.
Por quê?
Não tenho paciência para uma metodologia que mais parece uma colcha de retalhos.
Uma imensa fábrica de sofistas.
E nunca foi uma coisa que passasse por a minha cabeça.
O que tem feito ultimamente?
A 'crita tem sido uma fuga mais corriqueira, mas a imagem sempre 'tá atrelada ao meu ato criativo mesmo 'crevendo;
poderia classificá-la como prosa poética.
Como você se definiria?
Depressivamente eufórico.
Devorador voraz de cultura e contra-cultura.
Autodidata. Sincero.
Anti-reprodu ção.
Desleixado. Mas sou responsável quando me envolvo em qualquer trabalho.
«Anti-reprodu ção» não é uma contradição pra quem trabalha com colagens?
Número de frases: 121
Contradição é sinônimo de inteligência.
O episódio da interrupção das vendas do livro «Roberto Carlos em detalhes» (Paulo César Araújo -- Editora Planeta), biografia não autorizada do cantor e compositor, tem gerado polêmicas, debates e comentários comparativos entre biografias autorizadas ou não.
É comum a idéia de que as primeiras têm mais valor, por o aval e acompanhamento que recebem do biografado, afinal, ninguém melhor do que você mesmo para saber detalhes de sua vida e contar a sua história.
Analisando melhor, percebe-se que trazem, também, o vício dos autores só narrarem aspectos positivos do biografado, ao contrário das não autorizadas.
Em depoimento ao programa Fantástico, da Rede Globo, Roberto Carlos revelou que questiona, a princípio, o porquê de uma biografia não autorizada, quando ele 'tá vivo e poderia tê-la autorizado.
Ele mesmo deu a resposta, logo em seguida, quando, ao ser questionado se autorizaria a biografia, caso tivesse sido consultado, disse que não.
Em a mesma entrevista, afirmou que não sabe ainda o que vai fazer para se livrar do livro, mas que nunca disse que iria queimá-los (que bom, não pretende queimar sua biografia).
Em sua já prometida versão autorizada, certamente, não vai constar 'se episódio.
Ele não costuma se expor e é discreto, na medida do possível, sendo o direito à privacidade um dos argumentos que usou em sua defesa:
«Há limite entre o que é de interesse público e o que é invasão de privacidade», afirmou.
Em se tratando de pessoas públicas, porém, tal limite é sutil.
É fato que pouco vemos notícias pessoais de ele na mídia, mas mesmo isso pode ser visto como controverso, pois, se por um lado sua segunda 'posa, a atriz Myrian Rios, quase largou a carreira quando se casou com ele, por outro, sua relação com a última, Maria Rita, foi bastante explorada por a mídia, talvez à sua revelia, talvez por ele não se encontrar mais no auge da carreira ...
Outro argumento que utiliza a seu favor é que houve uma conciliação, antes mesmo de uma decisão judicial, entre ele e a Editora Planeta.
Em 'se acordo, ficou decidido que a editora não mais publicaria a obra e recolheria os exemplares que já se encontrassem nas livrarias, entregando-os ao cantor que, por sua vez, abriria mão de possíveis indenizações.
A versão do autor do livro para 'se acordo é que não havia outra saída, numa briga entre forças desproporcionais, uma vez que sobre todas as leis ainda prevalece, em geral, a lei do mais forte (e acima de 'ta, a Lady Laura).
Os advogados da editora acharam bastante provável a hipótese de perda da ação, a qual implicaria em indenizações de alto valor.
Em um último recurso, Paulo César Araújo propôs abrir mão de direitos autorais sobre a obra, para descartar possíveis acusações de interesses financeiros.
Dançando conforme a música e mostrando não ter o rei na barriga (na mão, talvez), propôs, ainda, que Roberto Carlos 'pecificasse que partes do texto do livro não aprovara, para que fossem retiradas ou modificadas, mas o cantor não aceitou, alegando que, isso sim, caracterizaria censura.
Em a década de 80, por suas posições religiosas, Roberto apoiou a censura ao filme «Je vous» (de Jean-Luc Godard), condenado por a igreja católica, cuja exibição foi proibida em vários países do mundo, inclusive no Brasil, no governo José Sarney.
Tal censura gerou, à época, uma grande e polêmica discussão, que só aumentou o interesse por o filme, fato que se repete agora, com o livro, que pode ser encontrado facilmente na internet, para download.
Ele é conservador, não se pode negar.
Seus discos dos anos 70 são uma receita precisa e imutável de canções religiosas, românticas, composições de Isolda e Milton Carlos, Maurício Duboc e Carlos Colla, além das habituais parcerias com Erasmo Carlos.
Bons tempos em que se 'perava o lançamento do LP do «rei» ao final de cada ano, ocasião em que algumas rádios tocavam todas as suas faixas, em seqüência e em primeira mão, numa época em que a pirataria era limitada a fitas cassetes.
Difícil mudar, porém, num período em que surgiram seus melhores trabalhos, num 'tilo pós-jovem guarda iniciado no final da década anterior, com pérolas como «As canções que você fez pra mim», As curvas da 'trada de Santos» e «Sua 'tupidez».
Suas preocupações ecológicas também 'tiveram sempre presentes e bem representadas em seu trabalho, em canções como «O progresso», O ano passado» e «As baleias».
Ainda que não goste de falar -- ou que falem -- de sua vida privada, Roberto Carlos sempre caprichou em canções que contam sua história.
Difícil não gostar de «O divã»,» Traumas, «As flores do jardim da nossa casa»,» Jovens tardes de domingo», «Fera ferida», Aquela casa simples» ou das canções-tributo «Amigo»,» Debaixo dos caracóis dos seus cabelos «(para Caetano Veloso, à época de seu exílio em Londres),» Minha tia», «Meu querido, meu velho, meu amigo» e «Lady Laura».
Em um mundo carente de sensibilidade, sua mensagem é importante.
Lendo ou não o livro, ouvindo ou não os discos, o fato é que ele sempre nos avisou:
«Não adianta nem tentar me 'quecer ...».
Número de frases: 30
É cada vez mais evidente que são os sites e blogs que 'tão alimentando mentes que precisam de mais do que lhes é dado por os circuitos formais de informação e conhecimento.
É notória a migração de jornalistas de renome para endereços virtuais.
Em o Paraná também 'tá acontecendo isso.
Um jeito pessoal de ver o mundo e a liberdade de 'crita são características de sites como Bacana, O Bule, Movimento Leite Quente, Cracatoa Simplesmente Sumiu, Tinidos, O Plano b.
O Movimento Leite Quente é resultado da postura ' guerrilheira " em prol da música curitibana de Marielle Loyola, vocalista da banda Cores d Flores.
Lá, o visitante vai encontrar um cadastro de bandas paranaenses, entrevistas e textos de alguns colaboradores, também sobre teatro.
O Tinidos é feito por jornalistas que 'tão começando na carreira e músicos.
Começou como um projeto de conclusão do curso e tem cacife para virar uma referência.
Tem colunas como Em a Estrada (resenhas de shows fora de Curitiba), Tinidos do Mês (um artista a cada edição) e o Fórmula Indie, que passa contados de selos, gravadoras e produtores para facilitar a vida de quem 'tá começando.
Entre os envolvidos em 'se projeto 'tão a jornalista Fabiana Bubniak e o músico Rodrigo Lemos (da banda Polexia).
O Bule é mais antigo, 'tá na ativa desde 2000, resultado também de um projeto de conclusão de curso.
Entre seus 12 colunistas 'tão algumas pessoas conhecidas de longa data do circuito das artes locais.
O projeto foi idealizado por Guto Gevaerd e «André Scheinkmann,» numa época em que -- parafraseando o Leminski -- Curitiba ainda 'tava à procura de sua identidade cultural. (
Hoje 'tamos quase achando.)»,
diz a apresentação.
Decidiram fazer um informativo sobre o melhor da cultura de Curitiba, do Brasil e do mundo -- e José Vargas fez a produção visual.
«A primeira fornada ficou uma beleza, e recebeu três notas 10 da banca de avaliação», conta o site no link sobre sua história.
Já o Bacana abriga os textos de cultura e comportamento de Abonico Smith, jornalista conhecido nacionalmente por sua dedicação ao jornalismo musical.
Desde que saiu das redações de jornais, há cerca de 5 anos, ele vem soltando suas opiniões em 'se endereço eletrônico, onde também publica entrevistas e não se atém só à cena local.
Outro endereço interessante é o Cracatoa Simplesmente Sumiu, capitaneado por outro jornalista veterano, Alessandro Martins -- junto de Alícia Ayala, Karla Juliane, Pedro Cunha.
Começou como uma coluna de ele em outro site, virou um blog e finalmente assumiu o formato atual.
Aos poucos foram entrando novos aliados e hoje são cerca de 20 colaboradores entre colunistas, fotógrafos, ilustradores e designers.
«A idéia é em linguagem simples contar histórias.
Para isso usamos a fotografia, o texto, o som de diferentes maneiras, das mais tradicionais às mais diferenciadas.
Não nos preocupamos em ser inovadores, no entanto temos nos dedicado à narrativa nas mais diferentes formas», explica Martins.
Uma seção onde se foge um pouco do enfoque narrativo é a coluna " Garota Cracatoa.
«Buscamos uma forma alternativa de mostrar a nudez e a beleza feminina, nunca em busca da perfeição, mas do belo que pode haver no real», conta.
Tem ainda o projeto Eu Estive em Cracatoa (no qual os leitores mandam suas fotos preferidas para que Martins conte histórias com elas), e Tarô de Cracatoa, em que textos do jornalista ilustram cartas criadas por o artista plástico Thiago Gonçalves.
O Cracatoa não passa mais de dois dias sem atualização.
Para o jornalista.
a internet é hoje um meio de expressão artística mais forte até do que os meios físicos.
«Tomo o meu caso como exemplo.
Para publicar um livro teria que correr atrás de Lei de Incentivo.
Editaria uns mil exemplares que ficariam encalhados em algum lugar e, dada a qualidade dos produtos que saem através dos instrumentos de mecenato, nem seriam levados a sério.
O que 'crevo não chegaria aos potenciais leitores», argumenta.
Em a internet, ele tem pelo menos 150 leitores fiéis além de outros 150 'porádicos, muitos de eles 'tão no exterior, até no Japão.
A tendência é que isso cresça.
«Dizem que a internet não é um meio que privilegia a peneridade de um trabalho.
Em a verdade, não 'tou preocupado com a peneridade.
Estou preocupado com agora.
Deixe que a posteridade cuide de ela mesma com a sua habitual sabedoria».
Endereços:
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Número de frases: 45
www.oplanob.com.br Ele acha o ritmo em qualquer pedaço, tambor ou sucata.
Ele 'creve música e canta poesia.
Sem deixar nada disso de lado, investiga temáticas sociais e políticas em seu trabalho.
Babilak Bah, artista paraibano que vive em Belo Horizonte, fala do ritmo como entidade sagrada e do tambor como um grande mestre.
Sentada num café, 'cuto-o narrar suas histórias com a destreza de quem é íntimo da palavra.
Gilson César da Silva, que mais tarde ganharia o apelido de Babilak, ainda criança já cantava e batucava por os cantos de seu bairro.
Em o bar da 'quina ele tirava sons dos copos cheirando a cerveja e pinga e voltava para casa com os bolsos cheios de moedas.
O músico viveu sua infância e adolescência em João Pessoa, criado por a mãe, Iracema Gomes da Silva.
Mesmo sendo analfabeta, foi de ela que Babilak herdou o interesse pela palavra.
«Cresci ouvindo seus cânticos e rimas», conta.
Dona Iracema, empregada doméstica, levava o menino todos dias para o trabalho na casa de uma família da classe alta.
Em a biblioteca de 'sa casa ele olhava os livros admirando a quantidade de letras e cores.
Um dia, conta, num acesso literário, roubou da 'tante o livro «Eu», de» Augusto dos Anjos.
«Esse livro marcou muito a minha vida.
Foi ali que descobri a literatura.
Além do que, foi meu primeiro delito».
Em aquela casa, Babilak teve contato com outros livros, revistas e jornais e conviveu com políticos da sociedade paraibana que sempre passavam por ali.
«Ir da minha casa para a casa de eles era um transitar entre dois mundos», explica.
Talvez tenha sido 'sa convivência com políticos na adolescência, ou fato de ter nascido na véspera da data de início da ditadura, 1º de Janeiro de 1964, ou apenas a vontade de se envolver com as questões políticas no país.
O fato é que a política foi uma parte importante da vida de Babilak.
Ele conta que tudo começou com um grupo da igreja local, do qual ele fez parte no início dos anos 80.
O grupo discutia a situação atual do país e lá Babilak se envolveu com teatro, música e poesia.
Foi também em 'sa época que o adolescente encontrou pessoas que o despertaram para o valor da cultura popular e da negritude.
Ele passou a conhecer Nietzsche, Gramsci, Naná Vasconcelos, Paulinho da Viola, e Pierre Verger, além dos emboladores de coco e todo o cenário musical Nordestino, 'pecialmente o Movimento Jaguaribe Carne.
Depois vieram os movimentos negros, e mais tarde a militância do PT.
Como poeta do partido, viajou o Brasil inteiro, recitou versos num comício do Lula e até vira garoto-propaganda do PT.
«Eu não sei muito bem como isso aconteceu, um dia tiraram minha foto e no outro eu 'tava 'tampado em camisetas e bótons do partido», conta com um sorriso discreto e uma pontinha de orgulho.
«Ver minha imagem projetada foi importante para me ajudar a me assumir como artista», acrescenta.
«Eu era músico e não sabia "
Mesmo durante suas atividades ligadas à performance no grupo da igreja e mais tarde suas viagens por o país como o poeta do PT, Babilak explica que não se imaginava como artista.
«Eu era desencontrado com minhas vontades».
O encontro aconteceu em 1988, quando ele 'tava em Brasília se preparando para mais um comício do PT.
Em a sala onde aguardava havia um atabaque, e o artista começou a tocar o instrumento, até que um homem que passava na porta entrou atraído por o som.
«Ele disse que eu tocava bem e perguntou se eu não queria substituir um percussionista num barzinho naquela noite.
Eu não ia fazer nada mesmo, então aceitei».
E assim, meio que por acaso, Babilak subiu no palco e algo mudou.
«Eu me achei», conta.
Em o mesmo ano Babilak fez sua primeira visita à Belo Horizonte, atraído por o movimento musical do Clube da Esquina e por a produção literária da cidade.
Dois anos depois voltou para a Paraíba, e em 1990 conheceu uma belo-horizontino com quem se casou.
«Não tinha jeito, BH tava no meu destino», ele fala sorrindo.
Depois de voltar para a cidade mineira, começou a desenvolver seu trabalho como percussionista partindo de um instrumento inusitado:
a enxada.
O músico conta que a idéia também surgiu de repente, enquanto assistia a um show.
Durante uma das músicas, um dos percussionistas pegou uma enxada e tirou um som fino de ela, tocando sua parte metálica.
«Aquele som ficou guardado com mim.
A terra e a loucura
Em 1998, Babilak criou o projeto «Enxadário», a partir de uma oficina chamada» Saque Sonoro», em que o artista experimenta com o som de enxadas e outros instrumentos inusitados.
Em 2003 ele teve o projeto de um cd aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
Três anos depois, ele lançou o álbum «Enxadário -- Orquestra de Enxadas», com a presença de outros quatro músicos.
Em as músicas, a temática da reforma agrária é forte, coisa que carrega com si nas lembranças de infância.
«A questão da terra no nordeste é muito forte.
Lembro dos grandes acampamentos do Movimento Sem-Terra que ocupavam a Praça dos Três Poderes de João Pessoa.
Outra coisa que me marcou demais foi o massacre de Eldorado de Carajás (no episódio, ocorrido no sul do Pará, 19 sem-terra foram mortos por a Polícia Militar durante um protesto do MST em 17 de abril de 1996)».
Babilak realiza também um trabalho com portadores de sofrimento mental do Centro de Convivência de Venda Nova, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
O artista desenvolve uma oficina de ritmo, musicalidade, expressão e criatividade.
Em 2002, a experiência rendeu um cd, com participação de 37 dos 70 pacientes.
O álbum «Trem Tan-Tan» registra as experiências musicais do grupo e conta com direção musical de Babilak Bah e participação de vários outros músicos mineiros.
Em parceira com a prefeitura de BH, o cd foi lançado no mesmo ano e atualmente 'tá 'gotado.
O futuro e o nome
Além de realizar shows do Enxadário e do Trem Tan-Tan, de ter lançado três livros de poesia e composto trilhas para 'petáculos da dança (a música Haga-Mangue foi feita para a Companhia de Dança Cisne Negro de São Paulo no 'petáculo «C / Cordas ") e para o cinema (ano passado uma de suas músicas fez parte da trilha sonora do filme brasileiro» Mão Armada "), Babilak Bah ainda quer muito mais.
Ele conta que seu maior sonho é compor mais para o cinema, mas enquanto isso não acontece, ele planeja para novembro desse ano um 'petáculo que envolve poesia, performance, instalação e filme.
E para o ano que vem já 'tá compondo um disco que, segundo Babilak, vai ser seu «reencontro com a Paraíba», com uma releitura contemporânea da tradição cancioneira do 'tado.
E se até agora a origem do nome «Babilak Bah» não foi explicada, é porque ele guardou a revelação para o final, e aqui resolvi fazer o mesmo.
O nome, o artista explica, surgiu durante um acampamento com amigos, enquanto Babilak «batia» num atabaque.
Um de seus amigos disse «quando você toca 'se atabaque sai um tanto de babilak».
O nome pegou, e mais tarde, sua primeira 'posa (que era numeróloga) adicionou o «Bah», para uma harmonização do nome.
Mas para cada pessoa que pergunta o porquê do nome ele inventa uma resposta.
«É um personagem que foge da ignorância», ele também me disse ...
Para conhecer:
www.babilakbah.mus.br Para ouvir:
www.myspace.com/babilakbah Para ver:
Número de frases: 71
www.youtube.com/babilakbah Tão atrasado quanto o Coelho de Alice, mas de tão satisfeito com o carnaval do Recife, fiquei com o sorriso do Gato da mesma na cara.
Que Carnaval do Caralho!!!!!!!!!
Melhor ainda pra mim, que antes da semana pré-carnaval tinha pensado em 'crever uma opinião, um sentimento meio nostálgico e de visão caótica sobre as festas de momo da atualidade, não sei se tomado ainda por a emoção de ter recebido Nelson Sargento no SOPADIÁRIO, mas pensava eu com as colomi ...:
«O samba agoniza mas não morre ...
O rock errou ...
O frevo fez cem anos, mas o carnaval ...
O carnaval moorreeu!!!
«Não vou agora também negar, que isto daria uma boa discussão filosófica (jamaicana) sobre o que representa ou não o carnaval atual no Brasil e no mundo, ainda mas na semana pré, claro, mas hoje depois de ter assistido e participado do maior, melhor, e mais bem organizado e dirigido carnaval que minha cidade já fez, vejo que fiz bem em 'perar e formar melhor os meus sentidos e sentimentos ...
O carnaval em Recife é uma questão cultural, pode acabar o mundo, mas tem que ter.
A capital mais violenta no ranking nacional também é o lugar onde mais se mata mulheres no Brasil.
Diante disso, como conter uma massa de mais de um milhão de pessoas ávidas por «Carnaval», entre pobres, ricos, turistas, velhos, jovens, crianças, mauricinhos, boys, malucos, ladrões, poetas, excluídos ('colha de que), é gente viu?!
E tudo solta pelo meio da rua ...
Deus me livre, só de imaginar o que teria acontecido se há seis anos atrás a prefeitura de João Paulo não tivesse começado um trabalho, e ao longo desses anos aprimorado seu conhecimento 'tratégico e político em relação ao futuro do nosso carnaval.
Exatamente porque soube dirigir com maestria o princípio básico de respeito à cultura do povo que ele representa, e ao invés da política do «pão e circo», aplicou o fundamento da poesia como alimento da alma, é de beleza sim, que a gente também precisa ...
De isso.
E foi isso nosso carnaval, cachaça, anarquia, putaria, aditivos, música, muita música de todos os 'tilos, vários ...
muitos, muitos beijos, por todos os lados, e as pessoas rindo, fantasiadas, se abraçando nos encontros de shows e blocos como se fosse revéillon.
Claro, ainda que assustados, cismados e precavidos pra num vacilar ...
e sabendo que longe dos focos de carnaval os assassinatos e outros atos violentos continuavam acontecendo, mas 'távamos lá, todos na rua, protegidos por ser maioria do bem, como deveria ser a humanidade, sem arredar o pé do nosso direito de licença poética de carnaval, de nossa fantasia utópica e fora de moda de paz e amor ...
VIAGEMM???!! Claro que é!!! (
e num é pra viajar não é!?!?),
não ...!?!?! Eu num tou tendo flashback de algo mais forte que me deram no Burburinho não, tô careta, lembrando da La Ursa de rua, à apoteótica apresentação da Nação Zumbi no Marco Zero, com mais de sessenta mil pessoas depois de Siba, Mundo Livre e Spok.
E você, acha que quem controlou 'se povo todo?
Foi a polícia??
Claro que não, não se controla toda uma «população» com o efetivo da polícia, nem do exército (talvez da NASA!),
só quem pode «controlar» o povo é o respeito adquirido com verdade, e devolvido através do respeito mútuo desse povo na rua, se garantindo em 'sa nossa causa de uma semana, e aí, a paz reina gorda e feminina, como um rei momo, e o que poderia ser um caos foi perfeito!
E em nome daqueles, que ainda acreditam na beleza, na poesia na delicadeza ...
E em carnaval, muito obrigado por o convite, a festa foi ótima!!!
Número de frases: 28
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Guerreiras, cotidiano suburbano e o vai-e-vem de improváveis trens que maltratam as comunidades desfavorecidas de São Paulo compõem o universo dos livros do inquieto Alessandro Buzo.
Conheci a figura simpática do Buzo lá no bar Zé Batidão quando ele recebia seu segundo prêmio Cooperifa.
Isso demonstra que o cara merece respeito.
Tem moral na quebrada.
Sua comunidade e cotidiano são a razão de ser de seus 'critos.
Demonstra raiz, não é tronco à deriva.
Sua carreira, centrada na busca da elaboração jornalística e poética, é parte de luta por o respeito e melhoria material das periferias.
Seu principal viés de acesso à causa é a palavra:
'crita, declamada, cantada ou conversada.
E ele é bom, seja na condição de autor, editor ou produtor.
Adquiri, de ele mesmo, três obras:
«O trem:
contestando a versão oficial ";
«Suburbano convicto ";
e «Guerreira».
Li tudo rápida e prazerosamente.
Texto sem proselitismo e sem querer aparentar o que não é.
Palavras com tensão suficiente para seqüestrar o leitor.
Sua sinceridade é surpreendente, sua narrativa despojada.
Objetivo. Condução jornalística das crônicas, relatos e críticas que nos colocam in loco.
Em «O trem» parece que 'tamos ouvindo o sambão, paquerando as meninas, adquirindo dos camelôs, tomando um trago, respirando o aroma forte da erva, ou mesmo nos 'quivando das mãos malandras que tentam bafar nossos bonés, relógios, carteiras.
São dramáticas as histórias de acidentes, as descrições dos pingentes e dos inacreditáveis remendos de madeira do chão dos trens.
Suas severas críticas aos órgãos públicos que «organizam» todo o caos relatado fecham o círculo.
«Suburbano Convicto» é totalmente familiar para todos que respiram o ar suburbano e sujam os sapatos na lama rude dos becos e vielas do mundaréu.
Não sei aonde vai o biográfico, mas soa sincero.
Lido e respeitado, revela-se verdadeiro um documento da realidade do povo humilde.
Buzo dispensa títulos para traçar um mapa das mazelas que afligem as comunidades de baixa renda.
Mas também mostra a dignidade e a alegria presentes e possíveis, e quanta vida pulsa na periferia, «lado b» da paulicéia, seu lar, lado, laudo.
Sua alegria, dor, suor.
Sua missão, sua família.
Em «Guerreira», 'tréia no romance, delineando uma personagem típica das metrópoles.
Consumo de drogas, prisão injusta, amor sincero, prostituição chic, fazem parte da vida de uma mulher que vai à luta com todas as armas que a sobrevivência lhe permite.
Ele apimenta a narrativa com cenas sexuais explícitas e toda sorte de vícios e violências que temperam o submundo;
botando em contato os dois «m» extremos da balança social brasileira:
milionários e miseráveis.
A busca de neutralidade e a condução cinematográfica destacam-se em «Guerreira».
Perece um filme terrível sobre nossas verdades mais cortantes.
Um traçado desconcertante de nossa sociedade com realismo de causar náusea aos que mitificam nosso paraíso ao sul do Equador.
Bem ...
Buzo tem moral na quebrada, e isso tem a ver com seu pertencimento, com o respeito por a sua gente.
Por isso ocupa um lugar privilegiado, para «observar» e relatar o trajeto da sua guerreira:
uma série de fatos genéricos ao cotidiano urbano sem julgamentos levianos.
Seu texto ressalta o ser humano.
Drogada e prostituída, porém, primeiro, sua guerreira é observada e representada na sua dimensão mulher possível.
Sua literatura revela um pouco mais de nós, mesmo que nos assuste com nossa imagem no 'pelho.
Mas nunca nos refletimos tão nós mesmos.
Eu, que cheguei a comprar livros nas mãos de Plínio Marcos, sei bem da importância da contra-literatura de " O trem ";
«Suburbano convicto «e» Guerreira» para a compreensão de minha condição humana.
E você, o que já leu ou 'tá lendo de Alessandro Buzo? (
Número de frases: 50
www.suburbanoconcvicto.blogger.com.br) Tem quase três semanas que o Se Rasgum no Rock terminou e todos os dias acordo pensando que foi ontem, ou anteontem.
Não existe mais cansaço, mas a sensação de fadiga em relação ao evento ainda 'tá lá.
Eu fui um do afortunados que foi convidado a ajudar no festival.
Um entre tantos que tentaram dar sua parcela de contribuição ao sonho de alguns amigos, sonho que se 'tendeu a todos nós.
Queríamos ter assistido a todos os shows, o que definitivamente não fizemos.
Porém, mesmo de longe, nem que fosse percebendo apenas a alegria da platéia, nós nos satisfazíamos.
Eu, pelo menos, sim.
Todos os que ajudaram já foram convocados para o ano que vem.
Estarei lá.
Realizado entre os dias primeiro e três de setembro, o Se Rasgum no Rock pode ser classificado como o primeiro festival paraense envolvendo bandas de rock independente de todo o país.
Belém já teve seus festivais com bandas locais e 'tes não podem ser 'quecidos.
Quem tem quase 30 anos lembra com saudosismo dos dois primeiros Rock 24 Horas.
Mas a capital paraense precisava de um evento que se igualasse à avalanche de festivais que são realizados nas metrópoles brasileiras.
Goiânia, Recife, Palmas, Cuiabá, Brasília, Curitiba, entre outras, têm o seu.
Belém, tão comentada por ser uma das Mecas atuais do rock nacional, não tinha.
Curiosamente, no mesmo dia uma cidade com mais tradição em 'se ramo que a nossa também teve seu primeiro festival:
Porto Alegre.
Quem, como eu, olhava com um certo distanciamento a todas as ações se maravilhava com os comentários que vinham a cada show.
Muitas das bandas de fora eram praticamente desconhecidas para grande parte do público que 'teve no Parque dos Igarapés.
As presenças das headlines Cachorro Grande (sábado, 2) e Mundo Livre SA (domingo, 3) atraíram um público que geralmente não freqüenta as festas de rock organizadas na cidade.
Ali havia pelo menos 3 mil pessoas contra as 500 que dão nos melhores dias dos eventos habituais.
Muita gente nunca vira antes apresentações das bandas locais e nem ouvira falar de Bazar Pamplona (SP), Mezatrio (AM), Vanguart (MT), The Feitos (RJ), Los Porongas (AC) e Superoutro (PE).
Todos, mas todos, sem distinção, fizeram apresentações ótimas.
O Superoutro teve um problema com uma das guitarras e assim ficou até o final do show, o que não desanimou quem 'tava sobre o palco ou quem assistia.
Junto a eles as bandas locais mostraram a mesma competência, tanto que arrancaram elogios dos jornalistas que vieram para o festival.
A maioria de eles já conhecia Madame Saatan e La Pupuña de outros festivais.
Foram embora com os shows de Johnny Rock Star, Suzana Flag, A Euterpia, Delinqüentes, Norman Bates, Cravo Carbono, Telesonic, Norman Bates, Turbo, Coletivo Rádio Cipó, entre outros, incrustados nas retinas.
As headlines tiveram atuações díspares.
Em a sexta-feira, ainda no Açaí Biruta, Wander Wildner fez o que se 'perava de ele.
Quando todos achavam que o herói gaúcho não conseguiria subir ao palco devido à ingestão exagerada de cerveja, ele mostrou porque é a principal referência do rock brasileiro fora do mainstream.
Clássicos atrás de clássicos para um público ensandecido e acima de tudo compreensivo.
A quase totalidade das quase duas mil pessoas que lá 'tiveram agüentaram com paciência inacreditável por mais de uma hora sem energia.
às escuras, não arredaram os pés, lá 'peraram com um entusiasmo sensacional e não se arrependeram do show.
Em o sábado foi a vez do Cachorro Grande.
A banda dos pampas não se encaixa mais na definição de banda alternativa (isso é uma discussão que não cabe em 'se 'paço) e já não freqüenta os festivais.
Mas o 'forço para trazê-los foi grande e se mostrou acertada.
Foi o dia que registrou a maior presença de público, já que era a primeira vez de eles em Belém.
O show ...
bem, o show foi um caso à parte.
Não foi o 'perado.
Quase um terço de ele foi de enrolação com solos intermináveis.
Mas era uma apresentação ganha desde o começo.
Muita gente queria ver os hits do Cachorro Grande.
Viram a maior parte de eles.
Domingo era o grand finale.
Desde as primeiras apresentações se sabia que 'se era o último dia e o cansaço era nítido em todos os rostos.
O desgaste fazia cada caminhada em busca de resolver um problema qualquer parecer um martírio.
Mas, tudo tinha que dar certo.
E deu.
Os shows que precederam ao Mundo Livre SA foram do punk destruidor do Delinqüentes ao folk emocionante do Vanguart, do pop com toques de MPB do A Euterpia à guitarrada com surf-music do La Pupunã.
Todos 'tavam lá e ficaram até o final, quando foram brindados com alguns dos momentos mais bonitos que um show de música pode proporcionar.
Quando Fred Zero Quatro, Xef Tony, Bactéria Maresia, Fábio Goro e Marcelo Pianinho subiram ao palco eles fizeram de tudo para compensar os mais de dez anos de atraso por nunca terem se apresentado em Belém.
De o começo ao fim, das músicas conhecidas às mais novas, não houve ninguém que não se sentisse que aquele era um momento 'pecial.
Aí, um aparte.
De cima do palco tive a visão mais bonita das três noites.
De lá finalmente via todos os que 'tavam envolvidos na organização assistindo a um show.
Todo o trabalho, 'tresse, aporrinhação e cansaço foram postos de lado para que a diversão desse as caras.
Para finalizar, Zero Quatro chamou as bandas locais para o palco e com elas subiram os organizadores.
Lá, houve a celebração final de um bando de loucos que embarcaram num sonho maluco que se tornou realidade e que deu certo do começo ao fim.
Não raro lágrimas eram enxugadas.
Aliás, elas foram muitas.
Ano que vem tem mais.
Já disse e repito:
'tarei lá.
Para mais fotos do festival de Renato Reis clique aqui
Número de frases: 65
Texto publicado originalmente no Ressaca Moral
Eu dancei com a tristeza
E sua alegria me confundia
Efusiva alegria da tristeza
Vestida em branco marfim!
Os meus passos trôpegos
A meia luz no meio do salão
O bailado leve e lento da tristeza
Me dizendo pra não ser assim ...
Mas o que falar para a tristeza
Em a sua alegria sem fim??
Como 'conder de 'sa alma boa
Os pedaços que sobram de mim??
Enganei a tristeza embriagada ...
Pobre tristeza!
Triste tristeza!
Sorrindo para o mundo todo
Dançando com um quase morto!
Número de frases: 18
«Para Nenna, que sabe onde fica o futuro».
Foi com 'sa dedicatória que o 'critor e agitador cultural Marien Calixte presenteou o amigo com seu livro Contos Desiguais.
Nenna agradeceu 'crevendo uma crônica, onde termina avisando que vai «'palhar aos tantos cantos o conteúdo».
Assim é o multimídia Nenna:
a frente de seu tempo, curioso, perspicaz, vaidoso, extremamente sincero e, como não poderia deixar de ser, polêmico.
Pioneiro na implantação da linguagem contemporânea na arte produzida no Espírito Santo, Nenna continua produzindo.
Ele tinha mais ou menos dez anos quando começou sua ligação com a arte.
O menino se refugiava na biblioteca do Ibeuv, ávido por informações.
Descobriu várias publicações sobre o assunto que abriram para sempre seu mundo.
Foi apresentado à pop-art de Andy Warhol e ao minimalismo de Dan Flavin quando 'ses caras ainda 'tavam começando.
E foi pautado em novos conceitos e poéticas defendidos por seus prediletos artistas contemporâneos, que o jovem Atílio Gomes (que mais tarde adotou o nome artístico de Nenna) concretizou a primeira manifestação plástica de vanguarda da cidade.
Dispensou a galeria, elegeu a cidade como campo de ação e transformou uma pacata rua em museu aberto, com seu Estilingue Gigante.
Trouxe das memórias da infância o antigo brinquedo, 'colheu uma castanheira da Praia do Canto, bairro de gente conservadora e avessa a inovações artísticas, como 'creveu certa vez o falecido jornalista Carlos Chenier, e construiu um 'tilingue de proporções enormes.
A 'cala humana do Estilingue transformou o interlocutor em possível objeto arremessado, uma irônica crítica ao momento político que vivia o país.
Era madrugada de um domingo de junho de 1970, época de repressão, e com medo de alguma represália o artista falsificou uma autorização assinada por Joaquim José da Silva Xavier.
Ele mesmo, o Tiradentes, que segundo o documento, trabalhava na prefeitura e autorizava a intervenção de arte pública na cidade.
A árvore foi revestida de gesso com pigmento amarelo e duas tiras de plástico preto foram amarradas aos troncos.
Em as tiras, ele prendeu uma atiradeira de plástico vermelho, e tava pronto o 'tilingue em grande escala que surpreendia os transeuntes habituais das manhãs de domingo.
Mas tudo transcorreu em paz, o teor crítico não foi percebido naquele momento.
Por outro lado, como observou bem a professora e pesquisadora Almerinda da Silva Lopes (UFES/ANPAP), ajudou a ativar a percepção de indivíduos que viviam numa cidade completamente carente e careta artisticamente.
Tinha até fundo musical com violão, violino e flauta no happening, alcunha que não interessa muito a Nenna, " Eu nunca me preocupei em localizar minhas coisas, acho difícil saber o limite entre uma coisa e outra.
Mas sabia que tava indo além das artes plásticas».
«Melhor aludir que nomear.
Verso não precisa dar noção», como 'creveu Manoel de Barros em seu Livro Sobre Nada.
O importante é entender que 'se menino de 18 anos transformou uma árvore em suporte e 'trutura de uma obra de vanguarda, que até hoje se mantém na memória de quem cruzou com ela.
Nenna discordava dos métodos de ensino acadêmico da Escola de Belas Artes da UFES, e seus diferentes processos conceituais eram 'tranhos aos professores e colegas em sua maioria.
Seu trabalho não foi compreendido simplesmente porque as então emergentes tendências da arte contemporânea, como a Arte Conceitual, não eram conhecidas pelo meio artístico local.
Ele abandonou os 'tudos antes de mesmo de conclui-los.
Inscreveu no I Salão de Alunos e Ex-Alunos do Centro de Artes da UFES, uma nova obra que consistia em duas fichas de inscrição da mostra.
«Eles exigiram que a obra tivesse três peças e suporte.
Coloquei uma moldura e preguei na parede frente e verso da ficha.
O terceiro eu chamei de Amor, feito assim de matéria etérea».
Inscrição I, Inscrição II e Amor chocou de novo a moçada e surpreendeu ganhando o prêmio maior do Salão.
Nenna continuou produzindo.
Fez as exposições Brasiliana (72) e Tristes Trópicos (75), mas sua ousadia foi melhor compreendida no meio artístico carioca do que no local.
Coube ao curador Roberto Pontual descobrir o jovem talento e convidá-lo pra expôr na mostra coletiva Arte Agora I / Brasil 70-75, no Museu de Arte Moderna do Rio, que pretendia identificar os principais artistas brasileiros que 'tavam surgindo.
Em 79 ele inovou novamente com a exposição Taru.
Pela primeira vez na cidade, o vídeo adentrava o ambiente das artes plásticas.
«Era um U-matic enorme, uma mesa».
Em 'sa mesma época, em sintonia com seu tempo cultural, ele começou a desenhar.
Produziu a série Tropicasso (79) e Noturnos (81).
Em o início dos anos 80, Nenna se mudou para o Rio.
Mas ao invés de continuar no campo das artes visuais, o cara radicalizou e foi trabalhar na Rede Globo.
Virou produtor executivo do Quarta Nobre até pedir demissão dois anos depois.
«Eu era uma peste na época, e não tava agüentando a mudança de poder nas artes plásticas».
O crítico e curador Paulo Herkenhoff tinha conhecido Nenna na época da exposição no MAM, e acabou dando uma ajuda para o artista mostrar seu trabalho na Mostra Novos Cariocas, no centro Cultural Cândido Mendes, com curadoria de Marcos Lontra.
Estava lá a nata dos artistas de outros 'tados que 'tavam se firmando no Rio de Janeiro, e também o sortudo e rebelde capixaba.
Fez ainda uma individual no parque da Catacumba, Pinturas Cariocas.
E foi em 'sa época que Nenna conheceu Lygia Clark numa festa fechada no centro do Rio.
«Cheguei lá vestido de artista pobre, peguei uma bebida e fui para o meu canto.
De repente abre-se uma porta, silêncio, e aparece aquela mulher toda de preto, parecendo minha mãe, com um séqüito de oito pessoas atrás.
Ela atravessa o salão inteiro, me cumprimenta, entra num 'critório e fecha a porta."
Nenna não entendeu nada.
Conta que bebeu mais umas doses e foi embora, fascinado.
Acabou voltando para a Vitória um tempo depois.
Continuou desiludido com as artes plásticas.
Sua única ligação com 'se universo passou a ser Frans Krajcberg, que quis conhecê-lo após ler um artigo 'crito por Nenna sobre o desejo do 'cultor de doar todo seu acervo e fazer uma fundação no Espírito Santo.
O artista provinciano pós-vanguardista e o 'cultor se tornaram amigos.
Krajcberg trouxe Nenna de volta à infância.
«Eu me relaciono com alguém que morou com Chaggal, fez gravura com Braque, tomou uns porres com Picasso».
Os dois viajaram para a Amazônia, se encontram sempre que possível, e gravam horas de conversas-depoimentos sobre tudo que pensam.
Em 2003, o multimídia conta que cansou de ser vagabundo e voltou a trabalhar.
Chegou lançando um livro autobiográfico que contava toda a sua trajetória.
O nome era Bíblia, e continha o seu velho testamento.
De aí, ele entrou numa de começar do zero, e começar a fazer tudo que não fazia.
Entrou em coletivas, ou pelo menos tentou, se inscreveu em festivais de cinema e vídeo, ou seja, socializou.
«Mas agora já voltei ao normal, não entro mais em nada».
Nenna 'creve e faz a curadoria de textos sobre arte contemporânea para o site www.taru.art.br.
Taru quer dizer tempo na língua dos índios botocudos.
Quarenta dias antes da tragédia das tsunamis na Ásia, o artista lançou a exposição Oceano, uma reflexão sobre a grandiosidade oceânica das águas.
A inspiração veio depois da experiência de navegar até a Ilha de Trindade, um paraíso perdido no extremo leste do território brasileiro.
Depois veio Brasil, que ele não tem certeza mas acha que é a exposição mais importante que já fez na vida.
Consistia num ambiente todo vermelho com luzes vermelhas e amarelas, e dentro desse ambiente, 64 aquários de formatos diferentes com água, e em todos, a mesma foto original de Tom Jobim no caixão.
«Eu digo que é uma eletro-pajelan ça cósmica.
Não quis fazer nenhuma denúncia, nem atacar ninguém, foi uma limpeza, pra ver se o 'pírito de Tom Jobim ali se comunicando ajudava a melhorar um pouco a situação caótica do país».
O próximo projeto, em desenvolvimento, é Oceano 2 Paik, uma homenagem a Nam June Paik, pai da vídeo arte que faleceu há pouco tempo.
E difícil dar um nome pra 'sa nova fase do Nenna.
E é impossível prever o que ele vai inventar depois.
O que é certo e aparente é que ele 'tá mais sereno.
Diz que mudou radicalmente, que cansou da polêmica.
«Minha 'tratégia é fazer minha obra, identificar talentos que 'tão emergindo, resgatar os que 'tão sumindo e ignorar a burrice».
Agora é 'perar pra ver o oceano de luz que 'se pioneiro e inquieto artista 'tá criando.
Que seja 'crito o novo testamento!
Número de frases: 83
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«Se você tem propensão para o desespero e para a dor / Não beba desse funk, não beba desse samba / que ele é tarja preta, é remédio forte e não convém», é assim que abre «Tarja Preta», segunda faixa do disco de 'tréia do Fino Coletivo.
E a proposta do grupo é 'sa mesmo, música para dançar e para se ver livre de qualquer tristeza ou dor.
Formado a partir da união de sete músicos dos 'tados de Alagoas e Rio de Janeiro, o coletivo vai do samba ao funk, passando por o reggae e rock, tudo isso combinado com texturas eletrônicas.
Fino Coletivo é música brasileira da melhor qualidade e com um suíngue incrível, para se cantar e dançar com um sorriso no rosto.
Em 2005, os alagoanos Wado e Alvinho Cabral, do excelente Wado e Realismo Fantástico, se encontraram com o compositor carioca Marcelo Frota, o Momo.
De esse encontro surgiu a idéia do trio trabalhar junto e assim se formou o embrião do que viria a ser o coletivo.
Mais tarde juntaram-se ao projeto os cariocas Adriano Siri, da banda Santo Samba, Alvinho Lancellotti, Daniel Medeiros e o baterista Marcus Coruja.
Além dos excelentes arranjos e melodias, o grupo tem também um cuidado 'pecial com as letras.
Mesmo se tratando de música feita para dançar, nada do que 'tá 'crito em seus versos é descartável.
Em «Uma Raiz, Uma Flor», Wado canta,» Não diga que as 'trelas 'tão mortas / Só porque o céu 'tá nublado», e na mesma música, mais à frente, «uma raiz é uma flor / Que despreza a fama».
Essa música, assim como «Tarja Preta» e Poema de Maria Rosa», foram herdadas dos dois primeiros discos do Wado e Realismo Fantástico, que por causa do sucesso do coletivo passou a ser projeto paralelo de seus integrantes.
A banda tem dois shows marcados no Rio nos próximos meses.
Dia 11 de setembro eles se apresentam na Sala Baden Powell, em Copacabana e dia 06 de outubro a festa do Fino Coletivo 'tá marcada no Estrela da Lapa.
Outras informações sobre o grupo podem ser encontradas nos sites:
e myspace.
com / fino coletivo.
Número de frases: 17
Bidu Cordeiro é de 'sas personalidades que não 'tão nas capas dos jornais, nas revistas de celebridades, nem nos cartazes.
Mas é figura fundamental, empunhando um trombone, para uma série de programas da noite de cariocas e brasileiros.
É o típico cara de cena, fundamental na construção, quase ali em primeiro plano, do som que embala os sucessos de um trio chamado Paralamas.
Assim como o grande responsável por o naipe de metais da divertida e posuda (no melhor sentido da palavra) Orquestra Imperial.
E um lutador por o reggae vivo, longe das raízes que enjaulam em ioiôs-iaiás um dos ritmos mais ricos, combativos e urbanos da periferia mundial.
O exérciro de ele?
Reggae B. Foi assim com a Rio Salsa, há um tempo.
E tudo começou em bailes de carnaval no interior fluminense.
De lá, para a Orquestra Sinfônica Brasileira.
Rerrê. É sério, o cara brinca, se diverte, tem as dancinhas engraçadas de ele no palco, mas respeita demais isso que se chama viver de música.
Foi o que ele mostrou a mim e ao amigo Bruno Maia, em conversa concedida ao nosso bravo sobremusica, onde dá para achar a versão completa do papo.
Podemos gravar?
Você ia começar a contar a sua história ...
Minha história é assim, eu comecei meus 'tudos com 13 anos, nasci em Rio Bonito, 'tado do Rio.
Comecei a 'tudar música com o meu pai, trombonista.
Toca o mesmo instrumento.
Lá para o segundo ano de estudo ele me trouxe para o Conservatório de música, aqui na Graça Aranha [rua do Centro do Rio, perto da Cinelândia], quando eu 'tudei com um grande professor:
Prof. Oscar da Silveira Brum.
Estudei com ele quatro anos e aí ele me levou pra fazer prova para a OSB, Orquestra Sinfônica Brasileira.
É um cara renomado.
Fiz concurso numa época que tinha uma porrada de gente.
Tinha nego de fora, americano, de outros 'tados ...
Aí eu fui aprovado na condição de 'tagiário, contrataram dois americanos e me aprovaram, eu e o Marco Antônio [Favera], que inclusive tá até hoje lá como primeiro trombonista da OSB.
A gente na condição de 'tagiário, que teria que fazer prova de seis em seis meses até ser profissional.
Eu me lembro que fiquei um ano e meio, quase dois anos, e fui logo contratado, e fiquei lá.
E isso foi quando?
Isso em 86, eu fui contratado em 86.
Aí fiquei lá até 97.
Eu lembro que começamos a montar uma banda de salsa aqui no Rio que era Rio Salsa, com uma galera, e foi uma das primeiras coisas populares que eu comecei a fazer, [até então] eu tocava só Sinfônica.
O popular, eu não tinha aquela confiança em mim mesmo.
Só que aí eu comecei a ver que o nível das orquestras ...
elas começaram a cair:
os grandes músicos, não-sei-que, o interesse na cultura.
Eu falei:
pô, tenho que partir pra um outro lado.
Até que rolou a parada do convite dos Paralamas, foi muito engraçado.
E foi quando o convite?
Foi em maio de 97.
Foi uma gravação de uma banda chamada Los Djangos.
Ou Jammil e Uma Noites, uma coisa assim, ou Jammil ou Los Djangos.
Foram as duas bandas que eu gravei.
E o Monteiro [Júnior, saxofonista], que era o cara dos Paralamas, ele que era o cara que arregimentava para a gravação.
Aí me indicaram, a gente se conheceu, gravou lá os arranjos de ele ...
Isso era a turnê do Nove Luas?
A primeira turnê foi Londrina, Maringá, Ponta Grossa e, por ali, uma última cidade que eu não me lembro.
Foram quatro shows.
De aí eu fiquei tirando, o Monteiro me deu uma fita de show ao vivo, eu acho que tirei mais ou menos a voz do trombone, não deu pra tirar tudo.
Tirei o básico ali, fiquei por um período de três meses, e depois ...
de lá pra cá ...
Mas e Paralamas, você ouvia?
Rarrá, eu lembro que quando me fizeram 'sa pergunta, eu até falei:
volê, volê [cantando ' Cinema Mudo '].
Rarrarrá. Eu conhecia os hits, ' Uma Brasileira ', ' Alagados ', o que todo mundo conhece do Paralamas.
Agora, a obra, eu fui conhecer depois.
O Paralamas é uma banda que sempre teve muita audácia, foi a primeira banda a botar samba no pop rock, a primeira a ter levada de samba no meio.
E acredito que não vai demorar em vir um disco de roquenrou.
Vão lançar um disco de reggae, que é outra coisa que eles sabe fazer muito bem.
Tem o Bi ...
O Bi, João Barone, o Fera [João Fera, tecladista da banda], o Herbert, eu ...
sabe? Eles são muito abertos, eles são muito bacanas mesmo.
Eu queria falar do Reggae B. O Reggae B foi assim ...
Antes do Reggae B, só para a gente chegar lá:
a sua relação com reggae vem de quando?
A primeira banda de reggae em que eu participei foi o Mindingos, de Niterói.
Era uma banda que tinha o Zeca Mindingo, eu, o Tricky, Bocato, que é um trombonista de São Paulo, foi trombonista de todo mundo, era uma galera.
Então ... Ah, o Dado, um grande compositor de reggae de Niterói, um amigão da gente, Cidão, passou uma galera ali de Niterói ...
Eu morei em São Gonçalo muitos anos, e a gente montou 'sa banda.
E começou a tocar, fizemos vários shows em Niterói.
Aí, eu lembro que eu fiquei doente.
E tive que sair, daí entrou o Paulo William. (
E isso foi quando?)
Acho que foi em 90. 90 ou 92.
E minha primeira experiência de reggae foi com 'sa banda.
E o Reggae B, foi o Bi que me chamou.
Era um projeto de abrir o the Wailers, e tal, montaram uma banda com duas baterias, não-sei-que, não-sei-que-lá, e eu não tava em 'sa.
Aí, depois resolveram:
vamos montar um 'quema já que a banda tá parada, aí me chamaram.
E eu fui.
Então, foi porque o Paralamas tava parado, né?
É, o Herbert, tal ...
Mas qual era a idéia do Reggae B?
O Reggae B não acabou, a gente deu uma parada por quê?
Era todo mundo fazendo outras coisas, necessidade de trabalho.
Era um negócio que dava um prazer danado de tocar, mas recurso financeiro não tinha.
E isso, desculpa dizer, conta ponto, né?
Tenho que sustentar meu filho, minha mulher ...
Bicho, tem que manter a onda aí, e conta ponto.
Mas a gente tá com a idéia de voltar, recebemos aí uns convites para fazer show, e agora terminando o dvd dos Paralamas, com certeza, a gente tá perturbando o Bi, aí, e vai ter.
O Reggae B foi uma banda em que todo mundo tocou.
Até o Herbert, a primeira aparição de ele na volta, foi no Reggae B. É foda ...
Teve um dia que foi Lulu Santos, todo mundo, Arnaldo [Antunes] ...
A idéia era fazer um reggae «B», só, lado b.
Não 'se reggae «A» que a gente vê por aí.
Mas era uma onda de curtição mesmo? ...
Não, não.
Cara, eu não tava ali curtindo, não.
Rarrarrarrarrá. Eu levo tudo a sério, mesmo, fiquei até puto porque parou, tal.
Mas foi melhor parar do que acabar, porque tinha o Black [Alien, vocalista] querendo gravar o disco, todo mundo querendo fazer as coisas, mas a gente vai voltar ...
É, mas justamente, surgiu de uma história da necessidade de tocar num período de Paralamas parado.
É ... de tocar, de precisar tocar, cara.
E na época pagava ...
eu tava separado, rolava uma merrequinha que segurava o quarto em que eu morava, a gente precisa viver.
Eu pagava 300 reais em aluguel, e pelo menos isso dava.
Rerrerrê. Salvava legal.
O Reggae B foi uma maneira, também, de te apresentar para a galera ...
É, foi importante porque muita gente tocou com a gente.
Todo mundo. Conheci a galera toda por causa do Reggae B. Arnaldo Antunes, Titãs, Gabriel O Pensador, Toni Garrido.
De aí, passa-se 'sa fase e tem a volta do Herbert e do Paralamas, como foi?
Muito bacana.
Não teve dificuldade nenhuma, o Herbert é um cara iluminado, sabe?
Foi muito emocionante aquele Fantástico com a abertura ali.
Eu lembro que o Zé [Fortes, empresário] chamou a gente:
olha, a gente vai voltar, pode continuar, pode voltar, mas pode não dar certo, vamos fazer um show dentro da EMI.
A EMI, ali em Botafogo.
Aí, a gente fez o show da EMI para a família, foi o Marlon, a galera foi toda assistir, os amigos do Bi, a galera mais próxima.
Rolaram uns dois ensaios ali e depois meio aberto e divulgado.
Mas a volta mesmo do Herbert foi no Reggae B, a gente emocionado ali, todo mundo chorando.
A gente tocando ali, ele vai aparecer, ele apareceu e ele tocou.
Foi foda a gente ver o cara ali de novo tocando.
Eu lembro que a galera, pô, eu nem toquei.
Rerrê. Emocionado pra caralho.
De aí a banda voltou a ensaiar.
Fizemos o Fantástico, e depois o show lá na terra do Herbert [Paraíba].
E o Herbert tá melhorando a cada dia.
A parte musical nunca afetou.
O cara tá voltando, o cara tá ali.
Você falou sobre as orquestras de baile, que eram seu sonho ...
Vou fazer uma pergunta meio ... (
babaca), se você tivesse que tocar um tipo de coisa para tocar, para levar tua vida, você gostaria de tocar o quê?
Tocaria reggae ...
Reggae e salsa!
Ah, bicho ...
eu gosto de reggae.
Gosto de Black Uhuru, lado b mesmo.
Não pra falar de Bob Marley, mas as bandas que a gente vê em Barra do Sana aí, desculpa eu malhar, fazem a gente ficar com raiva até de Bob Marley.
Fica aquela guitarra quén-quén ...
Mas tem várias bandas boas.
Reggae é um som urbano, de cidade, né?,
não é música de cachoeira ...
E o reggae é muito novo, cara.
Bob Marley abriu a porta, mas tem muita coisa ainda ...
Quer ver um ritmo que não entra muito bem no Brasil?
É a salsa.
Salsa é foda!
O Santana foi malandro, misturou com o pop, mas no Brasil para o cara enfiar uma parada ...
eles tocam umazinha ou outra, a gente não vê nada.
Em São Paulo ainda tinha.
Pô, então:
Orquestra Imperial.
Outro ambiente também que eu adoro. (
você tinha falado de uma ligação com o carnaval ...)
Eu fui músico por causa do carnaval, meu pai montava um bloco lá em Saquarema, e o Ruivo [Rodrigo Amarante, Orquestra Imperial e Los Hermanos] também freqüentava lá.
Ele tinha um bloco lá, o Grilo, no Saquarema de Bandas.
E a gente tocava em bloco, tirava os sambas, tocava num clube.
Eu só queria tocar carnaval.
Fiquei dois anos, só tocando. (
E o Ruivo ...)
O Ruivo tocava também, era do Saquarema de Bandas, uma galera lá do pai de ele.
E eu tocava no Iate, que era o clube bem freqüentado, que na época tinha grandes bailes.
Meu pai montava uma orquestra legal, minha mãe cantava, era a família.
Todo mundo ... E eu, o primeiro instrumento, eu toquei surdo.
12 anos de idade, e eu apanhava um surdão.
Pá. Aí com 13 já 'tudei trombone, foi o primeiro carnaval.
E aí, 'sa onda da Orquestra [Imperial] era o mesmo tipo de música lá atrás de Saquarema.
Ããnn ... É, no baile de carnaval, sim.
Mas hoje em dia, a coisa mudou.
Antigamente o salão cantava, o baile não tinha nem cantor, era um baile tocado por os metais, sambinha ...
O povo cantava.
Depois, inventaram o cantor no baile de carnaval, até que foi acabando.
E agora tá voltando.
Devagar, tá voltando.
Eu acho até que o Rio de Janeiro deveria voltar mesmo, porque ...
A Bahia ganhou lá o 'paço com um carnaval ...
que é muito bom ...
Mas o Rio tinha 'sa tradição de tocar marcha, marcha-rancho, frevo em reveillon e baile de carnaval, os clubes tinham ...
Hoje em dia, não tem mais.
Mas a Orquestra Imperial não é um baile de carnaval, é um baile.
Lógico, tem um marketing, é uma festa.
Eu adoro aquela galera também, fico à vontade.
Mas como é que rolou a primeira vez?
O Berna [Ceppas, produtor e programador de efeitos da OI] me ligou.
O Berna e o Kassin, inventores da Orquestra, me ligaram:
pô, Bidu, queria chamar o naipe dos Paralamas pra fazer lá e tal.
Aí na época a galera não podia, o Monteiro e o Demétrio.
Aí, eu falei:
cara, eu posso, to a fim, interessado.
Mas aí a galera tava querendo uma grana, não-sei-que, eu falei:
Berna, melhor levar uma garotada que tá começando e nego investe ali.
que era o [flautista Felipe Pinaud], o Max [Sette, trompete] ...
Rarrá: o Mauro [Zacharias, trombone], o cara tava sem trabalho, o Mauro do Los Hermanos.
Eu falei:
Mauro, vai para o Rio ...
Bom que você falou nisso, em renovação, a gente tava no caminho conversando, sobre uma impressão que de um tempo pra cá os naipes de metais, principalmente na música pop, 'tão mudando um pouco.
De naipes percussivos para algo mais melódico ... (
interrompendo) É lógico.
Até porque antigamente nego era muito influenciado por o funk, né?
Era aquela coisa bem picada Pá!
Pan! Pen!
Perenren. Neguinho copiava americano, era muito americano.
E a coisa hoje em dia ...
sei lá.
Até nos Paralamas, em 'se último disco, a faixa ' Soledad Cidadão ', que você faz os vocais no show, ela já traz um naipe menos percussivo, mais melódico ...
É, eu acho também.
E eu acho que o disco em que o naipe ficou legal foi o acústico.
Ali a gente tava num pique ...
E o show também tava bom.
Mas voltando à Orquestra Imperial.
Houve uma primeira fase, em que o Seu Jorge comandava ... (
interrompendo) mas isso foi só no início ...
Pois é, mas depois começou a ir para o Canecão e fazer os bailes de marchinha e hoje 'tá numa terceira fase com os bailes de carnaval no Circo Voador ... (
interrompendo) Foi descobrindo um caminho ...
Fica na Orquestra quem quer 'tar.
A Orquestra nunca contratou ninguém, fica em ela quem quer.
Por exemplo, o [Wilson] De as Neves hoje em dia é um membro da Orquestra e a gente vai gravar agora, depois do Carnaval, material próprio.
Tem várias composições ali, material do Rubinho [Jacobina, teclados], da galera ali ...
Vem projeto bom da Imperial aí!
Cara, por mim acho que acabou.
É, aí já tem material, né?
Gravou tudo aí ...
Agora vamos tomar uma cerveja ali, né não?
Número de frases: 220
Não não, torço contra o Brasil.
Pelo contrário. Mas a verdade é que devemos nos render as boas produções realizadas por nossos vizinhos.
Começando por a juíza.
Sim, a Argentina Lucrecia Martel, diretora dos longas como La Ciénaga (1999) e La niña santa (2004), foi umas das juradas do último Festival de Cannes, na competição principal, juntamente com o diretor chinês Wong Kar-wai, que presidia o júri.
Mas o caso aqui é que Lucrecia Martel vem construindo uma trajetória bastante atípica.
Primeiro por ser uma das poucas mulheres a fazer cinema, e segundo por ter destaque tanto no cenário latino americano como no resto do mundo.
Em seu último filme, Lucrecia Martel cria com primor uma história a qual tinha tudo para se tornar mais uma sobre meninas que se envolvem com homens mais velhos, passando por o sexo, desejos e família.
Sexo, aliás, é um tema muito presente em filmes de língua 'panhola.
E daí?
E daí, que o filme La niña santa, aqui no Brasil chamado de Menina Santa, é um marco no cinema.
A personagem de Mercedes Morán, que havia atuado com Martel em O Pântano (La Ciénaga), reinterpreta Helena:
uma mãe 'belta e charmosa que mora com sua filha, Amália, uma garota de 13 anos e com seu irmão num hotel onde trabalham há tempos.
A filha 'tuda numa 'cola de freiras e 'tá na fase de descoberta:
do sexo, da noção de que 'tá se tornando mulher e do seu poder de sedução.
Uma conferência de médicos acontece no hotel, em que um dos participantes é Dr. Jano, interpretado por Carlos Belloso.
A mãe se sente atraída por o médico, que por sua vez se sente atraído por ela e por sua filha -- mas a atração de 'ta por o médico é ainda maior quando 'ta descobre que foi 'te mesmo homem que a «molestou» numa apresentação de teremim numa rua de La Ciénaga (cidade imaginária de Martel).
Em os dois longas metragens de Lucrecia Martel temos a sensação de sermos participantes do filme.
Cria-se uma atmosfera íntima, que se torna possível através da forma como a diretora conduz, com simplicidade e proximidade, situações com as quais nos deparamos freqüentemente:
família, sexo, desejo, insinuações, pessoas comuns e segredos que cada um 'conde e que se revela, ou melhor, nos revela ...
sim, porque seria mais um filme sobre Lolitas ou Anitas, não fosse 'se detalhe:
o jogo de sedução em nenhum momento se apresenta para os personagens, mas é habilmente apresentado somente ao 'pectador, que fica aflito sem saber como 'sa história vai acabar.
O desejo e todas as suas possibilidades abrem-se, então, como a grande questão do filme em algo que envolve não só os três, mas também floresce entre as meninas da 'cola de freiras.
Êpa! Ecos «almodovarianos» de Maus Hábitos ou A Má Educação não são por acaso -- Pedro Almodóvar co-produziu o filme e daí pode até se 'pecular acerca do que pode acontecer.
Mas o toque final é da diretora:
deixemos para Lucrecia Martel contar como termina o drama de La niña santa.
Afinal, a bola tinha tudo para ser na trave, mas foi um belo gol.
Número de frases: 26
Maria Elisa Macedo
A trajetória e o impacto do trabalho de Delson Uchôa na arte contemporânea brasileira é a possibilidade de se começar a falar, a partir de ele em diante, numa pintura alagoana.
Não por sua localidade regional, mas exatamente por sua universalidade mestiça.
Só o homem que vive na arte habitada pode inaugurar 'te termo.
Em divertida conversa na sua casa, uma pintura no litoral norte de Alagoas, Delson Uchôa falou sobre ciência, religião, medicina, cinema, rock, folclore, e claro, arte contemporânea.
Segue abaixo nossa prosa.
Marcelo Cabral -- Percebo que uma idéia bem comum ainda persiste, de que é preciso conhecer e entender de arte para apreciá-la, e isso gera preconceitos que afastam os «leigos» deste ambiente restrito.
A pintura ainda é muito elitista?
Delson Uchôa -- Dizer que não entende de arte é um clichê.
Hoje em dia não tenho o problema que tinha antes com clichês ...
Mas sua pergunta é pertinente, melhor que aquela «qual a primeira pintura que você viu e decidiu que queria ser artista?». (
risos) Outro clichê:
«O que é arte»?
Arte é resposta que não precisa de pergunta.
Veja bem, depois de assistir um filme do Almodóvar, por exemplo, é leviano sair comentando antes de digeri-lo.
Você sai do cinema cheio de respostas.
Em o jantar da noite seguinte, aí sim você refletiu e pode procurar por perguntas.
É preciso sim desmistificar o monstro sagrado da pintura e derrubar preconceitos.
Profane a arte sagrada no Overmundo com 'ta nossa conversa e seja artista. (
risos). A arte contemporânea é pensante, reflexiva.
Alguns artistas 'tão levando seus trabalhos ao limite da afetividade para se comunicar com seus semelhantes.
É necessário um novo conceito para que as pessoas não tenham medo de consumir arte.
M -- Em a exposição «Pintura Habitada», na Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas, você riscou a palavra» não «da clássica placa» Favor não tocar nas obras».
D -- Claro.
Por favor, toque nas pinturas.
É preciso ver com os olhos e os poros, pele, dedos e pés.
A arte dotada de tempo e experiências.
M -- O que é a Pintura Habitada?
-- A pintura como um abrigo.
Minha casa, minha arte, onde vivo e trabalho, onde pinto com as pessoas que me auxiliam.
A pintura que pode ser um abrigo para várias situações, para a inibição, por exemplo ...
O sujeito vai à exposição e pode habitar ali, morar um pouquinho naquele quadro.
Atualmente no Brasil, muitos programas 'tão tirando pessoas de situações sociais nocivas e apresentando para elas a pintura, entre outros ofícios.
É um exemplo da arte como abrigo, como habites.
«Você tem sede de que?
Você tem fome de que?"
Arte de comer, de beber, de habitar.
M -- Um admirador dos seus trabalhos me disse uma vez que você é um cara que vê a luz e mostra aos outros.
Fale de 'sa sua busca por a luz.
-- Existe a luz que se consegue usando pigmentos, uma luz criada, existe a luz física, e a ciência descobre muita coisa nova sobre ela, como por exemplo, que 'ta não se propaga necessariamente em linha reta, ou coisas como o buraco negro, que suga a luz ...
É impressionante como a ciência tem chegado a conclusões que demonstram que tudo 'tá conectado, tudo possui uma mesma origem ...
-- ... Como no conceito budista?
-- Sim, o cientista não é necessariamente budista, mas veja como tudo 'tá conectado.
A ciência leva o cientista até Deus, tudo que leva a Deus é religião.
Quando eu achava que 'tava 'gotando a questão da luz surge à experiência com o Daime, de experimentar uma outra luz, ainda não criada, como imagem e semelhança.
É preciso lutar para testemunhá-la, fortificar 'ta busca por a luz interior.
-- Apesar das inúmeras opções 'pirituais e religiões deste novo milênio, poucos artistas me parecem tão à vontade pra falar de 'piritualidade como você.
Qual o impacto do Daime e da 'piritualidade na sua obra?
-- Te digo que mais uma vez a arte me sinaliza Deus, sem ter necessariamente uma religião.
Minha busca é pessoal, por 'ta miração, 'ta luz.
É muito comum que os freqüentadores do Daime se identifiquem mais com as religiões africanas.
Para mim trás compreensões mais inclinadas ao budismo, que por outro lado me aproxima da ciência.
E a ciência 'tá na moda. (
risos) Influência minha obra por o hibridismo de culturas, uma 'piritualidade mestiça, uma pintura mestiça, como tudo mais no Brasil, um país que é a própria possibilidade de se misturar com tudo sem deixar de ser.
Patriotismo hoje é cafona não?
Mas eu adoro meu país. (
risos) -- Conte mais sobre isso.
D -- Toda manifestação, toda arte brasileira é bastarda, filha da pátria amada mãe gentil, generosa, que acolhe, que transa com cavalheiros dos quatro cantos, filtra qualquer cultura externa, e o que ela pare, o que nós brasileiros criamos é híbrido.
É por isso que surge Chico Science, que morto 'tá muito vivo, e é por isso que o futuro vai acabar com Ariano Suassuna.
Porque ninguém precisa projetar ao futuro um folclore purista, 'tagnando o processo natural da vida.
Precisamos avançar.
Um Filme como «Cinema, aspirinas e urubus» faz com a imagem o que Science fez com a música.
Indica que nada pára, que a cultura não é 'tática e precisamos avançar.
E o nordeste 'tá em alta.
-- Percebo muito 'se purismo da cultura popular e o culto a obviedade do folclore como símbolo regional aqui em Maceió.
Como por exemplo, o folguedo endêmico daqui, o Guerreiro, que 'tá em todo lugar.
Tudo e todos têm a necessidade de figurar o chapéu do guerreiro, as fitas de cetim, etc. tudo ali muito óbvio e um tanto forçado.
Vejo na sua pintura as cores e as luzes do lugar e de 'sas manifestações, mas não é algo assim tão entregue, tão na cara ...
-- Aqui em Alagoas 'tamos no cinturão luminoso do planeta, e isso vai influenciar meu trabalho.
Em os anos 80, percebi o 'tridente grito das cores da cultura popular daqui.
Percebi sua chocante semelhança geométrica com a 'cola Bauhaus, com o Neoplasticismo.
Assim como também a 'tética de parques de diversão, faixas de caminhões ...
Veja o Pastoril, mostra um contraste claro entre azul e vermelho e a música chega ao máximo a uma marchinha.
Já Guerreiro é impressionante porque são tantas cores, que se torna um foco de luz, uma tocha de luz.
As cores se desmaterializam.
Sinta a temperatura e o ritmo da música do Guerreiro e veja como 'tá em sincronia com aquela luz forte.
Tudo conectado.
E a minha pintura filtrava 'ta cultura popular, local, regional.
Por outro lado, 'cutava a guitarra nova-iorquino dos anos 70, ouvia Lou Reed e Talking Heads e aquela música influenciava o meu gesto, e na pintura aquilo também era filtrado.
Vamos desfazer os limites entre pintura e música, porque 'ta fronteira não existe.
A música tem tudo que se encontra na minha arte, tem temperatura, ritmo, gesto.
Se eu 'cuto algo daqui posso não saber se é a percussão ou solo de guitarra, mas senti ali um brilho, uma temperatura que é nossa.
É preciso despertar a subjetividade na construção da identidade.
Não se trata de colocar um chapéu do Guerreiro, subir no palco e se apresentar, mas encontrar as frestas no que já foi feito.
-- Falando no que já foi feito.
Como é isso de pintar sobre suas próprias telas anteriores?
-- É a pintura dotada de passado, da ação no presente e da expectativa do futuro, que é o que vai se entender de ela ...
-- ... Isso me lembra a semiótica de Peirce ...
-- Vê, 'tá tudo conectado ...
Em 'ta pintura por exemplo (Delson aponta para uma grande quadro de cores fortes, e contido em ele, uma pintura anterior), 'ta luz (apontando para o quadro dentro do quadro) é de 1982, o 'tilo é francês, foi pintado em Paris em 'sa época.
Já o quadro que o contém é de 2006, feito aqui em Maceió, com a luz daqui, de hoje.
Nada aí 'tá à toa.
Complementam-se e se tornam um.
A arte não é 'tática.
Pode se transformar.
-- Soube que você 'ta de malas prontas.
Depois de presentear Maceió com a Pintura Habitada, qual a sua agenda de exposições?
-- Vou para São Paulo na semana que vem participar da SP Arte, uma mostra internacional voltada para galerias, colecionadores e críticos.
Em 'te evento, a Galeria Brito Cimino vai realizar uma festa de apresentação do meu trabalho, uma homenagem de boas vindas.
Logo na seqüência participo de uma exposição no Instituto Tomie Ohtake que compreende a arte brasileira no período de 1980 a 1995.
M -- Conte um pouco sua trajetória até aqui, da participação na mostra «Como vai voce geração 80?», da Bienal de Arte de São Paulo em 98 ...
-- Há pouco tempo atrás, aconteceu outra exposição, chamada «Onde está você Geração 80?" promovida por o Centro Cultural Banco do Brasil, para comemorar os 20 anos da realização de» Como vai você ...», um evento que revelou muita gente, que congregou muitos talentos, fez história e carreiras.
Aconteceu no Parque Lage, Janeiro.
A Bienal foi outro momento importante pra mim.
-- Delson, qual é a sua formação?
D -- Eu sou médico, turma de 1981 da Ufal.
Outro dia descobri que tinha uma pendência com o CRM (Conselho Regional de Medicina).
Paguei a dívida com uma pintura e ficou tudo resolvido.
-- Sério?
Então você é autodidata na arte?
-- Não acredito muito em 'se autodidatismo.
Em a 'cola de medicina aprendi sobre o funcionamento e o desenvolvimento do ser humano, da vida, aquilo também sinalizava para as ciências humanas, para o 'pírito.
Depois me interessei por muitas coisas além da pintura, o reino vegetal, as plantas e seus pigmentos, as cores dos pássaros, o amarelo do xexéu e o vermelho do galo de campina, a arte indígena das plumas.
-- Está dizendo que tudo isso te ensinou no conjunto da sua formação como artista?
-- Sim.
E o artista é aquele que instiga a mente humana a pensar mais.
Os artistas contam a história mais honesta da Terra, e 'sa honestidade se torna universal.
A arte é neta de Deus e o homem é a coisa mais 'pantosa do mundo.
A mente humana é mais terrível e 'pantosa que as catástrofes naturais, que os terremotos e tsunamis.
Somos isto.
Arte é isso.
Número de frases: 121
De acordo com o Livro «História do Muncípio de Uruaçu», do historiador Cristóvam Francisco de Ávila, a Família Fernandes de Carvalho chegou à região Norte do 'tado de Goiás de acordo com as novas demarcações territorriais conforme o Art 13, Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Costituição da República Federativa do Brasil no começo do século XX e se 'tabeleceram com a ideia de fazer uma cidade parecida ou até melhor do que São José do Tocantins, hoje a atual cidade Niquelandia onde tiveram sua origem.
Os Fernandes de Carvalho, segundo o livro, fizeram 'forços na época e compraram boas terras (em entrevista, o autor da obra explica que o preço obtido por a família com a venda das terras que possuiam em São José do Tocantins -- onde viviam -- dava para comprar área quatro vezes maior, na região de Pilar de Goiás, que a fazenda que fora vendida).
Em 'sas terras fizeram as primeiras lavouras.
Enéas Fernandes de Carvalho, filho do Coronel Gaspar -- conta o historiador no livro -- tinha uma habilidade muito grande com desenhos e projetos, embora jamais tenha 'tudado arquitetura ou alguma 'cola de desenhos.
Foi ele, Enéias Fernades de Carvalho, quem fez num caderno velho os primeiros ceoquis do arraial, com a disposição das ruas, um lugar para uma igreja, uma 'cola, uma cadeia e um cemitério, sempre tomando como base a cidade de São José do Tocantins.
Depois de nem passar dez anos que a família havia chegado as novas terras, as exigências que fizeram ao governo do 'tado foram atendidas, e 'sas exigencias se tratava do pedido da criação de uma vila de município no território adjacente de Pilar de Goiás por à rapidez com que por ali cresciam as iniciativas e o quanto despertava o lugar.
Por muito tempo, só entre os pioneiros era possível encontrar quem dispunha de princípios e honestidade, necessária para o exercer os cargos públicos criados com o município.
Como era natural na maioria dos municípios criados na mesma época, a nomeação dos primeiros prefeitos era geralmete da família dona das terras e, no caso de Sant ´ Ana, atual Uruaçu, não foi diferente.
Assim, foram os Fernandesde Carvalho, o que se repetiu nas duas primeiras 'colhas dos administradores da pequena cidade recem criada.
O terceiro prefeito também pertencia à família Fernandes, Manuel Fernandes de Carvalho.
Em aquela época, já 'tava restabelecida, no país, a prática eleitoral, suspensa com a vitória da revolução de 1930.
Manuel Fernandes de Carvalho foi eleito em eleição popular e sua vitória nas eleições lhe deu certeza e confiança na sua própria capacidade e no apoio dos seus concidadãos.
Entre os principais obras do seu plano de governo, 'tava a construção da malha rodoviária do município.
O prefeito investiu recursos muito pesados para a época.
A maior parte de seu próprio bolso ou de emprés ¬ timos tomados junto à família, confiando no recebimento da ajuda financeira prometida ao município por o Governo do Estado.
Em 'se ínterim, a sombra do Estado Novo baixou sobre o país e Manuel F. de Carvalho, na capital do 'tado, depois de haver recebido o auxílio financeiro 'tadual, foi informado de que fora destituído do cargo de prefeito.
Quando retornou da capital, com recursos que o Estado lhe concedera e não havendo ainda transmitido a prefeitura e o dinheiro trazido a seu sucessor, utilizou os recursos para realizar pagamentos, inclusive dos empréstimos que tinha feito.
Seus atos então foram submetidos a inquérito, transcorrido com o maior 'tardalhaço, visto como por detrás de um mero processo de sucessão municipal havia o propósito de abocanhamento do poder municipal, por o afastamento de um grupo que, desde os primeiros dias da vida do lugar, tem sido o seu mais importante sustentáculo.
Depois do término do Estado Novo, o autor nos diz em seu livro, que a cidade pode então voltar à tranquilidade, respirar de novo os velhos e generosos ares do tempos dos Fernandes, que reassumiram suas justas posições, de prestígio e vanguarda, no meio social.
A cidade então recomeça a progredir.
E a vinda da sagrada pessoa do Prelado e do Bispo Dom Francisco Prada Carrera foi a grande bênção que o povo recebeu.
Em a época tinham a cultura religiosa predominate extremamete católica.
Como permanece nos dias de hoje, segundo nossa pesquisa, sendo religião majoritária professada por a população local.
Número de frases: 23
Segundo a Associação Comercial de São Paulo, o bairro do Brás, de 190 anos de existência, possui 55 ruas, seis mil 'tabelecimentos e quatro mil fábricas, além do Fusca branco de Rosana Rodrigues, 44 anos.
Em a altura do número 1000 da Avenida Rangel Pestana, bem pertinho da Estação Brás de Metrô, ela passa boa parte das tardes deitada, «ouvindo black music», da rádio Metropolitana, e olhando o movimento das pessoas.
Mãe de três filhas e avó de duas netas, Rosana nasceu em Assai, cidade ao norte do Paraná, a quase 400 quilômetros da capital do Estado.
Porém, nem teve tempo para experimentar a culinária com influência japonesa do município, já que se mudou no primeiro ano de vida para a cidade paulista de Guarulhos, onde foi registrada, e depois para Jacareí.
A os 17, visitou São Paulo pela primeira vez e, entre idas e vindas, 'tá na capital desde 2004, onde mora num Fusca sem rodas e sem placa ao lado do marido, Emerson Santos.
Ela conheceu o 'poso numa fila para pegar comida, no Pátio do Colégio, na região central de São Paulo.
Há quatro meses 'tão juntos e dormem todas as noites no carro, outrora abandonado, atrás de um caminhão com placa BKO 2975.
O casal vai para a cama cedo, às nove, 10 horas da noite, e acorda às sete da manhã.
Santos costuma tirar entre R$ 20 e R$ 30, diariamente, com a venda do papelão que pega na rua.
Algumas vezes Rosana o acompanha no trabalho.
Uma das três filhas, a de 23 anos, já casou-se e mora em Jacareí, assim como as outras duas meninas (de 19 e 12 anos), que vivem com a avó de elas.
Apenas a de 12 sabe da vida da mãe e, mesmo assim, quando Rosana contou, achou que era «brincadeirinha».
A família de Emerson Santos, residente no Arujá, também não sabe que ele vive e sobrevive das ruas.
A «casa» praticamente resume-se a uma cama feita com uma porta sobre o assoalho, disposta no lugar onde deveriam 'tar os bancos da frente e os de trás do Fusca.
Em cima da porta, além do colchão, dois travesseiros e um cobertor 'tão, cuidadosamente, organizados.
Em a parte onde ficariam os pés do carona, 'tão produtos de limpeza e cremes faciais que Rosana comprou " de umas pessoas que vendem 'sas coisas bem baratinho."
Ao lado dos frascos, repousa um par de sandálias brancas número 35, e o porta-malas faz as vezes de armário para guardar os copos, talheres e outros objetivos doados que eles não tem onde colocar.
Sobre o painel de um dos veículos mais amados do Brasil, há um relógio grande, vermelho, desses que as pessoas costumam pendurar na parede da cozinha.
Rosana, cabelos loiros, sorriso tímido, reclama do ambiente «super apertado» e, principalmente, da falta de uma televisão.
O capacho, ao lado da vassoura que fica encostada na parte traseira do automóvel, é um pedaço de papelão, onde o casal limpa os pés antes de deitar para dormir, protegidos por uma lona azul sobre outra vermelha, amarradas ao carro, que aquecem e garantem intimidade.
«Ninguém nos incomoda e nunca pegaram nada nosso.
É só não deixar as coisas para fora porque aí outros catadores podem levar."
É a lei da concorrência na terra da concorrência;
São Paulo para todas as camadas sociais.
Rosana Rodrigues e Emerson dos Santos ainda conseguem 'paço para duas caixas vazias de detergente, com roupas que lavam em albergues, locais onde também alimentam-se, mas onde não pretendem viver.
«Não gostamos porque não podemos dormir juntos e também tem muita disciplina.
Tudo tem horário e é muito difícil arrumar vaga.
Você consegue um lugar para domir à meia-noite e precisa acordar às cinco da manhã», comenta.
Vestida com uma regata preta, chinelos laranja e saia longa, colorida, ela joga uma camisa sobre as pernas para limitar minha visão sobre seu corpo e mantém no ouvido os pares de fone conectados ao rádio preto, agora, desligado.
Assim permanece, mesmo quando pergunto sobre seus sonhos.
«Não tenho muitos sonhos.
Apenas não quero ficar morando num carro velho a vida toda.
Mês que vem quero alugar um quartinho."
Número de frases: 33
Leia mais em www.anonimatosa.blogspot.com e www.anonimatosa.com A o reassumir 'te ano, a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, o Mestre Ariano Suassuna, foi enfático ao declarar a política que adotará em sua gestão -- será Armorial.
É isso, o Movimento Armorial agora é plano de governo.
Dito isto, nós que vivenciamos o Manguebeat dos anos noventa, não deixamos de lembrar as declarações radicais (mesmo na época) do velho mestre, nos idos e vindos de noventa e cinco, um ano após o lançamento do antológico álbum De a Lama ao Caos, que voltaria a atenção da música pop mundial para o Recife.
«Eu não entendo em que uma música ruim como o rock, possa contribuir com uma coisa boa como o maracatu?--
Perguntava o Secretário.
Justificando com isso, que não preveria verbas para 'se «tal movimento» ao qual tratava simplesmente como rock.
Pois bem, passaram-se mais de dez anos e achavamos que o tempo tivesse respondido a pergunta do Mestre, sim, pois indiscutível mesmo em 'ta vida, só a sabedoria do tempo, mais nada ...
A razão do tempo deveria tê-lo feito enxergar, que o som do Manguebeat, e Chico Ciência (como resistia em chamá-lo), não só contribuiu com o velho e bom maracatu, mas foi além, aproximou as novas gerações das nossas manifestações culturais tradicionais, de uma forma muito mais prática, direta, efetiva e pacífica, do que a intelectualidade restritiva do Armorialismo.
Se o Manguebeat bebeu na fonte ou reprocessou as informações, respirando o ar de Casa Forte de passagem pra Rio Doce, sei lá, eu não tenho aqui a intenção da informação, mas uma coisa é certa:
O tempo passa, o tempo voa, e a poupança bamerindus, nem sempre continua numa boa ... (
desculpa). Então hoje, 2007, nos deparamos novamente com o tema, agora muito mais complexo e por sua vez, também tratado de uma forma muito mais ' simplista ' por o Secretário.
Só que hoje, além de ao vivo e nos jornais, graças a tecnologia, acompanhamos com a possibilidade de voz a quem queira opinar sobre o assunto, com agilidade na rede.
Ariano, no último final de semana em sua cerimônia de posse, uma aula 'petáculo aberta ao público no teatro Santa Isabel, concorridíssima com lotação 'gotada, de tanta gente querendo prestigiá-lo, em sua fala inaugural de governo, citou infelizmente (ou não), como exemplo da necessidade da implantação de sua particular política cultural, o sucesso da musica, ' Pra me Conquistar ', da Banda Calypso, cantarolou uma 'trofe, e referiu-se aos seus compositores como ' idiotas ', " imbecis ', arrancando gargalhadas da platéia.
O país é livre, e os artistas mais ainda, mas na posição de Secretário de Cultura empossado, sua opinião, poderia ser respeitada, se fosse em sua casa, ou então, na universidade, ampliando o debate, e discutindo com a sociedade e principalmente com 'pecialistas acadêmicos, que a muito, pesquisam e 'tudam sobre o tema, e que 'tão fundamentados em discordar de sua opinião, inclusive, desde o tempo em que equivocou-se, de forma também preconceituosa com o Manguebeat, que tão humilde foi no cumprimento de seu objetivo muito mais amplo do que o pretendido a princípio.
É muito simples dizer que o brega é uma merda, lá no Burbúrio, tem dias que digo isso de duas em duas cerveja, talvez o punk tenha acabado, ou o rock em inglês seja ridículo, ou todo intelectual seja um chato do caralho ...
isso num bar é papo ótimo, mas dito por a boca de quem vai gerir a cultura do meu 'tado, tem outro peso ...
E Agora, O Meu Maracatu, PESA Uma Tonelada!!!
Admiro e respeito o Mestre Ariano, sua obra e movimento, desde que conheci e integrei a família e a universidade do Balé Popular do Recife, nos oitenta e tal, a sua 'tética e fundamentos fazem pirar qualquer um que se interesse por gente, por a nossa cultura e nosso povo em sua 'sência de genialidade, complexidade, nobreza, e simplicidade principalmente, pois se não fosse assim, não poderíamos partir do princípio e licença poética de que não somos nada, e disso ...
Reprocessar, desconstruir, quebrar conceitos, ampliar valores, agregar, evoluir, abrir o peito ...
são algumas das palavras de ordem que tenho dado ouvido em 'tes tempos, e tal acusação me fez vestir a carapuça de brega ou a la ursa.
Li a resposta do produtor da Banda Calypso, nunca pensei que reveria meus valores a ponto de reverenciar a nobreza de tal Banda.
SE O Diabo É O Pai do Rock, O HD É Deus De Tudo ...
Viva XIMBINHA, Viva O DJ DOLORES, Viva Os Maracatus De Aliança, E PRESERVEM As Baleias ...
Eu num sei tu, mas:
Eu Vim Com A Nação ZUMBIII!!!!
Número de frases: 25
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O documentário «Homens», de Lucia Caus e Bertrand Lira, é um retrato da vida áspera por que passam muitos homossexuais no interior do Brasil
Flores Horizontais flores da vida
flores brancas de papel,
da vida rubra de bordel,
flores da vida
afogadas nas janelas do luar
carbonizadas de remédios, tapas, pontapés,
'curas flores puras, putas, suicidas, sentimentais.
Flores horizontais.
Que rezais?
Com Deus me deito.
Com Deus me levanto.
(Oswald de Andrade)
O belo e tocante poema «Flores Horizontais», de Oswald de Andrade, musicado por José Miguel Wisnik, ganhou força e eco no timbre inconfundível de Elza Soares.
E é a eles, ao poema e à música, que recorro como epígrafe deste texto, 'crito agora, a poucos minutos de ter assistido ao que eu chamaria de poesia filmada.
Falo do documentário «Homens», lançado na última quinta, 12, em Vitória, dirigido por a capixaba Lucia Caus e por o paraibano Bertrand Lira.
O curta, de 22 min., mostra de maneira direta, sem rodeios, a vida amarga -- às vezes risonha, sempre tocante -- de homossexuais de cidades do interior do Nordeste.
Em a primeira cena, Bárbara Alice de Mônaco arruma a mesa de sua casa, com uma toalha 'tampada, castiçais com velas e um vaso de flores.
Ela decora a sala, como quem prepara um evento, ou vai receber uma visita.
A sala e a mesa 'tão prontas, para que a câmera revele aos olhos atentos dos 'pectadores os encontros e dissabores da personagem.
Em a seqüência, de forma linear, outras oito personagens contam parte de sua história.
Seus conflitos, suas conquistas, suas angústias, são postos sem medo diante da câmera.
São gays que se identificam como homem, mulher, como gente.
Pessoas que enfrentaram e enfrentam o preconceito em cidades bem pequenas, onde a tolerância parece menor que nos grandes centros.
Gente simples, de olhar simples, com sorrisos e lágrimas verdadeiros.
Pessoas de alma grande, de coragem exemplar, que se pintam, se travestem, se embelezam para a vida;
sem ter vergonha de ser o que muitos ainda 'condem.
Homens que assumiram sua verdade, ainda que sob a pena de serem excluídos, mal vistos, ridicularizados.
O salto alto de muitos de eles -- ou de elas --, o perfume, o batom, são gostos, cheiros, cores que os encorajam;
são toques de penteadeira que ornamentam suas peles, cabelos, suas hastes, corpos cravados de 'pinhos que se fazem flor.
Homens-gays, travestidos ou não, que suportam o sol, a selva social, repleta de feras hipócritas, para preservarem seu mais belo prazer:
a vida levada ao 'tremo, vivida até a última pétala.
Sem medo de ser flor, sem medo de ser homem, sem medo de ser.
Bem como as flores de Jean Genet, no seu maravilhoso livro Nossa Senhora das Flores, os «homens» de «Homens» são o reflexo da coragem, da afronta ao mundo idiota dos preconceituosos.
Mas, também, são o reflexo da carência de dignidade, de educação, de oportunidades, para quem vive à mercê do acaso na realidade crua de muitas regiões brasileiras.
Como a flor, de «A flor e a náusea» de Drummond, muitas vezes a flor se faz 'pinho para agredir seu agressor, para resistir à aridez do pouco de lugar que lhe resta em meio a tanta falta de respeito e humanidade.
A vida, às vezes, é assim.
O curta termina ao som de Marcela Lobo, com a música «Foi Assim» -- letra de Renato e Ronaldo Corrêa, sucesso na voz de Wanderléa e de Jane Duboc.
AMAPÔLA Em Duas Sessões
Faltou 'paço para tanta gente numa das salas do Cine Jardins, onde foi lançado o documentário.
Tanto que foram necessárias duas sessões, para que todos pudessem assistir ao belo e sensível trabalho de Lucia e Bertrand.
E, como se não bastasse o que se pôde ver na tela, uma das personagens veio diretamente de Gurinhém, Paraíba, 'pecialmente para o lançamento.
Sob aplausos e reverências, a cativante e devidamente maquiada Amapôla agradeceu a todos dizendo que adorou conhecer a cidade e que 'tava muito feliz com o resultado do filme.
Ela e todos ficamos 'perando outras flores, com a promessa dos diretores de transformar o material captado num longa.
Quem curte os festivais de cinema por o Brasil, aguarde!
Termino dando-lhes de presente um fragmento do ácido poema de Drummond, A flor e a náusea, que, num certo sentido, dialoga com o curta " Homens ":
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não 'tá nos livros.
É feia.
Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão em 'sa forma insegura.
De o lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia.
Mas é uma flor.
Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Número de frases: 65
http://www.estadao.com.br/turismo/noticias/ 2006/ nov / 07/237.h tm Em o interior do Amazonas, com poucos livros existentes sobre a história das cidades, cabe a algumas pessoas mais vividas a transmissão oral dos conhecimentos que acabam servindo de fonte para historiadores, imprensa e até representantes de instituições governamentais.
No caso da Vila Amazônia, localizada a alguns minutos rio abaixo da cidade de Parintins, o morador José Zeferino Braga, 59 (foto menor), é uma referência por parte dos comunitários locais para 'te tipo de informações.
Mesmo sem ter nascido no início do povoamento de ali, ele relatou para a reportagem do Overmundo o conhecimento que lhe foi transmitido e o que presenciou durante toda sua vida morando num lugar historicamente relevante e pouco divulgado.
Um relato que transparece o valor da descoberta por meio da experiência de consulta à história viva.
Com um patrimônio pouco preservado para um local que foi responsável por impulsionar a economia da região, a comunidade de Vila Amazônia adormece em seu potencial turístico.
A localidade ficou conhecida por a imigração japonesa e a produção industrial da juta -- fibra vegetal trazida do oriente -- e é no quintal da casa de José Zeferino, em meio ao trânsito simpático de galinhas, porcos, pombos e sob a sombra de um jambeiro, que acompanhamos uma trajetória sócio-econômica, na interpretação de alguém que guarda na memória o passado de uma Vila nada conformada por viver apenas começos.
Recordações amparadas em boa parte por o auxílio de uma grande e aparentemente pesada caixa de papelão lotada de recortes de jornais, fotografias e documentos.
Em o início de seu relato, ele conta que a primeira moradora do local foi uma viúva.
«Ela permaneceu aqui sem nome, conhecida apenas como viúva», afirma, apontando o ano de 1922 como o início da exploração econômica da área.
«Em 'se ano, um coronel chamado Batista, requereu as terras da União para trabalhar em agricultura», afirma, considerando que mesmo produzindo remédios caseiros como raízes, cascas de pau, e extraindo óleos vegetais de copaíba e andiroba, o trabalho foi interrompido por denúncias de atividade predatória.
«As árvores de Amapá 'tavam acabando e até hoje é difícil encontrar pau-rosa, de onde se tira uma 'sência maravilhosa», recorda, enfatizando que apesar da não existência de órgãos de proteção ambiental, sempre houve a percepção de parte dos caboclos sobre ameaças de extinção.
Tirando alguns papéis da caixa com paciência e cuidado, Zeferino conta que depois de 'ta interrupção, foi iniciada em 1927 a conhecida contribuição japonesa, com o presidente Getúlio Vargas autorizando a instalação do Instituto de Agronomia do Japão, e incentivando a imigração de colonos japoneses que chegaram em 1931, os chamados koutakosei.
«Foram 500 famílias que vieram e se 'palharam por a Amazônia, 20 de elas vieram para cá», diz nosso guia.
Em 'te período histórico, sua versão torna-se antagônica às poucas fontes oficiais e ao senso comum, que apontam a experiência do plantio da juta ter sido iniciada de modo experimental por os japoneses.
«Aqui o progresso destes colonos foi repetir o plantio de cereais como feijão, milho, além do guaraná, café, mandioca e a extração de látex das seringueiras», define.
Com a Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram vítimas de hostilidade e a maioria das famílias retiradas à força de " Vila Amazônia.
«O trabalho agrícola de eles era bem evoluído, mas foi interrompido com a guerra.
Apenas algumas famílias naturalizadas ficaram por desempenhar um papel muito importante na comunidade», conta, referindo-se ao conhecimento em engenharia elétrica dos Kurukawa, de agronomia por parte dos Hata, a mecânica dos Nomura e um conhecido médico da região chamado Toda.
J.G. Araújo e o acaso da juta
Encontrando uma anotação como quem acha algo que procura, José Zeferino afirma não ter a precisão do ano, mas entre 1937 e 1940, aponta o dia 26 de agosto como a data em que a Vila Amazônia ganhou um novo horizonte de desenvolvimento.
O empreendedor português J.G. Araújo chegava ao local de navio para ficar, trazendo 'trutura e distribuindo boas intenções.
«Ele chegou dizendo que era um índio católico, que 'tava aqui para ajudar a todos e já foi logo prometendo construir uma capela», conta Zeferino, que brinca com o método utilizado por o português para ser aceito.
«Ele disse que era índio para entrar na maloca».
Cumprindo suas promessas e melhorando a Vila, não demorou para aquele forasteiro se tornar chefe da comunidade que reunia cerca de 700 famílias.
Os japoneses já haviam partido da Vila Amazônia, de eles apenas restava um pagode -- construção japonesa de arquitetura típica em geral destinada à oração e reuniões coletivas -- erguido em taipa, vidro e telhas, mas que depois da expulsão servia de colégio.
Ainda assim, a notícia da Amazônia como destino viável ainda corria o mundo.
«Em 1943 chegou aqui um japonês vindo da Índia, mas só aqui percebeu que tinha chegado tarde».
Percebendo que perderia as sementes de juta que havia trazido, resolveu desfazer-se doando à comunidade antes de ir embora para morar sozinho do outro lado do rio.
Usadas de início para fazer canteiros na cidade, as sementes mostraram viabilidade econômica ao gerar mais 20 sacas de elas ainda no primeiro ano de plantio, um marco para a inauguração do maior ciclo econômico do local.
De a Vila para o mundo
A caixa de José Zeferino ainda 'tava na metade, já se passavam quatro horas e doze páginas bem preenchidas por um relato preciso em detalhes.
«A juta foi uma coisa muito bonita que aconteceu aqui, como a semente era abundante, qualquer menino que tivesse um 'paço no terreno de casa, desde que fosse na várzea, poderia cultivar e chamar pessoas da cidade para trabalhar».
Aqui ele se refere à mão-de-obra necessária ao processo de beneficiamento da fibra de juta, que era o produto exportado.
«É a mesma coisa até hoje:
você separa os paus, amarra em feixes e deixa submersos no rio por 15 dias, depois é descascar desfazendo os talos amolecidos em fibras e 'tender no sol para secar», explica.
Em 'sa época, toda a produção era enviada à Fabril Juta, montada por J.G.Araújo em Parintins como uma grande indústria exportadora.
Em 1962, com 15 anos, Zeferino trabalhava na confecção de placas de alumínio que identificavam o tipo da juta e o país para o qual deveria ser enviado.
«Comecei trabalhando no plantio, na cortagem (sic!)
até fazer a classificação.
Escrevi placas até em holandês».
Final repentino
A prosperidade durou ainda dez anos, até que em 1967, Zeferino conta sem disfarçar o tom de lamentação, a proibição do governo federal sobre o cultivo e exportação da juta no Amazonas, para implantação em seu lugar da agricultura convencional.
«A Fabril Juta quebrou do dia para a noite, sem emprego a marginalidade e os problemas começaram a aparecer lá em Parintins, para onde muitos foram procurar oportunidades que não encontraram, era gente demais».
Até J.G. Araújo, que desbravou as potencialidades econômicas do lugar, deixou investimentos e o seu casarão para trás partindo para Manaus, onde desenvolveu vários negócios e morou até o final de sua vida.
Até hoje, sua casa em 'tilo colonial (foto maior) é a única construção de destaque do lugar, que, mesmo sem conservação, sustenta a memória do desenvolvimento interrompido.
O pagode construído por os japoneses não existe mais.
Hoje com apenas 482 famílias, a Vila Amazônia aguarda por uma oportunidade duradoura de desenvolvimento carregando o peso de uma história de descontinuidade, pouco divulgada em função das baixas tiragens de louváveis iniciativas independentes ainda não vistas com interesse de massificação por editoras locais, historiadores, pesquisadores e imprensa.
Tanto a memória de seu José Zeferino como de moradores mais antigos, guardiões de tantos outros tesouros históricos na forma de caixas lotadas, aguardam que seu passado seja conhecido, na 'perança de assegurar, principalmente no âmbito político, o desenvolvimento e a visibilidade da Vila Amazônia com toda sua importância.
Como chegar
A viagem até Vila Amazônia é feita de balsa, e custa R$ 1,50 reais (somente ida) saindo do Porto da Francesa, em Parintins.
Caso o visitante queira conhecer os belíssimos balneários que cercam o lugar, é recomendável levar uma moto alugada com o tanque cheio, já que não há postos de gasolina no local.
A taxa para o transporte de moto custa R$ 3,00 reais (somente ida).
Número de frases: 52
Bom para voltar no último horário da balsa para assistir ao 'petacular pôr-do-sol a bordo e observar os botos que costumam se movimentar próximos das margens em 'te horário.
É tão bom ver o efeito que 'sa epoca do ano tem sobre as pessoas, é tão bunitu ver as pessoas todas juntas pra celebrar uma epoca tão linda ...
Ganhar, dar presentes, abraços, perdões, colaborações, sorrisos.
Lembrar dos bons e dos mals momentos, 'quecer os nossos problemas e pensar um pouco mais nos dos outros.
Estabelecer metas, analizar as metas antigas, planos, 'peranças.
Importante tambem é lembrar de agradecer por tudo aconteceu em 'se ultimu ano, agradecer as pessoas que tornaram sua vida um pouco mais feliz, que fizeram seu dia-a-dia amis completo, que lhe fizeram companhia, que lhe dizeram oq vc queria ouvir e o que você não queria, pois nunca vai dar tudo certo, o segredo é lembrar das coisas com carinho e pensar nas melhor intenções, e não 'quecer de ter as melhores intenções com qualquer um, pois é tão bom lembrar dos geitos de amor das pessoas q gostamos, seja ele qual for.
Lembre-se tambem de como era bom ganhar um presente no final do ano e de ter a atenção de pessoas que se importão com você, ai se lembre das crianças que não tem 'sa oportunidade, e dedique um pouco do seu tempo e de todas as coisas boas q tive durante os anos para criar momentos maravilhosos para as pessoas lembrarem do seu carinho por elas.
Pois muitas vezes tido que nós precisamos é um pouco de atenção das pessoas que gostamos..
Um Feliz Natal para a tds
Número de frases: 9
E que o ano de 2007 seja maravilho
Três ônibus, um Desembargador, vários Juízes e Promotores de Justiça, dezenas de serventuários da própria.
Reinauguração do prédio do Fórum.
Isto tudo na Praça das Vitórias, parte da qual rebatizada de «Praça de Eventos».
Para abrilhantar, ainda mais, o 'petáculo cívico da prestação jurisdicional gratuita e a céu aberto, a Prefeitura de Oeiras monta um palco onde, todas as noites, se apresentam conjuntos musicais, a pretexto das comemorações juninas.
A cidade se agita, ao som do forró e à procura de «seus direitos».
«Finalmente consegui me livrar daquela desgraçada», comemora um recém-divorciado, separado da «megera», de fato, há mais de doze anos.
De outro lado, mais de cinqüenta casais, enfatiotados e chics «no úrtimo» regularizam sua situação legal num novelesco «casamento coletivo».
Uma festança, para ninguém botar defeito, com direito a bolo e tudo.
Em os brindes são consumidas dezenas de garrafas de cidra e, é claro, cerveja.
A mãe solteira, visivelmente muito emocionada, pois acabou de obter, por parte do pai da criança, o reconhecimento da paternidade, mostra, a quem quiser ver, a apostila em que o pai reconhece o filho na certidão de nascimento.
Seus olhos 'tão cheios de lágrimas e ela se torna foco da atenção de todos, tanto os magistrados quanto o povo.
Todos a rodeiam, e as rádios locais se posicionam para entrevistá-la:
«-- Este é um momento que não vou 'quecer nunca na minha vida!
Meu filho querido agora tem um pai!
Quero agradecer a Justiça Ignorante por ter-me propiciado 'ta alegria».
Passadas as risadas, e superados os constrangimentos, inclusive da moça, que não tinha, é evidente, a intenção de ofender ninguém, fica, no entanto, uma reflexão:
Será tão descabido classificar a Justiça brasileira como ignorante?
Ou a graça da mancada da moça consiste, justamente, na adequação daquele adjetivo ao poder judiciário brasileiro?
Importante:
Esta história me foi contada, em traços largos, por o Dr Bill, iminente Promotor Público, além de, na FNT, promover causas nobres.
Sendo meu grande amigo, a ponto de notarem a minha ausência quando se deparam com Bill em alguma festa, algumas pessoas podem achar, não sem razão, que eu o 'tou mencionando só pra puxar o saco de ele."
verdade: eu me disponho a fazer tudo para incentivar Bill a continuar a ser o grande sujeito que é, de uma nobreza e generlidade ímpares, grande 'teio de Oeiras
beijos e abraços
Número de frases: 24
do Joca Oeiras, o anjo andarilho Há um bom tempo tenho tido a vontade de realizar um ensaio em 'sa metrópole e finalmente, após 15 anos morando no Japão, mudei-me para cá, Tóquio, no início do ano e pude iniciar a captação das imagens de forma mais conveniente.
Andar à toa por as ruas de 'sa cidade já é persuasivo o bastante para levar muitos, com formação e competência oficializadas ou não, como é o caso deste autor, a ter a irremediável vontade de expressar, maravilhados, o seu ponto de vista, opinião ou experiências em 'se novelo de aço e concreto, onde o vai e vêm de milhões de pessoas é regido de forma maestral por os 24 compassos do relógio.
Atravessando um amplo e superlotado cruzamento no bairro de Shibuya numa tarde de sexta-feira, imaginando que cada uma daquelas pessoas pode ir a um restaurante, fazer compras, chegar em sua moradia no horário previsto e intactas, tanto de corpo quanto de bens, e que na segunda-feira seguirão aos seus respectivos e suficientemente remunerados empregos, arrisco dizer que Tóquio é como uma São Paulo que funciona para a maioria (não é preciso ter um conhecimento mais consistente que um fiozinho de merda para saber que na metrópole paulistana o 'quema é diferente, por mais que você não queira cuspir no prato que comeu).
Então deixo aqui 'te primeiro ensaio fotográfico sobre Tóquio, postado de forma um tanto crua e improvisada mas que não deixa de valer como minha primeira colaboração.
Youroshiku.
Número de frases: 5
A hora e a vez do designer brasileiro mostrar para que veio ao mundo.
O que seria melhor do que criar, mostrar ao mundo sua arte e ainda ser avaliado de maneira colaborativa?
Ainda melhor seria ver o genuíno trabalho de designers brasileiros 'tampado no peito do povo.
A grande dificuldade dos designers que 'tão começando é encontrar 'paço para mostrar seu trabalho e obter reconhecimento.
Mas é possível usufruir de projetos nacionais que valorizam o trabalho de artistas brasileiros, iniciantes ou experientes, criativos ou em busca de inspiração.
Um exemplo de eles é o Camiseteria, onde artistas criam desenhos artísticos para uma camiseta e tem seu trabalho exposto e avaliado por centenas de pessoas.
A recompensa vem em forma de produtos com design criativo.
É a chance do designer colaborar com o desenvolvimento do design artístico no Brasil e ser reconhecido por isso.
Número de frases: 8
www.camiseteria.com
A lembrança viva que guardo quando ouço falar em Mário Moutinho é de um pequeno disquete azul de 3½ " em cuja etiqueta 'tava 'crito Flight Simulator.
Foi um presente que meu pai (também Mario, mas não Moutinho) trouxe de viagem, da primeira vez em que ele foi a Portugal, e conheceu o xará e colega museal na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia (ULHT).
Eu poderia começar 'te texto, então, metaforizando que Mário o Moutinho foi quem certa vez me deu asas.
E talvez tenha me feito olhar a caixa do computador como algo além de uma caixa catódica.
E talvez tenha me feito ver aqueles joguinhos de avião como algo além da monotonia de uma simulação 3d imperfeita.
Hoje, o F-14 (ou seu similar na realidade alheia a minha memória) e o disquete azul do Flight Simulator são praticamente peças de museu (e isso de certo modo me faz finalmente engatar no fio da meada).
Não é de agora que o universo museal -- por o próprio sufixo que carrega, um parente próximo do universo tropical e não do universo tropicológico -- se aprochega de mim e de minhas pautas.
Mais do que ser filho de museólogo, 'se imaginário dos museus caiu sobre minha cabeça, como a chuva quando forma poças d' água na Voluntários da Pátria, a partir da literatura e do jornalismo -- minhas duas serpentes de caduceu.
Reparem que a maioria absoluta de meus textos, aqui mesmo no Overmundo, geralmente traz à luz uma de minhas memórias recônditas, uma passagem da infância, ou algo que simplesmente lembrei de registrar.
Faço isso não porque pasteurizo meus 'critos mas porque o apelo da memória é quase tão proustianamente inevitável que sinto a obrigação de pronunciá-la nos saboreios dos meus narizes de cera. (
E veja que a cera também me remete de um jeito ou de outro ao Madame Toussaud.)
Pois bem, chega de enrolar e vamos logo ao que interessa.
Fui um pouco desnorteado conversar com ele, sem saber ao certo o que explorar numa entrevista, mas o papo fluiu tão bem, que logo 'sa imagem do Flight Simulator veio à minha mente para que eu necessariamente começasse o texto por ela.
Minha cabeça latejava com o final 'tonteante da entrevista, que era tudo o que eu queria ouvir de um museólogo quando comecei, em meu projeto de pesquisa no mestrado, a 'tudar o Museu da Maré como uma ferramenta de comunicação.
Houve no bate-papo outras passagens interessantes, inclusive sobre o trabalho desenvolvido por Mário e outros alunos e pesquisadores no Museu do Casal de Monte Redondo, mas eu fiquei mesmo encantado quando o ouvi dizer do museu como serviço -- e ainda mais encantado porque, por o seu sotaque lusitano, pus minha discriminação auditiva temporariamente a prova quase que para ouvir o museu como «ser vivo», o que não deixa de ser.
Foi aí que as vozes começaram a apitar:
«Flight simulator», «Comece a matéria por o Flight Simulator».
Talvez o disquete 3½ " pudesse constar nas manchetes do meu inventário museológico particular de hoje.
Talvez eu só 'teja desenvolvendo uma psicose ...
O fato é que eu obedientemente aquiesci e aí 'tá o Flight Simulator na abertura da cabeça de 'ta entrevista (diga-se de passagem, um " cabeção ").
Desde o disquete azul e a viagem de meu pai a Portugal, eu e Mário sempre nos cruzávamos levemente entre nossos interesses, mas lembro apenas de uma ocasião rápida em que nos conhecemos de fato.
De mais a mais, eram apenas poucos recados por intermédio de meu pai.
Por 'sas e por outras, foi bom 'tar com Mário Moutinho, para ouvir sobre seu trabalho e suas idéias.
Mário é arquiteto urbanista e antropólogo de formação.
Ele 'teve no Brasil na última semana, juntamente com sua simpatissíma 'posa Judite Primo (brasileira, museóloga por a Unirio e também da ULHT -- mudando-se a ordem dos adjetivos da apresentação conforme a conveniência identitária), para ministrar um curso de Estudos Avançados em Museologia no Museu Histórico Nacional (MHN), berço da pioneira intenção do Curso de Museus, de Gustavo Barroso.
Mário é português, e, entre outras atribuições, ocupa hoje o cargo de reitor da Universidade Lusófona -- donde lhe pergunto se o acordo ortográfico anunciado com pompa e circunstância por os países da comunidade lusófona mudará alguma coisa, e no que ele me responde " não há que inquietar, 'tá cheio de bom senso que se normalize a ortografia e ninguém vai dizer que traí o comboio por causa disso.
Mas criou-se, talvez até por causa dos editores, dos mercados livreiros, em Portugal, uma forte oposição ao acordo, mas que é daquelas coisas ...
E, se simplifica, pois é evidente que tem que se continuar."
Em a visão anteolhada de nós outros jornalistas, acordos ortográficos só dão mais trabalho para decorar regras, e pingue-pongues são coisa de profissional preguiçoso.
Não se diz mas é como se se dissesse que o bom jornalista é quase como um palafreneiro a guiar o olhar dos leitores.
Tampouco se costuma reconhecer num meio acadêmico de tão difícil linguagem e referências ad referendum:
o bom pensador é aquele que não precisa de intérpretes.
Relutei, relutei e relutei em fazer da entrevista um enooorme pingue-pongue.
Mas foi então que resolvi seguir a fórmula do pingue pongue de uma pergunta-apenas, pois que no fundo a entrevista responde uma só e única questão, embora as minhas interrupções (quase desnecessárias) 'tivessem ali para cutucar a fala do Mário.
Então, fique à vontade para lê-la como quiser.
1.
Em que áreas você atua?
Sua formação é mesmo em Urbanismo, certo?
2. O que são 'tas autarquias?
3. Esses fóruns então são encontros?
Eles têm caráter também de oficinas?
4. Quais são as áreas principais em que 'ses bolsistas requerem formação?
5. Há um programa de bolsas destinadas a alunos brasileiros 'pecificamente?
6. Fale um pouquinho sobre 'se modelo do curso que vocês 'tão dando aqui, de Estudos Avançados em Museologia.
Quem propôs 'se modelo?
Foi a universidade?
Foi a ABM?
7.
Em que ano começou 'te doutorado em museologia?
8. Então o programa de doutorado foi lançado com o doutoramento honoris causa do [ministro] Gilberto Gil em abril deste ano?
9. O modelo é o mesmo lá em Portugal?
Porque aqui as aulas são concentradas em algumas semanas apenas ...
A carga horária é semelhante?
10. Fale um pouquinho sobre o tema das suas aulas 'pecificamente.
O curso que você dá em 'te doutoramento é sobre a função social dos museus ...
OVERMUNDO Mário, fale um pouco sobre a museologia social.
O que é 'ta corrente, 'ta cadeira, 'ta aplicação da museologia?
E como a museologia social compreende o diálogo entre os países lusófonos (entre eles o Brasil)?
São duas áreas as que eu trabalho.
Por um lado a Museologia, por outro o Urbanismo.
Em ambas não havia formação propriamente que se assumisse como formação universitária em Portugal.
Em 1990, criamos, eu e um grupo de colegas motivados, os dois cursos.
E o facto de 'tar a criar cursos novos no país é facto 'timulante, porque é preciso compreender o que a sociedade vai pedindo e ter isso em concentração.
Minha formação é em Urbanismo e em Antropologia, daí que eu tanto vou para um quanto para outro, chegando na Museologia.
Um dos aspectos deste trabalho é que todos os anos nós fazemos reuniões entre a Museologia e as autarquias, porque em Portugal o poder autárquico é extremamente forte.
São 300 autarquias.
Autarquias são como se fossem prefeituras.
Em Portugal, são territórios.
A mais baixa divisão administrativa é a junta de freguesia.
Juntas de freguesias, que podem ter cada uma cinco quilômetros de raio, fazem conselhos, ou seja, municípios.
Municípios fazem distritos.
Mas o poder mais altivo é o município, que chamamos de autarquia.
Portanto, todos os anos nós fazemos reuniões abertas:
«Fórum Nacional Museus e Autarquias «ou» Urbanismo e Autarquias».
É uma maneira de ter universidade, professores, alunos, funcionários e autarcas em conjunto.
E isso é uma fonte inspiradora de trabalho.
A possibilidade de dar formação não é em abstrato.
É que na medida em que os problemas são mais complexos, problemas da cidade e problemas da cultura, é necessário mais acção política.
São oficinas, são debates, são apresentações às quais vai gente de todo o país, sabendo que o país é do tamanho do 'tado do Rio de Janeiro.
São dois ou três dias, sempre fora de Lisboa, o que nos permite o encontro de 'sas realidades.
Mas mesmo dentro de uma área de loteamento pequena nós temos cerca de 1,2 mil museus.
De esses 1,2 mil museus, 1.050 têm menos de 30 anos, e foram criados na seqüência da Revolução de Abril de 1974.
Ou seja, quando houve oportunidade das pessoas se organizarem, elas enveredaram por trabalharem e dedicarem tempo real às associações, centros culturais, à museologia.
O seu tempo de colaboração tornou-se bastante grande e viável.
Uma situação de ditadura inviabiliza 'te trabalho, 'te envolvimento.
Pois 'tes 1.050 museus são museus de associações, de empresas, coletividades, de municípios.
Hoje em dia, quando você percorre o país, é rara a população que não tenha um projeto de que se goste.
Em termos de universidade, nas funções que eu tenho agora e que dou continuidade a uma política anterior, a gente tem uma noção muito forte da responsabilidade social global da universidade.
Esta responsabilidade social manifesta-se de várias formas:
ao introduzir novas platéias, ao, entre aspas, dar o exemplo nas mudanças que hoje em dia são obrigatórias por causa da União Européia, como seja por exemplo a Fórmula de Bolonha.
Em termos de educação, a universidade 'tá à frente indiscutivelmente.
Por compreender -- o que faz todo sentido -- que precisamos de uma universidade aberta, que 'teja atenta ao que se passa no exterior.
Por outro lado, é uma universidade privada, portanto, rege-se por as regras usuais de qualquer entidade privada.
É uma cooperativa.
Nós, por exemplo, temos mil alunos bolseiros, todos os anos, provenientes dos países africanos de língua portuguesa.
Nós somos o melhor projeto em Portugal de apoio à formação de recursos humanos em 'ses países.
Podemos dizer que, por exemplo, metade desses bolseiros vêm de Cabo Verde, que é um dos países em África que tem dado mais certo.
Saiu agora da situação de país subdesenvolvido para país de médio-desenvolvimento.
Abriu um acordo, uma parceria com a União Européia, integrou a Organização Mundial do Comércio, e de facto é um país onde tudo funciona e onde a formação é absolutamente 'sencial, onde há uma consciência de 'sa necessidade.
As bolsas cobrem as áreas todas da universidade.
E a universidade praticamente cobre todas as áreas correntes.
Desde Humanidades às Tecnologias, então, em todas as áreas.
Este ano iniciamos um pequeno programa de bolsas para mestrado e doutorado com alunos do Brasil.
Essas 50 bolsas são abertas a qualquer cidadão brasileiro.
No caso das instituições com as quais a universidade tem protocolo em termos de mestrado e doutoramento, as pessoas que de lá vierem têm 30 % de devolução.
Em o caso deste curso que 'tamos a dar aqui, há um vínculo entre a universidade e a Associação Brasileira de Museologia, todas as pessoas que seguirem para o doutoramento, quando forem para o segundo ou terceiro ano de doutoramento, terão 'te benefício.
Toda a formação que temos feito, tanto em urbanismo quanto em museologia -- mas particularmente em museologia --, metade dos professores tem sido sempre professores do Brasil, que tem uma tradição de ensino, por a Unirio e por a Ufba.
E, portanto, é com 'tes professores que temos conseguido reunir um corpo discente qualificado.
Trabalhamos assim durante uma dezena de anos em termos de mestrado.
E a universidade só tem dez anos, anteriormente era um instituto.
Portanto, o doutoramento aparece já com os professores brasileiros a darem abertura.
Fizemos o pedido para a abertura do curso e não havia hipótese do pedido não ser aprovado, por o tanto que já desenvolvemos na área.
Então iniciamos o curso em 'te ano letivo, que acabou agora, 'tá acabando.
2007-2008. E foi o momento da consagração e do 'forço de anos e anos de trabalho em prol da museologia social, da museologia comprometida, no âmbito daquilo que o Gil 'tá a fazer no Brasil, em termos de Política Nacional de Museus, que é certamente das política mais, eu diria, mais progressistas, mais consistentes em termos mundiais.
Assim, fazia todo sentido dar o doutoramento honoris causa em Museologia ao Gil por todo 'se trabalho.
E os resultados 'tão aí à vista.
Portanto, 'te que foi criado lá [na Universidade Lusófona] acaba por ser o primeiro doutoramento em Museologia em língua portuguesa.
E há mais professores brasileiros do que professores portugueses.
Então era lógico que o curso tivesse que ser dado também no Brasil.
E, como no Brasil não há ainda um programa de doutoramento, encontramos uma solução:
uma entidade civil assegura os cursos avançados, e através de um protocolo entre a ABM e a universidade nós garantimos que damos equivalência à parte curricular.
Porque aquilo que 'tá a ser feito aqui é a mesma carga horária, os mesmos programas e os mesmos professores.
Não há razão nenhuma que possa impedir que a mesma coisa seja igual, sendo dada em Lisboa ou sendo dada no Rio de Janeiro.
O fato de ser aqui no Museu Histórico Nacional -- na verdade 'te museu tem a tradição de ter sido sempre o impulsionador da formação aqui no Brasil desde o primeiro curso de museologia -- só vem a somar.
Mas o interesse de fazer 'te curso aqui no Brasil e agora tem a ver também com o fato de 'tarem a nascer cursos de licenciaturas e bacharelados fruto da Política Nacional de Museus por todo o Brasil.
Então, nosso grande objetivo e sonho é que 'te curso que 'tamos aqui a fazer possa, dentro de dois ou três anos, ter dez, doze pessoas doutoradas em Museologia -- que trabalham 'pecificamente a Museologia, como uma área disciplinar autônoma.
Não são teses de Arqueologia aplicada à Museologia, nem Museologia aplicada à Arqueologia, à Antropologia, ou à História, de facto o que 'tá em questão é a Museologia como área disciplinar.
Temos aí o curso cheio, 25 alunos.
Em Portugal o curso é dado ao longo do semestre.
Aqui, a carga horária 'tá concentrada.
Porque as pessoas que vieram, vêm de todo o Brasil.
Portanto, para viabilizar isso, era necessário concentrar as aulas.
Em o meio deste período, deste mês e meio, temos uma semana de pausa, e depois quando acabar a parte letiva propriamente dita temos mais dois meses para leituras e avaliação.
E eu penso que já é suficiente.
Depois, os alunos inscrevem-se naturalmente no doutoramento para concluirem as suas teses, com as orientações dos professores que são os mesmos que nós usamos em Portugal, portanto, vão ser duas coisas muito similares.
Evidentemente que as teses irão refletir a realidade cultural museológica do Brasil e, lá em Portugal, refletem a nossa.
Apesar de haver questões que ultrapassam o facto de serem em Portugal e no Brasil.
Há temas que são universais na Museologia, que é o entendimento dos museus como entidades prestadoras de serviço:
isto, por exemplo, é válido em qualquer parte do mundo, para quem é português e para quem é brasileiro.
Então a gente acredita que vai dar certo.
E por a qualidade dos alunos -- alunos entre aspas, porque 'tamos a falar de professores universitários -- isso nos dá uma garantia.
Em o fundo, o meu curso em particular é sobre a função social dos museus, que, afinal, é a museologia do pequeno mundo.
Com todo o respeito por as grandes instituições museológicas, elas têm problemas diferentes das pequenas instituições:
de tutelas, de recursos, de pessoas que lá trabalham, de 'truturas, de funcionamento, das parcerias, tudo são situações diferentes.
Quando falamos de museologia social, 'tamos a falar da museologia, da forma de fazer museal, dentro de 'sas pequenas instituições.
Isto significa que há formas de organização que não são tão hierarquizadas, onde todas as pessoas são obrigadas a partilhar uma parte de todas as responsabilidades.
As problemáticas que são plantadas entre os museus locais têm mais a ver com as necessidades locais.
Então o que é nós trabalhamos?
Trabalhamos exatamente as mudanças nos paradigmas do que é patrimônio, do que é memória, do que é 'quecimento, do que que é a acção educativa do museu, de qual a diferença entre público e utilizador.
Tratamos da importância da memória singular:
cada visitante do museu é diferente um do outro.
Em os grandes museus, visa-se a massa do grande conjunto dos visitantes.
E portanto um denominador comum.
Acontece que no museu local a pessoa consegue ter mais atenção, sublinhando-se a própria personalidade e individualidade de cada uma das pessoas.
Depois, tem-se de ter em consideração que as pessoas quando chegam no museu, têm uma capacidade de decidir e de 'colher sua própria informação que não tinham há 15 anos.
Aquilo que o museu dá a um jovem hoje é 1 % do conhecimento que ele tem sobre o mundo.
Que, há 15 anos, metade já era o que a televisão mostrava e metade o que se lia na 'cola ou que os pais ensinavam.
Hoje, provavelmente é 80 % do que se tira da internet, 10 % para a televisão e ficam 10 % para a família e para a 'cola.
As posições se alteraram.
Os valores podem não ser 'tes, mas há uma autonomia grande dos visitantes.
E, logicamente, a relação do museológo para com a sociedade também muda.
Ele deixa de ser administrador do museu para ser um agente de intervenção e de acção local.
[Em a aula de] Hoje, vou tratar dos museus como serviços.
Os museus geralmente dizem que prestam serviços mas não atuam como entidades prestadoras de serviços.
O que quero chamar atenção é que, se os museus entenderem melhor como é que funcionam os serviços, 'tarão em melhores condições de prestarem 'ses serviços.
Quer seja serviços em termos de grandes instituições, quer seja em termos comunitários.
Um outro ponto ainda tem a ver com os museus 'tarem submetidos às suas coleções ou os museus terem a possibilidade de eles próprios criarem seus objetos.
Em função das idéias, deve sempre haver um 'paço para criar aquilo que é necessário, os objetos que são necessários.
Isto é uma coisa que nos museus de ciência sempre se fez.
São museus que construíram modelos para explicar leis, por exemplo.
Ou seja, construíram objetos comunicantes.
O museu me parece que tem 'se direito.
E ter 'se direito significa que ele pode ir à procura dos suportes para comunicar as idéias que ele tem.
Se os museus de ciência fizeram isso para explicar modelos das leis da química e da física, também se pode fazer a mesma coisa para explicar as funções sociais.
Por fim, ligada a 'ta idéia, há a questão da perecibilidade dos serviços em geral na sociedade.
Quando uma pessoa apanha um avião, para fazer uma viagem, ou é naquele momento, ou deixa de ser aquela viagem.
Bom, os museus têm 'tado sempre alheios a isso.
A mesma exposição de há dez anos continua a ser mostrada dez anos depois, como se o tempo não passasse.
E no extremo 'tá a minha concepção:
o que eu digo é que o museu deveria poder todos os dias de manhã ter uma nova exposição.
Portanto, à noite -- da mesma maneira que nas redações dos jornais é o momento do trabalho, toda a gente atarefada a compor o jornal, a preparar a impressão etc. para que no dia seguinte possa sair o jornal -- eu imagino que deveria se 'tar a trabalhar nos museus, para que, no dia seguinte, pudesse haver um museu que seria o equivalente do jornal, não nas duas dimensões que é a linguagem do jornal e da leitura do texto, mas nas três dimensões que é a linguagem talvez num outro nível.
O dia em que todos os museus 'tiverem a trabalhar à noite, e puderem propor de manhã sua nova coleção, aí já se compreendeu que certamente há uma capacidade de assimilação de informação nova, que as exposições tradicionais não contemplam e é por isso que elas ficam tranqüilas, durante dez anos sem nada.
Enquanto que ninguém compra, ninguém lê o jornal da véspera.
E exatamente para isso é que foram criados os recursos tecnológicos que permitem aos jornais serem impressos todos os dias.
E todos os dias 'tarem 'palhados por todas as cidades.
Em 'se momento, o museu 'tá completamente bloqueado, continua a utilizar o painel, a vitrine, e portanto as próprias condições de utilização dos recursos museológicos atrofiam as possibilidades do museu.
Há aqui um 'paço grande de trabalho e é aqui que entra o encadeamento das novas tecnologias.
Imagino eu que elas podem vir a ajudar a criar um museu diferente.
Não é nada utópico.
Utópico seria no século XIX 'tar a pensar em telefonar e transmitir a voz por meio digital.
Número de frases: 191
Tudo isto é uma questão de mudança.
Em 1977 «Star Wars» se converteu num massivo sucesso de mídia e George Lucas foi saudado como o precursor de uma nova era para a indústria do entretenimento.
Mas a idéia central de desenvolver um segmento completo de produtos culturais e mercadológicos em torno de uma idéia central teve início pelo menos uma década antes que «Luke Skywalker» e «Darth Vader» cruzassem seus sabres de luz.
O talento criativo e a capacidade empreendedora de Lucas foram determinantes para definir o formato que doravante seria adotado para administrar as franquias de cinema e televisão.
Mas nos anos sessenta, «007» já apresentava muitas características que hoje evidenciam uma franquia bem sucedida, embora não tivesse, ainda, repercutido em outras mídias e produtos.
Tudo começou a mudar em 1968 com a super-produ ção «O Planeta do Macacos» que se tornou um grande sucesso de bilheteria e uma febre mundial.
Em a 'teira de seu sucesso, a 20 th Century-Fox 'calou o mesmo elenco de consagradas 'trelas e aproveitou os caros e elaborados figurinos e cenários para encenar uma continuação do épico apocalíptico.
Os macacos se tornaram uma febre mundial e acabaram gerando três outros filmes de qualidade decrescente, uma curta série televisiva, séries de animação e quadrinhos, um vasto conjunto de produtos de consumo como jogos, brinquedos, «cards», figurinhas e até outros programas inspirados por o mesmo tema, como o humorístico brasileiro» O Planeta dos Homens «e o filme» Os Trapalhões no Planeta dos Macacos».
Ou seja, em 1977, a experiência de produzir franquias já existia, mas faltava aprimorar a fórmula e explorá-la à exaustão.
Foi o que George Lucas fez com maestria e talento sem precedentes.
«Star Wars» foi seguido por outros dois filmes de qualidade, sucesso e arrecadação retumbantes.
O sucesso da experiência foi rapidamente seguido por a indústria de cinema que passou a produzir seqüências de inúmeros filmes de sucesso, e de outros nem tanto.
Foi assim que franquias como «Aliens»,» Tubarão», «Rocky»,» Rambo», «O Poderoso Chefão»,» Jornada nas Estrelas», «Indiana Jones»,» Superman», «Batman»,» De Volta para o Futuro " e outras tantas foram construídas e desenvolvidas.
Em os Estados Unidos, as continuações foram batizadas de «SEQUEL» e passaram também a denominar as produções do cinema que migravam para a TV, como «Battlestar Galáctica» e «Stargate».
Mais recentemente, as produções de grande potencial mercadológico já começaram a ser concebidas para produzir «Sequel ' s», como as franquias derivadas dos quadrinhos (" X-Men» e " Homem-Aranha "), da literatura (" Senhor dos Anéis e Harry Potter ") ou mesmo criações inéditas (" Piratas do Caribe ").
Quando sua franquia começou a apresentar evidentes sinais de 'gotamento, George Lucas mais uma vez produziu nova revolução ao focar o desenvolvimento de novos produtos numa linha temporal anterior aos acontecimentos dos eventos originais.
O criador de «Star Wars» já experimentara 'te retorno ao passado quando produziu para a tela pequena uma série que mostrava a formação do jovem que se tornaria o grande arqueólogo «Indiana Jones».
Essa tendência de criar histórias anteriores multiplicou-se no cinema e na TV e ganhou o nome de «PREQUEL».
Pouco se falou, entretanto, que a convergência de «Sequel» para «Prequel» foi também primeiro explorada em «De volta ao Planeta dos Macacos», terceiro filme do épico simiesco.
Isso mesmo, novamente os macacos foram os primeiros a gerar um filme seqüência que abordava eventos numa linha temporal anterior à da obra original.
Esta combinação de fórmulas para o desenvolvimento de franquias continua sendo amplamente utilizada e não deve ser abandonada tão cedo.
«Hannibal -- A Origem do Mal «recentemente foi explicar a construção da mente doentia de» Hannibal Lecter «de» O silêncio dos inocentes».
«Jornada nas Estrelas» que já se notabilizara por vulgarizar viagens temporais, construiu toda uma série de televisão (" Enterprise ") para explicar (ou complicar?!)
a construção de seu universo ficcional.
Recentemente, começou a surgir uma nova e curiosa tendência, que por falta de termo melhor tenho denominado de «Reload».
Trata-se da retomada da idéia original de um universo ficcional, recondicionado para uma nova geração de expectadores e consumidores.
Tome-se recentes sucessos de cinema como «Batman Begins»,» Batman -- O Cavaleiro das Trevas», «007 -- Cassino Royale» e sua continuação (" Quantum of Solace ").
São produções que não se detém ao pretérito dos eventos originais, chegando a recontruir o universo ficcional, alterar de eventos biográficos e abordar um novo viés psicológico dos personagens.
Alguns poderiam dizer que são apenas refilmagens, mas elas dão um passo além.
As refilmagens ou «Remakes», se caracterizam por um roteiro reinterpretado por novos atores, com novas técnicas de fotografia, direção, etc.
Em o «Reload» os princípios 'senciais são preservados, mas todo o resto 'tá sujeito a transformações que aproximam o enredo do público atual.
A experiência mais bem sucedida até o momento foi a série «Battlestar Galáctica», que na nova produção para a TV manteve tão somente a idéia central, mudando praticamente tudo, até o sexo de seus personagens.
Antes de prosseguir, é importante registrar que «O Planeta dos Macacos -- a série» também já havia empregado 'ta fórmula ao recriar para a TV o universo dos símios com mudanças que permitissem a extensa exploração do tema com mais liberdade e menores custos de produção.
Recentemente foi anunciado um «Reload» da série «Jornada nas Estrelas», mais precisamente do relacionamento entre» Kirk «e» Spock " que protagonizam a série clássica numa tentativa de recuperar o prestígio e o sucesso que a franquia já teve no passado e que tem sido abalado por o desgaste da fórmula e por o envelhecimento de seu público.
A idéia em si parece boa, apesar de nostálgicos relutarem em aceitar novos rostos para encarnar personagens caros às nossas memórias.
Mesmo assim, é possível acreditar em bons resultados de empreendimentos do gênero.
Afinal, salta aos olhos a capacidade aparentemente inesgotável que a indústria do entretenimento tem, de recuperar e reciclar velhas fórmulas de sucesso para prosseguir explorando os temas de suas franquias.
Quando 'ta prática nos brinca com produtos de qualidade, todos saem ganhando.
Em o Brasil praticamente inexistentem experiências como 'tas.
A mais bem sucedida é sem dúvida «A Grande Família», série televisiva dos anos setenta que sofreu um» remake «em 2001 mas que passou por transformações que poderiam caracteriza-la como um» reload».
O conceito de franquia começou a colar em 'te produto quando foi lançado em 2007 o filme com o mesmo tema.
Com muito 'forço seria possível incluir o «Carga Pesada», mas seria pegar pesado demais.
Em o caminho inverso, migrando da tela grande para a pequena, o filme «Cidade de Deus» resultou na produção de duas temporadas da série «Cidade dos Homens», embora em 'te caso o conceito mais adequado seja o de» spin-off», termo que a crítica americana utiliza para designar séries ou produtos derivados do mesmo universo ficcional, mas não exatamente com os mesmos argumentos dramáticos.
Existem ainda alguns outros poucos exemplos (" Garota Dourada», «Irma Vap -- O Retorno» que migrou do teatro para o cinema), mas que não chegam a caracterizar franquias, sendo apenas obras com inspiração em outras.
SEquel, PREquel ou Reload, não importa.
O que importa é aproveitar as lições do passado, investir em novos talentos e produzir boas idéias.
A fórmula tem funcionado.
Cinemas lotados e produtos diversos garantem os lucros das grandes produtoras.
Tudo isso como resultado do que os «macacos» começaram anos atrás.
É como dizia o refrão de abertura do programa " Planeta dos Homens ": --
Número de frases: 50
«O macaco tá certo!"
Dizem que Jayme Monjardim é um super-diretor, que seu papel no cinema nacional é marcado por grandes produções cinematográficas para a televisão e sua linguagem aproxima-se das obras de Hollywood.
Comentários à parte, o diretor surgiu num momento em que a TV Globo ganhou seu primeiro grande concorrente:
a extinta TV Manchete, que produzia e ganhava em audiência com a telenovela Pantanal, em 1990.
Em seguida, Monjardim continuou na emissora, produzindo outra novela, Ana Raio e Zé Trovão, com parte do elenco se repetindo, e conseguindo incomodar novamente a Globo.
Para combater a derrota na audiência, a emissora dos Marinho resolveu contratar o diretor e colocou-o à frente de diversas produções da emissora, algumas de sucesso, outras não.
Porém, entusiasmados com os resultados artísticos do cara, arriscaram em colocá-lo à frente da superprodução Olga, em 2004.
Será que a produção valeu os centavos e os milhões gastos?
Os 8,5 milhões gastos na obra renderam apenas três prêmios, todos no Grande Prêmio Cinema Brasil, nas seguintes categorias:
Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Maquiagem.
Ora, um filme como 'se faturar apenas 'tes prêmios, frente a obras como Cinema, aspirina e urubus (que também fala de nazismo e contou com orçamento de menos de dois milhões de reais), que foi premiado nos festivais de Cannes e Mar del Plata, no Festival do Rio, no prêmio do júri Internacional da Mostra de Cinema de São Paulo e ainda recebeu indicação para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, apesar deste último 'tar longe de referenciar uma boa produção.
A direção da obra ficou por conta do nordestino Marcelo Gomes.
Mas o que agrava a situação de Monjardim 'tá nas declarações do mesmo à imprensa, presenciado por mim no Rodeio Internacional de Barretos, em 2004.
Em a ocasião, Monjardim e a «Olga» Camila Morgado foram lançar o filme, com sessões 'peciais, e ficou no mesmo camarote que eu.
Em uma das entrevistas, o diretor declarou que fazer cinema e televisão, para ele, é tudo a mesma coisa.
O mesmo, segundo a colega Mi, é dito numa entrevista por o diretor (clique aqui e leia).
Ora, então explica-se o motivo de tantos planos terem sido mal enquadrados para a televisão, como visto na exibição da TV Globo.
Claro, pois o campo horizontal da televisão é menor do que o do cinema.
Além disso, o ritmo é outro, assim como a linguagem narrativa.
Percebe-se, com 'sas declarações, que o queridinho do Projac talvez nem tenha merecido os três míseros prêmios que ganhou.
Se a Olga Benário 'tivesse viva para ver, daria uma prensa no Jayme Monjardim por aproveitar mal os 8,5 milhões investidos e, mesmo com o tema (aparentemente desgastado) do nazismo, fazer tão pouco sucesso mundial.
Número de frases: 21
Lá por os idos de 1996, o nome Jamsom Madureira aparecia na cena artística underground sergipana como líder de uma banda industrial / minimalista chamada Camboja.
Em a verdade, a banda já existia desde o início da década, e foi formada por amigos que moravam no conjunto Marcos Freire, em Nossa Senhora do Socorro, região metropolitana de Aracaju, com o intuito de fazer um som grindcore -- vertente rápida do punk.
Os shows dos caras eram um caos, mas o que chamava mesmo a atenção (além da perfomance alucinada do vocalista Fúria) era a arte que emoldurava o material promocional da banda, releases e capinha da fita demo.
Era um traço 'tilizado, com uma excelente utilização do contraste claro / 'curo e óbvia inspiração no que de melhor existia nos quadrinhos alternativos da época.
A arte de Jamson Madureira aparecia para o mundo, via circuito underground (leia-se troca de zines e demos por o correio).
Enquanto isso, a formação da banda começou a mudar.
Após a saída de todos os primeiros componentes, depois do lançamento da primeira demo, Grind to grind, Jamson abandonou as baquetas e passou a assumir vocais e guitarras, revelando-se um exímio criador de riffs matadores e de melodias grudentas que compunham uma música minimalista ao extremo, na maioria das vezes se resumindo à repetição de uma frase por cima de um riff de guitarra.
Em 'sa época, o som do Camboja consistia basicamente dos vocais berrados de seu líder ao lado de sua guitarra velha extremamente suja e desafinada, tocada com vontade.
Era a típica banda de um homem só, com ecos de Ministry ou Nine Inch Nails, guardadas as devidas proporções.
Após um breve período acompanhado por uma bateria eletrônica primitiva e tosca, a banda tomou outra forma com colaboradores importantes, como o líder da lendária Karne Krua Sylvio, na guitarra ' de efeitos '.
Isso tudo sem contrabaixo, «pra não atrapalhar», nas palavras de Madureira.
Mais tarde, por volta de 1998, foi que Madureira revelou-se efetivamente como artista plástico.
Seus quadros foram exibidos durante o festival Rock-SE, realizado no fim de outubro daquele ano.
O 'tilo arrojado e altamente influenciado por quadrinhos apresentou-se arrebatador aos desavisados.
Como assim 'se cara é de Sergipe sendo aquele mesmo doido do Camboja?
Bananeiras, retratos de igreja e natureza morta, além de cavalos, muitos cavalos, eram o que se tinha de arte sergipana.
Porém, a arte de Jamson não tinha raiz alguma com o que já se fez no Estado.
Quadrinhos novamente eram a grande referência.
Nada no 'tilo super-herói, é claro.
As reverberações vão de Bill Sienkiewicz (da clássica mini-série Elektra Assassina), a viagens quadrinísticas em forma de graphic novel, como Blood ou Ás Inimigo -- Um Poema de Guerra, 'se último de George Pratt.
Mesmo assim, 'sa tentativa de aproximação em nada resume a dimensão da arte de Jamson.
O caos de 68, poemas dadaístas e a música de John Cage talvez ajudem.
Ou melhor, não é nada disso.
Não há nada tão abstrato num elefante.
Ou numa colher.
O que importa é o traço, ou garrancho, ou simplesmente as partes do quadro perfuradas por algum instrumento 'tranho aos manuais de artes plásticas.
Sua arte pintada seguia, de um certo modo, a mesma concepção de sua música minimalista, feita de signos e de imagens urbanas, paranóias e fixações.
Experimentalismo. Talvez seja por aí.
Aos poucos, mesmo sem nenhum 'forço pessoal do artista, Jamson foi chamando a atenção de mais e mais pessoas, inclusive aquelas distantes do mundinho underground onde vivia, o que o levou a produzir de capa de disco para a banda de rock (Snooze, Waking up waking) a ilustrações de livros de poesia (de Araripe Coutinho e do hoje ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres de Brito).
Depois de um tempo pintando sem parar, cansou de 'sa vida de exposições conjuntas em Assembléias Legislativas, galerias de arte convencionais e mercados pop.
Parou de pintar.
Assim como o Camboja se dissolveu bem antes, com três demo-tapes servindo de legado.
Eventualmente, ele apareceu com outra banda, a Madame Tubarão, com um som meio surf garageiro.
Em o mínimo, autêntico.
Madureira voltou a exibir seu talento distribuindo fanzines -- mesmo sendo já coisa do passado, da era pré-internet, apresentando sua criação para o mundo dos quadrinhos.
Automazo e a amante do Mutante é feita e desenhada a mão, xerocada e distribuída por o próprio artista.
Sortudos os que guardam suas cópias.
Uma versão em html chegou a ser feita, mas não há notícia de ter sido posta na net.
O 'tilo apresentado é típico Madureira, versão HQ.
O texto, uma linguagem solta e inspirada, em cima de argumento beirando o surrealismo.
A série perdura até hoje.
Quando você menos 'pera lá vem Madureira com mais algumas historinhas em quadrinhos simples e ao mesmo tempo herméticas, rebuscadas e rabiscadas, xerocadas e distribuídas sem nenhum compromisso a não ser o mais nobre, a necessidade de se comunicar, mesmo que de forma torta, enviesada e deliciosamente anacrônica.
Camisas foram feitas com o personagem.
Jamsom até voltou a exibir em galeria de arte, usando os originais dos fanzines, sendo tema de matéria em jornal local e foi, em 2005, convidado a participar -- como único representante do Estado de Sergipe, de uma mostra nacional de novos (melhor seria desconhecidos) talentos na Funarte, no Rio de Janeiro.
Resta a nós, pobres mortais, 'perar e torcer por o próximo passo do mestre.
Número de frases: 45
* Com a preciosa colaboração de Adelvan Kenobi.
Em Blumenau, as calçadas às vezes ficam pequenas demais.
Não para os transeuntes, que 'tes se caminham tranquilamente.
Mas para um pequeno crescente grupo de artesãos, que precisam da calçada para vender seus produtos (e pagar aluguel, água, luz etc.), que precisam da calçada, portanto, para sobreviver, o 'paço entre os prédios e a sarjeta fica muito pequeno.
Não se trata, como poderemos ver, de problema de tráfego.
A respeito da produção artesanal ligada diretamente às raízes de Blumenau, em ela poderemos encontrar peças interessantes para utilização diária (como panos de louça pintados a mão e com enfeites de crochê e direcionados à decoração, tal como as bonecas de pano vestidas em trajes típicos alemães).
Como os produtores e expositores desse tipo de artesanato não têm maiores problemas referente à sua institucionalização, optei por não citá-los, o que me permitiu entrar mais a fundo na questão do pessoal da Rua 7 de setembro.
O Couro De Dona ANA
Quem primeiro fala a respeito do seu trabalho é Dona Ana.
Não há quem não conheça a senhora que vende artefatos de couro:
há 25 anos Dona Ana ocupa 'paços do centro da cidade de Blumenau vendendo cintas, sandálias e chinelos.
Leitora voraz de revistas científicas e de informação (pois, como ela diz, " romance é fraco pra mim "), a simpática senhora de 58 anos trabalha dia após dia, sem cansar.
Desta forma, criou três filhas e se mantém, ainda hoje, apesar do cansaço que o tempo impõe.
Para produzir as peças em couro e ferro, Dona Ana conta com a ajuda de seu 'poso, Seu Jorge, 63 anos, que aprendeu a cortar e montar o couro com a mãe.
Assim, enquanto Dona Ana vende suas peças na calçada da Rua 7 de Setembro, sem dúvida a via mais movimentada da cidade, Seu Jorge continua produzindo em sua casa, distante 12 quilômetros do centro.
Quando pergunto a respeito da situação dos artesãos da cidade hoje, Dona Ana volta no tempo, pelo menos uns vinte anos, e comenta as mudanças de prefeito, as mudanças de partidos políticos e nos mostra que é ali que reside o primeiro problema do artesão que resolve expor nas ruas de Blumenau.
O último grande levante municipal contra os artesãos se deu em 2005, quando da posse do atual prefeito da cidade.
Como sempre acontece (e a resposta virá somente mais tarde para 'se fenômeno), a prefeitura municipal se põe a «limpar as ruas da cidade», procurando limpar da paisagem tudo quanto não seja -- ou pareça -- de fato turístico.
Em 'sa ocasião, os fiscais da prefeitura exigiram a retirada de todos os artesãos do centro da cidade.
Quem não saiu por bem, foi retirado por a polícia.
Exigindo uma solução, os artesãos apelaram também para a força política (no caso, ao partido da oposição) e exigiram que se fizesse algo.
Foi que veio a proposta:
os trabalhadores manuais poderiam ocupar a Praça Doutor Blumenau, no início da Rua XV de Novembro.
Até aí, tudo bem.
No entanto, dificilmente o movimento na Praça Doutor Blumenau pode ser comparado ao movimento da Rua 7.
E «o vento forte que sopra à margem do Rio Itajaí não deixa nada no lugar, fica revirando as coisas», explica Dona Ana.
Se tivesse pelo menos movimento, certamente que o vento não seria problema.
Foi 'sa mesma Dona Ana, a senhora dos couros, quem procurou por o prefeito eleito e exigiu que algo fosse feito por os artesãos da cidade.
Disse a ele que seu pai foi a única pessoa que prometeu e cumpriu o prometido quando ela havia precisado de ele.
O pai do prefeito, também político, foi quem deu jeito no caso dos camelôs da Rua 7 (que nem Dona Ana nem eu lembramos quando aconteceu, mas foi por os idos de 1990) que ocupavam parte ínfima do terreno de um colégio católico e 'tavam sendo expulsos por as freiras.
O pai do prefeito conseguiu, na época, mais dois anos de 'tabilidade para os camelôs.
E foi em 'te dia, falando de compromissos e exigindo atenção, que Dona Ana -- acompanhada por a intercessão pública -- conseguiu que os trabalhadores manuais voltassem a ocupar o centro da cidade.
A conversa com Dona Ana vai longe.
Enquanto observa os transeuntes, conta do seu tempo de trabalho na roça, dos vinte anos de empregada doméstica, do ano em que vendeu coleções de livros e do início do seu trabalho com couro.
Em a ocasião, me mostra a carteirinha que emitida por a prefeitura em 1982, quando passou a ocupar o centro da cidade.
É 'tranho que o mesmo poder que permitiu, mediante apresentação de documentos, o 'paço para Dona Ana trabalhar tenha querido tirá-la da rua.
Além do mais, ela paga alvará por o 'paço que sua barraca ocupa, cerca de R$ 170,00 por ano.
Situação política.
As Sementes De BERÊ, As Linhas De BIANCA
Mais adiante, na mesma calçada, encontro Berê.
Esta porto-alegrense de 48 ano 'tá há 31 anos criando e expondo nas ruas.
Conheci-a através de um amigo e, na ocasião, fiquei de lhe levar sementes de abacate.
Figura simpática, Berê deixou de ser hippie há muito tempo, mas ainda guarda sua porção de liberdade.
É o que a mantém produzindo colares, pulseiras e outros artefatos com sementes.
«Se o cara não ganhar bem, vira o pior inimigo do patrão.
Aqui, a gente é o nosso patrão:
se não quiser vir, não vem;
mas também não ganha por isso."
Há quatro anos em Blumenau, a porto-alegrense comenta que a situação dos trabalhadores de rua é melhor no mandato do atual prefeito:
«Antes, os caras incomodavam muito mais».
Agora, depois do baque em 2005, a situação é tranqüila.
Acontece, comenta Berê, que falta unificação na classe e as associações de artesãos que surgem são minadas de politicagem.
Além do mais, de uns tempos pra cá, começaram a surgir pessoas mal-intencionado nas associações.
Quer dizer: enquanto alguns trabalhadores produzem seu próprio material, outros «exportam» produtos e não sabem nada de artesanato.
Como Dona Ana, Berê começou a trabalhar em Porto Alegre com couro -- produto abundante, principalmente no Vale dos Sinos -- com a irmã e o cunhado.
Passou muito tempo nas ruas de Porto Alegre, principalmente na Rua da Praia, antes de sair por o Brasil montando sementes.
Pergunto como aprendeu a fazer seu trabalho.
«Olhando os outros fazer», ela me responde.
O que fica claro, no caso de 'sas pessoas que trabalham na rua, é um apoio mútuo que não sofre os problemas da institucionalização.
A o se referir às associações de artistas alternativos que surgem na cidade, Berê aponta como problema o fato de que, numa associação, o que se quer é agregar pessoas.
No entanto, nem todos lucram.
Ou seja: alguns poucos têm benefícios do que deveria ser de todos.
Mas não falamos de cooperativa, e sim de associação, da qual Berê prefere se abster.
Para ela, o melhor é satisfação que o trabalho lhe dá de poder deixar alguém bonito com algo que saiu de suas mãos.
E ela conta que não são poucos os seus trabalhos com sementes que rodam o mundo (alguns já foram para a Noruega e para a Islândia), o que lhe enche de orgulho.
Berê complementa a importância do artesão relembrando tempos imperiais, quando o artesão fazia parte da corte real.
«Se o rei queria, sei lá, uma roupa, uma jóia, uma porta, ele ia atrás do artesão».
Claro que a generalização é notável, mas é a forma de quem ama o que faz expressar a importância que tem seu trabalho.
Berê cuida muito das mãos, tem pavor de machucá-las.
É certo:
é de ali que sai o seu sustento.
Ao lado de Berê 'tá Bianca.
Com 20 anos, ela me surpreende quando pergunto quanto tempo ela 'tá na rua fazendo trabalhos manuais:
«Desde que me conheço por gente».
De o Maranhão, Bianca passou por quase todos os 'tados do Brasil, menos um, que ela conheceu não faz um mês:
o Rio Grande do Sul.
Bianca trabalha com metal e linhas e aponta um problema seriíssimo do seu trabalho na rua.
Além do fato de perceber que todo o trabalhador ali é visto como marginal, maloqueiro, drogado e beberrão, existe o fato de sentar no chão e expor humildemente seu trabalho.
Quanto ao problema, é o seguinte:
«Vem aqui dona de loja, compra uma peça minha por R$ 20,00 e vai vender no shopping a R$ 79,00.
Acontece que no shopping é bonito comprar e aqui o pessoal não gosta, entende?"
A o tocar no assunto dos problemas que tiveram com a prefeitura, Bianca dá uma informação muito importante e triste e que responde à questão de um fenômeno de origem desconhecida, que disse lá em cima:
apesar dos tempos de calmaria, durante a Oktoberfest os artistas foram novamente ameaçados de serem expulsos das ruas da cidade.
Bianca complementa dizendo que caminhava rumo ao Parque Vila Germânica (que é onde oficialmente acontece a festa) com o seu material embaixo do braço quando cruzou com uma menina krishna que vendia livros.
Conversando (o material ainda embaixo do braço), as duas foram abordadas por um fiscal da prefeitura, que lhes disse que não poderiam ficar ali, que ali não era lugar de elas etc. e tal, e obrigou-as a sair de perto do parque, sob a promessa de que chamaria a polícia.
O Poder Público E Seu Contexto
E agora eu faço uma ponte de reflexão e pergunto:
por que diabos se insiste em 'conder os trabalhadores de rua de Blumenau?
Por que os artesãos alternativos são um problema?
E por que, afinal, depois de quase dois anos de tranqüilidade, se foi incomodá-los novamente, em função da Oktoberfest, que é o maior evento turístico da cidade?
Então, entramos em subjetivismos.
«Politicália», como diz Bianca.
Acontece que 'tes trabalhadores honestos são marginalizados por a condição que ocupam (trabalhadores de rua) e por o 'paço que ocupam (a rua) muito menos do que por a arte que produzem.
Vale lembrar que muitas peças são compradas ali, na calçada da Rua 7 e revendidas a um preço quatro vezes maior em algumas lojas do shopping, que é ali do lado.
Então vejamos:
'tas trabalhadoras de rua vivem do que produzem e vendem.
Pagam água, luz, aluguel, IPTU.
Não pagam tarifas para outros municípios, embora tenham vindo de lugares diversos.
Gastam o que ganham em Blumenau, para Blumenau.
O dinheiro não vai para outro lugar, fica aqui.
Então, podemos crer que o problema não é econômico-financeiro.
O problema é a vitrine.
É bem verdade que a Prefeitura Municipal, através da Fundação Cultural de Blumenau, tenta criar um vínculo institucional com os artesãos alternativos.
Depois do fiasco de tentar determiná-los à Praça Doutor Blumenau, a FCB passou a acompanhar os trabalhadores de rua e tenta auxiliá-los, convidando-os para feiras de artesanato e eventos municipais onde o artesanato caiba como produto.
De certa forma, criar um vínculo pode ser um bom caminho.
«Mas o convite, a correspondência, nem sempre chega à nossa casa», diz Dona Ana.
E para ser convidado por a Prefeitura, é preciso que o artesão tenha vínculo com alguma associação de artesãos alternativos, mas nem isso é garantia de espaço.
O melhor negócio continua sendo a rua.
Com seus painéis, os expositores de artesanato não ocupam 1/6 da calçada.
Talvez 1/5.
De tráfego é que o problema não é.
O fato da cada nova posse de prefeito os trabalhadores de rua enfrentar os mesmos problemas com a fiscalização indica que o problema é mesmo ideológico.
Podemos mesmo pensar se tratar de uma questão turística:
numa cidade européia, fica feio ter gente sentada na calçada, parecendo hippie (ou mesmo sendo) e vendendo ali artefatos coloridos, de sementes, de linha, de couro e metal.
Feio é não dar atenção a 'tes dignos trabalhadores.
Feio é não sentar com Dona Ana e passar hora e meia conversando, sentar e conversar com Berê e Bianca e ouvir histórias engraçadas e tristes que elas têm pra contar do trabalho que executam dia após dia.
E feio não é fingir que 'sa gente não existe:
é tentar 'condê-la, a qualquer custo, com medo de que enfeiem a cidade.
O problema, o grande problema para a vitrine, é que as trabalhadoras com quem conversei fazem parte do centro da cidade, o tornam mais humano, mais belo e não conseguiriam deixá-lo (também nem podem, já que tiram o sustento de ali).
Dona Ana, enquanto conversávamos, falou dos outros pontos que ocupou e comemorou o atual, onde tem abrigo da chuva.
Quando ela me disse:
«Eu amo isso aqui!"
eu compreendi, afinal, do que se tratava todo o trabalho de ela.
E também o trabalho da Berê, da Bianca e de todos os outros artesãos que vendem suas peças por as ruas de Blumenau.
É uma questão de amor.
De sobrevivência, também, mas sobretudo de amor.
A Qualidade DOS Produtos Apresentados
Como diz Berê, tem muita gente vendendo produtos que não são, de fato, artesanais.
Há pessoas que compram peças em lojas de bijuteria, as montam com o fio de nylon e passam a revendê-las como artesanais.
Elas são artesanais, é verdade, mas algo as distancia dos produtos que eu pude ver enquanto visitava a rua 7 de Setembro.
Berê trabalha com sementes.
Para montar uma peça com sementes de abacate, são pelo menos duas semanas de preparação, mais o tempo de montagem da peça.
Acontece que, primeiro, são necessárias sementes.
Depois, a semente tem que tomar sol, secar ...
E como as sementes do abacateiro são grandes, isso pode levar tempo.
Depois é preciso cortá-la, deixar novamente secar, perfurar cada quadradinho e lá no final, por último, montar a peça.
Toda a preparação do material que Berê se dispõe a fazer -- e 'sa é a crítica de ela -- quem compra peças prontas não faz.
Além do mais, é preciso entender de sementes e ser uma boa negociadora:
é importante saber trocar sementes por penas, sementes por sementes.
Além de coletar boa parte do seu material, Berê ainda precisa negociar cores e formas (de sementes) com pessoas que fazem o mesmo trabalho que ela.
Bianca trabalha com linhas, montando adereços vertiginosos.
Mas saber como colocar a linha na 'trutura de metal, não basta.
Isso porque a 'trutura de ferro não vem pronta.
E o que leva mais tempo para fazer, que machuca as mãos (as mãos!)
e serve de base para as linhas coloridas que a Bianca utiliza, quem monta é a própria Bianca.
Eu não saberia descrever exatamente do que se trata, por isso decidi colocar ali em cima a foto do trabalho da Bianca.
Em 'se caso, a imagem vale bem mais do que as palavras.
Já Dona Ana, explicando sobre como tornou-se artesã, fala sobre o trabalho do marido, Seu Jorge, que um dia viu a mãe cortando couro e pensou que poderia trabalhar com isso:
«Ela marcava o couro com caneta quando ia cortar.
De aí, quando a pessoa ia usar a peça, manchava a roupa com a tinta».
Se parece pouco para demonstrar a qualidade dos produtos (que além de belos são confortáveis) de Dona Ana, eu volto à Berê quando ela diz que " aprender, qualquer um aprende, é só observar como faz;
mas pra montar artesanato precisa de imaginação, de dedicação.
É um trabalho mesmo!"
Afinal: Artesanato?
Conversando com o sociólogo e amigo Márcio Cubiak a respeito do que 'tava me propondo a 'crever, obtive informações importantes que foram muito elucidativas para a construção deste texto.
A primeira questão refere-se à arte popular.
Arte popular ou artesanato popular diz respeito à produção voltada para a cultura local.
Em Blumenau, portanto, faria parte desse rol de produção artesanal a confecção de bonecas de pano vestidas em trajes típicos alemães, por exemplo.
Depois, o próprio tema «artesanato» é muito amplo.
Vale lembrar como exemplo os carros Rolls-Royce, produzidos manualmente, ou seja, artesanalmente, de modo que cada exemplar da marca é único.
Sendo assim, é preciso direcionar a expectativa do leitor para os artesãos que, por aqui, foram denominados «artesãos alternativos».
Eles fazem, em sua grande maioria, artesanato informal -- de muita qualidade, fique claro -- e não ocupam, normalmente, 'paços oficiais.
Sendo assim, entrevistei algumas pessoas que podem resumir, de certo modo, a situação dos trabalhadores de rua de Blumenau que lidam com artesanato.
Também é preciso ressaltar que não se tratam de camelôs, embora os haja em Blumenau.
Número de frases: 164
Hoje, os camelôs da cidade são institucionalizados e é bem difícil tornar-se um, uma vez que para tornar-se camelô é preciso comprar um ponto num dos camelódromos da cidade, o que pode custar (e custa mesmo) bem caro.
Descobri a Rua Coimbra por acaso.
Até me casar e morar no bairro Bresser, ao lado da 'tação de Metrô de mesmo nome, acreditava que aquele pedaço da zona leste era reduto de italianos.
As raízes da minha 'posa reafirmavam 'sa idéia.
Filha de um napolitano com uma brasileira, neta de napolitano, minha então namorada morava no começo da Rua da Mooca -- onde vivo hoje.
Ela torcia para o Palmeiras, como heroicamente ainda faz, e mantinha a tradição de comer macarrão no almoço de todos os domingos.
Porém, numa noite nublada de sábado, quando procurava uma adega para comprar um garrafão de vinho, me perdi e fui surpreendido por homens e mulheres com feições indígenas num lugar onde os letreiros dos restaurantes são grafados em 'panhol.
Inicialmente, pensei, «caraca, andei tanto que saí em La Paz», mas se tratava de um encontro da comunidade boliviana em São Paulo, que costuma ocupar as páginas de jornais apenas quando o assunto é trabalho 'cravo.
Em o último sábado, caminhei novamente entre os três quarteirões da mesma rua, de 'sa vez com um número bem menor de pessoas na feira que existe há um ano no coração da região do Bresser.
Primeiro, porque cheguei três horas antes do pico da festa, que acontece por volta das sete da noite.
Segundo, porque era mais um dia de comemoração no mês da independência da Bolívia, e muitos 'tavam no Memorial da América Latina.
Entre salões de cabeleleiros, vendedores de produtos típicos e computadores com acesso à Internet, improvisados nos fundos das lojas, os imigrantes tentam manter a memória viva.
Gente como Maria Montano fala pouco.
Ela vive há três anos no Brasil, país para o qual mudou devido a falta de emprego e dificuldade de 'tudar na terra natal.
Durante a semana trabalha numa confecção.
A os sábados, vende CDs de música folclórica, cumbia e salsa.
O hitmaker, entre os discos de MP3 que organiza sobre uma tábua de madeira é Yuri Ortuño.
A poucos metros de ela, Juan Carlos (não é erro de digitação, são dois Juan Carlos mesmo) e Jhonny jogam pebolim por R$ 0,15 a ficha.
Cada uma dá direito a três bolas.
Graças ao baixo custo, as mesas desse tipo de jogo se 'palham por as calçadas.
Resolvo parar numa casa que vende material para confecção, 'pecialmente linhas, distribuídas em carretéis no formato de cone.
Lá, Joana Lopes me recebe.
Desconfiada, ela tem mais perguntas a fazer do que eu.
Tasco logo uma mentira e digo que a entrevista é parte de um trabalho para a universidade.
«Qual?" --
ela pergunta.
De 'sa vez sou quase honesto.
«Universidade Santo Amaro», onde um dia 'tudei.
«Ah, tá» -- faz um ar de que não conhece.
«Qual curso?"
«Jornalismo» -- digo.
«Hummm» -- murmura, sem grande simpatia.
Talvez fosse melhor dizer psicologia.
Em a minha área, 'pecialmente em 'sa região, vale mais ser um amador do que um profissional em busca de outro furo de reportagem.
Nós chegamos, denunciamos, os deixamos sem emprego e ameaçados de morte por colaborarem, involuntariamente, com uma matéria que alguém lerá e 'quecerá assim que sair da frente do computador para ir ao banheiro.
Joana para por alguns segundos diante de um cartaz das Agulhas Orange, que ostenta a bandeira brasileira ao fundo.
Diz que conheceu o Brasil por meio de 'tudantes universitários que fazem intercâmbio na Bolivia.
Cala-se e, de repente, desaparece no fundo da loja.
Reaparece com Luís Vasquez, Presidente da Associação de Moradores Bolivianos da Rua Coimbra (AMRC), com quem começo a conversar com mim.
Tímido, ele sorri de canto de boca e quando tento fazer a primeira pergunta me interrompe e diz.
«Olha, me manda um e-mail que eu te respondo.
A maior parte dos jornalistas só associa nossos irmãos à 'cravidão», critica.
Aceito seu pedido, mas, aos poucos recomeço o papo para quebrar o gelo.
Para ele, mesmo diante do trabalho degradante nas fábricas de roupas, é melhor imigrar do que ficar e enfrentar as desigualdades.
A maioria do seu povo sai de zonas rurais como a parte de La Paz que faz divisa com o Peru.
O presidente da AMRC me explica que a luta por a concorrência faz com que o valor dos salários diminua cada vez mais na região central de São Paulo.
Cerca de somente 3 % do valor final do produto chega até o empregado, que recebe por peça.
Sem condições de pagar um lugar para morar e diante da necessidade de produzir cada vez mais, muitos vivem onde trabalham.
Com o tempo, o salário se torna um prato de comida.
Os coreanos, que substituíram os judeus na região da 25 de março, agora são os chefes.
Antes, faziam o que os bolivianos fazem.
Em um rompante de humor, Vasquez filosofa.
«Talvez um dia nós assumamos o posto dos coreanos e coloquemos os uruguaios no nosso lugar».
Em alguns minutos recebo uma pequena aula de história.
Em o trecho oriental do país de Luís Vasquez ficam as classes mais ricas e no Vale, de onde saiu o atual presidente, Evo Morales, os mais pobres.
Em a parte ocidental 'tá a região do Altiplano.
Assim como muitas vezes ouvimos por aqui, há uma onda separatista por lá, o desejo de implementar uma «higienização social».
Migrantes e imigrantes são muito parecidos.
Em o Brasil, basta substituir o Nordeste por o Vale, o Oriente por São Paulo e o sotaque castelhano por expressões baianas, paraibanas, cearenses.
O desejo de juntar dinheiro e voltar para a terra de origem é o mesmo.
A ânsia por manter a cultura viva também.
Porém, há uma grande diferença quando se trata da capacidade de indignação.
«Aqui, o ônibus vai de R$ 2 para R$ 2,30 e ninguém faz nada.
Em a Bolívia, a passagem tem o mesmo preço há 10 anos e qualquer coisa é motivo para mobilização política», observa.
A os 21 anos, Cyndi Martinez Hurtado comanda uma das quatro agências que o pai, Hervin Gonzalo Hurtado mantém.
A jovem, nascida em Belém do Pará, conta que Hurtado desembarcou por aqui há 33 anos.
O avô de Cyndi tinha uma amante brasileira e resolveu raptar o filho e morar aqui.
Porém, o romance acabou e o filho foi abandonado, aos sete anos.
Hoje, além da loja na Rua Coimbra, a família possui uma unidade na Casa Verde Alta, outra no Pari e mais uma no Bom Retiro.
Todos são bairros com um grande número de bolivianos, nacionalidade de todos os funcionários que auxiliam Cyndi, a filha mais velha de uma família de três irmãos.
Sem nenhum traço dos ancestrais, a não ser a fluência na língua 'panhola, ela oferece por R$ 0,70, o minuto, ligações para qualquer parte da Bolívia.
Os clientes compram tíquetes e entram numa cabine transparente equipada com mesa, cadeira e velhos aparelhos telefônicos.
Um computador controla o tempo.
Formada em administração, destaca que a discriminação é uma pedra no sapato de alguns povos que chegam ao Brasil, 'pecialmente os sulamericanos.
«As crianças são as que mais sofrem.
Como os pais passam a maior parte do tempo nas oficinas de costura, se dedicam pouco aos filhos.
Muitos são alvos de brincadeiras cruéis porque freqüentam a 'cola com roupas rasgadas e sujas.
Em o Orkut, já li pessoas 'creverem que somos ' japonegros '», diz.
O próximo passo é cursar direito para poder ingressar na Polícia Federal.
A idéia é ajudar os imigrantes com a regularização dos documentos, processo que, atualmente, demora até três anos para ser concluído.
Quando nos despedirmos, ela ainda me ensina um pouco sobre meu país.
«Você sabia que a Praia de Copacabana tem 'se nome graças à Nossa Senhora de Copacabana, uma santa boliviana?»,
pergunta. Eu não sabia.
Antes de entrar num dos restaurantes que vendem Chincarron de Chanco (receita que leva carne de porco), por R$ 10, tentei entrevistar um cabeleleiro, mas todos os salões 'tavam lotados.
Perguntei a um dos funcionários se o dono poderia me atender e ele respondeu, «não, 'tá peruqueando».
Em o final da rua, Fernando Coronado entrega panfletos diante da Peluqueria Los Andes.
Há cinco anos no Brasil, conta que é casado com uma conterrânea e tem dois filhos brasileiros.
Em o lugar que ajuda a divulgar, mais de 80 % da clientela possui as mesmas raízes de Coronado.
Um amplificador conectado ao computador aumenta o alcance da rádio Chacaitaya, que o rapaz sintoniza via internet.
Número de frases: 89
Talvez ele não saiba, mas o que faz explica o termo globalização muito melhor do que qualquer 'pecialista dos cadernos de economia dos grandes jornais da cidade.
Lá se vão doze anos.
Para alegria de todos os moradores e visitantes, mais um carnaval se fez na Barra da Lagoa e na Fortaleza da Barra da Lagoa.
A começar por o Bloco de Boi de Mamão da Associação Cultural Arreda Boi, lançado nos idos de 1994.
Em aquela época, em 1994, os carnavais de rua na Barra e Fortaleza da Lagoa inexistiam.
O que víamos ainda era:
os mascarados, os bailes no conselho comunitário e os bares na praia regados a som mecânico.
Bateria, bonecos, música, somente o Arreda Boi.
Lá se vão doze anos.
De o carnaval de 1994 até o carnaval de 2006, o Arreda Boi sempre se fez presente nos carnavais de rua da comunidade, como também apresentou seu Bloco de Boi de Mamão no centro da cidade em muitas oportunidades.
Esta participação do Arreda Boi na vida cultural da comunidade deu-se muito em função do trabalho que ele veio desenvolvendo ao longo dos anos na Barra da Lagoa.
Seu trabalho de construção de bonecos de Boi de Mamão, construção de tambores, pesquisas ligadas à história oral da comunidade vão perfazendo um caminho que desemboca no carnaval.
Atualmente, o Arreda Boi desenvolve seu trabalho em parceria com a Escola Básica Municipal da Barra da Lagoa com o objetivo de fortalecer a brincadeira do Boi de Mamão no universo 'colar.
Lá se vão 12 anos.
Parabéns ao Arreda Boi por a iniciativa de recuperar o carnaval de rua na Barra da Lagoa e Fortaleza da Barra da Lagoa.
Parabéns também a todos os blocos, que entendendo que a festa deve ser um bem público lançaram-se na empreitada de montar cada um, a sua maneira, seus blocos.
São eles:
Broqui das Caraiada;
Bloco da Dona Rosa; Bloco Baiacu;
Bloco Carapicu da Madrugada; Bloco Diruba;
Bloco Pipa Pensa; Bloco dos Istepô;
Bloco Sereno da Madrugada do Arreda Boi.
Vida longa aos blocos, vida longa aos carnavais de rua da e na Barra da Lagoa.
Reonaldo Manoel Gonçalves (nado)
Ronei Manoel Gonçalves (Deroneis)
Número de frases: 25
Associação Cultural Grupo Arreda Boi
Cansei de 'crever haicais.
Até porque depois de 1000 'critos, e 10 publicados aqui, chego a triste conclusão que não deveria ter 'crito nenhum.
Não sei 'crever haicais.
Afinal, qual é a forma do haicai?
Com quantas sílabas se faz um haicai?
O haicai deve ser rimado, ou ritmado?
Sabe de uma coisa ...
Que se foda o haicai.
Acho que caí em mim de uma vez por todas.
Caiu a ficha.
Em o more haicais.
Só por hoje não vou mais 'crever haicais.
Escrever haicai é um perigo.
É coisa que a gente faz e pensa que não vai dar em nada, mas quando vê já 'tá perdido.
Acho que por algum tempo baixou o Bashô em mim.
Agora 'tou livre.
Livre para 'crever versos livres.
Em a verdade, não tenho mais saco para 'crever haicais.
E olha que eu tentei.
E não foi pouco.
Todas as vezes que eu olhava um haicai eu pensava:
como é que alguém se dá ao trabalho de 'crever haicai.
Então eu resolvi experimentar.
Sou mesmo um experimentador.
Sou um curioso nato.
E no caso do haicai, o que aconteceu foi que eu caí numa puta armadilha.
O haicai causa dependência.
Fui 'crevendo, e quando percebi já 'tava fissurado no haicai.
Era haicai de dia, de noite, tudo queira virar haicai.
Ai, ai, eu já nem sabia mais porque diabos 'crevia tanto haicai.
Se eu pisava numa pedra, já pensava em haicai.
Se o telefone tocava, haicai.
Falta d' água, haicai.
Já 'tava virando uma obsessão.
E eu caído ali, na frente do monitor, sem perspectiva.
E pra completar minha desgraça, ainda vinham uns Overmanos caridosos e elogiavam os meus haicais.
Aí era o que eu queria.
Meu ego se inflava com os elogios, e tomate haicai.
Mas os bons tempos 'tavam por terminar.
Com a progressão da minha doença, comecei a desenvolver um comportamento obsessivo-compulsivo bastante 'tranho.
Não queria mais tomar banho nem comer, só queria 'crever haicai.
Minha mulher me chamava para cama, e eu 'crevendo haicai.
Os amigos vinham me convidar para beber, e eu só queira saber de haicai.
Haicai, haicai.
Até que um dia o milagre aconteceu.
Olhei por a janela e vi uma borboleta pousada no vaso da sacada.
Aí adivinha o que eu pensei?
Haicai é lógico.
Só que eu não contava com o despertar 'piritual que 'tava por vir.
Quando fui teclar percebi minhas unhas compridas.
Vi o reflexo no monitor de um cara barbudo, com expressão assustada:
era eu.
Meu Deus, mas o que eu 'tava fazendo com mim.
Era o fim.
Em aquela tarde 'crevi meu último haicai.
Precisava parar antes que fosse tarde.
Eram os haicais ou eu.
Hoje 'tou em tratamento intensivo, 'crevendo poemas livres e contos non sense.
Tudo para tirar do meu organismo a influência maligna do haicai.
Sei que a recuperação é difícil e o tratamento é diário.
Mas 'tou me 'forçando e farei de tudo para evitar uma recaída.
Leia aqui os 10 malditos haicais:
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai
http://www.overmundo.com.br/banco/hacai-2 http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-iii-1
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-iv-2 http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-v-1
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-vi-1 http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-vii-1
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-viii http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-ix
Número de frases: 68
http://www.overmundo.com.br/banco/haicai-x O jornalista Laurentino Gomes, autor de 1808, livro histórico sobre a vinda da família real ao Brasil no ano-título, contou numa palestra que fez cá no Sesc de Santos uma história -- na verdade, uma teoria -- que não consta na sua obra.
Estava falando sobre tal pesquisa de um historiador americano (suponho) que afirmava que há um mito criador na história dos Estados Unidos, e que 'sa lenda original determinou o que seria o país e determina hoje suas atitudes em relação ao mundo.
Por extensão, o mesmo processo se fez com o Brasil -- qual nossa mitologia determinante?
Nossa 'tória-mãe?
Para os Estados Unidos, seria a fé protestante num paraíso que seria construído aqui na Terra por eles e que se 'palharia por o mundo, redentor e iluminado.
A cruzada que o país faz ao redor do mundo, contra os terroristas ou quem quer que seja, como policiais do planeta, seria conseqüência direta de 'sa consciência de mundo herdada.
Seria assim que se entenderiam americanos, verdadeiramente parte daquela terra.
Os fundadores dos EUA teriam 'sa idéia de predestinação que os levava adiante, mas nós, o que tivemos?
Um rei fujão com bolsos sujos de frango, uma rainha louca, um príncipe medroso, uma corte corrupta.
Somos filhos da malícia.
A mesma idéia aplicada em outro país, bem distante, também parece funcionar.
Assisti Herói por a segunda vez 'ses dias, que se trata de uma história da China antes de que as muralhas existissem e que o país fosse um só.
Três assassinos planejam a morte do rei que vencia sistematicamente todos os distritos independentes.
Tantos atentados fizeram o rei sensato, e o salão do trono é um 'paço sempre vazio, a não ser para quem traga as relíquias próprias de cada um daqueles rebeldes.
Eis que um grande plano é pensado, e eis que 'se grande plano funciona.
Um assassino tem a chance de matar o rei.
Mas não o mata.
Por considerar que o «bem comum» da unificação era uma 'colha maior.
Não sei da história da Rússia, o que poderia corroborar o seguinte pensamento, mas:
se o mito comum da China é que pode ser certo perder algumas vidas por o bem da maioria, por o bem da propriedade coletiva -- então é só adequado que tenham se tornado um país comunista como se tornaram, e que sejam o derradeiro e mais forte.
Aliás, a tentativa de 'tabelecer (ou impor, ou inventar) um mito originário é um 'forço freqüente de Hugo Chávez, ele e seu 'tado bolivariano, a saber, em honra do libertário Simon Bolívar.
É certamente alguém de que poderíamos nos orgulhar.
Falando do Brasil, Laurentino disse que aqui parece que as 'trelas do 'porte tomam muitas vezes o lugar desses heróis:
as seleções campeãs da Copa, Pelé, Garrincha, Ayrton Senna.
Será?
Talvez.
Esses mesmos heróis brasileiros reafirmam o nosso rei fujão:
não é como aquele americano que erige um império com 'forço e dedicação contínua;
é o homem comum que um dia realiza o golpe de mestre.
A jogada perfeita.
E tem sua hora de 'trela.
Se a imagem se repete em várias expressões artísticas, o argumento é reforçado?
Tivemos o único rei que enganou Napoleão.
O nosso herói fundamental não tem caráter e se chama Macunaíma.
E João Grillo pôde superar na lábia o próprio diabo.
Outro de Ariano Suassuna, dom Pedro Dinis Ferreira Quaderna -- tão malicioso e vence tão só por a inteligência, ou por a malícia e sorte quanto os outros.
Em a peça coordenada por Antunes Filho, o personagem diz:
«sempre me senti um misto de rei -- e de palhaço».
Somos filhos da 'perteza.
O Brasil é um golpe de sorte.
Isso tudo pode ser visto como queira, de forma boa ou ruim.
Sabe-se que a literatura anterior a 1920 idealizava heróis com roupagem européia;
sofredores, pureza e honra com tangas de índio ou bombachas.
O modernismo pôs tudo em seus verdadeiros (verdadeiros?)
termos: o que ignorávamos não era só o que mais brasileiros tinhamos, mas o que nos tornava tão maiores.
Oswald de Andrade explicou isso assim tão sem mais nem menos:
Dá-me um cigarro
Diz a gramática
De o professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o branco
Em a Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso, camarada
Me dá um cigarro
Por que é que o Lula foi eleito duas vezes?
O presidente uruguaio disse uma vez sobre o nosso presidente:
«Conversar com o Lula é difícil.
Porque quando eu penso que o 'tou convencendo, foi ele que já me convenceu».
E Oswald?"
Vivemos através de um direito sonâmbulo.
Fizemos Cristo nascer na Bahia.
Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós».
É isso:
«nunca fomos catequizados.
Número de frases: 66
Fizemos foi Carnaval».
Grupo Acaba -- Grupo de música regional de raiz de Mato Grosso do Sul, fundado em 1969 em Campo Grande com o objetivo de pesquisar, desenvolver e divulgar o folclore do antigo Estado de Mato Grosso e atual Mato Grosso do Sul.
O Pantanal e o homem pantaneiro são o tema de sua música.
Em suas letras, as composições do Grupo Acaba, coletiva e individualmente, descrevem homem, a fauna e a flora, e em nossas canções, a alegria das cores e as dores da raça pantaneira, conforme eles mesmos dizem.
A banda atua semiprofissionalmente desde a sua criação e é integrada por profissionais liberais e empresários.
Eis o rol dos integrantes do Grupo Acaba:
Adriano Praça de Almeida, professor -- flauta, sax, voz e efeitos.
Vandir Nunes Barreto, contador -- compositor, violão, craviola e voz.
José Charbel Filho, engenheiro e empresário -- compositor, violão, viola e voz.
Eduardo Lincoln Gouveia, publicitário -- bateria, voz e efeitos.
Francisco Saturnino Lacerda Filho, publicitário e empresário -- compositor, percussão e voz.
Moacir Saturnino de Lacerda, engenheiro e professor -- compositor, percussão e voz.
Jairo Henrique de Almeida Lara, agrônomo -- compositor, violão e voz.
Alaor Pereira de Oliveira, pecuarista -- compositor, violão e voz.
Antonio Luiz Porfírio, comerciante -- compositor, baixo acústico e voz.
Principais atividades
1979/2000 -- O Grupo Acaba adota uma postura ativista em defesa da preservação do Pantanal e do homem pantaneiro.
A partir daí passa a denunciar, durantes seus concertos, as atrocidades praticadas aos índios e comunidades de minorias, principalmente indígenas.
Paralelamente, continua participante ativo dos movimentos musicais de Mato Grosso do Sul.
-- Participa no Projeto Pixingão, no Rio de Janeiro, evento promovido por a Funarte.
Realiza cinco apresentações do show «Garapa, Rapadura e Melado» na Sala Sidney Miller, com grande participação do público.
-- Participa do Primeiro Canto das Águas do Mel, em Irai, Rio Grande do Sul, obtendo menção honrosa da Associação dos Pesquisadores da MPB com a composição Arrebento de um Príncipe.
Participa uma vez mais do Projeto Pixingão, promovido por a Funarte no Rio de Janeiro.
-- Participa do Festival Eco-MS com a composição Rancho do Jaú, com a qual obtém o prêmio de Melhor Intérprete, garantido a participação na programação na II Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92).
Por causa do prêmio, o grupo foi eleito representante do Estado de Mato Grosso do Sul na Eco-92, oportunidade em que apresentou no Fórum Global a arte e a cultura musical do Pantanal Mato-Grossense.
-- Elaboração e produção do Projeto Mapeamento Musical de Mato Grosso do Sul, que resultou na realização de uma caixa com três cds, lançada sob o título geral de Mato Grosso do Som, contendo todos os gêneros musicais praticados na região, inclusive de origem indígena.
-- Desde aquele ano, o Grupo Acaba e a Orquestra de Câmara do Pantanal, mantida por a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), sob a regência do maestro João Guilherme Ripper, 'tão criando e ensaiando o concerto Sinfonia Pantaneira, 'petáculo que contará a história da raça pantaneira e do meio ambiente da região pantaneira.
Participação no Festival de Inverno de Bonito.
Participação no Projeto Pantanal 2000, no Programa Bolsa-Escola.
Participação no Projeto Ciranda Pantaneira, em creches do Estado.
Participação da finalíssima da 'colha do samba enredo do Salgueiro, no Rio de Janeiro -- naquele ano o enredo da 'cola foi o Pantanal.
Obras realizadas por o Grupo Acaba
Discografia Grupo Acaba, Canta-Dores do Pantanal -- (lp, Discos Marcus Pereira, 1979)
A Música Regional do Brasil -- (lp, Discos Marcus Pereira, 1980, participação 'pecial)
Prata da Casa -- (lp, UFMS, 1982, participação 'pecial)
Última Cheia -- (lp, produção independente, 1985)
Canto das Águas do Mel (cd, Quero-Quero, 1990, participação 'pecial)
Caramujo Som (lp, tv, 'petáculo teatral, UFMS, 1995, participação 'pecial)
Mato Grosso do Som -- Mapeamento musical de MS (livreto e caixa com três cd, RG Editora e Estúdio Vozes, 1997, pesquisa musical e participação 'pecial)
I Festival do Mercosul (Espetáculos musicais e cd, Sauá, 1998, participação 'pecial)
Pantanal 2000 -- (cd, Sauá, 2000)
Bibliografia Zé Caré -- Em Busca do Rabo Perdido (livro infantil, pesquisa e ilustrações, RG Editora, 1998)
Grupo Acaba -- 30 Anos de Música, Cultura e Pesquisa -- (livro, RG Editora, 1998)
Pantanal, Coração da América -- (Livro, RG Editora, 2002)
Videografia Nossa Terra, Nossa Gente (programa de televisão com participação integral do grupo, Tv Campo Grande, 1990)
Número de frases: 45
Caramujo Som (lp, tv, 'petáculo teatral, UFMS, 1995, participação 'pecial)
Eu não entendi muito bem como um texto conseguiu receber e perder tantas palavras como 'te.
Acho até que se levantar da cadeira agora para pegar um copo d' água, voltarei para apagar a primeira frase.
Por isso, a sede que agüente.
Água agora contribuiria para mais uma interrupção no raciocínio que tento ligar por dias.
Não é difícil falar sobre cinema.
Difícil é montar em poucas palavras (porque trata-se de um texto para Web) o início desbravador e 'petacular da produção audiovisual do Acre.
Observo há tempos os movimentos relacionados a cinema que acontecem periodicamente em Rio Branco:
oficinas, exibição de filmes, festivais de vídeo, debates, palestras, sempre muito bem organizados por centros e fundação cultural, usina de arte e outros.
A quantidade de produção de documentários e curtas é fantástica, isso porque cursos periódicos de vídeo promovem a qualificação técnica e a formação gratuita de realizadores acreanos em audiovisual.
Conversava com uma amiga sobre a vontade de 'crever a matéria e foi ela, Nattércia, quem abriu o caminho:
«Se vai falar sobre o cinema daqui, precisa assistir a Rosinha!"
Em a Biblioteca Pública de Rio Branco existe uma sala 'condida, improvisada numa 'pécie de porão, onde dois «eremitas» passam a maior parte do dia guardando bens preciosos, inclusive Rosinha, em suas prateleiras físicas e mentais.
Adalberto Queiroz e Toni Van são dois rapazes de 54 e 52 anos, respectivamente, donos de semblantes compenetrados e memória fabulosa, dada a quantidade de datas e nomes que relacionaram ao contar a história da formação do Estúdio Cinematográfico Amador de Jovens Acreanos (Ecaja), a primeira equipe de produção audiovisual do 'tado do Acre.
O primeiro filme -- 1972
Um grupo de pessoas comuns e insistentes decidiu realizar radionovelas baseadas nas que eram transmitidas na época.
Logo descobriram que o custo era bastante alto e, com poucos recursos, não conseguiram emplacar.
Pouco tempo depois, João Batista, o Teixeirinha, encontrou na biblioteca da Universidade Federal do Acre um livro para jovens cineastas com informações sobre o filme Super-8 mm, próprio para produções baratas.
Assim, o grupo recebia a notícia de que era possível fazer um filme com poucos recursos.
A bitola 8 mm já havia sido lançada nos EUA e 'tava chegando ao Brasil.
Começa a luta para realização do primeiro filme.
O roteiro de «Fracassou meu casamento» foi compartilhado por João Batista e Adalberto Queiroz.
Era gravado com uma única câmera Yashica Super-8 (1972) que não captava som, doada por um comerciante local.
Foi rodado nas duas margens do Rio Acre, e como a ponte ainda não existia, atravessavam o rio de catraia com atores e equipamentos.
Entusiasmado com as filmagens, o jornalista José Leite publicou num jornal local que acreanos haviam feito o primeiro filme do 'tado.
O povo ficou curioso, mas em 'sa época, a equipe ainda procurava meios para colocar som nas cenas.
Para conseguir mais recursos, os atores procuraram o deputado Wildy Viana, que fez um acordo interessante:
compraria um projetor com gravador, se o filme fosse 'treado em Brasiléia, sua cidade natal.
Brasiléia fica a 240 km de Rio Branco ou dois dias a pé para o povo da época.
Com o acordo selado, encaminharam o filme para o 'túdio da Kodak, em São Paulo, onde recebeu uma pista magnética, recurso que permitiu inserir a dublagem e efeitos sonoros assim que voltou para Rio Branco.
A 'tréia foi em 3 de junho de 1972 e muita gente caminhou os dois dias para assistir à primeira exibição que foi um grande sucesso.
Mas assim que os créditos passaram, o filme foi apreendido por a " Polícia Federal.
«Estávamos no regime militar, disseram que o filme não tinha certificado de censura e nós nem sabíamos o que era isso, 'se aqui era o último dos últimos galhos do país.
Fomos considerados subversivos e o filme ficou quase dez anos retido em Brasília», conta Adalberto.
Frustrados por causa da falta de parâmetro, sem poder analisar o filme para saber no que erraram e por que ou o que poderia melhorar, atores e diretores fundaram o Ecaja em 16 de março de 1973, no Centro Comunitário da Igreja de São Sebastião e decidiram " mostrar do que eram feitos."
Rosinha, a rainha do sertão
Não vou contar como é Rosinha.
Em alguns dias o filme 'tará disponível no Overmundo para comentarmos.
O roteiro foi 'crito por João Batista e Toni Van 'treou como ator.
Rosinha foi mais feliz na sua 'tréia, em 1974.
Ao invés de ser apreendido, foi exibido em vários festivais por o país, ganhou alguns prêmios e proporcionou mais visibilidade aos jovens cineastas.
Mais sete longas foram rodados por o Ecaja entre 1974 e 1982.
Em 1977, Adalberto e João Batista participaram de uma solenidade em Brasília sobre a cultura do Acre.
Rosinha foi exibido na Praça dos Três Poderes e no Setor Rodoviário, onde ficou a exposição.
Por causa da boa repercussão, João Batista recebeu um convite para trabalhar na Rede Globo.
Em 1978, Adalberto foi, como diretor do Ecaja, ao XI Festival do Cinema Brasileiro, em Brasília.
Lá projetaram «Rosinha, a rainha do sertão» e «A luta em busca do amor», como mostra informativa.
Em 1979, participaram do VII Festival do Filme Super-8, em São Paulo, onde João Batista ganhou o prêmio de melhor ator por «A luta em busca do amor».
E as conquistas não pararam por aí.
Criaram no Acre o Festival Acreano de Filme Super-8, que teve quatro edições.
Em decorrência desses festivais, surgiram dezenas de outros produtores independentes.
Assim, veio a Associação Acreana de Cinema, o Cineclube Aquiri, o Centro de Antropologia do Teatro e Antropofagia do Cinema (Catac) e a Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABCD) criou uma seccional no Acre.
Tudo para somar e compartilhar com o desenvolvimento do trabalho audiovisual no 'tado.
A Filmoteca, aquela pequena salinha embaixo da Biblioteca Pública, é o resultado de uma iniciativa da Embra Filmes aliada ao empenho dos cuidadosos rapazes fundadores do Ecaja, Adalberto e Toni Van, que hoje abriga em seu acervo 35 títulos de filmes nacionais em 16 mm;
mesa de revisão;
4 telas de projeção;
4 projetores;
filmes dos festivais acreanos e outros não classificados;
filmes do Festival do Cinema Brasileiro;
documentários da cultura brasileira, inclusive de algumas etnias indígenas do 'tado e outros filmes clássicos americanos e europeus.
Ficam à disposição das 'colas e de quem quiser assistir lá mesmo.
Ótimo resultado para um trabalho que começou com baixíssimos recursos e nenhuma orientação!
Toni Van hoje é cineasta, produtor e dirige a Filmoteca desde dezembro de 1988.
Adalberto Queiroz formou-se em história com pós-gradua ção em Ciências Sociais voltada para Amazônia.
Está preparando o VIII festival Acreano de Vídeo para terceira semana de dezembro.
Número de frases: 65
Em 13 de dezembro de 1923, o jornalista e advogado Manoel Dantas, com o pseudônimo de «Braz Contente», publicou no jornal» A Republica», uma nota intitulada «Coisas da Terra», onde noticiou que» 'tava sendo organizada uma grande quermesse, que ocorreria na noite de natal e teria lugar nos jardins do Palácio do Governo.
Esta era uma iniciativa de senhoras da sociedade local, que buscavam ajudar o Instituto de Proteção e Assistência a Infância a construir o Hospital das Crianças».
O edifício 'tava sendo construído na avenida Deodoro, idéia do médico Manoel Varela Santiago Sobrinho para atender às camadas mais carentes da população.
Por 'ta época, eram altíssimos os índices de mortalidade infantil na capital, devido às precárias condições de higiene e do atendimento à saúde pública.
Estes problemas incomodaram uma parte da sociedade local, que se disponibilizou a ajudar.
à frente de 'ta iniciativa se destacou a figura da poetisa Palmyra Wanderley, que em 1923 era uma das mais conceituadas intelectuais da terra, possuía uma cultura elevada, vinha de uma família de intelectuais, sendo assídua colaboradora em jornais e revistas, tanto potiguares como de outros 'tados.
Junto com a liderança de Palmyra, mais de 50 mulheres se engajaram em 'ta obra.
Não deixa de ser interessante que, em meio a uma cidade onde predominava a família patriarcal e o machismo, se observa 'ta participação feminina.
Foi publicada uma lista com os nomes de 'tas participantes, onde se percebe que a grande maioria de 'tas mulheres faziam parte da elite natalense.
Um grupo de elas chegou inclusive a sair por a Natal de 25.000 habitantes, para vender as entradas da quermesse, por o preço módico de 2000 réis.
Como atração principal, Palmyra decidiu não colocar algum artista declamando poesias clássicas, ou algum instrumentista tocando alguma peça européia, ou ainda artistas vindo de outras capitais.
Sua decisão foi por um artista potiguar, já com uma certa idade, um poeta que declamava seus versos junto com uma rabeca, além de tudo negro e ex-'cravo.
Estamos falando de «Fabião das Queimadas».
Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha nasceu 'cravo, em 1850, na Fazenda Queimadas, do coronel José Ferreira da Rocha, no atual município de Lagoa de Velhos (RN).
Começou a cantar durante os trabalhos na roça.
Tornou-se tocador de rabeca, tendo adquirido seu instrumento aos 15 anos, com o apoio do dono, que permitia e incentivava que ele cantasse nas casas dos mais abastados da região e nas feiras.
Conseguiu angariar algum dinheiro que, aos 28 anos, possibilitou comprar a sua alforria.
Era analfabeto, mas criava versos, como o «Romance do boi da mão de pau», com 48 'trofes.
Suas composições apresentam traços dos romances herdados da idade média.
Em 1923, Fabião das Queimadas já era conhecido e respeitado no 'tado, onde no início do período republicano manteve ligações com políticos da terra, emprestando seus talentos ao criar versos que serviam, ora para enaltecer os amigos poderosos, ora para denegrir seus adversários.
Já suas apresentações em Natal, aparentemente eram raras ou restritas a residências de particulares que gostavam da prosa sertaneja.
«A Republica», de 19 de dezembro, em novo texto assinado por «Jacinto da Purificação», trouxe uma extensa reportagem sobre o cantador, onde buscavam apresentá-lo a cidade;
comentou como no passado Fabião havia conquistado sua liberdade, «que a fama de Fabião corria mundo», mas ressaltou» que o seu 'trelato alcançava aquele mundo que não ultrapassava as fronteiras da nossa terra».
Em 1923, a expectativa de vida dos mais pobres no Brasil mal chegava aos 60 anos.
Fabião, então, com sessenta e dois anos, era considerado com «ótima lucidez, perfeita memória e bom timbre de voz».
Afirmou-se que era «verdadeiramente um desses milagres para os quais a ciência não encontra explicação».
Informaram que «aquilo que Fabião chama de sua obra», certamente daria um volume com mais de 300 páginas.
Algumas de 'tas obras haviam sido criadas por o cantador 55 anos antes, em 1868.
Para recitá-los ou cantá-los, junto com sua inseparável rabeca, ele utilizava apenas sua privilegiada memória.
Uma passagem interessante comentava que certa ocasião, um amigo mais chegado lhe perguntou como ele criava e guardava seus versos.
Em a sua simplicidade, o cantador disse que «quando eu quero tirar uma obra, me deito na rede de papo prá riba, magino e quando acabo de maginar, 'tá maginado pru resto da vida».
Chamou atenção do autor do texto como Fabião era um sertanejo dotado de uma imensa bondade, pois lembrava saudosamente do seu antigo senhor, José Ferreira.
Em uma passagem, o autor conta uma história onde Fabião rebate uma crítica feita ao seu antigo amo, por não tê-lo mandado à 'cola quando jovem, ao que o cantador comentou;
«meu senhor foi sempre homem de muito tino e ele bem sabia que se me tivesse mandado ler e 'crever, quem o vendia era eu».
O final do texto de «Jacinto da Purificação», deixa transparecer um certo receio de fracasso ante a apresentação do poeta, que 'tava» descolado do seu meio».
Colocava entretanto que, «qualquer que seja a sorte da prova que se vai suceder, Fabião para nós será sempre o velho genial».
A festa começou às dezoito horas do dia 24 de dezembro, uma segunda-feira.
Um dos paraninfos era o então governador Antonio José de Souza, que 'tava presente.
Desde cedo começou a afluir uma grande multidão, calculada em torno de 4.000 pessoas.
Com um caráter 'tritamente familiar, a festa mudou o quadro da principal praça da cidade, uma área que normalmente, após as oito da noite ficava deserta.
Em 'te dia 'tava «exuberantemente iluminada e cheia de vida».
O Doutor Varela Santiago, sempre acompanhado de Palmyra Wanderley e de outras organizadoras, seguiam entre as barracas, agradecendo a participação de todos.
Várias barracas 'tavam por a praça, todas com nomes bíblicos como «Betesda»,» Carfanaum», «Jericó» e, apesar do caráter religioso das festividades, o local mais freqüentado foi à barraca chamada «Poço do Jacó», por vender bebidas geladas, principalmente cerveja.
Em locais distintos tocavam as bandas marciais da Polícia Militar e da guarnição do quartel federal, o 29º Batalhão de Caçadores.
Havia várias atividades atléticas, como um torneio de «queda de braço» e um concorrido torneio de bilhar, onde se destacaram os jovens José Wanderley e Francisco Lopes, tendo 'te último sido o vencedor.
Em um palco armado foram se apresentando os seresteiros, cantores e tocadores da cidade, todos amadores.
Uma de elas foi a «senhorinha Edith Pegado», que chamou a atenção de todos por cantar uma cantiga» roceira «chamada» Sá Zabê do Pará».
Mas a atração principal era «Fabião das Queimadas».
A o subir no palco com sua inseparável rabeca, o trovador foi entusiástica e longamente aplaudido e desenvolveu uma apresentação que foi classificada por a «A Republica» como «magnífica», composta de» repentes «e» louvores», que fizeram o deleite do público natalense naquela noite.
Uma coluna publicada cinco anos depois, por ocasião da morte de Fabião, mostra a repercussão que 'ta festa teve.
Um articulista que assinava simplesmente «R.S." 'creveu que» Ainda 'tamos bem lembrados daquela noite em que promovendo-se em 'ta capital uma festa, Fabião das Queimadas improvisava chistosos versos, magníficos na sua rudeza e simplicidade».
O articulista recordava alguns destes versos, que foram dirigidos aos 'pectadores mais ilustres, como o governador Antonio de Souza, Henrique Castriciano, Varela Santiago, Palmyra Wanderley e Eloy de Souza.
A 'te último, devido a sua herança negra, Fabião soltou uma quadra que terminava assim;
«Se o sinhô num fosse rico, era de nossa famía».
Em os outros dias, poucas notas são divulgadas por a imprensa sobre a quermesse, fazendo 'ta festa cair logo no 'quecimento.
Contudo, ao observarmos os detalhes existentes na elaboração e desenrolar de 'ta iniciativa, vemos que as mulheres potiguares, sob o comando com Palmyra Wanderley, conseguiram muito mais do que a nobre causa de angariar fundos para o hospital do Dr. Varela Santiago.
Com uma só ação, Palmyra e as outras mulheres, muitas certamente sem nem ao menos perceber o que 'tavam fazendo, atingiam em cheio aspectos negativos que permeavam a sociedade potiguar da sua época.
Quem busca conhecer com maior profundidade o pensamento da sociedade potiguar do final da década de 10 e início dos anos 20 do século passado, encontra fortes traços de preconceito contra a mulher, machismo, racismo e a pouca referência sobre as camadas populares e suas manifestações tradicionais.
Evidente que não seria 'ta quermesse de Natal de 1923 que mudaria uma sociedade com arraigados e antigos valores, mas iniciativas como 'ta ajudavam a criar mudanças.
Para Fabião, ao tocar na capital, não fez nada diferente do que 'tava acostumado a fazer nas casas e nas feiras dos povoados do sertão, e nem poderia ser de outra forma.
Fabião cantou a sua idéia de Mundo, as coisas da sua terra, da sua gente, trazendo para Natal, através dos seus versos, o que ele conhecia do sertão e assim se perpetuando na nossa memória.
Fabião das Queimadas morreu em 1928, aos sessenta e oito anos, de tétano, numa pequena fazendola de sua propriedade, chamada «Riacho Fundo», próximo a Serra da Arara e ao Rio Potengi, na atual cidade de Barcelona (RN).
Número de frases: 62
Fred Zero Quatro tem uma barba irregular com tufos de por os 'palhados desordenadamente.
Chinela de dedo, calça que acaba pouco antes do tornozelo e uma camisa de botões onde os dois mais próximos do pescoço ficam abertos.
Tranqüilo. Olhando assim, ninguém consegue imaginá-lo como tele-repórter, como o foi por dois anos, numa TV em Recife, acordando cedo, fazendo cerca de quatro pautas por dia, mandando matérias para o Boris Casoy.
E ele realmente não o é mais.
É sim, vocalista da Mundo Livre S / A, uma das bandas mais importantes do Manguebit, movimento que levantou a saia do Recife na primeira metade da década de 90, misturando de tudo um pouco:
o rock com o maracatu, a tradição e tecnologia.
Música, moda, cinema ...
A banda chega a Fortaleza fez show no Buoni Amici ´ s Sport Bar, comemorando os cinco anos do projeto Farra na Casa Alheia.
Depois de 22 anos do grupo, era de se 'perar algo mais morno talvez, mas antes do show Fred disse:
«Pela primeira vez, Fortaleza vai ver a versão completamente independente, autônoma, do Mundo Livre S/A. Uma banda que assumiu completamente as rédeas da própria carreira».
O sexto CD do grupo, Bebadogroove, lançado no fim de 2005, foi totalmente produzido de forma independente por o selo próprio do grupo Ôia.
De lá pra cá, foram cerca de três mil cópias vendidas de mão em mão, durante os shows, algo que Fred diz ser muito mais gratificante que nos tempo de Abril Music, gravadora por a qual o grupo lançou seu quatro CD, Por Pouco.
A distribuição em lojas vai começar agora com uma parceria com a gravadora Monstro Discos.
Em entrevista, Fred fala de como 'tá sendo se organizar independentemente, fala desse circuito que corre por fora dos grandes meios de comunicação e começa a se consolidar e conquistar seu 'paço.
Vou começar com uma provocação Fred.
Como é que vai a indústria fonográfica?
Eu precisaria de um monte de informação que eu acho que é meio sigilosa pra ter uma avaliação mais objetiva.
O que a gente vê mais evidente é que um certo monopólio de marketing, divulgação, principalmente nos grandes veículos, foi completamente desconstruído nos últimos anos.
Um certo controle que eles tinham em termos de padronizar a programação de rádio de norte a sul do país que era uma coisa muito comum de se vê quando tal artista de tal multinacional lançava um trabalho novo, no outro dia, de norte a sul, todas as rádios tavam tocando, e tal.
Há quanto tempo você não tem uma música que é o grande hit da temporada?
Não tem.
Hoje, cada vez uma parcela maior do público tá muito mais ligado no seu Ipod, baixando música na internet.
A gente 'se ano bateu o record de agenda de shows, tá fechando o ano no mínimo com 53, 54 shows, 20 % a mais que a agenda de shows do ano passado.
O tipo satisfação que a gente tem hoje, saber que já tem não sei quantos ingressos vendidos, vendendo nosso próprio trabalho autônomo é infinitamente mais legal.
Como foi conviver com 'se 'quemão?
O único período que a gente conviveu com 'se 'quemão mesmo foi de 98 a 2001, foi o tempo que a gente tava na Abril Music.
O único disco que a gente produziu totalmente no 'quema da Abril, que foi o Por Pouco, que foi um disco premiado e tal, foi uma experiência traumática.
Foi uma novela até se conseguir entrar num acordo para o produtor, outra novela maior ainda pra se conseguir entrar em acordo em termo de repertório.
A gente fez uma demo com vinte e tantas músicas, de 'sas vinte só aproveitaram sete.
Pela primeira vez a gente teve que gravar música fora do nosso repertório, mas óbvio que a gente não aceitou as imposições de eles, mas acabou gravando Loirinha Americana de Mestre Laurentino, gravou Jorge Ben.
Até que ponto isso que você já se referiu como «guerrilha cultural», 'sa organização independente, afeta realmente 'truturas de poder?
Eu tô lendo um livro bem bacana John Holloway, um cientista social que acompanhou durante um bom tempo os zapatistas (Exército Zapatista de Libertação Nacional, no México), passou um tempo em Chiapas e tal.
Esse livro se chama Mudar o mundo sem tomar o poder, a princípio eu achei meio 'tranho e tal, mas depois fui aprofundando e caiu a ficha.
De certa forma quem sentia o que era o ambiente cultural do Recife, 14, 13 anos atrás, quando a gente começou a fazer músicas, e vê o ambiente cultural hoje, como é, não só em termo de música, mas em termo de cinema, agora o Baixio das Bestas do Cláudio Assis, super premiado em Brasília, e tudo começou com Baile Perfumado que a gente fez a trilha, eu, Chico (Science), Siba ...
Se você vê o ambiente cultural de Recife hoje é completamente diferente, mudou não o mundo, mas mudou um comunidade completamente sem precisar tomar o poder.
Muitas de suas músicas são como crônicas sonoras da sociedade, fazendo crítica a partir de fatos midiáticos como o 11 de setembro, e também personagens como Ronaldinho, Luma de Oliveira, Laura Bush ...
Isso é a verve de jornalista formado, apesar de não exercer a profissão?
Ah!
Total véio.
Desde adolescente, eu ainda fazendo o ginásio no Colégio Militar do Recife, em plena ditadura, década de 70, tendo aula de OSPB (Organização Social e Política do Brasil) com militares.
Meu pai querendo que eu fosse oficial do exército e o que me atraia, embora já em decadência, era o Pasquim.
Desde então 'se vírus da comunicação já começou a bater, de ali eu já comecei a ter certeza que eu nem ia ser oficial como meu pai queria, muito menos uma de 'sas carreiras que ele poderia achar interessante, como Direito, Engenharia, Medicina.
Eu prestei vestibular na Comunicação, pra desespero do meu pai, passei em primeiro lugar na UFPE em Comunicação e eu acho que desde o início, na fase de 'tudante ainda, eu canalizava isso tanto para o jornalismo, 'sa necessidade de trabalhar a comunicação, quanto para minhas composições.
A gente trabalha com contra-informa ção e eu acho que tem a ver com a minha formação.
Falam muito da carga política das músicas do Mundo Livre S / A, mas ao mesmo tempo tem uma 'pontaneidade muito grande nas composições.
Esse é o clima da banda?
Uma imagem que, segundo o Renato (Lins), foi eu que criei, que em 'sa fase de início de formatação dos conceitos do Mangue era tudo muito coletivo e ninguém se lembra de quem inventou o quê.
Mas Renato jura que fui eu que inventei 'sa história da parabólica na lama, eu sempre fui fã de (Stanley) Kubrick 'se poder de criar imagens sintéticas.
E 'sa idéia tem a ver com isso, de conseguir sintetizar opostos.
Você pega o disco do Mundo Livre, você tem justamente isso, tem uma música como Musa da Ilha Grande e tem uma porrada sobre Comandante Marcos (líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional) e tal.
A idéia é tentar romper a fronteira do gueto.
Número de frases: 51
Matéria publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo pernambucano 'banja sonoridades totalmente diferentes das originais, do percussionista Edwin de Olinda.
Eddwin-Do alto dos seus um metro e oitenta de altura e cento e dez quilos de peso, Eduin é uma figura que impressiona e chama a atenção do público logo que entra no palco com a banda de Alceu.
Em a percussão, tocando pratos a-gô -- gô ele faz um gestual e coreografia com todo o corpo tornando-se um 'petáculo à parte dentro do 'petáculo.
Pra completar, eddwin é filho do maior babalorixá de olinda, pai Edu.
Eddwin mereceu uma música de Alceu: "
Quando Eduin desce a Ribeira», do disco «Leque Moleque».
Ele astá com Alceu desde 1988.
Número de frases: 7
vale a pena conferir!
Em o universo dos quadrinheiros de Manaus, um dos primeiros poemas 'critos em português, ou galego-portugu ês -- Cantiga da Ribeirinha (1198), do trovador Paio Soares de Taveirós --, se transforma no amor entre um poste sujo e uma borboleta, amor despercebido e arruinado por a cidade.
Também o último dos Três Porquinhos daquela velha história passou para os quadrinhos como um sujeito que «curtia psicanálise e os clássicos da literatura», e achava que o lobo tentando arrombar sua porta podia ser um fantoche em sua própria mão.
Entre o otimismo e a desilusão de seus textos e traços, a poesia, o humor 'crachado, a violência, o sexo e a filosofia sempre fizeram parte das criações do pessoal das HQs manauaras.
É o que se percebe em Clube dos Quadrinheiros -- As melhores histórias (140 páginas, R$ 30), um livro editado no mês passado por a Valer, em parceria com a Fundação Villa-Lobos, e que inicia um justo resgate do trabalho desse importante grupo de artistas da capital amazonense, uma moçada que transformou encontros semanais para trocar idéias e quadrinhos no porão de um velho prédio da Universidade Federal do Amazonas, na Praça da Saudade, numa verdadeira editora underground de fanzines e produtora de eventos artísticos e didáticos.
O livro teve tiragem de mil cópias e por enquanto só 'tá à venda na Livraria Valer (rua Ramos Ferreira, Centro).
Para a seleção das 16 histórias que o compõem, o roteirista e desenhista Mário Orestes fez um apanhado da trajetória de dez anos do Clube, de 1992 a 2002.
«São coisas que não podiam ficar de fora», explica, mas confessa que muita coisa boa acabou não entrando.
«Esse não é ' o'livro;
é apenas o primeiro», afirma o desenhista, 'perançoso no sucesso da edição para que o projeto acabe se transformando numa coleção.
«Material é o que não falta», avisa.
Ao todo, 17 artistas -- entre desenhistas e roteiristas -- 'tão presentes na obra, alguns com mais de um trabalho, pois o principal critério de seleção foi a qualidade 'tética, reforçada por a impressão cuidadosa e por o belo trabalho gráfico da edição.
De acordo com Adelino Lobato, membro de Clube e desenhista da história Folha, o projeto do grupo inclui a realização de exposições itinerantes por a cidade para mostrar os trabalhos e divulgar o livro.
Os painéis para isso já 'tão prontos.
O único lamento do grupo é o preço do título (R$ 30), encarecido por a tiragem modesta e 'mero da parte gráfica.
A idéia era de que todas as pessoas pudessem ter acesso ao livro, o que combinaria mais com o histórico de «arte para todos» do Clube.
O problema será resolvido em parte por as doações de cópias às bibliotecas e instituições públicas de ensino.
Expansão
O projeto de dar continuidade a 'sa antologia do Clube dos Quadrinheiros com outros volumes não é apenas um sonho de seus integrantes.
De acordo com Tenório Telles, coordenador editorial da Valer, a proposta da empresa é de transformar a produção de quadrinhos numa nova linha editorial, abrindo a possibilidade, inclusive, para que os autores do gênero lancem livros próprios.
Tenório revela que foi a própria Valer que procurou o Clube para a criação da antologia, alargando o leque de linguagens trabalhadas por a editora." (
O livro) veio da constatação de que sempre havíamos publicado textos de poetas, dramaturgos, contistas, e deixado outras áreas sem projeto», atesta.
O editor entrou em contato com o pessoal do Clube para a seleção do material, e partiu em busca de parceiros para viabilizar a impressão.
«Quem topou foi a prefeitura, por meio da Fundação Villa-Lobos, e a Edua (Editora da Universidade Federal do Amazonas)», afirma.
Em breve a Valer inicia uma distribuição mais ampla do livro, enviando-o às demais livrarias da cidade.
De os porões para as ruas
O embrião do Clube foi a realização do Primeiro Encontro de Quadrinheiros de Manaus em setembro de 1992, no Sesc-AM, por o quadrinheiro Marcos Antônio dos Santos -- conhecido no grupo como Supremo --, com apoio da professora Conceição Derzi, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O evento serviu para aproximar o pessoal, e contou com uma palestra do roteirista paraense Gian Danton.
De acordo com Roni Brito, outro dos fundadores do Clube, as reuniões semanais que se seguiram foram uma conseqüência natural daquele primeiro encontro.
Ávido colecionador de quadrinhos, uma atividade que teve início ainda na infância, na banca de revistas que a família possuía, Roni se transformou no principal editor do grupo, responsável por o Franca Zona, fanzine oficial do Clube que reunia as melhores histórias editadas em outros zines do pessoal, como o Phodas-C, o Gothic e Os Arcanos, por exemplo.
As atividades não se resumiam às publicações;
o Clube mantinha contato permanente com movimentos de outros Estados e realizou, em dez anos, oito encontros anuais, em que fazia exposições e trazia alguma personalidade do meio para ministrar palestras, como Ota, da revista Mad;
Laerte, Mutarelli e Adão Iturrusgarai.
A iniciativa do grupo era tão interessante que seus eventos passaram a ser «imitados» por as pastas culturais dos poderes públicos.
O sucesso desses encontros inspirou o Estado, por exemplo, a realizar duas edições do Salão do humor, sendo que a segunda foi internacional, com trabalhos europeus expostos.
Além disso, os eventos artísticos criados por gente do Clube, com exposições nas ruas e praças da cidade, em que qualquer artista de qualquer área podia chegar e mostrar seu trabalho -- ali, em cima da hora mesmo -- foi recentemente clonado por a prefeitura, com as edições do Arte na cidade.
A importância do Clube dos Quadrinheiros, portanto, 'tá em 'sas duas facetas de seu trabalho:
os quadrinhos propriamente ditos, e as atividades de bastidores, de movimentação da cena cultural de Manaus, tanto que o Clube gerou outros grupos, por ampliação ou dissidência.
Hoje, apesar de não haver mais as reuniões fixas, muitos fanzines daquela época ainda 'tão em circulação, novos foram criados, e os integrantes do Clube continuam na ativa, desenvolvendo trabalhos em diversas áreas.
Foi dos Quadrinheiros que emergiu, por exemplo, o Hyper Comix (pessoal do mangá amazonense);
a Hyperfilmes, produtora de filmes trash que chegou a realizar um longa em vídeo no ano passado;
e o grupo Muleque Doido -- fundado por Adriano Furtado (que 'tá no livro) --, que coloca a arte a serviço das comunidades da periferia manauara.
Como diz o texto de A Equilibrium, uma das histórias do próprio Adriano no livro, enquanto um bêbado tenta chegar em algum lugar: " ( ...)
e o que nasce morre, e morrendo, nasce pr ' um novo porvir, de novo fluir, até sucumbir, na eterna seleção que ignora fatalidade, pois apenas fluir é a realidade.
Não há Fim!».
Número de frases: 45
Outro dia me convidaram para falar sobre cultura roraimense numa aula de antropologia de uma faculdade local.
Não topei.
Em a época não me sentia capaz de identificar uma cultura local, nenhum traço marcante artístico-cultural 'tava evidente para mim.
Roraima é uma terra em que a diversidade 'tá presente em cada 'quina.
Por aqui temos gente de todos os cantos do país, 'trangeiros de várias nacionalidades e principalmente existem 12 etnias indígenas que tem um peso de destaque em 'sa diversidade cultural.
Dentro desse quadro riquíssimo é possível de se perceber a mistura de tradições, costumes, hábitos e gostos que vão desde a culinária até a maneira de se vestir, desde o tradicional chimarrão em praça pública até o caxiri (bebida indígena) em reuniões na casa de amigos.
E para aprofundar mais a discussão fui em busca daqueles que trabalham e vivem à sensibilidade, que conseguem registrar a cultura de um povo através de suas manifestações:
o artista.
Antropofagia é o termo que o músico George Farias destacou ao se referir à cultura local.
Ele que é natural de Fortaleza, disse que as diferentes riquezas trazidas para Roraima, as diferentes culturas, transformaram Roraima no 'tado que é hoje.
«Em 'se caldeirão a coisa foi se construindo.
Primeiro foram os nordestinos, os cearenses, e com eles os paraibanos e pernambucanos.
Veio o forró.
Forró nordestino com zabumba, triângulo, e sanfona, porém aqui, antropofagicamente ele se mescla com uma música caribenha, que é outra coisa e cria-se o forró que temos hoje aqui:
Pipoquinha da Normandia, Brasileirinho, Rasga Lenha, Paçoquinha ...»,
diz George.
Em as décadas de 70 e 80 ouvia-se rádio Venezuelana em Roraima.
Aqueles que 'tavam pensando música naquela época foram influenciados por todo 'te ritmo caribenho e a fusão destes transformou o cenário musical que temos hoje.
Claro que não só os ritmos caribenhos e o forró, mas o rock também teve a sua vez por aqui.
O músico Ben Charles na década de 80 montou uma banda chamada «Classe Média» e foi um dos pioneiros do rock no 'tado.
Mas a musical regional, aquela que exalta a terra, seu povo, a natureza local, 'sa veio com toda força e também sofreu muita influência de todos os cantos do País.
Em 1980, quando ainda era um Território Federal (somente com a Constituição de 1988 constituiu-se como 'tado) Roraima proporcionou o 1º Festival de Música Popular e como diz George, " em 'se festival já tinha não só o Valério Caldas de Magalhães (referência musical da época por ter composto a primeira peça Roraimense na virada do séc..
XIX para o séc..
XX, um chorinho, cuja partitura encontra-se hoje num Museu), mas também alguns inquietos que 'tavam ali com o seu violão, com a sua caneta e seu papel tentando 'boçar alguma composição, que já eram influenciados por as rádios do caribe e as músicas do nordeste».
Em 'se período surgem grandes artistas como Eliakim Rufino, Neuber Uchôa, Ricardo Nogueira, Zeca Preto, Dilmo Pina e muitos outros.
E para engrossar mais 'se caldo musical, George Farias chega em Roraima em 89 e traz outra informação musical, que se agrega a uma música «que já tinha uma marca roraimense, tinha uma identidade, falava sobre o lavrado, a cultura, os peixes, as comidas, o jeito e a maneira de ser do roraimense», finaliza George.
O choque de culturas em Roraima permite a produção de novos conhecimentos e novas técnicas e só quem ganha com isso é a população local.
É certo lembrar que a aversão ao que é produzido por aqui é fato.
Eu mesmo que desenvolvo trabalho no segmento teatral percebo muito bem isso.
Já 'tive apresentando 'petáculo nas praças de Boa Vista e no término do trabalho vieram me perguntar se a Cia. do Lavrado era de fora do 'tado, acreditam nisso?
Essa indefinição da cultura local foi o 'topim para o início da discussão com o ilustrador Tana Halú, que lembrou muito bem sobre o que é a cultura brasileira.
«Os negros da África, os Índios, os povos da Europa, Roraima é como o Brasil, que veio gente de todo canto e 'se pessoal tá fazendo suas manifestações», diz Tana.
O problema maior na visão deste artista é que 'tão tentando delimitar o que não tem limite e não tem barreira, a arte.
«Vamos acabar vivendo sem identidade por causa disso», desabafa o artista.
A 'critora Aléxia Linke, artista vinda de Belo Horizonte e com diversos livros publicados, tem nas suas obras personagens da mitologia local.
É evidente a influência que sua literatura sofre com o local em que vive.
«As pessoas tem que ter uma ligação com lugar em que vivem.
Eu devo um compromisso com 'se povo daqui.
Quando se fala de cultura roraimense ...,
diz Aléxia, que logo em seguida questiona a definição de literatura roraimense.
«O que é uma literatura roraimense?
São roraimenses que nasceram aqui e fazem literatura no Rio de Janeiro, ou são pessoas que tão por aqui, independente de onde vieram ou são pessoas que 'crevem sobre Roraima que tão fazendo literatura roraimense?»,
conclui Aléxia.
Em as artes plásticas não podia ser diferente.
E a influência indígena é muito mais perceptível.
Em um 'tado em que abriga hoje 12 etnias, muito do que é produzido circula por a capital e 'sa miscigenação, 'se trânsito do indígena entre a cidade e as malocas acaba por se refletir em toda 'sa produção.
Amazoner Okaba, artista plástico, nascido numa comunidade indígena chamada Malacacheta, autodidata, que teve contato com uma produção dita mais civilizada só em 87, «até então minha visão de mundo, de arte e de cultura passava por a minha identidade, por a cultura Macuxi e Wapixana (etnias indígenas locais)», disse Okaba, que também percebe a aversão à cultura local e justifica o fato na invisibilidade dos artistas causada por a elite local.
«As pessoas dizem que Roraima não tem produção cultural, que não tem cultura, uma identidade própria e eu me atrevo a dizer que sim ..., "
conclui Okaba.
A pluriculturalidade, a etnodiversidade existente em 'te 'tado é o grande diferencial desse povo, que 'tá diante de um florescimento cultural constante e que " não soube perceber, não se apercebeu e não 'tá se apercebendo hoje de 'sa realidade.
Ela passa por 'sa questão de identidade cultural ...
«disse Okaba.
Essa falta de legitimação da população local tem dois pólos distintos:
um é a carência de fomento na área cultural, que prejudica bastante a produção de novos trabalhos, por outro lado, a independência, como diz Okaba, a liberdade para o artista produzir o que quer também é uma vantagem, que faz com que o mesmo busque cada vez mais se aperfeiçoar com novas técnicas.
Com a chegada de novos artistas, 'sas influências se misturam e o resultado é a cultura roraimense.
Todos os que aqui chegaram contribuíram um pouco para que 'sa cultura se afirmasse, mesmo com aversão ou não o fato é que ela existe.
Foi o que aconteceu com Cristina Rocha, que já vive em Boa Vista há 15 anos, e hoje é referência no segmento de dança.
Mas no início não foi assim.
A formação de público não foi tarefa fácil e só mesmo com muito trabalho e adquirindo a confiança da população é que ela venceu por aqui.
Ela lembra que aprendeu a fazer cenário aqui, a entender de luz, figurino ...
«Eu cheguei, fui pioneira, tinha que saber.
Quem vem para a Roraima 'tagia numa 'cola muito rica.
Se no Brasil é difícil de fazer arte, em Roraima é mais ainda», disse Cristina Rocha, precursora do Balé Clássico no 'tado.
Se hoje eu recebesse novo convite para falar sobre a cultura roraimense, aceitaria de imediato.
E depois de conhecer um pouco mais sobre a história de Roraima, do ponto de vista artístico-cultural é certo que assunto não faltaria e sem dúvida nenhuma, como disse a nossa querida «Cristina Rocha,» a identidade da cultura roraimense é 'sa miscigenação, é 'se conjunto, 'se coquetel riquíssimo, que só tende a somar.
Subtrair jamais, multiplicar muito e dividir também porque o artista nasceu pra dividir.
Se não dividir você não é artista».
Número de frases: 67
O último dia do «Encontro de Cultura Colaborativa» foi marcado por o debate das ações da Secretaria de Cultura da Bahia na área digital.
Metas, planos e idéias foram apresentados, o que será ou não adotado por o governo Jaques Wagner só poderá ser consolidado após a Conferência Estadual de Cultura.
Até lá, a comissão organizadora ficou com a responsabilidade de sistematizar os debates desses três dias e passar via e-mail para os participantes para as intervenções.
Em a verdade, hoje era para sair do Encontro com a Carta definida, porém acabou antes do previsto (o fim do evento 'tava programado para as 17h30 mas acabou as 12h).
O número pequeno (novamente 15) de participantes talvez seja a explicação.
Por a presença majoritária de jovens, o papo ficou na questão da apropriação destes por os info-centros, principalmente a molecada questionando que a internet não é apenas o Orkut e MSN, existem diversas oportunidades na rede, porém cobram política pública que de certa forma, «orientassem» o uso das ferramentas digitais.
O mais absurdo foram as denúncias das proibições (em alguns info-centro não se pode nem entrar de bermuda e boné) e o modos operandi do projeto, que segundo os jovens não 'tão potencializando suas «energias».
Jornada concluída, sementes semeadas, resta agora a colheita.
Número de frases: 8
O compositor Chico Saldanha disse certa vez que «no mês de maio tá todo o povo ensaiando».
Com certeza em 'se período as fogueiras já 'tão queimando.
Em alguns terreiros da Ilha já ecoam os sons das matracas, zabumbas, maracás e pandeirões.
Longe dos ensaios do bumba-meu-boi, personalidades da cultura, assim como Chico Saldanha, encontraram no bumba-boi a inspiração para 'crever livros, pintar quadros, compor músicas e criar 'petáculos teatrais.
O cantor e compositor Josias Sobrinho, autor de canções célebres como Engenho de Flores (gravada por Diana Pequeno), Catirina e De Cajari para a Capital, afirma que fazer música tomando como referência o bumba-meu-boi é um retorno, uma viagem à infância.
«Eu quando criança lá no povoado de Tramaúba, em Cajari, ouvia muito bumba-meu-boi.
Ele foi minha formação musical.
Quando criança, dizia que queria ser cantador de bumba-boi quando crescesse».
Josias não virou efetivamente cantador mas, segundo ele, «o artista que ele se tornou foi construído a partir de 'sa experiência de vida».
Sem poupar a língua, assim como Catirina, e inspirado no boi, Josias criou versos como «a saudade é traça, 'traçalha o coração / e mulher bonita é chave de prisão».
Em a hora de compor, Josias não tem preferências.
«Todos os sotaques são bem construídos, são bem feitos e o resultado final é excelente», atesta.
Infância -- O artista plástico Fransoufer também foi buscar na infância a inspiração para pintar as telas do antigo trabalho Viva, " São João!
«Fui buscar inspiração na minha infância e nas lembranças que eu tenho do meu pai, que tocava zabumba no boi», conta o artista, que nasceu no município de Bequimão, na Baixada Maranhense.
Fransoufer afirma que ficou impregnado disso.
«Meu trabalho é fruto das minhas raízes», conta.
Diferente do cantor e compositor Josias Sobrinho -- que afirma não ter preferências por nenhum dos sotaques do bumba-meu-boi -- para Fransoufer o sotaque de zabumba é 'pecial.
Em a obra do também artista plástico Aírton Marinho a manifestação do bumba-meu-boi é recorrente.
«O processo artesanal e as semelhanças na linguagem deixam as suas xilogravuras e o bumba-meu-boi bastante próximos», diz Marinho.
Aírton Marinho também possui uma coleção feita exclusivamente com base no bumba-meu-boi, Guarnicê.
Em a coleção, Aírton elaborou 25 xilogravuras entre vaqueiros, índias, personagens e indumentárias do bumba-meu-boi.
«Esse trabalho é muito interessante, tem uma plasticidade, as formas do desenho me impressionam muito», conta.
A intenção, segundo ele, é universalizar o bumba-meu-boi e as tradições culturais do 'tado.
Narrativa -- O ator e mímico Gilson César, em seu 'petáculo Cartuns, foi buscar no auto do bumba-meu-boi alguns dos personagens de seu 'petáculo, entre os quais 'tão o Cazumbá, o Miolo do Boi, Catirina, Chico e o Brincante.
Esses personagens podem ser vistos logo no primeiro ato de Cartuns.
«Esse momento eu chamo de narrativa mímica maranhense», afirma Gilson.
Além da caracterização dos personagens, é marcante também a expressão corporal e gestual dos brincantes do bumba-meu-boi.
E o boi também ganha 'paço na literatura.
A experiência vivida como vaqueira campeadora no bumba-meu-boi de Morros levou a jornalista e professora universitária Ester Sá Marques a tomar a brincadeira como objeto de estudo da sua dissertação de mestrado, publicada em forma de livro, com a primeira edição já 'gotada.
Em o trabalho Mídia e Experiência Estética na Cultura Popular:
o caso do bumba-meu-boi, Ester Marques propõe a «recolocação do bumba-meu-boi no roteiro dos objetos da cultura popular, a partir de um lugar de fala 'pecífico, em vez da conceituação tradicional que o reduz somente a um objeto da cultura folclórica».
Ainda segundo o 'tudo de Ester Marques «o bumba-meu-boi transforma-se num acontecimento visível, transparente e representativo».
Torná-lo visível e transparente, só que para o público infantil, foi a intenção do jornalista Wilson Marques ao 'crever Touchê, uma aventura em noite de São João.
O livro narra a trajetória aventureira do menino Rafa, numa noite de festa junina.
Número de frases: 34
A o sair de casa para assistir a uma apresentação do bumba-meu-boi, o garoto, na companhia de Touchê, um sujeito 'quisito e misterioso, percorre as ruas da Madre Deus, enfrentando perigos e assistindo exuberantes desfiles das brincadeiras de bumba-meu-boi.
Começando Por o Umbigo Rumo ao Céu da Boca (
Autor: Antonio Brás Constante)
Você sabe qual é a parte mais egoísta do nosso corpo?
É o umbigo.
Pois todos os egoístas do planeta ficam somente olhando para seus próprios umbigos, 'quecendo o resto do mundo.
Mas quem acaba sendo castigado?
É a orelha, que leva puxões doloridos por as travessuras e erros que o resto do corpo apronta.
Quando a saudade aumenta lembramos do coração, aquele trabalhador incansável que pulsa incessantemente dentro de nós, que sofre e se aperta nos momentos de tristeza e bate forte quando a felicidade chega de surpresa.
O nosso medo é deixado para as pernas, que tremem e às vezes sorrateiras passam rasteiras em nossos desafetos.
Outra parte de nosso corpo que traduz o medo é o cabelo, com seus arrepios frente ao perigo, ficando em pé a cada susto que levamos, e muitas vezes sendo arrancado na hora do desespero.
A partir daí quem entra na dança são as unhas, que são roídas sem piedade, devoradas por nossos dentes que não aceitam desforra.
Pois com eles é «dente por dente», mas como existe o dente do juízo, às vezes tomamos consciência do perigo e damos no pé, correndo sem demora.
A mão tem uma função mais nobre, pois todo auxilio começa quando oferecemos uma mãozinha para alguém, mas se não queremos nos envolver em algo, acabamos lavando as mãos e pronto.
às vezes são as nossas costas que acabam levando toda culpa, dizem que elas são largas o suficiente para carregar os problemas que nos colocam sobre os ombros.
Não podemos nos 'quecer de nossa parte mais «sensível» ...
O pobre 'tômago.
Que em situações fortes se mostra um 'tômago fraco, outras vezes não temos nem 'tômago para enfrentar aquilo que acontece.
Nossa ambição 'tá concentrada nos olhos, um olho grande que cobiça tudo que vê.
Conhecido por muitos como o 'pelho da alma, que fala sem dizer uma única palavra e chora para aplacar nossas magoas.
Não é à toa que quando nos deparamos com algo cobiçado e de preço elevado, dizemos que o mesmo «custa os olhos da cara».
A língua é profana.
Afiada nas palavras, 'palha veneno aos ouvidos em murmúrios doces como preces ou em gritos de trovão, como se rogasse pragas em nossa direção.
Quanto à boca, templo cobiçado dos amantes, é tão vasto seu portfólio que 'crevi um texto inteiramente dedicado a elencar suas funções e abstrações.
Em o céu de cada boca ressoam os sons de todos os anjos e demônios que existem dentro de nós.
É de seus lábios que saem os comentários que ferem, as palavras que comovem, os versos que tocam a alma.
Uma alma que toca o mundo.
Um mundo que explode e se recria ao toque de duas bocas que se encontram na eternidade de um momento.
Enfim, nosso corpo é um reinado e nossa cabeça, de onde se governa todo 'te reino, funciona com um ar-condicionado (pois às vezes 'tamos de cabeça quente e em outras 'friamos a cuca).
Por isso devemos usar a cabeça e seguir em frente, levantar a cabeça e olhar o futuro que nos 'pera de braços abertos e punhos cerrados.
Onde a forma de receber 'te contato dependerá apenas de nossos passos.
E-mail do Autor:
abrasc@terra.com.br Sites:
www.abrasc.pop.com.br e www.recantodasletras.com.br/autores/abrasc)
Atenção: Divulgue 'te texto para seus amigos. (
Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos).
Número de frases: 36
«Em a minha infância, minha mãe ensinou-me que devíamos pedir perdão aos mendigos.
Em 'sa época, muitos de eles batiam à nossa porta. ( ...)
Quando não tínhamos o que oferecer, devíamos pedir «perdoe-me». ( ...)
Trinta anos depois tive de buscar uma explicação para dar a meu filho quando ele me perguntou por que eu mentia para os pedintes:
eu dissera a algumas crianças, num sinal de trânsito na Barra da Tijuca, que não tinha os trocados que eles me pediam.
Eu havia, ao longo do tempo, substituído o «perdoe-me» de antes por o «'tou sem trocado» de agora.
Foi justamente por 'sa época, em que meus pensamentos se dividiam entre as lições de minha mãe e as de meu filho, que fui surpreendido com um convite para coordenar a Fazenda Modelo, um dos maiores abrigos para mendigos do mundo.
Esta é uma tentativa de narrar meu encontro com 'ta fazenda e suas conseqüências;
o encontro com mim mesmo e com aquele menino que, de algum modo, continua a sentir a necessidade de pedir perdão».
Este contundente depoimento do médico Marcelo Antonio da Cunha ilustra a contracapa de «Em o olho da rua», livro em que relata as experiências e histórias vivenciadas ao longo de três anos à frente da Fazenda Modelo (leia um trecho aqui).
Em a última terça-feira, no lançamento-seminário organizado por a Editora Nova Fronteira realizado no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, o que sobressaía era exatamente o desconforto e a perplexidade da classe média diante dos abundantes pedintes nas ruas.
Se na parte da manhã foi discutida a dimensão política da questão, à tarde o foco 'tava na arte e no seu potencial para desnudar 'tigmas e mudar vidas.
Tanto as de gente «da rua» quanto as dos artistas que resolveram fazer alguma coisa com sua perplexidade.
De aí a idéia de colocar na mesma mesa ex-moradores de rua que se destacaram como artistas, ex-funcionários e gente como o cineasta Marcos Prado (de ' Estamira ') e Luciano Rocco, editor da Revista Ocas e os fotógrafos André Valentim e Marco Terranova (autores, respectivamente, do ensaio fotográfico e do documentário sobre a Fazenda Modelo).
A fala de Terranova, aliás, aproximou-se da de Marcelo Antonio ao se remeter à infância e mostrar como, no fundo, passamos a vida em busca de respostas para a situação de indigência.
«Quando tinha 15 anos, perguntei a um mendigo se podia fotografá-lo e ele disse não.
Quando perguntei por que, ele disse: '
Porque * não * é a única coisa que tenho '.
Ele me deu uma grande lição ali, mostrou que uma palavra pode representar respeito e que quem trabalha com imagem tem uma responsabilidade muito grande».
Valentim foi por a mesma linha.
«Alguns moradores resistiam no começo, outros pediam para ser registrados em determinadas roupas e situações.
Quis usar a fotografia para mostrar a dignidade de 'sas pessoas, fazer o público não desviar o olhar daquilo que em geral não queremos ver."
Interessante ele falar em olhar.
É uma coisa que sempre chama atenção nos mendigos.
Em geral, parecem trazer um tipo de sabedoria que só a rua sabe dar.
Isso se confirmou ao ver Barnabé, Cloves e Memorina, todos ex-mendigos, sentados à mesa junto com os artistas «profissionais».
Memorina é cega, mas a rigor não destoava dos outros dois, que também olhavam para o vazio, para algum ponto fixo da deslumbrante sala antiga do FCC, enquanto ouviam os participantes falarem.
Com o microfone à mão, Cloves e Barnabé optaram por recitar, cantar ou falar coisas que remetiam mais a um fluxo de consciência do que a um relato.
Memorina, por sua vez, fez uma fala forte e eloqüente, que mostra como a relação com os sentidos podem ultrapassar a barreira do banal:
«Quando o doutor Marcelo chegou no alojamento para me fotografar, sei lá, não achava que pertencia mais a 'te mundo.
Chorei e me 'condi com o lençol.
Ele respeitou.
Depois apareceu dizendo que ia formar um coral.
Nunca tive a idéia de cantar.
Mas acabei participando.
Aí comecei a ter outros pensamentos.
Eu 'tava me desenterrando daquele buraco em que 'tava.
Aquilo foi me despertando.
Me transformei em outra pessoa e passei a viver outra vida."
Não à toa, mais tarde Memorina se deixou fotografar.
Interrompida por a emoção, Memorina deu lugar à fala de Beatriz Resende, diretora do FCC e professora de literatura.
Ela aproveitou 'ta história da senhora para relembrar as fotos que recuperou do antigo hospício, que funcionava exatamente ali, onde mais tarde seria abrigada a Universidade do Brasil (atual UFRJ).
De entre tantas imagens de crianças e alcóolatras, chamava atenção a de uma senhora, cujo diagnóstico se limitava ao genérico rótulo de «histeria», que sempre aparecia com as mãos 'condendo o rosto.
Exemplo de resquício de dignidade (" a única coisa que tenho ") que completou com propriedade as falas de Terranova, Valentim e Memorina.
Por trás do cartão postal
Beatriz ainda aproveitou para contextualizar aquele seminário no tempo e no 'paço:
«Hoje, treze de maio, é simbólico por ser o dia da abolição, mas também o aniversário de Lima Barreto, 'critor que pesquiso há anos e que morreu em 'te prédio, quando ele era um hospício.
Encontrei as fotos ao buscar o último documento de internação de ele aqui.
Foi aí que tive a clareza do sentido deste prédio tão grande, que hoje chega a comportar uma universidade, ter sido construído para abrigar desajustados.
Vendo as fotos, entendi que não era bem um hospício, mas sim um 'paço para recolher os indesejados do Rio de Janeiro de cartão postal."
De fato, certas coisas não mudaram.
A Fazenda Modelo também era enorme.
Foi criada em 1947, mas virou abrigo em 1984.
A idéia era funcionar como uma fazenda de verdade, com plantação, criação de animais e atividades ao ar livre, buscando integração e auto-sustentabilidade.
Quando Marcelo chegou à direção, em 1999, viu que o caminho tinha sido totalmente desvirtuado.
O 'paço virou um depositário de seres humanos sem qualquer perspectiva, que recebia cada vez mais gente retirada das ruas (do pretenso cartão postal) e encaminhada por um ônibus apelidado de cata-tralha ou «mendigão».
No decorrer das páginas, vamos tomando conhecimento da variedade de histórias, muitas de elas surpreendentes, de gente que já teve família, bens, trabalho e que, como num piscar de olhos, perdeu o rumo.
E, no fim da linha, encontrou a Fazenda Modelo.
Em alguns momentos, de tão desalentador, o relato chega a lembrar a degradação humana de ' Ensaio sobre a cegueira ', de José Saramago.
Bandidos, agiotas, traficantes, prostitutas, todo tipo de gente se misturava naquele 'paço.
Famílias inteiras moravam ou se formavam por lá, a ponto de se 'tenderem por gerações no local.
Curiosamente, de entre as 'tatísticas com números alarmantes, a prática de suicídio não se destacava.
«Talvez seja isso que os diferencie de outras pessoas em crise:
querer continuar vivos.
Têm um 'tranho apego por a vida», conta o autor.
Ao longo de suas conversas com os moradores, Marcelo foi tentando entender como se dava o rompimento daquela frágil linha que separava os dois mundos, o de casa e o da rua.
«O que percebi é que é muito fácil passar para ' o outro lado da vida '», relata ele no livro.
«Difícil é sair de ele."
Exemplo disso é a trajetória de Barnabé.
Músico que tinha conquistado algum prestígio em São Paulo com o nome artístico Ébano, ele se desvirtuou de alguma forma a partir da separação da mulher.
Acabou na FM sem dar pistas de paradeiro.
Vinte anos depois de seu sumiço, um produtor musical ligou cogitando que pudesse 'tar lá.
Isso resultou no reencontro com a família.
Mesmo assim, Barnabé acabou voltando para o abrigo.
«Tinha ficado muito difícil, depois de sua vivência na rua, readaptar-se ao convívio familiar», conta Marcelo no livro.
«Jair e Ébano tinham morrido definitivamente.
Ele agora pertencia ao mundo da rua, e era assim que preferia viver."
Antes de ser descoberta sua identidade, Barnabé já tinha dado amostras de sua musicalidade na rotina da Fazenda e compôs várias canções sobre a vida nas ruas que viraram verdadeiros hits por lá.
De a mesma forma 'pontânea, Cloves fez de seu quarto no abrigo uma verdadeira instalação, com móbiles, papel machê e luzes.
Sua obra chamou tanta atenção que Marcelo resolveu chamar um 'pecialista -- em artes, e não em psiquiatria -- para avaliar.
Resultado: depois de participar de algumas exposições no Rio, Cloves foi um dos nomes selecionados para a Bienal de São Paulo.
De aí a fazenda começou a dar frutos em outras culturas, para além da horta, das plantas medicinais, dos porcos.
Oficinas de artes passaram a fazer parte da rotina.
«Descobrimos um galpão enorme, cheio de lixo.
àquela altura já éramos uma gangue e limpamos aquilo, ocupamos com peças e filmes e começamos a atrair até gente do entorno», conta Dinah Oliveira, responsável por as aulas de teatro.
As peças, com histórias relacionadas às experências dos moradores de rua, eram impactantes -- como pode ser conferido em trechos do documentário sobre a Fazenda.
Como Cloves, outros internos se destacaram por seu talento, o que fazia os funcionários ficarem ainda mais cismados com os rumos que certas vidas acabam tomando.
Mas afinal, qual é o real valor de 'sas iniciativas artísticas num lugar onde a dignidade era artigo a ser buscado?
Em um dos capítulos finais, Marcelo começa a descrever o processo de desconstrução da Fazenda Modelo, que deixou de funcionar em 2003 após um longo período de transferência dos abrigados para lugares mais preparados para recebê-los (portadores de deficiência em instituições 'pecializadas, idosos em asilos, famílias em casas pagas por auxílio-moradia etc.).
Diante da dificuldade da «desconstrução», ele conta que passou a se questionar tanto sobre a validade de todo aquele 'forço que em certos momentos achava até o trabalho artístico com cara de verniz, maquiagem dentro de uma realidade sem perspectiva.
Mas ao longo do livro, percebe-se que 'sa visão pessimista não tem vez quando o diretor relata alguns episódios envolvendo as atividades culturais.
Dentro de um ambiente inóspito e carente de tudo como aquele, a arte poderia até ser considerada inútil.
Mas afinal, o que é útil?
Difícil responder.
Mas exemplos sempre podem ajudar.
Em uma encenação de incêndio, Cristina, uma das internas da platéia, ficou tão nervosa que começou a ajudar a remover as pessoas do galpão, aos prantos.
Sua atuação foi tão forte que as pessoas chegaram a ficar na dúvida se era uma atriz ou não.
Descobriu-se, depois, que ela tinha testemunhado um incêndio real na fazenda, anos antes, daí a reação exacerbada.
Depois do episódio, ela acabou entrando de cabeça no teatro.
Marcelo conta:
«Uma vez perguntei-lhe se o teatro tinha mudado algo na sua vida e ela respondeu: '
Me fez acontecer '.
Antes de ele, segundo ela, nada na sua vida fazia sentido.
Com o tempo, Cristina recuperou a guarda dos filhos, conseguiu auxílio-moradia e alugou uma casa nas proximidades da fazenda.
Mas ia freqüentemente ao abrigo para os ensaios e as apresentações.
Número de frases: 105
Não abandonou a vida de atriz."
O cantor alagoano Wado surgiu aos meus olhos, ou seriam ouvidos?,
no ano de 2001.
Em aquela situação o cantor dava os primeiros passos em direção a carreira solo após um período de atividades junto a sua antiga banda, Santo Samba.
Se bem me lembro a primeira canção de Wado que ouvi foi Ontem eu sambei, a música me chamou atenção em meio a tantas outras da coletânea encartada numa já falecida revista de música independente.
O saculejo e a viagem visual propostos por o sambinha serviram de refresco em meio a confusão sonora típica de toda coletânea.
Fiquei curioso e, depois de uma busca apurada por lojas e sebos consegui encontrar o disco Manifesto da arte periférica.
O álbum de 'tréia é curto e grosso.
Vale a pena registrar que a produção é assinada por a dupla, também alagoana, Sonic Júnior.
Ao contrário do que se pode imaginar a partir do título, o disco não tem o menor tom panfletário.
Os arranjos são soltos e as letras passam longe de qualquer discurso chato e convencional.
A proposta é de uma arte periférica recheada de leveza e paixão por a vida.
Em «Alagou as», Wado canta:
«Os rios são as veias da terra / a terra é um Rei de sangue azul.
/ Alagou as terras do meu coração / molhou, encheu de lágrimas».
Em seguida recita o desejo de aproximar a margem e centro, " levanto 'ta bandeira, a bandeira da diversidade, dos compositores de bairros distantes.
Levo 'se 'tandarte».
Acho que 'sa idéia sintetiza bem o tom do manifesto que vem embalado em ilustrações assinadas por o próprio Wado.
Continuei na busca por novidades sobre o músico.
Tive a sorte de assistir a um show aqui no Rio e logo depois encontrar Cinema Auditivo.
O segundo álbum do artista mergulha fundo em duas direções opostas:
O disco é ainda mais singelo, em músicas como Poema de Maria Rosa, e ainda mais gingado / pesado como em Tarja preta, onde o cantor alerta:
«Esse funk é tarja preta, remédio forte».
De fato, a química desse som é pesada, mas sem contra indicação para qualquer idade, sexo, cor ou religião.
Em o velho 'quema boca-a-boca falei e mostrei Wado pra vários amigos.
Tenho, inclusive, um carinho 'pecial por 'se disco que me ajudou a conquistar uma grande paixão na época.
Realismo fantástico, além de um 'tilo literário, batiza a banda com que Wado gravou A farsa do samba nublado (2004).
Em 'te disco as guitarras e distorções aparecem com mais intensidade, em contra-ponto, também é perceptível uma maior apuração poética.
Talvez nem exista 'sa pretensão, mas alguns dos jogos poéticos construídos por Wado e seus parceiros lembram bons momentos de compositores como Chico Buarque e Arnaldo Antunes.
Digo isso porque existe na música de Wado um traço de crônica e uma elaboração lírica muito visual.
Escuto os discos e vejo cenários de Alagoas, do Rio de Janeiro, é o que acontece com a audição de " Carteiro de Favela:
«Era carteiro de favela, que coisa bela, que contradição.
Rua sem nome, beco, viela, pulando 'goto minha função
Faltando dado, número errado, uma labuta, sorte e viés
De rosto em rosto vida novela, e calo em 'tes pés
Em o fim do dia uma cerveja no bar e o coração tranqüilo
Em o fim do dia uma cerveja no bar e meu dever cumprido "
A boa surpresa foi receber a notícia do lançamento de um disco novo.
Soube que, depois de andar um tempo entre Rio e SP, Wado havia voltado para Alagoas, tinha encontrado velhos amigos músicos e 'tava botando mais um trabalho na rua.
Terceiro mundo festivo começa na cadência das obras passadas, mas vai crescendo faixa a faixa e revela um Wado como ele nunca foi.
A nova roupagem agrega, fundamentalmente, elementos de música eletrônica.
Seja com pequenos ecos do bom e velho funk carioca, seja com as timbragens de bateria que nos remetem a boas produções de rap americano.
Pouco a pouco o disco vai correspondendo ao subtítulo Brazilian electro / Funk / Disco / Reggaeton / Afoxe.
As letras expõe Wado como um compositor, no melhor sentido da palavra, maduro.
Os calos adquiridos na intensa carreira são poeticamente cantados do início ao fim do disco.
O descontentamento com a indústria fonografia surge na seqüência Reforma agrária do ar / Fita bruta.
Em as duas canções o que fala é a voz do artista tolido por o contexto que cerca os processos de 'coamento de sua arte.
A reforma agrária se coloca «contra o artista mudo, contra o ouvinte surdo é contra o latifúndio das ondas do rádio», ao passo que a poesia de Fita bruta detona:
«Ficamos na fita bruta que algum filha-da-puta decupou.
Não entramos na comédia e é preciso fazer média com o maldito diretor».
Mais uma vez, a exemplo do primeiro disco, engana-se quem imagina que o manifesto soe em tom de lamurio.
O mérito de Terceiro mundo festivo é ser um disco contemporâneo, que diz respeito ao hoje, e tem prazo de validade indeterminado.
Não é inocente, mas é leve.
Não é panfletário, mas é posicionado.
Não é revolucionário, mas é pertinente.
Por fim, entre negações e afirmativas, é um disco que celebra nossa vocação para a festividade.
Soa como uma boa conversa de botequim, mesclando papo sério e brincadeira, sempre ao som de um batuque que faz até mesmo o ouvindo mais desritmado a bater o pezinho na cadência bonita do nosso electro / Funk / Disco / Reggaeton / Afoxé.
Viva Wado!
Número de frases: 58
Todos os discos 'tão disponíveis para download no site oficial de Wado.
Não há consenso sobre minha criação.
Isto, talvez, seja 'perado -- ou mesmo desejado, porque não quero, seguindo os sábios conselhos de Nelson Rodrigues, ser pauta exclusiva da burrice.
Há quem diga, embora a maior parte dos 'tudiosos questione, que o Brasil é minha pátria, mas que não fui patenteado aqui por falta de apoio do governo ao padre que me inventou.
Polêmicas à parte, com o que (quase) todos os pesquisadores concordam é que meu passado, no país do futuro, 'tá intimamente ligado à história da união entre educação e comunicação.
Idos tempos de Roquette Pinto, do Movimento de Educação de Base (MEB), da crença de que a rádio combateria o analfabetismo!
Meu presente, no entanto, cada vez mais tem se afastado desses ideais pedagógicos.
É verdade que a Constituição Federal 'tabelece, desde 1988, que sou uma concessão pública, que meu uso deve atender a valores éticos e de cidadania, respeitando a diversidade cultural brasileira.
Mas, caros leitores, 'timados ouvintes, vocês hão de concordar que minha programação, com raras e honrosas exceções, 'tá pasteurizada, mercantilizada, com formatos e conteúdos que ainda não se deram conta da notícia que há tempos chega lá do Maranhão, anunciada por Milton Nascimento:
o Brasil não é só litoral, é muito mais, muito mais do que qualquer zona sul.
Em 'te início de século XXI, os cidadãos mais críticos (que alguns acusariam de puristas) respiram aliviados quando eu valorizo o Português, tal é a quantidade de expressões e músicas norte-americano que invadem minha programação.
«Ah, salve nossa língua!»,
comemoram. E eu, que tanto já ouvi e falei em 'ses últimos oitenta anos, permaneço vítima da minha indagação sem eco:
nós quem, cara pálida?
Mesmo com os 500 anos de massacre e catequização, os indígenas do Brasil conseguiram preservar, de acordo com o lingüista Wilmar D ´ Angelis, da Universidade de Campinas (Unicamp), 200 línguas diferenciadas.
Cada uma de elas expressa o cotidiano de resistência de um povo, um modo singular de ver e de sentir o mundo.
Mas eu, infelizmente, tenho me portado como surdo-mudo diante de 'sa riqueza sócio-cultural.
Em Roraima, em abril de 2005, noticiei a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, com 1,74 milhões de hectares.
Lembro-me dos protestos em praça pública, das bandeiras pretas pregadas nos carros, do luto oficial de sete dias decretado por o finado governador Ottomar Pinto (que morreu no mês passado, reeleito).
Em as aldeias, como era de se 'perar, a reação majoritária foi de comemoração por o fim de um lento e conturbado processo de 30 anos de reconquista do território tradicional dos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona.
Mas 'sa festa eu pouco pude divulgar, silenciado por políticos e comunicadores a serviço dos interesses dos produtores de arroz do sul do 'tado.
De os transmissores locais, porém, há dois anos se erguia uma voz alternativa, distoante do tom geral de lamentos, ameaças e segregação.
Em abril de 2003, o Ministério das Comunicações concedeu à Diocese de Roraima um 'paço no 'pectro eletromagnético:
nascia, assim, a Rádio Monte Roraima.
Foi lá, na 107,9 FM, em Boa Vista, em meio às disputas concretas e simbólicas que dividiam a população, que eu aprendi a falar Macuxi!
E desde então, venho repetindo, de segunda a sexta-feira, durante 15 minutos diários, o convite que me seduziu:
Makusi pe 'enupam painîkon?
Ou seja: vamos aprender Macuxi?
Roraima tinha em 2007 cerca de 392,7 mil habitantes, segundo 'timativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Aproximadamente 250 mil 'tavam concentrados na capital.
Dados do Instituto SócioAmbiental (ISA) apontam que no 'tado vivem 40 mil indígenas, sendo os Macuxi a etnia mais numerosa, com 16,5 mil representantes.
O Conselho Indígena de Roraima (CIR) acredita que boa parte de 'sas pessoas (algo em torno de 10 mil) more em Boa Vista, longe das aldeias, em meio a uma cultura urbana que contesta e muitas vezes ridiculariza sua identidade cultural.
São 'ses indígenas o público alvo do programa Vamos aprender Macuxi!,
idealizado por a Pastoral Indígena da Diocese de Roraima e produzido por um grupo de professores indígenas.
Em as cidades da Amazônia, as pessoas costumam se referir às línguas indígenas como «gírias».
O termo pejorativo revela traços de um histórico de dominação, permeado por períodos no qual os karaiwá (termo Macuxi para se referir ao chamado homem branco) puniam o não-uso exclusivo do Português com severos castigos físicos.
Não me surpreendeu, portanto, que a reação da maior parte dos ouvintes diante do novo programa tenha sido de negação.
A jornalista e professora de Comunicação da Universidade Federal de Roraima, Antônia Costa da Silva, também apresentadora do Monte Roraima Show, programa que antecedia o Vamos aprender Macuxi!,
cansou de atender ligações de pessoas ofendidas com as 'tranhas aulas radiofônicas.
«Tinha gente que perguntava, com desdém, se o Macuxi existia mesmo.
Outros afirmavam que em Boa Vista não havia índios, só caboclos, porque as pessoas não andavam nuas nas ruas da cidade», contou-me Antônia, que fez do programa indígena o objeto da pesquisa de mestrado que 'tá desenvolvendo no Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Ainda é cedo para saber se 'tou contribuindo para aumentar o número de falantes do Macuxi em Boa Vista.
Minha experiência me mostra que o processo de ensino-aprendizagem vai além da produção e difusão de mensagens, passando também por o complexo universo da recepção.
O fato é que, a despeito da resistência dos não-indígenas, o Vamos aprender Macuxi!
já é um sucesso.
As lições diárias de 15 minutos (que se repetem durante a semana, completando um conjunto de quatro programas diferentes por mês) mudaram de horário:
a pedido dos ouvintes indígenas, passaram de 9h00 para 19h00, para que pudessem ser acompanhadas à noite, ao balanço da rede.
E, o mais importante, a iniciativa chamou a atenção de outros povos indígenas de Roraima:
agora, eu também 'tou aprendendo (e ensinando) Wapichana!
Número de frases: 49
O Código Laranja realizará um debate virtual no Laranjada, seu programa de mensagem instantânea.
O assunto em questão é:
Anti-americanismo adianta?
O presidente George W. Bush faz uma visita à America Latina e chega ao Brasil, mais precisamente em São Paulo, na noite de 'sa quinta-feira.
Por onde passa Bush recebe uma onda de manifestações contra a sua política externa.
Os EUA com o título de superpotência hegemônica utiliza tanto de seu poder econômico, quanto bélico para administrar o cenário internacional de acordo com seus interesses.
Esse poder de controle é muitas vezes criticado por os outros países que de sentem oprimidos e obrigados a aceitar certas condições impostas por o governo americano.
A política externa americana é claramente definida por o lema «o que é melhor para os americanos» e isso é bem claro.
Mas será que um presidente que defende os interesses do próprio país 'tá errado?
Qual o valor do poder se você não utiliza quando necessário?
O Brasil certamente não 'tá acostumado com governantes que defendam os interesses públicos.
Em a maioria dos casos a defesa acontece do interesse particular ou dá própria imagem, como pudemos observar na disputa Boliviana por o aumento do preço do gás em que o presidente Lula saiu como «homem caridoso» e a população brasileira foi quem pagou a conta.
É compreensivo ser contra injustiças, violação dos direitos humanos, etc, mas será que ser anti-americano tem alguma serventia?
Hugo Chavez é a figura que encarna hoje na América Latina a posição anti-americana, anti-globaliza ção, etc, mas isso não passa de teatro, uma vez que o dinheiro que financia as suas extravagâncias vem do petróleo venezuelano é vendido para os EUA.
Isso faz com que o discurso anti-americano do presidente venezuelano seja vazio na prática, e funcione apenas para atrair os votos de eleitores que adotam 'sa filosofia anti-império.
Os demais governos sulamericanos seguem 'sa mesma linha.
Durante o Império Romano, Roma era odiada por o territórios ocupados, mas com a invasão vinham também uma série de melhorias de vida como inovações tecnológicas, 'tradas, saneamento, etc..
Essas criavam uma enorme contradição entre nos cidadãos invadidos:
ser contra a ocupação e desfrutar das melhorias trazidas por ela.
Hoje em dia não é diferente com o império EUA.
Odiamos quando eles utilizam da sua força econômica e bélica mas gostamos das suas inovações tecnológicas com internet, microondas, etc.
Se houve abusos nas prisões no Iraque, só soubemos de elas por causa da imprensa livre.
Se existem prisioneiro que não foram julgados violando os direito humanos, os americanos interviram na Iugoslávia para acabar com a limpeza ética praticada por Slobodan Milosevic.
Isso demonstra que não há mal absoluto e muito menos um bem.
Mas o que é que se ganha sendo genuinamente contra os Estados Unidos?
O que se ganha adotando 'sa política?
O que traz mais benefícios a população, trabalhar contra os EUA ou a favor?
A não adesão americana ao tratado que Kioto para tornar os americanos ainda mesmo populares?
Até que ponto a política externa adotada por o EUA beneficiam o comércio mundial e a manutenção de países democráticos?
Essas outras questões serão debatidas no Laranjada em 'sa sexta-feira, dia 09/03/2007, às 15:00 e ficará aberto durante todo o final de semana.
Os colaboradores do Código Laranja participarão e todos os membros do Laranjada 'tão convidados.
Para participar deste debate basta 'tar cadastrado no Laranjada (http://www.codigolaranja.com.br/), entrar no blog messenger e você receberá automaticamente um convite para o debate.
Para retornar a sala, basta clicar em «selecionar» e pesquisar a sala «Anti-americanismo adianta?».
Contamos com a sua participação!
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Número de frases: 36
asp Maiores informações em www.codigolaranja.com.br O ano de 2007 foi um dos melhores já vividos por o Teatro Experimental de Alta Floresta.
Para encerrar o ano, o grupo participou como convidado, na Mostra de Teatro do Vale do Arinos, na cidade de Porto dos Gaúchos, localizada a 500 km de Alta Floresta.
O evento foi organizado por a prefeitura local e contou com a presença dos grupos de teatro da região.
Em a ocasião Agostinho Bizinoto proferiu uma palestra sobre o teatro, sua organização e função social e os atores Ronaldo Adriano e Eriberto Müller ministraram oficina para um grupo de 30 pessoas, além da apresentação da peça teatral Vote em Mim.
Durante o ano foram realizadas 76 apresentações dos 'petáculos do repertório do grupo para um público superior a 13 mil pessoas.
O Experimental 'teve em 9 cidades mato-grossenses, percorrendo o equivalente a 10.100 km.
Em outubro representou Mato Grosso no IV Festival de Teatro da Amazônia, realizado no Teatro Amazonas, em Manaus, com o 'petáculo Batéia.
Em a ocasião o dramaturgo e diretor Agostinho Bizinoto foi indicado para o prêmio de Melhor Texto.
Dentro da política de fortalecimento do teatro na região amazônica, participou de dois importantíssimos eventos, um na cidade de Uberlândia / MG no mês de junho e outro, recentemente, na cidade de São José, na grande Florianópolis / SC.
Três grandes projetos foram realizados em 2007.
Um dos projetos foi de continuidade -- Teatro no Campo, com realizações de apresentações teatrais em comunidades rurais do município de Carlinda / MT, projeto desenvolvido em parceria com o Instituto Ouro Verde (IOV).
Participou do projeto de construção da Agenda 21 local de Carlinda com a peça Problema Nosso, enfocando a importância da participação social nas discussões sobre os rumos do município executado, que foi levada a todas as 'colas e em várias comunidades do Município.
O terceiro projeto foi a participação do Teatro Experimental junto ao Programa de Consciência Fiscal do município de Alta Floresta com a peça Auto dos tributos:
o Diabo também é justo, primeiro 'petáculo de rua do TEAF e que foram realizadas 30 apresentações em várias comunidades e 'colas.
De entre as conquistas para o grupo se destacar a eleição de Agostinho Bizinoto como diretor da regional Centro-Oeste da CBT -- Confederação Brasileira de Teatro e Angélica Müller como diretora do Pólo Norte de Teatro.
A participação de integrantes do grupo em importantes projetos Brasil afora, destacando a participação de Agostinho Bizinoto em turnê por 7 capitais, com o 'petáculo «O Salário dos Poetas da Cia.».
D' Artes do Brasil e participação como ator no longa-metragem «O Homem Mau Dorme Bem» do cineasta Geraldo Moraes, produção cinematográfica que também contou com a participação de Elenor Cecon Júnior, presidente do grupo, na equipe de produção.
O Teatro Experimental realizou, em março, a quarta edição do Seminário de Cultura de Alta Floresta, levando mais de 200 pessoas às palestras e mesas-redondas cuja temática era Cultura e Sustentabilidade.
Em maio foi a vez do cinema entrar em cena.
Através da iniciativa do Teatro Experimental foram mais de 20 filmes (longa e curta-metragens) exibidos durante uma semana no 1º Festival de Cinema na Floresta, levando um público superior a 4 mil pessoas ao Teatro Oficina.
A Mostra Regional de Teatro e Mostra de Teatro da Amazônia Mato-grossense, também tiveram a colaboração do TEAF, realizadas na cidade de Guarantã do Norte / MT e em Alta Floresta, respectivamente.
Importantes pessoas da política cultural brasileira 'tivem em Alta Floresta participando e contribuindo com os eventos e promoções do Teatro Experimental, com destaque Hélvio Tamoio -- da Fundação Nacional de Artes (Funarte);
Américo Cordola -- da Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura;
Amauri Tangará -- cineasta, diretor e ator mato-grossense;
Hélio Pimentel, presidente da Federação Paulista de Cineclubes;
Geraldo Moraes -- cineasta de Brasília / DF;
Eduardo Ferreira -- 'critor e redator do Overmundo;
e Jordânia Galdino e Valderes Souza -- ambos da FETAM -- Federação de Teatro do Amazonas.
Para 2008 grandes projetos 'tão sendo preparados e outros já 'tão em execução para comemoração dos 20 anos do Teatro Experimental, como a montagem da peça teatral Dom Quixote, que será dirigida por o diretor português Horácio Manoel e lançamentos de um livro contando a trajetória do Teatro Experimental e outro com a dramaturgia de Agostinho Bizinoto (fundador, juntamente com a atriz Elisa Gomes, do TEAF) e suas experiências na difusão, organização e promoção do setor cultural em Alta Floresta e região.
Número de frases: 29
Que os deuses do Teatro nos fortaleçam cada vez mais.
Afinal, o que é preconceito?
Trazendo o tema para dentro de nosso universo musical, o preconceito se apresenta em diversas formas, que podem ir desde o momento em que somos apresentados à alguém, passando por situações de 'colha de repertório e de gigs.
Como seres humanos, sempre que somos colocados numa situação, emerge de nosso cérebro um parâmetro comparativo, ou seja, uma referência antes armazenada.
Em a maioria das vezes, 'ta idéia é pré-concebida, o que não necessariamente é ruim.
Trabalhar com referências faz com que nós tenhamos os parâmetros necessários para fazer uma avaliação mais concisa e honesta de um determinado assunto.
O problema acontece quando passamos a agir pré-concebidos no famoso «piloto automático».
Exemplo: você é apresentado a alguém que é altamente expansivo e comunicativo, cheio de idéias e expressões visuais.
Dependendo da situação, pode acontecer de você achar que 'ta pessoa é arrogante e narcisista, quando você acabou de ter apenas o primeiro contato com ela.
Talvez em algum momento de sua vida você conheceu alguém que, além de expansivo e extremamente comunicativo, olhasse mais para o próprio umbigo do que outra coisa.
Mas passar a encarar todas as outras pessoas assim é agir com puro preconceito.
O preconceito com 'tilos musicais é um outro vasto e enigmático assunto.
Todos nós gostamos mais de determinados 'tilos musicais.
Mas, é notório o preconceito que rola no mundo da guitarra:
«Fulano de tal é um babaca, não toca nada, fica só nas pentatônicas».
«Sicrano tem o ego na Lua».
«Não gosto de ele porque ele toca guitarra de maneira egoísta, como se não existisse mais ninguém em volta».
«Viu quem 'tá tocando sertanejo agora»?
«Aquela 'cola é cheia de panacas, um querendo se mostrar mais que o outro».
E assim vai, tendendo ao infinito.
Ter sua opinião é fundamental.
Mas respeitar seu próximo é algo mais importante ainda, por mais óbvio e simples que pareça.
Repare na quantidade de gente que fala mal dos outros, diariamente!
Há pessoas que falam mal de alguém assim que o mesmo sai da sala!
Esta atitude não só gera mais preconceito no meio musical, induzindo muitas pessoas a terem uma idéia errada sobre algo que pode ser quase irreversível.
Muitos «taxam» literalmente um instrumentista porque ele toca com artistas sertanejos ou artistas de grande expressão popular, ou porque preferem tocar uma música tão única que 'tão eternamente ligados ao underground.
Outros são «crucificados» por possuírem uma visão artística diferente, muitas vezes mais ampla e angular que a maioria.
Aqueles que propõe um novo caminho, uma nova alternativa ao padrão vigente muitas vezes padecem por muito tempo até conseguirem 'tabelecerem suas idéias.
É preciso termos, antes de tudo, respeito.
É preciso uma sintonia aberta, receptiva para a novidade.
Muitos que mudaram a história sofreram com o preconceito da sociedade e até mesmo de amigos e parentes próximos.
Santos Dummont foi chamado de louco por suas idéias.
Villa-Lobos tinha fama de «maluco», exatamente por querer ressaltar a criatividade e a originalidade brasileira num momento em que a maioria queria 'tereótipos europeus.
Schoenberg (criticado por seus conceitos dodecafônicos), Einstein (muitos não admitiam a mistura de sua origem judia e sua genialidade latente), Carl Sagan (chamado de louco durante muitos anos), Frank Zappa (chegou a ser preso e tratado como delinqüente), George Benson (" Ele se vendeu ao sistema ao começar a cantar».),
João Gilberto (chamado de individualista e até mesmo 'quizofrênico).
Enfim, a lista não acaba mais.
Um dado importante em 'ta história:
muitos têm preconceito com o sucesso alheio.
Aceitar o êxito dos outros para muita gente é tarefa impossível.
Começam a achar defeitos e teorizam caminhos diferentes (" Se fosse eu faria assim, faria assado».).
Estas pessoas, ao ficarem falando mal dos outros e alimentando preconceitos, 'tão na verdade empacando as próprias vidas.
Aceitar e respeitar seu próximo é o primeiro passo para a evolução humana.
Enquanto houver preconceitos religiosos, de idéias, de caráter, de obras artísticas, o passo para frente de todos nós fica um pouco mais «amarrado».
Conflitos como o de Israel e Palestina, o ódio aos norte-americano alimentado recentemente mundo afora, a banalização de artistas consagrados apenas porque os mesmos 'tão vendendo discos e shows como nunca e a «falação» generalizada com que muitas vezes nos deparamos em nosso meio de trabalho.
Tudo isso é ruim para todos nós.
Ninguém toca mais ou menos que outro porque é evangélico ou judeu.
Assim como ninguém toca mais ou menos porque é ateu ou não dá a mínima para religião.
Ou porque é budista.
Ou 'pírita.
Ou toca com muito reverb e delay.
Ou prefere uma distorção enorme e cheia de ruídos.
Porque gosta de refrães contagiantes e «grudáveis».
Ou porque nunca compõe nada parecido com um refrão.
Enfim, ninguém é melhor que ninguém.
Somos todos diferentes, somos todos únicos e, 'teja onde 'tiver em seu grau de evolução como músico e pessoa, temos algo a dizer.
A vida não pára, 'tá sempre em mutação, sempre andando, sempre em contínuo movimento.
Aceitar as pessoas como elas são é 'tar ligado com a vida, é 'tar conectado com a humanidade.
De a próxima vez que alguém falar mal de outra pessoa para você, deixe que 'tas palavras entrem por um ouvido e saiam por o outro.
Não repasse lixo para frente.
Seja mais você, consciente de seu papel como ser humano.
Número de frases: 60
Pois hoje eu compartilho com vocês a maior descoberta musical feita por mim desde a extinta banda ' day after ', de Recife.
Digo logo:
Velho ZIZA.
Tão óbvio quanto 0,999 ... = 1, todo mundo sabe que Recife é uma grande mãe de talentos musicais, portanto eu nem vou fazer aquelas apelações piegas regionalistas que têm assolado 'te site.
A banda Velho Ziza existe há cerca de dois anos e, apesar de jovem, já atrai a atenção de críticos, músicos, produtores e pessoas de bom gosto para a versatilidade nos seus arranjos (sem perder a fina qualidade), a inteligência simples de suas letras, e a energia que a junção destes dois elementos trazem quando juntos que, a partir de um ' play ', fazem o ser humano mergulhar nos mais profundos ' devaneios ' ultra-sense.
Adotando um personagem principal para tema de suas letras, contam a história de ele através de vários capítulos, não necessariamente interligados, mas que formam um mosaico com às mais belas cores e fragmentos de formatos.
Se eu tivesse que classificar um ' 'tilo ', acabaria caindo para a MPB.
Mas como não concordo com 'se rótulo para o que tem sido usado, 'queçam 'sa última frase, e fiquem com o 'tilo:
SBG (Simples e de Bom Gosto).
Ho ho ho.
Segue aqui a formação:
Chico Tigre -- Voz e violão
Polito -- violão
Ricardo Pansera -- baixo
Alexandre Barros -- bateria e percussão
Fred Durão -- teclado e flauta
Aconselho que apreciem 'se trabalho musical de muita CHINFRA, segue aqui links para ajudar a todos:
Mp3 e Releases, outras coisas:
TRAMAVIRTUAL:
http://www.tramavirtual.com.br/artista.jsp? id = 29732
FOTOLOG: http://www.fotolog.net/velhoziza
MYSPACE: http://www.myspace.com/velhoziza
ORKUT: http://www.orkut.com/ Community.
aspx? cmm = 4502299
As músicas que vocês encontrarão em 'ses sites são do cd demo (Tempo d' vagar), portanto 'tão em versão antiga.
O Velho Ziza 'tá em processo de gravação do Cd novo;
logo, 'perem que ' Coivara ' e outras obras-primas já 'tão a caminho para arrepiar teus pêlos do braço.
Quando eu souber de um próximo show, eu colocarei na Agenda Cultural.
Número de frases: 28
A respeito da matéria O conto dos quilombos (ISTOÉ -- 30 de janeiro / 2008, N° 1995, Ano 31) gostaríamos de pontuar algumas questões.
Primeiramente lembramos que a reivindicação por a regularização de territórios quilombolas não surge através da Instrução Normativa do INCRA (In Nº.
20), como faz parecer a matéria, trata-se de um direito garantido no Artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal.
Deve-se considerar que o Artigo 68 do ADTC surge em meio a discussões que aludem a uma dívida da nação brasileira com os afro-descendentes em decorrência da 'cravidão, discussão 'sa que ia e vai além da questão fundiária exclusivamente.
Tal tema já vinha sendo tratado, juntamente com 'tudos sobre identidade étnica e etnicidade, por a Antropologia, História e outras disciplinas e começa a ter maior visibilidade na mídia brasileira a partir da assinatura do decreto n° 4.887/2003, o qual trata da regularização de territórios quilombolas e tem por base o Artigo 68.
O Decreto 4.887/2003 garante a auto-defini ção étnica enquanto direito, seguindo legalmente a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) -- sobre Povos Indígenas e Tribais, ratificada por o Brasil por meio do Decreto Legislativo n° 143, de 20 de junho de 2002 e promulgada por o Presidente da República através do Decreto n° 5.051, de 19 de abril de 2004.
Segundo os Artigos 13 e 14 da citada convenção,
Artigo 13
1. A o aplicarem as disposições de 'ta parte da Convenção, governos deverão respeitar a importância 'pecial que para as culturas e valores 'pirituais dos povos interessados possui a sua relação com as terras ou terrít6rios, ou com ambos, segundo os casos, que eles ocupam ou utilizam de alguma maneira e, particularmente, os aspectos coletivos de 'sa relação.
2.
A utilização do termo «terras» nos Artigos 15 e 16 deverá incluir o conceito de territórios, o que abrange a totalidade habitat das regiões que os povos interessados ocupam ou utilizam de alguma outra forma.
Artigo 14
1. Deverá-se-reconhecer aos povos interessados os direitos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
Além disso, nos casos apropriados, deverão ser adotadas medidas para salvaguardar o direito dos povos interessados de utilizar terras que não 'tejam exclusivamente ocupadas por eles, mas às quais, tradicionalmente, tenham tido acesso para suas atividades tradicionais e de subsistência.
Em 'se particular, deverá ser dada 'pecial atenção à situação dos povos nômades e dos agricultores itinerantes.
2. Os governos deverão adotar as medidas que sejam necessárias para determinar as terras que os povos interessados ocupam tradicionalmente e garantir a proteção efetiva dos seus direitos de propriedade e posse.
3. Deverão ser instituídos procedimentos adequados no âmbito do sistema jurídico nacional para solucionar as reivindicações de terras formuladas por os povos interessados.
Assim, o Estado brasileiro deve trabalhar a regularização fundiária de comunidades quilombolas em função de um sentido de territorialidade -- território trabalhado como um 'paço vivido e referencialmente significante para a sustentabilidade não só econômica, mas também social, cultural e cosmológica do grupo.
Essa territorialidade 'pecífica é considerada a partir da dimensão simbólica que a comunidade atribui ao 'paço já que a construção identitária da comunidade 'tá diretamente ligada ao território ocupado e relembrado.
Ou seja, a memória do grupo aciona exatamente o 'paço em que vive e viveu na sua narrativa enquanto portadores de uma identidade 'pecífica e coletiva.
A matéria fala ainda de «pirataria antropológica» e critica a auto-defini ção étnica.
Sobre isso, 'clarecemos que desde a década de 1970, com os 'tudos de antropólogos interacionistas, como Moerman e Barth, a identidade étnica é definida em termos de adscrição;
assim, como nos coloca Manuela Carneiro da Cunha (1986):
Em a realidade, a antropologia social chegou à conclusão de que os grupos étnicos só podem ser caracterizados por a própria distinção que eles percebem entre eles próprios e os outros grupos com os quais interagem.
Existem enquanto se consideram distintos, não importando se 'ta distinção se manifesta ou não em traços culturais.
E, quanto ao critério individual de pertinência a tais grupos, ele depende tão-somente de uma auto-identifica ção e do reconhecimento por o grupo de que determinado indivíduo lhe pertence.
Assim, o grupo ( ...)
dispõe de suas próprias regras de inclusão e exclusão (p. 111).
Além disso, o auto-reconhecimento da comunidade é garantido na Convenção 169 da OIT, a qual determina em seu Artigo 1:
A consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da presente Convenção.
Portanto, a legitimidade da auto-atribui ção ou auto-identifica ção étnica enquanto comunidade quilombola 'tá embasada tanto cientificamente, em discussões já de longa data na academia, quanto juridicamente, conforme acima citado.
Outra questão problemática da matéria é a visão de quilombo apresentada.
O conceito de quilombo adotado por o autor da matéria deriva de um conceito que há muito foi superado nas discussões das disciplinas de Antropologia e História:
o «conceito congelado de quilombo».
O modelo de quilombo clássico, formado por 'cravos fugidos e em lugares de difícil acesso era apenas uma das formas possíveis de resistência acionada por os cativos.
Distanciando-se da idéia de isolamento geográfico e social, temos visto, na discussão acerca da questão quilombola, que na sociedade 'cravocrata existia um verdadeiro «campo negro» (GOMES, 1996 a), ou seja, uma rede complexa que incluía vários movimentos sociais e articulações econômicas.
Rede 'ta que se baseava desde em informantes dentro das senzalas até comerciantes da região, com os quais os quilombos mantinham relações de compra e venda de produtos.
Estudos mostram que os quilombos existentes à época da 'cravidão 'tavam muitas vezes ligados, por complexas relações, com a sociedade local.
E, ainda, como a resistência 'crava abrangia lugares que iam desde os de mais difícil acesso até os próprios limites internos das fazendas.
Com o «fim da 'cravidão», muitos grupos de ex-'cravos continuaram a formar agrupamentos considerados quilombos como alternativa de sobrevivência à exclusão a eles imposta.
Em 'se sentido, a própria " ( ...)
apropriação do 'paço que garantisse a reprodução de sua existência tornou-se um ato de luta para a maior parte dos afro-descendentes " (Bastos, 2007).
Assim, fica nítida a dificuldade em congelar na definição clássica de quilombo as várias formas de resistência negra que existiram no Brasil durante e após o período 'cravocrata.
Em 1994, em reunião do Grupo de Trabalho sobre Comunidades Negras Rurais da Associação Brasileira de Antropologia, foi elaborado um documento sobre o conceito de remanescente de quilombo.
Tal documento buscava desfazer os equívocos que 'ta idéia de remanescente poderia trazer e afirmar a contemporaneidade do termo.
Refutava-se já a ligação de quilombo com as idéias de isolamento, populações homogêneas e insurreição, e adotava-se a contemporaneidade do conceito de quilombo, abarcando seu aspecto organizacional, relacional e dinâmico.
Além desses «enganos» em relação à questão mais conceitual que envolve a temática quilombola, a matéria apresenta dados inverídicos.
Não é verdade, por exemplo, que o município de São Mateus, no 'tado do Espírito Santo, 'tá com 80 % de sua área demarcada para desapropriação.
Atualmente existem dois processos abertos no INCRA para regularização de territórios quilombolas no município de São Mateus.
Os 'tudos apresentados em 'ses dois processos, que ainda não 'tão em fase de desapropriação e sim na de contestação por parte dos proprietários e ocupantes, indicam como território pleiteado um total de 16.315,09 hectares.
Considerando que, segundo o instituto de terras do Espírito Santo, IDAF, o município de São Mateus possui uma área de 234.580,00 hectares, os dois territórios indicados correspondem a 6,9 % da área do município, bem diferente dos 80 % citados por a revista!
Cabe destacar também que o mapa apresentado, inclusive sem citação de fonte, apenas indica os municípios onde existem comunidades quilombolas, o que não quer dizer que todas as comunidades 'tejam reivindicando terras, nem que elas 'tejam reivindicando a área total dos municípios.
Por fim, a matéria fala que o INCRA ignora as terras produtivas e as 'crituras existentes dentro de territórios pleiteados por comunidades quilombolas.
Outra inverdade.
A titulação de territórios quilombolas só ocorre depois da desapropriação, que inclusive é composta de etapa judicial, para a qual se analisa a situação fundiária e cartorial e a questão produtiva dos imóveis, indenizando-os de acordo.
Por todo o exposto, lamentamos que a revista ISTOÉ tenha publicado tal matéria sem realmente averiguar os fatos e sem consultar pesquisadores e órgãos sérios que trabalham com a regularização de territórios quilombolas.
Lamentamos a maneira leviana e preconceituosa como deixou tratar a luta de comunidades que 'tão apenas buscando a garantia de um direito que há muito lhes vem sendo negado.
E lamentamos ainda, que a ISTOÉ tenha feito exatamente o contrário do que se propõe, ou seja, desinformado a sociedade brasileira quando deveria informá-la.
Número de frases: 58
Bethânia Zanatta.
Como se sabe, a chuva de granizo que despencou sobre a região metropolitana de Belo Horizonte na quarta-feira, dia 17, causou prejuízos para inúmeras famílias e também para o comércio.
Só que na Comunidade dos Arturos, que fica em Contagem, os danos foram muito além da questão material.
A o 'buracar 80 % das construções que formam a vila quilombola, as pedras de gelo que vieram com a tempestade colocaram em risco um patrimônio imaterial que diz respeito à luta de mais de século encampada por os descendentes do 'cravo Artur Silvério Camilo, que se 'tabeleceu no local nos últimos tempos da 'cravidão no país.
Casas, galpão utilizado para os festejos e até mesmo a capela em que os Arturos celebram seus rituais religiosos tiveram telhas e vidros destruídos, num episódio sem precedentes na comunidade.
«Em 'ses meus 75 anos de vida, nunca vi uma coisa de 'sas.
Já vi muitas chuvas, muitos ventos, tudo muito forte, mas pedras caindo desse jeito eu não tinha visto.
Não tinha como se 'conder.
Tomei um susto», conta ' seu ' Mário Brás da Luz, um dos quatro filhos de Artur Camilo ainda vivos.
«Não sobrou um telhado.
As plantas, nossa horta, tudo ficou acabado.
Não quero nunca mais ver coisa assim.
São Sebastião há de nos proteger», continua ele.
Em a capela, a situação é crítica.
Cheio de buracos 'palhados por o teto, feito com telhas de amianto, e com a porta de vidro igualmente 'buracada, o local, que impressiona por a profusão de cores que vêm dos 'tandartes, fotos, enfeites e imagens dos santos de devoção, agora 'tá uma bagunça.
Tudo teve que ser empurrado para um dos cantos, para evitar a água e o granizo.
Em as paredes, mesmo uma semana após a tempestade, é possível ver as marcas da umidade que danificou a pintura.
O galpão em que a comunidade realiza encontros e faz as refeições -- inclusive, no momento em que a chuva começou, 'tava acontecendo ali uma reunião para definir ações sócio-culturais -- e a casa paterna, marco-zero da comunidade, levantado por o próprio Artur Camilo, também ficaram bastante prejudicados.
Impossível contabilizar o número de telhas furadas.
«Aqui, a grande maioria dos lugares é coberta com telha de amianto.
Onde não tem laje ficou assim», lamenta Jorge Antônio dos Santos, diretor de eventos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Comunidade dos Arturos.
A tristeza dos Arturos diante dos 'tragos em 'te momento é ainda maior, já que eles 'tão prestes a dar início à comemoração mais tradicional de sua cultura, a Festa de Nossa Senhora do Rosário, que, 'te ano, começa em 'ta sexta-feira, dia 26, e vai até o dia 13 de outubro, com novenas, procissões, missa conga, desfile de guardas de Congo e Moçambique, entre outras solenidades realizadas em parceria com a Paróquia São Gonçalo, de Contagem.
«Agora, a gente tem que tentar correr para conseguir dar um jeito no que ficou 'tragado», diz Jorge Antônio.
Apesar de contar com o apoio fundamental da Casa de Cultura de Contagem, a comunidade se vê num momento difícil para angariar recursos e consertar as 'truturas destruídas por a chuva.
«Precisamos de, no mínimo, 200 telhas de amianto», conta» Jorge Antônio.
«A nossa prioridade é arrumar pelo menos a capela, o galpão e a casa paterna», planeja ele, acrescentando que, nos dias 11, 12 e 13 de outubro, em que a Festa de Nossa Senhora do Rosário se concentra no território da comunidade, quase 3.000 pessoas passam por o local.
«Mas a gente queria também dar uma força para as famílias que perderam muita coisa.
Temos pessoas aqui que perderam tudo com a enxurrada que veio depois do granizo e invadiu as casas», lamenta ele.
A partir de conversas 'pontâneas por a Internet, pessoas que acompanham e pesquisam a cultura defendida por os Arturos começaram a se mobilizar e enviar doações.
«Essas pessoas são anjos para nós», diz ' seu ' Mário Brás da Luz.
Número de frases: 30
Quem quiser colaborar com as reconstruções necessárias para a Comunidade dos Arturos, pode entrar em contato com Jorge Antônio dos Santos por os telefones 31 9182-4413 e 3395-8373.
Vindos da Zona LOST, apelido dado para a Zona Leste da cidade de São Paulo, e também de onde vieram as bandas mais garageiras da cena brasileira, Os Haxixins (www.myspace.com/oshaxixins) talvez sejam a mais obscura de todas.
Influenciados por o rock 60's, garage punk e psicodelia, os amigos Sir Uly (bateria) e Fábio (Guitarra) resolveram montar um repertório «Só com o pedal Fuzz e a coragem», segundo o próprio Sir Uly, depois de terem feito parte da extinta banda» The Merry Pranksters».
O nome «Os Haxixins» surgiu depois do convite feito para o baixista Daniel e organista Alôpra, inspirados no livro «Clube dos Haxixins», que relata as experiências de um grupo de fumantes de haxixe fundado em 1845, que reunia artistas como, Charles Baudelaire, Téophile Gautier e Eugene Delacroix.
As reuniões, realizadas no Hotel Pimodan, serviam para promover o uso de haxixe, levando seus membros a se deliciarem nas mais fantásticas alucinações e pesadelos, coisas com as quais os atuais Haxixins se identificam.
Além do visual retrô, os caras só tocam com equipamentos antigos, e fazem questão de carregar seus Gianini Tremendões e Phelpas por onde vão.
Outro diferencial das apresentações ao vivo é o «light show», projetores de luzes psicodélicas sobre os músicos.
Em a 'trada desde meados de 2003, os caras já tocaram em lugares tão ímpares quanto o Bar do Bal, no extremo sul da Zona Sul, e o Bar do Aranha no coração da Vila Formosa, mas também em bares do circuito de música independente.
Depois de quase desistirem de gravar um disco devido a tentativas frustradas de gravar como as bandas dos anos 60 (ou pelo menos se aproximarem do 'tilo das gravações, sujas e pequenas), em 2007 eles foram apadrinhados por o Berlin Estúdio e produzidos por um dos donos, Jonas Serodio (The Sellouts, The Drugs, Butcher's Orchestra e The Blackneedles), e conseguiram chegar no resultado tão 'perado com o uso de gravador de rolo, amplificadores valvulados e instrumentos de época.
Os Haxixins acabam de assinar com o selo independente português Groovie Records (www.groovierecords.com), por onde vão lançar um disco em vinil apresentando algumas das suas composições próprias banhadas em ácido lisérgico.
Com letras em português, guitarras fuzz, baixos hipnóticos e órgãos derretidos, os Haxixins proporcionam uma viagem visual ou musical, com ou sem sua droga predileta.
...
«Out of the southern hemisphere comes the fuzz laden with a measure of combo organ sounds from Brazil's Os HAXIXINS.
In my opinion this is one of the most authentic garage bands I ' ve heard in some time.
These recordings capture true to the recorded performances of the great sixties groups the Music Machine the Standells & We the People.
Portuguese & English vocals only adds to the uniqueness of Os HAXIXINS music.
I find it a gas that they use only vintage equipment and analog recording techniques to achieve what's truly a great LP.
Make dam sure you take the trip and dig this happening scene».
Gary Wilde of Luv Radio
Os Haxixins (
Groovie Records 2007)
A 1-Onde Meditar 2 -- Dirty Old Man 3 -- Depois Eu Volto 4 -- Surgia Por Sobre A Relva 5 -- E Se As Pedras Cairem 6 -- Davi & Os Seus Lírios 7 -- Em Algum Lugar da Mente
Número de frases: 22
B 1 -- Viagem As Cavernas 2 -- Preciso Te Deixar 3 -- In The Deep End 4 -- Algumas Milhas De aqui 5 -- Atrás De Espaçonaves 6 -- Voltei Demente 7 -- Ácido Fincado
Somos apaixonados por o Rio de Janeiro, mas não temos noção da real dimensão da cidade.
Caldeirão de ritmos e manifestações 'pontâneas, a antiga capital federal sonha em se manter como capital cultural de um país muito maior e mais diverso do que imagina.
Ainda é uma fábrica de modismos em muitos aspectos -- sobretudo os que podem ser divulgados por a TV, em novelas que quase sempre se passam por aqui.
O carioca, 'se ser variado, continua a ser visto por o resto do país como referência -- seja como exemplo de modernidade, seja como um idiota envaidecido.
Em a verdade, não sei bem qual é a perspectiva que pessoas de outros 'tados têm do Rio, além dos clichês básicos sobre a beleza da cidade, a violência causada por o tráfico e a marra dos moradores (taí, adoraria saber aqui no Overmundo).
Talvez o resto do Brasil se divida como se divide o Rio em relação ao Flamengo -- uma imensa torcida a favor, e um grande grupo de pessoas que torce o nariz, apesar de nutrir algum encantamento que nunca pode ser confessado (aliás, deixo claro que em relação ao Flamengo faço parte da turma do contra -- e, claro, não tenho encantamento nenhum por o urubu!!!
:).
Existe uma certa unanimidade nacional:
a de que o carioca «se acha».
O que ele «se acha» fica tão implícito que torna-se desnecessário colocar o complemento:
O Máximo.
Esse «se achar» talvez tenha razões históricas.
Por muito anos, o Rio de Janeiro foi o Distrito Federal do país.
De aqui saíam modismos, vanguardas, influências.
Queríamos ser Paris -- com isso em mente, o prefeito «Pereira Passos» botou a cidade abaixo " entre 1903 e 1906 para abrir grandes avenidas e praças.
Com a transferência do DF para Brasília em 1960, perdemos em parte a vida política, mas continuamos a ser a vitrine do Brasil.
Por alguns verões, o charme de nossas montanhas, de nosso mar e de nossas meninas não foi abalado por a perda de status.
Com o tempo, entretanto, parece que algo se perdeu.
E, de certa forma, é uma ironia que em 'te ponto 'tejamos quites com a capital francesa, pois parece que ela também se ressente de não ser mais (e há muito tempo) a capital cultural do mundo ...
Perdemos a chance de receber muitos shows internacionais (que acabam indo para outros 'tados);
a Fórmula 1, a excelência universitária em muitas áreas.
Ganhamos em burocracia e desorganização.
É por 'sas e outras que, muito nas internas, há carioca repensando suas vaidades.
Alguns assumem (apenas entre si, e discretamente) que sim, há muita coisa funcionando melhor fora do nosso pedaço de terra entre o mar, a lagoa e as montanhas.
Talvez tudo isso tenha servido para alguns olharem em volta e repararem em 'se país tão rico.
O que não deixa de ser engraçado.
Mas há uma nítida vontade de recuperar algo.
Não significa querer ser melhor que as outras capitais -- se elas 'tão progredindo e fomentando seu 'paço cultural, ótimo!
Apenas gostaríamos de parar de assistir ao triste 'petáculo de uma vitrine cultural que se dissolve em tantos 'tilhaços.
É claro que isso não é explanado assim, para o mundo.
Perto de gente de outros 'tados, a onda é tirar onda com o que (ainda) temos de fantástico e diferencial:
justamente o conjunto formado por mar, lagoa e montanhas.
Isso se os seguidos governos incompetentes não conseguirem destruir isso também.
É autêntica a exaltação da alegria 'pontânea, do carnaval renovado (sim, de uns anos para cá tornou-se questão de honra para muitos passar o carnaval por aqui, nos blocos, e comemorar uma luz no fim do Sambódromo).
Mas é só reunir um grupo de cariocas e algumas cervejas para ver que orgulho 'tá um tanto ferido.
De lambuja, temos que ver os times de futebol do Rio se afundarem na lama.
Ultimamente, imprensa e intelectuais da cidade têm parado para tentar refletir sobre 'sa agoniante transformação.
O que acontece?
Entre gargalhadas nervosas do papo furado e as lamentações dos flamenguistas, 'se tipo de indagação também ganha cada vez mais ibope nas mesas de bar.
Número de frases: 40
A auto-crítica e o olhar para os outros 'tados também bem que podiam passar a freqüentar mais o chope nosso de cada dia.
Em 'te artigo tento dar privilegio as questões performáticas e simbólicas do brasileiro no Rio de Janeiro, pois ela condensa um grande número de dinâmicas e aponta para distintos percursos e indagações que podem 'timular a imaginação de outros atores sociais.
Baseio-me em pesquisa de campo, observação direta, participação em eventos e entrevistas, e em análise de material 'crito, como notícias de jornais, panfletos de divulgação e etc.
O que pude notar após 'tar em campo e que os freqüentadores desses 'paços de Samba se organizam, com freqüência, e fazem festas públicas e privadas, visto que na Lapa contemporânea a tendência é cada vez mais organizarem festas de caráter fechado e privado, mesmo que o local seja público os preços cobrados na entrada e o valor da consumação segrega pessoas de certo padrão social, leia-se camadas médias urbanas.
Todavia os objetivos:
confraternizar, comemorar aniversários, apresentar novas pessoas às redes de amigos apesar do caráter privado privilegia as relações sociais na minha visão de quem anseia ser antropólogo.
Os bares, restaurantes e as casas de música e 'petáculo são cenários importantes onde se processa a imagem do Brasil, através da sua música, dança, bebida ou comida.
A interação social se dá através da performance dos músicos e a participação do público é muito importante em 'sa interação artista e público.
Esses elementos simbólicos são resignificados e refeitos a cada dia é como se a música 'tive em «fase de crescimento», sendo realimentada a cada dia a cada nova apresentação e a cada diferenciado tipo de público.
Sem dúvida, os artistas brasileiros residentes no Rio de Janeiro têm um papel fundamental na construção e reprodução de imagens do Brasil.
Entre eles encontram-se artistas plásticos, fotógrafos, dançarinos e outros.
Destacarei, aqui, apenas o papel dos músicos.
A música brasileira atinge regularmente a um amplo público através de diversos meios de comunicação, todavia me deterei a análise dos freqüentes 'petáculos ao vivo que acontecem na Lapa.
Conscientes do alcance global do Samba enquanto manifestação cultural, um dos objetivos dos organizadores é dar ao Rio de Janeiro um tom internacional, único em comparação a outras cidades do mundo.
Assim, o Samba se abre a manifestações carnavalescas e é visto como identidade nacional, o que atrai muitos 'trangeiros para a Lapa contemporânea, é normal você ver grupos grandes de gringos em eventos de Samba na cidade do Rio de Janeiro.
Seus organizadores pensam a si mesmos como participantes da fundação de um evento que irá além das diferenças étnicas e nacionais, corporificando, 'peram, as qualidades universais do Samba.
De fato, em todos 'tes símbolos tem sido um palco para grupos representativos dos 'tilos de dança e música no Rio de Janeiro e no Brasil.
Percebi no discurso tanto dos músicos como dos freqüentadores que o discurso Gilberto Freyriano 'tá presente em 'sas casas que visitei, o clube dos democráticos e o complexo de botecos beco do rato falavam em mistura em muitas culturas juntas que o Brasil é lindo por 'sas características.
Todavia em outros momentos o discurso mudava com alguns músicos levando muito a sério o aspecto das raízes e a busca por o autêntico e o autoral.
Essa ambigüidade a qual nos 'tamos familiarizados por os nossos temas de estudo é muito gritante também.
Por exemplo, o discurso às vezes é um e o comportamento outro.
Queria aqui ressaltar a importância da pesquisa para o entendimento de uma reconfiguração do Samba e do Chorinho e das músicas Brasileiras, é possível perceber 'sa mudança visualmente, a própria audição da música se torna um pouco secundária no Beco do rato ali parece ser mais um ambiente de socialização de diversos interesses, enquanto que no clube dos democráticos uma boa parte do público para ver o show e apreciar a performance musical e compartilha daqueles símbolos, enquanto que outra parte do público 'tá mais preocupado com a dança.
Número de frases: 22
Por onde anda Dona Umbelina?
Minha missão de conversar com ela surgiu em função do livro virtual, «Reminiscências de Escola».
Nascido e criado aqui no Overmundo, o projeto uniu dezenas de colaboradores para contar suas peripécias, alegrias e tristezas nos bancos 'colares.
A homenagem de Baduh à mestra querida e a existência de uma comunidade com vários ex-alunos querendo saber de seu paradeiro, fizeram-me perceber a importância da tarefa.
Um depoimento atual, fotos e declarações.
Munida de alguma coragem e com o incentivo de Joca Oeiras, o editor e idealizador do livro, marquei uma visita com a Professora.
Deu certo.
Dona Umbelina é adorável!
Umbelina formou-se por o Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1949.
Em 1950, ingressou na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Filosofia, graduando-se em História e Geografia.
É formada em francês por a Aliança Francesa e declama poesias em 'panhol com muita fluência.
«Só não dei aula de grego», brinca.
Em os anos 70 foi diretora da Escola Estadual Marechal João Batista de Mattos, homenagem ao seu pai, oficial do Exército, que muito ajudou a comunidade de Coelho Neto, no subúrbio carioca.
O cargo não a impedia de, na hora do recreio, conversar com os alunos sobre música, poesia, filosofia, o que fosse posto na roda.
Fazia qualquer coisa para incentivá-los.
Não punia, não punha de castigo.
Chamava-os para conversar quando sentia que 'tavam em dificuldade.
O pai de Dona Umbelina, neto de uma 'crava, criado no Morro do Juramento, no Rio de Janeiro, ainda menino caiu nas graças da família onde a mãe trabalhava como babá.
Foi matriculado na tradicional Escola Pública Pedro II e teve um desempenho brilhante.
Entrou para o Colégio Militar aos 11 anos e decidiu seguir carreira.
Pobre e negro, primeiro a aprender a 'crever na família, chegou ao posto de Marechal, a mais alta patente do Exército.
Umbelina mora no Leme, bairro nobre da zona sul.
Nem por isso deixou o ofício de Educadora nas 'colas públicas.
Trabalha, apesar de já aposentada e com idade para ficar sentadinha na praia, tomando água de côco.
A os 77 anos, é voluntária numa 'cola do Grajaú, bairro na Zona Norte carioca, conhecido por a violência e perigosos confrontos entre a polícia e os traficantes dos morros ao redor.
«Poderia ficar em casa 'crevendo meus livros.
Livros dão dinheiro, mas as pessoas precisam de mim."
Diz, com altruísmo.
Cercada de jornais e artigos, Dona Umbelina recebeu-me em sua casa com os cabelos cuidadosamente arrumados em cachinhos.
Vaidosa, de uma inteligência e memória invejáveis, sua voz grave faz 'tremecer as paredes.
É meiga e tem uma risada gostosa.
Só fica braba quando o assunto é a Educação no Brasil.
Foi sobre isso que fui conversar com ela.
As opiniões da lutadora
Sua primeira declaração é polêmica.
Ela é contra a política de cotas para afro-descendentes, criada para o ingresso nas Universidades.
«O ingresso deve ser realizado por o mérito.
As cotas não resolvem o problema da marginalização dos negros, vítimas da maior violência contra uma etnia de todos os tempos.
A cota é atestar a incapacidade do negro para obter sucesso."
A qualidade do Ensino no Brasil também a tira do sério.
Em a opinião de ela, a Escola deve ensinar cidadania aos indivíduos.
Sua finalidade é, além de educar, dar ao aluno a chance de desenvolver seus potenciais, conhecer-se, canalizar suas tendências.
«A Escola no Brasil é excludente e é em ela que 'tá o nó das desigualdades sociais.
Desde os bancos 'colares, 'tabelece-se a diferença:
pobres de um lado, ricos do outro.
Não se aparam as arestas, acentuam-se as diferenças.
O Brasil não mudará se persistir 'te descaso com a Educação."
Os direitos do cidadão 'tão assegurados por a nossa Constituição.
O problema é que a lei não é cumprida e falta vontade política para mudar a situação.
«A Escola Pública brasileira precisa investir em qualidade, capacitar seus professores, reciclá-los, dar-lhes melhores condições de trabalho, ordenados dignos e condizentes com a função que exercem."
Seu ídolo, na Educação, é Anísio Teixeira.
Tem suas reservas em relação a Paulo Freire.
Diz que a política de Freire era castradora,
impunha as idéias, não permitia o desenvolvimento das capacidades
individuais." Não adianta ter sonhos se você não der elementos para realizá-los.
Precisamos respeitar o desenvolvimento da criança, o lúdico».
Cercada por o carinho dos cinco filhos, três moças e dois rapazes, Dona Umbelina recupera-se da perda recente de seu marido, Job Lorena, vítima de uma doença degenerativa, general do Exército como seu pai.
No meio de medalhas e livros, preparava um discurso que seria lido na Missa de Sétimo Dia, em sua homenagem.
Orgulha-se por ser a grande incentivadora de muitos alunos que hoje, eternamente gratos, não se cansam de render-lhe homenagens.
Não tem tempo para envaidecer-se porque sabe que sua missão ainda não acabou.
Sabe-se que ela já vendeu um imóvel para comprar livros para seus alunos mais carentes.
Faria tudo de novo porque ama o que faz.
«A o educador cabe simplesmente conduzir o educando dentro de seus interesses e possibilidades, motivá-lo, ensiná-lo a pensar, tornando-o um cidadão útil à sociedade em que vive».
Grande semeadora de valores humanos, mulher com uma história de vida admirável, dona de uma cultura impressionante.
Nossa conversa acaba porque seus filhos, genros, noras e netos precisam de sua atenção.
Saio de sua casa depois de um abraço apertado e peço-lhe que não deixe de 'crever suas memórias.
Ela aproveita o gancho e repete a declaração, feita ao Jornal «A Folha Dirigida», em 2005:
«Falta maior incentivo à leitura no Brasil.
O livro deveria ser dado.
Este problema deveria ser levado a sério.
Mas, infelizmente, em 'te país, 'ta questão é considerada de menor importância."
Hoje, além da obra social do Grajaú, dedica-se a 'crever as memórias do pai e do marido e a responder convites para ministrar palestras sobre Educação em todo país.
Número de frases: 72
Salve, Dona Umbelina!
Este é o primeiro artigo de uma série na qual transmitirei algumas dicas sobre composição de música popular.
Não abordaremos em 'ses textos o uso de partituras e sim da música feita intuitivamente, com o ouvido.
Toda a experiência aqui relatada é fruto de vivências pessoais, de informações coletadas em fontes diversas e da observação de aspectos e comportamentos referentes ao meu próprio processo criativo, informações 'tas que tenho imensa satisfação de compartilhar com todos os leitores.
Primeiramente, para fazer música não é preciso ter algum dom supremo ou ser favorecido por a natureza com habilidades 'peciais ou extraordinárias.
Esses casos existem sim, mas acredito que na maioria das vezes são as pessoas 'forçadas e decididas e com força de vontade que conseguem fazer alguma coisa, que transformam sonhos em realidade por meio de atitudes ousadas e realistas.
Alguns compositores populares começam com a letra, outros iniciam por a melodia e alguns fazem os dois ao mesmo tempo, não há regras definidas.
Um mesmo compositor pode num determinado dia iniciar com a letra e, em outra oportunidade, pode começar por a melodia, dependendo do humor, da vontade e de outros fatores que interferem no processo criativo do compositor.
Pense nisso:
por onde você prefere começar uma composição, por a letra ou por a melodia?
É famoso o caso da canção «Satisfaction», composta por Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones.
O guitarrista Keith Richards 'tava dormindo próximo à sua guitarra e a um gravador, como de hábito.
às vezes ele gravava algumas coisas durante seus cochilos, até que um certo dia viu que um trecho de fita havia sido usado.
A o ouvir a fita, o guitarrista percebeu que havia criado um riff interessante tocado em sua guitarra, em meio a alguns roncos:
havia acabado de nascer a melodia (com três simples notas musicais) de um dos maiores hinos do rock, de modo bastante 'pontâneo e natural.
A letra foi acrescentada depois com contribuições de Mick Jagger.
Lembro de que comecei a ter vontade de compor toda vez que ouvia alguma canção agradável (e isso continua a acontecer até hoje);
pensava com convicção que também era capaz de fazer uma boa canção, à minha maneira.
Esse é o primeiro passo, acreditar na própria capacidade.
Tenha a certeza de que existem pessoas por aí que compõem maravilhosamente, têm muitas músicas guardadas em fitas cassete, letras 'critas em blocos de anotações, mas que não acreditam no poder de suas composições.
Essas pessoas têm um certo receio de mostrar seus trabalhos e acabam sendo um obstáculo a si próprias.
Devemos nutrir a convicção de que cada um de nós é 'pecial, porque ninguém tem a mesma experiência de vida que o outro.
É 'ta experiência pessoal que molda e interfere nas letras e melodias que são produzidas, definindo o 'tilo do artista e 'tabelecendo o seu diferencial com relação aos outros músicos.
É 'ta diferença pessoal que vai definir a carga emocional a ser incorporada em cada canção que tocamos, compomos ou cantamos.
É bastante interessante e recompensador sabermos que Deus nos fez para sermos diferentes e singulares.
Não há quem não se emocione com o tom dramático do canto das lavadeiras, com a voz rouca e «rocker» de John Lennon cantando os dramas de sua infância ou do timbre rústico e verdadeiro de Jacinto Silva, Tororó do Rojão e Jackson do Pandeiro ao abordarem as dores e alegrias do povo nordestino.
Esses artistas realmente descobriram como expressar sua marca pessoal;
no início podem até ter imitado seus ídolos, mas depois encontraram uma definição própria de trabalho.
É 'ta certeza do caminho encontrado que vai conferir segurança e confiança ao artista.
Sendo assim, não fique aí parado, comece já a conhecer suas influências, gostos, preferências e limites;
fazendo isso regularmente, sua personalidade começará a aparecer de modo natural e progressivo.
Considere-se uma pessoa dotada de um potencial infinito, pronto a ser trabalhado e desenvolvido;
nunca diga que jamais vai conseguir compor nada que valha a pena.
Por outro lado, não acho saudável encarar seus grandes ídolos como seres de outra galáxia, agraciados com uma força criativa inacessível a nós, simples mortais.
É importante considerarmos os cantores e compositores dos quais gostamos como bons pontos de partida, como elementos de orientação e referência ao longo da 'trada.
Penso que o enaltecimento demasiado dos ídolos em detrimento do próprio processo criativo acaba gerando um processo de baixa auto-'tima, enquanto o que precisamos é da elevação de 'ta auto-'tima.
Nossos ídolos musicais foram e são pessoas iguais a nós, pertencentes a realidades econômicas, culturais e sociais mais ou menos semelhantes à nossa.
Eles apenas concentraram suas energias para realizar seus sonhos e souberam aproveitar as oportunidades que tiveram.
Espero que 'te artigo tenha motivado você a descobrir o maravilhoso mundo da composição musical, nem que seja para tentar rabiscar alguma letra num guardanapo em mesa de bar.
Em os próximos artigos, aprofundaremos o tema, abordando aspectos como:
encaixe entre letra e melodia, quais temas 'crever nas letras, ritmos, como ter inspiração para compor, mercado musical, divulgação e muito mais.
Até a próxima!
Número de frases: 42
Em a manhã de um domingo cinzento cheguei à margem 'querda do Rio São Francisco tomado de um desejo intenso de conhecer a história de uma das mais antigas e originais manifestações da cultura ribeirinha:
O Samba de Véio.
Depois de percorrer 15 quilômetros de asfalto no único transporte regular que circula por ali (as vãs) vislumbrei a terceira margem do rio percorrendo um trecho de dois quilômetros «em 'sa água que não pára, de longas beiras», como dizia Guimarães Rosa.
Para chegar até a Ilha do Massangano há o encantamento de enfrentar uma prazerosa travessia de lancha por o Rio da Integração Nacional, numa daquelas viagens em que a gente torce para que não termine tão cedo.
Chagas, morador da Ilha, foi o solícito timoneiro.
Apesar de não ter nascido lá, ele já se mostra uma referência importante na tradição oral.
«Eles [os antigos moradores da Ilha] acreditam que tenha sido trazida por os barqueiros no tempo das grandes embarcações», afirma ele, fazendo referência à origem do Samba de Véio.
E assim, no balanço gostoso das águas franciscanas, fui sendo apresentado a um marco da resistência cultural na região.
Desembarquei num cenário deslumbrante, bem no meio do Velho Chico, onde em determinadas noites do ano irradia o batuque de um povo que há tempos imemoriais não se cansa de festejar a vida.
«Quando eu era criança, papai tomava conta do Samba de Véio.
Meia-noite o pessoal saía de porta em porta, acordavam os moradores da Ilha de surpresa e de manhã cedo comiam um bode assado.
Quando o Samba terminava, todo mundo ia rapar mandioca».
Eis a primeira lembrança que a memória de Conceição consegue acolher, em seus 45 anos de vida.
Uma vida pacata e tranqüila, que contrasta com o ritmo frenético da dança.
Todo o ritual se inicia com a formação de uma roda, ao som dos cantos (com voz solo e em coro), palmas, pandeiros, triângulos e, como principal instrumento de percussão e um dos elementos de identidade, tamboretes feitos de couro de bode, que durante o dia têm a função primordial de ser assento.
Quem vai para o meio da roda sempre improvisa o sapateado, contagiando as pessoas em redor.
O bamboleio sereno do corpo, marcado por um pequeno movimento dos pés, da cabeça e dos braços, acompanha o ritmo da música.
E, de repente, parece que a noite não tem fim ...
Quando os movimentos de quem ocupa o centro da roda vão se extenuando, entre os dez e vinte segundos de dança, a pessoa é substituída por outra através de um convite curioso:
a umbigada.
Em a roda do samba não existe platéia.
Portanto, não se surpreenda se seu umbigo encontrar o umbigo de alguém.
A única saída é cair no samba ...
«Aqui, quando vai nascendo já vai aprendendo a dançar.
Eu entrei com 10 anos porque, naquele tempo, nossos pais não levavam a gente pra lugar nenhum.
Eles saíam e deixavam a gente preso em casa.
Com dez anos, eu só saía porque era Samba de Véio.
Se fosse um baile, os pais não deixavam.
Mas os meninos de hoje ...
Todos são sambistas».
Afirma dona De as Dores, que nasceu há 72 anos no Porto da Cruz, onde se praticava o Samba.
«Agora é que acabou tudo, porque os mais velhos morreram.
Os mais novos não querem saber de roda, só de sala», afirma ela com certa frustração.
Casada com um ilhéu, ela chegou ao Massangano em 1954: " Em tanto lugar que a gente tem andado.
De Salvador pra cá e de Recife pra cá, não sei pra onde a gente ainda não sambou.
Quando o Samba daqui começou a viajar eu ainda era nova.
Se fosse andar onde eles pedem pra andar, a gente não quietava nem aqui dentro da ilha.
É porque o povo daqui de a ilha também trabalha ...».
E como trabalha ...
As «firmas», como os moradores costumam chamar os projetos de irrigação próximos à ilha, empregam boa parte de seus 1.200 habitantes no plantio e colheita das meninas dos olhos sertanejos:
as mangas e uvas.
O suor dos ilhéus são grandes responsáveis por o 'tatuto de maiores produtores de manga e uva do país ao Pólo Agroindustrial de Petrolina -- Juazeiro.
Mas há quem plante hortaliças para vender na feira, trabalhando diariamente em sua própria roça, ou quem, como Conceição, saia aos domingos e feriados para vender acarajé na Ilha do Rodeadouro, a prima rica da Ilha do Massangano, muito mais por a fama do que por a beleza.
Mas o certo é que o pessoal trabalha sim dona De as Dores ...
E nem todos têm habilidade de levantar poeira nas noites de Samba.
Que o diga dona Terezinha.
Há quase 40 anos acompanhando os batuques eletrizantes dos instrumentos percussivos, ela poucas vezes se aventurou a sapatear.
Prefere ficar nos bastidores, organizando o movimento, orientando o carnaval.
Tarefa cansativa também.
Afinal de contas, o Samba de Véio da Ilha do Massangano é uma das manifestações populares mais requisitadas do Vale do São Francisco.
Quando o pessoal ouve dizer «O Samba de Véio vai» o que é que acontece mesmo dona De as Dores?
«Valei-me meu Deus do Céu, renova o pessoal!
às vezes a gente chega tarde nos lugares.
Aí muita gente já 'tá de saída, quando ouve dizer: '
Menina, é o Samba de Véio que vai entrando ...». '
Oxe! Vou voltar ..."
Aí volta.
Ano passado, os trens já 'tavam no ônibus para ir embora quando um pessoal de longe chegou dizendo: '
Nós viemos pra ver o Samba de Véio ao vivo '.
Ó. Foi obrigado a botar as trochas abaixo e sambar para 'se pessoal até umas horas.
Vinha um ônibus de gente.
Ninguém sabe nem de onde era.
O Samba é bonito.
Ainda que deixe de sambar por fora, aqui não pode deixar não.
É tradição dos velhos.
De os mais velhos que morreram».
Dona Terezinha, que viu a violência aumentar na Ilha no rastro de algumas benesses, como abastecimento de água, energia, alvenaria, 'cola, telefone, igreja, posto de saúde etc., concorda com dona De as Dores:
«Não vai acabar nunca, porque é tradição.
Quando os mais velhos deixarem de dançar, os mais novos assumem».
E assim a Ilha do Massangano segue seu curso natural ...
Como marca do encontro de manifestações culturais, no mês de janeiro o Reisado se combina com o Samba de Véio.
De uma ponta à outra da Ilha, os habitantes saem cantando o tradicional repertório da Festa de Reis pedindo que se abra a porta.
Quando 'ta é aberta, o Samba de Véio entra vibrante, na agilidade dos passos centenários de seus intrépidos sambistas.
É coisa bonita que eu acho / A mamona madura no cacho / Tô com o dinheiro no bolso / Eu já tô com a peneira no braço / A mamona já deu baixa / Como é que a pobreza passa?
/ Segure o preço da mamona lavrador / Segure o preço da mamona lavrador».
As letras dos cantos que embalam o Samba de Véio versam sobre o cotidiano dos moradores da Ilha.
Embora as 'trofes das canções não variem, há permissão para o improviso.
Não raro, para recuperar o fôlego, uma garrafa de cachaça é passada de mão em mão e, quando equilibrada na habilidosa cabeça de um dos sambistas, vira a atração da noite.
O certo é que, com o passar das águas, ninguém sabe quem foi o homem (ou mulher) que aprontou a canoa, na terceira margem do Rio São Francisco.
Dona das Dores explica o porquê:
«Fique você sabendo que não tem quem te conte sobre 'se Samba de Véio do começo.
Sabe por quê? Quem morava aqui do começo não existe mais.
Já se foi tudo.
Essa ilha aqui é velha.
Uns sabem, outros não sabem:
Era mata de índio brabo».
Aí já é outra história ...
Número de frases: 87
FRED Martins:
NASCE Uma Estrela! *
Sempre gostei de prestigiar novos talentos (cantantes) e influenciar os amigos na mesma direção, por me colocar na situação dos primeiros (alguém precisa dar crédito no início para que o trabalho cresça e apareça!),
e por um sentimento de vaidade particular:
antes que eles explodam, toquem na Nova Brasil FM ou apareçam na Globo, guardo aquele sentimento, aquela lembrança íntima, que me levará a dizer aos amigos:
«ah, eu o vi começar, eu a assisti num show pequeno na USP, no barzinho tal, no SESC ...
E assim, acompanhei o surgimento de Simone Guimarães em Ribeirão Preto, e também vi uma hiper-tímida e insegura Vanessa da Mata se desculpar no palco do SESC Ribeirão por ser aquele um dos primeiros shows de sua primeira turnê, ainda no primeiro disco (quem diria que dois anos depois ela 'taria na trilha da novela e no Faustão?!
Eu disse!
Tenho faro e intuição para detectar aqueles marcados para brilhar e fazer sucesso).
O mesmo vale para os CDs de 'tas pessoas:
comprar Virgínia Rosa, Mônica Salmaso, Rita Ribeiro, Zeca Baleiro, Fabiana Cozza, antes que eles se tornassem mais conhecidos, me dá uma ilusão de que sou da turma, de que os conheço como amigos, de que os «apoiei» no início de carreira.
Foi assim que cheguei em Ribeirão, certa vez, com uma fita cassete de Chico César na época em que ele tocava apenas na finada Musical FM em São Paulo e cantei num show, na USP, «à primeira Vista» numa versão rápida, meio axé, já para dar o meu toque pessoal de intérprete e diferenciá-la do jeito de cantar do autor.
Provavelmente uma das primeiras vezes em que 'sa música foi cantada fora de Sampa, por outro cantor ...
Minha relação com a música é umbilical.
Mas ao mesmo tempo respiro palavras.
E só acredito na força de elas.
Minha ligação com a música se dá toda por a via da letra, da poesia.
Tanto que só decoro uma letra lendo-a e não apenas ouvindo-a.
Mas é preciso que ela me chegue por alguém de talento, com uma voz bonita, melodiosa, ou seja:
um intérprete.
Por isso, jamais entraram na minha casa Tom Zé, Raul Seixas, Luiz Tatit, Nando Reis, Arnaldo Antunes, Seu Jorge, Belchior, Carlinhos Brown e tantos outros de vozes sofríveis e / ou insípidas.
Movido por a velha e renegada dialética, me dou ao direito de negar, renegar, denegar e vivenciar as contradições.
Chegou um dia, portanto, em que percebi que precisava exercitar mais o ouvido.
E passei apenas a ouvir as músicas, dispensando os encartes, as fichas técnicas, os autores, músicos etc., informações que antes eu devorava com avidez.
E até parando de cantar junto, eu que cantava no banheiro dentro e fora de ele 24 horas por dia ...
Um modo de deixar a música entrar por outras vias, menos racionais, menos por o olho e mais por os outros buracos.
O meu e parceiro musical Mário Martinez, entretanto, que 'tuda a criação da canção de modo sério e coordena oficinas sobre isso, é um expert em MPB e conhece todos os compositores, instrumentistas, letristas, técnicos etc. etc..
E sempre me bombardeia com informações sobre os novos nomes, os compositores de talento como ele próprio, Mário, que aos poucos vai conseguindo se firmar no caldeirão cultural de Sampa.
E eu, com a minha sutil arrogância, que já não o 'panta, respondo:
«Mário, tô cagando e andando pra 'se novo fulaninho.
Para mim a canção 'tá morta e tudo já foi 'crito.
Só precisamos de bons intérpretes para reler as grandes obras da MPB!"
E recuso seus convites pra conhecer 'ses «novos talentos».
«Canta bem?»,
é o que sempre pergunto.
«E daí que compõe?"
Prêmio Visa de compositores? Ressentido por não ter sido selecionado, ignorei todo as audições públicas deste concurso.
Mas Mário foi a todas.
E vinha me falando, desde então, de um tal Fred Martins, o grande vencedor do Visa, que o cara prometia e era bom e outros adjetivos.
Recentemente, Mário, antes de tudo um persistente, me chama:
«tem show de Fred Martins no Villagio Café.
Se você for, também vai se apaixonar por o trabalho de ele.
Fred Martins trabalhava com Almir Chediak (songbooks de Caetano, Gil, Vinicius, Ary, Chico e tantos outros), o que por si só funcionaria como um imbatível cartão de visita.
Adoro «Vagabundo», o cd de Ney Matogrosso com Pedro Luís onde 'tá» Tempo Afora», de Fred Martins e Marcelo Diniz, e a canção «Novamente», de Fred Martins e Alexandre Lemos em» Olhos de Farol», também de Ney.
Se não bastasse, nosso jovem compositor já teve músicas gravadas por Zélia Duncan e Maria Rita.
Muito bem.
Fomos à internet, vi Fred Martins nos vídeos do Prêmio Visa, acessei seu release no site do Villagio e gostei, mas sem maiores entusiasmos.
Mas cansado de desapontar meu amigo Mário, fui com ele ao barzinho.
Um lugar pequeno mas bonito, agradável, exalando o aroma da boa música, onde muitos astros atuais começaram a carreira, como Zeca Baleiro e Chico César.
E eis que Fred Martins, que ganhou o mais importante festival da música brasileira, aparece.
E ele já poderia vir com ares de 'trela, imbuído da aura de grandeza que o prêmio Visa confere ...
Mas não.
Vestindo calça jeans e camiseta preta básica, violão em punho, à vontade e com um tom completamente informal, ele assume seu lugar no palco.
E parece não se importar com a platéia pequena.
Aí se dá a grande surpresa:
ele é um músico incrível.
O violão e ele são uma coisa só.
O virtuosismo personificado, mas sem caras e bocas, sem solos joão-bosquianos cacetes, sem vanguardismos desnecessários e forçados.
Conduzindo-nos do samba ao rock, literalmente, com domínio total do instrumento.
A música flui, brota límpida, verdadeira (o que é o mais importante), talvez por ele ser o autor das melodias, em cima de letras de grande apuro 'tético e beleza.
E talvez por ele ser o autor das melodias, o canto também impressiona, uma voz honesta e charmosa, com um brilho singular que nos cativa e encanta.
E em poucos minutos já 'tamos todos fãs.
Em o palco, ele mostra que não veio à toa, que não surgiu por acaso, que tem uma trajetória sólida que o conduziu ao momento atual.
Não conseguimos desgrudar os olhos nem um minuto.
E o que ele faz?
Não dança, não declama, não rebola, não é sarado nem tem os olhos de Chico nem a imponência leonina de Caetano.
Mas tem uma presença de palco fantástica, que nos hipnotiza.
Paixão à primeira vista por o artista, sensível, bem-humorado, 'pontâneo como todo bom carioca.
E que músicas!
Quanto vigor, quanta poesia, quanta verdade em 'sas letras de novos caras que ele musicou com tanta competência.
Assistimos ao nascer de um novo astro (na verdade prefiro a palavra 'trela para me referir aos homens também).
Ouso dizer, embora não sei se Fred Martins aprovaria a comparação, que 'tamos diante de um novo Chico César.
Que conquistará os palcos e o 'paço que lhe é destinado, ao mesmo tempo em que será disputado a tapa por os intérpretes da MPB.
Em o final, Mário, que já o conhece, me apresentou a ele como cantor, e Fred, gentil:
«avisa quando você for fazer show, a gente aparece!"
Uma noite iluminada, doce, reconfortante, de 'sas que faz a gente voltar para a casa agradecendo aos deuses por 'tar vivo.
E que fez renascer, mais uma vez, o meu desejo de voltar ao palco, de reverenciar 'te dom e compartilhá-lo com generosidade com as pessoas ao redor, assim como Fred 'tá fazendo.
Que os deuses não me abondonem.
E que o Brasil descubra o talento deste jovem:
com o perdão por a frase clichê, Fred Martins veio para ficar!
Renan Barbosa (cantor e compositor de MPB) *
texto publicado no blog:
Número de frases: 82
www.barbosarenan.blog.uol.com.br A cultura brasileira tem se 'palhado por diversos países desde os anos 60 graças ao Samba e à Capoeira.
Um casal de pesquisadores e capoeiristas resolveram criar o Projeto Sou Capoeira (www.soucapoeira.org), com o objetivo de mostrar o valor da Capoeira e das manifestações que 'tão associadas à ela (por exemplo, Samba de Roda, Dança Afro e Puxada de Rede) como representantes da cultura brasileira em todo o mundo.
Trata-se de um projeto que fará uma contagem de todos os capoeiristas do mundo, ao mesmo tempo que desenvolverá pesquisas científicas sobre aspectos associados à relações interpessoais e grupais que a Capoeira propicia.
Assim, as informações geradas serão uma fonte de embasamento para justificarem-se os projetos sociais que os bravos Mestres e Professores de Capoeira tentam realizar em seus trabalhos de inclusão social.
Para colaborar com 'se projeto e ajudar a mostrar o valor da nossa cultura basta que você envie 'ta notícia a todos os seus contatos fazendo um convite para que as pessoas convoquem os amigos que praticam capoeira a se cadastrarem no site www.soucapoeira.org.
Todas as análises 'tatísticas serão disponibilizadas no soucapoeira.
org e as informações serão tratadas de acordo com os princípios éticos da pesquisa científica.
O projeto partiu do professor universtário e capoeirista Robson Araujo que somou 'forços para criar o site e delinear a pesquisa.
O site 'tá em pleno funcionamento em dois idiomas (Português e Inglês) e sendo traduzido para mais três (Francês, Italiano e Espanhol), graças a vários colaboradores que abraçaram o projeto.
«O projeto será do tamanho Capoeira» e se alimenta da energia que a mantém viva:
a vontade de se expressar de seus praticantes.
Não partiu de uma instituição 'pecífica, vários grupos de capoeira aderiram ao cadastramento e os Mestres de Capoeira têm apoiado e disseminado o Censo.
«Estamos na primeira etapa do projeto» o levantamento digital, onde todos os capoeiristas que têm acesso à internet podem dar informações sobre sua relação com a capoeira assim como informar dados sobre o seu grupo.
Posteriormente, segundo o organizador, o projeto convocará capoeristas a se tornarem recenseadores nas suas cidades onde existir capoeira, assim como oferecerá serviços 'pecíficos para os grupos de capoeira.
Para realizar a segunda etapa, serão necessárias parcerias e apoios institucionais, pois o projeto oferecerá relatórios de 'tatística descritiva gratuitamente para os Grupos e Federações da Capoeira.
Salve a Capoeira!
Número de frases: 16
Axé Brasil! O produtor cultural Alê Barreto da Independência lança o livro «Aprenda a Organizar Um Show».
A publicação, que dá início à coleção «Produtor Cultural Independente», 'tará disponível em fascículos para download gratuito no Overmundo.
A cada semana, dois novos fascículos serão publicados.
O projeto é direcionado a artistas e produtores iniciantes e aborda, numa linguagem direta, as etapas para a realização de um 'petáculo musical.
«Aprenda a Organizar um Show» trata de temas como:
perfil do produtor executivo, definição da data e do local, cronograma de atividades, divulgação, recolhimento de direitos autorais, credenciamento, bilheteria, passagem de som, desmontagem, avaliação e registro do projeto, entre outros.
A edição e revisão do projeto é do jornalista e músico Rodrigo dMart.
O livro traz ilustrações de Yara Baungarten.
Uma versão impressa será lançada em 2008.
Alê Barreto prepara um curso mais detalhado a partir do livro.
O conceito
O projeto surgiu da percepção que um novo mercado cultural 'tá se 'truturando no país e que necessita conteúdo voltado para educação, capacitação e negócios abertos.
Partindo deste princípio, Alê Barreto, que trabalha na área de produção cultural desde 2003, começou em setembro de 2006 a digitar o texto «bruto», ainda não revisado, diretamente num blog.
Segundo o autor, a iniciativa «contribui para o desenvolvimento da cadeia produtiva da economia da música», auxilia» produtores e músicos iniciantes, 'colas e ONGs que atuem com projetos de democratização cultural «e abre possibilidade que instituições e secretarias de educação e cultura utilizem o livro para a» capacitação de agentes culturais».
O livro «Aprenda a Organizar um Show» 'tá publicado através da licença Creative Commons que permite que as pessoas possam copiar, distribuir e criar obras derivadas da publicação, com uso não-comercial, e compartilhadas por a mesma licença.
Os primeiros fascículos &
01 -- «Fazer a produção», que bicho é 'se?" &
02 -- As etapas de produção do show
Equipe do livro
Alê Barreto da Independência, autor do texto, é administrador cultural, bacharel em administração de empresas com ênfase em marketing (UFRGS).
Atuou na produção executiva de shows, festivais e projetos musicais como Claro que é Rock, Ibest Rock, Acústico MTV Bandas Gaúchas, entre outros.
É empresário da banda Pata de Elefante e 'tá desenvolvendo um curso baseado no livro «Aprenda Organizar um Show».
Rodrigo dMart, editor e revisor do texto, é músico, 'critor e jornalista.
É editor do programa Estação Cultura (TVErs).
É integrante da banda Doidivanas, com o qual lançou quatro discos.
Finaliza a novela gráfica «Um Outro Pastoreio» em parceria com o ilustrador Everson Nazari.
Yara Baungarten, ilustradora do livro, é jornalista e fotógrafa.
É produtora do programa Estação Cultura (TVErs).
É pós-graduanda em Poéticas Visuais em Gravura, Fotografia e Imagem Digital (Feevale).
Contatos
alebarreto capta@yahoo.com.br -- (51) 9215-7970
Número de frases: 31
www.alebarretodaindependencia.blogspot.com " O violão é a minha alma;
minha alma é o violão.
Eu não tenho alma não;
minha alma é um violão."
Tudo começou com o telefone do Nenna, cujo site 'tá comemorando 10 anos.
Ele me convidou pra ser a Mestre de Cerimônias do Prêmio Taru.
Fiquei honrada, lisonjeada e toda boba, porque tudo que o multimídia Nenna faz merece respeito.
O cara é preciso, articulado e chiquérrimo.
E o Taru também merece todo respeito.
Inicialmente criado como Revysta.
com, depois denominado CapixabaOn, o website tem se destacado na reflexão e divulgação da cultura do Espírito Santo.
Mas mesmo assim vacilei antes de aceitar.
Isso porque meu lugar habitual é na coxia, atrás das câmeras, fora da luz.
Mas quando as cortinas do Theatro Carlos Gomes se abriram na terça-feira, 22 de agosto, tava lá eu.
E a verdade é que aceitei sem pestanejar quando soube que o conselho editorial do site 'colheu para receber 'ta primeira homenagem, Maurício de Oliveira, músico de longa tradição e constante influência na arte e cultura produzida em nossa comunidade.
Primeiro que quando eu nasci meus pais moravam ao lado da casa da Heloísa, filha de ele.
O que significa que os primeiros sons ao vivo que ouvi na vida, ainda bebê, foram as composições e ou interpretações do Maurício, e do restante da maravilhosa linhagem de músicos.
Segundo que é absolutamente desnecessário ser vizinho de Maurício pra se apaixonar por a sua música e por ele.
Aliás a localização geográfica não importa nada para a audição do som que ele faz.
Mas também não vou negar que o cara é orgulho capixaba.
Uma unanimidade, nada burra por sinal, porque ele é mesmo um dos maiores músicos do Brasil.
Maurício vem de uma família de pescadores e começou a tocar com 8 anos ali na colônia onde vivia, na Praia do Suá.
E foi enquanto tocava com seu irmão José, na Festa de São Pedro, que recebeu o convite para ingressar na Rádio Espírito Santo.
Tava formada a dupla Irmãos Oliveira, e se iniciava ali uma história de afeto e orgulho entre a emissora e o músico.
Em matéria redigida há 4 anos, a jornalista Marilza Bigio 'creveu " Todo novo disco gravado, toda homenagem, todo prêmio, tudo era noticiado por a rádio como se fosse ela mesma a vencedora, tamanho o carinho com que tratava o que dizia respeito a um de seus primeiros contratados."
As músicas de sucesso da época eram 'trangeiras, e ele precisou lutar muito para divulgar o violão no Espírito Santo.
Violão, que segundo o pesquisador Rogério Coimbra, se fixou aqui no 'tado ainda no século 18, depois que se 'tabeleceu por aqui Lasvascas, um instrumentista 'panhol, que tocava na verdade a viola 'panhola, e foi a primeira influência musical 'trangeira não só no nosso 'tado, mas no Brasil.
A versão oficial diz que Lasvascas chegou na Bahia, mas parece que antes ele passou aqui três anos.
E se a história mais uma vez renega nosso 'tado, Maurício faz o exato contrário.
Jamais saiu de Vitória para viver em outro lugar.
E talvez ele seja o maior amante de nossa capital.
Voltando ao Prêmio
A emoção tava no ar.
Por a própria homenagem, e por o fato de que até pouco tempo antes do Prêmio era incerta a presença do professor de música de tantas gerações.
Com a saúde fraca e um pouco debilitado, ele tinha recebido ordens médicas para não comparecer ao evento, não se emocionar e muito menos tocar.
Eu, tremendo feito vara verde, mas fingindo que tava tudo bem, abri o Prêmio Taru anunciando as atrações.
Sete músicas populares do violonista tocadas por sua neta Antônia, ao piano, por seu filho Tião no violão, os sopros da família Paulo, a flauta da jovem Daphine, o quarteto de cordas, a Regional Maurício de Oliveira.
Um time de craques reunido em homenagem ao talento do mestre Maurício, que deixou todo mundo arrepiado.
Aí volto eu ao microfone.
Agora não mais nervosa, tava honrada, metida mesmo.
E em 'sa vibração convidei um maranhense muito gente boa pra vir tocar:
Turíbio Santos.
O músico é considerado por a crítica e por os 'pecialistas como um dos maiores violonistas eruditos da atualidade.
Já percorreu o mundo várias vezes, com críticas brilhantes nos principais centros musicais.
Já gravou LPs para Erato-WEA e Chant du Monde de Paris.
Já dividiu o palco com Yehudi Menuhin, M. Rostropovitch, e foi acompanhado por a Royal Philharmonic Orchestra, entre outras.
E tava lá tocando, do meu lado.
E eu me achando.
E Turíbio quase fez todo mundo sair do chão com a música «Seu Maurício», composta em homenagem ao nosso querido violonista, e apresentada em primeira mão no evento.
Diz ele que não é compositor, e que quando inventa moda é em homenagem aos amigos.
Já compôs por exemplo Seu Rafael, em homenagem a Rafael Rabelo.
Depois de ouvir Seu Maurício, fica aqui um apelo pra que Turíbio faça sempre muitos amigos e componha sempre.
Intervalo.
E voltei por a terceira vez ao palco.
Chamei a artista plástica Rosana Paste pra trazer o Prêmio Taru, 'cultura de sua autoria.
Chamei também o Turíbio Santos para realizar a entrega do Prêmio.
Depois comecei a ler um texto do jornalista Marien Calixte, que reproduzo abaixo:
«Seu nome é Maurício Rodrigues de Oliveira.
Nascido no Porto das Pedreiras, na ilha de Vitória, no ano de 1925.
Filho de Maria e do pescador Sebastião.
Gente tão simples quanto o vento de mar aberto.
Em o lar de Maria e Sebastião sempre havia um bom peixe à mesa, e música no ar.
O peixe bom vinha da baleeira «Flor da Penha» e, a música, saía, por encanto, das cordas de violões, cavaquinhos e bandolins, sons criados por uma família de músicos.
Maurício aprendeu a arte musical com rapidez, graças ao seu ouvido absoluto.
A os dez anos de idade já era a atração do regional do seu irmão José.
Quando sua família foi morar na Praia do Suá, o povo de Porto das Pedreiras ficou triste.
Então, aconteceu que o povo foi ouvir Maurício tocar no Suá.
Um certo dia, o pescador Sebastião chamou Maurício e diante da família reunida perguntou a ele:
-- O que você quer ser quando crescer?
-- Eu quero ser pescador de ...
sons -- respondeu o menino.
Com sabedoria e zelo, o pescador Sebastião comprou um novo violão para Maurício.
Com talento e determinação, Maurício de Oliveira realizou o seu sonho.
O destino fez de ele um pescador de sons ...
de belos sons!
Entre suas memórias, as maiores alegrias são:
a descoberta de Luiza, sua mulher;
dos filhos e netos, todos amantes de música;
de haver criado a Canção da Paz e de receber sempre o carinho e o reconhecimento do público.
Maurício de Oliveira poderia 'tar colhendo agora os frutos da celebridade, em qualquer lugar nobre do mundo.
Mas foi ele mesmo quem decidiu permanecer em Vitória, com o seu violão, tocando para a sua terra, que o reconhece com respeito e admiração.
Maurício de Oliveira é o músico da sua gente.
Maurício é lenda e símbolo imperecíveis."
E quase que eu não termino o texto de tanta emoção.
Dei aquela embargada básica na voz, as lágrimas se projetando no olho, a mão começando a suar em contraste com o peito que revirava como um vulcão, e que quase entrou em erupção quando adentrou o palco o Maurício de Oliveira denunciando no olhar que era a pessoa mais feliz do mundo aquela noite.
Público de pé, aplaudindo, ovacionando e se emocionando junto com Mauricio, que recebeu das mãos do compadre Turíbio, a 'cultura-homenagem.
E o cativante violonista nos brindou com um discurso repleto de casos.
Contou sobre a vez que tocou em Cuba para a Fidel Castro e sobre a comoção na visita à casa de " Frederic Chopin.
«Toquei na mesa de ele, vendo o piano de ele, ainda com partituras de época.
Para eu me controlar foi muito difícil.
Sabe lá o que é isso?
Tocar na casa de Chopin?"
Contou que foi mesmo convidado pra morar em várias partes do mundo, mas que ele não quis ir não.
Porque em lugar nenhum do mundo tem o Morro do Moreno, o Convento da Penha e moqueca com pirão.
Disse «Eu não sou capixaba porque nasci aqui, eu sou Capixaba porque eu gosto».
Depois tocou Helô e Mila, música composta em homenagem as filhas, e Ave Maria, enquanto uns e eu e outros se debulhavam em lágrimas.
Em os bastidores com Seu Maurício
Pra encerrar o Prêmio com chave de ouro, veio a Orquestra Filarmônica do Espírito Santo, cheia de talentos como o Elias Belmiro, o Fabiano Mayer e cujo Maestro, Helder Trefzger, é outro desses seres que encantam e comovem.
Ouvimos mais três músicas de Maurício.
E mais uma vez tive a honra de ficar ao lado de Maurício e Tião de Oliveira enquanto a orquestra se apresentava.
Mais um momento único.
Por os meus ouvidos entrava a inquietação de Angústia (prelúdio).
E meus olhos completavam a audição vendo as expressões nos rostos dos dois, os pés que balançavam cadenciados, as mãos que se mexiam tímidas acompanhando o lindo arranjo do Helder.
E por último veio a Canção da Paz, música mais conhecida e significativa de Maurício, e que em 1955, o fez receber um convite para ir a Varsóvia receber do Ministério da Cultura Polonês, uma medalha de prata no concurso internacional de violão promovido no país.
A obra desse violonista é coerente, e sempre voltada para a música brasileira.
Gravou um disco com composições de Dilermando Reis, e em 1980 interpretou, ao violão, as obras feitas para piano por o grande Ernesto Nazareth.
Mauricio é referência mundial da nossa música, respeitado sobretudo por a sua interpretação genial e conseqüente divulgação da obra de Villa Lobos.
E é também o capixaba mais fofo que existe.
A música segundo " Maurício de Oliveira
«Música é 'tado d' alma.
Tem uma grande relação com o 'pírito.
Acho que o músico 'tá mais perto de Deus.
Veja o que diz a Bíblia, que quando Jesus nasceu houve um coro de anjos ..."
«Música é matemática viva, que você sente no coração."
«Você não vê no jornal que um músico matou a mãe e os filhos, não vê músico chutando cachorro, nem matando passarinho.
Isso nunca acontece.
A música traz uma sensibilidade de fora para dentro do corpo, o sujeito fica tomado por a elevação de 'pírito que ela proporciona.
Mas a música também é profissão, e uma profissão difícil, difícil para 'tudar, para aparecer, para se aprimorar, para fazer sucesso.
Isso quando o músico preza a música."
«O violão é a minha alma;
minha alma é o violão.
Eu não tenho alma não;
minha alma é um violão."
«Fiz minha vida tocando." *
Número de frases: 124
citações retiradas dos depoimentos concedidos às jornalistas Marilza Bigio para o site seculodiario (2002) e Tatiana Wuo para o jornal A Gazeta (2006)
Perdi meus 'critos.
Sete exatos dias pra ler 139 páginas e acabar no riso «safadim» do autor.
Tinha parado de acompanhar a aula da pós e danei 'crever minhas impressões sobre o pequeno / gigante publicado de Ferreira.
Era eu mais lapiseira e papel.
Nunca fui poeta de decorar meus versos, eles sempre saíram suspirados, soltos, sussurrados, aos gritos, saíram sempre.
Perdidos os 'critos, me persegue o compromisso de relatar os sentidos diante de 'sas palavras todas.
eunóia
Visceral, pra começar ...
Uma criatura num cubículo com passagem pra ar, sustento e o grito.
Eis lo.
Entre tardes, noites, status quo, brutalidade da condição humana, mais um e nenhum ao mesmo tempo todos.
O verbo flui sem parágrafos.
Entre um e outro capítulo, entremeios da noite, da referência beatnik ao niilismo de uma chuva na tarde do cerrado, do caos sistematizado na política desse pedaço do planeta ao 'trondoso clamor universal da natureza humana saudável.
br é 'trada brasil é 'trada de fé e talentos explosivos não canso de dizer ..."
Também não me canso.
Empatia com o que leio.
» ... agora sou capim sou braço de árvore sou água de cachoeira sou lobo guará na solidão infinita do cerrado cósmico ..."
De repente, 'catologia.
Narrador apresenta relatos.
Cru.
Intenso de um jeito que fazia tempo eu não sentia.
Referências a personas mui gratas, de Ozzy a salto no abismo «com zaratustra na cabeça» ...
Embora ácida no mais das falas, não sou crítica de 'sas de coluna da Veja.
O fato é que li as crias da Fábrika de Letras.
Quero mais ...
E se valer a opinião:
R E C O M E N D O!
Em Cuiabá você consegue os livros e informações sobre pontos de venda com afábrika (65) 3023 0771
Em Campo Grande, fale com a bia marques@brturbo.com.br (breve nas livrarias)
ps = na primeira folga falo o que foi ler Dicke com capa de Balbino ...
Número de frases: 31
Quando tinha cerca de 13 anos comentei com meu pai que o ensino de História não tinha qualquer propósito real, ele falou que eu 'tava enganado.
Mais tarde, com cerca de 16, o então namorado de minha irmã falou a mesma coisa, eu o chamei de ignorante.
Creio ser simples assim.
Me interesso sobre batalhas históricas, a natureza da guerra, 'tratégias militares e o drama por trás disso tudo.
Depois de ler o manga Gen -- Pés Descalços comecei a me interessar cada vez mais em entender os horrores da guerra, em 'pecial agora que namoro uma descendente de hiroshimenses (?).
Então 'se filme era obrigatório na minha passagem por a Mostra.
E digo agora que é obrigatório a todos, dentro e fora da Mostra.
A questão mais importante do filme é:
Quando os últimos Hibakusha (sobreviventes das bombas) se forem, quem contará suas histórias?--
A mesma pergunta é valida aos sobreviventes do Holocausto, à vítimas de Napalm e Agente Laranja, e assim por diante.
Assim o filme relata as histórias desses Hibakusha, e da luta de eles e de jovens 'tudantes na tentativa de conscientizar o mundo e seus líderes de que bombas atômicas são cruéis e desnecessárias.
Isso forma o grosso do filme, que é temperado com análises políticas e históricas das razões e circunstâncias por trás do lançamento das bombas.
E é claro que a grande questão:
foi realmente necessário?
O filme corre com um excelente ritmo e seleciona excelentes, e algumas chocantes, imagens de arquivo para ilustrar todo o horror vivido por aqueles que não morreram instantaneamente.
Há momentos dramáticos de marejar os olhos de 'pectadores mais sensíveis, mas sem apelos baratos à emoção.
Em uma cena importante logo no começo uma pacifista compara todo o poderio de guerra utilizado na 2ª guerra com o arsenal atômico existente hoje e creio que o filme falhou em não seguir a recomendação de ela de fechar os olhos, além desse ponto apenas senti falta de algo mais memorável na cena final.
Número de frases: 17
Por enquanto, empatado com El Laberinto Del Fauno, 'se é o melhor filme que vi na mostra.
Abram a roda!
abre! tocam!
Toquem os pandeiros ...
Alegria no rosto.
Em o microfone, um velho matreiro, que não arrisca o precipício das grandes palavras;
brinca com as simples.
Acertado o passo, seguem o ritmo, não sem antes soltar as cores!
Samba de Côco da Barra dos Coqueiros em apresentação na " Orla de Atalaia.
Feira de Sergipe».
Janeiro de 2007.
Número de frases: 11
Aracaju, Sergipe.
Guarda-Livros Juramentado [ ...] A 'crita que no livro impresso havia encontrado um asilo onde levava sua existência autônoma, é inexoravelmente arrastada para as ruas por os reclames e submetida às brutais heteronomias do caos econômico.
Essa é a rigorosa 'cola de sua nova forma.
Se há séculos ela havia gradualmente começado a deitar-se, da inscrição ereta tornou-se manuscrito repousando oblíquo sobre 'crivaninhas, para afinal acamar-se na impressão, ela começa agora, com a mesma lentidão, a erguer-se novamente do chão.
Já o jornal é lido mais a prumo que na horizontal, filme e reclames forçam a 'crita a submeter-se de todo à ditatorial verticalidade.
E, antes que um contemporâneo chegue a abrir um livro, caiu sobre seus olhos um tão denso turbilhão de letras cambiantes, coloridas, conflitantes, que as chances de sua penetração na arcaica quietude do livro se tornaram mínimas.
Nuvens de gafanhotos de 'critura, que já hoje obscurecem o céu do pretenso 'pírito para os habitantes das grandes cidades, se tornarão mais densas a cada ano seguinte. (
Walter Benjamin, 1928)
A relação do jovem com o mangá é um dos eixos do " Projeto Infância, Juventude e Indústria Cultural:
sociedade, cultura e mediações -- imagem e produção de sentidos " que coordeno no Programa de Pós-gradua ção em Educação da UERJ.
O interesse mais amplo deste projeto é buscar os sentidos que crianças e jovens produzem sobre as novas tecnologias, 'pecialmente as relacionadas com as imagens técnicas.
Em o momento atual, os produtos focalizados são o mangá, o anime e o videogame, tripé da poderosa indústria de entretenimento japonesa que vem se constituindo como fenômeno mundial de comunicação de massa.
O que é o mangá e por que o interesse por o consumo e por a recepção desse artefato cultural?
O mangá é o correspondente impresso dos animes ou dos desenhos animados japoneses (Cavaleiros do Zodíaco, Pokemon, Sakura, Yoyo Yakusho, Dragon Ball, Samurai X e outros).
São HQs que vêm seduzindo de maneira crescente crianças, jovens e adultos, uma vez que, segundo um dos entrevistados, «tem mangá para todos os gostos».
Foi a constatação de 'sa sedução, paralela à constatação de que a 'cola, normalmente, desconhece o mangá, que nos levou à necessidade de investigar de forma mais sistemática «o que é que o mangá tem» para exercer tanto fascínio em crianças e jovens.
E, para isso, ao invés de nos debruçarmos sobre a análise desse meio de comunicação, o grupo de pesquisa optou por ouvir o que os próprios receptores tinham a nos dizer.
Essa decisão foi tomada com base nas contribuições que os Estudos Culturais latino-americanos (Jesus Martin-Barbero, 1995, 2001;
Nestor Garcia Canclini, 1998, 1999;
Guillermo Orozco Gomes, 2001) vêm trazendo ao debate sobre consumo cultural e recepção.
De acordo com 'sa orientação teórico-metodológica, o deslocamento de foco dos meios, ou da mensagem, para o discurso que o receptor produz sobre os meios permite identificar os receptores, não como «dóceis audiências», capturadas mecanicamente por a ideologia da mensagem, mas como ativos produtores de sentido.
Para os autores que têm nos inspirado, a mensagem não é incorporada imediatamente, ou mecanicamente, mas passa por o crivo da cultura, ou por as mediações culturais.
A importância de se assumir 'sa orientação 'tá ligada à possibilidade de avaliar as experiências culturais contemporâneas de crianças e jovens alteritariamente.
O foco nas mediações que constituem a recepção deixa brechas para que o receptor deixe de ser encarado apenas como consumidor de entretenimento ou de supérfluos culturais, e passe a ser visto como produtor de cultura.
A análise das quatro primeiras entrevistas realizadas com duas jovens e dois jovens (três 'tudantes universitários e um 'tudante do Ensino Médio com diferentes inserções socio-econômicas) já apontou para algumas questões interessantes que mostram que o fascínio que 'sas HQs desperta em eles não é fruto de um consumo irrefletido ou de um modismo irracional que seria determinado por a onipotência dos meios de comunicação.
Ao contrário, como demonstraram os entrevistados, o consumo do mangá tem uma lógica que é determinada por as complexas transformações culturais contemporâneas que fazem com que as experiências de crianças e jovens -- nascidos e imersos no contexto cultural da chamada «pós-modernidade» -- sejam diversas das experiências culturais que a 'cola, normalmente, valoriza e impõe a 'ses sujeitos.
Compreender os modos como a infância e a juventude são construídas e vividas hoje, seria, na visão dos entrevistados, fundamental à eliminação da barreira que, muitas vezes, se interpõe entre a «cultura da 'cola» e as culturas infantil e juvenil.
O exame dos longos depoimentos permitiu que levantássemos alguns fatores que levam os entrevistados a se identificarem como fãs de mangá, «fãzerrima» como se definiu uma das jovens.
De entre eles, emergiu fortemente a relação que eles 'tabelecem entre o gosto por a leitura do mangá e a linguagem cinematográfica das HQs japonesas.
Essa questão presente nos depoimentos nos permitiu levantar algumas reflexões sobre as práticas contemporâneas de leitura e são 'sas reflexões que apresento em 'te texto.
Como se pode verificar no fragmento que serve de epígrafe a 'te texto, Walter Benjamin, um de nossos interlocutores, já trazia no final da década de 20 um alerta sobre a influência da ditatorial verticalidade do jornal, do filme, dos reclames, no declínio do interesse das pessoas por o livro.
Hoje, oitenta anos depois de 'sa genial sacada, o cenário trazido por Benjamin se intensifica com a introdução no nosso cotidiano de um turbilhão de 'tímulos sonoros e visuais que altera mais ainda a relação que crianças e jovens 'tabelecem com a leitura.
Embora isso seja visível, é comum nos defrontarmos com a idéia de que existe uma crise da leitura que afeta o desempenho de crianças e jovens na 'cola.
Os depoimentos dos jovens, analisados sob o ponto de vista dos Estudos Culturais latino americanos, nos levaram a 'tranhar 'sa idéia da crise de leitura, 'tranhamento que traduzimos nas seguintes questões:
1 -- seria adequado chamar de crise a distância que crianças e jovens vêm mantendo hoje com o texto impresso tal como ele se organiza no livro?
2-Não seria mais pertinente supor que a crise é, no fundo, uma incapacidade das gerações -- que foram educadas e 'colarizadas nos moldes da cultura letrada -- de entender que «o pretensioso gesto universal do livro» já não se impõe para as novas gerações que nasceram sob o impacto que a tecnologia da imagem exerce sobre a leitura?
3) Não seria, então, possível supor que, se há uma crise da leitura, é por as gerações mais velhas que ela 'tá sendo vivenciada?
4) Não seria importante que, além de procuramos as causas do mal 'tar que a leitura provoca em crianças e jovens nos métodos de alfabetização, nas cartilhas e livros didáticos, nas práticas pedagógicas tradicionais, nas 'tratégias inadequadas do ensino da literatura, também atentássemos para a questão fundamental que á a presença frequente e progressiva da imagem técnica promovendo formas contemporâneas de leitura?
5) Diante do que crianças e jovens vêm apontando, não seria mais próprio, ao invés de ficarmos batendo na tecla de que existe uma crise de leitura, lidarmos com a idéia de que 'tamos diante não de uma crise, mas de um contexto histórico do qual precisamos nos aproximar para não perdermos o bonde da história?
O que os jovens trouxeram nos seus depoimentos que nos ajudaram a levantar 'sas questões?
De os inúmeros jovens fãs de mangá entrevistados, 'colhi para trazer para 'te texto José, João, Caroline e Juliana (os nomes são fictícios) por terem sido os primeiros que entrevistamos.
José tem dezesseis anos, mora em Brasília com os pais e é 'tudante do 1º ano do Ensino Médio de uma 'cola particular de prestígio.
Seu pai é diplomata e sua mãe fotógrafa, ele tem um irmão menor que também é aficcionado por os desenhos animados japoneses (animes) e por os mangás.
Em virtude da profissão do pai, José morou fora do Brasil, tendo conhecido as HQs no Chile.
João é filho único, tem dezenove anos, mora em Guadalupe (bairro da zona norte do Rio de Janeiro) com a mãe e a avó, é aluno do Curso de Nutrição da UERJ e coordenador do grupo jovem da Igreja Católica perto de sua casa.
Seus pais são engenheiros civis.
João se auto define como sendo pertencente à classe média baixa.
Juliana tem 20 anos, mora no morro do Borel (comunidade situada na zona sul do Rio de Janeiro) com a mãe, que é auxiliar de bar.
É caloura da Faculdade de Educação da UERJ, tendo ingressado por o sistema de cotas.
Caroline tem 21 anos, reside em Copacabana com pai, mãe e duas irmãs.
O pai é psicanalista e a mãe psicóloga.
Ela frequenta o 5º período da Faculdade de Educação da UERJ.
Os depoimentos dos jovens mostram que a tendência contemporânea da educação por a imagem é mediadora do mal 'tar diante do livro.
Se em suas falas, eles trouxeram indícios da maneira singular por a qual se relacionam com as HQs, numa coisa houve unanimidade:
nenhum dos quatro gosta de ler o que a 'cola concebe como leitura -- apenas o livro.
Como disse José:
«Eu só lia para a 'cola.
Lá no Chile tinha um currículo que era um livro por mês e ia fazendo prova, lia por causa da 'cola, eu sempre lia, mas por conta própria eu sempre ficava sem saco."
Mas gostam de ler mangá.
Por quê? A 'sa pergunta José, Juliana e Caroline deram as seguintes respostas:
«Não sei acho que os mangás têm uma coisa:
primeiro que o 'quema dos mangás é diferente dos quadrinhos americanos por a 'trutura da página.
Assim, os personagens não tem que ficar enquadrados no quadrinho, não tem uma regra assim.
Aí o desenhista vai extrapola em tudo e fica uma coisa bem dinâmica.
Você lê e acaba sendo uma 'pécie de ...
Você tá vendo um filme [ ...].
É bem cinematográfico, é como se você tivesse lendo um cinema.
Aí é bem legal de ler é bem divertido ...
É como se você tivesse vendo um filme só que em papel " (José).
«O texto 'crito convencional é normalmente muito lento, tudo é passado com muita lerdeza, é menos dinâmico você não tem uma coisa que HÓÓ!!!
Não, e você vai ter que ler tudo com muita calma, você não pode pegar assim como eu faço com o mangá:
pegar, ler todas as folhas, ver as imagens, sentir as imagens e depois partir para a leitura ...
Eu vou ter que partir direto para a leitura, não tem preparação, eu não posso me preparar pra entrar na leitura, eu vou ter que sair lendo.
Esta é pra mim a diferença.
Porque as pessoas preferem ir ao cinema do que ler um livro?
Porque lá tá a ação, tá tudo.
Quando você lê o mangá você leu aquilo ali você vai imaginar a próxima cena.
Mas quando eu leio [o livro] eu vou ter que ficar ali um tempão parada lendo aquilo, eu não posso parar e fazer outra coisa.
Não, eu tenho que ler todinho pra entender, quando eu pego o mangá eu posso ficar passando folha e observando as imagens e entender o que 'tá dizendo ali, pelo menos com relação às imagens." (
Juliana) " Porque, normalmente, os livros são extremamente maçantes ...
São linhas enormes ...
Páginas inteiras ...
Só 'crito ...
Só nhenhenhem, e aí no livro, naquele bando de linha, de letra ...
Você fica olhando aquele festival de letras e lá dentro é que tem a explicação de como é a imagem que você tem que formar do que 'tá acontecendo.
Em o mangá não.
Eles te dão a imagem e dizem o que as pessoas 'tão dizendo por a 'crita.
Fica muito mais fácil!
Porque se você pegasse um livro e, nas imagens do livro, você colocasse as falas das pessoas, em vez de descrever ...
Porque a descrição é sacal!
«E tinha uma flor vermelha no vaso de cristal no lado ...
Em o canto 'querdo da sala com um 'pelho enorme, uma foto da vovozinha e o tapete era persa ..."
Em o mangá não, lá tem o desenho.
Você já vê como é que é o negócio.
Claro que tudo em preto e branco, aí você colore com a sua mente!" (
Caroline) Essas falas poderiam ser interpretadas, sob o senso comum ou de acordo com outro referencial teórico, como indício da tão falada crise de leitura que incide sobre os jovens que, por causa dos supostos efeitos maléficos da imagem técnica, se afastam da boa cultura, da boa leitura, tornando-se alienados, incultos, apolíticos etc..
Interpretadas sob o ponto de vista da análise do consumo cultural e da recepção, realizada por os Estudos Culturais latino-americanos, o que 'sas falas podem 'tar revelando é que o gosto por o texto que parece um filme, por o texto que anda, pode ser fruto do convívio cotidiano do jovem com as tecnologias da imagem:
a TV, o computador, a Internet, os videogames.
Jesus Martin-Barbero (1995) mostra que 'se convívio interfere radicalmente nos modos como o sujeito percebe o 'paço e o tempo.
Uma das causas da separação entre a educação e a cultura é que, na maioria das vezes, a 'cola não se dá conta que as novas gerações 'tão sendo educadas por imagens e sons, por a quantidade e qualidade de cinema e da televisão a que assistem e não mais por o texto 'crito.
É através da imagens da televisão que muitas crianças e jovens formam sua inteligibilidade do mundo.
Beatriz Sarlo (1997), outra de nossas interlocutoras, aponta que o zapping da TV traz uma nova forma de relação com a imagem.
A imagem, a partir desse recurso, se torna cada vez mais rápida e a mudança / rapidez de ela acaba sendo mais forte e mais importante do que a própria mensagem que a imagem transmite.
Esse uso, segundo a autora, deu origem à produção rápida da imagem, com mais cortes e tempos mais curtos na produção de filmes, novelas, etc..
A prática do zapping e do video-clipe, ou seja, de 'sa mudança constante de uma imagem para a outra repõe a experiência do jovem em bases diferentes daquelas de quem foi criado relacionando-se com a 'crita de textos que precisavam de um tempo e de uma elaboração diferentes, mais lentos e mais profundos.
Sarlo chega a afirmar que o zapping é uma «máquina sintática» como se fosse na verdade uma outra forma de costurar os discursos e de construir e 'crever histórias.
De esse modo, o sentido que pode 'tar sendo produzido por as falas dos leitores de mangá é o de que existe um abismo entre as gerações formadas na cultura letrada e os jovens e crianças que hoje crescem e se formam na cultura da imagem.
Como fica explícito em 'sas falas de José e Caroline.
Indagado sobre se achava o mangá menos importante do que o livro, José respondeu:
José:
Não, pra mim, não, mas pra outras pessoas talvez seja.
Pesq:
Pra que outras pessoas, por exemplo?
José:
Não sei os intelectuais.
Pesq:
Os intelectuais não consideram o mangá importante, é isso?
José:
É. Mas pra mim conta.
Eu acho que a mesma mensagem que o livro traz para a pessoa o mangá também pode trazer só que por outro meio de expressão, de comunicação.
«Antigamente, não tinha rádio, não tinha televisão, não tinha nada disso que a gente tem hoje, Não tinha computador então, você ...
Você vê ...
Foi a evolução ...
Foi criando todos 'ses aparelhos maravilhosos, né?
É ... Eu digo que ...
Ah ... Eu nem gosto da televisão porque eu tenho um pouco de raiva, porque, talvez, se eu não tivesse conhecido a televisão, não tivesse convivido com ela desde pequena, eu não ...
Eu seria muito mais ligada aos livros, provavelmente, porque seria a minha única forma de diversão.
Mas como eu tenho uma coisa muito mais legal pra ver na televisão do que nos livros ...
É horrível dizer isso ..." (
Caroline).
Influenciados por a visão crítica que os Estudos Culturais latino-americanos têm imprimido ao 'tudo da recepção / consumo cultural, temos podido interpretar que a relação que os entrevistados 'tabelecem entre leitura e imagem aponta para um perfil de leitor diverso do perfil do leitor do livro o que, na visão dos quatro jovens, não implica na temida e anunciada morte do leitor.
Muito pelo contrário, em seus longos depoimentos eles revelaram a face do leitor com a qual a modernidade, em sua dimensão emancipadora, sonhou e continua sonhando:
além de extremamente comunicativos, versáteis na apresentação de suas idéias, com um perfil que se afasta bastante da maneira como o imaginário social apresenta, muitas vezes, os jovens -- alienados, superficiais, levianos, inconsequentes -- impressionou-nos constatar como eles e elas demonstraram um conhecimento 'merado de questões históricas, filosóficas, mitológicas relacionadas às HQs japonesas, que é buscado em bibliotecas, na internet, na leitura minuciosa das próprios quadrinhos ou, ainda, com leitores mais experientes.
Por isso, à nossa insinuação provocativa de que não era possível que a rapidez da leitura do mangá permitisse que o conteúdo ficasse retido na cabeça de eles, José não hesitou em responder enfaticamente:
«Fica, fica sim!" Cabe, finalmente, dizer que a tentativa de aproximação dos mangás por o grupo de pesquisa não surtiu o efeito anunciado por a propaganda efusiva dos jovens entrevistados.
Não nos identificamos com o 'tranho mundo das HQs japonesas.
Mas a perspectiva teórico-metodológica que privilegiamos, que nos levou a colocar o foco de nossa atenção não na análise desse meio, mas nas mediações responsáveis por a sedução que ele exerce nos sujeitos, nos permitiu a reflexão de que o 'tranhamento dos quatro diante do livro pode não ser fruto de uma crise de leitura, mas sim fruto da experiência dos mesmos com a imagem técnica.
A o considerar as experiências dos quatro, pudemos entender o que se passa culturalmente com eles na perspectiva da alteridade e não do etnocentrismo.
Referências bibliográficas:
BENJAMIN, Walter.
Guarda-Livros Juramentado. In:
Obras Escolhidas II: Rua de Mão única.
São Paulo: Brasiliense, 1987.
CANCLINI, Néstor García.
Culturas híbridas.
São Paulo: EDUSP, 1998.
CANCLINI, Néstor García.
Consumidores e cidadãos:
conflitos multiculturais da globalização.
Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1999.
MARTÍN-BARBERO, Jesús.
América Latina e os anos recentes:
o 'tudo da recepção em comunicação social.
In: Sousa, Mauro Wilton de (org.).
Sujeito: o lado oculto do receptor.
São Paulo: Brasiliense, 1995.
MARTIN-BARBERO, Jesús.
De os meios às mediações:
comunicação, cultura e hegemonia.
2ª ed. Rio de Janeiro:
Editora da UFRJ, 2001.
SARLO, Beatriz.
Cenas da vida pós-moderna:
intelectuais, arte e vídeo-cultura na Argentina.
Número de frases: 164
Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.
A cidade do carnaval, do maracatu, do povo alegre e hospitaleiro (entre outros lugares comuns) 'tá entregue às baratas.
Mesmo. Uma intraqüilidade aparente se transforma num 'tado quase alucinatório de caos e insegurança total quando você começa a observar a mídia.
De a última sexta-feira até agora, foram 23 homicídios.
Em o último feriado do dia 15 foram mais de 45 mortes, comparável ao Iraque.
O Estado é campeão de mortes de mulheres e possui o segundo maior índice de mortes de jovens.
Não há um dia sequer que o Recife não acorde com corpos perfurados de bala.
Engana-se quem pensa que o rastro da violência seja restrito a bolsões e localidades de baixa renda, como no Rio de Janeiro ou em São Paulo.
Um exemplo foi a morte de um jovem de classe alta, em plena orla do bairro de Boa Viagem, metro quadrado mais caro do Nordeste.
Além deste caso ocorrido ontem, mais quatro pessoas foram mortas nos últimos dois anos, ali, na cara dos turistas.
É o cartão postal.
Praia com sangue.
E para pior ainda temos os tubarões.
Em o Recife, remediar é melhor do que prevenir.
Prevenir gasta dinheiro, é caro.
Assim, os cadernos de Cidades dos três grandes jornais locais, todos os dias, ficam repletos de tiroteios, facadas, mortes em emergências, fotos de assassinos, indiciados e mortos prematuramente.
É um festival de fuzilados, arrastados e 'faqueados.
Dia 17 foi a vez de dois bandidos causarem o caos no Centro do Recife.
Em frente a prédios públicos importantes, como o Teatro Santa Isabel e (vejam só!)
a Casa Militar.
Certamente que a polícia atuou com responsabilidade no caso, mas a ousadia dos assaltantes foi impressionante.
Causaram pânico ao saírem armados com R$ 500,00 roubados de uma casa lotérica.
A população, atônita, observava aquilo tudo.
Em a comparação nacional, Pernambuco apresenta as maiores taxas de homicídios em jovens, só perdendo para o Rio de Janeiro.
O terceiro lugar fica com o Espírito Santo e o quarto com São Paulo.
Recife tem aproximadamente 568.780 jovens, correspondendo a 40 % da população total.
Cerca de 51 % de eles vivem em famílias com renda mensal inferior a um salário mínimo e muitos 'tão em situação de rua.
As mortes com armas de fogo somam 72,7 % do total e as medidas criadas por o governo do Estado parecem não surtir efeito.
Programas de profissionalização, atuação de ongs, projetos de participação público-privadas, cursos educativos, incentivos para 'tudos ...
parece que nada adianta.
Isto acaba por criar um conformismo insubstituível e uma situação de incredulidade enorme.
Faço trabalho voluntário no bairro mais violento da minha cidade, Santo Amaro, e dou aulas de jornalismo para entre cinco e oito crianças.
Vejo tantas outras iniciativas parecidas e igualmente nobres, mas enquanto uma de 'sas crianças consegue empreender trabalhos conscientes, outras dez acabam morrendo na guerra diária do 'tado.
Outra triste marca é a que Pernambuco é o 'tado campeão de mulheres mortas no país.
São mais de 270 desde janeiro, o que dá uma média de mais ou menos 0.8 mortes / dia.
Proliferam centros de proteção à mulher, campanhas, a lei Maria da Penha, sancionada por o Governo Federal, e nada.
O machismo nordestino contribui claramente para 'ta questão, já que maioria dos homicídios é cometido por o próprio marido ou namorado.
A morte da menina Laís, de nove anos, também aumentou 'tas 'tatísticas.
Estrangulada, 'quartejada, 'tuprada (em 'sa ordem) e queimada, o caso deixou os pernambucanos embasbacados por quase dois meses, o tempo em que ela ficou desaparecida.
Os termos são fortes, mas isto são só palavras.
Imagine ver todo dia em imagens e no real.
Muitos 'tudiosos afirmam que a melhora 'taria numa educação mais eficaz, diferente daquela compulsória a uma realidade virtual, como a do Bolsa Escola.
Outros afirmam que o ideal é o pleno emprego, dar oportunidades aos jovens.
E ainda há aqueles que defendem que violência só se combate com mais bala.
E não são só eles.
É comum a polícia ter que proteger criminosos para que 'tes não sejam linchados publicamente por a população.
O caldeirão de mazelas sociais aqui em Pernambuco 'tá se tornando praticamente insuportável.
Violência é o assunto do dia de várias pessoas.
A fixação por ela reflete bem o medo com que vivemos e o pânico que tomou de arrastão toda a cultura que temos por aqui.
Número de frases: 49
Está cada vez mais complicado.
Durante o período trevoso em que foi submetida a democracia norte americana, os anos do macartismo no início da década de 5O do século passado, um fato emblemático demonstrou que ideologias diferentes podem conviver num mesmo cenário.
John Ford, um leão anticomunista, visceral defensor do indivíduo
como protagonista num mundo onde o capitalismo deveria reinar
absoluto, foi «convidado» por o FBI à prestar um depoimento, leia-se
ser interrogado, sobre uma suposta ideologia socialista, marxista, ou qualquer outra feitiçaria de 'querda que ele provavelmente seria praticante.
Essa desconfiança surgiu por ser o diretor do mais famoso e impor-
tante filme sobre questões trabalhistas da história:
As Vinhas da Ira (
the grapes of wrath) baseado no livro de John Steinbeck.
Nenhuma acusação pode ser formalizada contra ele.
Simplesmente ele percebia no livro e no consequente filme, uma clara e verda-
deira visão da miséria e injustiças existirem de um modo tão dra-
mático no país mais rico e poderoso do mundo.
O link entre o texto acima e o que eu gostaria de propor foi baseado numa notícia recente:
O lançamento do último cd do músico Tom Zé.
Se uma grande empresa como a VR (no caso Vale Refeição, mas poderia ser Vila Romana ou qualquer outra.)
pôde bancar a pro-
dução do cd e a remuneração de Tom Zé, sua banda e outros
profissionais envolvidos, e ainda assumir os custos para dispo-
nibilizar as músicas para os interessados baixarem via download
gratuitamente na internet, porque o mesmo não pode aconte-
cer no mundo do cinema?
O que eu tenho em mente já existe parcialmente;
Em os festivais
É Tudo Verdade, Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, Festival Latino Americano de Cinema, entre outros,
quem quiser assistir às produçôes apresentadas, é só chegar no local de exibição desejado dentro do horário de distribuição pré-'tabelecido e retirar seu ingresso na bilheteria gratuitamen-
te. Em o último Anima Mundi realizado no Rio e em Sampa recentemen-
te, o que se viu foram verdadeiras feiras do audiovisual, com muitos
patrocínios, parcerias e stands de empresas correlacionadas com o evento.
Jé é tempo deste festival voltar às origens e implantar novamen-
to sistema de catracas liberadas para todo mundo.
Eu duvido
que faria muita diferença nos custos de produção do evento, e mesmo que fizesse, os patrocínios e parcerias assimilariam 'tes
custos sem problemas.
Não vamos 'quecer da Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo. Em a sessão de abertura de 2007 no auditório do Ibirapuera,
o governador José Serra e o secretário de cultura do município,
que subiram ao palco para se juntar à Leon Cakoff, com o e às outras personalidades na hora dos discursos, quase que
disputaram verbalmente o direito de tornar a Mostra parte inte-
grante e permanente do calendário cultural e turístico da cidade.
Tanto interesse público e privado, grandes patrocínios e parcerias
no evento, tornam perfeitamente possível a Mostra se tornar um festival de acesso gratuito.
Ainda que surjam críticas contrárias (
vindas dos envolvidos na realização da Mostra, é claro).
Mesmo sendo um evento caro, acredito que ele possa ser realizado des-
ta maneira sem perdas para ninguém.
Baseado nisto, vou mais longe:
Que tal se os ingressos de cinema
fora dos festivais e os dvds lançados posteriormente após as exibições nas salas também fossem gratuitos?
Devemos nos lembrar que grandes empresas 'tatais, governos
'taduais e municipais, multinacionais e grandes empresas nacionais
privadas 'tão cada vez mais envolvidas com a indústria cinemato-
gráfica brasileira.
E grande parte disso tudo é baseado nas leis
de incentivo e a consequente renúncia fiscal.
Ou seja dinheiro
que ia para determinada finalidade social vai para o cinema, di-
nheiro público.
Nada mais justo seria isentar o consumidor, o cidadão, de qual-
quer custo.
Afinal o dinheiro é de ele;
E não nos 'queçamos que
em 'te sistema atual, as produções já 'tão pagas antes de chegar
às salas.
Democratização total do cinema, agrada de John Ford à Lênin!
Número de frases: 66
«Quem quer ser universal que cante sua aldeia».
Esta célebre frase atribuída ao 'critor russo Leon Tolstoi, como já havia dito em outra oportunidade, é análoga ao som da banda Nego Ka ' apor, uma das revelações da música jovem produzida no Maranhão.
Há seis anos na 'trada, desde o mês de abril o grupo radicou-se no Rio de Janeiro com o objetivo de divulgar, no Sudeste, o CD homônimo, primeiro registro da banda, lançado no ano passado.
O Nego Ka ' apor «montou acampamento» na cidade de São Gonçalo (situada nas proximidades de Niterói), e, aos poucos, vai percorrendo o circuito alternativo de bares e eventos de música da região.
Se a 'tadia der certo, possivelmente o Brasil vai ouvir falar na banda.
O grupo mistura ritmos regionais maranhenses, como mina, tambor-de-crioula, bumba-meu-boi e pitadas de toques indígenas, com elementos de rock, reggae e soul.
Pode parecer surpreendente, mas o conceito sonoro, semelhante ao que foi realizado por os pernambucanos do mangue beat, na década passada, nunca havia sido experimentado com tanta precisão, contundência e originalidade por uma banda maranhense.
O Nego Ka ' apor funde a batucada de pandeirões, matracas, caixas do Divino e diversos outros tambores e instrumentos regionais com guitarras, baixo e bateria, além de uma pequena cozinha de instrumentos de sopro.
Segundo o líder e vocalista Beto Ehongue, a 'tadia no Rio 'tá surpreendente.
«Em pouco tempo, realizamos quatro shows e fizemos importantes contatos.
Vários músicos de renome apostaram na banda», declara.
Depois de diversas mudanças, além do vocalista, formam o Nego Ka ' apor atualmente:
Sidel Trindade (percussão), Baé Ribeiro (percussão), Nicolau Eslouco (bateria).
O talentoso guitarrista João Sino que viajou com o grupo, teve que voltar para São Luís às pressas para assistir ao nascimento do seu primeiro filho e não deve retornar mais.
Em o território fluminense, o grupo contou com o apoio de três músicos, o baixista Carlito Gepe (que toca na Gungala ao lado de Peninha, do Barão Vermelho), o trompetista Alex Brasil e o trombonista Tiago Bochecha.
A média de idade dos componentes originais é de 30 anos.
Beto Ehongue é o autor de todas as músicas do Nego Ka ' apor (foram gravadas 12 no disco), enquanto a banda assina os arranjos.
A maioria das letras possuem cunho social, mas são dotadas de um tempero poético ou profético muito próprio, que neutraliza as febres panfletárias.
Um exemplo é " Sangue e Fé ":
«Antonio abriu no meio do povo / a clareira fazendo a terra cuspir fogo / e um céu de 'trelas subiu por o chão / O canto ouviu-se lá no Maranhão / bateu bem no peito do carcará João / deixando a tristeza um pouco mais feliz «ou» Desafiando a Lei ":
«As palafitas não conhecem a lei / as palafitas desafiam a lei / as palafitas ignoram a lei da gravidade».
Agenda
De abril ao começo de junho, a Nego Ka ' apor participou do «Groove do São», no Sesc / São Gonçalo;
fechou o evento de poesia e música «Uma Noite na Taverna», na Fundação de Cultura de São Gonçalo;
tocou no 7° Encontrão, em Nova Iguaçu;
e ainda apresentou um show no Espaço Convés, em Niterói.
Em o final do mês passado, a banda voltou para São Luís, onde realizou algumas apresentações durante os festejos juninos.
O grupo deve permanecer até o final de julho na capital do Maranhão.
A partir de agosto, recomeçam os compromissos em terras fluminenses.
Em o dia 20, o Nego Ka ' apor se apresenta no Arte Jovem, no Espaço Convés, em Niterói.
Logo depois, dia 26, o grupo toca no Campus de São Bento.
Em o início de setembro, mais precisamente no dia 6, 'tá marcado um show no município de Aldeia Velha, localizado no litoral do 'tado do Rio.
«Esperamos manter o mesmo ritmo da chegada e ampliar os contatos.
De repente, começamos a ganhar algum dinheiro», brinca o vocalista.
Mangue
O Nego Ka ' apor um dia se chamou Som do Mangue, porque a banda foi formada por amigos que costumavam se reunir nos finais de semana, num bar na Praia do Araçagy, no litoral de São Luís, num setor mais isolado, chamado de mangue seco.
Isso, nos idos do ano 2000.
De a praia para o palco foi um salto e logo o grupo deitou e rolou na pequena cena alternativa de São Luís, chamando atenção por a originalidade da música e das letras.
O nome Som do Mangue foi descartado em 2003 para evitar comparações com os primos alquimistas de Recife.
Se há semelhanças com a receita musical do famoso movimento musical pernambucano?
Sem dúvida, mas tudo acontece no campo conceitual, porque os ingredientes e o tempero sonoro, como já disse, são genuinamente maranhenses.
O disco do Nego Ka ' apor foi lançado em 2006 e contou com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Maranhão.
Em o final do ano passado, a banda venceu três categorias do Prêmio Rádio Universidade FM, o principal do cenário da música maranhense.
Número de frases: 43
Ler a nova poesia, quem é capaz?
A crítica sempre se mostrou mais ou menos incapacitada para dar conta do fenômeno poético de seu tempo, principalmente quando desdenhou as obras que se negaram a um 'gotamento precoce ou quando fizeram apressadas idealizações.
Por outro lado, muitas vezes denunciou equívocos e o sepultamento prematuro de obras que ainda se prestariam a inúmeras ressurreições.
Mas que salto qualitativo ou quantitativo foi 'te que blindou a poesia contemporânea de qualquer avaliação plausível, de um mínimo «diagnóstico por imagem» ou de uma trans-figura ção livre e vulgar?
Por que se diz que ainda não surgiu uma crítica apta a ler com propriedade a poesia contemporânea?
Isso se deve a uma incapacidade de avaliação em si ou uma refratariedade programada dos novos modelos 'téticos?
E 'sa nova 'tética, se existente, mereceria a intervenção de um mediador tão qualificado?
Em que medida?
Há necessidade, enfim, desse urgente interlocução?
Suspenda-se, por enquanto a indagação, sempre recorrente, de se há efetivamente «poesia contemporânea» ou equivalente.
Seria normal destinar o texto poético previamente a determinada faixa de competência analítica?
E feito isso, a opacidade desse mesmo texto não inviabilizaria as incursões transcriadoras, disruptivas, corrosivas de um leitor indisciplinado e leigo?
Essas questões surgem a propósito de afirmação recente feita por alguns novos poetas de que não há uma crítica apta a abordar com propriedade e avaliar a poesia que se produz atualmente.
Normalmente aponta-se a imperícia da crítica, impregnada de vícios 'téticos, para abordar a inabarcável produção contemporânea, desde um prisma desconstrutivo, fragmentário, caótico.
Tal observação, quando dirigida a certa crítica acadêmica que ainda pratica dicotomias redutoras, analógicas, ainda nutridas nos moldes modernistas do século passado, tem sua razão.
De fato, apesar da constante recomendação para que se olhe com olhos novos o que surge, as obsoletas ferramentas modernistas são no mínimo inadequadas para dar conta da produção poética atual -- mesmo com a ressalva de que crítica alguma deu-se ao trabalho de 'gotar as linguagens de seu tempo.
No entanto, tal deficiência deve ser vista com cuidado, principalmente levando-se em conta o círculo vicioso da competência poética em que se meteu a poesia de hoje, a qual, desdenhando todas as tentativas de ruptura e julgando já a intransigência e subversão como simples operações fora de foco, parece atravessar o âmbito folhoso e ameno de um terreno conquistado.
Ora, na medida em que a própria atividade poética abdicou de aderir a um projeto de vanguarda e de uma prática subversiva, como cobrar da crítica uma leitura fidedigna, pertinente ou equiparável a seu desencanto histórico e sua desvinculação objetiva a um desfecho?
Em função disso, a afirmação parece 'conder menos um pleito por uma interlocução válida que um propósito velado de auto-preserva ção.
A denúncia feita por os poetas cria, de qualquer forma, uma problemática.
Mas talvez caia num perigoso jogo de excelência se considerar a nova poesia, dada sua privilegiada carga de informação acadêmica, acessável de forma global, como imune a todo e qualquer 'picaçamento crítico e, por extensão, a toda revogação ditada por os atritos 'téticos com outras linguagens e com ela própria.
Desconfia-se, por exemplo, que uma ostentação cosmopolita, repetindo o mesmo equívoco humanista do passado, busque imunizar-se não só de uma inevitável leitura contingenciada, como dos precários sismógrafos de um indisciplinado leitor transgressivo e transcriador.
E quanta energia não se gasta em 'quivar-se de um atrito não-edificante!
Podemos até concordar com o decreto, na medida em que uma poesia contemporânea 'tá ainda sendo feita, não tendo ainda tempo de 'tabelecer-se como matéria manipulável, em que pese toda «poesia in progress», através de uma manobra de reflexos, negue-se a uma apreensão exaurível, presente ou futura.
Mesmo assim ocorrendo, não seria possível 'sa poesia lograr aliciar o Seu leitor ou Sua crítica?
Uma poesia que só timidamente mostra sua nervura?
Vá lá.
No entanto, desconfio que melhor faz a crítica em tatear, errar em terreno temporal também instável para a in-forma ção poética, sobre o que ainda não se deu, evitando sujeitar-se a precipitadas totemizações, até porque, quer queira quer não, ela sempre se sustentou sobre obras relativamente «elaboradas», tirando de elas o seu magro sustento.
Confrontos à parte, cabe lembrar que, se a arte contemporânea não tem lugar nem vez para a crítica de seu tempo, nem se permite um convívio mínimo, para quem afinal é 'crita e por que ainda é produzida?
O fato de já nascer crítica dispensaria a poesia de um olhar de fora, um ver-ler de qualquer 'pécie?
Com efeito, 'sa poesia, que prima por a alta voltagem informacional de seus praticantes, sem perceber parece ressuscitar uma «necessidade de época», em que pese a arte contemporânea pautar-se na ausência de paradigma e linhas de definição nítida.
E se de fato há 'se gosto nivelador ou uma total ausência de avaliação, 'pera-se pelo menos que a poesia desenvolva a capacidade de discrepar de seu entorno e cobrar de si uma radicalidade cada vez mais inventiva.
Vale lembrar também que, autônoma ou não, a crítica como discurso é algo que vem posterior à obra poética.
Convenhamos, embora não seja ela tributária de todos os equívocos cometidos, muitas vezes ressente-se de obras-refer ência ('se é seu «papel»?)
e sua autonomia não vai ao ponto de justificar o injustificável ou de preencher a lacuna 'tética que as próprias obras não deram conta de fazê-lo.
Para uma produção poética que já não se arrisca ao erro e ao passo em falso e não mostra fissuras apreciáveis, seria cômodo demais debitar o passar em branco do seu discurso à inaptidão do leitor (e da crítica) para penetrar seu 'pírito.
Garante-se, assim, um transcurso incólume, mesmo com o risco maior de ir " emudecendo em meio à não-diferen ça (Adorno).
Normal também 'quecer que o desafio maior, além do que percorrer um caminho 'tético sem fissuras e erros é, muitas vezes, pinçar o que há por trás desse relato e desse texto que flui em todos os tempos, aparentemente sem discrepância, muitas vezes sem marcas de contemporaneidade e com a falsa aparência de costume e repetição.
A propósito, em recente entrevista, Wilmar Silva formulou a seguinte pergunta a um poeta contemporâneo:
se a poesia é «a liberdade da minha linguagem» por que os poetas 'crevem com medo de errar?"
A pergunta é pertinente ao que ora se expõe, quando, diante de certa monotonia de sons de uma técnica dominada, o leitor parece mover-se numa plano poético sem rebites, saliências ou ruídos de elaboração.
E, pior, desautorizado previamente a encontrar «algo mais além» do que dispõem os produtos poéticos cooperativados.
Apesar de todas as chamadas que os críticos literários levaram, quase sempre com acerto, se o comportamento para com 'tes é o da desautorização pura e simples, imagine o que não se reserva ao leitor não-'pecializado, imperito, mas capaz muitas vezes de uma compreensão, de uma apreensão formal ou conteudística, uma des-integra ção poética.
Ora, se uma poesia não for lida (ou sequer repudiada) por sua época, nem se oferece ao pasto de um retardatário olho congestionado de conceitos revogados e nem se submete às suas intrigas, pelo menos para deixar claro seu não-pertencimento a um mundo absoluto, deve, de preferência, mostrar sua quota de subversão, sob pena de, paradoxalmente, destinar-se mais livremente à degradação que a auto-refer ência induz e, pior, sem tocar sequer a lava do historicismo.
Enfim, como costuma acontecer à arte que 'colhe seu público, pode caminhar docilmente a mais um «cerimonial vazio do concerto».
É verdade que toda arte que se preze traz em si uma «negação elaborada».
Mas 'se elemento em si não menospreza o acaso, as invasões da diversidade, nem se presta a 'tabelecer pré-indica ções valorativas de quem pode ou não pode usufruir de sua 'trutura objetiva e libar suas conseqüências 'téticas.
A rigor, o produto 'tético é sem rótulo de indicação.
Convém lembrar, uma das características da poesia de hoje é que ela, atingindo alto grau de lucidez, se permite atestar sua inutilidade, sua indisposição à imortalidade programada, alguma transcendência pré-concebida, a irrelevância histórica a um tempo determinado.
Por outro lado, 'ses elementos paradoxalmente se perfilam numa angustiante 'pera por uma crítica que não comparece, paradigmática (por que não?),
totalizadora (idem) e, afinal, tanto quanto competente ou mais que as obras em curso.
Ocorre que, para o bem e para o mal, nascendo depois das 'crituras, à crítica quase sempre restará inviabilizada uma resposta em tempo oportuno.
Por enquanto, mesmo sujeitos a um diagnóstico falho, preferimos acreditar que a uniformidade abstrata e mais ou menos rarefeita da poesia atual deve-se mais a uma abertura franca às múltiplas leituras e interpretações não-autorizadas e seu dinamismo tecnológico (quase uma «tendência ") que à sua predisposição para atender a um» gosto nivelador», professoral e autoritário.
Para uma avaliação minimamente válida, cremos ser necessário pôr de lado os patéticos e inofensivos torneios geracionais em que se adiam questões 'téticas objetivas sobre os textos e as debilidades são reciprocamente disfarçadas.
Sim, porque à obtusidade dos retardatários em insistirem com clichês poéticos sepultados, corresponde a tática de seus opositores novíssimos em não deixar ver em seu material os sinais de alguma imperícia ou indícios de sutil reverência a um passado 'teticamente emoldurável.
Todavia, 'sa reação, lançada no contrapé da arquejante crítica, trilhando o caminho inverso à histórica ojeriza dos inventores aos clínicos, não é já um sintoma de contemporaneidade e não expõe um grande impasse com que deve lidar a poesia de agora?
Calculamos que sim.
É possível afirmar que a crítica ainda não «falou» da poesia contemporânea enquanto larva desconforme com os modelos 'téticos e culturais ainda vigentes, e como matéria que se nega à própria abordagem prospectiva, mas jamais como invulgar instância formal indescritível.
Não como construção que, dada sua rareza, não encontrou ainda instrumento idôneo de leitura.
Fosse assim, para ficar num só aspecto, não 'taria tão viva a dialogia das traduções e a releitura de poetas exumados.
Por outro lado, é também possível interpretar 'se gesto como uma performance de «negação arrojada» (Adorno), se já não fosse 'se «um gesto quase da natureza» da arte em geral.
Mas ... a notoriedade da poesia 'tá menos em alcançar alguma relevância política que em assumir seu fracasso histórico e programático, dando-se ao luxo de, na passagem, descartar qualquer conciliação com a crítica.
De qualquer maneira, seria no mínimo 'tranho que uma poesia se ufane por não ser devidamente lida ou interpretada por os que lhe são contemporâneos ou se lamente disso.
Ora, ainda que sujeita a leituras 'trábicas (e, repetimos, inofensivas) de uma retardatária crítica embaçada por fuliginosos paradigmas modernistas e dos velhos cultores de metáforas, 'sas são ainda leituras (ou testemunhos de um fazer?),
equiparáveis tanto quanto aos visitantes potenciais / virtuais do texto, 'palhados por o futuro.
E para aqueles talvez já soe indiferente ou inócua a expulsão ou a barração compulsória na festa do pensamento.
Cândido Rolim -- nasceu no sul cearense, autor de Exemplos Alados, Pedra Habitada e Fragma.
Possui artigos, textos e resenhas na web, em jornais e revistas.
Número de frases: 68
Contato: candidorolim@hotmail.com
Como vocês sabem e já devem ter percebido, uma das grandes molas propulsoras do Overmundo é a música.
Em a verdade, é a maior.
Já chegamos no entorno de mil colaborações sobre o tema!
Música, música e mais música.
Para quem gosta do assunto, como eu, são ótimos números.
Para 'crever outro texto sobre música eu teria que ter uma boa razão, já que a idéia do Overmundo é dar 'paço a temas diversos.
E o Esquadrão Atari é uma boa justificativa para engrossar as nossas 'tatísticas musicais.
Indo a um show EA você entende as diferenças de 'sa banda para as outras.
A primeira de elas é prática:
'tá no uso que eles fazem das imagens durante as suas apresentações.
«Banda tocando com vídeo atrás?"
Ok, grande novidade ...
Mas no caso do Esquadrão Atari é diferente, o grau de relevância das imagens é muito maior.
Prova disso é o lugar em segundo plano que os integrantes da banda ocupam em relação às telas e televisores no palco.
Cada música só é completa ao formar um conjunto com as imagens em movimento.
«Não é videoclipe.
O vídeo não serve apenas para ilustrar a música, ele faz parte da mensagem.
Como não trabalhamos com letras, ele ocupa o lugar das palavras», explica Daniel Werneck, um dos mentores do EA.
As composições surgem de diversas fontes.
Uma idéia surge de um trecho qualquer de filme ou áudio e vai sendo transformada com outras colagens e samplers.
O resultado é sempre alcançado coletivamente, mesmo que isso signifique, às vezes, que uns acabem fazendo ou se dedicando mais que os outros.
A segunda diferença é política.
De certa maneira, o EA sempre 'teve ligado aos ideais que o Overmundo defende.
A música é livre e não deve haver hierarquia na cultura (tanto na produção, no papel do artista, na separação entre erudito e popular, etc).
Se hoje as fronteiras entre o pop e o underground não são muito claras, é preciso reconhecer e aceitar a ironia que há na relação entre arte e mídia.
O valor de «pureza» da arte é algo que não faz sentido há séculos, mas, ao mesmo tempo, é preciso manter a honestidade do seu trabalho.
«Tem uma diferença conceitual entre você aparecer na televisão e tocar no rádio e você ter a sua própria forma de trabalhar.
Quando você 'colhe fazer música você tem que pensar bem o que quer com aquilo», afirma Werneck.
O Esquadrão Atari prega a utilização de formatos livres de áudio (como o OGG) para facilitar a utilização de suas músicas por outros artistas.
A cartilha da banda é contra qualquer separação entre artista e público, por isso mesmo os seus discos são acompanhados de instruções do tipo «se você gostou, veja como fazer, você também pode».
Seria algo como:
É preciso romper com as tradições da indústria musical, instruindo o ouvinte / telespectador a forjar suas próprias armas para combater o Sistema.
Isso em teoria, porque, de acordo com Daniel Werneck, a realidade é um pouco diferente.
Para ele, o público (no sentido geral) tem sido cada vez menos capaz de discutir a arte por falta de referências.
«Como ninguém tem discernimento, é cada vez mais fácil você colocar um amador trabalhando como artista.
Se as pessoas têm menos critérios, é cada vez mais fácil fazer sucesso.
O caminho atual é que se aumente a diferença entre as pessoas que querem se informar e aquelas que não se importam com nada», explica.
Como formar um público cada vez mais informado e interessado então?
As ferramentas 'tão aí, mas elas não significam automaticamente uma mudança de comportamento por parte de quem pode utilizá-las.
Agora você 'colhe se é otimista ou não em relação ao rumo que pode ser tomado.
Em 'se bojo pode ser incluída a questão da inclusão digital.
É preciso pensá-la juntamente com uma melhoria da educação de forma ampla.
O computador não resolve nada sozinho, mesmo que barato.
Número de frases: 44
Temos aqui um desafio para os candidatos a detetives particulares 'pecializados em livros:
localizar a obra «Nova luz sobre o passado -- A humanidade primitiva e os povos pelásgicos», de A. Sergipe, cuja única menção no Google remete a uma página que, curiosamente, não a menciona.
Parece que foi publicada em 1907 e que, sendo projetada para vários volumes, teve apenas o primeiro, de quase setecentas páginas, oferecido ao público.
Embora muito mal recebida por a Igreja e a intelligentsia da época, mereceu no entanto resenha e comentário por ninguém menos que o nosso Farias Brito, que lhe reservou várias páginas no Capítulo III de «O mundo interior -- Ensaio sobre os dados gerais da filosofia do 'pírito».
Mas a grande verdade é que nem Farias Brito 'tá livre do buraco negro editorial entre nós, uma vez que 'se belíssimo item de nossa 'tante filosófica veio a lume em 1914, teve uma segunda edição em 1951 por o finado Instituto Nacional do Livro (a que eu devorava no final dos anos sessenta) e ganhou, há pouco menos de três anos, uma terceira edição em Portugal, não aqui.
Por sinal, oitenta e três pratas, no barato.
Um 'quecido falando de outro não é nada animador.
Agora meto um pouco a minha colher, e vamos ver se a gente arranja por aí um faqueiro.
Vae victis!
Número de frases: 9
Dunga faz graças e rimas dentro do ônibus para driblar a vida difícil
Em o primeiro ponto, eles invadem o nosso ônibus, adentram rindo por a porta da frente, têm pandeiros na mão, fonemas na mente, e o jeito nordestino da pele curtida de sol.
E nós não dizemos nada.
Em o segundo ponto, fazem um gracejo com o motorista e o cobrador, cantam pilhérias em ritmo de cordel, ganham dos condutores do coletivo um sorriso de céu e ainda não dizemos nada.
Em o terceiro ponto, já vencem a nossa resistência, criam dichotes com nossa aparência, comparam o passageiro barbudo com o presidente da República, a moça de cabelo arrumado com a apresentadora de telejornal e ganham risos das próprias vítimas de seu poema informal.
Até que, no final da viagem, arrancam gargalhadas de nossa garganta, têm-nos como cúmplices de suas rimas tantas e, conhecendo nossa satisfação, ganham dinheiro miúdo em troca desse momento de júbilo e de gozação.
E já 'quecemos que o trânsito é uma droga, ainda mais num ônibus apertado de 'sa vida agitada.
E não precisamos dizer nada.
São irmãos e repentistas, trabalham em dupla, pongando de ônibus em ônibus, transportados por a necessidade de sobrevivência.
Têm o rosto redondo, a cabeça achatada como jerimum, o sotaque agudo como um poema de João Cabral de Melo Neto.
Ligados desde o nascimento por os laços consagüíneos, permanecem unidos numa batalha cotidiana entre a falta de uma remuneração formal e o 'tômago vazio de eles e dos que de eles dependem.
Genivaldo Antônio da Rocha, o Palito, tem 29 anos, mas na fisionomia já passou dos 40 fácil, fácil.
Luciano já completou 28, e é o único que aparenta ter apenas dois anos a mais do que o registrado na certidão de nascimento.
Só que 'sa história é a do caçula, Gerisvaldo, o Dunga, que parece já ter passado dos 35, embora 'teja ainda nos 25 anos.
Dunga desce de um transporte e vai em busca de outro até dar o dia por terminado.
E isso geralmente acontece antes das 15h.
É o que ele considera suficiente para arrancar a féria da família.
Pode trabalhar com Luciano, mas ultimamente tem feito a parceria melhor com Genivaldo.
Começaram no meio da manhã, num sobe-e-desce de tons e de carros que têm o fim da linha na Estação da Lapa, no Cabula, no Doron, em Mussurunga.
Não importa o destino, vale mais a viagem, que pode ser uma sinfonia lucrativa de freadas bruscas ou uma corrida insossa com passageiros de muitos risos e poucas cédulas.
Em a entrada no veículo, já fazem o lobby com o motorista e o cobrador, inventando algum repente com os dois profissionais.
Ganham a simpatia dos responsáveis por o ônibus e ao mesmo tempo criam uma expectativa para os clientes potenciais, que formam a platéia de viajantes.
Em a base do improviso, vão direcionando sua cantoria para cada um dos ocupantes do coletivo, que não pode nem 'tar superlotado, muito menos vazio.
Um jovem de cabeça raspada e redonda, dentes ligeiramente afastados, vira um clone do jogador Ronaldo.
Um senhor de físico avantajado e aparência de bonachão ganha o apelido de Faustão.
Até a senhora que entrou também por a frente e ocupa uma das primeiras cadeiras, reservadas a idosos, gestantes ou deficientes, fica parecendo com Hebe Camargo.
Mundo de privações
Em 'se mundo todo feito de rimas fáceis e instantâneas, a própria realidade do repentista não tem nada de uma prosa agradável.
A embolada na vida de Gerisvaldo não 'tá relacionada apenas à música que pratica, é também um resumo de seu currículo como pai.
A os 25 anos, é pai de cinco filhos, o mais velho (Jeanderson) com 6 anos, o mais jovem (Gabriel) com 30 dias de nascido.
Os meninos já começam a decorar as primeiras rimas, na tentativa de demonstrar a vocação prematura para a semente do cordelismo familiar.
«Cante se souber cantar / e se não canta, cala a boca / porque com cantiga pouca / você não pode me açoitar», repetem os pequenos barrigudinhos, num refrão ensaiado em vozes altivas de guris.
A o sair dos limites das 'tações de transbordo, Dunga adentra em seu mundo de privações absolutas, num barraco feito com madeirite e boa vontade.
É em 'te lar com as dimensões de uma sala e uma constituição mais frágil do que casa de bonecas que a vida é tocada para além dos repentes.
Morava de aluguel numa casa na Boca do Rio, perto da praia, mas pagando custosos R$ 150 por mês.
Com algumas poucas economias, comprou o terreno, um nome pomposo para um pedaço de pirambeira barrosa em Saramandaia, 'tatisticamente um dos bairros mais violentos de Salvador.
Com os irmãos, montou uma 'pécie de condomínio da carência coletiva.
O vizinho e fã das cantorias, de prenome Adriano, virou o engenheiro leigo, o mestre-de-obras caridoso que ajudou a colocar a alvenaria em posição vertical nas casas de Genivaldo e Luciano.
Faltou dinheiro para os blocos que Dunga gostaria de transformar na concretização do sonho íngreme na encosta de Saramandaia.
A vizinhança, reconhecidamente, não é das mais amistosas com os forasteiros.
Por isso, mesmo sendo recepcionado por os anfitriões de letra e melodia é difícil se afastar do carro para fazer entrevista.
«O pessoal aqui respeita a gente, mas pode ser que alguém não tenha visto que você chegou com mim, sussurra.
Então, enquanto Dunga fala, Luciano faz um discreto serviço de vigilância no veículo.
Nascido em Arapiraca, Dunga ainda preserva o forte sotaque alagoano.
O pai formava dupla com o tio, eram Patativa e Curió.
Os irmãos mais velhos, Luciano e Genivaldo, já somam mais de duas décadas ganhando a vida com versos de improviso e chistes de supetão.
Conheceram quase todo o Brasil na vida itinerante de cantadores sem destino.
«Paraná, Paraná / capital é Curitiba / João Pessoa é Paraíba / E Fortaleza é Ceará / Paraná, Paraná ..."
Dom da família Dunga tomou conta do pandeiro há bem menos tempo.
Estava em São Paulo, passando necessidades, quando se tocou que tinha nos genes a criatividade necessária e suficiente para se sustentar com ritmo e dignidade.
«Eu 'tava dormindo, quando percebi que precisava acordar para 'se dom de família.
Meu pai cantava, meu avô também.
Nasceu de semente», justifica.
Em a maior metrópole brasileira, aprendeu que poderia conseguir os trocados nas viagens de trem.
Quando veio para a Bahia, apenas adaptou ao transporte coletivo urbano.
Juntos, anunciam trabalho para casamentos, aniversários, quaisquer eventos de gozo ou de comoção.
«Até em velório, a gente canta e ainda leva dez pessoas pra chorar», brinca Dunga, sem perder o bom humor em nenhum momento.
«A aranha veve do que tecer».
São artistas capazes de improviso ou de composições pensadas como protestos satíricos.
Algumas de elas, como O poder da bunda, um gracejo anatômico com mais de seis minutos.
Eleva para os limites da criatividade calipígia os elogios a 'se monumento da redonda anatomia feminina.
«Comercial de bebida, roupa, cigarro e charuto / a mulher exibe a bunda no vídeo mais de um minuto / sem censura e sem demora, a bunda faz propaganda pra vender qualquer produto / nas companhias aéreas, 'se transporte excelente / só aceitam aeromoça bonita e inteligente / são exigidos diplomas, que falem três idiomas, e tenham bunda atraente».
Dunga não pára de sorrir, não se dá conta de que obstáculos são avistados quando se olha para o futuro, justamente porque só lhe interessa o presente, e isso ele tira de letra fazendo versos instantâneos.
Tem uma facilidade incomum para recitar, mas não entende como alguém pode 'crever e conversar ao mesmo tempo.
«Você 'creve o quê?
O que 'tá ouvindo ou o que 'tá 'crevendo de sua cabeça?»,
questiona. E para demonstrar uma certa gratidão, não livra nem o repórter de um pouco de sua inventividade com métrica própria.
«É um doutor de respeito / sei que é muito 'tudado / com tanto pêlo no peito / que só mesmo Tony Ramos / É peludo desse jeito» / Tem que carregar os cinco filhos e a mulher com o sustento de 'sas rimas improvisadas.
De repente, eles, os três irmãos cantadores do ônibus, emocionam com uma trajetória simples, rimada e doída.
Número de frases: 69
E já não temos nem palavras pra traduzir tanta história de vida.
Grandes cantoras gaúchas (parte 1)
por Rogério Ratner
Talvez seja adequado 'clarecer, de pronto, que a exemplo do que 'tamos fazendo na série «Grandes Guitarristas Gaúchos», não temos, evidentemente, nem a intenção, e muito menos a pretensão, de 'tabelecer uma 'cala de valores entre os trabalhos das inúmeras cantoras gaúchas de todos os tempos.
De fato, em nosso entendimento, é totalmente inviável, inútil e até reprovável tentar 'tabelecer uma 'cala de valores no campo musical, pois qualquer apreciação 'tética em 'tes termos tem que ser compreendida e relativizada em atinência com o background do autor da análise, e 'pecialmente do seu gosto pessoal e preferências.
Em música, como em muitos outros campos, entendemos que não há o absoluto, o melhor, o incontroverso.
E tampouco nos julgamos em condições de exercer o papel de crítico, que, efetivamente, não nos cabe, e tampouco desejamos desempenhar.
Feitos 'tes 'clarecimentos preliminares, passaremos ao nosso efetivo desiderato, qual seja, o de destacar o trabalho de algumas cantoras gaúchas que apreciamos -- o que absolutamente não significa que não apreciemos outros trabalhos, ou que julguemos que não mereçam igual destaque.
De fato, a intenção é continuarmos elaborando outros «capítulos» em série, tal como já 'tamos fazendo em relação aos «grandes guitarristas gaúchos».
É fato que o Rio Grande do Sul sempre foi terreno fértil para o surgimento de cantoras de grande nível.
Algumas conseguiram maior expressão nacional, como é o caso das grandes Elis Regina e Adriana Calcanhotto.
Outras conseguiram alguma projeção nacional em pelo menos algum período de tempo, e outras, ainda, 'tão buscando o seu 'paço, tanto em termos nacionais, como regionais.
Independentemente de qualquer critério de 'ta ordem, vamos tentar apontar alguns nomes que se destacam em face da grande qualidade de seus trabalhos (sem embargo, como já referimos, da existência de outros grandes nomes a merecer total consideração).
Antes destes destaques com perfis mais pormenorizados, talvez seja interessante lançarmos uma mirada, ainda que en passant, sobre um pouco da trajetória do canto popular feminino em 'te Estado.
Em a chamada «época dourada do rádio», ou seja, no período que engloba, de forma aproximada, o lapso entre os anos 30 e 60 do século 20, o caminho natural para que as cantoras gaúchas mostrassem seus dotes vocais eram os programas de auditório, veiculados por as rádios Farroupilha, Gaúcha e Difusora.
Mais tarde, a rádio Itaí também teve o seu destaque.
Foi assim que ocorreu com várias gerações de cantoras, das quais podemos destacar Horacina Corrêa, Lourdes Rodrigues (a Grande Dama da Canção, como já foi alcunhada), Maria Helena Andrade (eleita, certa feita, a Rainha do rádio gaúcho), Naura Elisa, Ziláh Machado, Érika Norimar, Glória Bernardete, Rosa Maria, isto somente para apontar alguns dos principais nomes.
De fato, tais cantoras surgiram em programas de auditório, que faziam grande sucesso entre o público ouvinte gaúcho, dos quais podemos citar alguns:
A Hora do Bicho, O Clube do Guri (no qual surgiu Elis), Programa Maurício Sobrinho (do fundador da RBS, Maurício Sirotsky), Programa Salimen Jr., de entre outros.
Com o advento da televisão, que surgiu aqui em 1959, com a inauguração da TV Piratini (dos Diários Associados de Assis Chateubriand), alguns programas de rádio foram adaptados para o vídeo, e outros novos foram criados.
A TV Gaúcha, inaugurada em 1962, também abriu importantes 'paços para calouras e veteranas, tendo feito grande sucesso os programas «GR Show (de Glênio Reis», Show do Gordo» (de Ivan Castro) e «Puxa, é a Gaúcha» (de Hélio Wolfrid), entre outros.
E também surgiram grupos vocais femininos de grande qualidade (isso sem contar os grupos mistos, em que cantoras atuavam, tal como o Conjunto Farroupilha), como o Mini Trio e o Quarteto em Fá, etc., inspirados na bossa nova, e outros, tais como As Brasas, no nicho da jovem guarda.
Os Festivais de Música, promovidos por os canais locais, ou por entidades 'tudantis, também foram importantes vitrines, tendo surgido, por exemplo, nomes como os de Nana Chaves (Ellwanger), Laís Marques (a grande compositora do tropicalismo gaúcho), Nara Lisboa, de entre outras.
Mas, mesmo com o desaparecimento destes 'paços e o fim da chamada «época de ouro» do rádio e da televisão local, nos anos 70 -- o que não significa absolutamente que novos 'paços midiáticos importantíssimos tenham deixado de surgir a partir de então, apareceram diversas grandes cantoras no universo gaúcho.
Gracinha Magliani (a principal cantora tropicalista gaúcha surgida na virada dos 60 para os 70), Élbia Solange (ex-integrante do Grupo Folk), Loma, Lúcia Helena, Denise Lahude, Eliane Strazas, Liane Klein, Yoli, de entre muitas outras, deram continuidade à trajetória de extrema qualidade que marcou e marca a produção vocal feminina gaúcha no campo da MPB.
Em os anos 80, vimos surgir, por exemplo, Glória Oliveira, Annie Perec (que, em verdade, começou nos anos 60, e deu um grande «tempo», até ressurgir com força no bar Ocidente, então há pouco inaugurado), Elaine Geissler, Ângela Jobim, Maria Lúcia Sampaio, Muni, Suzana Maris, Flora Almeida, Denise Tonon, Nanci Araújo, Laura Finocchiaro, Luciana Costa, Maria Rita Stumpf, Adriana Calcanhotto, só para ficar em alguns nomes.
Em os 90, Silvana Cruz, Simone Rasslam, Marisa Rotenberg, Ismália Ibias, Cíntia Rosa, Alessandra Verney, Luciana Pestano, Lory F. ganharam justificado destaque, de entre outros grandes nomes.
Em os anos 2000, a força feminina fez-se sentir também com muita propriedade na área do pop e do rock, com Simone Carvalho, Cléo de Páris, Lica, Vanessa (da dupla com Claus), Luka (do superhit «Tô nem aí "), por exemplo, e na» praia " da MPB, com Adriana Deffenti, Isabela Fogaça, Vanessa Longoni, além de grupos vocais como o Maria Vai com as outras.
Dito isto, passaremos aos perfis mais pormenorizados a que antes nos referimos, destacando algumas cantoras que, em nosso sentir, representam muito bem a qualidade que permeia, como já dissemos, a produção local em termos de canto feminino:
-- MÔNICA TOMASI:
cantora que conta com uma trajetória das mais ricas e plurais.
Mônica destaca-se não apenas como uma grande intérprete, daquelas que intervém precisamente, às vezes de forma econômica, mas sempre na medida certa exigida por a canção.
Também merece ser destacado o seu talento como compositora, seja quando faz as letras, ou quando musica letras ou poemas de seus parceiros / parceiras, sempre com melodias inspiradas;
a sua grande capacidade de envolvimento na produção musical como um todo, sempre antenada no que há de novidade no terreno dos arranjos, e engajada em dar uma «cara própria», um traço singular às suas gravações;
o seu bom domínio dos instrumentos de corda;
e além disso tudo, o grande carisma e simpatia dentro e fora do palco.
Começou a apresentar-se nos anos 80, e em 1990 lançou o seu primeiro disco, o LP «Eu Fórica», contendo composições suas, algumas em parceria com Adriana Mülller (que lançou seu primeiro CD, Origâmi, nos anos 2000, com o apoio do Fumproarte).
Depois de 'ta promissora 'tréia em disco, e consolidada sua trajetória local, Mônica decidiu (como tantas cantoras daqui, que, num certo momento, buscam a expansão dos horizontes) mudar-se para São Paulo em 1996.
Em a capital paulista gravou o festejado CD «1», por o super prestigiado selo paulista Dabliú, que se caracteriza por a grande qualidade de seu cast.
Em a época em que o meu clipe (dirigido por Jaime Lerner e produzido por Cícero Aragon) rodou no Programa Território Nacional da MTV, assisti algumas vezes um clipe bem legal de Mônica que passava no mesmo 'paço.
Posteriormente, Mônica voltou a radicar-se no Sul, sem deixar, contudo, de atuar no centro do país, e até no exterior, sempre 'tabelecendo parcerias instigantes, com nomes do calibre de Celso Fonseca, Fernanda Young e Paulinho Moska.
Com produção do líder da banda Cidadão Quem, Duka Leindecker, Mônica lançou o elogiado «CD Idéias Contemporâneas sobre o Amor».
Em 'te CD, além das canções «Menina Chata»,» Breve Estação», Onde 'tá Você «e» Trilhos», damos 'pecial destaque à gravação com arranjo «rocker» de «Não é céu», de Vitor Ramil.
Em 2004, Mônica participou do Projeto Pixinguinha, percorrendo várias capitais brasileiras.
Seu CD mais recente é o belo «Quando os versos me visitam», que conta com parcerias com as 'critoras Claudia de Bem, Manoela Sawitzski, Simara Anchietta, e, ainda, com Idésio de Oliveira, Érika Nande e Kátia Dotto, além de gravar canções de Gilvan Chaves e de Érika Nande.
Realmente, Mônica faz a ponte entre a música pop e a mpb com grande competência.
Recentemente, fez alguns shows bem interessantes em parceria com o compositor gaúcho Nelson Coelho de Castro, em Porto Alegre.
Para conhecer mais do trabalho de Mônica, é legal visitar o seu site, que 'tá bem bacana:
http://www.monicatomasi.com.br -- KARINE Cunha:
Karine Cunha vem ganhando grande destaque, inclusive tendo sido premiada no Açorianos (a premiação local para as artes, promovida por a Prefeitura de Porto Alegre), não apenas por a beleza de seu timbre de voz (que se revela em interpretações ora vigorosas, ora delicadas), por o seu sólido conhecimento musical, mas também por apresentar composições de sua autoria de grande originalidade e qualidade.
Além disso, Karine é muito «guerreira», e luta como ninguém para buscar o seu merecido 'paço, ladeada por o seu companheiro (e também super talentoso músico) Marcus Bonilla, grande ás do violão.
Seu trabalho começou a destacar-se 'pecialmente nos anos 2.000, tendo trabalhado junto a, entre outros, Alexandre Vieira, Orquestra Rudrashka de Mantras, e o grupo vocal Maria Vai com as Outras.
Karine já lançou dois CDs solo, ambos muito elogiados:
«Fluida», que ganhou o prêmio Açorianos de 2005, e, mais recentemente, o surpreendente e complexo «Epahei».
O disco mais recente chama a atenção não apenas por a qualidade, mas por o que Karine nomeou como sendo uma aproximação sua com a 'tética do afro-samba, trazendo à tona a influência que afirma sofrer de Clara Nunes.
Contudo, em minha modesta opinião, penso que o disco não pode absolutamente ser reduzido a tal universo, pois contém diversos caminhos, vertentes e possibilidades que foram muito bem explorados, e que não se resumem ao que a sua apresentação genérica poderia indicar.
Aliás, embora não se possa dizer que haja influência direta, penso que o trabalho de Karine guarda algum parentesco -- ainda que não-consciente, por a rara beleza e força telúrica, com o trabalho da grande Diana Pequeno (a qual foi acompanhada, num período, por o grupo instrumental gaúcho Cheiro de Vida e por o maestro Zé Gomes, pai de André Gomes, o virtuose baixista do grupo) e com o trabalho de Olívia Byington ('pecialmente em sua fase do disco «Corra o risco», gravado com o acompanhamento da fantástica A Barca do Sol: de Olívia também sou fã de carteirinha), entre outras simetrias que poderiam ser encontradas.
Enfim, é MPB de alta qualidade, garantida e confirmada.
Algumas canções são de autoria só de Karine (letra e música), uma tem letra do grande nome da poesia gaúcha Mário Quintana, outra, do super premiado letrista Sérgio Napp (que também é músico, engenheiro, 'critor e produtor cultural), e, ainda, há uma com Alan Mendonça.
Os arranjos, sempre acústicos, são muito belos e sensíveis, e desenham, em conjunto com as composições, um perfil bem particular e de muito bom gosto.
É um trabalho que merece ser conhecido por o Brasil.
O site de Karine é:
http://www.karinecunha.com.br -- Adriana MARQUES:
Adriana Marques hoje é merecidamente bastante conhecida do público gaúcho -- e ela vem também abrindo mais portas em nível nacional, por conta do 'petáculo «Rádio Esmeralda», em que, valendo-se de recursos cênicos, apresenta uma variada constelação de canções de universos musicais diversos, ao lado da também super talentosa cantora / instrumentista Simone Rasslam.
Contudo, Adriana «ralou» muito pra chegar em 'te patamar de consagração.
Começou sua trajetória em São Leopoldo, onde integrou uma banda da qual fazia parte também o violonista Geraldo Fischer.
Participou do lendário grupo «Bando Barato pra Cachorro», liderado por o super criativo musical (e outras coisas mais) Arthur de Faria, ao lado de grandes instrumentistas, no qual dividia os vocais com Marcelo Delacroix, resgatando grandes clássicos da MPB da» época de ouro», e inclusive do grande compositor gaúcho Túlio Piva (a quem tive a honra de conhecer pessoalmente, a convite do Rodrigo, seu neto e perpetuador de sua imagem e trabalho, meu grande amigo e contemporâneo na Faculdade de Direito da UFRGS, que atualmente mora em Florianópolis, e é, também, um excelente compositor -- aliás, Adriana fez uma participação 'pecial no primeiro CD do Rodrigo).
Além disso, Adriana integrou os grupos Serenata de Bambas e Cuidado que Mancha.
Lá por 93 ou 94, a convite do grande saxofonista Luisinho Santos e da excelente pianista Bethy Krieger, assisti a um belíssimo show solo de Adriana no Teatro Renascença, no qual apresentou um variado repertório com grandes interpretações, inclusive do clássico tango «El dia em que me quieras».
Portanto, desde há muito tempo, e bem antes do 'petáculo «Rádio Esmeralda», dirigido por o talentosíssimo e impagável Hique Gomes, do Tangos e Tragédias, Adriana já» batia um bolão».
Tem dois CDs lançados, um com base no repertório do Bando Barato pra Cachorro, mas que saiu como disco solo, e o da própria Rádio Esmeralda, que também é muito legal.
Vale muito a visita ao site http://www.radioesmeralda.com.br para conhecer o trabalho de Adriana, e também da notável Simone Rasslam.
-- Lúcia Severo:
Lúcia Severo, que nasceu no Rio de Janeiro, é um dos grandes nomes do cenário musical gaúcho no nicho pop.
Ela pode ser apontada como mais um presente carioca para a música gaúcha (ao lado de Rubens Santos, Pedrinho Figueiredo e Leonardo Bonfim).
Lúcia atua de forma muito diversificada, apresentando-se em diversas casas noturnas e gravando bastante jingle.
Atualmente, fiquei sabendo que 'tá integrando a afamada Abbey Road Band, da consagrada casa de shows de Júlio Fürst e João Antônio.
Seu primeiro show foi no saudoso Porto de Elis, em 1991.
Lúcia já lançou dois CDs, o primeiro, «Ficou no ar», divulgado na mesma época em que lancei meu primeiro disco, em 1997.
E 'te disco ficou no ar na época de seu lançamento e continua ainda flutuando, digamos assim, pois como bem salienta o guitarrista e arranjador Ciro Moreau, que também toca com Lúcia, é um dos melhores discos pop já feitos no RS.
Pudera, contou com a produção sempre caprichada do Cau Netto, mago dos teclados e praticamente «quinto mosqueteiro» dos Papas da Língua.
Lúcia gravou naquele CD canções suas, uma de elas em parceria com o grande cantor Márcio Celi, bem como composições de Serginho Moah (vocalista dos Papas) e Fernando Corona (outro baita tecladista e inspirado compositor, atualmente radicado no Rio, ao que sei).
Em 2004, Lúcia lançou «Por toda Cidade», outro disco muito bacana, que contou novamente com a produção de Cau Netto.
Além de canções suas, gravou uma música do Jah Mai (ainda do tempo da Banda Dedé e os Ajudantes), outra de Daniela Mercury, e a clássica «A Seta e o Alvo», de Paulinho Moska, que ficou bem legal também, e que tenho 'cutado nas rádios.
Como compositora, um dos aspectos do trabalho de Lúcia que me comove é a leve, mas pungente, melancolia de algumas de suas canções, o que lhes confere rara beleza e delicadeza, sem que percam a levada pop.
E sua voz, suave e de bonito timbre, confere um colorido muito particular para suas músicas e interpretações.
Sua temática geralmente gira em torno dos caminhos e descaminhos do amor nos tempos atuais, sobre os quais discorre com rara argúcia.
Indico o site de Lúcia, para quem quiser conhecer mais de seu excelente trabalho:
http://www.luciasevero.com.br -- ANA KRÜGER:
O trabalho de Ana Krüger vem obtendo grande aceitação ultimamente por conta principalmente do grande sucesso do grupo Delicatessen, que, composto por «feras» do cenário local, todos já com uma expressiva 'trada (o pelotense Carlos Badia, um exímio violonista que surgiu em Porto Alegre nos anos 80, acompanhando a cantora Míria Fernandes, e depois tocou com Nei Lisboa;
o baterista Mano Gomes, que, entre outros, também já acompanhou o grande Nei Lisboa;
o baixista Nico Bueno, que tocou com mim na época em que eu cantava standards de jazz, e que atua também junto ao Nenhum de Nós;
o pianista New, que gravou em meu primeiro CD, e é um dos melhores instrumentistas de Porto Alegre), recria clássicos do jazz em ritmo de bossa nova, além de canções próprias de autoria de Badia e do produtor Beto Callage.
Mas antes da repercussão deste trabalho, eu já vinha acompanhando as performances de Ana junto ao grupo formado por os talentosos compositores Fausto Prado e Caetano Silveira (o Cacau, poeta de mão cheia, letrista super premiado e responsável por os Saraus do Solar dos Câmara, e, ainda, irmão da minha querida colega Ana Maria), em que divide os vocais com outros grandes nomes, Alex Alano (que lançou um LP ainda nos anos 80, e depois integrou a banda Venerável Lama, de Fausto) e Andréa Cavalheiro (ex-Hard Working Band), que também é uma intérprete arrasadora.
Atualmente, o trabalho chama-se «Fausto Prado e a Banda Casa de Asas», e já foram lançados dois CDs bem bacanas, com o apoio do Fumproarte.
Aliás, interpretando músicas destes e de outros bons compositores, Ana já contava com uma bela 'trada trilhada por os festivais realizados no interior do Estado, 'pecialmente na Moenda da Canção, que é promovida em Santo Antônio da Patrulha.
Além disso, Ana faz parte da Abbey Road Band, a que já aludimos, e também participa dos 'petáculos de Isabela Fogaça.
E, ainda, participa da gravação de muitos jingles.
Ana impressiona não apenas por a beleza de sua voz e de sua presença em cena, mas também por sua enorme versatilidade:
seus amplos recursos vocais permitem-lhe transistar sempre bem por vários 'tilos de interpretação, seja o mais suave e cool, como ocorre com o Delicatessen, ou o mais vigoroso, como «exige» a 'tética mais usual dos festivais nativistas.
De fato, ela se sai bem interpretando músicas dos mais variados ritmos e nuances, evocando, no aspecto, a amplitude de horizontes de Elis Regina.
Visite http://www.delicatessen.com.br para conhecer mais do trabalho de Ana.
Número de frases: 102
Quando comecei a 'crever sobre literatura blumenauense no blog Falações e depois aqui no Overmundo, tive a felicidade de encontrar interlocutores com quem pudesse conversar a fim de compreender melhor a literatura localizada em Blumenau.
Expondo a história de 'sa literatura em breve texto, para de ali tentar compreender a dicotomia temática proposta por José Endoença Martins, buscando ver de cima a produção poética de 'sa cidade ou ousando interpretar o trabalho do poeta marginal Douglas Zunino, percebia que em algum momento deveria falar sobre Maicon Tenfen, o 'critor.
A hora é 'sa.
Maicon Tenfen é natural de Ituporanga, interior agrícola de Santa Catarina.
Em 1996, quando ainda cursava Letras na Universidade Regional de Blumenau, publicou sua primeira novela.
Entre a Brisa e a Madrugada, até então, era somente a publicação de um jovem aspirante a 'critor.
A seu respeito, 'creveu Urda " Alice Klueger:
«Em 1996 chegou-me às mãos o livro Entre a Brisa e a Madrugada, de um autor do qual nunca ouvira falar.
Em a primeira folga que tive, dei uma «olhadinha» no livro, e quedei-me pasma desde as primeiras páginas:
ali 'tava um grande livro, extremamente bem 'crito, que me levou de roldão na sua leitura, e que só consegui largar depois de lê-lo até a última linha."
Tenfen publicou ainda as novelas Um Cadáver na Banheira (1997) e O Segredo da Montanha (1998).
Em 1999, Tenfen publica seu primeiro livro de contos, O Impostor e, numa ascensão literária, publica em 2000 o romance O Filho do Feliciano, considerado por o autor sua obra de maior fôlego.
Em a mesma linha de O Impostor, Tenfen publica, em 2002, Mistérios, Mentiras e Trovões, que então pode ser lido como novela de suspense ou livro de contos.
O último livro publicado é Mania de Grandeza e Outras Crônicas, publicado em 2002 e que reúne parte das colaborações deste autor para o Jornal Diário Catarinense, de Florianópolis.
Atualmente, além de lecionar na FURB, 'creve diariamente para o Jornal de Santa Catarina, de Blumenau.
De os sete livros publicados, um de eles pode ser chamado de 'pecial.
Um Cadáver na Banheira faz parte de uma lista muito pequena de livros publicados em Blumenau e que tiveram sucessivas reedições.
Pois que Um Cadáver chega agora à 3ª. Edição -- com revisão definitiva feita por o autor.
A novela, além de manter o leitor tenso até a última linha, é muito mais do que um livro de suspense.
Ou melhor, é um bom livro de suspense e isso quer dizer muito.
A verdade é que a ficção de enredo (aquela que se preocupa em contar bem uma história) é muitas vezes mal interpretada por os intelectuais e por a academia.
Esquecem-se, primeiro, que é a ficção de enredo a principal responsável por captar leitores para o mundo da literatura.
Depois, por mero preconceito (muitas vezes, a academia taxa de malditos dinheiristas os autores de ficção que não 'tão lá muito preocupados com as dores da existência ou o sentido da vida pós-moderna), muitos livros de ótima qualidade não conseguem alcançar o devido 'paço entre as «elites intelectuais» e a academia, sendo taxados, burramente, de subliteratura.
Acontece que quem não deu atenção à 'crita de Maicon Tenfen, perdeu o surgimento de um dos maiores 'critores da atualidade oriundos de Santa Catarina.
Em o início, Tenfen foi classificado como um autor de literatura infanto-juvenil.
Isso rendeu ao 'critor dezenas e dezenas de visitas a 'colas, onde seus livros eram lidos e discutidos na presença do autor.
Depois, muitas de 'tas crianças leitoras cresceram e continuaram acompanhando a literatura deste blumenauense que cada vez mais passou a figurar como nome importante na literatura do 'tado catarinense.
Além do relançamento de Um Cadáver na Banheira comemorar os primeiros dez anos da primeira edição, 'te livro 'tá aqui para trazer à tona os caminhos percorridos por seu autor nos últimos anos.
Com um livro no prelo para ser lançado em 2008 -- a que tivemos acesso -- percebe-se o quanto a 'crita de Tenfen cresceu desde Entre a Brisa e a Madrugada.
No entanto, Um Cadáver não é daqueles livros que os autores 'crevem e que renegam depois de um tempo.
Há ali muito que ser lido ainda hoje.
Pré-LANÇAMENTO
Em uma atitude até então inédita, Maicon Tenfen reuniu, no dia 26 de setembro, representantes da imprensa local e pessoas interessadas em discutir literatura.
Em um bate-papo de quase duas horas, o autor reapresentou Um Cadáver e explicou o porquê de um pré-lançamento:
«Acontece que quando o livro é lançado, as pessoas vão ao lançamento, um ou outro amigo até compra o livro e depois não se fala mais em ele."
De fato, o que levou o autor a reunir 'tas pessoas foi a vontade de quem 'creve de ver sua literatura sendo comentada, discutida, criticada.
Em a reunião, Maicon explicou que considera Um Cadáver um livro que não foi bem lido.
Questionado a respeito disso, o autor explica que, quando começou a publicar, por ser jovem e 'crever em prosa, muitas pessoas o liam por simpatia.
«O menino tá publicando, vamos ajudar comprando um exemplar».
Depois, o livro caiu nas mãos de professores e alunos de 'colas catarinenses, mas nunca foi efetivamente criticado enquanto obra literária, enquanto produto literário.
Em parte, por Santa Catarina não ter mesmo tradição de 'critores e críticos desses 'critores.
Depois, por se tratarem de histórias de suspense que, como dito acima, não recebem lá muita atenção do público leitor acadêmico.
Acontece que o jovem 'critor de novelas de suspense cresceu, assim como cresceu sua literatura.
Doutor em Teoria Literária por a Universidade Federal de Santa Catarina, o professor Maicon Tenfen pode analisar sua obra com olhos críticos de quem entende melhor o que faz.
Se por um lado o conhecimento acadêmico pode atrapalhar a produção instintiva de um 'critor, por outro pode dar à obra leituras que vão além do mero significado das palavras.
Pois foi de 'sa forma que Maicon Tenfen explicou que muito do que 'tá 'crito em Um Cadáver era, à época de sua publicação, somente intuição, um «querer dizer» alguma coisa.
Quem lê 'te livro hoje não é mais o jovem 'critor, mas um doutor em literatura e professor universitário que afirma ter conseguido passar a mensagem que pretendia.
Tenfen, além de um grande 'critor, tem colaborado de forma significativa para a literatura produzida em Santa Catarina.
Além de fazer parte de um grupo pequeno de «'critores que 'crevem bem e conseguem publicar suas obras», o 'critor blumenauense mostra que se pode profissionalizar a publicação de livros.
Afinal, que rumo pode tomar uma produção literária que se é 'crita não é publicada, se é publicada não é distribuída?
Pois que além do relançamento de Um Cadáver na Banheira marcado para o dia 23 de outubro na abertura do II Encontro de Estudos e Pesquisa em Língua e Literatura, Maicon Tenfen adianta terá o livro distribuído nas principais livrarias de Santa Catarina e negocia a distribuição em outros nove 'tados:
Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Janeiro, Gerais, Tocantins, Bahia, Ceará e Amazonas.
O livro também 'tará à venda nos sites Submarino e Cultura.
Pois como o próprio autor diz:
«A meu ver, não adianta mais fazer livros por o simples prazer de termos um nome 'tampado na capa, é preciso distribui-los, eis a razão da nova edição." --
O Livro em Si
Literatura de enredo é aquela em que o que realmente interessa são as idas e vindas de personagens, a forma como a história nos faz segui-la atrás de um gran finale, em busca de um desfecho interessante.
Poderíamos assimilar como sendo parecido com cinema americano, aquele filme de suspense que assistimos curiosos, 'perando para saber que fim terá o assassino, o rapaz que foge do monstro, a mocinha que matou o namorado.
Em se tratando de literatura, a análise se torna um pouco mais complexa, mesmo porque falamos de 'crita e leitura, onde o leitor faz parte da história, é o seu personagem oculto.
Um Cadáver na Banheira tem muitas pretensões.
Ao mesmo tempo em que narra a história por vezes trágica, por vezes cômica do aspirante a 'critor Jorge Gustavo de Andrade, também critica o mercado editorial dos interiores do país.
De a mesma forma, assim como procura divertir e capturar o leitor para dentro da história (a história é principalmente ambientada em Blumenau, o que familiariza facilmente o leitor daqui), levanta uma série de questões sobre a própria literatura contemporânea.
Parece que a academia intelectualizada não deu a devida atenção, não é?
Mas sempre é tempo de recuperar a importância de uma obra.
Um livro de leitura dinâmica e instigante como 'te precisa de pelo menos duas leituras.
A primeira, aquela que fazemos baseados em verdadeira ansiedade, almejando encontrar o desfecho o quanto antes, pode fazer com que passem despercebidos momentos importantes, de beleza literária, de conteúdo 'condido entre um parágrafo e outro, uma linha e outra.
Em a verdade, pode se ter certeza de que várias leituras de Um Cadáver na Banheira voltarão a ser feitas.
E que 'tas leituras digam muito mais sobre 'te livro e sobre 'te autor.
Número de frases: 68
O mês de junho começou de fato em Aracaju, capital sergipana, na última sexta-feira 16.
A cidade 'tá em clima não apenas de Copa do Mundo, mas também celebrando o forró e toda a tradição nordestina com muitas bandeirolas verdes e amarelas.
Até o dia 29, acontece o Forró Caju, um dos maiores eventos juninos do nordeste, com cerca de 140 atrações locais e nacionais reunidas durante 14 noites na área central dos mercados Albano Franco e Thales Ferraz.
O evento é gratuito e já se tornou parte do calendário junino brasileiro.
Organizada por a Prefeitura de Aracaju, a festa atrai um público nada modesto de 1 milhão de pessoas em cada edição.
O Forró Caju funciona como uma 'pécie de festival, e oferece várias opções de mergulho à cultura nordestina.
Em o palco Luiz Gonzaga, as atrações principais concentram o maior público.
Em outro palco menor, os artistas sergipanos têm o seu 'paço garantido e o prestígio de uma platéia também considerável.
Além disso, um arraial exibe apresentações de quadrilhas juninas, intervenções teatrais e trios pé-de-serra.
Em a primeira noite do Forró Caju (sexta-feira dia 16), a grande atração foi o forrozeiro Flávio José, que para mais de 50 mil pessoas, cantou seus maiores sucessos.
O ponto alto da sua apresentação foi a homenagem ao grande Luiz Gonzaga, uma tradição todos os anos.
«Não deixo de cantar clássicos da música nordestina, meu show é baseado em 'sa autenticidade», comentou.
Antes de ele, Genival Lacerda fez mais uma apresentação histórica com seus sucessos de nomes nada convencionais:
Severina Xique-Xique, Radinho de Pilha, Mate o Veio Mate, Rock do Jegue, entre outros.
Quem é nordestino com certeza conhece.
O restante do final de semana no Forró Caju ficou por conta de cantores tradicionais como Adelmário Coelho, Alcymar Monteiro, Marinês e a sergipana Amorosa, além das bandas de sucessos massivos como Falamansa.
«O que acho legal aqui é que tem 'paço para todo mundo, o povo participa, artistas locais fazem parte da festa também.
Aqui é bem eclético, tem pé-de-serra e tem forró eletrônico», falou Tato, vocalista da banda.
Mais artistas 'tarão na capital sergipana até o final do mês:
Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Forroçacana, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Fagner, Trio Nordestino, e muitos outros.
Hoje (segunda-feira dia 19), o forró vai se misturar à percussão e a outros elementos do folclore regional para atrair um público alternativo.
A noite é da banda sergipana Naurêa, que se prepara para uma turnê na Alemanha em festivais paralelos à Copa, e do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado.
A festa apenas começou e quem quiser aparecer em Aracaju ainda vai ter muito pra curtir.
Confira aqui a programação completa aqui.
* O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A proposta é construir um panorama do São João no país.
Mapeando a variação dos 'tilos musicais, comidas, danças, brincadeiras etc..
Vendo como a tradição sobrevive fora do nordeste, sua evolução no próprio berço, nos grandes festivais onde bandas modernas convivem com as tradicionais.
Número de frases: 28
Para ler mais relatos, busque por a tag Especial São João 2006 no sistema de busca do Overmundo.
A oportunidade de trocar informações e produzir conhecimento em dança é o que acaba seduzindo muita gente, seja para fazer uma pós graduação (existem formações universitárias 'palhadas por o país) ou montar uma obra artística, e que 'tas possam ecoar suas inquietações ou questionamentos.
A difusão da dança necessita cada vez mais ser incentivada, o que significa procurar outras formas do artista da dança se colocar diante da sua próprio produção.
Uma questão.
A proposta é refletir como as formas usuais de circulação podem ser enriquecidas a partir de uma visão mais «left».
Toma-se como dado que a dança é uma forma de conhecimento, o que implica em afirmar que é construída ao longo de tempo, com pesquisa e investigação teórico-prática e que muito daquilo que assistimos em dança, por mais diverso que seja, passa por um compromisso 'tético, diria também ético, de se propagar como obra artística.
Seja a dança popular, ou aulas de curso livre que pretendem formar o caráter artístico de cidadãos, não necessariamente futuros artistas, ou ainda, os próprios dançarinos e coreógrafos, fazedores de um pensamento com o corpo, todos se comprometem a nutrir nosso imaginário sobre movimento, corpo, imagens, mídias e todo tipo de informação que atravessa a cena da dança.
A demanda do chamado mercado é vacilante, ou seja, pode-se dizer que inexiste em alguns momentos e é latente em outros.
Tem várias faces, podendo ser a companhia de grande porte que abriga 'truturas oficiais pagas por o Estado ou por Lei de Incentivo -- repare dinheiro público.
Ou, podemos falar em grupos experimentais que buscam formas de difundir idéias de vanguarda -- repare, trata-se de um intuito factível de tornar suas idéias inovadoras em algo público.
Difusão se faz no meio público.
Portanto, o posicionamento do artista, inclusive da dança, é que seu trabalho possa circular, possa reverberar e até mesmo ser questionado.
Para isso, precisa ser visto.
Não é o que acontece.
O público de dança é bastante restrito.
Se falarmos de companhias de grande porte, muitos conhecem «Grupo Corpo»,» Balé Folclórico da Bahia», " Cia..
Teatro Municipal do Rio de Janeiro «ou mesmo de Caxias do Sul,» Grupo Stagium», etc.. Falamos de um público amplo, que assiste cultura e ocasionalmente acompanha os grandes eventos de companhias de dança de tradição.
Ou se falarmos de " Cia..
De Danças Lia Rodrigues «(" Janeiro),» Cia..
Nova Dança «(Paulo), ou» Cena 11 (Florianópolis) ou mesmo «Quasar», falamos também de companhias conhecidas, mas com públicos preferenciais, que apreciam a linguagem 'pecífica, para alguns hermética, de 'tas danças.
Agora, se falarmos de um número interessante de grupo ou artistas, tais como «Núcleo Artérias» (" Paulo), Marcela Levi «(" Janeiro), Luiz de Abreu» (Paulo) e outros tantos, falamos de um público bastante 'pecífico, na maior parte das vezes, falamos de «pocket performance».
Sabe quem é o público que une 'tes três grupos, de alguma maneira?
A grande maioria é dançarino, «agregado», o que demonstra que não há formas de difusão horizontal do público de dança que possa ser rotativo ou diverso.
Não é uma linguagem «popular».
De aí, se segue o debate, que as vezes torna-se até cobrança entre os pares e ímpares da dança, de quem assiste o que, quando e como fomentar o público da dança.
Em outras palavras, quem se habilita a nos assistir?
Ou, quais formas de política pública podem ser criadas para circular danças, no plural de suas manifestações?
Em os últimos anos, projetos, institucionais ou não, mais ou menos independentes, inclusive sem recursos, vem emergindo no cenário nacional, como o Rumos Dança Itaú Cultural que ligado a instituição de mesmo nome, fomentou um enorme rede de contatos e do fazer inovador do artista contemporâneo em dança.
Também com intuito de educar, criar, reunir, projetos se ligam a uma 'trutura, ou a um marketing, depende do ponto de vista, social.
Ou seja, projetos sociais usam a dança e a dança usa projetos sociais.
Uma realidade patente na área e uma arena de questões conflitantes.
A refletir:
Ivaldo Bertazzo, Balé Bolshoi e outros tantos projetos 'palhados em periferia ou favelas das cidades brasileiras.
Parodiaria o filme:
«quanto vale a dança ou o corpo que dança ou é por quilo?"
Opções são projetos TAZ, ou seja, zonas autônomas temporárias, como conceitua Hakim Bey, que agregam artistas que buscam auto-organizar 'teticamente e politicamente seus interesses.
Citamos Coletivo Contágio no Rio de Janeiro, Artéria em Porto Alegre e Coletivo T1 em São Paulo, 'te último declaradamente uma TAZ (álias, em temporada outubro e novembro).
Podemos nos referir ao Quadra -- pessoas e idéias em Votorantim (São Paulo) como iniciativa ampla de criação e difusão de novas formas de fazer e circular dança.
Dito isso, sabemos que há muitas iniciativas de prática e reflexão -- isso porque não citamos o que existe em festivais na área, competitivos, que são um contrasenso, e outros tipos, eventos e encontros que unem prática e teoria, fazer e refletir.
Estes últimos, dentro os quais o Panorama no Rio de Janeiro é um exemplo, vem tornando a dança um meio, de fato, público.
Então, porque temos pouco público, se existem muitas tentativas de difusão e circulação?
Para não pararmos o debate na ausência de políticas públicas inteligentes ou que não se extinguem depois de 4 anos de gestão, quais são as alternativas «left» para difundir o que fazemos em dança?
Se falamos de uma forma de conhecimento, como seus produtos, além da obra artística, podem ser «ressuscitados»?
Digo de 'ta maneira porque minha reflexão, inevitavelmente, dirige-se a projetos de registro, memória, patrimônio ou simplesmente de distribuição de um pensamento que acontece em cena, ao vivo, presencial, mas que, justamente por a realidade mostrada, ainda não é suficiente para abranger seu público, difundir sua linguagem ou simplesmente se fazer conhecer nas suas variantes.
Podemos citar a Editora FID (Fórum Internacional de Dança, Belo Horizonte), iniciativa de publicar teses de dança independente de editoras formais, Projeto Tubo de Ensaio -- Corpo:
cena e debate (Florianópolis) que acabou de lançar um livro mais DVD sobre 3 anos de projeto (Tubo de Ensaio-Experiências em dança e arte contemporânea), o banco de dados do citado Rumos Dança Itaú Cultural, e outros tantos, até mais antigos, que tentaram criar materiais de dança, sejam cds, fotos ou vídeos para acesso público.
Convido a todos a conhecer o Acervo Mariposa, que atualmente coordeno, onde deposito tais inquietações e as redireciono para um projeto de implementação de uma videoteca física de dança de acesso público e gratuito, sem finalidade lucrativa, na qual são utilizados os selos do Creative Commons, ainda em implementação, por isso, não tão conhecidos por os próprios artistas da dança.
E por isso, segue 'te artigo.
Um convite a mais projetos, idéias, articulações, entre o fazer, pensar e distribuir o conhecimento da dança.
Uma provocação a compreender quais posturas dos artistas incentivam ou deturpam seu própro intuito em 'palhar seu trabalho.
Um preocupação não idealizada de que, se várias tentativas já foram feitas em cena de se fazer conhecer a linguagem, outras tantas já existem para dilatar a produção de conhecimento da área, precisamos de atitudes «left» para repensar nosso corpo público.
«Left» não é do contra, nem sem direito, nem terra de ninguém ou terra de poucos.
Ao contrário, é o direito de uma atitude política, cultural e artística.
Número de frases: 53
Zuza Homem de Mello, musicólogo, jornalista, radialista, produtor e crítico musical, ao ser indagado numa entrevista sobre o que era preciso para ser um bom músico, respondeu enfaticamente: "
saber ouvir música».
Em a seqüência, ao ser novamente questionado sobre o que era preciso para ser um bom crítico de música, repetiu: "
saber ouvir música».
Uma boa forma de exercitar isso é assistir ao instigante e criativo duo João Luiz e Douglas Lora, também conhecidos como Brazil Guitar Duo.
Juntos desde 1996, gravaram o CD «Duo de Violões em 2001», com repertório erudito.
Atualmente tocam apenas música brasileira.
João Luiz nasceu em São Paulo e Douglas nasceu em Washington nos EUA, mas cresceu em Atibaia interior de São Paulo.
«Sou mais brasileiro do que americano», afirma o músico.
João Luiz começou tocando trompete na banda da 'cola com oito anos.
A os onze anos começou seus 'tudos de música (teoria e solfejo).
Depois tocou durante um tempo cavaquinho e passou para o violão com o professor Henrique Pinto.
Douglas deu seus primeiros passos com o violão aos sete anos.
Depois teve banda de rock, onde tocou guitarra e baixo.
Sempre foi muito ligado ao rock n ´ roll.
Posteriormente, ao se interessar por música brasileira e por música clássica, acabou entrando para faculdade e também tornou-se aluno de Henrique Pinto.
Os arranjos de João Luiz possuem muita influência dos seus 'tudos de contraponto.
Já Douglas dá destaque em suas composições os procedimentos da música barroca.
Sua participação no DVD do Itaú Cultural começa com «Zita» (Astor Piazzolla) e tem seqüência com «Doce de Coco/Pingue-Pongue removeme (" Jacob do Bandolim), Baião/Noites Cariocas» -- (Douglas Lora) e «Forrozim» -- (Heraldo do Monte).
João Luiz e Douglas Lora se apresentaram em junho de 2007 no Panamá.
Para quem costuma repetir o clichê de que «a música clássica nunca se renova», aconselho a prestar muita atenção ao trabalho destes profissionais da nova safra da música contemporânea brasileira.
Mais informações sobre o duo.
Vídeo no youtube.
Conheça também os outros artistas da coletânea «Cartografia Musical Brasileira», do Programa Rumos Brasil da Música 2004-2005:
Antônio Vieira Renata Rosa BUÁ, O Muar Foi Esquecido!
Alguém em 'sa vida já pensou em render homenagem ao muar?
Sim, aos nossos sempiternos burro e mula?
Talvez muitos pensem em 'te exato momento que loucura é a minha vir aqui tratar de um assunto que seria mais adequado num sítio para veterinária ou coudelaria e tais e quais.
Mas eu explico:
há razão sim para que se abra parênteses, um humilde 'paço para umas poucas linhas a quem carregou o Brasil nas costas por muito tempo, foi jogado para 'canteio (mesmo sem qualquer vocação para bola de futebol), carregou sozinho, como se diz na gíria futebolística, o piano às costas (embora sem a habilidade de um bom meio-campista) e, 'quecido, hoje amarga uma aposentadoria sem reconhecimento em pequenos sítios -- longe da glória.
Em menor grau merecem também 'sa justa homenagem os cavalos e as éguas (mais próprios para serviços leves) e também os jumentos.
Tão nosso conhecido 'te último que merece uma alcunha diferente de região para região.
Acreditem ou não, há locais no Maranhão que o insigne participante de momentos cruciais da história do Cristianismo (não foi ele que levou o Menino-Senhor ao lombo durante uma fuga?)
recebe o nome de Dogue.
Vejam só!
Pois bem, 'tes animais foram econômica e culturalmente importantes no Brasil até, quem diria, meados do século XX.
História
Feitas as apresentações, vamos ao que interessa.
Os quadrúpedes são muito antigos na história humana.
Desde que o homem domesticou o eqüino, cruzou-o acidentalmente ou não com o asinino, obtendo o muar, que os dois 'tiveram juntos (justiça seja feita: o homem em cima do coitado!)
em todas as conquistas humanas até a substituição do quadrúpede por a máquina em grande escala -- logo após a Primeira Guerra Mundial.
Em o Brasil, os primeiros quadrúpedes, segundo a veterinária «Vera Lúcia Nascimento Gonçalves» desembarcaram em São Vicente em 1534.
Em o ano seguinte, os portugueses trouxeram nova remessa, que ficou em Pernambuco e em 1540, Tomé de Souza trouxe uma terceira leva para a Bahia.
Foi a partir desses animais que se formou nosso rebanho eqüino, o segundo maior do mundo».
Integrando O Brasil
O muar -- cruzamento de jumento e égua --, por a sua rusticidade, era mais apropriado para os trabalhos pesados de tração.
E foi principalmente no seu lombo que o Brasil moveu-se.
Economicamente, os muares levavam do litoral para o interior toda sorte de mercadorias, subindo e descendo serras, cortando os sertões sem 'tradas, usando picadas mal feitas e abertas às pressas.
Nada reclamou mais que o alimento para continuar existindo e poder unificar o Brasil.
Sim senhor! Foi ele o primeiro vetor da união nacional, como bem anota Gabriel Passetti em seu 'tudo sobre tropeiros:
«a ação dos tropeiros, no século XVIII ( ...)
acabou resultando finalmente na unificação dos diversos núcleos coloniais portugueses e possibilitou assim a criação de um conjunto colonial que passaria depois a ser o Brasil».
Substituição
Em o século XIX, o pesado fardo do muar começou a ser aliviado por o trem de ferro.
Ufa! Já não era sem tempo.
E finalmente no século XX -- não de maneira uniforme por o território nacional -- por o automóvel.
Em o norte do Tocantins, 'pecificamente na região de Babaçulândia, somente no início da década de 1950 os automóveis fizeram seus primeiros rastros no sertão.
Até então, quem comandava o 'petáculo por aqui era o burro e a mula.
Reproduziam o que era consuetudinário no Brasil:
transportavam a economia e a cultura sobre o lombo em selas, cangalhas e jacás.
Vejam só o exemplo de um extenuante trabalho a que eram submetidos:
levaram por muito tempo sal de cozinha de Balsas-MA para Poxoréo-MT, num percurso que não era inferior a 1.500 km.
Isso é que chamo salgar o couro!
Culturalmente Esquecidos
Se economicamente foram importantes, também o foram culturalmente.
Os primeiros carteiros entregavam correspondência Brasil afora sobre eles.
E em 'sas correspondências, claro, iam ardorosas promessas de amor do mocinho na cidade para a brejeirinha na fazenda.
Com certeza, quando um ou outro recebia do tropeiro-carteiro a missiva que tinha sido perfumada com tanto empenho na cidade ou na fazenda, a fragrância já tinha evolado e dado lugar ao cheiro de suor e 'terco.
Agh! Não tem importância, o amor não liga para isso.
Se em ela havia a descrição de como o amado iria um dia tirar a amada da modorra de uma secular fazenda, era o que bastava.
Os sonhos saltavam em 'sa hora da carta, com toda certeza, e ganhavam forma.
O príncipe encantado, por certo já um médico ou um advogado formado na capital do império ou da província, chegava num alazão branco ajaezado para resgatar a sua prenda.
E o muar onde fica em 'sa história?
Não foi ele quem levou a carta?
É ruim, né?
Em a hora do vamos ver, do bem bom, o cavalo toma o seu lugar e rouba a cena.
Quanta discriminação!
Quanta injustiça!
Mas, se levava notícias íntimas de amores e saudades, o muar também trazia a notícia em tempos de antes.
O jornal, o almanaque, a enciclopédia, o violão, o piano desmontado para as donzelas e senhoras da cidade e do campo exercitarem-se nas horas aziagas e felizes.
A Cultura também progredia no Brasil aos solavancos (do muar, claro!).
As idéias culturais e políticas também se valeram de ele.
Apenas uma referência:
foi sobre um cavalo (que perseguição com o muar, pô!)
que D. Pedro I deu o famigerado grito «Independência ou Morte!», atentando-se antes de ver se a cavalaria portuguesa não 'tava por perto.
E os livros?
As poesias?
E os melodramas de antigamente como chegavam a todos os rincões do Brasil?
Em o lombo dos muares, rodando léguas e léguas (a quilometragem dos quadrúpedes) para deixar suspirando as mocinhas com os versos rimados e edulcorantes.
Depois iam a passeio por os campos regurgitar poesia na companhia da aia.
Quem as levava em 'sas andanças?
O muar, 'tá visto!
Nada disso, era o janota do cavalo.
Já bem o dissemos aqui:
o muar era para serviços extremos;
o cavalo nem tanto, conformava-se melhor ao fausto.
As companhias mambembes de antanho valiam-se também do muar para rodarem as velhas carroças por o sertão.
Mas se havia um 'petáculo reproduzindo algum épico ou mesmo a velha história de nossa independência você já sabe quem protagonizava ...
Sei que muito mais fez o muar, mas se em 'te artigo louvá-lo é também enumerar o quanto ele foi injustiçado, para que o seu infortúnio não seja maior, paro por aqui.
Número de frases: 99
Em Lauro de Freitas, município da Região Metropolitana de Salvador, existem cerca de 300 agentes de limpeza.
De estes, 115 trabalham na varrição de ruas asfaltadas.
Muitos são analfabetos funcionais, apenas assinam o nome e mal entendem o que lêem ou 'crevem.
Outros tantos usam os polegares para assinar, porque não sabem sequer ler ou 'crever.
A única tinta que mancha as digitais de Dona Felicidade é dos livros que ela coleciona.
O despertador toca todos os dias às 4h40 da manhã.
Este é o horário que Sebastiana Rosália Bispo levanta.
Uma xícara de café, nem muito forte nem fraco e dois ônibus separam sua casa, em Vila Mar, na Estrada Velha do Aeroporto do seu trabalho, no centro de Lauro de Freitas.
Sebastiana, ou Ana, como muitos a chamam, é agente de limpeza da Secretaria de Serviços Públicos -- Sesp e diariamente varre a Praça da Igreja Matriz de Santo Amaro de Ipitanga, com seu chão vermelho, fonte desativada ao centro e bancos de concreto que a rodeia.
Além da praça, Ana varre toda extensão da Rua Ibicaraí.
Tranqüila, ela não mostra problemas em se assumir como agente de limpeza:
-- Eu sempre coloco amor no que faço.
Isso ajuda a me adaptar e superar as dificuldades.
Não tenho vergonha de assumir o que eu sou porque considero que todo trabalho tem a sua dignidade.
Só às 7h30 Ana dá uma pausa para tomar café de verdade.
Quando o dinheiro dá, ela compra um pão com queijo e meia xícara de café na padaria.
O leite líquido de saco e o pão cedidos por a Prefeitura ela prefere levar para casa ou vende na rua mesmo para comprar o café que ela gosta.
Encosta a pá, o apanhador, a vassoura e os braços no contenedor laranja, que tem seu nome 'crito em letrinhas negras, e degusta seu café como princesa.
Sua popularidade a interrompe.
-- Oi Dona Ana -- fala a mocinha enquanto leva a irmã para a 'cola que fica em frente a praça.
-- Tudo bem minha filha.
Deus te dê um bom dia -- Com seu sorriso sincero e 'pontâneo, ela sempre deseja algo de bom para as pessoas que passam e a cumprimenta.
Dona Ana é daquelas pessoas que cativam quem conhece.
Entre uma varrida e outra, sempre aparece alguém que a deseja palavras doces, crianças que a chamam de tia, outras que oferecem um gole d ´ água.
A praça onde Ana trabalha também é palco de moradores de rua bêbados, casais adolescentes apaixonados, 'tudantes tocadores de violão e outros trabalhadores, como Nice, a guarda municipal que toma conta dos carros 'tacionados.
Ela diz que Ana é amorosa e conquista as pessoas com bom-humor constante e o sorriso receptivo.
O chapéu de palha com duas conchinhas contrasta com o boné e o fardamento amarelo-ouro com lista vermelha que abriga o nome SESP em letras brancas.
Por baixo do fardamento, Ana revela a derme negra e abaixo do chapéu, um lenço daqueles distribuídos no carnaval protege o cabelo 'covado de alguns fios brancos e as orelhas que sustentam um par de brincos do Bob Esponja.
Baixinha, cerca de 1.60m, e de olhar carismático, ela muitas vezes não aparenta a idade que tem.
As mãos, que todos os dias abraçam a vassoura e o apanhador, parecem bem cuidadas, sempre hidratadas e não mostram os 48 anos vividos por Ana.
Seu rosto, sim, parece que vai além da idade, num olhar mais cuidadoso é possível ver, além do sinal na bochecha direita, as marcas de um passado sofrido, que só perde a visibilidade para o sorriso tímido, 'pontâneo e sincero.
Sua voz é pacata, tímida.
Natural de Jacobina, no interior do Estado, Ana é a terceira de cinco filhos do casal Edson Carlos Bispo e Rosália Barbosa.
São quatro mulheres e um homem.
O primogênito e viril filho de Edson, Ana não vê há mais de 30 anos.
Ele desapareceu enquanto trabalhava em São Paulo, na década de 60, logo após o golpe militar.
-- Ainda tenho 'perança de que ele 'teja vivo e que algum dia ele vai aparecer.
Minha mãe até 'pera o dia de ele
Quando sua família retornou de São Paulo para Jacobina, Ana já tinha cinco anos e iniciou os 'tudos.
Mas como muitas pessoas de família pobre e do interior, ela parou de 'tudar e começou a trabalhar cedo.
Em vez da sala da aula na turma de sétima série, ela encontrava, todos os dias, o trabalho junto com o pai, vendendo roupas e calçados.
Depois da falência dos negócios, veio para Salvador, onde se casou com Davi dos Santos França, ajudante de cargas da antiga fábrica da Brahma, com quem teve cinco filhos.
Assim como o trabalho, a profissão materna também veio cedo.
O primeiro filho de Ana nasceu quando ela tinha 14 anos.
A casa no São Gonçalo do Retiro foi testemunha dos quase oito anos de casamento, e também do fim do matrimônio de Ana.
Com os filhos já maiores, ela mostrou coragem e resolveu voltar a 'tudar.
A os 26 anos, dividia a sala de aula com garotos de 16 e 17 anos na sétima série, em sua terra natal.
Além de 'tudar, ela foi convidada para ser professora numa turma que ela chama de «multiserial».
-- Em a mesma sala eu dava aula para alunos da alfabetização até a quarta série.
A 'cola ficava no quilômetro sete da rodovia que liga Jacobina à Miguel Calmon.
Eu não tirava a farda e a calça jeans do corpo, vivia entre uma turma e outra, o dia inteiro na 'cola.
Apesar de todas as dificuldades encontradas, seu sorriso desde sempre foi marcante e a diferença de idade com seus colegas de turma não pesava em seus ombros.
Sempre me dei bem com os mais jovens.
Minha alegria os contagiava tanto, que me chamavam de Dona Felicidade.
Sempre a mais velha das turmas por onde passou, Ana concluiu o segundo grau em 1989, mas não pôde dar prosseguimento aos 'tudos.
A vida lhe impôs o trabalho para continuar a criar os filhos e agora neto, na casa alugada de sala, quarto, cozinha e banheiro, construída sobre a laje da proprietária.
O aluguel da casa que Ana divide com um filho, nora e neto custa R$ 120, quase um terço do que ela recebe como varredora.
Um varredor, em Lauro de Freitas, ganha R$ 360,00 + 10 % de insalubridade.
-- Ainda tenho que pagar as contas de água, luz, comprar comida, gás ...
Tudo sozinha.
Ana divide o quarto e a cama com o neto Samuel Levi.
O filho e a nora, desempregados, dormem na sala.
Para completar a renda, ela revende os produtos da revista Quatro Estações.
De calcinhas a biscuit, enfeites de geladeira e panos de cozinha, Dona Felicidade vende de tudo que 'tá disponível na revista.
Ganha 20 % do que vende.
Ela também faz faxinas e lava roupas.
-- Tenho que correr atrás, parada é que não posso ficar.
Tenho meus sonhos e não desisto de eles, num abro mão mesmo.
Seu eu não fizer, quem vai fazer por mim, por meus filhos, meus netos.
A família é o que Dona Felicidade tem de mais importante.
O brilho do seu sorriso só é ofuscado quando conta que já perdeu dois de seus filhos.
O mais velho morreu em 97, aos 19 anos, deixou uma neta, Laís, de 12 anos e que Ana não vê porque mora com a mãe.
Ela também não gosta de comentar a morte de sua filha aos seis meses de idade.
-- Os doutores disseram que ela morreu de desidratação, mas tenho para mim que ela deve ter morrido do coração, porque ela era gordinha, corada, forte.
Perder um filho é a pior dor que uma mãe pode sentir.
Além dos filhos perdidos Dona Felicidade não vê a filha, Cristina há 10 anos.
Cristina Mora em São Paulo e tem dois filhos, Edson Teodoro e Danilo que não conhecem a avó.
-- Só conheço de voz.
Sempre que ela liga, eu peço para falar com meus netos.
Eu choro daqui e eles, com a mãe, choram de lá.
Ana conta ainda tem outra neta, Raíssa, que mora em Pojuca e sente ciúmes do primo Samuel Levi, que enquanto a avó 'tuda fingi ler e 'crever, num dialeto que só ele e Ana entendem.
Dona Felicidade também é muito ligada aos pais, que ainda moram em Jacobina.
-- Sempre que posso vou para lá visitar meus pais que graças a Deus ainda 'tão vivos.
Este ano mesmo quero ver se tiro minhas férias em novembro para poder ir até lá.
Quanto ao coração, Dona Felicidade não pretende se casar de novo.
Prefere os romances dos livros aos relacionamentos sérios.
-- Dou minhas namoradinhas, mas nada muito sério, certinho, porque já vi que não dá certo.
Sebastiana tornou-se Dona Felicidade aprendendo a superar as dificuldades da vida.
Apesar de toda dificuldade com os trabalhos braçais, pesados e as obrigações de vó e dona-de-casa, ela nunca desanimou.
Ana fez a última prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Boa aluna e professora, ela fez mais de 65 % da prova e 'tá 'perançosa em poder cursar o nível superior.
Quer cursar a faculdade de administração, no futuro poder cuidar do próprio negócio, melhorar de vida.
A aptidão é explícita na forma como administra o pouco que ganha.
Dona Felicidade, por causa do bom coração que tem, também poderia ser chamada de Dona Solidariedade.
Apesar de sua vida difícil, abastecida com o salário da varrição e o dinheirinho dos bicos, ela tem consciência de que muitos 'tão em situação piores que a de ela.
Sinto não ter condições de ajudar 'tas pessoas.
Se pudesse, com certeza ajudaria, porque não gosto de ver ninguém passando necessidade.
Não gosto nem de ver 'ses meninos na rua, pedindo, passando fome.
Para mim, isso é muito triste.
Imagino se fosse um filho meu chega dá uma coisa no peito.
A sua vontade de ingressar na faculdade é superior ao receio de enfrentar o preconceito, seja por a profissão, por a derme negra que a envolve ou simplesmente de ingressar na faculdade aos 48 anos.
A vontade é tanta, que Dona Felicidade, depois de todo o trabalho na Prefeitura e em casa, continua freqüentando as salas de aula, só que desta vez não é a mais velha da turma.
Apesar de já ter feito a prova do Enem, ela faz um cursinho pré-vestibular no bairro onde mora.
Gosto muito de 'tudar, de ler, de 'crever.
É uma coisa que meus pais passaram para mim e meus irmãos.
Eles não tiveram uma boa educação, mas buscaram dar isso para a gente.
Enquanto muitos pais do interior tiravam seus filhos da 'cola na quarta série, eles deixaram a gente ir onde conseguisse chegar.
Veja só, minha mãe só aprendeu a ler quando eu já 'tava na quarta série.
Além de 'tudar Ana gosta de boa música, cinema, teatro e literatura.
Romancista, seus filmes preferidos são Ghost -- De o outro lado da vida e o Mistério da Libélula.
Dona Felicidade começou a se interessar por as artes cênicas aos seis anos, quando sua mãe à levou num circo que passou por a cidade de Jacobina.
-- Era um daqueles circos que no final encenavam uma pecinha de teatro.
Era muito engraçado.
Depois disso tomei gosto por a coisa e todos os domingos minha mãe me levava para a matinê no cinema de jacobina.
Quando ela não podia levar, pagava alguém para fazer isso.
A varredora gosta tanto de leitura que possui a própria «mini biblioteca».
Uma de suas diversões é buscar nas livrarias ou sebos os clássicos da literatura brasileira.
Em a sua lista já passaram Capitães de Areia, Senhora, Clara dos Anjos, A hora da 'trela, O triste fim de Policarpo Quaresma e agora 'tá em busca de Tenda dos Milagres.
-- Ahh, minha alegria foi descobrir uma livraria na rodoviária.
Eu compro logo os livros que 'tão na lista do vestibular.
Gosto dos clássicos e dos mais baratinhos, de três, cinco, até dez reais.
Em o shopping eu vi na livraria o Tenda dos Milagres, mas tava muito caro, quase oitenta reais.
Aí é demais.
Livro deveria ser barato, pra todo mundo ler.
Apesar de não parecer, Dona Felicidade prefere as ciências exatas às humanas.
Para as colegas de varrição, ela diz que nunca é tarde para continuar, ou mesmo começar com os 'tudos.
Para ela, a idade não é empecilho para nada, o que atrapalha o crescimento e a felicidade das pessoas é o preconceito e a inveja.
Não importa a idade.
O que importa é aprender, aumentar o conhecimento, 'tudar.
O preconceito não leva a gente a lugar algum.
Só nos destrói, nos torna amargos.
As mãos grossas, bem hidratadas e de unhas rubras e curtas, reencontram o cabo da vassoura.
Até às 13h, Dona Felicidade continua a varrição das folhas de flamboyant que insistem em deitar sobre o chão vermelho da Praça da Matriz.
às 14h30, quando chega em casa, ela ainda enfrenta as tarefas domésticas que divide com a nora.
Seu descanso começa quando ela repousa o corpo sobre a cama e inicia a leitura de um de seus livros, clássicos da literatura brasileira.
Sua mente viaja nos romances que lhe roubam o ar e enchem os pulmões de Ana de felicidade, enquanto a tinta volta a sujar suas digitais como faz todas as tardes.
Questionada se é feliz, ela diz com uma voz mais firme:
-- Eu sou muito feliz, mesmo sem muito dinheiro.
Número de frases: 138
'tou publicando um blog chamado sub-literatura, que comecei a 'crever para recuperar, 'crevendo, uma alegria que eu sempre tive ao ler ficção científica.
o nome é uma ironia e uma homenagem.
a literatura de FC andou muito desprezada, tratada por muitos como, justamente, uma 'pécie de sub-literatura, uma página menor da produção literária mundial.
muitos livros de grande beleza ficaram assim a margem dos leitores e hoje preenchem prateleiras nos sebos da cidade.
hoje é difícil encontrar em livrarias até mesmo obras de grandes 'critores do gênero, como ray bradbury (há uma recente edição do fabuloso «crônicas marcianas ") ou arthur m. miller jr, que nos deu» um cântico para leibowitz», uma belíssima fábula sobre a tendência para a destruição que o homem carrega.
um livro atualíssimo.
apesar de versar aparentemente sobre o holocausto nuclear, suas páginas trazem uma luz sobre o perigo do poder que assumimos em 'se planeta.
com os celulares nas mãos de todo mundo, a internet e computadores cada vez mais velozes tem-se a impressão de que a ficção científica não é mais capaz de revelar-nos o mundo, como o que ela prometia em meados do século passado.
os carros voadores não 'tão nas ruas (nos céus), ninguém foi a marte e o futuro desencadeia-se a cada instante.
mas muito se confundiu a temática desses livros, como se eles fossem apenas arautos das possibilidades tecnológicas de novos mundos e novos futuros.
o que eu encontrei na FC foi um olhar terno sobre o homem, sua angústia diante das transformações, seu medo profundo de perder-se em meio a um mundo de diversidade, um desenrolar de coisas, que é impossível de se deter.
assim 'creveram-se clássicos e autores criaram sólida produção.
sabemos dos monstros sagrados como isaac asimov, arthur c. clarke e sua odisséia no 'paço, h. g. wells e suas sombras que se projetam no tempo, mas 'se é um gênero que se fez de nomes que tornaram-se obscuros, títulos que se perderam e é preciso reencontrá-los.
a literatura nacional também abarcou a ficção científica e também a 'queceu.
temos 'critores como bráulio tavares, que nos deu «a 'pinha dorsal da memória» e «o mundo fantasmos», duas pequenas jóias do gênero, difíceis de encontrar.
o jorge luis calife que 'creveu «padrões de contato» ...
lembro bem que fiquei feliz ao ver nas prateleiras das livrarias o seu livro, era um sopro de frescor na noite editorial que cobria a FC aqui no brasil.
isso sem falar em octávio aragão e sua «intempol», uma fantástica polícia do tempo, que se 'palha ao longo dos vários contos e experiências.
leiam, aqui no overmundo, uma ótima entrevista com o octávio aragão, por delfim.
que é feito desse projeto?
tentei acessar o site recentemente e não consegui ...
a FC pede um trabalho de mineração e edição, para que se recupere a memória desse futuro que foi tão imaginado e que não chegou, ao contrário do que muitos pensam.
há em 'sa literatura um frescor e uma poesia que encantam aqueles que sobre ela se debruçam.
recomendo então que procurem livros de FC nos sebos da cidade, recomendo que leiam algumas obras clássicas que ainda nos colocam diante de dilemas centrais que rondam a humanidade sem aparente solução.
já vi que aqui no overmundo temos uma discreta produção em ficção científica, muito interessante.
fiquei feliz em descobri-la e com o sub-literatura junto-ma ela.
porponho que façamos aqui uma pequena lista de livros interessantes que sirva de sugestão e referência para a comunidade, para que todos possam ter a oportunidade de buscá-los e perceber que muito dizem sobre a ordem social em qque vivemos e abrem uma vasta discussão sobre como transformá-la.
Número de frases: 27
ver aqui no overmundo o guia do sub-literatura «Acabou porque um dia começou».
E com um ditado universal, Eduardo Xuxu, vocais e guitarra da Pipodélica, justificou o fim da sua banda.
«Para mim, exceto sentimentos, tudo tem que ter começo, meio e fim.
Todos mudam e nós, naturalmente mudamos.
Não temos mais os mesmos interesses convergindo e isso resultou em dificuldades para fazer as coisas e no natural desgaste interpessoal.
Achamos que não valia à pena ficar empurrando com a barriga ...
trocar algumas pessoas não seria solução porque não seria a mesma banda.
Temos respeito por a nossa história e decidimos então por o fim».
É preciso ter todo o respeito por a decisão do quarteto Eduardo Xuxu, M. Leonardo (baixo), Felipe Batata (vocal e guitarra) e Heron Stradioto (bateria e sucessor de Gustavo Cachorro), mas é permitido aos fãs e admiradores lamentar o fim de uma banda que teve uma carreira das mais significativas no meio independente, além de ser dona de uma discografia excelente.
A Pipodélica começou no finalzinho dos anos 90, mas é entendida como uma banda de 'ta década.
Surgiu pouco depois do 'touro da cena gaúcha que revelou Bidê ou Balde, Vídeo Hits e outras.
Mas a Pipodélica era de Florianópolis e não fazia power pop como boa parte daquelas bandas, apesar de ter uma menina na formação (Carine Nath) -- na época parecia ser uma característica quase obrigatória.
A história começou com uma fita caseira que gravaram na casa de um amigo e que se 'palhou por a Faculdade de Arquitetura na Universidade Federal de Santa Catarina.
O nome da tal fita é que batizou a banda.
A Pipodélica gravou em 2001 o EP, Tudo Isso, que foi muito elogiado na época.
Ele também marcou a saída de Carine e a formação definitiva como um quarteto.
Olhando para trás, aquele foi um início bem ingênuo se comparado com os outros trabalhos que seriam lançados depois.
Talvez o impacto de Tudo Isso tenha sido potencializado por a própria época, quando a cena independente ainda era uma novidade.
De qualquer forma, foi um disco importante para apresentar a Pipodélica, que se tornaria uma das principais representantes da cena catarinense, senão a banda mais conceituada de lá.
«Posso dizer que sempre -- desde a primeira vez que gravamos sem saber se aquilo seria uma banda -- fizemos uma música genuína, com a nossa cara.
Muito me orgulho disso e não concebo alguém que seja artista que não faça isso ...
ter uma característica própria.
Sempre tivemos cuidado 'tético, é claro, mas nunca procuramos fazer a música A ou B. Sempre foi natural.
Isso faz sentido quando digo que nós fomos mudando ao longo do tempo.
Dizem ser perceptível em cada um dos discos, ainda que seja inconfundível.
Para mim, legado melhor, não poderia existir.
O último disco, por certo, é um retrato mais fiel de nós nos últimos tempos.
Estamos todos circundando os 30 anos.
Nada contra, mas me sentiria ridículo em relacionar nas letras o que quero dizer com viagens interplanetárias, como fiz no Tudo Isso, por exemplo».
O caldo musical começou a engrossar logo no segundo EP, Enquanto o Sono Não Vem, que abriu as portas para gravadoras pequenas, porém prestigiadas, como a Baratos Afins.
Outro efeito da boa repercussão foi a abertura para a Pipodélica começar a tocar em outros 'tados brasileiros.
Para Eduardo, Florianópolis é uma cidade culturalmente isolada e que é preciso chamar atenção primeiro em outras cidades para depois ser reconhecido na própria.
Infelizmente 'sa é uma característica comum em várias outras capitais, até mesmo Brasília apesar de todo o seu histórico roqueiro.
«Rock aqui, mais que em outros lugares, é nicho.
Então, tivemos que ter reconhecimento fora, pra sermos valorizados aqui.
Mas isso faz muito tempo.
Agora que acabou a banda, por a repercussão, vi que viramos um dinossauro intocado por aqui e fora também.
Foram oito anos tocando e lançando discos.
Uma carreira absurdamente sólida para uma banda independente, cuja dimensão só consigo ver agora.
Mais um motivo para 'tar seguro do que fizemos».
Uma vez que o fim foi selado, registrado e carimbado, é possível afirmar que, curiosamente, a Pipodélica viveu o seu auge em 2004 com o EP Volume Quatro.
Eles já tinham um disco premiado na praça, o Simetria Radial, mas foi com o EP que tiveram o gostinho da popularidade.
Volume Quatro foi o projeto que inaugurou com muito sucesso o " Senhor F Virtual.
«De certa forma, nós introduzimos os projetos virtuais no Brasil.
Entretanto, na época, mesmo a crítica não aceitava aquele formato muito bem.
Talvez por a novidade, foi um disco quase sem resenhas / críticas.
Ao mesmo tempo, sem dúvida foi o que atingiu o maior número de pessoas.
Mais uma prova de que discos não vendem mais, e que importar modelos de um meio para aplicar em outro, não funciona», explicou Eduardo.
Foram mais de 100 mil download das músicas, que dariam uma média de 15 mil discos baixados, um número ótimo para um trabalho virtual e independente.
O fato torna-se ainda mais impressionante não só por o caráter pioneiro.
Se for pensar bem, tem muita banda querida da crítica que sua muito para conseguir vender 15 mil cópias de forma independente.
O curioso é que Eduardo começou a questionar o papel da crítica justo depois do Volume Quatro, um sucesso de público e fracasso de crítica.
«Será que criticam música ou 'tão atrelados a conceitos?
Um disco virtual não é um lançamento?
Hoje, acho que a coisa mudou, mas não sei se plenamente.
Espero que quem critica seja mais atento ao cerne do que faz.
Então, o Volume Quatro foi o auge conceitual -- o que verdadeiramente é ser uma banda independente -- e, sem dúvida, um fracasso de crítica.
Todos os outros títulos, em 'pecial o Simetria Radial, tiveram infinitamente mais repercussão crítica».
Os créditos do Volume Quatro vão além de simples números.
Apesar de Eduardo considerar que os discos Simetria Radial e o último, Não Esperem Por Nós, representarem melhor o auge musical da Pipodélica, o EP foi uma ruptura com tudo aquilo que se 'tabelecia como independente.
«Nós fizemos parte daquela onda -- tocar onde tinha que tocar, aparecer onde tinha que aparecer -- mas resolvemos sair daquilo quando vimos que os valores no novo e festejado meio independente eram tão distorcidos e execráveis quanto aqueles que eles mesmos apedrejavam no dito mainstream.
Pergunte a qualquer banda nova hoje -- e que não seja apadrinhada por nenhum dos cardeais do independente -- o por quê não conseguem tocar num festival, aparecer num programa de TV ' feito para bandas independentes '.
Não tivemos 'tômago pra participar daquele comércio que se 'tabeleceu e ainda sair levantando bandeira, vociferando contra jabá, 'quemão ou coisas assim.
Aqueles que controlam o independente hoje fazem isso de forma bem mais podre e nociva à música, posando de vanguardistas libertários e ainda com o nosso dinheiro!
Porque todo 'se 'quemão é sustentado via projeto cultural!
Tenho conhecimento de causa para falar».
Em 'se sentido, Eduardo acredita que o Volume Quatro representou uma guinada para algo novo e independente de fato.
Boa música e transgressão é isso aí.
A Pipodélica vai deixar saudades.
Número de frases: 69
Veja o nosso ...
O Pequeno Príncipe no Mar de Xaraés
O Pequeno Príncipe no Mar de Xaraés é indicado para todas as idades.
Inspirado na obra consagrada da literatura universal trata-se de uma narrativa poética na qual o autor vai elaborando sua visão de meio ambiente sempre preservando o original de Saint-Exupéry, mergulha no próprio inconsciente e reencontra «a criança que existe em cada um de nós».
Em o mundo dos adultos, 'sa criança teve de assumir diversos papéis, agindo como «um homem sério ou como um vaidoso que coloca a sua vaidade acima de tudo, um Rei dominador preocupado com as questões ambientais, um bêbado retratando os nossos doentes e ao mesmo tempo fazendo referência aos porcalhões» que vem ao nosso 'tado e deixam os nossos rios cheios de lixos.
Um sábio geógrafo que faz referência aos exploradores mostrando a importância dos registros históricos do nosso patrimônio cultural, ..."
E termina por sufocar a visão poética que foi sua primeira relação com o mundo.
O caminho para trazer de volta 'ta criança de lá do fundo do poço, em que o autor se sente mergulhado, é sofrido, porém maravilhoso.
O Pequeno Príncipe já demonstrou que milhares de leitores já se tornaram «cativos» de 'sa viagem através do deserto e hoje aventura numa viagem diferente que é o Mar de Xaraés, encontrando personagem que lhes propõe alguns «enigmas» bem difíceis:
Mas que são o mesmo dito por personagens diferentes como a «Sucuri», que apesar de ser matreira e astuta com a presença do homem que o destrói, tem sensibilidade com a meiguice do Pequeno Príncipe.
Encontra também com o belo Tuiuiú que lhe propõem a refletir:
«Para que servem os 'pinhos?
O que quer dizer cativar?"
E, a cada vez que ele volta, não aceita como resposta o silêncio, nem frases vagas e impensadas.
Finalmente depara com o pescador que apesar de ser um homem simples que usa de artefatos proibidos para sobreviver, tem consciência da necessidade da preservação para manutenção da sua sobrevivência.
O cenário conta com a sensibilidade de três artista plástico da nossa terra que empresta generosamente suas obras para servir de fundo para a nossa viagem.
Sinopse
O 'petáculo indicado para todas as idades, é inspirado na obra consagrada da literatura universal, sempre preservando o original de Saint-Exupéry, mergulha no próprio inconsciente e reencontra «a criança que existe em cada um de nós».
O Pequeno Príncipe já demonstrou que milhares de leitores já se tornaram «cativos» de 'sa viagem através do deserto e hoje aventura numa viagem diferente que é o mar de Xaraés.
Ficha Técnica
Texto -- Edson Silva (inspirado na obra ANTOINE JEAN-BAPTISTE ROGER de SAINT-EXUPÉRY)
Direção: Edson Silva
e Iluminação -- O grupo
Sonoplastia -- Julio Feliz
Figurino -- Alex Guedes
Cenografia -- O Grupo
Concepção Cenográfica -- Humberto Espíndola, Rosane Bonamigo e Teka Rosa.
Operações Técnica -- Ellys Natallia
Contra Regra:
Rita de Fátima
Elenco -- Érika Matiolli, Vanessa Marques e Profeta.
Prêmios
VI Festival Campo-grandense de teatro " O Ambiente em Cena "
Melhor Direção;
Melhor Cenário.
Indicação
Melhor Ator Melhor Atriz
Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon, França em 29/06/1900 e morreu em 1944 (local ignorado).
Foi aviador de profissão e 'critor por devoção.
Foi piloto do correio aéreo que na década de 30 voava das possessões francesas na África para Argentina e Chile, fazendo 'cala em Natal, o ponto sul-americano mais próximo do continente africano.
Um dos pioneiros da aviação comercial francesa, organizou as linhas da Patagônia e empreendeu vôos de Paris à Saigon e de New York à Terra do Fogo.
Atuou de maneira intensa durante a 2ª Guerra Mundial unindo-se à aviação Aliada em 1942.
De 'pírito audaz, sentia-se melhor do que nunca quando 'tava no ar e, de preferência realizando os vôos mais arriscados.
As experiências que viveu em suas missões heróicas, soube transportar para seus livros de maneira profunda.
Seu livro mais conhecido O Pequeno Príncipe é um convite à reflexão para que as pessoas se humanizem, se cativem e se percebam.
Antoine foi oficialmente contra o governo nazista.
Quando o Pequeno Príncipe foi publicado em 1943, a França 'tava ocupada por o exército alemão.
Saint-Exupéry foi muito ativo na Resistência Francesa, e seu livro «Flight to Arras» foi proibido na França, ocupada em 1942 por a Alemanha.
Então, parece improvável que um soldado alemão iria adquirir uma cópia dos livros de Antoine, mesmo quando surgiu uma tradução para o alemão de O Pequeno Príncipe em 1944, quando Saint-Exupéry desapareceu.
Exupéry enfrentou problemas delicados de saúde que o impediam de continuar voando.
Mas para ele, não voar significava não viver.
Contrariando ordens médicas, em 1944 decolou por a última vez rumo ao infinito.
Deixou nosso planeta quando seu avião foi derrubado por um piloto alemão.
Seu avião jamais foi encontrado.
Alguém disse que o piloto Alemão que derrubou Exupéry tinha uma cópia de O Pequeno Príncipe em sua casa, mas acredito eu que isso não possa ser verdade.
Em uma carta encontrada na sala de Antoine depois que seu avião desapareceu, ele tinha 'crito o seguinte:
«Eu não me preocupo se eu morrer na guerra ( ...)
Mas se eu voltar vivo desse ' trabalho ' ingrato, mas necessário, haverá apenas uma questão para mim:
O que dizer da humanidade?
O que dizer para a humanidade?"
Em a certa, as edições em alemão de O Pequeno Príncipe são parte das respostas para sua questão.
Alguém tem que mostrar aos Homens o que é realmente importante, em qualquer língua, sendo que a língua e o país realmente não são o mais importante.
O Pequeno Príncipe -- Antoine de Saint-Exupéry
O Pequeno Príncipe foi 'crito e ilustrado por Antoine de Saint-Exupéry um ano antes de sua morte, em 1944.
Piloto de avião durante a Segunda Grande Guerra, o autor se fez o narrador da história, que começa com uma aventura vivida no deserto depois de uma pane no meio do Saara.
Certa manhã, é acordado por o Pequeno Príncipe, que lhe pede:
«Desenha-me um carneiro»?
É aí que começa o relato das fantasias de uma criança como as outras, que questiona as coisas mais simples da vida com pureza e ingenuidade.
O principezinho havia deixado seu pequeno planeta, onde vivia apenas com uma rosa vaidosa e orgulhosa.
Em suas andanças por a Galáxia, conheceu uma série de personagens inusitados -- talvez não tão inusitados para as crianças!
Um rei pensava que todos eram seus súditos, apesar de não haver ninguém por perto.
Um homem de negócios se dizia muito sério e ocupado, mas não tinha tempo para sonhar.
Um bêbado bebia para 'quecer a vergonha que sentia por beber.
Um geógrafo se dizia sábio mas não sabia nada da geografia do seu próprio país.
Assim, cada personagem mostra o quanto as «pessoas grandes» se preocupam com coisas inúteis e não dão valor ao que merece.
Isso tudo pode ser traduzido por uma frase da raposa, personagem que ensina ao menino de cabelos dourados o segredo do amor:
«Só se vê bem com o coração.
O 'sencial é invisível aos olhos».
Antoine de Saint-Exupéry via os adultos como pessoas incapazes de entender o sentido da vida, pois haviam deixado de ser a criança que um dia foram.
Entendia que é difícil para os adultos (os quais considerava seres 'tranhos) compreender toda a sabedoria de uma criança.
De 'ta fábula foram feitos filmes, desenhos animados, além de adaptações.
Muitos adultos até hoje se emocionam ao lembrar do livro.
Talvez porque tenham se tornado «gente grande» sem 'quecer de que um dia foram crianças.
«As pessoas têm 'trelas que não são as mesmas.
Para uns, que viajam, as 'trelas são guias.
Para outros, elas não passam de pequenas luzes.
Para outros, os sábios, são problemas.
Para o meu negociante, eram ouro.
Mas todas 'sas 'trelas se calam.
Tu porém, terás 'trelas como ninguém ...
Quero dizer:
quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma de elas e 'tarei rindo), então será como se todas as 'trelas te rissem!
E tu terás 'trelas que sabem sorrir!
Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido.
Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e 'tarei lá).
Terás vontade de rir com mim.
E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto ...
e teus amigos ficarão 'pantados de ouvir-te rir olhando o céu.
Sim, as 'trelas, elas sempre me fazem rir!"
«O Amor é a única coisa que cresce à medida que se reparte».
«O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção."
Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante." "
Não exijas de ninguém senão aquilo que realmente pode dar."
«Em um mundo que se fez deserto, temos sede de encontrar companheiros." "
Nunca 'tamos contentes onde 'tamos." "
Será como a flor.
Se tu amas uma flor que se acha numa 'trela, é doce, de noite, olhar o céu.
Todas as 'trelas 'tão floridas."
«Para enxergar claro, bastar mudar a direção do olhar." "
Só se vê bem com o coração.
O 'sencial é invisível para os olhos." "
Sois belas, mas vazias.
Não se pode morrer por vós.
Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece com vós.
Ela sozinha é porém mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei.
Foi a ela que pus a redoma.
Foi a ela que abriguei com o para-vento.
Foi de ela que eu matei as larvas.
Foi a ela que eu 'cutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes.
É a minha rosa." "
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas " "
Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." "
O amor verdadeiro não se consome, quanto mais dás, mais te ficas." "
Só os caminhos invisíveis do amor libertam os homens.
«O verdadeiro amor nunca se desgasta.
Quanto mais se dá mais se tem."
«Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de 'trelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla."
«Se tu amas uma flor que se acha numa 'trela, é doce, de noite, olhar o céu.
Todas as 'trelas 'tão floridas." (
Antoine de Saint-Exupéry)
«Acaso» Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso." (
Antoine de Saint-Exupéry)
«A civilização é um bem invisível porque inscreve seu nome nas coisas»,
E suas últimas palavras antes de embarcar na missão final e fatal:
«Se voltar, o que será preciso dizer aos homens?"
Ele 'creveria que " durante séculos e séculos a minha civilização contemplou Deus através dos homens.
O homem era criado à imagem de Deus.
Respeitava-se Deus no homem.
Esse reflexo de Deus conferia uma dignidade inalienável ao homem», para concluir que «as relações do homem com Deus serviam de fundamento evidente aos deveres do de cada homem com si próprio ou para com os outros».
«Havia, em algum lugar, um parque cheio de pinheiros e tílias, e uma velha casa que eu amava.
Pouco importava que ela 'tivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar;
reduzida apenas a um sonho, bastava que ela existisse para que a minha noite fosse cheia de sua presença.
Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal.
Eu me orientava.
Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da fragrância dos seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado." (
Número de frases: 157
Antoine de Saint-Exupéry)
O calor, em Juazeiro, sertão da Bahia, provoca muito mais do que arrepios.
O clima semi-árido é um ensejo para um mergulho profundo nas águas do Rio da Integração Nacional -- divisa natural entre as cidades de Juazeiro-BA e Petrolina-PE.
Mas, no vai-e-vem da vida ribeirinha, poucas pessoas se aventuram a dividir o 'paço aquático com coliformes fecais e metais como cádmio, mercúrio, zinco, chumbo etc., provenientes de 'gotos domésticos e industriais lançados diariamente no rio.
Assoreamento, desmatamento, erosão e poluição são problemas antigos enfrentados por a população do Vale do São Francisco.
Só não são mais antigos do que a herança indígena do banho de rio.
Desde os primeiros índios Cariris que habitaram o solo eutrófico de 'ta parte do sertão -- diga-se de passagem, os mesmos que encontraram numa grota nas barrancas do São Francisco a imagem de Nossa Senhora das Grotas (padroeira da cidade) -- o amor por o banhar-se é parte da paisagem local.
O próprio Darcy Ribeiro, em seus «Diários Índios (1996)», já relatou fartamente os banhos que os Urubu-Kaapor tomavam:
«Esta gente se banha que não pára.
A cada instante chega um molhadinho do córrego e, mal seca a água do corpo, volta a molhar-se».
Sem «dragões tatuados no braço», nem» calções corpo aberto no 'paço», meninos com idade entre dez e 15 anos dificilmente sabem contar a história dos índios Cariris e Urubu-Kaapor, mas são devotos da mesma fixação por os mergulhos fortuitos na margem direita do Rio São Francisco, mesmo furtando aos poucos a saúde que lhes falta.
Com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em torno de 0,683 (a média nacional é 0,800), Juazeiro pena para oferecer à população serviços básicos, como um mergulho saudável nas águas do rio.
Para a fatia da população com idade entre dez e 15 anos há um imperativo lógico:
ser criança.
E não é nada fácil ser criança em Juazeiro.
A ocupação desordenada e sem planejamento da área urbana atrofiou qualquer possibilidade de lazer no centro da cidade.
A infra-estrutura decadente não conta com 'paços de entretenimento, como parques, instalações recreativas e áreas livres.
Como conseqüência, por mais absurdo que possa parecer, a coisa mais difícil para um pedestre, em Juazeiro, é andar por a calçada, 'pecialmente no final da tarde, quando as pessoas resolvem ocupá-las para prosear as dores e delícias do dia.
Os «corações de eterno flerte», dos» meninos vadios», só encontram respaldo na beira do rio -- melhor lugar para abrasar o calor de uma tarde sertaneja.
O «salto mortal» é a principal diversão para 'quentar ainda mais o sangue antes do secular mergulho nas águas do Velho Chico.
Adaptado à areia fofa da beira do rio, o salto mortal é acompanhado de muita concentração e seriedade por parte das crianças, como se deveras representasse um ritual de iniciação num determinado grupo -- os que sabem saltar.
Há quem veja 'ta prática como uma possibilidade de recomeço, fuga do lugar comum, busca da perfeição técnica, superação, renovação etc., mas, sozinhos ou em dupla, o que as crianças adoram mesmo é serem percebidas, no clique da câmera ou no piscar de olhos dos transeuntes.
Sem platéia não há 'petáculo.
Talvez os meninos não saibam, mas o filósofo irlandês George Berkeley já definiu há muito tempo a máxima de eles:
«Ser é ser percebido».
E para quem trafega nas dez barcas que diariamente se revezam na travessia do rio, entre as cidades de Juazeiro e Petrolina, é impossível não perceber a vitória da infância no olhar de satisfação dos aventureiros ribeirinhos.
Com o olhar voltado para minha câmera, eles logo providenciaram um campeonato de saltos mortais.
A tensão flutuou em minha objetiva, a poucos passos do rio, e meu olhar oscilou entre a correnteza multicor do São Francisco e as piruetas voadoras de seus filhos.
A cada salto, fotógrafo cúmplice das loucuras humanas, só restou-me rezar (eu não sei cantar) «para Deus protegê-los».
Mas, devo confessar, a desenvoltura dos meninos é algo arrebatador -- lindo e perigoso.
Foi como se, de repente, eu me percebesse fotógrafo de um 'petáculo circense, e tal como a 'critora norte-americano Marion Zimmer Bradley, autora do livro «salto mortal», tomado de um infindável encantamento.
Passado o 'petáculo, que se repete com mais força nos finais de semana, fiquei pensando:
De o Hawaii ao Haiti, as ondas breves do rio são como os sonhos, sempre ficam à 'pera do próximo e, portanto, levam e trazem as alegrias e tristezas das águas de outrora ...
Só me resta desejar que eles desejem saltar muito além das areias fofas da margem direita do Rio São Francisco, no concorrido campeonato de saltos mortais da vida.
Número de frases: 34
A idéia é a seguinte.
Escrever um conto -- o primeiro de uma série -- a várias mãos, uma 'pécie de wiki literário.
Dou o pontapé inicial, indicando o nome dos personagem principais, algumas de suas características e local onde começa a trama.
O resto é com você que visita meu blog.
Acho que a única forma de receber os textos e de montá-los depois, dando o crédito devido, é nos comentários.
Pode ser que dê em nada.
Mas não custa tentar.
Em 'sa época de Web 2.0, as criações colcaborativas podem ser de grande valia.
A mesma técnica pode ser usada para outras coisas, como, por exemplo, a construção de um software.
Então, vamos lá.
Personagem 1: um policial de nome Silveira Campos.
É parrudo, alto, tem uns 25 anos.
Mora na periferia de São Paulo.
Silveira tem mulher, um filho de um ano.
É boa gente, incorruptível, mas 'tá numa lona que faz gosto.
Em o momento 'tá caçando um traficante de drogas, o Nanico.
Personagem 2: Marluci.
Delegada de polícia.
Titular do distrito onde Silveira trabalha.
Suspeita-se que tenha ligações com Nanico e uma queda por Silveira.
É casada, sem filhos.
O marido é empresário do ramo da informática.
Personagem 3: Nanico.
Traficante poderoso.
Atua no eixo São Paulo-Rio de Janeiro.
Fornece drogas para artistas de uma emissora de televisão, políticos e genta da alta sociedade.
Número de frases: 26
http://reporternet.wordpress.com
O indiano Nanda Kumaran é considerado um dos mestres do teatro Kathakali.
O dançarino é um dos mais reconhecidos atores da Índia, e iniciou a prática de 'sa arte aos 10 anos de idade.
Nanda Kumaran teve sua formação com gurus clássicos de Kathakali, o que proporcionou, ao longo dos anos, uma rígida disciplina e pureza nas complexas técnicas deste teatro.
Ele apresentará a magia e a importância do teatro Kathakali, reconhecido mundialmente, durante o VII Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros, dia 27 de julho, em São Jorge (GO).
Kumaran 'tudou por 17 anos para se tornar um integrante do teatro.
«Deixei de ser 'tudante aos 31 anos.
Só depois do meu casamento é que o guru me deu permissão para deixar de ser aluno», afirma.
O jovem ator conseguiu ainda muito cedo uma das maiores realizações do Kathakali, a grande competência ilimitada na linguagem corporal e gestual.
Essa antiga arte trabalha com a profundeza dos gestos, adquiridos por treinamentos intensos.
Os movimentos dos olhos, por exemplo, exigem um treinamento de no mínimo 4 horas diárias.
O Teatro Kathakali busca atingir a mais pura expressão dos nossos sentimentos, se constituindo numa forma de teatro-dança que vai além das barreiras da língua falada.
Nanda Kumaran tem muitos discípulos na Índia e fora do país, inclusive no Brasil, aonde já veio por duas vezes.
Seus workshops e performances proporcionam uma experiência única àqueles que valorizam a arte como um enriquecimento para a vida
O teatro Kathakali
As apresentações do teatro Katakhali seguem iguais por mais de 400 anos, desde o primeiro 'petáculo.
Seus atores levam em média, três horas e meia se maquiando e mais duas horas para se vestir.
O teatro Kathakali é um 'tilo masculino de teatro indiano, com raízes que antecedem a época de Cristo.
A grandeza de 'ta arte começou a crescer depois da independência do país.
Com isso, foi criada uma 'cola de artes, a Kerala Kalamandalam Government School.
A 'cola engloba em seus ensinamentos cursos profissionalizantes de maquiagem, confecções de figurinos de danças clássicas, folclóricas e rituais de Kerala -- 'tado da Índia que dá nome à 'cola e situa-se no extremo sudoeste do país -- e outros 'tados vizinhos.
Por acreditarem que o palco é um lugar 'colhido por deuses para a eterna disputa entre as forças do bem e do mal, o teatro indiano Kathakali é cheio de crenças e significados religiosos.
Suas peças iniciam-se sempre com uma canção invocatória ao som de percussão e címbalos (instrumento de liga de latão ou ferro forjado, cuja sonoridade brilhante cria «pontos de luz» numa peça musical).
Formação do ator
Em nenhuma outra formação teatral do mundo encontra-se tanta complexidade e precisão na formação de um ator como no teatro Kathakali.
Para a formação do ator-dançarino (a junção entre teatro e dança na Índia é comum porque não existem palavras distintas para os dois) deve-se começar a partir dos 8 anos de idade, e é necessário dedicação exclusiva e intensa.
Para isso os atores possuem uma rotina diária, acordando às 4h da manhã, com massagens, exercícios físicos e de olhos, treinamento de passos, coreografias e memorização dos textos clássicos e prática de ritmos.
Todo 'se processo serve para que seja desenvolvida uma musculatura fora dos padrões normais, tornando-se modelado e hábil para manter bem e agüentar a quantidade de liberação de energia durante o 'petáculo.
A disciplina dos atores é feita com severa punição dos erros, acreditando que, assim, exista um melhoramento da concentração e da mente.
A supervisão de todo 'se aprendizado fica na responsabilidade do Guru, palavra que em indiano significa «aquele que dispersa a sombra».
Curiosidades
Geralmente a apresentação do teatro Kathakali tem duração de uma noite inteira, começando ao cair da noite e só terminando ao amanhecer.
Eles obedecem a várias etapas, como numa oferenda, seguida de várias cerimônias de preparação para a apresentação.
A formação do teatro Kathakali é composta por cores, maquiagens e personagens, cada um com o seu significado.
A cor verde é usada por o herói da peça.
Existem também classificações para os bigodes maquiados nos atores, que pode ser no nariz ou no centro da testa.
Os atores de bigodes brancos são os que possuem boa natureza.
Os de cor preta são selvagens com características heróicas e os vermelhos são de influência terrível e destrutiva.
O restante da maquiagem, onde o preto predomina, é usada por moradores das florestas, caçadores e demônios femininos.
«Por ser o Kathakali uma dança sagrada e ritual para os hindus, ela se torna uma ambigüidade por demais complexa para os ocidentais.
O ocidente não entende uma arte 'piritual.
É um povo adiantado materialmente, mas muito atrasado 'piritualmente.
O Teatro é uma manifestação da alma e por isso requer devoção e fervor, pois é necessário sempre mergulhar profundamente nas coisas às quais nos dedicamos».
Agandanadam, velho sábio hindu
Número de frases: 44
Leia o texto sem pressa ...
Relaxe e goze!
PARTE 01
Hoje é um dia 'pecial ...
Estou feliz!
Descobri que 01 molécula (+) 01 molécula () 02 moléculas.
Sou um gênio!
Estudo Ciências Biológicas. Com 'sa hipótese formulei a equação da molécula de «água em pó» e fui indicado para o «Prêmio de Química Pernambucana» -- «PQP».
A votação, divulgação e premiação do «PQP» ocorrerão em Brasília no dia 30 de Fevereiro.
Em a entrega do prêmio máximo 'tarão como convidados:
os mensaleiros, sanguessugas, lobistas, senadores (fixos, móveis e cassados), jornalistas arrependidas, deputados, senadores, prefeitos, ministros, donos de rádios, jornais, revistas e tv's brasileiras que cobram o famoso jabá para divulgar a obra intelectual de um aprendiz da ciência.
Não ache que sou apenas um chato, dependente e sem dinheiro no bolso ou no banco.
Um dia ainda vou ser dono de um grande laboratório.
Com meus tentáculos de polvo controlarei os famosos «puxa-sacos» -- que dentro da cadeia alimentar do «tubarão político» -- ficam abaixo dos parasitas.
Por coincidência eles 'tão no Planalto Central Tupiniquim.
Haverá «comes e bebes».
A bebida oferecida será «Coca-Cola Pernambucana» -- água tônica com café.
Os pernambucanos não são bairristas ...
Apenas divulgam sua cultura.
Para o petisco:
carne de bode bem assada.
Justa homenagem ao antigo político «Mr. Severino».
Oxente! Até «mainha» vai gostar e lamber os dedos ...
É bom demais!
Só falta a farinha de mandioca e um cheiro no cangote!
O secretário particular do Presidente «Lula Lá» ainda não confirmou a presença do Presidente «Lula Cá».
O apoio político é algo necessário a 'se e outros humildes inventores.
Sou pernambucano, socialista, naturalista, pacifista, mulherista ...
Desculpe! Errei!
Quis dizer:
feminista. Não devia ter bebido derivados de etanol!
«PARTE 02 "
«PQP» não é Puta Que Pariu!
Não colocaria algo obsceno num texto da mais alta qualidade científica!
As preocupações são muitas ...
Não quero problemas com a volta da censura ao que for 'crito e comentado.
Uma dor de cabeça:
o voto do jurado Virgulino Ferreira (o «Lampião ") e seu bando ao» PQP», 'tá me deixando careca.
A Bancada Evangélica -- que apóia parte da minha invenção -- não quer o envolvimento material e 'piritual de bandoleiros.
Sou democrata e vou aceitar 'sa observação.
Negociar é o segredo para ganhar os votos tão importantes ao meu reconhecimento como gênio e pesquisador brasileiro.
É a sabedoria do abraço e aperto de mão nas 'quinas e vielas do acaso.
Quem tem a pureza da «água em pó»?
Quem?
Alguns colegas da área científica dizem que socialmente minha fórmula é inútil ...
«É coisa de amador ..."
Precisarei de 02 litros de «água líquida» para dissolver cada 01 litro de «água em pó».
Acho que eles 'tão com «dor de corno».
Já não conseguem ter déias brilhantes iguais às minhas.
O «complexo do alce» 'tá machucando alguns neurônios supérfluos!
PARTE 03
Não sou nordestino besta ...
Tenho consciência que o uso da «água em pó» secará todos os reservatórios de «água líquida» do Nordeste do Brasil.
Não será fácil convencer os químicos e os grandes laboratórios no embarque da parceria comercial (x) projeto universal.
Alguns têm pavor de canoa furada.
O povo pernambucano não morrerá em naufrágios ...
A maioria dos rios, açudes e outros tipos de reservatórios 'tão secos.
Lá é impossível morrer por afogamento.
Até os peixes nascem e não aprendem a nadar!
O carcará -- águia do Sertão imortalizada na canção de João do Valle -- voa com uma asa só!
Com a outra ele se abana ...
O calor é insuportável!
Se você não entendeu o segredo ecológico e político de minha fórmula social ...
Perdoe-me!
Procure 'tudar Ecologia.
A «moringa» não foi feita apenas para segurar as orelhas e nem para servir de «garagem de chapéu».
Desculpe por a educação pessoal!
Não quis ser grosseiro e nem inconveniente ...
Por possuir um «QI de Ameba» movido à meleca pura, consegui ser aprendiz de leitor nas «Ciências Ocultas e Letras Apagadas».
Tenho moral e sabedoria para dar e vender bons conselhos.
Estude! Eu sou um 'pelho das ciências e coisas inúteis no desenvolvimento brasileiro.
Não duvide da «água em pó».
PARTE 04
Aproveitando o grande momento, quero pedir que a 'colha do «PQP» (em Brasília) seja igual àquela da premiação do «Oscar» ...
Em os EUA é assim:
cartel (+) cartel (=) «Senhor Que Usa Anel».
Rimou?" Uai sô ..."
Não gostou?
Chame o Itamar!
É só assim que " nós vai de black-tie tomar um milk-shake com pão de queijo ..."
Lá mesmo:
nas terras do Tio San e Pato Donald.
Quero e vou ganhar o Prêmio «PQP».
Mesmo com ou sem lobby!
Sou nacionalista ...
O prêmio servirá para a eu colocar a «bunda» na cadeira cativa da ONU.
Não perguntem pra quê!
Não sei usar os «quês» da gramática ...
Tenho amigos poderosos ...
Até o «Bush» já entrou no «Etanol» ...
«Pra ele entrar na água em pó «é uma questão de uns» goles a mais ..."
Tenho dois assistentes:
«XI» para assuntos hídricos;
«XII» para assuntos do paladar e erros do português falado e 'crito ...
Sou cientista!
Não sou 'critor!
Bolas! A imprensa é «foda»!
PARTE 05
Um prêmio é sempre um prêmio!
É mais um troféu para ser vendido ou fundido como ferro velho, e alguns reais ou dólares depositados nas contas dos paraísos fiscais.
O grande problema é com relação à aliança com os mineiros.
«Uai sô ...!"
Não gostou?
Chame o Itamar!
Será que eles toparão uma dobradinha:
«água em pó «pernambucana (x)» leite em pó» mineiro?
E se alguém achar que é monopólio?
Posso convidar um paulista!
Esse entrará com o café em pó ...
Solúvel! Será a política do «café com leite».
Desculpe ser sarcástico!
E a «água líquida» para dissolver tudo isso?
Quem vai fornecer?
Vai dar confusão e muita poeira para a manga!"
Não " tô nem aí!"
Vou deixar que comam a farinha no mesmo saco!
Sites:
Número de frases: 117
http://lailtonaraujo.blig.ig.com.br/
Quando um grupo de dez pessoas, entre jornalistas, cineastas e amantes do cinema que fazem parte do CineClube se reuniu pela primeira vez, em março de 2005, em Porto Velho, todos falavam apenas uma língua e almejavam um só objetivo:
exibir filmes que compõem o circuito alternativo nacional e regional que nem sempre 'tão em cartaz nos cinemas.
Era o efeito da oficina do ' Cinema do Minuto ' (futuramente aqui no Overmundo), que teve a participação do cineasta Júnior Rodrigues, um dos organizadores do Festival do Minuto, em Manaus.
Surgia, assim, o CineOca -- a primeira entidade cultural sem fins lucrativos que visa incentivar a exibição de cinema de qualidade.
A jornalista e também vice-presidente do CineClube, Simone Norberto, diz que no inicio nada foi fácil.
«Após formada uma comissão, fomos em busca de apoio até mesmo para o acervo de vídeos», revela e afirma que o Sesc foi o primeiro a abraçar o projeto.
A primeira exibição aconteceu dois meses depois com o filme ' Domésticas ', de Nando Olival e Fernando Meirelles, em maio de 2005.
E o Cineoca?--
pergunta um leitor desconfiado.
É assim.
Todos os domingos, a partir das 17 horas, no audicine do Sesc cedido gentilmente, filmes, curtas e documentários, tão restritos aos 'pectadores, são exibidos gratuitamente.
E mais.
O filme termina e logo após começa as discussões sobre o que acabou de passar na telinha.
O objetivo é, caracteristicamente, disseminar produções que dificilmente chegariam ao circuito comercial e abrir as portas de acesso ao cinema para a formação de público.
O público do Cineoca é formado por universitários, artistas e amantes da sétima arte.
Simone conta que a primeira sessão exibida não contou com mais de dez pessoas.
«Chegamos a colocar uma faixa em frente ao Sesc para chamar o público, mas a aceitação e aprovação veio com um tempo», lembra.
«O mais interessante do Cineoca é a oportunidade de discutir sobre produções que ajudam a nos situar no cinema alternativo», diz a 'tudante Cláudia Alencar, que não falta um domingo ao Cineoca.
«Parece que finalmente a cidade começa a respirar cinema», aponta o cantor Silvio Menezes.
Documentários como ' Janela da Alma ', de Walter Carvalho e João Jardim, ' Nelson Freire ' (o pianista), de João Moreira Salles são considerados sucessos de público.
Desde a sua inauguração, o Cineoca vem oferecendo filmes, documentários e curtas metragens de colaboradores do projeto Br Cinema em Movimento (circuito universitário e comunitário), Cineamazônia, e produtores locais como Joeser Alvarez, Beto Bertagna, Joel Pereira e Luiz Brito, que também ganham 'paço para divulgarem seus trabalhos.
Recentemente, antes da paralisação das atividades do Cineoca por conta da reforma do audicine do Sesc, houve uma Mostra Curta Alemão Contemporâneo em parceria com o Instituto Cultural Amazônia Brasil com apoio do Instituto Goëthe de São Paulo.
As atividades retornam em fevereiro do ano que vem, e contará com a parceria do Centro de Antropologia do Teatro e Antropofagia do Cinema (Catac) com o projeto Nec-Mostra Brasil, desenvolvido há quatro anos no Acre.
Número de frases: 24
vcs vão gostar da minha musica!!!
N as minhas constantes visitas ao querido 'tado do Espírito Santo [para rever amigos (que são muitos), companheiros de arte (outros tantos), e -- ultimamente -- para as etapas de gravação do meu CD musical «A Arte Maior ...», e também apresentações e lançamentos de alguns dos meus livros], tive o prazer de conhecer e tornar-me amigo pessoal de um cara realmente fantástico (o eclético humorista / comunicador Rossini Macedo -- o carismático» Tonho dos Couros ").
Vale-se ressaltar também que Rossini foi o produtor musical e divulgador deste nosso CD, que foi gravado em Vitória / ES, e conta com 15 músicas (MPB) de minha autoria em parceira com o amigo Jorge Sales.
N ascido na pacata cidade de Picuí (localizada na região do Seridó Paraibano), Rossini Macedo desde a sua infância e adolescência já 'banjava a sua apurada veia artística e, quando resolveu levar a sério a sua carreira, criou o seu famoso personagem carro-chefe, o «Tonho dos Couros», em homenagem a um grande amigo do seu avô.
A tualmente, Tonho dos Couros (o matuto desmantelado, como também é conhecido) resgata a alegria e a cultura do povo brasileiro através do seu trabalho nas Rádios Litoral FM e Gazeta AM, com programas diários ao vivo.
Em a Televisão, apresenta quadros e campanhas publicitárias.
Também mostra seu trabalho no seu site www.tonhodoscouros.com.br, e nos seus CD's (Vol. 01 -- O Maior Desmantelo do Mundo, Vol. 02 -- Rodeio de Jegue, Vol. 03 -- Pegadinha dos Couros, Vol. 04 -- Socador de Socar Alho, Vol 05 -- Pegadinha dos Couros, Vol 06 -- Meu Jegue na Bunda Sua, Vol 07 -- Pegadinha dos Couros, Vol 08 -- Reage Corno, Vol. 09 -- 155 Piadas, e o Vol. 10 -- Um Paraixaba ao vivo e em couros -- em CD e DVD).
Lançou ainda o fantástico Livro " Sorria Nos 30 -- 1030 piadas com menos de 30 segundos (obra 'ta que tive o prazer de receber em primeira mão, por ocasião de uma entrevista que concedi a Rossini Macedo, na Rádio Gazeta -- Vitória / ES).
Faz inúmeros shows por mês em todo Brasil e também se apresenta na Europa.
O brilhante humorista Rossini Macedo, 41, que reside em Vitória (ES), incorpora, nas suas inesquecíveis apresentações, outros engraçados personagens, além do carismático Tonho dos Couros, como:
Mané Putêncio, Babal de Bedega, Sininho, Zefinha Fuá, Zé de Otila (o bêbado desmantelado), Yramil, Alisando Cresce e Edu Pening.
R ossini foi o Campeão do 1º Festival Nacional de Piadas da TV brasileira, no Show do Tom (Em a TV Record), que aconteceu em nove etapas de outubro a dezembro de 2004, onde participaram dezenas de humoristas de todo o país.
Em 2005, recebeu o troféu Show do Tom, como o melhor humorista do ano.
P ara falar dos ecléticos e prodigiosos trabalhos do companheiro e amigo Rossini Macedo, julgo-me suspeito;
porém, não poderia aqui deixar de timbrar a grandiosidade e a beleza artística desse ser iluminado que mostra, a cada dia, 'tar deveras comprometido com o ofício concedido-lhe por Deus, e prova -- com competência e humildade -- que os bons valores alcançam o horizonte azul do sucesso, mesmo após árduas batalhas travadas com o ríspido rotinomundo.
«É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que com a ponta de uma 'pada».
Esta citação, de William Shakespeare, denota toda a força e 'tesia naturalmente contidas em 'ta venturosa e transcendental manifestação 'pontânea que nos alivia ante as agruras do cotidiano:
o riso.
E somente o que transcende pode afagar a sensibilidade e exultar a alma.
P arabéns, amigo e companheiro Rossini!
Parabéns, Tonho e toda desmantelada equipe, por o extraordinário sucesso.
Que o Grande Arquiteto do Universo continue fecundando os privilegiados dotes naturalmente herdados por ti, para que possamos sempre desfrutar da inefável messe do teu talento e, destarte, buscarmos sempre a leda alquimia do 'pírito, magia imperecível que conforta e engrandece.
V iva a primazia do 'pírito sobre a matéria, que gera uma perfeita harmonia entre o corpo e a alma.
O Corpo é a forma;
a Graça é a Alma.
A Vida faz sentido;
a Graça existe;
o Sorriso é lindo!
F inalizo, repetindo a tradicional e corretíssima máxima rossiniana: "
O sorriso é a fonte do sucesso e da felicidade!--
Por isso sorria sempre!».
P arabéns, Rossini Macedo, o Príncipe do Humor Moderno!
Rubenio Marcelo
Cinco Décimas Para O Amigo ROSSINI Macedo (
O Tonho dos Couros) I.
E ra março ...
e o dia vinte e sete
De o ditoso ano de sessenta e seis:
Em 'ta data um menino, c ' altivez,
Nascia para honrar o seu Nordeste;
Picuí, num recanto lá do agreste,
Foi o torrão natal abençoado
De Rossini Macedo e o engraçado
Tonho dos Couros, matuto legal.
Deixo aqui meu abraço fraternal
A Rossini e ao Tonho desmantelado.
II.
C om criatividade e dom seleto,
Qual criança a saborear um doce,
O Rossini Macedo inspirou-se
Em o seu amigo Antônio Henriques Neto;
Seu Antônio era tido com afeto
Por o avô de Rossini, e era chamado
De «Tonho dos Couros» por todo lado ...
De aí o personagem atual.
Deixo aqui meu abraço fraternal
A Rossini e ao Tonho desmantelado.
III.
D iz Rossini Macedo e diz o Tonho:
«Nunca deixe a alegria em retrocesso;
O sorriso é a fonte do sucesso,
Traz felicidade e renova o sonho!».
A 'sência do humor é dom medonho
Que penetra na alma com cuidado;
Embeleza o 'pírito e faz agrado
Com magia 'tupenda, colossal ...
Deixo aqui meu abraço fraternal
A Rossini e ao Tonho desmantelado.
IV.
E m Rossini o humor pulsa, cintila ...
Seja em Tonho, Pening, ou seja lá Com Putêncio ou com Zefinha Fuá,
Yramil, Sininho e Zé de Otila.
Em seus shows, Rossini assimila
Cada um desses tipos engraçados;
E com seu talento mui aguçado
Deixa o povo feliz, em alto astral ...
Deixo aqui meu abraço fraternal
A Rossini e ao Tonho desmantelado.
V.
R eitero o meu abraço cordial
A ti, ó mano Rossini Macedo;
E quero terminar o meu enredo
Expressando, em verdade magistral:
Se 'tás, a alegria é perenal;
A tristeza vai embora, se tu vens;
Pois é denso o carisma que tu tens!
Mas agora irei reler, com leveza,
O Sorria nos 30, 'ta beleza
De compêndio humorístico.
Parabéns!
Rubenio Marcelo
Número de frases: 91
A Fundamento Comunicação Empresarial enviou matéria dando conta de um ousado projeto idealizado por Edson Moura (PMDB-SP), prefeito da cidade de Paulínia, no interior de São Paulo.
Caso as promessas contidas no documento sejam cumpridas, o Brasil pode receber, em breve, um pólo cinematográfico, com 'túdios capacitados e toda a iniciativa para que os diretores nacionais e internacionais possam desenvolver seu trabalho no País.
Recebido com certo receio por jornalistas e políticos, o local receberá o nome de Pólo Cultural e Cinematográfico Paulínia -- Magia do Cinema.
O 'paço será composto de três 'túdios que permitam trazer produtores de todo o mundo, além de 'critórios provisórios, oficinas temáticas e um Museu Nacional de Cinema, Rádio e TV.
O investimento é grande e 'tima-se que R$ 100 milhões serão aplicados.
O crítico de cinema Rubens Ewald Filho é o consultor do projeto.
Ney Latorraca é um dos atores envolvidos no filme Topografia de um Desnudo, primeiro a ser rodado em Paulínia dentro da proposta.
Apesar de todas as boas intenções, o clima de insegurança também paira no ar.
Outras plantas de cinema foram erguidas e divulgadas como certas e caíram antes de ser concretizadas.
Segundo Rubens Ewald Filho, em entrevista ao site Terra, o prefeito Edson Moura sempre teve o sonho de transformar Paulínia numa cidade de diversão.
Apesar de ser uma das cidades mais ricas do País, a maior fonte de renda vem da indústria petroquímica, que pode se 'gotar em pouco tempo.
Projeto Magia do Cinema
De acordo com a matéria por mim recebida, o projeto «Paulínia Magia do Cinema» é uma iniciativa pioneira em nosso país, idealizado no ano de 2005 por o prefeito Edson Moura, em sua terceira gestão.
Tem o condão de agregar ao cotidiano da cidade, uma vez que conseguirá envolver diversos setores dentro de um só propósito.
O " Projeto Paulínia Magia do Cinema, será composto de:
a) Estúdios de Filmagens;
b) Escritórios temporários para empresas produtoras;
c) Oficinas permanentes para treinamento de artistas e técnicos em produção audiovisual;
d) Museu nacional de Cinema, Rádio e Televisao;
e) Festivais que Paulínia abrigará em seu Teatro Municipal;
f) Leis de fomento à produção audiovisual;
Em síntese Paulínia terá uma verdadeira «film comission» a entidade gestora do pólo cultural, que abrigará a indústria do cinema e televisão, dotando de cursos, 'túdios, oficinas, 'colas e museu para a formacaode técnicos e artistas, voltados a pujante atividade de filmar, de retratar a vida em movimento, de elevar a cultura nacional ao seu patamar de merecimento.
Em contrapartida, o projeto tem o objetivo de desenvolver um novo segmento econômico, que possibilite o crescimento do turismo cultural e da profissionalização do povo paulinense na área do entretenimento.
Infra do Polo
a) Estúdios de Filmagens;
b) Escritórios temporários para empresas produtoras;
c) Oficinas permanentes para treinamento de artistas e técnicos em produção audiovisual;
d) Museu nacional de Cinema, Rádio e Televisão;
e) Festivais que Paulínia abrigará em seu Teatro Municipal;
f) Leis de fomento à produção audiovisual;
As filmagem do longa «Topografia de um Desnudo», será iniciada dia 28/06/06.
Primeira produção do «Pólo Cultural e Cinematográfico Paulínia Magia do Cinema», o filme resgata um acontecimento importante da história brasileira, ocorrido na cidade do Rio de Janeiro na década de 60: a» operação mata-mendigos».
Este filme, será o ponta pé inicial para o início do Projeto «Paulínia Magia do Cinema», projeto do prefeito Edson Moura, o lançamento oficial, ocorre no dia 8 de julho no Complexo Centro Cultural Brasil 500-Pavilhão de Eventos, quando também se inicia uma intensa agenda cultural para comemorar a largada do projeto.
Durante meses que antecederam a visita da rainha da Inglaterra à cidade, corpos de mendigos foram encontrados nos rios Guandú e da Guarda.
O 'tado dos corpos -- com sinais de tortura que demonstravam requintes de crueldade -- chamou a atenção da imprensa, criando uma delicada situação política para o então Governador Carlos Lacerda.
Funcionários do órgão do governo criado para tratar a questão dos moradores de rua -- o Serviço de Repressão à Mendicância -- foram indiciados, juntamente com policiais.
O jornal Última Hora, do inimigo declarado de Carlos Lacerda, Samuel Weiner, encabeçou uma campanha para incriminar o Governo.
O fato teve graves repercussões, mas foi «apagado» da história do país.
A maioria da população desconhece o episódio, que é apontado por alguns pesquisadores como a «ante sala» do Golpe de 64, com os mendigos servindo de cobaias para técnicas de tortura «importadas», que seriam posteriormente empregadas em presos políticos.
O elenco do filme é formado por Lima Duarte, Kito Junqueira, Ney Latorraca, Gracindo Júnior, além de 200 figurantes da cidade de Paulínia.
O roteiro é de Ariane Porto, baseado na peça teatral homônima, 'crita por o chileno Jorge Diaz e montada nos anos 80 por Teresa Aguiar, que assina também a direção do longa.
O longa é da Tao Produções.
Diretora com 30 anos de experiência em teatro e televisão, professora de interpretação e Mestre em Artes por a Universidade de São Paulo, Teresa Aguiar tem em seu currículo a direção de documentários e programas de ficção para televisão, filmes de curta-metragem e mais de 40 peças de teatro.
Referência na produção teatral na cidade de Campinas, ela fundou o grupo de Teatro Rotunda em 1967.
Com a criação do Teatro de Arte e Ofício (Tao), em 1984, ela dirigiu peças como A Lâmpada, Laço de Sangue, João Guimarães:
Veredas, entre outras.
Também assina o documentário em curta-metragem Uma Escola para Vitória, produção de 1993, e assumiu em 2002 a direção de atores do longa-metragem infantil «A Ilha do Terrível Rapaterra», atualmente em fase de finalização.
Número de frases: 47
www.neoxsound.com obrigado.
Certos livros têm o incrível poder de mexer com nossos sentimentos.
Trazem à tona fragmentos de memórias que fazem emanar sensações de fatos passados:
um cheiro, um som, uma paisagem, uma situação marcante, afazeres cotidianos, tudo pode provocar uma reação orgânica diretamente ligada a eventos passados.
O livro, Cidades da Mineração-memória e práticas culturais, 'crito por a historiadora, Dra.
Regina Beatriz, publicado por a EdUFMT, em parceria com a Carlini & Caniato editorial, sacudiu minha memória, provocou rebuliços orgânicos que me fizeram (re) ligar com os movimentos históricos de pessoas que foram fundamentais na formação da cidade que nasci.
Falo de Guiratinga, interior de Mato Grosso.
Os fatos narrados, rebuscando memórias, são como fios de lembranças daqueles que viveram tais fatos, trazem em seu bojo uma perspectiva poética e extremamente imaginativa.
Os relatos de Eva Balbino Guimarães, por exemplo, fluem como um rio de memórias poéticas, caudalosos, literários, literalmente um livro dentro do livro.
Achei muito interessante a riqueza da abordagem, da investigação, das relações que Regina 'tabeleceu com outros autores buscando contar a história a partir de uma noção mais aberta do tempo e seus múltiplos recortes, quebrando (pré) conceitos que mitificam e oficializam determinadas práticas reducionistas.
Ela confronta vícios historiográficos que dirigem seu foco para interpretações de 'truturas baseadas num tempo encadeado por fatos-eventos, restringindo a história a 'ses momentos eleitos, como se não houvesse um fazer cotidiano, aspectos lendários e imaginativos, férteis mentes humanas que criam realidades a partir de suas experiências.
A história se faz cotidianamente, as relações se organizam dentro de um contexto 'pecífico, do 'paço físico, da paisagem, das características das pessoas, dos novos cruzamentos que vão se 'tabelecendo e gerando novas formas de comportamento.
Em 'sa perspectiva, tudo é extremamente dinâmico.
Contar histórias é prática muito antiga e isso produz imaginários que representam e constituem as sociedades, são partes da composição das cidades e a autora foi muito feliz na extensa tarefa de pesquisar e colher relatos riquíssimos em detalhes que ressaltam as práticas culturais na formação da cidade de Guiratinga e da ocupação de toda a região do antigo Leste matogrossense.
A região ficou muito marcada por a descoberta de veios diamantíferos em terras Bororo -- nação indígena que ocupava grande extensão do território do 'tado -- que levou a deslocamentos de grande número de pessoas, principalmente do Maranhão, Bahia, Pará e Goiás, em busca de riqueza e uma nova vida.
Alguns aspectos são muito curiosos por se tratar de uma cidade que se formava em pleno sertão matogrossense, fora dos centros produtores de cultura, um lugar sob a égide da barbárie (visto por fora), contrapondo a uma idéia de civilidade, que perpassava o sentimento dos habitantes que 'colheram o lugar para se fixar, um lugar a ser conquistado e civilizado por eles.
Vizinhos (invasores?)
dos indígenas Bororo (bárbaros e selvagens, segundo a visão dos letrados), fazendeiros e do movimento intenso de garimpeiros que chegavam de todo o lugar carregando a fama de bêbados e encrenqueiros, além de seu aspecto nômade, portanto, sem compromisso com uma idéia de sociedade organizada.
Os confrontos culturais, na prática, eram constantes.
A produção de jornais literários, revistas e leituras públicas de textos, a prática teatral disseminada por os colégios, salesiano e das freiras, as festas e encontros, constituíram uma vocação e uma prática cultural que elevou Guiratinga à categoria de capital dos garimpos, a Princezinha do Leste, como era chamada.
De entre os impressos, destaque para o jornal literário, Novo Mundo, editado e produzido por Raimundo Maranhão Ayres, contador e professor de geografia que realizou um trabalho absolutamente ousado e inédito na época (de 1945 a 1948).
Segundo o poeta e design gráfico Wladimir Dias Pino, que mora no Rio de Janeiro atualmente, Raimundo Maranhão talvez seja um dos precursores mundiais da arte-correio, concomitantemente ao movimento Intensivista, que o Wlad comandou em Cuiabá.
O Novo Mundo tinha como ideal a publicação de poetas de toda a América do Sul, dos Estados Unidos e da Europa, além de circular por mais de 70 países.
Os jornais eram distribuídos a partir dos correios de Uberlândia.
Segundo o poeta da Academia Matogrossense de Letras, João Antonio Neto, que trabalhou no jornal, Raimundo Maranhão chegou a falir, disponibilizando tudo o que ganhava trabalhando em suas profissões.
Ele investiu no sonho de manter um jornal com características tão inovadoras e tão capazes de chamar a atenção da mídia nacional e de várias academias e movimentos importantes na época.
Os textos dos colaboradores 'trangeiros eram publicados em suas línguas originais:
uma autêntica babel poética.
Um artigo de Afonso Schmidt publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1946, ressaltava a surpresa de ter em mãos uma publicação tão avançada para aquele momento vinda de um lugar absolutamente desconhecido.
Como podia, uma publicação de característica tão cosmopolita, ter sido produzida no mais longínquo sertão, nos confins do Mato Grosso?
Um povoado?
Uma vila?
«Aquele jornalzinho chama-se «Novo Mundo», e o seu título, ao contrário do que tem acontecido com outros periódicos, não representa figura de retórica, mas o nome que rigorosamente lhe convém.
É um quinzenário de oito páginas, medindo palmo e meio de alto por um palmo de largo, mas as modestas dimensões são sobejamente compensadas por a obra que realiza.
Basta lembrar que o seu intuito é o intercâmbio cultural nas três Américas ...
O jornalzinho de Raimundo Maranhão Aires (é 'se o nome do seu diretor) 'tá repleto de prosa e verso tanto de 'critores brasileiros como de seus colegas de toda a América Latina, com os respectivos endereços, para o caso dos leitores daqui e de alhures desejarem corresponder-se entre si.
Em 'se elenco internacional encontram-se representados homens de letras argentinos, uruguaios, chilenos, bolivianos, paraguaios, hondurenses, equatorianos e «tuttiquanti».
Supõe-se que um periódico disposto a realizar obra tão viva e oportuna tenha a redação no Rio de Janeiro, Recife, Salvador, São Paulo ou Porto Alegre, quando menos por a facilidade de comunicações com o mundo.
Esse não.
Uma das maiores curiosidades que surpreendem aos leitores é o seu endereço:
Povoação de Guiratinga, perto da Vila do Lageado, Mato Grosso.
... Foi lá, tão longe, que o poeta pendurou a lâmpada do seu sonho, para ser vista e compreendida em todos os ângulos da América." (
Afonso Schmidt, O Estado de São Paulo, em 15-02-1946)
O poeta acadêmico João Antonio Neto, figura de peso em Mato Grosso, num de seus relatos no livro, descreve:
«Sobre a penetração do Novo Mundo, o adjetivo apropriado é:
incrível! Quando fui secretário de redação, o jornal atingia mais de setenta países (setenta e três, se não me falha a memória) e com todos mantínhamos correspondência."
Segundo Regina Beatriz, em sua pesquisa, " apareceram condecorações e distinções de diversas academias, como a Academia de Letras da Bahia, do Rio Grande do Sul, Paraná, Academie Palatine de France, e, ainda, de várias associações de 'critores, da Bélgica, de Nova York, Uruguai, Argentina.
Além disso o Novo Mundo recebe convites para colaborar com jornais e revistas literárias tanto de países americanos, quanto europeus."
Regina 'creve história por um viés literário, extremamente agradável e de rara pertinência.
Sua 'crita revela um olhar sensível, uma poética madura que redimensiona o valor da história local, universaliza, expõe uma realidade que conecta todos a uma dimensão humana, de qualquer aldeia a qualquer capital do planeta.
Em seu livro podemos perceber a importância da cultura no modelo de sociedade que os novos habitantes desse lugar inóspito elegeu:
o teatro, as festas, a literatura, o rádio, o cinema, as revistas que vinham do Rio de Janeiro, a moda, enfim, tudo era parte de uma efervescência que animava e dava o suporte necessário para que a pequena Guiratinga assumisse a condição de centro cultural mais importante da região na época.
Muitos e bons artistas, intelectuais e comunicadores, que hoje ocupam 'paços importantes em Mato Grosso e várias outras cidades do país, são filhos desse lugar.
Como uma garimpeira, a autora nos oferta o olhar com 'se diamante:
Número de frases: 54
«Mas 'pera-se, basicamente, que haja correspondência entre vida e literatura e que os destinos representados aqueçam as almas em sua fria solidão e ofereçam paisagens com o poder de nos transportar do mundo aqui vivido."
Com o tempo vocês vão me conhecer melhor e ver como sou modesto pra caramba, que sou tímido e quase não falarei de mim, pelo menos não na terceira pessoa.
Por isso me atrevo a contar um lance que aconteceu com mim em setembro de 2005, numa cidade 'tranha, chamada Curitiba.
Sexta-feira, stress total!!!!!!!
Em meio a notícias boas (Weezer no sábado, meu curta na TV), a incerteza dos ingressos para o show.
Até às 4 PM de sábado, a ansiedade ante a possibilidade de ter ido até Curitiba e não ver o show me devorava as entranhas.
Onde tava o cara que ia conseguir 3 ingressos para a gente (orkut é phoda)?
5 minutos antes do prazo regulamentar o bicho interfona e passa por o portão os famigerados.
Lá se vão os 60 mangos mais bem gastos da minha vida.
Beleza!!!!
Agora é só alegria!!!!
Enchemos a cara no larápio da Belina e continuamos a beber num boteco cujo nome não me lembro até à meia-noite, hora que um segurança dedurou a chegada das vans com os caras da banda.
2 vans chegam.
Só vi o baterista (aquele que foi seqüestrado por a Miss Piggy) e o guitarrista na última.
Parece que o Rivers chegou dentro do bolso de alguém por isso não vimos ele.
E eu que pensei:
ié, isso é o mais perto que vamos chegar de eles hoje!
Por a hora ia ser um inferno chegar até a grade.
Uma hora avançando a passos lentos, tomando os interstícios (saúde!!!)
entre as pessoas eu 'tava próximo à grade.
Os roadies afinavam e reafinavam os instrumentos.
Até que lá por a 1 e pouco apaga a luz e eles entram.
My name is Jonas na mente!!!!!!
Tá o show foi ducaraio, reforçaram a segurança na grade, um dos tios balançava a cabeça ao ritmo da música enquanto tentava conter o povo.
Como poderia ficar melhor?
Sabia da possibilidade de eles pegarem alguém na platéia e chamar pra tocar «Undone».
Ainda na ida para a CWB brinquei com uma amiga minha que 'se alguém ia ser eu.
A hora que o Brian foi 'colher eu comecei a empurrar a galera que tava em volta com o braço levantado e pular mais alto que todo mundo.
O cara apontou pra mim, eu apontei pra mim como se pedisse confirmação, ele confirmou e então os seguranças liberaram a minha passagem até o palco.
Pulei a grade, alguém deu uma força.
Valeu, quem quer que seja você!
Ainda ouvi um:
Vai lá, bonitinho!,
enquanto eu aterrissava do outro lado.
Nem me lembro como cheguei até o palco.
O Brian perguntou meu nome.
Pow, cara não faz pergunta difícil!!!
eu:
Leandro!
ele:
Reandrou?!
eu:
Leandro! Leandro!,
desisto ...
Reandrou, ele disse já anunciando no microfone.
O roadie me deu o violãozinho e quando vi tava acompanhando uma das minhas bandas favoritas.
Inacreditável!!!!
O momento mais foda foi antes de começar quando vi aquele monte de gente no setor Viaipi e o povo na frente do palco.
Avistei todo mundo menos as minhas amigas.
As caras de cada um eu não 'queço, até daquele que tava tirando meleca do nariz e passou nas costas de uma mina e ela nem sentiu.
Sério!
Não pensei em nada, só contemplei a galera e me preparei para não perder a entrada da música.
Fui adquirindo confiança aos poucos, já tinha feito isso antes mas não na frente de sei lá 5 mil pessoas.
As primeiras notas claro que sairam erradas.
Eu não tocava havia 7 meses desde o acidente ...
Ná, nunca houve um acidente, mas a possibilidade dramática ia fazer a raça chorar se fosse num filme.
Dramática foi apenas a pausa calculada que eu fiz quando eles pararam.
Lá por as tantas comecei a interagir com o Rivers, aí sim ...
Fiz pose, fui pra perto do batera e perto do fim, fiquei eu e o guitarrista preparando o pulo na virada do Pat.
Eu ensandecido gritando:
vamo lá, vamo lá!
Chegava ao fim minha participação.
Cumprimentei os músicos, tapinha nas costas do Rivers não é pra qualquer um.
Ié!!!!!!!!
Fiquei no palco num cantinho, autógrafo não rolou.
O roadie ainda me deu o arrego de assistir à penúltima música do palco, me deu um jogo de cordas e várias palhetas que acabei distribuindo entre as fãs que me recompensaram com sexo oral.
Antes de acabar o show o produtor gringo gentilmente me retirou do palco me encaminhando para a área Vip.
Lá começou o «assédio» e muita vódega com energético na faixa.
«Cara, tu mandou bem!»,
ouvi de várias pessoas enquanto circulava por lá.
Acho que era por educação, a raça desse setor privilegiado deve ter tido uma educação melhor que a da choldra lá embaixo.
Hahahaha! Mas eram genuínos os elogios.
E eu louco pra mijar, tava segurando desde à meia-noite.
Em o caminho para o WC, um cara com sua mina me pede para tirar foto com ele e mostrou um mpegzinho deu tocando.
Antes de chegar na porta do banheiro, alguém me dedurou prum repórter do JB.
Ele pegou meu nome, anotou num bloco, perguntou se eu tocava numa banda, disse que não desde 2000, falei que sou cineasta, fiz o jabá do meu curta e sei lá quando vai sair isso.
Umas minas ainda me convidaram pra sair num tal de Wonka, deve ser o equivalente a um Underground (R.I.P.) curitibano.
Em o fim das contas acabei num ônibus cheio de cariocas indo para o Rio.
A gente ficou no hotel de eles e fui cercado de mais parabéns e quetais.
Número de frases: 79
Se eu tava me sentindo o cara, imagina o pessoal da banda na festinha no camarim com direito a japonesas e outras iguarias.
Em o início de outubro passado uma bomba caiu sobre alguns corpos, corações e mentes apaixonados por música em Curitiba -- principalmente para quem prefere sons que vivem no subterrâneo, cavando circuitos que sirvam de alternativa ao marasmo criativo que se apossou do mercadão da música brasileira.
O circuito alternativo de música brasileira (onde 'tão os grupos que trabalham por conta própria, sem apoio de gravadoras) levou um susto com o anúncio feito por o músico JR Ferreira que depois de 14 anos, o seu bar, o Espaço Cultural 92 Graus, fecharia, encerrando uma verdadeira história de amor com o chamado ' porão mais rock de Curitiba '.
O último show foi no dia 23 de dezembro.
Porém, existe a chance de que ele se mude para outro endereço e mantenha o tradicional só para eventos sem música ao vivo e teatro.
O 92, como é chamado o pub nascido em 1991 com o nome de Ninety Two Degrees, foi em 'ses anos o principal endereço para 'se tipo de banda, não só as curitibanas, mas as brasileiras e algumas internacionais.
Ali acontecia o mais antigo festival de música independente brasileiro, e também o maior que se tem notícia, o National Garage, cujas primeiras edições foram em 1992 e que reuniu em novembro passado cem bandas em dez dias.
O fotógrafo, videomaker e ex-dono de bar Marcelo Borges conheceu o 92 quando nem era bar ainda.
«Comecei a filmar por causa da banda de ele e continuei por causa do 92.
Onde mais eu teria contato direto com os grupos?»,
lembra o curitibano hoje radicado em Londres.
Borges rememora o tempo que tinha um laboratório embaixo da 'cada do bar.
«Fiquei lá um ano e o lugar me inspirou também a abrir o meu próprio, o The Hole, que dividiu com o 92 os shows da primeira edição do festival Big (Mostra de Bandas de Garagem)», conta ele, completando que durante muito tempo o 92 foi o único 'paço para bandas com repertório próprio, pois imperava o cover.
«Ele nunca usou 'se tema fácil.
Mesmo pouco antes de fechar, ao invés de lotar a casa com tributos feitos para bandinhas da moda por bandinhas da moda, ele apostava nas novatas de hardcore, que ninguém conhece.
Se toca mal ele diz que os caras precisam de lugar para ensaiar e aprender.
A integridade que o JR tem com as bandas curitibanas de música própria, nem elas têm com si mesmas», afirma.
Borges, radicado em Londres, onde trabalha em casas de shows e com produtores importantes do circuito inglês de música, diz que a notícia do fechamento do bar demonstra a forma como Curitiba age com seus filhos.
«É triste, porque mostra como ela faz de tudo pra sacanear e pisar na cabeça de quem faz alguma coisa.
Curitiba enquanto 'trutura de Estado, 'tou falando», avalia.
Para ele, o 92 é um igreja.
«É um templo.
Vai ficar para história e daqui há 200 anos quando se contar um trecho da história da cidade, alguém vai lembrar desse bar», diz.
O endereço que já foi citado até em capa de disco ainda é o xodó dos independentes curitibanos e serviu de base também para cena alternativa brasileira que brilha agora, quando nos primeiros anos da década passada era um dos 'cassos endereços com 'trutura razoável para os shows de ilustres desconhecidos.
Ferreira não ficou só no bar e também lançou o selo Bloody Records, colocando em 1993 num então inexistente mercado independente 11 caprichados compactos de bandas de sua cidade.
E não era uma época em que qualquer um podia gravar seus discos no quarto, como hoje, o que os torna mais valiosos.
Ferreira sempre levou seus projetos dentro do lema punk, faça você mesmo.
Só teve um pequeno apoio público há 3 anos.
Ele é um agitador cultural que conquistou um 'paço com competência e uma personalidade boa praça, sempre com disposição para ajudar que os outros façam «um som».
O 92 é daqueles lugares onde os freqüentadores se sentem em casa.
Em 'se tempo em que o 92 'teve aberto, Ferreira calcula, por baixo, ter feito no bar uns 6 mil shows.
Só ano passado ele teve que abrir o porão para 30 sessões duplas, por conta de um público capaz de lotar o bar que ficava do lado de fora.
Mesmo contraditória, 'ta parece ser a principal razão para que ele tenha tomado a difícil decisão.
Difícil porque, embora visivelmente cansado, é fácil notar o prazer que ele tinha em 'tar lá, onde antigamente era a lavanderia da família e que deu os passos iniciais abrigando ensaios de teatro e da sua primeira banda de rock.
A tal decisão foi tomada, segundo ele, para evitar tensões com a vizinhança.
O astral do lugar é o que mais impressiona quem o conhece, e isso inclui gente como o produtor Carlos Eduardo Miranda e o produtor da MTV José Algodoal, que tocou lá com a sua banda Pin Ups.
As paredes são cobertas com os cartazes de tudo que ele já fez lá dentro e de outros eventos importantes para a cultura underground, além de alguns grafites, fotos e souvenirs, como o tênis destroçado de um dos Fugazzi.
Em seus 14 anos, celebrados em dezembro passado, pouco antes do fechamento, nunca se teve notícia de uma briga sequer.
Como disse em entrevista Seu Geraldo, o pai de JR e bilheteiro do 92: " A garotada só quer se divertir, e fazer aquela dança 'quisita de eles.
Eles cuidam do 92 como se fosse a casa de1 eles».
Mas teve que superar as pendengas legais com a Prefeitura da cidade, por conta de 'tar numa área residencial.
A situação foi resolvida e nos últimos 3 anos o bar curtia a legalidade promovendo shows que tinham de terminar até 23 horas o mais tardar, e investindo pesado, no que o levou ao sucesso, as domingueiras à tarde.
Tem gente querendo acreditar que, como outras vezes, ele não leva a cabo sua decisão.
Ferreira, no entanto, reassegura que é melhor assim, para evitar problemas com a vizinhança.
Mas, sabe-se que 'tá tentando encontrar um outro endereço onde possa continuar a produzir shows.
O número 294 da Visconde do Rio Branco, que é de sua família, garante, ano que vem só terá teatro e eventos sem música ao vivo.
Mesmo assim, quando você, que gosta dos temas tratados no projeto Overmundo, vier a Curitiba, traga anotado 'se endereço.
Ele é obrigatório.
Número de frases: 48
-- Tradição preservada
A cidade de Crixás, antigo Arraial de Nossa Senhora da Conceição 'tá localizada na Região Norte de Goiás, no Vale do Araguaia, ficando distante de Goiânia 320 Km e 354 Km de Brasília.
Crixás teve seus dias de glória na época da mineração e por isso possui várias igrejas católicas como a de São Gonçalo, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora da Conceição e outras.
A Festa do Divino Espírito Santo acontece no mês de junho é uma manifestação da cultura popular que o grupo coordenado por o sr. Joaquim Maciel de Lima faz questão de preservar e para isso tem o apoio da prelazia local, o que não é comum nas outras cidades do interior de Goiás.
Em o VIII Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros 'se grupo fez uma participação 'pecial juntamente com outros de várias regiões do Brasil.
O grupo de Crixás é formado por 22 pessoas que fazem questão de manter viva 'sa tradição.
Seu Manoel Dias (68) um dos integrantes diz:
-- Nóis ta ficando pouco, os mestre vão morrendo, então nois tem que ensina as criança pra brinca com nois!
Pois isso cumeçou desde a época dos bandeirante, num pode acabar!
Fala exibindo um pandeiro feito com cipó de leite, tampinhas de garrafas ou pedaços de zinco e o fundo de plástico de garrafa PET, de sua criação.
Sebastião Dias (54), acredita que a catira é de origem das rodas de boiadeiros que compravam e vendiam gado ou seja, catiravam a mercadoria.
-- Catira é o jeito de trocar um animal por o outro, então os boiadeiro viajava a cavalo fazeno isso.
A noite em redor de uma fogueira eles dançava e ficou a dança com o nome de catira.
O grupo tem outros ritmos além da música da folia e da catira:
o batuque de chegada, o ponteado, a avadeira, curraleira e outros.
Sr. Joaquim Maciel de Lima (78) ex-prefeito de Crixás e líder do grupo sabe que 'sa tradição é importante, existe há mais de 200 anos, inclusive em sua família, que é pioneira local.
Considera muito importante a preservação de 'sas manifestações e por isso 'tá à frente do grupo ensinando crianças e envolvendo toda a comunidade.
Seu Joaquim Maciel com muito respeito cita milagres presenciados em 'ses anos como a cura de um neto seu e o caso de uma professora que sofreu um acidente e ficou na cadeira de rodas e relata:
-- Em o dia da folia passar por a sua casa como é o costume de passar nas casas, a enfermeira se preparava para levar a cadeira para a ela ir at à porta para receber a Folia.
Quando voltou com a cadeira, a professora já 'tava de pé na porta 'perando a bandeira.
Todos presenciaram 'se milagre!
Em o VIII Encontro de Culturas Crixás se juntou à outros grupos formando uma grande festa.
Donas de casa, lavradores, crianças, enfim todos mostrando suas raízes, que são artistas e sobretudo como é importante a preservação das manifestações culturais brasileiras.
Número de frases: 23
... do rock que ouviu, no carro do Raul lá-lá ..."
¹ Ouvir no rádio uma musica que gosta é realmente diferente de ouvir no CD.
Mesmo que seja no rádio do carro e tendo o CD no carro.
Em o rádio é mais emocionante.
O fato de saber que pessoas nos mais diversos lugares 'tão ouvindo a mesma música que você, e no mesmo momento, deixa as coisas na mesma freqüência, criando uma 'pécie de ligação entre os seres humanos por as ondas do rádio.
Uma comunicação telepática entre pessoas que nem se conhecem.
A cena do filme «The Wonders» que mais me emocionou foi quando eles ouvem a música no rádio pela primeira vez.
A banda 'tá em pontos diferentes da cidade.
Um ouve no carro, outro na loja em que trabalha, a namorada do cantor ouve no seu modelo hi-tech de walkman, em meados dos anos 60, época em que se passa o filme de Tom Hanks, feito em 1996.
Todos, ao ouvirem a música, vão correndo se encontrar no mesmo lugar, sem marcar nada.
Não havia celular.
Se encontraram na loja de Guy Patterson, o baterista da banda, para celebrar aquele momento.
Vez ou outra, um amigo ou um parente me liga para dizer que «acabei de ouvir uma música da sua ex-banda na rádio».
Eu nunca tive a sorte de ouvir quando 'tava na banda, o que me deixava frustrado, mas hoje continuo com a sorte de ainda não ouvir, o que me deixa aliviado.
Ultimamente, quando me perguntam o que mais tenho ouvido, respondo «Daniela Mercury».
Por conta de algumas de 'sas músicas que 'tão tocando serem também de minha autoria, fui editá-las, para que, pelo menos, eu possa ganhar algum dinheiro com isso.
Amigos do ramo me indicaram editoras e 'colhi por a Páginas do Mar.
A o adentrar no recinto, a decoração me disse que a editora era de propriedade da cantora Daniela Mercury.
Fotos e mais fotos de ela 'palhados por o ambiente.
Em 'se primeiro dia que fui lá, só me incomodei com o silêncio de museu da casa.
Nem uma musiquinha tocando.
Cadê a alegria?
Alegria agora.
Agora e amanhã.
Porém, o profissionalismo da instituição me deixou à vontade.
Como tenho ligado com uma certa freqüência pra lá, para resolver questões e ou marcar reunião para ler contrato, enviar documentos, assinar contratos ...,
tenho ouvido Daniela direto.
-- Um minutinho senhor que já vou passar a sua ligação -- diz a telefonista da casa, me deixando na 'pera ouvindo um sucesso radiofônico da cantora.
Se um dia colocarem «não, não, não me abandone», acho que abandono a editora.
De que adianta toda a tecnologia, toda a velocidade de informação, toda a pesquisa do ramo da informática, os HD's de um terabyte, supercomputadores com infinitas memórias RAM, ultra processadores com milhares de Ghz, wireless ...
se ainda existe no mundo um lugar chamado Cartório?
Dei uma assinatura mal dada em 'ses contratos de edição e tive que ir num cartório para mudar a minha firma.
Tinha feito ela tempos atrás e, com o advento da informática citado no parágrafo anterior, minha letra piorou muito a ponto de minha assinatura não ser mais reconhecida.
Tive que ir no cartório atualizar os meus arquivos.
Depois de conseguir um milagre e encontrar uma vaga em frente ao Pituba Parque Center, onde fica o cartório em que registrei minha firma, o guardador de carros disse, assim que eu saí do carro:
-- Boa tarde senhor, dois reais na volta pra ajudar, e Jesus é a salvação.
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vai ao pai se não for por mim." --
João, cap ...
-- Nããão, é Jesus, Jesus é a verdade, só Jesus -- disse ele me interrompendo.
João, capítulo 14, versículo 6, que diz " Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vai ao pai se não for por mim " é a única citação que sei de cor.
Ia finalmente usá-la, mas o guardador não deixou.
Ri e fui em direção ao cartório.
Eram 13:30. Perguntei ao segurança o caminho do 'tabelecimento e ele mandou eu virar a 'querda e ao ver uma fila, parar.
Era ali.
Logo na entrada do cartório tem um balcão 'crito «Senhas e Informações».
Fui pedir uma informação.
-- Boa tarde, quero saber se ...
-- Pegue a senha.
Próximo.
Por o 'tado em que a atendente 'tava, por a postura na cadeira, por o semblante e por o corte de cabelo, achei melhor pegar logo a senha.
Senha 129.
Ao lado do balcão de ela, um outro balcão de uns seis metros de comprimento, onde as pessoas são atendidas.
Em frente a 'se balcão de seis metros, cadeiras para 'pera, com pessoas 'perando e olhando o letreiro que mostravam as senhas.
Fui olhar o letreiro para ver em que número 'tava.
Número vinte.
Olhei para o meu papel e confirmei o absurdo:
ele realmente tinha 129 'crito.
Olhei de novo para o letreiro, ainda sem acreditar, e ele marcava vinte.
Ainda 'perançoso, pensei que o letreiro, de repente, poderia 'tar com defeito e na verdade a senha ali é 120.
O «1» poderia 'tar apagado, mas olhei para a quantidade de pessoas 'perando e constatei que eram muito mais que nove.
Um office-boy me confirmou que o letreiro 'tava certo.
Me mostrou com orgulho a sua senha de numero 21. Aí passei a achar que valia a pena enfrentar o humor, a postura na cadeira, o semblante, o corte de cabelo e voltei ao balcão anterior.
Como 'tava com a máquina fotográfica na mão, tive a idéia de apenas pedir para só olhar a minha assinatura, pois bateria um retrato e aí poderia fazer igual quando fosse assinar.
Ingenuamente, tive a 'perança que para 'se serviço de apenas olhar, não precisaria pegar a fila.
-- Próximo.
-- Olhe só, eu só queria ver a minha assinat ...
-- Já pegou a senha?
-- Já, mas é que ...
-- Só com a senha.
Próximo.
-- Tá no numero 20, a minha é 129.
É isso mesmo?
-- Isso, tem 99 pessoas na sua frente.
Próximo.
-- Não.
Tem 109 -- disse eu.
-- Isso, 109, pior ainda.
Próximo.
Um milhão de pensamentos sobre o que fazer veio em minha mente em 'sa hora:
(a) se acalme e 'pere.
(b) desista e volte outro dia.
(c) Vá tomar no c ...
sua filha da p ...
Achei a resposta num comunicado ao lado do balcão, que dizia que se eu marcasse a letra «c», 'tava arruinado.
Eu tirei uma foto do comunicado, para poder reproduzir com total fidelidade aqui no texto.
O comunicado dizia:
Você Sabia que:
Conforme O ARTIGO 331 Brasileiro, O Desacato ao Funcionário Público no Exercício De Sua Função, Ou em Razão De ele, Prevê Pena De Detenção DE 06 (Seis) Meses A 02 (Dois) Anos Ou Multa.
Agora a melhor parte do comunicado.
Condutas
Consideradas Desacato:
Insultar
E ESTAPEAR A Vítima;
Riso; Atirar Papéis no Balcão, Em o Solo Ou Rasgar;
Proferir Palavras De Baixo Calão; Agressão Física;
BANDIR Armas Com Expressão De Desafio;
Provocação De Escândalos Com Altos Brados, Expressões Ou Gesticulações Grosseiras E Ofensivas;
E Caçoar da Vítima.
Esse comunicado deixa o cidadão completamente indefeso.
Ele só pode respirar.
Nem rir pode.
Quando li a palavra «Risos», quase gargalhei, mas engoli o riso, poderia ser preso.
Rir naquele lugar é pena grave.
Fico pensando como seria bandir uma arma sem expressão de desafio.
Aponta uma arma para o cabelo de ela e diz, sorridente:
-- Boa tarde, tudo bem?
Quero uma informação ...
Note que a palavra «bandir» 'tá 'crita de forma incorreta.
Mas no comunicado, ela 'tá assim mesmo, «bandir».
Porém, alguém ali achou melhor consertar de caneta ao invés de ir no Word e imprimir outra folha.
Botou um «r» entre o «b» e o «a», corrigindo o erro, deixando» brandir».
Os erros de eles são corrigidos de 'sa forma, sem burocracia, numa canetada, sem ter de ir no sistema, porém nós temos que 'perar para resolver problemas tão simples.
E 'perar muito.
Sentei e 'perei por exatos 10 minutos.
O rapaz de número 21 roia todas as unhas e não satisfeito, roia também o bocal de sua caneta bic.
Achei melhor dar uma volta por o Pituba Parque Center.
Olhei umas revistas, tomei um café, comprei um fio de extensão trifásico para o meu computador, tudo lentamente, sem pressa e, exatos 25 minutos depois, voltei.
O letreiro marcava o numero 30.
Em 'sa hora bate um desespero em saber que se desistir, a ultima hora foi toda perdida, assim como, a agenda de afazeres do dia.
E bate um desespero maior em constatar que 'perar, e calado (tinha um PM de plantão lá), é a melhor opção.
Resolvi dar outra volta e fui num shopping ao lado, o Boulevard 161, onde tem uma livraria.
Fui devagar, olhando o movimento, os transeuntes, as vitrines ...
entrei na livraria, folheei livros, li trechos de alguns, encontrei um amigo, conversei ...
tomei um suco de maracujá e após exatos 40 minutos, voltei calminho, calminho ao cartório.
O suco de maracujá adiantou.
Se não fosse ele eu teria sido preso.
O letreiro maldito marcava a senha de número 42.
Sentado nas cadeiras de 'pera, avistei um amigo, Bruno Mocotó, a senha de ele era 70. Disse que me vendia por 50 reais.
Saí de novo, tomei outro café, olhei outras revistas, fui numa agência de propaganda que trabalhei e que era ali perto e voltei uma hora e meia depois.
Parece que resolveram sair do ponto morto e engataram pelo menos a primeira marcha.
Estava na senha 108.
Sentei para 'perar.
Não correria o risco de sair e voltar depois de 30 minutos pra ver o letreiro marcando «senha 130».
Vai que eles resolvem engatar a segunda.
Em a minha frente, vi outras duas mensagens coladas na parede.
Uma era:
«Senhor!
Em 'te local abençoe quem entra, dê paz a quem fica e proteja quem sai», que depois vi que 'sa mesma mensagem 'tava em todos os biombos do local, e a outra era:
Aviso.
Distribuiremosddd200 (Duzentas) Senhas em Cada Turno.
PELA Manhã, A Partir DAS 8H.
E Por a Tarde, A Partir DAS 13H.
Alguém, correndo o risco de ser preso, 'creveu de caneta " Por que?" no 'paço em branco abaixo desse aviso.
Um outro alguém, correndo o risco de ser morto, 'creveu de caneta a resposta «porque aqui só tem vagabundo».
Para 'se papel ainda 'tar lá, aquilo deve ter sido feito naquele dia.
Chegou minha vez.
Fui na direção da mulher que me atenderia e já fui observando.
Era igual a do balcão de informações.
Idêntica. Postura péssima na cadeira, cara fechada, impaciente e com um crucifixo pendurado no pescoço, que me fez lembrar do guardador que 'perava os meus dois reais.
Ela 'tava a frente de um computador da década.
De a década de 90.
Tive medo de dar boa tarde e ser preso.
O PM 'tava ao lado de ela.
Expliquei o que queria e quando ela ouviu que eu pretendia bater uma foto da minha assinatura, aconteceu um milagre.
Jesus!, ela riu.
-- Tirar um retrato?--
disse ela.
-- É.
Ela então voltou ao seu 'tado normal, respirou fundo, balançou a cabeça negativamente, olhou para o policial, e sem o menor constrangimento de eu 'tar ali do lado, disse:
-- Mas é cada um que eu encontro aqui ...
Ai Meu Deus, não sei não, viu ...
O que eu faço meu Deus?
A identidade por favor, meu filho.
Sentindo o olhar de 70 pessoas sobre mim, entreguei minha identidade.
Ela respirou fundo de novo e com muito 'forço se levantou da cadeira e foi até o armário de ferro procurar a minha pasta.
Voltou depois de oito minutos.
Não precisaria bater a foto.
Fiz uma nova assinatura.
Registrei a que modifiquei naturalmente.
Mas bati a foto só pra pirraçar.
-- Vou ter que 'crever um livro -- disse ela, ao devolver minha identidade.
-- Sobre os absurdos que você vê aqui?--
perguntei.
Ela respondeu com um balançar de cabeça e fazendo cara de que 'tá de «saco cheio».
-- Então eu vou fazer um texto ...--
disse eu.
» ... e em ele vou mandar a senhora para a PUTAQUEPARIU», pensei.
Número de frases: 179
(1) Meu amor que mau humor, Blitz, de Evandro Mesquita e Antonio Pedro.
Olho em volta no ônibus.
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete pessoas 'cutando música.
As sete com o fone característico do iPod (todo branco).
Chego ao destino.
Meu amigo 'tá caminhando em minha direção e já vamos nos falar.
Digo «oi» e ele «quê?».
Ele também 'tá com o fone branco no ouvido.
O caso é que sempre quis ter um tocador de MP3 e 'se texto na verdade pode ser só inveja mesmo.
Mas confesso aqui que tem começado a me irritar o distanciamento que dois fones de ouvido podem causar numa pessoa.
Sempre gostei de observar gente em ônibus, o comportamento, como é conseguir ficar calado e parado por tanto tempo sem ter muito o que fazer.
Ficava vendo aquelas mulheres grandes e gordas aparentemente desprovidas de vaidade.
O que me deixava perplexo é que a maioria de elas usava um brinco, uma pulseira, algum relicário que denotasse que a preocupação com a aparência ainda 'tava lá.
E elas se mexiam e conversavam como senhoras que sabem que podem 'tar sendo observadas.
E era bobo mas feliz notar que mesmo no insuportável engarrafamento de todo dia a vida corria naquele lugar.
Me confortava também saber que podia ter gente pensando e me fitando da mesma forma.
Pois bem, nem mulheres gordas caladas eu vejo mais em ônibus.
Não noto mais vida no local.
A cada dia que passa, é maior o número de passageiros com fone no ouvido, ausentes para o mundo do ônibus, mergulhados num mundo que não permite acesso.
Em uma aula de roteiro de cinema, um professor disse uma vez -- «o melhor aluno daqui será aquele que conseguir me dizer perfeitamente como era e como 'tava vestido o trocador do ônibus».
Acho que foi o momento mais glorioso de toda a minha vida de 'tudante, porque sabia descrevê-lo 'culpido e encarnado.
E sabia simplesmente porque na hora em que lhe dei o dinheiro o rapaz me olhou no olho e falou:
«obrigado, bom dia».
Pronto! Assim, por conta de três palavras podíamos afirmar que 'távamos no mesmo mundo e fazia sentido que eu soubesse como eram suas feições.
Mas, meu deus, agora são tantos zumbis no ônibus, num transe tão longe de mim que eu nem sei mais a cara do sujeito que sentou ao meu lado.
Pensar assim de 'sa tecnologia é triste.
Triste porque é desse viés de livre acesso à cultura que venho alegrando minha vida há alguns anos.
É por conta desse livre acesso que vou poder ver o último capítulo do Lost amanhã mesmo, algumas poucas horas depois de passar na TV norte-americano.
É por conta desse livre acesso que eu vi ontem de madrugada o clipe do Magic Numbers na MTV e pude ouvir a linda música novamente no computador.
Não por menos, eu consigo assistir no YouTube ao vídeo do show do Weezer no Brasil ou às incríveis jogadas do Ronaldinho Gaúcho no Barcelona.
Até mesmo a foto desse texto só foi possível porque o site Flickr disponibiliza parte de seu banco de imagens em Creative Commons.
E me alegra ainda mais pensar que tudo isso podia 'tar sendo cobrado e não 'tá e que as grandes empresas 'tão loucas porque, de certo modo, foram elas mesmas que criaram a «armadilha da tecnologia» para si próprias.
Mas, não posso fechar os olhos para o que os meus olhos não 'tão vendo.
Perder de vista o sujeito que 'tá ao meu lado justamente porque ele 'tá viajando num mundo de tecnologia que não possuo é motivo de preocupação.
Não quero que 'se mundo virtual roube a proximidade do meu mundo real não, nem mesmo se 'se mundo virtual 'tiver à distância de um aperto de botão.
Número de frases: 35
eu com muitos dedos pra falar dos artífices?
Os compositores falam sobre editais, vi Cartola na fila, ele olhou-me dos pés à alma, e me disse:
«longe do céu tudo é chão».
Pouco entendi as suas palavras.
O rumo dos rumos dos meios ...
Foi a conversa que consegui ouvir, era Pixinguinha e Jackson do Pandeiro, pareciam tristes, pareciam velhos, cansados ...
Lá na ponta da fila havia uma turma de jovens:
Cazuza, Renato Russo e outros ...
Pareciam felizes, riam bastante, eram os únicos que 'tavam sentados ...
Cocei a cabeça e percebi que 'tava no lugar errado, ou pelo menos na fila errada.
Os jornalistas cantam num palco enorme, sentei-me, 'tava cansado, sentei-me no chão --» ...
tudo é chão " -- e peguei um pedaço de jornal que 'tava jogado, era justamente o segundo caderno, li, reli e nada encontrei de relevante para passar o tempo, talvez eu já tenha lido isto em algum lugar-web, não me lembro, 'tá chegando a minha vez ...
Cazuza, Renato Russo e seus amigos foram embora, todos felizes ...
Cartola juntou-se a Pixinguinha e Jackson do Pandeiro, eles foram tentar tocar no " UK Pub ...
«Onde 'tá o seu projeto?" "
Eu trouxe o meu cavaquinho e a minha voz " 'tava preparado pra cantar as minhas canções ...
«Você 'tá louco?"
«Por quê?" «Ninguém aqui quer ouvir as suas canções, ou entre no 'quema ou caia fora»» Não 'tou entendendo " " Não 'tá entendendo?!
Vá procurar uma fundação então!"
«Por favor, ouça a minha música ..."
Qual é o 'tilo?"
Fiquei em dúvida do que falar.
Qual 'tilo dizer?
Tenho que ser rápido, a fila aumenta, uma blond careca me aperta os calcanhares ...
Tento me lembrar do que havia 'crito no jornal, vou recorrendo à minha memória seletiva, 'tou lembrando, o jornalista falou sobre algo, não me lembro, meu tempo 'tá acabando ...
«Desarmorial, 'te é o meu 'tilo."
Não deu certo, vou correr, talvez eu ainda alcance Cartola e a sua turma.
Número de frases: 27
Teatro «Em um Fazer Pedagógico» *
Amirtes Menezes de Carvalho e Silva
A função do teatro numa sociedade em que a luta de classe se aguça difere em muitos, da função original.
O teatro é condicionado por o seu tempo e representa a humanidade em consonância com as idéias e as 'peranças, as necessidades e as 'peranças de uma situação histórica particular.
Mas ao mesmo tempo, o permite ao homem conhecer e transformar a realidade social.
Em o teatro por vezes predomina a sugestão mágica, a ritualidade, a racionalidade, o sonho e o desejo de aguçar a percepção.
Porém quer embalando, quer despertando jogando com sombras e trazendo luzes, o teatro jamais é uma mera descrição do real.
Sua função concerne sempre ao homem total, capacita o Eu a identificar-se com a vida de outros, capacita-o a incorporar a si aquilo que ele não é, mas tem possibilidade de ser.
Essas possibilidades do fazer teatral postas em prática junto a grupos de crianças e adolescentes e seus educadores a partir de oficinas levou à realização de projetos culturais cuja base foi o teatro.
Os conhecimentos adquiridos levaram a execução do presente 'tudo, realizado como dissertação de mestrado da autora, apresentada à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Havia a hipótese de que a ação teatral contribuiu para a formação de processos psicológicos superiores, de entre eles pensamento, afetividade, linguagem verbal e linguagem não verbal, por os quais os indivíduos (crianças, adolescentes e educadores) podem alterar sua consciência, ampliando sua visão de mundo e a capacidade de transformá-lo.
Através de um procedimento denominado videografia, uma oficina de teatro foi filmada e os participantes puderam discutir e repensar a prática da atividade teatral no 'copo da educação.
O acervo das análises feitas permitiu constar qual a ação pedagógica possível com o teatro, bem como seus limites e avanços.
* Amirtes Menezes de Carvalho e Silva è natural de Timóteo (MG).
Formou-se em Pedagogia por a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Fez Especialização em Fundamentos da Educação e Mestrado em Educação, também, por a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Ministrou vários cursos de teatro para professores e interessados por o teatro no Estado de Mato Grosso do Sul.
Como arte-educadora, trabalhou de 1997 a 2000 na Secretaria de Assistência Social de Campo Grande -- MS, executando projetos culturais nos ex-centros de Múltiplas Atividades -- CEMA.
Mantém desde 1988 uma participação no setor cultural do 'tado, atuando como atriz e diretora de teatro no grupo Anteato e a partir de 2003, a direção do grupo Atitude Cênica, alem de participar dos eventos da Associação Campo-grandense de Grupos Teatrais -- ACGT.
Para adquirir o livro entre em contato com a autora:
E-mail:
Número de frases: 21
amirtescarvalho@gmail.com Depois de dar as caras em várias listas de melhores do ano com o disco Velha Guarda 22, o Mamelo Sound System reaparece em grande estilo nas páginas virtuais da Rock Press.
Trocamos uma idéia via e-mail com Rodrigo Brandão, MC do Mamelo e legítimo representante da contemporânea malandragem paulistana.
Sim, existe malandragem sonora do lado de lá da Dutra.
Em a entrevista Rodrigo 'clarece alguns dos mecanismos de funcionamento de 'ta verdadeira entidade urbana.
Fala do processo de produção, as parcerias envolvidas e os objetivos.
Confira o resultado deste papo reto:
O que Velha Guarda 22 tem a dizer ao mundo?
Classe que você perguntou isso, sinal de que a gente conseguiu passar o recado ...
porque 'se disco é um manifesto, uma carta de intenções, que vem com os ventos da mudança que começam a soprar no hip hop do Brasa.
Tem a dizer que o Terceiro Mundo produz música original, diretamente do lado de fora da Matrix, livre de clichês sociais, étnicos, 'tilísticos e 'téticos.
Tem a dizer que rap (dazantiga e novidade), psicodelia, batuques afro-brasileiros, a cidade de SP, nenês recém-nascidos, discos de vinil, lírica-navalha, Sun-Ra e atitude punk (no sentido do Faça Você Mesmo) tem tudo a ver entre si, One Nation Under A Groove mesmo.
Som de b-boy maluco made in Brasil -- com S!
Pode-se dizer que é um disco mais pessoal, instrospectivo ou 'piritualizado que os anteriores?
Concordo com os três adjetivos, é isso, sim.
Antes, a gente 'crevia em terceira pessoa, como 'pectros que flutuam sobre a city e narram suas observações.
Em 'se disco a coisa passou para o nível do Pessoal & Intransferível.
E 'se time de participações, como foi reunir toda 'sa rapaziada sinistra num só álbum?
Essa, por incrível que pareça, foi uma das partse menos complicadas da jogada toda, porque a gente não divide o processo criativo com qualquer um.
Primeiro, tem que admirar o trabalho da pessoa, depois tem que rolar uma sintonia natural, e daí, sim, a coisa flui beleza.
Em conseqüência desse nosso modus operandi (que nem é opcional, na real a gente não funciona na forçada mesmo), a maioria dos convidados é gente com quem a Lurdez da Luz e eu desenvolvemos uma relação de amizade pessoal.
E os gringos, como a lenda Tony Allen e o MC Sebastian Laws, foi coisa de conhecer pouco e curtir muito, sabe?
Como rolou o processo de composição e produção do disco?
Foi uma parada doida, rolou uma conexão de intenções e idéias, numa intensidade tamanha, entre nós e o Scotty Hard, que nem a surpresa de ter que mixar o disco todo de madrugada (a partir da uma hora!)
baixou a bola.
Não teve uma briga, discussão, discordância ou clima ruim durante todo o processo.
Antes desse disco, eu curtia muito mais fazer show do que gravar, agora ambas as coisas me trazem satisfação.
Como foi a experiência de fazer um disco em 'tes tempos de loucura no mercado fonográfico?
Vocês disponibilizaram o disco inteiro, inclusive a arte gráfica no site.
Comentem um pouco 'sa decisão.
Esse disco era uma coisa necessária pra nossa existência aqui na Terra.
Foi um período difícil e ao mesmo tempo importante pra caralho, aquela coisa de que «a vida molda as pessoas» é mais real que um ataque cardíaco.
Então, enquanto provas (literalmente) vivas disso, nós não podíamos deixar de contribuir com nosso testemunho.
Por tudo isso, a situação do mercado fonográfico acabou não contando muito para a gente na hora da decisão de fazer o álbum do jeito que ele foi feito.
Mas é claro, tamo bem ligado que 'sa trilha é -- desde sempre -- árida, e que agora tá mais embaçado ainda, porque quem vive 'sa época tem, ao mesmo tempo, a bênção e a maldição de presenciar O Fim do Mundo Como Nós Conhecíamos.
Agora, a opção de liberar o disco é assim:
eu cresci basicamente movido a fita cassete gravada, porque a vontade de ouvir e conhecer música era muito maior que o poder aquisitivo da minha família.
Então, enxergo a coisa de um jeito parecido -- não quero que ninguém deixe de ouvir o Mamelo porque não tem grana pra comprar o CD.
Só que o outro lado da moeda também é verdadeiro, ou seja:
se todo mundo baixar e ninguém comprar, a tendência é que isso impossibilite (ou no mínimo dificulte bastante) a produção de um próximo trabalho.
Então, é uma questão de consciência mesmo ...
quem tem dinheiro, compra pra apoiar, pra ver a coisa progredir, e quem é durango kid não fica excluído.
O que vocês acham da situação da música brasileira contemporânea?
A maioria das glórias nacionais vêm do passado, poucos são os talentos que têm chance de brilhar na atualidade sem abduzir a alma.
Então, tirando os mestres (ativos ou não), sobra pouca coisa que interessa.
Eu enxergo a Nação Zumbi, os Racionais MC's, o mundo livre S / A, o Rappin'Hood, a Céu, o Rua de Baixo, o Hurtmold, o Mzuri Sana, o Siba, o Elo da Corrente, a Thalma De Freitas, o Contra-Fluxo, o Tetine, o Simples, a Geanine Marques, o Akin, o CSS, a Cibelle, o Mr. Catra e ...
cabô.
Vocês tocaram em importantes festivais na Europa e no Brasil, tocando inclusive com o De La Soul, como vocês acreditam que isso soma para a carreira do Mamelo?
Tenho a impressão de que cada vez que você sobe num palco, vale mais que dez ensaios.
Quando é muita gente concentrada na tua frente então, aí não tem ensaio que te prepare para aquilo.
Em 'sas, cada show é tipo «avance duas casas», e em 'ses dois casos 'pecíficos que você citou, rolou o» avance sete casas», tá ligado?
Porque o sabor de pôr os pés num país que você não conhece, levado por o som que começou lá no quartinho de casa, é uma coisa que não tem preço.
E trombar os caras do De La no corredor que leva ao palco, mais de uma década depois de 3 Feet High & Risin ' ter mudado a tua vida, também não.
Em um país onde o reconhecimento (e um conseqüente retorno financeiro) é praticamente nulo pra quem não tá na lista de Robocops das Gravadoras Major, 'se tipo de acontecimento funciona como combustível pra seguir em frente.
O show do Mamelo vai além da música, rola também um trabalho visual com projeções.
Como vocês acham que isso pode contribuir para o show?
Existe uma 'tética Mamelo?
Nunca teve 'sa conversa de Estética Mamelo, não ...
é o tipo de coisa que foi rolando naturalmente, sem muito caso pensado.
Mas tanto a Lurdez quanto eu somos fissurados em cinema, quadrinhos, ambos temos muito gosto (e pouco tempo) para a leitura.
Então acho que 'sas coisas aparecem no som e no show.
Mas na verdade, a gente tem sorte de ser camarada dos Embolex, uns malucos que dominam a arte do VJ, curtem nosso som, sacam e englobam as referências que pontuam nossa conversa cotidiana.
Em a faixa «Zulu / Zumbi», por exemplo, eles usam cenas do Fela Kuti, que não é citado em 'sa letra (mas em outra, sim!),
só que o 'pírito da canção tem a ver com ele, então a coisa fortalece a mensagem música, somando um elemento novo, ao invés de repetir em imagens o que a letra diz -- o que seria redundância pura e besta.
De aqui para a frente, quais são os planos do Mamelo pra 2007?
A idéia é tocar em tudo quanté canto do Brasil e do mundo que a gente conseguir chegar, 'palhar nosso som, promover o Velha-Guarda 22 e o site (www.mamelo.com), conhecer lugares e criaturas no percurso, tocar e gravar com entidades parceiras e, se Deus quiser, fazer um clipe e lançar um single em vinil antes que 007 se acabe.
Pra finalizar e 'clarecer:
Mamelo faz música de festa, ou música de luta?
As duas coisas, tudo junto e misturado, com muito amor, dedicação e doidêra.
E tenho dito.
Número de frases: 69
Entrevista originalmente publicada no site Rock Press.
Fazer rock num 'tado onde imperam ritmos como o forró e o brega não é coisa fácil.
É preciso derrubar muitas barreiras culturais, passar por cima até de preceitos éticos.
«É chover no molhado», diz um.
«É dar murro em ponta de faca», reclama outro.
Mas, para um bando de abnegados roqueiros de Roraima, tudo isso cai por terra.
Eles nunca mediram 'forços para tirar a banda da garagem e botar nos palcos, por mais improvisados que eles pudessem ser.
Desde meados da década de 1980, quando eclodiu o movimento rock por aqui, influenciado por as mais diversas bandas nacionais e internacionais daquela década, o movimento rock em Roraima tem lutado para sobreviver no meio de uma profusão de ritmos que surgem a cada temporada.
Todas as bandas daquela década mágica do rock se perderam no tempo e ficaram apenas na memória dos apaixonados por o bom e velho rock and roll.
Quem tem mais de 30 anos e viveu em Boa Vista naquela época não 'quece de bandas como a Classe Média, com Ben Charles (que hoje tem um 'túdio de gravação em São Paulo, o La Toca Music), César Rebouças, Ricardo, Lobão e Geladeira;
a Grande Capital, com o saudoso Mario Vander, Bacamarte e Elton e Careca;
e a Naja, de Odely Sampaio, Clovis, Fanderson e Jorge Holanda.
O jornalista e radialista Jeremias Nascimento, que sempre privilegiou o bom e velho rock and roll em seu programa Manhã Total, na Tropical FM, e viu surgir 'se movimento naquela época «como um mero 'pectador», lembra do tempo em que tudo começou e da dificuldade que as bandas tinham.
«Eram poucos os locais onde as bandas podiam se apresentar.
Lembro bem do Marukão, do Sandubão, da Sorveteria Icaros e da Sorveteria Filhotas, que reuniam a moçada roqueira daquela época, sempre com bons shows», recorda.
O baterista Clovis, que hoje toca na banda Arikek, é um dos precursores do movimento rock em Roraima e fala com saudosismo da época.
«Sempre tinha muitos festivais nas 'colas, no ginásio Hélio Campos e na Praça da Bandeira.
Foi uma fase muito boa na vida de toda aquela gente que vivenciou o nascimento do rock por aqui», diz.
Em a 'teira do sucesso do movimento ainda vieram outras bandas como a Face to Face (Paulo Amorim teclados e bateria eletrônica, Junior guitarra e Osman -- baixo e vocal), a Corpus e já no início da década de 1990, a Savana, resultado da junção de integrantes de várias bandas extintas como Odely Sampaio, Elton e Careca, Jorge Holanda.
Por um período, o movimento rock caiu no ostracismo, um pouco devido alguns músicos terem ido embora do Estado ou por pura falta de espaço onde as bandas pudessem tocar.
Nova geração
Como a chama do rock não podia se apagar, começaram a surgir novas bandas, sobretudo no circuito universitário.
Foi nos corredores da Universidade Federal de Roraima que foram surgindo bandas como a Carolina Cascão (1995), com Avery Veríssimo (guitarra e vocal), Ruben Leite (bateria), Mario Vander (baixo), a Garden (1996), com Siddhartha Brasil (vocal), Rodrigo Baraúna (guitarra), «Humberto Thomé» " Cabeleira " (bateria), e André Dias (baixo), e, por último, a Mr. Jungle (2000), com Rhayder Abensour (guitarra base), Manoel Villas Boas (vocal), Adília Quintela (backing vocal) e Dant Alighieri (baixo).
A partir do início dos anos 2000, começou um verdadeiro boom de criação de bandas, impulsionadas sobretudo por a realização do I Fest Rock (2001), que teve a participação de 20 bandas locais, a maioria de elas em início de carreira.
E foram surgindo também novos 'tilos.
O que antes era centrado mais no pop rock, começou a ganhar contornos mais pesados, com forte influência do Heavy Metal, do Punk, do Hard Core e de outros sons apreciados por a garotada.
Foi em 'se cenário que apareceram bandas como LN3 -- a primeira banda em Roraima a subir aos palcos para cantar apenas composições próprias, a Lepthospirose, Ironia, Estado de Coma -- hoje Coma State, entre outras, inclusive uma no município de Mucajaí, a Savage Storm.
A partir daí foi uma sucessão de bandas nascendo e morrendo, mas sempre mantendo viva a chama do rock, procurando sempre alternativas para conseguir 'paços para tocar.
Espaço Rock
A busca constante por palcos onde pudessem tocar seu rock e reunir a galera, fez com que alguns líderes de bandas procurassem o Sesc (Serviço Social do Comércio) para tentar encontrar uma alternativa.
Deram sorte.
O diretor regional, Kildo Albuquerque, um inveterado roqueiro, atendeu de pronto a sugestão das bandas e, então, foi criado o projeto Espaço Rock.
Lançado em 16 de julho de 2004, com um show que reuniu 11 bandas de Boa Vista, o projeto ainda hoje se apresenta como uma das únicas alternativas para o movimento rock em terras macuxis.
«Em o Espaço Rock tem lugar para todas as tribos que curtem o bom e velho rock and roll, seja ele mais recente para o gosto de adolescentes e jovens ou mais maduro, com os clássicos internacionais dos anos 70 e os nacionais dos anos 80», diz Rosana dos Santos, técnica em cultura e coordenadora do projeto.
O Sesc se tornou uma referência para as bandas e os amantes do rock.
Observamos uma juventude que se produz com roupas curiosas e marcam encontro para ver o rock no Sesc.
«Depois que o Sesc abriu 'paço para as bandas de rock, a modalidade ganhou a confiança e as casa noturnas também investiram e convidaram as bandas para apresentações.
Até no arraial fora de época teve banda de rock.
Então através desse apoio do Sesc as bandas cada vez mais ganham 'paço na cidade», comemora Rosana.
O movimento rock 'tá cada vez mais fortalecido, com cada vez mais bandas partem para composições próprias e tentando gravação de CD's, como é o caso da Mr. Jungle, a LN3 e a Ganden.
O movimento também ganhou um site 'pecializado, sempre trazendo notícias, agenda e entrevistas com integrantes das bandas, 'palhando o rock como poeira por a grande rede.
II Roraima Sesc Fest Rock
A conquista do novo 'paço acabou por incentivar a criação de novas bandas e, conseqüentemente, a retomada dos grandes festivais.
O primeiro de eles foi no ano passado e reuniu 22 bandas de Roraima e uma de Manaus-AM.
Este ano o II Roraima Sesc Fest Rock acontece de 28 a 30 de julho e vai reunir 26 bandas de Roraima, além de uma de Manaus (Pink Rock) e outra de Georgetown, na Guiana Inglesa (Brutus).
Para Rosana, a primeira edição foi bastante positiva, com a integração perfeita das bandas participantes.
«O festival é uma organização coletiva entre o Sesc e as bandas, que durante todo ano se apresentam no projeto Espaço Rock.
Para 'ta segunda edição, teremos muitas bandas que se apresentarão com composições próprias.
Vejo um amadurecimento de algumas bandas que 'tão compondo, gravando CD, e se apresentado em Manaus.
Teremos um grande evento», garante.
Número de frases: 50
Bom menino!
Vou lhe dizer bem de pertinho, lembre-se:
quando comer um suculento Tender, se lembre de Pin;
abreviação carinhosa de ' Pinhead', o renascido do inferno ...
Já assistiu?
Claro que assistiu, 'ses moleques assistem tudo hoje;
enterrou o queixo no pescoço e arregalou os olhos pra mim;
dois olhos maiores que a cara.
Estou fedendo a cigarro, eu sei, fumei mesmo, o que é?
Vai chorar?
Vai fazer o quê Tire 'sa camisa do batman seu veado pequeno, anda!
Saia do meu colo, vamos!
Abri um sorriso para a mãe;
é isso que eles querem.
O menino chorou.
Fiz um favor a ele.
Quando crescer, não vai ser um idiota.
Estão pouco se lixando para a mãe, para o pai;
agora querem celular que filma;
uns putinhos de dez anos de idade telefonando pra saber o almoço;
a minha quer um, de cartão.
Olha lá, mais uma.
Barrigudinha. Se parece com a minha.
Está com uma fita na cabeça e chupando pirulito.
Está morrendo de medo.
Ela deve ter um tio pedófilo, só pode;
«não quer sentar no meu colo?».
Abri um sorriso para a mãe.
«Venha aqui, sente.
Pronto. Quantos aninhos?».
Ela 'palmou as duas mãos.
Escondeu o polegar e o mindinho.
«Oito! É uma moça ...
Escute, sabe o que é um Tender de Natal?
Isso mesmo, o presunto que você come tanto.
Pois é, quando for comê-lo, lembre-se de Pinhead, o renascido do inferno;
se lembre de mim, ok?».
Um inferno no Shopping.
É incrível como uma criança pode gritar tanto.
Nós subestimamos 'ses anões.
Chorou com os olhos fixos em mim.
Tentou chutar meu saco.
Essa será boa de briga.
Tudo bem.
Traumatizei. Mas chega, é isso mesmo, não sou legal, faz um calor do Diabo e ganho pouco.
Saia! Anda!
Abri um sorriso para a mãe;
rô rô rôu!
É isso que eles querem.
Um sorriso com os dentes cerrados, 'pumando;
rô rô rôu!
A mãe ouviu.
Passei a língua nos lábios;
um porco lambendo os lábios.
«Essa é a chance do gordinho aqui ganhar dinheiro.
O que é minha senhora?
Vai prender Papai Noel?
Olha a fila, porra!
Não atrapalha!
E na ceia de Natal, lembre-se de Pin, ok?
A moçinha também;
Pinhead garotinha, aqui ó ";
titilei o sininhos da rena de isopor.
Ela abriu o bocão.
Gritou com toda força.
Ela ficou da cor do Natal;
da cor da fita de sua cabeça.
Ótimo, fiz um favor a ela, menos uma;
agora 'tá livre.
Número de frases: 69
http://ochaoquematava.blogspot.com Deus e o Diabo, e pelo menos uma meia dúzia de anjos tortos, desempenharam papéis importantes em tudo o que rolou nas últimas décadas aqui embaixo.
«Who's afreud», como diria Carl Solomon, muito orgulhoso em ostentar sua solidão de cético, entre otimistas ignorantes.
Olé! Seguinte:
eu gostaria de aproveitar a ocasião para falar do mais belo incêndio da civilização latino-americana:
Rogério Duarte. Trata-se de «Tropicaos», livro lançado em 2003, por a Azougue Editorial, que retrata radiograficamente os mais tênues mistérios da multímoda personalidade intelectual deste» gênio por trás dos gênios», como definiu Narlan Matos.
Aaaaaaa!
Pois bem, pouca gente sabe, mas Rogério Duarte, o mais lúcido ideólogo das nossas vanguardas, verdadeiro cerébro pop-dadaísta por trás de bananeiras e pedestais, foi o responsável por a elaboração das premissas epistemológicas mais fundamentais do que veio a ser grafado como Tropicalismo, no final da década de 60.
E como disse «Diego Petrarca,» se dentro do guarda-chuva tem a chuva, acima do porta-estandarte 'tá Duarte!"
Olé! Olé!
Com um raciocínio rápido e verdades aromatizantes, Rogério defendia uma anti-filosofia que, para muitos, poderia parecer absurda e incoerente, mas, na verdade, como definiu Caetano Veloso, era prova de firmeza e vigor conceitual.
«O problema, para mim, de 'crever um romance», argumenta Rogério, é que eu não me contentaria em ser o autor ...
quero ser a personagem».
Nascido em 1939, na Bahia, Rogério Duarte desde cedo demonstrou sua vocação para «mensageiro do delírio».
Ainda na 'cola, idealizou um movimento artístico chamado «Antidicurvismo», o qual, segundo ele,» não significava coisa alguma». (
Dadá is!)
Sempre envolvido em voluptuosas polêmicas 'tético-hedonistas, produziu um vasto material literário, entre poemas, contos e 'boços de romances, além de desenvolver diversas aventuras em artes visuais.
Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, Rogério «Caos», como foi apelidado por o invejoso Oduvaldo Vianna Filho, já pervertia a cabeça de homens como Glauber Rocha e Hélio Oiticica.
Em o Rio, consagrou-se como um dos maiores mitos da cultura gráfica de sua época, sendo o criador de artefatos históricos das belas-artes brasileiras, que vão desde antropofágicas capas de discos, até cartazes e poemas publicitários, como o do filme «Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha».
No entanto, de acordo com as testemunhas, foi mesmo a sua violenta eloqüência, jorrada frágil e tirana do fundo fígado de seu ethos anarquizado, que o alçou à condição de profeta alado da Tropicália.
«Havia entre ele e seus discursos um comprometimento a um tempo visceral e metafísico que multiplicava o poder dos seus argumentos», afirma Caetano, e completa:
«Ele parecia querer nos resguardar de um certo cinismo amargo que a vida já tinha lhe ensinado e nos alertar contra a adesão inocente ao ideário dominante nos meios culturais».
Como um devorador de epítetos, Rogério alcançou 'feras intuitivas de fantasia filosófica que jamais foram igualadas, e não é por outro motivo que continua sendo o sorrateiro Sócrates da luminosidade exagerada dos trópicos:
um gênio condenado ao «suicídio» apenas por apresentar à sociedade aquilo que em sua época era considerado «brilhante».
O fato é que em 1968, no auge da sua produção libertária, e também no apogeu da militância delatora institucionalizada, Rogério foi preso e submetido a oito dias de humilhação psicológica, episódio que indelevelmente atormentou a sua alma, levando-o, depois de solto, a queimar todos os seus 'critos num gesto extremo de suplício ontológico-afetivo. (
Nós aceitamos o trágico.)
Entretanto, a despeito de toda a cruenta burocracia, Rogério sobreviveu, e gradativamente foi retomando seu trabalho 'piritual, e 'crevendo novos poemas, até que decidiu reuni-los em «Tropicaos».
«É sempre bom tomar uma Pepsi antes de morrer», ele comenta, assumindo sua real condição de verdadeiro sucessor temperamental de Antonin Artaud.
Com efeito, depois de suicidado, Rogério acabou tornando-se um arauto do existencialismo experimental, utopia verbivocovisual cuja sombra áspera nos arremessa às margens de um tenebroso abismo, qual seja, o mais fundamental dilema da contra-cultura reacionária:
ao aceitarmos suas teorias, necessariamente somos levados a colocar o próprio corpo na frigideira social;
rejeitando-as, somos condenados a atravessar a vida de olhos vendados.
«Tento fazer uma boa sopa com 'ses ossos do já suportado, mas haverá alguma fome para ela?»,
desafia Rogério, o que me leva a pensar que, de fato, ouvir sua voz é a única forma de sair do silêncio, e cair em sua morte é o único modo de evitar o suicídio.
Número de frases: 32
Portanto, público literário, quantas putas vesgas vocês querem que eu foda no olho até convencê-los de que «Tropicaos» é o serviço libertário mais obrigatório do underground situacionista?
Austregésilo Carrano era 'critor, ator, dramaturgo e diretor de teatro.
Foi ele quem viveu e 'creveu a história contada no livro o «O Canto dos Malditos», obra que deu origem ao filme o Bicho de Sete Cabeças.
O autor curitibano tornou-se um militante da Luta Anti-Manicomial e dedicou-se ao 'tabelecimento e afirmação da rede nacional de trabalhos substitutivos aos hospitais psiquiátricos.
Carrano era representante dos usuários na Comissão de Reforma Psiquiátrica do Ministério da Saúde, eleito no Congresso de Luta Antimanicomial, em Xerém (RJ).
Carrano nos deixou no dia 27 de maio, 12 dias após completar 51 anos, a maior parte de eles dedicada a Luta Antimanicomial e defesa dos Direitos Humanos.
Em entrevista cedida a 'critora Paloma Klisys, Carrano falou dos desafios da luta, da mídia e sobre participação juvenil.
PK -- O «Bicho» ganhou uma série de prêmios mas O Canto dos Malditos lhe rendeu algumas polêmicas no mínimo desagradáveis.
Em protesto a censura, você até já teve a ousadia de participar de uma tarde de «não» -- autógrafos do livro.
De vítima passou a réu e foi condenado à retirar o livro de circulação.
Essa passagem não foi tão divulgada, apesar da repercussão do filme.
Fale sobre isso.
Carrano --O livro foi lançado em março de 1990 por a Universidade Federal do Paraná, no começo de abril foi retirado de todas as livrarias de Curitiba e de lá pra cá rola 'sa perseguição.
Volta e meia, os donos da loucura, que são os psiquiatras que fizeram fortunas encima de confinamento humano e tortura, vêm perseguindo a obra O Canto dos Malditos.
O livro teve a comercialização proibida de 2002 a 2004.
Em o texto eu cito nomes de médicos e hospitais por onde eu servi de cobaia durante três anos e meio e cito o nome de 'sas entidades, é por isso Eu fui retirado das livrarias e fui obrigado judicialmente a mudar o nome de 'sas instituições e dos médicos que foram meus algozes.
A que 'tá circulando é uma nova edição com nomes semelhantes.
PK -- Depois de sua trajetória como paciente e vítima de tortura em instituições psiquiátricas você se transformou num militante da luta anti-manicomial.
Dê um panorama do movimento.
Conte um pouco da história e pontue alguns dos aspectos mais críticos.
Carrano -- Movimento da Luta Antimanicomial já é um movimento de mais de 60 anos.
Era conhecido como anti-psiquiatria, não é contra a psiquiatria pura, honesta, e sim contra caminhos como o confinamento, a medicação ministrada de modo perverso, o isolamento de pessoas com sofrimento mental em casas 'pecializadas em loucura, tortura e morte.
Não concordamos com aplicação de eletro-choque, e nem com a eletro-convulso terapia.
Em algumas instituições 'se procedimento é chamado de «eletro-choque humanitário», porque hoje em dia se consegue através de uma medicação muito forte, um relaxamento do corpo onde a convulsão é amenizada, mas a voltagem continua a mesma.
Então me engana que eu gosto.
Podem aparecer várias reações, morte na hora ou anos depois da aplicação, queima de neurônios, lesões cerebrais etc..
Batalhamos contra a imposição de certos tratamentos e certas drogas, o que também envolve os interesses dos laboratórios em manter toda 'sa podridão que corre dentro do sistema manicomial brasileiro e envolve grandes fortunas.
Atualmente a terceira maior despesa do Sus vai para os hospícios, para confinar e drogar pessoas.
A primeira é com problemas cardíacos, a segunda com problemas respiratórios, e a terceira com hospitais psiquiátricos.
Hoje é a terceira maior despesa do Sus e se gasta em torno de 600 a 700 milhões de reais por ano pra 'ses donos de hospícios fazerem turnê na Europa e terem suas mansões e seus carrões.
Essa já é uma pratica que vai passando de família para a família, de pai para filho, virou um negócio, são empresas, um hospital psiquiátrico é uma empresa familiar.
Hoje, das cerca de 247 instituições, 90 % são particulares.
Os dados são do Ministério da Saúde.
PK -- A criação da rede nacional de trabalhos substitutivos aos hospitais psiquiátricos é ao mesmo tempo uma conquista e um desafio da Luta Anti-manicomial.
Como funcionam os Centros de Atenção Psico-social e o que são os lares abrigados?
Carrano -- O movimento vem montando a rede nacional de trabalhos substitutivos aos hospitais psiquiátricos, os CAPS (Centros de Atenção Psico-sociais).
São casas alugadas, a pessoa passa o dia e é acompanhada por uma equipe de multi-profissionais, entre eles o psicólogo, o assistente social, o psiquiatra.
à noite a pessoa volta para o convívio familiar.
Se não for possível resolver o caso no CAPS e houver a necessidade de internação, a gente tem ligações com hospitais gerais onde a pessoa pode ficar internada no surto-crise, que é quando 'tá colocando em risco a sua própria vida e a vida de terceiros.
Esse é o único caso que de repente exige uma internação, mas que ela seja feita no hospital geral.
Saiu de 'sa crise, geralmente em sete dias, se a equipe que trabalha dentro desse hospital geral achar que 'se paciente deva continuar em tratamento ele vai continuar nos CAPS.
Os lares abrigados que são pra 'sa gama imensa que já virou morador dentro de 'sas instituições, eles moram lá eles já são lucro certo para a instituição, por causa da mensalidade que o Sus paga pra manter 'sa pessoa lá dentro, só que 'sa pessoa já não consome mais nada, há não ser aquela lavagem que dão pra ele comer.
O paciente psiquiátrico, além de prisioneiro físico ele também é um prisioneiro químico.
De aí a importância dos lares abrigados, que são casas terapêuticas e, de acordo com o 'paço físico moram de cinco a dez pacientes, 'sas casas são acompanhadas por 'sa equipe de multi-profissionais.
A convivência é possível, a gente ta provando isso há mais de 15 anos.
PK -- Você utiliza o livro e o filme como instrumentos de micro-política.
São duas produções que contribuem para a ampliação do debate sobre drogas, loucura, preconceito, ou seja, temas polêmicos e de relevância social que nem sempre gozam do devido destaque por a Mídia de modo geral.
Como você enxerga isso?
Carrano -- Assuntos polêmicos merecem toda a hora serem cutucados, serem explorados, qualquer iniciativa é válida no sentido de abordar 'sas questões.
A questão da loucura, do preconceito, da exclusão social.
São temas que enquanto existirem serão material para que se façam outros trabalhos artísticos.
Tem que haver uma mudança, um xó manicômio, a extinção dos manicômios, para isso o bicho teve o seu papel, mas nada impede que venham outros trabalhos a falar do mesmo assunto e que atinjam também a mesma importância.
Eu penso que foi um começo.
Até uma frase meio romântica, meio aleatória, mas muitas vezes o manicômio 'tá dentro da nossa família, o manicômio 'tá dentro da nossa sociedade, dentro das nossas 'colas.
O manicômio as vezes 'tá aqui fora também e não só dentro da instituição.
Então é importante a gente ficar ligado, a mídia também pode ser um manicômio, que só nos joga aquilo que tem chance de vender.
PK-Como você avalia a participação dos jovens na busca e construção de soluções para os problemas brasileiros?
Carrano -- Percebo que os jovens se envolvem em vários movimentos e que por mais diferenciados, eles procuram a mesma coisa, procuram a qualidade de vida.
Aceitar as diferenças, lidar com elas, isso é possível, afinal nós somos uma das sociedades mais criativas do mundo.
Gosto da idéia de valorizar a nossa diversidade cultural.
O Brasil tem todas as condições para se tornar uma potência, não bélica, mas uma potência solidária.
Eu conheço muitos jovens que 'tão 'tudando, que 'tão pesquisando, que 'tão em movimentos sociais, rejeitando coisas enlatadas.
O jovem não 'tá completamente alienado, tem uma galerinha que 'tá batalhando.
Falar que o jovem é alienado é uma afirmação babaca, preconceituosa.
Quando proferiu a frase «Quem disse que só se morre uma vez?" em seu poema» Seqüelas ... e ..." (poema das 4 horas de 'pera para ser eletrocutado ... (
aplicação da eletroconvulsoterapia), que abre o livro «Canto dos Malditos», Carrano 'tava fisicamente entre nós.
Mas em 'te momento em que sua voz, suas mãos e seu corpo não se manifestam mais, suas palavras continuaram mais vivas do que nunca no combate a 'ta psiquiatria criminosa da qual foi uma das vítimas.
«Espero ser indenizado por as torturas psiquiátricas sofridas, por a minha condenação aos preconceitos sociais, danos físicos, emocionais, morais, danos na minha formação profissional, danos financeiros, destruição de minha adolescência.
E 'ses meus direitos de cidadão serão cobrados até o fim dos meus dias.
Se não conseguir em vida, algum dos meus filhos ficará com 'sa incumbência.
Justiça plena e total é o que exijo, e mesmo depois de morto continuarei a exigir.
Não só para mim, exijo 'sas indenizações para todas as vítimas do holocausto da psiquiatria brasileira, e não desistirei por nada nem que leve o resto de minha vida." (
Trecho do posfácio da nova edição do livro Canto dos Malditos, depois de ter ficado por dois anos e meio censurado e recolhido de todas as livrarias do Brasil)
Mais sobre Carrano:
Número de frases: 74
Veja entrevista para TV Tupinikim:
O longa-metragem «Bezerra de Menezes: o Diário de Um Espírito», dirigido por os cineastas cearenses Glauber Filho e Joe Pimentel, será lançado nas salas de cinema de todo o Brasil no dia 29 de agosto, data de aniversário do cearense conhecido como o» Médico dos Pobres», com distribuição nacional da Fox Filmes do Brasil.
A produção do filme 'tá agendando uma avant-premi ère em treze capitais brasileiras (Belém, Teresina, Fortaleza, Recife, Natal, Salvador, Brasília, Goiânia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Paulo, Curitiba e " Porto Alegre).
Bezerra de Menezes:
o Diário de Um Espírito " é uma produção da Trio Filmes, com realização da ONG Estação da Luz, e teve orçamento de R$ 2 milhões, contando com a participação de atores de renome nacional, como Carlos Vereza, que faz o papel principal do médico cearense Bezerra de Menezes, Lúcio Mauro, Caio Blat, Paulo Goulart Filho e Ana Rosa, além de um casting de atores cearenses.
O filme teve locações em dois Estados.
Em o Ceará, as locações foram em Fortaleza e nos municípios de Guaramiranga, Pacoti, Aratuba, Icó e Maranguape.
A equipe de atores e da produção também fez gravações em Recife (PE).
Para a realização do longa-metragem, foi elaborada uma extensa e cuidadosa pesquisa histórica por o biógrafo de Bezerra de Menezes, Luciano Klein, e também por a roteirista Andréa Bardawill.
Através do trabalho de figurino, maquiagem e cenário, o longa-metragem realiza uma fiel reconstituição da época em que viveu o médico, desde o seu nascimento, em 1831, na localidade de Riacho do Sangue, hoje, município de Jaguaretama, no interior do Ceará, até sua morte.
O universo sertanejo permeia a trama em 'sa primeira fase do filme, na qual Bezerra de Menezes vive a infância e a adolescência.
A os dezoito anos, o protagonista inicia no Rio de Janeiro seus 'tudos de Medicina.
Em a então Capital da República, elegeu-se vereador e deputado em várias legislaturas e defendeu as idéias abolicionistas.
Mas o que lhe trouxe o maior reconhecimento de seu povo foi o trabalho anônimo realizado em prol dos desfavorecidos.
Por conta disso, ficou conhecido como o «Médico dos Pobres».
Seja como político devotado às causas humanitárias ou como médico conhecido por jamais negar socorro a quem batesse à sua porta, Bezerra de Menezes tornou-se um exemplo de homem e 'creveu uma história de vida marcada por o amor e por a caridade.
Toda 'sa bela história é retratada no filme que 'tréia em 29 de agosto.
A primeira versão do filme, registrada sob o formato de documentário ficcional, será incluída na versão para DVD, que 'tará disponível posteriormente.
Os Diretores
Glauber Filho realizou vários curtas-metragens, entre eles «A Doença do Poço»,» Borracha para Panela de Pressão e San Pedro», um Navio a Deriva».
Produziu e dirigiu o longa «Oropa, França», Bahia, premiado por a Fundação Vitae e MacArtur.
Recebeu diversos prêmios em festivais nacionais e internacionais de cinema, como o Festival Internacional de Figueira da Foz (Portugal), Festival de Cinema de Tondela (Portugal) e Videofest (Berlim-Alemanha).
Como diretor publicitário, atuou em grandes produções cearenses, e também presidiu a TV Ceará entre 2003 a 2006.
Joe Pimentel é fotografo e diretor.
Já atuou como Diretor de Fotografia e Assistente de Direção de diversas produções, como «Sertão das Memórias», Um Cotidiano Perdido no Tempo»,» Villa Lobos -- Uma «Vida de Paixão», Milagre em Juazeiro» e «O Noviço Rebelde».
Como diretor, realizou vários curtas, entre eles «Retrato Pintado», filme que lhe rendeu as maiores premiações do cinema nacional como melhor filme e direção nos festivais de Brasília, Recife, Curitiba e Ceará.
Atualmente, ele finaliza o curta «Câmara Viajante», e dirige a Trio Filmes.
Sobre a Estação da Luz
A Associação Estação da Luz é uma entidade, sem fins lucrativos, que atua no município do Eusébio, Ceará.
Ela desenvolve e realiza diversos projetos sociais nas áreas de educação, cultura, inclusão social, 'porte e lazer.
Suas ações visam divulgar uma cultura de paz e solidariedade.
Informações por o telefone (85) 3260.5140 ou através do endereço eletrônico www.estacaoluz.org.br
Mais informações para a Imprensa sobre o assunto com a AD2M Engenharia de Comunicação, por o fone (85) 3258.1001.
Jornalista responsável:
Número de frases: 34
Rodolfo Barbosa Falcão Acordo internacional define mudanças na língua portuguesa
O português, considerado quinto idioma mais falado do planeta e língua oficial de oito países, deve sofrer mudanças em sua ortografia.
Angola, Brasil, Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, Príncipe e Timor Leste, fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa -- CPLP e se comprometem a adotar uma única grafia.
Contudo, não há motivo para desespero, já que as mudanças devem preservar as pronúncias típicas de cada região e não alteram mais que 2 % do vocabulário brasileiro.
A eliminação do trema em palavras como conseqüência e sangüíneo e o acréscimo do alfabeto, que atualmente possui 23 letras, com mais três:
k, y e w, 'tão entre as mudanças.
Em Portugal eliminam-se as letras «c» e p, que não são pronunciadas em vocábulos como «acto» e «óptimo».
Novas regras de acentuação também 'tão previstas, como a extinção do acento agudo em paroxítonas como «assembléia» e «jibóia».
O empresário André Carvalho, da editora mineira Armazém de Idéias, acredita que igualar a grafia pode beneficiar as nações envolvidas com a divulgação do idioma, e ressalta que a reforma deve levar em consideração a lógica da fala do povo e evitar exageros da forma culta.
«Uma coisa é regra imposta, outra é a que vai ser praticada.
Quem manda na língua não são os gramáticos.
Quem manda na língua é o povo.
Se o popular determina que ' para mim ' é correto.
O que mais eu posso fazer?
Nada.», brinca o editor.
Em a opinião de André, a própria mídia reconhece a importância da linguagem cotidiana ao usar expressões coloquiais em mensagens publicitárias.
«Hoje ouvi uma propaganda que falava de futebol.
O Galo, do Atlético, recebia uma ordem para bicar qualquer time:
«bica ele sô!».
Para a gramática normativa não é bica ele.
É bica-o.
Só que não soa direito e as propagandas, que deveriam disseminar a forma culta, usam termos informais para dialogar com o público».
Portugal aprovou a unificação, todavia não confirmou sua participação no acordo ortográfico.
A reforma 'tá em andamento desde 1990 e foi acrescida de um protocolo modificativo em 2004.
Até agora 'te documento foi assinado apenas por os presidentes do Brasil, Cabo Verde e São Tomé das Letras, o que já o torna válido, uma vez que o acordo pode entrar em vigência com a adesão de apenas três países da CPLP.
Mesmo sem data oficial para sua implantação no Brasil, a Academia Brasileira de Letras propõe que a reforma se inicie a partir de 2008.
Proporcionar um prazo de cinco ou dez anos para que as editoras substituam definitivamente seus livros, de acordo com André, é questão de bom senso.
«Concordo que as mudanças comecem por os materiais didáticos.
É importante que a criança se adapte, na fase 'colar, ao novo acordo internacional.
Mas, é bom lembrar, as editoras possuem grandes quantidades de exemplares que 'tão 'tocados, em diversos 'tilos literários.
Editores e produtores precisam de tempo para que possam, gradativamente, reimprimir suas publicações.
Só em 2005 o Brasil lançou cerca de 50 mil títulos de novos 'critores brasileiros».
Ainda segundo o editor, qualquer ação de política pública deve servir, sobretudo, de instrumento para melhorar o desempenho econômico de pequenas e médias empresas brasileiras.
«Atualmente, quem publica livro didático só sobrevive se conseguir vender para o governo.
Os maiores faturamentos do setor são de grandes editoras, de grupos internacionais que 'tão cada vez mais assumindo o mercado editorial brasileiro, inclusive através da venda de livros didáticos».
A Comissão para Definição de Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip), da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu / MEC) tem se reunido para discutir como será implantado o acordo e ainda não definiu o prazo para as editoras se adaptarem às alterações.
O MEC pretende exigir as novas regras nas próximas licitações de livros didáticos, para uso nas 'colas em 2009.
Oficialmente, o Colip divulgou que o Brasil prefere agir com diplomacia e 'perar que Portugal assine a reforma, para então definir a implantação das mudanças.
Número de frases: 38
Por Georgiana de Sá A os amantes da fotografia ...
segue uma dica muito importante ...
'se registro é de minha autoria e o chamo de Momento Célebre ...
com certeza para 'sa pessoa 'se momento foi maravilhoso ...
sem preconceitos, apenas clicks, muitos clicks e flash ´ s ...
pena que 'se momento não seja eterno ...
ninguém deve interferir na sexualidade de ninguém ...
quando cliquei a parada gay 'te ano (2006) em Salvador / BA ...
confesso que foi minha primeira parada ... (
como pessoa e como profissional!) ...
Fiquei meio chocada, não com eles que queriam aparecer para as minhas lentes a qualquer custo ...
mas pude perceber a voracidade do preconceito e a mediocridade que a sociedade trata os homossexuais ...
risos, vaias ...
um horror!!!
Vale a pena repensar os nossos conceitos ...
e principalmente respeitar a opção sexual das pessoas ...
seja ela qual for!!
A vida é muito linda para se perder com preconceitos, receios, vergonhas ...
o importante é ser feliz!!!
Beijos mil para todos (as)!!!!
Número de frases: 20
Eles podem 'tar a um palmo do seu nariz sem que você tenha se dado conta:
há cada vez mais casos de negócios abertos por o País e muito pra se aprender com eles.
Se você acha que nunca ouviu falar disso, provavelmente foi por falta de dar nome aos bois.
Se matutar um pouco, descobrirá que, a despeito da terminologia, você conhece modelos de negócios abertos -- ou «open business models».
Definições
Esses modelos baseiam-se em algum tipo de commons.
Open business é um modelo de negócio sustentável, sem geração de receita por os direitos de propriedade intelectual, ou, por direitos autorais.
A liberação do uso de uma obra pode se dar por a utilização de um instrumento legal como a licença Creative Commons ou por uma situação social, em que a ausência de 'truturas de propriedade intelectual gera, na prática, o compartilhamento de conteúdo.
Em geral, as principais características de modelos de negócios abertos são a sustentabilidade econômica;
flexibilização dos direitos de propriedade intelectual;
horizontalização da cadeia de valor;
ampliação do acesso à cultura;
e contribuição da tecnologia para ampliação desse acesso.
Em Belém do Pará, por exemplo, o modelo de negócios da indústria local do tecnobrega não é aquecido por o pagamento de direitos autorais advindo da venda de CDs.
Movimentam o mercado da música paraense as casas de festa, shows, vendas nas ruas e as aparelhagens, maquinários tecnológicos enormes que protagonizam as festas do tecnobrega.
Imagine o seguinte ciclo:
1) artistas gravam nos 'túdios;
2) há quem selecione as melhores novidades e leve aos camelôs;
3) 'tes vendem por preços compatíveis com a realidade local e divulgam;
4) DJs tocam nas festas;
5) artistas fazem shows;
6) CDs e DVDs das apresentações são gravados e vendidos;
7) bandas, músicas e aparelhagens 'touram na opinião pública e tudo volta ao início.
Com isso vem o crescimento da produção musical, o aquecimento do mercado de trabalho e uma distribuição mais horizontal dos ganhos nas diversas etapas da cadeia produtiva.
O Projeto na América Latina
O tecnobrega é uma das experiências observadas e 'tudadas por o projeto Open Business (www.openbusiness.cc) na América Latina.
Em 'ta região, o projeto é liderado por o Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio em parceria com o Overmundo, e envolve pesquisas no Brasil, Argentina, Colômbia e México, com olhar focado sobre iniciativas na área de cultura.
Os outros dois países que coordenam o mapeamento de experiências de negócios abertos são Reino Unido e África do Sul, com atenção voltada para modelos de negócios abertos na Internet e na educação, respectivamente.
Mas a indústria local da música paraense não é a única expressão de modelos abertos no Brasil, tampouco na América Latina.
Pode parecer que não têm nada em comum, mas características de open business unem o funk, no Rio de Janeiro;
o Espaço Cubo, no Mato Grosso;
a Eletrocooperativa, na Bahia;
o filme Cafuné, de Bruno Vianna;
a Tortilleria, no México;
o mercado cultural em torno do Merlín Estudios, em Medellin, ou a comercialização de champeta na Colômbia e Caribe;
exemplos de jornalismo colaborativo ou social, como o Repórter Brasil, Carta Maior e o próprio Overmundo, isso para citar apenas alguns que pretendemos registrar.
Em o caso mexicano da Tortilleria Editorial, por exemplo, autores compartilham suas publicações na rede.
Por meio de um software que gera o original para a impressão, eles podem copiar e vender suas próprias obras e a de outros autores que participam do projeto, sem pagar por os direitos de propriedade.
Paralelamente, suas obras podem ser igualmente distribuídas e comercializadas, sem o recebimento de qualquer valor referente à propriedade intelectual.
A idéia do projeto é assim compreender quais são os elementos que compõem mercados abertos, como e por que eles funcionam.
Entre muitas questões que envolvem as iniciativas em 'sa direção, interessa a nós entender em que medida as novas tecnologias contribuíram para o aprofundamento e a disseminação desses modelos de negócios, como eles se organizam em relação aos direitos de propriedade, suas regras, os sistemas de incentivos, quem são os principais atores desses mercados e as características de seu público.
Por isso, 'tamos identificando, investigando e sistematizando alternativas que conjugam conteúdos abertos e acessíveis para o público com sustentabilidade econômica.
Essas experiências permitem não só maior acesso ao conhecimento, como também modelos mais horizontais e inclusivos.
O desenvolvimento tecnológico e o comportamento social criado em torno de ele colocam em xeque os tradicionais modelos de negócios na área de cultura.
Novos modelos têm criado oportunidades de inserção de agentes no mercado, bem como o desenvolvimento de indústrias culturais locais e globais.
Para criar referências de negócios mais inclusivos e compatíveis com a realidade contemporânea, o projeto Open Business desenvolve pesquisa sobre a indústria local da música no Brasil, Argentina e Colômbia, além de compilar casos exemplares de negócios abertos nos três países e no também no México.
O projeto investiga também a indústria cinematográfica nigeriana, que produz, copia e distribui filmes sem arrecadação de pagamento por os direitos autorais e representa nada menos que o segundo maior setor econômico do país, ficando atrás apenas da indústria petrolífera, e a terceira maior indústria cinematográfica do mundo em geração de receitas.
Os primeiros resultados das pesquisas poderão ser conferidos em março de 2007.
Você pode contribuir
Há diversas iniciativas surgindo e crescendo na América Latina.
As periferias, globais e nacionais, 'tão se apropriando da tecnologia e criando indústrias culturais informais, por meio de redes de produção, distribuição e consumo próprios.
Não se baseiam em incentivos tradicionais de propriedade intelectual.
Ao contrário, apostam na livre difusão das obras para o sucesso do negócio.
O que motiva o artista a criar?
A remuneração é o principal incentivo para criação -- que outros existem e que peso eles têm?
Quais são os principais meios de remuneração dos artistas?
As respostas a 'sas perguntas podem nos levar a mais produção e mais acesso à cultura.
Contribuições às pesquisas e ao mapeamento em curso são muito bem-vindo.
Você pode colaborar para que o projeto se torne mais rico, registrando ou indicando novos casos de negócios abertos aqui no Overmundo -- a sugestão é usar sempre a tag «openbusiness» como forma de ir costurando as colaborações que surjam sobre o assunto.
Outra possibilidade é a proposição de questões, idéias ou reflexões sobre o tema, por meio de comentários aqui embaixo.
A razão deste texto não é mesmo outra senão a de despertar reações, novas colaborações, casos e perspectivas:
negócios abertos, debate idem!
Para saber mais sobre negócios abertos e cultura livre no Brasil, visite também:
www.culturalivre.org.br
Número de frases: 64
www.direitodeacesso.org.br Em meio às repetidas veiculações radiofônicas, bandas que parecem com aquela que você ouviu semana passada, referências e citações cansadas e desbotadas, ainda se pode ouvir algo novo, inesperado e surpreendente.
há um novo blog que vale a pena visitar:
entre e ouça.
o endereço é 'te:
http://entreeouca.wordpress.com/.
ali encontramos exemplos de músicos que não buscam soluções simples, nem muito menos a mesmice do pop atual.
ao contrário, experimentos ora delicados, pungentes e maravilhosos;
ora agressivos, ousados e visionários.
bandas e artistas como:
anne laplantine,.
tape., gel:,
tujiko noriko, telegraph melts, mira cálix, são exemplos do que precisamos na música.
chega de «conversa de botas batidas»! (
Número de frases: 13
citando uma das únicas bandas que realmente era interessante no pop nacional!).
Dentinho (Roger Dee) é dj e ex-grafiteiro que 'tá envolvido com o Hip-Hop na capital mineira desde os seus primórdios até hoje.
Ele viu o movimento surgir, diminuir e retornar com força total.
O break de Belo Horizonte já foi considerado um dos mais originais do país, assim como o graffiti.
Este, até hoje, é muito respeitado e visto como uma referência no Brasil.
Dentinho 'teve lá, viu tudo surgir e crescer.
Overmundo:
Como foi o surgimento do graffiti em BH?
Comecou por os bboys, certo?
Dentinho:
Isso. A nossa crew foi a primeira da cidade, a Break Crazy.
Mas as pessoas têm que entender que o hip-hop começou por causa da moda.
Foi com o filme Beat Street, que assistimos no cinema, em 1984, que tivemos o primeiro contato com o que eram todos os outros elementos do hip-hop.
Com o tempo foi sendo descoberto que por trás daquilo ali havia uma cultura.
Essa cultura se 'tabeleceu depois que a moda passou.
E o graffiti apareceu aqui um pouco depois do primeiros bboys.
Foi com 'se filme que tomamos conhecimento do que realmente era graffiti, foi a primeira vez que vimos um cara segurando uma lata de spray e fazendo um traço.
O:
E como que isso se transformou no primeiro graffiti?
O primeiro desenho na parede?
D:
Bom, na verdade, tudo começou no papel ainda.
Não foi para a lata direto.
Em as crews de Bboys sempre tinha alguns mais interessados em desenhar.
Eu e outro cara, o Ulisses, começamos a desenhar nas capinhas de fitas K7 que gravávamos com os funks.
Agora, sobre o primeiro graffiti ...
Há uma história que quase ninguém conhece.
Antes da gente mandar aquele que passou a ser considerado o primeiro de BH, tinha um cara que 'crevia «Zong» ou alguma coisa assim, mas era graffiti mesmo, nunca descobrimos mais nada de ele, ninguém sabia quem era.
Mas aí, quando a gente viu 'se desenho, resolvemos mandar o nosso, que foi ali no Anchieta também, no bowl de skate.
Era um lugar meio abandonado, então não tinha muito risco.
A gente 'creveu " On Way Break "
O: E como que isso repercutiu nas outras crews?
D:
O pessoal ouviu falar, foi bem comentado, mas tudo ficou parado um tempo depois desse primeiro.
Aí, alguns meses depois, resolvemos fazer um encontro de break no bowl.
As outras crews da cidade foram no encontro e viram o resto do meu desenho que ainda 'tava lá.
E como os grupos sempre tinham um desenhista oficial, todo mundo ficou empolgado.
O:
E aí que a coisa engrenou ...
D:
É. Os grafiteiros passaram a ficar um pouco mais independentes das crews.
Em aquela época (1986) éramos seis na cidade inteira:
eu, Angelo, Bá, Sol, Beto e Nêgo.
E começamos a achar e eleger uns locais para praticarmos.
Esses lugares acabavam virando o ponto de encontro do pessoal.
Em a verdade, o Angelo era o melhor grafiteiro de todos.
Ele influenciou muita gente, não só em Minas Gerais.
Ele representou uma evolução na arte, o primeiro artista real de graffiti.
Ele era meio louco, umas idéias muito diferentes.
Teve uma história curiosa.
A gente tinha uma festa grande de grafiteiros, bboys e djs na Av..
Afonso Pena, na passagem abaixo do pré-vestibular Palomar, toda sexta-feira à noite.
O Angelo teve a idéia de grafitar por cima de um tapume (foto) e saímos carregando 'se painel daqui de o Carlos Prates até o Palácio das Artes (próximo ao Palomar) e o acorrentamos na grade do Parque Municipal.
Ou seja, o primeiro graffiti do centro de Belo Horizonte foi literalmente carregado daqui até lá.
Ficou mais de 1 ano lá parado, ao lado do Palácio.
Enquanto o tapume 'tava lá preso, as pessoas iam passando e arrancando alguns pedaços de ele, até que não sobrou mais nada.
Fizemos isso um pouco por 'sa coisa de chegar e mostrar o nosso desenho lá perto do local «tradicional» da arte na cidade.
Mas o Angelo influenciou muita gente.
Em o fim da década de 80, quando os gêmeos vieram de São Paulo a BH, eles ficaram muito impressionados com a identidade do trabalho de ele.
O:
Tinha uma comunicação entre o graffiti de São Paulo e o de BH?
D:
Tinha. Mas havia uma diferença clara entre as duas cidades.
Em São Paulo tinha muita informação.
Mesmo no início do movimento, o acesso a livros, filmes, revistas era muito maior.
Então o trabalho dos grafiteiros de lá sempre foi muito influenciado por o o que rolava lá fora, nos Estados Unidos.
Já aqui em BH, a gente tinha que pesquisar muito para encontrar pouca coisa, às vezes uma foto pequena, num canto de uma matéria.
Isso fez com que a gente tivesse que desenvolver um trabalho bem autoral, criar técnicas, uma identidade própria.
E foi exatamente isso que gerou mais interesse do pessoal de fora em relação ao grafitti mineiro.
Tanto que quando o Angelo e 'ses artistas mais do início e que já tinham desenvolvido um trabalho com um diferencial começaram a parar, teve um declínio forte na cena belorizontina.
O:
E quando que o graffiti ressurgiu e se 'tabeleceu até o momento atual?
D:
No meio da década de 90, a galera foi se encontrando novamente e resolvemos formar um novo grupo:
o Arte Graffiti.
E em 'sa mesma onda de retomada, o salão de cabeleireiro Preto e Branco topou fazer um encontro reunindo todos os artistas.
Foi o evento «Grafitando BH», que misturou a oldschool com a newschool.
E 'se momento foi muito importante, foi o renascimento mesmo.
Em 'sa época passou a ser muito mais fácil conseguir spray, tinha muito mais gente pintando e então os muros foram «tomados».
E 'se é o momento atual.
Tem muita gente boa produzindo atualmente, como o dalata, o hyper e o Ramon.
O:
E quanto mais gente pintando melhor?
Ou corre o risco de uma banalização.
D:
Dentro da cultura hip-hop hoje, o que 'tá mais resolvido é o graffiti.
Em o sentido de que é o que 'tá mais definido, que tem mais gente fazendo, produzindo, na rua.
Mas o risco de banalização existe.
Só que dentro do movimento mesmo há uma consciência de 'colher bem os locais.
E, principalmente, ter 'se respeito por a história, por o o que já aconteceu.
Embora o hip-hop em BH atualmente já não seja uma referência tão grande como foi na década de 80, acho que quem tá representando o graffiti hoje em dia tem 'se respeito e 'sa consciência.
Número de frases: 91
Desde que veio ao ar, a atual novela das oito da Rede Globo tem produzido uma salada mista sobre o ensino superior brasileiro, usando a dita Universidade Pessoa de Moraes, dirigida por a personagem «Branca» interpretada por Suzana Vieira.
A confusão entre «público» e «privado», excursiona por a 'tigmatização da mobilização de professores, do movimento 'tudantil, da luta contra o preconceito racial, e 'vaziamento das políticas de inclusão social, traçando um quadro tosco da pauta política brasileira -- aliás, de uma pauta popular para a política brasileira, para além das comodities e do mercado imobiliário 'tadunidense.
A o que me parece, 'ta bizarrice tem o propósito evidente de desinformar os telespectadores e deturpar a própria noção de cidadania.
Em o capítulo da referida novela, que foi ao ar na segunda-feira (03/03/08), a emissora superou-se em matéria de artimanha, ao colocar o ultimamente mui falado «cartão corporativo» na mão de Suzana Vieira, que interpreta a proprietária da instituição privada de ensino da novela global.
«Branca «usava-o para comprar presente ao reitor» Professor Macieira».
Qual a intenção da Globo com isso?
A imprensa de modo geral deveria aprofundar seu olhar sobre a repercussão do tema do cartão corporativo no 'pírito público dos brasileiros, incluindo aí o modo como eram feitas as compras e as prestações de contas anteriormente ao cartão corporativo.
Desqualificar o cartão com base em retóricas e discursos da oposição não significa dar transparência e menos ainda tratar com imparcialidade.
Não quando se exclui a discussão de políticas de Estado.
Isto cheira mal, seja na novela ou nas manchetes diárias.
Coloco algumas questões:
Antes do cartão corporativo, como era?
Licitações e contratações entre funcionários do alto 'calão e empresários / lobistas?
Pretende-se trocar a tecnologia por os envelopes lacrados e diminuir os olhos a vigiar as ações do governo?
Ou, a oposição já prepara a cama para melhor dissimular seus gastos após o Governo Lula, sendo preciso acabar com a transparência desde já?
Não fosse o cartão, seriam sabidas as irregularidades denunciadas, ou será que desvios nunca houveram por outras formas de operar com o dinheiro público?
Duvido que a imprensa seja tão ingênua e não se faça 'tas perguntas.
Seja qual for o partido no poder, o povo merece saber o que fazem com seu dinheiro.
Seja qual for o enredo da novela, não se deve brincar com conceitos tão caros à clara compreensão da vida política do país.
O que a Rede Globo faz é dificultar a compreensão da vida política e limitar a participação crítica dos cidadãos.
A confusão entre o que é público e o que é privado em 'te país não é obra do acaso, mas uma urdidura histórica por a usurpação da cidadania.
Em a relação mídia-cultura fico sempre com um pé atrás, em 'tranhamento diante do caldeirão que cozinha idéias a serem impingidas como «patrimônio» brasileiro:
apatia, corrupção e as desqualificações educacional, profissional, tecnológica, etc.
Número de frases: 23
Por 'ta e outras, fico muito desconfiado das afirmações sobre traços culturais de uma «índole brasileira».
Hibridismo Cultural e Mestiçagem "
O conceito de Hibridismo Cultural converge com a idéia de Mestiçagem que você combate?» ...
«Não.
O conceito Hibridismo Cultural não converge, de modo algum, com a idéia de Mestiçagem que eu combato, além do que ..." (
Eu, respondendo à Ize que, num dia destes, 'creveu a pergunta na borda de uma página do jornal O'Globo, acerca de duas matérias sobre a questão racial no Brasil)
A resposta -- de longa e cabeluda -- virou 'te post.
Culturas híbridas por natureza
Por falar em Diversidade ...
Para começar, Hibridismo cultural poderia ser visto como um conceito apenas proposto, descoberto, porque tudo indica que sempre foi uma lei da natureza, tendo a ver, diretamente e no geral, com Diversidade.
(Uma idéia puxa outra que puxa a outra que puxa outra ...
e por aí vai).
O brilhante antropólogo Néstor Garcia Canclini 'taria citado aqui sim, com todos louros àquele que, a partir das pistas salpicadas aqui e ali por seus antecessores, capturou com clareza o sentido de um fenômeno social bastante complexo, sistematizando-o no âmbito de sua inovadora antropologia, sempre na intenção de explicar de modo mais aberto e franco possível, o sentido fugidio da natureza humana em 'te nosso confuso e admirável Mundo Novo.
É por conta de 'ta lenta, porém, segura evolução do pensamento do homem sobre si mesmo expresso na obra de Canclini, entre outros, que hoje já podemos, pelo menos, sugerir que a Cultura humana deve -- e a Educação também deveria -- significar diferentes maneiras de se abordar ou compreender uma mesma coisa, ou vários modos de se realizar uma mesma tarefa, diversos caminhos para se chegar a um mesmo lugar (que, afinal, é quase sempre uma encruzilhada), ou em algum daqueles muitos caminhos que levam à Roma (mesmo para quem não 'tá nem aí para ver o Papa), em 'ta nossa eterna busca por um destino mais feliz.
«O Caos e Acaso são a mola e o dínamo do universo!" --
Diria aquele sujeito velho e barbudo que assistiu, de camarote, ao Big Bang.
O Hibridismo cultural parece ser mesmo uma atitude humana atávica sim porque, por o que nos poderiam dizer neurocientistas como o Oliver Sachs (que alguns grafam Sacks), ou lingüistas como Noam Chomsky, por exemplo, 'tá relacionado à plasticidade maravilhosa do cérebro humano, nossos sentidos, transformando informações apreendidas aqui e ali, num turbilhão de emoções que, por sua vez, se transformando nos mais variados tipos de sinapses e memórias, multiplicadas aos milhões, se transfiguram em nexos, linguagens e conceitos, dos mais concretos aos mais abstratos ou absurdos.
Assim como são as pessoas, seriam as comunidades, as sociedades.
O conceito pode ser considerado, intrinsecamente, humano também porque Cultura sempre pressupõe feedback, transmissor + receptor interagindo, alternando-se, confundindo-se, por vias expressas e inversas (porém, nunca 'tanques).
Mão e contra mão.
O Meio virando a Mensagem (e vice versa).
Sinergia, movimento, vida.
Gosto muito, em 'tes momentos, de citar a Música, uma linguagem onde conceitos como Primitivismo e Modernidade carecem, absolutamente, de sentido porque a Música (o Som) é um fenômeno que se dá, concomitantemente, ao longo do Tempo e do Espaço, área difusa onde o que é passado pode ser também, do mesmo modo, presente ou, até mesmo, futuro.
O fenômeno do hibridismo cultural é pois assim, como a Lei da Relatividade (que já existia antes de Einstein a descobrir).
Atemporal e imponderável.
Arte e Ciência.
Mágica e lógica, ao mesmo tempo.
Seria inconcebível um mundo feito de energia funcionar de outra forma.
Uma coisa sempre conteve um pouco da outra.
Sim, tudo na natureza -- e na cultura dos homens, por extensão -- é como carne e unha.
Em o Socialismo, no Capitalismo, na pré ou na pós-modernidade sempre foi -- e, ao que parece, sempre será -- mais ou menos, assim (e que novas tecnologias de inteligência artificial não nos contradigam um dia) ..."
As coisas 'tão no mundo, só que eu preciso aprender." (
Paulinho da Viola, naquele samba clássico)
Toda mentira tem perna curta
Mas, nem sempre têm um fundo de verdade
Miscigenação não.
Aí já se 'tá falando de um conceito artificial, inventado (ou imposto), um conceito desumano (no sentido 'púrio da palavra) porque fere, deliberadamente, os princípios mais elementares de nossa natureza.
Transitando por 'te mesmo assunto, tentei dizer isto naquela outra matéria chamada «Salada Mista».
É que a velha fonte de 'tas ' modernas ` teses sobre miscigenação no Brasil, parece mesmo ser a teoria, genericamente, conhecida como ' Elogio à mestiçagem " que propõe, no fundo -- nem tão no fundo assim -- a diluição das raças, supondo, diabolicamente, que possa haver algum tipo de ganho ou ' evolução biológica ` (e, conseqüentemente, social, cultural, enfim), a partir de uma ' mistura ', uma ' química ', na qual dois elementos, se fundindo, acabariam por se anular, mutuamente, gerando um terceiro elemento ' melhorado ` e, portanto, geneticamente ' superior ' aos dois outros que o geraram.
(Cavernosa teoria.
Que tipo de pessoa seria capaz de ficar arquitetando e mastigando idéias assim tão ácidas e venenosas?
Com que interesses ou intenções?)
Observem, atentamente, que o ser resultante de 'ta ' química ', no caso, o Mestiço (aquele que não é nem uma coisa nem outra) ou o Mulato (literalmente o cruzamento entre uma mula e um cavalo), anunciado como sendo superior, geneticamente, aos elementos que o geraram, é sem dúvida, uma entidade, eminentemente racial.
(Homoracial, poderíamos dizer, já que é o inverso da diversidade genética antes existente).
Uma quimera, um frankeinstein social, para usar uma imagem mais enfática.
Ora, vista sob 'te prisma, a teoria da Mestiçagem é ou não é, tecnicamente, uma tese racista?
A partir da criação artificial de um biotipo ' menos negro ' (a abolição física do negro, portanto), sub-repticiamente, de mistura em mistura sobreviveria apenas uma raça.
Qual? Bingo!
A Branca.
Este aspecto sutil, 'ta subliminaridade contida em 'ta proposta de mestiçagem, pode denotar a intenção velada, de se destruir apenas um dos elementos da equação, anulando a alegada diferença entre as duas supostas raças.
Ontem o pretexto era acabar com a nossa inferioridade biotípica nacional.
Fracassado o projeto de abolição das diferenças raciais no Brasil (previsto no século 19 para durar 100 anos), hoje, a causa é desqualificar a pertinência da adoção de ações reparadoras dos males e seqüelas sociais resultantes da 'cravidão e do racismo perpetuado (cuja manutenção foi, aliás, ironicamente justificada por 'tas mesmas teorias).
Como Meio, a deposição da diversidade, a evolução fraudada.
Como Fim, a perpetuação de privilégios coloniais.
Por isto, é bom se ressaltar também que, no campo de debate, digamos assim, mais acadêmico, a confusão 'tabelecida entre Hibridismo Cultural e Mestiçagem é, pelo menos para mim, completamente artificial e propositalmente criada para confundir mesmo (no que aliás, tem sido bem eficiente, pelo menos com os mais crédulos).
«' Uma insanidade digna de tarados» Diria alguém mais desprovido de fino trato.
O Sofisma de Galton
O primo rico e o primo pobre
Pois saibam os que ainda não sabiam, que Charles Darwin, gênio da Teoria da Origem e da Evolução das Espécies, apóstolo da Diversidade, tinha um primo (dizem que também cunhado) que era grande admirador da extraordinária obra do parente.
Ele (pobre apenas de genialidade já que, na verdade, era tão rico quanto Darwin) se chamava Francis Galton e foi quem criou a teoria da Eugenia ou do ' depuramento genético ', que aparece como marca indelével na alma de 'tas teorias de miscigenação aqui aludidas.
(Idéia por a qual, como já disse em outra oportunidade, além de figuraças como Chamberlain, Gobineau e Lombroso, militaram também, entre outros brasileiros adeptos de primeira hora, Nina Rodrigues e Gilberto Freire).
Segundo 'ta 'tapafúrdia teoria (grosseiramente baseada no trabalho de Darwin, mas, muito calcada nas teses de Gregor Mendel) se poderia ir identificando supostos defeitos genéticos em certos tipos humanos ' degenerados ` e, gradativamente, ir se criando restrições à procriação destes indivíduos, portadores destes eventuais ' defeitos de fábrica ', criando obstáculos legais para o casamento entre eles, 'terilizando-os, ou mesmo assassinado-os em genocídios programados como mais tarde fizeram os nazistas, a partir de 'tas mesmas idéias ... '
científicas ' (os admiradores de Galton afirmam que ele não teve nada a ver com isto).
(Pesquisando, agora mesmo, algumas imagens sobre o tema, tive que parar a busca por causa da náusea e dos engulhos provocados por a visão de tantas aberrações perpetradas em nome de 'tas teorias)
Desta forma, segundo o outrora respeitadíssimo Galton, se iria depurando a 'pécie humana (vejam bem, só por aí, a que tipo de armadilha social pôde nos levar a ' admiração ' de Galton por a obra do primo).
Darwin, como sabemos, propôs em 1859 -- e provou -- que a natureza, através de um processo muitíssimo lento e meticuloso, ao longo de milhares, milhões de anos às vezes, iria selecionando o melhor de cada uma das 'pécies existentes na natureza.
Era a evolução flagrada, testemunhada, a partir de uma lógica de um sistema planetário, ecológico, inquestionável.
Galton (não se sabe se por admiração ou para suplantar o primo-cunhado), se propôs a fazer a partir de 1865, exatamente, a mesma coisa, só que, apenas com ...
gente, e bem rapidinho, substituindo a lógica da natureza por a discricionária vontade de um grupo qualquer (uma elite de cientistas, talvez) que tivesse poder sobre os demais.
Uns decidindo quais características biológicas, genéticas (e, portanto ' raciais ') mereceriam se tornar hegemônicas na humanidade.
Sacaram aí onde se poderia encaixar, facilmente, a teoria da mestiçagem?
(curiosamente 'te processo -- conhecido, a grosso modo, como Engenharia Genética -- é muito utilizado hoje em dia na produção de alimentos na indústria e na agricultura, como no caso dos transgênicos).
O mais surpreendente é que Galton não tenha se dado conta da 'tupidez flagrante de 'ta sua tal de Eugenia, mesmo depois de ter descoberto a papiloscopia, eficiente e, até hoje, insuperável recurso utilizado na identificação de criminosos, baseado na análise de vestígios conhecidos como impressões digitais, prova cabal de que nós, seres humanos, apesar de semelhantes, somos seres individualizados, realmente únicos, inigualáveis, o que cria obstáculos insuperáveis para que se possa controlar, cientificamente, o resultado de uma mistura de gente assim com gente assado.
A teoria do Galton, logo se viu (pelo menos para nós humanos), era lixo puro.
Deveria ter desaparecido com Joseph Mengele, mas, como se vê, ela sempre ressurge como uma hidra reciclada, a nos assombrar com a suas mil cabeças e sentidos maquiavélicos.
Hoje em dia, no calor de discussões sobre a necessidade de se reparar ou não (e de que forma) danos e injustiças evidentes de um sistema social iníquo que, surgido sob as bases do sórdido 'cravismo colonial, reconstruiu-se logo a seguir, por intermédio da subalternização de pessoas, a partir de então identificadas -- e hierarquizadas -- por os traços físicos e evidências de sua maior ou menor ancestralidade africana ou indígena (ou não branca, em suma) há que se refletir bastante, acerca das reais intenções de reações e oposições que, se apoiando, de forma muitas vezes capciosa, em sofismas evidentes (além de certas distorções semânticas), podem ser classificadas como causa militante de um articulado grupo de Anti-abolicionistas tardios.
Então, só para clarear:
1-O conceito Miscigenação ou Mestiçagem (no sentido 'trito com que a palavra é utilizada em 'ta discussão) parece ter relação direta com as teorias racistas que distorceram -- com o intuito talvez de embasar, teoricamente, o neo-colonialismo -- o conceito Diversidade, inaugurado por Charles Darwin, fundado, como se sabe, no princípio da Evolução Natural das Espécies, modernamente inserido nas discussões sobre a degradação ambiental do planeta, sob o nome de Bio-Diversidade.
2-' Elogio à mestiçagem», «Evolução artificial ' ou» Eugenia positiva ', se parecem com formas, 'pertamente, abrandadas de se definir aquelas mesmas ideologias racistas, que julgamos, até prova em contrário, varridas da história da humanidade, por culpa de suas perniciosas e notórias conseqüências, devidamente atestadas no passado.
3-O conceito Hibridismo, entendido aqui como um processo cultural contemporâneo, ligado ou não à modernidade de nossa civilização ora globalizada, não contradiz o princípio Diversidade em nenhum aspecto porque Híbrido não quer dizer, de modo algum, diluído, misturado.
As aparências ...
(Fico surpreso mesmo é que exista tão pouca gente debatendo, contrapondo, publicamente, as afirmações equivocadas e perniciosas de 'ta gente aqui no Brasil (principalmente em órgãos da imprensa como o jornal O'Globo).
O mesmo Charles Darwin, coerentemente, quando 'teve no Brasil em 1832, manifestou a sua firme decepção diante da nossa aguda crueldade social (indignado com a 'cravidão).
Incrível que já se tenham passado bem mais de cento e cinqüenta anos sem que, quase nenhuma alteração em nossas relações sócio-raciais possa ser, claramente, vislumbrada no horizonte.
Nenhum pequeno navio chamado ' Beagle ' ancorado ao largo.
Nenhuma 'pécie de real evolução à vista.
(Ainda bem que semana que vem é Carnaval e tudo acabará em Samba).
Spírito Santo
Número de frases: 88
http://shasca.blogspot.com Essa semana terminou a sétima edição do Festival Internacional de Linguagens Eletrônicas, cuja contração é File e o apelido entre todo mundo que conheço é Filé.
O festival é formado por uma série de eventos, e a abrangência do tema garante uma multiplicidade ímpar de interpretações e possibilidades tanto por parte dos artistas participantes, quanto do público.
Participa gente de todo mundo, só em 'se ano foram cerca de 200 outros artistas de mais de 30 nacionalidades.
E o incrível é que o acesso a todas 'sas interpretações artísticas baseadas em novas tecnologias é totalmente gratuito.
A sala de exposições, que combinava as 18 instalações, 6 games, o File Media Art (dedicado a net art) e o File Cinema Documenta (ufa!)
permanece movimentada ao longo dos dias:
o SESI, que sedia o evento, tem localização privilegiada na av..
Paulista e é tradicionalmente um 'paço para eventos gratuitos, de shows instrumentais a peças teatrais.
Foi tanta coisa rolando que eu mesmo não consegui conferir tudo.
De o File Symposium, série de 32 palestras e mesas-redondas, não vi nada, apesar da programação tentadora.
O File Hipersônica, dedicado à música, teve como destaques, na minha opinião, Muvi, de Ricardo Carioba e Fábio Villas Boas e Somativo, de Palo Hartmann e Lornardo Gonzáles.
Muvi consistiu de um piano de cauda e sua interação com um telão todo pixelado.
Somativo foi uma bela sessão de música improvisada feita com guitarra preparada e flauta, com loops montados na hora e uma projeção muito bonita.
A performance aludia às guerras no Oriente Médio de forma leve.
Um dos destaques nacionais entre as instalações foi o artista e pesquisador paraibano Christus Nóbrega, que teve seu trabalho LIVR (E / O) (foto da matéria) avaliado e selecionado por o corpo de curadoria do File.
Você tem um trabalho acadêmico além de sua produção artística.
Como 'sas atividades se articulam?
Atuei como professor na UFCG, ensinando no curso de design e trabalhando como pesquisador de tecnologias apropriadas.
Essa experiência foi fundamental para que eu viesse a entender que toda tecnologia, seja ela apropriada ou de ponta, é uma forma do homem compreender seu corpo e sua mente.
Em 'se momento, 'tava concentrado em 'tudar, documentar e aperfeiçoar os modos tradicionais de como os homens transformavam a matéria-prima em artefatos, e em detectar em 'ses objetos os signos de 'sa tradição tecnológica.
Em decorrência disso, busquei ampliar minhas reflexões da relação do homem com a tecnologia e entrei no mestrado em Arte e Tecnologia da Unb.
Em a pós-gradua ção iniciei pesquisas em arte robótica, investigando e propondo modos de como criar vida artificial emocionalmente ativa, capaz de socialização com humanos, e assim, aproximar a tecnologia de ponta na vida cotidiana das pessoas, tal qual a tecnologia apropriada 'tava presente outrora na vida de muitos.
Atualmente, também leciono nos cursos de graduação de design e artes do Instituto de Artes da UnB, e minhas áreas de ensino e pesquisa 'tão diretamente relacionadas com as áreas de abordagem de minha produção artística.
Logo, não consigo desassociar o meu fazer artístico de minha atividade acadêmica, na medida em que 'se fazer surge de investigações realizadas, principalmente, dentro da universidade.
De onde vem sua necessidade / inspiração pra fazer arte?
Prefiro chamar 'sa faculdade de necessidade, porque para mim ela é vital.
Mas, não conseguiria dizer de onde ela vem, pois se origina de fontes que mudam constantemente.
Não há um centro em comum, uma mesma energia motivadora para criação de minhas obras.
Elas podem nascer de uma necessidade tecnicista, quando me sinto desafiado a dominar ou desenvolver determinada tecnologia, outras vezes podem se desenvolver a partir de minhas inquietações trazidas por as memórias ...
Outras vezes de inquietações sociais ...
Porém, 'se denominador comum 'teja, talvez, no resultado de minha produção artística que procura a investigação não da vida como ela é, mas da apresentação de caminhos de como ela poderia vir a ser.
A obra que você apresenta no File, LIVR (E / O), parte do campo táctil para o campo visual, usando bi e tri dimensionalidade e signos que parecem fazer referência ao ocultismo.
Como surgiu 'se trabalho?
Tudo começou quando na adolescência herdei alguns tratados raros de ocultismo.
Eram livros 'critos em latim, grego, e outras línguas herméticas, repletos de desenhos e símbolos misteriosos e inacessíveis à razão.
Eram imagens que me fascinavam, mas não fazia a menor idéia de como me servir de elas 'piritualmente.
Quanto mais eu as 'tudava menos eu as entendia.
Essa inquietude me conduziu ao trabalho LIVR (E / O), uma obra de Realidade Misturada em que objetos materiais servem de suporte para a invocação de objetos virtuais, discussão igualmente abordada em 'ses tratados ocultistas.
Em a obra um livro é captado por uma webcam e tem sua imagem projetada num telão.
Um programa de computador rastreia as imagens das folhas desse livro, e quando encontra os desenhos pré-programados projeta sobre eles figuras virtuais em quatro dimensões.
Esses desenhos foram criados a partir dos selos pesquisados nos tratados.
O apelo ao toque e a manipulação do livro é fundamental na obra, com ele o interator poderá (re) criar a realidade e invocar seres virtuais alusivos aos seres arquetípicos que encontrei nos tratados ocultistas.
O ato, o gesto, o corpo e a matéria, em conjunto, são os elementos fundamentais e indissociáveis em 'se rito artístico.
O File é um acontecimento com múltiplas atividades, de palestras a exposições e apresentações musicais.
O que você achou do evento?
E de sua participação?
O File proporciona um importante momento de convergência do pensamento e da ação sobre as novas mídias.
É um dos importantes 'paços para a arte e tecnologia que o Brasil tem a iniciativa de criar.
Em o File podemos interagir com um diversificado recorte da produção contemporânea eletrônica do mundo, bem como, com seus desenvolvedores e com o público.
Transitar por 'ses três pilares foi pra mim muito renovador, pois são das trocas que amplio cada vez mais as possibilidades e desdobramentos de meus trabalhos.
É isso aí, pessoal, por hoje é só!
A boa dica da Vivian pra 'perar o próximo Filé é acessar o site, onde dá pra conferir os trampos online.
Número de frases: 52
como se não obstante fosse, para os olhos 'trangeiros, o ineditismo experimental das 'culturas, instalações, pinturas e performances de Hélio Oiticica que, sobretudo criou o Paragolé -- obra denominada como anti arte por excelência por o próprio autor, uma 'pécie de capa (ou bandeira, tenda, 'tandarte) que só mostra plenamente seus tons, cores, formas, grafismo e os materiais com que é executado a partir dos movimentos de alguém que o vista.
Devido a isso, a obra é considerada como uma 'cultura móvel.
Não contente com demasiada façanha, concebe também o penetrável Tropicália, que não apenas inspirou o nome, mas também contribuiu para consolidar a 'tética do movimento tropicalista na música brasileira, das décadas de 60 e 70. Não deixarei de citar outros expoentes de 'sa plausível geração, pois províamos também de Ivan Serpa, Lygia Pape, Aluísio Carvão, Dercio Vieira e Ligia Clark.
Essa ultima também foi, junto com Amilcar de Castro e o próprio Hélio Oiticica, manifestante do grupo neoconcreto nos anos 50, que surgiu por consequência de uma certa gramínea nociva no Movimento Concreto dos oriundos paulistas.
Além disso, Ligia Clark concebeu a série Composições, nas quais investigou o papel da linha e do plano como elementos plásticos.
Eliminou a moldura, tornando-a parte da obra, ao pintá-la e desenvolveu também a pintura de extração construtivista, restrita ao uso do preto e branco.
Ainda assim denominava-se uma anti artista.
Precisarei me conter um pouco para não discorrer, em todo texto, sobre o hilário Nelson Leirner e suas coleções em miniaturas, ou o surrealismo belo e inóspido das pinturas de Siron Franco e tantos outros.
Provando ainda mais que o Brasil se 'tabeleceu como um grande centro de arte contemporânea, desde os bons tempos de subversão.
Agora, para a nova geração, creio pouco que os que apreciam ou são 'timulados, de alguma forma, a acompanhar e conhecer melhor a projeção de suas referências artísticas atuais, não conheçam as fotografias improvisadas e irreverentes de Cao Guimarães, o usufruto de objetos contidianos de Marepe, que para a apreensão dos que 'crevem sobre o mesmo, apresenta ao mundo uma arte à margem dos clichês que permeiam a política social e cultural do Brasil.
Ou até mesmo o valor incontestável de Vik Muniz, relacionado em 'se novo 'tado da produção de arte brasileira, como um dos fotógrafos vivos atuantes mais importantes do mercado internacional.
Em verdade, caras testemunhas de uma análise cansada e desenxabida, vivemos, nós, artistas brasileiros, uma ascensão na arte contemporânea nacional.
Somos, nativos da boa terra ensolarada, como uns compulsivos em nossas produções visuais, efêmeras ou não.
Isso, como o futebol, é digno de orgulho para todos os inseridos ou apenas 'timadores do universo extraordinário das artes plásticas.
Nos encontramos, para os eternos exploradores e também contempladores da arte barata, naturais do velho mundo, como a menina de ouro fortalecedora de um colossal mercado que se impõe, atualmente, como um dos mais fortes na terra de Pablo Picasso, Juan Miró, Salvador De ali, Gaudi e Goya.
Dizem por aí, que os artistas brasileiros 'tão a superar ou, ao menos, tentam alcançar os chineses, que por sua vez reinam ou reinaram por longas datas com seus supostos van-guardismos 'téticos e suas instalações gigantescas, para a alegria dos cofres de quem os represetam.
A exemplo de Cai Guo-Quiang, Cao Fei e Liu Wei.
Eu sei, eu sei ...
Mas, por favor, eu peço:
parem de me pressionar de 'sa forma.
Falarei do outro lado sim.
Estou apenas nos primeiros tópicos que descrevem uma análise num texto.
Está bem, vamos então falar da parte que importa:
enuncio em 'te momento que não sou regido apenas por deslumbres diante da atual fase na produção dos trabalhos de artistas brasileiros.
Sabemos, sobretudo os 'timadores desses artistas e suas ações, sobre o lado que chamamos de paradoxo em 'sa ascensão toda.
Temos referências das opiniões de Ferreira Gullar, somos capazes de refletir sobre a filosofia de Theodor Adorno e Gaston Bachelard em análise sobre as artes e os artistas, deliberadamente somos cúmplices de jovens artistas, imaturos e descontentes com a expansão e o enaltecimento de novos segmentos como performances, vídeo arte ou arte efêmera qualquer.
Mas, o que 'tá explicitamente claro é que ninguém suporta mais arte pobre.
E já que como parâmetro ressaltei o futebol, sabemos que em 'te quesito, sobretudo num país apaixonado e que transborda talentos com a redondinha nos pés, seus admiradores não ficam satisfeitos quando os jogadores não exibem magia, beleza e qualidade técnica entre as quatro linhas de um quadrado com gramado verde.
Esses supostos jogadores talentosos, não precisam ter um alicerce com política ou a realidade social de um povo, devem apenas praticar um bom futebol.
Para os artistas o mesmo, como já faz supostamente Marepe e outros.
Entretanto, não percebemos que o que imaginamos ser uma falta de grandes artistas é, de fato, a falta de uma observação mais lúcida sobre 'sa complexidade dissimulada.
Que desvia nossas retinas para problemas mais simples, como trabalhos que consideramos ruins ou inexpressivos.
O que quero dizer é que, como o futebol, que possui em seu universo uma série de obstáculos para percorrer sua trajectória desprovido de rasuras em sua imagem, as artes plásticas também possuem os seus.
É simples assim.
Os amantes de grandes clubes do Brasil, por mais ingênuos que sejam, percebem claramente os ídolos emergirem com seus nomes e um número qualquer 'tampados na camisa de um time do coração do povo, mas também percebem, imediatamente, serem negociados para um clube da Europa.
Abandonando sua equipe no meio de uma grande competição.
Além disso, não veêm lucros para uma nova contratação à altura de seu ex craque -- pois os dirigentes dos clubes fazem questão de cuidar disso pessoalmente dividindo o valor da venda de um jogador com a (in) parceria in (e) vestidora, contribuindo ainda mais com o declínio das competições nacionais.
Os apreciadores das artes plásticas e artistas, sofrem com isso de duas formas:
para o 'pectador desse universo, fica a sensação, em primeira instância, de um vácuo em seu aprendizado e hedonismo, pois 'se sofre com o inescrúpulo do circuito de arte nacional e se ver desprovido de um meio para expor suas opiniões em despeito do que registra, devido a aculturação da nação brasileira.
Este ultimo, causado por a falta de planejamento na educação do cidadão comum e, como se não bastasse, também por a falta de responsabilidade e compromisso dos artístas.
De entre a classe artística emergente, embrionária e eremita -- para não falar dos injustiçados, são muitos os talentosos e promissores, que sofrem com mais intensidade por consequência de suas inércias.
Um artista emergente que procede de uma instituição acadêmica precisou, antes de tudo, pagar caro para 'tudar.
Logo em seguida precisará se submeter a dois caminhos, coesos ou distintos.
Para ser visto, ser representado por uma determinada galeria e, por ultimo, ser projetado no mercado.
O primeiro passo consiste em desenvolver uma pesquisa ou dissertação, iminentes à academia e deve ser devidamente acompanhado por uma orientação de renome no meio artístico / acadêmico e conceitual.
O segundo é ser nome vínculado, de maneira relevante ou não, com as instituições públicas.
Para os artistas emergentes autodidatas, resta o segundo passo designado para os acadêmicos.
No entanto, um trajeto consideravelmente mais 'pinhoso.
Para os embrionários, o caminho é romper seus medos para alçar suas certezas, que assumirá seu corpo de trabalho e concepão.
Isto feito, se por vez ansiar um reconhecimento crítico e público, deve seguir os dois ou um dos caminhos designados para os perfis dos profissionais já citados.
E, por fim, o eremita, 'se com papel de maior importância.
Pois se trata de um artista seguro, que independente de seu reconhecimento através da crítica, sabe o que é, o que quer e o que propõe.
Consciencioso de seu universo, evoca, através de sua noção aguda, a possibilidade de seu arrojo ou rendição em 'se mercado.
Este é um inspirador ou um perfil de lider para um grupo manifestante.
Deverá apenas, não diferente dos aqui já citados, seguir dois caminhos, entretanto, os mais difíceis:
romper seu egoismo e vaidade.
Quantos são os artistas que, enquanto cúmplices desse meu recitar, não se encontraram num desses perfis aqui expostos?
Estou certo de que são muitos.
Portanto, possuem motivos suficientes para conceberem manifestos e romperem com a inércia.
Os artistas precisam fortalecer sua classe através da união dos mesmos.
O artista será eternamente solitário dentro de seu elemento imaginário ou percepção, disso não temos dúvidas.
Mas não acredito no pensamento rudimentar de que não possa unir-se à outros e louvar seu univeso.
Isso é como uma crença ortodoxa e 'túpida.
A vaidade do artista deve sucumbir para o enaltecimento da coragem e da força conjunta.
A linguagem globalizada interferiu até mesmo em nossas sensações, diante disso, já não somos mais tão sós como costumávamos pensar que éramos.
Isso é deveras romântico para o mundo moderno.
Um criador do novo mundo, concebe não apenas obras de arte, mas também um produto de mercado.
A era industrial já é imperante nas artes plásticas há algum tempo.
Isso é evidente.
Não temos 'colhas.
Está na hora de obtermos segurança e proclamarmos para nós mesmos que, se tratando de artes, não é uma questão de ser melhor ou pior, uma perante a outra, e sim de diferença.
Os trabalhos que denominam ou denominamos inferiores, não são arte e não são construidos por artistas.
É fácil se desprender de 'sa preocupação, somos capazes de despreza-los, pois temos um problema mais importante para resolvermos:
a projeção do bom artista.
É preciso perceber que, embora saibamos da evolução na produção artística contemporânea brasileira e sua ascensão no mercado internacional, isso precisa trazer benefícios maiores para os artistas e deve ser, também, motivo para fortalecer a cena de arte nacional.
O que não acontece.
Necessitamos da mesma força que hoje possuem os críticos e curadores, que vendem suas publicações mais do que nossas obras, além de vender apenas os artistas que os favorecem, 'tabelecendo o segmento da vez a ser explorado.
Devemos bagunçar as linhas dos olhares desses que vos falo, nos impondo através de pensamentos representados por nossos trabalhos.
Estes não precisam desprovir de seu alicerce com a arte, eliminando seu compromisso com a 'tética, mas deve vir com mais força e evidência.
Precisamos ferver um caldeirão de manifestos.
Mais do que nunca, devemos nos mobilizar, romper as barreiras que nos separam, conceber um marco na produção de arte nacional e extinguir os caminhos que projetam o artista, que não sejam através de seus trabalhos.
Não somos e nunca fomos carentes de boa arte e sim de valentia.
A não arte ou não artistas, agora deficientemente denominados, deixarão de existir na medida em que os manifestos ressurgirem com demasiada contundência.
Que deverá, por obrigação, expandir a «força» dos circuitos de artes plásticas de São Paulo e Rio de Janeiro, para as demais regiões do país através de uma nova referência.
O futebol brasilero não se encontra em sua melhor fase, quanto às artes plásticas, não a arte, mas a cena de arte do Brasil também não se encontra em sua melhor fase.
Isso já faz muito tempo.
Nossos craques precisam vir com um aval de aprovação das competições europeias para defender nossa seleção, grandes artistas brasileiros 'tão nos representando muito bem na cena internacional, mas não são todos, e muitos são os que 'tão e não são.
Vi recetemente uma entrevista com o artista paulistano Nuno Ramos e notei como ele falava da dimensão das obras concebidas por os artistas de hoje, através do apoio de instituições publicas.
Isso já é um grande avanço, podermos contar com 'sa possibilidade.
Precisamos agora que surjam mais centro-avantes oportunistas e nos façam felizes com seus gols, levando nossa seleção mais uma vez ao topo.
E para as instituições, precisamos de cabeças não elitistas, não separatistas, não preconceituosas e, sobretudo, não precisamos de cabeças parciais com seus apadrinhamentos.
Mas de mentes que saibam organizar, honestamente, a projeção artística e internacional que aqui consiste, através da consciência sobre a importancia dos artistas também se beneficiarem de maneira justa.
Uma idéia é que, isso já seria possível se academias de artes e autoridades por trás de grandes instituições, publicas ou particulares, prestassem a devida importância para a construção de laboratórios que possibilitassem aos artistas, o desenvolvimento de seus projetos e pesquisas com a 'trutura necessária.
A avaliação desses, poderia vir através de editais.
Pensem bem, todos sairiam ganhando.
Teriamos mais 'trutura, mais artistas preparados e sem a necessidade de reler Duchamp, logo, teriamos um vanguardismo sem desespero, mais atividades, manifestos de grupos em ambientes não convencionais, intervenções mais sofisticadas e permanentes nas ruas, mais críticos publicando seus textos, mais e boas noticias para os cadernos culturais da midia impressa, mais galerias vendendo trabalhos de artistas, instituições publicas e academias de artes com mais prestigio, e o apreciador, feliz com seu aprendizado e deleite 'tético.
Assim sendo, penso que as feiras de artes mais importantes seriam realizadas aqui mesmo, no Brasil.
Os Europeus pagariam por o que somos e fizéssemos, não por o que eles acham que valemos.
E nossa economia ficaria muito feliz por isso.
Número de frases: 99
Tito Oliveira -- Artista Plástico
Veteranas e novatas:
Maria Bethânia, Elba Ramalho, Roberta Sá, Teresa Cristina, Maria Rita, Vanessa da Mata e Fernanda Takai mostram que a música popular 'tá em pleno fôlego
Os desavisados de plantão sempre teimam com um velho discurso, de que não há renovação na música brasileira ou, pior, que os medalhões da canção foram superados por os corpos desnudos que vêm e vão, no remelexo do calipso e da axé músic.
Desligando-se dos programas de auditório da TV e ajustando um pouco suas próprias antenas, você verá que a MPB continua emitindo seus sinais de criatividade, seja com os nomes consagrados, seja com a geração que 'tá despontando.
E, no país das cantoras, são elas que melhor sintonizam o que anda acontecendo na música brasileira.
Cada uma com seu 'tilo e seu timbre, as mulheres fizeram de 2007 um ano de bons projetos fonográficos.
Veterana, com 41 anos de carreira, Maria Bethânia continua com o mesmo brilho, mas agora com a liberdade de trabalhar numa gravadora menor, a Biscoito Fino, que abre mais 'paço à criatividade.
Ela investiu num projeto conceitual e lançou dois discos simultâneos, quase integralmente de canções inéditas.
Com Mar de Sophia, Bethânia deu um mergulho profundo na temática das águas do mar e na densidade dos versos da poeta portuguesa Sophia de Melo Brayner.
Com Pirata, se fez soar leve e artesanal, utilizando a água doce como viés criativo.
Festejada, a fase se encerrou como uma triologia, em novembro, com o lançamento do disco Dentro do mar tem rio, ao vivo.
Elba Ramalho, com 28 anos de carreira, se mostrou mais arejada que nunca.
Apostou na nova geração de compositores e realizou um dos melhores discos de sua carreira, Qual assunto mais lhe interessa, sintonizado nas composições de Lenine, Lula Queiroga, Chico César, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.
Mas foram as novatas que deram o tom de reinvenção da MPB.
Ha tempos não surgia alguém como Roberta Sá, que combina uma invejável leveza como intérprete, inclinação para a pesquisa e abertura com a nova geração de compositores e músicos.
Participante do reality show global Fama, ela conquistou notoriedade mesmo foi com seu segundo CD, que belo 'tranho dia pra se ter alegria, talvez o melhor álbum de 2007.
Sambista nata, Roberta é o ícone da renovação deste ritmo, abraçado inicialmente por os jovens cariocas freqüentadores dos bares da Lapa e popularizado Brasil afora por os mais descolados.
Se você ainda não conhece Roberta Sá, procure por ela.
Também da seara da Lapa emergiu Teresa Cristina, se comparada a Roberta Sá bem mais contida, a lá nova dama do samba.
Ela foi reverenciada por a crítica em anos anteriores e, em 2007, conseguiu 'paço numa grande gravadora (EMI Music), onde lançou Delicada.
Com a carreira em risco, por soar repetitiva e engessada já no segundo álbum, Maria Rita soube se reinventar em 2007.
Ela também apostou no samba.
Ficou mais 'pontânea, perdeu os ares de diva precoce e -- o que foi vital -- dissociou sua imagem da mãe, o ícone Elis Regina.
Com o disco Samba Meu, Maria Rita se mostrou despretensiosa, unindo ótimos sambas (como O Homem Falou, de Gonzaguinha) a outros menos inspirados, mais próximos da seara do pagode.
Para quem precisava descer do salto e revitalizar-se, longe da formação a mistura soou positiva.
Abrigada na música pop, Vanessa da Mata -- que foi ofuscada em sua 'tréia em disco por surgir junto a Maria Rita, em 2003 -- também chegou ao terceiro álbum, a prova de fogo mercadológica de todo cantor.
Em Sim, Vanessa provou que é possível ser popular fazendo boa música.
Juntou reggaes, baladas, disco, carimbó e pop, soando muito bem e se confirmando como uma compositora eficiente.
Fecho com Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, que lançou seu primeiro disco solo no final de 2007, Onde brilhem os seus olhos, visitando a obra de Nara Leão.
Com tom de voz semelhante ao da homenageada, não pareceu repetitiva.
Redecorou as canções com arranjos mais joviais ou transformando completamente seus ritmos, conseguindo a proeza de não violentar a concepção original das músicas.
Isto, só pra citar algumas cantoras da MPB industrial, de maior visibilidade.
Número de frases: 33
Pesquise, faça sua lista e descubra o muito que a música brasileira tem a oferecer.
«Eu vivo aqui pensando como sobreviver,
Enquanto o mundo vai girando " Jaime Figura
Quem avista a primeira vez aquela figura exótica, com máscara de ferro, vestes que lembram os orixás Exu e Oxóssi e apetrechos 'palhados por o corpo, caminhando por as ruas do Comércio, nem imagina que por trás de toda aquela parafernália existe um ser humano sensível e intelectualizado.
Jaime Figura, como é conhecido e prefere ser chamado, é o tipo de artista que provoca inquietações por onde passa.
«Eu comecei a me vestir assim por conta da minha trajetória de vida, os sentimentos em si, que me fizeram fazer um trabalho que vestisse meu corpo através do tempo para violência.
Quando surgiu o movimento punk eu era visto como marginal e as pessoas insistiam em olhar em meus olhos e dizer que eu era cínico, marginal, diante disso eu peguei e 'condi o rosto para que vissem só a minha obra», disse Jaime.
A os 53 anos, o homem-figura diz já ter sido agredido várias vezes e a maneira como ele responde 'sas agressões é utilizando os apetrechos que transformam o ex-boêmio num personagem que desperta a curiosidade dos que transitam por o Bairro Comércio de Salvador.
O artista misterioso diz não se importar com o medo e o preconceito que algumas pessoas têm da sua corporatura, uma vez que ele não se vê.
«Eu não me olho no 'pelho para não ver o que as pessoas 'tão vendo, por que se eu sair de casa e me olhar no 'pelho eu irei ver que 'tou realmente diferente do ser humano.
Quando alguém se assusta com mim eu digo que não sou aquilo que a pessoa 'tá vendo, me olhar é ver a imagem que a ordem faz», falou Jaime.
Jaime Figura é um autodidata do Comércio, um andarilho que inspira poesia e inteligência e ainda assim o menino que não se conhece até hoje fala com tristeza da rejeição familiar.
Segundo ele, por ser um homem negro que vestia roupas exóticas, a família não lhe dava crédito.
Entretanto, Jaime possui vários filhos, já teve várias mulheres e amantes.
Atualmente ele vive com a última família.
O artista diz que por ser um boêmio, ele teve várias mulheres, mas não se casou com nenhuma, pois o que ele queria é ter filhos.
Apesar de ser um bom vivant, diz ser a própria morte por não desfrutar da vida como antes, vida que ele define como gostosa.
O ser vivo, não ateu, que dorme em caixão, não 'conde certa melancolia ao falar de uma das suas amantes, que morreu.
Segundo Jaime o amor não vingou por conta das diferenças sociais, ela era uma dama da sociedade e ele um artista marginalizado.
«A morte de ela foi horrível, apesar de não poder ficar com ela por causa das famílias que também não permitiam uma imagem de 'sas se relacionando com uma mulher da sociedade».
Durante a entrevista, crianças passam e mexem com Jaime, que tem uma reação inesperada e diz que as crianças são a sua morte, pois ele não pode abrir mão de elas.
«As crianças me adoram, mas eu não posso deixar, pois eu não sou palhaço e se eu fizer sintonia com elas eu perco minha 'sência».
Jaime, que em breve vai inaugurar seu atelier com obras sobre as peripécias de Hitler, afirma ter pouco 'tudo e já ter vivido de renda, entretanto, no período de crise do governo Collor, ele caiu na miséria.
Assim como Jean-Michael Basquiat, artista que viveu em Nova York, que vivia por as ruas fazendo arte nos muros, Jaime constrói sua arte.
Ambos frutos do contexto urbano, Jaime Figura reproduz sua ambiência em seu corpo e nas paredes do mercado modelo.
Número de frases: 25
Ano:
1985 Cidade:
Campo Grande-MS Local:
Estação Rodoviária de Campo Grande!
Era um sábado e pra variar fazia um calor infernal e como não tínhamos absolutamente nada pra fazer naquela tarde combinamos nos encontrar no centro da cidade.
Cada um de nós levaria uma coisa:
Um papelão de caixa de geladeira, uma cera que passaríamos em 'se papelão pra ficar liso, blusas de abrigos para que deslizássemos sobre ela, toucas, telinha e é claro:
O Box (Som)!
Claro que as pilhas 'tavam quase no fim ...
Mas como ás vezes acontecia, pessoas nos viam arrumavam uns trocados e com isso compraríamos novas pilhas!
Como combinado nos encontramos, tudo 'tava perfeito!
Ou melhor, quase perfeito a não ser por um pequeno detalhe:
A cidade 'tava deserta!
Não havia uma viva ' alma!
E para a gente que passa treinando, ensaiando novos passos, se ralando no chão para enfim chegar o momento de nos exibirmos não existe nada pior do que ausência de público.
A gente até dança, mas ...
é como dançar com a irmã, ou seja:
Não tem graça!
E aí o que fazer então?
Voltar? Ir embora para a casa e dormir?
Foi quando alguém sugeriu a idéia:
Vamos para a rodoviária?
Nós nunca tínhamos ido lá mesmo, quem sabe haveria pessoas por lá!
E dito e feito descemos a Rua Barão do Rio Branco e fomos até a rodoviária.
Olhamos nas plataformas de embarque e só tinha alguns gatos pingados, parecia realmente que não era nosso dia ...
Resolvemos então subir para o 2º andar da rodoviária e pra nossa surpresa tinha bastante gente na fila do cinema, porque pra falar a verdade naquele cinema da rodoviária nunca tinha ninguém!
Acho que só passava filme ruim!
E eu não me recordo qual filme 'tava sendo exibido eu só me lembro que tava assim de gente!
Finalmente a nossa sorte 'tava mudando!
Abrimos uma roda, ligamos o
Box e apresentamos nossas armas ...
Giro de costas, caranguejeira, giro de cabeça, moinho de vento, giro de mão, eletric boogie, 'pelho!
Lembro até que arrumamos dinheiro para as pilhas e ainda sobrou!
Realmente a sorte tinha mudado, e todos 'tavam se divertindo! ...
Eu disse todos?
Bem ... não foi bem assim ...
Eu 'tava no meio da roda fazendo um break aéreo depois fiz um 'pelho com mímica, eu modéstia a parte 'tava arrasando com meus óculos e luvas coloridas, e o povo aplaudia a nova dança com entusiasmo!
Quando de repente senti algo batendo em minhas costas, logo pensei ser algum dos nossos que 'tava louco pra dançar e queria que eu saísse logo do meio da roda ...
Fiz-me de desentendido e ignorei-o, continuando a dançar numa boa ...
Foi quando ouvi uma voz em tom grave me dizer: --
Você é surdo?
Já disse pra sair fora!
Foi aí que me virei e vi que eram dois policiais militares e mais um segurança da rodoviária!
E ele continuou dizendo: --
Se não saírem agora eu vou prender todo mundo!
Tentei argumentar, mas foram irredutíveis e como não portávamos documentos resolvemos ir embora ...
Depois nós entendemos o que havia acontecido:
O filme no cinema já tinha dado a hora de começar, porém o povo não entrava e então o dono do cine 'tava ficando desesperado e chamou a polícia, enquanto saíamos o povo nos aplaudia e nos dava parabéns e ainda me lembro que sob os olhares quase incrédulos dos policiais ainda arrumamos coragem de agradecer os apupos do público com tchauzinhos e beijos para a galera!
Saímos como heróis e 'távamos orgulhosos, pois naquele dia vencemos Holywood com seus grandes filmes, naquele dia cada um de nós saiu com um brilho no olhar, naquele momento sabíamos que éramos guerreiros, artistas de rua, e que o Hip Hop ainda iria nos preparar pra uma guerra muito mais difícil, muito mais longa, onde muitos cairiam, onde muitos desistiriam por acharem que era só um modismo passageiro, mas que os verdadeiros ficariam, pois ...
Em a Cultura Hip Hop ...
Só os fortes sobrevivem! ...
Número de frases: 51
Em a semana passada aconteceu, em Viena, na Áustria, o 4º Encontro dos Pesquisadores da América do Sul e Caribe, em língua alemã.
Vários pesquisadores, não somente da austríacos ou alemães, mas também europeus, como também latino-americanos, discutiram durante quatro dias os aspectos culturais, sociais, econômicos do nosso continente.
Em o total foram 15 Workshops, divididos em várias categorias desde «As Populações Indígenas na Região Amazônica», A Religião Africana na» América do Sul, Imagens Latino-americanas removeme " e outros.
Eu 'tive presente no Encontro, não somente como fonte de pesquisa para o meu Doutorado, mas também para observar como os pesquisadores europeus enxergam a América do Sul.
A palestra de abertura foi da Dra.
Gabriele Herzog-Schröder com o tema «Urihi. Einblicke in die» -- Urihi. Um olhar na Tradição no alto Orinoco " Völkerkunde Museum Wien-Museu Etnográfico de Viena.
Ela explicou sobre os Yanomanis (eles 'tão na fronteira entre o Brasil e Venezuela) e sua luta de manter sua cultura e tradição.
Eu participei dos seguintes workshops:
«Lateinametikanische soziale «Bewegungen und Globalisierung» -- Movimentos Sociais na América Latina e Globalização».
Em 'te Workshop houve a palestra: "
Os Blocos Africanos em Salvador entre Tradição e Modernização " da Bárbara Windtner.
Ela 'tudante austríaca, formada por a Universidade de Viena, em Ciências de Teatro e Comunicação, morou um ano, em Salvador para 'crever sua Monografia.
Aqui, nas Universidades Européias há uma tendência dos 'tudantes universitários de solicitar Bolsa de Estudos, e partir para países fora da Europa, com o objetivo de 'crever suas Monografias.
Muitos 'colhem, como destino, nosso continente, como a Bárbara Windtner.
Cansados de 'tudarem o «Velho Continente», os 'tudantes europeus trazem para as Universidades Européias, a nossa Cultura e Tradições.
Segundo workshop foi:
«Afroamerikanische Religionen zwischen «Afrika und Diaspora» -- As Religiões Afro-Americanas entre África e Diáspora».
Aqui, houve uma palestra sobre o Brasil:
«Eine Candomblé-Kultst removeme «Candomblé como herança baiana» da pesquisadora Christiane Pantke, da Universidade Livre de Berlin.
Ela também trabalha com os imigrantes brasileiros, em Berlin.
Observei nas palestras que assisti que há ainda uma parte de pesquisadores europeus que nos enxergam como «bichinhos exóticos», ou seja, viajam para a América Latina, fazem fotos, pesquisam do ponto etnocêntrico (eu, europeu, tu indígena ou pobre latino-americano), e depois voltam, para as suas universidades na Europa.
Mas, também há aqueles que nos enxergam como seres-humanos e constatam que apesar de todos os nossos problemas sociais, temos uma cultura fascinante.
Cultura que se desenvolveu, sem fronteiras, mesmo com sistema de exploração que sofremos, durante o período colonial, e hoje, com políticos corruptos, que não têm interesse nenhum desenvolver o nosso continente.
Para concluir, acredito que 'se Encontro foi positivo para nós.
Para mim, foi bem claro, que aquilo que, nós temos de melhor, o nosso lado popular, que tanto fascina e desafia os pesquisadores europeus.
Mais sobre o evento:
Número de frases: 26
www.lai.at. Homepage em alemäo e 'panhol.
«A união de duas criaturas maravilhosas, mas com cabeças completamente diferentes, foi terrivelmente prejudicial pra o que nasceu de ali.
Assim o fruto de 'sa união, Antônio José, o inventivo e original cantor e compositor Tom Zé, tenta explicar sua existência.
Nascido em Irará, sertão baiano, Tom Zé 'tudou música na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, onde também lecionou.
Apesar da formação erudita, ele sempre criticou o excesso de seriedade dos músicos brasileiros e soube diluir tal erudição em boas doses de irreverência e 'pontaneidade.
Ficou o erudito por o não erudito.
Em a década de 60, conheceu os conterrâneos Caetano e Gil, com quem lançou, em 1968, o álbum «Tropicália ou Panis et Circenses», referência do Tropicalismo.
Em 'se mesmo ano, venceu o festival da TV Record com a canção «São São Paulo, meu amor» e lançou seu primeiro trabalho individual, com seu próprio nome no título.
Em os anos 70, continuou seguindo por trilhas alternativas e controversas, que provocaram seu afastamento involuntário da mídia, mesmo tendo produzido, então, trabalhos considerados inovadores como «Estudando o samba», ou talvez por isso mesmo.
Em a década seguinte, lançou apenas um disco, «Nave Maria», até que foi apresentado ao mundo por o músico David Byrne, líder da banda americana Talking Heads que, em 1990, lançou a coletânea» The best».
Depois desse debeste, nos anos que se seguiram, o cantor voltou a lançar discos com mais freqüência, bem como a ter seu valor reconhecido também no Brasil.
Em 'sa época, foi responsável por um dos melhores momentos da história do festival Abril para o Rock, no Recife, onde se apresentou em total empatia com o público, de início surpreendendo, depois envolvendo e por fim contagiando a platéia presente, jovem em sua maioria, com a criatividade de suas canções, a versatilidade de suas interpretações e a originalidade de suas mugangas e trejeitos multimídia.
Essa sua costumeira criatividade pode ser percebida de diversas maneiras em seu trabalho.
Em títulos de canções como «Jimi renda-se» ou «Conto de fraldas», em letras como» Companheiro Bush " (" Se você sabe quem vendeu aquela bomba para o Iraque, desembuche.
Eu desconfio que foi o Bush ") ou «Augusta, Angélica e Consolação» (" Augusta, graças a Deus, entre você e a Angélica eu encontrei a Consolação que veio olhar por mim e me deu a mão "), na utilização de instrumentos inventados por ele, em sua postura no palco e sobretudo no motivo condutor de suas obras.
Em seu disco «Jogos de armar -- faça você mesmo», de 2000, um CD auxiliar apresenta as canções como produtos de prateleira, não fechados, ou peças de um jogo de armar, que podem ser remontadas por a junção de fragmentos de arranjos, letras e músicas do CD principal.
Para facilitar as experiências, combinações e reaproveitamentos, tais fragmentos são dispostos separadamente no CD auxiliar.
Um lego musical que virou legado.
Em o elogiado «LP Estudando o samba, lançado em 1976», quase todas as canções têm títulos monossilábicos:
Mã, Toc, Tô, Vai, Ui, Doi, Mãe, Hein?,
Só, Se.
A última faixa, «Índice», reúne todas 'sas palavras numa só letra, fechando o repertório monótono, em que a mudança de Tom ocorre apenas na faixa» A felicidade».
Em «Defeito de fabricação (1999)», as canções são apresentadas como Defeito 1, Defeito 2, etc., enquanto em» Danç-êh-Sá -- Pós-canção / Dança dos Herdeiros do Sacrifício / 7 Caymianas para o Fim da Canção " (2006), elas são definidas como pós-canções ou descanções.
Algumas de 'sas armações do inventivo Tom Zé podem ser vistas no documentário «Fabricando Tom Zé», de Décio Matos Júnior, eleito melhor documentário nos festivais de cinema do Rio de Janeiro e de São Paulo, por o júri popular.
O filme mostra cenas de palco e bastidores de suas apresentações numa turnê por a Europa, em 2005, intercaladas por depoimentos do próprio Tom Zé, de sua 'posa, Neusa Martins, de Arnaldo Antunes, David Byrne, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros.
Em um show é vaiado, em outros ovacionado e tudo é mostrado.
Comenta sua mágoa com os conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil, que teriam se afastado de ele após o movimento tropicalista e a volta do exílio, em sua época de reclusão involuntária, bem como um episódio ocorrido num carnaval de Salvador que homenageou o Tropicalismo.
Segundo ele, filme só com coisa boa é um porre.
Modesto, afirma que o fato de ser um péssimo músico ajudou-o a ficar à vontade pra experimentar, fugir aos padrões e fazer o que quisesse.
Explicar pra confundir, confundir pra 'clarecer.
De fato, a cartilha por que ele reza é a do improviso, do jogo de palavras.
Não tem papas na língua, seu oratório é outro e sua oratória idem.
Até mesmo batendo boca, o tom é o mesmo.
Em certo episódio retratado no documentário, durante um ensaio, sem saber que sua equipe 'tava filmando, soltou um " vá para a porra!"
em alto e bom som a um responsável por a equipe de som do festival de Montreux, na Suíça, por conta de sua má qualidade, sem se preocupar com o que ele entenderia com isso.
Comentando o incidente depois, denunciou a má vontade e a discriminação que sofrem as nações subdesenvolvidas por parte dos países que, segundo ele, têm dinheiro mas não têm nosso talento e criatividade, nossos defeitos de fabricação, made in Brazil.
Número de frases: 36
«Quando se imaginaria que o teatro de rua ganharia tanta força em Porto Velho?»,
ouvi, sem querer, um dos 'tudantes em comentário discreto, mas preciso, sobre o 'petáculo «O Mistério no Fundo do Pote -- Ou como surgiu a fome», de Ilo Krugli, interpretado por atores do grupo» O Imaginário», que segue a temporada até o final de outubro.
Tudo é muito novo, o que não significa falta de qualidade.
Quer mais um exemplo de como 'sa «novidade» veio pra ficar?
«O Julgamento de Branca Dias por a Santa Inquisição», de Dias Gomes, apresentado bem ao centro de um dos patrimônios históricos da capital:
a praça das Caixas D ´ Água.
Prossiga nas próximas linhas e logo vai entender como é 'sa força que o teatro de rua conquistou e encantou pessoas da cidade banhada por o rio Madeira.
Depois de receber o Prêmio Funarte de Teatro Mirian Muniz, em maio deste ano, o grupo «O Imaginário» reuniu nove atores jovens de Rondônia para fazer a montagem da peça, que mais tarde percorreria as ruas de bairros considerados afastados do centro urbano.
Para dirigir o 'petáculo, nada menos que o conceituado e 'pecialista em teatro de rua Narciso Teles, diretamente do Rio de Janeiro a Porto Velho, que teve apenas quinze dias para preparar os atores.
Também não foi o primeiro a 'tranhar que por 'sas bandas de cá muito ainda deve ser feito.
«Falta incentivo aos que querem que a arte atravesse e ganhe novas fronteiras», enfatizou.
Segundo ele, «o teatro de rua modifica poeticamente o 'paço urbano e, ao mesmo tempo, abre-se para as inúmeras e possíveis interferências, como sons, falas, vento ...».
Como mudou e acrescentou o aprendizado de uma das atrizes da peça, Tati Andrade, 23 anos, que 'treou no teatro de rua.
«Tudo 'tá sendo muito novo pra mim, mas tenho certeza que quem assistir à peça verá que houve muito empenho e vontade de fazer acontecer:
tanto pra nós, como ao público».
O primeiro passo foi dado.
Gente que nunca havia assistido a uma peça de teatro pôde conferir e se emocionar, de perto e gratuitamente, com a velha e pequena cidade ficcional de «Três Saudades», num tempo em que não existia a fome e todos pegavam apenas o necessário, como reza a dramaturgia de» Ilo Krugli.
«Nem sabia que existia teatro na rua», revelou a pequena e ingênua Fabiana Monteiro, 14 anos, que pela primeira vez assistiu a um 'petáculo teatral sem sair do próprio bairro.
Não obstante, o 'tudante Diego dos Santos, 16 anos, um pouco mais agitado, até articulou com seus amigos uma possível continuidade de projetos de 'ta natureza ao seu bairro, o Tucumanzal, que já foi considerado um dos mais perigosos da cidade.
«Nós daqui dificilmente temos oportunidade de assistir a um 'petáculo como 'te, ainda mais de graça», lamentou.
«Por ser ao ar livre, é como se fizéssemos parte do 'petáculo», analisa o 'tudante de História James Silva, ao assistir pela primeira vez ao 'petáculo «O Julgamento de Branca Dias por a Santa Inquisição, apresentado francamente aos domingos por o grupo» Abstractus», na praça das Caixas D ´ Água.
A peça é baseada no texto " O Santo Inquérito, de Dias Gomes, dirigido por Elcias Villar, que conta a história do julgamento de Branca Dias no século 18, ela é acusada de ter cometido pecados e atos contra a moralidade.
Ao longe, mais parece um tumulto ver a platéia camuflar a respiração boca-a-boca de Branca Dias ao Padre Bernardo, onde se inicia o processo de denúncias que levam a protagonista à prisão.
Mais tarde, ela vem a ser queimada, segundo relata a história da trama.
O 'petáculo originou-se ainda em 2003, mas, por falta de espaço para apresentações e depois de anos de pesquisa, a direção do 'petáculo resolve aceitar o desafio e trazer a história de Branca a sua concepção original.
Em o fundo, não era difícil imaginar que Porto Velho poderia -- e pode -- ter 'sa força de atrair centenas de pessoas para apreciar, descobrir e se encantar com a beleza e improvisação que é o teatro de rua.
Número de frases: 26
Sentir 'se triângulo que se forma entre platéia, 'petáculo e incertezas no cenário a céu aberto, por assim dizer, prova que basta unir as forças de grupos como «O Imaginário»,» Abstractus " e tantos outros com um pouco mais de incentivo a quem deseja levar cultura, arte e entretenimento.
Uma Diversidade Cultural De Gêneros Estéticos:
O Movimento É Sexy -- Ou Quando SE Quer Justificar Um Evento Sexual NA PROViNCIA DOS Cajueiros Endurecidos.
Primeiro, redigi um texto dentro dos padrões intelectuais que não deixasse brechas para os caras-duras não entortarem tanto seus narizes a um evento, de temática sobre a diversidade sexual -- o conceito de Diversidade Cultural é fator fundamental para a construção contemporânea das políticas públicas, 'pecialmente nas áreas da cultura e sociedade.
O reconhecimento e à valorização da diversidade cultural 'tão ligados à busca da solidariedade entre os povos, à consciência da unidade de gênero humano e ao desenvolvimento dos intercâmbios culturais.
Por isso, podemos e devemos reconhecer e valorizar as nossas diferenças culturais, como fator para a coexistência harmoniosa das várias formas possíveis de brasilidade.
De entre desse contexto, delineia-se um leque de diversidade sexual, construtor de 'paços de participação e fortalecimento de expressões ligadas às identidades sexuais por seus pares organizados e uma riqueza cultural evidenciada nos 'paços conquistados e a conquistar.
Pronto, tava enquadrado.
Depois do projeto 'crito com 'se embasamento e do contato feito com o Mix Brasil para a exibição dos filmes, comecei a entregar projetos para os possíveis parceiros.
Hum, quando liam a relação dos filmes:
Cabelo Azul Bikini e Bota, A Outra Filha de Francisco, As Filhas da Chiquita, Meu Namorado é Michê, e suas sinopses, as reações foram também diversas e 'peradas -- explico:
uma fundação que costuma dar a veiculação da mídia em sua Rede de Televisão, desta vez, pediu um roteiro, nunca pedira anteriormente;
outro possível parceiro, um banco, que rende rios de dinheiro em seu balanço anual, ficando entre os primeiros em rentabilidade, sua gerente de marketing, alegou não ter recursos;
para não falar dos olhares que sobressaltam de suas faces dissimuladas.
Mas o fato é 'te, lidar com a temática sexual é difícil, não somente para as bandas de cá.
Nós da Casa Curta-SE, apesar do nome, não temos nada a ver com diversões de luzes vermelhas, amarelas ou 'branqueçadas, hahahaha, também vamos fazendo nossa parte dentro de 'sa diversidade cultural que agora, mais do que nunca é prioritária para nossa sobrevivência.
A I Feira Mix SE, programou para os dias 28 a 30, Dj's (Ruy X Montezuma), Grupo de Percussão Burundanga, shows das cantoras Patrícia Polayne e Ronise Ramos, Performances, Circo, Exposições de Arte, Artesanato, Mostra de Filmes, Desfile da marca Com mim Ninguém PODE, Brechós e muita fechação.
É só conferir, no 'paço do Centro de Criatividade, no bairro Getúlio Vargas -- Aracaju / SE.
A Casa Curta-SE é um ponto de cultura, patrocinado por o Programa Cultura Viva do MinC.
Ver toda a programação I Feira Mix SE -- 28 a 30/09
Número de frases: 20
Mais no fundo, meu amor, tem mistérios que nem sei, enquanto isso eu fecho os olhos pra não ver meu fim!
Uma iniciativa pioneira no mundo do rádio que promete revolucionar a construção coletiva do conhecimento, em 'pecial entre comunicadores populares ligados à radiodifusão.
Trata-se do RadioTube -- Rede de Cidadania, a mais nova comunidade de relacionamentos da internet, que entrou no ar no último dia 12 de agosto.
Mistura de Orkut com YouTube, o 'paço vai permitir a construção de uma página pessoal, além de fazer downloads e uploads de produções de áudio e texto, como entrevistas, spots, músicas e radionovelas.
O projeto é desenvolvido por a ONG Criar Brasil -- Centro de Imprensa, Assessoria e Rádio -- e conta com o patrocínio da Petrobras.
O site, que vai ter numa segunda fase recursos como chat, vídeos e fotos, adota como política geral de publicação uma licença do Creative Commons.
O projeto inclui ainda a capacitação de 60 jovens de todo o país para o uso da nova ferramenta.
A idéia do RadioTube -- Rede de Cidadania surgiu de pesquisa do Criar Brasil junto a emissoras de rádio comunitárias, educativas e comerciais de pequeno porte em diferentes 'tados, onde foi constatado que 98 % de elas 'tavam dispostas a veicular produções de outras emissoras.
De esses radialistas, 92 % acessam a internet mais de duas vezes por semana e 71 % têm condições técnicas para receber materiais por meio da rede.
«Percebemos aí uma oportunidade de aproveitar a onda das redes colaborativas para democratizar o conhecimento e 'timular o debate de temas relevantes, como a cidadania.
Há 14 anos o Criar produz material radiofônico e capacita comunicadores populares.
Agora, vamos atuar como moderadores de 'sa rede 'timulando a troca de produções.»,
explica Rosangela Fernandes, coordenadora do projeto.
O Criar Brasil delineou o RadioTube -- Rede de Cidadania como uma ferramenta para intensificar a troca de conteúdo dentro do projeto «Rede de Cidadania nas Ondas do Rádio».
Este, iniciado em 2007, visa à integração de comunicadores e participantes de projetos sociais.
Para isso, também capacita jovens para a criação e veiculação de produtos radiofônicos com temas de cidadania, além de 'timular o desenvolvimento de atividades complementares, como debates e entrevistas.
Apesar do RadioTube -- Rede de Cidadania facilitar a troca de arquivos, o Criar Brasil vai continuar a oferecer às emissoras que fazem parte da sua rede de rádio o material radiofônico em CD.
Número de frases: 17
www.radiotube.org.br
Paz E Lutas Cristóvam Buarque *
Em a coluna Opinião, do Jornal de Brasília de 29/12/2007, Cristóvam nos trouxe um texto maravilhoso -- Paz e Lutas, cuja chamada é a seguinte frase:
«A paz de cada brasileiro depende do bem-estar de cada outro brasileiro, sem fome nem violência.».
Nosso brilhante professor inicia seu texto falando da necessidade de cultivarmos sete diferentes tipos de paz, como pregam os índios Aymara, que há séculos habitam as margens do Lago Titicaca nos Andes.
A primeira é a paz com si mesmo;
a segunda é a paz 'piritual, com a metafísica da existência;
a terceira é a paz com o passado, contrariando a arrogante cultura ocidental.
Não o 'quecendo, porém, mas colocando-o a nossa frente, como a base.
A quarta, é a paz com o futuro sem nenhum medo do que virá por a frente;
a quinta é a paz com o nosso próximo, lembrando que os próximos mais próximos são os nossos familiares;
a sexta, a paz com os nossos vizinhos.
Além da paz familiar é necessário garanti-la também para o «outro lado da rua».
A sétima e última paz que devemos cultivar é a paz com a terra em que pisamos e de onde tiramos o nosso sustento.
E Cristóvam, desejando-nos 'ses sete tipos de paz no ano novo, conclui seu texto, chamando-nos** também à responsabilidade:
«O caminho é lutar, em 2008, para que o Brasil comece a sua revolução por uma 'cola igual para todos.
De a mesma forma, é preciso colocar nos seus planos para 2008 a luta por a proteção da natureza, o início da revolução por um desenvolvimento sustentável."
Nosso brilhante professor enfatiza que sem 'tes dois tipos de paz -- com a terra e com a humanidade -- nenhuma das outras cinco formas de paz seria possível.
«É impossível ter paz com Deus tendo crianças sem 'cola, ou destruindo a Amazônia.
Como não ter remorso sabendo que já perdemos cinco séculos de história?
Como ter paz com o futuro sabendo que 'tamos despedaçando nosso País e nosso mundo?
E como ter paz com a família, quando filhos e netos perguntarem o que você fez para evitar a tragédia?"
Além de nos desejar os sete tipos de paz, Cristóvam também deseja:
«Que você lute para ter direito a eles. ( ...)
E muita participação para construi-las.
Porque a paz não acontece, ela é construída."
Isto nos lembra nossa querida professora Ize em seu magnífico texto «Reminiscências de Escola -- lembrar para reinventar», provável posfácio livro, que é o produto final do» Projeto das Reminiscências de Escola do Overmundo:
Michel de Certeau, autor que prezo porque me ensina que o mundo não 'tá dado, mas que pode ser fabricado, diz que o homem ordinário não se submete passivamente aos desígnios da razão técnica que anseia por atribuir lugares e papéis fixos para pessoas e coisas.
Ao contrário, graças às artes de fazer, às astúcias sutis, às táticas de resistência, o homem comum 'capa astuciosamente ao instituído, instituindo mil maneiras de reinventar o cotidiano, alterando objetos e códigos e reapropriando-se do 'paço e do tempo a seu próprio jeito "
Desta forma, só me resta desejar que tenhamos a competência, a assertividade e a habilidade necessárias para, paradoxalmente, Lutar e Construir as sete formas de Paz dos índios Aymara, já que 'sa talvez seja nossa única possibilidade de garantir a paz de cada brasileiro, que inevitavelmente, depende do bem-estar de cada outro brasileiro, sem fome nem violência.
* Cristóvam Buarque -- doutor em economia, professor da UnB e atual senador por o PDT / DF, é também cientista social e 'tudioso apaixonado.
Número de frases: 31
Tem diversos livros publicados, de entre eles, A segunda abolição e Modernidade com ética.
O mundo da palavra não dá conta do mundo do corpo.
Três homens, uma mulher.
Melancias repousam nos cantos do ambiente.
Colchões pendurados compõem o cenário, na parede ao fundo.
Convite ao mergulho abissal quando se apagam as luzes e começa a corrida circular.
Hipo-teses para o corpo agarra o mundo com uma mordida.
Corpos se engalfinham, lutam, mas a lascívia também tem 'paço.
O conflito entre agressão e tesão, que é tensão sexual, se manifesta numa catarse coletiva.
Tudo o que as contingências sociais em geral impedem é feito.
Nada é perfeito, só a morte é uma obra acabada.
O que se vê no 'petáculo é vida em profusão multicromática.
Asma, taquicardia, 'panto.
Tesão!
Reações possíveis de um 'pectador.
Melancias.
Sementes de abóbora.
As remissões simbólicas possíveis são infinitas.
A música cria o clima cardíaco-sensorial.
Os corpos não descrevem movimentos premeditados.
Fazem, isso sim, um improviso muito sentido.
Se vê, se sente, se percebe uma sacralidade profana no ar.
Os fótons invadem os olhos.
Os beijos de corpo começam a fazer sentido.
Uma mulher grávida de uma melancia exógena, quase extraterrestre.
Sementes plantadas na mucosa bucal de um homem entregue ao transe são cuspidas com ímpeto.
Contorções, jogo análogo a uma capoeira vanguardista.
Dança 'pontânea e transcendente.
Mandíbulas etéreas que apreendem suspiros, respirações ofegantes.
Tudo é.
Tudo é.
Explosão.
Misto de desconforto e curiosidade despertada.
Uma faca que corta o que é vermelho como um útero e carrega potencialidade vital.
Corpos masculinos que se entregam a insinuações que prenunciam sexo.
Melancias que se 'patifam no chão preto de madeira, com 'trondo.
As coisas acontecem perto demais das pessoas, que são audiência participante.
Arremessos de corpos, uns contra os outros, arremessos de frutas, arremessos de alma.
Nenhuma palavra.
Só respirações mais exaltadas em certos momentos.
Caixas torácicas frenéticas em atividade de expansão e contração alternadas.
Coração palpitante, sangue correndo ensandecido e quente.
Sístole e diástole.
Trabalho de Sísifo.
Quando algum equilíbrio se 'tabelece, é logo rompido.
Os corpos experimentam até onde vai o ponto suportável.
Ultrapassam as possibilidades imaginadas e constatam que o limite sempre fica além.
O tempo todo acontece um retorno à tentativa de paz.
A música contribui para a decomposição visual que vai tomando conta do ambiente.
Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar, a 'trofe se repete muitas vezes, falha, o disco 'tá propositalmente riscado.
Enquanto isso, Manoela Rangel faz uma dança bizarra, com movimentos de braços caricaturais, em pé sobre uma melancia instável.
Ao mesmo tempo os três homens a cercam, e ludicamente ajudam ou atrapalham o equilíbrio.
A o final 'tão todos rendidos, prostrados, aos pés da dançarina mulher.
Não se pode ter uma conclusão racional nítida, porque assistir ao 'petáculo é um convite à entrada numa atmosfera onírica, mas de tudo fica a imagem do ovo primordial quebrado para o nascimento de uma ave de vôo amplo.
Ficha Técnica:
Direção e coreografia:
Volmir Cordeiro Elenco:
Cleístenes Grött, Manoela Rangel, Marcos Klann, Volmir Cordeiro.
Produção:
Andreza Martins Música -- Led Groove
Figurino e arte gráfica:
Lígia Baleeiro Cenografia:
Taís Gil Iluminação:
Renata Rogowski e Volmir Cordeiro
Fotografias: Loli Menezes
Assessoria de comunicação:
Phelipe Janning Apoio:
CIC-oficinas de arte
Udesc-Ceart Centro Comunitário do Pantanal
Espaço Sol da Terra.
Funarte -- Ministério da Cultura
Petrobras Espaço-tempo:
A apresentação à qual assisti aconteceu no teatro Ademir Rosa, no CIC, e começou às 21h da quinta-feira 10 de abril.
Número de frases: 73
por Rogério Ratner
Em uma ampla casa localizada no bairro Bela Vista (cujo endereço certo eu nunca lembrava, sabia ir somente na base do " duas ruas à esquerda, uma à direita ") funcionava, nos anos 80, o Clube de Jazz de Porto Alegre (Take Five).
Embora o nome fosse pomposo, e presumisse a existência de sócios e burocracias, na verdade tratava-se de um dos programas mais legais e democráticos que havia na cidade para quem curtia boa música, e era despido de qualquer formalidade.
Em a verdade, tratava-se do porão da casa da Dona Ivone Pacheco, a Grande Dama do Jazz de Porto Alegre, que, de forma super generosa (e diríamos hoje, até algo imprudente) permitia acesso livre ao pátio de sua residência, sendo que o portão da frente ficava apenas encostado, sem sequer um porteiro para fazer uma «triagem nos elementos».
De fato, para ingressar no recinto bastava saber o endereço e abrir a maçaneta do portão, sem pagar ingresso, mostrar documentos, nem nada.
Felizmente, ao menos nas vezes em que fui lá, não apareceu nenhum ladrão ou vândalo disfarçado de fã do bebop, o que hoje em dia possivelmente fosse quase um milagre.
O endereço, logicamente, não era divulgado publicamente, sob pena de inviabilizar o funcionamento, já que o recinto onde o pessoal tocava era pequeno.
Assim, o 'paço era divulgado apenas na base da propaganda «boca a boca», de forma que geralmente se ficava sabendo onde era e quando ia rolar por a dica de algum amigo que já fora lá.
Não lembro ao certo quem me deu a dica, mas certamente ou foi o Auriu Irigoite, ou o Henrique Wendhausen ou o Glei Soares, e talvez todos ao mesmo tempo.
Levado por 'tes amigos é que conheci o lugar.
A função ocorria apenas na noite de sábado (ou será que era na sexta?),
por volta da meia-noite (round midnight, naturalmente), e entrava madrugada a dentro, até de manhã.
O Clube, em realidade, consistia num verdadeiro sarau, um palco livre, no qual rolavam várias jam sessions, tão próprias do universo jazzístico.
É verdade que o palco não era assim tão livre, uma vez que para ocupá-lo o «candidato» devia «mandar bem» no ritmo americano, em qualquer de suas matizes -- o que permitia, obviamente, que a coisa às vezes fosse até para o lado da bossa nova e da música instrumental brasileira, mas isto eventualmente, e definitivamente não era lugar para «bicões».
E, naturalmente, 'te atributo não era para qualquer um, diante das conhecidas complexidades deste ritmo norte-americano.
Havia atrações que eram praticamente «fixas», ou seja, um pessoal que normalmente sempre ia lá e se apresentava em todas as» reuniões».
Lembro do grande pianista Marcos Ungaretti (que não podia sair de lá sem tocar o «Take Five», de Dave Brubeck, que, como já adiantamos, apelidava o local), do cantor Richard Emunds (que, além de cantar jazz, interpretava clássicos da Chanson Française), do grande baixista Mário Carvalho (Marião), da pianista Karina Donida, do saxofonista Marcelo Figueiredo, do pessoal da Arqui Jazz Band e da Contraste Combo, que eram 'pecializados no diexieland e nos 'tilos tradicionais dos anos 20, além, é claro, da própria Dona Ivone ao piano, que sempre nos brindava com suas performances, entre vários outros.
E era sempre muito legal ver 'te pessoal tocar.
Mas, naturalmente, a cada «reunião» havia algumas atrações novas e «avulsas» ou «bissextas».
Uma vez vi tocar lá o Professor Menotti, que, na época, já era um senhor de idade.
Tratava-se de um dos maiores músicos gaúchos de todos os tempos, ligado ao pessoal da velha boemia da noite portoalegrense.
Não sei se ele ainda vive, mas era um fenômeno, tanto ao violão quanto ao piano.
Tocando sozinho, ele magnetizava a platéia com o seu domínio harmônico e melódico, era um verdadeiro mestre.
Enfim, eram inúmeros os músicos (cantores e instrumentistas) que davam a sua canja no local, que geralmente era freqüentado mesmo preponderantemente por músicos que 'tavam a fim de conhecer mais sobre o jazz e curtir os improvisos que rolavam.
Eu, naturalmente, nunca me aventurei a sequer chegar perto do palco, por razões óbvias.
É indiscutível o fato de que o Clube de Jazz da Dona Ivone Pacheco foi fundamental para a difusão deste tipo de música na capital gaúcha nos anos 80, ainda mais considerando que o público em geral, mesmo o apreciador de música, e da boa, tinha pouco acesso a 'te 'tilo.
à época -- em que ainda não havia o CD, e, obviamente, não existia internet e muito menos MP3, os LPs de jazz eram caríssimos, a exemplo dos discos de música erudita, o que dificultava sobremaneira o conhecimento deste ritmo maravilhoso, principalmente por gente como eu e os meus amigos, então 'tudantes totalmente «duros» e «sem ter onde cair morto».
Como o jazz não era presença muito freqüente no dial portoalegrense daquela época (diferentemente de agora, em que contamos, por exemplo, com o programa extraordinário do jornalista e crítico musical Paulo Moreira, tremendo 'pecialista no assunto, Sessão Jazz, que rola à noite na FM Cultura), pode-se dimensionar a importância de um 'paço como 'te.
Em 'te sentido, a generosidade desmedida de Dona Ivone verdadeiramente abriu uma janela em nossos horizontes, contribuindo em muito para o aprimoramento dos conhecimentos musicais e apuração do gosto 'tético, que nos torna tributários de uma dívida imensurável em relação a ela.
Tenho certeza que todos os freqüentadores, fossem músicos ou não, tenham tocado lá ou não, devem ter a mesma visão a respeito da importância do Clube para a difusão do jazz em Porto Alegre, e agradecem por o maravilhoso trabalho «pedagógico» e, ao mesmo tempo, «lúdico», de Dona Ivone.
É curioso que uma vez, quando apresentei-me no Foyer do Theatro São Pedro, no projeto Blue Jazz, cantando standards do jazz americano (isto lá por 93 ou 94, vários anos depois de minhas visitas ao clube), ao final do show a Dona Ivone veio falar com mim, com sua simpatia e gentileza inatas, dizendo que tinha gostado muito, que era muito legal alguém fazer aquele repertório em POA, etc..
Como era final de show e havia mais pessoas que queriam falar com mim, só tive tempo de agradecê-la por o carinho e 'tímulo.
Depois me dei conta que devia ter dito a ela que, na verdade, ela era responsável direta por o trabalho que eu 'tava fazendo à época, pois foi através de minhas visitas ao seu famoso Clube que se corporificou a minha admiração por o jazz.
Muito obrigado, Dona Ivone.
Número de frases: 34
Você já ouviu falar no «carro da pamonha»?
Esse tipo de comércio informal ganhou projeção ao ser retratado numa publicidade veiculada na TV e no rádio há alguns anos.
No entanto, em comunidades com poucos 'tabelecimentos comerciais e sem grande diversificação, o serviço -- por assim dizer -- de «delivery de periferia» vai muito além da pamonha.
Para a comodidade dos seus moradores, muitos produtos batem a sua porta regularmente.
Em bairros de Nova Iguaçu, como Santa Eugênia e Morro Agudo, a oferta é imensa.
Pão, jornal, botijão de gás, vassoura, desinfetante caseiro.
Isso para falar só nos vendedores mais assíduos, que marcam presença diariamente.
Se formos considerar os que aparecem de quando em vez, a lista cresce bastante:
cuscuz, empadinhas, biscoitos, aipim, vasos de cerâmica ...
Poucos utilizam automóveis como «lojas» -- como o vendedor de pamonhas.
Em o meu bairro, têm marcado ponto também o «carro das mantas (e cobertores, e redes, e panos de prato)» e até um que faz as vezes de peixaria (" Temos camarão, sardinha, cavalinha, corvina ...").
O transporte mais popular é o triciclo, mas vale também caminhão, bicicleta simples e carrinho de mão!
Para atrair a clientela, cada profissional adota uma tática.
Há quem apele para buzinas com sons diferenciados, alto-falantes ou o próprio gogó.
O jornaleiro, por exemplo, tem bons pulmões.
«Vai ler, O Dia, o Extra, O Globo!»,
grita, enumerando os jornais à disposição dos leitores em sua banca improvisada num triciclo.
Já os vendedores de abacaxi, num caminhão do tipo pau-de-arara, convidam através de uma gravação difundida por alto-falante:
«Abacaxi de Marataízes.
Esse aqui é docinho.
Vem cá ver.
É o senhor mesmo!»,
apontando para qualquer incauto morador que 'teja à frente de eles.
Se a fruta é mesmo capixaba, não dá pra saber, mas o cheirinho é quase irresistível.
Buzina plagiada
O vai-vem começa cedinho.
Por volta das 6h da manhã, uma buzina de bicicleta soa.
É o «padeiro» Marcelo Thiago dos Santos, que há mais de 10 anos vende pães, broas etc., em domicílio.
Eu falei padeiro?
Corrigindo: Marcelo nunca colocou a mão na massa propriamente dita.
Ele revende pães por conta própria.
Compra de uma padaria, em regime de consignação (o que não vender, devolve) e sai por as ruas, garantindo o nem tão quentinho -- mas muito bem-vindo!--
pãozinho do café da manhã e também sonhos, pães doces, broas e bolos para o lanche da tarde de sua freguesia, acomodados em grandes cestos de vime presos nas partes da frente e detrás da bicicleta.
De segunda a sábado, e domingos alternados, às três da madrugada, ele bate à porta do seu fornecedor.
«Eu sou o despertador do padeiro!»,
ri. Tudo para garantir o sustento da família e não deixar na mão uma freguesia fiel, como a dona-de-casa e professora Silvia Helena Oliveira de " Souza Lima.
«O Marcelo é ótimo.
às vezes, ele nos encontra no meio do caminho e faz questão de entregar o pão lá em casa.
Se ele não tem troco, diz para a gente pagar depois», conta Silvia, enquanto 'colhe um pão doce grande para o lanche.
Outra vantagem de Marcelo:
conhece bem os gostos dos fregueses.
«Ela gosta dos pães mais branquinhos», revela sorrindo.
Tem outra vantagem:
dorminhocos podem solicitar que ele deixe a sacola com os pãezinhos pendurada no portão, pelo lado de dentro, claro!
Tímido, Marcelo tentou fugir por uns dias da «entrevista» com mim, embora me conheça há anos.
Para piorar, depois que finalmente consegui convencê-lo a falar, perdi o bloquinho com as anotações ...
Bom, mas a popularidade de Marcelo e de seu serviço de primeira necessidade -- afinal, poucos moradores dispensam um pãozinho no café da manhã -- levaram outro tradicional ambulante da região a «plagiar» o som de sua buzina.
E, assim, atrair possíveis clientes através de uma pegadinha:
as pessoas imaginam que é o padeiro, saem à rua e dão de cara com o ...
vassoureiro! Maurício de Melo entrega sua 'tratégia com um sorriso e diz que é amigo de Marcelo, que sabe sobre a «buzina clonada».
Em seu triciclo adaptado 'pecialmente para expor seus produtos, oferece, além de vassouras, cloro, detergente, desinfetante, buchas ('ponjas), cera líquida, sabão, rodos -- tudo mais qpara a limpeza de sua casa!
Em o triciclo, que é uma atração à parte, duas mensagens chamam a atenção.
Uma é retirada da Bíblia:
«Ora, a fé é a certeza de coisas que se 'peram, a convicção de fatos que não se vêem» (Hebreus, 11,1).
A outra é marketing puro:
«Me leve para sua casa."
E as pessoas têm atendido ao apelo, afinal há 10 anos Maurício sustenta a família -- 'posa e quatro filhos -- com a renda de suas andanças por diferentes bairros iguaçuanos.
Andanças mesmo, porque, seis dias por semana, ele empurra seu triciclo por as ruas, só pedalando no final do expediente, na volta para casa.
Haja disposição física!
«às segundas, quartas e sextas ando por um bairro;
às terças, quintas e sábados, por outro», explica o ambulante, que antes de ganhar as ruas trabalhava como serralheiro, de carteira assinada e 'tudou até o primeiro ano do ensino médio.
Fregueses «mais confiáveis» contam com uma facilidade a mais para a compra:
pagamento só no final ou num dia do mês a sua 'colha.
Tudo devidamente anotado no seu «caderninho de fiado».
Com suas buzinas, seus slogans gritados ou gravados, 'sa galera faz parte da história dos subúrbios do Rio e Grande Rio, e, provavelmente, de muitas outras cidades do país.
O «delivery de periferia» já virou uma tradição na economia popular.
Ah, mais um detalhe:
por aqui, o carro da pamonha diversificou o seu cardápio e oferece também bolos de fubá, de aipim doce e de chocolate, da tapioca e do curau.
Ops, a buzina me chama.
É Marcelo!
Número de frases: 70
Hora de comprar um sonho ...
Saídos da ', sem regras e com muita criatividade e sons na bagagem, a banda belo-horizontino Alarido desembarca na Utópica Marcenaria (Av..
Raja Gabaglia, 4.700, Sta.
Lúcia), na noite do dia 7 de fevereiro, para fazer sua algazarra musical com o show de lançamento de seu primeiro CD.
Com seis anos de existência, após dez meses de concepção do trabalho, a banda apresenta um primeiro CD puramente autoral de faixas com mesclagens que vão do blues, folk, jazz e rock, e que se fundem a ritmos brazucas:
como o samba, maracatu, baião, samba-rock, entre outros.
Um trabalho que pode ser incluído na safra de novos artistas da MPB contemporânea, ou da MBM -- Música Brasileira Mundializada, como define o crítico Arthur Nestroviski -- que, defende a banda, «não deixa de ser popular».
Em as letras -- maioria assinada por Eurípedes Neto, vocalista e violonista na banda, críticas e crônicas do cotidiano 'tão presentes (em músicas como «Receita Diária», Cidade de João Ninguém» e «Cara novo, mundo louco ") e se somam a uma poética lírica e bucólica, de canções como» Vida a dois», Novo dia «e» Sensibilidade».
Tendo já se apresentado no circuito de casas noturnas de BH, diversas cidades mineiras e até em São Paulo, a Alarido prima por a presença cênica nos shows, abusando do bom humor, que no CD 'tá mais que visível nas vinhetas, como em " Av..
Viés», que abre a música «Receita Diária», ou» Alarido», que exemplifica o porquê do nome adotado.
Segundo o dicionário Aurélio, «alarido» é:
clamor de vozes, vozeria de homens que trabalham, canto ( ...)
barulho, algazarra, alarme de briga, conflito, gritaria ( ...).
Mas é também:
Andréa Furtini (voz, gaitas e percussão), Eurípedes Neto (voz e violões), Gustavo Scarpa (voz e baixo), Marcelo Franco (guitarras e violões) e Paulo Spiña (bateria).
CD:
«às próprias custas S.A.» ...
Originalidade e criatividade são as marcas deste primeiro CD, produzido de forma independente, contando apenas com o patrocínio do BDMG Cultural na prensagem, através do projeto «Estímulo BDMG à produção artística».
Para custear todo o processo de produção, os integrantes da banda encontraram uma maneira original para levantar a grana:
apresentando-se com a banda de samba «Odilara» -- quase um anagrama de Alarido -- nas noites de BH.
Só assim para tornar realidade a música autoral que produzem.
Em a produção e gravações do CD, foram parceiros o Estúdio Casa Antiga, o produtor musical Marcos Frederico, o técnico de som e também produtor musical Fabrício Galvani e a Associação no Ato Cultural (produtora executiva da banda).
Toda a masterização do disco foi feita no Estúdio Visom, no Rio de Janeiro, sob cuidados do técnico Luiz Tornaghi.
De entre as 15 faixas do CD, foram convidados para participações 'peciais os músicos:
André Miglio, da banda Falcatrua (em «Andarilho "), Fabrício Galvani (" Cidade de João Ninguém»,» Tapôa», «Olheiras de Eurípedes e Andarilho ") e integrantes do grupo de choro Siricotico (" Cidade de João Ninguém»,» Sensibilidade», Caminho e " Cara novo, mundo louco ").
A maioria das músicas do CD podem ser 'cutadas no site da banda:
www.alarido.com.br. Serviço:
Show de lançamento CD da Banda ALRIDO (Independente)
Ingresso: R$ 15,00 (com direito ao CD)
Data: 07/02, quarta-feira, às 21 horas
Local: Utópica Marcenaria (Av..
Número de frases: 31
Raja Gabáglia, 4.700, Santa Lúcia, BH)
Uma rápida olhada nas HQs pornôs, como o trabalho do brasileiro Alcides Caminha, vulgo " Carlos Zéfiro
«Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor».
Assim começa a mais conhecida música composta por Alcides Aguiar Caminha, feita em 1956 numa parceria com Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito.
Mas, mesmo quem não gosta de samba e que talvez nunca tenha ouvido nem «A Flor e o Espinho», muito menos as demais composições de Caminha, dificilmente desconhece a existência de outras famosas obras deste cidadão carioca.
Caminha era chegado numa sacanagem.
Calcula-se que ao todo ele produziu 600 revistinhas em quadrinhos eróticas protegido por o pseudônimo de Carlos Zéfiro.
A verdadeira identidade do desenhista e 'critor dos famosos Catecismos, as HQs eróticas que fizeram jorrar o 'perma dos adolescentes brasileiros dos anos 60 e 70, foi um enigma por três décadas, até ser desvendado numa reportagem da versão nacional da Playboy, em novembro de 1991.
O assunto foi considerado tão importante que a apuração e o texto foram feitos por ninguém menos que o próprio diretor editorial da época, o jornalista Juca Kfouri.
E quem pode negar que aquele foi o maior destaque numa edição cuja 'trela foi a irmã, digamos, menos exuberante da Luma de Oliveira, a Ísis, apresentada num ensaio deveras mandrake.
Tão picareta quanto, foram as fotos de uma russa «Natasha», pelada por as ruas de Moscou pós-Perestroika, ou ainda as páginas com as irmãs Barbi, gêmeas megapeitudas da Califórnia.
Justiça seja feita apenas à playmate de então, miss novembro Wendy Kaye de curto porém vistoso reinado.
A revelação sobre Zéfiro foi provavelmente uma das mais importantes reportagens da história da Playboy brasileira, revista que, ao contrário das raquíticas edições dos últimos anos, já trouxe muitos textos jornalísticos e de ficção que merecem 'tar em qualquer boa antologia do melhor da nossa imprensa.
Em a verdade, não fosse o risco de ser muito mal compreendido, daria para se dizer que «O Fim de 30 Anos de Mistério» foi o maior furo que já saiu na Playboy ...
Durante toda a década de 60, Alcides Caminha se dedicou a produzir suas revistas artesanais, relatando façanhas sexuais de tipos anônimos com suas primas e cunhadas, vizinhas e desconhecidas, patroas e empregadas.
Apesar de conhecimentos duvidosos de anatomia, da gramática ruim, das tramas e das posições repetitivas, dos finais quase sempre moralistas, apesar disso tudo, Carlos Zéfiro foi um mito da história deste país.
«Ídolo de algumas gerações, seu trabalho ensejou sonhos e orgasmos de quem tinha entre 10 e 20 anos na década de 60», conforme testemunhou Kfouri.
Em um ritmo que chegou a produção de duas revistas por semana, títulos como Boas Entradas, Frutos Proibidos, A Viúva, O Fugitivo, Carona e etc. vendiam milhares de exemplares, distribuídos em 'quema clandestino por as bancas do Rio de Janeiro.
De lá, os Catecismos partiam para todo o resto do país, tudo debaixo dos quepes dos milicos que mandavam por aqui e que adorariam pôr as mãos em quem 'tava deturpando a mente da juventude pátria.
Kfouri conta a história de um editor de Zéfiro, Hélio Brandão, preso por a Polícia Federal em 1970, depois que foi feita uma apreensão em Brasília de 50 mil Catecismos.
Era 'se o clima de repressão que fazia o pacato Alcides Caminha ter medo das repercussões caso se descobrisse sua identidade secreta.
O medo continuou mesmo depois do fim da ditadura e do auge da procura e da confecção das revistas.
O perigo então não era mais levar uma surra ou ser preso, mas sim o de perder o dinheiro da aposentadoria.
Funcionário público por 40 anos, atuando no Ministério do Trabalho, Caminha acreditava que podiam usar seu envolvimento com a sacanagem como desculpa para cortar sua pensão de 80 mil cruzeiros.
O valor era uma merreca, que pode ser comparado aos 3,5 mil cruzeiros cobrados por a referida edição da Playboy, ou ainda por quanto custava na época o renomado vinho Château Margaux, tema de um outro artigo da mesma revista.
«Em meados de setembro último, direto com o importador Mison Vins, em São Paulo, uma garrafa custava a bagatela de 140 mil cruzeiros».
Em aquele novembro de 1991, aos 70 anos, com 1,81 metro de altura, menos de 60 quilos, o lado 'querdo do corpo paralisado por culpa de um trombose, pai de cinco filhos, avô de 11 netos, morador da Baixada Fluminense, o eterno Zéfiro não tinha condições de bebericar uma taça do tal Chatô Margô e ainda tinha medo de perder o pouco que recebia.
Por isso mesmo, antes mesmo de 'crever a matéria que acabaria com os 30 anos de mistério, Juca Kfouri assumiu com seu ídolo um compromisso:
«Em a absurda hipótese de vir a ser punido, verá que um fã seu não foge à luta nem teme arcar com aposentadoria tão infame».
Infelizmente, o debilitado Alcides Aguiar Caminha morreu apenas 10 meses depois da publicação de seu passado glorioso de quadrinista e compositor.
Printed in Tijuana -- Apesar da ótima e histórica matéria, Juca Kfouri perdeu a oportunidade de ter entrado em mais detalhes sobre as influências da obra de Carlos Zéfiro.
O jornalista até 'clareceu a origem do misterioso pseudônimo de Caminha, que o havia copiado do nome de um autor mexicano, responsável por uma série de fotonovelas (românticas, nada de erótico) publicadas semanalmente no Brasil.
Mas a verdade é que os próprios catecismos cariocas devem muito a outro produto supostamente também feito no México:
as Bíblias Tijuaninas ou, como são muito mais conhecidas, as Tijuana Bibles.
Provavelmente 'sas HQs eróticas não eram mexicanas coisa nenhuma, o apelido pegou devido ao aviso que elas traziam na capa, «printed in Tijuana» fazendo referência a uma cidade industrial do noroeste do México, na fronteira com os EUA.
O mais certo é que 'se aviso era uma forma de tentar driblar as leis puritanas em vigor nos Estados Unidos, mas a suposta origem alienígena só fazia aumentar o mistério sobre aquele legítimo produto marca diabo.
Seja como for, mexicanas ou americanas, as Tijuana Bibles apareceram em solo ianque no final dos anos 20, atingiram o auge durante o tempo da Grande Depressão dos anos 30 e 40, e sumiram na década de 50 (ou seja, a decadência veio 10 anos antes do surgimento de Zéfiro no Brasil).
Para não sermos injustos, o lapso da primeira reportagem foi desfeito logo, apenas 88 meses depois, numa segunda matéria, 'ta de autoria de Patrícia Vilalba, publicada na Playboy de março de 1999, muito popular por ter trazido na capa, pela primeira vez, uma certa Tiazinha.
Em aquela edição, as semelhanças e diferenças entre Bíblias e Catecismos eram analisadas.
O contraste mais evidente 'tava nos protagonistas das histórias.
Se o brasileiro, como dissemos, dava preferência às pessoas comuns, as Bíblias gringas quase sempre retratavam versões pornográficas de personagens conhecidos por as massas, sejam reais (como atores, políticos, 'portistas, músicos), sejam fictícios (basicamente figurinhas de HQs bem menos erotizadas).
De esse jeito, em plena II Guerra, os americanos podiam se divertir com desventuras gays de seus inimigos, como Mussolini e Hitler, e se o falecido Guido Crepax apenas se inspirou levemente em Ingrid Bergman para compor sua musa Valentina, os autores das Bíblias faziam a própria barbarizar em cenas de sexo.
Em a parte fictícia, a ousadia dos «tijuaninos» era dupla, pois além de enganar as leis anti-obscenidade, eles ainda ferravam com os direitos autorais ao mostrarem, por exemplo, os bichinhos da Disney em orgias, muitas vezes incestuosas.
Alan Moore, provavelmente o maior quadrinista de todos os tempos, homenageou 'sa tradição da pirataria hardcore de personagens famosos em sua obra máxima:
na maxissérie Watchmen, uma ex-heroína, para mostrar que já teve seus dias de glória, exibe com orgulho as HQs pornôs que chegou a protagonizar em priscas eras.
Outra diferença fundamental entre as duas 'colas de sacanagem em quadrinhos é que o caso do brasileiro foi praticamente o gênero de um homem só, enquanto que o modelo americano funcionou numa 'cala semi-industrial, com vários artistas trabalhando clandestinamente nos roteiros e nos desenhos das histórias.
Apontado por muitos como outro exemplo do melhor quadrinista que já existiu, o falecido Will Eisner chegou a declarar que no início da carreira, nos anos 30, foi convidado para participar do desbunde.
Desafortunadamente, ele não aceitou.
Uma pena, pois certamente a experiência iria abrir novas possibilidades para o desenvolvimento de seus trabalhos futuros, como o Spirit e sua galeria de vilãs sexies.
Aquela segunda matéria da Playboy revelou ainda algumas tentativas de se descobrir o alter ego desses autores malditos.
Um certo Mr. Prolific teria sido parcialmente identificado num livro de 1998.
Ele seria um veterano da I Guerra conhecido como Dr. Rankin.
Em o mesmo livro, Art Spiegelman, autor da obrigatória série de quadrinhos Maus, 'creveu no prefácio que conhecia o nome completo de outro desenhista tijuanino, Wesley Morse, criador de uma série de Bíblias que usavam como cenário a grande feira mundial de tecnologia que Nova Iorque sediou em 1939.
Quanto às semelhanças das Bíblias e dos Catecismos elas são muitas e óbvias, mas vale destacar uma aqui:
a coincidência do ponto de desgaste dos dois fenômenos.
Em os EUA, a decadência das Tijuana Bibles coincidiu com o início do processo de Revolução Sexual, lá pelo meio dos anos 50, com o marco que representou a criação da tão citada aqui revista Playboy, algo que é muito bem descrito por Gay Talese em seu livro A Mulher do Próximo.
Já os Catecismos de Zéfiro começaram a rarear nos anos que antecederam a abertura política no Brasil, entre o fim dos anos 70 e início da década seguinte, quando os militares voltaram aos quartéis, permitiram o surgimento de um presidente civil e abriram 'paço para eleições diretas.
Aparentemente, as HQs eróticas de arte amadora e roteiros ingênuos não convivem pacificamente com um mercado que põe à disposição dos consumidores revistas com fotos generosas e filmes explícitos, entre tantos outros produtos.
Não é à toa que, praticamente extintos no Brasil e nos EUA, quadrinhos eróticos sobrevivem na Europa e na Ásia em versões muito diferentes do material punk de que 'tamos falando aqui.
Em países europeus, Itália sobretudo, 'se gênero se sofisticou e ganhou status de arte, com autores como o citado Crepax e, principalmente, Milo Manara, inspirando respeito mundial.
Já entre os asiáticos, os japoneses são de longe os fãs mais entusiasmados e, como acontece com quase todo o resto das coisas naquele país, a atividade tem organização de grande indústria e atende por nome próprio, o Hentai.
Trabalhos artesanais, à moda de Zéfiro e Mr. Prolific, com toda a mística que os cercam, parece que só surgem em ambientes repressivos, com governos autoritários.
Fica a dúvida:
como serão as Bíblias e os Catecismos pornôs de Cuba ou dos países muçulmanos, por exemplo?
Se alguém souber, favor entrar em contato.
Número de frases: 65
Matéria originalmente publicada no site www.marcadiabo.com
Nasci e me criei no Rio de Janeiro, no subúrbio carioca.
Vivi aqui até os meus 19 anos e, por imposição profissional, tive a oportunidade de viver fora do Rio ...
viver mesmo.. morar fora, por cerca de 20 anos, voltando aqui apenas algumas vezes.
Em 'se período, a transformação da cidade maravilhosa foi explícita e gradativa.
Nunca se viu tanta gente morando na rua.
Hoje em dia existe a já batizada, reconhecida e oficializada «população de rua».
Sinal dos tempos!
Hoje, novamente morando aqui com minha família, passei a testemunhar de perto e a cada dia, a degradação a que foi submetida a nosso cidade.
Não lembro de ter presenciado tamanho descaso das autoridades políticas, tocando suas liras durante sucessivos mandatos e vendo o Rio e o carioca arderem no fogo da violência, da sujeira, das pichações e da falta de educação.
Autoridade policial ...
parece brincadeira a total falta de compromisso e competência, sem falar na conivência ...
verdadeira trupe de agentes que, salvo as justas exceções, contam as horas para sair do serviço e entrar no bico que o sustenta todo mês.
Vejo policiais e guardas municipais em pose de 'tátua, olhando os consumidores de maconha, coca, crack etc, bem em baixo de suas barbas, fumando e traficando as drogas.
Uma vergonha!
Uma afronta!
Falta de instrução, fragilidade, conivência ou medo?
Não sei o que pensar ...
só sinto vergonha e indignação.
Vieram as eleições e a democracia, mais uma vez, nos concedeu a chance de implementar mudanças, ainda que lentas, não me iludo, mas não deixou de ser uma oportunidade.
Infelizmente, me deparo diariamente com a desesperança dos que votaram.
Para quê?
Não adiantou nada?
É só o que se ouve na praia, nos bares, nas 'quinas do Rio ...
enquanto ônibus são incendiados, morrem civis e militares na guerra do tráfico e a cidade suja e revolvida em sua lama ...
O crime vive no asfalto, se alimenta nas calçadas e cresce debaixo de nossas marquises.
Depois dorme em segurança nos morros, enquanto seus soldados e simpatizantes mantém o clima de medo e apreensão nas madrugadas das ruas do Rio.
Quem tem a solução?
Sinceramente, acho que não se resolve tudo isso com cem anos de sucessivas eleições, mas com um urgente choque de indignação.
Um choque de autoridade, de cidadania, de respeito ao cidadão de bem.
Isso não depende de dinheiro ou de tempo, como as autoridades querem que pensemos.
Depende sim, unicamente, da vontade de fazer.
Falta ao nosso povo carioca dar um basta nisso tudo, e não dar descanso às autoridades enquanto atitudes definitivas não forem tomadas.
Associações de classe, comunidades, clubes de toda ordem, onde quer que a sociedade carioca se reúna, deve começar a se mobilizar para cobrar a mudança.
Que aos novos dirigentes, governador, prefeito, vereadores, deputados, senadores, autoridades eleitas ou impostas, não seja permitido dormir, enquanto não devolverem aos cariocas o seu merecido sono e o prazer de acordar e ver o Rio de Janeiro lindo, de cara limpa e digno de ser chamado de Cidade Maravilhosa.
Número de frases: 35
(Desculpe Nietzsche, mas eu tive que 'crever isso)
Nelson Rodrigues foi um grande fazedor de frases.
Uma das que eu mais gosto é «Se cada um conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém».
Em a época de Nelson o pudor sexual era um indicativo de um tipo muito particular de sentimento moral:
a vergonha.
Irmã da culpa, a vergonha é aquele sentimento devastador e inquietante, que tira teu sono quando você é flagrado fazendo algo moralmente condenável.
Em a época da minha avó, que também era a época de Nelson Rodrigues, mostrar as pernas era algo moralmente condenável.
Uma mulher honesta, decente, não mostrava as coxas.
Um vereador holandês flagrado recebendo propina para votar uma lei qualquer pode ser possuído por um sentimento de vergonha tão avassalador, que sua única saída seja o suicídio, mas, pode não dar a mínima se um eleitor o encontra na porta de um Coffee Shop de Amsterdã fumando um baseado turco.
Em o Brasil, a coisa parece que se inverte.
De a mais distante aldeia, até o bairro mais descolado de Nova York;
da fazenda mais fria na Baviera, até os mais caudalosos desertos do Iemen;
a vergonha é a mãe do homem.
Ela é que nos faz humanos.. A vergonha e a culpa são as melhores ferramentas para se formatar um sujeito que não roube, não receba propina e atire na cabeça de alguém.
Que não 'panque empregadas domésticas em paradas de ônibus e nem bote fogo num índio de madrugada.
Confúcio, que viveu entre 551 e 479 antes da era comum já sabia aquilo que minha Avó me ensinou:
«Se conduzirmos o povo por meio das leis e realizarmos a regra uniforme com a ajuda dos castigos, o povo procurará evitar os castigos, mas não terá o sentimento de vergonha.
Se conduzirmos o povo por meio da virtude e realizarmos a regra uniforme com a ajuda dos ritos, o povo adquirirá o senso de vergonha e além disso se tornará melhor».
Sem a vergonha e a culpa, os custos que o Estado vai ter para desenvolver um aparato repressivo que coíba as atitudes consideradas moralmente condenáveis são muito altos.
Em um mundo no qual a vergonha perdeu o sentido é completamente inútil a existência do Direito.
Pior é quando os próprios agentes do Estado, quando vereadores, juizes, policiais, prefeitos e governadores, perdem, em conjunto, a vergonha.
A crise do «moralmente condenável» no Brasil tem, no mínimo, cinqüenta anos.
Ela 'tá ligada a transição de um universo rural e aristocrático, fortemente influenciado por uma moral religiosa, para um mundo burguês.
O confronto entre a geração da minha avó (a de Nelson Rodrigues) e a da minha Mãe (a de Nelson Mota) marcou 'se momento de passagem no final do século passado.
Hoje, para muitos pais de família, casar sua filha com um rico canalha é bem melhor do que com um pobre honesto.
Hoje, a maior vergonha não é de ser «'perto».
Nos sentimos culpados por não termos dinheiro suficiente.
Nossa maior vergonha é a de não sermos ricos, jovens, descolados, bem nutridos.
Temos vergonha de não fazermos sexo o suficiente, de não termos os músculos certos nos locais exigidos, de não usarmos a roupa cara da loja de banalidades e de não ter dinheiro para pagar ao colunista por as nossas fotos publicadas na revista de fofocas.
Abandonamos uma velha moral e não conseguimos ainda encontrar uma moral melhor para pôr no lugar.
A crise da nossa vergonha é de conteúdo não de forma.
Se há uma função social da vergonha é a de evitar a guerra de todos contra todos e num mundo onde não há verdade, nunca vai ser possível haver paz.
Número de frases: 32
Outro dia, descobri que as novelas do Manoel Carlos podem ser boas.
Outro dia, vi metade de um clipe lindo na MTV, mas não decorei o nome da música -- perdi, pois, a oportunidade de vê-lo ad eternum no YouTube.
Outro dia conversei com um professor universitário de Comunicação sobre a já mais que batida questão da pós-modernidade e expus -- meio com medo da resposta -- minha opinião sobre o tema:
Não, não acredito em tudo que eu ouço falar sobre os dias de hoje, não acredito no fantasma da pós-modernidade e nem na maldição do conhecimento fragmentado.
Olho para o lado e sinto que o mundo 'tá mudando à medida que o segundo passa.
Não sei se é porque foi com a minha geração que a Internet surgiu para valer, não sei se foi porque, ainda na minha geração, a Internet mudou para valer.
O conhecimento a que tenho acesso no dia-a-dia é assim, a parte de um todo num quebra-cabeça gigante que não fecha, uma vez que 'se todo que completa o quebra-cabeça talvez nem exista de fato.
Esse é o motivo por que não ligo em ter conhecimento partido sobre inúmeros temas.
Não é um 'forço programado para não saber a fundo sobre as coisas, é mais um não se importar n, por exemplo, ligar a TV e ver um documentário sobre a Revolução Francesa por a metade para, logo depois, tomar conhecimento -- por meio de uma propaganda -- da nova série bacana que 'tá por vir.
Tudo bem se eu aprendi por a metade a história da queda da Bastilha.
Amanhã eu aprendo o resto, seja lendo efetivamente um livro, seja vendo a reprise da primeira parte do programa.
O controle remoto 'tá na minha mão e me dá a opção de procurar por aquilo que desejo.
Estou longe de ser passivo diante de ele e me sinto, às vezes, inteligente por conclusões a que chego em frente da TV.
E aqui alcançamos, finalmente, o ponto.
A falação acima foi mais para avisar que nem sempre a reflexão se dá com o tempo longo, e que antes de buscar um outro canal mil coisas já se somam ao leque de conhecimento que acho importante cultivar.
Dito isso, queria falar sobre O Aprendiz, programa que teve sua terceira edição finalizada semana passada, na TV Record.
Para variar e como sempre acontece, mudava os canais feito louco e assim, parando milésimos antes até de perceber, 'tacionei na mesa de Roberto Justus.
Isso foi há um mês e, anteriormente, nunca havia assistido ao programa (exatamente como ocorrera com a outra experiência retratada em 'te mesmo Overmundo).
O ato de ver TV parece realmente ser um dom da minha geração, na medida em que nem pai nem mãe conseguem acompanhar com os olhos o que meus irmãos e eu acompanhamos e -- mais ainda -- selecionamos.
Parei no Roberto Justus em sua mesa porque tinha absoluta certeza de que aquilo ali me daria, ao menos, minutos de diversão e reflexão.
Acertei.
O programa 'tava já na sua reta final.
Uma mesa de trabalho bem grande era formada por uns quatro jovens empresários.
Todos muito bem vestidos.
Todos seguros de si.
Justus fazia perguntas e avaliava o comportamento dos seus comandados nas tarefas realizadas no decorrer do reality show.
Já conhecia mais ou menos o formato do programa, cópia assumida do norte-americano The Apprentice:
uma simulação gigante de um processo seletivo para entrar numa das empresas do âncora, com direito a tarefas de gestão de um negócio e desafio de trabalho em equipe.
A parte por a qual mais me interesso, porém, é quando os aspirantes a donos de grandes impérios precisam se autodefinir.
O pulo do gato do programa 'tá justamente aí -- na conversa que o bem-humorado e propositalmente irônico e rei de si Roberto Justus trava com os seus comandados.
Forçando-os contra a parede e brincando de deus vemos Justus soltar golpes de palavra e, assim -- mesmo que involuntariamente, colocar nu o alto 'calão do empresariado brasileiro.
É tão ou mais crítico quanto o recente filme 'panhol O que você faria?,
saudado exatamente por combater a prática cruel de darwinismo profissional.
A saber:
é pontual notar que respostas que você pensava encontrar apenas naqueles questionários de Proust de revistas de fofoca efetivamente ocorrem no programa, tal qual igualar sua principal qualidade ao seu principal defeito:
Qual é a sua principal característica como profissinal?
Sou muito trabalhador.
E o seu principal defeito?
às vezes, trabalho demais.
E daí vai-se ao limite.
«Sou formiga porque a formiga trabalha muito sem chamar atenção».
«Sou Gandhi porque Gandhi movia o mundo sem agredir ninguém» ...
E Justus faz cara de quem leva todas 'sas respostas muito a sério.
É porque talvez seja mesmo.
É impressionante como, parando para pensar, não vem à memória produto algum no audiovisual recente em que o trabalho propriamente dito tenha sido o centro de uma temática apresentada tão de dentro.
A labuta em si sempre passa à margem e serve apenas como pretexto para falar de outra coisa, seja em séries de TV como Os Aspones, seja no cinema com filmes que tentam fazer isso sob o ponto de vista das classes baixas, como propõe Domésticas (de Fernando Meirelles e Nando Olival) com o seu fantasioso mundo das diaristas.
Fazendo graça de si mesmo
Em um segundo momento, Justus briga e faz grosserias com todos na sala, na tentativa clara de desenhar um pastiche de si mesmo e do seu papel de mega-empresário.
O efeito disso é ótimo, porque é na tênue linha da brincadeira de Justus e da seriedade com a qual os participantes encaram o desafio que O Aprendiz se equilibra com desenvoltura.
Justus ironiza e as moças e rapazes à mesa acreditam.
E acreditam porque crêem no pastiche, crêem naquele mundo louco que o próprio universo empresarial criou para eles.
É importante e revelador o que vemos aqui.
E toda a brincadeira revestida de seriedade fica ainda mais clara quando o programa que segue na programação (Show do Tom) apresenta a 'tupenda satirização de Justus feita por Tom Cavalcante.
Afora trejeitos exagerados, 'tá absolutamente tudo entregue -- Tom é Justus porque Justus não se preocupa em ser ele mesmo.
Parece mais fácil ser fiel na imitação de quem ironiza a si próprio.
A piada de Tom é fazer graça da piada que Justus prega em si e em sua turma de ricos, bonitos e infalíveis -- ambos fazem rir, mas também fazem pensar.
* * * Gil já dizia que o agora é quase quando.
É 'se o lema que tomo para mim em 'sa falta sincera de medo do mundo em que vivo hoje.
Número de frases: 58
Por isso, sigo e sigo mudando os canais em busca desses fascinantes pequenos momentos-pílulas na TV.
O ator Luiz Damasceno 'teve no SESC de Porto Alegre em 'te dia 20 de agosto para palestra e aula aberta com o grupo do Centro de Pesquisa Teatral do Ator (do qual participo), coordenado por o ator Alexandre Vargas.
Luiz é professor da EAD da USP e ator de larga experiência, tendo trabalhado 16 anos com Gerald Thomas em peças tão importantes como «Nowhere Man (1997)», Carmem com Filtro (1990)» e «The Flash and Crash Days (1991)».
Com sua simpatia e bom humor dirigiu-se à nossa platéia de atores um tanto aflitos e receosos perguntando sobre o cenário atual da cidade, contando sobre o momento em que mudou-se para São Paulo em 1969, quando «os 'petáculos duravam uma semana em cartaz e os grupos não conseguiam se unir».
Ouviu que, apesar de evoluções significativas, a cidade continua com fama de «cemitério dos 'petáculos», e os grupos tendem a se desfazer por brigas internas.
«Mas qual a postura de vocês perante isso?
Vocês se reúnem, debatem o tema?"
Um silêncio constrangido mostrava que talvez ainda não.
O ator continuou falando sobre a necessidade de comunhão num grupo (comunicação entre os membros para que isso chegue ao público), da imperativa entrega, da 'pontaneidade que o trabalho com criação pede.
Falou da importância da abertura a outros campos, buscando experiências em todas as áreas do saber e das artes, refletindo, debatendo.
Em suma, da humanização do ator.
Em isto retomava a questão da ética do grupo, proposta por o diretor " Jerzy Grotowski.
«Não podem ter medo de errar «diz» Damasceno.
«Temos e respeitar a diversidade, e se ela é, por exemplo, mais prolixa que eu, tenho de respeitar 'sa diferença».
Sabemos que um dos principais problemas, atualmente, ao se trabalhar com atores é justamente readquirir a capacidade de errar (num mundo do produtivismo e da vigilância), olhar nos olhos uns dos outros e interagir de forma cooperativa e 'pontânea.
A premissa do ator é:
todos são iguais, o público e os colegas.
De certa forma a concentração de poder no mundo de hoje e a violência que disso resulta (a empresa absolutista, a publicidade criando padrões globais, as relações de micro-poder contaminadas por 'sa desigualdade que descambam para a «exclusão» contínua, etc.) geram 'se medo e 'sa frieza.
Damasceno indagou e comentou também sobre a «técnica que liberta», ou seja, o momento em que a questão formal (como a do modo de segurar o pincel para um pintor) se torna tão natural que cede lugar à expressão de uma verdade.
Podemos ver aí uma reflexão sobre o papel da vanguarda no século e sua transformação.
Em entrevista a Gerald Thomas (quase uma «conversa de comadres» como brinca o diretor) na TV Uol, o artista falava também de seu 'tranhamento com obras absolutamente vanguardistas, que exploram o limite da abertura do 'pectador, em 'pecial um trabalho de " Peter Brooke.
«A vida não é igual, tem mudanças, quando um 'petáculo ...
quando uma coisa 'tabelece uma tranqüilidade absoluta em todas as coisas, me dá sono ..."
Este ponto é profundamente interessante, e remete ao papel da arte entre a quebra do naturalismo midiático global na inovação e o isolamento.
Damasceno aponta para o mundo, mas com uma «visão pessoal», como ele propôs.
O primeiro modernismo (que podemos situar de modo arbitrário entre o fim do séc..
XIX e a primeira metade do século XX) queria simplesmente romper com o naturalismo da classe média (liga perfeita entre filosofia idealista, religião medievalista e cientificismo mecanicista), mostrar que as visões de mundo 'tavam se 'facelando em diferentes grupos (capitalistas, operários, artistas, religiosos, filósofos, etc.) e não havia mais a unidade instável que imperara do Iluminismo até então.
Em 'ta fase histórica anterior, a problemática social 'tava totalmente acomodada a uma ética individualista e conservadora:
a fórmula de acabar com a fome prevista era, não distribuir a renda, mas, segundo Malthus, ensinar a população (mas não a si mesmo, três filhos em quatro anos) a praticar o «controle» e limitar o aumento da população. (
Teoria sempre atual no empresariado local.)
Para Hegel, o Estado era a realização de uma viva eticidade da comunidade (Marx, bem depois, irá propor que é apenas (e ainda) expressão de eticidade dilacerada).
Os problemas sociais oriundos da rápida usurpação de privilégios dos camponeses que iam perdendo -- no Séc..
XVIII com mais rapidez-a terra comunal e migrando para as grandes cidades, para trabalhos miseráveis e super-explorados, ainda 'tavam ocultos para uma elite cuja filosofia era a de que o mundo caminhava para o progresso geral, e a de que o liberalismo (a liberdade absoluta dos agentes sociais) nascido na era pequena propriedade rural e do trabalho manual, ia salvar o mundo.
Unidade, portanto, ordem e progresso.
Como coloca «Terry Eagleton,» O positivismo crasso da ciência do séc..
XIX ameaçara roubar o mundo de toda subjetividade, e a filosofia kantiana docilmente seguira o mesmo caminho " (Eagleton, Teoria da Literatura, Martins Fontes, p. 80)
Em 'te mundo automatizado, os artistas se voltam para a redescoberta da subjetividade sem a unidade, entre a dor e a crueza das guerras e do industrialismo, primeiro com o último romantismo, depois com a vanguarda.
Há uma ligação entre eles quando tentam destruir o «jugo das categorias mecanicistas-utilitaristas sobre nossa vida» por a «rejeição da hegemonia da razão desprendida e do mecanicismo» (Taylor, As Fontes do Self, Loyola, p. 589)
Rimbaud, que acaba com o romantismo e o realismo, irá 'crever sobre os políticos opostos à Comuna de Paris que «com petróleo pintam Corots» em " Canto da Guerra Parisiense ";
Beckett, no pós-guerra, 'creverá sobre o próprio pensamento prisioneiro, pois " Nosso tempo é tão excitante que às pessoas só pode chocar o aborrecimento."
Não existe «o homem» eterno romântico, mas há uma sensação de 'tar vivo num mundo, talvez grande e poderoso demais, e é preciso resgatar o direito a ver 'se mundo de formas novas.
Quanto mais o indivíduo se torna intelectual / ou braçal por a divisão do trabalho (resgatando os sentidos no consumismo, entretenimento bobo ou na ginástica, muitas vezes por o medo de ser excluído), mais o teatro busca mostrar um homem vivente, ir mais fundo em percepções inusitadas, mostrar o ser imerso em sua carne e sangue.
Máquina de guerra, homem que morre.
Adorno chamou o teatro de Beckett de «'tado pós-psicológico», talvez um tempo da presença física, onde as palavras em nada ajudam-" So little to say, so little to do, and the fear so great», diz Winnie em» Happy Days».
A violência do mundo aparece na violência da forma, complexa e paradoxal.
Ao mesmo tempo, no decorrer do século, o sujeito sem oportunidades de «ver arte» (cada vez mais pessoas, na crescente concentração de renda) percebe a inovação como mera fuga quando os problemas parecem crescer mais e mais, falta-lha compreensão do mundo.
«Beckett 'tá ligado a uma linguagem formal muito forte» diz Gerald Thomas na mesma entrevista.
Ou seja, o 'tado existencial do sujeito europeu que sofre curvado sob o peso incompreensível do mundo na longa virada do século (até 1945) reage com uma nova forma de expressar a si mesmo e o mundo onde a individualidade desapareceu. (
Esse duelo entre o significado existencial individual e o contexto social, aparece também entre as visões diversas de teologia, entre vaticanismo e teologia da libertação).
Entretanto o formalismo da vanguarda guardava um secreto medo do mundo. (
Não é a toa que a Alemanha -- marcada por o idealismo, industrialismo acelerado e totalitarismos-tornou-se quase sinônimo de vanguarda.)
Essa nova diversidade de perspectivas marca o século XX e torna-se tradição sobre a qual os artistas necessitam se debruçar.
Como comenta o filósofo alemão Habermas no seu clássico " Mudança 'trutural da 'fera pública ":
«restou a vanguarda como instituição a ela corresponde a crescente distância entre as minorias críticas e produtivas dos 'pecialistas e dos amadores competentes, que 'tão atualizados com o processos de elevada abstração na arte, na literatura e na filosofia, com o envelhecimento 'pecífico no âmbito da modernidade ( ...)
e o grande público dos meios de comunicação de massa por outro lado." (
Ed. Tempo Brasileiro, p. 207) O medo do «referente» (medo da velha visão absolutista da burguesia), que tanto assusta o filósofo Derrida, e o eterno retorno ao significante -- debate sobre a linguagem-gerou o silêncio sobre o mundo, e a concentração de renda ia isolando os artistas e intelectuais da massa miserável.
Enquanto isso o século avançava, o aquecimento global começava a nos perseguir e Collin Powell, ex-secretário de Estado de Bush ia afirmando na " Cúpula de Québec:
«Talvez a conquista mais conhecida da Cúpula das Américas seja o lançamento das negociações para a Alca.
Nós poderemos vender mercadorias, tecnologia e serviços americanos sem obstáculos ou restrições dentro de um mercado único de mais de 800 milhões de pessoas, com uma renda total superior a US$ 11 trilhões, abrangendo uma área que vai do Ártico ao Cabo Hornn».
(Folha de S. Paulo, 22/04/2001, apud
http / www 2. fpa.
org. br /portal/modules/news/article.
php? storyid = 1631).
«Hoje a gente pode fazer unplugged, tendo vivenciado isso» diz Gerald Thomas.
O próprio Damasceno coloca um certo amadurecimento no trabalho do diretor, da preocupação com a 'tética como primeiro plano, para a vivência de um ser humano mais concreto em «Em o Where Man», onde se podia» ver uma pessoa em conflito procurando um caminho «e ele teria» se permitido tocar no humano, contar coisas de um ser humano». (
Recentemente parece ser o caso em «Um Circo de Rins e Fígados (2005)», sucesso de público, o qual não assisti, mas trata-se de comédia onde se fala de 1964, imperialismo e crimes políticos.)
Quando, hoje em dia, a cultura da mídia do entretenimento e a cultura da imprensa são nossos maiores formadores de opinião e reflexão, se o intelectual não se debruçar sobre 'sa e outras vidas cotidianas, falará de quê?
Como diz o sociólogo Boaventura dos Santos hoje superestrutura é infra-estrutura e infra-estrutura é superestrutura ... (
Não só porque os meios culturais tomam a forma industrial e há a produção do simbólico como mercadoria, mas porque forma opinião política e cultural).
A «ideologia» vem em forma de «cultura» (glamour para poucos, seja um de eles) por a TV e por a revista, e se não for criticada, forma nossa visão de mundo e nossa visão de arte ...
Precisamos achar nosso corpo, viver de instinto (e mais nós, os artistas, feitos para «pensar», inclusive em ser» sensório "), mas readquirir a visão coletiva e comunicação com o todo, frente ao poder que se condensa e mata (solução para a crise da Argentina, em 2001, segundo o Banco Mundial, «aumentar a flexibilidade da força de trabalho», ou seja, reduzir o valor real do trabalho e corte nos programas de emprego.
Palast. Amelhor Democracia que o dinheiro pode comprar, Francis, 2004)
Luiz Damasceno tem a coragem de discutir o excluído «referente» (o mundo), horror da filosofia pós-moderna, sem cair na tolice de 'quecer a tradição da vanguarda.
Número de frases: 73
Depois de uma pequena pausa nas atividades a batalha do Conhecimento 'tá de volta.
O público que curte os embates verbais vai poder assistir aos MC ´ s mais neuróticos do Rio novamente em ação.
Pra quem ainda não conhece, vale a pena lembrar o que diferência a Batalha do Conhecimento das demais batalhas de MC ´ s.
Em as batalhas comuns o foco do «confronto» 'tá na habilidade do MC em improvisar versos rimados, muitas vezes atacando o adversário.
Em a Batalha do Conhecimento existe um quadro negro onde o público propõe palavras com as quais os MC ´ s devem rimar.
O critério passa por a habilidade do MC em improvisar a partir destes temas (que são renovados a cada fase).
«Este modelo vai ser levado pra todos os cantos do mundo.
Não é pretensão, é uma missão " alertou MC Marechal, apresentador e mentor da BC.
É justamente 'se diferencial que vem atraindo cada vez mais gente para o, rebatizado, Coletivo CIC.
O 'paço onde acontecem as batalhas funciona nas dependências da Fundição Progresso e, além da Batalha do Conhecimento, abriga oficinas de grafitti (com a rapaziada do Rimas & Tintas) e de audiovisual (com a produtora Favela Filmes).
A própria BC voltou ligeiramente reconfigurada.
A maior mudança é que ela deixa de acontecer semanalmente, e se concentra somente na última quinta-feira de cada mês.
Os finalistas de cada edição receberão uma pontuação que, acumulada, garantirá a vaga do MC na grande final, realizada no final do ano.
Outras pequenas alterações aprofundam ainda mais a proposta da Batalha, a tal idéia do conhecimento.
A programação começa cedo (17h) com a exibição de um filme, na seqüência acontece um debate com um convidado, e só então começam as batalhas.
O filme 'colhido para abrir a temporada 2008 foi The MC (direção Peter Spirer).
O documentário apresenta um breve histórico da cultura Hip-hop, mostrando como o MC ganhou lugar de destaque entre os quatro elementos da Cultura.
A principal reflexão do filme se baseia na questão:
Os atuais MC ´ s são verdadeiros, ou meros produtos da indústria musical?
Para responder 'sa pergunta o diretor entrevistou gente do quilate de KRS-One, Common, Kanye West, entre outros pesos-pesados da rima.
Recomendo o filme, que pode ser encontrado nas locadoras, para quem se interessa em entender um pouco mais como funciona a mente de um MC.
Problemas com o horário não permitiram a realização do debate, o novo formato ainda 'tá sendo azeitado, o que não impediu que o público discutisse o filme de maneira informal.
As batalhas começaram por volta das 19:30h. O sistema de sorteio das batalhas (sem hierarquização dos MC ´ s) permite certas situações curiosas.
Logo na primeira rodada aconteceu o enfrentamento entre dois veteranos (Rico X Airá) e dois iniciantes (ODD X Odarayá), a última citada batalhando pela primeira vez.
Essa abertura para novos MC ´ s acaba fazendo da Batalha um 'paço de aprendizado.
É assim que o MC começa a ter noção de como utilizar o microfone, cantar em cima de bases com tempos e 'tilos variados e interagir com o público.
Outro aspecto curioso de 'ta edição foi a presença de MC ´ s de fora do Rio.
Pulga (de São Paulo) e, de um pouquinho mais perto, veio Feijão (Nova Friburgo).
O amigo não conteve a emoção e, logo que pegou o microfone, soltou:
«Viajei três horas pra batalhar 90 segundos, eu sou maluco mesmo!».
Mal sabia que iria conseguir se classificar para a próxima fase, alcançar o total de 180 segundos com o MIC nas mãos.
A tabela da 1° fase ficou assim (o vencedor marcado com negrito):
Airá X Rico
ODD X Odarayá (batalhando pela primeira vez)
Ernesto X Panão LC X Batoré
Nissin X Grilo (batalhando pela primeira vez)
Feijão X Pulga Emissário X YCE
Bizarro X Malone A segunda fase começou com uma batalha de 3 MC ´ s.
Fael, um dos primeiros a comparecer no CIC, havia se inscrito para batalhar.
Porém, em algum momento do sorteio, seu nome foi perdido.
Em uma rápida decisão da produção (prontamente aceita por os outros MC ´ s) Fael foi incluído na famosa Batalha de 2 + 1 e entrou na disputa por o título da noite.
Os destaques da segunda fase ficam por conta de Nissim (aniversariante da noite) com seu flow veloz e idéias apuradas.
E André Malone, rimando com sua típica agressividade.
A 'ta altura do campeonato o CIC já 'tava completamente lotado, de maneira que o público foi descendo da arquibancada e se aproximando (literalmente) cada vez mais dos MC ´ s.
A distância entre público e MC ´ s é praticamente nula.
O que só ajuda a tornar a Batalha ainda mais quente!
A tabela da 2° fase ficou assim (o vencedor marcado com negrito):
Airá X ODD X Fael
Panão X LC
Nissin X Feijão YCE X Malone
De a semi-final em diante os MC ´ s deveriam rimar em cima de produções de MR.
Break. Essa é mais uma das novidades da BC.
Toda edição vai receber um produtor convidado, que, por sua vez, vai oferecer um beat para o vencedor da noite.
Esta é mais uma maneira de agregar os elementos da cultura em torno da Batalha, além de dar visibilidade aos vários produtores que, apesar da pouca 'trutura, 'tão por aí soltando bases de classe.
Fael e LC duelaram.
Em seguida foi a vez de Nissin e Malone.
A tabela da semi-final ficou assim (o vencedor marcado com negrito):
Fael X LC
Nissim X Malone A surpresa da final seria o embate entre dois amigos que começaram juntos a caminhar por o mundo das rimas.
O interessante das batalhas entre amigos é que elas tendem a ser menos agressivas e mais inteligentes, com o uso das palavras propostas no quadro.
A expectativa era grande, os nervos 'tavam acirrados, todos prontos para a grande final que já iria acontecer, mas não antes do show de Emicida.
O MC paulistano vencedor da Liga dos MC ´ s 2006 veio até o Rio para promover o lançamento de seu single «Triunfo».
O show foi curto e grosso.
Emicida, apesar de 'tar lançando seu primeiro single, é experiente e cativou a platéia do início ao fim de sua apresentação.
Os versos de «Triunfo» (já disponível no myspace do cara) foram acompanhados por grande parte do público.
Outros sons, ainda não conhecidos, eram 'cutados com atenção e seguidos nos refrões automaticamente decorados.
Pressão total!
A o final do show Emicida me disse que: "
'sa batalha é uma parada única.
Se falar que é mágico eu vou 'tar diminuindo o bagulho.
Eu falo pra todo mundo que os melhores tão aqui».
Depois do show, já com o horário 'tourado, só restou tempo e emoção para a grande final.
LC e Nissim fizeram uma batalha digna de dois companheiros.
Jogo limpo, de alto nível e precisão técnica.
Em o final das contas Nissim levou a melhor, finalizando suas rimas rápidas sempre com uma conclusão inteligente. ("
Não quero mão para o alto, eu quero é cabeça erguida ") Levantou a platéia e faturou a primeira etapa de 2008.
Além dos pontos na tabela, da grana que a platéia depositou no boné e a base produzida por o MR.
Break. Nissin ainda levou para a casa duas camisas, oferecidas por a TUJAVIU e Cachaça Crew.
Que belo presente de aniversário, hein meu amigo?
Final:
LC X Nissim
Tabela de pontuação:
Nissim:
15 pontos
LC: 7 pontos
Malone: 3 pontos
Fael: 3 pontos
Airá: 1 ponto
ODD: 1 ponto
Panão: 1 ponto
Feijão: 1 ponto
YCE: 1 ponto
Algumas das palavras 'critas no quadro:
Dengue, mosca, favela, saúde pública, de volta, PAC, epidemia, rimas e tintas, prostituição infantil, FARC, coletivo, ano do rato, Zagalo, treta, laudo, BOPE, genérico, low rider, panela, verdadeiro, Nigéria, profissão, verdadeiro, solidão, vai vendo.
Matéria 'crita ao som de:
Pharoahe Monch (Internal Affairs)
Mundo Livre S / A (Carnaval na Obra)
Número de frases: 97
Moreira da Silva (O último dos Mohycanos) Muito se sabe que o Trem do Pantanal sempre foi um marco de muita importância para a memória e 'tórias do «povo» pantaneiro.
A saudade do Trem do Pantanal bate forte nas lembranças de algumas pessoas que, na década de 60, se tornava quase incontida.
Viajantes assíduos daquele trem sacolejando os nossos sonhos, fugindo de uma paixão mal resolvida ou por o simples fato de viajar, vem na lembrança do famoso e suculento bife a cavalo e da cerveja quente, servida no restaurante freqüentado por gringos, mochileiros e solitários.
De os amores e desencontros nas cabines mal ventiladas.
Quem não viajou no Trem do Pantanal fazendo turismo, buscando novos caminhos rumo aos Andes, ou simplesmente curtindo o romantismo de uma viajem com direito a céu 'trelado, não pode imaginar como era o burburinho nas 'tações superlotadas, gente de todo lugar.
A presença do bugre pantaneiro, de pé no chão vendendo chipa, o peixe frito e o caju ao viajante debruçado na janela.
Ou o cheiro da relva molhada de orvalho, de manhã, quando 'tava atravessando o rio Paraguai.
São 'sas as lembranças de quem fazia as viagens do trem de antigamente.
Resgatando toda uma história e não podendo abandonar o turismo da região, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul, lançou um projeto que é considerado um empreendimento 'tratégico para a economia do Estado e um elemento impulsionador de uma política social junto às comunidades da região.
O Governo Federal disponibilizou cerca de R$ 100 milhões para a recuperação da ferrovia, incluindo locomotivas, no trecho entre Corumbá e Bauru.
O Secretário de Infra-Estrutura e Habitação, Carlos Augusto Longo Pereira, em reunião, disse que, para que o Trem do Pantanal volte a transportar passageiros só falta reformar a 'tação.
«É uma exigência da Agência Nacional de Transportes Terrestres que as 'tações ao longo dos percursos 'tejam em funcionamento, e que todas as passagens de nível 'tejam sinalizadas», explicou.
A reforma da 'tação, que foi construída em 1922, vai custar R$ 96 mil e deve começar em dez dias.
A conclusão 'tá prevista para o início de abril, quando deve ser inaugurado o Trem do Pantanal com a presença do Presidente Lula.
O Trem do Pantanal irá atender a demanda de turismo entre Campo Grande e Corumbá, numa extensão de 459 km, utilizando a malha da Ferrovia Novoeste, parceira do projeto do governo.
A princípio, o trem passará por quinze 'tações ferroviárias, e fará um trajeto da cidade de Corumbá a Porto Esperança.
Haverá 'paço para 192 passageiros, divididos em cinco vagões, e o 'perado é que, em cada 'tação, por onde o trem percorrer, o turista encontre apresentações e exposições de cunho regional, mostrando um pouco da cultura e dos produtos pantaneiros, como danças típicas, artesanatos, comidas entre outros.
Número de frases: 17
Enquanto 'peramos, apenas ouvindo a canção criada por Paulo Simões e Geraldo Rocca, o Trem do Pantanal fica só na memória de uns e na ansiedade dos «novos» poderem um dia deleitar-se da viagem do famoso e 'timado Trem.
A Rua Chile, no antigo bairro da Ribeira, possui, dentro da geografia natalense, nuances que às vezes passam despercebidos por os seus freqüentadores.
Pois longe de ser, apenas, o logradouro de um simples conjunto de casas e prédios antigos, ela é, antes de tudo, a concentração harmônica de muitas sensações.
Diante do seu calçamento de paralelepípedos já muitos gastos e ainda marcados com a saudosa linha do bonde, pode-se conhecer um pouco mais da história potiguar.
Foi ali, por exemplo, que o Rio Grande do Norte soube, oficialmente, da proclamação da República em 1889.
«Homem público, dando provas de altas qualidades políticas e muito prudente, de grande tolerância, mas firme e enérgico, ponderado e seguro», como afirmou o grande historiador brasileiro Rocha Pombo, o então governado Pedro Velho repercutiu a boa nova de uma das sacadas do Palácio do Governo.
Em outra ocasião, o palácio serviu de guarida para o Conde D ´ Eau.
De passagem por a cidade, o, consorte da princesa Isabel, se hospedou na antiga sede do executivo 'tadual.
Considerada por muito tempo como a edificação mais alta e imponente da cidade, anos mais tarde, o palácio da Rua Chile passaria a ser o endereço do Wander Bar, uma boate muito freqüentada por os oficiais americanos durante a Segunda Guerra Mundial.
Atualmente, no velho palácio /boate/sede de governo, funciona uma 'cola de dança.
O Largo da Rua Chile
Por causa da proximidade com o Porto Naval, o primeiro cais da cidade, a outrora Rua da Alfândega e do Comércio era uma das principais vias de Natal no início do século XIX.
A partir de 1850, foram erguidos prédios de pedra e cal, na sua maioria armazéns, destinados ao recebimento de algodão, açúcar e peixe seco.
Localizada dentro da Zona de Preservação Histórica da Cidade, mesmo assim, quem caminha por a Rua Chile percebe duas realidades.
Em o início da rua, muitos, dos antigos prédios 'tão sendo vencidos por o tempo.
As fachadas, antes coloridas, deram lugar ao limo e á falta de zelo.
Felizmente, ao findar a travessia por a via, a Rua Chile se reinventa.
Adiante, a pequena alameda vira cenário de acontecimentos culturais e muita efervescência.
Novas cores, novos ares, novas perspectivas.
O Largo da Rua Chile, como é conhecido o local, dá abrigo á casas noturnas, bares e, ainda é palco de eventos como o Ene -- Encontro Natalense de Escritores e, antigo endereço de um dos maiores festivais de música independente do país, o Mada -- Música, alimento da alma.
Homenagens
Em meados de 2002, a Rua Chile foi rebatizada.
Pelo menos parte de ela.
O Largo da Rua Chile passou a ser Largo Boêmio Dr. José Alexandre Odilon Garcia, em homenagem ao jornalista, desportista, 'critor e, sobretudo, boêmio Zé Alexandre.
Nascido em 5 de maio de 1925, Zé Alexandre 'crevia nas décadas de 40, 50 e 60, crônicas boêmias sobre a velha Ribeira, bairro que abriga a Rua Chile.
Nada mais justo ...
Número de frases: 26
Ainda há 'perança para a cidade.
Foi isso que percebi logo na madrugada de sábado (26), quando tive de circular por as ruas de São Paulo e vi dezenas de pessoas, montes de famílias andando sem competição.
Em a manhã de domingo (26), enquanto caminhava do meu apartamento, na Rua da Mooca, até o Centro, o cenário era idêntico.
Uma bandeira do Flamengo pendurada na janela de um prédio decadente da Rua Carlos Garcia fez-me lembrar que também era dia de Flamengo x Botafogo, primeira partida da final do Campeonato Carioca.
Uma quadra depois, outra bandeira, agora do Palmeiras, que o vendedor ambulante negociava no semáforo, também dizia que seria o penúltimo passo na caminhada do verde rumo ao fim da fila, contra o time da Ponte Preta, no primeiro jogo da final do Paulistão.
Meu destino era a Rua Canteira, na entrada do Mercado Municipal de São Paulo, famoso por os generosos sanduíches de mortadela.
De 'sa vez, porém, não fui para comer, até porque, 'tava quase sem um puto no bolso.
Ao menos até tatear a bermuda jeans preta e encontrar uma nota de R$ 5, perdida, que usei para comprar água e voltar para casa de metrô.
Parei, então, em frente ao palco «Mercado Caipira», parte da Virada Cultural que começou às 18h do sábado e 'tendeu-se até às seis da tarde do domingo.
Diante de um fundo preto, João Mulato e João Carvalho lembraram-mo senhor Sílvio Corrêa de Carvalho, meu pai, cantando junto, com os olhos marejados, as músicas dos grupos que apresentam-se no Viola Minha Viola, programa de TV de Inezita Barroso.
Histórias de praças, bares, boiadas, opressão, solidão, amores.
Acima de tudo, verdadeiros tratados de honestidade.
Vestido com terno e calça preta e camisa branca, o bigodudo Mulato, à esquerda, conforme reza a tradição -- o primeiro nome da dupla fica sempre à esquerda -- empunhava uma viola caipira e usava chapéu de boiadeiro.
à direita, Carvalho, o'moderno ', vestia calça jeans e camiseta pretas e empunhava um violão de seis cordas.
Nada mais, apenas dois instrumentos e duas vozes.
A platéia, ao contrário do que 'perava, não era formada apenas por velhinhos, minoria diante dos jovens e quarentões casais munidos de celulares e máquinas fotográficas digitais.
O público parecia perplexo, hipnotizado diante de modas como a conhecida, «Chico Mineiro», nome da canção mais famosa de Tonico e Tinoco.
Quer dizer, famosa ao menos para mim que fui criado ao som de emissoras de rádio AM e locutores com Zé Bétio, do bordão, «joga água no gordo», e de vinhetas com sons de galinhas, vacas e outros animais.
Entre as cerca de 200 pessoas, uma chamou minha atenção.
De segunda a sexta, Nélson Filho, de 46 anos, é um engravatado advogado da Companhia Energética do Estado de São Paulo (Cesp).
A os finais de semana, um caipira que em 'se domingo vestia chapéu preto de caubói combinando com os cintos e as botas, e camisa branca de mangas cumpridas da mesma cor da calça.
Visual corajoso para o sol intenso e o céu azul paulistano daquela tarde.
Natural de Paraguaçu, cidade ao sul do 'tado de Minas Gerais, contou que já teve momentos de discoteca e funk (o de James Brown, não o carioca), mas «o contato com a música sertaneja remeteu-me à tradição, à raiz», falou.
«Houve um momento, há sete anos, que fui buscar mais verdade.
São Paulo 'tava meio cruel.
Durante cinco anos morei num sítio em Embu Guaçú e conheci pessoas humildes, que montavam muito bem, tem bastante coragem e me trataram muito bem, mesmo antes de saber da minha profissão», disse.
«Eram amansadores de cavalo, donos de loja muito humildes», complementou, enquanto eu reparava em dois anéis de ouro distribuídos nos dedos anular e mindinho.
Nascido e criado no bairro do Limão, zona oeste de São Paulo, onde mora até hoje, conta que a influência musical veio do pai, também mineiro, que dançava catira e era Bastião na Folia de Reis.
Casado, ele tem cinco filhos -- «como bom caipira e mineiro» -- emenda rápido quando me surpreendo com a quantidade de rebentos.
A preocupação, agora, é passar a ingenuidade, a beleza e a simplicidade para os herdeiros.
«Eles não tem costume de sentar, ler, ir atrás da cultura.
Nem é preciso ir tão longe, ele 'tá por perto», aponta em lamento tipicamente sertanejo.
Enquanto terminávamos de conversar, João Mulato e João Carvalho também encerravam o show, sob uma forte salva de palmas, que repetiu-se também com Jacó e Jacozito, Cacique e Pajé e Pena Branca, outros caipiras que acompanhei.
Mulato agradeceu.
«Parabéns à Virada Cultural por nos dar oportunidade de cantar para a gente sofrida e trabalhadora de São Paulo que merece 'se lazer».
Antes de deixar o lugar, resolvi tentar passar por a tenda que funcionava como camarim e abrigava Tinoco, responsável por apresentar algumas duplas.
Emocionado, pedi um autógrafo em nome do meu pai e empolguei-me em contar a historia do meu velho, dos tempos em que ele trabalhava na roça, de como é fã de música caipira de raiz.
Percebi que Tinoco exibia um sorriso meio amarelado, parecia não entender o que eu dizia.
Foi então que Nadir, 'cudeira e 'posa do ' homem ' há 50 anos, alertou-me que um dos preferidos de meu pai não ouvia bem do lado 'querdo.
Sem problema, mudei de ouvido e repeti tudo, do lado direito do sofá preto onde ele 'tava sentado.
A tarde do último domingo deixou-me uma certeza:
Número de frases: 41
ainda há 'perança para a cidade dos caipiras, tanto aqueles em cima do palco quanto para os milhares que acordariam cedo na manhã do dia seguinte.
Em o dia 27/11 o programa Tribunal de pequenas causas musicas, da MTV Brasil, discutiu o seguinte tema:
«o eletrônico foi a última inovação na música?"
Em o programa, que possui três VJs da casa, um como juiz e outros dois como advogados de defesa e acusação, teve três convidados (testemunhas), entre eles a jornalista Claudia Assef e Daniel Peixoto da banda Montage, que entendem do assunto para colocar suas opiniões.
Em o final o veredicto do público (júri popular) foi:
Não, a música eletrônica não foi à última inovação na música!
Quem votou?
Pessoas que simplesmente não gostam de e-music?
O que seria das grandes bandas de rock hoje em dia sem a música eletrônica?
O que chamamos de «novo rock» tem um pé eletrônico e o outro roqueiro.
É só 'cutar The Killers, The Rapture, Franz Ferdinand, Kasabian, Editors, Bloc Party, The Bravery e assim vai.
E o post-rock?
Pode até se dizer que é mais um sub-gênero da eletrônica, vide Radiohead.
Até bandas como Placebo utilizam certos elementos eletrônicos.
Se formos um pouco mais longe, sem chegar ao inicio da e-music nos anos 20 e citar mestres dos anos 60/70 como Bruce Haack e Kraftwerk, podemos ir até os anos 70 quando um novo gênero do rock nascia, o progressivo, e ali já se ouvia sons tirados de máquinas.
Depois veio a disco music, new wave, new romantic, synthpop, post-punk, hip-hop até o que conhecemos hoje como música de computadores.
A música eletrônica não é só música de pista e não é só DJ, pois se existe DJ é porque tem um artista / músico por de trás de 'sas produções prensadas nos discos.
Depois que o som eletrônico foi criado nenhuma outra inovação foi tão grande e nenhum outro conjunto de instrumentos e cabeças pensantes foi tão revolucionário na música.
Estamos chegando numa era que os elementos eletrônicos vão fazer parte de todos os ritmos musicais.
Número de frases: 19
As grandes novidades do jazz andam junto com a eletrônica, até a música erudita já 'tá de caso com os computadores, como no CD ao vivo «Blue Potential» do pioneiro do techno Jeff Mills.
Simplicidade, sensibilidade e dedicação.
Estas são as características que tornaram Evandro Teixeira um dos maiores ícones da fotografia brasileira.
Fotógrafo há mais de 45 anos, Evandro já expôs em diversos museus e capitais.
Começou sua carreira no Diário da Noite em 1958, mas o ápice se deu a partir de 63, quando foi trabalhar no Jornal do Brasil.
Tem três livros publicados:
Fotojornalismo, (1983), Canudos 100 Anos (1997) e O livro das águas (2002).
Em 'ta entrevista Evandro comenta sobre as conseqüências das novas tecnologias, a fotografia brasileira, a censura durante o golpe militar, seus novos projetos e deixa alguns comentários sobre sua última exposição intitulada «Instantâneos da realidade» realizada na Aliança Francesa, Salvador.
Lízia Sena:
Qual o propósito de 'ta exposição?
O que você pretende que a população enxergue durante 'te evento?
Evandro Teixeira:
A nossa função do ponto jornalístico é mostrar a realidade, o cotidiano no país.
Eu acho que em 'ta minha exposição tem um pouco de tudo.
Tem guerra, tem golpes militares.
Tem no Chile, tem no Brasil.
Tem Olimpíadas.
Eu vivo mostrando a realidade do país, a realidade daquilo que a gente vive no mundo.
A fotografia tem a função de denunciar.
Então eu acho que trabalho aí tem.
Você que vai fazer a leitura daquilo que você 'tá enxergando, daquilo que você 'tá vendo.
LS:
Qual a foto que mais te marcou?
Quais são os temas que você prefere relatar através de suas fotos?
ET:
Eu não tenho assim uma foto, tem situações diferenciadas.
Eu acho um momento difícil da minha carreira foi cumprir alguns eventos importantes.
Como falei o golpe militar no Chile, o massacre da Guiana Inglesa;
foi aquele pastor fanático, o Jean Jones, que envenenou em 1957, americano.
Várias olimpíadas.
Várias copas do mundo.
O próprio golpe militar no Brasil.
Eu acho que o momento mais dramático, o momento mais importante da minha cobertura foi à morte do poeta Pablo Neruda, no Chile.
Uma pessoa importante.
Um homem mundialmente reconhecido com prêmio Nobel.
Mas também eu acho que o que representa uma das historias mais importantes do Brasil foi à guerra de Canudos.
Eu fiquei lá quatro anos para fazer um livro e eu convivi com aquela gente vivendo da guerra e aquilo me emocionou muito, até hoje.
Fiquei na década de 90, lancei o livro em 97.
Mas eu acho que aquela história de Canudos, aquele povo me deixou realmente sensibilizado.
Todo ano eu volto lá.
Eu não deixo de voltar em toda festividade que é em outubro.
Agora mesmo em outubro, eu volto lá novamente, se Deus quiser.
LS:
Você já reencontrou alguns?
ET:
Todos eles.
Eu 'tou sempre reencontrando.
Antonio, Isabel, Dona Cotinha, que já morreu.
Gente que morreu com 115 anos, gente que morreu com 112 anos.
Essa gente eu conhecia todos, me dava bem com todos.
Era uma alegria reencontrá-los, sempre que ia a Canudos.
Ligo para saber como 'tão.
É claro que a maioria destes velhinhos já morreram.
Mas ainda tem os netos, filhos, etc..
É uma coisa que realmente me marcou muito, foi 'sa história, 'sa minha vivência em Canudos.
LS:
Alguma fotografia sua já foi censurada durante o decreto do Ai-5?
ET:
Em o golpe militar, principalmente ...
LS:
A da libélula?
ET:
A da libélula, da queda da moto, não sei se ta aqui, ta aqui?
LS:
Não.
ET:
Costa e Silva, da queda da moto.
Eu ia representar o Brasil na bienal de Paris e ela foi censurada.
Tanto eu como, eram 6 representantes na bienal jovem de Paris.
O pintor chegou a ser preso, Antônio Manuel, que retratava a violência nas ruas através das paginas do jornal FLAM.
Era feito com chumbo, papelão, ele pintava aquilo de vermelho, que representava sangue.
Quando a gente abriu uma amostra no Museu de Arte Moderna para imprensa, no dia seguinte iria para Paris, os militares chegaram lá desmontando a amostra.
Chamaram o diretor, dizendo:
«Olha aqui embaixo, 'sa amostra tem que ser desmontada, a gente 'tá com os meninos para ajudar», os meninos eram os soldados.
Então eu tive que ficar uma semana desaparecido.
Manuel chegou a ser preso.
Então em 'sa época a gente tinha 'te tipo de censura, como foi aquela da libélula, que você bem lembrou.
LS:
O que você acha da atual fotografia brasileira?
ET:
A fotografia brasileira é uma das mais importantes do mundo.
Nós temos uma fotografia maravilhosa, importante, com uma qualidade excepcional.
O que acontece no Brasil, como tudo, é 'sa falta de intercâmbio, 'sa decadência em que vivemos, a rede de ensino.
Mas a fotografia do Brasil em si é excepcional.
Eu exponho muito fora do Brasil.
Já expus nas maiores capitais do mundo e em bienais.
É de maior importância.
O que nos falta, por exemplo, agora não temos papel pra fazer cópia, não temos, na verdade nós somos pobres, não temos incentivos pra comprar equipamento.
Não temos nada em 'te sentido.
A gente 'tá sempre buscando, tentando conseguir coisas lá fora.
Falta galeria pra mostrar o trabalho.
Que tem qualidade, isso tem e muita.
Uma das mais importantes, uma das mais belas do mundo.
LS:
O que seria um fotógrafo exemplar?
ET:
Como tudo, como médico, como advogado (risos).
Eu não sei, acho que você tem que ter um bom olhar, acima de tudo 'tudar, acompanhar a evolução, os acontecimentos, mas, acima de tudo que você 'tude.
O fotógrafo tem que ter 'te olhar 'pecial.
Nós temos olhares 'peciais.
LS:
O que você acha do fotojornalismo brasileiro hoje?
Sensacionalista? Falta sensibilidade?
ET:
Não, eu acho que o jornalista brasileiro é muito inteligente.
O que nos falta é infra-estrutura.
Tanto nós, como quem 'creve.
O que falta é qualidade, incentivo, que falta também nas faculdades.
Sensibilidade nós temos, inteligência nós temos, só o que falta é 'se tipo de coisa que você sabe tanto como eu.
LS:
O que acha das novas tecnologias?
Quais são as vantagens e desvantagens?
ET:
Maravilha. Acabei de falar isso para a televisão.
Eu adorei.
Livrou-nos de uma série de coisas.
Era como carregar um jumento.
Tinha que ir para banheiro de hotel para revelar filme, e ampliar.
Hoje você transmite uma foto agora na Grécia, por exemplo.
No meio do mar, uma coisa que eu levava 8h para transmitir uma foto, ir, vir, elaborar.
Hoje, no meio do mar, 5 min. depois já 'tou mandando uma foto.
A qualidade é excepcional.
Claro que eu continuo com minha velha analógica, minha Laica, com meus filmes preto e branco.
Dependendo do projeto, ou do trabalho que eu venha fazer.
Em o jornalismo moderno, acho que a tecnologia deve ser respeitada.
Ela veio pra ficar e nos ajudar.
LS:
Quantas pessoas já foram identificadas na passeata dos 100 mil?
ET:
Já tem 60 fotografados.
A idéia são 68 pessoas, por isso que o projeto é chamado 68 destinos, por o ano de 68.
Já tem 60, faltam apenas 8.
Agora 'tou fazendo uma triagem, pra não ficar todo mundo de uma 'cola de comunicação, direito, de uma universidade, agora 'tou mesclando.
O projeto 'tá quase pronto.
Não sei se vai ficar pronto para 'te ano.
Tem deputados, ministros, jornalistas, designers, cineastas.
Tem gente que não se conhecia na época e hoje são casados, marido e mulher.
A Elaine, minha designer, faz todos meus livros, o marido de ela é Hernani, arquiteto.
Em a época não se conheciam, casaram.
Encontraram-se através de 'ta foto.
Tem o jornalista Augusto Nunes, deputado conhecido do Rio.
Tem várias pessoas que hoje 'tão em 'ta foto e eu 'tou retratando o que eles eram em 68, o que pensavam e o que pensam hoje.
LS:
Algum projeto novo?
ET:
Estou com um livro pronto na editora chamado feira de São Cristóvão, feira típica do Rio de Janeiro, feira do Nordeste, com produtos do nordeste, feira de comida, tem tudo.
E o projeto dos 68 destinos.
LS:
Deixe um conselho para futuros fotojornalistas.
ET:
Insista, não desista nunca, acredite em você.
Qualquer que seja a profissão.
Principalmente a nossa que o campo 'tá minado, o campo 'tá difícil, a situação 'tá complicada e o mercado cada vez mais 'casso.
Acima de tudo você tem que acreditar em você, saber que veio pra vencer.
E não pode achar que 'tá difícil, não vai dar certo.
Nunca tive uma cobertura no mundo, qualquer parte do mundo que eu disse que:
não vai dar.
Pra mim sempre tinha que dar, sempre dava e sempre deu.
Número de frases: 158
«A mesma praça, o mesmo banco
As mesmas flores, o mesmo jardim
Tudo é igual, mas 'tou triste
Porque não tenho você perto de mim ..." (
A Praça -- Carlos Imperial)
Por Anna Jailma Santos de Assis
A Praça Antônio Quintino de Araújo é o «palco iluminado» da vida de todos os filhos de São João do Sabugi, no interior do Rio Grande do Norte.
Aquele palco iluminado integra a história social e cultural da cidade e de seus munícipes.
Sua construção iniciou em 1952 e foi concluída em 1953, totalizando o valor de sessenta e cinco mil contos, e quinhentos mil réis para sua concretização.
Seu projeto arquitetônico, desde sua origem, incluiu os tradicionais coretos, que tinham a finalidade de apresentar concertos musicais.
Vale destacar que no mesmo local de seu atual coreto menor, já existia um coreto, chamado na época de «palanque», onde a juventude se reunia para conversar, cantar, dançar e dizer charadas, ou» flertar», como na época se referiam ao ato de paquerar ou enamorar-se.
A construção ocorreu na administração do prefeito Antônio Quintino de Araújo, conhecido como Antônio Garcia, e o responsável por o projeto arquitetônico foi o caicoense Valeriano de Morais.
O material da construção foi transportado em tropa de burros;
inclusive, a água necessária para o serviço, foi transportada por uma tropa de propriedade do Sr. Severino Euzébio.
Sob orientação do mestre de obras, caicoense, Manoel Ângelo da Silva, foram pedreiros da construção:
Cândido Tito, João Dionísio, Jonas da Silva (Jonas de Atanásio), Braz Antônio de Morais (Braz Caboclo) e Expedito Santos, conhecido como «Pedaço», filho do mestre de obras.
Com a conclusão de sua edificação, a praça foi inaugurada com o nome de Praça da Liberdade e posteriormente, na década de 1970, por ocasião da morte do Monsenhor Walfredo Gurgel, passou a chamar-se Praça Monsenhor Walfredo Gurgel.
Somente após a morte do Sr. Antônio Quintino de Araújo (Antônio Garcia), a praça obteve seu nome, em sua homenagem, por ele ter sido o prefeito responsável por a sua construção.
Em a Praça Antônio Quintino de Araújo, 'tão perpetuadas as festas do glorioso São João Batista;
as históricas barracas juninas, movidas por a disputa entre dois grupos concorrentes;
os pavilhões de São João Batista;
os desfiles das jovens que marcaram a história da beleza sabugiense;
os bailes de outrora;
as quadrilhas e os forrós pé-de-serra, ao som do saudoso fole.
As mudanças do São João em São João, têm como palco a mesma praça.
Os casais de namorados, de ontem e de hoje, têm na memória «a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim», conforme a música de Carlos Imperial.
Em os recantos da Praça Antônio Quintino de Araújo 'tão impregnados o som do fole das quadrilhas, os acordes da Filarmônica Honório Maciel, o frevo das orquestras, a nostalgia das serestas, a realização de missas e leilões festivos, a voz forte dos discursos que marcaram a história política do município, as apresentações de artistas da terra e de renomados artistas do país, como o grande músico nordestino, Sivuca.
Compondo sua história 'tá a Difusora, que consistia em serviço de som, onde músicas eram transmitidas por «alto-falante», sendo antes em prédio do Sr. Basílio Gorgônio, onde funcionava a Prefeitura Municipal, no largo da futura praça, e depois, no eterno Bar da Praça, que compõe seu projeto arquitetônico.
Em a Difusora, passaram como locutores Pedro de Oliveira (Pedro Quinzinho), Gorgônio Bulhões (de Basílio Gorgônio), Ozilda Cavalcanti, Nobaldo Araújo (de Manoel Preá) e foram redatoras das dedicatórias, Ermita Lucena, Lourdes Lucena, Maria do Desterro Figueiredo (de Hugolino) e Maria Alcy Ribeiro (Mina de Manoel Felipe);
entre outros, que por lá passaram.
Já em 1977, Antônio Galvão Júnior assumia interinamente a locução da Difusora, depois passando para José Marconi de Medeiros.
Em 'se período, a Difusora funcionava durante o dia e na programação era incluso a resenha 'portiva.
As festas eram realizadas no Mercado Público e os soirées (suarês) e bingos eram animados por a difusora, que era levada do Bar da Praça para o Mercado.
Em 'ta época também trabalharam na Difusora da Praça, Janúncio (de João Miguel) e João Rosemberg (de Luiz Pedro), que provavelmente foi o último locutor e sonoplasta.
Era por a Difusora, através das músicas dedicadas, que muitos namoros começavam e outros terminavam.
A vida amorosa dos jovens tinha a trilha sonora divulgada na Difusora;
em dobrados, valsas, choros, música instrumental de Saraiva e em músicas de Altemar Dutra, Luiz Gonzaga, Dalva de Oliveira, Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Ademilde Fonseca, Erivelto Martins e tantos outros, que marcam a memória dos jovens de ontem;
hoje, na terceira-idade.
Era na praça, por a Difusora, que eram registrados encontros, desencontros e reencontros da juventude da época.
Conforme o passar dos anos, algumas alterações foram realizadas, como mudança no piso, no revestimento dos coretos e canteiros;
a inclusão de cobertura, no 'paço utilizado para bailes, e a construção de banheiros sociais.
É na Praça Antônio Quintino de Araújo, que permanece até nossos dias, o nosso carnaval, o São João em São João e o clima de confraternização e de alegria, perpetuados por o povo da terra que a reconhece como maior 'paço de lazer e de eventos sócio-culturais da cidade, por a música que ainda vem do Bar da Praça, embora não mais por a extinta Difusora, e principalmente, por a grandeza da história que a circunda.
Número de frases: 42
Desde os anos 1970, não se percebe com tanta força o movimento de migração de brasileiros para o exterior.
A tônica desses fluxos migratórios contemporâneos é completamentente diferente daquela de 30 e tantos anos atrás, quando a ditadura exilou alguns dos mais importantes artistas e pensadores brasileiros, cuja produção no exterior fazia ouvir os ecos do que se pensava aqui dentro.
Hoje, os brasileiros que vivem nos Estados Unidos, no Japão, no Paraguai, no Canadá, na Inglaterra e em muitos outros países de todos os continentes, continuam fazendo ouvir suas vozes.
A arte é um dos veículos e o tema, muitas vezes, é a própria realidade do imigrante, como ocorre com o cineasta Daniel Florêncio, que lançou no ano passado o incômodo documentário A Brazilian Immigrant que mostra histórias de brasileiros em passagem por uma das alfândegas mais fechadas do continente europeu, a do aeroporto de Healthrow, porta de entrada para Londres.
A capital da Inglaterra talvez seja a cidade mais desejada por os brasileiros que decidem trocar os atropelos da vida patropi por alguma possibilidade, mínima que seja, de ter emprego, 'tudo ou experiência de vida.
Em a entrevista abaixo, Florêncio conta como chegou à Europa por a porta da frente e, mesmo assim, não deixou de se preocupar com os outros que não tiveram o mesmo aparato que ele.
Ele fala da construção do seu filme, dos seus planos e projetos e do desejo de voltar para o Brasil.
Roberto Maxwell -- Como surgiu a oportunidade de fazer um filme tão incomodo como o A Brazilian Immigrant?
Por o que eu entendi, você teve o apoio da Universidade de Westmington.
Voce é aluno?
Que curso faz?
Houve algum questionamento sobre o tema do filme dentro do curso?
Daniel Florêncio -- O filme foi resultado do mestrado que conclui em 2005 em Art and Media Practice na University of Westminster, em Londres.
Meu mestrado foi financiado por o Programa Alban.
Não houve questionamentos sobre o tema mas, sim, questionamentos sobre como abordar o tema, como tratar o tema de forma a fazer um bom documentário.
RM -- O teu documentário pode ser dividido em três partes:
a sua narração, as entrevistas e a encenação, com animação.
Você poderia contar como chegou a 'sa constituição do filme?
DF -- Foi um processo natural.
Não foi planejado desde o inicio que ele teria 'sa 'trutura.
à medida que você vai conseguindo entrevistas, definindo melhor o seu foco e a sua abordagem, você também começa a achar soluções para que sua narrativa fica mais interessante ...
RM -- Conte como foi a entrevista (fundamental) com o funcionário da alfândega.
Como foram as negociações?
Em que circustâncias ele se permitiu ser filmado?
Houve restrições, além do «uso» da imagem e da voz?
Quais?
DF -- Foi bem tranquilo, na verdade, entrevistá-lo.
Cheguei até ele porque ele é irmão de um amigo.
Quando telefonei pra ele e contei sobre o documentário, ele se dispôs a falar prontamente.
Foi fundamental eu ter tido acesso a 'se funcionário, já que ele confirma o que os brasileiros que foram retidos 'tão dizendo.
E ele era um cara muito bacana.
Durante toda a entrevista se mostrava indignado com o que se passava na imigração, não só com imigrantes brasileiros mas, em geral, com qualquer viajante que tinha como origem um país mais pobre.
RM -- Quando surgiu a necessidade de se colocar em primeira pessoa no documentário?
O caminho tem sido trilhado com sucesso por outros documentaristas como o Michael Moore e o Morgan Spurlock, por um lado ou o Jonathan Caouette, por o do auto-documentário.
Algum de eles te serviu de inspiração?
Ou outro?
DF -- Foi natural também eu me colocar no documentário ...
A idéia do documentário surgiu por eu chegar aqui e pela primeira vez na vida me sentir como um alien, vindo de outra cultura, outra realidade, num país onde havia, e ainda há, um debate imenso sobre imigração e imigrantes ...
É uma coisa que te faz pensar «o que que há de errado com 'sa gente?» ...
A inspiração que tive de Michael Moore e Spurlock não foi a de me colocar no documentário mas, sim, de comunicar de uma forma de fácil assimilação.
RM -- Eu 'tive no Reino Unido há cerca de 4 anos e tive o mesmo problema que as pessoas relataram no filme.
Tive que provar que eu 'tava falando a verdade e tive muita sorte de não ter sido maltratado e de ter com mim documentos que, apesar de 'tarem por acaso na carteira, provaram que eu era professor com emprego 'tável e salário razoável.
Apesar disso fiquei quase cinco horas na imigração.
Como foi a sua passagem por a imigração de Healthrow?
Foi tranqüila, na verdade, apesar da apreensão.
O fato de eu ter uma bolsa de 'tudos da União Européia facilitou as coisas.
RM -- Onde o filme têm sido exibido e que debates você tem acompanhado com o filme?
DF -- O filme tem rodado festivais.
Tem sido bacana.
Ele tem sido convidado pra alguns festivais e mostras bacanas.
Recebi um convite recentemente pra ele ser exibido no Rooftop Film Festival em NY.
Ele acabou de ser exibido no Raindance Film Festival aqui em Londres, que é o mais importante festival de cinema independente da Europa.
Eu participei muito e acompanhei debates logo quando do lançamento do filme em abril de 2005.
Agora a intenção mesmo é fazer o filme rodar e mostrar para as pessoas 'sa perspectiva, a minha perspectiva, sobre imigração.
Não quero que ninguém concorde com mim, apenas que me 'cutem e pensem a respeito.
RM -- Sobre a sua carreira como cineasta, o que voce produziu antes do A Brazilian Immigrant e o que fez depois ou o que 'tá em seus planos?
DF -- A Brazilian Immigrant foi meu primeiro filme «de verdade».
Antes trabalhava com filmes publicitários, fazia direção de arte, edição e assistência de direção.
Dirigi também alguns videoclipes pra bandas underground (o que ainda tenho feito aqui em Londres) e alguns comerciais para a TV.
Agora 'tou terminando de editar 2 temporadas da série de desenho animado The Secret Show que 'treou na BBC há 2 meses.
E acabo de assinar um contrato com a Current TV para produzir 9 curtas factuais para 'tréia de eles aqui no Reino Unido.
Current TV é uma TV nova super bacana que existe nos EUA há 1 ano e que 'tá chegando ao Reino Unido na primavera de 2007.
Eles 'tão apostando forte no conteúdo gerado por a audiência.
Basicamente, você produz um documentariozinho, manda ele para o site da Current TV e se ele for bom o suficiente vai para o ar e você ainda é pago por isso.
O fundador da TV é o ex-vice-presidente americano Al Gore.
Cara bacana ...
RM -- Você usou a internet para distribuir seu filme, coisa que poucos curtas-metragistas brasileiros vêm fazendo (Basta vasculhar o YouTube e comparar com a lista das produções exibidas em festivais para ver que, ao menos os grupos que têm seus filmes nos festivais vêm negligenciando a internet.)
De onde surgiu a idéia de usar a internet como veículo?
Você acha que é viável usar a internet como veículo de distribuição de filmes e obter lucro?
Em a sua opinião, para o curta-metragista, que tipo de negócio é a internet?
DF -- A internet 'tá passando por uma revolução.
Não é simplesmente uma tendência ou coisa passageira.
A forma como o conteúdo audiovisual é produzido e distribuído 'tá mudando e se tornando mais democrática.
A palavra do momento é User-generated Content e isso 'tá sendo transportado para a TV, vide a Current TV e outras iniciativas que 'tão surgindo e vão começar a surgir.
Eu seria bobo e 'taria perdendo a onda se não disponibilizasse meu filme on line.
Quando se faz um filme, o objetivo é que ele seja visto por o maior número de pessoas possível.
Em festivais, imagino, meu filme talvez tenha sido visto por o mesmo número, se não por menos pessoas que o assistiram no YouTube.
O curta-metragem não é um negócio.
Se faz para experimentar técnica, para praticar o cinema, se faz por gosto e não tendo como objetivo o lucro.
Talvez, num futuro próximo, canais de distribuição como o YouTube passem a remunerar o produtor por o que 'tá sendo exibido ali.
RM -- Você fala no filme sobre os imigrantes que vão para o Reino Unido por diversas razões.
Qual a razão que te levou para fora do Brasil?
Você pretende voltar?
Qual o teu sentimento como imigrante em relação ao pais que te «recebeu» e ao Brasil?
DF -- Vim para o Reino Unido apenas para 'tudar e com a intenção de retornar após o término do meu mestrado.
Porém surgiram oportunidades excelentes de trabalho que não pude recusar.
Sim, pretendo voltar, não sei quando, mas acho que o Brasil é um pais em construção.
Existe há 500 anos apenas.
Tudo 'tá sendo construído e 'tabelecido, suas instituições, seu sentimento de nacionalidade, tudo ...
Enquanto a Inglaterra já é um país com suas instituições criadas há séculos.
Eu seria de muito mais utilidade num país como o Brasil do que aqui.
O Brasil e o povo brasileiro têm qualidades inigualáveis ...
Assim como os britânicos, os americanos, japoneses, franceses ou senegaleses ...
Mas todos os povos têm também defeitos inigualáveis.
O importante ao viajar é tentar aprender e absorver o que você julga que vale a pena e o que te faz crescer.
Assista ao filme em www.brazilianimmigrant.com
Sugestão do leitor Thiago Camelo:
Link para matéria sobre o assunto e sobre o filme no Jornal do SBT
Número de frases: 98
http://www.youtube.com/watch? v = PfBWI3 dc96c Quem assistiu ao filme Narradores De JAVÉ, da cineasta Eliane Caffé, vai compreender um pouco sobre a insistência do povo bibarrense em abrir 'paços, por pequenos que sejam fisicamente, para a narração / tradução de sua história.
Em o filme, os moradores do Vale de Javé decidem se valer da tradição 'crita para registro da memória oral, já que «o governo» só entende como herança cultural os registros «formais».
Coisas de uma mentalidade preconceituosa e elitizada, onde tradição por a oralidade não pode ser possível por ser bárbara demais.
Os analfabetos do Vale de Javé lançam mão do seu único membro alfabetizado para «'crever» a própria história e, de 'sa forma, resistir ao aniquilamento cultural, garantir a existência no futuro e na modernidade.
Parece ser uma maneira possível de traduzir-se para os outros do próprio tempo e para os que 'tão por vir nas próximas gerações.
Em o Vale do Javé, a história foi 'sa e era ficção.
Em Duas Barras, interior fluminense, guardando as devidas proporções, a história tem sido 'sa e é «vida real».
Apesar de ser uma cidade vizinha e relativamente próxima ao meu município, visitei Duas Barras poucas vezes.
Acabo por me assemelhar ao carioca da gema que nunca foi ao Cristo ou andou no bondinho.
Voltei há pouco tempo lá, cismado com 'sa história de tantos mini museus numa cidade tão pequena.
Duas Barras é uma cidade com a metade de habitantes que Cordeiro possui e, só pra se ter idéia do tamanho de minha cisma, aqui não tem nenhum «museu» oficialmente reconhecido.
Pra lá de 'tranho.
Ou lá se tem feito de mais em busca de identidades do lugar ou aqui se tem realizado de menos e não é de agora ...
Em a minha cidade, até onde tenho conhecimento, não há registros de organização semelhante.
É claro que há um ou outro cordeirense que tenta, na sua sozinhez, tal batalha e duas ou três pessoas bem intencionadas nos órgãos públicos que se encorajam a narrar a nossa história.
Em Cantagalo, terras euclidianas, o fato se repete e, proporcionalmente, até em Nova Friburgo, uma cidade de porte médio e maiores recursos, não há tanto interesse por o registro histórico e resistência de um povo ao tempo que segue inexoravelmente adiante derrubando prédios centenários, cobrindo de bolor documentos e fotografias, entregando as traças jornais, relatos e ...
história.
Sempre me intrigou a importância que Duas Barras dá ao «olhar para trás».
Parece um apego inútil aos tempos prósperos vividos antes do «crash» da bolsa de valores de Nova York, em 1929, e da ruína dos barões do café que criaram um império nas terras norte -- fluminenses.
Só conclusões à primeira vista, precipitadas e superficiais.
Mas, então, o que leva um povoado incrustado entre as montanhas serranas, com 10.310 habitantes, ter cinco pequenos museus, um instituto e grande parte do casario colonial tombado por o patrimônio histórico municipal?
O que faz um povo, que assiste ao próprio êxodo rural e cultural ocorrendo na sua cidade e na circunvizinhança, ter um órgão para tombar um patrimônio constituído de casarios característicos da época áurea do café?
Em cidades vizinhas a Duas Barras, muitos patrimônios já foram tombados literalmente e viraram poeira para ceder lugar a prédios de gosto duvidoso e «modernosos».
O que faz Duas Barras ser tão diferente?
As respostas podem ser encontradas no filme Os Narradores De JAVÉ ou, 'se outro jeito certamente é o ideal, visitando 'sa cidadezinha que mais parece uma cidade cenográfica prontinha para 'cutar um diretor gritar:
Gravando!
Os bibarrenses saltam à frente dos seus vizinhos mais «'pertos» e «antenados» ao novo século.
A 'perteza de eles é bem outra.
Basta passear por suas ruas.
Conversar com sua gente e visitar 'ses 'paços de narração e tradução do povo que vive nas barras do Rio Negro e do Rio Resende.
Em o porão da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, uma construção datada de 1850, há o Mini Museu de Arte Sacra com peças que remontam ao século XVIII e, provavelmente, ao domínio da Igreja sobre 'sas terras em tempos remotos.
Em o Mini museu de Arte Sacra, tudo é sensorial.
Visitá-lo é quase entrar em oração.
O cheiro, os santos, os livros e as 'truturas que suportam toda a igreja 'tão lá.
Espaço pequeno, iluminação respeitosa e infinitas propostas de leituras feitas a todas as percepções humanas.
Os outros 'paços de narração bibarrense encontram-se lado a lado na Casa de Cultura, que é também a sede da secretaria de cultura e turismo.
De uma sala a outra tudo muda e, ao mesmo tempo, como se fosse guiado por o fio de Ariadne, tudo se permeia e se complementa.
De aí, é que o visitante passa por o mini museu do bibarrense mais ilustre até hoje, Martinho da Vila.
A poucos passos, 'tá no Mini Museu de Arte Popular:
sala dos anônimos artistas do barro, tecidos, sucatas e madeiras.
De o ilustre ao anônimo.
Narração de causar agradável 'panto por a polaridade criada.
O Mini Museu do Folclore confirma o carinho de Duas Barras por as tradicionais folias de Reis, seus rústicos instrumentos musicais, suas músicas e danças ritualistas.
Tudo nascido do mais profundo desejo popular de fazer expressar (se).
O Mini Museu da Sociedade Musical 08 de Dezembro cria outro contraponto interessante nas salas culturais.
Instrumentos musicais refinados, partituras, objetos e uniformes de épocas ...
senão outros rituais ...
Pois é assim mesmo Duas Barras.
Por a vontade do povo, e só por a força de ele, é que o poder público tem se empenhado na preservação da memória da cidade.
Como os narradores do Vale de Javé, os cidadãos de 'sa pequena cidade resistem às investidas nem sempre sutis que o progresso faz em nome da prosperidade e do crescimento.
Resistência e coragem.
O mesmo tempo que ajuda o homem a 'palhar 'quecimentos, colabora com Duas Barras para recolher, organizar e abrir 'paços para que as histórias não se percam tão facilmente.
Essa audácia dos 10.310 habitantes num país onde todos insistem em repetir a exaustão ser desmemoriado, por o futuro, já 'tá perdoada, traduzida e narrada.
Mini Museus:
Museu Martinho da Vila
Museu do Folclore Museu da Sociedade Musical 8 de Dezembro
Museu de Arte Popular Praça
Horário de funcionamento:
2ª a 6ª das 8h às 17h30 min
Museu de Arte Sacra Av..
Getúlio Vargas -- Centro
Horário de funcionamento:
Número de frases: 62
2ª a 6ª das 8h às 17h30 min
Mariana Eva, ou carinhosamente, Eva, é uma argentina super envolvida com a música, isto é, ela é (junto com o Superputo), Madame Mim, banda que acabou de finalizar seu segundo CD, que, além de mesclar electro-punk com rock latino, faz de suas letras um minúsculo mosaico de sentimentos e prazeres:
ora sexuais, ora mórbidos.
Não para por aí ...
Em o Brasil, Eva foi componente de uma banda punk de garotas que se tornou lenda no underground carioca dos anos 90: o Pólux.
Ela participou dos discos Brazil, The Women's Voice lançado em Londres, Lucky Strike Lab Music, Djavan na Pista e em 2005 lançou seu primeiro trabalho solo Eu Mim Meu por a gravadora Lua Music.
Esse CD, de porte experimental, descrito por a crítica como «pop pervertido» teve participação de diversos músicos e produtores de peso como Rodrigo Campello que também produziu o CD Em a Paz da Fernanda Abreu.
Jr.. Tostoi que fez parcerias com Lenine, Adriana Calcanhoto, Jards Macale.
Carlos Trilha que cuidou do disco Canções dentro da noite 'cura de Lobão e que anda tocando com Marisa Monte.
Além das apresentações, tanto no Rio quanto em Buenos Aires, Madame Mim marcou presença em muitas festas raves como DJ durante a composição do segundo disco.
Isso resultou um amadurecimento no «lulling» das pistas de dança e seu set de novidades latinas foi foderoso para seu trabalho como artista e também ajudou a distinguir o novo formato de seu atual show que se resume em apenas duas pessoas no palco.
Madame Mim Provoca com risadinhas maliciosas, arremessa efeitos na voz e toca guitarra com uma sensualidade fora do comum e, seu partner, o Superputo, toca teclado e afrouxa as bases com intervenções eletrônicas ao vivo, tornando cada apresentação orgânica e inesquecível.
Em o dia 19 de maio, uma noite como outra qualquer, tivemos uma conversa por telefone.
Eu, em Barcelona, Mariana Eva em São Paulo onde ela tem uma agenda repleta de shows.
Seu trajeto com a música não vem de hoje.
Em o Brasil, fez parte de uma banda punk de meninas que ficou marcada no «underground» carioca dos anos 90, o Pólux.
Em a época o grupo fez mais de 250 shows, tocou em diversos eventos e festivais como o Abril para o Rock, Humaita Pra Peixe, Motim, Planet Fashion, Festa do Zine 02 Neurônio e até abriu o show da banda alemã de digital hardcore Atari Teenage Riot.
Quando você descobriu que a sua parada era música?
Foi de um dia para o outro.
Eu era atriz, fazia teatro e dança, mas sempre fui rodeada de amigos músicos.
Um dia, numa mesa de bar, uns amigos me botaram uma pilha de fazer uma banda de meninas.
Três dias depois, 'tava no show do Wander Wildner no Rio, conheci a Bianca e a chamei pra tocar com mim.
Quero dizer «tocar» com mim por que nenhuma das duas tocava nada.
A gente foi aprendendo com o Polux, compondo juntas com os shows.
Foi um processo totalmente punk, «do it yourself».
Eu lembro que como não sabia as cifras inventei um método pra me fazer entender e 'crever minhas músicas.
Eu dei número para as cordas em vez de letras.
Funcionou super bem!
Uma pergunta que já lhe fizeram umas «100.000» vezes, de onde vem o nome Madame Mim?
Bom, primeiro veio só o «Mim», de uma letra de música.
já tinha algumas músicas e ainda não tinha o nome do trabalho.
A música era «Hoje» que 'tá no meu primeiro CD Eu Mim Meu e na letra dizia:» ...
um pedaço de mim terminou ...».
Enfim, peguei o «Mim» pra ser o nome do meu projeto solo, achei que «Mim» tinha a ver com eu mesma (risos).
Depois o trabalho foi para outro lugar totalmente diferente do que era o «Mim» e não dava pra manter o mesmo nome já que o som havia mudado tanto, então como eu tinha virado madame (mais risos), transformei o «Mim» em «Madame Mim».
Em 'te segundo CD, a banda traz uma mistura de electro-punk com rock latino, uma pitada de cumbia eletrônica e mais uma série de novidades para as pistas de dança.
Foi uma transformação do primeiro para o segundo CD da artista Mariana Eva?
Transformacão total.
Em o Eu Mim Meu eu comecei a flertar com o eletrônico.
Tinha saido do punk rock e aos poucos fui explorando 'se universo.
Fui me apaixonando, tocando em festas aqui e em Buenos Aires como DJ e acabou sendo um processo natural mudar o som.
Em as novas composições, Madame Mim conta com a parceria do produtor e baterista Vig que já habitou no Brasil e tocou com Lobão, Sergio Dias e Gilberto Gil, mas atualmente mora em Londres onde toca do underground ao mainstream como ao lado de Eminem, Avril Lavigne, e já até trabalhou com o produtor Tom Aitkenhead do Bloc Party.
Então, a pergunta é:
como é trabalhar ao lado de Vig?
Bom, não é bem trabalhar ao lado por que ele mora do outro lado do oceâno atlântico.
Nós compomos por a internet.
Ele faz lá, manda pra cá, eu faço aqui, mando pra lá.
Mas sempre mantemos um cronômetro do tempo gasto em cada composição, o arquivo sempre vai junto com o tempo gasto ao lado.
Tipo, demorei 45 minutos para fazer 'se loop e oteclado e, assim, vai até completar as duas horas por que no fim das contas uma música não pode demorar mais do que isso pra ser composta.
Faz parte dos meus dogmas.
Os dogmas são ...
Dois.
O primeiro fala do tempo pra compor uma música, que não pode demorar mais do que duas horas.
Tem que ligar o despertador e terminar como ficou.
O segundo fala do não uso do computador, tem que gravar tudo ao vivo, usando equipamentos eletrônicos digitais, claro, mas sem o computador e seus plugins envolvidos.
Ainda nos dogmas não podemos fazer teclados que não possam ser tocados com dois dedos e ensaiar só no dia anterior ao show.
E aí, sendo assim tão bonita (leia-se sexy!),
você já teve algum problema durante os shows com rapazes grosseiros?
Obrigada!
Nunca tive nenhum problema (risos).
Como tem sido os shows ao vivo?
Ótimos, simples e contagiosos.
É muito legal ver o público pulando
junto com você!
Ouvi dizer que você é uma argentina que passou a vida entre Buenos Aires, Rio de Janeiro, San Francisco (Ca) e que agora 'tá definitivamente em São Paulo.
Primeiramente, por que você saiu da Argentina e, segundo, o que você 'tá fazendo em SP?
Foi muito legal morar em todos 'ses lugares, cada um me influenciou de uma maneira.
Agora 'tou em SP e 'tá sendo uma experiência incrível!
Agora, fale-me sobre o Superputo, já que ele não 'tá sendo entrevistado.
O Superputo é o meu parceiro, compõe e toca ao vivo com mim.
Ele é da indústria de games, trabalhou nos USA e na Coréia, não tem muita paciência para a música, ensaios, e tal ...
Ele só topou fazer 'te projeto por causa dos dogmas.
Assim fica bem mais divertido!
Entrevista originalmente publicada no Recife Rock
Ouça o som da Madame em http://www.myspace.com/mimadame
Número de frases: 75
Agradecimentos: Viviane Menezes, Daniela Dacorso, Vig, Lua Music, Globo Online e Uol
Concebida em torno da paixão por o cinema e por a música brasileira, a Mostra Chorando no Cinema surgiu no Rio de Janeiro em 2005 para levar ao público filmes que perpetuam em som e imagem a história do chorinho, o gênero musical genuinamente brasileiro.
Agora, a Mostra Chorando no Cinema chega a outras cidades deste pais que abriga tantos clubes e admiradores de choro, numa série de seis programas que será exibida a partir de outubro, no Canal Brasil.
A 'tréia é dia 02, terça-feira, às 19 horas, com reprises quarta-feira às 11h30 min e sábado às 15 horas.
Em a televisão, a Mostra Chorando no Cinema tem a apresentação da cavaquinista Luciana Rabello, uma das principais instrumentistas do gênero, e profunda conhecedora da história do choro e dos personagens abordados nos filmes -- Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Donga e João da Baiana, entre outros.
Os comentários de Luciana Rabello serão ilustrados por apresentações musicais do conjunto Regional Carioca -- um dos mais expressivos nomes da nova geração do choro brasileiro.
Este primeira edição da Mostra Chorando no Cinema para televisão reúne cinco filmes produzidos entre 1972 e 1980 e um curta de animação produzido nos anos 2000.
Em depoimentos de artistas de gerações e trajetórias distintas, é possível perceber as interseções do choro com a música brasileira até os dias atuais, em que a ligação com o choro tem sido cada vez mais forte, incentivando o aparecimento de novos músicos e fãs.
Com a série de programas, a Mostra Chorando no Cinema fortalece seu objetivo de dar visibilidade à produção audiovisual e ao 'petáculo de um gênero musical que convive com o cinema desde as apresentações de Ernesto Nazareth e dos Oito Batutas de Pixinguinha nas primeiras salas de projeção, e que sempre foi fundamental para o desenvolvimento da música do Brasil.
A Mostra Chorando no Cinema tem concepção original do cineasta Fernando Pinto.
A série de programas para TV da Mostra Chorando no Cinema é uma realização do Canal Brasil e da Elaborar Projetos Culturais, com produção artística da Joaninha Produções.
Os programas foram dirigidos por André Salles.
Os Filmes da Mostra no Canal Brasil
Chorinhos E Chorões (Antônio Carlos da Fontoura, 1974)
musica: Pé de Moleque (Jacob do Bandolim)
Terça, 02/10 às 19 horas (Quarta, 03/10 às 11:30 e Sábado, 06/10 às 15 horas)
Conversa De Botequim (Luiz Carlos Lacerda, 1972)
música: Saudade da Bahia (Donga)
Terça, 09/10 às 19 horas (Quarta, 10/10 às 11:30 e Sábado, 13/10 às 15 horas)
Dor Secreta (Luís Carlos Lacerda, 1980)
música: Tenebroso (Ernesto Nazareth)
Terça, 16/10: às 19 horas (Quarta, 17/10 às 11:30 e Sábado, 20/10 às 15 horas)
Álbum De Música (Sérgio Sanz, 1974)
música: Caminhando (Nelson Cavaquinho)
Terça, 23/10: às 19 horas (Quarta, 24/10 às 11:30 e Sábado, 27/10 às 15 horas)
O Choro De ele (Leilany Fernandes, 1975)
música: Implicante (Jacob do Bandolim)
Terça, 30/10 às 19 horas (Quarta, 31/10 às 11:30 e Sábado, 03/11 às 15 horas)
Alma Carioca, Um Choro De Menino (William Côgo, 2002)
músicas: Cinco Companheiros (Pixinguinha) / Dominante (Pixinguinha)
Terça, 06/11 às 19 horas (Quarta, 07/11 às 11:30 e Sábado, 14/11 às 15 horas)
Mostra Chorando no Cinema
apresentação Luciana RABELLO
participação Regional Carioca
ANA RABELLO cavaquinho
Tiago SOUZA bandolim
Rafael MALLMITH violão
Julião Pinheiro violão
Marcus THADEU pandeiro
direção ANDRÉ SALLES
concepção e curadoria FERNANDO Pinto
produção artística Joaninha Produções
Número de frases: 42
uma realização do Canal Brasil em co-produ ção com a " Elaborar Projetos ...
«me sinto muito bem quando sou incluído na relação dos chamados artistas da terra, já que desconheço artistas de outros planetas, assim como:
Plutão da Sanfona, Netuno do Rojão, Júpiter do Zabumba, ou os ETs do Forró».
Biliu de Campina Um das coisas boas desse São João foi a minha reaproximação com a música de Biliu de Campina.
De a última vez que 'cutei Biliu, já havia o interesse por a música nordestina, então rolou a identificação de cara.
Gostei do som.
Mas ainda não tinha me dado conta totalmente da importância daquele senhor para a nossa música.
Biliu de Campina é Severino Xavier de Sousa.
Advogado de formação, música por vocação.
Filho de Campina Grande é ferrenho defensor de sua terra e de nossas tradições.
Permitam-me uma comparação, apenas para efeito figurativo:
poderíamos dizer que ele é o Ariano Suassuna do forró nordestino.
É um austero crítico das variações da música nordestina, como os chamados forró 'tilizado, forró universitário, etc.
Para ser mais preciso musicalmente, Biliu faz um forró mais puxado para o coco sincopado, ou simplesmente, o coco.
Ritmo imortalizado por outros mestres como Jackson do Pandeiro e Jacinto Silva.
Ele faz muita referência, em sua obra, a Rosil Cavalcante, compositor que ainda não conheço, o que deverá ser resolvido muito em breve.
Tenho uma vaga lembrança de já ter 'cutado a música Nordeste Independente na voz de ele.
Já procurei bastante, mas até hoje não encontrei nada.
Aliás, um dos motivos que faz a sua música ser tão dificil de encontrar, talvez seja sua «independência» convicta.
Biliu é um exemplo do artista que não se vendeu para as gravadoras e assim manteve a coerência musical em seus álbuns.
Clique Aqui para ver um clipe do Biliu
Este texto foi só uma pequena amostra do grande artista que é Biliu de Campina.
Viva Biliu!
..." a música nordestina 'tá ficando poluída por a variedade de ritmos que 'tão misturando a ela, num trabalho de descaracterização da música genuinamente nossa que é o côco, o xaxado, o baião, o xote, entre outros, sendo o côco o pai de todos os ritmos.
Essa variedade de ritmos que existe na atualidade, na sua opinião, é uma forma que as produtoras encontraram para fabricar cantores e danças, a exemplo do que acontece com a lambada e o fricote, etc, Esse processo de criação de ritmos é efêmero e só visa o lado econômico da questão, sem se preocupar com a valorização da música nordestina».
(em entrevista ao jornalista Orlando Ângelo em A União de 27/28 de maio de 1989)
Fontes:
http://biliudecampina.blogspot.com -- onde encontrei o cd para baixar.
http://www.liaa.ufcg.edu.br/musica/biliu/ -- um pouco da história e da discografia de Biliu.
E de onde peguei as citações.
Número de frases: 30
Texto publicado no blog Propalando Programa de humor investe na sátira e no teatro de bonecos e vira fenômeno cultural no Ceará
Aaaaaalô Caucaia, aaaaaaalô Brasiil, fala Chico Pezão, craaaaaaque do Mulambo Futebol Clube, direto do vestiário do 'tádio Francisco José Cunha, o famoso Cunhão, e o Em as Garras da Patrulha, Caucaaaia?
Éééééé, com c e e r-teza, a equipe tá de paaaraabéns, o grupo tá unido, a gente seguiu a orientação do professor, grazadeus.
E o programa é sucesso, Chico Pezão?
Ééééééé, com c e e r-teza, tua observaaação tá de paaaraaabéns iiiiiiiii a gente ta aqui pra atender 'sa torci-i-de a maravilhosa que sempre comparece em massa, grazadeus.
Chico Pezão é craque do Mulambo Futebol Clube, mas conseguiu a proeza de ser ídolo de todas as torcidas cearenses.
É um dos astros que, juntamente com o «amigo tesoura» Coxinha, a «biba» Danduska, o apresentador de TV Seu Silva, a fofoqueira comentarista dos problemas nacionais Frouxilda Fofoléti e o professor Décio Rola, entre outros personagens, integram o humorístico Em as garras da patrulha, programa exibido na emissora local TV Diário há cinco anos.
Veiculado de segunda a sábado em dois horários e investindo em 'quetes humorísticas encenadas por bonecos, o Em as garras ultrapassou os limites da telinha e tornou-se um fenômeno cultural para os cearenses.
O sucesso do programa atualmente pode ser atestado nas ruas:
os personagens tornaram-se tipos populares e os bordões infiltraram-se nos diálogos cotidianos.
Expressões como «Você é uma autarquia» ou «Vai-te embora, carniça», proferidas por o boneco Coxinha, 'tão na boca do povo.
Ele, aliás, virou expressão popular para reprovar quem é apanhado falando mal de amigos (como em: " Rapaz, deixe de ser Coxinha!")
e ganhou as páginas de folhetos de cordel.
É possível ainda avistar na cidade carros com adesivos reproduzindo as frases ditas no ar.
Michael Michel, contabilista, é um dos muitos fãs que acompanham o programa.
«Lá em casa, todo mundo assiste, meus pais, meus sobrinhos, meu filho.
Todo mundo acaba imitando algum personagem, de brincadeira."
O diretor do programa, Ponhonhon, 68 anos, figura tarimbada na história da televisão cearense, desconversa sobre possíveis números da audiência (" não tenho», diz), mas confirma que o Em as garras é um dos programas mais populares da emissora:
«Por o número de e-mails que recebemos, é [o mais popular], sempre foi o programa que mais recebe e-mails aqui.
Em o primeiro ano, recebemos 40 mil mensagens.
Hoje a gente recebe uma média de 1.500 por mês.
Claro que e-mail não é Ibope, porque e-mail é de quem 'tá numa posição que não é povão, mas quando chega lá é porque o povão já tomou de conta."
A fala simples de Ponhonhon é reveladora.
Se o êxito de um programa como o Em as garras da patrulha transcende explicações totalizantes, é possível identificar algumas pistas para entender a empatia do público local com a atração.
A primeira de elas é a 'trutura assumidamente simples do programa.
Cada personagem de sucesso aparece em 'quetes irreverentes.
O cenário, por sua vez, é extremamente econômico.
A parede azul do 'túdio não é preenchida por o chroma-key, mas por pinturas feitas à mão, pregadas com fitas adesivas.
As 'tratégias mais utilizadas vão da paródia (e da autoparódia) às piadas de duplo sentido e à crítica dos costumes e hábitos dos cearenses.
Tudo isso sem a menor vergonha de se assumir como popular.
O texto do Em as garras, 'crito por o redator Cícero Paulo, revela uma nítida influência da linguagem radiofônica.
Algo explicável:
o programa exibido na TV originou-se da versão do programa no rádio, veiculado há mais de 20 anos como uma satírica crônica policial da cidade na Rádio Verdes Mares AM.
É gravado nos 'túdios da Rádio pela manhã, sob a supervisão e edição de Cícero.
Uma equipe de dois humoristas, Kléber Fernandes e Hiran Delmar, e o rádio-ator Djacir Oliveira, 'te com uma longa história na radiodramaturgia, emprestam as vozes aos bonecos.
O humorista Kléber Fernandes, que faz a voz de mais de 30 personagens, entre principais (como Zé do Toin, Wilson da Gata -- sátira do repórter policial Wilson Fragata, da mesma emissora, Danduska e Chico Pezão) e figurantes, sintetiza as principais características do texto:
«A inspiração vem de pessoas que existem ou já existiram, na maioria.
O Elenilson Jr, por exemplo, é uma mistura dos radialistas Paulo Oliveira, Carlos Augusto, João Inácio Jr, com o jeito exagerado de falar de outros radialistas do interior, ' Olha a hoooooo ra ra ra-ra, quatr r r r r r-o e quinze em For r r r-r-taleza '.
O Chico Pezão faz uma sátira com os jogadores de futebol, que falam todo do mesmo jeito, parece até coisa ensaiada.
O Maravilhaxxx é baseado num amigo carioca que foi para outra emissora de rádio», diz.
Kléber ressalta que enxerga o tom satírico como uma " homenagem ":
«A maioria das vezes as pessoas homenageadas gostam.
Em o início surgiram algumas resistências, o pessoal falava: '
Rapaz, não faça isso com mim, não '.
Começavam até a se achar os próprios bonecos.
E isso é uma sátira, por mais satírico que seja, é uma homenagem.
Depois perceberam que isso era mídia para eles e hoje até ajudam dando dicas para os personagens inspiradas em elas."
«Cearensidade» Outro trunfo é a ênfase na oralidade cearense, mesclando expressões antigas e atuais com um sotaque assumidamente local.
«Nós temos a filosofia de reeditar termos que as pessoas nem usam mais, como ' fi de uma égua ', ' tainha ', ' rái te lascar ', que muita gente tem saudade.
Usar uma linguagem muito nossa, do cearense, bem popular.
Coisas que a gente usava em nossa infância.
E coisa atual também, [com voz de «malandro», em tom grave] ' Aí mermão, é massa, ó doido, a polícia vem e prende o nêgo sem ter nadizaver, mó vacilada, ó '» diz o humorista.
Aposta-se também em improvisos e na observação de fatos do cotidiano:
«O Cícero 'creve as coisas e muda muita coisa na hora.
E tem dado certo.
A gente 'cuta uma coisa na rua, anota logo e traz pra cá.
E a gente faz oficina, muito trabalho de observação, procura ver os delegados falando, os políticos falando, procuramos imitar pessoas que 'tão na mídia ou que não 'tão mas são vizinhos nossos, por aí.
A Danduska, por exemplo, vejo amigos gays falando (mudando a voz) ' Eu tô pas-sa-de a, diaguileife, vou tom-bar você '.
E assim ela virou uma 'pécie de rainha dos gays, do mesmo modo que tenho amigos de futebol que adoram o Chico Pezão, evangélicos que adoram o personagem do Pastor.
Todos os personagens são pessoas que a gente vê no dia-a-dia», afirma Cléber.
O humorista diz ainda perceber o retorno constante das ruas:
«Quando pego um ônibus por aí, para ir para o Centro ou para a casa de um amigo meu, vejo muitas pessoas falando ' maravilhaxxx ', ' vai-te embora, carniça ', 'sas coisas que 'tão no Em as garras e que acabou virando domínio público."
Ponhonhon confirma a preocupação em manter um " padrão local ":
«A gente prima por a linguagem cearense, dificilmente passa uma fala ou uma frase do sul, tipo ok, ô meu, 'sas fulerages que o Sul maravilha fala e nós não falamos, não.
Uma vez por ano passa uma, porque não dá pra controlar tudo, mas dificilmente passa».
Em o dia em que acompanhei as gravações do programa, o diretor questionava a presença de uma «intrusa» viola mineira numa cena com personagens do sertão cearense.
«Não dá pra botar uma viola mineira, aí não».
A situação, porém, não deve sugerir perfeccionismo, algo que seria incompatível com as características do Em as garras.
«Hoje é fácil gravar o programa», diz, para logo em seguida interromper:
«Fecha um pouco a câmera, fecha um pouco, mais teto!
Mais teto!"
Em o fim, a viola mineira foi ao ar junto com uma viola cearense.
Gilmar de Carvalho, professor e pesquisador do curso de comunicação social da Universidade Federal do Ceará (UFC), doutor em semiótica por a PUC-SP, enxerga o apelo à «cearensidade» como algo 'sencialmente 'tratégico:
«Vejo 'se uso mais como uma questão mercadológica do que uma defesa de uma ' cearensidade ', mas é curioso o fato da mesma mídia eletrônica que padronizou o jeito de falar dos locutores da Globo ver como 'tratégico 'se uso para sua afirmação.
É mercadológico, mas nem por isso menos interessante.
Não é à toa que a TV Diário quer se situar como a TV do Nordeste, então o mínimo que tem que fazer, embora em alguns momentos se resvale para o 'tereótipo, é falar como falam as pessoas da região, ou pelo menos como eles pensam que falam."
Gilmar cita como exemplo o personagem do boneco " Coxinha:
«Ele é um personagem que poderia 'tar em qualquer lugar do Brasil, mas se torna o Coxinha do Ceará porque ele tem alguns gestos, diz alguns bordões que são muito ligados aos nossos pregões de camelô, as falas de pessoas que andam de ônibus, de trem, nas ruas, distante do cotidiano dos jornalistas, dos publicitários e de pessoas que trabalham na televisão, distantes da realidade em seus carros com ar-condicionado.
E o programa consegue, tem alguma coisa que vaza, 'sa ' mundiçagem ', 'sa ' carniçagem ' é tão forte que contamina, no bom sentido, e chega até lá."
Teatro de bonecos
O texto do Em as garras gravado na emissora de rádio pela manhã é recebido por o diretor Ponhohon no início da tarde.
Ele comanda, então, a segunda etapa, que consiste na encenação por os bonecos do áudio gravado previamente por os humoristas no 'túdio radiofônico.
Entra em cena, então, o Circo Tupiniquim, grupo que atua há mais de 20 anos na área teatral e confeccionou os bonecos.
Mais precisamente, o diretor de teatro Omar Rocha e os atores-animadores de boneco Carlos César e Francisco Duarte, que manipulam entre dez e quinze bonecos em cada gravação.
O animador Carlos César explica que são utilizados bonecos-marote.
Os movimentos da boca e das mãos são obtidos por as mãos do manipulador, que se 'conde atrás do «corpo» (uma peça de roupa sustentada por uma vara de madeira).
Ele entende que o trabalho desenvolvido no Em as garras tem permitido atualizar a tradição do teatro de bonecos:
«Além da história do humor, com os piadistas, o Em as garras traz de volta os atores-bonecos fazendo papel de ator.
A gente troca uma roupa, põe um bigode e aí muda completamente a personalidade de ele.
O boneco hoje 'tá na mídia, no comercial de televisão, no programa da fulana."
César identifica também a contribuição para a construção de novos olhares sobre a arte dos bonecos, menos 'tigmatizados:
«A TV Cultura mostrou outras formas de criação, diversificou 'se universo.
No caso do Em as garras, contribuiu para sedimentar a parceria do teatro do boneco e do ator com a televisão, aumentar um público para ele.
A gente ocupa um 'paço e mais pessoas passam a reconhecer o trabalho do Circo Tupiniquim», afirma.
Recentemente, o grupo assumiu um programa infantil na mesma TV Diário.
Gilmar de Carvalho considera a presença do teatro de bonecos uma das características 'senciais de seu sucesso do programa:
«O programa joga com 'sa idéia dos bonecos, incorpora 'se universo do teatro de marionetes.
O boneco, de alguma forma, legitima coisas que talvez não pudessem ser ditas no horário.
O texto ganha vida com a performance de eles.
Eles dançam, interagem, gesticulam, debocham, são irônicos e, assim, passaram a fazer parte do cotidiano da cidade."
O pesquisador compara ainda o programa ao contexto mais amplo do humor local:
«Não acho que seja o melhor exemplo de humor cearense, como outros programas como a Vila do riso ou shows de humor nas pizzarias, mas mantém um certo encantamento por o fato dos bonecos 'tarem em cena.
Eles quebram um pouco a falta de sutileza do humor daqui e levam um pouco para o encantatório», afirma.
Público infantil
A atuação dos bonecos levou à audiência do programa um público não-previsto por a emissora para o Em as garras da patrulha, o infantil.
Elton Muniz, 13 anos, afirma ser um telespectador assíduo:
«É um dos programas que mais gosto na TV.
É muito curioso o jeito dos bonecos falarem.
Gosto do Bebel, do Seu Silva, do Chico Pezão, da maioria dos personagens.
Gosto do Bebel porque ele é inocente, não acredita que a mulher trai ele.
E do Chico Pezão por causa da burrice de ele, diz.
O irmão, Francisco Muniz, 9 anos, também costuma assistir ao Em as garras:
«Gosto do Coxinha, mas ele é muito falso!"
O pai de Elton e Francisco, o representante comercial Marcos Muniz, procura acompanhar o programa:
«Sempre que posso, também assisto.
Algumas piadas acho meio pesadas, mas eles não entendem bem.
Acho bem bolado, por a simplicidade.
É muito básico e ao mesmo tempo transmite tantas coisas».
E arrisca:
«Acho que os meninos gostam por conta dos bonecos."
Ponhonhon revela que o sucesso com o público infantil surpreendeu a equipe do programa:
«Não 'perava, o programa começou como policial e aí foi mudando de linha.
Mas, desde a 'tréia, não teve muitas mudanças, não.
Alguns ajustes, personagens que saem, outros que entram ...
Ele pegou forma própria depois."
Um dos indicativos do sucesso comercial do Em as garras é a crescente inserção de merchandisings nas cenas.
É verdade que o número excessivo, cada vez mais freqüente, pode irritar parte dos telespectadores.
Mas é possível dizer que o programa tem conseguido inseri-los nas cenas sem descaracterizar completamente sua verve satírica.
Essa é, pelo menos, a opinião de Giovani Tomasini, gaúcho, residente em Juína, Mato Grosso, há oito anos:
«Eu gosto muito da maneira inteligente que eles encontraram de fazer mershandising durante o programa, é explicíto, porém, não é cansativo.
As piadas são inteligentes, sem serem apelativas, e a interação dos manipuladores dos bonecos é incrível».
Em uma das edições, por exemplo, o personagem-locutor de rádio Elenílson Jr. anunciava uma das bandas de forró que patrocinam o humorístico:
«O jabá da hora vem com o Forró Balancear.
Sapeca aí nos peitos dos ouvintes!"
Tomasini é um dos vários telespectadores de outros 'tados que costumam acompanhar o Em as garras através de antena parabólica:
«Assisti pela primeira vez por acaso, enquanto mudava de canais, há um ano, um ano e meio».
Ele não considera as expressões cearenses uma limitação para telespectadores de outras regiões:
«Não tenho dificuldades de entender as piadas.
As expressões são muito regionais, mas no contexto que são inseridas, fica tranqüilo de entender.
E é justamente o jeito de eles falarem que 'tá a graça do programa».
Ponhonhon confirma:
«Boa parte dos e-mails que recebemos vêm de outros 'tados, de Roraima, da Bahia, de São Paulo», diz.
Ciente de 'sa repercussão, o programa lança mão de uma 'tratégia que permite aproximá-lo ainda mais do público:
cita no ar constantemente o nome de 'pectadores que 'crevem à emissora e suas localidades de origem, seja um bairro de Fortaleza ou cidade de outros 'tados, além de acolher piadas que são encenadas no quadro A piada do dia.
O que realmente faz do programa um sucesso para um público tão heterogêneo, que extrapola fronteiras de classe, de idade e de barreiras regionais é, além da atualização na TV de formas de humor já consagradas, a opção clara por a sátira e por a ironia (muitas vezes voltadas para a própria equipe que faz o programa), calcadas no cotidiano e na molecagem local, sem uma preocupação consciente de parecer 'sencialmente crítico ou engajado, mas atento aos assuntos do dia-a-dia.
O diretor justifica a 'colha por o humor satírico:
«Optamos por a sátira para não sermos só factuais.
É uma maneira de reclamar das coisas sem ofensas, uma maneira de reagir contra as fuleragens que acontecem aí, criticar por o humor.
Aí é que 'tá a beleza do programa ...
E a dificuldade também, porque é mais difícil fazer humor do que pegar um jornal e ler no ar», afirma Ponhonhon.
Talvez o que melhor sintetize o humor do Em as garras é a relação de Ponhonhon com o programa, desde sua 'tréia:
«Quando eu recebi a sinopse, eu nunca nem tinha ouvido o programa do rádio.
Em as garras da patrulha, que diabo é isso?
Mas eu tava precisando trabalhar, aí eu peguei e disse:
vou fazer o melhor programa da TV brasileira.
E fiz».
Você acha mesmo o melhor programa exibido na TV brasileira, Ponhonhon?
«Eu acho, depois de ele só o Chaves.
O resto não merece o menor ...».
E dispara o riso.
Coxinha em cordel
«Bem, meus amigos leitores
Prestem muita atenção
Vou falar de um personagem
Falso por convicção
Que anda fazendo sucesso
Em as telinhas do povão.
É o boneco COXINHA
Vindo da televisão
Lá nas garras da patrulha
Houve a sua criação
Agora é uma lenda viva
Em o seio da multidão.
Seu perfil de diplomata
Alegre bem cavalheiro
A todos elogiando
Em a presença é lisonjeiro
Mas quando se vira as costas
Aparece o verdadeiro.
O povo já descobriu
Com uma certa ironia
Que 'se tipo vulgar
Falso e «chei» de covardia
É fácil de encontrar
Em a luta do dia-a-dia." (
Trecho extraído do cordel Coxinha, a autarquia da falsidade, de Anchieta Dantas)
Serviço:
TV Diário.
Em o Ceará, canal 22.
Em o Brasil, via parabólica, na freqüência 1080 mhz.
Segunda a sexta-feira, 14h15 e 17h40;
Número de frases: 191
sábados, 13h40 e 17h50. `
Olhando agora para a terra vejo figuras que nunca vi.
Nus, soltos por o chão, grudados de dois em dois, amarelos, olhos de chinês, cabelo liso cor de nanquim, cordas amarradas no corpo, rostos pintados, as vergonhas expostas ...
são milhares por a praia branca.
Vamos descer deste navio agora.
Foram meses e meses de viagem.
Encontramos aquilo que já sabíamos haver.
Agora é baixar âncora! '
Século XVI: cerca de 5 milhões de índigenas.
100 % da população do Brasil.
507 anos e 112 dias depois:
aproximadamente 460 mil índios só nas aldeias! (
Segundo a Funai entre 100 e 190 mil vivem fora das terras indígenas, inclusive em aldeias-urbanas.
600 mil índios certo?)
menos de 0,2 % do povo brasileiro!
O foco se inverteu.
Como um 'pelho perfeito agora são Eles que olham para os nativos-nós, antes um punhado numa caravela, agora milhões por as cidades imundas e bem construídas.
E cada vez mais pelados.
De alma.
Pelado com a mão no bolso.
Foi mais ou menos isso que senti ao produzir 'ta matéria para o Overmundo.
Mas, quanto mais mergulhei, maior a contatação da minha profunda ignorância.
Não sei!
A impressão que tenho é que a sociedade não evoluiu em 'te tema.
Os índios são ainda aqueles que moram em ocas, que fazem baderna nas 'tradas, que vendem cocares nos acostamentos ou ainda os peles-vermelhas derrotados nos faroestes 'trangeiros.
Ou então, o índio suicida.
O alcóolatra-vagabundo.
Que morre desnutrido.
Ou queimado por um bando de mauricinhos.
Somos todos santos-do-pau-oco!
19 de abril é uma data que marca a nossa abrupta 'tupidez-genocida afogada em narcóticos fortes para caralh ...
Dia do índio?
Mato Grosso do Sul tem a segunda população indígena do Brasil.
Aqui (deveria) todo dia é dia de índio, apesar dos milhões de cabeças de gado.
Eu não vou entrar em índices e 'tatísticas porque simplesmente não consegui chegar a 'te ponto da apuração.
Preguei nas primeiras entrevistas.
É muito chão para rodar em 'ta trilha indígena.
Sem querer, todas as pessoas com que falei 'tavam envolvidas com os terena.
Então foquei em 'te pessoal.
E que pessoal!
Os terena são a maior população indígena do MS, que é habitado principalmente por seis etnias:
Terena (maior número), Kadiwéu, Guarani, Guató, Caiapó e Kinikinau.
As 'tatísticas oficiais apontam para a existência de 16 mil terena no 'tado.
Mas a professora Dulce Lopes Barboza Ribas garante que o número é bem maior!
Ela é envolvida com a causa indígena desde 1995 e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Populações Indígenas (Geppi) da UFMS.
Em Campo Grande fala-se de 8 a 12 mil índios terena morando na cidade.
Estão 'palhados por três aldeias-urbanas reconhecidas oficialmente e três concentradas (ou seja, em processo de reconhecimento).
Fora os índios que moram em muitos outros bairros da Capital.
É um número considerável certo?
É mais ou menos o mesmo tamanho da colônia japonesa na Capital.
Mas quanta diferença!
Os japoneses são quase que o «orgulho da cidade».
E merecem.
Mas os índios também certo?
Um contrasenso, por exemplo, é a Praça Oshiro Takemori, um ilustre-desbravador filho da colônia de Okinawa campo-grandense que empresta seu nome para batizar um pedaço de quadra na frente do Mercadão Municipal de Campo Grande e onde é tradicional a comercialização de vários artigos por as índias terena.
Praça com nome japonês num lugar famoso dos índios só pode acontecer no Brasil-mistura tudo!
Miscigenação das raças.
Sei!
Descobri que Campo Grande 'tá na frente de muitas cidades quando o assunto é política pública para o indígena.
A Capital caminha para ter a primeira 'cola urbana indígena do país!
A cidade tem o Conselho Municipal de Direitos e Defesa dos Povos Indígenas de Campo Grande desde 2000.
Um avanço!
O ensino da língua terena até a quarta série em 'colas municipais para os alunos indígenas.
Professores índios fazendo magistério.
Enfim! Pequenas vitórias numa imensidão a ser resolvida.
Mas a questão para mim é que o índio é invisível (na verdade faltou 0,2 % para o plano de extermínio dar certo!
Algo deu errado no meio do caminho porque, ao contrário dos anos 70 quando se acreditava piamente que a extinção 'tava certa, o fogo curupira voltou manso e sempre e a população indígena 'tá cada vez maior).
E depois das entrevistas para 'ta matéria fiquei com a certeza que eles (pelo menos os terena) querem se integrar (e já 'tão integrados) na nossa sociedade branca religiosa chegada numa miscigenação-forçada.
O índio não era ateu?
E quantas igrejas já existem nas aldeias? (
Mas isso é um outro assunto)
A maior prova de que os terena querem a integração (e visibilidade) é o Jornal Voz Terena (Veyékou Emó ' u Têrenoe).
O jornal é todo produzido por os terena da Área Indígena Buriti, que abriga oito aldeias:
Buriti, Córrego do Meio, Água Azul, Lagoinha, Barrerinho, Oliveiras, Recanto e Olho DÁgua.
São 58 km de Campo Grande até Sidrolândia e mais 30 km de terra até a região.
O projeto é vinculado a Universidade Federal de MS e tem a coordenação do Grupo de Estudos e Pesquisas em Populações Indígenas.
A reivindicação para a feitura do jornal é dos próprios terena.
Estão cansados de só serem notícia no Dia do Índio.
Ou verem fotos de etnias trocadas em matérias mais equivocadas ainda.
Criaram um canal de expressão.
Estes terena são danados!
Sabe aquele personagem, o Taparica, de Tonico Pereira de A Invenção do Brasil?
Sempre que ele queria enrolar os «gringos» e vender pedregulho dourado por ouro ele dizia como índio de cinema ianque:
«Pedras de luz.
A cinco luas de distância, o sol se 'conde na montanha faiscante.
O chão se cobre de pedras de luz, nossos antepassados ensinaram que são 'trelas caídas ..."
Foi mais ou menos 'ta a postura de um dos terena que entrevistei.
O Edson, que na verdade se chama Dionedisom!
Fui encontrar o Adierson Mota, presidente do Conselho, no Belmar Fidalgo (um complexo 'portivo de CG), e caí dentro de um evento que agregava minorias.
Um grande grupo de índios 'tava lá para apresentar a Dança da Ema.
Dionedisom-Edson me foi indicado para a entrevista.
Começou me falando que morava numa aldeia perto de Aquidauana, parecia não saber direito o português e insistia em dizer que trabalhava com artesanato.
Desligado o MP5 imediatamente confessou que morava em Campo Grande, trabalhava como cozinheiro numa casa de família oriental e acabou me pedindo para montar um blog para ele.
Não entendi por que não quis assumir na entrevista o que fazia.
Me veio o Taparica na cabeça.
Ainda no contato com Dionedisom-Edson Taparica descobri que os terena são temidos nos 'portes, principalmente, na corrida e no futebol.
Inclusive o feminino.
Os principais rivais são os Xavante, de Mato Grosso."
É como Brasil e Argentina», explica o taparica-campo grandense.
Prometo que vou tentar registrar 'te «figuraça» fazendo um sobá para os seus patrões japoneses.
Santo-antropofagismo Oswald!
Bem mais tímida se mostrou a Rafaela, que acabei entrevistando por acaso.
Terena, de 16 anos, fala pouco, mas tem idéias firmes.
Quer entrar para a polícia.
Namora um garoto branco!
Opa. Aí sim, minha ignorância, preconceito e sem-noção total se debruçou em meu leito.
Para eles 'te assunto é passado.
Para mim uma novidade.
Branco pode namorar índia então e vice-versa?"
Eu namoro um menino branco.
Este preconceito tem mais na aldeia.
Em a cidade não faz sentido, porque se conhece outros rapazes e não apenas índios».
Fiquei sem graça.
Sinto que nunca fui educado para a convivência com os índios.
Nenhuma troca de fluído por favor!
É ridícula a forma como nos ensinam a história.
Chorei em grande parte da leitura de O Povo Brasileiro.
Oito anos de ginásio e três de científico (sou das antigas) não valeram os parágrafos geniais de Darcy Ribeiro que devorei em dois dias.
E vem a Rafaela me dizer sem nenhum remorso que não fala o idioma terena, que não conhece a história dos terena, que gosta de pagode, axé e bailão."
Querer aprender a história dos terena eu quero.
Mas não tem como!»,
resume sem conflito.
Quanta lucidez!
Econômica com as palavras e sem dificuldade para manusear o MP5.
Filmou certinho o bate papo com o Adierson.
O presidente do conselho (taparica também?)
tinha mil compromissos.
Vi que poderia perder mais uma vez a oportunidade, resolvi dar uma carona para outro compromisso e fazer a entrevista no caminho.
Pedi para Rafaela «atacar» de câmera.
Adierson é terena e nasceu na aldeia Lagoinha, próxima a Aquidauana.
Veio morar na cidade aos 14 anos.
Começou a se envolver com política em 1989, no bairro Guanandi.
Hoje é uma das lideranças indígenas do 'tado e é quem faz a ponte entre os vereadores e o prefeito no andamento dos projetos que tramitam na Câmara.
Ressalta que Campo Grande é um exemplo de cidade com uma política indigenista, mas que falta muito ainda em termos 'taduais e mais ainda em âmbito nacional."
Em o momento, nossa maior reivindicação é que a prefeitura inclua professores indígenas na grade curricular das 'colas», aponta.
Engraçado como quanto mais conversava com as pessoas relacionadas a causa, ou com os próprios índios, mais a palavra Educação soava mais alto.
Educação. Educação.
Afinal, conhecimento (informação) é o bem mais valioso da Terra.
Já prevendo que a inclusão do índio na sociedade é um caminho sem volta, a prefeitura de Campo Grande ofereceu bolsas para seis professores indígenas darem aula de terena em Aquidauana.
Adierson reclama que a Escola Marçal de Souza, idealizada para ser um centro para 'tudantes indígenas principalmente e localizado na aldeia urbana de mesmo nome (a primeira aldeia urbana do Brasil), teve seu objetivo desvirtuado."
Ficou só no verbal.
A 'cola não é indígena.
70 % é aluno branco», afirma Adierson.
Não é fácil manter o pique com tanto vento contrário.
O terena define o que a Funai representa para o índio atualmente."
Tiraram tudo da Funai.
A Funai 'tá praticamente decadente.
Para a Funai só ficou demarcação de terras e a questão da documentação indígena.
Para a gente a Funai é só de enfeite», decreta."
Com os benefícios que a documentação indígena dá com a Funai e FUNASA tem branco tentando ser índio», garante o presidente do conselho, referindo-se a benefícios como conseguir remédios mais baratos ou mesmo de graça através dos órgãos do governo.
É preciso entender que quando se fala índio existe desde aquele que vive isolado da civilização, até o que mora perto do seu condomínio numa megafavela.
Ou então, os que habitam as aldeias urbanas, geralmente com casas germinadas.
Enquanto o suicídio-desnutri ção dos Guarani-Kaiowás de Dourados é um tremendo de um problema jogado para baixo do tapete, os terena não convivem com 'ta questão.
O suicídio entre eles é zero.
A professora Dulce garante que tudo se relaciona com a história que cada etnia teve com a proximidade com o branco.
Quanto mais violenta, mais difícil se mostra a co-relação."
Os terena conseguiram lidar melhor e ter posturas políticas para garantir a sobrevivência.
Os massacres que ocorreram dificultam a aproximação», lembra.
Junto com a professora Dulce 'tava o 'tudante de jornalismo Marcelo Eduardo da Silva, que vai semanalmente a aldeia Buriti.
Ele não enrola."
Aldeia não é coisa do outro mundo.
É como se fosse um bairro pobre de Campo Grande», compara. (
Fico pensando se isso ou bom ou ruim!)
Aos poucos vou entendendo que o projeto Jornal Voz Terena serve realmente para revitalizar (os acadêmicos não gostam que usem a palavra resgatar) a língua terena porque o que eles falam mesmo é português.
Mas a dificuldade para fazer circular 'te jornal é exemplar.
A primeira Edição saiu em abril de 2006.
Dois mil exemplares bancados por a própria UFMS na ausência de patrocínio.
O segundo número 'tá pronto desde dezembro de 2006.
Mas até hoje (13 de agosto de 2007) ainda não saiu.
Falta recurso para bancar a impressão.
Algo em torno de R$ 1.500!
Segundo a professora Dulce, quem vai «salvar a pátria» será um grupo da UERJ.
Precisou vir de longe a ajuda hein!?!
Sugeri que se montasse um blog do Jornal Voz Terena!
O Overmundo poderia ajudar inclusive abrindo 'paço para o projeto.
Mas nada é tão simples.
Em a aldeia não tem Internet.
O jornal é feito em cinco máquinas usadas doadas por os Correios.
Bem que podiam bancar os 1.500 para o jornalzinho não é mesmo?!
Até porque por o que o 'tudante Marcelo afirma, o tempo ideal para a feitura do jornal seria semestral.
Muito barato!
Não é possível que uma ação governamental para isso ou mesmo da sociedade não aconteça.
Como é incrível que nós, brasileiros, ainda tropeçamos em cascas de banana que já tinham de ficar há muito tempo para trás.
Enfeite-FUNAI!
Depois de tudo, a certeza que me ficou é que, para os terena, a integração com a civilização branca é resolvida.
Sem muitos dramas.
A celeuma é mais nossa (culpa?),
embora o massacre feroz tenha sido em cima de eles (de 100 % a 0,2 % em 507 anos e 112 dias).
A professora Dulce vai ao ponto."
A cultura é dinâmica e não 'tática.
Nós brancos não nos vestimos como nossos avós e não deixamos por isso de pertencer aquelas tradições da família.
Nós vamos ao shopping e agregamos outras culturas».
E por que os índios seriam diferentes?
Se você passou batido por os links (rs) é a chance de acessar os micro-vídeos produzidos por a Matula TV para 'ta matéria!
Aliás, aqui o texto é só um motivo para se chegar aos vídeos!
* Entrevista com a professora Dulce Lopes e 'tudante de jornalismo Marcelo Eduardo da Silva, sobre o Jornal Voz Terena.
Clique Aqui (parte 1) e Aqui (parte 2)!
* Entrevista com o terena Adierson Mota, presidente do Conselho Municipal dos Direitos e Defesa dos Povos Indígenas de Campo Grande.
Clique Aqui!
* Entrevista com o terena-taparica Edson!
Clique Aqui.
* Entrevista com a Rafaela, terena de 16 anos.
Clique Aqui!
Importante:
Número de frases: 204
Para ver os micro-vídeos é indicado salvar primeiro no computador e só depois mandar abrir!
Pai do pancadão «e» padrinho do hip hop " são apenas alguns dos apelidos que os amantes do gênero usam para expressar o trabalho desse artista que modificou a cultura de rua em 'cala global.
Seu nome é Kevin Donovan, mais conhecido como Afrika Bambaataa, dj, produtor e um dos fundadores do Hip Hop, movimento que influenciaria gerações de artistas e militantes dos movimentos sociais, e, até mesmo na criação, do que hoje chamamos de funk carioca.
Nem sempre 'se respeito e admiração foram conquistados através da música.
Em a década de 60, o então jovem Kevin Donovan era líder dos «Espadas Negras», uma das mais perigosas gangues do Bronx, bairro pobre do 'tado de Nova Iorque e de maioria negra.
A sua trajetória parecia destinada a repetir as histórias de diversos outros jovens que morriam por disputas de gangues por pontos de drogas na comunidade.
A grande mudança na sua vida veio a partir do momento em que ele e os demais integrantes dos Espadas Negras perceberam que as brigas não iriam transformar a sua realidade e muito menos da comunidade.
A partir de 'sa mudança de olhar, eles se entregaram a uma cultura de rua que surgia em Nova Iorque e integrava as pessoas promovendo festas com rap, break e grafite, elementos que viriam a formar o conceito de Hip Hop.
Bambaataa e os demais membros de sua antiga gangue formaram um grupo que pretendia reunir todos os rivais, através de alguns preceitos.
Assim surgia a Universal Zulu Nation, que tinha como lema:
«Paz, Unidade, Amor e Diversão».
Hoje, com quarenta e oito anos, ainda continua um ativista das causas sociais através da música 'palhando as sementes de que música e comprometimento social andam juntos.
«Eu já viajei para várias partes do mundo e 'tive em diferentes favelas e sempre digo aos jovens que encontro para se organizarem e protegerem sua comunidade.
Não 'perem que o governo faça algo.
Corram atrás dos seus direitos», disse Bambaataa durante a entrevista que promovia a sua turnê no Brasil.
A origem do nome Zulu Nation, foi inspirado no filme «Zulus», do diretor americano Cy Endfield, no qual 'sa tribo de guerreiros que viviam na África do Sul lutavam contra a dominação britânica no final do século 19.
O grupo que surgiu há trinta e quatro anos virou uma organização mundial contando com milhares de adeptos em vários países, inclusive no Brasil, que ajudam a difundir princípios como respeito, liberdade, justiça, trabalho e auto-conhecimento para jovens de periferia, em 'pecial a mais carente de serviços básicos.
«Muitos afro-brasileiros não conhecem seu passado.
Muitos pensam que a história começa apenas quando foram trazidos por os europeus como 'cravos ao Brasil.
Se você acreditar que sua história se resume a apenas isso, você será somente isto.
Mas quando se começa a procurar suas raízes descobre-se coisas que muitos não querem te ensinar».
Bambaataa e a Rocinha
Os B.
boys, como são chamados os dançarinos de break, do Grupo de Break Consciente da Rocinha (GBCR) entraram para a Zulu Nation através de um convite do próprio mentor.
Há 14 anos desenvolvendo trabalhos sociais usando a filosofia do Hip Hop em algumas comunidades do Rio, como no Complexo da Maré e Rocinha, eles conheceram Bambaataa durante uma apresentação do próprio em 2003, no Rio de Janeiro.
Para o dançarino Willamy Sequeira (Zulu Will), o trabalho rompe barreiras através de oficinas de dança e grafite.
«Há cinco anos o grupo desenvolve 'se trabalho na Maré e os resultados começam a surgir com uma nova geração de dançarinos que 'tão surgindo na comunidade», afirma.
«Conhecer o Bambaataa foi um dos grandes momentos da minha carreira como dançarino.
Após o show ele me chamou no camarim e fez várias perguntas sobre o nosso grupo.
Em o fim daquela conversa, ele disse que gostaria de visitar o trabalho na Rocinha e nos convidou para fazer parte da Zulu Nation.
Para oficializar o convite ele me condecorou com um dos cordões que carrega no pescoço.
Quase morri de tanta emoção.
Eu que era fã de ele agora ia fazer parte do seu grupo», afirma Willamy, que excursionou por dois meses por a Europa com o Bambaataa.
O disco que mudaria o Hip-hop
A entrevista com Bambaataa não enfocou apenas os trabalhos sociais realizado por a Zulu Nation, mas também suas influências musicais.
Quando criou o grupo «The Soul Sonic Force» e lançou o disco Planet Rock, que seria um o marco do gênero, Bambaataa ajudou a expandir a cultura, que antes se restringia apenas aos guetos, para mais pessoas que ficaram curiosas com o batidão, que misturava musica eletrônica e letras politizadas.
O disco viria a influenciar milhares de artistas e também na criação de sub-gêneros como Miami Bass e o próprio funk carioca.
«Essa é a quarta vez que eu venho para o Brasil e gosto da mistura de música que existe por aqui.
Eu curto o funk carioca, inclusive já gravei algumas músicas com o DJ Malboro e com o MC Catra.
Também gosto muito da MC Tati Quebra-Barraco e gostaria de gravar um rap com ela, " diz Bambaataa.
Para Sergio José Machado Leal, o DJ TR, autor do livro «Acorda Hip Hop!», que narra a história do movimento no Brasil, a música Planet Rock mudaria para sempre a cultura de rua no mundo e no Rio de Janeiro.
«Essa música ajudou a divulgar para a geração dos anos 80 o que era o Hip Hop e sua cultura, além de abrir as portas para o surgimento de outros gêneros.
A leitura eletrônica do rap criado por Afrika Bambaataa transformaria os bailes blacks, que antes eram influenciados por a geração Black Rio, que tocava a funk music e o soul americano.
Aos poucos as equipes de som como Cash
Box e Furacão 2000 foram introduzindo aquele 'tilo que no futuro iria dar no funk carioca».
Imagem deturpada
Em a entrevista, Bambaataa também criticou a imagem 'tereotipada do gênero Gangster Rap, que exalta a violência e o consumismo, que as gravadoras e rádios querem associar ao movimento.
«Nós temos que continuar trabalhando para mostrar todas as vertentes do Rap e não apenas um 'tilo que as rádios querem te obrigar a 'cutar.
Existe um mal dentro do Hip Hop, que quer programar o seu ouvido», afirma Afrika.
O DJ TR também concorda que a imagem que chega do Hip Hop no Brasil é muito atrelada a interesses econômicos que deturpam os verdadeiros valores da reflexão original.
«O que o grande público vê e ouve através das rádios e tevês são produtos enlatados feitos para consumo imediato e sem maiores reflexões.
Quem ouve e se identifica acaba retransmitindo algo que nada tem a ver com a filosofia original e aquele que não gosta não tem o interesse de ouvir outras coisas relacionadas a cultura Hip Hop», lamenta.
O tempo da entrevista 'tava terminando e Bambaataa continuava sereno olhando a movimentação dos repórteres ao redor.
Depois de tantos anos 'palhando a cultura do Hip Hop por diversos países ele não pensa em parar.
«Por mais que o gênero 'teja conhecido, ainda existem muitas pessoas que desconhecem a verdadeira filosofia do movimento, seja na África ou nos Países Nórdicos.
Não podemos aceitar com tanta facilidade aquilo que mostram como verdade.
Precisamos analisar o mundo através de várias perspectivas e a partir daí formar a nossa opinião».
Número de frases: 57
Por Chico Ciccone
Filho de Xangô, sociólogo, intelectual orgânico (auto-didata), militante das causas negras, engajado, polêmico, aglutinador, radialista e cineasta são algumas das possiveis definições necessárias para descrever o perfil de José Lino Alves de Almeida.
Desde seu falecimento, em julho de 2006, Lino tem sido homenageado em diversos lugares do mundo, o que revela a sua importância no contexto da militância por a igualdade e afirmação da identidade racial negra.
Lino deixou uma lacuna nos movimentos sociais que lutam por as causas negras.
No entanto, Rita Honotorio, que foi casada com ele nos seus últimos oito anos de vida, pretende levar adiante as idéias do marido.
«Claro que eu jamais poderia substitui-lo, mas farei tudo que tiver ao meu alcance para difundir a sua ideologia», promete.
Rita é membro ativo do Núcleo Cultural Afro-Brasileiro, criado por Lino na década de 70, e já enumera os projetos do sociólogo que serão continuados.
De entre as obras que o intelectual deixou inacabadas, 'tá o documentário Gilberto Gil -- Ministro de Xangô, para o qual a viúva procura um cineasta que mais se aproxime do perfil de Lino.
O núcleo vai lançar ainda um livro eletrônico da vida e obra do ativista, além da trilha sonora do filme A Bahia do Afoxé Filhos de Gandhy, que já 'tá finalizada.
Há também o projeto da criação de um memorial com a produção intelectual do sociólogo e a sua biblioteca pessoal que conta com mais de 3 mil títulos.
O pesquisador musical Jorge Portugal também deve prosseguir com o documentário, iniciado em parceria com Lino, sobre a origem do Samba, que teria nascido na Bahia.
O Militante -- Lino de Almeida sempre foi engajado, desde adolescente já lutava por as idéias em que acreditava.
Em a década de 70, era pioneiro na militância do movimento negro baiano e, em 'sa época, já defendia o sistema de cotas, tanto nas universidades quanto no mercado de trabalho.
Ele também foi responsável por a organização do primeiro ato de afirmação do dia 20 de novembro, como dia da consciência negra, que posteriormente se tornaria feriado no Rio de Janeiro.
Em 1978, o intelectual representou a Bahia na primeira executiva nacional do Movimento Negro Unificado.
Após a morte de Bob Marley, deixou os dread locks (cabelo rastafari) crescerem e assumiu a cultura reggae como forma de incorporação de elementos de identidade.
«Lino traduzia as músicas de Reggae e usava as letras para incentivar uma mudança de comportamento da sociedade», afirma Rita Honotorio.
Em 1981, o sociólogo criou a Legião Rastafari, que se tornou um dos maiores movimentos de resistência negra.
O Intelectual -- Sociólogo, 'tudioso e pesquisador das ciências humanas e sociais, auto-didata, Lino possuía uma bagagem intelectual tão extensa quanto a sua aplicação nas causas políticas e sociais.
Apesar de ser palestrante e conferencista de renome internacional -- sempre fazia intercâmbios nos Estados Unidos e na Jamaica-, o ativista desprezava a academia, que considerava restrita às discussões no planos das idéias, sem executar ações práticas, além deixar os negros ao largo dos debates.
«Ele nunca gostou disso porque sempre viu o negro como agente das discussões e não um objeto de estudo», explica Rita.
O Comunicador -- «Sociólogo por formação e comunicador por opção».
Essa é a definição de Rita Honotorio de mais uma das facetas de Lino de Almeida, que também surgiu devido a sua militância nas causas negras.
Por sempre pedir um 'paço nas grades das programações das rádios de Salvador, o ativista descobriu o seu talento nos microfones.
Em 1986, 'treou seu próprio programa, Rasta Reggae, na Itaparica Fm.
Paralelo à sua carreira no rádio que durou mais de 20 anos, Lino atuou com êxito no mercado fonográfico com a produtora S12.
Entre os destaques dos vários artistas que produziu, 'tá o primeiro trio de Reggae do mundo, que teve como atração o cantor jamaicano Jimmy Clif.
O Homem -- Lino de Almeida nasceu em 1958, no bairro da Liberdade, em Salvador.
Sempre foi muito apegado a família, seus três irmãos e a mãe era sua grande musa.
Praticante do Candomblé, era filho de Xangô, destinado a guerrear em nome da justiça e da vida plena.
«Lino era um apaixonado e amava muito a vida, mesmo com câncer ele continuou trabalhando intensamente, as pessoas nem sabiam que ele 'tava doente», lembra Rita.
O sociólogo também era muito lembrado por a sua adoração por a beleza e alegria.
Ele era vaidoso, vestia-se sempre com elegância e usava os melhores perfumes.
«Diziam que ele era o homem mais cheiroso da Bahia», brinca a viúva.
Outro traço marcante da personalidade do intelectual era a sua capacidade de aglutinar pessoas de pensamentos distintos.
«O Lino tinha um discurso radical, polêmico, mas transitava por todas as áreas da sociedade, todos os partidos políticos e mesmo assim conseguia aderência das pessoas para as suas causas», comenta Rita.
Segundo a viúva, o ativista não se preocupava se alguém era branco ou negro, só o que importava era o 'pírito de justiça, a garra e luta contra o preconceito.
Número de frases: 37
«Você 'tá por fora, Caetano.
Veja o programa do Roberto Carlos.
Ele é que é forte.
O resto 'tá ficando um negócio chato, tão chato que prefiro cantar músicas antigas.
Largue 'se violão e cante com uma guitarra.
O violão é muito pouco para você!
Escolha um instrumento que tenha o mesmo grito, que tenha o seu gesto».
De Maria Bethânia para seu irmão Caetano Veloso, ano de 1967 (Calado, Carlos, Tropicália: A história de uma revolução musical, Editora 34).
Citação encontrada na internet e obviamente de veracidade questionável.
Não cabe a mim investigar nada e a preguiça também não colabora.
Ficamos na dúvida por fim.
Sobre o Álbum
Eu não sei bem o que Caetano pensa hoje sobre 'se disco, nem sei direito o que ele pensava quando o lançou em janeiro de 1968.
Já ouvi dizer ou li em algum lugar sem importância, que foi, para ele, o mais próximo que podia produzir do que foi sugerido por «Terra em Transe, de Glauber Rocha lançado em 1967».
Provavelmente também foi o mais próximo que ele pode condensar do que foi mostrado por o «Sgt Peppers», dos Beatles, por o» Are you experienced?», de Jimi Hendrix, por o «Piper at Gates of Dawn do Pink Floyd» ou por o «Pet Sounds», dos Beach Boys.
Esses discos, suas experimentações, instrumentos inusitados e guitarras elétricas a todo vapor, influenciaram naturalmente a nova 'tética adotada por Caetano e por os tropicalistas (em 'pecial Os Mutantes), assim como o fez a bandinha de pífano de Caruaru, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Vicente Celestino e toda cultura popular brasileira.
As cabeças 'tavam realmente piradas, não há dúvida;
surgia a vontade de misturar tudo, de mesclar isso com aquilo, de devorar das mais diversas influências.
As idéias de Oswald de Andrade 'tavam mais atuantes do que nunca.
Antropofagia era a palavra da vez, a atitude da vez.
Mas os nomes haviam sido substituídos.
Ao invés de Oswald, Mário de Andrade, Pagu ou Tarsila do Amaral;
tínhamos Gilberto Gil, Torquato Neto, Gal Costa, Rogério Duprat e Tom Zé.
Tínhamos Caetano e toda a caretice de «Domingo», seu primeiro disco gravado juntamente com Gal Costa, podia ser 'quecida.
Aqui temos outro Caetano.
Nada de violãozinho na mão brincando de João Gilberto e cantoria simples, bem modada e retrógrada, onde todas as canções soam como uma só.
Nada disso.
Aqui temos a tropicália, temos a brincadeira.
Nada de Bossa Nova, nada de Jovem Guarda.
Ou melhor, um pouco de cada coisa;
tudo misturado num acorde só.
Aqui temos uma proposta nova, uma 'tética nova.
E como tudo que é novo, choca por si só.
Não precisa de adornos ou caraminguás para isso.
A tropicália faz de ela por ela mesma, não precisa de idiota algum para dizer isso.
Ainda assim, venho aqui para dizer e voltando ao que não sei, também não sei o que os críticos musicais da época 'creveram e falaram sobre 'se disco, afinal são poucos os detalhes históricos que conseguem perpassar os anos, sem serem 'quecidos em algum dado momento.
Provavelmente os mais conservadores devem ter criticado levando em conta o sentido negativo da palavra.
Devem ter se chocado facilmente, acostumados ao que era produzido no Brasil até então.
Muitos dos jovens ditos engajados também não viram a tropicália com bons olhos.
Associavam o Rock and Roll com imperialismo e não aceitavam sua introdução na música popular brasileira.
Quase armoriais de tão púdicos.
Hoje ninguém se choca mais e os críticos terminam por ser excessivamente ufanistas e ...
apenas isso, o que é mais perigoso.
Não os levem a sério e falo sobre mim também.
Somos um bando de pretensiosos sem noção alguma.
Mas, continuamos mesmo assim.
Em a verdade, a maioria das pessoas em 1968 não deve ter entendido nada.
Nada do que fazia Caetano, nem Duprat, nem Os Mutantes, nem Tom Zé.
Assim como não entendiam nada do que Glauber Rocha queria dizer.
Até hoje, muitos não entendem.
Manter um nível intelectual dentro de uma sociedade como a brasileira termina por se tornar elitista invariavelmente.
Foram poucos os que conseguiram romper 'sa barreira e se tornar «cabeça» e popular ao mesmo tempo.
Chico Buarque que o diga.
Mas isso não importa.
A culpa não é do artista.
Esse disco, intitulado só como «Caetano Veloso» mostra para o que veio desde a capa produzida por o artista gráfico Rogério Duarte.
Seria um quadro qualquer, extremamente colorido, de uma mulher seminua e um dragão, senão fosse por o rosto de abuso de Caetano que surge quase como uma colagem em meio a isso.
Agora pensando bem, acho que se trata de um 'pelho para quem olha de frente o vinil.
É o primeiro registro tropicalista.
Lançado meses antes do disco-manisfesto «Tropicália ou Panis et Circenses».
Meses antes de Gilberto Gil ou Tom Zé ou Duprat lançarem seus também discos tropicalistas.
Caetano 'tava um passo a frente, 'tava com a cabeça afundada dentro da nova 'tética ainda que muitos digam que ele simplesmente aproveitou o momento histórico e que a tropicália aconteceria do mesmo jeito com ou sem sua presença.
Nunca iremos saber, nunca iremos chegar num denominador comum partindo de 'sa discussão infundada.
Esse pode não ser o disco mais tropicalista, mas é o primeiro e isso deve ter algum valor histórico.
É de ele que partem as sugestões, as loucuras que viriam a se concretizar posteriormente nas mãos e vozes dos mais diversos artistas.
É como se fosse a fonte brasileira que dá os primeiros suprimentos para o surgimento de uma floresta.
Depois a fonte pode até ser 'quecida, afinal a floresta já tem vida própria e produz novas fontes muito mais interessantes.
Sem dúvida, 'se não é o melhor, nem o disco mais tropicalista.
Mas é o primeiro e isso deve ter algum valor histórico.
Sobre as músicas
1. Tropicália (Caetano Veloso)
2. Clarice (Caetano Veloso e Capinam)
3. Em o dia que eu vim-me embora (Caetano Veloso e Gilberto Gil)
4. Alegria, alegria (Caetano Veloso)
5. Onde andarás (Caetano Veloso e Ferreira Gullar)
6. Anunciação (Caetano Veloso e Rogério Duarte)
7. Superbacana (Caetano Veloso)
8. Paisagem útil (Caetano Veloso)
9. Clara (Caetano Veloso)
10. Soy loco por ti América (Gilberto Gil, Capinam e Torquato Neto)
11. Ave Maria (Caetano Veloso)
12. Eles (Caetano Veloso e " Gilberto Gil)
«Quando Pero Vaz de Caminha descobriu que as terras brasileiras eram férteis, 'creveu uma carta ao rei:
Tudo que em ela se planta, tudo cresce e floresce.
E o Gaus da época gravou ..."
Tropicália (a música) começa com a improvisação do baterista Dirceu fazendo uma alusão à carta de Pero Vaz de Caminha e alguns sons bem 'tranhos acompanham sua jornada.
E só para constar, ' Gaus ' era o técnico de som do 'túdio onde o disco 'tava sendo gravado.
Essa música não poderia começar de outra maneira, afinal no jogo de referências a que se propõe, o ponto de partida só poderia ser 'te.
E 'se é um disco muito referencial.
Sejam os heróis sob uma base de ironia em «Superbacana» ou a pseudo-imita ção da pronúncia vocal de Nelson Gonçalves em «Onde Andarás».
Obviamente só sei disso porque li em algum lugar sem importância, afinal eu nunca ia saber que Caetano 'tava fazendo referência à pronúncia vocal de Nelson Gonçalves em qualquer música que fosse.
Faça-me favor.
Eu só noto uma pronúncia vocal 'tranha de fato.
Por sinal, uma música de Ferreira Gullar e Caetano Veloso, em teoria, só poderia chamar a atenção.
Só em teoria mesmo, porque «Onde andarás» passa quase que despercebida.
Quando não é passada de propósito.
E sinceramente não sei o que é pior.
A música tem algo de sujo que atrapalha o entendimento da letra e convenhamos que a letra não é lá 'sas coisas.
Mesmo que fosse uma música limpa, não íamos ter muito o que 'cutar.
Falemos de outras músicas então.
«Superbacana», por exemplo.
Essa é uma canção divertida pacas, uma metralhadora referencial e imagética, que só tem como problema o fato de ser curta demais.
É a mais curta de todo disco.
Tudo bem que algumas más línguas dizem que enjoam fácil de ela.
Eu, particularmente, acho difícil de enjoar.
E eu poderia cair naquele trocadilho péssimo e chamar a música de superbacana, mas eu resolvi me conter de 'sa vez.
O humor refinado desses versos não merecem isso.
Nem eu.
Nem vocês.
Quer dizer, vocês eu não sei.
Voltando a Tropicália, é importante dizer que 'sa canção, assim como Alegria, possui uma nostalgia inerente a ela e maior do que podemos enxergar num primeiro momento.
Trata-se de uma nostalgia tão grande, e ao mesmo tempo tão melancólica, que atinge perfeitamente até os que não viveram a época em que tais músicas foram lançadas.
É possível 'cutar os versos e sentir cada detalhe do final da década de sessenta;
'sas duas músicas, em 'pecial, parecem conseguir recriar, reproduzir sozinhas todo o ano de 1968.
E todo clima.
Além de nos provocar uma saudade do que não vivemos, da geração o qual não fizemos parte, mas que ainda assim nos aproximamos naturalmente.
Essas duas músicas não possuem todo teor político e dramático de Geraldo Vandré, ainda que possuam seu próprio tom quanto a posições políticas.
Há uma leveza lançada através de imagens e idéias, uma atrás da outra, sem cessar.
E talvez 'se bombardeio não seja conseqüência apenas da 'tética das canções, mas sim do fato de sermos crias da Geração Videoclipe que transforma todos os sentidos em produtos imagéticos.
Tropicália e Alegria, Alegria fazem uma incrível diferença no conceito (e na qualidade) do disco com um todo.
Não só por serem os símbolos da 'tética recém nascida e já quase morta que Caetano buscava.
Não só por isso.
Essas duas músicas surgem como um desvio da 'querda presa a conservadorismos 'téticos, ao mesmo tempo que se contrapõe à direita autoritária.
Traça um caminho único, próprio.
E talvez Caetano não tivesse noção disso até ser vaiado enquanto cantava «É Proibido Proibir» com Os Mutantes como banda de apoio, no III Festival Internacional da Canção.
Por outro lado, pra quem 'perava que o disco tropicalista de Caetano fosse uma seqüência de músicas 'teticamente coerentes às idéias do movimento e consequentemente sem coerência alguma, pode achar «Clarice» um pouco distante da proposta.
Até Caetano achava para falar a verdade.
Mas não se enganem.
«Clarice» não é uma música despretensiosa como parece ser.
A melodia carrega uma tristeza imensa, conta a história do recato, do pudor através da inocência de uma triste garota que termina por se despir.
Tudo carrega uma melancolia e um mistério.
A própria música brasileira 'tava se despindo naquele momento histórico.
O Tropicalismo era isso, era a possibilidade de ficar nu.
E foi o que Clarice fez.
A outra mulher do disco é «Clara».
É uma música curta, que não me emociona, mas que obviamente reconheço o seu valor.
Em a verdade, gosto de alguns momentos, principalmente a troca vocal entre Gal e Caetano e algumas quebras de ritmo, mas a repetição de um mesmo nome várias vezes sempre me irritou.
E com Claaaara, Claaaara não poderia ser diferente.
Temos ainda Maria, em «Anunciação» e em «Ave Maria».
A primeira tem uma letra boa, realmente boa mas que terminou encaixada numa melodia de qualidade duvidosa.
E novamente tem a repetição irritável várias e várias vezes:
Maaariaaa, Maaariaaa.
Já a segunda é o tipo de música que não muda a vida de ninguém, mas que tem uma melodia que me agrada por algum motivo o qual não saberia explicar direito.
De qualquer maneira, não merece mais comentários.
Vamos adiante.
Falemos de «Soy loco por ti, América» agora.
Não sei de onde surgiu meu abuso para com 'sa música.
Provavelmente da abertura da novela.
Só pode.
É difícil uma música se tornar tema de novela e depois não se tornar odiada por metade da nação.
Ninguém agüenta 'cutá-la todo dia.
E isso se aplica pra quem assiste e pra quem não assiste à novela.
Porque invariavelmente alguém 'tará assistindo e invariavelmente você vai terminar 'cutando.
E 'cutando.
E 'cutando.
Caetano cantando não convence.
Misturando 'panhol com português fica mais tosco ainda.
Essa música é brega.
Brega até dizer basta e algumas pessoas ainda vêm dizer que é tropicalista pra burro, que é uma homenagem a Che Guevara que havia morrido no ano anterior, que proclama a revolução comunista na América Latina.
Poupem-me.
Está muito mais para a Carmem Miranda do que qualquer outra coisa.
E que se dane Che Guevara, a pseudo-revolu ção e 'sa música.
Não me importo, vamos adiante.
Em a seqüência ilógica da minha cabeça surge «Em o dia em que eu vim-me», uma canção meio autobiográfica que ultrapassa os limites da história pessoal de Caetano ou Gil.
De a história pessoal do tal «eu-lírico» seja lá quem ele for.
A autobiografia em 'se caso é a biografia de meio mundo de pessoas.
Não 'tou chamando de clichê, apenas de comum.
É uma música que se sustenta no silêncio e no não-dito de seus personagens.
A mãe, a irmã, o pai ...
o próprio Caetano que já não sabe o valor dos sonhos que sonha e não tem mais a certeza sobre os caminhos que 'colhera a trilhar.
E quantas vezes questionamos nossas atitudes enquanto as construíamos?
Isso é o tipo de coisa que acontece o tempo todo.
Vamos caminhando vagarosamente.
«Paisagem Útil» é uma música interessante, parece dar todo tom de uma canção qualquer, até que mostra saídas criativas tanto na letra como no ritmo.
Em o laço que os une.
É uma pintura impressionista e surrealista, pintada através de olhos incomuns, mas extremamente sensíveis.
Há algo de surreal impresso numa realidade sugestiva, uma dança sem sentido de Monet com Salvador De ali.
Por fim, temos a última música do disco:
«Eles». Trata-se do grande momento tropicalista.
Não é tão famosa quanto às irmãs «Tropicália» e «Alegria, Alegria», mas segue a mesma 'tética e a leva ao ponto que precisa.
Experimentação na medida.
Crítica política na medida.
Melodia na medida e Mutantes nos instrumentos pirando.
E pirando.
Tem um clima sombrio, uma guitarra descompromissada e ótima;
é um dos melhores momentos do disco e da 'tética tropicalista em si.
Até na falta de rima a música se excede.
Caetano não podia fechar melhor sua obra.
E como ele mesmo diz, Os Mutantes são demais.
Documentação extra:
* Contracapa do disco -- Caetano Veloso
Que maravilhoso país o nosso, onde se pode contratar quarenta músicos para tocar ' um ' uníssono. (
Miles Davis, durante uma gravação).
Antes havia Orlando Silva & flautas e até mesmo no meio do meio dia.
Antes havia os prados e os bosques na gravura dos meus olhos.
Antes de ontem o céu 'tava muito azul e eu e ela passamos por baixo desse céu, ao mesmo tempo com medo dos cachorros e sem muita pressa de chegar do lado de lá.
do lado de cá não resta quase ninguém.
Apenas os sapatos polidos refletem os automóveis que, por sua vez, polidos, refletem os sapatos assim per omnia até que (por absoluta falta de vento) tudo sobe num redemoinho leve, me deixando entrever um resto de rosto ou outro, pedaços, amém.
Marina sabe a história do pelicano etc. o peito aberto e rasgado etc. mas que nada:
quando a gente não tem nenhuma necessidade de ir para os States não há mesmo mais 'perança.
Eu gostaria de fazer uma canção de protestos de 'tima e consideração, mas 'sa língua portuguesa me deixa rouco.
Os acordes dissonantes já não bastam para cobrir nossas vergonhas, nossa nudez transatlântica.
E, no entanto, Ele é um gênio:
quem ousaria dedicar 'te disco a João Gilberto?
Quantos anos você tem?
Como é que você se chama, quando é que você me ama, onde é que vamos morar?
Os automóveis parecem voar, os automóveis parecem voar por cima (mas mais alto que o Caravelle) dos telhados azuis de Lisboa, dos teus olhos, dos mais incríveis umbigos de todas as mulheres em transe, dos teus cabelos cortados mais curtos que os meus, meu amor, porque eu não quero, porque eu não devo explicar absolutamente nada.
P.S.:
Gil, hoje não tem sopa na varanda de Maria.
* Caetano Veloso, em 1968, no III Festival Internacional da Canção após ser vaiado, enquanto cantava " É Proibido Proibir "
Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?
Vocês têm coragem de aplaudir, 'te ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado!
São a mesma juventude que vão sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!
Vocês não 'tão entendendo nada, nada, absolutamente nada.
Hoje não tem Fernando Pessoa.
Eu hoje vim dizer aqui, que quem teve coragem de assumir a 'trutura de festival, não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve 'sa coragem de assumir 'sa 'trutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu.
Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu!
Vocês 'tão por fora!
Vocês não dão pra entender.
Mas que juventude é 'sa?
Que juventude é 'sa?
Vocês jamais conterão ninguém.
Vocês são iguais sabem a quem?
São iguais sabem a quem?
Tem som no microfone?
Vocês são iguais sabem a quem?
àqueles que foram na Roda Viva e 'pancaram os atores!
Vocês não diferem em nada de eles, vocês não diferem em nada.
E por falar nisso, viva Cacilda Becker!
Viva Cacilda Becker!
Eu tinha me comprometido a dar 'se viva aqui, não tem nada a ver com vocês.
O problema é o seguinte:
vocês 'tão querendo policiar a música brasileira.
O Maranhão apresentou, 'te ano, uma música com arranjo de charleston.
Sabem o que foi?
Foi a Gabriela do ano passado, que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar por ser americana.
Mas eu e Gil já abrimos o caminho.
O que é que vocês querem?
Eu vim aqui para acabar com isso!
Eu quero dizer ao júri:
me desclassifique.
Eu não tenho nada a ver com isso.
Nada a ver com isso.
Gilberto Gil 'tá com mim, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil.
Acabar com tudo isso de uma vez.
Nós só entramos no festival pra isso.
Não é Gil?
Não fingimos.
Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não.
Ninguém nunca me ouviu falar assim.
Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby.
Sabe como é?
Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as 'truturas e sair de todas.
E vocês?
Se vocês forem ...
se vocês, em política, forem como são em 'tética, 'tamos feitos!
Me desclassifiquem junto com o Gil!
Junto com ele, tá entendendo?
E quanto a vocês ...
O júri é muito simpático, mas é incompetente.
Deus 'tá solto!
Fora do tom, sem melodia.
Como é júri?
Não acertaram?
Qualificaram a melodia de Gilberto Gil?
Ficaram por fora.
Gil fundiu a cuca de vocês, hein?
É assim que eu quero ver.
Número de frases: 268
Chega!
Eu e minha namorada temos uma lista mental de grandes idéias para filmes que viraram grandes decepções.
Apesar de Dias Gelados não ter uma grande idéia, na verdade uma idéia muito intrigante, e uma decepção tardia não necessariamente o remove de 'ta lista.
A noite em Tel-Aviv.
Nada há de surpreendente, apenas mais uma noite em qualquer cidade grande do século XXI.
A princípio o destoante é a não identificada personagem principal.
Uma bela jovem que vive em apartamentos vagos e perambula por a noite em busca de clientes para sua mercadoria líquida e ilícita.
Tudo é calmo e quieto, a personagem parece tão desprovida de sentimentos ou personalidade quanto a cidade à sua volta.
O único momento em que ela se permite sentir é quando nos permitem ver em cores.
Mas é em 'te momento que nos é lembrado onde 'tamos:
Um homem-bomba ataca a boate onde ela e seu amigo 'tão sem que eles possam se encontrar definitivamente.
O filme segue então num redemoinho de paranóia e identidades trocadas semelhante a filmes como Clube da Luta, Solaris, Os Outros e obras de Hitchcock.
A garota, agora chamada Alex diz não ser Alex, mas também não é capaz de identificar-se, o 'pectador não é capaz também.
Como em filmes característicos de David Lynch somos forçados a mentalmente rever eventos enquanto pequenas pistas da verdade são lançadas em rápidas seqüências.
Enquanto tentava costurar o mistério não podia deixar de tentar fazer uma conexão com A Scanner Darkly, visto ontem, mas em vão.
E é aí que a decepção tardia acontece.
O filme parece ignorar a perspicácia do 'pectador e toma o caminho mais fácil.
Apresenta uma solução quando teria lucrado muito mais na total ausência de uma.
Um adendo:
O filme vale a pena ser visto, mas o final pode mesmo desapontar.
Número de frases: 20
Vale a pena também registrar o descaso do Cine Bombril em deixar o filme fora de foco por cerca de cinco minutos, tempo que foi muito maior na seção de Sexta-Feira (21) de Flandres.
As apresentações do Coral das Lavadeiras e de Carlos Farias em Teófilo Otoni, durante as comemorações do Bicentenário de nascimento do fundador da cidade, foram coroadas de êxito.
O grupo arrastou multidões por onde passou.
Em a noite de abertura do festival da canção, 30 de novembro, milhares de pessoas compareceram diante do palco, na Praça Tiradentes, e dançaram, cantaram, brincaram de roda e se emocionaram diante da autenticidade, força e beleza do 'petáculo «batendo roupa, cantando a vida».
Até o cantor Tadeu Franco, que se apresentou depois, não se conteve: "
Carlos, eu não fazia idéia da importância do trabalho de vocês ...
Agora eu compreendo».
Em o domingo, 2 dezembro, duas centenas de pessoas foram ao auditório do SESC para a «conversa de lavadeira».
Momento de compartilhar experiências.
às 10 horas da manhã, com o sol ardendo na pele, todos saíram em cortejo por a Av..
Luiz Boali, para a «bênção das águas» na Praça Tiradentes.
As Pastorinhas da Paz e o Grupo de Folia de Reis Imaculada Conceição revezavam com as lavadeiras na condução das cantigas.
Tambores, cavaquinho, violão, sanfona, palmas, vozes ...
Novas pessoas fizeram crescer o cortejo.
Em a Praça Tiradentes, principal 'paço de convivência da cidade, uma multidão aguardava as lavadeiras.
Em seguida, todos se dirigiram para o 'pelho dágua situado perto da velha locomotiva Maria Fumaça, lembrança da antiga Bahia e Minas.
Enquanto as lavadeiras, as pastorinhas e os foliões se postaram sobre a ponte, a multidão circundou o lago.
Crianças, jovens, idosos e até os bicho-pregui ça, do alto das árvores centenárias, ficaram em silêncio para acompanhar a cerimônia ecológica.
Após a saudação da prefeita Maria José Haueisen e das palavras do compositor Carlos Farias, explicando a importância simbólica do evento, todos cantaram com Valdênia Lavadeira a extraordinária canção «Senhora Santana».
Flores e pétalas foram atiradas na água.
Aplausos calorosos sinalizaram o fim do ato público.
A alegria tomou conta de todos, revelando, de entre inúmeras interpretações, o poder de transformação proporcionado por a cultura popular.
Senhor, abençoe as águas e as lavadeiras do mundo!
PS:
saiba mais sobre as lavadeiras nos seguintes endereços:
http://www.coraldaslavadeiras.com.br
Número de frases: 26
http://www.myspace.com/lavadeirasdealmenara http://www.myspace.com/carlosfariasmaxakali Responsável por as tirinhas do roqueiro Bzão, Pedro de Luna fala sobre sua criação que completa dois anos de sucesso
Em a próxima terça-feira (16/9), o ilustrador de quadrinhos carioca, Pedro de Luna, participa de um bate papo descontraído com o pessoal do Habbo Hotel.
O quadrinista é responsável por a criação do personagem Bzão, um cara topetudo, que com sua banda de rock, leva um 'tilo de vida bastante alternativo.
O personagem, que acabou de completar dois anos de «vida», foi criado por ocasião do Dia Mundial do Rock e pode ser visto no blog:
http://www.jblog.com.br/quadrinhos.php.
Pedro de Luna
Quando: terça-feira, 16 de setembro, às 16h
Onde: www.habbo.com.br
Como participar:
basta se cadastrar e garantir sua entrada nas salas!
Sobre o Habbo Hotel
Habbo Hotel é uma comunidade virtual para jovens com idades entre 13 e 17 anos.
Eles participam criando um personagem online chamado Habbo e podem 'colher sexo, cabelo, roupas, sapatos e acessórios.
A partir de então podem explorar os vários ambientes e acontecimentos do hotel, fazer novas amizades, participar de vários jogos, decorar seus quartos, criar atividades com os amigos e exercitar a auto-express ão.
A versão em português da comunidade abrange brasileiros e portugueses desde fevereiro de 2006 e tem mais de cinco milhões de personagens, com cerca de 415 mil novos hóspedes por mês e 7 milhões de visitas mensais.
O mundo virtual 'tá presente em 32 países nos cinco continentes e já contabiliza mais de 100 milhões de personagens criados, com visitas de 9,5 milhões de usuários individuais a cada mês.
Os sites são operados por a companhia finlandesa Sulake Corporation, 'pecializada em entretenimento online.
Em os últimos cinco anos, o faturamento da Sulake cresceu mais de 800 % e sua receita dobra a cada ano.
Recentemente, a empresa foi destacada como uma das dez companhias de tecnologia que mais crescem na Europa segundo a consultoria Deloitte.
Imagens de divulgação 'tão disponíveis em:
www.sulake.com/press/image bank
Mais informações:
Linhas & Laudas Comunicação:
www.linhaselaudas.com.br Ana Cristina:
anacristina@linhaselaudas.com.br 55 11 3465.5888 (PABX)
55 11 3465.5860 (Direto)
RJ: Verônica Bittencourt -- veronica@linhaselaudas.com.br
Número de frases: 27
55 21 8276 9136
Quarta-feira, meio-dia.
Um helicóptero preto da Polícia Civil dá rasantes no morro do Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Os barulhos da hélice me trazem o pensamento para a possibilidade do início de mais um tiroteio no morro.
Concentrar-se em 'crever um texto é difícil.
Espero o dia seguinte.
Em o cemitério do Catumbi, os velórios haviam sido suspensos.
Velar um morto por lá ainda pode matar.
Pois mesmo que 'se pedaço do Rio de Janeiro não seja Zona Sul, Centro ou Zona Norte, é certo um lugar onde não há muita paz por aqui.
Nosso cotidiano carioca que mistura alegria, suor e tragédia quase não pode mais se 'pantar com a cor do sangue nem com a razão porque ele jorra dos corpos de nossos mortos.
De manhã, uma manifestação por a paz colocou 1.300 rosas num ponto da praia de Copacabana para nos lembrar quantos já morreram em 'ta guerra financiada por a indústria da violência tupiniquim.
As rosas e o sangue têm a mesma cor, mas isso pouco importa para quem morre.
Por o Brasil adentro brotam tantos exemplos de tragédias cotidianas que um massacre como o de Virginia Tech não pode mais nos chocar.
No máximo, um pequeno susto.
Apesar da diferença em como se mata lá e aqui, chama a atenção no caso da Virgínia a frieza de um assassinato em massa onde os que ficaram não podem dirigir a raiva a alguém, já que o único suspeito 'tá morto.
Haveria ainda alguma justiça a ser feita?
Como?
Mesmo que surjam vídeos, fotos ou cartas, nunca saberemos a ' verdade verdadeira ' de uma tragédia que massacra os 'pectadores do mundo inteiro contra o mais novo inimigo público dos EUA:
um coreano, ainda que do sul da Coréia.
Apesar de todo o sangue derramado e da surpresa em relação ao que nos lembra o que outra hora se chamou Columbine -- ou tantos outros nomes de 'colas nos EUA assoladas por o mesmo mal -- sabemos como poucos sobre assassinatos em massa, sejam eles cometidos por loucos ou não, com ou sem uniforme, legitimados ou não por o aparelho repressivo do Estado.
Não precisamos de um assassino no cinema, nem de uma menina que mata os pais e tem nome alemão.
Pouco precisamos de psicopatas.
Nossas instituições cuidam para que 'sa indústria da violência siga matando em endereço certo aos nossos próprios inimigos públicos:
nossos pobres.
A tragédia de mortes banalizadas que choca o mundo e é para nós uma dura realidade ainda custará muitas rosas.
Número de frases: 25
Inicia no próximo dia 6 de outubro o Porto Poesia 2 no Shopping Total Av. Cristovão Colombo, 545 -- Porto Alegre -- RS.
Em o seu segundo ano de realização o Porto Poesia já se constitui um dos maiores festivais de poesia do país.
Em 'te ano, entre as novidades do evento 'tão a realização em múltiplos 'paços do Shopping Total e a presença de convidados de outros Estados.
De acordo com Marco Celso Huffell Viola, organizador, a programação desse ano é resultado de um conjunto de sugestões de um comitê gestor do Porto Poesia e representa todas as tendências da poesia, hoje, no país.
Com relação à parceria com o shopping o organizador diz que:
«'sa parceria «dessacraliza a poesia, tirando-a de dentro das livrarias e colocando-a num dos 'paços mais tradicionais e belos da cidade, ao alcance de todos os públicos».
A segunda edição do festival Porto Poesia contará com uma programação intensa que contempla 12 palestras, 22 sessões de leituras de poesia, 4 rodas de poesias para crianças, 14 performances, 11 debates, 12 'petáculos, 10 oficinas, diversos lançamentos, sessões de autógrafos, saraus, apresentações livres, sessões de cinema e exposições de acervos, entre elas uma Mostra Nacional de Revistas de Poesia.
Serão 10 horas diárias de atrações totalizando 85 apresentações em 70 horas de atividades culturais.
A organização 'tima a participação de cerca de 8 mil pessoas, durante o evento.
Até o momento, mais de 98 profissionais da área da cultura e poetas têm a presença confirmada, entre eles, Armindo Trevisan, Alcy Cheuiche, Donaldo Schüller, José Eduardo Degrazia, Lau Siqueira, Liana Timm, Luiz Coronel, Mário Pirata, Oliveira Silveira, Jane Tutikian, Paulo Custódio, entre outros.
Como na edição anterior, a programação é gratuita e aberta ao publico.
O Porto Poesia é um festival de poesia concebido da união dos poetas locais, com o objetivo de abrir 'paço para as produções gaúchas e tornar conhecido 'te importante gênero literário, democratizando a informação literária em Porto Alegre, mobilizando pesquisadores, professores universitários, 'colas de ensino médio, tradutores de poesia, profissionais do teatro, músicos, artistas plásticos, letristas, e poetas convidados, propiciando o acesso à cultura e educação, 'timulando o desenvolvimento do gosto literário em crianças, jovens e no público em geral.
Além do Shopping Total o Porto Poesia conta com o apoio das Secretarias de Cultura do Estado, Municipal de Educação e de Cultura, Instituto Machado de Assis, Tronicks, Museu do Esporte, John Bull, La Passiva, Marcos Restaurante.
Assessoria De Imprensa-Marco Celso Huffell Viola-MTB 3858-fones 3339-1393 e 9175-6568.
Email-editoraoffice@yahoo.com.br
Número de frases: 15
Informações Gerais do Evento -- www.portopoesia2.blogspot.com
Nascido em Belo Horizonte, Ricardo Aleixo é poeta, músico, performer e professor.
Faz parte do Combo de Artes Afins Bananeira-Ciência, grupo que integra linguagens da poesia, música, da dança e do vídeo.
É curador do Festival de Arte Negra/FAN e da Bienal Internacional de Poesia/BHZIP.
-- Quando e como você começou a 'crever?
Como você descreve a sua poesia para o leitor?
Em termos de entrada em cena, digamos assim, a música veio antes da poesia.
Desde pequeno eu gostava muito de cantar.
Canções radiofônicas, coisas antigas que minha mãe cantava.
Por volta dos 11 anos, comecei a cantar num grupo vocal formado no colégio, que me serviu como iniciação musical.
Eu já gostava de poesia, mas só lá por os 17 anos comecei a 'crever.
Vêm de 'sa época, também, as primeiras músicas.
Curioso é que, na minha cabeça, vinha tudo junto:
eu compunha os poemas, no plano gráfico-visual, como se eles fossem partituras.
E até hoje é assim que procedo, buscando sempre uma inter-relação entre os códigos.
Minha poesia?
Acho que é, toda ela, uma tentativa de puxar conversa.
Uma conversa que sai, às vezes, truncada, áspera, mas sempre baseada num 'forço de aproximação do outro.
-- Como você analisa a poesia brasileira contemporânea?
Qual poesia te interessa hoje em Minas e no Brasil?
Prefiro responder repetindo uma provocação de Itamar Assumpção, feita aqui em Belo Horizonte, durante um show, por volta de 1983: «Minas Gerais não é Brasil?».
Não gosto de pensar que existe uma «poesia mineira».
Se existe, quero ficar de fora.
Mas vá lá:
dos poetas que vivem em Minas, o que me interessa mais, desde sempre, é justo aquele um que se define como um «ex-poeta», por ter deixado de 'crever poemas no final da década de 90: Sebastião Nunes.
Considerando a poesia brasileira como um todo, ao nome de Sebastião Nunes eu adicionaria o de Augusto de Campos -- aí, não só por o que ele já fez em poesia, mas por o que continua a fazer, agora numa perspectiva mais ampliada, que envolve a oralização de poemas, os videopoemas e as performances multimídia.
Sem deixar de acompanhar a produção de poesia em livro, na qual se destacam criadores extraordinários, como Manoel Ricardo de Lima, Francisco Kaq, Max Martins, Edimilson de Almeida Pereira, Ademir Assunção, Frederico Barbosa, Age de Carvalho, Claudio Daniel e alguns outros, confesso que tenho voltado mais as antenas para os trabalhos que desenvolvem projetos intermídia:
o grupo Poemix.
br (João Bandeira, Lenora de Barros, Walter Silveira, Cid Campos e Grima Grimaldi), Ricardo Corona, André Vallias, que é um poeta / webdesigner fabuloso, o Guilherme Mansur, com seus «tipoemas», as performances do Chacal, sempre matadoras ...
Também tenho me interessado muito por a produção do pessoal mais jovem, como Marcelo Sahea e Amarildo Anzolin, entre outros.
-- Qual é o seu papel dentro do Combo de Artes Afins Bananeira-ciência?
Quais as principais influências do trabalho do grupo?
Sou uma 'pécie de faz-tudo.
Produzo, componho, canto, toco, faço barulho.
Falando sério, o grupo é uma viagem que reúne gente que gosta de 'tar junto:
Chico de Paula, videoartista e músico;
Tatu Guerra, VJ e percussionista;
Rato, DJ e bailarino.
E o grupo 'tá sempre aberto à participação de convidados.
As influências vão de free-jazz a afrofuturismo, de spoken word a congada, passando por o rap, por o funk e por as várias facções da música eletrônica e eletroacústica além de Cage, Stockhausen, Godard (que é um compositor magistral, no que diz respeito à organização da paisagem sonora de seus filmes), DJ Spooky, Naná Vasconcelos, dadaísmo, poesia concreta alemã, grupo Ongaku (do Japão) e o 'cambau.
Entre os brasileiros, sem que se trate propriamente de influência, temos muita afinidade com trabalhos como os de Livio Tragtenberg, Wilson Sukorski e Chelpa Ferro -- devido, sobretudo, ao uso de objetos sonoro / visuais e à superação da dicotomia entre som e ruído.
-- Você acha que o caráter experimental do seu trabalho o restringe a um certo tipo de público e circuito?
A sua poesia é para poucos?
De forma alguma.
Minha poesia tem chegado a um número bem considerável de pessoas, por razões as mais diversas -- de entre elas, a inclusão de dois livros em listas de obras de vestibular.
Mas não sou exatamente «popular», nem quero ser.
Minha poesia é «para poucos» se comparada com o público do Affonso Romano, por exemplo.
O que faço não é hermético ou elitista.
Claro que me interessa desafiar o leitor, tentar desautomatizar sua leitura, desconcertar seus possíveis 'quemas classificatórios.
Sou um sujeito que anda de ônibus, toma cerveja em copo sujo e, com isso, volta e meia topo com alguém que leu alguma coisa minha, ou que me viu «performando», e quer conversar a respeito.
O saldo tem sido positivo, por enquanto.
-- Você tem parcerias com nomes da MPB.
Em o seu trabalho, há uma diferença de peso entre poesia e música?
O processo de compor uma música é próximo ao de fazer uma poesia?
Sim, 'crevi canções com Gilvan de Oliveira (um ciclo de oito temas para um 'petáculo sobre Canudos, apresentado em 1997), com Maurício Tizumba, com Zeca Baleiro e outros.
E há as canções que compus individualmente, letra e música, ao violão.
Venho daí, da canção popular, ou, para dizer como o maestro Júlio Medaglia, da «música impopular», trabalhos influenciados por Walter Franco, Itamar Assumpção, Tom Zé.
Os processos de composição da poesia e da canção são diferentes, mas ambos bastante complexos -- em graus diferenciados.
Assim como é complexo 'crever um text-sound para ser «performado».
Entre a intenção de fazer algo interessante e o que efetivamente sai há todo um oceano Atlântico ...
-- Você acha que a música pode ser uma boa maneira de aproximar as pessoas da poesia?
Prefiro pensar que uma e outra podem se completar, como, de resto, sempre aconteceu, até que o livro passasse, nos dois últimos séculos, a ser considerado o «lugar» por excelência da palavra poética.
Para mim, a questão não é propriamente «aproximar as pessoas da poesia» (como se ela não fosse algo deste mundo, algo bom e necessário como a água que se bebe, a amizade e o amor, a saúde, mas algo 'tranho aos humanos).
Que a poesia possa vir de onde menos se 'pera (inclusive dos livros), eis a maior das expectativas que alimento, como poeta e amante da arte verbal.
-- O que o mundo contemporâneo de redes a cabo, comunidades virtuais, ferramentas interativas e de uma relação cada vez mais forte entre mídias tem a oferecer as artes?
Para falar só da mais óbvia das vantagens, a possibilidade de fundar novas relações dialógicas, que permitam aos artistas pelo menos tentar um contato mais direto com o público, sem passar por tantos atravessadores, digo, intermediários.
O diálogo criativo entre os próprios artistas, que a internet potencializa como nenhum outro meio, é outro benefício digno de registro.
De a mesma forma, a possibilidade de lidar com os registros de obras de outras épocas e contextos culturais:
podemos ser, como diria o poeta e ensaísta mexicano «Octavio Paz,» de todos os tempos sem deixar de ser do instante».
Em o momento, ando fascinado com as possibilidades abertas, no âmbito da cultura eletrônico-digital, para as poéticas da voz.
Por força do meu trabalho como artista, e também da minha atuação como professor, tenho conhecido trabalhos interessantíssimos no campo genericamente definido como arte sonora -- e que envolve a sound poetry, as instalações sonoras ou audiovisuais, as radiopeças e muitas coisas mais.
Embora calcados na exploração da materialidade do som, são poéticas que levam a novos usos da imagem, do corpo e da palavra.
Sinto, sinceramente, que vivemos uma época bastante alentadora, por força até da maior popularização dos programas de geração e processamento de som.
Não é à toa que alguém -- creio que a cineasta Tata Amaral -- usou recentemente, para definir as proezas sônicas do pessoal do rap, o termo «Stockhausen da periferia» ...
Genial!
-- Como fica a arte 'crita numa era dominada por as imagens?
Tem ficado bem, e ficará ainda melhor, na medida em que um maior número de poetas e 'critores passe a se interessar por a apropriação criativa -- o que implica competência e sensibilidade intersemiótica -- dos meios eletrônicos-digitais.
Palavra também é imagem, além de provocar o surgimento de novas imagens.
Não há razão para lamentar a crescente perda de prestígio (e não a «morte», como preferem dizer os» apocalípticos ") do objeto livro.
«Tá tudo solto na plataforma do ar / tá tudo aí / tá tudo aí», já cantou o grande Luiz Melodia.
-- Você, sendo curador do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte, como vê a relação entre os 'paços culturais da cidade e os artistas negros?
Desde a primeira edição do Fan, em 1995, os artistas negros de Belo Horizonte têm se posicionado de uma maneira menos tímida diante do mercado.
Mas a tônica ainda é a expectativa de que o Fan acolha praticamente tudo o que se faz na cidade, em termos de cultura negra, com uma certa complacência, de olho menos na qualidade da proposta artística e mais na necessidade histórica de reparar as injustiças cometidas contra os negros -- artistas ou não.
Penso que o Fan já cumpriu sua função, como evento, de tornar nítido para a cidade e o país o problema da secundarização da arte e da cultura de extração africana.
O salto agora, a meu ver, deve-se dar no sentido da promoção de intercâmbio com países da África, da «Afro-América» e de 'sa nova cena que vem se constituindo a olhos vistos na Europa, fruto das novas ondas migratórias.
-- Você jogou futebol durante a adolescência e que sonhava em ser jogador de futebol.
Você ainda se interessa por o tema?
Acha que pode existir alguma relação entre o futebol brasileiro e a poesia?
E o que você pensa sobre a atuação brasileira na Copa do Mundo da Alemanha?
Como ficou 'se futebol poético?
Continuo a me interessar por o tema.
Como já não jogo, me resta fazer associações entre o futebol e a poesia, o futebol e a arte.
Mas é tudo balela.
Quem já jogou, sabe bem:
nada se compara ao prazer de um drible, ou de um chute de voleio.
Não há na poesia nada semelhante, ainda que haja prazeres de outra ordem.
O que penso sobre a atuação brasileira na Copa?
Vi pedaços de partidas, nenhuma o tempo inteiro.
Ou seja, já intuía que ia dar no que deu ...
O futebol poético?
Eu, que aprendia jogar bola imitando Ademir da Guia, tenho algumas boas razões para achar que foi definitivamente substituído por o futebol prosaico -- a pior prosa possível, de auto-ajuda para baixo ...
Número de frases: 101
Conheça mais o artista no blog.
A educação é uma das ações que definem nossa humanidade:
o ser humano transcende seu status animal pois vai além dos instintos:
compreende, reelabora, reflete, cria e recria, critica, aprende, ensina.
A busca do homem através da história é sempre uma busca de compreender e transformar a realidade.
Já foi dito que uma característica distintiva do ser humano é a necessidade do supérfluo.
O que ultrapassa os limites das necessidades básicas 'senciais à sobrevivência e coloca-se no campo da atribuição de sentido é o que nos torna humanos.
A admiração diante de um por do sol, a necessidade de deixar uma marca que dure além do efêmero tempo de nossa existência, o incômodo diante da desorganização e a valorização de uma certa ordem individual, o 'panto diante do inusitado, a apreciação da beleza, a reflexão sobre o que é diferente e nos provoca ...
todos os seres humanos vivenciam 'sas situações ao longo de suas vidas, pois são constituídos de dimensões físicas, cognitivas, emocionais, sociais, éticas e 'téticas.
Essa característica pluridimensional do ser humano por si só já seria válida para justificar a importância da arte na educação, já que sua ausência não favoreceria um desenvolvimento integral da pessoa, um dos principais objetivos da educação.
Mas além desse fator há outros que valem a pena serem lembrados.
A arte é cultura.
É fruto de sujeitos que expressam sua visão de mundo, visão 'ta que 'tá atrelada a concepções, princípios, 'paços, tempos, vivências.
O contato com a arte de diversos períodos históricos e de outros lugares e regiões amplia a visão de mundo, enriquece o repertório 'tético, favorece a criação de vínculos com realidades diversas e assim propicia uma cultura de tolerância, de valorização da diversidade, de respeito mútuo, podendo contribuir para uma cultura de paz.
O conhecimento da arte produzida em sua própria cultura permite ao sujeito conhecer-se a si mesmo, percebendo-se como ser histórico que mantém conexões com o passado, que é capaz de intervir modificando o futuro, que toma consciência de suas concepções e idéias, podendo 'colher criticamente seus princípios, superar preconceitos e agir socialmente para transformar a sociedade da qual faz parte.
Além das já referidas justificativas ontológicas e culturais para a importância da arte na educação, cabe falar da dimensão simbólica da arte, de seu poder expressivo de representar idéias através de linguagens particulares, como a literatura, a dança, a música, o teatro, a arquitetura, a fotografia, o desenho, a pintura, entre outras formas expressivas que a arte assume em nosso dia-a-dia.
Essas formas são linguagens criadas por a humanidade para expressar a realidade percebida, sentida ou imaginada, e como linguagens que são, têm suas próprias 'truturas simbólicas que envolvem elementos tais como 'paço, forma, luz e sombra em artes visuais, timbre, ritmo, altura e intensidade em música, entre outros elementos inerentes a outras linguagens da arte.
Ora, o conhecimento de 'sas 'truturas simbólicas não é evidente aos alunos, nem se constrói 'pontaneamente através da livre expressão, mas precisam ser ensinados.
O ensino das linguagens da arte cabe também à 'cola, embora não apenas a ela.
Um outro argumento em defesa da arte na educação passa por a sua importância ao desenvolvimento cognitivo dos aprendizes, pois o conhecimento em arte amplia as possibilidades de compreensão do mundo e colabora para um melhor entendimento dos conteúdos relacionados a outras áreas do conhecimento, tais como matemática, línguas, história e geografia.
Um exemplo mais evidente é a melhor compreensão da história, de seus determinantes e desdobramentos através do conhecimento da história da arte e das idéias sobre as quais os movimentos artísticos se desenvolveram.
Não existe dicotomia entre arte e ciência, entre pensar e sentir, entre criar e sistematizar, e a fragmentação do conhecimento é uma falácia que tem 'tado presente na educação, devendo ser superada, pois o ser humano é íntegro e total.
Diante de tal importância que a arte assume na educação, pode-se fazer uma revisão crítica do que a 'cola tem alcançado em termos de ensino da arte.
Temos conseguido valorizar nos alunos sua expressividade e potencial criativo?
Temos sabido perceber, compreender e avaliar suas idéias sobre as linguagens artísticas?
Temos desenvolvido nosso próprio percurso em artes de tal modo que conheçamos os conteúdos, os objetivos e os métodos para ensinar cada uma das linguagens artísticas?
Temos tido suficiente bagagem teórico-conceitual para identificar o momento que cada educando vivência em sua construção de conhecimento sobre a arte e fazer intervenções que lhe permitam avançar?
Temos sabido incentivar a formação cultural de nossos educandos e ajudá-los a perceberem-se como sujeitos de cultura?
Creio que 'tamos vivenciando um momento histórico de grande importância na educação como um todo e na arte-educa ção 'pecificamente:
o desafio de superar concepções tecnicistas e utilitaristas, mas também de ir além do «deixar fazer» e da livre expressão apenas, para reconhecer que a arte tem características próprias que devem ser melhor conhecidas por os educadores, que tem objetivos próprios e seus próprios métodos.
Será que nós tivemos, em nossa educação, acesso à arte?
E que acesso foi 'se?
Estamos reconstruindo o ensino da arte, não com base no que aprendemos na 'cola, mas no conhecimento que 'tamos a construir agora.
Nós, como educadores, precisamos aprender mais para ensinar melhor.
Cada um de nós deverá ser um construtor de conhecimentos e um semeador de idéias e práticas que, 'peramos, darão frutos no futuro.
Indicações de Leitura:
Derdyk, Edith.
Formas de Pensar o Desenho:
O desenvolvimento do grafismo infantil.
São Paulo, Scipione, 1989.
Iavelberg, Rosa.
Para gostar de Aprender Arte:
Sala de Aula e Formação de Professores. Alegre, Artmed, 2003.
Iavelberg, Rosa.
O desenho Cultivado na Criança:
Prática e Formação de Professores.
São paulo, Zouk, 2006 Nicolau, Marieta Lúcia Machado e Marina Célia Moraes Dias (orgs).
Oficinas de Sonho e Realidade na Formação do Educador da Infância.
Campinas, Papirus, 2003.
Número de frases: 49
«Futebol: O Brasil em campo» é uma 'pécie de bíblia alternativa do futebol brasileiro.
Um livro sagrado para quem enxerga a modalidade além dos gritos de «Haja coração» e da histeria que toma conta do país em ano de Copa do Mundo.
O sacerdote responsável por a obra é Alex Bellos, jornalista inglês que passou cinco anos no Brasil trabalhando como correspondente do jornal The Guardian na América do Sul.
Em 'se período, viajou o Brasil de Norte a Sul.
Resgatou personagens 'quecidos, como Aldyr Garcia Schlee, o 'critor que na adolescência desenhou a camisa amarela da seleção brasileira, que se tornaria o uniforme 'portivo mais famoso do mundo, como Bellos gosta de dizer.
Descobriu histórias fantásticas, como a do Peladão de Manaus, o campeonato em que uma bela rainha vale tanto quanto um atacante goleador.
Em 2003, Bellos voltou para Londres.
Virou referência local para assuntos da cultura sul-americano.
Desde a mundialmente famosa seleção brasileira até a adoração tupiniquim por novelas.
Em 'sa entrevista exclusiva por e-mail, o jornalista fala sobre sua experiência no Brasil, revela que sofreu mais com a eliminação verde-amarela do que com a inglesa na Copa, deixa no ar um possível novo testamento de «Futebol: O Brasil em campo» e diz que o futebol merece uma Copa no país pentacampeão mundial.
Quando você começou as pesquisas para «Futebol: O Brasil em campo», você disse que pretendia entender por que o Brasil é o país do futebol.
Após o livro e o tempo que viveu no país, conseguiu achar uma resposta definitiva?
Alex Bellos -- Para responder, tem de decidir o que é ser o país do futebol.
Acho que no sentido mais geral, o país se define mais usando o futebol.
É mesmo o país do futebol.
Qual história do livro você 'colheria para resumir o que significa o futebol para o brasileiro?
-- Talvez o peladão, o torneio em Manaus. (
Nota do blog:
realizado anualmente em Manaus, o Peladão reúne centenas de equipes em duas disputas paralelas.
Em campo, entre os times, e fora de ele, entre as rainhas.
É comum equipes eliminadas em campo serem resgatadas graças ao sucesso das suas rainhas.
Em o livro, Alex define o Peladão como o maior campeonato de futebol do mundo).
Aqui no Brasil o seu livro virou referência, 'pecialmente entre jornalistas e gente que acompanha o futebol mais a fundo.
Em a Inglaterra ele teve a mesma repercussão?
-- Teve uma repercussão muita boa, mas não é referência sozinho.
Faz parte de uns dez livros dos últimos anos que abordam futebol e cultura.
Junto com, por exemplo, «Brilliant Orange», sobre a Holanda, e» Football against», sobre futebol e política.
Em cinco anos de Brasil, virou torcedor de algum time daqui?
Qual?
-- Gostei do Botafogo.
Depois passei a ter simpatia por Fluminense e Paysandu.
Depois de «Futebol: O Brasil em campo» você chegou a reunir outras histórias que poderiam render uma segunda edição?
-- Não.
Nem pensei.
Mas você me deu uma idéia ...
Li um artigo recente seu no Telegraph sobre telenovelas, no qual você cita a adoração dos brasileiros por 'se tipo de atração.
Esse é um outro tema por o qual você se interessaria em 'crever?
E as suas pesquisas sobre o Santo Daime, na Amazônia?
-- Quando voltei para Londres, virei uma referência para jornais para 'crever sobre todos os aspectos da cultura sul-americano.
Gosto de 'crever sobre isso e topo o que vier.
Visitei a comunidade do Céu do Mapia, um centro do Daime, e 'se assunto me interessa muito.
Gosto de 'crever sobre cultura popular e erudita.
Em a Copa da Alemanha, o que mais lhe deixou triste:
a eliminação da Inglaterra ou a eliminação do Brasil?
-- De o Brasil.
A seleção brasileira chegou à Copa com aura de imbatível.
A eliminação e o mau futebol arranharam a imagem do futebol brasileiro na Europa?
-- Não.
Todo mundo sabe que Copa do Mundo anda muito desacreditada.
Jogador exausto, sem hábito de jogar junto, torneio 'quisito ...
Qualquer torcedor vai preferir um Ronaldinho no seu time a um Cannavaro.
O Brasil tem condições de organizar uma boa Copa em 2014?
-- Sim.
Mas ter condições não quer dizer que vai fazer bem.
Acho que a Copa tem de ser no Brasil.
Para o bem do futebol.
Leia a entrevista na íntegra clicando aqui.
* * * * * As dicas do Alex.
Brilliant Orange:
The Neurotic Genious of Dutch.
Escrito por o jornalista britânico David Winner, conta o nascimento do futebol total na Holanda, no fim dos anos 60, e como a geração de Cruyff e Neskeens, comandada por Rinus Michel, serviu para mostrar seu país no mundo.
Além disso, narra o período de «exílio» internacional do futebol laranja e seu retorno ao primeiro mundo da bola a partir do fim dos anos 80, por os pés de Gullit e Van Basten, sempre 'tabelecendo uma relação entre a evolução dentro de campo e a trajetória social, política e cultural do país.
Football against the enemy.
O site Sports Book Direct define o livro de Simon Kuper como «um fascinante relatou da viagem do autor por 22 países para descobrir os efeitos bizarros que o futebol pode ter na política e na cultura».
Não encontrei sinais de versões brasileiras de nenhum dos dois livros.
Para quem manda bem no inglês ou não se importa de ler o livro com um dicionário à mão, o Amazon.
com vende Brilliant Orange por umas 6 libras (menos de R$ 30).
Já Football against the enemy pode ser lido na íntegra clicando aqui.
Número de frases: 68
«Todo mundo gosta de contar histórias.
Nós, do Studio 184, também».
Assim, Dulce Muniz, dramaturga, diretora e narradora do 'petáculo Heleny, Doce Colibri, apresenta a peça a um enxuto público no sábado à noite.
Ok, contar histórias é, de fato, uma boa intenção inquestionável.
O problema vem depois, afinal há muitas formas de contar histórias e o grupo 'colheu a mais linear e didática, no pior dos sentidos.
O 'petáculo 'tá em cartaz até setembro no Studio 184, que fica na praça Roosevelt (sim, ela novamente), no centro de São Paulo.
Para contar a história de Heleny, o Studio conta com 10 atores (se não errei na conta) mais 2 crianças, 3 músicos, projeção de fotografias e fomento da prefeitura (segundo fonte do elenco que não quis se identificar).
Sim, fomento da prefeitura.
Certamente, por a importância do personagem histórico.
Só se for.
A 'colha desse 'petáculo por a Bacante se deu por critério de falta de visibilidade na mídia, mesmo caso da peça Mammy vai à Lua, em cartaz no teatro Crisantempo.
Triste constatar que a mídia tradicional parece ter acertado, certamente sem querer e sem ver, ao não divulgar tamanho fracasso.
Provavelmente, Dulce Muniz ou sua assessoria de imprensa mandou mal no release.
Em a obra, em si, é visível, desde o princípio, o despreparo dos atores, a falta de preocupação em tornar conceitos em cenas, o descuido com músicas, luz, projeções e a inconsistência latente em todas as cenas.
A 'colha do tema, a morte da diretora Heleny Guariba nas mãos da ditadura, já exige criatividade adicional por a quantidade de vezes que as artes abordaram a ditadura e seus efeitos na sociedade.
Sim, um tema clichê pode se tornar um desafio.
Não se tornou.
O que se vê é o lugar comum do lugar comum no palco italiano.
à parte o tema, já na apresentação do 'petáculo, nos sentimos numa aula de história.
Chata. A projeção de fotos reais, que poderia ser uma interessante tentativa de explorar novas linguagens, se perde no meio do caminho por a falta de criatividade no uso do recurso.
Fica raso e, novamente, didático.
Alguns aspectos da montagem merecem menção por atingirem aquele ponto 'pecial, em que nos questionamos se existe ali algo muito maior que não conseguimos enxergar (ai, minha miopia!):
figurino -- all-star, jeans e camisas cinzas para todos, revelando a falta de recursos (?)
e a atualidade do tema ditadura, não 'quecendo, é claro, dos coletes pretos, que caracterizam os militares (minimalista, não?);
música elaborada a partir do que se canta, contando com flauta, violão e bateria, «ao vivo».
Mais uma chance de inovação e qualidade cênica, interrompida, de súbito, por os Paralamas do Sucesso no playback, demonstrando, vejam só!,
como o tema ditadura era atual na década de noventa.
Há que se falar da aparente-entrega parcial da protagonista, que tem algum carisma, provavelmente vindo de seu charmosinho corte chanel (alguma coisa tem que lembrar os tempos de outrora pra contrastar com os paralamas e os all-star).
Entre os detalhes risíveis (apesar da tristeza inerente ao tema), 'tá, literalmente, pulando à frente do público:
a coreografia.
Afinal, trata-se praticamente de um musical.
O único detalhe é que ninguém sabe cantar.
Nem dançar.
E, minha gente, eles tiveram uma coreógrafa.
E ela deixou colocarem o nome de ela no cartaz.
Uma peça anacrônica.
Com fomento.
PS:
Depois da peça, já na calçada, Dulce afirma, ingenuamente, entre amigos:
«Parei com sexo e drogas, agora só Rock ' n Roll».
Será aí a morada dos problemas?
Número de frases: 41
10 pessoas na platéia por Ronald Augusto
Seria interessante experimentar uma suspeita reflexiva com relação a uma idéia que, aqui e acolá, insiste em aparecer em alguns textos críticos.
Trata-se da idéia que 'tabelece similitudes entre vanguarda e progresso.
Um vício diacrônico, além de messiânico, serve de nutrimento a uma noção de vanguarda que busca conquistar territórios, acúmulo de feitos num «ensaio de totalizações».
Movimento que visa uma «etapa final» ou um éden.
Vanguarda que se apresenta como «ponto de otimização da história».
Devir utópico calcado sobre linearidade progressiva, causal.
Um dogma:
a vanguarda não corre o risco de infectar-se com o vírus do retrocesso.
Talvez no âmbito da 'tratégia dos exercícios de guerra, ou mesmo na arena da «politicagem literária», tudo isso faça algum sentido, pois aperfeiçoamento pressupõe a aceitação de exclusões e obsolescências cujo questionamento -- a bem de» um mundo transformado», digamos, para melhor, é deixado de lado «por tempo indeterminado».
Mas, o que quer dizer aperfeiçoamento?
Seria uma noção de «progresso», quem sabe similar àquela que se utilizava para ordenar o concerto das nações, mas, agora, aplicada a frio, à linguagem da poesia ou das artes?
Se, por exemplo, a poesia concreta fosse o aperfeiçoamento de algo -- supondo que déssemos crédito a isso, só o seria, mesmo, da poesia de Oswald de Andrade ou da de e.
cummings, pois aí, sim, ela poderia se arrogar como a «culminação ou o resgate» constituídos, na verdade, a partir do desempenho diferenciador e progressivo desses autores que lhe são anteriores.
A vanguarda poética das décadas de 1950/60 não pode ser o aperfeiçoamento de, por exemplo, Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto, nem de certas facetas de Carlos Drummond de Andrade, e nem mesmo de um ou outro Manuel Bandeira menos feliz.
Aperfeiçoamento, só na linha 'treita da mesmidade.
Em 'tes casos, não se trata de modo algum de aperfeiçoamento -- supondo, ainda uma vez, que concordássemos com a noção, mas, antes, de ruptura, ou de pura e simples contraposição.
Prefiro imaginar um quadro de tensões de perspectivas, propostas de linguagem em confronto.
Formas e poesias em «conjunções e disjunções» sincrônicas.
Não existe progresso.
O limbo experimentado por a poesia de Jorge de Lima (que considero um fato lamentável), pode ser revogado a qualquer momento.
Outros aguardam o retorno triunfal ao nosso convívio da obra de Cassiano Ricardo.
E se isso vier a acontecer, não significará, necessariamente, involução.
A poesia é uma rede de conotações e o leitor-poeta se comporta como o administrador das intraduzibilidades e das eventuais reabilitações inerentes à tarefa da leitura criativa.
Os poemas envelhecem, mas por um feliz paradoxo -- ou deveríamos creditar isso ao nosso sempre insatisfeito desejo de linguagem?--
raros são os que de fato passam de 'sa para melhor.
É importante ler, ou reconhecer, no poema, algumas coisas que informam seu ponto de partida histórico;
sua localização num preciso trecho de tempo.
Em a «eternidade» dos clássicos, no encanto que experimentamos durante o ato de sua leitura, colaboram vincos, pátinas, limos de outros tempos.
Isto é, aquela dimensão ilimitada que 'sas obras sugerem-nos possuir, deita raízes nos rasgos contingenciais, nas molduras de tempo e lugar em que foram engendradas.
Mas, isso é apenas um dos dados 'téticos do jogo proposto por tais obras de retaguarda.
Uma vereda por onde se poderia percorrê-las.
Poemas são cápsulas de e do tempo.
Não há como interditar a passagem e o desgaste do tempo através do ser de linguagem do poema.
Em o âmago do poema decrépito crepitam perspectivas do novo.
Nem sempre somos os mesmos quando nos abandonamos à leitura.
Cada texto engendra uma máscara que o leitor concorda em afivelar à sua própria face visando uma fruição mais radical.
O tempo e o lugar, às vezes imprecisos na trama textual, convidam-nos a um jogo de simulações.
Através do teatro da língua literária, nem sempre representará um choque sísmico passar, por exemplo, do Ecce Homo de Friedrich Nietzsche, para os poemas líricos de Dante.
Com efeito, o discurso e a retórica são outros, assim como os dilemas 'téticos e morais, e, além disso, a ideografia.
Mas, o ponto de mixagem, o sorvedouro onde 'ses contrastes menos se anulam do que se retesam é o efêmero presente da linguagem que nos toca;
seus transes de significantes e significados num plano de fuga.
Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961.
Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) Confissões Aplicadas (2004) e Em o assoalho duro (2007).
É co-editor, ao lado de Ronaldo Machado, da Editora Éblis (www.editoraeblis.zip.net).
Traduções de seus poemas apareceram em Callaloo African Brazilian Literature:
a special issue, vol. 18, n0 4, Baltimore:
The Johns Hopkins University Press (1995), Dichtungsring -- Zeitschrift für Literatur, Bonn (de 1992 a 2006, colaborações em diversos números, poesia verbal e não-verbal) www.dichtungsring-ev.de.
Artigos e / ou ensaios sobre poesia publicados em revistas do Brasil e sites de literatura:
Babel (SC / SP), Porto & Vírgula (RS), Morcego Cego (SC), Suplemento Cultural do Jornal A Tarde (BA), Caderno Cultura do Diário Catarinense (SC), Suplemento Cultura do jornal Zero Hora (RS);
Revista Dimensão nº 28/29, tradução de poema de e.
cummings (MG);
Revista AT (MG);
Revista Roda -- Arte e Cultura do Atlântico Negro (MG);
www.clareira.naselva.com; www.cronopios.com.br;
www.germinaliteratura.com.br; www.slope.org;
entre outros.
Assina os blogs:
www.poesiacoisanenhuma.blogspot.com e www.poesia-pau.zip.net.
Ministra oficinas de poesia e é integrante do grupo os poETs www.ospoets.com.br.
E-mail:(dacostara@hotmail.com).
Número de frases: 62
O Estúdio Pandarus lança em 'se primeiro semestre de 2007 sua divisão de folclore e cultura popular, com o objetivo de registrar manifestações que ocorram na região do cerrado goiano.
Essa iniciativa parte da necessidade de preservação e manutenção do patrimônio cultural goiano, visto que Goiás não tem uma tradição em 'te tipo de ação, comumente experimentada em outros Estados do nosso país.
Tendo à frente os pesquisadores Fernando Santos e Juliana Alves, e contando também com pesquisadores convidados, 'se núcleo pretende registrar em áudio, vídeo e fotografia o maior número possível de manifestações oriundas do cerrado goiano, priorizando as mais antigas e originais.
Pessoas interessadas em nossas linhas de pesquisa, em breve poderão ter acesso à informações sobre nossas viagens por o interior do Estado de Goiás através do nosso site:
www.pandarus.com.br, e também aqui no Overmundo.
Trabalhos já realizados, como o CD Cantigas, Danças E Toadas do Cancioneiro Infantil Goiano (um resgate de cantigas da memória de pessoas idosas), também podem ser conferidos no Banco de Cultura do Overmundo:
Vide Link
Se você conhece manifestações que ocorram no cerrado goiano, faz parte, ou acha que pode contribuir com algum tipo de informação, entre em contato com nós:
Estúdio Pandarus
Telefone: (62) 3210-3634
E-mail: folclore@pandarus.com.br
Sobre as músicas postadas, que fazem parte do «CD Cantigas, Danças e Toadas do Cancioneiro Infantil Goiano» de Fernando Santos e Juliana Alves:
Fui no Mar Apanhar Laranja -- Cantiga de Ninar recolhida com Alberto da Paz (89 anos), em Santa Cruz de Goiás.
Ele nos apresenta o universo do camponês goiano, através das suas brincadeiras «inocentes», dos seus versos românticos e apaixonados, dos momentos de confraternização.
Seu Vilão 'tá em Casa -- Brinquedo registrado com Maria Ludovico de Almeida, com memórias de cantigas da cidade de Goiás.
Em a coreografia, crianças de frente uma para outra, formam um túnel dando as mãos e as levantando para o alto.
Cada par, começando por o primeiro da fila, vai passando por dentro desse túnel e ao chegar ao fim voltam à posição inicial, na formação do túnel.
Piranha foi à Missa -- recolhida com Lourdes Alves do Carmo, com memórias de infância na cidade de Goiás.
É um brinquedo bastante conhecido em Goiás, e sua melodia e letra diferem sutilmente de versões de outros Estados.
Chico, Mané, Nicolau -- Cantiga infantil recolhida com Maria Ludovico de Almeida, de temática religiosa.
Teve uma pequena alteração em sua letra para se enquadrar no aspecto educacional desse disco.
Sua letra original traz o verso «a mulher matou o marido com a tampa do urinó», que foi alterado para» a mulher bateu o nariz na tampa do urinó».
Texto retirado do CD:
Cantigas, Danças e Toadas do Cancioneiro Infantil Goiano *
Número de frases: 24
Todas as cantigas foram recolhidas do folclore goiano e adaptadas por Fernando Santos e Juliana Alves Tarde de sexta, 20 de julho.
Enquanto parte da equipe do Revelando os Brasis montava o telão na praça da igreja matriz de Monsenhor Gil, pequena cidade a 56 km de Teresina, os meninos da cidade se alvoroçavam querendo saber que novidade era aquela.
Puxei conversa e em minutos já era tia pra lá, tia pra cá.
Paulo, Felipe e Cláudio, todos com 11 anos, nunca entraram num cinema e ficaram surpresos ao saber qual o filme que 'taria em cartaz na praça naquela noite:
«Eeeeeita, é o filme do ' seu ' Noronha.
Eu conheço ele, e conheço seu Zé Coelho, ele é amigo da vó;
já até dancei o Balandê no colégio», disse o Paulo.
Cláudio completou:
«Eu dancei também, até levei uma queda lá no meio, porque tava me sacudindo demais», contou, às gargalhadas.
Felipe, mais calado, só observava o movimento.
à noite, por volta das 18h30 as primeiras pessoas começaram a chegar, alguns sentaram logo, outros ficaram dando voltas em torno do caminhão, as crianças curiosas foram chegando mais perto e logo ganharam uma tarefa:
ajudar a distribuir os folderes do projeto e flyers do Overmundo entre os presentes.
Lá por as 19h, chegou a grande 'trela da noite, Luís Pereira de Andrade, o mestre Zé Coelho, 84 anos, mestre do balandê e do baião.
Animado, revelou que 'tava orgulhoso da «festa» que 'tava acontecendo na cidade onde nasceu e se criou.
«Eu tô satisfeito e agradeço ao doutor Antóin Filho, que ele toma conta de mim direito.
Por causa desse filme de ele eu já fui para a Brasília, para o Rio de Janeiro, para a Fortaleza e não gastei um tostão, eu agora sou um cidadão brasileiro.
Não careço de mais nada não», disse, já cercado de gente.
Sentado na primeira fila, ' seu ' Zé assistiu ao documentário Balandê-Baião, que conta a história de sua vida e da dança que ele eternizou em Monsenhor Gil.
Em as primeiras cenas, as senhorinhas que 'tavam perto apontavam:
«Oí, é o seu Zé Coelho.
Ó ele ali sentado, aquele veím ali, ó».
Lembranças da infância
Os mais velhos da cidade lembram da dança como brincadeira de infância, relembram as músicas e contam que o filme os faz voltar no tempo.
Também gostam de ver seu Zé Coelho sendo homenageado.
Dona Maria Teresinha de Jesus, 54 anos, mora a mais de três quilômetros da praça onde o filme foi exibido.
Arrastou a filha e mais uma amiga e 'tava orgulhosa de ver sua cidade na telona.
«Seu Zé é o homem mais famoso de Monsenhor Gil, todo mundo aqui 'tá feliz com 'se filme do Noronha porque é um jeito de mostrar a cultura da cidade, 'sa dança que só existe aqui.
Tinha gente que nem lembrava mais como era e quando viu o filme sentiu vontade de dançar de novo, é uma brincadeira muito boa, muito bonita», disse.
O agricultor Agnelo da Conceição se arrumou todo para ir assistir ao filme dos amigos Noronha e Zé Coelho.
Ele também já dançou o Balandê e afirma que antigamente as danças eram mais animadas, mais bonitas de se ver.
«Eu acho importante 'se trabalho de lembrar as brincadeiras que a gente fazia quando era criança, admiro isso.
Assim os jovens vão poder saber mais sobre a cultura do lugar onde a gente mora.
Se não fosse 'se filme, a dança ia se acabar e ninguém mais ia saber de ela.
O amigo Abdias Assunção concorda e diz que viu muita gente que não via há tempos na praça assistindo ao filme.
«Todo mundo queria ver, tem gente que veio de longe só pra isso.
É uma dança que faz a gente lembrar de quando era pequeno e é bom ver os meninos pequenos aprendendo, tem menino de dois anos que já começa a se balançar quando vê os mais velhos dançando o Balandê».
«Eu vi o sol, eu vi a lua, eu vi o dia clarear "
Depois do filme, a festa.
As cadeiras do cine Revelando foram arrastadas para as laterais da praça, que virou um terreiro de dança, alumiado por lamparinas à base de querosene.
Mulheres de todas as idades usando lindos vestidos rodados e homens cheios de ginga mostraram a beleza do Balandê-Baião.
A banda Eita Piula assumiu a animação da festa, contando com a participação de moças da cidade nos vocais, e em poucos minutos um grupo enorme de gente dançava por a praça.
Durante mais de uma hora a poeira subiu e não teve quem conseguisse ficar parado.
O pernambucano Artur Gomes dos Santos, autor de Tropeiros, acompanha a equipe do Revelando os Brasis em alguns municípios e conta que ainda não tinha visto tanta folia nas exibições.
«Sempre que posso eu acompanho o pessoal do Revelando e vou colhendo imagens por aí.
Não vi em outros lugares uma festa bonita como 'sa», comenta.
Mestre Zé Coelho, tocando seus gafanhotos -- uma 'pécie de castanhola, com formato diferente -- lá por as 23h, reclama:
«Ô povo mole, dança duas horinhas e já ta reclamando de cansaço.
Pra me acompanhar tem que dançar é a noite toda».
O Projeto Revelando os Brasis, parceria entre o Instituto Marlin Azul (ES) e a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, 'tá viajando por o país desde maio e já passou por 61 cidades.
Aqui no Piauí aconteceu o encerramento da «turnê» dos 40 vídeos selecionados em sua primeira edição.
Em Monsenhor Gil e Teresina foram exibidos «Balandê / Baião», de Antônio Noronha;
Tropeiros (PE), de Artur Gomes dos Santos;
Pipa, Praia em Poesia (RN), de Mary Land de Brito Silva;
Esperança (CE), de José Welliton Moraes e Uma Pescadora Rara no Litoral do Ceará (CE), de Sidnéia Luzia.
O Overmundo 'tá acompanhando as exibições em vários Estados, leia mais nos textos com a tag revelando-os-brasis.
Número de frases: 55
Uma das coisas mais bacanas da Mostra do Filme Livre, que terminou a edição 2008 na segunda semana de março, é que há poucos palcos de exibição com regras tão flexíveis para os cineastas.
Ao contrário da ditadura da película presente na maioria dos festivais, você pode inscrever seu filme em vários formatos -- vale até DVD.
Se o seu trabalho foi feito há quatro anos, saiba que isso não é razão para tirá-lo de uma seleção da mostra -- o critério de ' novidade ', aqui, ronda muito mais um 'pectro 'tético que temporal.
Com uma proposta aberta de 'sas, não tenho muitos pudores em publicar um balanço sobre a Mostra a 'sa altura do campeonato -- como não fariam as coberturas de jornais mais tradicionais -- quase um mês depois de tudo ter terminado.
O que vale é levantar uma série de discussões sobre uma produção mais livre e democrática do audiovisual;
e a MFL 2008 foi um prato cheio para se fazer 'ta reflexão.
Aliás, se quiser dicas para fazer seu filme e tentar emplacá-lo na edição do ano que vem, é só seguir a leitura.
Antes, contudo, falemos da mostra que acabou.
Saldo pra lá de positivo:
foram exibidos mais de 250 filmes -- sendo 15 longas, cinco de eles inéditos -- numa edição que durou uma semana a mais que a anterior.
Teve desde filme feito semanas antes da mostra começar a obras lançadas há duas décadas.
Exemplo da proposta de filme livre, na concepção dos curadores, foi a 'colha de um dos homenageados em 2008, o cineasta Joel Pizzini -- carioca de nascimento, mas que cresceu no Matro Grosso.
O curta Caramujo-Flor (1988), o primeiro de ele, foi um dos selecionados para 'ta edição.
Mesmo com vinte anos nas costas, o filme mostra por que ainda merece ser exibido na tela grande.
Uma fotografia de texturas vibrantes, locações lindas (tá bom, 'sa parte não é muito mérito de ele porque não faltam locações lindas no Pantanal) e uma narrativa nada convencional -- aliado a um elenco, digamos, improvável, que junta num mesmo balaio gente como Aracy Balabanian, Almir Sater, Ney Matrogrosso e Tetê Espíndola.
Terminei de ver o filme com vontade de ler Manoel de Barros (o filme é um delírio poético baseado na obra de ele) e consultar um dentista (um plano mais fechado na boca da Tetê Espíndola -- grávida na época -- mostrou uma portentosa concentração de cáries por metro quadrado).
Tenho desses problemas:
não posso ver uma pereba no joelho dos outros que começo a me coçar pensando que tenho igual.
Não sei se, ao final de tudo, entendi ou consigo explicar racionalmente em palavras o que pode ser um filme livre.
Mas, ao ver aquele curta, alguma inquietação -- das boas -- me bateu.
Com vocês, Christian Caselli
Terminada a Mostra, bati um papo com o cineasta Christian Caselli -- um dos cabeças da MFL, ele participa da curadoria e fez a direção videográfica -- para pegar impressões e até fazer a famigerada pergunta:
o que é um filme livre?
«Tenho até uma resposta padrão.
Eu não sei o que é um filme livre!
Mandem respostas.
O que interessa muito mais é o processo [de se fazer filmes].
É como a utopia alquimista:
a pedra filosofal nunca foi feita, mas toda a busca em função de ela gerou muitas descobertas», comenta Caselli, para concluir com uma provocação:
«Se o filme livre for feito a Mostra acaba!"
Feliz com o resultado a MFL, Caselli relembra surpresas que deram certo, como a sessão Casca Grossa.
Pra você ter idéia dos curtas que passaram em ela, a proposta era dar um doce para quem aguentasse ficar até o final.
«[o filme] «Manifesto Canibal» fez um sucesso danado, o povo aplaudiu!»,
conta, para em seguida explicar, empolgadaço, o início o filme:
«Começa com ele não simplesmente tatuando um sinal de anarquia na canela de um indivíduo ...
ele arranhou com um 'tilete!"
Empolgação justificada:
o'ele ` em questão é o cineasta catarinense Petter Baiestorf -- prolífico videomaker (mais de cem filmes!)
que não tem pudores em usar fitas VHS nas produções.
Uma obra recheada de traços kitsch e trash que 'timulou Caselli a fazer o documentário ' Baiestorf:
Filmes de Sangueira e Mulher Pelada ' (2004).
Para quem não conhecia o cara, como eu, o filme de Caselli é uma porta de entrada perfeita.
E a boa notícia é que o filme será publicado no banco de cultura do Overmundo em breve -- fiquem ligados!
Aliás, paralelo a 'te texto, o Christian Caselli postou aqui no Over um de seus curtas (foram vinte produzidos em quatro anos!)
que é quase uma apresentação para o público conhecê-lo:
chama-se Autoconhecimento (clica aí no link e vê o filme, pô!).
Mas voltemos à Mostra ...
Cinema (livre?)
e verba
Não é só a menina da música do Chico Buarque que faz cinema.
Você conhece algum amigo que reclama de ter uma idéia de filme mas que -- injustiça divina -- nunca tem verba para colocar de pé o que 'tá no roteiro?
Pois é, eu tenho vários.
E, em alguns momentos, me encaixei em 'sa lista de queixosos da vida também (quero refletores, câmeras de alta definição, blá blá ...).
Conhecer a trajetória de sucesso do Baiestorf no udigrudi brazuca e bater 'se papo com Caselli foi quase um cascudo na nuca.
Um cascudo necessário em 'ta busca por o ' filme livre perfeito '.
«Cara, o meu filme mais caro deve ter custado R$ 10;
que é o preço da fita MiniDV», brinca, quase como que provocando, já que o cineasta eventualmente teve alguns casos de gastos maiores, como ao filmar em película, por exemplo.
«Mas a imensa maioria dos meus filmes foi entre dez e vinte pilas», reforça.
Cinema (livre?)
e direitos autorais
Outra novidade da Mostra do Filme Livre deste ano foi a sessão Livre Direito, só com filmes em Copyleft e Creative Commons (CC) -- pois pensar em novas formas de discurso audiovisual pode passar, sim, por pensar em formas alternativas de licenciamento.
Esta criatura que vos 'creve até participou de um debate que rolou logo após a exibição dos curtas, numa mesa que contou ainda com o Bruno Tarin e o Christian Caselli como mediador.
A idéia é que a sessão Livre Direito não se repita no ano seguinte, mas a razão é animadora:
incorporar os filmes em licenças abertas à programação normal da MFL acaba com a necessidade de segmentação.
Mas vai rolar um extra:
«Queremos instituir um prêmio para o melhor filme sem copyright;
pode ser feito em Copyleft ou Creative Commons», explica Caselli.
Cinema (livre?):
Faça você mesmo
É caminho sem volta:
cada vez mais a tecnologia tem nos permitido ultrapassar a barreira de 'pectador passivo e nos transformar num produtor de discurso.
Já que existem cada vez mais formas democráticas de se fazer cinema (ou audiovisual, se achar o termo mais adequado), nada melhor que fazer uma convocação para a próxima edição a Mostra do Filme Livre.
Que tal você participar de ela não apenas sentado nas cadeiras do CCBB, mas com filme seu na tela?
Segue logo abaixo algumas sugestões de softwares e acervos de imagens para mostrar que é possível (do roteiro à pós-produ ção) fazer um filme sem grana alguma, só com boas idéias.
E, por favor, turbine 'sa listinha -- que é apenas um pontapé inicial -- nos comentários com outros programas gratuitos ou livres que você conheça.
Vamos lá:
Por mais que seja engraçado flagrar com a câmera seu irmão tomando um tombo de skate e 'borrachando a cara no chão, as coisas filmadas aleatoriamente, em geral, não funcionam.
Então, como primeiro passo, trate de 'crever um roteiro bacana.
E mãos à obra.
Uma ótima indicação é o Celtx -- um software gratuito e open source que não apenas serve para 'crever roteiros e os exporta em formatos populares, como o PDF, mas também armazena storyboards e gera tabelas de produção que ajudam na organização na hora das filmagens.
Completaço.
Você 'creveu o roteiro e vai colocar em prática.
Bom, aí é com ti filmar o que for necessário.
Não tem câmera?
Seja criativo e -- é possível!--
faça um filme sem câmera.
Com as facilidades que a internet e o uso e licenças flexíveis nos dão, é viável encontrar acervos de filmes e fotos que podem ser usados na sua criação.
Um acervo de vídeos enorme e muito popular 'tá no site Archive.
org. Lá você encontra imagens em domínio público e Creative Commons.
O acervo de filmes, músicas e imagens do Overmundo também pode ser usado no seu filme.
Aliás, fazendo a ' tia chata ', é bom ressaltar que quem pega imagens em licenças flexíveis na internet precisa tomar cuidado com as condições de uso.
Aqui no Overmundo, por exemplo, você pode usá-las desde que seu filme dê crédito ao autor original da obra, você não faça uso comercial e permita que usem trechos de seu filme em outras obras feitas sob a mesma licença.
Bom, se catou na internet ou captou na câmera, você tem as imagens para montar sua criação.
Hora de editar.
Caso não tenha a menor intimidade em 'ta área e nem se importa por fazer uma coisa mais simples, use o Windows Movie Maker mesmo.
Tá, é software proprietário, mas é distribuído gratuitamente na internet.
Se você quer uma coisa de qualidade profissional, a boa notícia é o open source Cinelerra -- só tem em versão Linux, que também é gratuito e, se precisar, pode dividir o seu HD pacificamente com o Windows.
Com o filme montado, você ainda pode fazer ajustes de pós-produ ção com o Cinepaint, para correção de cores.
Com o filme pronto, é botar na rede e se inscrever nos festivais.
A gente te vê na MFL 2009?
PS:
fique à vontade para sugerir outros programas ou soluções para filmes nos comentários.
Porque a busca por o ' filme livre perfeito ' não pode parar ...
Número de frases: 103
Se algum dia chegarmos a inviabilizar a vida humana no planeta terra, como apontam as previsões mais catastróficas, será, entre outras coisas, por nos ocuparmos em julgar e condenar tudo o que não nos 'pelha.
O Vampiro de Brasília
Para cumprir o objetivo de se tornar 'critor de literatura fantástica, ele passou em três vestibulares de duas universidades em cidades diferentes, a Goiânia de nascimento e o Distrito Federal onde mora.
Não satisfeito em garantir uma ampla formação acadêmica, ele ainda encarou uma batalha para lançar o livro de 'tréia, Treze milênios --;
Gênese vermelha, uma mistura de vampirismo, ficção histórica e FC:
desde longas caminhadas para digitar o texto num computador emprestado, até uma vaquinha em família para viabilizar a publicação da obra (que é apenas a primeira parte de uma saga que, entre outras mídias, deve contar com nada menos que oito volumes 'critos e algumas adaptações audiovisuais).
Em a entrevista a seguir, 'te determinado autor fala ainda sobre polêmicas na construção de personagens, opina a respeito do uso de temáticas nacionalistas na produção cultural e ainda dá uma prévia dos próximos projetos.
Com vocês, o Vampiro de Brasília, Osíris Reis.
Antes de se lançar em 'sa saga, de que outros trabalhos em termos de literatura, seja na forma de contos ou de poesia, você já participou?
Até os dezoito anos, apesar de apreciar loucamente a ficção fantástica, produzir algo em 'se assunto não combinava com minha religiosidade (leia-se, a minha maneira de praticar a religião, e não o grupo religioso do qual eu fazia parte).
Apesar de não me permitir 'crever ficção científica e terror, eu me permitia (e como!)
imaginá-las, cena por cena, como se eu assistisse a um filme particular.
Era a maneira de eu, menino, e depois adolescente, assistir filmes e TV quando não me era permitido.
Treze Milênios foi a história que mais me cativou de todas as que imaginei.
Imaginei-a no final do ensino médio e comecei a 'crevê-la no início do curso de medicina, ao sentir que, à medida em que 'tudava anatomia, eu perdia o «jeito» de criar tais histórias.
Em outras palavras, minha carreira literária praticamente iniciou-se com a saga.
Antes disso, tenho poemas e canções 'critas para a igreja da qual eu fazia parte, mas não me apetecem mais.
Depois que comecei a 'crever a saga, tendencialmente não faço nada fora de ela.
Exceções a 'sa regra são os trabalhos de faculdade, ou pedidos dos amigos mais próximos.
Só recentemente é que venho tentando, dentro de minhas limitações de tempo, fazer outros trabalhos por conta própria.
O trabalho para o qual mais me dedico atualmente é um programa na TV Comunitária de Brasília, uma revista eletrônica para idosos.
Divido com Fernando Ladeira (que me deu uma senhora mão na revisão do primeiro livro) a redação, a câmera, a sonorização, a edição e os efeitos 'peciais.
Há também poemas e canções, mas nenhum de eles publicados.
E claro, há as coletâneas de conto que 'tou, devagarinho, participando.
O primeiro é o conto «Bandeiras», publicado na edição 16 da Scarium [fanzine de FC].
E tem outros aí no forno.
Em os agradecimentos de Gênese vermelha, você dá algumas pistas sobre os bastidores do livro.
Pode dar mais detalhes sobre como foi a batalha para 'trear no ramo literário com um romance?
Há quanto tento cultiva a idéia básica de Treze milênios?
A história dos oito livros foi bolada em 1997, enquanto eu concluía o ensino médio, com 17 anos.
A o terminar o segundo grau, minha intenção era trabalhar com Ficção Científica, mas sem sair de Goiânia.
Como não havia qualquer «faculdade de FC», fui aconselhado a fazer um curso que me desse uma boa base científica, pra 'crever depois, no tempo livre.
De aí a medicina.
Obviamente isso não funcionou.
Qual 'tudante de medicina tem tempo livre pra 'crever?
Quando se é médico de carreira consolidada, a coisa pode ser mais fácil, mas também não será muito mais simples do que quando se 'tuda medicina.
Complicado, pelo menos.
Isso me frustrou a ponto de abandonar o curso.
Pra minha mãe, separada e nos sustentando com pouco mais de um salário mínimo, ver o filho abandonar medicina não foi nada tranqüilo, principalmente por os problemas de saúde que ela 'tava enfrentando.
Como as finanças 'tavam complicadas, eu mesmo não 'tava legal e tinha me inscrito para o vestibular de engenharia mecatrônica (que, conforme eu imaginava, me aproximaria da FC), deixei de trabalhar e fui passar uns meses na casa dos meus avós, 'tudando para o vestibular.
Em 'ses três meses, comecei a digitar, timidamente, o material que eu tinha manuscrito.
Fiz o vestibular e voltei a Goiânia, para aguardar o resultado e ficar com minha mãe.
Eu tinha uma perspectiva bem complicada caso não fosse aprovado:
ficar sem 'tudar, só trabalhando.
Por isso, usei boa parte desse tempo para terminar o primeiro livro.
E como não tinha computador, pedi a um amigo da igreja (o Luciovan a quem agradeço no livro) para emprestar-mo computador que ele acabara de comprar.
E tenho que dizer que o cara teve uma paCiência de Jó, porque eu invadia o quarto de ele horas e madrugadas a fio, digitando e revisando a primeira versão do livro.
A parte «batalha» da história é que eu não tinha dinheiro de ônibus pra chegar na casa de ele.
Caminhava um bocado pra isso.
O livro foi terminado às pressas, mas mesmo assim o enviei, como rascunho, para algumas editoras.
Como é de praxe, não houve qualquer resposta positiva.
Fui aprovado para mecatrônica, mudei-me para Brasília e, com a opinião de alguns novos amigos do curso, comecei a revisar o trabalho.
Cheguei a fazer uma revisão completa assim, apesar das horas 'tudando cálculo.
Entretanto, as coisas só caminharam mesmo quando conheci o Fernando, jornalista, com quem hoje faço o programa na TV Comunitária.
Ele me ajudou a fazer mais três revisões do trabalho.
Mandei o livro para mais editoras, e novamente não houve resultados.
Enquanto fazia mecatrônica tomei conhecimento do curso de Comunicação Social, fiz um terceiro vestibular e acabei «grudando» no Audiovisual.
Isso me permitiu vislumbrar melhor como a indústria cultural funciona, e como um livro longo, primeiro de uma série, de um brasileiro 'treante, de FC e terror e, ainda por cima, pouquíssimo comportado, seria complicado para os editores brasileiros.
Assim, publiquei-o primeiro por a Vivali, em formato eletrônico.
Depois conheci a Corifeu, com a publicação sob demanda, bem mais barata do que as outras opções, mas ainda um tanto fora das minhas possibilidades.
Meio relutante, procurei os parentes, pedi um pouco pra cada e, felizmente, eles puderam me ajudar.
Resistir à polêmica é fútil, portanto vamos logo a ela.
Seu protagonista é descendente de alemães, branco, extremamente ético, preocupado com todas as formas e vida, heterossexual convicto.
O antagonista é o oposto:
mulato, totalmente amoral, genocida, bissexual.
Quais foram suas intenções quando 'calou personagens com tais características para desempenhar 'ses papéis tão distintos?
Quem me conhece sabe que os dois são igualmente parte de mim, diferentes faces da minha vida cotidiana e da minha história.
O motivo pra que Eurass tenha sido mulato é que eu gostaria que um personagem parecido fisicamente com mim criasse a viagem no tempo.
Devido a alguns traços da personalidade que imaginei para ele enquanto desenvolvedor de duas tecnologias tão à frente de seu tempo, a reação que ele teve à sede de sangue foi absolutamente aberta:
assumir o monstro dentro de si.
Além disso, com um vampiro mulato na Pré-'crítica, decidi aproveitar o mito do meu nome, só que transformando o Osíris, de uma divindade benevolente, numa malévola.
Já Adolf começa como o protótipo do bom moço, inclusive fisicamente.
Minha intenção era, no decorrer dos oito livros, desconstruir 'se «bom mocismo» do Adolf.
E até por as reações do livro, acho que dá pra dizer que tive sucesso, mesmo que «pesando a mão» «um pouco».
Eurass é programador de computadores, é lógico, é «capitalista».
É o criador.
Adolf é médico, psiquiatra, é caridoso.
É o que conserta.
Tanto o programador quanto o médico fazem parte do meu dia-a-dia (não, não pratico medicina).
Acho que isso, por si só, já explica muito do comportamento de ambos.
Suas etnias são em parte explicadas por a minha identificação enquanto criador da saga.
E Eurass ser mulato como eu também é uma maneira de dizer que, como todas as pessoas, tenho meu lado monstro (que por vários motivos, decidi não exercer).
Finalmente, as etnias de 'sas personagens também se relacionam a pessoas de minha infância, muito íntimas.
Uma, negra, vivia uma liberdade com um pé na libertinagem.
A outra, branca, ensinou-me um autocontrole que às vezes beira a obsessividade.
Obviamente, 'sa relação é apenas uma coincidência na minha vida.
Aliás, conheci muitas pessoas, muito queridas, negras, que definitivamente não abusam da própria liberdade.
E pessoas brancas cujo autocontrole não é o ponto forte.
Assim, acredito que as etnias de Adolf e Eurass são uma referência de meu inconsciente às duas pessoas 'pecíficas que cito no começo deste parágrafo, e não às etnias negra / parda e branca.
Vide as etnias das demais personagens do livro e seus comportamentos.
Vale dizer que, das características citadas acerca dos dois, a orientação sexual não é, em absoluto, algo que eu desejasse criticar.
Em o começo do livro, Eurass se mostra um tanto quanto machista e homofóbico.
E certamente, por o que se pode ler nas reações de Adolf, para ele, ser «heterossexual convicto» não é virtude nem defeito.
Creio que a diferença entre os dois no que tange à sexualidade seja a seguinte:
um permitiu-se viciar em sexo a ponto de não medir quem é machucado no processo, e o outro preocupa-se em conhecer a própria sexualidade (independente de ela ser hetero, bi ou homossexual) e vivenciá-la de maneira equilibrada.
Sua formação é bastante singular, como você já enfatizou.
Fora isso, já participou de cursos ou de oficinas literárias, por exemplo?
Em o livro, você aborda muitas questões de fundo filosófico e histórico, 'sas áreas do conhecimento também fazem parte do seu currículo formal ou você é um autodidata em elas?
Os cursos e oficinas literárias dos quais participei foram todos da formação de um 'tudante normal.
Ou seja, antes de 'crever o Gênese vermelha, as únicas oficinas de redação das quais participei foram as do Ensino Fundamental e Médio.
Claro, no curso de Audiovisual participei de disciplinas voltadas à 'crita, mas isso foi depois da última revisão do livro.
O que apresento de filosofia e história no livro apreendi no Ensino Médio.
Para ser mais preciso, o pouco de filosofia que se dava diluído em outras disciplinas do Segundo Grau dos anos 90 foi o que serviu de base para que eu deduzisse a imensa parte das considerações filosóficas citadas no primeiro livro.
Obviamente, após o ingresso no Ensino Superior (mais precisamente a Comunicação Social, com mais 'paço para filosofia, antropologia e sociologia -- não me recordo de ter usado no livro nada de filosófico que eu tenha aprendido na faculdade de medicina) fui identificando vários conceitos que eu tinha usado intuitivamente (ou deduzido) no livro.
Ainda na área curricular:
o quanto 'sa já comentada formação contribui para a parte técnica, hard, de sua produção?
Além de ela, como você se prepara para a pesquisa dos vários tópicos abordados na trama da série?
Consulta livros ou sites 'pecializados, tira dúvidas com pessoas da área?
Essa formação me ajudou a dar nomes mais precisos para o que eu descrevi na obra.
Fora a citação da hemoglobina enquanto uma molécula 'trelada com um átomo de ferro no centro (na verdade o grupo Heme da hemoglobina, que para facilitar a compreensão do leitor chamo genericamente de hemoglobina), todas as informações científicas citadas na obra foram apreendidas por mim ainda no Ensino Médio, sem pesquisa consciente do assunto.
Desde pequenininho curto muito ciências, e imagino cada detalhe atômico e celular com muita clareza, em cada momento do meu dia-a-dia.
Ou seja, olhando para uma lâmpada em funcionamento, tendo a visualizar os elétrons sendo puxados, como grãos de ferro por um ímã, alternando o sentido desse «puxar», num movimento tão rápido que o filamento que conduz 'ses elétrons se aquece a altíssimas temperaturas.
Mas não queima, nem reage com nada, devido à não reatividade do gás nobre que envolve 'sa molazinha de metal.
Também é uma característica minha preferir entender um conteúdo do ponto de vista do cientista que primeiro o enunciou.
Isso era, por vezes, uma chateação para os professores, mas sempre foi fonte de prazer pra mim.
Sentia que isso me dava liberdade de compreender pelo menos a maior parte dos motivos de tal conhecimento e das implicações do mesmo, bem como juntá-lo a outros.
como se cada novo conhecimento fosse uma peça de montar, e eu sempre gostasse de olhar a peça por todos os ângulos, para explorar suas possibilidades.
De 'sa forma, eu acabei 'crevendo, no livro, coisas que eu não conhecia mas que já eram 'tudadas.
A teoria das supercordas é o maior exemplo disso.
Obviamente, durante a revisão do livro, eu já com maior bagagem científica e cultural, pude renomear alguns dos termos que eu tinha criado por outros que eu tinha aprendido, mas as idéias permaneceram as mesmas.
Outros, no entanto, deixei que permanecessem como 'tavam, até por a perda de conhecimento ocorrida na Informática Medieval do universo que criei.
Assim, para o primeiro livro, não creio que houve uma preparação 'pecífica.
Entretanto, como os próximos livros se passarão em momentos históricos dos quais já temos mais registros, a pesquisa já 'tá em andamento.
Inclui, por enquanto, internet, documentários, filmes, conversas com amigos do curso de história.
E certamente incluirá livros 'pecializados, assim que a agenda desafogar um tiquinho.
Quais são suas principais influências no gênero fantástico?
Que autores você admira tanto na área de FC quanto na de terror, sejam eles nacionais ou 'trangeiros
Definitivamente não leio tanto quanto gostaria.
Uma autora que admiro é Clarice Lispector, apesar de ainda ter lido, de ela, apenas A hora da 'trela.
Entretanto, o impacto de 'sa obra em mim é tamanho que considero que 'sa seja a minha maior influência.
Mesmo que ela não tenha trabalhado FC, fiquei absolutamente cativo do fluxo de consciência que ela tanto explora em seu texto.
Leituras muito interessantes foram Anne Rice (O Vampiro Lestat), e Asimov (Os robôs do amanhecer).
Estou seco pra ler Bram Stoker, Mary Shelley, e Verne.
Mas tenho que confessar que isso só acontecerá à medida que der conta dos textos da faculdade, que 'tão atrasados.
Com meu recente ingresso no Fandom [a comunidade de fãs de FC], alguns livros brasileiros muito interessantes chegaram às minhas mãos.
Tiro o chapéu para A mão que cria e para Necrópole -- contos de vampiros.
Embora ainda tenha muita coisa muito bem comentada na internet, que quero realmente quero ler.
Você faz parte de um manifesto chamado Antibrasilite que pretende explicitar a liberdade dos autores para que eles façam seus trabalhos independentemente de usar ou não temáticas nacionais.
Mesmo assim, vale lembrar, há no livro uma personagem de origem aparentemente brasileira.
Qual seu engajamento com os ideais do manifesto?
Posso começar respondendo com o que considero uma máxima:
criar tem que ser um ato livre, o mais livre possível.
Livre de amarras norte-americanizadas, mas também de amarras nacionalistas.
Sim, Mani é uma índia de descendência brasileira, mas não considero que foi por Brasilitite que a incluí na história.
Não foi o sentimento de obrigação ante a identidade nacional que me levou a isso, e certamente não foi meu editor (na época em que a história nasceu eu nem entendia direito o que ele faz) que me pediu uma história engajada com o Brasil.
O sentimento que me levou a inclui-la na história foi imaginar (e desejar) que as nações indígenas sobreviveriam por milênios e formariam uma cultura belíssima ao conciliar suas tradições com a ciência e tecnologia do futuro.
Posso até dizer que foi a vontade de que eles sobrevivam culturalmente mesmo quando o conceito de Brasil não mais fizer sentido.
O movimento começou como uma pequena reunião na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, de maneira bem informal.
Logo me interessei, sugeri o termo «Antibrasilitite» e 'crevi o manifesto, para que fosse votado por o grupo.
Por isso, fica fácil perceber porque meu engajamento com os ideais do manifesto é questão de 'sência, um imperativo interno, realmente.
Creio que nunca engoli muito bem o etnocentrismo, a idéia de que a cultura em que crescemos é melhor ou deva ser mais valorizada que as outras.
Não curto o nacionalismo em si, na verdade 'se sentimento até me irrita um pouco.
Creio que devemos nos preocupar, sim, com o povo do Brasil, e protegê-los de outras nações que porventura o agridam física, política ou econômico-financeiramente.
Mas realmente não vejo muita razão de ser, me sinto meio enganado quando penso nos elementos que forjam a nossa nacionalidade ou a de outros povos.
Gosto de jogos olímpicos quando o pessoal se respeita e se admira.
Torço o nariz quando dizem que «o Brasil agora é o melhor do mundo em tal modalidade».
Meu conto «Bandeiras», na Scarium 16, traduz bem o que sinto sobre isso.
Acho que enxergo culturas de nações 'trangeiras como alguns brasileiros menos etnocêntricos costumam olhar a cultura de outros 'tados brasileiros, com grande respeito, admiração, e amplo 'paço para troca.
Creio que, no fim, somos todos humanos, todos seres inteligentes.
Vale a pena, sim, manter nossas culturas.
Mas o ideal da Democracia Intergaláctica de Treze Milênios, mesmo que politicamente utópico, é o ambiente de respeito e pluralidade cultural no qual eu me sentiria confortável.
Como digo no site do manifesto, acredito que a Brasilitite (a exacerbação do nacionalismo cultural brasileiro) teve sua importância, mas que, hoje, ela sufoca.
O público, em grande parte, vive a Síndrome do Capitão Barbosa (o contrário da Brasilitite, ou seja, a proibição mental de tratar do Brasil nas obras de FC, Terror e Fantasia).
A crítica e o mercado editorial vivem, em grande parte, a Brasilitite.
Fica no mínimo complicado para o autor, não é?
Repito que o ato criativo deve ser o mais livre possível.
Qualquer obrigatoriedade temática alija o autor de veios narrativos que poderiam enriquecer a história com o que há de mais genuíno de ele.
Em o site http://www.trezemilenios.xpg.com.br/você comenta que 'tá participando da criação de uma associação nacional para 'critores de ficção fantástica.
Em que 'tágio se encontra tal projeto?
Esse projeto 'tá no aguardo.
Minha intenção era de apenas dar o pontapé inicial para começar a associação, rascunhando um objetivo para a mesma, um site etc.. De lá para cá, entretanto, o projeto final do meu curso (um média-metragem baseado no Gênese vermelha) começou a tomar mais de meu tempo, assim como o programa na TV Comunitária.
Mesmo assim, os autores de Ficção Fantástica no Brasil 'tão sempre em movimento, e acho que 'tamos vivendo um formidável momento.
Já que 'tamos falando de engajamento na área da ficção fantástica:
como você analisa o 'tágio atual da FC, da fantasia e do terror no Brasil?
Em sua opinião, o que poderia ser feito para tornar 'ses gêneros literários mais populares no país?
Creio que 'se é um momento único.
A geração dos anos 80, que cresceu jogando video-game e assistindo a He-Man, Superamigos, animes, Sexta-Feira 13 etc., é adulta hoje.
E muito mais aberta a fruir e produzir ficção fantástica.
Aos poucos, vejo isso chegar ao mundo acadêmico, não tão aos poucos assim a tecnologia se populariza e permite que façamos, aqui no Brasil, livros, vídeos, músicas com recursos técnicos respeitáveis e custo mínimo.
Acho promissor 'se momento.
Acho meio improvável que a Ficção Fantástica não assuma um 'paço na literatura brasileira, mesmo que isso demore mais uma década ou duas.
Por fim:
como 'tá o desenvolvimento dos próximos passos da saga Treze milênios?
Já há datas para novos lançamentos?
Além desse projeto, que outros trabalhos ligados à ficção você deve produzir no futuro próximo?
O próximo passo de Treze milênios é a produção de um média-metragem, que é o meu projeto final para o segundo semestre de 2008.
Há também a formulação de um sistema e de um livro de RPG, ambientado entre o primeiro e o segundo livros da saga.
Posso adiantar que o sistema 'tá bem interessante, mas ainda há um bocado a ser ajustado.
Após o filme, virá, é claro, o segundo livro da saga.
Em 'se ponto, pretendo dar uma folga na Faculdade (vou 'tar formado) e dedicar-me mais sistematicamente à 'crita da saga.
Para agora, há minha participação no projeto 22 (http://www.ericnovello.com.br/index.php?
option = com content & task = view & id = 457 & Itemid = 1), uma coletânea de contos de FC, Terror e Fantasia.
E pretendo participar de outras antologias, com maior freqüência.
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
O livro Treze milênios foi resenhado no Overblog:
Número de frases: 195
http://www.overmundo.com.br/overblog/o sangue no olhar dos-vampiros Os saudosos leitores da revista Mosh devem se lembrar daquela personagem gordinha e moderninha que figurava por suas páginas.
Quem nunca leu agora tem uma boa oportunidade para conhecê-la.
Mônica é a Menina Infinito, uma garota tipicamente urbana que toca sua vida cercada do universo pop, no álbum recém lançado de Fábio Lyra.
Há alguns anos os quadrinhos brasileiros têm vivido um período interessante.
Álbuns de diversos 'tilos e de boa qualidade saindo e encontrando 'paço até em grandes livrarias.
Não pesquisei o suficiente para saber se é o caso de Menina Infinito, mas encontrá-lo para comprar não deve ser difícil.
Claramente influenciado por artistas norte-americano como Daniel Clowes e Terry Moore, Menina Infinito tem mais pé no chão, o que indica a influência do inglês Nick Hornby.
Aliás, Hornby dá o tom básico do que se 'perar de Menina Infinito, se você gostou de Alta Fidelidade, não há como dispensar 'se quadrinho.
Mônica é uma garota moderninha, no 'tilo pós-punk anti-hippie e anti-emo como tantas que permeiam as grandes cidades do Brasil e do Mundo.
Ela tenta segurar um emprego por tempo suficiente para saciar seus desejos de consumo de cultura pop enquanto troca confidências e se diverte com seus amigos.
Fã de Amélie, ela não declara, mas se comporta como aqueles que acreditam no mantra «você é o que você gosta».
Não há nada de fantástico em sua vida, nem de recriminável.
Mônica e seus amigos não são perfeitos, mas também não são excessivos, embora Mônica saiba do que gosta e do que quer, não sabe bem o que ser.
Um retrato sem julgamentos dos jovens adultos atuais, ela pode ser tanto uma filhinha de papai de 17 anos, como uma batalhadora de 25.
O quadrinho em si é executado muito bem, apesar de um pequeno erro de continuidade que percebi, existe bastante atenção à detalhes, inserindo referências pop à rodo sempre que possível.
Não há pressa em contar a história ou textos em excesso (um problema em quadrinhos desse tipo).
O grande mérito de Menina Infinito é mostrar que existe diversidade nos quadrinhos brasileiros, algo além da profusão de clones de mangá ou poesias visuais auto-indulgentes.
Algo de semelhante ao trabalho dos gêmos Fabio Moon e Gabriel Bá.
Mas há um perigo aqui.
Fábio Lyra pode tomar diversos caminhos a partir desse ponto.
Seria interessante vê-lo trabalhar outros universos, mesmo que com a mesma personagem.
Caso haja continuação para o universo de Mônica, seria bom ver a personagem evoluir ou lidar com outras questões além dos meninos da vez ou em que apartamento morar.
E obviamente Lyra é capaz disso, como demonstrou sua participação no álbum «Irmãos Grimm em Quadrinhos», basta explorar a capacidade.
Veja mais sobre Menina Infinito no site oficial (há um preview em PDF para baixar)
OBS: Sei que já saiu uma crítica aqui no Overmundo.
Mas resolvi dar meu pitaco mesmo assim.
Número de frases: 26
Bandas de rock tentam sair da invisibilidade no cenário musical da comunidade brasileira no Japão
Texto: Roberto Maxwell
Imagens: Márcio Inohara
Atitude e guitarras, nem sempre tão distorcidas, são elementos (quase) indispensáveis no rock.
Além, é claro, de um certo sectarismo que põe o 'tilo em confronto com outras tribos.
Ressalte-se que mesmo dentro do ritmo há distinções:
tem o pop rock, o hard rock, o heavy metal, o punk rock, rock progressivo, metal rap e um monte de outros subgêneros cuja lista facilmente encheria 'ta página.
Porém, quando o assunto é comunidade brasileira no Japão, todas as facções sofrem de algo em comum:
num domínio onde o pagode e o sertanejo têm preferência, sobra a invisibilidade para bandas de rock.
Para mudar isso, amantes do 'tilo em Komaki (província de Aichi, centro-leste do Japão) resolveram partir para o contra-ataque:
capitaneados por o músico e produtor Karlinhos Taira, eles produziram o Banana Rock Festival, que chegou à sua terceira edição no dia 10 de fevereiro com o maior publico registrado até o momento (150 pessoas) e trazendo uma questão:
existe 'paço para o rock na comunidade brasileira no Japão?
Amigos de fé Seis bandas se apresentaram na terceira versão do Banana Rock e grande parte de elas compartilha uma história comum:
músicos desde o Brasil, seus integrantes vieram ganhar a vida no Japão.
Deixaram tudo para trás, exceto a paixão por a música.
Alguns até tentaram deixar o hobby de lado, como foi o caso de Karlinhos Taira.
Há 14 anos, quando ele deixou o Brasil, prometeu a si mesmo que iria se afastar da música.
«Mas, isso é mais difícil de largar que droga», conta ele, às gargalhadas.
Desde que chegou ao Japão, Taira já fez parte de várias bandas e hoje, paralelo ao trabalho em fábrica, comum à grande maioria dos dekasseguis, produz eventos como o Banana.
A fábrica foi o local de encontro para membros da maioria das bandas presentes na terceira edição do Banana Rock.
Entre um kyukei (intervalo para descanso) e outro, os músicos 'condidos debaixo do uniforme vão sendo revelados e, de afinidade em afinidade, bandas começam a germinar.
Outro 'paço onde muitas bandas surgem são as igrejas.
Um exemplo é a Made In Brasil, banda de estilo eclético, formada por moradores de Minokamo (província de Gifu, centro-leste do Japão) e Kanie (Aichi), Boa parte de seus membros se conheceu nas atividades da Igreja Católica.
Um outro 'paço onde bandas podem se formar é a 'cola.
Esse foi o caso da banda punk 25 de março.
3/4 da banda dividiam os mesmos bancos 'colares.
O quarto membro foi recrutado nos shows de punk rock que o grupo frequenta, em lugares underground da cidade de Nagóia, como o Huck Finn.
Sem as tradicionais garagens que deram origem a não-sei-quantas boas bandas ao redor do planeta, os ensaios ocorrem em 'túdios.
E em 'se quesito, o Japão é imbatível.
Ao contrário do que ocorre no Brasil, 'túdios de ensaio são baratos no país e, de quebra, costumam ser muito bem equipados.
«Muitos kaikan (centros comunitários) têm bons 'túdios por preços que variam entre 800 e 1000 ienes (entre 13 a 17 reais) a hora», recomenda o experiente Karlinhos Taira.
Estúdios particulares costumam ser um pouco mais caros, mas não passam de 1500 ienes / hora (24,40 reais).
Por 'se motivo, o produtor considera que «o Japão tem um ambiente excelente para a formação de novas bandas».
Papai, mamãe, titia ...
Apesar do número recorde de 150 presentes na terceira edição do Banana Rock, grande parte do público do evento era formado por os familiares e amigos das bandas que subiram ao palco.
«O Banana 'tá unindo as famílias», diz o organizador Karlinhos Taira a respeito dos pais e mães que vêm ver os filhos tocarem no evento.
A presença de amigos e parentes não foi por acaso.
Para participar do Banana Rock, cada banda precisa vender 10 ingressos.
«É uma forma dos caras lutarem por o público também», conta Taira que produz um flyer virtual que é enviado para as bandas semanas antes do evento acontecer.
«Eles colocam no Orkut, no myspace, divulgam por a internet», explica ele.
Minoru Yamada foi o cameraman exclusivo da Made In Brasil.
Pai de dois integrantes da banda, os gêmeos Maurício e Kazu, o senhor ainda acumulou a função de motorista.
«Fui obrigado», conta ele, cheio de bom humor.
Para ver a Made In Brasil vieram, também, o casal Yuji e a japonesa Jaziel.
Yuji é amiga de trabalho de um dos membros da banda e apesar do Made In Brasil ter sido uma das primeiras bandas a se apresentar, elas ficaram até o final do evento.
A japonesa Jaziel gostou do Ventura, o último grupo a se apresentar.
Ela, que fala bem português, fazia seu debut na casa de Komaki e pretende voltar mais vezes.
Cover bands
Para quem não entende o jargão da música, cover é a performance ou a gravação por uma banda ou artista de músicas compostas ou que ficaram famosas nas mãos de outros.
Há muitos artistas que se 'pecializam em cover, alguns de elas chegam a alcançar relativo sucesso com isso.
Em o Brasil, o melhor exemplo é a cantora carioca Danni Carlos, que lançou quatro discos de covers desde 2003 até chegar ao seu primeiro trabalho «autoral», no ano passado.
De os grupos que se apresentaram no Banana Rock, apenas o Latitude 35 mostrou música própria e, mesmo assim, foi apenas uma.
As demais bandas passearam no universo dos covers, principalmente de canções de sucesso dos anos 80, um apelo fácil que atinge em cheio o público.
Falta de criatividade?
Não. A maioria das bandas entrevistadas considera que tocar música própria é o ideal.
Muitos dos músicos, inclusive, contam que 'tão cheios de composições para mostrar.
Mas, na prática, a situação se complica.
«Se a gente começasse com música própria, não nos deixariam tocar nos eventos», explica Dishin, do Ventura, banda que se apresentou por a segunda vez no Banana.
De fato, a maioria das casas prefere que as bandas façam cover.
Mas, há outras razões para se tocar músicas de outros artistas.
«O cover harmoniza os músicos», diz Sergio Kojima da banda Eckus.
De fato, tocar músicas conhecidas por todos do grupo promove o entrosamento de músicos que 'tão se conhecendo.
Além disso, como as bandas só se encontram uma vez por semana, músicas conhecidas são mais fáceis de «tirar», ou seja, de aprender.
Com isso, os músicos podem chegar nos ensaios com o «dever de casa» pronto.
Porém, mesmo tocando covers, as bandas não conseguem se tornar conhecidas o suficiente para garantir um 'paço no mercado, mesmo o de apresentações em bares e casas noturnas voltadas para os brasileiros.
Por isso, e por outros problemas, a grande parte dos grupos não dura muito.
Vida curta
A maioria bandas da terceira edição do Banana Rock 'tava subindo ao palco pela primeira vez.
Não que os músicos fossem novatos.
Pelo contrário, como falado anteriormente, muitos de eles vinha com experiência do Brasil e havia tocado em outras bandas desde que se tornaram migrantes.
Porém, a efemeridade é uma característica dos conjuntos montados no Japão.
Não são raras as histórias de mudanças de nomes, fusões gente que tocava junto num grupo que acabou e decidiu formar outro ...
A variedade de combinações é enorme e mostra que, mesmo trazendo em si o enorme desejo de tocar, os músicos não conseguem montar grupos 'táveis e duradouros.
Muitos atribuem o problema ao dia-a-dia a que 'tão submetidos.
«O cotidiano do Japão é muito pesado», conta o organizador Taira.
Quase todos os outros artistas fazem coro.
«A gente deixa a família e os amigos para poder ensaiar aos domingos.
Isso nem sempre é possível», conta Chico, vocalista da Eckus, a mais longeva das bandas de 'ta edição do Banana, com dois anos de 'trada, cheios de percalços.
Porém, a questão da «vida pesada» não é unanimidade.
Alexandre Pancada, que não tem banda no momento, é um que pensa diferente.
Ele acha que o maior problema é o fato dos músicos tocarem o que não gostam, apenas para agradar o público.
«Os músicos da banda precisam se entrosar, gostar do mesmo 'tilo para dar certo», afirma ele.
Arion Geraldy do Eckus faz coro.
«A verdade é que todos nós gostamos de tocar rock pesado, mas não tem público pra isso na comunidade», lamenta ele.
Falta de tempo também não é desculpa para Rafael Karasu, do Nomares, que não se apresentou no Banana, mas fez parte da comitiva punk rock que foi dar força aos 'treantes da 25 de Março.
«Tenho quatro bandas», surpreende ele, que trabalha em fábrica e organiza seu tempo de modo a poder comparecer aos ensaios dos quatro grupos e, ainda, manter a Karasu Killer, uma 'pécie de selo independente que lança bandas de 'tilos alternativos de rock de vários cantos do mundo.
Mercado japonês?
Apesar de jovem, Rafael tem feito um trabalho que chama atenção.
O Nomares, sua banda de punk rock, produziu um CD demo e faz a maior parte de seus concertos para o público japonês.
Foram eles que abriram um dos shows da turnê japonesa do Mukeka di Rato, uma das mais bem-sucedido bandas recentes de punk rock no Brasil.
Ele acha que os grupos brasileiros precisam vivenciar mais a experiência de tocar para os nativos.
«Os eventos feitos por japoneses são diferentes, tudo é muito organizado», garante ele após criticar o Banana Rock que começou com atraso de quase duas horas.
Alexandre Pancada emenda destacando a falta de tempo, no Banana, para a «passagem o som», ou seja, um momento em que as bandas tocam algumas músicas para que o técnico responsável por os equipamentos de possam regulá-los adequadamente.
«Sem passar o som, as bandas também entram no palco frias», diz ele.
O organizador explica que nem sempre é possível fazer a passagem de som por causa do tempo.
«As bandas teriam que chegar as 8 da manhã e ninguém 'tá a fim disso», defende-se ele.
Apesar do exemplo do Nomares (e de outros grupos de punk rock), a maioria das bandas de rock brasileiras é cética quanto ao mercado japonês.
Os músicos consideram que, diferentemente do samba e da bossa nova, o rock brasileiro não tem apelo junto aos nativos.
Por isso, preferem centrar seus 'forços na comunidade, onde acreditam que terão mais 'paços para se apresentar.
Mas, isso não é o que deseja Karlinhos Taira.
Dentro do projeto Banana Rock 'tá embutido um trabalho social que visa, em última instância, mostrar para os japoneses que os talentos dos migrantes brasileiros.
Taira acredita que o Banana pode ser uma ferramenta importante de aproximação entre os jovens brasileiros e destes como os japoneses.
Por isso, ele pretende fazer a gravação de um single, em japonês, com sua banda o KTNT que será lançado por um selo nipônico.
«Esse single vai abrir as portas para uma coletânea que será gravada com algumas das bandas que passaram por o Banana», conta ele.
A coletânea teria, ainda, produção de P.A. da banda Rpm.
Com o produto em mãos, ele quer colocar as bandas brasileiras nas rádios locais e apresentá-las ao público nativo.
Ainda em formação, a cena de rock na comunidade brasileira é cheia de controvérsias.
Mas, se depender da empolgação com que as bandas se apresentaram no Banana Rock, tanto o evento quanto a coletânea serão um sucesso.
No entanto, no domínio do pagode e do sertanejo, ainda há muito chão a ser conquistado.
Número de frases: 109
Publicada originalmente em Alternativa Nishi.
Assim como afirma a letra de sua música, ele não deixa cultura parar numa das mais carentes e violentas comunidades da região metropolitana do Recife.
É um dos maiores mestres da cultura popular e reúne uma série de aptidões e atividades que fazem de ele uma figura interessantíssima.
Além de um exímio tocador e cantador de côco, dedicou boa parte de sua vida ao mercado informal.
Seu Zeca também coleciona, conserta e vende antiguidades.
A certa época da sua vida vendia Roletes de Cana (Iguaria tipicamente pernambucana -- cana de açúcar cortada e 'petada num palito) em frente a uma das mais tradicionais 'colas católicas de Olinda.
Em o alto da Sé ele oferecia carinho e bons momentos de diversão e aprendizagem fora da sala de aula, marcando a infância de muitas meninas e meninos nas décadas de 70 e 80.
Até hoje é lembrado com muito carinho por eles.
Para 'sas crianças, hoje adultos, falar de Zeca do Rolete é falar de uma infância feliz em que «Seu Alegria» marcou forte presença.
Um homem que aos 65 anos cuida de seus filhos e netos (que não são poucos), e por «só» por isso merece todos os tipos de homenagem.
Diante de 'sa questão, «aquele» que até então cantava seus cocos em rodas que ele mesmo organiza, em frente a sua casa na descriminada comunidade do Turúrú, «a pedra no sapato» do bairro do Janga (em Paulista), ou em algumas festas de amigos também coquistas, precisava ter algum tipo de registro de sua obra e história.
Um registro feito com bastante carinho e sensibilidade.
Conheci Zeca do Rolete através da minha mãe, Hercília Belmiro.
Ela é pedagoga e gestora de uma 'cola pública próxima à comunidade do Turúrú, em que as netas de seu Zeca 'tudam.
Um dia desses, ouviu duas meninas cantando e falando para os colegas da turma de alfabetização que eram cantoras.
Que cantavam com o vôvo Zeca do Rolete!
Isso despertou sua atenção, fazendo com que posteriormente ela conhecesse o próprio Zeca, se encantasse com toda a história e com as músicas que ele cantou a capela com as netas.
Ela chegou em casa contando sobre «Seu Zeca e suas netas lindas».
Fiquei logo com vontade de conhecer 'sa família, mas a aproximação real aconteceu depois de saber de um fato triste na vida de Seu Zeca, que foi o falecimento de uma das suas filhas.
A o receber 'sa notícia tive a idéia de fazer algo pra ajudá-lo.
Assim surgiu a idéia de fazer o documentário e uma apresentação da família na festa junina da 'cola cantando côco de roda.
Falo pra vocês, foi um sucesso!
Conheci Seu Zeca, suas três netas cantoras e seu filho tocador de bombo.
Levei para a festa alguns amigos.
O Daniel Rigotti, Lena e Sheyla.
Eles viram a apresentação e se encantaram com tudo.
As meninas deram aquela força, arranjando câmera emprestada (valeu meninas!).
Pois é, 'tava formada parte da gigantesca equipe do documentário que até então não tinha nome.
O Daniel que já havia sido convidado por já trabalhar com cinema e vídeo em São Paulo, ficou responsável por a captura de imagens direção e edição.
Além da idealização, fiz a produção e pesquisa.
Já havia apresentado a proposta do documentário a três amigos músicos que logo concordaram em participar deste trabalho.
Então foi isso, com uma equipe formada e roteiro definido, só o que tínhamos em mente era mãos a obra, ou melhor.
Mãos na câmera, rumo ao Turúrú, dedo no rec..
«E vamo batê o coco»!
De 'sa forma nasceu o documentário «Vamo Batê o Coco».
Diante da inquietação ao ver 'se grande artista no anonimato, encontrando dificuldades para se subsistir através da sua arte, e da vontade de jovens 'tudantes de criar é que ele aconteceu.
Esse documentário, que nada mais é do que um despretensioso registro de um dos divertidos encontros entre três jovens músicos da cena pernambucana (Carlos Amarelo: Forró Rabecado
Azabumba, Bruno Vinezof:
Forró Rabecado
Azabumba Pandeiro do Mestre e Guga Santos:
Banda da Cantora Isaar) com o Mestre Zeca do Rolete que aconteceu no dia 04 de julho, um domingo ensolarado no «invernal» mês de julho de 2006.
Uma iniciativa que visa promover a interação da música contemporânea de Pernambuco com a tradicional.
Um trabalho puramente sincero para nós e louco para os que não acreditavam que teríamos êxito em fazer qualquer tipo de atividade dentro do Turúrú.
É inaceitável, mas ouvimos discursos preconceituosos, que só nos deram mais certeza que o Documentário teria que ser feito.
Comentários do tipo:
«Imagina, se um grupo de jovens com cara de classe média consegue entrar numa favela levando 'ses equipamentos!
O povo de lá vai voar em cima de vocês e roubar tudo».
Mas como tínhamos certeza nada disso aconteceu.
Com a caminhada dos três músicos por as ruas da comunidade até a casa do mestre, e em meio a uma roda de coco, aconteceu o início da captura das imagens para o documentário.
A família de Zeca do Rolete, seus filhos e suas pequenas netas participando, cantando e tocando com os vizinhos que aos poucos tomaram a frente da casa numa rua 'treita daquela comunidade.
Feijão cozinhando na panela de barro, fogo de lenha, a poeira que subia do chão com a dança, aqueles rostos de adultos e crianças, assustados encantados com o seu primeiro contato com a câmera operada por o Daniel e até mesmo com a câmera fotográfica digital em que eu registrava os bastidores da gravação.
Tudo era uma novidade pra eles e pra nós.
Depois da festa na comunidade fizemos imagens na praia com um grupo menor de pessoas sob os olhos atentos e curiosos dos moradores da beira-mar.
Em a despedida pegamos um ônibus lotado (isso mesmo: ônibus do domingão na praia!)
e víamos por a janela os astros do filme correndo atrás do coletivo mandando abraços e beijos.
Em 'sa hora vi que todos nós 'távamos completamente emocionados, com lágrimas nos olhos e sorrisos nos lábios.
Rumamos para Olinda, para realizar a última etapa da captura das imagens.
Em uma casa no Alto da Sé (casa de dois dos músicos que participaram do documentário) finalizamos o trabalho, com os depoimentos dos participantes.
E que depoimentos ...
nossa! Depois disso, um chop pra distrair e voltar para a casa com a sensação de missão cumprida.
Enfim, 'te trabalho resulta do carinho e do afeto que nós recebemos de Zeca do Rolete e da comunidade do turúrú.
Que precisam, devem e tem direito de serem ouvidos e vistos.
Não nas sessões policiais dos jornais ou em programas sensacionalistas que exploram a pobreza, sim como gente que tenta viver com dignidade sem levar vida de rei.
Número de frases: 63
Ele já foi baterista, vocalista de um grupo de hardcore e até organizou eventos como o Miquererock e o Micareggae, micaretas de rock e de reggae.
Mas foi prestando serviços para uma empresa de reciclagem de papel que Ricardo Retz, habitante da cidade-satélite do Guará, descobriu como iria se envolver definitivamente com a música.
«Trabalhando em 'se galpão de reciclagem eu via muitas capas de discos que eram jogadas fora», conta.
«Ficava com dó de ver aquele atentado à cultura e decidi resgatar 'ses discos."
A partir daí, começou sua busca quixotesca por os vinis perdidos.
Saía de manhã cedo de casa, com um carrinho de supermercado, batendo na porta das residências do Guará e pedindo doações de discos que 'tavam acumulando poeira na casa de seus antigos donos.
E a 'tratégia deu certo.
Em pouco tempo, Retz conseguiu arrecadar milhares de vinis.
Tantos que não cabiam mais na sua própria casa.
A solução foi construir um pequeno barraco nos fundos do terreno, que passou a ser a sede do Museu do Vinil, aberto gratuitamente à visitação mediante marcação de horário.
Como todo bom museu cuida bem do seu acervo, Ricardo Retz também tem todo o carinho do mundo por o patrimônio que arrecadou.
«Só vendo os discos repetidos», afirma.
E também não distribui cópias, evitando se envolver no sempre polêmico assunto da pirataria.
«Gravações, só em fitas cassete».
São tantos itens que ele não tem muita certeza do acervo, mas calcula possuir 7 mil discos, 1.500 compactos, 1.200 fitas cassete e mais de 4 mil panfletos, ingressos, artigos e revistas sobre música.
Além de mais de uma dezena de vitrolas.
Quase tudo arrecadado em suas peregrinações.
É claro que tem de tudo em 'sa salada musical.
De a coleção completa do Rei Roberto Carlos aos rebolativos porto-riquenho dos Menudos.
De a música clássica de Mozart ao punk rock dos Sex Pistols.
Mas também há muitas raridades 'condidas:
como um disco com a Aracy de Almeida cantando Noel Rosa, datado de 1939;
um dueto improvável reunindo Pelé e Elis Regina e até uma trilha sonora para fazer planta crescer!
Apesar da grande diversidade de seu cabedal, ele mantém suas raízes roqueiras e elege os discos de blues e de hard rock como seus preferidos.
E os que menos gosta?
Ri." Virei musicólogo e tento ouvir um pouco de tudo, mas detesto breganejo e axé».
Tanta dedicação ao assunto já fez Retz ampliar as atribuições de seu museu.
Não é mais só de vinis.
Agora é Museu da Música.
E ele aproveita 'se 'paço no Overmundo para lançar uma campanha de doação:
'tá recebendo qualquer disco ou objeto relacionado à música.
«Longa vida ao vinil», ele brada.
Longa vida ao vinil, nós repetimos.
Contato -- Ricardo Retz:
Para marcação de visitas ao museu ou para doação de discos e objetos.
Tel:
(61) 9614 6814 E-mail (que ele quase nunca lê):
Número de frases: 37
ricardoretz@yahoo.com.br Gerônimo José da Silva, 36 anos, pernambucano de Casa Amarela, analfabeto.
De longe, só mais um pobre chamado José.
De perto, um artista popular nato, que busca 'paço e reconhecimento de uma parada de ônibus a outra da capital alagoana.
Seu nome pode não ser conhecido, mas sua voz e suas composições têm se propagado cada vez mais entre os usuários do transporte coletivo de Maceió.
Suas músicas carregam o Nordeste no ritmo.
Irreverentes, sensuais, ácidas, ou poemas de amor com grandes doses de criatividade.
Gerônimo, ou Baixinho do Triângulo, como é conhecido, sonha em gravar um CD e ser conhecido por o grande público.
O pernambucano perdeu as contas do número de apresentações que faz por dia nos ônibus e se surpreende com o fato de sua música 'tar se disseminando por a internet, nos toques de celular e na mídia.
Sua composição mais conhecida «O gato devorador com a gata devoradora» tem como tema a paixão animal.
Não há como não se divertir ouvindo trechos como " vou te lamber todinha meu amor, vou te lamber todinha.
Eu quero ser seu gato e você a minha gatinha», entre uma imitação e outra dos gatos no cio;
ou algo como «Pegue o telefone, chame a Samu!».
A equipe do Alagoas24Horas foi ao encontro de Gerônimo na Cidade de Lona, no Conjunto Eustáquio Gomes, onde mora, para conhecer um pouco do seu trabalho e acabou pegando carona numa viagem sem destino certo.
«Eu desço de um ônibus, já procuro outro e por aí sigo fazendo minha arte para sobreviver», explicou, antes de partirmos no Eustáquio Gomes / Centro.
Baixinho conta que a preparação para suas apresentações é simples.
«Não é qualquer ônibus que dá pra pegar.
Prefiro os maiores, com três portas por que chacoalham menos, fazem menos barulho e eu não forço tanto a voz, além do que fico na porta do meio e não atrapalho a passagem.
O som ritmado das músicas logo contagia todo o ônibus, inclusive o cobrador, que acompanha no batuque.
A apresentação termina com um pequeno histórico do seu trabalho e um pedido de colaboração.
Batalha
Gerônimo, que canta desde os sete anos nos ônibus e metrôs de Recife, 'tá em Maceió há cerca de um ano.
Veio apenas com a carteira profissional e o CPF em busca de uma vida melhor.
Apesar de viver como nômade, de barraco em barraco, sozinho, driblando a miséria, ele afirma que encontrou em Maceió oportunidade.
«Recife é mais desenvolvido, mas em Maceió eu consegui coisas que a vida inteira nunca consegui:
oportunidade. Aqui eu vivo melhor e o que ganho dá para viver», disse Gerônimo.
Ele ganha de R$ 10 a R$ 30 trabalhando o dia inteiro, todos os dias da semana.
Analfabeto, ele conta que freqüentou a 'cola dois anos, entretanto, não chegou a aprender a ler e 'crever.
O mais surpreendente é que mesmo sem o domínio da 'crita, compôs centenas de canções que guarda apenas na memória.
«Sei todas elas, se tiver que cantar todas, eu canto.
Inclusive, teve uma que alguém roubou em Recife e quando menos 'pero tinha sido gravada.
Chamava-se ' Meu Bem me Carregue ' e como não tinha direitos autorais, não pude fazer nada».
Recentemente, um amigo se propôs a levá-lo ao programa do humorista Tom Cavalcante, em São Paulo, mas a falta de documentação adiou a viagem.
A possibilidade de ir para um programa de TV renova as 'peranças do artista.
«Eu até cheguei a gravar, recentemente, um CD com 12 músicas na Rádio Palmares, mas é amador.
O que eu queria era poder gravar um CD de verdade, com qualidade, com alguns músicos me acompanhando, aí daria para divulgar nas rádios», comentou entusiasmado.
«Pessoal, 'te é um pouco do trabalho que faço para ganhar a vida.
Um pouco da minha arte, é a minha história.
Por isso, gostaria de pedir a colaboração de vocês para um artista que só 'tá tentando um lugar em 'se universo maravilhoso que se chama planeta terra», finaliza.
Número de frases: 38
Sou professora de inglês numa 'cola franqueada.
Não vou dizer o nome para não fazer propaganda e para não envergonhar os alunos que lá 'tudam.
A 'cola é muito boa.
Ótima 'trutura, linda decoração, salas com cadeiras macias e ar condicionado.
O quadro é branco e existe um mural onde se coloca o calendário do semestre e trabalhos dos alunos.
Tem um cinema, uma lanchonete, uma sala com mais de dez computadores, sala dos professores, coordenação, quatro banheiros.
Tudo em seus conformes ...
Em o início deste segundo semestre participei da reunião dos professores.
Cerca de duas horas ouvindo sobre a metodologia, o sistema avaliativo etc..
Porém, o assunto que me deixou perplexa é o que lhes conto agora.
O diretor e dono da 'cola, relatou o que ouviu de uma professora da mesma franquia, só que em São Paulo, durante um congresso nacional que reuniu todos os franqueados.
Ele sugeriu que o tempo das provas fosse aumentado.
Isso depende do nível em que o aluno se encontra, mas gira em torno de 45 minutos a 1h15, que é o tempo da aula.
Depois de expor seus argumentos, tal professora respondeu a ele:
«Interessante, você reclama que seus alunos não dão conta de fazer a prova no tempo sugerido, mas aqui em São Paulo todos alunos dão conta!».
Imagina minha expressão de vergonha.
Os alunos paulistanos conseguem, mas os palmenses, não!!!!!!
Fomos analisar o porquê e chegamos à conclusão de que existe uma variação enorme de nível entre os Estados brasileiros.
Mas como isso pode acontecer já que todo o material didático e toda a 'trutura física é a mesma em todas as franquias?
Pense, pense.
Coloquemos a culpa nas diferenças culturais?
Ou prefiramos culpar o ensino daqui?
Ainda não sei de quem é a culpa.
Porém, como professora, tenho mil reclamações a fazer.
Os alunos 'tão cada vez mais desinteressados e acham que aprender uma segunda língua é perda de tempo;
Os pais sequer olham para os livros dos filhos;
As tarefas para casa são feitas sem supervisão, quando são feitas;
Tudo é chato e desinteressante para a maioria de eles.
Não sei se isso só acontece aqui em Palmas, posso ter a certeza de que muitas pessoas que lerem 'se texto vão dizer «isso acontece aqui também».
Então onde 'tá o problema?
Mas uma coisa eu garanto:
todas as turmas que eu sou professora, meus alunos têm que fazer as provas no tempo sugerido.
Número de frases: 32
Eles têm que ser capazes, nem que seja na força.
O 3º Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul, que começou na terça-feira (18), chegou ao fim na tarde de sábado (22), Dia Nacional da Juventude, em Vitória (ES), com a entrega dos prêmios da Comissão de Premiação e do Júri Popular.
A comissão, formada por 'tudantes universitários e do ensino médio, premiou trabalhos da Argentina, de São Paulo e de Minas Gerais.
«Conductas y Condicionantes del Comportamiento Grupal», de Andrés Felipe Oliveira (Projeto 3 + uno, da Universidade de Buenos Aires,» Argentina);
«Nua e Crua», de Giuliano Zanelato e Sergio Gambier (Instituto Criar de TV e Cinema / SP);
e «Material Bruto», de Ricardo Alves Júnior (Núcleo de Criação Sapos e Afogados / MG), receberam o Troféu Caleidoscópio.
Os integrantes da comissão levaram em consideração os critérios de originalidade, arte, tema, trilha sonora, edição e montagem para definir os títulos premiados.
A Comissão de Premiação concedeu menções honrosas a duas produções cariocas.
Por a relevância do tema, a comissão destacou o documentário «Ser Igual Mesmo Sendo Diferente», da equipe de jovens do Projeto Bairros do Mundo/Histórias Urbanas ";
por a solução visual, ganhou menção a animação «Seco», dos alunos do Programa Educação do Olhar/Kinetoon Produções Cinematográficas.
Já o prêmio do Júri Popular foi para uma produção paulista:
«Maria Capacete», de Eduardo Bezerra e Victor Luiz, das Oficinas Querô -- Empreendedorismo e Cidadania Através do Cinema.
Além do Troféu Caleidoscópio, a produção recebeu um prêmio adicional de R$ 1.500,00.
O festival -- Em o total, foram apresentados 53 curtas-metragens realizados por crianças, adolescentes e jovens com até 24 anos de idade participantes de projetos audiovisuais desenvolvidos por organizações da sociedade civil no Brasil, na Argentina e no Uruguai.
mais de 30 entidades e projetos marcaram presença na mostra, que recebeu 151 inscrições.
Durante todo o evento, os jovens diretores, professores, 'tudantes da rede pública e coordenadores de projetos se reuniram na Ufes para assistir à apresentação dos filmes e vídeos, participar de oficinas e debater temas relacionados à produção audiovisual jovem.
A proposta do festival é apresentar um panorama da produção jovem que vem das organizações da sociedade civil, 'timulando o debate acerca dos direitos da juventude e a reflexão sobre o conteúdo audiovisual produzido por jovens ou destinado a 'se público.
O 3º Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul é uma realização do Instituto Marlin Azul (ES), Instituto Galpão (ES) e Aldeia -- Agência Audiovisual (CE), com patrocínio da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e da Fundação Vale do Rio Doce.
A primeira edição aconteceu em novembro de 2004, em Vitória;
a segunda edição foi em outubro de 2005, em Fortaleza.
A proposta é alternar a realização do festival entre as duas capitais.
As fotos da premiação já 'tão disponíveis no site e no blog do Festival.
Número de frases: 22
Não deixem de visitar e deixar seus comentários!
Uma pesquisa que 'tá sendo realizada na Universidade de São Paulo tenta mapear as práticas de cultura livre na cidade de São Paulo.
A pesquisa quer descobrir quem são os grupos e indivíduos que realizam atividades criativas que se encaixariam no conceito de cultura livre.
A pesquisa também quer descobrir qual é o entendimento de cultura livre dos grupos, assim como os tipos de licença que utilizam.
A pesquisadora Jhessica Reia, responsável por o trabalho, 'tá disponibilizando um questionário online com as perguntas da pesquisa até o dia 30 de outubro.
O questionário se encontra no site www.gpopai.usp.br/pesquisacl e pode ser respondido por qualquer ator cultural da cidade.
O termo cultura livre, que pauta a pesquisa, foi sugerido inicialmente por Lawrence Lessig no livro de mesmo nome lançado nos Estados Unidos no ano de 2004 (no Brasil foi lançado em 2005, por a Trama).
Lessig se refere às práticas culturais cujas obras são disponibilizadas por licenças alternativas que permitem a livre reprodução e distribuição, podendo restringir o uso comercial e a criação de trabalhos derivados.
Lessig buscou inspiração no movimento do Software Livre, criado na década de 1980 por Richard Stallman para permitir a livre execução, reprodução e modificação de programas de computador.
Ele transpôs os princípios do Software Livre para outras práticas culturais com a criação da Creative Commons, uma ONG que oferece ao público um conjunto de licenças de direito autoral que permitem que os criadores autorizem o livre uso e reprodução das suas obras.
A pesquisa da USP quer ver os efeitos do Software Livre, do Creative Commons e de outras iniciativas semelhantes na cultura paulistana.
A pesquisa já indentificou mais de 200 manifestações que se aproximam do conceito de cultura livre, de grupos de programadores, até artistas plásticos, músicos e 'critores.
Este mapeamento da comunidade de cultura livre da cidade será depois disponibilizado na Internet para que todos tenham acesso aos resultados.
Contato:
Jhessica Reia, telefone 2646-7484/ 8644-3938, e-mail:
Número de frases: 15
jhereia@gmail.com A maioria das pessoas que ouvem falar da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, a relacionam automaticamente com o misticismo.
Elas 'tão certas, mas a realidade é relativa.
O que temos são misticismos.
Eles são muitos, plurais e algumas das experiências aparecem e desaparecem em passe de mágica.
O ponto de partida é que tudo pode ser místico, 'otérico e holístico -- expressões amadas em 'ta região -- desde que se abandone o «sistema cartesiano-ocidental» ou se alinhe com aqueles que o criticam.
A fuga do Ocidente é uma necessidade, porque ele 'gotou-se, é um mundo egoísta, destruidor, consumista e cada vez mais longe de Deus.
A proposta é transformá-lo numa sociedade igualitária e diversificada e o perfil médio do cidadão que deve habitá-la começa com a exigência mínima de saber o signo zodiacal, seguida por respeitar e se relacionar com a natureza, acreditar na teoria de Gaia e em coisas sobrenaturais, sentir a energia vibrando, comer de preferência vegetais, ouvir música new age, participar de fogueiras, fazer ioga, meditar, dispensar o relógio, usar de medicina alternativa, fazer um mapa astral e ser bonzinho.
É assim que orientais, ameríndios, celtas, cristãos místicos e alternativos passam a ser vistos como modelos a serem seguidos.
Quando tudo isso pode ser praticado em lugar 'pecial, 'tá criado um movimento -- é o que acontece aqui.
Buda e William Brake, Lao Tsé e John Lennon, Allan Kardec e Carlos Castañeda, Chico Xavier e Jack Kerouac, Helena Bravatsky e Bob Marley, Khalil Gibran e Leonardo da Vinci, Krishna e Raul Seixas são alguns dos famosos que tem acolhida, fãs e adoradores em 'tas paragens.
A lista é imensa e mostra que o misticismo é feito de mundos paralelos, convivências antagônicas e uma ordem-desordem quântica.
De um primeiro ponto de vista, as explicações mais utilizadas indicam que a aura mística da Chapada é enquadrada por uma natureza exuberante e montanhosa, cortada por o paralelo 14 (o mesmo de Machu Picchu, a cidade sagrada dos Incas, no Peru), assentada em cristal de rocha (o que a tornaria brilhante quando vista do 'paço), antenada para energia cósmica e ligada em discos voadores (existam ou não);
por isso, 'taria destinada a receber os seres artífices da Era de Aquário (seja lá quem forem).
Com tais características não é difícil entender por que místicos, seitas e religiões foram desembarcar aqui às dezenas, nas últimas décadas, e tornar a cidade de «Alto Paraíso» a capital do misticismo no Brasil " -- ainda que outros locais, como São Tomé das Letras (MG), também reivindiquem o título.
Esse desembarque ocorre de duas formas.
Em uma, grupos com raízes internacionais, como os seguidores de Osho, e confrarias de amigos e famílias tendem a permanecer, pois têm dinheiro, adquirem terras e consolidam-se.
Em outra, entidades, grupos e seitas pequenos acabam funcionando como microempresa e podem ou não dar certo.
E na mesma velocidade que abrem, podem fechar.
Desavenças internas, competição predatória e desilusões pessoais explicam os porquês.
A Cavaleiros de Maitreya, por exemplo, de seguidores do Conde de Saint-Germain (o Cristo deste milênio), foi uma das mais renomadas e influentes da Chapada dos Veadeiros, mas só deixou lembranças, como as casas em forma de gota.
A concorrência é grande e uma iniciativa que não conquiste a clientela que precisa acaba indo à falência.
Falidos, o mestre, a wicca e o neo-religioso vão criar uma nova empresa ou retirar-se para fundar a mesma em outro local.
É assim porque o misticismo, como as grandes religiões, não sobrevive só de boa vontade, rituais e energia 'piritual, mas principalmente de dinheiro -- o que, em 'te caso, traz muita felicidade.
Há ainda a tendência de que nenhum místico reconheça o outro como místico, bem ao 'tilo «eu sou o verdadeiro, o outro é o farsante, charlatão».
E assim, numa terra que deveria ser de paz, as pendegas acontecem justamente com aqueles que dizem defender a 'piritualidade e a plenitude como meios de ascese.
E que diabos é 'se tal de misticismo, que a todos atendem?
Essencialmente, é qualquer prática 'piritual de oração, ritual ou meditação que dispense intermediários e ligue o praticante (ou místico) diretamente a Deus ou o Absoluto, formando a Grande Unidade.
Em a Chapada dos Veadeiros, 'te conceito genérico é ainda mais amplo.
Sob seu guarda-chuva democrático cabem gurus, adivinhos, mestres, bruxas, vegetarianos, macrobióticos, astrólogos, ufologistas, mães de santo, xamanistas, religiosos seculares e até artesãos-hippies.
Hippie é místico?
Vegetariano é místico?
Aqui acaba sendo.
Até mesmo o empresário que batizar sua pousada com um nome a caráter vai ficar próximo do místico.
Esses nomes ajudam a criar o clima:
Renascer da Luz, Alfa e Ômega, Anos Luz, Aquarius, Recanto da Grande Paz, Jardim do Éden, Camelot.
Essa última, um hotel que imita um castelo medieval, afirma, em seu site, que, há alguns séculos, «os Templários 'tiveram na região da Chapada em busca de uma gruta perto do paralelo 14, ligada aos mundos subterrâneos, e o Santo Graal, na 'perança de uma nova visão de humanidade para os anos vindouros» e o dono do hotel e alguns conhecidos, garante o texto, têm guardado o desdobramento desse segredo.
Fantasioso ou não, 'te é o lado «real», dos que acreditam no que fazem.
Mas chegar aqui e procurar seitas místicas não é tão simples.
Como seitas, para serem seitas, precisam ser fechadas e secretas, aparece, então, uma grande contradição, porque elas não podem fazer parte de propostas abertas e acessíveis.
Em geral, é preciso ganhar confiança ou ser apresentado por alguém que já integra o grupo.
No caso do turismo, a solução não inclui rituais, mas visitas aos templos e inúmeros serviços prestados na área holística, 'otérica e de medicina alternativa.
Eis o cardápio:
horóscopo maia, mapa astral, feng shui, radiestesia, reiki, terapia de vidas passadas, acupuntura auricular, terapia abissal, cristalterapia, cromoterapia, florais, massagem ayurvédica e uma infinidade de opções batizadas com verdadeiros trava-línguas, sempre trazendo expressões indianas e chinesas.
As seitas e organizações acompanham o clima:
Osho Lua, Centro de Terapia Holística, Fraternidade Branca, Ordem Mística Iniciática Bramânica, Sociedade Maria-Rosa Mística e assim vai.
Mas quando começa toda 'sa história?
Por incrível que pareça, vai ser a dois mil quilômetros daqui, no Recife.
Era 1957, quando um grupo de pernambucanos, numa «missão 'piritual», se dirige ao centro do País, em busca de um lugar 'pecial para criar uma 'cola filantrópica.
O local eleito fica sendo a Chapada dos Veadeiros, onde fundam a Fazenda Bona Espero, uma 'cola inovadora que vai ensinar, entre outras coisas, 'peranto aos jovens sertanejos.
à primeira vista, 'peranto nada tem de místico, mas sua proposta universal o consolida assim com o tempo.
Em 1963, acontece o segundo passo, também vindo de fora.
Agora, são os mineiros da Oscal, uma entidade kardecista de Belo Horizonte, que vai fundar aqui a Cidade da Fraternidade, prevista para abrigar 30 mil pessoas.
A experiência trouxe gente de vários locais do Brasil, mas não somou mais que 400 idealistas.
Estes e as sementes da vida comunitária e alternativa, contudo, permaneceram.
Em 1980, é dado o terceiro passo, também vindo de fora.
Em Mauá, no Rio de Janeiro, acontece o Encontro Nacional de Comunidades Rurais e, em ele, Alto Paraíso é eleita uma 'pécie de sede permanente de 'sas organizações.
Ao mesmo tempo, é lançado o Projeto Rumo ao Sol, uma proposta holística para expandir a Nova Consciência.
E mais gente -- desta vez, uma mistura de intelectuais, discípulos de Khalil Gibran e bichos-grilos -- vai chegar à Chapada.
A partir daí, a consolidação da «aura mística» 'tá feita.
E como uma respiração, muitos vão e muitos vêm.
Em o início dos anos 1990, grupos autoproclamados «místicos» e «'otéricos» começam a chegar, adquirir grandes propriedades, mas longe de propostas comunitárias, a prática é 'sencialmente sectária.
Em o mesmo ritmo, inúmeras organizações não-governamentais vão se instalar aqui, em nome da defesa da natureza e do Cerrado.
E muitas de elas, como tudo aqui, vão ser enquadradas como «místicas».
Bem, chegamos ao Terceiro Milênio, 'tamos na Era de Aquário e, agora, na Chapada dos Veadeiros temos uma certeza:
misticismo pouco é bobagem.
Por sinal, você já beijou seu gnomo hoje?
Dá tchau para o ET, dá!
Número de frases: 67
Em 2006, as embarcações modernas da empresa alemã ThyssenKrupp e da parcialmente 'trangeira Vale do Rio Doce atravessaram o oceano e desembocaram às margens da Baía de Sepetiba, dando início a um imenso 'trago social e ambiental bem longe de suas casas, com a instalação da bilionária Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), a maior da América Latina, no Distrito Industrial de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, prevista para ser inaugurada em 2009.
«Dentro da Baía, em linha reta até o cais, já são 4 quilômetros de extensão ocupada por o consórcio.
O projeto não foi aceito no país de eles devido ao altíssimo grau de poluição.
O Brasil é muito bonzinho e aceitou.
Soltam um pó tão perigoso que abre buracos na lataria de carros.
É por isso que uma outra fábrica [a empresa coreana Hyundai] desistiu de se instalar aqui», resume o nível da situação o pescador artesanal Luiz Carlos, fundador da primeira Associação de Pesca de Jacarepaguá, que vem lutando ao lado de uma comunidade de mais de 8 mil pescadores na região para manter o equilíbrio natural das águas, os peixes e a sobrevivência daquela população, formada também por artesãos, pequenos criadores de gado e famílias de agricultores, muitas removidas do local onde se instalou o canteiro de obras do complexo siderúrgico.
Em maio, Luiz Carlos, que na maior parte da vida navegou a remo, e só nos últimos anos modernizou-se com uma pequena embarcação a motor, também se locomoveu para muito distante de sua casa, em Jesuítas -- comunidade construída no final da década de 1950 ao redor da Baía por os próprios pescadores -- onde ele também nasceu.
Convidado por os movimentos sociais a testemunhar no TPP, o Tribunal Permanente dos Povos, Luiz Carlos embarcou por os ares até Lima, no Peru, em busca de um julgamento crítico, justo e efetivo sobre a atuação do consórcio ThyssenKrupp / Vale na Zona Oeste do Rio.
Em o Tribunal, que aconteceu como parte da Cúpula dos Povos * deste ano, o pescador falou a um círculo de juristas, intelectuais, ativistas de direitos humanos e jornalistas do mundo inteiro, denunciando a mortandade de peixes, caranguejos, jacarés, capivaras e lontras em sua região;
testemunhando as necessidades porque vêm passando seus milhares de companheiros de pesca;
evidenciando os danos ecológicos à Baía de Sepetiba e à vegetação do entorno;
desvelando o abarroamento de pequenas embarcações, e a morte de 83 trabalhadores, entre pescadores e funcionários da própria CSA, por conta da maquinaria e das atividades da obra, desde que ela começou.
De cerca de 20 casos apresentados na Cúpula dos Povos sobre práticas ilegais de transnacionais européias no continente latino-americano, 7 eram brasileiros.
Logo no início da obra, Luiz Carlos organizou um protesto pacífico em frente ao terreno.
Reivindicava o desconhecimento da população local sobre a chegada do projeto, cujos responsáveis, segundo ele, não procuraram em momento algum a comunidade para tratar do assunto, e falsificavam assinaturas que comprovavam o acesso da comunidade às informações.
Os dirigentes da CSA pediram aos pescadores uma proposta de ressarcimento por sete meses de pesca prejudicada, que deveria ser cumprido até março do ano passado.
De lá para cá, o máximo que Luiz Carlos conseguiu do Consórcio foram 100 reais de indenização -- a metade do que havia pedido -- por um corte de mais de 200 metros em sua rede de pesca, que ficou agarrada à hélice de uma das embarcações da CSA.
«Não vamos conseguir vetar a obra, só um milagre.
Vamos ficar sem nossa área saudável de trabalho.
Queremos embarcações melhores para pescar a maiores distâncias», já que os peixes não aparecem mais naquela região, devido aos rebocadores e às tubulações da dragagem de 30 metros de profundidade realizada por a obra, que sugam os animais aquáticos e as redes a mais de 300 metros de distância.
«Saíamos de madrugada na época da tainha e voltávamos à tarde com 500 quilos, às vezes até 1 tonelada de peixe.
Pra quem ficou na pesca 'tá difícil."
Em uma análise da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (SECT) sobre o investimento de 7 bilhões de reais do Consórcio, o governo do Rio diz que a CSA vai gerar 35 mil empregos a partir do seu funcionamento.
Mas, em contradição ao próprio governo, a Secretaria de Obras do Estado pôs literalmente uma vírgula em 'se número, afirmando que o total seria de 3,5 mil empregos gerados -- 6,5 mil a menos que o previsto para serem gerados até o término das obras.
«Muitos se inscreveram para trabalhar na Siderúrgica, por falta de opção, mas quando se descobre que são pescadores, são descartados por haver processos contra a fábrica através das colônias."
Por quase toda a vida Luiz Carlos se locomove sobre uma cadeira de rodas ou em cima de um barco.
Se aos dois anos teve uma paralisia infantil irreversível, aos sete descobriu-se pescador para sempre.
Neto do português que o colocou no caminho das águas e dos peixes do Rio Guandu-Mirim, no Rio de Janeiro, e de uma legítima índia, segundo ele, «pega no laço» das terras de Mangaratiba, litoral sul do Estado, Luiz Carlos é um genuíno caboclo, fruto daquela antiga história trazida há quinhentos e poucos anos por as marés, e ancorada até hoje por 'sas terras.
A história colonial das embarcações européias, saqueadoras de nossas riquezas continentais, que é responsável também por constituir o povo do qual eu, você e o pescador Luiz Carlos fazemos parte -- permanece a mesma história, fortalecida por um modelo de desenvolvimento baseado na dependência 'trangeira e no seu sistema de exploração, no poder do lucro, na destruição de ecossistemas e na destruição deste mesmo povo que a história criou.
* A Cúpula dos Povos, realizada no mês de maio em Lima, Peru, reuniu milhares de representantes de organizações e movimentos sociais latino-americanos e europeus para discutir modelos de desenvolvimento econômico e de integração regional alternativos aos propostos por os 60 países presentes na Cúpula União Européia/América Latina e Caribe, que aconteceu ao mesmo tempo e na mesma cidade.
O TPP ficou 'tabelecido na Carta de Direitos dos Povos, em 1976, na Argélia.
Número de frases: 31
Mais um dia de trabalho.
Enquanto a 'posa se prepara para sair, ele acorda os filhos que precisam tomar café e colocar o uniforme da 'cola.
Ela, vestindo sua roupa em alta velocidade, coloca-se a pensar na dura jornada de trabalho que 'tá por vir, clientes para quem deve ligar, problemas que deve resolver.
Ele, coando o café, pensa na lista de compras e determina o que será servido no almoço, e jantar.
Enquanto ela se despede das crianças, ele certifica-se que o lanche do recreio 'tá postado adequadamente junto ao suco na lancheira dos filhos.
Ela sai com o carro e acena desejando um bom dia ao marido, ele, já do lado de fora da casa, poe-se a caminhar aqueles mesmos quarteirões diários até a 'cola das crianças.
Já de volta a casa, prepara-se para mais um dia de trabalho, veste seu avental, coloca suas luvas de borracha, e 'tá pronto para exercer sua função, dono-de-casa.
Histórias como 'sa 'tão sendo cada vez mais presentes na vida de muitos homens ao redor do mundo, e 'ta realidade, que antes parecia ser tema de piada, já pode ser tratada de forma séria.
A presença de homens desempenhando o papel de dono-de-casa atualmente, segundo a professora doutora Maria Juracy Toneli, que teve sua tese de doutorado dedicada ao 'tudo de homens donos-de-casa, deve-se a vários aspectos, entre eles, certamente, as mudanças que o movimento feminista conquistou.
«A entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho (ainda que com toda a desigualdade visibilizada por as 'tatísticas como os salários desiguais), o desemprego, as mudanças na socialização dos meninos, a ênfase na importância da educação das crianças, enfim, são vários elementos que podem ser levados em conta em 'se cenário» comenta Juracy, hoje, professora da Universidade Federal de Santa Catarina.
Em o Brasil, de acordo com 'tatísticas da Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada por o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mulheres no mercado de trabalho vem crescendo gradativamente enquanto o número de homens desempregados também aumenta.
Em os cursos superiores elas também 'tão em ascensão, em 13 anos, o número de mulheres matriculadas em instituições de ensino superior cresceu 22 % em relação ao número de matrículas feitas por homens.
O aumento do sexo feminino foi de 181 %, contra 148 % de 'tudantes do sexo masculino, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
Cerca de 56 % das matrículas nos cursos de graduação pertencem a mulheres.
Juracy ressalta que só o fato das mulheres 'tarem em maior número no mercado de trabalho não explica o fato dos homens 'tarem cuidando da casa.
«A mudança de valores ou mesmo a manutenção de alguns valores como o da importância do cuidado para com os filhos pode ser um elemento importante.
Outra questão fundamental é a concepção de masculinidade que 'tá em jogo.
Se para ser homem é necessário diferenciar-se das mulheres, então torna-se mais difícil para um homem desempenhar as tarefas domésticas e de cuidados, tradicionalmente atribuídas às mulheres.
É mais fácil, por exemplo, homens cuidarem da casa quando não há mulheres disponíveis para isso», diz ela.
Faço porque gosto
Há vários fatores que impulsionam o homem atual a se tornar um dono-de-casa, mas também há aqueles que o fazem por opção.
FD, 44, que prefere não ser identificado, mantém um blog onde relata suas experiências e dá dicas a outros homens que pretendem um dia se dedicar à vida de dono-de-casa.
«Eu queria dar a outros homens, que vivem como eu, uma visão da minha vida, para que assim eles percebam que não 'tão sozinhos».
FD vive na Virginia, Estados Unidos, com sua 'posa, com quem é casado há 18 anos, e suas duas filhas.
Há 15 anos FD desempenha o papel de dono-de-casa, " Eu amo ser um dono-de-casa, é muito compensador e muito melhor do que trabalhar fora.
Eu sei o que devo fazer e faço».
A 'posa de FD é uma advogada de sucesso que garante a renda da casa, o que possibilita FD de realizar todas as tarefas domésticas e ainda dividir seu tempo na educação das filhas de 14 e 12 anos e em trabalhos voluntários numa organização sem fins lucrativos.
O cotidiano de FD é bem parecido ao de uma dona-de-casa, e se orgulha ao dizer que nunca teve uma empregada.
«Em o último sábado, eu acordei cedo, 'vaziei o limpa-louças, peguei o jornal e fiz café para minha 'posa.
Preparei panquecas para minhas filhas e depois lavei a louça.
Levei minha filha ao cabeleireiro e então antecipei algumas tarefas da semana:
limpei os banheiros, varri o chão, aspirei os tapetes, tirei a poeira dos móveis e limpei a cozinha.
Levei minha outra filha ao jogo de basquete e logo que cheguei em casa minha 'posa havia voltado das compras.
à noite, ela nos levou para jantar num ótimo restaurante italiano e quando voltamos passei as roupas enquanto ela assistia TV com as crianças.
Quando terminei, fomos dormir, após eu lhe dar uma bela massagem nos pés».
Unidos por a causa
Pois é, o mundo 'tá mudando, e apesar de parecer que casos como 'te são fatos isolados, uma associação da Itália comprova que não.
Após operar em anonimato durante 10 anos, em 2003, na aprazível região montanhosa da província de Lucca, na Itália, foi fundada a Associação dos Homens Donos-de-Casa (Associazione Degli Uomini Casalinghi), que hoje já conta com mais de 4 mil sócios 'palhados por toda Europa e América.
Conforme explica o presidente Fiorenzo Bresciani, a associação nasceu com o objetivo de reunir homens de todo o mundo que se dedicam em tempo integral ou parcial à atividades domésticas.
Em a associação eles trocam experiências, como melhores produtos para limpeza e receitas culinárias.
«Iniciamos a associação entre três amigos e atualmente temos 4.386 sócios.
Como podemos ver, a associação cresceu muito e em pouco tempo, isso demonstra que o homem agora 'ta pronto para mudar seu modo de viver " afirma Bresciani.
E para quem não acredita nos números do presidente da associação dos donos-de-casa, se preparem, pois será muito difícil de acreditar nos próximos.
Em pesquisa realizada por o Departamento Nacional de Estatísticas Britânico (Office for National Statistics), o número de homens que agora desempenham o papel de donos-de-casa, na Grã-Bretanha, aumentou em três mil para um total de 200 mil no primeiro trimestre de 2007, comparado com o mesmo período do ano passado.
O mesmo valor, mas de queda, foi registrado entre as mulheres -- o número de donas-de-casa caiu em três mil para 2,115 milhões nos primeiros três meses de 2007.
Outra pesquisa da Grã-Bretanha, 'ta feita por a revista «Pregnancy and Birth», que pesquisou duas mil mulheres grávidas e seus parceiros, revelou que um terço dos futuros pais querem ser donos-de-casa e cuidar dos filhos.
De acordo com o 'tudo, outros 30 % dos pesquisados gostariam de trocar o trabalho em tempo integral por um de tempo parcial, se a situação financeira permitir.
Dono-de-casa forçado
Mas o trabalho que é tão almejado nos dados das pesquisas, é um tormento na vida de alguns homens, como, por exemplo, na do português de Porto, Cláudio Nuno, 26, que mantém um blog chamado «Vida de um dono-de-casa».
Nuno vive com sua namorada há alguns meses e como seu trabalho de professor não ocupa muito de seu tempo, e sem muito dinheiro para contratar uma empregada doméstica, ele se viu na obrigação de assumir os afazeres da casa, já que sua 'posa trabalha em período integral.
O português revela que já tinha conhecimento de algumas tarefas, pois as realizava quando morava com seus pais.
Mas a responsabilidade por todos os cuidados da casa vem lhe rendendo muitas boas histórias, publicadas em seu blog, criado em fevereiro de 2007.
Com mais de mil visitas, já criou leitores assíduos que comentam em quase todos os posts do autor.
Mesmo gostando da popularidade, Nuno assume que preferiria não 'tar em 'sa situação.
«Não gosto das tarefas domésticas, mas têm que ser feitas, não é?»,
indaga ele.
Eles 'tão na mídia
Profissão que orgulha a uns e não anima a outros, a função de dono-de-casa é uma das que tem grande chance de receber novos adeptos com o passar dos anos.
Os efeitos disso já podem ser percebidos em alguns movimentos sociais e produções artísticas.
Uma das músicas que impulsionou a carreira do grupo de axé Babado Novo e que permaneceu por algum tempo nas paradas de sucesso popular no Brasil abordava o tema.
Através do refrão " Cachorro, safado, sem-vergonha.
Eu dou duro o dia inteiro e você colchão e fronha», é perceptível que os compositores trataram de relatar, em tom irônico, uma suposta superioridade da mulher nos dias de hoje.
Outro produto artístico que aborda a questão dos donos-de-casa é o livro reportagem do americano Ad Hudler, intitulado «Househusband» (Dono-de-Casa), que conta a história de um homem que tem de abandonar o trabalho e se dedicar aos cuidados da casa quando a mulher recebe uma bela proposta de trabalho.
O livro já foi traduzido em quatro línguas e recebeu ótimas críticas da imprensa americana.
E a temática não foge das telinhas de Hollywood.
Um dos mais famosos atores de comédia dos Estados Unidos, Jim Carrey, já 'tá gravando seu novo filme onde atuará como um 'critor, que ao ver sua mulher grávida novamente, e necessitando de repouso absoluto, assume a função de cuidar da casa e dos filhos.
Em a Internet, o assunto também é muito comentado.
Em o site de relacionamentos «Orkut» há várias comunidades criadas e com muitos adeptos ao tema, porém grande parte de elas leva o fato de ser dono-de-casa como uma brincadeira.
Em a comunidade «Quero ser dono-de-casa» a descrição revela o tom de ironia com o tema «Nós queremos sim ser sustentados por nossas mulheres que um dia queimaram o sutiã e saíram para trabalhar».
Mas não são apenas os homens que brincam com o tema, as mulheres também criam comunidades a respeito, como a «Quero um dono-de-casa» que traz em sua descrição um desabafo da injustiça com as mulheres.
«Esta comunidade é para quem pensa que não tem problema nenhum em ter um namorado ou marido que ajude a cuidar de casa e dos filhos.
Já era o tempo que só a mulher educava, 'quentava a barriga no fogão e 'friava no tanque», diz a descrição.
Donos-de-casa empreendedores
Com 'se tom de comédia que em meados de 2004, quatro amigos, ao se verem desempregados e tendo de assumir as tarefas domésticas, resolveram criar camisetas com desenhos e frases que identificavam a situação por qual passavam.
As tais camisetas ficaram famosas e muitos outros adeptos surgiram querendo também uma peça de roupa que retratasse o tema.
Foi daí que os quatro tiveram a idéia de criar uma marca de roupa dedicada à situação, a «Dono-de-casa House Wear».
«Em o início possuíamos apenas camisetas com 'tampas simples, mas com o tempo passamos a nos profissionalizar, diversificar produtos, e, além disso, decidimos criar sempre novas 'tampas e dar mais atenção ao design gráfico de nosso site, cartazes e filipetas», conta Alex Franulovic, um dos idealizadores da marca.
Franulovic e seus amigos-sócios logo perceberam que a marca dos donos-de-casa não se restringia apenas a eles.
«A princípio, nosso público alvo eram os homens que 'tavam em situação idêntica à nossa, ou seja, cuidando do lar enquanto suas mulheres saíam para o trabalho, mas percebemos que as mulheres também se identificavam muito com isso, ou seja, queriam que seus homens ' folgados ' assumissem uma postura de dono-de-casa, revela Franulovic.
Preconceito, por pouco tempo
Apesar da profissão 'tar se propagando, as dificuldades de ser um dono-de-casa vão além do trabalho de limpar, lavar, cozinhar e cuidar dos filhos.
O preconceito e as chacotas de homens e mulheres para com os homens que assumem 'sa profissão ainda são normais.
«Há muito preconceito contra homens dono-de-casa, alguns homens e mulheres que conheço me vêem como um preguiçoso», afirma o dono-de-casa americano, FD.
Para a doutora no assunto, Juracy, dependendo da situação existe ainda o preconceito.
«No caso de homens solteiros, de camadas médias urbanas, penso que 'se comportamento já 'tá mais incorporado socialmente, 'pecialmente porque eventualmente contam com o auxílio de mulheres como faxineiras diaristas.
No caso das camadas populares, em se tratando de organizações familiares que não contam com mulheres aptas para 'sas tarefas (por sua ausência ou por sua idade, por exemplo) também me parece mais fácil a aceitação.
Já com o dono-de-casa Maurício (meu informante principal durante o doutorado), ele mesmo relatava as situações nas quais foi alvo de chacota por parte de vizinhos», fala a doutora.
Para o presidente da Associação dos Donos-de-Casa, «Fiorenzo Bresciani,» Ainda há preconceito, mas tentamos fazer as pessoas entenderem o quanto é importante colaborar com o seu papel nos cuidados da casa e da própria vida.
O homem que cuida da sua própria casa deve ser sempre bem visto e respeitado.
O homem do terceiro milênio deve ser inteligente e preparado para saber cuidar de sua casa».
Para Franulovic, empresário que aposta nos donos-de-casa, vai haver um dia que eles serão tão normais quanto as donas-de-casa.
«Já encontramos com mais facilidade homens que assumem as tarefas domésticas, pois eles perceberam que devem mudar para não se transformarem em personagens fora do seu tempo.
Também vemos que muitos homens naturalmente 'tão tomando gosto de 'tar perto dos filhos e ter mais oportunidades de ficar em casa com a família», argumenta Franulovic.
Se algum dia os donos-de-casa serão melhores que as donas-de-casa, Bresciani responde que não há como dizer quem é melhor, " O correto é dizermos que o homem, por 'colher assumir 'se papel, o desempenha melhor.
Enquanto muitas vezes recai sobre as mulheres 'sa tarefa, o que resulta num trabalho inferior, pois elas o realizam com muito pesar».
O bom argumento do presidente da associação dos donos-de-casa não é compartilhado por o dono-de-casa FD, que discorda.
«As mulheres desempenham 'se papel melhor.
Assim como em todas as outras atividades, elas são superiores aos homens.
A sociedade 'tá percebendo isso agora, e é por isso que elas 'tão cada vez mais no mercado de trabalho, e homens como eu, cuidando de casa».
Sem pedir licença, quebrando valores que por muito tempo imperavam na cultura mundial e igualando ainda mais os homens e as mulheres, a função de dono-de-casa já é um fato que precisa receber um outro olhar da sociedade.
Opinião, compartilhada por todos os entrevistados, é a de que os homens do futuro precisam 'tar aptos a 'sa mudança, tanto em considerá-la, como em aceitá-la, pois quem não o fizer poderá a qualquer momento ser engolido por a onda, sem ao menos 'tar preparado.
Número de frases: 101
Em 'te futuro, de grandes mudanças em vários conceitos que antes eram tão sólidos, qualquer homem poderá ser o próximo dono-de-casa, cabe a cada um aceitar e se preparar, ou, se surpreender.
Historicamente a modernidade é fruto das revoluções burguesas que colocaram em xeque quase todas as instituições convencionais, não mais a religião como referência da verdade, com seu deus que não conseguiu sustentar o geocentrismo;
não mais o rei como um enviado de deus e depois de Luis XVI guilhotinado, o despotismo passou a ser 'clarecido.
Nietzsche anunciou a morte de deus, Darwin desmistificou a condição humana jogando por terra o criacionismo cristão e Freud cindiu o eu revelando que em nós há outro eu que deseja coisas que nós mesmos reprovaríamos:
A terra não é o centro do mundo, o homem não é imagem e semelhança de deus e não tem controle nem sobre si mesmo.
A ciência se torna dona da verdade e a laicização do 'tado separa as 'feras pública e privada.
Tudo em nome da razão, da técnica e do progresso.
A única fé que prevaleceu nos ilustrados é a fé no progresso.
O Iluminismo foi o projeto mais ambicioso e mais otimista da história da humanidade:
Hobbes se 'forçou para mostrar que a necessidade do 'tado não é religiosa, mas tem fundamentos racionais;
Descartes disse que o homem iria dominar a natureza, curar todas as doenças e responder todas as perguntas, Montesquieu mostrou que não é justo que um rei invente a lei, execute a lei e puna quem ele achar que deve e ainda 'teja acima da lei, o lema iluminista inclui igualdade, todos 'tão abaixo da lei constituída por o próprio povo, por isso a necessidade de três poderes autônomos e não hierárquicos.
Voltaire afirma a necessidade do 'tado laico para que se efetive a liberdade de crença, de expressão:
«discordo de tudo o que dizes, mas lutarei até a morte por seu direito de dizeres!" "
O mundo só será feliz quando o último padre morrer enforcado com as tripas do último rei!"
E as revoluções foram feitas, França, Inglaterra e a Independência Norte Americana.
A colonização era um bom negócio, mas a 'cravidão contrariava todo o discurso iluminista, sobrou a África e as recém unificadas Itália e Alemanha chegam atrasadas na partilha do bolo e não se contentaram com as migalhas, vêm as guerras, toda a técnica acumulada encontra um 'copo e as bombas atômicas fecham um ciclo.
Cria-se a ONU e aparentemente as guerras 'friam, cai o muro de Berlim e o neoliberalismo tecnocrata prevalece até que as torres encontram aviões e o ocidente, com seu maniqueísmo aprendido em desenhos animados como o super-homem se intitula o bem, em detrimento do oriente, que se torna o mal.
Mas o petróleo do ocidente não dá conta do american way of life e a China aprendeu a jogar e pode acabar provando que não é a democracia que gera o tal bem 'tar social.
Mas e o Brasil?
Tudo começou com índias nuas, uma missa e uma carta, depois do tal pau de brasa o jeito foi plantar cana, mas os índios não entendem a lógica do jogo e foi melhor trazer os negros, depois achou-se ouro e Portugal achava que ser rico era acumular ouro, mas na Europa a manufatura já era substituída por a maquino fatura e o ouro das minas gerais acaba nas mãos da credora Inglaterra que financia sua revolução industrial.
Enfim 'sa terra parecia que ia cumprir seu ideal, tornar-se um imenso Portugal, com achegada de Dom João VI, fugindo de Napoleão, Depois vem a independência do Brasil:
o único país da América que se torna uma monarquia enquanto a moda era a república defendida por os ilustrados;
o único país do mundo que fica independente e continua governado por a mesma família.
Nossa independência não passou de uma briga entre pai e filho, da qual o povo só ficou sabendo depois.
Pedro I, desde pequeno sabia que não existe pecado do lado debaixo da linha do equador e seu filho, na velhice concordou em dar passagem para a república, que chegou tarde, liberdade, ainda que tardia ...
O Brasil foi um dos últimos países a abolir a 'cravidão na América.
Número de frases: 26
Acima, a Orquestra Andradinense de Viola Caipira durante as gravações do Viola, Minha Viola
Uma frase atribuída a Euclides da Cunha foi tomada como profecia de uma cidade que fica a 640 quilômetros noroeste da capital paulista, quase no " Mato Grosso do Sul:
«Em o vértice da confluência do caudaloso Paraná com o legendário Tietê, surgirá uma grande metrópole».
A localização próxima aos dois rios fez com que Andradina adotasse o trecho como referência.
Reza a lenda que foi inspirada em ela que o maior fazendeiro do Estado de São Paulo na época áurea do café resolveu criar uma nova rota para a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e, para tanto, planejou a urbanização da futura cidade.
O'Rei do Gado ', como era conhecido, inspirou até novela da Globo, motivo de orgulho até hoje para os andradinenses.
Atualmente, entretanto, é um outro motivo que tem deixado a população local orgulhosa.
Criada há pouco mais de dois anos, a Orquestra Andradinense de Viola Caipira Nego Viana vem realizando algumas façanhas.
Recepcionou autoridades 'taduais que visitaram a cidade e foi convidada para tocar na posse dos conselheiros regionais do Turismo Paulista, em São Bernardo do Campo.
O sucesso foi tão grande que a Secretaria de Estado da Cultura contratou-a para uma turnê por o Estado, um reconhecimento inesperado, segundo o " maestro João Wesley Antero da Silva.
«O grupo é formado por trabalhadores humildes que têm amor à viola e música raiz, mas não imaginávamos que chegaríamos tão longe», conta.
Com isso, nos últimos dois meses o grupo visitou Capivari, Indiaporã, São Pedro, Saltinho, Charqueada, Itapuí e São João do Iracema.
Formada por cerca de trinta músicos, dos quais nove tocam viola, a orquestra tem ainda 15 violonistas, um contrabaixista e um percussionista.
O repertório passeia por o popular e por o folclore brasileiro, sempre ligado à música caipira, mas com uma conotação sinfônica, como explica o maestro:
«Eu tento dar mais dinâmica e ritmo a eles, mas a autenticidade mostrada nas vozes tenho que deixar natural porque é algo de quem nasceu e vive no meio caipira».
Pós-graduando em música por uma universidade de Londrina, João Wesley explica que o uso de violões não tira a originalidade da orquestra.
«Os solos e as introduções são sempre feitos por as violas».
E acrescenta que, além de tocar, os músicos cantam.
«Fazemos a primeira e a segunda voz como a música caipira original».
Para ele, a Orquestra melhorou a auto-'tima dos músicos e até da cidade.
«Ensaiamos aos sábados, a partir das 20 às 22 horas.
E eles não faltam, são dedicados, têm disciplina.
Aqui temos lavradores, pedreiros, carpinteiros, mulheres e crianças tocando.
O importante é que poucos teriam coragem de subir num palco sozinhos ou mesmo em dupla.
Mas com o coletivo se tornam mais fortes».
O repertório inclui clássicos como Cuitelinho e Cabocla Tereza.
Associação e 'colinha
Segundo a diretora de Cultura de Andradina, Sandra Pardo, com a evolução, a orquestra organizou a Associação dos Amigos de Viola Caipira de Andradina (Aavica) para levantar fundos para a manutenção do grupo e para projetos futuros, entre eles, a gravação de um CD e a Escolinha de Viola Caipira Nego Viana.
Atualmente, quem quiser ingressar na orquestra pode ir aos ensaios abertos, que são realizados no Centro de Ensino Artístico de Andradina.
A Aavica é presidida por Ana Cândida da Silveira Koga, filha do personagem que dá nome ao grupo.
Nego Viana, falecido em janeiro de 2004, foi radialista por 55 anos em Andradina.
Foi em seu programa «Viajando por o Sertão» que Tião Carreiro cantou pela primeira vez no rádio, segundo Ana.
Em o próximo dia 29, o público andradinense tem a chance de ver a orquestra, que toca nos festejos do aniversário da cidade (comemorado no último dia 11).
Em o último dia 12, entretanto, veio a consagração.
A Orquestra Andradinense participou das gravações do programa Viola, Minha Viola, de Inezita Barroso, na TV Cultura.
O programa tem previsão de ir ao ar no dia 12 de agosto, às 9h, para que enfim o legado de Nego Viana seja visto por o grande público.
Serviço
Orquestra Andradinense de Viola Caipira Nego Viana Dia 29, em Andranina
Dia 12 de agosto, 9h, Viola, Minha Viola, TV Cultura
Contatos (18) 3722-2259 e (18) 3723-5358, com maestro João Wesley
Número de frases: 40
(18) 3723-4877, com Sandra Pardo Em 1970, Florian Schneider-Esleben e Ralf Hütter, dois jovens artistas de Düsseldorf, na Alemanha, mudaram o panorama da música mundial.
Com um misto de ousadia e inovação, os dois transformam o 'túdio Kling Klang numa verdadeira «usina de energia» criativa, o Kraftwerk.
Anos mais tarde, eles recebem o reforço de Wolfgang Flür e Karl Bartos naquela que foi a mais próspera formação do quarteto alemão.
Considerados pais da música eletrônica, o Kraftwerk teve, sem exageros, influência no cenário musical mundial em proporções equivalentes ao que os Beatles fizeram em Liverpool uma década antes.
Tudo que viria depois e que possuísse algum elemento eletrônico, ecoava Kraftwerk -- desde a new wave e a Old School of hip-hop dos anos 80;
passando por a massificação da música eletrônica nos anos 90;
até o electro-rock e o psy-trance que dominam 'sa primeira década do século XXI.
Um detalhe importante e primordial fez com que o Kraftwerk influenciasse tanta gente -- eles não eram somente «música eletrônica».
Sua música é construída com melodias que não deixam nada a dever para solos de guitarras, feita com instrumentos de verdade, construídos por os próprios integrantes, que antes do surgimento de laptops e softwares de edição musical, montavam ao vivo aquilo que era produzido e gravado no Kling Klang.
Em o Brasil não poderia ser diferente, mas engana-se quem pensa que o Kraftwerk só possui influências em dj ´ s e grupos de música eletrônica.
Por aqui o Kraftwerk é rock!
A prova disso é o tributo ao Kraftwerk, idealizado por a revista eletrônica www.urbanaque.com.br, Somos Robôs.
São 14 bandas das mais diferentes vertentes do rock e da música eletrônica, de diferentes 'tados brasileiros, que 'tão prestando suas homenagens em versões inéditas, e declaram, para surpresa de muitos, a importância e influência do Kraftwerk em suas músicas.
Versões surpreendentes que vão da surf music, passam por o funk carioca, electro rock, e até a flertar com trilha sonora para filmes de Bollywood.
Um pequeno retrato da criatividade dos novos artistas brasileiros e que só reforça a tese de que o Brasil passa por uma das melhores fases musicais dos últimos anos.
Produção de norte a sul do país e com um pequeno detalhe, mantendo características regionais e sem perder qualidade.
Para democratizar a música e alcançar o maior número possível de ouvintes, as 14 faixas que compõem o Somos Robôs, não serão comercializadas e sim disponibilizadas para download gratuito no www.urbanaque.com.br.
Abaixo, os depoimentos dos artistas que participaram do Tributo ao Kraftwerk, Somos Robôs, não nos deixam mentir ao dizer que 'ses alemães são rock!
Dietrich (São Paulo / «SP) --» Dietrich empresta seus conhecimentos em homenagem ao Kraftwerk.
A releitura teve como base a inspiração e as sensações que a versão original, «Numbers», criam no intérprete.
Dietrich fez uma empolgante montagem eletrônica que contou com a voz de Carolina Manica».
Astronauta Pingüim (Alegre / «RS) --» Escolhi a música «Komtenmelodie» por uma razão bem simples:
a melodia é do caralho, mas subestimada por 'tar no lado B de um disco pouco conhecido do Kraftwerk.
O Kraftwerk, como não poderia deixar de ser, foi um dos meus primeiros contatos com a «música eletrônica».
Acho que faço até algo mais ou menos «parecido» com eles no meu trabalho solo:
música eletrônica, sem ser música eletrônica».
Revoltz (Cuiabá / «MT) --» Uma das referências mais ativas dentro de todas as composições do Revoltz, sem dúvida nenhuma, é a banda alemã Kraftwerk.
De eles tiramos todo o minimalismo dos teclados e o sistema mântrico de repetição.
Por mais que o som da banda seja eletrônico, vemos que o rock 'ta presente de uma forma subjetiva dentro de suas musicas.
«Autobahn», foi 'colhida por sua forma moderna e quebrada, onde optamos por Rockarizar o Clashismo Dub Pós Punk incutido dentro de 'ta faixa.
Melhor que falar é ouvir».
George Belasco & O Cão Andaluz (Fortaleza / CE) -- «' Neon Lights ' e» Metropolis», além de trazerem 'sa coisa óbvia da noite e da urbanidade fria, remetem a uma época 'pecífica em que o Cão Andaluz era só uma idéia.
Serviu como trilha sonora nos momentos que antecediam a saída para os bares, o encontro com as calçadas ou simplesmente a insônia de quem 'tava numa cidade metida a cosmopolita andando a esmo.
Tanto faz imaginar que isso foi em São Paulo ou Fortaleza.
Kraftwerk para a gente é ao mesmo tempo referência de clássico e vanguarda.
Por mais que tenha influenciado grupos que gostamos bastante como Devo, Depeche Mode, Brian Eno e New Order, o Kraftwerk ainda consegue se manter a frente destes por o impacto e simplicidade das músicas».
Trilöbit (Londrina / «PR) --» Escolhemos " Athërwellen (Airwaves) principalmente por a afinidade temática.
A música originalmente fala sobre o teremim, instrumento russo que usamos desde o começo da banda.
Além disso, a sonoridade que o grupo alemão conseguiu imprimir em 'ta faixa remete a algo muito próximo à nossa proposta musical, misturando rock, surf e elementos eletrônicos.
Kraftwerk é influência notória no som de Trilöbit.
A tecnologia que usamos hoje na música, com sintetizadores e programações, só é possível graças ao pioneirismo de bandas como o Kraftwerk.
Enfim, não seria exagerado dizer que nosso som deve muito aos alemães e a importância de eles para a música que fazemos é imensa».
Golden Shower (Paulo / " SP) -- Man Machine foi a primeira música e o primeiro disco que ouvi do Kraftwerk.
Foi também a banda que abriu meus horizontes musicais na adolescência, até então fadados ao heavy metal e punk rock».
Lucy and the Popsonics (Brasília / " DF) -- Showroom Dummies é o ultraminimalismo.
Trata-se de quatro pessoas, o Kraftwerk, que 'tão se expondo e sendo observados por milhares em seus shows.
Eles transmitem sua forma de sentir as pulsações por meio das ondas sonoras.
As pessoas respondem ao vibrar, cantar e dançar, enquanto eles se movimentam, no palco, como «manequins de vitrine».
Os quatro «showroom dummies» 'tão expostos.
Há movimentos mínimos em seus instrumentos.
Os graves, os agudos, as imagens, as cores, as luzes, as sombras dão o máximo do 'petáculo, do minimum ao maximum.
Em uma combinação de futuro que veio, porém não passou porque ainda há de se concretizar.
Em o princípio era a máquina ...
então, apareceu o Kraftwerk e constatou-se a existência de sentimento cibernético.
Eles 'tão muito além do acústico, do elétrico e criaram não só as bases do eletrônico do futuro de ontem, mas do presente que virá e do futuro de agora.
Kraftwerk é meu pai (Lucy)».
Porno Chic (Paulo / «SP) --» A principio, quando recebemos o sinal verde para participar do projeto, 'távamos em dúvida entre «Sex Object» e «Computer Love».
A 'colha da primeira combinou melhor tanto em termos sonoros -- a versão ganhou fortes traços do pós-punk --, como literalmente.
«I don't to be your sex object, show me some feeling and respect ":
Nós enxergamos 'sa frase como certa analogia.
Não queremos que o Porno Chic seja apenas um objeto sexual do mercado.
Queremos apresentar algo puro e de respeito.
A importância é imensurável, sem dúvida.
O grupo foi um dos precursores do gênero electropop, e isso nas décadas de 70 e 80, quando o termo sequer havia sido definido.
A influência é direta no som da banda.
Muitas das nossas composições são feitas com base nos teclados, geralmente inspirados em bandas já clássicas, como o próprio Kraftwerk, e o New Order».
Nervoso (Rio de Janeiro / RJ) -- " ' Radioactivity ' possui um tema inspirador e catastrófico, o que me motivou a compor 'sa versão.
Além disso, o Kraftwerk é uma das bandas que mais admiro».
I.O.N. (Belém / «PA) --» Nós ouvimos direto as músicas do Kraftwerk.
Até porque queremos compor músicas que tenham características típicas do rock industrial e os alemães são referências indispensáveis.
Em a verdade, «The Robots» é, sem sombra de dúvida, um clássico, que precisava fazer parte desse projeto».
Pipodélica (Florianópolis / «SC) --» Escolhemos «Ohm Sweet Ohm» porque de alguma forma, desde o seu título, ela parece representar bem o que é o Kraftwerk;
e também por vislumbrarmos em ela o potencial de trabalharmos mais a fundo com colagens sonoras -- que é algo que 'tamos experimentando ultimamente.
Não mensuramos a importância do Kraftwerk nos nossos trabalhos simplesmente porque isso não nos faz sentido.
Nunca procuramos seguir nenhuma direção sonora pré-'tabelecida.
Definitivamente, não é música de A ou B que influência nosso som.
Entretanto, Kraftwerk é banda de preferência comum entre nós.
Inconscientemente, vai saber o que pode gerar».
Daniel Belleza & Os Corações em Fúria (São Paulo / «SP) --» A música 'colhida por DBCF para o Tributo do Kraftwerk foi a faixa título do disco de 1977, Trans-Europe Express, que para 'ta ocasião foi rebatizada «Trans-Pompéia removeme», por ter sido ambientada a gravação no clássico bairro paulistano.
Além de Daniel Belleza nos vocais, Jeff Molina na bateria, Rangel no baixo e Johnny Monster na guitarra, a versão contou com a participação dos Rock Rocket, Noel e Allan, cantando e fazendo festa junto.
O mais interessante na versão dos DBCF foi transformar uma música eletrônica -- que inclusive já serviu de base para o rap «Planet Rock do Afrika Bambaataa» -- num rock com os riffs de teclado originais substituídos por a guitarra rocker de Johnny, aliado à ironia do funk carioca».
Ambervisions (Florianópolis / «SC) --» Em a verdade, achamos 'sa bandinha uma bosta, música eletrônica é coisa de perobo.
O Kraftwrek não tem nenhuma influência no nosso som!».
Gerador Zero (Janeiro / «RJ) --» Eu sempre curti demais 'sa música e já tinha uma versão bastante adiantada que eu tocava nos shows, então foi uma questão de aproveitar o que já 'tava feito.
Em o fim não adiantou muita coisa, acabei refazendo praticamente do zero!».
Somos robôs (Lista de músicas)
1 -- I.O.N -- The robots
2 -- Lucy and The Popsonics -- Showroom Dummies
3 -- Golden Shower -- Mehn Maashyn aka The Man Machine (Bollywood Version) --
Porno Chic -- Sex Object --
Ambervisions -- Pocket Calculator --
Dietrich -- Numbers --
Daniel Belleza & Os Corações em Fúria (com Rock Rocket) -- Trans-Pompéia Express --
George Belasco & O Cão Andaluz -- Metropolis + Neon Lights --
Revoltz -- Autobah --
Gerador Zero -- The Man Machine --
Trilöbit -- Athërwellen (Airwaves) --
Astronauta Pingüim -- Komtenmelodie --
Pipodélica -- Ohm Sweet Ohm --
Número de frases: 99
Nervoso -- Radioactivity (Holocausto mix)
Originalmente, publicado no Showlivre.
com.
Recife, capital de Pernambuco, tempos atrás ...
Este 'crevente caminha com uma amiga holandesa por as areias quentes da praia de Boa Viagem.
Impressionada com a arquitetura moderna e imponente das centenas de prédios de luxo plantados à beira-mar, a gringa galega comenta:
-- Em a Holanda, não há os ricos que existem aqui!
-- Sério?
Não acredito!
Responde, 'pantado, seu interlocutor.
-- Sim.
Mas não tem os pobres também!
Ahhhh, tá!
Pois é, amiguinha.
É Brasil, é Recife, a terra do paradoxo, da extrema pobreza e riqueza, do ousado e do anacrônico.
Em a seara da cultura não é diferente.
Música boa de todos os 'tilos e cores é produzida nos quatro cantos da cidade.
Isso não é novidade, 'tá aí gente como a sensacional Spok Frevo Orquestra, Mombojó, Eta Carinae, Volver, Parafusa, Meus 15 anos ...
Que Corpo Lindo! (
demais 'se nome) e muitos outros pra provar.
Novidade nenhuma também é o fato de que dificilmente alguém irá ouvir o trabalho de eles nas caretíssimas e preguiçosas rádios recifenses.
A não ser em programas 'peciais ...
E foi a partir de um desses «programas 'peciais» que a terra do ... (
não, não vou falar " do frevo e do maracatu ") glorioso Íbis Sport Clube, o pior time do mundo, ganhou o festival Em o Ar Coquetel Molotov.
O evento nasceu a partir do coletivo musical homônimo, criado em 2001, por meio de um programa da Universitária AM.
Por o Em o Ar já passaram Teenage Fanclub (Escócia), Hell on Wheels (Suécia), The Kills (Inglaterra) e Hurtmold (SP).
Seguindo a sua tendência de primar por o ousado e «diferente» (em se tratando das nossas queridas FMs e MTVs da vida), a edição 2006 reúne interesantíssimos nomes nacionais, internacionais e locais.
Valv (MG), Júpiter Maçã (RS), Móveis Coloniais de Acaju (Brasília), Ahlev de Bossa (PE), tocam no Teatro da UFPE (Universidade Federal do Pernambuco) junto com Rubin Steiner e Spleen (França), Cocorosie e Tortoise (EUA) (foto), a influente banda do post-rock (novo rótulo para o velho rock progressivo com bem menos gorduras).
Exposição de fotos, feira cultural, palestras e mostra de filmes também 'tão incorporadas ao festival.
A «megacorporação» independente engloba ainda site, revista (em fase de projeto), dois selos musicais (por os quais lançaram Rádio de Outono, Chambaril, The Dead Superstars e Profiterolis) e mais um festival -- o Coquetel Molotov Independente.
O programa de rádio agora é veiculado na Universitária FM, 99.9, todos os sábados, das 11h ao meio-dia.
Infelizmente, Ad Luna não poderá comparecer ao Em o Ar deste ano.
Além de não ter comprado as passagens nem ter se credenciado, ele tem um encontro marcado com o capeta, nas mesmas datas, em São Paulo.
Show do SLAYEEEEEEEEEEEEEEERRRR!!!!!
Mas, fica a sugestão.
Programação do Em o AR Coquetel Molotov
01.09.2006 Sala Cine UFPE (a partir das 18h)
TONY De a GATORRA (RS)
Artificial (RJ)
Diversitrônica (PE)
Teatro da UFPE (a partir das 21h)
Ahlev De Bossa (PE)
Badminton (PE)
Spleen (França)
Cocorosie (EUA)
Júpiter Maçã (RS)
02.09.2006 Sala Cine UFPE (a partir das 18h)
HRÖNIR (PE)
Debate (SP)
Chambaril (PE)
Teatro da UFPE (a partir das 21h)
Backing Ballcats Barbis Vocals (PE)
VALV (MG)
Móveis Coloniais De Acaju (DF)
Rubin STEINER (França)
Tortoise (EUA)
Festival no Ar Coquetel Molotov 2006
Data / Horário:
1º e 2 de setembro -- 18h
Local: Teatro da UFPE -- Recife / PE
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) -- A partir de 10 de agosto
Mais informações:
www.coquetelmolotov.com.br Ad Luna (adluna@showlivre.com) é baterista das bandas Monjolo (PE / SP), thesurfmotherfuckers (MG) jornalista (editor-adjunto do Showlivre.
com) e, às vezes, produtor cultural.
«Fazendo de tudo pra não virar caixa do Bradesco».
BLOG:
Número de frases: 66
http://interdependencia.blogspot.com «Tariri é tinta preta, tinta de guerra, e nós 'távamos brigando por alguma coisa», explica o compositor Alfredo Jatobá.
Tudo índio, tudo parente -- como canta Eliakin Rufino --, batizaram a banda como quem se adorna de um ideal, e como o palco foi o front, madeira não deu flecha nem arco;
mas flauta e violão.
Foi com 'sas armas em punho que, no fim dos anos 70, surgiu a Tariri, experiência política em forma de música que já naquela época discutia questões como internacionalização da Amazônia e assassinato de lideranças indígenas tendo como pano de fundo -- e público cativo -- o forte movimento 'tudantil de então.
Para contar a história da Tariri é preciso voltar ao início dos anos 70, quando surgiu o A Gente, primeiro grupo de rock em Manaus que procurou criar uma identidade própria.
Antes só havia as famosas bandas de baile, que tocavam de tudo mas se 'pecializavam em rock apenas por a exigência de um mercado dominado por Beatles e Rolling Stones.
Encabeçado por o poeta Aldísio Filgueiras e por o músico Maurício Pollari, o A Gente surgiu em 1971 dentro do grupo de Teatro Experimental do Sesc (TESC), inicialmente para se encarregar da trilha sonora dos 'petáculos.
O projeto deu tão certo que logo a banda adquiriu independência, criando shows próprios -- como «Espinhas no Coração (1 e 2) e» Corre, Cometa», Corre " -- que ficavam em cartaz durante quatro meses, em média.
Pois bem, adotando 'sa postura mais autoral e com 'petáculos conceituais, o A Gente mexeu com a cabeça dos jovens músicos amazonenses, e uma prova disso é que o núcleo principal de integrantes da «então futura» Tariri era presença certa nos shows.
«Nós íamos toda terça e quinta ao Tesc para ver A Gente», revela Alfredo Jatobá, um dos líderes fundadores da Tariri.
Regina Mello, outra integrante da banda, também lembra de A Gente como importante referência musical.
«Eles (A Gente) faziam coisas lindas com Aldísio (Filgueiras) e o (Maurício) Polari», observa.
Mais tarde, Polari seria novamente importante para a formação concreta da Tariri, quando apresentava o programa «Música Amazonas», na TV Cultura.
Em uma das edições do programa, Polari convidou a compositora Natacha Andrade para uma participação 'pecial.
Por conta do convite, Natacha chamou o antigo companheiro de conservatório, Alfredo Jatobá, para acompanhá-la;
e 'te, por sua vez, chamou o amigo e músico Carlos Eugênio, o «Magrão», para ir junto.
Em o fim das contas, a gravação do programa terminou e a dupla Jatobá e Magrão convidou Natacha para criarem juntos um 'petáculo completo.
Em a contra-proposta, a compositora deu a idéia de montar uma banda.
Paixões e formações
Uma das características 'senciais da Tariri -- que resultou tanto em prós quanto em contras -- é que ela era uma banda muito mais apaixonada do que profissional.
Havia o comprometimento com causas sociais e ecológicas, mas nenhuma preocupação com questões financeiras.
Tudo era feito sem apoio, duros de cara dura carregando gente e instrumentos em boléias pra tocar na rua.
Por um lado, «doido tem sempre doido que acompanha», brinca Regina, referindo-se ao carisma do grupo, que sempre levava muita gente para suas apresentações.
Em contrapartida, como não havia retorno financeiro, todos mantinham empregos paralelos e abandonavam a banda eventualmente.
Em pouco mais de cinco anos de existência, o Tariri abrigou, além de Alfredo, Regina, Magrão e Natacha, nomes como Adalberto Holanda, Nildete, Elson Johnson, Camarron, Sinval Carlos, Claudinha, Ronaldo e Jane Jatobá em suas formações.
«Nós vivíamos o presente, não sabíamos o que aquilo poderia representar no futuro.
Não tínhamos noção da importância, senão teríamos nos preocupado em documentar tudo», argumenta Jatobá.
Não há nenhum registro fonográfico da banda.
«Em aquela época era difícil, não tinha 'túdio que nem hoje», frisa.
Em meados dos anos 80, a banda acabou se desfazendo completamente.
«Cada um foi cuidar do bolso e do 'tômago», resume Regina.
De 78 a 84, tinta preta, tudo índio, tudo parente, exemplo de engajamento social e paixão por a música.
Para se ter uma idéia, com o show «Tariri De aqui Pra Ali», sem apoio financeiro de nenhuma empresa ou entidade, o grupo percorria a cidade fazendo shows gratuitos, principalmente na periferia de Manaus.
«A gente não pedia para ninguém, chegava num lugar, levava os instrumentos e fazia a festa», lembra Alfredo.
Festas que tinham como mote discussões sobre ecologia, internacionalização da Amazônia e causas indígenas.
«Em aquela época era possível se ter um ideal», observa, «onde havia ato público, nós 'távamos lá, participando com o movimento 'tudantil».
Para finalizar, confira um trecho da letra de " América ":
«Manchas negras nos rios / Sangra a terra de dor / Todos eles mortos de passo lento / Braços cansados sem terra e sem voz / As cabeças rolam, quanto sangue jorra / Tanta gente tomba sem saber porque / Índios que morrem na noite 'quecida da América».
* Em a verdade, 'sa reportagem é a continuação do texto «Rock! Logo após o teatrinho infantil», publicado aqui no Overmundo.
Número de frases: 39
É o relato do pouco que descobri sobre os primórdios do rock manauara em entrevistas e papos de bar na época em que trabalhava para o jornal O Estado do Amazonas Aqui em Porto Alegre é muito comum você falar com as pessoas e alguém disparar:
«'ta cidade é uma província».
Em a maior parte das vezes, o termo «província» tem a conotação de «lugar atrasado»,» cidade com poucas opções».
Será mesmo?
Este «poucas opções», também na maior parte das vezes, leva em consideração as informações sobre os 'paços da província que tem visibilidade através da TV.
Você sabia que dá para tomar banho no Rio Guaíba?
Você sabia que no bairro Glória há uma gruta com imagem de uma santa reverenciada por a população?
Alguém já lhe disse que Porto Alegre é a cidade do Brasil que mais pessoas declararam ao censo do IBGE que praticam religião africana?
Se alguma vez você já visitou Porto Alegre, chegou a se dar conta que temos 16 regiões na cidade?
E que cada região aglutina bairros e vilas?
Talvez você fique impressionado ao ouvir falar isso da capital dos gaúchos, dos farroupilhas, mas temos três comunidades quilombolas em Porto Alegre.
Cada pedaço da cidade tem uma história, um clima, uma imagem, uma textura, um cheiro, um som diferente.
As pessoas não são iguais.
Quem mora no centro, geralmente é mais agitado.
Quem mora na zona sul, é mais zen.
Faço 'ta pequena reflexão porque imagino que toda vez que alguém viaja e conhece uma cidade nova, recebe 'ta afirmação de seus habitantes:
«isto aqui é uma província».
Se Porto Alegre ou qualquer outra cidade do Brasil pode ser considerada uma província, isto é uma questão com muitas respostas.
Número de frases: 18
Mas arrisco a dizer que cada província possui a sua beleza, basta que a gente comece a aprender a olhar.
Por: Priscila Silva
«Você 'tá olhando para quem?»,
«Vai sair assim para onde?», «Você ultimamente 'tá cheio de amigos»,» Não gosto quando você vai para festas, sozinha (o)».
Atire a primeira quem nunca teve uma crise de ciúmes.
Ele, que ultimamente vem 'tado tão presente em relacionamentos amorosos surge como algo positivo ou negativo, dependendo da sua dosagem ...
Qual a função desse sentimento que incomoda tanto as pessoas?
Considerado como «tempero do amor», o ciúme mantém acesa a chama da relação, o desejo por o parceiro e o receio em perdê-lo.
As pessoas priorizam tanto 'se sentimento que, se na relação não tiver ciúme, tem algo de errado.
Além de ser instintivo, também é prova de amor!
O único problema é quando 'sa chama aumenta e toma grandes proporções criando uma situação fora do controle.
É considerado um sentimento normal, desde o tempo dos homens das cavernas se existia, (mesmo as pessoas achando que naquele tempo os homens eram quase animais que não possuíam sentimentos).
O ciúme nunca vem sozinho, ele vem acompanhado do medo, da baixa auto-'tima, da insegurança e desvalorização de si mesmo, ele não é considerado uma doença séria, mas sim, um distúrbio de comportamento que gera sofrimento para quem tem e para quem é o objeto do ciúme.
Saindo do padrão «normal», ele se torna excessivo, capaz de tornar o amor em obsessão, um exemplo claro de ciúme excessivo é a síndrome de Otelo, baseado num personagem de William Shakespeare que sofre com as dúvidas e pensamentos em relação a sua mulher.
A mente de uma pessoa que sofre desse problema imagina situações que não são reais, situações criadas e tudo piora quando o portador do ciúme encontra alguém para alimentar ainda mais os seus pensamentos doentios.
A história de Shakespeare tem um trágico fim, Otelo que por sua vez foi induzido a problematizar a questão por auxílio de «amigos», que sempre 'tavam supondo que possivelmente ele 'tivesse sendo traido.
Com a mente cheia de histórias, Otelo movido por seu ódio acaba matando a amada.
O indivíduo que sofre de ciúme excessivo torna-se vulnerável.
acredita em tudo que é dito por qualquer pessoa, transforma os seus pensamentos e suposições em realidade.
O ciúme tem quer ser saudável na relação, aquela «pontinha» de ciúme quando o seu (a) parceiro (a) chama atenção na rua, pode também servir para que ambos trabalhem a sua auto-'tima.
Podendo pensar " Se ele (a) 'tá chamando tanto atenção, vou mostrar que eu também tenho minhas qualidades."
O ciúme não atormenta somente no presente, o tão temido passado também é culpado.
Os relacionamentos anteriores vêm na mente do ciumento (a) como uma bomba atômica.
Saber como era a relação anterior sempre causa dúvidas e possíveis «conclusões» (que na maioria das vezes são criações da mente) não adianta se explicar para uma pessoa ciumenta, ela nunca irá acreditar, sempre duvida de tudo e milhões de imagens passam em sua cabeça.
Há também uma grande diferença, o ciúme considerado normal dá-se num contexto interpessoal, entre o sujeito e o objeto, enquanto o ciúme excessivo seria intrapessoal, só dentro do sujeito.
O ciúme normal envolve duas pessoas e o excessivo mais do que duas ou até pessoas que nem existam.
Número de frases: 26
Toda pessoa que sofre de ciúme excessivo ou qualquer outra linhagem que venha interferir sua própria vida ou a vida alheia, precisa de tratamento pois 'ta doença o coloca num mundo que somente ela vive.
Entrevista com Ubiratan Castro, presidente da Fundação Cultural Palmares / Ministério da Cultura.
Ubiratan Castro é hoje um dos grandes líderes da política negra nacional.
Doutor em história por a Universite de Paris IV (Paris-Sorbonne), onde 'tudou a política econômica na sociedade 'cravagista no séc..
XIX, formado em história e direito, Ubiratan atualmente preside a Fundação Cultural Palmares.
Um pouco antes de sua palestra na Reitoria da UFBA, durante a II Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (II CIAD), concedeu 'sa entrevista ao colaborador do Overmundo Andre Stangl.
Em sua palestra falou sobre a importância da construção de uma historiografia negra produzida por pesquisadores negros.
Em a entrevista, falou sobre o processo de organização do IIª Ciad, as expectativas africanas, as tensões internas e o silêncio da mídia do sudeste quanto ao evento.
Uma verdadeira aula de história e geopolítica africana.
Overmundo -- A proposta da organização da Conferência foi uma iniciativa da União Africana ...
Ubiratan -- do governo do Senegal e do presidente Abdoulaye Wade 'pecialmente.
Foi um pedido formal do presidente Wade e da União Africana ao presidente Lula e ao ministro Gil para que o Brasil pudesse sediar a segunda conferência, tanto que é o Ministério da Cultura quem se responsabiliza, junto com o Ministério das Relações Exteriores.
É um compromisso de Estado.
Não é um projeto acadêmico, é um projeto de Estado mesmo.
Ov -- Como é que você avalia o encontro?
Ubiratan -- Para mim 'tá sendo um sucesso.
Primeiro por a quantidade de participantes, por a mobilização do povo baiano em torno do tema.
Espero que a Carta de Salvador contenha indicações muito precisas e diretrizes, princípios e recomendações não somente de uma nova qualidade de intercâmbio e de cooperação, mas acima de tudo por a definição de objetivos comuns em termos de atuação nos organismos internacionais, nos órgãos multilaterais e tudo isso centrado na noção de «Renascimento Africano», que é a noção de um novo desenvolvimento de qualidade dos países da África e dos países que têm uma diáspora africana, uma população de origem africana.
Então é um projeto de futuro, uma grande política negra -- não tem o G8 dos países ricos -- que a gente possa ter o nosso GT internacional, em torno das nossas solidariedades, enquanto países todos de tradição africana, no sentido de, em todos os organismos, dar suporte a projetos de desenvolvimento e de apoio, enfim, quebrar com 'se cordão sanitário contra a África e contra o chamado Sul.
O presidente Lula falava muito claramente isso ontem na conferência de ele.
Os países chamados ricos querem uma relação que seja baseada apenas na caridade, em algum tipo de migalha que seja jogada para os chamados países pobres.
A gente não quer isso.
A gente quer uma relação igual.
Ou seja, a gente não quer 'mola, a gente quer ter acesso aos mercados de eles, do jeito que eles têm acesso ao nosso mercado.
A gente quer compartilhar uma tecnologia de ponta e não ter uma tecnologia requentada, a sobra.
Ou seja, se nós trabalharmos em blocos solidários, com projetos em comum, isso fica muito mais fácil.
Então, na verdade, para os africanos, é o ideal de conseguir chegar a uma 'pécie de Estados Unidos da África, enfim, é muito a idéia da Comunidade Européia, chegar a instrumentos de tomada de decisão, de governo, de coordenação e de ação econômica semelhantes à Comunidade Européia, como um Parlamento.
Ov -- Com a formação de um bloco africano?
Ubiratan -- Com a formação mais do que um bloco.
A formação realmente, no futuro, de uma nação unificada.
Ov -- Sem fronteiras, com uma moeda só ...
Ubiratan -- É como eles dizem, que a fronteira seja uma fronteira administrativa, seja uma divisa administrativa, e não uma fronteira que separe nações, que haja políticas comuns, porque a reprodução após a colonização de 'tados pós-coloniais com a mesma territorialidade das áreas coloniais, criou e manteve países inviáveis economicamente.
Você veja, tem aí o Senegal, encravado no Senegal tem a Gâmbia, Guiné Bissau, Guiné Conakry.
Tudo isso já foi a grande Senegâmbia, o grande império peul, o grande império fulani, com a coordenação de recursos, com complementaridades internas.
Enfim, quando os franceses, os ingleses, os portugueses picotaram 'se grande território da antiga Senegâmbia, criando países como a Gâmbia, que é apenas um enclave, um porto inglês no meio da colônia francesa para atrapalhar os franceses, no rio Senegal.
Quer dizer, quando você cria um 'tado como a Guiné Bissau, hoje a Guiné é um 'tado inviável.
Eu 'tive lá duas vezes, é um 'tado que 'tá se debatendo em guerra civil.
Em a verdade o que 'tá em jogo é uma grande Guiné, uma grande Senegâmbia.
Senegal, Gâmbia, Guinés.
O que foi outrora, antes da colonização, um grande império, ou uma grande área, assim como outras áreas.
Isso é um desafio africano, de buscar novas complementaridades, uma nova composição.
Agora eles precisam, e nós também, ter alianças privilegiadas, ter projetos em comum, compartilhamento de tecnologia, que eles tanto precisam, e que não seja só tecnologia militar.
Até hoje o que se compartilhou, por exemplo com Angola, foi a tecnologia militar brasileira, que foi muito mais eficaz que uma tecnologia militar soviética.
Ov -- Cuba também?
Ubiratan -- Cuba entrou com os combatentes, com os primos, mas toda a tecnologia era russa.
Ov -- A gente vê no governo Lula 'sa coalizão do terceiro mundo, uma pressão no sentido de flexibilizar um pouco mais 'se protecionismo do primeiro mundo.
Quer dizer, entra aí isso também, junto com a América Latina e os países asiáticos?
Ubiratan -- Claro.
Porque que nós temos que ser sempre exportadores de produtos brutos e não produtos com valor agregado, com tecnologia incorporada?
Enfim, 'se é o 'forço do Brasil que já é um país que já consegue disputar em alguns 'paços, mas não consegue em outros.
Mas para os africanos isso é pior.
Eles foram inteiramente privados de uma indústria competitiva.
E outra coisa, uma tecnologia que seja adaptada.
Por exemplo, eu acompanhei muitas missões do ministro Amorim, do ministro Gil, do presidente Lula, e um dos itens mais procurados por os países africanos é a Embrapa, ou seja, o que o Brasil tem de ponta, que é uma tecnologia agrícola de ponta, no sentido da pesquisa científica produtiva adaptada aos trópicos, que é uma tecnologia de agricultura tropical brasileira.
Então eles 'tão a fim disso, para quê?
Ov -- Aumentar o desenvolvimento.
Ubiratan-O desenvolvimento, aumentar a produtividade, combater a fome.
Então isso é mais importante do que qualquer doação, do que qualquer 'mola.
Como o Cameroun (Camarões), taí o embaixador, o Brasil compartilhou com eles uma fábrica de remédios.
Tá lá instalando uma fábrica de remédios, para ser usada por o 'tado Cameronês, para produzir genérico, remédio barato.
Ov -- Sem patente?
Ubiratan -- Sem patente.
Ov -- Inclusão digital também?
Ubiratan -- Sim, Inclusão digital, enfim, 'sas são as formas de cooperação.
Ov-A gente sente um pouco de carência de um intercâmbio cultural maior:
músicas, filmes, livros.
Ubiratan -- É, mas tudo isso depende da gente construir uma rede de intercâmbio, mas no meio de 'sa rede tem uma questão que foi colocada muito claramente ontem por o presidente, que em todas as reuniões, em todas as missões se coloca:
transporte aéreo.
Hoje, para você mandar alguém para Angola, você só tem um vôo da Taag, que é Rio-Luanda.
Hoje para você mandar uma pessoa para qualquer país da África, ou você vai para Joanesburgo via São Paulo, e de lá sobe, ou você vai para Lisboa, Paris e desce.
Ov-Na cobertura das viagens do presidente Lula à África, na Folha de São Paulo sempre vinha um aviso dizendo que 'tava indo com a comitiva do presidente porque não tinha outros vôos.
Que situação ...
Ubiratan-As primeiras linhas 'tão sendo abertas, abriu a primeira linha que é Fortaleza-Praia, no Cabo Verde.
São 3h30 de travessia.
Ov -- Também podia ter uma parceria com o setor de turismo, né?
Ubiratan-Mas ainda é um vôo por semana, então 'se vôo é cheíssimo.
E você tem que ir para Sal fazer conexão para o Senegal, para Dakar, é a maior complicação.
Eu fiquei lá uma vez 5h no aeroporto 'perando conexão.
Então a proposta do presidente Lula e do presidente do Senegal é uma linha direta Dakar-Recife, são 3h30 de viagem.
Porque em Dakar você pode fazer conexão para a Europa, fica muito mais barato.
Esses pontos ainda são a permanência de uma intervenção inglesa, européia, que forçou a triangulação.
Que para combater o tráfico de 'cravos, cortou as relações diretas entre Brasil e África e obrigou que toda relação com a África passasse por a Europa.
Ainda hoje existe uma grande resistência das empresas francesas e inglesas em abrir qualquer 'paço de linha direta porque assim mantém a triangulação, que coloca a Europa como intermediária entre as Américas e a África.
Ov -- Como você interpreta o desinteresse da grande mídia do sudeste quanto à IIª Ciad?
Ubiratan-é realmente o bloqueio e o silêncio da imprensa brasileira em tudo o que diz respeito ao negro.
Em o ano passado se fez o Congresso Nacional de Promoção de Igualdade Racial, 3 mil delegados, em Brasília, o centro do poder.
Não saiu uma só notícia no jornal.
O que saiu foi uma notícia que teve briga entre ciganos e briga entre palestinos e judeus lá dentro, uma coisa incidental, de uma expressão mínima, e em torno disso houve um bochicho e tal, mas sobre a questão de negro mesmo há um bloqueio sistemático.
Ov -- Seria desinformação também?
Ubiratan -- Não é, é um bloqueio sistemático, não falar no assunto.
Essa é uma 'tratégia do racismo no Brasil que é antiga, a 'tratégia da invisibilidade, é o silêncio.
A gente não fala mal, mas também não fala bem, a gente não fala nada.
Só fala quando é uma polêmica para sentar o pau, o caso das cotas.
Aí você dá a visibilidade da ressonância a grupos que não têm expressão.
Um exemplo, hoje ela não veio aqui, com medo de ser vaiada.
Ov-Lilian?
Ubiratan-A Lilian Schwartz.
Podia ter vindo, eu queria 'tar debatendo com ela.
Ov -- Houve um comentário de corredores que, por exemplo, Paul Gilroy tinha sido pensado como convidado, mas houve uma reação ao convite.
O que você diz?
Ubiratan-Reação Africana.
Bom, porque eles 'tão propondo uma conferência para reforçar idéias pan-africanista, então há também teóricos que são contra.
Ov-Mas não 'tariam abertos nem ao diálogo?
Ubiratan-A gente chegou até a convidar, mas eles consideraram que iria destoar, polemizar.
Aí é o poder de 'tado, são 53 'tados africanos que dizem:
não quero conversar com Appiah, não quero conversar com Paul Gilroy, a história de eles não me interessa.
Ov -- Tem uma lista negra?
Ubiratan -- É, uma lista negra ou, enfim ...
Ov-O Brasil pode ajudar em 'se diálogo, não é?
Ubiratan -- Pode, a gente 'tá ajudando, a gente 'tá abrindo 'se debate.
Agora é um debate que tem que 'tar pautado por algumas diretrizes.
Por exemplo, se o tema é o pan-africanismo, a união, a busca de conexões, é evidente que Appiah 'tá fora do ninho, porque ele é o nacionalismo Ganês, ele é contra, ele diz que 'se negócio de negritude é tudo invenção da diáspora, que eles, os africanos, não precisam disso, que eles têm identidades nacionais, étnicas, 'pecíficas e que tudo isso é frescura.
Você leu «Em a casa de meu pai»?
Ov -- Não.
Ubiratan -- Aquilo tudo revela uma posição, nem todos os africanos 'tão aqui.
Enfim, a idéia de 'sa colaboração não é generalizada.
É uma idéia que 'tá na União Africana, é a idéia do Projeto Nepad (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África).
Por exemplo, 'se projeto pan-africano, eu 'tive 15 dias atrás em Angola, e do ponto de vista do governo angolano, eles 'tão cagando e andando pra isso.
Eles acham que é uma intervenção 'tranha, porque Angola tem dinheiro agora, tá rica, tem petróleo, tem diamante e no que eles 'tão jogando duro agora é na reconstrução de Angola.
Uma visão extremamente nacionalista.
Há um nacionalismo africano forte, é claro, que emergiu de vários países.
Então, as coisas não são unânimes, nem lá nem aqui.
Ov-Como é que fica a continuidade desse trabalho, se Lula não for reeleito?
Ubiratan-Olha, isso quem pode dizer são os orixás e eu não sei fazer jogo do Ifá. (
Número de frases: 124
risos) (Leia também o texto sobre a IIª Ciad)
Obra do 'critor matogrossense Ricardo Guilherme Dicke foi adaptada e vem sendo encenada em teatro Europeu.
Mais precisamente na terra de Saramago, que aliás foi brindado com dois de seus livros publicados, os romances Rio Abaixo dos Vaqueiros e O Salário dos Poetas.
Este último é que foi adaptado e encenado por o grupo de teatro O Bando, grupo de resistência cultural e linguagem experimental de Portugal, comandado por o diretor João Brites.
Ele ficou tão seduzido por o romance que veio a Cuiabá conhecer e pesquisar autor e lugar-cenário onde são tramados os enredos e urdiduras desse «relato bufo de um ex-ditador que se encontra exilado num qualquer país da América Latina, cujo tema é o da loucura e da sedução que o poder é capaz de exercer sobre a humanidade».
O 'critor mais premiado de Mato Grosso vem rompendo as barreiras que o impedem de ser conhecido por o grande público, «pelejando, pelejando», como costuma dizer.
A falta de uma política editorial e de incentivo à leitura no Brasil reserva um papel ingrato para os 'critores.
Dicke realiza uma literatura de peso na cena brasileira desde o final dos anos 60, quando foi um dos premiados por o concurso literário Walmap, que tinha como julgadores Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto.
Gláuber Rocha, no programa de TV Abertura, indicou o romance Caieira como o retrato mais rico de nossa literatura (tupi or not tupi?)
emergente na época.
Com aquele seu jeito vibrante, vaticinava:
«Ricardo Guilherme Dicke é o maior 'critor vivo do Brasil e ninguém lê, ninguém conhece!"
Dicke vai completar 70 anos de idade e até hoje vive um ostracismo absurdo, sua obra é pouco difundida.
Ironicamente seu nome represa tudo, dique de si mesmo.
João Brites conheceu sua obra através do cineasta Amauri Tangará, que desenvolve um trabalho de integração cultural com Portugal.
Conversei com Ricardo e ele disse, ainda chocado com sua primeira viagem a Portugal e França -- 'tava curtindo ainda o êxtase por o deslumbramento que Paris lhe provocou -- que «a 'tréia da peça foi um sucesso, muito aplaudida mesmo, por o teatro lotado, em Palmela».
Disse ainda que foi uma montagem superexperimental e que 'tava bastante satisfeito.
Segundo Brites:
«Quisemos que os quadros se sucedessem em alto contraste, sem meios termos, ácidos, pueris, violentos, ridículos, obscenos».
E completa com uma passagem extraída do romance, «os ossos não têm pátria, nem as fezes, nem os vômitos, talvez só as lágrimas e o suor».
Ainda brinquei com o Dicke:
«Você já não 'tá mais tão 'quecido, só falta agora uma editora decente abrir os olhos e preparar um (re) lançamento de suas principais obras já publicadas:
Número de frases: 22
Madona dos Páramos, Deus de Caim, Caieira, O Último Horizonte, O Salário dos Poetas, Rio abaixo dos Vaqueiros, Cerimônias do Esquecimento ..."
Quando se fala em salas de exibição de cinema, uma das questões mais pertinentes geralmente é o preço.
Mas já faz tempo que aqui em João Pessoa 'sa reclamação chega a ficar em segundo plano.
A grande questão mesmo, que 'tá fazendo com que muitos cinéfilos deixem de freqüentar as grandes salas, é o caráter dos filmes exibidos:
super produções hollywoodianas que muitas vezes tem por seu maior objetivo serem sucessos de bilheteria e deixam a desejar para os mais exigentes e de gosto cinematográfico que foge ao padrão comum.
Nem a produção nacional tem muito 'paço, vez ou outra é que podemos encontrá-las na programação e mesmo assim só quando é marcada como sucesso e tem uma mídia enorme em torno.
Cinemas com programação voltada para os filmes de arte, ou ao menos com caráter alternativo em João Pessoa ainda é sonho, e mais sonho ainda é a valorização da produção local em programas culturais que possibilitem a exibição para o grande publico.
Há tempos também que os cinéfilos de plantão buscam
alternativas para isso.
A forma mais simples e que tem funcionado é a formação de cineclubes -- grupos que se formam de maneira independente para ver e discutir cinema.
A idéia é antiga.
Desde o final dos anos 60, com a lei de legitimação do cineclubismo, se tem noticias aqui em João Pessoa desses grupos, mas ainda se resumia a algo caseiro e restrito a um só público.
Em os anos 80, Lucio Vilar funda o cineclube Cartaz Cinema, feito por 'tudantes de comunicação e interessados nos clássicos da época.
Infelizmente não durou muito, mas deu base para o que 'tá acontecendo hoje.
E o que 'tá acontecendo hoje?
Para te contar é preciso antes de tudo falar sobre a ABD-PB, (associação brasileira de documentaristas, Paraíba) uma instituição sem fins lucrativos, que funciona desde 1982 e que tem como principal objetivo apoiar a realização e produção audiovisual em vários suportes, principalmente ao curta-metragem.
Desde 2004 a entidade foi contemplada com o Ponto de Cultura Urbe Audiovisual, financiado por o Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, e realizado em parceria com a Universidade Federal da Paraíba.
Dentro das atividades, da Urbe Audiovisual, 'tão a realização de oficinas de 'pecialização, formação básica em audiovisual e, claro, a exibição de trabalhos nacionais em sua sede, localizada no teatro Lima Penante em João Pessoa.
São exibições de curtas nacionais, feitas a partir do chamado «Tin-Tin» cineclube que acontece as quartas-feiras, faça chuva ou faça sol, contando sempre ao final com um debate sobre o que foi visto e a presença de algum 'pecialista na área.
Não há um formato 'pecifico de discussão:
é tudo feito de forma livre, sem restrições.
O 'paço é aberto ao publico, gratuito e freqüentado geralmente por cinéfilos, 'tudantes e envolvidos diretamente com cinema, o que possibilita um contato direto com os produtores da área.
Além da programação semanal, uma vez por mês é feita uma sessão 'pecial chamada Assacine, com o lançamento de um curta e a presença do seu diretor.
Ótimo 'paço também para o que é feito por aqui:
«O cão Sedento, de Bruno Sales, premiado inclusive por o cine PE de 2005» e Táxi, de Lorena Travassos, são dois exemplos de curtas paraibanos lançados por o Assacine, tendo ótima repercussão entre os 'pectadores e crítica.
É, os cineclubes 'tão em alta.
A partir do «Tin-Tin» e a influência também da ABD-PB, já podemos listar cerca de 12 por a cidade.
Destaco o «Corte Seco», do 'tudante de jornalismo Arthur Lins, que exibe quinzenalmente longas contemporâneos no departamento de comunicação da UFPB.
Já passaram por lá filmes como «2046» de Wong Kar-Wai, «Last Days» de Gus Van Sant e «Coffee and Cigarettes do Jim Jamursh».
Pode apostar que se não fosse 'te cineclube 'tes longas só seriam vistos por quem realmente vai atrás, baixa na Internet ou encontra em alguma locadora.
E vou logo avisando que periga você rodar a cidade inteira e não encontrar 'ta tal locadora com 'tes títulos.
O bacana também do Corte Seco é que ele dispõe de um blog, onde a programação é divulgada, o debate a cerca do que foi exibido ganha mais corpo e você pode enviar a sua crítica já que a idéia também é despertar o senso crítico do telespectador e o interesse por o cinema de qualidade.
Dá para citar ainda o Ócio Criativo, do Guilherme, com exibições na sua própria casa, o do cursinho da Zarinha, que dispõe também de palestras sobre cinema paraibano, o Cartaz Cinema (sim, o mesmo que citei no quarto parágrafo) que retomou as atividades depois de mais de 15 anos e tem por objetivo formar publico com exibição dos clássicos do cinema e documentários de grande repercussão nacional.
O número e a qualidade dos cineclubes crescem a cada dia e muitos falam que João Pessoa 'tá passando por a dita «moda do cinema não comercial», já que é bastante comum encontrar, principalmente nos corredores do curso de comunicação alguém que faça parte ou tenha um cineclube.
Falar mal e encontrar problemas sempre foram coisas mais fáceis de se fazer.
O fato é que nunca se teve tanto interesse e divulgação por o que existe fora das telas do «cinema de shopping».
Sem contar que, na boa, antes fosse moda.
Melhor moda de cinema de qualidade a tantos lixos comerciais que passam por aí.
Fomentem 'sa idéia:
Chame os amigos que adoram discutir sobre cinema, marque um dia da semana, 'colham alguns filmes bons, talvez até um vinho com pão de queijo e ...
Boa sessão!
Número de frases: 41
Além dos já citados novos catamarãs, também foram criadas as linhas Charitas-Praça XV e Cocotá-Praça XV (antes era Ribeira-Praça XV).
Ao contrário do que dizem os ressentidos e derrotistas, há hoje no país uma nova geração de poetas, artistas plásticos, músicos, atores, fotógrafos, cineastas enfim, criadores em geral que vem realizando ações significativas e das mais diversas naturezas no cenário cultural do país.
Essas ações vão das mais diferentes formas de intervenções físicas e virtuais;
publicação de livros, criação de blogues, instalações, mostras e exibição de videos, fotos, performances, apresentações musicais e uma infinidade de outras atividades afins.
Vivemos num momento de ebulição criativa e temos os meios de produção em nossas mãos a um custo muito baixo.
Isso nunca aconteceu antes!
Ainda não nos demos conta de todas as possibilidades e muito menos das consequências disso tudo.
O que sei é que há um novo tipo de criador e a principal característica de ele, ou seja, o que o distingue de um artista do século passado, é o fato de ser um «não-'pecialista».
Ou então um 'pecialista em generalidades.
É um sujeito que cuida do projeto gráfico (para isso se vira em vários programas!),
cuida da assessoria de imprensa (tem um jogo de cintura jornalístico!),
faz a distribuição ('pírito de aventura!),
'creve os projetos (alguém tem de fazer isso!),
faz produção executiva (não confia em ninguém com mais de 30!),
tudo sem deixar a peteca cair, ou seja, sem deixar de criar.
Em a verdade, todas 'sas atividades paralelas alimentam seu processo criativo.
Talvez todos eles 'tejam condenados a viver menos que seus antepassados, devido ao desgaste gerado por tal desdobramento.
Isso ainda não foi computado por as 'tatísticas e vão ser necessários mais alguns anos de pesquisa e observação ...
Enquanto isso eles não param de produzir.
A isso eu chamo Contra Indústria!
Foi dentro deste clima que chegamos à conclusão de que era necessária a criação de uma revista que, longe de dar conta, ao menos sirva como uma pequena vitrine deste momento, de algumas de 'sas ações, que expresse algumas de 'sas vozes que pipocam por aí.
Escolhemos o'suporte ' papel porque ainda não conseguimos nos livrar de nossos vícios cultivados em sebos do século passado, temos apego carnal ao objeto-livro, gostamos de ver a lombada de eles na 'tante, enfim, ainda não evoluímos como nossos irmãos mais novos, que dispensam qualquer tipo de informação que não seja passível de armazenamento em forma de bytes.
Achamos também que assim 'tamos facilitando a vida de futuros arqueólogos.
Ou contribuindo com a dieta de novas gerações de cupins.
Seja como for a revista 'tá aí.
Para a cidade se orgulhar de ela!
Afinal de contas, uma revista, além catalizar toda uma cena, ou pelo menos dar uma idéia de ela, também funciona como um instrumento de intercâmbio cultural dinâmico, levando e trazendo informações e dialogando com outras cenas e outros criadores.
Nossa pretensão é muito humilde, a Revista de Autofagia pretende inaugurar um novo momento na cultura da cidade, fazendo um paralelo claro, intencional e trocadilhesco com a Revista de Antropofagia editada por Oswald de Andrade na década de 20.
Para tanto pretende ser um porta-voz dos novos paradigmas 'téticos / ideológicos, lançar mão das mais diferentes linguagens textuais e gráficas aliados a um projeto editorial arrojado.
10 razões para se lançar uma revista hoje
1 -- Revistas são o veículo de publicação textual mais importante do meio literário dado o seu caráter informativo, sua circulação e seu 'pírito coletivo;
2 -- Revistas são vitrines da produção de determinadas épocas, de determinados contextos;
3 -- É através de publicações em revistas que a maior parte dos jovens criadores se lança no mercado;
4 -- Revistas funcionam como parâmetro crítico para os leitores;
5 -- Revistas funcionam como bússolas para 'critores;
6 -- Revistas são mais baratas que livros e portanto são mais democráticas;
7 -- Revistas são vendidas em bancas de revistas;
8 -- Revistas são periódicas e podem ser colecionadas como gibis;
9 -- Revistas são lidas no banheiro;
Número de frases: 39
10 -- Há pouquíssimas revistas de poesia editadas hoje no país!
Em o dia 8 de maio, os afrodescedentes do Amapá comemoraram pela primeira vez o dia 'tadual dos cultos afro-religiosos.
A lei que 'tabeleceu a data comemorativa é de autoria do deputado Randolfe Rodrigues e foi aprovada no ano passado.
O dia foi 'colhido por ser a data em que dona Dulce Costa Moreira, a Mãe Dulce, tocou pela primeira vez Tambor de Mina no Amapá, isso aconteceu em 1962, na sua casa, onde também funciona o terreiro de Santa Bárbara, de Mina Nangô.
Mãe Dulce conta que começou a desenvolver o dom desde os 13 anos, aos 27 começou na umbanda.
Antes de ela outros já praticavam a umbanda na cidade, como Maria Martins Ferreira, José Malcher e dona Doninha Luiza Picanço, entre outros, mas foi ela e seu marido, João Batista Moreira, mais conhecido por «Piloto», que trouxeram para o Amapá a hierarquia de São Sebastião, originada da Encantaria do Rei Sebastião da Praia do Lençol, no Maranhão.
Dona Dulce fala que várias pessoas tiveram reações que causaram grande 'tranheza em quem assistia ao ritual do Tambor de Mina.
«Muita gente ' caiu ` (incorporou) naquele dia e começaram a dizer que eu tinha jogado feitiço pra que aquilo acontecesse e que o feitiço que causou as reações em eles, vinha da fumaça da minha defumação.
Eu expliquei pra eles que eu não fazia nada, que não era a defumação e que aquilo acontecia porque aquelas pessoas tinham a predisposição, a sensibilidade e que isso se manifestava naturalmente.
Mesmo assim, durante muito tempo, meus filhos tiveram que aturar ser chamados de ' filho da macumbeira ' por os colegas da 'cola.
Mas eu não deixava isso me atingir e continuo trabalhando até hoje».
Em o Tambor de Mina prestam-se homenagens às entidades, pretos velhos e caboclos.
Até hoje, tradicionalmente, Mãe Dulce bate o tambor no dia 8 de maio, sempre em homenagem à cabocla Mariana.
Só que de 'sa vez ela fez a homenagem em dois dias.
Primeiro, no dia 8, na rua, em frente à sua casa.
Foi um ritual mais voltado para a confraternização e toda a vizinhança da rua passava por ali, nem que fosse só pra dar uma olhadinha curiosa e disfarçada, mas depois de algumas olhadinhas o pessoal acabava ficando pra ver mais.
Também os mais populares pais e mães de santo de outros terreiros, e seus pretos velhos, caboclos e caboclas, 'tiveram presentes na casa de Mãe Dulce, inclusive, Mãe Dilma, que vem sempre do Maranhão, onde mora, pra visitar o terreiro da anfitriã.
Mas foi no dia seguinte que deu pra entender melhor a dinâmica do ritual, é que o Tambor de Mina foi batido dentro do terreiro de Santa Bárbara.
Quando cheguei, o bailado e os cânticos já 'tavam com todo gás.
Tinha bem menos curiosos do que no dia anterior, mesmo assim a casa 'tava cheia e acabei 'perando de pé ali do lado de fora mesmo, até porque não parecia muito prudente entrar ali sem ser convidada.
Depois de um tempo em pé, um senhor que usava um chapéu preto, vestido com uma blusa brilhosa azul bem longa, com colares de diferentes cores, também bem longos, me chamou discretamente pra entrar, arrumou um lugar e mandou que eu sentasse.
Depois ele voltou a falar com mim, pra dizer que eu não devia cruzar nem as pernas e nem os braços.
Em o terreiro as pessoas bailavam dentro de um quadrado que, como alguns outros símbolos, como setas e 'trelas, 'tavam marcados no chão.
Tinha sempre alguém que puxava os cantos que são como orações em louvor a alguma entidade da religião, as vozes eram sempre bem fortes e, ao contrário da outra noite, não tinha microfone:
era tudo no gogó, como se diz por aqui.
Depois de algum tempo de dança e canto as entidades, caboclos e pretos velhos começaram a surgir, numa 'pécie de transe.
Por exemplo, tinha uma moça girando muito rápido, bem no meio do quadrado, com uma saia bem cheia e longa, de cor amarela.
De repente foi como se ela perdesse o controle.
Começou a tremer, principalmente nos ombros e quadris, e tinha 'pasmos.
Essa moça agora dançava com uma fisionomia diferente, um equilíbrio diferente, mas não era algo pra se ter medo.
Eu na verdade 'tava morrendo de curiosidade.
Em um outro momento, lembro de ter percebido uma seqüência de «quedas», parecia que a mesma energia 'tava tentando incorporar nos homens que 'tavam na entrada do tal quadrado, um à um, entrando em transe.
Quando 'sas manifestações aconteciam, dava pra notar os tambores e todos os outros presentes mais agitados.
Até quem tava sentado, como eu, sentia a coisa 'quentar.
Em 'sas horas eu confesso que pensava «Caramba amigo, agora o bicho vai pegar!».
Deu um medinho de leve, mas lembrei da dona Dulce dizendo que ela sempre procurou explicar que as religiões de origem africana não são um bicho de sete cabeças e que nada de ruim pode acontecer a quem as usa com amor e com o pensamento voltado para coisas boas.
E eu fui em 'sa!
A os 81 anos, Mãe Dulce tem 15 filhos amapaenses e continua trabalhando em prol do Tambor de Mina e da Umbanda.
A Umbanda é uma religião criada em Niteroi no final do século XIX, que tem sincretismo com o cristianismo e o 'piritismo kardecista, segundo o umbandista Pai Marcos, existem 23 templos (casas ou terreiros) em todo o Amapá.
Para ele o dia dos Cultos Afros significa uma oportunidade para que a população seja convidada a refletir sobre a intolerância que oprimiu durante muito tempo as religiões afrodescendentes.
Em a Umbanda são realizados os «trabalhos», geralmente para pedir ajuda às entidades em algum problema.
Mãe Dulce diz que os trabalhos mais procurados são os de sucesso e amor.
«Sempre que eu abro o terreiro, eu faço pensando em Deus».
Com mais de 50 anos nos cultos afro-religiosos ela adora cantar e dançar, e disse que não tem mais a agilidade e cadência de outros tempos, mas que sua fé é fortalecida a cada dia.
Ela considera uma importante vitória para os praticantes de cultos afros o decreto que determina o dia 'tadual da causa.
«Fui muito perseguida, principalmente por o povo e por padres que não aceitavam nossa religião e cultura, depois da lei sabemos que temos tanta liberdade quanto os evangélicos ou católicos de nos manifestarmos».
Para as novas gerações de umbandistas a anciã manda um recado:
«É preciso trabalhar com respeito e muita fé».
Número de frases: 48
Em a feira de São Joaquim localizada entre uma e outra barraca de fruta 'tá a loja de artesanato, Casa Irmãos Teixeira, administrada por o caçula da família Teixeira, Eliton, 36.
A vida de Eliton tomou um novo rumo, desde que o pai de ele ficou doente há seis anos atrás.
«Por força do destino», como ele próprio diz, virou administrador da loja para dar continuidade ao trabalho de seu pai.
com o lucro mensal que varia entre 3 e 4 mil reais em média, que Eliton tira o sustento da sua família que é formada por seis pessoas.
Os produtos de artesanato que vende na loja:
cerâmica em barro, palha (bolsa, chapéu, cestas), redes, vêm de interiores da Bahia e do Maranhão.
A maioria das peças que vendem no local vêm das mãos dos próprios artesãos, sendo muitos parentes do proprietário.
Eliton começou a trabalhar na loja após a delibitação de seu pai que sofre de doença pulmonar.
Por ser o único que trabalhava informalmente, pois antes ele trabalhava fazendo arte gráfica no seu computador em casa;
foi a ele que o pai recorreu para não fechar o 'tabelecimento que sempre tirou o sustento da família á cerca de 30 anos atrás.
Em o começo ele não sabia de nada, nunca se interessou por o negocio da família, conta que nem mesmo sabia de onde vinha às peças que vende na loja.
Tudo passou por um processo de aprendizado, contando com a ajuda do pai, e do seu único funcionário que trabalha para a familia desde garoto.
Com o tempo ele aprendeu a administrar, e hoje não tenhe mais dificuldade em tocar o negocio.
Apesar de dizer que não gosta de 'sa area, hoje 'ta adaptado.
Mas não tenhe desejo de continuar, pois sente que não é 'sa sua vocação.
Alem de administrar a loja, Eliton continua fazendo cartões de visita no computador, hoje para seus vizinhos arredores.
A mudança na vida de Eliton foi como um desafio, pois ele não pretendia ser comerciante.
Desde que começou a trabalhar com informática ele não pensava em mudar de rumo, mesmo seu Pai sempre lhe dizendo que ele um dia ia cuidar do patrimônio da família.
A responsabilidade de cuidar da loja sozinho ainda é mais difícil, pois ele apenas cuida dos bens e presta conta a familia de todo o lucro.
«Poderia 'tar bem de vida, ter a minha família, os meus filhos uma casa grande, se 'se lucro que tiro aqui da loja fosse meu».
Diz Eliton, que nunca se casou e mora com os pais.
Hoje apesar de acreditar que foi o destino que o levou a 'tar tomando conta da loja na feira de São Joaquim, Eliton tem planos para o futuro, quer mudar de vida, trabalhar em outra ramo, casar com a namorada que tenhe há 16 anos, e ter o filho tão planejado «ainda 'se ano», diz ele.
Número de frases: 22
Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana mostra, através da história de Chico Rei, a contribuição da cultura negra na construção da identidade cultural brasileira
As ruas de Ouro Preto e Mariana preparam-se para, mais uma vez, ceder lugar à cultura.
Em invés de carros, música, poesia, teatro e dança passam a ocupar as ladeiras, transformando-as em verdadeiros palcos a céu aberto.
Sob os holofotes da cultura, as mais variadas manifestações artísticas fundem-se à paisagem das duas cidades, acostumadas a receber os milhares de turistas que chegam anualmente para prestigiar o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana -- Fórum das Artes, que, acontece de 8 a 29 de julho.
Habituado a celebrar a diversidade cultural, em 2007, o evento tem a cultura negra no centro das atenções.
Sob a égide de Chico Rei, o lendário 'cravo que comprou a própria alforria e, com seu trabalho, libertou centenas de outros cativos, o Festival reconhece a importância da cultura afro-brasileira para a construção da identidade nacional.
Em 21 dias de duração, sete a mais que em 2006, shows, 'petáculos e oficinas, divididas em Literatura, Artes Plásticas, Artes Visuais, Artes Cênicas, Música, Patrimônio, e Infanto-Juvenil, tomam conta das atividades da região.
Inovações representam um traço característico do evento.
Em 2007, uma das principais mudanças fica por conta das curadorias.
Áreas como Artes Plásticas e Artes Visuais terão curadorias realizadas por instituições, e não por uma pessoa apenas, como acontecia anteriormente.
O objetivo da ação é permitir um trabalho de apuração ainda mais minucioso, conferindo uma diversidade maior para os trabalhos apresentados durante o período.
De 'sa forma, a Fundação de Arte de Ouro Preto, FAOP e o Comitê Aberto de Cinema, Comcine, são os responsáveis por a 'colha dos eventos e oficinas das duas áreas.
Segundo um dos coordenadores do evento, Fábio Faversani, as curadorias em equipe traduzem a característica de heterogeneidade do evento, pois permitem uma multiplicidade maior de olhares e leituras.
Artes Cênicas também passou por transformações em relação ao ano passado, quando todas as oficinas eram destinadas a pessoas com experiência comprovada no ramo.
Agora, os iniciantes também poderão se aventurar em oficinas como Dança e Perfomance Afro-brasileira, além de Manipulação de bonecos e Maquiagem de Época.
O curador da área, Flaviano Souza e Silva, diz que buscou suprir a demanda de artistas locais e da faculdade de " Artes Cênicas.
«Espero que o público das oficinas e 'petáculos se dedique à multiplicação do conteúdo artístico e cultural trabalhado e transforme de 'sa forma, a experiência individual em experiência coletiva».
Literatura, área que volta ao evento depois de dois anos longe da programação das oficinas, chega para suprir a demanda gerada por o Fórum das Letras de Ouro Preto, evento que ocorre anualmente, em novembro, também com realização da UFOP.
A coordenadora Guiomar de Grammont ressalta a importância desse retorno, que irá contribuir de maneira efetiva para a difusão ainda maior da leitura.
Os participantes que 'colherem as letras no Festival de Inverno terão, além das oficinas, a opção de participar do Seminário de Tradução, Vanguarda e Modernismos.
A área de Literatura trará aos 'paços culturais, bares e restaurantes das duas cidades saraus poéticos, em que jovens artistas e outros já consagrados recitarão poesias nas noites frias do mês de julho.
O curador da área de Música, Chiquinho de Assis, pretende trazer ao Festival de Inverno o som dos tambores e das choromelas, que, arranjados em busca de uma harmonia popular, desfilarão por as ladeiras e ruelas da cidade em nome da memória e da ação urgente de preservar agindo.
Com oficinas de percussão, canto, dança e ritmos africanos, a área se volta também para a produção técnica com a oficina de Produção, gravação e edição, e para a reflexão musical, editando o III Encontro de Musicologia Histórica e Etnomusicologia.
A área de Patrimônio vai trabalhar um conceito bastante amplo do tema.
«Hoje, considera-se patrimônio não apenas o que é antigo, mas tudo aquilo que culturalmente expressa a identidade de uma comunidade», diz Celina Albano, curadora da área.
Partindo de 'sa premissa, a área volta seu olhar para a culinária e prazeres da mesa, com duas oficinas de gastronomia.
A memória também terá atenção 'pecial com a oficina de Conservação de livros.
O Seminário Raça e Identidade:
Diálogos por a igualdade abre a semana de oficinas propondo uma reflexão acerca das diferenças culturais.
A curadoria Infanto-Juvenil vem imprimir colorido e magia para o Festival com seu 'paço destinado ao mundo circense, na oficina Curto-Circuito do Grupo Trampulim, e em várias oficinas de dança, quadrinhos e criatividade.
Para César Teixeira, que divide a curadoria por o segundo ano com Adriana Mel, as oficinas e 'petáculos da área serão o 'paço certo para os participantes vivenciarem, de forma lúdica, diferentes linguagens e experiências 'téticas baseadas na diversidade cultural e artística de grupos e pessoas de referência.
Personagem -- O ponto em comum a todas as áreas foi a inspiração trazida por o tema do evento, Chico Rei e a Cultura Afro-brasileira, que foi 'colhido através de voto popular, durante o Festival de Inverno de 2006.
O personagem foi o norteador do conceito de várias das oficinas e seminários, que buscaram, através da história comovente de 'sa figura lendária, homenageada em diversos rituais e festas de Minas Gerais, marcar a contribuição da cultura negra para a construção da identidade brasileira.
Nascido no Congo com o nome «Galanga», Chico Rei era um monarca guerreiro e sumo-sacerdote do deus pagão Zambi-Apungo.
Foi capturado com toda a corte por comerciantes portugueses de 'cravos e vendido com o filho Muzinga no Rio de Janeiro, de onde foi levado para Ouro Preto em 1740.
Não se sabe bem como, mas Chico comprou sua carta de alforria, libertou o filho, conseguiu arrematar uma mina de ouro supostamente 'gotada e, com o trabalho na mineração, comprou a liberdade de centenas de 'cravos, entre os quais os integrantes da sua corte africana.
Chico, um homem inteligente e enérgico, tornou-se rei novamente no exílio, com direito a cetro de ouro, coroa e palácio real.
Com seu carisma e determinação, o rei ex-'cravo, que trabalhava como todos nas minas de ouro, se tornou, também, um homem rico e respeitado.
A o morrer, em 1781, aos 72 anos, Chico Rei deixou 42 potes de ouro, com aproximadamente 100 quilos do metal.
Música negra marca calendário de eventos
Durante todo o mês de julho, vários artistas passarão por as duas cidades-sede do Festival de Inverno.
A programação musical começa a partir da segunda semana do evento e a exemplo das oficinas, a 'colha dos grupos que se apresentarão no evento primou por a diversidade.
A programação musical será inaugurada por o grupo Teatro Mágico, que faz show em Ouro Preto no dia 14/07.
O cantor Toni Garrido marca presença com sua banda em Mariana no dia 16/07.
Em o dia 20/07, o grupo A Barca se apresenta em Ouro Preto, seguido de BNegão e os Seletores de Freqüência que também fazem show na cidade na mesma data.
Em o dia 21/07 é a vez do grupo nordestino Cordel do Fogo Encantado se apresentar em Ouro Preto.
O grupo Berimbrown faz shows nas duas cidades:
em Mariana, no dia 21/07 e em Ouro Preto, no dia 22/07.
Ainda no dia 22/07, chega à Mariana Marcus Viana e a Orkestra Transfônica.
A Orquestra Tabajara volta se apresentar no Festival de Inverno, em duas datas:
dia 27/07 em Ouro Preto e dia 28/07 em Mariana.
Em o dia 29/07, para encerrar o Festival de Inverno, chega Sandra de Sá, que se apresenta em Ouro Preto com o show MPB -- Música Preta Brasileira.
Artes Cênicas traz grupos de destaque no país
Quem 'tá em busca de novidades na área de Artes Cênicas, terá durante o Festival de Inverno, um ótimo período para se atualizar com o que há de melhor na dramaturgia do país.
O solo «Primeiro Amor» é o 'petáculo que inaugura as apresentações da área, com 'tréia no dia 14/07, em Ouro Preto.
A peça rendeu o Prêmio Shell 2006 -- SP de melhor ator para Marat Descartes.
O Giramundo com o «O auto das pastorinhas» se apresenta no dia 14/07 em Mariana e 15/07 em Ouro Preto.
Em o dia 17/07, chega a Ouro Preto a atriz Clarice Niskier, vencedora do Prêmio Shell 2006 -- RJ com o solo «A alma imoral».
O Grupo Galpão volta à Ouro Preto com o 'petáculo «Pequenos Milagres», em duas apresentações no dia 19/07.
O grupo Moitará, um dos mais importantes grupos de teatro de máscara do país, se apresenta em Ouro Preto no dia 23/07, com o 'petáculo «Quiprocó».
A atriz Rita Clemente apresenta o 'petáculo solo «Dias Felizes» no dia 24/07, em Ouro Preto.
Vindo de Campinas para também se apresentar em Ouro Preto, o grupo referência em artes cênicas Lume traz o 'petáculo «O Sopro» no dia 26/07.
O Balé de Rua de Uberlândia se apresenta com o 'petáculo «O Corpo Negro na Dança» dia 26/07 em Ouro Preto e dia 27/07 em Mariana.
Dia 28/07 é a vez da Cia Espanca!
que chega a Ouro Preto com o 'petáculo «Amores surdos».
Também 'tá confirmada a apresentação do Pia Fraus, um dos mais conceituados grupos de teatro de bonecos do país, com o 'petáculo «100 Shakespeare».
Artes Plásticas aposta em exposições coletivas com técnicas variadas
Fazer arte nem sempre é uma ação solitária.
Com 'se pensamento, a curadoria de Artes Plásticas convidou artistas a se unirem em algumas produções coletivas que serão expostas ao público durante o Festival de Inverno.
O Centro de Artes e Convenções da UFOP recebe, de 08 a 29/07, a exposição ressonâncias @ rtesnegr (as).
Com curadoria do artista plástico Antônio Sérgio Moreira, 'sa exposição unirá trabalhos de 'cultura, fotografia, vídeo, objeto, performance e instalação de vários artistas consagrados.
Em Mariana, a partir do dia 09/07, acontece a exposição coletiva Prato Feito, onde vários artistas locais irão expor o resultado da experiência de fazer arte em pratos de cerâmica.
A exposição será realizada no Museu Casa Alphonsus de Guimaraens.
Em o mesmo 'paço, será realizada a exposição coletiva de serigrafia Mariana palavra -- imagem -- memória, de 20 a 29/07.
De 14 a 29/07, a Câmara Municipal de Mariana receberá a exposição Diáspora Negra:
resistência e ousadia.
O artista mineiro Guilherme Mansur se inspirou num dos maiores símbolos de patriotismo e ao idealizar e criar a exposição Bandeiras:
Territórios Imaginários, que será realizada durante todo o Festival.
Em o dia 10/07, o artista Jorge dos Anjos abre a exposição de 'culturas em madeira e ferro no Centro Cultural e Turístico do Sistema FIEMG.
As gravuras também terão 'paço no evento com a exposição da artista plástica Rosana Paulino que será realizada na Fundação de Arte de Ouro Preto, no período de 12/07 a 05/08.
Filmes africanos dão o tom das mostras de cinema
Em Ouro Preto, o Cine Vila Rica será palco de algumas mostras realizadas por a curadoria de Artes Visuais.
O cinema africano terá 'paço garantido com duas mostras que exibirão um pouco da cultura e costumes de vários países do continente.
Uma das mostras confirmadas é sobre o cineasta Jean Rouch que produziu vários documentários em solo africano.
Ao todo serão exibidos 6 filmes.
Um de eles é um documentário sobre o cineasta, e os outros cinco são documentários produzidos e gravados na África.
Outra mostra, que segue a mesma linha, deverá apresentar o que há de mais recente na produção cinematográfica da África, entre documentários e filmes de ficção.
O Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana -- Fórum das Artes 2007 é uma realização da Universidade Federal de Ouro Preto em parceria com as Prefeituras Municipais de Ouro Preto e Mariana.
O evento tem o patrocínio de Gerdau Açominas, Ministério do Turismo, Ministério da Cultura, Petrobras, Cemig, Eletrobrás, SESU -- MEC, Companhia Vale do Rio Doce, Caixa Econômica Federal e Secretaria do Estado da Cultura.
Número de frases: 89
Com uma máquina nas mãos e olhos atentos às cenas comuns do dia-a-dia, simplesmente andando por a cidade, pode-se coletar imagens e cenários, no mínimo inusitados.
Isso todo mundo sabe, mas poucos praticam.
As vezes, um objeto, uma janela, uma porta enviesada, um texto na parede, uma lata de lixo, podem, a partir de um clique fotomágico, transcender do banal à arte.
Basta um olhar atento e direcionado e um 'pírito de transformação.
Eis o super-poder da transmutação!
Com o intuito de curar a própria alma, exorcizar os «maus 'píritos» que habitam a mente, ou simplesmente, por lazer, terapia ou 'porte, a «Fotografia Cotidiana», ou o» Fotografismo Urbano», como costumo definir, surge como alternativa simples, de baixo custo e que pode trazer inúmeras recompensas a quem a pratica e ao nosso círculo de convivência.
Por incontáveis oportunidades, não é raro ouvirmos e vermos os 'pectadores aos quais submetemos nossa coleção de flagrantes documentados exclamarem que nunca haviam prestado a atenção naquilo, «naquela coisa» que 'tava ali e que passava de maneira «sem importância» por os olhos imersos de um transeunte na roda da fortuna convencional do ir-e-vir.
O aforismo «Deus 'tá nos detalhes», de Mies Van Der Rohe, aqui, em 'te caso 'pecífico do registro foto-fragmentado da 'fera sensorial que nos envolve, é o atributo que confirma a existência de algo real, ou superior, e que pode despertar ou aguçar os olhos e a mente para uma natureza superior possível, viável e apreensível.
Um caminho ...
Uma verdade ...
Um farelo de vida ...
Tudo, ou melhor, só o que é preciso para tornar-se adepto de 'sa prática ainda considerada underground é um equipamento fotográfico e acesso a um PC (personal-computer) conectado à Web para publicar e divulgar a arte, através de um weblogger, um fotolog, ou algo do gênero.
Há, ainda, a técnica do pinhole, como citado em matéria publicada no OVERMUNDO por a autora ilhandarilha, intitulada FotografiaViva, que fala sobre o trabalho de Sebastião Barbosa e sobre o Grupo Lata Mágica, que usa latas de leite em pó e panettone para capturar imagens.
Enfim, toda a forma de capturar contextos, congelar o tempo, e / ou registrar fragmentos de «Maya» -- a ilusão material -- pode ser ou servir à arte;
dependendo, única e exclusivamente, do foco e do enfoque do artista.
Em particular, vejo tudo, absolutamente tudo, como um alvo passível de captura.
Replicar realidades não deixa de ser um ato de busca e tentativa de mostrar uma nova forma de encarar o mundo, dependendo apenas da sensibilidade de quem «olha, vê, enxerga e sente» o que 'tá ali impresso, seja numa seqüência de fotogramas, num borrão em papel foto-sensível, num impresso em 'cala CMYK, na forma-luz visível em RGB ou em qualquer outra dissidência ou distorção monocromática.
Não há limitações.
O que há é:
mira. Sentimento.
Captura. Manifestação.
Resultado. Ação e reação.
E, assim, capturando imagens, vamos melhorando a nós mesmos e aumentando o poder de fogo do nosso «artefato cultural».
Para fins de sistematização do que aborda-se na presente publicação, tento standardizar de maneira metodológica o meu procedimento particular:
1) Escolher o tipo de instrumento a ser usado (máquina digital, aparelho celular, pinhole, ou afim);
2) Traçar mentalmente um roteiro, uma trilha ou um itinerário (por exemplo: «fotografar a partir da janela do ônibus da linha perimetral», ou» fotografar o entorno a partir do interior do automóvel na hora do rush», «clicar detalhes domésticos aparentemente comuns, mas que no momento parecem incomuns», etc ...
3) Refrear o impulso do clique aleatório sem critério (a menos que 'ta seja a temática);
4) Após a incursão urbana (que também pode ser rural ou florestal), reunir o acervo de «manifestações» capturados e fazer uma triagem com as mais significativas e que representem a 'sência da atividade desempenhada;
5) Digitalizar e / ou editar as fotos, executando interferências, textuais ou não;
6) Publicar / fazer o upload dos arquivos com um título criativo e que expresse o 'pírito da coleção.
Nota:
Para edição das imagens, sugiro o Photoshop, Corel Draw ou Freehand, ou ainda, para pequenos ajustes de formato, tamanho e dimensões, o Paintbrush (aplicativo padrão do Windows);
para montagem de albuns e apresentações de slides, sem dúvida nenhuma, uma boa ferramenta é o conhecido MS Power Point ou o Macromedia Flash MX (que requer certo conhecimento de edição e animação em timelines), mas 'te serviços de arquivo e exposição de fotos são oferecidos às dezenas na Internet, como o Flikr, Windows Live Spaces, Picasa, entre muitos outros.
Finalizando, aconselho divulgar seu trabalho.
Não na forma de spam, mas de forma moderada e direcionada a amigos e pessoas de sua rede de relacionamentos.
Apresente sua obra, peça conselhos, críticas, sugestões, colha opiniões.
Mas, independente do retorno, siga seu próprio caminho e mantenha-se acordado na busca e na militância do que chamo «A Busca da Visão Real do Ser Fotográfico», i.
Número de frases: 37
é, o poder da «descoisificação mundana através da Arte».
Em o G.G II, a cidade vira um longa de Karim Aïnouz
Noite de sábado em Fortaleza, 'sa sin city desavergonhada.
Mês de julho, alta 'tação.
O Centro -- não o mais pobrinho e entregue às moscas, mas o Dragão do Mar, rico e bem-freqüentado -- 'tá apinhado.
A «turistada» veio adorar a cultura local, curtir as praias -- menos as do «canelau», óbvio -- e, não raro, comer meninas, também pobrinhas e entregues às moscas, entre doze e quinze anos.
Inesperado, o primeiro paralelo entre a exibição de logo mais, no Pirambu, e a paisagem vista através da janela do ônibus parece diverti-lo:
uma tela mágica, retangular;
a outra, real, quadrada.
Em uma, alegria, por vezes tristeza.
Em a outra, o contrário.
Bom, 'tava no Grande Circular II.
Ao cabo de pouco mais de duas horas, o ônibus revira a cidade de uma ponta a outra, cobrindo áreas bastante desiguais, como Siqueira e Papicu, Messejana e Praia de Iracema.
O trajeto, por alguma razão, faz lembrar turismo sexual, e 'te, avenida Beira-Mar e adjacências.
Até mesmo o asseado Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
O irmão trabalha numa choperia por ali, serve madames, gente de fora, italianos, americanos etc..
Sabe das coisas.
Ele, por meio do irmão, também fica sabendo.
O Pirambu surge aos poucos, parte por ser, inevitavelmente, o seu destino naquela noite, parte por reunir elementos suficientes que, numa mistura louca, o fazem pensar no bairro como um local a que se vai por obrigação.
E a «obrigação» era:
relatar a passagem do projeto Revelando os Brasis, do Ministério da Cultura (Minc), por Fortaleza.
Em linhas gerais:
a Secretaria do Audiovisual, em parceria com o Instituto Marlin Azul, vem percorrendo o Brasil numa mostra de cinema itinerante.
São, ao todo, 61 pontos de exibição dos documentários 'critos, produzidos e dirigidos por gente que, até outro dia, não pensava em empunhar uma câmera de vídeo.
Caso dos cearenses José Wellinton Moraes e Sidnéia Luzia, contemplados no primeiro ano de vigência do projeto.
Em as capitais, revelar é " programa de índio "
Havia lido ou 'cutado em algum lugar:
as exibições nas capitais têm sido um fiasco, não conseguem reunir mais que alguns gatos-pingados.
Ia preparado:
chegar seguro à rua Nossa Senhora das Graças, 994, local de projeção -- as etapas seguintes dependiam disso.
Em a seqüência, procurar a equipe do projeto, saber das novidades, proceder às entrevistas -- três ou quatro -- e, por fim, dar no pé.
Tinha 'quecido, propositadamente, a máquina digital e o gravador em casa.
Após trocar meia dúzia de palavras com o cobrador do ônibus, salta em frente ao Instituto Médico Legal, na avenida Leste-Oeste -- a se dar crédito a propagandas oficiais, a «nossa Beira-Mar».
Desconfiado, pede informações numa borracharia, onde fica sabendo que a rua em questão ainda 'tá longe, umas dez ou mais quadras adiante.
Vinte minutos e alguns pedidos de informação depois, avista o telão de cinema.
Estacionado no meio da rua, bloqueando a passagem de outros veículos, um caminhão branco.
Tinha uma câmera dotada de asinhas desenhada nas laterais.
Reconhece-os de pronto.
Sente alívio e, sempre em 'sas horas, também um bocado de vergonha.
Antes, sanduíche de Cream Cracker com goiabada
Desanuvia-se.
Homens e mulheres nas calçadas, nos sobrados das casas, encostados em muros, nos carros.
Todos à 'pera do início da sessão.
Uma banca de comidas típicas, um carrinho de picolé.
Uma verdadeira Escola de Artes, não apenas ponto de referência para quem, como ele, vinha de outros bairros, mas de cultura também.
O medo vai embora.
Ali há meninos e meninas que querem, exigem ser fotografados.
O fotógrafo do projeto se desdobra, despista, mas não consegue 'capar do cardume de crianças.
Vencido, pede organização, que se enfileirem e, por favor, não façam tanto barulho.
Eles formam uma filinha nada convencional e promovem um carnaval fora de época num bairro com fama de barra-pesada.
Ele circula, atordoado.
Olha em torno, tenta situar-se em meio à confusão de gritos e à correria da meninada.
Sentadas na calçada, Leidiana e dona Anita -- a primeira de 23 e a segunda, 83 anos -- conversam animadas.
Assistem à arrumação das cadeiras, gostam da novidade, divertem-se com o burburinho.
Leidiana, prato de bolacha salgada recheada com goiabada sobre as pernas, quer saber da programação.
«Disseram que vai passar um filme que a gente fez aqui.
Eu tô em ele."
Em seguida, entra na vila de seis casas onde mora há cinco meses com o marido, vendedor ambulante.
Não demora e surge novamente na calçada, prato reabastecido.
«Sirva-se à vontade."
Papeiam sem compromisso.
Ele não anota nada, apenas observa.
Quando saca caderno e caneta e diz a que veio, Leidiana 'tranha.
«A gente pensa que é um amigo, vai dizendo as coisas, mas é um jornalista."
O aborrecimento é passageiro, e logo a menina 'tá falando novamente, contando da vida no Pirambu, das dificuldades e, sobretudo, do preconceito que sofrem.
«Eu não vejo diferença entre morar aqui e em outro bairro.
Tem violência como em qualquer lugar», pondera.
Dona Anita concorda:
«Eu moro aqui há 53 anos.
É um bom lugar pra se viver».
Revelar, não apenas os brasis, mas as circunstâncias de feitura da reportagem parecia-lhe razoável.
Anotou a observação no bloquinho.
Dona Anita não gosta muito de televisão.
Tinha uma, até, mas, na última e definitiva mudança de um bairro a outro de Fortaleza -- na verdade, da Cidade 2000, onde mora um dos filhos, para, mais uma vez, o Pirambu -- caiu do caminhão e 'patifou-se no chão.
«Fiquei sem televisão.
Mas não faz muita falta."
Ela é evangélica, vai à igreja às terças, quartas e domingos.
Vive sozinha.
Não quer os netos por perto.
«Mexem em tudo», explica.
Em aquela noite, ficaria acordada «até pouco antes do início» da sessão.
Leidiana, mais interessada, garantiu que assistiria todos os filmes.
«Eu gosto de cinema, é o melhor lugar para um primeiro encontro."
Ela ri.
Em o 'curo, não se sabe se fica vermelha ou não.
«O meu não foi no cinema, mas na Ponte Metálica», confidencia.
De repente transforma-se, não quer conversa, fica carrancuda.
Em o instante seguinte, responde outras perguntas, dá mais informações sobre a sua vida, fala à vontade.
«Tu fica só me enrolando, é o que vocês sabem fazer, enrolar.
E eu vou só respondendo», protesta.
Ele pára de anotar, despede-se das duas e vai embora.
Antes, dona Anita pede à vizinha uma garrafa com água gelada.
«Eu não tenho geladeira, mas vou pedir aqui.
Comer doce e não beber água, onde já se viu?!"
Fábrica de criaturas
A sessão começa na hora, às sete e meia da noite.
A rua 'tá cheia, as cadeiras de plástico ocupadíssimas.
Entre a conversa com Leidiana e dona Anita e a abertura da projeção, uma rápida visita à Escola de Artes, Ponto de Cultura no Pirambu, três casas depois da vila.
Ali, experimenta um suco diferente.
«É de capim-santo, diz a menina.
«Tem gosto de limão», comenta.
«É porque tem limão», ela acrescenta, sorrindo.
E conhece uma fábrica também diferente.
«A gente fabrica criaturas», explica Davi, 'pécie de demiurgo, pai e mãe de bichinhos nada simpáticos, feitos em gesso, resina, argila e outros materiais maleáveis e destinados aos filmes e animações que saem do forno da Escola.
A Escola de Artes é um projeto bastante diversificado.
Tem áudio-visual, artesanato e artes plásticas.
Além disso, uma pequena ilha de edição, uma biblioteca, um galpão de bijuterias e, dentro de dois ou três meses, um cinema com capacidade para algumas dezenas de pessoas.
Em os fundos da Escola, um teatro-picadeiro.
Lá são ensaiadas as peças encenadas por a meninada que freqüenta o lugar.
«Cada turma tem, em média, umas vinte crianças e jovens», informa Geraldo Damasceno, um dos coordenadores da Escola.
«A gente começou em 2002, numa salinha apertada.
Em 2003, elaboramos o projeto da Escola de Artes.
Em o ano seguinte, conseguimos nos tornar um Ponto de Cultura.
Já realizamos um documentário e alguns curtas de ficção.
Hoje, 'tamos trabalhando numa minissérie chamada Poço da Pedra», dispara Damasceno.
Para o novo projeto da Escola, 'tá sendo construída uma cidade cenográfica num município próximo.
Em ela, na cidade de mentirinha, trabalham atores e técnicos oriundos do Pirambu, bairro, não custa repetir, com fama de ser barra-pesada.
Ele desmorona.
Impossível não sair da Escola de Artes -- instalada no número 994 da rua Nossa Senhora das Graças -- de queixo caído.
E de vê-lo cair ainda mais ao final da projeção dos curtas do Revelando os Brasis.
Em um pacto surdo, todos ali pareciam 'perar, além dos filmes previstos na programação normal, um outro, ainda mais chegado à realidade de eles.
Não deu outra.
O vídeo, 'trelado por dois jovens da comunidade, animou a platéia ao tratar de um tema caro à juventude, aqui e alhures:
o uso de preservativo.
Em uma quina de calçada, Leidiana, mais que informar-se, queria ver-se.
E não dar mais entrevistas.
Dona Anita, um pouco antes das nove da noite, ciscara por ali e, presa fácil da curiosidade, dera uma boa olhada na tela de cinema armada em frente à vila.
Ele pára, admira-se com tudo.
A seu lado, Valdemar dos Santos, 76 anos, ainda ria -- riso sem dentes, mas riso -- das marmotas nunca antes vistas em 'ses dias e noites todas de andanças por o Ceará.
Natural de Cascavel, ele mora no Pirambu há 46 anos.
Tem quatro filhos.
Número de frases: 131
Nunca foi ao cinema. (
Este texto é continuação direta do anterior, a parte 01, já publicada no Overmundo)
Apesar do drama humano dos brasileiros ajudar muitos cineastas a vencer em festivais internacionais de cinema, aqui nos interessa mais o que vai acontecer com a dissertação de mestrado de 'sa nossa típica universitária brasileira do que com ela própria.
Após sua aprovação automática e com louvor (é provável que alguma banca brasileira de pós-gradua ção somente reprove algum trabalho se 'te for apresentado em branco, e apenas se isso não acontecer em alguma «faculdade de artes "), o trabalho de mestrado vai ter que virar artigos a serem publicados em revistas» científicas».
A geração de artigos «científicos» a partir do seu trabalho de mestrado é o que mais enriquecerá o currículo de nossa jovem 'tudante, e, principalmente, o currículo de seu orientador;
o qual, apesar de não ter feito nada, ou mesmo ter atrapalhado, constará como co-autor dos artigos que resultarem da dissertação (sendo que o «mercado acadêmico brasileiro» tem pressionado os orientandos e orientadores a fazerem suas dissertações e teses de pós-gradua ção já no formato de artigos para publicação, a fim de diminuir o risco do orientador não levar a co-autoria dos artigos, caso algum aluno mais rebelde se interponha a 'ta pilantragem institucional).
Por 'ta necessidade de todos os alunos e professores do academicismo brasileiro terem artigos publicados em grande número (bem como apresentados em congressos), as revistas «científicas» e os congressos «científicos» multiplicaram-se enormemente nos últimos 20 anos.
Há revistas para todos os trabalhinhos resultantes das pós-gradua ções brasileiras, podendo mesmo haver a possibilidade de existir maior 'paço em revistas do que de trabalhos a serem publicados (devido ao aumento das verbas públicas nacionais e «internacionais» destinadas ao financiamento de tais revistas, e, consequentemente, de seus grupos mantenedores, o que se mantém em grande contradição com o fato das universidades públicas 'tarem realmente falidas e sucateadas em quase todos os outros aspectos).
As revistas «científicas» são ranqueadas por a CAPES a depender do status da faculdade a que pertence e do «nome» dos professores que 'tão em sua comissão editorial (revistas sociológicas que têm o grande sociólogo brasileiro FHC, ou sua 'posa, emprestando o nome ao seu corpo editorial, por exemplo, situam-se entre as de melhor classificação na CAPES, vindo a ter mais verba, maior prestígio, e sendo mais disputadas para publicação dos trabalhinhos).
Tanto as revistas quanto os congressos «científicos» ('tou colocando a palavra «científico» entre aspas devido ao fato de que as tais revistas e os tais congressos mencionados apenas continuam sendo considerados científicos de um ponto de vista oficial, além de na crença popular, e não devido ao que produzem) tornaram-se empresas, com pessoas que se profissionalizaram em geri-los, aperfeiçoando-se em técnicas e articulações com o governo de maneira a utilizá-lo para fazer a carreira acadêmica render prestígio e dinheiro aos professores / empresários do academicismo das universidades públicas.
As faculdades privadas, como são 'sencialmente empresas, têm empresários de verdade fazendo a festa, e não arremedos de empresários disfarçados de doutores do saber, como nas públicas.
Praticamente ninguém lê as tais revistas «científicas».
Elas são utilizadas apenas para que os aluninhos possam citar seus artigos em outros artigos que serão em outras revistas publicadas, numa rede de troca de citações de artigos entre revistas e autores. Quanto mais
um artigo ou um autor é citado, maior pontuação ele ganha na CAPES, nas bolsas de incentivos a pesquisa, no dinheiro público, etc..
Qualquer artigo «científico» produzido atualmente, portanto, é uma costura de dezenas ou centenas de citações de autores predominantemente contemporâneos que são citados na base da troca de favores entre eles.
O resultado são trabalhos que forjam a manutenção de um «evolucionismo do saber», como se o saber científico oficial (o do academicismo) 'tivesse aumentando seu conhecimento ou progredindo em decorrência da predominância de autores contemporâneos, os quais 'tariam superando autores mais antigos.
Em realidade, contudo, a quase totalidade dos autores atuais são meras fraudes, prestigiados apenas em decorrência das regras dos joguetes acadêmicos e da ignorância reinante.
O objetivo primordial dos acadêmicos contemporâneos é produzir artigos acadêmicos em larga escala a serem citados em outros artigos acadêmicos.
Tornaram-se eles burocratas da palavra, produzindo artigos em série e sem conteúdo (a maioria de eles gerado por os alunos de pós-gradua ção).
Praticamente todos os artigos e autores são citados de modo superficial, com clara demonstração de que não são lidos, no máximo sendo lido o título dos trabalhos ou resumos, e com uma 'colha aleatória de algum trecho a ser citado literalmente, para parecer que ocorreu uma real leitura.
Esta rede de empresariamento e produção burocrática de artigos em série (sustentada por uma aristocracia acadêmica, simbiótica dos restos do 'tado brasileiro), foi montada no Brasil nos últimos 30 a 40 anos, de modo a 'tandardizar os professores medíocres e dóceis à ditadura militar na zona de poder do academicismo local.
E lembremos que docilidade não significa apenas ausência de críticas.
O PT, por exemplo, assim como a maioria dos 'querdismos brasileiros pós-ditadura, quase sempre foi muito bem aceito por os adversários como 'querda política, por não significarem uma real ameaça na luta por cargos políticos.
Esta origem política, contudo, não explica em totalidade a decadência do academicismo brasileiro, já que a mediocridade tem se tornado a tônica do academicismo em todos os países do mundo (logo colocarei em 'te blog outros textos, complementares a 'te, sobre o academicismo em geral).
De qualquer modo, em 'ses últimos 30 ou 40 anos, alguém somente consegue fazer parte da aristocracia acadêmica brasileira de acordo com o número de favores que prestar ou do puxa-saquismo que dedicar aos professores membros de 'ta aristocracia acadêmica filha da ditadura militar, fazendo pesquisas para eles, tornando-se seus amantes, dando aulas ou lhes fazendo outros trabalhos não-remunerados.
Agindo assim desde a graduação, um aluninho se torna «amigo» de mestres e doutores que tenham outros «amigos» professores que lhe abram as portas de mestrado, doutorados, revistas para publicação, palestras em congressos, vagas de professores nas universidades, contratos temporários nos órgãos do 'tado, concursos públicos, etc.
Como é fácil de ver, as revistas se proliferam de tal modo que quase todo professor orientador tem uma a sua disposição na qual ele próprio e editor ou amigo de um editor.
Com 'ta rede de amizade, um professor troca publicações com outros professores, apadrinhando também os aluninhos desses seus amigos professores, que assim ficam lhe devendo favores.
Por exemplo, quando um destes aluninhos de seus amigos for editor de sua própria publicação, ele deverá facilitar o «'paço» para o seu ex-orientador e os amigos deste publicarem.
Não por acaso, quase todo professor universitário atualmente quer se dedicar apenas a mestrado e doutorado, abandonando as aulas de graduação aos mestrandos e doutorandos (como parte do trabalho braçal gratuito ofertado ao orientador) e aos professores substitutos (os quais ganham pouco mais de um salário mínimo para manter as graduações formalmente funcionando).
Tanto em 'se 'paço de milhares de artigos publicados anualmente no Brasil -- praticamente todos com a mesma qualidade «científica» que a dissertação de nossa jovem aluna das ciências sociais, descrita aí em cima, como nas milhares de dissertações e teses de mestrado ou de doutorados que a «elite pensante brasileira» entulha em bibliotecas reais ou virtuais país afora, o resultado é o mesmo:
infinitos textos produzidos por a pressão de fazer crescer o currículo devido ao fato de ser a produção em série e independente de conteúdo a regra número um do jogo.
Os currículos acadêmicos assim falseados tornam-se o modo indireto, e bem disfarçado, de aquisição de dinheiro vindo de algum órgão público, como da CAPES, de outras instituições públicas de «fomento à pesquisa», ou mesmo de patrocinadores (como no caso da área da saúde, com a pesquisa concentrada na experimentação de remédios dos grandes laboratórios internacionais).
O conteúdo do que é 'crito, a cientificidade, a busca de verdades, o debate de teorias, a lógica do que se argumenta, as aplicações, os métodos, conclusões generalizáveis ou não, nada disso faz parte deste universo de palavras mortas, produzidas por a necessidade burocrática de oficializar o nome do pesquisador em algum evento que registre a sua participação e lhe garanta uma somatória de participações que aumente o seu prestígio e a sua pontuação na aquisição de verba pública para «pesquisa» ou para a 'calada na hierarquia do academicismo brasileiro.
Podemos, por último, tentar nos socorrer na 'perança de que existam exceções a 'te fim degradante do academicismo nacional.
Podemeos pensar se é possível, em 'se contexto, a existência de alguém que, com 'forço e grande rebeldia diante desses 'quemas, sem dinheiro da CAPES e de outros órgãos públicos ou de patrocinadores, sem os apadrinhamentos dos catedráticos empoleirados em seus cargos e editorias de revistas, sem puxar o saco, sem trabalhar de graça, ou mesmo sem ter que dar o rabo para professores (literalmente falando);
e sem desanimar por ver que todos optam por a mediocridade, já que o resultado é o mesmo, consiga ultrapassar em suas pesquisas 'te mar de lama de joguetes e segundas intenções.
Imaginemos que alguém consiga superar todas 'tas forças contrárias para continuar 'tudando e fazendo pesquisa, com 'forço praticamente heróico, aprendendo sozinho, pesquisando sozinho, e, sob risadas cínicas dos colegas de sua área «científica», consiga fazer um bom trabalho de mestrado ou doutorado, ou mesmo um bom trabalho desvinculado de ganhos curriculares.
Imaginemos 'te herói não se rendendo a toda 'ta rede que o atrai para a mediocridade e para o vazio, mas com ganhos pessoais.
Suponhamos, ao final de um percurso muitíssimo difícil, que ele consiga extrair de seu trabalho um bom artigo científico, com idéias importantes sobre algo relevante.
E mesmo, por uma sorte enorme, ele consiga publicar seu trabalho de pesquisa em alguma revista, ou mesmo transformá-lo em livro.
Podemos pensar que fim terá 'te hipotético e raro, muito raro, trabalho relevante produzido em meio tão perverso?
Bem, creio que tal ato heróico realmente seja possível (ao menos em hipótese puramente teórica), mais ainda assim, basta fazermos algumas perguntas sobre o desfecho desse heroísmo intelectual em torno de palavras mortas para termos a certeza de que a exceção, em 'te caso, faz parte da regra, ou do lodaçal de textos inúteis.
Será que alguém lerá o que 'te herói das palavras 'crever?
Será que alguém, que se interesse por 'tudar seriamente bons artigos, conseguirá ler milhares de fraudes acadêmicas (embora oficialmente verdadeiras, legitimada por revistas oficialmente conceituadas e por órgãos " competentes ") para encontrar 'te resíduo de cientificidade levada a sério num meio de milhões de artigos inúteis produzidos em série?
Certamente, qualquer possível pesquisa científica ou filosófica feita com apego à busca por verdades no Brasil será uma agulha intelectual num palheiro de inutilidades, a ser 'quecida com todo o resto.
A finalidade última da produção intelectual brasileira tornou-se a manutenção de cargos, de prestígio social e de dinheiro.
E possíveis e muita raras exceções em 'se contexto são ignoradas, feitas invisíveis no meio de milhares de dissertações, teses e artigos inúteis e vazios.
A «seleção natural» aqui dá-se ao contrário;
pelo menos ao contrário da qualidade.
O que poderia ter real valor desaparece num mar de futilidades que se auto-plagiam.
Infelizmente 'te mundo de palavras mortas é como um buraco negro.
Em ele já desapareceu qualquer possibilidade de uma intelectualidade brasileira que não seja apenas o 'pelho da decadência do resto do país.
O academicismo brasileiro é fundado na fraude 'sencial.
Ele só existe enquanto uma grande farsa.
E uma raríssima exceção que possa ser encontrada somente servirá para os 'perançosos acreditarem que nem tudo 'tá perdido.
Embora 'teja.
Número de frases: 57
Pelo menos o academicismo, não há dúvida que 'teja.
O sonho perdido e etc e Vagar vagando, reedição dupla do acreano Afonso Marcílio, mais conhecido como Bartholomeu, lançado em 2005, com ilustração do artista plástico Danilo de S'Acre, define muito bem sua verve de 'critor atual, com textos modernos e universais.
Para o jornalista Naylor George, Bartholomeu " foi um desses artistas plurais em pura efervescência, com sua produção artística múltipla, entre os acreanos, mesmo já tendo falecido fisicamente.
Constata-se ainda que sua postura de vida aponta caminhos boêmios e humildes a serem seguidos por os tranqüilos de coração.
Bartholomeu era um incentivador das expressões artístico-culturais acreanas, não tinha apego a bens materiais, e era um andarilho por natureza».
Para Olinda Batista, que assina a apresentação do livro, a obra de Bartholomeu é atual:
«autor da nova geração, conhecido no meio literário acreano e com grandes possibilidades no campo das letras e artes, constrói os seus poemas a partir da metáfora ' olhos ', matriz condutora de todo o processo criador».
E acrescenta:
«as imagens evocadas refletem o momento de comunhão do homem com o mundo em que o eu-poema se confunde com o eu-autobiográfico, criando a atmosfera poética.
O autor conseguiu o que muitos poetas contemporâneos não conseguiram:
tirar, do trivial e comum, motivos que produzissem efeito poético tão intenso e marcante».
Linguagem poética
Para a artista plástica, Laélia Rodrigues, a poesia do 'critor acreano insere-se no mesmo contexto inovador da poesia de Betho Rocha, outro ícone da cultura acreana.
«Assim como na poesia de Betho, a linguagem poética de Bartholomeu também persegue a intenção de definir a identidade do sujeito criador.
Em O sonho perdido e etc, Bartholomeu aborda as andanças, reflexões e prosas filosóficas do 'critor.
Já em Vagar vagando, o leitor é presenteado com poesias siderais, que resultam em efeito poético que se concretiza por meio das relações criadas no jogo da língua e da linguagem, que 'tabelecem a linguagem literária».
A imagem do 'paço e do homem, compreendida na poesia de Bartholomeu, a partir dos símbolos demonstra que a significação não pode 'tar aprisionada a um grande 'pelho que a reflete como única.
Os referenrenciais da natureza que corcundam o homem, além de se referirem ao ambiente, podem perfeitamente ser usados para definir o próprio sujeito ou seus sentimentos, como no poema Coração Sideral:
O meu coração?
É igual ao céu
e por você 'trela
juro que sempre
o meu amor vive a brilhar.
O meu coração?!
é igual ao sol
a alumiar os rios
do interior
de mim
que são de puro amor.
O poeta é ousado em seu próprio movimento, dominado Sideralismo e definido por ele com uma equação primordial do assunto:
amor / 'paço / tempo.
Seguindo 'te princípio, o compromisso de sua criação poética assume a gratuidade de seu Sideralismo que inclui a contemplação pura e simples do tempo, da vida e dos sentimentos.
A busca de comunicação na babel do mundo moderno, a busca de liberdade do homem sozinho que caminha sem destino e tenta alcançar o céu, pemanece vivo:
Ando
pois andas
Andes ao nada /futuro/nada.
Nadam silenciosos
os peixes, rios e homens.
Onde encontrar:
Número de frases: 39
(068) 3223-1065 com Danilo de S'Acre
Lei 601 de 18/09/1850 -- Lei da Terra.
Art. 18 -- O Governo fica autorizado a mandar vir anualmente à custa do Thesouro certo numero de colonnos livres para serem empregados, por o tempo que for marcado, em 'tabelecimentos agrícolas ou nos trabalhos dirigidos por a Administração pública ..." (
sic) Art. 19.
Producto dos direitos de Chancellaria e da venda das terras, de que tratam os art. 11 e 14 será exclusivamente aplicado:
1o. à ulterior medição das terras devolutas e 2o.
a importação dos colonnos livres, conforme o artigo precedente. (
sic) A imigração japonesa, nas suas três fases, foi um ato de guerra.
Em cada uma de elas o negro do mundo foi o alvo e a vítima:
A África saqueada;
o negro do Brasil -- «substituído».
Fase I, 1908.
A Partilha De a África, Conferência de Berlim, 1884 a 1885, em consequência Guerra Russo/JAPONESA, 1904-1905.
Descoberto o Congo, as potências européias à época (Inglaterra, França, Alemanha, Aústria-Hungria, Prússia e Rússia), pela primeira vez na História, concordam em dividir o território africano. (*
1) A Conferência de Berlim, conduzida por Bismark e impulsionada por Leopoldo II, Rei da Bélgica, o maior assassino da História (pessoa / fração de tempo), até o aparecimento de Hiroito, 1945, demarca também as chamadas «Zonas de Influência». (*
1. a)
Em a Partilha, o Império Russo, sempre presente, fica de fora;
o Japão pretendente, não entra;
o nascente poderio americano fica com o «livre comércio».
Os russos fincam pés na Ásia;
os japoneses querem alcançar o Atlântico.
Explode a Guerra Rússia / Japão de 1904-1905.
O expansionismo japones sai vencedor.
Porém a Rússia continua na Ásia. (*
1) Os participantes da Conferência de Berlim acordam ser o Atlántico Brasileiro a porta de entrada para o Japão.
Já em 1886 Brasil e Japão começam as tratativas de Imigração.
(A imigração européia para o Brasil começa em 1812, com a Colônia Espírito Santo;
1817, a de D. Leopoldina ...)
O Tratado de Imigração Brasil / Japão, de 1886, é uma peça 'tranha e se desenvolve em ambiente 'tranho:
a) Em o Brasil nada se conhecia sobre o Japão;
Em o Japão só era sabi-de o que no Brasil, de bom -- tinha muita terra, que todos os japoneses iam receber suas glebas;
de ruim -- tinha muita cobra;
de péssimo, tinha muitos negros.
E dos negros era ensinado em Kobe ...
«uns revoltosos, precisavam ser substituídos».
b) Em o Brasil -- o jornal de humor O Malho e a Revista da Semana, foram quase que alugados para preparar o 'pírito dos brasileiros para receber os chegantes:
Propaganda enorme.
E, assim, suas publicações iam da ignorância total sobre a Ásia ao enriquecimento ilícito.
Verbas de origem desconhecida;
corrupção sorvida nos dois lados. (*
2) (www.canaldaimprensa.com.br/nalant/nostalgia/ unit9 / nostalgia.
c) Em o Séc..
XIX o negro da Bahia promoveu uma revolta para cada lustro, até por volta de 1875.
Isto «repercutia negativamente», no Japão. (*
3) d) 1893, para dar mostras da desarticulação do negro, o Governo Brasileiro promove a ação Militar / ' SANITARISTA ', contra o Cortiço Cabeça De Porco, cujas vitímas ainda não foram contadas.
O Exército Brasileiro, derruba as primeiras paredes com todos dentro.
Nenhuma reação -- o negro desarticulado.
Nenhuma ação da sociedade brasileira. (
a barata venceu o porco, alusão ao médico Barata Ribeiro, 1o.
Prefeito do Rio.) (* 4) (
www.italiaamiga.com.br/noticias/artigos/ cabeça-de-porco)
A Viagem, A Chegada.
-- Em 1904 zarpa o «célebre» Kasatu Maru -- para a Guerra Rússia / Japão.
O Kasatu Maru, foi o Kazan, navio hospital russo, com capacidade para 2000 pessoas.
Tomado por os japones, reformado, traz menos de 800 «pobres» japoneses.
menos de 50 % da lotação.
Muito ao contrário dos Navios Negreiros, conhecidos.
A Lavoura É SUBSTITUÍDA Por a Agricultura:
a guerra sublimada.
Enquanto a venda das terras financiava a vinda, a distribuição da mesma terra os atraia.
E a distribuição ao imigrante aniquilava o negro brasileiro.
Nenhum agricultor veio do Japão. (
Nenhum país manda seus nacionais, treinados e produtivos para lugar algum).
Todos se «fizeram» agricultores nas costas do 'casso quadro de técnicos brasileiros e com muito dinheiro do Banco do Brasil.
Estava 'tabelecida o agrupamento racial / militarista japonês, no meio da já preconceituosa sociedade brasileira, configurando a ponta social mais preconceituosa das américas.
Fase II, 1917 -- 1930
O Advento do Comunismo, (outra vez a Rússia).
A China, aliada das nações do Leste Europeu, uma forte candidata a implantar o regime comunista.
O milenar atrito sino-japon ês se avoluma.
Por fim pode-se dizer que 'te ciclo se dá nos embates do medo ideológico, mas também no preparo da II Grande Guerra.
Foi o único momento em que setores da sociedade brasileira 'boçaram alguma preocupação com o racismo / militarista do Império Japonês.
Fase III -- 1945, II Guerra Mundial.
Hiroito vende a vida de seus súditos à bomba atômica.
O negro do Brasil paga a conta.
Em 1987 o filme, sob quatro mãos, com direção de Spielberg (O Império do Sol), vem dar magem a muitas revelações e discussões sobre a atuação de Hiroito.
A 'tes outros se seguiram, dos mais recentes o sol de Skurov -- (www.uol.com.br/folha/ilustrada/ ult90 u65560.
shtml) -- Dia De a VITORIA, 8/05/1945.
Os tratados do fim da guerra.
-- 30/04/45, suicídio de Hitler;
28/04/1945, prisão e assassinato de Mussoline.
-- Onde 'tava Hiroito, o terceiro mentor da Guerra?
-- Hiroito 'tava entre os vencedores.
Hiroito se torna o Primeiro Vencedor Que Perdeu A Guerra, o primeiro Comandante que perde a guerra e não perdeu o Poder.
De as guerras as perdas serão apuradas ao longo da História.
E os ganhos?--
Os ganhos da II Grande Guerra era a bomba atômica.
Era preciso testar o fogaréu da bomba.
Mas, testar onde, em quem?
a) Em a África?--
A Europa, dona da África, não aceita.
b) Em a Ámerica?--
Lá 'tá um dos donos da bomba.
Também não.
c) Em o Brasil?--
Também não:
o Brasil já dera sua coolaboração à mortandade em dois momentos:
c. 1 -- no experimento do canhão, testado em povoações, na destruição de Palmares; (*
5) c. 2 -- Testando a GEMEDEIRA, canhão de repetição, alimentado com pente, na dizimação de Canudos, 1897.
d) Hiroito oferece o Japão, em troca da permanência no poder.
Por que duas cidades?--
Eram dois os combustíveis da bomba, e um combustível o de Hiroito.
A Nagasaki coube o plutônio;
a Hiroshima, o urânio.
A Hiroito -- coube o Poder Imperial Japonês.
A «Agricultura» É SUBSTITUÍDA Por o «AGRONEGÓCIO».
Sob o pretexto de catalogar as terras na confluência da Usina de Paulo Afonso, a serem beneficiadas com o «empreendimento» -- matança enorme.
As terras ocupadas por índios e remanescentes de quilombolas são tomadas a bala.
Milhares de pessoas mortas e jogadas no Velho Chico. (
Para não morrer tantos correram mundo afora, muitos foram encher o garimpo do meu Gilbués).
Terras para completar as áreas ofertadas a terceira leva de imigrantes japones.
Outra vez, nenhum agricultor.
Em dificuldades o Japão não mandaria a fonte do recurso imediato:
a mão de obra agrícola.
Outra vez, o Banco do Brasil, 50 anos de assitência financeira.
Ainda assim, o Japão considera poucas as terras, 1950 -- A Amazônia passa a ser ocupada por os japoneses -- quer por imigrantes;
quer por empresas situadas no proprio Japão.
E o negro do Brasil?--
continua sem terra e sem direito de ter Terra. (
1950 não era diferente a situação do índio).
-- E o negro?--
Foi criada a figura dos Quilombos Perdidos.
E os Quilombos são patrimônio nacional, portanto o negro não terá
«paper» para botar no bolso, (a 'critura).
Não terá direito a financiamento, nunca.
Continuarão, na «Roça de Tereza», do Spírito Santo
www.overmundo.com.br/overblog/a-roca-de-tereza " 1988/90 -- O Programa DOS DEKASSEGUIS
1987, o filme «O IMPÉRIO DO SOL», quebra nas suas discussões, conteúdo do que seria» segredo de 'tado», 79 anos da primeira imigração.
1988, (há 20 anos) Japão / Brasil desenvolvem o programa dos dekasseguis.
O preconceito racial japonês atrvessa o Séc..
XX chega ao Séc..
XXI.
Em que se assentou a Escravidão Africana?
-- Em sinais exteriores:
A cor da pele;
os lábios, o cabelo -- sinais visíveis e identificáveis de longe -- a olho nu.
Quais as exigências para o brasileiro ir trabalhar no Japão?
-- Sinais exteriores:
a cor da pele, o cabelo, o nariz, os lábios ...
Só?--
Não. É preciso que encravado naqueles sinais 'teja a identidade precedente;
a origem japonesa.
-- Querem justificar dizendo que tudo é legal.
Conforme as leis e exigências do Japão.
A Escravidão Africana também foi legal.
Nada na Escravidão Africana 'capou à legalidade.
De tão legal, foi pregada e ainda tida e havida como «um ato para nunca ser contestado».
Assim permanece a Escravidão Africana, amparada no seio do «incontestável».-- (
Perdigão Malheiros, A Escravidão no Brasil)
Em 'te ponto são rigorosamente iguais -- racistas, discriminatórios, preconceituosos, desumanos -- O Projeto da Escravidão Africana e o Programa Nipo-Brasileiro dos Dekasseguis.
«Que navio é 'te que chegou agora?
-- É o navio negreiro com 'cravo de Angola» ...
Cantiga de Roda de Capoeira.
Ninguém canta o Kasatu Maru;
Ninguém conseguiu calar as pessoas do Brasil de cantar o Navio
Negreiro.
Estes versos com sua melodia característica são cantados em quase todas as Nações, inclusive no Japão;
inclusive por japoneses e dekasseguis.
Andre Pessego.
Colaborador da pagina -- www.portalcapoeira.com
Bibliografia E Referências.
-- iniciada por Perdigão Malheiros, no final.
(* 1) -- A Partilha da África, Henri Brunschwig -- Ed. Pespectiva, Cap. III
pág. 37 a 46 (*
1. a) -- Ídem, Cap. II (*
2) -- Além da referência do Canal de Imprensa.
Os Escritores Fernando Moraes e o Prof. Rogério Dezem tem cada um livro interessante sobre a matéria:
Corações Sujos e Inventário DEOPs.
(* 3) Rebeliões da Senzala, Clovis Moura, pag..
Cap VI e VII.
(* 4) Além da referência em www.italiamiga.citada.
Os livros de Fernando Moraes e Rogério Dezem fazem referencia.
(* 5) Palmares a Guerra dos Escravos, de Décio Freitas, pag. 173 a 176.
Em a internet, páginas interessantes:
www.
casadehistória. com.
br / africa docs / con berlim.
pdf contem o texto completo da conferência de Berlim.
www.memoriaviva.com.br/omalho
Número de frases: 178
traz um resumo sobre as duas publicações, cherges, etc.
Yuno Sam é um guerreiro.
Yuno Sam partiu no último ano para um enfrentamento capaz de desencorajar muitos ...
Lutou contra a construção de 5 feios edifícios que seriam instalados dentro do bairro de Ponta Negra, em Natal / RN, onde atua como jornalista e vez ou outra (quando dá conta) em produções culturais alternativas.
O próprio Yuno me contou que durante seu trabalho como assessor de imprensa descobriu o plano dos construtores, tudo tramado sem alarde, sem conhecimento da população, sem discussão com a comunidade, sem.
Aí foi o jeito tomar o ônibus todas as vezes com um nariz de palhaço, e mais para o fim da linha, justo onde moravam os que seriam mais afetados por os monstros de concreto, expor aos passageiros da região os conchavos que 'tavam rolando entre setores administrativos e empreendedores inescrupulosos.
A campanha, assim iniciada, foi se avolumando e depois ganhou seu contorno definitivo através do blogue " s.
o. s.
pontanegra " onde foi criada uma lista de adesão ao movimento de repúdio às edificações.
Mais tarde, com o crescente interesse do público por a causa e a conseqüente difusão da questão até no noticiário nacional, foi possível articular um simbólico abraço gigantesco ao Morro do Careca (cartão postal da praia -- foto), já com grande presença de público e até de autoridades engajadas na preservação ambiental.
Até aí, quando inclusive artistas de renome manifestaram-se em apoio durante suas apresentações no Rio Grande do Norte, muita pedra já havia rolado dentro das instâncias jurídicas, em ações movidas por o ministério público para barrar a ousadia disparatada da classe que constrói destruindo.
E então, por fim, a prefeitura embargou a subida dos 'pigões.
Mesmo sem 'tar presente, acompanhei de longe a questão, torcendo para que o desenlace fosse favorável ao apelo da população local, que se envolveu engrossando o côro de descontentes com a atual situação urbanística da chamada Cidade do Sol, capital potiguar, situada num recanto do mar do Brasil.
De fato, qualquer olhar mais atento logo pode constatar a falta de beleza nas construções verticais que vêm sendo levantadas no cenário arquitetônico natalense.
É fácil perceber que a grande maioria dos empreendimentos não 'tão preocupados com nada menos imediato que a simples exploração do ' bum ' financeiro provocado por o processo que vem colocando a cidade no rol das mais procuradas como destino turístico de patrícios cansados do sul e gringos mal intencionados em busca de sexo barato.
Tá feia a coisa, caras.
Feio em cima.
Feio em baixo.
Alguns prédios são realmente de um mau gosto fora do comum, num horrível padrão sem igual, que mais lembram favelões eretos.
E no chão, por a areia das praias, as nativas -- cada vez mais lindas -- 'tão sendo alisadas por italianos tarados, 'panhóis truculentos, argentinos maleducados e mexicanos bêbados a confundir toda e qualquer mulher com prostitutas e vagabundas.
Não tá dando certo, não.
Prá ninguém, é claro.
Natal vem sendo citada cada vez mais nos meios de comunicação internos e internacionais como um pólo de turismo sexual em franca expansão, dizendo-se em desenvolvimento impulsionada por a atividade.
Mas, como sabemos, uma putaria de vez em quando ...
vá lá!
Agora, todo dia não tem quem agüente.
Tô fora!!
Número de frases: 27
A peça As Estações na Cidade é o resultado de um trabalho diário de dois meses de criação e concepção de um 'petáculo teatral.
São quatro narrativas sobre a relação de homens e mulheres com a cidade, sob a influência das quatro 'tações do ano.
O projeto As Estações na Cidade é fruto de uma experimentação, além da pesquisa em imagens, de um processo colaborativo de trabalho onde não há diretor, e sim diretores criadores de todo o processo.
O 'petáculo se desenvolve a partir de um tema:
o homem na cidade.
O vazio, a solidão, a miséria, o reconhecimento e o não-reconhecimento no outro, o imprevisível, o visionário, o sonhador, o trágico e outros fragmentos que atravessam a relação do homem com a cidade.
Para compor 'te tema, tem-se quatro atmosferas:
as quatro 'tações do ano.
Em 'te cenário um narrador.
A personificação da figura do narrador tem o objetivo de reforçar a expressão da oralidade, em sua forma épica e inaugural.
Esta figura tem a função de alinhavar as histórias do tema desenvolvidas ao longo das quatro 'tações do ano.
São, pois, quatro histórias que seguem o fluxo da natureza e falam de nascimento, vida e morte, em meio à fome, à violência e à miséria das cidades.
A peça é um monólogo encenado e coordenado por o ator-criador pelotense Moiséz Vasconcellos, atualmente residindo em São Paulo.
A música foi criada por o músico e compositor pelotense Celso Krause.
A dramaturgia e o texto foram criados por Fabrício Silva, com a co-autoria de Beatriz Ferreira para as narrativas de Outono e Inverno.
O cenário, chamado de CAJA 96, é muito peculiar.
A caixa, coberta com um tecido branco, recebe imagens de um projetor multimídia de 1800 lumens, que vazam sobre o 'paço cênico, e funcionam ao mesmo tempo, como única fonte de luz para a peça.
Esta concepção de cenografia e iluminação foi criada por o artista uruguaio Waldo Leon, como motivação para um processo de pesquisa em imagens e luz.
As imagens foram produzidas e editadas em vídeo por André Barcellos, 'tudante de Comunicação Social.
Este 'petáculo foi encenado na cidade de Pelotas / RS, no mês de março de 2007, na Sala de Exposições Antônio Caringi, no antigo Grande Hotel, que hoje é um Centro Cultural em 'ta cidade.
Atualmente, os criadores do projeto 'tão procurando por patrocinadores e apoiadores, de modo que o 'petáculo possa circular por outras cidades e outros Estados do país.
Para conhecer melhor o projeto e ver mais fotografias do 'petáculo, acesse o site Ou entre em contato através do e-mail asestacoesnacidade@gmail.com
Fotografias: Beatriz Rodrigues Ferreira.
Número de frases: 23
Toda cidade que se preze tem uma rua, uma praça, um largo ou uma 'quina onde a patuléia se reúne para conversar «miolo de pote».
Fosse na Ágora em Esparta, na Acrópole em Atenas ou no Capitólio em Roma, a falação era uma só.
Também por 'tas terras muitos são os cantões que nasceram para o falacioso propósito.
Em Curitiba, a famosa Boca Maldita, reduto de toda sorte de gente:
juízes togados e de futebol, médicos consagrados e os anônimos «Zé Povinho».
A Boca Maldita ficou famosa quando, só falando mal, derrubou o governo de Leon Peres ...
Rumamos um pouco mais em busca do sul maravilha e chegamos ao Largo do Medeiros em Porto Alegre.
O lugar virou ponto «coloquial» desde a revolução entre chimangos e maragatos.
Enfrentou vários governos e algumas ditaduras gaúchas e federais.
Mas 'tá lá.
Resistiu ... Cruzando de uma ponta à outra do mapa e voilá!
Aportamos no Grande Ponto, verdadeira instituição do povo natalense.
Era uma vez ...
O cantão do Grande Ponto ganhou vida quando, lá por os idos da década de 20, o português Custódio de Almeida inaugurou o Café Grande Ponto, ali no cruzamento da avenida Rio Branco com a rua " João Pessoa.
«Mercearia afreguesada, com algumas mesas para se tomar cerveja;
no salão ao lado, dois bilhares utilizados por os devotos do divertimento». (
Câmara Cascudo -- com a devida citação)
Algum tempo depois o Café Grande Ponto fechou as portas.
Mas o nome passou a ser a denominação daquela encruzilhada.
Ali cruzavam todos os bondes elétricos, único transporte coletivo existente á época.
Era o ponto inicial para os bairros de Petrópolis e Tirol.
Havia também a linha circular, que ia e voltava do bairro da Ribeira.
Além do café e dos bondes, mesmo em diferentes épocas, em cada 'quina daquele cruzamento existia uma edificação marcante.
De um lado o Café Avenida, local de encontro e «onde se tomava um bom caldo de cana».
De o outro, o lugar onde jetset da cidade se reunia;
o Natal Clube.
Anos mais tarde, a Confeitaria Helvética, o cinema Rex, o Café Maia, a Sorveteria Cruzeiro.
O Caldo de Cana do Raimundo, a Loja Seta, que algumas primaveras depois Nevaldo Rocha transformaria no que hoje são as lojas Riachuelo.
O termo ainda não existia, mas o happy-hour ganhava um endereço eterno.
Um verdadeiro púlpito á céu aberto, o Grande Ponto era um catalisador, um chamariz.
Comerciantes, profissionais liberais, desembargadores, professores, poetas e artistas.
Existiam grupos para conversas de todos os tipos e calões:
futebol, política, religião e até safadeza.
Durante a II Grande Guerra a «'quina do mundo», como apelidou Djalma Maranhão, prefeito de Natal na década de 60, começou a funcionar o» Serviço de Alto Falante».
Todos os dias, às sete da noite, o Serviço transmitia músicas e, às nove horas, retransmitia o noticiário da BBC de Londres.
O número de «grandepontenses» crescia de maneira acelerada ...
É por 'sas e outras que aquele cantão não se extinguia.
«Ali, a democracia participativa criava raízes», pois a discussão era permanente.
A falação resolvia todos os problemas, fossem eles, nacionais ou importados.
Como dizem os versos do poeta Celso da Silveira, o Grande Ponto era " centro referencial de política e cultura, de oposição e governo;
a palavra ali falada no palanque dos comícios, ganharam tal ressonância, que nos seus cantos ecoam».
O ponto dos grandes homens
Em aquela encruzilhada o mestre Câmara Cascudo comandava o papo com certa soberba.
Sempre de posse do seu charuto Suerdiek, do tipo puro baiano ou Corona Priveé, falava dos compassos flutuantes da política, da cultura e do folclore.
Outro célebre habitué do Grande Ponto era " Djalma Maranhão.
«Plural e dionísico, sentimental e romântico, vivia permanentemente em contato com todas as classes».
Como dizia o poeta paraibano José Condé, o então prefeito, «transformou Natal numa verdadeira Passárgada cultural».
Grande Ponto de carnavais, dos autos folclóricos e das manifestações políticas.
Ex-presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol, o desportista e conversador João Cláudio Machado junto com seu grupo de noctívagos varavam as madrugadas em falácias intermináveis.
Era o «reitor» naquela «universidade» chamada Grande Ponto.
Por ali passaram grandes figuras, a maioria, atualmente, é nome de rua, 'cola e até 'tádio de futebol como o Machadão.
O Grande Ponto é chão de luta e também história de amor a terra.
Hoje é tema de livro, de tese de mestrado e, sobretudo, objeto da saudade daqueles que freqüentaram o mais famoso cantão da cidade.
Número de frases: 53
De todo o vasto 'toque de personagens que o gênero fantástico deixa à disposição de seus autores nenhum fascina tanto os brasileiros quanto os vampiros.
Tais criaturas fazem parte da mitologia e do folclore de diversas culturas há tempos, mas ganharam fama literária em 1879 com o lançamento de Drácula, de Bram Stoker.
Por aqui, já exploraram o tema pelo menos duas telenovelas de grande audiência -- Vamp e O beijo do vampiro, além de muitos outros exemplos na música, nos quadrinhos, em programas humorísticos ...
Mais afeito ao terror, o vampirismo é o mote por trás de uma série de livros que podem ser considerados verdadeiros best sellers nacionais em 'ta área, todos de autoria de André Vianco e lançados por a editora Novo Século.
Contudo, a ficção científica também faz sua parte para a construção do mito em nossas terras, sempre buscando substituir elementos sobrenaturais por explicações laicas e técnicas.
Fazem parte deste grupo, 'critores como Fábio Fernandes, Gérson Lodi-Ribeiro e Flávio Medeiros Jr. que ou já têm ou ainda pretendem lançar obras protagonizadas por homens-morcego.
Em 2006, um novato chamado Osíris Reis entrou para 'ta galeria com um verdadeiro projeto multimídia.
Ancorado por o que pretende ser uma série de nada menos que oito livros, 'te projeto sem dúvida é um dos mais ambiciosos em andamento no país com relação à ficção científica e ao terror.
Isso por qualquer ângulo que se procure olhá-lo.
Nascido em Goiás, mas radicado na Capital Federal desde 2001, Osíris Reis coordena lá de Brasília os 'forços em torno da adaptação de sua idéia para outras plataformas.
Em o site http://www.trezemilenios.xpg.com.br o internauta pode ter uma noção do que se planeja:
já 'tão disponíveis imagens 3-D baseadas nos personagens e em objetos presentes na série, um trailer com narração feita por o próprio autor e músicas instrumentais, entre outros brindes.
Como atualmente o goiano faz o curso de Audiovisual -- Tv, Rádio e Cinema -- da Universidade de Brasília, e já participou da produção de documentários e de curta-metragens locais, o auge do trabalho pretende ser um filme inspirado nas obras literárias.
A julgar por o que se pôde ver no primeiro livro, caso venha mesmo a ser feita, teremos a versão nacional e com caninos proeminentes de Calígula;
pelo menos no que diz respeito a derramamento de sangue e a cenas de sexo explícito.
O livro em questão é Treze milênios -- Gênese vermelha, o Volume I de toda 'sa inusitada saga vampírica, publicado em 2006 por a editora Corifeu.
Tudo começa num futuro logínquo, uma data tão distante que parece algo proposto por Isaac Asimov.
Em 7523, a humanidade conquistou o 'paço, já fez intercâmbios pacíficos com outras culturas, dominou os quarks e construiu uma utopia de prosperidade, uma democracia direta intermediada por computadores.
Em 'te contexto idílico, vive o protagonista da história, um médico que tem o nome mais ambíguo da história de nossa FC:
Adolf Schindler. O personagem se prepara para comandar uma missão de exploração 'pacial em companhia de uma tripulação formada por outros seis capitães de origens diversas, entre eles, Mani, índia descendente de brasileiros.
Tudo se encaminhava para uma ambientação típica de uma space opera, como aquela aparentemente infinita coleção de livros da série alemã Perry Rodhan.
Porém, uma experiência clandestina de manipulação do tempo, posta em prática por um daqueles tripulantes, dá um rumo diferente à trama e carrega com ela meia dúzia de cobaias involuntárias.
A princípio, o objetivo do capitão renegado Eurass Brown era fazer um breve passeio -- sair do ano 7523 para chegar a 7393. Algo dá errado, e o que deveria ser uma 'ticada de menos de um século e meio se tornou uma jornada composta por aqueles 13 milênios que dão nome à série.
Pior que isso, ao chegarem ao ano de 5477 a.C. os viajantes do tempo descobrem que suas 'truturas foram modificadas radicalmente no experimento.
Não há porque fazer suspense:
Osíris Reis dotou seus sete personagens com as características que nos acostumamos a identificar nos vampiros.
Desde a imortalidade e a capacidade de regenaração até a necessidade de beber sangue e a fraqueza letal aos raios solares, o 'critor buscou fornecer explicações científicas para tudo, partindo de uma alteração cromossômica planejada por o antagonista do livro.
Teoricamente, o que os novos imortais precisariam para retornar à normalidade de suas vidas seria tentar não interferir na vida da humanidade, e com isso evitar alterações no futuro.
Tudo isso e mais uma 'pera de 13 mil anos.
Em a prática, os planos dos membros do grupo entram em choque.
Se o sempre ético Adolf Schindler pretende manter o ideal não-intervencionista, para preservar a utopia que virá, Eurass Brown não tem a menor intenção de se conter, e quer implantar um império na pré-história mesmo.
A trama em 'te primeiro livro ocupa aproximadamente meio século, no qual a postura dos vampiros -- dos sete pioneiros do século LXXVI e dos vários outros que eles criam entre os humanos locais -- se alterna entre 'ses pólos.
Os resultados são as já mencionadas sequências de derramamento de sangue e de cenas de sexo explícito:
o 'critor iniciante oferece a seus leitores algumas das descrições mais detalhistas e chocantes que a FC brasileira já produziu em ambos os quesitos.
Torturas, desmembramentos, 'tupros e orgias com praticamente todas as tendências sexuais imagináveis formam um cardápio que daria orgulho a Vlad Tepes, o sanguinolento príncipe da Valáquia que inspirou Bram Stoker a criar seu livro mais famoso.
Seguramente, não é algo recomendável para todo o tipo de leitores.
Gênese vermelha dá pistas de que seu autor pretende algo mais que contar a história secreta sobre a origem do mito do vampirismo.
Detalhes, alguns mais sutis, outros nem tanto, dão a perceber que a influência dos sete vampiros vai se 'tender para outras mitologias, provavelmente percorrendo, ao longo da série, uma listagem do imaginário humano em todas as partes do mundo.
Um detalhe tão ou mais ambicioso do projeto quanto as várias mídias em que ele pretende se lançar.
Vai exigir bastante fôlego de seu idealizador, um 'forço de pesquisa e uma habilidade narrativa enormes para dar coerência a tal saga.
Por a amostra inicial, o 'critor de 27 anos que propõe 'sa jornada conta com pontos positivos e negativos para acompanhá-lo por o caminho.
Osíris Reis tem uma formação bem pouco usual que lhe dá boa vantagem para tratar das 'peculações que acumula por as páginas do livro.
Antes de começar o curso de Audiovisual, ele frequentou três semestres de Medicina, ainda na Universidade Federal de Goiás, e outros três de Mecatrônica, já na UnB.
Tal currículo ajuda a explicar alguns bons momentos do seu livro de 'tréia, quando ele descreve minúcias técnicas sobre como foi possível a viagem no tempo, ou ainda quais são as extensões das alterações orgânicas dos primeiros vampiros.
Em 'te último ponto, 'pecificamente no trecho em que Adolf Schinler tem uma visão da nova composição celular de ele e de seus colegas, o 'critor foi 'pecialmente feliz.
O brasileiro consegue extrair daquela situação em nível molecular, algo semelhante ao que o americano Arthur C. Clark fez em planos bem mais amplos.
Vamos comparar, primeiro algumas linhas de Treze milênios -- Gênese vermelha:
«Agora, Adolf 'tava microscópico.
Até que se aproximou de um neurônio imenso.
Uma célula cerebral sofisticadíssima, semelhante a uma 'trela.
Raízes brotavam dos raios de 'sa 'trela, que o capitão sabia se chamarem de dendritos, com função de captar informações.
Chamava a atenção um dos raios de 'sa figura, 'tendendo-se o suficiente para assemelhar-se a uma cauda.
Era o axônio que, conforme Adolf aprendera na infância, passava adiante as informações que o neurônio recebera.
Perto daquilo, Schindler era uma mosca na sopa.
Mas ele não se assustava com isso.
Não dizia nada.
Apenas observava as ondas de eletricidade 'tática, brilhantes, que corriam na membrana, na pele do neurônio.
Ondas de luz que davam ao cérebro a capacidade de pensar, correndo dos pequenos dendritos para os longos axônios.
Mas Adolf continuava curioso e diminiuía.
E foi a curiosidade que o levou a mergulhar no fluxo de informações».
Agora, uma amostra de 2001 -- Uma odisséia no 'paço, em tradução lusitana:
«Através do telescópio, altamente potente, podiam verificar que o asteróide era muito irregular, e rodava lentamente.
Ás vezes, parecia-se com uma 'fera achatada, e outras, com um tijolo grosseiramente talhado;
o seu período de rotação era de pouco mais de dois minutos.
Mostrava manchas de luz e sombra distribuídas, aparentemente ao acaso, por a sua superfície, e cintilava frequentemente, qual janela distante, quando planos ou afloramentos de algum material cristalino refulgiam ao sol.
Passava por eles a quase quarenta e cinco quilómetros por segundo;
para o observar de perto, dispunham apenas de alguns frenéticos minutos.
As máquinas fotográficas automáticas tiraram dezenas de fotografias, os ecos do radar de navegação cuidadosamente gravados para uma futura análise, e o tempo chegou à recta para apenas uma sonda de impacto».
Além de 'sas boas passagens, o autor de Goiânia demonstra segurança em várias outras áreas.
Ele constrói um quadro bem vívido do futuro imaginado, propõe uma nova e interessante maneira de demarcar períodos históricos, avança com sucesso no grau de complexidade da trama -- o que começa perigosamete como uma historinha de amor à primeira vista, evolui de modo interessante com o passar do tempo para situações bem mais inustitadas.
Todavia, há também muita coisa para melhorar até chegar ao segundo livro da saga Treze milênios.
Tais pontos negativos podem ser divididos entre casos graves e outros nem tanto.
O pior de eles é a construção do lado emocional dos personagens, mais notadamente do protagonista germânico.
O autor evitou criar um herói idealizado demais, sem dúvidas nem autocrítica.
Poderia ser algo interessante, mas pesou demais a mão, o resultado foi um sujeito choraminguento que vive mergulhado em autopiedade, perdendo o controle das lágrimas e dos soluços.
Isso ocorre com outros personagens, mas chega ao limite do bom senso com Adolf Schindler.
Leitores que já reclamam dos excessos de sentimentalismo dos vampiros de Anne Rice, deverão se apavorar com o capitão deslocado do tempo.
É algo a ser muito trabalhado por Osíris Reis se ele pretende mesmo manter a atenção do público por mais sete livros.
Um caso menos grave, é o uso da linguagem por parte dos humanos primitivos.
O autor demonstra se preocupar com relação ao fato daquelas pessoas serem tão culturalmente atrasadas = não apenas em contraste com os 'trangeiros que nasceram mais de 10 mil anos no futuro, mas também em comparação ao leitor.
Porém, o vocabulário dos sujeitos pré-histórico é rico demais para soar de forma realista, como parece ser a preocupação do 'critor.
Quem leu o capítulo inicial do livro de 'tréia do inglês Alan Moore, A voz do fogo, faz uma idéia do quanto é complicado tentar emular a fala e os pensamentos de nossos ancestrais.
Mas 'se é um desafio que não deveria ter sido deixado de lado.
No meio do caminho, há vários outros entraves que tornam a leitura cansativa.
Certos recursos adotados fazem o texto soar muito artificial, alguns de eles devido à obsessão do autor por não repetir palavras.
Isso acaba gerando construções como «irmão de fulano» ou «primo de beltrano» a todo momento para substituir o nome de ciclano.
Com o tempo, o efeito é bem mais irritante do que seria simplesmente ler o nome dos personagens repetidamente.
Em o mesmo sentido, seria ótimo se o autor relaxasse em outras questões igualmente formais.
Para exemplificar, o uso das mesóclises é constante em todo o texto.
Seria radicalismo pedir para que não se use 'sa construção pronominal por ela soar pernóstica aos brasileiros, mas, pelo menos nos diálogos, poderia-se-evitá-la sem empobrecer a prosa.
Por último, novamente para aumentar a agilidade do texto, uma edição mais criteriosa eliminaria excessos e tornaria o livro bem mais magro.
Não seria necessário apelar para a objetividade e secura de um Dalton Trevisan -- dito o Vampiro de Curitiba, aliás, só que, no mínimo, as constantes recapitulações da história deveriam ser podadas.
Esse tipo de refresco para a memória do leitor é muito útil quando usado nos folhetins, mas num romance, ele é mais que dispensável.
Enfim, 13 mil anos, oito livros e sabe-se lá quantos outros projetos paralelos são uma longa odisséia.
Há tempo e 'paço para se fortalecer os pontos positivos e se solucionar os negativos.
Somente ao final de ela saberemos se Osíris Reis 'tava ou não à altura do desafio que ele mesmo se propôs.
Também saberemos se a tradição em relação ao vampirismo, 'sa preferência nacional em termos de literatura fantástica, ganhou de fato um novo representante de peso com a saga de Treze milênios.
Este texto faz parte de um projeto chamado Ponto de Convergência, que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros significativos lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores.
Número de frases: 98
Reunidas no livro intitulado «A milésima segunda noite da avenida Paulista» (Editora Companhia das Letras, 213 páginas), algumas das grandes reportagens de Joel Silveira, como a que dá nome à obra, ajudam a traçar o perfil jornalístico -- e por que não pessoal, de uma das personalidades do jornalismo brasileiro.
Nascido em Sergipe, na cidade de Lagarto, Joel chegou ao Rio de Janeiro ainda bem jovem e passou a vida cercado de 'critores, pintores, jornalistas, poetas e intelectuais, pessoas de quem não só conseguiu arrancar confissões em 'petaculares entrevistas, mas que também compuseram seu rol de amigos íntimos e fiéis.
O poder da víbora, apelido dado a ele por Assis Chateaubriand, foi conhecido nacionalmente pela primeira vez no começo dos anos 40, com a reportagem «Grã-finos em São Paulo».
O próprio Chatô se encantou com a acidez e o sarcasmo de Silveira quando leu a reportagem em que ele satiriza os costumes dos ricos de São Paulo, troçando de suas fortunas, seus sobrenomes e seus hábitos peculiares, como o de se reunir na livraria Jaraguá todos os dias para discutir por horas sobre tudo, exceto sobre livros.
É em 'se ar de zombaria e crítica que Silveira, a pedido de Chateaubriand, seu então chefe nos Diários Associados, dá a mesma cobertura à festa de casamento da filha do conde Francisco Matarazzo Jr., a «festa do ano», e ao casamento de dois humildes operários, coincidentemente funcionários das fábricas da família Matarazzo, numa tirada genial.
Donos de histórias fascinantes, seus entrevistados por vezes surpreendem mesmo o jornalista, velho amigo de muitos de eles.
O Monteiro Lobato descrito por Joel num dos capítulos adiciona à já conhecida imagem do autor de Reinações de Narizinho o importante papel que desempenhou nas campanhas em defesa do ferro e do petróleo brasileiros, ousadia que lhe rendeu até prisões.
Visceralmente imprudente, como se definia, Lobato conservou a língua solta durante toda a vida.
Prova disso é a entrevista na qual ataca a ditadura do Estado Novo, cedida em 1944, de conteúdo e título provocativos (" O governo deve sair do povo como a fumaça sai da fogueira "), que resultou no fechamento antecipado do jornal semanário em que Silveira trabalhava.
Em um dos capítulos mais interessantes do livro, Joel conta sobre o dia em que entrevistou os bandidos de Lampião na penitenciária de Salvador.
A maneira bonita como o diálogo transcorre e o curioso envolvimento criado entre eles e o entrevistador são tão intensos que chega-se ao final da história com certa simpatia e compaixão por os seis violentos ex-cangaceiros.
As entrevistas relatadas na obra trazem um misto riquíssimo de típica curiosidade jornalística, afinal Joel cumpria com excelência seu papel profissional, com intimidades que só um amigo tão próximo poderia ter.
A proximidade com Graciliano Ramos, que conheceu assim que chegou ao Rio, lhe permitiu contar o lado amargurado do 'critor, sempre insatisfeito com si mesmo e com suas obras.
A demora por o reconhecimento artístico lhe pesou por toda vida, até ganhar o primeiro prêmio, em 1942, por Vidas Secas, publicado quatro anos antes.
De mesma intimidade desfrutava com Manuel Bandeira, a quem chegou a visitar ao menos uma vez por semana lá por o ano de 1938, sempre pela manhã.
É com saudade que Joel relembra a última vez que o encontrou, às vésperas do poeta completar oitenta anos, mantendo ainda sua impressionante memória numa 'pantosa lucidez.
O fato relatado com tamanho entusiasmo foi a reação de Bandeira diante da inesperada situação de presenciar, por a janela, uma vaca comendo as flores do jardim na casa de verão do amigo Rodrigo Melo Franco, onde 'tava hospedado.
Conta Joel:
«tinha alegria de menino cúmplice de uma travessura».
Mas é da amizade com o irreverente Di Cavalcanti que surge uma das situações mais emocionantes do livro.
Di é apresentado como um homem animado, fã de boa comida e boa bebida, sempre com mil histórias extraordinárias a contar aos diversos amigos, entre eles, Joel Silveira.
Preso em 1968, no mesmo dia em que o Ai-5 foi decretado, o jornalista constava na lista de «intelectuais mais perigosos e contestadores do regime militar».
A o sair da prisão, cheio de dívidas e às voltas com o casamento da filha, Joel encontrou-se em situação delicada:
não lhe restara outra solução senão vender o quadro pintado por Emiliano Di Cavalcanti e ganho de presente das mãos do próprio autor.
O resultado foi o pintor enfurecido com o amigo e dois meses de relações cortadas.
Porém, para grande surpresa e comoção, no dia do casamento da filha de Joel, lá 'tava Di, logo nas primeiras filas.
Número de frases: 26
O livro chega ao fim com um posfácio de Fernando Morais, absolutamente necessário para que a obra termine completa, contendo mais histórias e memórias que, juntas como num mosaico, ajudam a compor não só biografias de seus ilustres entrevistados, mas também a decifrar a vida tão bem vivida da víbora do jornalismo, Joel Silveira.
Um movimento silencioso surge em meio à maior reserva natural de carnaúba da América do Sul.
A pequena cidade de Carnaubais, com seus cerca de 10 mil habitantes assiste de camarote uma mobilização cultural que começa a ganhar corpo e mostrar a cara -- nada a ver com simples festas regadas a brega e forró, a Coordenação de Cultura do município (ligada à Secretaria de Educação) resolveu quebrar o'protocolo ' ao realizar um evento multicultural gratuito na praça principal.
Apesar da proposta do assessor cultural Zelito Coringa -- de fazer a 'fera ' praça igreja missa parque sair da inércia -- ter sido boicotada num primeiro momento por o próprio poder público, Zelito conseguiu o que queria:
despertar a população para seus referenciais.
Em 'tes tempos de globalização desenfreada, a diferença 'tá justamente na 'sência.
Ator, músico e poeta, Zelito Coringa e sua equipe da assessoria cultural de Carnaubais colocaram lenha na caldeira da auto-'tima ao promover a primeira edição do Festival Semearte, onde a cidade mergulhou -- por uma semana -- numa intensa programação com debates, shows, apresentações de grupos de teatro locais e saraus poéticos.
Até o cine-teatro São Luiz, único 'paço na cidade com 'trutura para exibir vídeos e receber 'petáculos, aproveitou o movimento para sessões extras.
O debate, cuja pretensão era ser considerado o Iº Fórum Municipal de Cultura, atraiu pouco mais de 20 pessoas, porém, com representatividade satisfatória, o grupo legitimou a conversa sobre leis de incentivo, fundos de cultura, relação cultura x mídia, mobilização social, mapeamento artístico-cultural e funcionamento / adesão ao Sistema Nacional de Cultura.
Questionamentos como cultura versus entretenimento, e concessões de rádios comunitárias também foram levantadas.
O lado pop da poesia popular
O que mais impressiona em 'ta típica cidade do interior nordestino, com direito a pracinha, roda-gigante, bêbado, fofoqueira e louco, é sua ligação com a literatura de cordel.
Em os muitos intervalos da programação, na hora do almoço, em qualquer lugar, não importava ...
se achasse conveniente, o poeta cordelista Antônio Francisco -- membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (com sede no Rio de Janeiro) desde outubro de 2005, onde ocupa a cadeira do patrono Patativa do Assaré -- derramava sem dó seus versos politizados e sempre bem humorados.
Com tudo na ponta da língua, 'se mossoroense de 57 anos não dava chances à falta de atenção do público.
Observações desconcertantes a partir de uma poética simples, por vezes pueril, como 'ses trechos da extensa Os sete constituintes ou os animais têm razão:
«O porco dizia assim:
já sujaram os sete mares / do Atlântico ao Mar Egeu, as florestas 'tão capengas, os rios da cor de breu / E ainda por cima dizem que o seboso aqui sou eu «ou ainda» A vaca se levantou e disse franzindo a testa / ' Eu convivo com o homem, sei que ele não presta / É um mal-agradecido, orgulhoso, inconsciente, / é doido e se faz de cego, não sente o que a gente sente / E quando nasce toma a pulso o leite da gente».
Em a praça lotada, a fascinação por o poeta faz ' coraçõezinhos ' baterem mais forte:
«Gosto muito de ele, li vários livros seus mas ainda não o conhecia pessoalmente», disse Aldinete Sales da Silva, 19, após descer do palco onde declamou Os sete constituintes ...
ao lado do ídolo.
Atriz desde 1999 e vestibulanda de letras em 2005, Aldinete mora no sítio Casinhas, a 30 minutos «di péis» do centro de Carnaubais.
Considerado um fenômeno teatral por o assessor de cultura da cidade, o grupo do sítio Casinhas é autodidata e desenvolve a própria linguagem na hora de interpretar.
Durante o evento, o grupo apresentou o julgamento do personagem João Grilo -- fragmento cênico do Auto da Compadecida, de " Ariano Suassuna.
«Só a banda não iria preencher a gente, 'se povo todo também precisa de poesia», aposta Aldinete.
Limpeza do ego
Uma nova rajada de raios subliminares, e entra em cena a Trotamundos Companhia de Arte.
Trupe formada por Coringa, Beto Vieira, Mazinho Viana, Dudu Campos e Ana Celina, a Trotamundos encenou o 'petáculo (no cine-teatro São Luiz) Coivarins:
sete notas de Cordel em cena, vencedor do prêmio de Melhor Trilha Sonora Original no Festival de Teatro Potiguar 2005 (Dudu Campos, Mazinho Viana e Zelito Coringa).
Com textos de Antônio Francisco e Zelito, direção de Nonato Santos e Beto Vieira, Coivarins pode ser encarado como um ritual de purificação do ego através do fogo.
A origem da palavra vem do vocábulo coivara, que segundo o Aurélio significa «restos ou pilha de ramagens não atingidas por a queimada, na roça à qual se deitou fogo, e que se juntam para serem incineradas a fim de limpar o terreno e adubá-lo com as cinzas, para uma lavoura».
Conduzidos por o cordel e por experiências sonoras executadas ao vivo, os «Etlogents» -- seres elementais que guardam o saber do Coivarins -- plantam novas sementes cidadãs na platéia, com mensagem que pregam amor ao próximo, respeito à natureza e valorização das tradições.
Depois, na praça principal a 150 metros do São Luiz, o boi de Reis da cidade vizinha de Porto do Mangue encerra a Semana de Arte com orgulho e brilho nos olhos.
Número de frases: 33
O mesmo brilho que nos faz crer em tempos melhores.
Quem teve a oportunidade de assistir ao filme Papillon (EUA-1973), dirigido por Franklin J. Schaffner e 'trelado por Steve McQueen (no papel de Papillon) e Dustin Hoffman (Louis Dega), já conhece um pouco de 'sa história de aventura.
Henri Charriere (ou René Belbenoit), autor do livro homônimo que deu origem ao filme, foi um dos poucos prisioneiros que conseguiram fugir da Ilha do Diabo, presídio localizado na floresta impenetrável da Guiana Francesa, uma 'pécie de purgatório, onde os presos pagavam seus crimes sofrendo degradações e brutalidades.
Condenado na França em 1921 por um roubo que nem chegou a ser consumado, René chegou a colônia penal em 1923.
Mas sua história começa verdadeiramente em 1935, quando ele e mais oito companheiros empreendem uma das fugas mais 'petaculares da história, de acordo com o descrito em seu livro Dry guillotine (1937).
Sua obra 'candalizou a França e fez com que o governo daquele país parasse de enviar prisioneiros para a colônia, culminando com o fechamento do presídio em 1953.
Mas, o que conta o filme e os livros não é a história real, de acordo com pesquisas feitas por o fotojornalista Platão Arantes, um pernambucano radicado em Roraima desde 1993.
Platão já empreendeu mais de 10 anos de pesquisas sobre o assunto e publicou dois livros a respeito:
A farsa de um Papillon -- a história que a França quer 'quecer (1998) e Papillon -- o homem que enganou o mundo (2002).
Em suas pesquisas, Platão buscava provar que o francês René Schehr (ou René Belbenoit), cujo corpo 'tá sepultado na Vila Surumú, município de Pacaraima, no nordeste do Estado de Roraima, é o verdadeiro Papillon.
O jornalista tentou provar sua tese a todo custo, mas encontrou muitas dificuldades.
Chegou até a enviar impressões digitais de René Schehr para a França, na 'perança de que pudessem comprovar sua descoberta.
Com a falta de boa vontade do governo francês no caso, Platão decidiu correr com seus próprios recursos atrás de seu sonho.
«Para que eu não cometesse nenhuma injustiça, eu dividi o meu trabalho em duas fases e lancei o primeiro livro, na 'perança que ele me desse suporte para continuar as pesquisas», disse.
A 'tratégia deu certo e, em 2000, ele parte para Caiena, capital da Guiana Francesa, em busca de outras provas que pudessem validar suas descobertas até então.
Com a ajuda de uma amiga brasileira e seu marido francês naquele país, Platão conseguiu informações e dados históricos que foram clareando ainda mais os fatos.
«As coincidências eram enormes.
Ambos foram presos no mesmo local, a «Praça Pigalle», eram» cafetões», foram enfermeiros na prisão e ambos afirmaram que foram marinheiros.
Em minhas investigações descobri que René, de fato foi militar e um acidente o levou para a reserva», explica.
Outra coincidência entre os dois, de acordo com as pesquisas de Platão, é que René exerceu a função de jardineiro, coisa que Henri também afirmava ter sido.
Para completar, no documento de identidade de René, expedido em Roraima, constava a mesma data de nascimento de Henri.
Munido de tantas informações preciosas, Platão ainda precisava de algo mais autêntico que pudesse acabar de vez com as dúvidas que ainda pairavam sobre suas investigações.
De posse de fotos de René Schehr em Roraima e outras de Papillon, conseguidas durante suas pesquisas, Platão conseguiu, com a ajuda do senador roraimense Mozarildo Cavalcanti, que 'pecialistas da Polícia Federal fizessem uma perícia comparativa.
Utilizando um programa desenvolvido por ele mesmo, que identifica pessoas através de imagens faciais, o perito Paulo Quintiliano, auxiliado por o também perito Marcelo Ruback, comprovou que o homem sepultado em Roraima é mesmo René Belbenoit, o verdadeiro Papillon.
A comprovação rendeu uma matéria na revista Isto É no ano passado, repercutindo em vários países.
«Tudo indica que o livro Papillon, o homem que enganou o mundo será lançado até o final do ano em nível nacional e internacional.
Três editoras brasileiras e duas 'trangeiras 'tão analisando o livro e duas já demonstraram interesse.
Falta apenas fechar o contrato», comemora Platão.
Quais as principais dificuldades que você encontrou em suas pesquisas?
A primeira foi que Maurice Habert aparece nos primeiros livros como homossexual, e seus familiares fizeram de tudo para 'conder isso.
O roubo ao comércio de JG de Araújo, praticado por Papillon e seus compassas, foi a mando de um funcionário que queria prejudicar o gerente.
A idéia era que ele fosse demitido, para que o informante fosse promovido em seu lugar.
Esse informante ainda 'tá vivo e faz parte de família tradicional.
Quando Papillon faleceu, algumas pessoas -- que ainda 'tão vivas -- ficaram com seus pertences -- mais de trezentas cabeças de gado, fazenda, ouro e diamantes.
Por isso, queimaram seus livros e documentos.
Minhas investigações contrariaram muita gente de famílias tradicionais, e eles fazem de tudo para desacreditar-me.
Você entrevistou pessoas, fez inúmeras viagens a locais onde Papillon 'teve.
O que saiu de concreto desse trabalho que comprove sua tese?
Os depoimentos de pessoas foram de fundamental importância na montagem desse quebra-cabeça, digo mistério.
Em as viagens, pude comprovar que Henri Charrière para se passar por 'critor acrescentou muitas mentiras.
O maior exemplo é o El Dorado!
Não só 'tamos provando que René Schehr é de fato René Belbenoit, 'critor que americanos e franceses acreditavam que teria vivido até a morte nos Estados Unidos, como também 'tamos provando que os mais importantes companheiros de fuga 'tão sepultados em Roraima, e são personagens principais dos livros de René.
A comprovação através das fotos feita por agentes da Polícia Federal são suficientes para comprovar que Papillon realmente 'tá enterrado em Roraima?
Sim.
Foram feitas quatro perícias e todas comprovaram a autenticidade.
Essa técnica e aceita em todo o mundo.
O local onde foi enterrado Papillon, segundo sua tese, já foi localizado?
Você já 'teve lá?
Tem alguma possibilidade de exumação do corpo para um exame de DNA?
Já 'tive quatro vezes, foi fotografado e filmado.
Apesar da comprovação cientifica, luto para que os restos mortais sejam exumados, por dois motivos:
para não mais haver duvidas, e para dar-lhe um sepultamento digno, tanto é que fiz um projeto para criar em Roraima o museu Papillon.
Você já publicou dois livros a respeito do assunto.
Tem história para mais um outro livro?
O segundo livro foi atualizado e 'pera para ser publicado.
Estou mantendo contato com editoras e até o fim do ano ele deve ganhar uma publicação revista e atualizada.
Número de frases: 56
Geraldo Roca é autor de Trem do Pantanal.
A música composta em 1975 em parceria com Paulo Simões foi eleita a mais representativa do Mato Grosso do Sul, virou praticamente o hino não-oficial do Estado e há mais de uma década é o hit do repertório do violeiro Almir Sater.
Mas Roca é muito mais do que simplesmente o autor de 'ta canção que fala do famoso trem que partia de Bauru, em São Paulo, passava por Campo Grande, chegava até Corumbá, na fronteira de Mato Grosso do Sul com a Bolívia, e rumava para o ponto final Santa Cruz de La Sierra.
O compositor é dono de uma das obras mais inspiradas da música feita na região Centro-Oeste.
A quem diga que seja do país."
Se fosse 'colher um compositor para dar de presente ao povo brasileiro, 'te compositor seria Geraldo Roca», revela Renato Teixeira, grande apreciador da música produzida em MS e com quem Roca gravou, tocando viola de 10 cordas, o LP Garapa ainda na década de 80.
Com sua voz gravíssima, durante a conversa é capaz de enumerar um grande número de intelectuais, como Norman Mailer, Bertold Brecht, Aldous Huxley e Maiakovski e buscar as mais diferentes teorias e livros, como A Cultura do Narcisismo, de Christopher Lasch, para explicar suas posturas ou o porquê de ter feito determinada música.
Irônico e provocador, Geraldo não perdoa a falta de discernimento de quem não percebe que o seu maior sucesso, Trem do Pantanal, não tem nada de canção ecológica."
Tem muita gente que admira a música como uma elegia ao Pantanal.
Mas Trem do Pantanal não é nada disso.
É uma canção de um proscrito, que 'tá fugindo de uma ditadura.
Não tem ninguém olhando para as 'trelas», explica.
Figura rara nos eventos artísticos de Campo Grande, Roca faz shows eventuais e seus discos demoram.
Com 49 anos e 26 de profissão, o compositor lançou apenas um LP e dois CDs.
Carioca de nascimento, sempre flertou com o Mato Grosso do Sul, onde sua família possue fazendas, mas apenas em 1988 resolveu mudar para a capital do Estado.
Autor de músicas como Japonês Tem Três Filhas, em que satiriza a verdadeira miscelânea cultural que acontece em MS, e Polca Outra Vez, considerada a pedra-fundamental para o surgimento da polca-rock na década de 80, Roca garante que o homem do interior do Brasil se parece mais com o mexicano do que com o carioca."
De a rodovia Castelo Branco para cá o Brasil vai virando cada vez mais o México», assegura.
Roca também não se conforma com a falta de parâmetros do sul-mato-grossense interiorano e chega a apontar o atraso cultural como um dos empecilhos para se ter um mercado em MS para 'ta música feita por ele, Paulo Simões e Geraldo Espíndola."
É inacreditável pensar que alguém nunca tenha ouvido falar em Tom Jobim, mas vai em Maracaju e é isto que acontece», lamenta.
Bom papo, o músico abortou a idéia de ir morar em São Paulo, bola um disco só com versões para canções folk e assume que não se entusiasma mais em dizer que é compositor como nos anos 70 e 80." Hoje me sinto parte de um baixo clero», vaticina.
Você acreditava que a música Trem do Pantanal se tornaria tão representativa para o MS?
Roca -- Não acreditava e ela se tornou por razões curiosas, além da insistência do Paulinho em sempre tocar a música.
Trem do Pantanal é uma canção de um proscrito.
É um cara que diz que é um fugitivo da guerra, que 'tá saindo do Brasil e indo para a Bolívia, que a família 'tá preocupada com ele.
A letra ressalta que ele 'tá muito bem e vivo.
E ele sabe que o medo viaja também em todos os trilhos da terra.
Me inspirei um pouco na experiência de um amigo.
Eu e o Paulinho tínhamos uns 14, 15 anos e ele era mais velho um pouco, mas já freqüentava o PCB.
Até o dia que 'touraram uma célula do Partidão, ele 'tava envolvido, teve de picar a mula e fez justamente 'te caminho até Santa Cruz de La Sierra.
Esta história ficou na minha cabeça.
A idéia do cara fugindo.
Tem gente que pensa que a persona que 'tá dizendo aquelas coisas na letra poderia ser o Che Guevara.
Eu particularmente fiquei sabendo há uns três anos que o Che fez uma viagem parecida ou até mesmo a própria.
O Fausto Matogrosso tem um livro sobre isso e existe uma ficha do SNI afirmando que o Che teria passado por o nosso Estado, de cabeça raspada, de óculos e tudo mais.
Então até caberia, mas eu e o Paulinho não tínhamos consciência disso.
O Trem do Pantanal é incompreendido na sua 'sência então?
Sim.
Tem muita gente que admira a música como uma elegia ao Pantanal.
E não é.
A letra fala de um cara fugindo de uma ditadura por o Pantanal.
Ele não 'tava olhando as 'trelas.
Esta canção é bastante popular em MS, mas não se pode dizer que exista um mercado que reflita 'ta popularidade.
Por que 'ta chamada Moderna Música de MS não consegue formar um mercado sólido no 'tado?
Porque o MS inteiro tem a população de Copacabana.
Você imagina um cara ser 'trela só em Copacabana?
É difícil.
Mas para você a questão é populacional?
Não é só isso.
Não aconteceu nada aqui por causa do atraso cultural das pessoas.
A primeira vez que fiz shows por dentro do Estado senti que há um abismo entre Campo Grande e as cidades do interior.
São dois universos culturais inteiramente diferentes.
É quase inacreditável pensar que alguém nunca tenha ouvido falar de Tom Jobim ...
Mas é possível.
Vá a Maracaju e pergunta quem foi Tom Jobim, Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro ...
É inacreditável, mas não saberão responder.
Se é assim isso aqui, imagino que por o Nordeste e Norte do Brasil e outros lugares do Centro-Oeste, como Tocantins, seja assim também.
A música que 'tas pessoas conhecem é a música sertaneja.
Que embora seja recente, ela é a música popular deste país.
Música para eles é aquilo.
Em 'ta viagem por o interior tocamos em Nova Andradina.
Eu, a cantora Maria Alice e a banda de rock Vaticano 69. Deviam ter umas 800 pessoas que não iam embora, não aplaudiam, não vaiavam e não se manifestavam.
Teve uma hora que perguntei:
«Tá vivo aí pessoal?».
Foi impressionante, mas eles não 'tavam entendendo o que era aquilo ali.
O interior geralmente é mais difícil em todos os Estados.
Mas Campo Grande é uma capital que não possui uma casa noturna com 'trutura de som e luz para receber uma banda.
O que acontece?
Não sei.
O que sei é que por incrível que pareça quem fez alguma por a cultura foi o governo do PT através do Fundo de Investimos a Cultura, o FIC.
É preciso dar a César o que é de César.
Ou a Pilatos o que é de Pilatos, sei lá ...
Houve realmente muita produção musical financiada, a fundo perdido muitas vezes, por o Estado.
O que não houve, e é o ponto fraco da 'tratégia do governo, foi circulação.
E claro que ocorreu muita política de clientela, mas isso no Brasil é de se 'perar ...
Tipo o filho do vereador do interior que quer gravar um CD e deixam ele gravar naquela base de não custa nada ...
Mesmo assim houve muita produção e nunca se fez tanto CD.
Já é possível dizer que existe uma música sul-mato-grossense?
Existe um embrião de ela.
Mas na música o problema é que se você quer falar e atingir uma boa audiência, quanto menos complicar, melhor.
Coisas como Água Verde, de Geraldo Espíndola, que é cheia de 'calas cromáticas, mesmo sendo de um compositor que não conhece cifras, dificilmente teria chance de ser ouvida em outra rádio que não seja a Educativa aqui de Campo Grande.
Mesmo sendo uma beleza de canção e diferente de tudo que existe na música brasileira.
O Geraldo Espíndola é um dos grandes melodistas do Brasil de sempre ...
Ele é mesmo, tem um talento extraordinário e tenta, assim como eu, descomplicar as canções e fazer algo mais simples.
Mas não é tão simples que chegue a tocar o cidadão sul-mato-grossense.
Não é uma música palatável ainda.
Não se chegou a uma fórmula baiana digamos assim?
Exatamente.
Não é palatável.
A fórmula baiana eu acho genial.
A Bossa Nova teve de vingar nos EUA para ser aceita no Brasil.
O Almir teve que virar um ator de novela brasileira para ser reconhecido como artista em seu próprio Estado.
Então a fórmula baiana é perfeita, porque é feita dos baianos para os baianos e acerta o resto do Brasil de tabela.
Mas eles não 'tão preocupados.
Porque lá eles são absolutamente a música baiana.
Pode ser boa ou ruim, mas o baiano tem certo orgulho de ela.
Escuta aquilo o dia inteiro.
Em a década de 80 surgiu o que se convencionou chamar de polca-rock, que é a mistura da polca paraguaia com rock ' n roll.
Muitos o apontam como o próprio pai da criança.
Você se considera o que em 'ta história ou não se considera?
Me considero por causa de uma música chamada Polca Outra Vez.
Ela iria ter inclusive um parêntese 'crito Back in the Big Field, que não passa de um remake de Back in the USSR, uma paródia dos Beatles para a música Back in the USA do Chuck Berry.
Polca Outra Vez é um cara saindo da civilização, do Rio de Janeiro, ou de onde ele 'tivesse, e adentrando o mundo do Centro-Oeste, a Terra do Boi, a Zebulandia ...
Polca Outra Vez é rock ' n roll, não é outra coisa ...
Tem até aquele rife a la Chuck Berry, mas em compasso ternário.
Você batizou seu segundo disco de Litoral Central?
Como é isso?
Os 'panhóis, que foram os primeiros a vir para 'tas bandas, eles imaginavam que existia um mar interno e chamavam de Mar de Xaraés.
Quando o Pantanal 'tá cheio, na altura de Porto Murtinho, por exemplo, não se vê mais mato e parece um mar mesmo.
Então o tal Mar de Xaraés é um mar que nunca existiu, mas que tem até nome.
É um mar imaginário e fica na região geográfica onde a gente 'tá.
Outra coisa para eu chegar em 'te nome Litoral Central é o seguinte:
o chamamé é chamado por o pessoal no leste da Argentina e no Uruguai de música litoraleña, de litoral fluvial.
Então quando comecei a pensar em 'ta expressão Litoral Central o paradoxo de ser litoral e ser central já me atraiu.
É uma provocação.
Como pode ter um litoral central?
Mas tem e é o litoral fluvial.
Li isto na biografia do Tarrago Ros, onde falam de música litoraleña, aquela que fica sempre nas beiras dos rios.
Uma música que foi subindo por o Rio Paraguai e acabou chegando aqui.
Algumas pessoas sonham com a idéia de um corredor cultural que ligaria Campo Grande, Assunção, Corrientes, Montevidéu, Rosário, Buenos Aires, Porto Alegre, Foz do Iguaçu ...
Falta olhar mais para o Pacífico do que para o Atlântico?
A gente olha para o lado errado sim.
Misturar a música feita no miolo da América do Sul seria excelente e renderia altas figurinhas.
Mas o que não tem é uma indústria para receber isso e de um público de baixo poder aquisitivo.
As fronteiras são os lugares mais pobres do continente.
Você acredita que a música sul-mato-grossense tem realmente um elo natural muito maior com 'ta América do Sul do que com o resto do Brasil?
Meu amigo, da Rodovia Castelo Branco para cá o Brasil vai ficando cada vez mais mexicano, até que ele vira o México.
O brasileiro do interior é muito mais parecido com um mexicano do que com um carioca ou um habitante de Salvador.
Isto é um fato.
Para bem e para mal.
Estas duplas sertanejas que ficam se 'goelando para o mal e as coisas geniais que já apareceram e irão aparecer para o bem.
Em a década de 80, o Mato Grosso do Sul viveu um momento de euforia musical, com os teatros lotados de público nos shows regionais, a Tetê Espíndola venceu o festival da Globo, o Almir começou a despontar ...
Por que a música do MS não 'tourou nacionalmente?
O lance do Almir é que ele explodiu, mas a música de ele não necessariamente.
O Almir é artista que vende 20, 30 mil discos.
Ele não 'tava mais vendo para onde ir e meteu as caras.
Conseguiu o papel e 'tourou como figura.
O Almir se tornou popular.
Não foi a música sul-mato-grossense que 'tourou com ele.
E a Tetê 'tourou com uma música, Escrito nas Estrelas, que não tinha nada a ver com o universo musical do MS.
Mesmo os Espíndola tendo um trabalho extremamente ligado ao universo daqui.
A 'te ritmo em 6/8. Os teatros também tinham bem mais público nos shows dos artistas locais.
Agora, por que 'ta tsunami virou uma marola e depois sumiu eu não sei realmente.
O projeto musical que você lançou, o disco Novidade Nativa, teve a proposta de reunir a nova safra de compositores de MS.
Como foi a experiência para você?
Eu 'perava uma resposta mais valente dos compositores.
Algo que nunca fizeram, uma crônica urbana de 'ta merda, e não aconteceu ...
Poucas pessoas compuseram para o projeto e isso me deixou triste.
Mas teve coisas geniais.
Uma música do Jerry Espíndola chamada Atlântica Pantanal, tirando o Jamaica que ele utiliza na letra, é legal.
O Salinger Polck, que é sua, tem uma levada e letra legal, embora confusa.
O Vaticano 69 fez Redoma que gostei e uma do Tomada Acústica.
Teve também a homenagem do Filho dos Livres a mim com a canção Atol do Roca.
Me emocionou.
Por 'te lado foi do cacete.
Mas a crônica da vida urbana de Campo Grande não apareceu.
Estou pensando em fazer a segunda edição do Novidade Nativa.
Mas fico pensando como veicular.
Fazer os artistas circularem com 'ta música que não existia no Brasil até surgir a Bossa Nova.
Esta música para a classe média, 'te bom gosto sul-mato-grossense.
Porque nós 'tamos engolidos.
Temos de um lado o popularzaço, que é a mistura de axé com vanerão representado aqui por o Tradição, e do outro lado é o nada.
Então é preciso um canal para 'te seguimento ser a música de MS.
É isto que quero para o Novidade Nativa.
Com toda a perda do poder do fogo da música, talvez seja 'ta a saída.
Tenho 'ta 'perança.
Mas sinceramente 'tou de saco cheio de música.
Você compõe ainda?
De vez em quando faço uma versão para não perder o hábito.
De músicas folk.
Penso num disco e chamar 10 bandas para fazer as versões.
Já comecei algumas.
Quem foi o músico que influenciou a cabeça de vocês aqui no 'tado no início da carreira ainda na década de 60?
Aqui em Campo Grande não tinha um músico 'pecífico.
Mas teve um sujeito que é a nave-mãe da cultura da qual eu, Geraldo, Paulinho e Almir somos os filhos que é o seu Humberto Espíndola.
Ele foi o responsável por o primeiro saque da cultura daqui que foi o quadro Boi-general, de 1968 ('te quadro foi censurado por o AI5).
É uma crítica a ditadura, a economia, ao homem atrasado, ao bovino, tudo junto numa sacada só.
Aquilo é extrair do nada a poesia.
Um poético que não é falar de pedrinha, caramujo ...
Fala de uma sociedade através do boi.
Tem tudo a ver com músicas que surgiram depois, como Polca Outra Vez, e a própria polca-rock.
Por que você lançou seu disco de 'tréia totalmente urbano em 1988 sem nenhuma menção a região daqui e distante do clima de músicas como Japonês Tem Três Filhas ou Polca Outra vez?
Porque fiz o que 'tava vivendo.
Eu morei no Rio de Janeiro até lançar 'te disco.
Sempre encarei a produção artística de modo bem simples e distanciado.
Não faço «meu querido diário».
Começo por o conceito.
Nunca achei que a minha experiência pessoal teria de ir diretamente para as minhas letras.
O Maiakovski dizia que para 'crever um poema você precisa de um mandato social.
Os soldados russos iam lutar não sei onde e ele 'crevia um poema para aquilo.
Sou um pouco assim.
Dê um exemplo.
Em a minha música Rio Paraguai, por exemplo.
Todo mundo acha que tem a ver com meu avô, que era comandante de um navio que vinha do Uruguai até Corumbá.
Mas não é por causa disso que fiz.
Foi porque li o livro A Cultura do Narcisismo, do Christopher Lasch, uma 'pécie de anti-Marshal Berman, que 'creveu Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar.
Para ele a sociedade avançou e se tornou mais livre e civilizada e progressista a medida que a cidade foi crescendo.
O Lasch diz o contrário.
Ele acha que é preciso retomar a verticalidade.
De onde você veio, de que lado saiu, de onde veio o seu avo e o seu pai ...
É isto que dá sentido a experiência humana.
É o que leva você de filho a pai.
Ele fala é que temos de retomar a ancestralidade.
Aí fui atrás de saber mais deste lugar que 'tou morando e o que formou a mim, você ...
E foi o Rio Paraguai.
Sem 'te rio, não existiria isto aqui.
Te vejo como um cronista, dono de uma visão ácida, que não se deixa levar por a beleza natural.
Os compositores daqui tendem a cantar a natureza digamos assim.
O que acha disso?
Este negócio de cantar a natureza equivale na economia a economia extrativista.
E olhar isso aqui como sociedade e fazer a crônica de costumes, mesmo que ela seja ácida, você 'tá falando de gente.
Está agregando valor e fazendo na economia o que equivale à economia industrial.
Processando aquele produto.
Mostrando que há uma cultura e não é só o jacaré, a arara, o corixo, o pacu ...
Não é isso mais.
Prefiro mostrar quem é que 'tá lidando com 'tes animais, que é o pantaneiro.
Isso sim é interessante.
Qual a importância da música atualmente?
Acabou da era do jazz para cá.
E o que a gente 'tá vivendo hoje é uma 'pécie de ressaca de 'ta história que foi até meados da década de 70, com o punk, e agora já era.
A arte existe porque as pessoas precisam de ela.
Em o nordeste brasileiro é onde se faz a música mais rica e é a região mais miserável.
Ou é Deus ou é a manifestação artística.
Que no fundo são as mesmas coisas.
São dois constructos.
A religião e a arte.
Elas têm a mesma origem e dão sentido à vida.
Tornam a vida tolerável.
Este foi o papel da música popular do século 20.
As pessoas viveram a vida de elas pautadas por o o que era a moda musical.
Desde as melindrosas dos anos 20 até os hippies e Mutantes nos anos 70.
Eu enchia o peito para falar que era músico e compositor na década de 70 e 80. Hoje em dia já não tenho mais.
Me sinto fazendo parte de um baixo clero de gente que não tem importância nenhuma no rol das coisas.
Em a década de 60 a palavra 'tava com Jean Paul Sartre, com Norman Mailer, com Abbie Hoffman, com Aldous Huxley ...
Caras que lideraram a revolução de costumes.
A palavra não 'tá mais com o filósofo e 'critor, ela 'tá com o astro físico, astrônomo, a ciência exata ...
O pessoal das humanas vai lá perguntar como o mundo 'tá para 'tes caras.
Mas continuo compondo como se fosse importante o que o compositor 'tá dizendo, embora não seja mais assim.
Hoje em dia a gente se voltou para o entretenimento.
Estes rappers e grupos ingleses e norte-americano de pós-punk podem falar grosso e mal do sistema, mas tudo é um número.
A música boa e transformadora é a que faz pensar.
Não dá a fórmula pronta.
É que nem os finais de uma peça do Brecht, tipo ache a solução.
O Renato Teixeira já declarou o seguinte:
«se tivesse de 'colher um artista para dar de presente para o povo brasileiro daria o Geraldo Roca».
O que acha disso?
O que gostaria que acontecesse daqui para frente?
Gostaria de ser mais reconhecido do que eu sou sim.
Gostaria de 'tar num lugar que as pessoas olhassem para elas mesmas.
Estamos dando voltas.
Olhando para um horizonte que nunca vai fazer parte de nossas vidas.
E isso serve tanto para Campo Grande quanto para o Rio de Janeiro.
E 'te corredor cultural que você falou, eu adoraria que ele florisse, como sonhei, mas sinto dizer que na minha experiência de vida ele não floriu e acredito que ele não florirá tão cedo.
Mas é uma 'perança.
O dia que isto acontecer, a gente vencer o problema do populismo que existe na América do Sul e realmente criar uma integração real, comercial, musical, cultural ...
todos nós vamos ganhar muito.
Nós aqui em 'te lado do Brasil somos provavelmente o único lugar que vai ficar a salvo do planeta em 30 ou 40 anos.
Então é bom que alguma coisa sobreviva.
* Roca participou do CD GerAções.
Ele cantou a canção Lá Vem Você de Novo.
Discografia:
LP Geraldo Roca (1988)
Litoral Central (1997)
Número de frases: 262
Veneno Light (2003)
Em o dia 3 de fevereiro de 1984, aos 36 anos de idade, o cantor e compositor porto-alegrense Carlinhos Hartlieb foi encontrado morto dentro de sua própria casa, na Praia do Rosa, em Santa Catarina, localidade até então habitada por pescadores e pouco conhecida por pessoas que não fossem da região.
Nu e tendo uma corda presa ao teto amarrada em seu pescoço, o corpo do cantor já 'tava em 'tado de decomposição, evidenciando que assim permanecia há possivelmente quatro ou cinco dias.
Sem aguardar o resultado da necropsia e outras evidências, o delegado de polícia de Imbituba responsável por as investigações, Haroldo Amorim Vicente, deu por encerrado o caso e define a causa oficial da morte:
suicídio. Assim os jornais Zero Hora e Correio do Povo do dia 5 de fevereiro relatavam para os gaúchos a morte de Carlinhos em suas edições com foto e matéria de capa.
Além de músico, Carlinhos era um agitador cultural incansável.
Organizou os festivais «Rodas de som», que aconteciam no Teatro de Arena, em Porto Alegre, ajudando a lançar muitos artistas iniciantes na década de 70, como Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro, Musical Saracura, entre outros.
Participou do histórico disco " Paralelo 30, que reunia a nata de um movimento recém criado no Estado:
A MPG.
Participou de alguns shows ao lado da famosa banda de rock Liverpool, tendo composto o maior sucesso da banda, «Por favor, sucesso».
Seu único trabalho próprio oficialmente lançado chama-se «Risco no céu», e somente chegou às lojas postumamente.
Hoje, 23 anos depois do acontecido, o que se sabe a respeito da morte de Carlinhos Hartlieb passa bem além daquilo que foi dito por a imprensa na época.
Falar em suicídio é quase o mesmo que tapar os olhos e ouvidos para tudo que já foi desvendado acerca do assunto, e isso é admitido inclusive por profissionais que 'tavam ligados à cobertura do caso na época.
«Ele foi assassinado», relatou recentemente, por telefone, o jornalista Wanderley Soares, editor-chefe de polícia da Zero Hora na ocasião.
Dedé Ferlauto, repórter policial do jornal na época e amigo pessoal do cantor, fez questão de cobrir o caso pessoalmente.
Foram publicadas 3 matérias.
Em elas, se podia verificar algumas hipóteses além do suicídio.
Conforme publicado na edição do dia 6 de fevereiro, tratando do sepultamento do músico em Porto Alegre, Carlinhos não teria se matado:
«Esta violência (o suicídio) não foi de ele.
Isso não foi bem contado», afirmou uma das 60 pessoas que 'tavam presentes no velório.
Juarez Fonseca, também jornalista da ZH em 1984, publicou um texto na contracapa do caderno «ZH Guia» prestando uma homenagem póstuma ao amigo.
O conteúdo da coluna ainda era baseado na versão extra-oficial da polícia, apesar do próprio Juarez colocar em dúvida a natureza auto-destrutiva de Carlinhos:
«Nunca o vi deprimido.
E foram 17 anos de convivência».
Em entrevista recente, Juarez levanta outra hipótese:
«Não podemos nos 'quecer que 'távamos em plena ditadura militar, e que Carlinhos poderia ser considerado um subversivo.
Me lembro que naquele tempo a polícia andava freqüentando constantemente as praias de Santa Catarina».
Em o dia 7 de fevereiro, a Zero Hora publicou a última reportagem tentando dar uma explicação plausível ao que de fato ocorreu na Praia do Rosa.
Após reafirmar que Carlinhos teria sido morto por asfixia decorrente de 'trangulamento, conforme informou o delegado encarregado da investigação, o jornal fecha com uma informação que poderia mudar os rumos do que se sabia até então:
«O resultado do auto da necropsia realizado no corpo do músico só será conhecido oficialmente em 'sa quarta-feira, dia 08/02».
Após isso, nada mais foi publicado a respeito.
Em o livro «Carlinhos Hartlieb», de Jimi Neto e Rossyr Berny, consta o resultado oficial do exame de corpo de delito:
O corpo foi encontrado sem 11 dentes e não apresentava fratura na coluna cervical -- o que exclui a hipótese de 'trangulamento.
O próprio autor, em entrevista, compara a cena da morte a outro caso notório, ocorrido anos antes:
«O Carlinhos 'tava com os joelhos encostados no chão e sem o pescoço quebrado, exatamente igual ao Wladimir Herzog.
Ou seja, suicídio não foi mesmo».
Em o fim, juntando todas as peças do caso, nota-se uma certa cortina de fumaça pairando por a história.
Um dos depoimentos ouvidos conta que o suposto assassino de Carlinhos teria algum grau de parentesco com o delegado responsável por a investigação, o que fez com que tudo fosse resolvido da maneira mais rápida e discreta possível.
Rossyr Berny nos dá algumas pistas:
«Nunca mais se mexeu em 'se assunto porque ninguém quer arriscar o próprio pelego.
Tem gente grande envolvida em 'sa história, então o que nos resta é levantar hipótese».
à bem da verdade, muito já foi dito e pouco explicado.
Além das possibilidades já levantadas, se cogita que a morte de Carlinhos também possa 'tar ligada a traficantes de drogas e a um marido enciumado.
Como disse o cantor gaúcho Mutuca, primo-irmão do músico morto, " Ele foi morto e não temos prova de quem foi, só conjecturas.
Uma linha de raciocínio clara foi 'tabelecida, apontando culpados, mas não podemos acusá-los».
Térence Veras e Bruno Bazzo Telecentros:
o lugar certo para a inclusão digital
Flávio Gonçalves Recentes afirmações a respeito da inclusão digital no país valorizaram o papel desempenhado por os locais de acesso pago, conhecidos como lan houses.
Para os que defendem a inclusão digital como um processo amplo e democrático de apropriação tecnológica, que garanta aos cidadãos o direito à comunicação e a sua intervenção crítica e autônoma na 'fera pública infomidiática para um necessário processo de transformação do status quo, os 'paços públicos de acesso, chamados telecentros, são a única opção.
A universalização dos direitos do cidadão, como a saúde e a educação, exigem políticas públicas que invistam recursos em 'truturas gratuitas de acesso.
Não se supõe a universalização dos direitos como oriundos exclusivamente de 'truturas privadas.
Ao contrário, as entidades defensoras desses direitos afirmam que os planos de saúde e as 'colas privadas não são capazes de garanti-la, já que reproduzem e trabalham dentro da excludente lógica do mercado-consumidor.
A inclusão digital é um processo de apropriação das novas ferramentas tecnológicas de informação e comunicação, de forma a permitir a autonomia para pessoas historicamente excluídas dos seus direitos.
O telecentro é local de acesso ao conhecimento, cultura, educação, formação, entretenimento, compressão crítica da realidade e produção de comunicação comunitária.
A gestão valoriza a democracia participativa deste 'paço, que é público, incentivando a participação direta dos cidadãos enquanto agentes políticos.
Portanto, o telecentro é um local de busca, valorização e promoção da democracia e da cidadania.
Por isso não é possível a comparação entre um telecentro e uma lan house.
São 'paços conceitualmente diferentes quanto aos seus objetivos e práticas.
Muito menos é possível afirmar, como recentemente o fizeram, que «são as lan houses que 'tão, de fato, fazendo a inclusão digital em 'te país».
Pode-se afirmar que 'ses 'paços 'tão oferecendo acesso ao computador e a Internet para uma parcela da população, mas com um viés muito restrito diante das possibilidades da tecnologia e com uma limitação também de público, em 'se caso chamado de «consumidor».
Não há nenhuma perspectiva crítica, libertadora ou transformadora no interior de uma lan house.
Pelo contrário, ali se reproduz, na sua 'sência, a relação excludente e individualista do «usa quem pode pagar».
Um telecentro precisa ter um projeto político-pedagógico.
É através de um processo de construção coletiva que serão definidas atividades, como oficinas de jornalismo comunitário, software livre, direito à comunicação, governo eletrônico, radioweb, pedagogia de Paulo Freire, economia solidária, entre outras que ao longo do tempo são realizadas com o objetivo de apresentar o potencial transformador da tecnologia e sua relação com o nosso cotidiano, respeitando e dialogando com a realidade e com as características de cada comunidade.
Diversos projetos dos poderes públicos já foram implementados em todo Brasil e outros 'tão em andamento.
Há um longo e complexo debate acerca de todos os assuntos no que diz respeito a implementação, manutenção, infra-estrutura, conexão, gestão, recursos humanos, capacitação e financiamento de telecentros públicos.
Deve-se, com base em 'sas experiências, realizar um amplo debate que reúna os atores 'tatais envolvidos, garantida a participação de entidades da sociedade, avaliando 'sas iniciativas para assim pactuarmos os parâmetros e práticas de uma política pública de inclusão digital para o país.
Dados do IBGE e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (2006) indicam números importantes sobre os locais onde a população brasileira tem acesso a rede.
Segundo a pesquisa, apenas 33,3 % da população já acessaram, ao menos uma vez, a Internet.
De esse total, 40,4 % acessam da própria casa e outros 16,1 % da casa de um amigo / familiar;
24,4 % do local de trabalho;
a 'cola é o local de acesso para 15,5 %.
Os locais de acesso pago (lan house) são a opção para 30,1 % e centrais públicas de acesso (telecentro) para 3,5 %.
A maior parte da população brasileira não possui renda suficiente para a aquisição de computadores (apesar do relativo sucesso do importante programa federal de incentivo) e para o alto custo de uma conexão banda larga (média de R$ 70,00 mensais);
temos, portanto, uma limitação 'trutural que é relevante do ponto de vista quantitativo.
O mesmo ocorre com a limitação do público que pode acessar através de uma lan house.
Para um cidadão que pretende ficar em média 2 horas por dia conectado, o que não é muito para a média nacional dos já incluídos, ao final de um mês ele terá que desembolsar cerca de R$ 60,00.
Isso equivale a 15 % de um salário mínimo, atualmente em R$ 380,00.
Aproximadamente 10 % da população economicamente ativa brasileira 'tá desempregada e 2 em cada 3 dos (das) trabalhadores (as) empregados recebem até 2 salários mínimos.
Por isso, as lan houses apresentam uma enorme limitação para, de fato, universalizar o chamado acesso simples.
E mais:
só existirão lan houses onde é possível haver retorno financeiro e onde há conexão banda larga disponível.
Um grande complexo habitacional miserável, habitado por milhares de pessoas de baixa renda, receberá o número de lan houses compatível com o mercado consumidor em potencial do local.
Portanto, independentemente de existirem 50 mil pessoas, o número de lan houses possíveis será definida a partir de um cálculo matemático que ao final garanta a rentabilidade de um investimento e não a garantia de um direito.
Não há campanhas contra as lan houses organizadas por aqueles que desejam manter a 'trutura social excludente da sociedade brasileira.
O que pode haver é a tradicional disputa de mercado entre empresas ou microempresas na disputa por o lucro.
Dentro desse contexto 'tão inseridas as lan houses.
É preciso compreender que, como em qualquer outra área da economia capitalista, existem disputas de mercado, onde os maiores ou mais poderosos buscam a concentração do setor.
Cabe a cada empresário optar por a forma de inserir-se em 'sa disputa, sabidamente desigual e concentradora.
O que 'tá na ordem do dia no país é a necessidade de uma política pública para a área da inclusão digital que dê conta de interligar as ações e iniciativas de governo em andamento, sejam elas federais, 'taduais e municipais e, fundamentalmente, ampliar os investimentos para aumentar sensivelmente a 'cala dos projetos públicos de inclusão digital.
Essa política pública precisa ter como objetivos um plano nacional de universalização de banda larga, a capacitação contínua, o incentivo à comunicação comunitária, a existência dos telecentros como centrais públicas de comunicação, tendo em vista o potencial da convergência tecnológica, a formação de redes para a colaboração das produções potencializando a sua circulação e um processo contínuo de avaliação.
Os R$ 6 bilhões do Fundo Nacional de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) podem viabilizar 'sa política.
A participação da sociedade em 'se processo é central.
A amplitude de possibilidades, as demandas e a realidade de cada comunidade precisam ter 'paço de diálogo nos processos de elaboração, implementação, fiscalização e avaliação da política pública nacional de inclusão digital.
Para tanto, em nível federal, 'tadual e municipal, é preciso que sejam instituídas 'truturas que tenham 'sas atribuições e que permitam ampla participação da sociedade.
Não há política pública sem a participação democrática da população.
Não se pode aceitar o argumento de que «é caro o custo de manutenção dos telecentros».
Trata-se de retorno social e o termo correto em 'se caso é investimento público para garantia de um direito.
Ao longo das últimas décadas, os ideais neoliberais de «'tado mínimo» foram implementados e como conseqüência temos uma população desassistida em relação ao conjunto de seus direitos sociais.
O investimento em telecentros gera empregos, contribui com a distribuição de renda nas comunidades de baixa renda e por isso movimenta a economia local.
Além disso, busca-se legitimar a idéia de que é exclusiva da iniciativa privada a capacidade de «investir certo, onde há retorno».
Trata-se de uma visão exclusivamente mercadológica.
Aqueles que defendem as lan houses como 'paço da inclusão digital começam agora a solicitarem linhas de financiamento público para a abertura destes 'paços, supostamente na periferia das cidades.
Trata-se de, ao invés de investimentos em 'truturas públicas, a antiga prática do financiamento privado através dos recursos públicos.
Considera-se que a inclusão digital deve ser vista como uma atividade de empreendedorismo privado.
A adoção por o software livre, utilizado em grande parte dos telecentros do país, é também uma opção política e, portanto, não é uma questão de não se realizar «pirataria».
As lan houses começam a se preocupar com o fato de utilizarem cópias não autorizadas de software proprietário temendo as multas cabíveis.
Cogitam a utilização do software livre não como prática de construção livre e colaborativa do conhecimento, mas sim como uma forma de sobreviverem e não serem criminalizadas, conforme prevêem as injustas leis atuais de direito autoral.
O telecentro não é 'paço de tutelação.
É local para aprendizado coletivo, criatividade, valorização da diversidade e da cidadania.
Apenas uma política pública é capaz de universalizar direitos.
Cabe à sociedade organizar-se para exigir dos governantes a efetivação, de forma democrática, da inclusão digital.
As lan houses serão apenas um apêndice limitado desse processo necessariamente universalizante e transformador.
* Flávio Gonçalves é jornalista, integrante do Intervozes -- Coletivo Brasil de Comunicação Social e membro da coordenação regional do Projeto Casa Brasil -- flasg@ig.com.brEste endereço de e-mail 'tá protegido contra spam bots, por o que o Javascript terá de 'tar activado para poder visualizar o endereço de email
Active Image Um dos ingredientes mais interessantes do futebol são suas peculiaridades.
Entre elas 'tá a classe de jogadores folclóricos.
Para o bem ou para o mal eles entram no imaginário do 'porte e, na maioria das vezes, por a porta da frente.
Não à toa Garrincha, o maior exemplo, sempre foi e sempre será muito mais amado que Pelé.
Em a quinta-feira, dia 20, o Pará perdeu o mais folclórico de seus jogadores.
O centroavante Alcino faleceu aos 55 anos em decorrência de câncer generalizado -- o diagnóstico foi feito tão tarde que já não se sabia onde a doença havia começado.
Entre outros ele defendeu Paysandu e Clube do Remo, mas foi em 'te último que fez sua história e ganhou um latifúndio no coração do torcedor local.
Os feitos do Negão Motora -- apelido ganho ao ter pegado um ônibus em Manaus e atropelado um pedestre (Alcino 'tava bêbado) -- são tantos que dariam para 'crever um livro dos mais bacanas.
Tragicômico. O mais notório foi ter sentado na bola quase na linha de gol.
Logo abaixo 'tá a mostra da genitália para à torcida adversária ao comemorar um tento.
Em as duas ocasiões ele defendia o Remo diante do Paysandu.
Fora de campo ele não deixava por menos.
Amante da bebida e das noitadas, em 'sa ordem, era figurinha carimbada nas boates das cidades onde jogou.
Gastou o que tinha e o que não tinha, por isso morreu na miséria, amparado por pouquíssimos amigos e totalmente 'quecido por o clube ao qual mais deu glórias.
Era uma 'pécie de popstar.
Em o dia que começou o velório, a tal quinta-feira, quase ninguém compareceu à capela.
Lá 'tavam apenas seis pessoas quando o corpo chegou.
Três de eles eram da imprensa:
eu, um fotógrafo e outro repórter.
Alcino era chamado de Gigante do Baenão ('tádio do Remo) por conta de seus 1,94m. O caixão media 2,10m e era pesado demais.
Só os dois funcionários da funerária não seriam capazes de carregar o trambolho.
O clima me pareceu mais melancólico ainda quando eu e mais o amigo Adriano Barroso tivemos que nos oferecer para ajudar nas alças.
Lá 'tava o maior ídolo do clube que divide a torcida de um 'tado e não havia ninguém a reverenciá-lo.
É verdade que no dia seguinte muita gente apareceu.
Mas, pelo menos para mim, os primeiros momentos contam demais e o que via era o abandono por parte de todos.
Somente a família mais uns dois amigos se fizeram presentes.
A exceção foi o ex-jogador e agora médico Aderson, companheiro de time por apenas um ano.
Dizer que Alcino merecia mais é clichê.
Todos disseram.
A alegria que mostrava em vida, mesmo já devastado por o vício no álcool, deveria ter sido mais bem reverenciada.
Se fosse enterrado no interior seu féretro seria ladeado com bebida e comida em profusão.
O clima de velório seria pontuado por as histórias que ele deixou e as risadas seriam as vírgulas das lágrimas.
PS:
Brincalhão como era, o que notei na única e breve entrevista que fiz com ele uns cinco anos atrás, Alcino pregou do além uma última peça.
Em o local do velório havia duas capelas.
Lógico que fui parar na errada.
Eu e os outros repórteres ainda fomos tachados de penetras de velório.
Número de frases: 151
Texto publicado no Ressaca Moral Entrevista Exclusiva Para O OVERMUNDO
by Egodigital:::
O músico gaúcho, compositor, guitarrista, violonista, artista performático, webdesigner, podcaster, componente da Banda Maria do Relento, virtuosi, enfim, o multimídia-tchê Guilherme Barros fala sobre sua obra semi-acabada, em avançado 'tado de composição, para Cavaquinho-Solo:::
Guilherme Barros E Seus Cavaquinhos do Ofício
Com a sua identidade eletrônica mais ativa que nunca no site www.guilhermebarros.com.br, ele, o próprio, traz à tona algumas pérolas como Motel Flamingo e o Podcast Braille Hits, iniciativas que fluem, aos borbotões, da mente imaginativa e criativa de sua personalidade multimidiativia.
Alguns lances da virtuosidade e expressividade incomum do artista podem ser visitados e constatados na seção de seu sítio eletrônico intitulada AUDIOBLOG, que publica, diária e compulsivamente, um som de autoria própria.
E foi exatamente devido às produções suigeneris, irreverntes e quase apocalípticas, referentes a 'ta seção 'pecífica do website, que consideramos um ato de civilidade e responsabilidade cultural desafiar o Guilherme a uma entrevista exclusiva para o OVERMUNDO:
Ego-D:
Guilherme, após várias audições voluntárias em repeat mode que nos «forçamos» a fazer, algo inusitado, porém de tom tradicional, seja por a erudição, seja por a alta complexidade e exigência técnica, saltou aos olhos, ou melhor, aos ouvidos.
Falo das peças para cavaquinho-solo publicadas no seu Audioblog.
Então, para início de conversa, gostaria que você mesmo falasse sobre o Audioblog e seu conteúdo.
Guilherme Barros:
Concebi o Audioblog do meu site como uma 'pécie de laboratório de experimentação.
Como páginas da internet precisam de atualizações constantes para tornarem-se mais atraentes, tive a idéia de colocar pequenas composições a cada dia, ou sempre que possível, que poderiam tornar meu site mais vivo e ainda proporcionar um desafio criativo.
E para mim, é interessante olhar em retrospectiva 'se diário musical, e compreender melhor minha identidade musical.
Ego-D:
Em o Brasil o cavaquinho desempenha importante função no acompanhamento dos mais variados 'tilos, desde gêneros musicais urbanos como o samba e o choro, até manifestações folclóricas diversas como folias de reis, bumbas-meu-boi, pastoris, chegança de marujos, pois bem, sobre a seqüência de composições clássicas executadas em 'te instrumento de origem portuguesa, a pergunta é:
por que o cavaquinho?
As peças são criações tuas ou execuções clássicas adaptadas ao instrumento?
Alguma técnica 'pecial a ser destacada?
Guilherme Barros:
Aconteceu do meu cavaquinho 'tar por perto um dia.
O fato do cavaquinho não ser meu instrumento principal (que é a guitarra) faz com que eu pense na música para ele de maneira mais direta, sem passar por os filtros, hábitos e vícios.
Queria compor algo fora de contexto do instrumento, e tocando com os dedos, à maneira do violão clássico, acabei fazendo o instrumento soar de maneira completamente diferente.
Algo próximo de um alaúde 'tridente e magro.
Todas as peças são composições minhas, apenas apresentam um aroma clássico-barroco.
A primeira peça que compus foi um Prelúdio, um moto perpetuo, que acabou por me remeter a J.S. Bach.
O retorno de comentários sobre 'sa composição me incentivou a dar mais uma explorada na idéia.
Ai pensei:
«Bach-Cavaquinho Suite» e acabei compondo as outras peças, me baseando numa configuração de danças das suítes barrocas, com seus contrastes de andamento e característica.
A execução das peças é um pouco complicada, devido ao pequeno 'paço entre os trastes.
A forte tensão das cordas de aço acabam desgastando as unhas da mão direita mais do que o normal.
Mas quem mandou compor para cavaquinho? (
risos) Ouvir o instrumento executando contraponto e idéias musicais fora do seu 'copo é o que, a meu ver, acabaram sendo o grande barato de 'sas peças.
Ego-D:
A idéia é montar um CD, um show, ou algo no gênero?
Guilherme Barros:
Tenho recebido comentários sobre o Audioblog bastante incentivadores a 'se respeito.
De utilizar o material, desenvolvê-lo e lançar em CD.
Minha idéia no momento é continuar publicando 'sas idéias e formar um corpo de pequenas composições, e, compartilhando on-line, compreender quais os 'tilos e 'téticas que mais chamam a atenção os ouvintes.
Em um tempo de tanta interação e tráfego de informações, acho importante 'se retorno das pessoas, e se lançar um CD gostaria que fosse algo com uma identidade e conceito forte, que comunicasse de uma maneira 'pecial.
Em breve pretendo gravar alguns vídeos para o site, principalmente das peças de cavaquinho.
Ego-D:
Como é o teu processo / método diário de criação, gravação e publicação no site?
Guilherme Barros:
A maneira como eu gosto de criar, alguns projetos que lancei e a insatisfação com os grandes 'túdios me forçaram a investir no meu próprio Home Studio.
Em casa produzo e gravo todas as minhas criações, bem como produções de outros trabalhos.
É interessante ser responsável por todas as facetas de uma obra, e isso me leva a pesquisar mais seriamente sobre técnicas de gravação e áudio.
Qualquer tempo livre que eu tenha eu gosto de 'tar experimentando alguma idéia e exercitando a criatividade.
Para a manutenção e controle do meu site tive também que aprender alguns rudimentos de webdesign.
Meu conhecimento na área é bastante limitado, mas suficiente para manter a página funcional e com um mínimo de decência visual.
É uma área que também me interessa e sempre que posso, 'tou pesquisando.
Ego-D:
Alguma mensagem, ou convite, para o publico do OVERMUNDO?
Guilherme Barros:
Visitem minha página!
Fico muito satisfeito com o feedback das pessoas, da interação que a Internet proporciona e de como isso pode retornar em criações artísticas mais integradas e interessantes.
Um abraço a todos os internautas e colaboradores do OVERMUNDO *
A seguir três peças em cavaquinho solo de Guilherme Barros:
* Suite Cavaco-Barroca completa:
Allemande Fraudulenta, para cavaquinho-solo.
BWV0000 [ouvir] *
Petit Sarabande, para cavaquinho-solo.
BWV0000 [ouvir] *
Número de frases: 64
Gigue Miniature para cavaquinho solo BWV0000 [ouvir] Tem coisa na vida que é melhor nem conhecer, porque vicia rapidamente.
curtas-metragens, por exemplo.
Após ver os 22 curtas da programação do Festival de Cinema de Campo Grande quero mais e mais e mais.
O overmano Thiago Camelo sugeriu focar o texto na tendência dos curtas e embarquei na pauta.
Em o domingo (04/02) começou a terceira leva do festival.
Em o dia 11 será anunciado quem vai faturar os R$ 5 mil da premiação.
Tem júri popular e júri oficial (confira os ganhadores dos anos anteriores lá no fim do texto).
Difícil eleger o melhor porque são os mais variados gêneros, tempos de duração, temas e produções com o nível lá em cima.
De os 22 curtas exibidos no festival, 6 são do Rio de Janeiro, 4 de Sampa, 2 de Porto Alegre, 2 de Taquatinga, 2 de Olinda, 2 de Belo Horizonte, 1 de Brasília, 1 de Recife, 1 de Rio Claro e 1 de Juiz de Fora.
Faltou apenas a região Norte ser representada.
Ou seja, a produção de curtas (foram enviados 44 curtas ao festival) 'tá 'palhada por o Brasil.
Mesmo com tantas questões pendentes, inspirando-se na máxima de Nelson Sargento, o curta «agoniza mas não morre».
Pulsa.
Muitas questões surgem na minha cabeça.
O que o diretor de um curta faz depois de ter a «criança» nas mãos?
Por o que entendi, conversando com alguns diretores, não tem outro caminho que não seja a trajetória da produção em festivais e, depois de cumprida a agenda, rumar para a internet.
O que não chega a empolgar o cara que é ligado ao cinema.
Porque, convenhamos, no computador não há produtora de arte que resista.
A prova foi ver Transtorno (RJ), de Fernanda Teixeira, na tevê em casa e depois assistir no telão.
Baseado no cenário principalmente, o filme da carioca perde muito na internet.
E aí acontece o contrasenso.
Ao mesmo tempo que a rede se torna finalmente o veículo mais interessante para se divulgar os curtas, força uma adequação de linguagem e altera a Sétima Arte (vale 'te termo ainda?).
Entre os 22 curtas do festival são poucos os que funcionariam na telinha minúscula do computador.
A pergunta do Thiago rebate há dias e comecei então a fazer listinhas!
De os curtas exibidos no festival temos 4 animação, 9 documentário, 9 ficção.
Empate? Embolou o meio de campo ...
Fui dar uma olhada no Porta Curtas, hehehe.
De os 477 curtas disponíveis no dia em que pesquisei tinham 226 ficção, 141 documentário, 78 animação, 43 experimental.
Um belo termômetro certo?
Insistindo nas listinhas e dados, vi que o site tem informação sobre 4.034 curtas e 16.775 profissionais do cinema 'tavam cadastrados.
Para ajudar a chegar à conclusão de qual 'tilo afinal segue a tendência atual da produção de curtas no Brasil fui olhar o mais visto do Porta Curtas e tá lá:
Ilha das Flores, registrado como documentário experimental.
A produção de Jorge Furtado feita em 1989 com surpreendentes 13 minutos e que abocanhou o Festival de Berlim.
Já o mais cotado é Loop, creditado como ficção.
Entre os cinco mais cotados do site, aparece em quinto O Som da Luz do Trovão, presente no Festival de Cinema de Campo Grande.
Documentário excelente, extremamente bem-humorado, de Petrônio Freire de Lorena e Tiago Scorza.
O filme de 20 minutos revela ao público a figura do cientista-maluco do-sertão Evangelista Ignácio de Oliveira.
E aí fico pensando como o curta é fundamental para o cinema.
Em a verdade, o cinema nasceu curta!
As primeiras filmagens não chegaram a 1 minuto não é isso?
O Cinema Novo foi cultivado primeiro em curtas certo?
Glauber Rocha fez O Pátio em 1959, Joaquim Pedro de Andrade em 1960 lançou Couro de Gato ...
A vocação do curta para a ficção por natureza já vem de longa data e segue até os dias de hoje por o jeito.
Mas o documentário também persegue o curta há tempos.
O pioneiro Humberto Mauro fez mais de 300 curtas e médias-metragens documentais nos anos 30, quando colaborava com a criação do INCE -- Instituto Nacional de Cinema Educativo.
Com certeza isso acabou influenciando toda uma geração.
Foi em 'ta época inclusive que surgiu a primeira lei que obrigava a exibição de curtas nos cinemas brasileiros. (
Eu sempre me surpreendo com o Getúlio Vargas, às vezes para o bem!
rs) Leis com 'ta obrigatoriedade voltaram na década de 60, 70, 80 e o processo foi interrompido desde a Era Collor.
Hoje a discussão 'tá forte.
Mas por o que 'cutei nos corredores do festival, as opiniões se dividem.
Eu particularmente acho que tinha que botar goela abaixo dos gringos (sim curtas brasileiros antes de longas norte-americano).
O problema é a forma.
E o modo de controle para ter certeza que as salas de cinemas cumprem o combinado.
E, claro, uma política de incentivo 'pecífico para o setor.
Entraves que levaram à lona todas as tentativas anteriores de emplacar curtas nos cinemas brasileiros.
Como diz o Lourenço de O " Cheiro do Ralo:
«a vida é dura!"
Relembrando a cena de Selton Mello deitado no chão, de bunda para cima e nariz enfiado no ralo ('ta cena não me sai da cabeça) tenho a certeza de que fazer ficção em curta-metragem é arriscado demais.
É muito mais confortável, ou menos trabalhoso, ou mais prático, registrar um gênio como Evangelista do que comandar atores num set (preconceito?).
Um ator ruim afunda a canoa.
Foi o que aconteceu na minha opinião em Sketches e Faca Cega!
Se deixar levar por a tecnologia fácil também é um problema que senti nas animações.
É tudo perfeito, supertransado, mas o argumento é uma droga.
A historinha das moscas-de-fruta, que morrem rapidamente, contada em Para Chegar Até a Lua exemplifica bem 'ta situação.
Olhou-se somente para a tecnologia e 'queceu-se do conteúdo.
O acesso à tecnologia é perigoso demais.
Particularmente gosto de curtas que seguem o documentário no sentido de revelar ilustres desconhecidos cheios de talento.
É o caso de Descobrindo Waltel, que joga luz no violonista Waltel Branco, um gênio do instrumento e arranjador de João Gilberto em gravações históricas.
O cara participou de trabalhos liderados por Henry Mancini, como a trilha da Pantera Cor-de-rosa (o filme peca em não explicar direito 'ta história!)
e o disco The Latin Sound.
O curta é uma grande janela na verdade!
Os curtas exibidos na quarta edição do Festival de Cinema de Campo Grande são os seguintes:
Prog.
01 -- LEONEL Pé-DE-VENTO
Uma animação de Porto Alegre de 2006 com 15 min..
História de um menino que não fica com os pés no chão e vive isolado.
Surge a Mariana para salvar a parada.
O detalhe é a narração com sotaque rio-grandense.
Singelo.
-- Descobrindo WALTEL
Documentário paulistano de 15 min produzido em 2006.
Para mim foi uma surpresa.
Sou músico e nunca havia 'cutado o nome de Waltel.
Esta é uma das missões mais nobres dos curtas:
revelar. Acho que podia ter mergulhado um pouco mais na história do cara, ter colocado ele para tocar mais, contar os bastidores ...
Mas tudo é tudo e nada é nada, como dizia o Síndico.
A certeza é que me fez despertar para a figura.
O cara foi tocar mambo em Cuba, frequentou todas as boates cariocas, Roberto Menescal falou que ele era admirado por ser um dos poucos que lia partitura na época.
É legal saber que o cara fez um superdisco (Meu Balanço, afro-soul-funk-Brasil total) com as sobras de horas de 'túdio de Roberto Carlos!
Em a década de 50 foi para Nova Iorque e aí falam da participação da trilha de A Pantera Cor de Rosa, mas não mais que isso.
Fiquei curioso.
Não exploraram a trajetória do Waltel devidamente.
O cara 'tá na história mundial do Cinema, assim como Laurindo de Almeida, outro gênio desconhecido em seu próprio país que gravou, entre outras, a trilha sonora de O Poderoso Chefão (aquele bandolim que pontua o filme é do saudoso brasileiro Laurindo).
Vale a pena ver a cena de Waltel regendo a orquestra numa apresentação de João Gilberto em Roma.
Emociona!
-- Para Chegar Até A Lua
Animação de Rio Claro produzida em 2006 com 10 min..
Os efeitos de animação são bem feitos.
Digamos que seja padrão hollywood.
Mas o filme se enrola no ritmo.
É para ser uma piada, mas nem todo mundo entende.
Poderia ser um pouquinho mais dinâmico, acelerado.
Ingênuo.
-- O Maior Espetáculo da Terra
Documentário de Juiz de Fora de 15 min produzido em 2006.
O problema aqui é que retrata a realidade dos circos de maneira tão crua que a vontade é de ficar bem longe da lona circense.
Vai naquele batidão de documentário padrãozão e os personagens da vida real vão passando.
Não tem como não se comover com a tristeza de um palhaço.
Melancólico!
-- DOS Restos E das Solidões
Documentário de Taquatinga feito em 2005 com 15 min..
Um curta poético.
As imagens dos cavaleiros na caatinga 'tão no imaginário de todo brasileiro.
As brigas entre as famílias da região e todo o clima de coronelismo e penúria impressiona.
O êxodo para a cidade grande e a incapacidade das pessoas gerarem renda em suas próprias cidades são fortemente sentidos.
Sensível.
-- SKETCHES
Ficção de Porto Alegre produzida em 2005 com 15 min..
Típico caso de ator que não deixa a produção decolar.
Tudo é bem razoável, cenário, texto, luz, trilha ...
mas um dos atores, o de cabelo mais curto, emperra o ritmo do duelo louco-mental entre dois presos que se encontram.
Quem contar a história mais cabulosa vence a aposta.
Um tarado.
Outro assassino.
Morno.
-- Banheiro Massa
Animação de Olinda com apenas 2min50seg.
Desenho com massinha sempre é bacana.
Basta conseguir uma movimentação condizente que o 'pectador é pego de jeito.
É o caso de Banheiro Massa.
Nada mais do que um homem lendo jornal no banheiro.
Simpático.
-- Vitória, Rainha do Samba
Documentário de Olinda de 20 min feito em 2005.
Relata a história, de forma bem poética, de Vitória Bonauitti.
Prog.
02 -- Rap O Canto De a CEILÂNDIA
Documentário tradicional, 'tilo vida real, em que os moradores da Ceilândia reclamam a discriminação que sentem vinda dos habitantes de Brasília e a dura realidade que enfrentam no lugar.
Celeiro do rap do Brasil Central, vale a pena 'cutar os argumentos da rapaziada.
Produzido em 2005 com 15 min..
Ácido.
-- Transtorno
Ficção carioca feita em 2006 com 10 min..
Trabalho universitário, a diretora Fernanda Teixeira ganhou o prêmio na faculdade Estácio de Sá e meteu as caras em sua primeira produção.
O filme não tem diálogo, apenas 2 atores.
Em compensação uns 15 gatos 'tão em cena.
Com uma produção de arte poderosa, Transtorno tem seu charme.
O argumento é bom e a história prende você na telona.
Dois atores fazem o mesmo papel e é difícil perceber.
Macabro!
-- O Som da Luz do Trovão
Documentário carioca de 2005 com 20 min..
Impressionante o talento de Evangelista Ignácio de Oliveira, natural de Serra Talhada, alto sertão de Pernambuco.
O cara simplesmente criou uma câmara de filmagem com bugigangas e mil trambiques mais.
Em a conversa, deixa cientistas e acadêmicos, do alto de seu conhecimento, gaguejando com suas perguntas e teorias.
Humorado, leve, curioso ...
O Som da Luz do Trovão é baum demais.
Gênio!
-- AMIGÃO ZÃO
Animação carioca de 1 min feita em 2006.
Prega o companheirismo, é lírico e em vez do cachorro, coloca um elefante simpático como o melhor amigo do homem.
O traço é refinado e a utilização das cores de altissimo gosto.
Relax.
-- ELETRODOMÉSTICA
Ficção recifense de 2006 com 9min30seg.
Uma sátira ao uso dos eletrodomésticos e um bela piada envolvendo a família classe média durante o Plano Real.
A patroa tem que se virar com as crianças, com o rango de casa, dar um tapinha entre uma tirada de pó e outra e ainda encontrar prazer, literalmente, nisto tudo.
É a prova de que o ator é mais do que fundamental num curta.
A atriz Magdale Alves simplesmente 'tá perfeita.
Eletrodoméstica já ganhou vários prêmios e participou do mais importante dos festivais para curtas-metragens, o Cannes do Curta:
o Festival Internacional de Clermont Ferrand, na França.
O roteiro foi 'crito por o diretor Kléber Mendonça Filho em 1994 e só nove insistentes anos depois foi selecionado por o edital do MINC.
Imperdível.
-- Era Uma Vez
Ficção de Belo Horizonte com 22 min feita em 2005.
Segunda a diretora o filme é realismo fantástico e 'treou no festival de Campo Grande.
Ambientado dentro de um ônibus.
Mais um assalto corriqueiro das grandes cidades.
Mas a personagem é uma fada e rola um assalto diferente.
A diretota do filme, Gisele Werneck, é a protagonista.
Sensível!
-- Faca Cega
Ficção brasiliense de 2006 com 25 min..
É um curta de ação.
Bem feito, mas o ator que faz o polícia federal não convence.
Uma pena.
Um furo no roteiro também, descredita a lógica do filme.
A idéia de mostrar as transações na capital federal não é nova.
O filme no entanto quer mostrar mais os dois amigos, jovens, que são assaltantes em Brasília.
O título do filme, no entanto, é uma gíria usada entre a bandidagem.
Poderia ser bem melhor, mesmo assim vale.
Adrenalina!
Prog.
03 -- Sumidouro
Documentário de Belo Horizonte com 18 min feito em 2006.
A migração de duas comunidades e o registro de uma região que vai desaparecer após a instalação de uma usina hidrelétrica.
História que se repetiu no Brasil e que é bem captada em Sumidouro.
Os depoimentos são emocionados e as imagens emocionam.
Verdade!
-- JOYCE
Ficção paulistana de 2006 com 14 min..
Um menina de 12 anos que sonha em fazer sucesso na tevê, mas 'tá claro que não vai chegar nem perto disso.
As imagens noturnas em favelas de Sampa conduzidas por duas crianças soam alto no ouvido dos mais sensíveis.
Triste.
-- Alguma Coisa Assim
Ficção paulistana de 2006 com 15 min..
O diretor é o Esmir Filho, o mesmo de Tapa na Pantera.
Em 'te filme ele mostra dois adolescentes que saem para se divertir em Sampa e acabam fazendo compras num supermercado.
As imagens são bacanas e tudo mais, mas o roteiro é confuso.
Não se sabe bem qual é afinal o argumento.
Morno!
-- O Brilho DOS Meus Olhos
Ficção carioca de 2006 com 11 min..
O drama e a dúvida de um pedreiro para tomar uma atitude para que sua vida faça algum sentido.
O lance do cara é cantar, mas a realidade é outra.
O ator não convence e o arranjo para Sangrando, de Gonzaguinha, é ruim.
Cansado.
-- Sangrando Chuva
Ficção carioca de 2005 com 8 min..
A amizade entre duas crianças numa favela.
O roteiro é previsível e bem lugar-comum.
As imagens são corretas e a interpretação da menina é legal.
O cenário da favela do Vidigal é deslumbrante, muitos dizem que é de onde se vê o Rio mais bonito.
Acertaram na última cena, que é poética e bem feita.
Médio!
-- Helena Zero
Documentário sobra a atriz Helena Ignez feito por Joel Pizzini em 2006 com 27 min..
Colagens de várias produções com Helena Ignez e trilha sonora com direito a música inédita feita para a produção por Lanny Gordin.
Pizzini levanta a bola da atriz que foi fundamental para o cinema nacional nas décadas de 60 e 70. Caiu é pênalti.
Gol!
-- FAÇA A Sua Escolha
Ficção paulistana de 2006 com 7 min..
A roda viva da vida em roteiro inspirado em crônica de Fernando Bonasso.
É aquela história:
o que fazer na hora que cai o sabonete?
No entanto, não tem como não pensar em Ilha das Flores, de Jorge Furtado.
Clichê.
Confira abaixo os ganhadores das edições passadas do Festival de Cinema de Campo Grande:
Melhor Curta
Júri Popular 2006 * Ímpar Par, de Esmir Filho (SP)
2005 * Bala Perdida, de Victor Lopes (RJ)
2004 * Dona Cristina Perdeu a Memória, de Ana Luíza Azevedo (RS)
Melhor Curta
Júri Oficial 2006 * Santa Helena em Os Phantasmas da Botija, de Tiago Scorza e Petrônio Lorena (RJ)
2005 * O Astista contra o Caba do Mal, de Halder Gomes (CE)
Número de frases: 246
2004 * Janela Aberta, de Philippe Barcinski (SP) Não é preciso ser carioca ou morar na Zona Sul do Rio de Janeiro para saber que a Copacabana de Gilberto Braga não é igual ao Leblon de Manoel Carlos.
A primeira, outrora charmosa e agora decadente, terreno das contradições da cidade e do país, cartão-postal da nossa beleza e do nosso caos.
O segundo, símbolo de uma classe média idealizada que transcende os limites do bairro e, quando atormentada por grandes problemas, entende que aquecimento global é a tristeza de um inverno sem neve em Nova York.
Se os (micro) universos são diferentes, se diferentes também são temática e 'tilo, enfim, se Braga e Maneco impõem autorias já demarcadas e consagradas na ficção televisiva brasileira, pergunto por que a mais recente novela global ainda não «bombou».
Em sua terceira semana no ar, Paraíso Tropical apresenta índices de audiência abaixo do 'perado para uma novela das 21h oras.
Registra-se nas colunas e seções 'pecializadas que é o menor «ibope» da década.
Tivesse eu a resposta imediata, daria de graça para a Globo e a dispensaria da necessidade de antecipar a pesquisa com o grupo de telespectadores, por o simples prazer de ver a boa 'tória de Gilberto Braga decolar.
Mas faço outra pergunta:
até que ponto são tão diferentes as duas novelas? (
de antemão, 'tão dispensadas as respostas de que novela é tudo a mesma coisa, que é tudo «lixo» da indústria cultural etc etc).
Existe uma sensação de continuidade entre as duas obras.
Porque Páginas da Vida (a pior trama já feita por Maneco) arrastou-se, arrastou-se (Leandra Leal não me deixa mentir) até se tornar «a novela que não terminou» *.
Daniel Castro informa, em sua coluna na Folha de S. Paulo (edição de 19/03), que a «rejeição» inicial decorre em parte do fato de que «telespectadores que representam pelo menos seis pontos no Ibope simplesmente deixaram de ver novela com o fim de ' Páginas da Vida '».
Mudou autor, mudou diretor (saiu Jayme Monjardim, entrou Dennis Carvalho) e Paraíso Tropical pode até 'tar se 'forçando para deixar Páginas para trás, mas nem de longe representa uma tentativa de virada para se tornar um marco na teledramaturgia brasileira, como foram outras obras do gênero.
E insiste ainda no Rio de Janeiro como cenário (quando outras metrópoles do país, além da capital fluminense e de São Paulo, poderão abrigar tramas urbanas nacionais?)
OK, OK, diga-se que a novela mantém convenções próprias do gênero (como a 'trutura folhetinesca).
E que Paraíso Tropical apresentou tomadas diferenciadas.
Mas tem faltado ousadia à emissora do Projac.
A mesma ousadia que consagrou Gilberto Braga quando 'te lançou Vale Tudo, consolidando seu nome como um dos grandes autores de ficção do país e a telenovela como «'paço legítimo para a mobilização de diversos modelos de interpretação e reinterpretação da nacionalidade», no dizer da antropóloga Esther Hamburger no recomendadíssimo O Brasil Antenado -- a sociedade da telenovela.
Alguns entendem que sinais de mudança 'tão vindo de outro lugar que não o Projac.
A crítica de TV Bia Abramo, também na Folha de S. Paulo (edição de 28/01) destaca que Vidas Opostas, da Rede Record, ao priorizar um «cunho mais contemporâneo, menos enfeitado», 'tabeleceu um roteiro inventivo e de» diálogos surpreendentemente bem-feitos «que representa» um passo de ousadia necessário».
Pode ser, mas se tem algo que a emissora «rumo à liderança» do Bispo Macedo tem mostrado é que, no terreno das telenovelas (bem, em outros programas da grade também), para bater a Globo, é preciso ser um pouco ...
a própria Globo.
Que seja a Globo inovadora de antes, então.
* A referência ao título do livro de Zuenir Ventura é inspirada na coluna de Juca Kfouri da Folha de S. Paulo (18/03) sobre o clássico Santos X São Paulo, disputado recentemente.
* * Este texto é um convite para a comunidade 'crever mais sobre televisão aqui no Overmundo.
A cobertura crítica de TV no Brasil é imensamente desproporcional à sua relevância cultural.
Exceções 'tão citadas no texto, como os ótimos textos de Bia Abramo na Folha e as colaborações que Esther Hamburger fazia para o mesmo jornal.
Número de frases: 28
Quem faz jornalismo 'crito sabe que o maior filé do trabalho são as entrevistas, não a matéria pronta.
Por falta de espaço, a idéia do entrevistado muitas vezes é condensada e muito deixa de ser dito.
Por isso, disponibilizar entrevistas que geraram matérias me pareceu uma boa idéia.
A entrevista que se segue foi realizada para uma matéria para o jornal japonês em língua portuguesa International Press.
O funk carioca 'tá cada vez mais internacional.
A japonesa Tigarah é uma prova disso.
Com um EP lançado exclusivamente na internet e preparando seu primeiro álbum para o ano que vem, a cantora de 24 anos conta como conheceu e se apaixonou por o funk carioca, que se tornou uma de suas influências musicais.
De mudança de Tóquio para Los Angeles, ela conta também, em 'ta entrevista, porque largou uma carreira acadêmica para se tornar cantora e como a internet auxiliou na divulgação do seu trabalho.
Roberto Maxwell -- Você diz em seu site que começou sua carreira depois de se formar em Ciências Políticas.
Em que momento você desistiu da carreira acadêmica para se tornar cantora?
T -- Bem, quando eu era adolescente, eu achava que atuando na política poderia melhorar 'te mundo.
Era uma coisa meio naïve.
Depois que eu entrei na universidade, eu compreendi que a maioria dos políticos não trabalham honestamente e fiquei chocada.
Então, eu não queria ser mais um de eles.
Eu comecei a pensar em ser artista para expressar minhas idéias e passar boas energias para as pessoas.
Eu queria fazer as pessoas felizes.
Eu acredito que 'te é um dos melhores caminhos para fazer 'te mundo melhor.
Por isso, eu 'colhi a música.
Foi há cinco anos atrás.
Música tem mensagem, tá ligado?,
e foi fácil para mim começar a fazer música.
Eu sei que a indústria da música 'tá cheia de porcarias mas, pelo menos, eu posso colocar a minha mensagem e atingir diretamente as pessoas.
Eu ainda acredito que isso é uma coisa legal e é por isso que eu 'tou aqui.
RM -- Quando e onde você conheceu o funk carioca?
Por que você concluiu que o 'tilo poderia ser uma influência na sua música?
T -- Pouco depois de eu ter começado a 'crever músicas, eu encontrei o funk carioca.
Foi numa festa na casa de um amigo brasileiro.
Você sabe, embora a maioria das pessoas não tenha conhecimento, muitos brasileiros vivem no Japão.
Por isso, eu conheci 'sa música bacana.
Quando eu ouvi pela primeira vez, eu fiquei " QUE P. É ESSA???" (risos).
O negócio bateu em mim e me trouxe um monte de inspiração.
Eu não 'colhi ou decidi que poderia ser uma influência.
Simplesmente, comecei a 'crever da minha maneira com o funk carioca, a partir daquele dia.
Aconteceu naturalmente.
:) RM -- Você diz que 'teve no Brasil algumas vezes.
Quais cidades do Brasil você visitou?
T -- Basicamente, eu fiquei em São Paulo, onde meu melhor amigo mora.
Mas, eu fui ao Rio também.
As duas cidades são bastante legais.
Eu fui num evento no Rio onde, por coincidência, eu encontrei o Mr. D que é meu DJ e produtor.
Em aquela ocasião, a gente decidiu trabalhar juntos, o que a gente vem fazendo há mais ou menos 3 anos.
Fazemos música bacana desde que a gente se conheceu.
Por isso, eu amo o Brasil!
RM -- Você foi num baile funk no Rio de Janeiro?
Lembra-se onde?
Qual foi a sua impressão sobre o baile?
T -- Eu fui há algumas festas no Rio.
Uma de elas, eu acho que foi num clube grande, próximo à praia de Ipanema.
Era um local bem grande e eles tocavam outros 'tilos além do funk.
Foi muito legal!!!
Todo mundo dançando aqueles passos do funk.
Coisa quente e louca, mesmo (muitos risos).
Mas, 'tava todo mundo parecendo muito feliz e se divertindo à beça.
Eu me diverti muito, também.
Os brasileiros adoram dançar, beber e comer.
Eu acho que eles sabem mesmo como aproveitar a vida.
Isso é maravilhoso!
Temos muito o que aprender com o Brasil!!!
:) RM -- Você disse que encontrou o Mr. D no Brasil e começou a trabalhar com ele.
Você já trabalhou com algum produtor brasileiro como o DJ Marlboro?
T -- Eu conheci alguns produtores no Brasil, mas não produtores de funk.
Eu adoraria encontrá-los da próxima vez que eu for lá.
RM -- Em o Brasil, o funk carioca ainda é um 'tilo marginal, mas vem se tornando conhecido ao redor do mundo.
Em a sua opinião, por que o 'tilo consegue ser tão universal ao ponto de seduzir uma garota japonesa, como você?
T -- Bem, eu acho que a batida do funk é uma coisa!
É tão original, embora tenha algo de miami bass.
Então, ela faz o povo dançar sem parar!
Eu não entendo o que eles dizem, tá ligado?,
mas eu fico louca para dançar quando eu ouço a batida.
Eu acho que a língua não importa, as pessoas sentem a batida e querem dançar.
RM -- Em os bailes funk do Rio de Janeiro, as garotas costumam se reconhecer em 'tereótipos como a «tchutchuca» (garotas que fazem a linha inocente, lolita), «tigresa» ou «cachorra» (garotas bem sexy que 'colhem os caras que elas querem), «popozuda» (garotas com o bum-bum avantajado) e «purpurinada» (garotas que usam glitter no corpo, mais 'tilo fashion).
Você sabia disso?
Que tipo de garota você seria?
T -- Que engraçado, isso!
Eu não sabia!
Deixa eu ver ...
Eu acho que às vezes eu sou tchutchuca, às vezes cachorra!!! (
Muitos risos.)
Sim, depende do clima e do cara, tá ligado?
RM -- Quais são os temas das suas músicas? (
Desculpa, mas a maior parte de elas é em japonês e eu não pude entendê-las.)
Você fala sobre sexo como as cantoras de funk brasileiras?
T -- Não, não, não.
Eu não falo sobre sexo.
Minhas mensagens são sobre o egocentrismo na sociedade capitalista, choque cultural na globalização e o girl power.
às vezes, eu conto algumas 'tórias, também.
Há algumas traduções no meu website.
Dá uma checada.
RM -- Você 'tá lançando seu primeiro EP na internet de forma independente.
Por que você 'colheu a internet para lançar o CD?
Você tem planos de ser contratada por uma major?
T -- Hum, eu acho que as muitas pessoas usam computador hoje em dia e passam mais tempo na frente de ele do que vendo TV.
Eu fiz recentemente um myspace e achei que poderia ser legal mostrar minhas novas músicas para as pessoas, já que elas têm um pé no funk carioca que é um ritmo cool underground e, também, porque eu canto basicamente em japonês.
Minha dance music é completamente diferente.
É realmente uma nova dance music, tá ligado?
Nova geração.
Por isso, as pessoas adoram.
Mais e mais fãs aparecem através do MySpace.
Eu compreendi que a internet é excelente, desde que você tenha uma música realmente boa.
Se eu 'tou planejando ter um contrato com uma major?
Hummm, não sei ...;)
O que eu quero é mostrar minha música para o máximo possível de pessoas ao redor do mundo e fazê-las felizes.
Sendo assim, se o contrato com a major me permitir isso, tê-lo pode ser uma boa 'colha.
RM -- Você conhece as 'trelas brasileiras Tati Quebra-barraco e Deize Tigrona ou outros artistas de funk do Brasil?
O que você acha de eles?
T -- Claro que eu as conheço.
Meus artistas favoritos são a Tati Quebra-barraco e o Bonde do Tigrão.
Eles são muito bons!
O Bonde do Tigrão faz um mix com o hip-hop, por isso eu gosto muito de eles:)
RM -- Existe algum tipo de «cena funk» em Tóquio?
Tem clubes onde se pode ouvir e dançar funk carioca?
E DJ que toquem o 'tilo?
Você já tocou em algum desses lugares?
T -- Sim, alguns clubes tocam funk carioca, mas não são muitos.
Dois ou três clubes em Tóquio e algumas outras festas brasileiras no interior do país.
Muitos brasileiros vivem no interior do Japão, tá ligado?
Eles formam suas próprias comunidades.
Em 'ses lugares, há cultura brasileira e eles tocam diversos tipos de música brasileira nos clubes.
DJ de funk eu acho que tem apenas um no Japão.
Seu nome é Rokotsu Kit e ele é meu amigo.
Não há muita gente que conheça o funk carioca aqui.
Mas, ele tem muitas músicas e toca em tudo quanto é evento de funk Eu também já toquei em eventos de funk, em alguns clubes.
E o Rokotsu Kit tocou também.
Não há muitos conhecedores em funk no Japão, então todo mundo se conhece e quando há algum evento de funk, a gente vai lá e toca.
Mas, a partir desse ano, mais pessoas 'tão conhecendo o funk, aos pouquinhos.
É excitante ver como as pessoas reagem à música.
Eu sabia que as pessoas no Japão iriam curtir o funk também e, das pessoas que eu conheço, eu fui a primeira a ter contato com 'sa parada maneira.;)
RM -- Você 'tá se mudando para Los Angeles.
Quais são seus planos para o futuro?
Você tem planos de tocar no Brasil?
Já tem alguma data marcada?
T -- Sim, eu 'tou me mudando pra lá.
Estou finalizando meu primeiro álbum ainda 'te ano e vou lançá-lo ano que vem.
Antes, vou gravar um clipe.
Por isso, vou andar bem ocupada em breve.
Eu toco na Suécia em 20 de setembro. (
A entrevista foi realizada duas semanas antes deste evento.)
Minhas músicas são hits nas pistas de lá.
Eu 'tou muito excitada.
E, quer mais?
Eu devo fazer um show no Brasil.
Ainda não sei quando mas, com certeza, vou 'tar por lá em breve.
Muito excitante!
Número de frases: 143
Há no interior do Brasil, em cidades com mais de cem anos de existência, farto material para historiadores e sociólogos resgatarem não somente a história dos acontecimentos como também o 'tilo de vida da população 'tudada.
Abordo 'se tema porque dia 23 de abril 'tive em Carolina (MA), cidade com 149 anos de emancipação política e ao menos mais 40 de existência, em busca de encontrar nos cartórios ou no Fórum da cidade o inventário de partilha dos bens de Aureliano Eusébio da Silva Virgulino.
A tarefa não seria difícil e eu não 'taria apreensivo se conhecesse bem 'sa realidade ou se o inventário fosse recente.
Nem uma coisa, nem outra.
A data complicava tudo:
1866! Tentaria acertar uma pulga dando um tiro num quarto 'curo.
Mas tinha que tentar.
Aureliano foi um dos primeiros proprietários de fazendas na região de Babaçulândia, que 'tou resgatando a história em livro, e precisava ter acesso a 'se documento, se ele ainda existisse, para corroborar as informações sobre a sua presença na área cerca de 1850.
O inventário não 'tava mais no 2º Cartório de Notas.
Contudo, não houve decepção.
Tive uma enorme surpresa.
E das boas, felizmente -- Ufa!
A tabeliã, com educação e com tempo disponível -- peculiar às pequenas cidades, disse-me que havia mandado todos os inventários empacotados em caixas para o Fórum.
O destino -- contou -- seria a capital São Luís, onde seriam vistoriados para possíveis restaurações e posterior arquivamento.
O Maranhão é um dos 'tados brasileiros com maior e melhor acervo histórico.
Felizmente desta vez a burocracia funcionou a meu favor, ou seja, a lerdeza no envio de funcionários para o transporte do material o fazia adormecer no depósito do Fórum há meses.
Maravilha, benzi-me, beijei o galhinho de arruda e meus patuás.
Havia sido favorecido.
Acreditei mesmo que era uma conjunção de forças a meu favor.
Forças superiores nas quais eu nem acredito, mas que elas existem, existem!
A minha surpresa continuou, e sempre para o lado bom.
Fui bem recebido no Fórum por a diretora que logo colocou todo o arquivo a minha disposição.
Olhamos numa relação dos nomes dos inventariados e na respectiva data, para posteriormente abrir o pacote numerado.
Tudo muito bem organizado.
Havia inventário da década de 1840.
Vários de eles inclusive.
Para ser mais exato:
todos os que foram feitos em Carolina.
Havia também livros de registro de 'cravos, livros de habeas corpus, de petições, processos criminais, etc.
Em meia hora 'tava com o documento na mão.
O inventário de Aureliano, de 1866, 'tava em ótimo 'tado.
Não havia sido atacado por traças, nem mofo, nem goteiras que poderiam ter apodrecido o papel ou borrado a tinta.
Sou jornalista, não tenho a formação para a pesquisa que tem um historiador, um antropólogo, um sociólogo.
Mas se fiquei satisfeito com o que vi, faço cálculo de como se sentiria um destes três profissionais diante de tão rico material.
Somos da era digital e todos os processos hoje se valem de 'sa tecnologia.
Os de antanho tinham capas amarradas com cordões (um nó quase 'condido arrematava o amarradio), eram manuscritos com pena de ave em papel almaço (o tamanho é o mesmo de hoje), algumas folhas pautadas, outras não.
Algumas de elas coloridas em azul quase água, parecendo papel de carta.
A tinta era corrosiva, por a sua acidez, acredito.
Em as laudas do inventário de Aureliano ela fez furos onde ficou mais grossa, por exemplo nos cortes da letra T. Mas sem comprometimento da leitura.
A maioria das folhas são manuscritas num lado apenas.
A 'crita grossa corroeu o papel;
a 'crita fina foi mantida em perfeito 'tado através dos anos.
Estava diante do documento que procurava.
Felicidade. Mas quando abri a primeira página houve uma frustração.
Ah, não!
Daria conta de entender aquelas filigranas?
Folhas e mais folhas numa 'crita rebuscada.
Aos poucos fui decifrando e logo 'tava habituado.
Não houve sequer tempo de pensar que pesquisadores são pessoas geniais por decifrar coisas assim.
É apenas o hábito, constatei.
O hábito faz o monge, mas também mata o viciado, tergiversei na hora.
Vi no rol dos bens citações que a nós hoje são curiosidades, mas naquele tempo era usual.
Entre os pertences havia lá descrito:
«um couro de boi ";
«um vidro de azeite» " uma junta de boi de carro mança (sic) ";
«Uma roda de fiar algodão».
Lamentavelmente havia também o ser humano tratado como mercadoria:
«Um 'cravo cabra de nome Romualdo, vinte e seis annos:
600000" (réis);
mais adiante:
«Uma 'crava de nome Filomena idiota de doze annos:
30000». Os bens imóveis eram relacionados como «Raiz», e 'tava lá:
«Terras da Fazenda Matança, uma légua quadrada pouco mais ou menos:
100000». Bem visto aí o valor que tinha à época um 'cravo;
por isso, possui-los dava status.
Há muito mais coisa, e eu fico pensando aqui na quantidade extraordinária de material ainda inexplorado Brasil afora.
E pensando nisso, veio-me uma idéia à cabeça.
Por que alunos de cursos afins não buscam diferenciar suas pesquisas para Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), abordando assuntos que os remetam a 'se riquíssimo material inexplorado?
Digo com convicção:
a História 'pera.
Número de frases: 70
Baixa tecnologia criativa com cultura popular local
Por: Adriana Veloso com colaborações de Tati Wells
Software livre além do computador
O marco da entrada do software livre no Brasil deu-se com o lançamento do Conectiva Red Hat, que a partir de 1996 disponibilizou uma versão traduzida ao português brasileiro do sistema operacional Gnu / Linux.
Mas foi de fato a sociedade civil que propagou o uso e construiu as relações de compartilhamento, troca e pesquisa intrínsecas ao projeto de um sistema livre e de código aberto.
Ações como o Projeto Software Livre, por exemplo, que realiza desde 2000 anualmente o Fórum Internacional Software Livre (FISL) fizeram com que o Gnu / Linux se tornasse mais utilizado e difundido.
Os avanços das interfaces gráficas e dos programas multimídia também foram de suma importância para a abrangência do uso do software livre, mas principalmente sua filosofia de livre distribuição, possibilidade de modificação e customização, entre outras, atraiu muitas pessoas.
E a cultura de uso de 'ta nova ferramenta que fez com que os ideais de livre distribuição, compartilhamento e faça você mesma migrassem para outras áreas, como a produção midiática e musical.
Os Indymedias foram os primeiros websites de notícias que utilizaram a licença copyleft.
Em o Brasil, no final de 2000, chega o Centro de Mídia Independente.
Logo depois, pessoas ligadas à música, como coletivo pernambucano Re:
Combo, passam a utilizar uma licença de remix.
É o início da migração dos ideais do software livre para a arte e a cultura.
Com a receita da feijoada disponível para todo mundo, cada região do país reinventou sua versão, adicionou um tempero regional.
O licenciamento que permite executar, 'tudar, aperfeiçoar e distribuir, originário da Gnu General Public License (GPL), passa a ser aplicado em outras 'feras que não a do software.
O que ocorreu no caso do Brasil, nos últimos dez anos, é que o sistema operacional livre e sua ideologia foi encarado e utilizado como um catalisador para ações que sempre existiram no «mundo analógico».
Libertando da cultura por meio da tecnologia
A partir da distribuição de uma documentação sobre como produzir, aliada à popularização de mídias como gravadores de Cds e DVDs, tornou-se muito mais acessível divulgar realidades regionais.
Pois, em contraposição à diversidade brasileira, o monopólio das mídias trabalha em função do jabá, representando na telinha ou no rádio uma cultura muito mais 'tadunidense (*) que nacional.
Quando muito destaca o sudeste e um nordeste rotulado em jargões comerciais.
Paralelamente, a interlocução das mídias livres trabalha mais diretamente com as pessoas, possibilitando que muitas outras vozes e opiniões sejam protagonistas.
Conseqüentemente a diversidade é muito maior.
Um simples exemplo sobre a produção musical brasileira:
Quem é mais representativo, a Sony / BMG e seus 38 artistas nacionais contratados ou os mais de 30 mil musicistas cadastrados no Trama Virtual que disponibilizam suas músicas em licenças livres?
Em 'te aspecto os Encontros de Conhecimentos Livres e as Oficinas locais, promovidos desde 2005 por a Ação Cultura Digital, trabalham com a auto-'tima das comunidades a partir do momento em que as coloca como protagonistas de sua própria história, oferecendo a possibilidade de auto-documenta ção da cultura popular local.
Foram inúmeros os grupos que gravaram seu primeiro CD ou primeiro vídeo de trabalhos criados por gerações.
São novas produções culturais refletindo para o mundo a diversidade nacional.
A instrumentalização tecnológica dos Pontos de Cultura, entidades selecionadas em edital por o Ministério da Cultura para receberem uma verba com vistas a ampliarem suas ações, seja por meio do kit multimídia ou por o aprendizado do manuseio de ferramentas livres para a produção multimídia, também fez com que 'tes agentes se tornassem autônomos em sua produção cultural.
Já é possível trocar material entre projetos de todo país e com acesso à internet pode-se conhecer muitas outras realidades além daquelas exibidas no plim plim da Rede Globo, como no Acervo Livre, repositório de publicações abertas de material multimídia, por exemplo.
Reapropriação das ferramentas
Em se tratando da realidade brasileira não faz sentido falar em investimentos milionários em hardware (computadores, filmadoras, etc) para promover 'sa difusão e produção cultural descentralizada.
A grande questão fica em como trabalhar com a diversidade cultural e criatividade com poucos recursos.
O diferencial da abordagem brasileira com relação às ferramentas tecnológicas, ou o hardware, é que de fato temos disponível sucata e para nós o lixo tecnológico deve ser reaproveitado.
Um máquina de última geração pode até chegar à classe média alta, porém para fazer inclusão digital, entenda-se lá como for o que 'ta expressão indique, é preciso ter em mente que reciclar é dar acesso.
O copyleft do hardware
Justamente aí entra o Metareciclagem, proposta que serviu de base para a construção da Ação Cultura Digital.
Este projeto não se trata apenas de reciclar máquinas antigas para colocar telecentros em funcionamento.
Fazer Metareciclagem é principalmente pensar em como empregar a parafernalha tecnológica para projetos socialmente engajados utilizando-se de criatividade artística para isso.
Lembrando que por tecnologia entende-se qualquer objeto manipulado por o ser humano, de uma lápis a um processador dual core.
Desmontar teclados, fazer com eles sensores e com 'tes fazer um piano no chão é um exemplo de Metareciclagem.
Uma video wall, ou parede de telas de computador antigas, exibindo imagens é aplicar o conceito de Metareciclagem.
Estes são apenas alguns exemplos de projetos executados por pessoas que trabalham com baixa tecnologia, arte e multimídia.
São coisas assim que encantam as pessoas por serem quase inimagináveis no primeiro olhar, afinal, você pensaria num piano ao ver um monte de teclados velhos e 'tragados? (
Veja o vídeo do piano em funcionamento)
O que as pessoas que aplicam Metareciclagem em suas vidas de fato fazem é levar o conceito de código aberto ao hardware, à parafernália tecnológica.
Pois ao abrir a caixa preta da tecnologia, entender como as máquinas funcionam por dentro, reproduz-se a receita do bolo, da feijoada, utilizando-a de sua própria maneira.
Esse olhar, que vislumbra possibilidades infinitas, reflete a criatividade típica das brasileiras e brasileiros.
Se propomos novos usos no artesanato porque não na tecnologia?
Além disso, a simples atitude de reaprovetar a baixa tecnologia é negar a obsolecência programada da indústria.
A o abrir as máquinas desmistifica-se o que é um computador, seu funcionamento e sua distância, seja ela de origem financeira ou de aprendizado.
Grupos e coletivos como o Metareciclagem, o Mídia Tática, e o Centro de Mídia Independente, atuantes direta ou indiretamente no MinC por meio da Ação Cultura Digital, misturam o low tech com o multimídia num contexto de mudanças sócio econômicas do qual emerge os conceitos do software livre e os novos tipos de licenciamento de obras artísticas e intelectuais.
Um dos resultados disso é 'ta publicação, outro 'tão disponíveis na Internet, mas de fato, tudo isso inicializou um processo colaborativo que muda a forma com que a cultura, a mídia e a tecnologia será vista por as novas gerações.
Número de frases: 52
(*) O termo 'tadunidense é utilizado ao invés de norte americanos pois entende-se por norte americanos também os mexicanos e canadenses.
«Com a Agenda 21, as pessoas que não são daqui poderão conhecer
quem somos, qual a nossa história e quais as nossas necessidades.
Dizem que se um soldado morre, a guerra não acaba.
Mas quando o 'teio central da casa quebra, vai toda a casa abaixo.
Ou se o maracajá come a galinha, os pintos ficam 'palhados, sem saber
para onde ir."
Estes são trechos da AGENDA 21 de Vila Manaus.
É uma produção da Comunidade Vila Manaus em parceria com Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).
É muito bonito!
O arquivo em PDF, 'tá a disposição no seguinte link:
www.imaflora.org/arquivos/ag % 2021 % 20 Vila % 20Manaus1.
pdf ...
Este livro foi resultado do trabalho de parceria do Imaflora e Comunidade Vila Manaus.
O primeiro encontro foi em fevereiro de 2001, dia em que a comunidade recebeu a visita do Roberto e Jander, do Imaflora e senhor Duarte, secretário do meio ambiente.
Já no segundo encontro, no mês seguinte, tivemos a presença de mais um integrante do Imaflora, senhora Cris.
Vieram falar do Imaflora e da Agenda 21. Contaram o que era o Imaflora.
Em a época, o que nós sabíamos do IMAFLORA eram dos boatos que vinham do Lago Preto.
Eles contavam que o Imaflora ia tomar todos os nossos terrenos para levar a madeira para fora e vinham com balsas «medonhas de grande» para levar toda nossa água para São Paulo e íamos ficar na «secura».
Em a rádio, 'tavam falando que o chupa-chupa tinha feito várias
vítimas em Maués.
Ele vinha de disco voador e vinha atacando as casas, chupando o sangue do povo.
Uns falavam que com o tempo ele ia bater aqui em Boa Vista do Ramos.
Foi em 'ta época que o Imaflora apareceu e por isto ficou aquela dúvida.
Será que eles são o chupa-chupa?
Uns ficaram muito amedrontados.
Aqui em Vila Manaus, a gente não acreditou muito em 'tas 'tórias, mas ficamos meio desconfiados.
Depois começou a falar da Agenda 21 e de Meio Ambiente.
Veio falando para que e de que forma a Agenda 21 podia contribuir para a comunidade.
O Roberto perguntava o que a gente sabia sobre 'se
assunto, nós ficávamos meio 'quisitos nos olhando, porque não sabíamos nada disto.
Ele ia falando dos nossos terrenos e como fazíamos agricultura e que podíamos fazer diferente e de forma mais
organizada, com o pensamento nos nossos filhos e netos.
Ele falava
muito enrolado, quase como um 'trangeiro.
Paulista fala diferente do nosso linguajar, por isto a gente não podia entender muita coisa.
Parecíamos com os índios se defrontando com os portugueses pela primeira vez.
Ninguém tinha idéia o que era preservação e conservação, meio ambiente, sustentabilidade e tantas outras coisas que eles falavam.
Ficamos assim aquela noite.
Ninguém entendeu muita coisa.
Como o Jander é da nossa «lavra» (da nossa terra), depois da reunião, nós nos achegamos com ele para entender o que era isto.
De aí, entendemos um pouco melhor.
Conversamos e tentamos aceitar
para ver o que ia acontecer.
Meio na dúvida, falamos:
«Vambora ver!».
Hoje já temos frutos, principalmente a preservação dos lagos e da floresta.
Agora, nós já podemos dar exemplo para outras comunidades.
Em a segunda visita, vendo o filme da Agenda 21 e com mais explicações, começamos a acreditar de verdade.
Cada vez foi chegando mais morador para participar.
A turma do Telecurso ajudou bastante com os trabalhos que o professor Generson passou para os alunos, como por exemplo, daquela dramatização sobre a chegada dos europeus na comunidade que encheu a sede, atraindo muita gente por causa da apresentação.
Em o começo, era aquela distância.
A gente chamava de Dr. Roberto.
De aí, ele proibiu de chamar de doutor, porque ele disse que não era médico e nem doutor de coisa nenhuma.
Então ficou Seu Roberto.
Hoje com os mais chegados baixou muito, ficou Cupim mesmo.
Hoje a gente tem o Cupim e a Cris como parte da comunidade, quase
como gente da nossa família.
A gente fica comentando que se o Imaflora tivesse vindo antes, a gente não tinha desmatado tanto a beirada e o lago não 'taria tão
seco. O professor Zé Carlos também veio alertar a gente quando voltou do curso de Agente Ambiental.
Também alertaram para zelar por os peixes.
A gente sai para pescar e às vezes não pega nada nem de malhadeira.
Antes pegávamos muito peixe fazendo «bateção».
Foi assim que destruímos a casa dos peixes, porque não tinha quem orientasse.
Aqueles que foram na excursão para Presidente Figueiredo e mesmo
os que não foram, mas ouviram como é por aí, perceberam que dá para fazer diferente.
Por exemplo, o costume da gente queimar para plantar.
Nós vimos que tem gente que não queima e 'tá vivendo muito bem.
A gente começou a dar atenção para coisas que 'tavam na nossa frente e não ligávamos, como, por exemplo, juntar as sementes para plantarmos nos nossos terrenos.
A gente só conhecia a banana passa que a gente chama de banana passada ou de morcego e para secar, custava muito.
Hoje tem o secador solar, onde já secamos abacaxi e vamos experimentar manga.
Teve tantos momentos marcantes em 'tes dois anos de parceria da Vila Manaus com o Imaflora, sendo que um dos mais marcantes foi a festa na praia, no fim do ano passado.
Em 'te ano vamos repetimos a festa celebrando a conclusão da elaboração da Agenda 21 da comunidade.
A Agenda 21 trouxe mais consciência e 'peramos que venha
acontecer aquilo que planejamos, principalmente para recuperação da fartura dos peixes.
A casa de farinha mecanizada e a 'trada também são necessidades prioritárias para quem quiser colaborar com a comunidade, pois o resto a gente vai dando nosso jeito, dependendo mais da comunidade.
Algo muito importante foi a vinda dos 'tudantes de São Paulo para passarem três dias na comunidade.
Foi muito bom, porque eles contaram a realidade de eles e a gente pôde saber o que eles pensam de nós e viram como é a nossa vida de verdade.
Ficou na lembrança de todos, 'pecialmente para as crianças.
Acho que assim como passa na nossa memória, deve ficar passando também na memória de eles.
Nós também gostaríamos muito de ir conhecer São Paulo, mas para nós voar é muito difícil.
Só mesmo se o chupa-chupa nos levasse de disco voador.
Olha só o Walter.
Por a idade que tem, pensou que nunca mais ia para Manaus e, de repente, deu certo de ir sem nem mesmo 'perar.
Pode ser que aconteça.
É assim que as coisas são, é assim que elas acontecem.
Apesar de nossa grande diferença (nós e o pessoal do colégio Santa Cruz) pudemos sentir que somos filhos do mesmo pai, pudemos nos sentir como uma só família.
Tivemos muitas experiências novas, como quando iniciamos o trabalho de agrofloresta.
Começamos com a linha da vida, onde todos de olhos vendados iam caminhando por a floresta, capoeira e roçado.
Não vendo onde 'távamos passando, pudemos mentalizar como é que era a casca da árvore, o fogo, o sol.
Pudemos pensar em momentos de alegria e tristeza e assim pudemos refletir de como pode ser nossas vidas.
Sem árvores, como pode ser mais difícil a vida.
Tudo isto pudemos mentalizar.
Demorou para a gente perceber muitas coisas.
Foi o tempo todo
batendo na mesma tecla, até que o pessoal abriu os olhos e tem
muitos que ainda não enxergam nada e não 'tão preocupados com o futuro.
Ainda 'tão naquela ilusão de que o que Deus colocou na Terra, nunca vai acabar.
A gente tem que dar atenção 'pecial para 'tas pessoas, para que eles também se conscientizem.
Com a Agenda 21, as pessoas que não são daqui poderão conhecer
quem somos, qual a nossa história e quais as nossas necessidades.
Dizem que se um soldado morre, a guerra não acaba.
Mas quando o 'teio central da casa quebra, vai toda a casa abaixo.
Ou se o maracajá come a galinha, os pintos ficam 'palhados, sem saber
para onde ir.
É assim que a comunidade vai ficar se não tiver alguém
para dar um incentivo como o Imaflora 'tá fazendo agora.
O que já aprendemos, fica na nossa idéia, mas daí para frente, como é que a gente vai ter novas idéias?
Sobre nossa comunidade e município
A Comunidade Vila Manaus
Somos habitantes da Comunidade Vila Manaus, localizada a as
margens do Lago Mucuim, no município de Boa Vista do Ramos (BVR),
no Estado do Amazonas.
Fica à margem direita do Paraná do Ramos (
um braço do rio Amazonas), com uma distância de 370 km de Manaus
via fluvial.
Esse percurso, em barco de recreio, leva 18 horas descendo o rio e 24 horas subindo.
Possui uma área de 2.598 km2 e uma população de mais de 12 mil habitantes, segundo o censo de 2000.
Cerca 5 mil pessoas moram na sede do município e o restante, nas 44 comunidades rurais.
Os primeiros moradores de nossa comunidade vieram das terras
de várzea devido a uma grande enchente ocorrida em 1953.
Normalmente, as enchentes de 'ta época eram pequenas e quando ultrapassavam o assoalho das casas, usava-se a «maromba» que é um assoalho feito de toras de madeira de embaúba, munguba e paxiúba (caule retirado de palmeiras como o açaizeiro e bacabeira).
Em 'se ano, não houve «maromba» que desse jeito, pois as águas
subiram até a cobertura.
Então, as pessoas tiveram que abandonar
suas casas e vieram se 'tabelecer na terra firme, onde hoje é a atual comunidade.
Em 'sa época, vieram 10 famílias que fundaram a comunidade no dia 10 de maio de 1954, sendo os fundadores os senhores:
Manoel da Silva Camarão, Vasco Pinto Ribeiro, Manoel Ferreira Soares, Benedito
de Souza Ribeiro, Antônio Rodrigues, Benedito Moreira de Matos, Mário Neves Dias, João Sancereth, Arlindo Soares e José Marinho Andrade.
Atualmente, residem na comunidade 366 habitantes, distribuídos
em 78 famílias, com moradores de até 84 anos.
A maioria é crianças
e jovens, todos pertencentes à religião católica.
Nossa origem vem de várias culturas, como européia, africana,
mas principalmente indígena.
A cultura européia ainda hoje é muito
presente na comunidade por os seguintes costumes:
religião católica,
vestuário (uso de roupas, calçado etc.), língua portuguesa,
ornamentação de luxo (uso de objetos de ouro e prata).
De a cultura
africana temos os seguintes costumes:
na alimentação, por exemplo,
feijoada, leite de côco, munguzá, azeite de dendê e cocada.
Em a música, temos o samba e os instrumentos musicais, como atabaque, pandeiro, berimbau e tamborim.
Mas é da cultura indígena que herdamos a maioria dos costumes,
tais como:
-- Em a alimentação, temos o peixe, a mandioca, o milho, o guaraná,
as frutas da floresta (piquiá, uixi, açaí, patauá, buriti, castanha,
tucumã, pupunha, cupuaçu etc.) --
Dormir em rede, tomar banho diariamente, pescar e caçar com armadilhas.
-- Utensílios para fabricar farinha:
paneiro, peneira, tipiti, forno de barro, cuiapéua (derivado da cuia).
E os domésticos:
panela de barro, torrador, pote de barro, cuia e pilão.
-- Canoa como meio de transporte.
Apesar de termos a língua portuguesa como língua oficial, também utilizamos muitas palavras de origem indígena como:
jacaré, tucunaré, curumim, cunhantã, tucupi, tambaqui, pirarucu, jabuti, pitiu, tucuxi etc.
Todos os comunitários têm seu sustento e renda principalmente da pesca e da agricultura.
A nossa comunidade antes era bem rica em vegetação e farta de peixes, florestas e animais.
Hoje já sentimos a 'cassez de alguns dos recursos que antes nos eram fartos.
Alguns moradores de Vila Manaus 'tão lutando para que possamos recuperar pelo menos parte da fartura de pirarucu, tambaqui, florestas e animais como capivara, veado, jabuti, paca, tatu, jacamim, jacu e outros.
Formação histórica de Boa Vista do Ramos
Por os idos de 1870, instalou-se aqui os primeiro habitantes:
Maria da Conceição, que construiu uma casa e a chamou de Casa Boa
Vista, de onde originou o nome da cidade;
Simeão Estilista ('te
último nome por exercer a função);
professor Romão Lopes Cascaes;
Maxiliana Rodrigues Cascaes;
Antônio Roberto Pimentel (vulgarmente
conhecido como Antero Gaivota);
Ricardo Rodrigues; Satiro Lopes
Cascaes e José Maria Rodrigues dos Anjos.
Já em 'sa época, Boa Vista do Ramos também era muito conhecida
por Boiúna e para muitos ainda é mais conhecida por 'te nome.
Assim, começaram a surgir agrupamentos de casas que foram
progredindo lentamente.
Mais tarde, seus habitantes foram atingidos
por a tenebrosa doença que se abateu sobre a região:
o paludismo,
que matou muita gente.
Em 1936, foi construída uma capelinha de barro, onde hoje é a praça matriz da cidade.
Esta foi a primeira da já então povoada vila,
onde era venerada uma 'tampa de Nossa Senhora de Aparecida.
O povo a chama de Aparecida da Luz e os pescadores, de «Senhora dos Navegantes».
Em 1938, a capelinha ganhou uma imagem de São Sebastião,
oferecida por o Sr. Graciliano Farias.
Foi, então, organizada a irmandade do Santo.
Em 1940, uma nova capela foi construída, onde se destaca a maior devoção a São Sebastião.
Em 1966, com a queda do crescimento econômico da região, os moradores sofreram um período de 'tagnação.
Em 1967, o pastorio
de Boa Vista do Ramos foi confiado ao padre Henrique Pagani.
( ...) Texto
Completo em Pdf na Internet.
Número de frases: 195
Em a primeira semana desse mês, se apresentou aqui em Teresina o 'petáculo Desmundos, de Luis Ferron, uma produção patrocinada por o Programa Rumos Itaú Cultural Dança.
Só hoje, praticamente metade do mês, recuperado o fôlego, é que paro para comentar sobre.
Esse texto não tem como fim fazer uma crítica que vá servir para o grande público.
Vou dizer aqui sobre minha impressão pessoal, sobre o que ficou em mim depois do 'petáculo.
Em aquela noite meu plano era ir ao shopping fugir do calor 37º, mas já na porta da rua surgiu a lembrança da apresentação.
Sem muita 'perança de pegar o 'petáculo antes do inicio, segui para o Teatro Municipal João Paulo II.
Não tão atrasada como imaginei, ainda deu tempo de bater um papinho com conhecidos enquanto 'perávamos a permissão para a entrada do público [pequeno, por sinal] na sala.
Lá fora, todos compartilhavam da mesma opinião de que o que veríamos naquela noite seria algo diferente do que já vimos em palcos piauienses.
E foi.
Quando as portas se abriram e o público pode, enfim, entrar, encontrou a sala 'cura, com os bailarinos já posicionados.
Um amontoado de corpos nus no chão, impossível até distinguir a quem pertencia cada braço e perna que, aos poucos e vagarosamente em silêncio, se arrastavam até o outro lado do palco.
Dois bailarinos de perfeitos corpos e outros dois de corpos «imperfeitos».
Mas aí, à medida que o 'petáculo foi acontecendo, todo o seu conceito de perfeito e imperfeito, normal e anormal, passa por uma transformação, por uma balança.
Você perde a noção do que é e do que não é perfeição ou normalidade.
Enquanto os dois homens ditos perfeitos fazem [aí entra uma impressão muito, muito pessoal sobre dança moderna] movimentos desconexos, os dois que chamaríamos de imperfeitos se desdobram num jogo de quebra de barreiras das suas próprias limitações.
E eu ali, atenta aquelas pernas sem vontade própria que interagiam com aquelas outras que faziam movimentos precisos, pensava o quanto 'se nosso corpo é só uma mera capa.
Um invólucro de algo muito maior chamado, talvez, de consciência.
Essa desconstrução do corpo como algo de suma importância ['queci de mencionar que no fundo do palco eram projetadas imagens de uma autópsia] me transportou não só para o pensamento filosófico do corpo como embalagem, mas também para o conceito, enraizado culturalmente, da oração.
De o calar, voltar a mente para algo maior e agradecer.
Agradecer por minhas pernas, pés, dedos, braços, mãos, movimentos, todos funcionando em harmonia entre si.
Me bateu também um sentimento de culpa, uma sensação de egoísmo ao achar que devo agradecer por isso.
Devo? O que me faz melhor que aquelas pessoas diferentes de mim que 'tavam ali dançando?
O movimento correto [correto?]
das pernas e braços é 'sencial?
Qual o real conceito de normalidade?
E do corpo, o que dizer?
Durma-se com 'sa.
Dormi, acordei e continuo.
Acho que depois de Desmundos nunca mais verei perfeições e imperfeições do corpo com os mesmo olhos.
Dar valor as perfeições e imperfeições da alma talvez, 'se sim, seja o grande lance.
Ficha Técnica
Direção e concepção:
Luis Ferron
Treinamento corporal:
Luis Ferron
Intérpretes Criadores: Hélio Feitosa, Ivan Bernardelli, Luis Ferron, Mufid Hauache.
Trilha sonora:
Rebello Alvarenga Voz em Off:
Elaine Éco Concepção de Luz:
André Boll Adaptador e operador:
Ari Bucciones Vídeo:
Carlos Magno Adereços Circenses:
Marcio Costa Figurino:
Número de frases: 43
Rosemeire Sabri Em 2006, o DJ inglês Kode9 lançou um álbum que serve de boa trilha sonora para o tempo presente.
Batizado de «Memories of the Future», ele retrata o 'tágio atual do dubstep, 'tilo de música eletrônica surgido nas periferias de Londres há alguns anos.
Com batidas muito lentas e graves marcantes, o dubstep vem crescendo globalmente sem alarde.
E com ele, a perplexidade sobre como se dança o novo 'tilo, já que à primeira audição isso parece impossível.
Curiosamente, o dubstep não desafia apenas as formas urbanas de dançar.
Disseminado primordialmente através de rádios piratas e da circulação dos chamados mixtapes (cd ´ s caseiros distribuídos por os próprios dj ´ s), o 'tilo faz repensar a idéia de «periferia», já que em 'se caso 'tamos falando da periferia de Londres.
A palavra-chave para isso é a tecnologia digital.
As periferias globais 'tão cada vez mais apresentado um denominador comum no modo como vêm se apropriando da tecnologia digital para produzir sua própria cultura e novas formas de economia da cultura.
Esse talvez seja o fenômeno social mais significativo desse começo de século, com conseqüências jurídicas, políticas e econômicas.
De o ponto de vista jurídico, já é conhecido o debate em torno dos «commons».
Trata-se de uma percepção global crescente de que a tecnologia permite desatar nós no que tange ao acesso à informação, cultura e conhecimento.
Simultaneamente, as 'truturas formais de outros tempos, como a propriedade intelectual, caminham no sentido de criar critérios de restrição cada vez maiores ao acesso, em busca de reproduzir no mundo virtual as diferentes formas de 'cassez que se evaporam.
Uma das ferramentas para a manutenção e resgate dos «commons» é a utilização de licenças voluntárias, por as quais autores e criadores em todo mundo sinalizam para a sociedade que, para o seu trabalho, aplicam-se regras diferentes, mais abertas, mais claras e flexíveis.
Um dos exemplos de 'sas ferramentas são as licenças do Creative Commons:
um instrumento por o qual cada criador cria um pacto social diferente com relação ao regime da propriedade intelectual aplicado à sua obra.
De 'sa forma, trata-se da criação de um commons legal, baseado na utilização do próprio sistema do direito para através de licenças jurídicas reconstituir a liberdade de acesso para determinadas obras.
No entanto, o dubstep, acompanhado de outros fenômenos periféricos como o Kuduro em Angola, o Kwaito na África do Sul, o Tecnobrega em Belém do Pará, a Champeta na Colômbia, o Funk carioca, o cinema Nigeriano e outros, guardam pouca ou nenhuma relação com a prática do commons legal.
E a razão para isso é que apesar da idéia de commons poder ser universal, o aspecto do «jurídico» não o é.
Graças à apropriação da tecnologia, cenas culturais inteiras 'tão surgindo em circunstâncias sociais nas quais a idéia de «propriedade intelectual», do ponto de vista de sua efetividade, simplesmente não se aplica.
São lugares em que a propriedade intelectual não produz efeitos, por ser desconhecida, inexeqüível ou simplesmente irrelevante.
Essa situação gera um outro tipo de commons.
Não aquele que resulta da aplicação voluntária de uma licença jurídica sobre uma obra protegida pelo direito da propriedade intelectual, mas sim de uma situação fática em que simplesmente o direito da propriedade intelectual não se faz presente.
Trata-se assim de um commons social, em contraste com o commons legal.
Perceba-se que o commons social não se configura na forma de uma dicotomia que pode ser resolvida em termos do século passado:
norte versus sul;
ricos versus pobres;
centro versus periferia.
Os commons sociais 'tão presentes tanto nos países pobres quanto ricos, tanto no norte quanto no sul, no centro assim como na periferia.
O dubstep e o mercado de mixtapes em Nova Iorque são os primeiros exemplos.
A indústria de cinema da Nigéria, surgida no começo dos anos 90, num contexto em que a mera idéia de aplicação da propriedade intelectual inexistia, é outro.
A Nigéria lança 1200 filmes por ano enquanto os EUA lançam 600, a Índia 900 e o Brasil 50.
A ausência de um sistema efetivo de propriedade intelectual não impediu que a Nigéria se transformasse na terceira maior indústria de cinema no mundo, faturando mais de 200 milhões de dólares anuais e gerando 1 milhão de empregos (de acordo com dados da revista The Economist).
A crença de que a propriedade intelectual seria, então, o único incentivo possível para a criação intelectual, crença 'sa amplamente disseminada tanto por a Organização Mundial da Propriedade Intelectual quanto por a indústria cultural norte-americano, fica abalada.
Fica cada vez mais visível a possibilidade de que diferentes formas de economia da cultura possam emergir dos commons, sejam eles legais ou sociais.
É claro que a reação a 'se fenômeno, que apenas começa a se tornar visível, dá-se de diversas maneiras.
Um exemplo é a crítica à qualidade das músicas periféricas, muitas vezes consideradas «de mau gosto».
De a mesma forma, ela aparece também quanto aos filmes produzidos na Nigéria, que não seriam «cinema», mas uma categoria audiovisual» menor».
Esse é um dos impactos políticos do fenômeno.
A própria definição do que é ou não cinema deixa de ser uma questâo semântica e se torna uma questão política em nossos tempos.
Um exemplo disso é que da definição de «cinema», depende, por exemplo, para que tipo de produção audiovisual se abrirão as portas dos diferentes incentivos culturais.
De o ponto de vista substantivo, vale lembrar o que Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, 'creveu no fim da década de 60: o verdadeiro cinema surgiria apenas quando as periferias globais começassem a se apropriar dos meios de realização audiovisual, passando a contar suas próprias 'tórias e a produzir sua própria imagem.
O debate sobre «bom» e «ruim», de qualquer forma, 'vai-se na constatação de que, independente de qualquer busca por uma qualidade substantiva, não existe mais uma classe de pessoas (elites, críticos, intelectuais, centro ou simplesmente» pessoas de bom-gosto ") à qual é possível recorrer para se determinar o que é bom ou não.
A descentralização do gosto acompanha a descentralização da produção cultural, do acesso à cultura e das economias da cultura.
Por fim, ainda sobre os commons sociais, desde o minuto em que o Napster foi lançado, surgiu no âmbito da propriedade intelectual um fenômeno de globalização da informalidade.
O desrespeito à propriedade intelectual, antes visto como atributo dos países pobres ou em desenvolvimento, passou a ser uma prática global.
Tanto camelôs das periferias de Manaus quanto 'tudantes universitários norte-americano guardam em comum um semelhante desprezo à lei.
Em outras palavras, o predicado de «pirata» migrou dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos, onde cresceu e se multiplicou.
Em 2007, o Canadá recebeu o título de décimo país pirata do mundo, passando a figurar do lado de países como a China, a Índia e outros, ainda que praticamente não exista um camelô vendendo produtos piratas no país.
Assim, do YouTube ao Emule, diversas iniciativas empresariais globais de distribuição de conteúdo digital passam a caminhar muito próximas à fronteira entre o legal e o ilegal, da mesma forma como uma metrópole sul-asiática.
No entanto, o olhar sobre 'ses fenômenos continua matizado.
A o olhar para o YouTube, vemos primeiro a inovação e depois a ilegalidade.
A o olhar para as periferias (e seus fenômenos criativos), vemos primeiro a questão da informalidade e somente então a inovação.
Isso quando ela chega a ser efetivamente vista.
Se é possível almejar uma contribuição para as memórias do futuro, talvez seja uma expectativa de mudança desse olhar.
Costurar na mesma linha o cinema nigeriano, o YouTube, o dubstep, o tecnobrega, o Kuduro, os camelôs e o Emule.
Enxergando a inovação em todos, à luz da constatação de que os fatos mudaram.
Sem olhares novos, não há como haver novas formas imaginação.
Número de frases: 57
Texto publicado originalmente no catálogo do evento Memória do Futuro, do Instituto Itaú Cultural O «Cidadão Instigado e o método tufo de experiências» 'tá ali, olhando para o leitor-ouvinte, pronto para ser lido e 'cutado.
Em meio ao silêncio do quarto, ele tem suas dúvidas se 'tá preparado para seguir com aquilo.
Foram tantas sensações e pensamentos que o Ciclo causou que ele 'tá confuso com o que deve fazer.
Então, acende um cigarro, pega mais um café e segue adiante.
O encarte agora tem a forma mais tradicional e linear, mas isso não significa que seu conteúdo o seja também.
O leitor-ouvinte finalmente liga o som, abre o mini-livro e sorri.
Os primeiros acordes de " Te encontrar logo ..." são suficientes para ele ter a certeza de que fez a 'colha certa.
«Acho que 'tou te 'perando / O que talvez você já saiba / Você pode 'tar certa / Talvez não vale a pena dizer nada».
O órgão de Daniel Ganja Man ajuda a dar 'se tom melancólico e até meio brega da primeira história de amor do Método tufo.
De o lado direito tem um cara lendo o livro «Os urubus só pensam em te comer».
Mas ele poderia 'tar também vendo o vídeo, já que a música é a trilha sonora original do curta homônimo de Vanessa Teixeira.
Catatau então vem com aquela voz e afirma:
«Todas as vacas 'tão velhas / Todas as vacas 'tão quase lá / Todas as vacas 'tão loucas / E abatidas no seu leito de morte».
O leitor-ouvinte concorda e em meio ao psicodélico ritmo gagueja com o narrador:
«Pó-pois já é tarde e os urubus só pensam em te comer».
E lá vem ela, a vaca, para encerrar sua história com um fundo musical instrumental indescritível.
Ele então dá um gole no café e vira a página para conhecer a história de «O pobre dos dentes de ouro».
Maurício Takara com sua zabumba, André Malê com seu elu, juntamente com os outros Cidadãos Instigados fazem surgir um ritmo meio caribenho que invade o quarto e, se o leitor-ouvinte soubesse, levantaria para dançar.
Mas logo chega Marcos Axé com o djembe e os efeitos fazendo tudo mudar.
A faixa acaba completamente diferente de como começou.
Ali no cantinho 'tá ele, óculos escuros, cabelos grandes, de perfil.
Um desses transeuntes que passaram por o narrador durante 'sa meia hora em que ele 'teve parado num cruzamento da paulicéia desvairada «pensando / simplesmente pensando».
Catatau em 'se devaneio conta sobre «O silêncio na multidão» em meio a uma melodia que oscila de acordo com o que vem sendo contado.
E lá 'tá ele, de volta, o Zé Doidim, no cruzamento da Brigadeiro Luiz Antônio com Avenida Paulista, de 'sa vez sendo um personagem comum e não o principal.
A os três minutos o narrador se cala e deixa os instrumentos falarem um pouco.
O leitor-ouvinte então pensa que se trata dos minutos finais da história.
Engano. A os cinco minutos Catatau volta para concluir a história que só acaba aos sete.
O leitor-ouvinte chegou a metade do encarte e um desenho lhe mostra o «Tufo experimentos».
Como o cd 'tá rolando direto, a introdução de " Calma!"
é pouco tempo para se entender do que se trata.
Na dúvida entre acompanhar o livro junto com o áudio ou dar uma pausa no som, ele opta por a primeira opção pensando em voltar ao meio depois que chegar ao fim.
Catatau entre apitos chega contando que simplesmente precisa de um copo de água com açúcar para ficar tranqüilo e Clayton Martin diz «Caaaaalma garotãããão» e manda trazerem 'se copo, que na verdade vira um balde d' água, para que o leitor-ouvinte capte com seus ouvidos o que sua mente rapidamente imagina.
Mais calmo, Catatau segue com sua narração e começa a contar a vida de «O pinto de peitos» que fala sobre um pinto que tem peitos e um bico preto.
E as pessoas só conseguem ver o seu bico preto por ser um defeito, já que «todo bico é amarelo queimado».
Mas «Certas coisas acontecem na vida / Não para assustar / Mas sim, para mudar / O entendimento sobre as coisas absolutas».
Para o nosso bom leitor-ouvinte, meia palavra já basta.
Mudando de posição porque as costas já lhe doem, o leitor-ouvinte observa que no alto das duas páginas onde 'tão quatro histórias, ela aparece:
uma sereia, que na verdade é uma constelação, em meio às 'trelas que o cara ali do canto 'querdo, bem pequeno, 'tá observando.
A autobiografia do autor aparece na faixa sete e ele chega para contar que é «Apenas um incômodo».
Cinco minutos é o tempo que Catatau precisa para dizer o porque de tal afirmação com a ajuda de um reggae daquele jeito que o Cidadão Instigado faz.
O que não significa obviamente que seja parecido com os do áudio do mini-livro anterior.
Talvez o Malê que Catatau 'tá apresentando seja o mesmo André Malê que apareceu na história três com seu elu.
Talvez, o leitor-ouvinte pensa.
O fato é que sendo ou não, «Chora, Malê» é a oitava história e a maneira leve com a qual o autor descreve 'se personagem torna-se um dos pontos mais atrativos desse mini-livro.
«Traga uma mulher, uma cachaça e um violão / Escute o toque do tambor / Para entender o seu coração».
Virando mais uma vez a página, o leitor-ouvinte então chega a penúltima história e, portanto, quase ao final.
Logo ali, no cantinho direito da página, 'tá o cara que teve uma " Noite daquelas.
Suas lágrimas e a maneira como ele segura seu violão não negam tal fato.
A brincadeira com as palavras volta em 'sa história.
E de um jeito instigado o «Blá, blá, blá, blá, blá, blá, bonc bonc» torna-se onomatopéia dos diálogos inusitados dos personagens.
Catatau conta como a solidão pode fazer com que o sujeito tente aliviar a dor no coração gritando mesmo que ninguém o ouça.
O autor conta que «Eu 'tou meio opaco / E os seres opacos precisam de qualquer coisa para se iludir», o que justifica a tentativa em falar com as 'trelas antes da chegada de uns amigos para então ele perceber que na verdade só queria conversar com alguém.
A sombra de um banco causada por uma parte do sistema solar.
Esse é o cenário da última história desse método cheio de experiências.
«O tempo» chega para encerrar de uma maneira calma e melancólica, ou seja, Catatau em sua 'sência.
O leitor-ouvinte pega o maço enquanto 'cuta os últimos acordes e percebe que não tem mais cigarros.
Olha para o som e lá 'tão os 51:04.
Ainda meio atordoado com o ciclo que o fez iniciar um tufo de experiências, coloca seu chinelo e vai à padaria.
Ele ainda tem um Tufo experimentos para compreender.
Número de frases: 59
(texto originalmente publicado no site O Dilúvio -- www.odiluvio.com.br) Comecei segunda-feira passada, dia 11/9, a filmar o meu primeiro longa-metragem de ficção como diretor.
Adaptado de um livro de «Sérgio Sant'Anna, Um Romance de Geração» é uma produção independente, em que eu me aliei a atores e equipe para poder filmar.
Não temos, nem até agora pedimos, nenhum patrocínio.
Quem se interessar em acompanhar o que se passa no set de filmagens, e na cabeça do diretor, pode ficar de olho no blog que fica em http://umromancedegeracao.wordpress.com.
Em Um Romance de Geração, as Notas do Subterrâneo, de Dostoievski, encontram As Mil e Uma Noites.
Um 'critor quase 'quecido precisa inventar histórias que na verdade não 'tá 'crevendo, para com 'sas histórias seduzir a jornalista que o 'tá entrevistando, e assim reconquistar a fama e a notoriedade e, quem sabe, superar a depressão que o impede de 'crever.
«O grande romance de uma geração, de várias, de muitos de nós, um emocionante vôo da criação 'crita."
Nelson Motta, sobre Um romance de geração, em O Globo
A Produção
Baseado num livro de Sérgio Sant'Anna, 'critores brasileiro traduzido em mais de quinze países, «Um Romance de Geração» é uma produção absolutamente independente, e é 'sa independência que torna possível a sua ousadia:
uma mistura de ficção e documentário que lembra filmes inovadores, a seu tempo, como Looking for Richard, de Al Pacino, e Vanya on 42 nd Street, de Louis Malle.
Um Romance de Geração 'tá sendo todo filmado numa única locação (um 'túdio fotográfico em Laranjeiras, Rio de Janeiro), com apenas algumas imagens de exterior produzidas em foto, buscando reproduzir o 'tilo visual da época em que a ação se passa:
os anos 70.
Em o 'túdio, se alternam as cenas do encontro entre o 'critor e a jornalista com momentos em que o elenco do filme discute com o diretor, David França Mendes, e com o próprio Sérgio Sant'Anna, autor do livro, os impasses de uma adaptação como aquela.
A originalidade não termina aí.
Para o papel da jornalista, três atrizes diferentes se alternam, buscando uma variedade inebriante de tons, atmosferas e humores.
O efeito cômico de 'sa troca incessante será ('pero!)
irresistível, e ainda irá gerar um outro produto:
o DVD de «Um Romance de Geracão» poderá incluir não só a edição final «oficial», com as atrizes se alternando, como também três outras versões, cada uma de elas 'trelada por uma atriz só.
O mesmo filme, em DVD, terá quatro versões.
Falando em atores e atrizes, o elenco de «Um Romance de Geração» é um dos seus maiores trunfos.
Isaac Bernat, Susana Ribeiro, Lorena da Silva e Nina Morena são atores com importante currículo nos palcos e nas telas.
O diretor e roteirista do projeto, David França Mendes (ou seja, eu!),
descrito por o L.A. Weekly como an efficient, inclusive storyteller «quando do lançamento nos» Estados Unidos de O Caminho das Nuvens», teve seus filmes exibidos e premiados em festivais no Brasil e no exterior, tendo ganhos diversos prêmios e nomeações, sendo o mais importante de eles o de ter sido um dos três finalistas do cobiçado prêmio Sundance-NHK Latin America, em 2001.
O filme deverá 'tar pronto para exibição em março de 2007.
Sérgio Sant'Anna -- O Autor
Sérgio Sant'Anna nasceu em 1941 e 'treou na literatura em 1969, com os contos de «O sobrevivente».
É autor de livros como «A Senhorita Simpson»,» A Tragédia brasileira», «Um crime delicado», O vôo da madrugada».
A inquietação é uma das marcas de Sant'Anna, sempre em busca do aperfeiçoamento formal e autor de muitas histórias ambientadas no Rio de Janeiro, boa parte dos contos com referências ao teatro e às artes plásticas.
Em a sua literatura, o homem em geral se depara com os próprios limites.
É um 'critor inquieto, com uma obra, como ele reconhece, «sempre em transformação, construída devagarinho».
O autor tem contos e romances traduzidos e publicados em mais de quinze países, entre eles Estados Unidos, França, Alemanha, Argentina, Cuba, Bulgária, Tchecoslováquia, Suiça, Bulgária, Holanda, Itália e " México.
* * * Sant'Anna's early the initial years of dictatorship that lasted untill the 1980s, are disarmingly sparse and surprising effective the minute quotidien frustration in a society bereft of means of expression.
His subsequent is laced with obliquos humour.
His take on the pantomine world of Brazil's populist politics, Notas de Manfredo Rangel, Repórter, exhibits an eye for the ridiculous, but also a gift for empathy."
Angel Gurria-Quintana -- " Finantial Times Magazine
Sérgio Sant'Anna latest to a bibliography comprising some of the period's most significant novels and short-story collections in his most original.
Its boundless, suggestive too of yin and yang, make A tragédia brasileira a dichotomy interwoven in sympbiotic embrace and beckoning successive reinterpretations."
Malcolm Silverman, " World Literature Today
«Son oeuvre sans concessions fait de Sant'Anna un auteur d' inspiration et référence importante pour la toute nouvelle et effervescente scène littéraire brésilienne."
Rachel Bertol, Le Monde
«Sant'Anna é um colecionador de fiéis e ansiosos leitores, e agora eles tem razão de sobra para se preparar para mais alguns momentos de refinado prazer."
Número de frases: 42
José Castello, sobre Um crime delicado, revista Isto É Os 14 integrantes da Orquestra de Câmara de Boa Vista (RR) participam de 13 a 29 de julho do 26º Festival de Música de Londrina, um dos eventos mais conceituados do Brasil.
Em 'te ano, o tema é «o festival de todas as músicas».
A Orquestra será uma das principais atrações no dia 17, quando se unirá à Orquestra Sinfônica de Londrina para o concerto de abertura.
Os músicos boa-vistenses também realizarão mais oito apresentações para o público paranaense em Apucarana e Maringá.
Os concertos serão realizados em locais públicos como shoppings, 'paços culturais e teatros, pois a proposta do evento é levar todos os ritmos a lugares como praças, igrejas, 'colas, Universidades, creches, asilos, penitenciárias, hospitais, empresas e cidades da região.
Os jovens nortistas também terão a oportunidade de se aperfeiçoarem musicalmente fazendo parte de diversas oficinas das 73 oferecidas por a coordenação pedagógica do Festival.
Os cursos serão ministrados por professores reconhecidos no Brasil e no exterior, ajudando instrumentistas a desenvolverem todas as suas potencialidades rítmicas.
Laudenice Rego é uma de 'sas jovens.
A os 14 anos, 'ta é a segunda vez que ela se apresenta nacionalmente como bolsista da Orquestra de Câmara.
A primeira foi no 28º Festival de Brasília, realizado de 11 a 28 de janeiro deste ano.
Em 'te evento, o grupo conheceu Lílian Almeida, uma das coordenadoras do Festival de Londrina, e recebeu o convite para o evento.
Laudenice conta que não sabia tocar nenhum instrumento até começar a ser aluna da Orquestra Sinfônica de Boa Vista.
Seus primeiros passos musicais foram dados com flauta doce, no curso de aprendizagem no Centro de Informações Turísticas da Intendência, com duração de seis meses.
Com o passar do tempo, a paixão por o violino falou mais forte.
Aluna aplicada, Laudenice se aperfeiçoou até ser selecionada como integrante da Orquestra de Câmara.
Agora, aguardando a viagem para Londrina, ela conta que 'tá ansiosa, mas muito segura.
«É emocionante poder sair de um extremo do país, de Roraima, e chegar ao outro lado do Brasil para mostrar que também em Boa Vista a música clássica tem seu 'paço, com profissionais de qualidade e sendo muito apreciada por o público», conta.
Fernando Souza, coordenador musical da orquestra, afirma que 'ta é uma chance de adquirir experiência e conhecimento.
«Estamos muito contentes por 'tar indo representar Boa Vista num festival tão importante da música brasileira.
Isso nos ajuda como orquestra a ganhar amadurecimento profissional, técnico e além de 'timular os músicos a crescer pessoalmente», ressalta.
Espaço garantido -- Para incentivar a apreciação da música clássica na capital roraimense, a Prefeitura de Boa Vista (RR) disponibilizou o salão do Centro de Informações Turísticas, na Intendência, para que a cada 15 dias sejam feitas apresentações da Orquestra de Câmara, com repertório que inclui obras como as de Vivaldi e Tchaikovsky.
A temporada do segundo semestre de 2006 inicia no dia 5 de agosto.
A entrada para os concertos é franca.
A Intendência foi sede da primeira Prefeitura de Boa Vista e 'tá localizada na Orla Taumanan, às margens do Rio Branco.
A Orquestra de Câmara foi criada em 5 de abril de 2005 e é formada por 14 integrantes da Orquestra Sinfônica Infanto-juvenil de Boa Vista.
São professores e alunos de 13 a 24 anos que encontraram na música clássica uma forma de crescimento e realização pessoal.
Sob a regência do maestro venezuelano Deany Cabrera, os músicos ensaiam três vezes por semana no palco do Centro de Artesanato, Turismo e Geração de Renda Vélia Sodré Coutinho.
Os instrumentos utilizados são violinos, violas, violoncelos e contrabaixo acústico.
Número de frases: 28
Adenice Viriato Qualquer um que quiser pesquisar a história do boi-bumbá Caprichoso por meio dos livros existentes, vai conhecer de forma extremamente superficial a trajetória de Luis Pereira, 77, e sua relação de responsabilidade e abnegação construída por três décadas de sua vida com o boi azul e branco.
Já profissionais de imprensa, que têm por obrigação mergulhar nos detalhes dos processos históricos que transformaram a simplicidade da brincadeira do boi de rua no 'petáculo atual, são obrigados a passar na Rua Cordovil, onde Seu Luiz mora, para ouvir uma história desconcertante, não documentada nos ditos livros oficiais e raramente divulgada por a grande mídia.
Seu Luiz Pereira é o oitavo e último dono do boi-bumbá Caprichoso.
Antes dos bois-bumbás 'tarem organizados em Associações Folclóricas, eram famílias que tinham a propriedade dos grupos, mais precisamente o chefe de família, com 'critura de posse e tudo, tal qual um bem.
Eram os Donos do Boi, e tinham a responsabilidade perante a comunidade de manter a tradição da brincadeira sair na rua.
«Quando eu era o Dono do Boi, eu comprava as coisas, mandava fazer as roupas, os chapéus de crepom e era tudo dado para as pessoas brincarem», explica seu Luiz.
Sua missão como Dono do Caprichoso começou em 1969, após a morte de seu sogro.
«Quando recebi o boi ele tava no jirau -- armação de madeira usada para 'perar a caça ou dormir no mato -- tava parado e todo desmontado.
Nem saía mais na rua», recorda.
Sua posse marcou a saída do Caprichoso da então distante Comunidade do Aninga para a cidade de Parintins, onde voltou a sair e a brincadeira foi crescendo com cada vez mais adeptos.
Seu Luiz conta que foi em sua época que uma roupa de marujo feita para os ritmistas do bumbá deu origem ao termo Marujada de Guerra, que até hoje serve para diferenciar a percussão do Caprichoso com a do boi contrário -- modo parintinense de se referir ao bumbá oponente evitando pronunciar seu nome.
Com as brincadeiras realizadas no seu terreno por mais de 30 anos, Seu Luiz faz questão de lembrar que o nível de rivalidade era marcado por menos tolerância do que os dias atuais.
«Quando os bois se encontravam na rua a trancada comia», explica, se referindo às brigas que transformavam as ruas de Parintins em verdadeiros campos de batalha com mastros de bandeiras, tambores, baquetas ou qualquer outra coisa que 'tivesse na mão dos brincantes.
Lembrando de um episódio quando as apresentações entre os bumbás começaram a ser organizadas sobre tablados, no formato de disputa, ainda no início da década de 1970, Seu Luiz relata o episódio de uma apresentação no Urubuzal, uma área de seringal na época.
«O governador era o João Bosco que resolveu dar o resultado na hora.
O Caprichoso ganhou e o pessoal do contrário começou um quebra-quebra que não acabava mais».
Mostrando ótima memória e lucidez invejável, ele lembra que a fúria dos perdedores atravessou a cidade e foi parar em seu quintal.
«Tentaram 'cangalhar o boi de todo jeito, mas quando cheguei, não sei como, o boi já tava lá dentro de casa sem um arranhão».
O boi ficou protegido, mas não demorou para os enfurecidos torcedores chegarem ao seu quintal que foi destruído.
«De manhã fui chamado na delegacia onde 'tava o dono do Garantido, João Batista Monteverde que já era o neto do fundador do boi vermelho e branco, Lindolfo Monteverde».
Acontece que os vândalos que tinham promovido a arruaça na cidade 'tavam acusando os brincantes do boi vencedor do ocorrido.
«Perguntei ao delegado se ele realmente achava que quem 'tá alegre faria aquilo, e se a gente destruiria nosso próprio curral», comenta, mostrando como é chamado o local-sede do bumbá.
«Mas o João Batista era nosso compadre, costumava brincar aqui na Cordovil.
Ele ajudou a identificar os verdadeiros autores que 'tavam lá me acusando e o delegado mandou prender todo mundo», afirma Seu Luiz, lembrando que entre os Donos dos Bois sempre havia uma relação de cordialidade.
Sacrifícios para manter a tradição
A saída do boi por as ruas era aguardada com ansiedade por os parintinenses, Seu Luiz relata que ele mesmo construía o boi.
«A armação era feita com talas de inajá -- madeira regional flexível -- a gente colocava samambaias para fazer o enchimento e cobria com veludo preto, a cabeça era de um boi de verdade que a gente ia buscar lá no matadouro».
Mas as dificuldades eram maiores para organizar a roupa dos participantes, e quando o dinheiro faltava, ele se utilizava uma subscrição do prefeito que respaldava o pedido de doação dos comerciantes.
«Todos queriam ver o boi, muita gente que era do contrário também contribuía».
O Dono do Caprichoso transparece saudade ao lembrar a confecção dos tambores com latas de manteiga cobertas com couro de preguiça e dos cavalinhos da vaqueirada, que representam na alegoria os guardiões do boi.
«Era assegurar o boi na rua e o resto era deixar a animação das pessoas com a cantoria, palmas, tudo alumiado por as lamparinas», recorda emocionado.
Quando nem as contribuições eram suficientes, sua 'posa, Luíza da Silva Santos, hoje com 75 anos, vendia algumas cabeças de gado que tinha herdado do pai para doar a fantasia aos brincantes.
«Fazíamos o possível e o impossível, mas o boi saía, só de vaqueiros tinham uns 40», diz Seu Luiz quando começou a perceber que o local já era pequeno para ensaiar com tanta gente.
Promessa não cumprida
Foi com 'te argumento que um de seus brincantes foi à sua casa com um grupo de amigos.
Alcinelson Vieira, segundo Seu Luiz, era quem o ajudava principalmente com o transporte dos equipamentos de som.
Em a visita, ele propôs trocar a posse do boi Caprichoso, para a formação de uma Associação Folclórica, por uma casa de alvenaria.
«Me disseram que ia levar o boi pra lá, mas me dariam uma casa que ficaria lá perto para eu fazer um bar», comenta.
Pensando no melhor para a brincadeira, a posse do bumbá foi transferida, mas até hoje o ex-dono 'pera por a contrapartida morando numa casa onde somente frente é de alvenaria.
«Todos os presidentes que já passaram só me enganaram, falam com mim com um certo receio e sempre prometem melhorar minha casa», comenta.
Em troca, Luiz Pereira foi nomeado Sócio Fundador Número 1, recebendo a carteira com a privilegiada numeração que ele exibe entre um misto de mágoa e orgulho, enquanto na época Alcinécio era eleito o primeiro presidente.
De lá pra cá, ele conta que o tempo passou e os dirigentes da Associação Folclórica Boi-bumbá Caprichoso resolveram apenas fazer média.
«Me reconheceram com uma carteira, um diploma, mas não fazem uma única toada falando de mim no bumbódromo, não tenho camarote cativo como tantos que não fizeram nem metade do que eu fiz ou sequer cumprem com o que prometeram», reclama.
Em o último dia 17, data do Boi de Rua do Caprichoso em 2006 -- momento em que o folclore do boi azul e branco resgata a brincadeira no formato antigo -- o ponto de partida para percorrer a cidade foi a casa de Seu Luiz Pereira.
Reconhecido por a população parintinense como o legítimo Dono do Caprichoso, ele mesmo afirma:
«Eu ainda me sinto o Dono do Boi».
Número de frases: 46
Se ele continua sem receber o que lhe foi prometido por a troca, existe alguém que possa duvidar?
Em o início de 2004, uma colaboradora do Imprensa Marrom, blog de crítica à imprensa, 'creveu um texto sobre um ' golpe do Rh '.
Não citou nome de empresa alguma, apenas denunciou o'modus operandi ':
eles prometiam uma vaga maravilhosa, cobravam uma grana adiantada, e depois sumiam do mapa.
Em o 'paço destinado aos comentários, logo começaram a citar nomes de empresas.
Algumas de 'tas, claro, se desesperaram.
Mas não podiam fazer nada, haja vista que se tratava da pura verdade, e ainda por cima tudo ali 'tava protegido por as regras mais basilares da liberdade de expressão.
De mais a mais, a tal ' lista das empresas picaretas ' aparecia em trocentos outros fóruns, blogs e até veículos de comunicação.
Nada mais aconteceu, o tempo passou e o texto foi 'quecido.
Em o final de setembro, também de 2004, o blog Imprensa Marrom saiu do ar.
Abruptamente, sem qualquer explicação.
Pensamos que pudesse ser algum problema técnico, 'peramos mais um dia ...
E nada.
Quando entrei em contato com nosso provedor, recebi a 'pantosa notícia de que havia uma ordem judicial para que o blog saísse do ar.
Quando recebi cópia da decisão, o 'panto se tornou mais intenso.
O motivo era um comentário publicado naquele texto do começo do ano, que 'tava ' perdido ' nos arquivos.
Ninguém mais lia, ninguém acompanhava o fluxo de comentários.
Mas alguém, sem colocar o próprio nome, postou um comentário em setembro, ofendendo justamente o sócio de uma das empresas acusadas.
O comentário foi publicado automaticamente, como acontecia na grande maioria dos blogs.
Não soubemos de sua existência, não tivemos uma mínima chance de tirá-lo do ar.
E o sócio da e empresa, em menos de uma semana e sem pedir para que retirássemos o comentário tão ofensivo, simplesmente processou o blog.
Só ficamos sabendo do comentário quando já tínhamos sido processados.
A liminar tirou do ar não somente a janelinha de comentários, mas sim todo o conteúdo do blog, inclusive o texto que denunciava o'Golpe do Rh '.
Recorremos da decisão, mas ainda assim excluímos o tal texto bem como os respectivos comentários.
O Tribunal de Justiça, em 'sa ocasião, concordou que o blog poderia voltar a funcionar.
Mas o processo se manteve.
Apenas agora, na metade de 2006, saiu a decisão de primeira instância.
Nem houve audiência!
E fomos condenados a pagar dez salários mínimos de indenização.
Precedente
Essa condenação, caso mantida por as demais instâncias, cria um precedente que atinge não somente os blogs, mas também qualquer outro veículo de comunicação e, também, os sites colaborativos.
Claro que o Overmundo 'tá incluído nisso.
Não importa se há artigos assinados ou coisa que o valha.
Tudo que 'tiver aqui, independente da autoria, será responsabilidade imediata do ' site '.
Depois, caso queira, o Overmundo pode entrar com ação contra quem 'creveu.
Quando aconteceu 'se caso, o sistema de comentários do Imprensa Marrom era como o da maioria dos blogs;
ou seja, tinha publicação automática.
Não contávamos ainda com a possibilidade de moderação.
Hoje, isso já existe, de modo que é possível fazer um mínimo controle do que se publica.
Mesmo alguns grandes portais ainda permitem a publicação automática de comentários, e isso faz com que o tal portal seja processado da mesma forma que nós fomos.
E o raciocínio obviamente também vale para os ' pequenos portais ' e também para quem tenha domínio registrado no Brasil.
A responsabilidade, de todo o conteúdo -- inclusive comentários em textos antigos -- é sempre do site ou blog.
Essa é uma regra jurisprudencial que surgirá na hipótese da decisão condenatória ser mantida por as demais instâncias.
Alternativas
A primeira, mais branda, seria moderar os comentários.
De esse modo, todos continuam podendo 'crever, criticar etc, mas o dono do site / blog tem meios de impedir a publicação de ofensas gratuitas.
Além disso, pode-se adotar a radical medida de acabar com os comentários.
Parece loucura, haja vista a importância de 'sa interatividade em sites e blogs.
Mesmo ' moderando ', alguma coisa pode passar e se tornar subsídio para algum processo.
E não é todo mundo que tem dez salários mínimos sobrando para pagar aos outros (eu mesmo não tenho, aliás).
A última opção seria hospedar sites e blogs no exterior, obrigando-se em 'se caso às leis do ' país anfitrião '.
Em os EUA, por exemplo, mesmo havendo leis e precedentes contra ofensas, há uma legislação bem melhor no que diz respeito à liberdade de expressão.
Meu site pessoal (www.gravataimerengue.com) é hospedado e publicado nos EUA.
A idéia não é hospedar o site no exterior para ter chances de ofender, caluniar etc..
Trata-se apenas de uma alternativa que permitiria apagar a tempo um comentário ofensivo antes do processo judicial.
Mas caso algum ' ofendido ' queira mesmo processar, ele tem à sua disposição a Corte do algum Condado norte-americano ou coisa que o valha.
Se o site for hospedado no Chipre, há o belo Tribunal de Nicósia para protocolizar o pedido.
E assim por diante.
Os blogs devem muito de sua proliferação por conta das caixas de comentários.
Talvez seja 'sa a grande diferença, a grande novidade de um blog.
Acabando com elas, ou criando severas restrições, todo o sistema pode aos poucos ir para o vinagre.
Sobre o Imprensa Marrom
Criei o blog em 2001.
Era o comecinho do ' blogspot / blogger ', e naquela época quase ninguém sabia o que era um ' blog ' (nem eu).
Até 2002, éramos apenas dois colaboradores.
Em 2003, registrei o domínio ' imprensamarrom.
com. br ', e na ocasião entraram novas pessoas para a equipe.
Alguns saíram, outros ficaram, muita gente passou por lá.
Via de regra, tínhamos um colaborador para cada dia da semana.
Isso até setembro de 2004, quando fomos processados.
Número de frases: 70
A partir de então, foi preciso abrir mão do aspecto ' colaborativo ', haja vista que, na hora do processo judicial, não havia tanta ' colaboração ' assim.
inspirado no texto Quem critica a crítica?,
de dolores dj
Recentemente, li alguns textos no Overmundo sobre crítica de arte.
Sou cineasta e ocasionalmente 'crevo para veículos de comunicação.
Em o momento, tenho uma curta coluna de cinema no jornal japonês International Press.
Por alguns anos, mantive um blog voltado para a resenha cinematográfica, com algumas incursões 'porádicas no mundo da música.
Aliás, vale destacar o uso da palavra «resenha» no lugar de «crítica».
Não vejo o trabalho que eu faço como «crítica» e 'se é o objetivo do meu texto:
discutir a minha política ao fazer resenhas de obras de arte.
Sou formado em geografia e em cinema, produzi cerca de 18 curtas e médias-metragens e poucas vezes tive a oportunidade de ler algo produzido sobre minhas obras.
No entanto, interessado por cinema, sempre procurei nos cadernos de cultura dos jornais textos sobre filmes e entrevistas com cineastas e atores.
Com raras exceções, encontrava apenas um jornalista falando «bem» ou «mal» sobre as obras retratadas.
Poucas vezes, dentro do universo gigante de leituras que eu fazia, tive o prazer de ler algo mais aprofundado sobre um filme ou outra coisa.
E, em geral, era em revistas consideradas como «de público 'pecializado».
Não entendia o porquê dos veículos chamados «populares» 'creverem aquelas duas ou três linhas, cheias de frases de efeito, conselhos do tipo «fuja!»,
«'pere chegar na locadora» e um desenho ('trelinha, bonequinho e afins) que ajudaria a entender melhor aquilo que as (parcas) palavras tivessem deixado 'capar.
Como cineasta, me punha no lugar de toda a equipe que produziu um filme por meses ou mesmo anos para ele terminar sendo representado por um «boneco» e algumas palavras 'critas por alguém em 15 minutos de trabalho, muitas vezes.
Como leitor, ficava indignado de ver alguém tomando decisões por mim na hora de 'colher um filme.
Em a mesma época em que comecei a 'crever, um dos maiores jornais do Brasil inaugurou um blog com seus «críticos» de cinema.
Comecei a ler o blog e vi que, sem o «policiamento» de uma editoria, aqueles jornalistas se tornaram verdadeiros tiranos, decidindo arbitrariamente o que «entraria para a história do cinema», sem qualquer necessidade de aprofundar suas opiniões.
Ou seja, o blog, onde aqueles «críticos» tinham 'paço para realmente refletir sobre cinema -- o que, em tese, o jornal não oferecia -- apenas reforçava o caráter «opinioso» do trabalho que eles faziam no veículo impresso. (
Crítica de arte e opinião é assunto que merece outro texto.)
Decidi, então questionar os 'critores do blog sobre o trabalho de eles.
Um dos mais ofendidos com as minhas colocações respondeu que não interessava a ele fazer uma «crítica técnica», a qual os leitores não entenderiam.
Sobre o uso das frases feitas e trocadilhos infames, ele defendeu seu texto dizendo que 'te era muito bem 'crito e que o «humor» era uma forma de fazer com que o leitor se sentisse à vontade lendo os textos.
Enfim, segundo 'se profissional -- experiente e bem posicionado no mercado -- era o leitor o responsável por sua 'colha por a superficialidade nos textos sobre cinema.
De aquele momento, entendi e reforcei o uso das políticas que definiram o meu modo de 'crever sobre arte.
Em primeiro lugar, o leitor, sim, é o alvo do texto.
Porém, nem ele é nem eu sou mais importante do que a obra sobre a qual 'tou 'crevendo.
Segundo, seja qual for a obra, seja qual for o meu «paladar» pessoal, o leitor é quem deve tirar sua própria conclusão sobre ela.
Assim, o texto deve focar o processo de construção da obra, trazer informações relevantes sobre sua produção e criação, mostrar contexto em que 'tá inserida, relacioná-la com outras obras ...
Terceiro, usar linguagem adequada sem subestimar o leitor.
O texto não precisa ser um manual sobre como ver cinema, até porque experimentar um filme é algo individual.
Mas, não custa falar um pouco sobre 'tética, colocando para o leitor alguns pontos que podem ser considerados quando se assiste um filme.
E usar linguagem técnica não deve ser um tabu.
Se for necessário, por que não socializar com o leitor palavras de uso restrito ao nicho da obra?
Por que não definir certos termos no texto e enriquecer o vocabulário do leitor?
Falar a mesma língua do leitor não deve significar usar as mesmas palavras que ele usa, apenas.
Deve ser uma troca, onde ambos aprendem um com o outro.
E, por fim, incentivar o leitor a produzir.
Sim, produzir.
Em a coluna semanal que tenho no jornal International Press, tenho feito isso com algum resultado:
leitores que já são produtores 'tão mostrando seus trabalhos para outros leitores.
Número de frases: 44
Com 'sa pequena política, procuro fazer do trabalho de 'crever sobre cinema algo mais do que simplesmente usar um 'paço para opinar sobre as obras mas, também, construir com o leitor um olhar sobre a arte do cinema.
Esta prosa lembra aquela anedota do português assaltado e preso por engano junto com os assaltantes numa cidadezinha brasileira, onde um delegado rábula surra o inocente lusitano e depois consulta o chefe de polícia do 'tado, através de um telegrama grávido de erros gramaticais, sobre o que fazer com os detidos.
E, numa irônica resposta telegráfica, o superior autoriza soltá-los, ao tempo em que ordena ao delegado analfabeto «corrigir o português».
Coitado do galego.
O português fora vítima da ignorância do rábula e voltou a apanhar por culpa da «língua 'tranha» com que se grafou a mensagem.
Entenda-se que «línguas 'tranhas», aqui, não são fenômenos 'pirituais da glossolalia.
Referimo-nos a imitações grosseiras da «Última Flor do Lácio», a nossa língua» inculta e bela», tão rica quanto complexa, que, a um só tempo, perpetua gênios da criação literária e se torna vítima de 'cribas e fariseus da comunicação.
Estes, a exemplo do rábula supracitado, castigam-na sem a menor piedade, ignorando que 'tão cometendo crime contra o patrimônio nacional e penitenciando a si próprios com a má reputação.
Assim era um certo 'criba.
Vivia 'crevendo versos, soltos e livres, chegando a arriscar-se na prosa com a mesma desenvoltura coloquial.
Inventava e recriava histórias simpáticas, mas as tornava feias ao publicá-las, devido ao pouco domínio do idioma.
Seu 'tilo era um híbrido de literomania e literofobia, copioso na fala e assassino gráfico-semântico, a ponto da própria 'crita não transmitir os seus verdadeiros pensamentos.
E foi com 'se modo 'tranho de 'crever que ele se candidatou a 'critor, ávido por o sucesso do livro a ser publicado e que, na sua equivocada opinião, poderia impressionar milhares de leitores e com isso conquistar o sonhado galardão das letras.
O conteúdo do calhamaço reunido por o nosso protagonista era em boa medida interessante, porquanto é ampla e generosa a intertextualidade.
Todavia, o vernáculo reclamava dos açoites com que lhe tratavam aqueles textos defeituosos e truculentos, cujos vícios e ignorâncias contaminavam desde a língua culta ao mais humilde dos falares.
Estava no prelo um verdadeiro traumatismo literário.
Razoáveis tramas e confusas construções lexicais abundavam as páginas daquele livro, como a chuva que se precipita na terra abrindo sulcos e caminhos sem rumos.
A vaidade e a preguiça do autor em aprender os meandros da língua fizeram-no gastar inutilmente tempo, trabalho e dinheiro, apregoando seus mal-'critos na imprensa vulgar e agora numa coletânea inócua.
O mais grave é que o resultado da obra seria um verdadeiro desserviço à comunicação, à educação, ao conhecimento e, enfim, à Língua-pátria em todas as suas 'tâncias culturais.
Para sorte do 'criba e dos leitores, o editor não aceitou publicar o alfarrábio coalhado de palavras e idéias desconexas, exceto se o material fosse submetido a uma ampla revisão, o que seria, na prática, a tradução para o Português.
A casa publicadora diagnosticara poemas sem poesia, crônicas e contos com crise de prosódia, ortografia, concordância, colocação pronominal e de outras convenções da língua, mormente os deturpadores erros de pontuação.
Em o julgamento da editora, o incauto folhoso não passava de literalice armada com «línguas 'tranhas».
Ocorre que a mesma ignorância beletrista não permitia ao artífice perceber que 'tava defraudando o principal instrumento do seu trabalho:
a língua.
E que sua obra, além de depor contra a cobiçada fama, seria apenas mais um dos milhares de inimigos da boa aprendizagem, que se publicam aleatoriamente nos guetos do mercado editorial.
Assim, em vez de conhecimento, magia e sonhos, 'sa publicação levaria engodo, tédio e pesadelos ao leitor, visto que o 'cravo de 'sas «línguas 'tranhas» trocava jogo de palavras por guerra de palavreado;
ao invés de tecer vocábulos, emaranhava-os;
e brigava com as palavras, na inábil tentativa de brincar com elas.
O público, certamente, sentiria muito desgosto e não o gosto por a leitura.
O nosso «ilusófono» personagem teve o triste fim que é reservado aos 'cribas presunçosos:
a cúspide da frustração.
Tudo porque o literaço (ou a literaça) busca apenas o prazer autoral e não a satisfação do leitor.
Ele (ou ela) não tem em conta que 'crever é um exercício lento e prazeroso de aprendizagem;
que se pode até abdicar das amarras literárias e do propósito social, mas nunca negligenciar e difamar a Língua-pátria.
Os que insistem em 'sa ótica são vistos como débeis caçadores de notoriedade pessoal e destruidores da arte.
Como há muitas obras em «línguas 'tranhas», e a população baseia sua fala e 'crita no linguajar circulante, convém que todos levemos mais a sério o nosso idioma, domando-o ao invés de crucificá-lo em publicações depreciativas.
E para que as dificuldades lingüísticas não inibam o nosso 'pírito criador, nem nos excluam da oportunidade da livre expressão, uma das medidas dignas de qualquer cidadão que deseja a saúde cultural do País é consultar manuais e «médicos» revisores.
Nem sempre os que dominam a língua são bons 'critores, mas a arte de 'crever exige bom conhecimento de ela.
As «línguas 'tranhas» 'tão se reproduzindo céleres e globalizadas como uma torre de babel:
na Internet, em placas de ruas e 'tradas, no comércio e instituições;
também em documentos, jornais, rádios, televisão, 'colas e livros -- não por a evolução natural dos signos, mas por o câncer idiomático causado por vícios e erros crassos.
O presente texto não é preconceituoso, nem o mais credenciado para merecer as bênçãos da madre-língua, assim como o subscritor não se arvora algoz de apedeutas e tampouco se proclama arauto do saber.
Mas é mister que todo brasileiro responsável 'tude e cuide para que 'sas «línguas 'tranhas» não prosperem, pois elas envergonham e descaracterizam a Língua-pátria, com mais nocividade e agressividade que a polêmica invasão do 'trangeirismo.
Qualquer aprendiz, como 'te articulista, sabe que é usança hoje em dia falar e 'crever em «línguas 'tranhas», em detrimento do idioma nacional.
Mas há que se ter o mínimo de senso crítico e 'tético para evitar fazer publicações sem o devido amparo normativo, pois é em 'se drama que a fama precede a lama -- onde línguas e rábulas se abodegam, com falsa e abusiva autoridade, para prender e surrar o inocente e assaltado Português.
Número de frases: 45
O endereço não existe mais.
Depois de sete anos no ar cobrindo o mundo da música eletrônica, Tati Suarez, mentora e fundadora da página, resolveu aposentar o www.cenaeletronica.com, site que foi referência em Porto Alegre e se 'palhou por o Brasil.
Tati, natural de POA, mas criada em Ribeirão Preto (SP), Santo Ângelo (RS) e Passo Fundo (RS) é publicitária e dedicou quase uma década de sua vida à cena gaúcha.
Foi a primeira a desbravar o mundo da e-music na região, além de ter 'quentado o movimento da cidade com algumas festas.
Tati fala sobre a sua trajetória, a ascensão e queda do site e sua atual relação com a eletrônica -- " A música eletrônica continuará sendo uma das trilhas da minha vida, mas não será mais o foco de ela.
Como surgiu seu gosto por música eletrônica?
A minha paixão por a música eletrônica começou nos anos 90, quando teve a primeira grade festa eletrônica em Porto Alegre, a LM.
Em a época eu 'tava acostumada a freqüentar festinhas sem muita produção, onde o máximo que se 'cutava era technotronic, heheheh ...
Então quando cheguei naquela festa e vi Altern 8, Moby ...
Pensei ... É disto aqui que eu gosto!
Como nasceu a idéia do site?
Tudo começou em 2000 quando fui convidada para 'crever uma coluna semanal num site gaúcho direcionado para tudo o que acontece na noite. (
www.queb.com). O nome da minha coluna era Cena Eletrônica.
Era uma época em que a noite porto alegrense tinha somente um clube eletrônico, no qual eu também trabalhava, o Fim de século.
Uma época em que faltava informação para os freqüentadores do clube, muitos achavam que se fantasiar era ser moderno, que 'tar brilhando na luz negra era o caminho (risos).
Foi então que topei o convite, para tentar levar um pouquinho de conhecimento para aqueles que 'tavam desinformados.
Comecei contando um pouco do início da cena mundial, depois contei um pouco sobre os 'tilos musicais dentro da música eletrônica e assim por diante.
Acontece que depois de praticamente um ano de coluna, o número de mails e a gana das pessoas por mais informação era tanta que resolvi criar um site destinado totalmente à música eletrônica.
Foi aí que nasceu o cenaeletronica.
com. Em a época o Rraurl.
com era um dos únicos sites destinados ao assunto, mas abordava muito pouco a cena sulista, então o cena nasceu para preencher 'ta lacuna.
Em todos 'tes anos tentei fazer com que o Cena fosse um site que abordasse além da cena local, a cena brasileira e a cena mundial.
Você começou sozinha?
Sim, sim ...
Comecei tudo sozinha.
Tudo feito por mim, a não ser o logo que foi criado por o publicitário Telmo Lanes, um amigo.
O site possuía abrangência nacional, falava com todo o país, mas você que comandava sozinha e possuía uma equipe de colaboradores.
Como funcionava 'se processo?
Como você «chefiava» 'sa equipe que 'tava bem longe?
Nunca chefiei ninguém, na verdade era um processo bem light.
Os colaboradores me mandavam os textos para as suas colunas e eu diagramava.
Tudo era feito por mail ...
Já as notícias eu mesmo corria atrás.
Qual importância que você acredita que o site representou para à cena de POA?
Foi o início, o start.
Depois vieram outros sites bem legais também ...
O que você sentia / recebia de retorno dos leitores do Cena?
Sempre fiz o Cena com muita paixão, como se fosse um filho.
Por isso cada e qualquer elogio era muito gratificante.
Nunca tive que correr atrás de colaboradores.
As pessoas se ofereciam, assim nascia uma nova coluna.
Muitas vezes tive que negar colaboradores, uma pena.
Depois de sete anos você resolveu encerrar a vida do site.
Como aconteceu?
Por quê?
Foram sete anos de Cena Eletrônica e mais um de coluna, então foram oito anos dedicados ao projeto.
Aconteceu que a minha vida mudou muito em 'te tempo.
Não trabalho mais com eventos e parei de freqüentar os clubes e as raves.
Tenho a maior parte do meu tempo destinado à minha filha que em 'te mês completará um ano.
Não me sinto mais capaz de seguir com o site.
Não tenho mais o domínio sobre o assunto.
Agora 'tou do outro lado, aquele que precisa acessar para saber o que 'ta acontecendo.
O que você acha da cobertura que a mídia dá para a música eletrônica?
Acho que os sites ainda são a grande mídia da música eletrônica.
As demais ainda são preconceituosas.
Em a TV pouco se vê e nas revistas pouco se lê, a não ser quando um traficante é preso com tantos comprimidos de ecstasy ( ...
«vendidos em festas tipo rave» ...).
Você colaborou com outros sites e / ou outra mídia?
Como foi?
Sim, colaborei ...
Escrevi alguns textos para sites e algumas revistas.
Foi bacana.
Em a maioria falando sobre a cena gaúcha.
Você também produziu eventos, certo?
Quais? Como foi 'sa experiência?
Trabalhei durante 10 anos no Fim de Século, que agora se chama Neo, que durante muito tempo foi o único clube eletrônico dos gaúchos.
Trabalhei promovendo algumas raves que passaram por Porto Alegre, como A Ellus Rave Party, que trouxe o Doc Martin para a cidade, a Batucada Rave que trouxe o Green Velvet, a The Farm, entre outros eventos.
É uma despedida de vez de Tati Suarez do mundo da e-music?
Acredito que sim.
A música eletrônica continuará sendo uma das trilhas da minha vida, mas não será mais o foco de ela.
O que acha da cena eletrônica hoje no Brasil?
E no mundo?
Acredito que hoje em dia as coisas 'tão mais parelhas.
Não existe mais tanta diferença entre o Brasil e o resto do mundo.
Claro que ela fervilha mais onde ainda seja novidade.
Mas, como falei anteriormente, atualmente não me sinto mais capaz de responder a 'ta pergunta, porque sou uma pessoa totalmente por fora do assunto ...
Qual o recado que você deixa para todos que acompanharam o site?
E para os fãs de e-music?
Só tenho a agradecer, foram anos bem legais.
Obrigada!
E para os fãs da e-music peço que sempre tenham como foco a música, o resto é bobagem.
Sé quem 'ta com a mente limpa é que realmente consegue sentir a música.
Número de frases: 82
Recebi de uns amiguinhos de Porto Alegre 'sa preciosidade que gostaria de ter podido acompanhar, o lançamento em 12 de agosto do livro de Eloy F. Fritsch sobre música eletrônica.
Como vou ficar longe da terrinha mais um tempinho e nem botei a mão da massa, publico aqui a materinha que me enviaram, com a com licença de vocês, que já peço as excusas por antecipação, porque eu costumo fazer diferente, mas me parece que 'sa matéria é por demais um tanto quanto bastante interessante para me ficar 'perando voltar e não vi inguém falando disso tão bom aqui.
Então tá, tá!
O livro «Música Eletrônica, Uma Introdução Ilustrada» apresenta assuntos que abrangem diversos tópicos relacionados à síntese sonora, 'tética, história, compositores, obras musicais, instrumentos eletrônicos, técnica de composição, discografia e aplicações da linguagem Max / MSP na composição musical.
Os conteúdos tratados são, na sua maioria, introdutórios, e destinam-se a 'tudantes, músicos, compositores e iniciantes no assunto.
O texto é rico em imagens, 'quemas e exemplos de programas que facilitam a compreensão das idéias.
Em 'ta obra, a música eletrônica é apresentada como uma modalidade de composição que expandiu o material sonoro da música tradicional e prosseguiu para uma nova arte sônica, diferente da música instrumental, chamada de música eletroacústica.
Sobre
O Autor
Eloy F. Fritsch, 40, é um dos pioneiros da Música Computacional e Eletrônica no sul do Brasil.
Iniciou seus experimentos em síntese sonora em 1984 com sintetizadores analógicos.
Participou da criação do LC & M -- Laboratório de Computação e Música da UFRGS em 1993 e dos primeiros Simpósios Brasileiros de Computação & Música.
Mais tarde foi responsável por os primeiros cursos de Música Eletrônica na UFRGS utilizando o Roland Modular System-700 e outros instrumentos de seu 'túdio particular.
Fritsch foi professor da nova geração de músicos eletrônicos gaúchos e de tantos outros compositores que realizam música eletroacústica.
Introduziu a linguagem Max / MSP e diversas técnicas de composição por computador no Rio Grande do Sul.
Atuando como professor do Departamento de Música da UFRGS desde 1999, desenvolveu vários projetos científicos / artísticos, entre eles, a criação do Centro de Música Eletrônica do Instituto de Artes da UFRGS.
É também professor do Programa de Pós-gradua ção em Música e dos Cursos de Extensão em Música Eletrônica da UFRGS.
Atua como coordenador do Grupo de Pesquisa em Computação Musical, coordenador da Comissão de Pesquisa do Instituto de Artes e como colunista / colaborador da revista paulista Teclado & Piano.
Em paralelo, desenvolve um projeto de composição com sintetizadores, computadores e teclados eletrônicos tendo lançado oito álbuns instrumentais e participado de várias coletâneas internacionais.
Produziu e apresentou o Programa de Rádio Música Eletrônica na Rádio da Universidade 1080 AM por três anos consecutivos.
Em 1983 criou o grupo Apocalypse no qual atua como compositor e tecladista tendo gravado 10 álbuns, dois DVDs e realizado apresentações no Brasil e exterior.
Fritsch compôs trilhas sonoras para rádio, vídeo, internet e televisão e foi o idealizador da Orquestra de Alto-falantes do Instituto de Artes da UFRGS.
Número de frases: 22
Suas composições eletroacústicas foram apresentadas em festivais de música contemporânea, vídeo performances, concertos multimídia, concertos de música acusmática, instalações sonoras e eventos de divulgação científica promovidos por a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A história da editora Bipolar pode ser contada através de meses sem que se corra o risco de soar enfadonho.
Isso porque a vida da empresa (até o presente momento) resume-se a pouco mais de um ano de atividades.
Pode não parecer muito, mas as coisas aconteceram de forma bastante intensa em 'se período.
Criada oficialmente em maio de 2005 a partir da reunião de quatro pessoas -- o Marcos Messerschmidt, o Luiz Maurício Azevedo, o Bruno Germer e o Helder Rafael, que acabou substituído por o Cristiano Muniz, a Bipolar surgiu como surgem muitos projetos apaixonados:
com muita vontade e poucos recursos.
«Lançamos uma editora e publicamos livros com praticamente nenhum dinheiro.
Suicídio», lembra o Marcos Messerschmidt.
Se fossemos falar em termos médicos, o lançamento poderia ser classificado como a fase maníaca da editora.
Nada mais adequado se pensarmos no nome 'colhido.
«Bipolar é um nome que abre 'paço pra brincar com as ambigüidades, os opostos, os reflexos, as contradições.
Era basicamente 'sa a idéia».
Movidos por a euforia
Em a euforia de um empreendimento recém inaugurado, os integrantes foram em busca do seu objetivo principal:
inovar 'teticamente e lançar novos autores.
Com belos projetos gráficos e prezando por a qualidade dos materiais, foram publicados os livros O Último Dia, do publicitário carioca Kelvin K., e Revelações para Idiotas, do Luiz Maurício Azevedo, um dos sócios da Bipolar, além de Mal Dito, do jornalista Juremir Machado da Silva, um 'critor já experiente.
Experiente? No meio de novos autores?
Explica-se:
o Juremir foi um incentivador da editora, cedendo alguns originais para a publicação e abrindo 'paços de divulgação.
«Claro que ele foi a 'trela, condição naturalmente 'colhida por os veículos.
Natural e por isso mesmo previsível.
Sempre se aposta no velho, mesmo que o velho venha com cara de novo», provoca o Marcos.
Mesmo com um 'critor renomado no catálogo, a intenção da Bipolar sempre foi apostar no novo.
E a inspiração veio de outra editora gaúcha, a " Livros do Mal.
«A Livros do Mal sempre foi uma referência pra nós, por o pioneirismo e por o que realizou.
Um monte de caras se juntou e fez bastante barulho.
Eles abriram o caminho pra todos que vieram depois com 'se tipo de iniciativa, incluindo a Bipolar.
Curiosamente, fomos chamados de «Livros do Bem».
Mais uma situação de bipolaridade».
E como sempre, abrir 'paço num mercado fechado não é fácil.
Mas a editora chegou a aparecer bastante.
«Conseguimos muito mais 'paço do que deveríamos ter conseguido, por a nossa total ausência de poder econômico.
Isso é uma prova de que a inteligência pode, sim, romper algumas barreiras que se têm por aí».
E ainda por cima contaram com a ajuda de uma provável concorrente, a Editora Sulina.
Segundo o Marcos, " até nossos livros botaram pra vender na banca de eles na Feira do Livro de Porto Alegre!
É gente que realmente se preocupa com cultura».
Em se tratando de uma editora novata, podia-se dizer que as coisas 'tavam acontecendo pra valer.
Tempos de depressão
Depois do lançamento dos livros, alguns problemas financeiros atrapalharam os planos da editora e a sociedade foi desfeita.
Hoje, a Bipolar é o Marcos Messerschmidt.
Mas isso não significa o fim da empresa.
Muito pelo contrário.
«A Bipolar 'tá num daqueles períodos de gestação, um período depressivo.
Mas a «mania» deve voltar em breve», anuncia.
Gente nova e talentosa por aí não falta, é fato.
E apesar dos imprevistos no caminho, a motivação que fez a editora surgir se mantém intacta:
«Aceitamos quem tem talento, 'crevendo, desenhando, ou fazendo o que bem entender.
O importante é trocar, intercambiar.
Estou aí pra fazer mais barulho, o que sempre foi o propósito da editora».
E completa:
«Mas barulho bom, já que sempre buscamos qualidade».
Pra mobilizar o retorno, a internet soa como uma boa opção, certo?
«A Bipolar nunca teve site.
Uma coisa a ser urgentemente resolvida.
Aceitamos voluntários».
Interessados? marcosmesserschmidt@terra.com.br é o contato.
Façam barulho à vontade.
Número de frases: 57
É hora de retomar a euforia literária.
A frase dos pais mudou de uns tempos para cá, antes se falava " meu filho, 'tude para ser doutor para conseguir um bom emprego ..."
agora se diz «meu filho 'tude para passar um concurso público ou não terás paz e tranqüilidade ...».
A admiração, antes por os médicos, engenheiros e advogados, agora é por o fiscal de renda, auditor da receita ou outros cargos públicos.
O Brasil força seus filhos com nível superior ou não, a buscar oportunidades nos concursos públicos, pois é onde se encontra 'tabilidade e os melhores salários.
O número de inscritos é enorme e com isso surgiu um novo mercado, o dos concursos.
Foram criados cursinhos preparatórios, apostilas 'pecificas, livros, enfim, uma infinidade de «comércio» baseado nos concursos (além das inscrições é claro.)
até turismo, com excursões para os locais de prova.
Em os dias 14 e 15 de abril último, na cidade de João Pessoa, os hotéis tiveram uma ocupação de fazer inveja na alta temporada, 100 %.
Até as pousadas 'tavam lotadas, o motivo não foi carnaval fora de época nem o verão nordestino, o grande causador foi o concurso do TRE da Paraíba.
A cidade foi invadida por milhares de «turistas» ansiosos em se tornar moradores.
Não recrimino a existência destes, contudo é preciso haver um equilíbrio entre as ofertas das iniciativas privadas e públicas e o que acontece é que a primeira 'tá em déficit causando uma corrida para o outro lado.
Não existem oportunidades de emprego em número suficiente para compensar a enorme demanda causada por o grande número de profissionais lançados no mercado.
A insegurança e os baixos salários, associados a «'cravidão» de jornadas de trabalho de mais de 40 horas semanais (sem se falar na total abnegação exigida por os empregadores, deixando as famílias, alicerces de nossa sociedade, em segundo ou terceiro plano.)
fazem dos cargos concursados um porto seguro para a massa assalariada.
O movimento é tão forte que influência até os cursos universitários, a participante do Big Brother Carol comentou no programa, em diálogo com o Alemão que queria terminar o curso de direito e fazer um concurso para se realizar.
Isso é verdade.
A procura por o curso acima mencionado é enorme, não por o mérito de ser um advogado e sim por ser a área que mais vagas 'pecíficas possui, além de servir de base a todas as outras.
Os engenheiros hoje são forte concorrentes nas áreas fiscais e cargos administrativos devido ao preparo durante a faculdade e a experiência adquirida na profissão.
Ou seja, as careiras ficaram de lado ou se tornam atividade de renda extra.
Número de frases: 20
Enquanto existirem vagas a serem preenchidas ainda restará um sonho «profissional» para nós, população de classe média brasileira, contudo deixo uma pergunta no ar, o que será dos nossos anseios, o que nos motivará enfim, qual será nossa meta quando as vagas acabarem?
«Ninguém quer saber de drama.
O que interessa é só filme para jovens.
Terror, suspense, humor 'catológico».
Quem ouviu 'sa frase, dita de diferentes maneiras por diferentes executivos do mundo do cinema, brasileiros e 'trangeiros, foi um amigo meu, também diretor de cinema.
Durante o Festival do Rio, que se encerra hoje, meu amigo teve inúmeras reuniões com gente do lado business do cinema.
E o diagnóstico do mercado é 'se:
pelo menos quando muito dinheiro 'tá envolvido, cinema é feito para adolescentes, ou adultos de mentalidade adolescente.
Não posso negar que 'cutar isso me deprimiu.
Não que eu não soubesse que a preferência do mercado era mesmo o entretenimento mais banal.
Mas uma frase como «drama não interessa» chega a ser uma ofensa pessoal para alguém que gosta de Almodóvar, de Bergman, de Cassavetes, de Truffaut, de Altman, de Paul Thomas Anderson.
Também não posso negar que a frase funcionou como uma injeção de ânimo em 'se momento em que realizo meu filme completamente fora de qualquer sistema de financiamento, oficial ou «de mercado».
Mas nem todos os filmes podem nem devem ser feitos como o meu Um Romance de Geração, que 'tá sendo produzido de forma cooperativa, sem patrocínio ou investimento nenhum a não ser o dos artistas e técnicos envolvidos.
Cineastas, assim como técnicos e atores, precisam e merecem viver do seu trabalho.
Em algum nível, é preciso e até saudável lidar com o mercado.
Mas o que fazer se a cada ano que passa 'se mercado é mais e mais nivelado por o mínimo (e bota mínimo nisso) denominador comum?
Sempre houve a distinção entre comércio e arte, no cinema.
E muitos verdadeiros artistas do cinema conseguiram e conseguem se equilibrar no fio da navalha e produzir arte dentro do «sistema», assim como muitos cineastas e roteiristas que nunca tiveram outra ambição se não produzir hits foram também capazes de transcender o marketing e fazer bons filmes.
Sinto, no entando, que cada vez mais 'se equilíbrio se torna improvável, impossível.
Toda 'sa conversa me lembra uma resposta que Robert Altman deu numa entrevista publicada no número 2 da fabulosa (e impossível de ser achar no Brasil) revista Projections:
«Há uma cena em «O Jogador» em que Griffin Mill diz «me fascina a idéia de eliminar o roteirista do processo artístico», e ele continua,» então, se der para eliminar também os diretores e atores, nós realmente teremos conseguido alguma coisa de valor».
E isso é exatamente o que os executivos dos 'túdios 'tão tentando fazer, embora talvez eles nem tenham consciência disso.
Essa entrevista de Altman é de 13 anos atrás.
Hoje, a coisa já é bem pior, e 'tá ficando pior.
Em o Brasil, não importa se nos tempos de FHC ou se na era Lula, referir-se ao cinema como arte, dizer-se «artista», é praticamente falar um grosseiro palavrão.
Foi Domingos de Oliveira quem me alertou para isso, e ele tem razão.
Mas por quê?
Gostaria que alguém me respondesse.
Estou fazendo um longa-metragem livre.
Pagando, com meus companheiros de viagem atores e técnicos, o preço de trabalhar em horários doidos e com limitações técnicas.
Mas 'tou, 'tamos todos, vivendo uma experiência do cinema como arte.
Se o filme será, ao final, diante dos olhos dos seus 'pectadores, sejam eles quantos forem, válido artisticamente, isso já é outra história.
Esperamos todos que seja sim, e em nosso crédito temos a integridade de cada uma das nossas ações.
Nenhum ator foi 'colhido por nenhum critério que não fosse a qualidade do seu trabalho.
Nenhuma decisão, de roteiro, de enquadramento, de edição, de nada, 'tá sendo tomada por nenhum motivo que não seja fazer um filme honesto e que tenha algo a dizer.
Como disse antes, todos nós precisamos viver, e 'sa é uma aspiração tão legítima quanto a de um médico ou dentista de querer ter pacientes nos seus consultórios pagando por seus serviços 'senciais.
Faremos, farei, outros filmes em que compromissos tenham que ser aceitos, e se tudo der certo 'ses trabalhos serão também valiosos artisticamente, serão também honestos e íntegros.
Eu não sou contra a indústria do cinema.
A indústria do cinema é necessária.
A indústria do cinema nos deu Táxi Driver, nos deu O Último Tango em Paris.
Mas assim como tantos médicos e dentistas que, à parte do trabalho em clínicas e consultórios particulares, fazem diversos tipos de serviços comunitários e sociais, também os cineastas que não querem ver a arte do cinema morrer -- seja no mundo, seja dentro de eles próprios -- devem em algum momento fazer um filme livre.
Unzinho, pelo menos, antes que os donos da bola consigam tirar do jogo de vez todos os diretores, roteiristas e atores dignos de assim serem chamados.
E antes de terminar 'se texto me ocorre que também críticos e 'pectadores deveriam assumir um papel em 'sa luta.
Boicotar a burrice e valorizar a coragem não custa nada.
É só uma transferência de investimento.
Em a hora de pagar um ingresso, onde é que você bota o seu dinheiro?
Número de frases: 46
O conhecimento das propriedades medicinais das plantas é uma das maiores riquezas da cultura indígena.
Em Boa Vista (RR), dois projetos criados com o objetivo de promover o resgate cultural do hábito da utilização das plantas para a cura de enfermidades e também o cultivo e fabricação da jiquitaia (pimenta em pó) 'tão ganhando 'paço nas 14 comunidades indígenas existentes no município.
Implantado em maio deste ano por a Prefeitura de Boa Vista, o projeto «Didia», que na língua wapixana significa pimenta, é pioneiro na região e ensina as mulheres da comunidade de Vista Alegre, primeiro local onde foi implantado, o processo de fabricação da jiquitaia, produzida com a mistura das pimentas malagueta e murupi, secas e moídas, acrescidas de sal.
Para efetivar a produção, as mulheres receberam treinamento sobre cultivo e utilização de pimentas.
Maria Aniceto, que não sabe ao certo a idade, é uma das idosas que idealizou o projeto desenvolvido.
Ela e mais seis mulheres das primeiras gerações de moradores de Vista Alegre, a 78 km de Boa Vista, tiveram a idéia de reativar a tradição da jiquitaia e também ensinar aos filhos e netos as técnicas da fabricação, pois de 'ta maneira poderiam utilizar sua cultura como forma de garantir uma renda extra.
«A gente começou procurando quem poderia nos ajudar.
Foi quando fizemos contato com os técnicos da Prefeitura de Boa Vista, que já nos ajudam em outros projetos e começamos a trabalhar», conta Maria.
Ela diz que das primeiras mulheres somente cinco 'tão firmes na proposta.
«Duas desistiram, mas eu sempre digo a todas que não desanimem, porque vale a pena», comenta Maria Aniceto.
Para aperfeiçoar as técnicas e aprender corretamente o manejo e cultivo da pimenta, a Prefeitura ofereceu em 'te mês de setembro um curso com duração de uma semana sobre a «Cultura da Pimenta» para 15 pessoas da comunidade.
Entre os participantes somente um era homem.
Além da fabricação da jiquitaia, aprenderam sobre molhos e geléias feitas do material.
Mil pés de pimenta foram plantados em maio para serem utilizados nas aulas práticas do curso.
«Nós começamos plantando em copos descartáveis e aos poucos mudando para a lavoura.
Como eu já conhecia o processo, ensinei as outras pessoas», conta Generosa Julita Marcolino, outra idosa da equipe pioneira.
Ela diz também que já 'tá em andamento o plantio de mais 1.120 pés de pimenta.
A produção da jiquitaia 'tá fortalecendo a relação entre jovens e idosos.
Valdéria da Silva Pimentel, 14, é uma das netas de Maria Aniceto.
Ela conta que não consumia nem gostava de pimentas.
«Eu comecei a olhar minha avó trabalhando com a malagueta e a murupi, plantando, colhendo e colocando as pimentas para secar, o jeito como ela se dedicava ao manejo, à fabricação da jiquitaia.
Então percebi que ela queria mesmo era que a nossa cultura fosse preservada», diz.
Valdéria foi uma das que passaram por a capacitação promovida por a Prefeitura.
Para se fazer a jiquitaia é necessário que as pimentas sejam postas para secar no mínimo uma semana no sol ou levadas ao forno por duas horas.
Depois de seca, ela pode ser moída em pilão convencional ou no liquidificador, sendo misturada um pouco de sal para obter um sabor mais agradável.
As 'peciarias já começam a ser comercializadas em feiras de Boa Vista por um preço mais barato que a do mercado local.
Enquanto que o preço médio do saquinho pequeno da jiquitaia no comércio boa-vistense é de R$ 5, a jiquitaia de Vista Alegre sairá por R$ 3,50.
O objetivo é promover a auto-sustentabilidade das comunidades indígenas.
Plantas Medicinais -- O outro projeto que vem sendo trabalhado com sucesso é o Farmácia Verde, um piloto de desenvolvimento sustentável que a Prefeitura de Boa Vista desenvolve com 514 indígenas nas comunidades do Morcego (18 famílias) e Vista Alegre (83 famílias).
O projeto começou a ser desenvolvido em maio de 2005 promovendo a capacitação das comunidades sobre o cultivo e extração de plantas medicinais.
A proposta é preservar a biodiversidade e ainda trazer vantagens econômicas e sociais, ampliando a geração de renda entre as famílias além de promover o resgate da cultura tradicional do uso dos recursos da natureza para a cura das enfermidades.
Com o treinamento os indígenas puderam conhecer 20 variedades diferentes de plantas medicinais que podem ser cultivadas em canteiros.
A bióloga Salete Lima, coordenadora do curso, lembra que o uso das plantas medicinais no dia-a-dia das comunidades indígenas sempre foi de grande importância.
«Essa era uma prática que vinha sendo lembrada apenas por as mulheres mais idosas das comunidades.
Elas agora 'tão contentes em ver que 'se conhecimento será preservado», enfatiza.
Terapêuticas -- Os benefícios das plantas medicinais hoje são bastante abrangentes e ultrapassam a barreira da utilização por as comunidades indígenas.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que cerca de 80 % da população mundial fazem uso de algum tipo de planta na busca de alívio de alguma sintomatologia dolorosa ou desagradável.
Em o Brasil, os Ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia prevêem um investimento de R$ 6,9 milhões até final de 2008 em projetos de parceria público / privada para o desenvolvimento de bioprodutos terapêuticos, incluindo o uso de plantas medicinais e fitoterápicos.
Em 3 de maio deste ano foi aprovada a Portaria nº 971 do Ministério da Saúde que 'tabelece a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde.
Número de frases: 39
Isso significa que os tratamentos em Acupuntura, Homeopatia, Fitoterapia e Crenoterapia (que utiliza águas minerais como recurso terapêutico) vão 'tar em breve disponíveis aos usuários do Sistema Único de Saúde -- Sus.
Teófilo Lima é o artista piauiense em maior evidência no momento no cenário musical de Teresina.
Seus shows são disputados por uma legião de fãs, admiradores e pessoas que vão conferir seu trabalho bem de perto, levadas por boas referências.
O boca a boca, além do talento, é o grande aliado desse cantor e músico parnaibano que foi 'pontaneamente absorvido (e consumido) por o cenário musical de Teresina.
«Sem nenhum 'quema de marketing ou divulgação, trabalhando de forma independente, já consegui vender cerca de 5 mil cópias do meu último disco.
É um trabalho de formiginha», diz Teófilo.
Mas o artista credita também o sucesso a excelente fase por a qual passa a música pop piauiense.
«A música piauiense tá muito forte.
Tem muitas tendências».
Em a noite da segunda-feira, 29, Teófilo e sua banda fizeram show solo no Blen Blen Brasil, casa noturna paulistana considerada referência para os modernosos e palco para artistas como Luciana Melo, Jairzinho e Simoninha.
Em o domingo, ele participou do Geléia na Geral, show com artistas e banda piauienses dirigidos por Arimatan Martins, também no palco do Blen Blen.
Perguntado sobre o que a música piauiense teria de diferente para oferecer ao público paulistano, Teófilo diz que o que temos de mais novo é a gente mesmo, nossa história, nossas referências.
O nosso pop é diferente.
O nosso reggae é diferente.
A gente tem uma pegada diferente:
o rock piauiense caminha para o lado do baião, as letras falam do Piauí, da Pedra do Sal, do Cabeça de Cuia.
Sem 'quecer dos temas de amor, a gente acaba se voltando para o lado regional."
Em a quinta-feira, 1º de junho, Teófilo toca no Mercado Municipal de São Paulo.
Seus planos a longo prazo incluem uma temporada no Rio de Janeiro para tentar se 'tabelecer no eixo artístico que é destino obrigatório para quem quiser fazer sucesso na carreira.
«O segredo para se 'tabelecer lá é fazer bons shows e cativar o público», ensina Teófilo.
A temporada promete ser grande.
Número de frases: 21
Poesia na Sala de Aula
A leitura é fundamental para o desenvolvimento intelectual e para a construção do conhecimento, pois ela modifica, transforma, amplia a visão de mundo, proporciona a descoberta da realidade, das idéias, das palavras, levando o leitor até a sua plenitude humana.
Levar a leitura ao encontro do aluno e vice-versa é um compromisso de todos os envolvidos e comprometidos com a educação.
Sendo assim, a 'cola e o professor e a professora exercem papel fundamental na mediação para a construção desse conhecimento.
E a Poesia é extremamente significativa para a reflexão e para a descoberta do interior de cada um, possibilitando, assim, a aprendizagem e o prazer por a leitura e por a literatura.
Acredito que através do texto poético é possível ensinar e aprender, abrindo portas nos corações e deixando fluir toda a sensibilidade existente na 'sência de cada ser.
E, quem sabe, assim, seja viável a construção de um mundo diferente, mais humano.
E o mediador do encontro do aluno com a Poesia é você, educador e educadora!
Refletindo sobre nossa realidade 'colar, retomo um dos mestres da literatura brasileira, Carlos Drummond de Andrade * que diz:
«Sei que se consome poesia na sala de aula, que se decoram versos e se 'timulam pequenas declamadoras, mas será isto cultivar o núcleo poético da pessoa?"
e cito, também, Gloria Kirinus *, que ao referir-se ao trabalho com textos poéticos na 'cola, afirma que " a poesia na 'cola moderna sofre o descaso de parte de pais e professores.
São contadas as 'colas que reservam um horário 'pecial para poesia na sala de aula.
E que contam com professores motivados e preparados para 'ta re-inicia ção.
De a mesma forma, os textos 'colares, quando apresentam poemas, o fazem com o propósito de verificar a compreensão do aluno, quando não para inculcar valores morais ou patrióticos.
a idéia de sentir, com Freinet, a poesia como sendo um canal «para continuar na 'cuta misteriosa da vida» não faz sentido para a 'cola que subestima o lado intuitivo do aluno.
Concluo, citando outra vez Drummond e fazendo minhas 'tas suas palavras:
«Amar a poesia é forma de praticá-la recriando-a.
O que eu pediria à 'cola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética."
Jussára C Godinho Blog da Profe Ju:
Referências Bibliográficas (*
Andrade, Carlos Drummond de.
A educação do ser poético.
In: Arte e Educação, 1974) (*
KIRINUS, Gloria.
Criança e poesia na pedagogia Freinet.
Paulinas, São Paulo:
Número de frases: 26
1998) Entre os dias 15 e 17 de fevereiro, me despenquei de Niterói para o interior de Santa Catarina e fui participar do «II Acampamento da Juventude Rural das Encostas da Serra Geral», no pequenino município de Rio Fortuna.
Não não, amigos.
Não sou jovem rural, mas tive o prazer de passar três dias aprendendo muito com 'sa galera 'perta.
Organizado por o Projeto Juventude Rural em Movimento (PJRM), o acampamento teve como objetivo a integração e mobilização dos meninos e meninas que participam do Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural (Cedejor) nas próprias Encostas, no Centro-Sul do Paraná e no Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul.
O encontro reuniu cerca de 130 jovens às margens do Rio Chapéu e juntou num mesmo 'paço paranaenses, gaúchos e catarinenses.
Um baita intercâmbio entre as diferentes culturas da Região Sul do nosso País.
Palestras, gincanas, oficinas, banho de rio ...
teve de tudo por lá!
E se não fosse a chuva, no sábado, o luau teria rolado facilmente.
Foram três dias recheados de atividades e muita bagunça, mas o que mais me chamou a atenção mesmo foi o «choque» de culturas e, é claro, a comida!
-- Veja aqui a matéria que a galera do Patrola (RBS TV) gravou quando 'teve por lá.
-- Italianos, poloneses, ucranianos, alemães, portugueses, índios e negros ...
a influência dos povos que colonizaram o Brasil 'teve presente fazendo do acampamento uma pequena Babel com sotaques, costumes e gostos diferentes, mas tudo com um tempero bem brasileiro!
O símbolo de 'sa diversidade foi o jantar de sábado que contou com o sabor da culinária típica dos territórios onde o Cedejor atua, refletindo bem a pluralidade do acampamento.
Em o menu, as tradições gaúcha, alemã e ucraniana foram representadas por o o Arroz de Carreteiro, por o Gümese e por o Pierogue, respectivamente.
Eu que não sou bobo experimentei de tudo ...
Um pouco dos pratos
Arroz de Carreteiro:
dispensa comentários.
É um prato gaúcho ultra conhecido em todo o Brasil.
Um clássico que vem com carne seca no capricho e um monte de temperos saborosos.
Gümese:
delícia alemã feita com purê de batata, couve e carne suína desfiada.
Pra mim, foi a grande revelação da noite.
Engraçado é que não encontrei nada sobre o prato no Google.
Pierogue:
'se mimo veio da Ucrânia.
É uma 'pécie de pastelzinho cozido (lembra a massa da lasanha) com vários recheios e coberto por molho de tomate.
Muito gostoso e delicado.
Depois do jantar, os jovens do Cedejor do Centro-Sul do Paraná mostraram um pouco mais da cultura paranaense com a Dança do Korovai, que é também um grande pão doce enfeitado com adornos, muito popular em festas de casamento da colônia ucraniana.
A dança é um barato e o pão lembra muito o panetone.
Foi um privilégio ter 'se contato com as novidades gastronômicas, fora a convivência com tanta gente diferente, com sotaques variados e uma outra visão de mundo.
Uma visão de quem vive em contato diário com a natureza, colhendo os frutos do seu próprio trabalho e lutando para fazer do campo um lugar ainda melhor de se viver.
Número de frases: 33
-- Esse texto tem como base um pequeno artigo 'crito por mim no site do Instituto Souza Cruz.
Antes de qualquer coisa, vamos deixar claro:
meus patrões são legais.
Dentro do possível, nunca me sacanearam ou coisa parecida.
Tenho algumas regalias e consigo algumas folgas para ver meu filho em Salvador.
Por isso me sinto agora um herege.
Um sacana.
Mas eis que, sendo eu um sujeito ingrato e merecedor de uma boa surra, venho aqui falar dos concorrentes.
Pior até:
venho elogiar.
Sou cozinheiro.
Tenho um emprego legal.
Até o momento em que meus patrões resolverem ler 'te texto.
O Festival de Lençóis, na sua oitava bem sucedida edição, terá início dia 1 de setembro.
Peças de teatro, apresentações de grupos folclóricos, Los Hermanos, Gerônimo (um clássico, até para mim que sou chegado num Ramones) e Gal Costa como atrações principais.
Sem falar no Andrew Tosh, filho do lendário Peter.
É uma época em que a cidade enche.
Todo mundo se anima e vê chegar com suas mochilas um bocado de gente animadinha e faminta.
Ou você acha que agüenta vários dias sem comer decentemente?
Se a resposta for sim, faça sua inscrição para o ano que vem.
Quem sabe como o tal artista faquir que jejuava num dos contos de Kafka (O Artista da Fome de 1924).
Você quer comer.
Melhor, você vai precisar comer.
Isto é um fato.
Então, por que não comer bem?
Tem de todo tipo:
asiática, contemporânea, simples e honesta, pizza, carne, natureba, mexicana, junkie food etc..
Tem-se boa comida aqui.
Diversa, alegre, diferente.
E, como já 'tou atolado mesmo, venho aqui dar umas dicas úteis de como sobreviver em 'sa verdadeira selva de pedras (as simpáticas ruas são cheias de elas).
Comecemos por o café da manhã.
Você tá de ressaca, meio chumbado ainda e afinzaço de tomar aquele banho de rio, ou conhecer aquela cachoeira linda da qual tanto te falaram.
Caso sua hospedagem não inclua, eu indico um lugarzinho simplório mesmo, que fica na Rua das Pedras (nem se preocupe, 'ta rua você vai conhecer).
Com sete paus, a Dona Joaninha te serve café, suco, leite, pão, rosquinha de tapioca, beiju, panqueca, ovo e frutas.
Eu falei sete reais!
O rango demora um pouco e o 'paço é pequeno mesmo.
Mas vale.
Acabo de vim de lá e te digo.
Caso fique em pousada ou hotel, é de bom tom acordar cedo.
Não tô dizendo que vão tirar a mesa e te deixar na mão.
Mas, como representante da classe, confesso que é irritante ter de 'perar um ou outro hóspede retardatário, sendo que a gente também vai 'tar meio chumbado.
Se sua opção for comprar coisinhas no mercado, leve grana.
Aqui as coisas andam caras.
Bananas, mamão e outras frutas podem faltar já que a feira acontece somente às segundas e sextas.
E é raro encontrar frutas nos mercados.
O almoço é a refeição mais incerta de 'sa jornada.
Geralmente são quatro horas quando você, depois de ter visto o tal rio, tomado banho e tirado uma ondinha de integrado a natureza, vai ouvir a barriga roncar.
Com pouca grana, geralmente se deixa para mais tarde.
E a 'colha mais óbvia é a combinação cerveja e resenha até umas sete horas.
Se ainda sobrar algum, o destino mais certo é Grisante.
Grisante.
Mil vezes Grisante.
Comida boa.
Honesta, sem pirotecnias nem frescuras.
Em tempos bicudos, encontrar um Filet Mignon à Parmegiana de verdade é uma dádiva.
Pagando pouco ainda por cima.
Só peço atenção para a sopa.
Em si, ela é gostosa.
Contudo, o pão que acompanha já me veio duas vezes com o miolo congelado.
Eu de vez em quando pratico o dom do perdão.
Ainda mais sendo uma sexta e vendo que o namorado da cozinheira a 'perava na porta do restaurante com sua moto 125 cilindradas.
Sou do ramo.
A coitada devia 'tar com pressa.
Eu entendi e comi o pão resignado.
Coisas do amor (falo do pão, claro!).
Mas eis que você tá a fim de impressionar, mostrar que sabe das coisas.
Meio cansado desses mexicanos meia boca de sua cidade, onde os garçons chegam vestidos de mariachis mal-remunerados te servindo uma tortilla de gordura vegetal (confesso que já fiz algumas assim), você vai ligar para eles e fazer uma reserva.
Em a rua depois da igreja, perto da feira, Taquitos e Burritos, do gente fina Joseph e seu sócio e também gente boa, André.
Acho que ao dizer que Joseph é natural de Santa Fé, que sua Guacamole é genial e que seus molhos são bons pacas, já dá para te convencer.
Some a isso o fato de que você não vai gastar nenhuma fortuna.
Aí, é só 'quecer os mariachis insones da capital e comer uma Carne Adobada, por exemplo.
Lá o som é mecânico -- Santana e etc.-- e o garçom, além de ser colega no hotel onde trabalho, é boa praça, bilingue e atencioso.
Em o quesito Junkie Food (o termo serve apenas para o impacto, mas prefiro " rango de lanchonete ") algumas opções legais.
Em frente ao mercado temos o Açaí Art Café, que serve uns sandubas de ricota, tomate seco e coisas afins.
A o lado, o Ki Lanches com seu imperdível «American Galinha»!
Tudo bem, o nome do tal sanduíche é assim ...
incomum. Mas caso queria algo menos inovador, sugiro os clássicos Cheese Bacon, Chesse Burger, bla bla.
O suco de laranja também é honesto e barato.
Vale a 'pera.
Se seu caixa anda mais ou menos gordo, vai lá onde eu cozinho.
Bem, não vou citar o nome assim fácil.
Preciso do emprego.
Mas pergunta onde é que se pode achar uma carne do sol bacana, e um purê de aipim com noz moscada, num hotel com um cozinheiro metido a besta.
Não se assuste com a fachada austera, o muro alto.
Pode entrar e ficar à vontade.
O lugar é bacana.
A comida é boa.
Os garçons são atenciosos.
E o papai aqui vai 'tar à frente da comida.
Ao menos por enquanto.
Agora se você é daqueles que, mesmo dando um tempo em outra cidade, não largam algumas manias «mezzo urbanas, mezzo mussarela», e não passam uma noite sem comer pizza, sugiro a Pizza na Pedra.
Logo no início da cidade.
Ou melhor, «fica lá na pista», como a gente costuma falar aqui.
Pizza com sabores e recheios muito bons;
massa de ótima qualidade e garçons ligados, que não deixam a peteca cair, além de conseguirem rir de qualquer piada 'túpida que você faça.
O dono e pizzaiolo, Renato, passou um bom tempo na Itália e no Canadá.
E os garçons «Lé» e «Maicol» (não ria do nome de ele) nunca vão te deixar na mão.
Tome um chocolate da casa no final.
E, «pelamordedeus», não peça uma pizza somente para você e seus dezesseis amigos famintos.
Invista no seu bem 'tar:
afinal de contas você é um homem ou um rato?
Não precisa responder agora.
Logo perto do coreto, a Picanha na Praça vai ter música ao vivo.
A comida é legal, porém nunca comi a tal «picanha» carro chefe.
Agora a música ...
se você ainda (importante 'se " ainda ") curte ouvir Dia Branco, se jogue.
Tome umas Bohemias e chore de emoção.
O preço é razoável.
Bem no meio da folia, Girassol.
Deliciosa comida asiática e aventureira.
Afeganistão, Vietnã, além do tradicionalíssimo Frango Xadrez.
Custa uma grana.
Mas vale o paladar em sua boca durante horas e horas.
Comida roots?
O Godó de Banana do Neco ´ s Bar.
O cara é meio que um baluarte aqui.
Todo mundo que vem, e que tem algum interesse nas coisas do mundo, marca um horário, desembolsa pouca grana e come bem.
O Godó é típico da região da Chapada Diamantina.
Feito com banana verde e temperos, serve como acompanhamento à carne do sol ou a um carneiro belamente cozido.
Claro que tem muitos outros lugares aqui.
Interessantes, caros, baratos, simples e cheios de firulas.
Mas em 'tes nunca comi e, portanto, não vou arriscar minha reputação.
Arriscar o emprego já tá de bom tamanho.
Agora vocês me dão licença que vou digitar um currículo.
Bom apetite!
Número de frases: 125
O que aconteceu na Galeria Choque Cultural na última semana acendeu debates e boatos, e também gerou dúvidas.
A galeria sabia?
Foi jogada de marketing dos pixadores, que vão lançar um filme no próximo ano?
Independente de 'sas respostas, algumas considerações precisam ser feitas, pois o que à primeira vista foi um simples ataque às instituições (ou, se preferir, um showzinho de um bando de moleque querendo se provar) é na verdade a ponta do iceberg do problema da falta de uma indentidade nacional, da perda do patrimônio cultural imaterial e da inexistência de uma política (interna e pública) para 'te tipo de manifestação cultural do nosso povo.
A intenção aqui não é fazer uma matéria ou dar uma resposta, mas colocar os fatos e suas respectivas indagações:
1 -- Dentro da pixação pouquíssimos pixadores têm uma visão política da coisa, apesar de indiretamente a pixação ser, sim um ato político.
Raros pixadores fazem com outra intenção que não seja por «ibope».
Quantos fizeram o ataque por embalo?
Excluindo os idealizadores, quantos na cena agem politicamente?
Poucos ...
-- Apesar da pixação ser coletiva, foi uma ação que não reflete a opinião de todos.
-- Em a galeria existe um monte de artista, inclusive os proprietários, que 'tá correndo atrás do seu e que tem o maior direito de desenhar, pintar, vender e ficar milionário, mesmo porque a vida não é fácil pra ninguém -- inclusive pra eles.
-- Ok, tem muito grafiteiro por aí que «se acha» ...
que se acha superior ao resto das pessoas ou os outros artistas ...
porque faz sucesso na cena, porque dá entrevista, porque as menininhas pagam pau.
Mas isso é a natureza pessoal ou é a sociedade que com 'sa moda criou um «monstrinho» na cabeça de eles ...
Ou os dois.
Ou seja, os grafiteiros são fruto de algo que 'tá rolando.
Apesar disso, ser 'croto não tira o mérito do trabalho nem tira o direito de venderem suas coisas.
Lembrando que «se achar» não é uma característica exclusiva da categoria grafiteiros.
Tem também arquiteto, porteiro, músico, 'critor, padeiro e pixador que se acham.
E tem um monte de grafiteiro humilde também.
5 -- A Choque Cultural não tem culpa do que o mundo faz ou quer.
O interesse por graffiti / street art (ou arte urbana) é mundial.
Isso se deu por vários motivos, entre eles dois que cito aqui.
Primeiro: as pessoas 'tão sedentas por arte que fale com elas.
O público quer um tipo de arte que ele entenda, que tenha um conteúdo com o qual se identifica ou que seja bonita, diferente da arte contemporânea que temos visto por aí ...
Segundo motivo, e que não existiria sem o primeiro:
a Arte Urbana também faz sucesso porque a indústria assim o quer.
A Arte Urbana é bola da vez em praticamente todos os segmentos da sociedade -- cultura, artes plásticas, mídia, design, publicidade, comércio, indústria.
A Choque Cultural manda em alguma multinacional?
E nas empresas que depois pegaram carona em 'ta moda para dar 'tilo aos seus produtos e marcas?
6 -- A Choque Cultural não inventou a indústria cultural nem a ida do graffiti para as galerias.
O graffiti 'tá nas galerias é reconhecido como arte há praticamente 30 anos.
Se as pessoas compram é porque querem coisas do seu gosto enfeitando a sua casa, ainda que 'te querer seja em parte impulsionado por a mídia e a indústria.
A Choque Cultural existe há 5 anos como um 'paço para mostrar os trabalhos de alguns artistas, artistas 'tes, claro, que a galeria acha adequados dentro do critério de ela ...
7 -- Sim, o preço das telas é um absurdo, apenas algumas pessoas podem comprar.
O valor que colocam numa obra de arte é sempre questionável -- para mim, por exemplo, é um trabalho como outro qualquer, os artistas não são seres sobrenaturais que valem mais que os outros profissionais.
Mas em 'ta sociedade com 'tas leis tudo vira produto e pode ser 'peculado.
Bom para eles, que têm a chance de ganhar um grana com o que gostam.
Mais uma vez, Choque Cultural não inventou os colecionadores e o valor para a arte.
O mundo não é perfeito, é assim, e os pixadores não vão mudá-lo.
8 -- A pixação não tem nada a ver com grafite (o feito no Brasil, e não o graffiti -- 'tilo americano!)
a não ser por o suporte da cidade e o fato de que alguns grafiteiros começaram pixando (ou fazem as duas coisas).
A pixação 'tá dentro da Arte Urbana, mas é outra coisa.
A cena, a motivação, a intenção e a própria maneira de fazer são completamente diferentes:
os grafiteiros 'tão em busca do belo e querem ser admirados por isso;
os pixadores querem ser admirados por a audácia, por a quantidade, por defender a arte das ruas ou por a forma perfeita das letras.
-- A pixação é uma cultura urbana do povo, endêmica, eminentemente paulista.
Um patrimônio cultural imaterial, com um modo de fazer 'pecífico que passa de geração para geração.
É uma manifestação folclórica, que se dá por a oralidade e pelo modo peculiar de se fazer, e que só pôde surgir e crescer numa cidade com a 'pacialidade e a conjuntura social, cultural, econômica e política como a nossa.
Em outra cidade já não é mais a verdadeira pixação.
É como o queijo de minas, o samba-de-roda bahiano, a capoeira, o frevo, o provolone italiano, o run cubano ...
10 -- Por ser tão peculiar do graffiti /grafite/street art, que já 'tão totalmente institucionalizados, os pixadores deveriam 'tar preocupados com o comércio e a cooptação da sua própria arte.
Em 2006 aqui no Brasil foi lançado um livro sobre a pixação.
Editora: Loja do Bispo, uma loja que mistura arte com decoração localizada nos Jardins e de propriedade da famosa artista plástica Pinky Wainer.
O livro, que é simples no conteúdo mas tem formato daqueles «para colocar na mesa de centro» (afinal, foi feito para o público A, AA e AAA), custa 68 reais e traz imagens da cidade, das letras e das agendas junto com um sumário.
Quantos pixadores têm 'se livro?
Os têm ganharam, pois não podem comprar.
Os outros ficaram na vontade.
11 -- A pixação precisa ser protegida?
Em 2007, uns franceses (do graffiti!)
lançaram um livro sobre pixo e 'tão ganhando uma puta grana com isso.
Quando 'tive na Alemanha 'te ano, alemães me perguntavam sobre as letras da pixação pois queriam começar a fazê-las, e os donos das lojas de street art falavam que o livro sobre pixação (dos franceses) 'tava vendendo muito (no site de eles 'tá 'gotado).
Por conta do sucesso livro e da internet, já é possível ver algumas (tentativas de) imitações de letra de pixação por a Europa.
Os tais franceses (que contam com o texto feito por o do editor do New York Times no livro) vieram para cá e pegaram todas 'sas informações com pixadores e grafiteiros.
Não sou eu, nem você, brasileiro, que 'tá ganhando com uma cultura nossa -- são os gringos ...
Que cabeça de colônia ainda temos.
Vamos dar nossa riqueza mais uma vez para eles?
Se é para alguém ganhar dinheiro com um patrimônio paulista, que sejam os brasileiros.
12 -- Em 2009 o filho da mesma Pinky Wainer, João Wainer, lançará um documentário sobre o assunto.
Sinal de que tá rendendo.
Os idealizadores 'tão à procura de distribuição nacional.
Em o mínimo o filme irá para vários festivais no exterior.
E depois?
Os debates posteriores e a própria pixação serão distorcidos com 'se filme?
Por ser uma cultura do povo, é preciso proteger a pixação?
O que a pixação vai ganhar de positivo com isso eu ainda não consegui descobrir.
Para mim fama, modinha e buxixo não passam de uma distorção.
Talvez seja aqui é que a coisa desande de vez -- e não vai mais ter retorno.
13-Os pixadores das antigas reclamam que a internet «'tragou tudo».
Pagação de pau, notoriedade e egocentrismo afloraram.
Dá para segurar o que ainda não foi 'tragado?
14 -- Há quem diga que quem havia comprado as telas antes do ataque e os que compraram depois pediram para que não fossem restauradas, o que é bem provável.
A ação dos pixadores foi um tiro no pé.
Por quanto será que 'sas telas serão vendidas no futuro?
Indo mais longe, apenas para causar a reflexão, se a Choque resolvesse dar uma porcentagem de 'sas vendas para os pixadores, será que eles seriam tão contra assim?
15 -- Há muita coisa importante, e também preocupante, rolando na cena da pixação.
Por isso os pixadores precisam se unir e decidir sobre O que É De eles.
Cada um pode fazer o que quiser?
Pode ir para galeria?
Pode vender informação pra gringo?
Pode ter filme sobre pixo em circuito nacional, que por si só já transforma a pixação em produto de consumo e lucro exagerado?
Pode publicar e vender livro sobre pixação em galeria refinada dos Jardins por um preço que nenhum pixador tem condições de pagar?
Diferente do graffiti /grafite/street arte, o futuro da pixação será definido por quem a faz.
Dá para segurar?
Só se quiserem.
O que vai acontecer?
Dependo que fizerem.
Número de frases: 99
http://www.flickr.com/photos/ choquephotos
«A liberdade consiste em não usar relógio».
Em não precisar de van, de roadie, nem de uma mesa com no mínimo 20 canais.
Foi com 'se conceito que surgiu a banda NAPALMA.
Independência e viabilidade de se apresentar em qualquer lugar.
Os caras só queriam tocar.
Cid Travaglia, Rafael Jabah e Cyro Elias, integrantes do grupo Pé do Lixo, 'tavam de saco cheio das inúmeras necessidades técnicas para a realização de um show.
Então, tiveram a idéia de criar um projeto paralelo, o Em a Palma do Pé, inicialmente pensado como uma 'pécie de bloco carnavalesco.
O ano era 2004, e de repente no meio do Tô Bebo, bloco tradicional do carnaval de Vitória, surgem uns caras com uns djembés, quebrando tudo.
E a rapazeada adorou.
Venderam logo algumas apresentações, e num belo dia, numa boate, um DJ soltou umas bases e eles acharam ótimo.
Logo entrava na banda o Alex Cepille, mandando nas programações.
E no show seguinte, entrava o moçambicano Ivo Maia, nos vocais.
O Alex mudou-se pra São Paulo, e no seu lugar entrou o Paulinho Bolzan, roqueiro de formação que tava aprendendo a programar.
Cidinho, Cyro e Jabah aprendendo a tocar o djembé.
E o Ivo cantando pedaços de cantigas de rituais africanos.
Era uma pregação experimental.
Todo mundo se convertendo à 'pontaneidade.
E 'sa coisa de 'tar todo mundo aprendendo, e se formando junto com a banda foi a pedra fundamental para o som que fazem hoje.
A liberdade de experimentar e de interagir com quem quiser entrar são os alicerces do NAPALMA, que desrespeita as regras do rock, as normas do reggae e as convenções da música eletrônica.
Mas não por rebeldia, e sim por desapego.
Desapego que você também sente quando olha para o Ivo pulando em transe enquanto profere palavras que geralmente você não entende, e nem precisa entender.
Em o show de 'sa banda não tem 'pectador, o público tá lá fazendo uma participação.
São todos figurantes absolutamente 'senciais para o 'petáculo acontecer.
E como a receptividade tava muito boa, e o show não pode parar, veio a necessidade de se aprimorar.
De começar a arranjar, a ensaiar, a fechar as composições, e se conscientizar de que a coisa podia dar certo.
Não perderam a naturalidade, mas começaram a levar o trabalho a sério.
Se apresentaram em locais tão diversos quanto as influências da banda.
Tocaram em festas de aniversário, desfiles de moda e praças, por exemplo.
Até que veio a idéia da semana de assalto.
Por sete dias seguidos, fizeram apresentações-surpresa em locais públicos.
Feiras livres, ruas do centro, sebos, restaurante universitário, bares e o público absolutamente eclético que garantiu o sucesso da empreitada.
E a experiência transformou a sensação em certeza de liberdade.
E por a 'trada afora eles foram sozinhos.
Em o Rio, abriram para o Pedro Luís e a Parede no Circo Voador.
Em Bragança, tocaram numa Cachaçaria.
Em Sampa, na Galeria de Arte Casa da Xiclet, nossa conterrânea.
E no verão de 2005, em Trancoso, na Bahia, foram fazer um show e ficar dois dias.
Voltaram um mês depois, com 21 shows realizados, um ano de vida, e um integrante a menos, o percussionista carioca Cyro que voltou para o Rio de Janeiro pra trabalhar.
As apresentações em Vitória continuavam, no sul da Bahia também.
E foi lá, em contato com os gringos que eles perceberam que agradavam os 'trangeiros.
Juntou a fome com a vontade de comer.
Os meninos querendo se jogar, e aquele público potencial se formando.
Foi quando o Ivo teve que ir a Moçambique pra renovar o visto.
Resolveu a papelada, visitou a família, mas também foi na função.
Aproveitou pra fazer uns contatos fortes com gente disposta a levá-los pra lá.
E meses depois, mais precisamente no meio de dezembro de 2005, chegaram as passagens, e a moçada se mandou.
De novo, foram pra ficar um mês, e ficaram dois.
Foram fazer cinco shows e fizeram 20.
Em Inhambane, um paraíso à beira do Índico, tocaram no reveillon pra mais de 10 mil pessoas.
Tocaram também em Maputo, na Coconuts, uma das maiores casa noturnas da África Austral.
Em a África do Sul, país vizinho, se apresentaram em Pretoria, e em Durban, num restaurante freqüentado só por operários.
Em a bagagem trouxeram as lembranças do safári, do nascer do sol em Mocambique, do mercado de peixe onde se come bem pra caramba.
De a segregação racial na África do Sul, da molecada praticando 'porte à beça, das figuras que eles conheceram e da Drum Café, a maior loja de percussão do mundo.
Mal chegaram no Brasil e foram tocar em Trancoso, no projeto Para-Raio Sambatrônico, onde também se apresentaram DJ Patife e Elba Ramalho, entre outros.
Acabaram de voltar para a Vitória.
Estão lavando as roupas, arrumando as casas, e agendando shows, mas só para os próximos dois meses.
Porque eles já 'tão com as passagens compradas.
Em maio, vão assaltar a Europa.
De lá, provavelmente voltam para a África do Sul, mais ou menos em agosto, setembro, que é quando acontecem alguns festivais para os quais já foram contactados.
E como apenas quatro horas separam os dois países, Moçambique deve entrar na fita de novo, na seqüência.
Essa banda, nascida na rua, revisita e recicla os sons tribais, enquanto as programações interferem, ativando alguma outra parte do seu cérebro.
NAPALMA é percussão, eletrônico e o vocal cheio de sotaque moçambicano do Ivo Maia.
Une-se a 'sa base o trompete do Aurenir Dias, que ajuda a dificultar a definição do som que eles fazem.
Um «percutrônico» talvez.
O que importa é que é lindo vê-los pulando, suando, as mãos dos moços sangrando, a pele do djembé 'tourando, e o público lá, dançando.
E viva a liberdade!
De tardinha, de manhãzinha, de noitinha, em qualquer época do ano e em qualquer lugar onde eles possam tocar.
Pra se iniciar:
www.napalma.com.br
www.napalmatour.blogspot.com Pra contatar:
contato@napalma.com.br
Número de frases: 72
telefones (27) 9962-0308 / 3322-9947 / 8115-9035
Artistas de cinema teatro e música que se unem para fazer produções audiovisuais, 'ta é a idéia inicial da Vinil Filmes:
unir forças entre áreas afins que nem sempre param para dialogar.
Trazer as experiências que cada um conquistou em seus campos de atuação para fomentar uma idéia não (apenas) única, mas a ser compartilhada.
A idéia parte da cabeça de Marco Martins (diretor e roteirista) que compartilha 'ta com a companheira Loli Menzes (diretora e produtora), daí chamam o amigo Renato Tunes (ator), que era parceiro de Jefferson Bittencourt (músico) e de Cláudia Grígolo (atriz), a festa 'tava quase completa e a reunião 'tava por começar, mas o grupo ainda não 'tava completo, o elemento seguinte atende por o codinome Gustavo Cachorro (músico e designer gráfico), amigo incomum que 'tava de passagem, digamos que, viu a porta aberta (não apenas em sua literalidade) e entrou, trouxe com ele o Lucas de Barros (músico e editor), e assim 'tava formada a Vinil.
Tudo bem.
Formada, a Vinil 'tava, mas e aí, como é que se pensa em pontos de unidade diante de tantas diferenças?
Reunir pessoas com idéias afins talvez seja um trabalho fácil, talvez o mais difícil seja criar uma cara de coletivo;
e isso, segundo o grupo, vai acontecer com o passar do tempo.
Os trabalhos 'tão rolando (aparecendo) e a Vinil 'tá começando a ser (re) conhecida, mas é claro que, por ser começo (apenas um ano), muitos 'paços se abrem (ainda) em função dos trabalhos individuais que cada um havia apresentado à sociedade cultural, isto é, por a competência que cada um havia demonstrado em outros projetos.
No entanto, com o andar da carruagem, tenho a impressão que 'ta unidade já possa ser pensada a partir do lançamento do primeiro filme do grupo.
Isto Não é Um Filme
A discussão que quero propor é simples, gira em torno do trabalho lançado recentemente -- primeiro trabalho que leva assinatura do grupo, roteiro de Marco Martins e direção de Loli Menezes -- nas dependências, primeiro do cinema do CIC, apenas para convidados, mais tarde, no mesmo dia, 22 de abril, da Nouvelle Vague, para o público em geral.
Refiro-me ao curta Isto não é um filme.
Com o nome proposto, não tem como não lembrar da tela de Renne Magritte:
Isto Não é Um Cachimbo, mais tarde lida e relida por o texto de Michel Foucault e, de uma certa forma, mais recente, não tem como não lembrar do desenho / texto produzido por o cartunista Scott McLoad que, em seu livro «Desvendando os Quadrinhos», desmonta e dá uma outra alternativa (talvez uma sobrevida) para a idéia inicial.
Se para Magritte, lido por Foucault, o desenho do cachimbo não era um cachimbo, apenas representava um cachimbo, da mesma forma, para o curta aqui pensado, o «não ser» se dá por que o curta 'tá sendo feito a partir da fala de quatro cineastas amadores numa mesa de boteco -- é claro que cerveja (e batatinha frita) não pode faltar numa discussão de tamanha importância -- tomados por o sonho de produzir um filme misturado a realidade de ter que produzi-lo com a pechincha de quinze mil reais, digamos que, irrisório para os padrões do cinema mundial;
e as cenas do filme, ao mesmo tempo em que o devaneio floresce, florescem também entrecortando 'te devaneio.
Isto é, funciona como se a realidade fosse entrecortada por o devaneio, coisa que, vale lembrar, só é possível, com tamanha perfeição, numa mesa de bar.
No entanto, ao mesmo tempo em que 'ta realidade (forjada) projeta o filme de fundo, como se 'te 'tivesse sendo colado ao devaneio, nos lembra a todo o momento que 'te mesmo devaneio não deixa de ser uma mera ficção, no caso, entrecortada por outra:
uma 'pécie de fala atravessada por a mesma fala, todavia, 'ta última, editada.
Ou seria uma representação de uma imagem bruta entrecortada por a representação de uma imagem produzida?
Talvez seja possível resumir o devaneio deste último parágrafo, no caso, de quem 'creve, utilizando a palavra metalinguagem.
O curta se apóia numa sobreposição de camadas de falas / imagens em que o devaneio pode mudar a direção com um piscar de olhos, seja ele por o devaneio seguinte, após um outro copo, ou por o devaneio da diretora que se intromete na cena -- lembro do casal na cena do bar (em que a mulher se prepara para matar o amante) sendo interrompidos por toda a equipe produtora, como se 'ta também fizesse parte daquela mesa (daquela cena), talvez 'te momento ilustre muito bem 'ta idéia de cenas entrecortadas por devaneios diversos, seguindo as alternativas proposta por o devaneio de McLoad.
Talvez o que o grupo tenha tentado fazer era mostrar a dificuldade de executar uma idéia e a quantidade de diálogos que 'ta precisa ter para chegar até a tela grande.
E aqui 'tou pensando, junto com o texto, nas várias texturas criadas para que 'tas (idéias) consigam passar ao expectador o maior número possível de alternativas visuais que podem ser agradáveis aos olhos, ou, simplesmente, interrogá-lo sem que muitas vezes 'te, no caso, os mais desavisados, as percebam.
Voltando ao título agora, entre o ser e não ser um filme eis-a-quest ão, 'ta dúvida existencial ser-ou-não-ser que poluiu a cabeça do ser humano na marcha renascentista, e que agora (início do século vinte um) como desdobramento, por que não, metalingüístico, das intenções registradas no século vinte, continua poluindo o campo das artes.
Socorro-me em Magritte para dar o desfecho ao meu devaneio.
Para o pintor belga o «não» que acompanha o texto não contradiz o desenho, da mesma forma que é possível pensar que o não que se faz presente no título do curta não contradiz a proposta, apenas afirma 'ta de um outro modo, num outro lugar.
A isto tudo, ainda, Queiram Aceitar etc ...
Número de frases: 30
Como é bom ver as iniciativas pública e privada darem às mãos em prol da cultura;
melhor ainda, e mais raro, em prol de um evento sobre Histórias em Quadrinhos.
Estive na quinta edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Belo Horizonte, e pude comprovar que no Brasil há sim um local congregador de todos os amantes da nona arte, ou arte seqüencial, para citar o mestre Will Eisner.
O FIQ teve início em 1999, numa promoção da Prefeitura de BH e da editora carioca Casa 21, e hoje, em 2007, o evento cresceu muito e ganhou corpo (foram mais de dez empresas privadas, juntamente com a Prefeitura e a Secretaria Municipal de Cultura de BH, o Estado de Minas Gerais e o Governo Federal, entre patrocínio, apoio cultural, apoio institucional, apoio promocional e incentivo), tanto que foi contratado um arquiteto para fazer a ambientação da bela Serraria Souza Pinto, que voltou a sediar o FIQ, entre os dias 16 e 21 outubro.
Foram seis dias de intensas atividades, mesas-redondas, painéis, bate-papos descontraídos, oficinas de tirinhas e mangás, mostras de filmes, 'paço para os clássicos e os mais recentes jogos de vídeo-game (em consoles variados), lançamentos e encontro com os maiores artistas do traço da América Latina e da Europa, com destaque para o roteirista italiano Giancarlo Berardi (Ken Parker e J. Kendall), para o desenhista argentino Eduardo Risso (100 balas, Menino Vampiro, Wolverine), e para os desenhistas brasileiros Renato Guedes (Supergirl), Ed Benes (Liga da Justiça) e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (10 pãezinhos).
Tudo isso de graça!
As mesas-redondas que mais lotaram o auditório Conceição Cahú foram as que reuniram os editores Cassius Medauar (Pixel Media), Cláudio Martini (Zarabatana Books) e Henrique Magalhães (Marca de Fantasia), e os desenhistas brasileiros e argentino que conquistaram 'paço no mercado norte-americano:
Ed Benes, Renato Guedes, Cristiano Bolson e Eduardo Risso.
A afirmação do Cassius Medauar de que hoje a venda de quadrinhos 'tá preocupante, em comparação com a década de 1980, quando se vendia 200 mil exemplares de HQs por mês (segundo o Cassius, quando atualmente uma HQ consegue chegar à casa de 10 mil exemplares a editora já considera uma vitória), causou comoção na platéia;
uns tentaram justificar, apontando como fatores responsáveis por 'sa queda no consumo de quadrinhos, a Internet, a televisão e o vídeo-game;
e outros chegaram a discordar do Cassius, perguntando se ele 'tava falando em números absolutos.
O Cassius foi taxativo:
«hoje o mercado 'tá saturado de títulos (principalmente por causa da Panini, que lança em torno de 75 títulos todo mês), e cada um vende pouco;
ou seja, há apenas crescimento horizontal, e o fã do Homem-Aranha, por exemplo, por mais que as histórias 'tejam ruins, continua comprando a revista para manter a sua coleção, deixando de adquirir títulos mais elaborados».
Ele deu um exemplo:
o excelente título da «Pixel Media, O corno que sabia demais», do brasileiro Wander Antunes (premiado na França), vendeu apenas 200 exemplares desde seu lançamento.
Eu sinceramente fiquei preocupada, pois o Cassius tem tantos títulos para lançar, mas avisou que a Pixel agora vai segurar um pouco a onda, e trazer um limite de três a quatro títulos por mês, pois mais do que isso é inviável.
Um dos painéis mais instrutivos foi o que abordou o tema:
«quadrinhos fora do eixo», com a professora e pesquisadora Sônia Luyten e o desenhista baiano mais prolífico da atualidade, criador da premiada série A Turma do Xaxado, o Antônio Cedraz.
Cedraz falou sobre as dificuldades que os desenhistas e roteiristas nordestinos têm ao tentar publicar algum trabalho por as grandes editoras paulistas e selecionou uma gama de títulos independentes de excelente qualidade para mostrar à platéia, enquanto a professora Sônia deu uma aula sobre os quadrinhos africanos (chamados de Picha, no dialeto swaili, no sul da África), destacando a participação de mulheres africanas quadrinistas e informando que lá o quadrinho institucional é o que tem maior produção.
Destaco também o 'tande dos independentes de BH, patrocinado por a Prefeitura, onde foram lançados vários livros e revistas, entre eles:
O relógio insano (Eloar Guazzelli), Graffiti 76 % quadrinhos n. 16 (vários autores) e Estórias Gerais (Wellington Srbek e Flávio Colin).
Em 'se 'tande se fazia presente a Quarto Mundo, uma associação de vários independentes de todo o Brasil, criada por o roteirista Cadú Simões (Homem-Grilo) e o desenhista Will (Sideralman).
Eu bati um bom papo com eles e trouxe alguns títulos para vender em minha comic shop, a Garagem Hermética Quadrinhos (GHQ), aqui em Natal.
Estive poucos dias em BH, mas consegui devorar, além do pão de queijo, muitos quadrinhos.
Em o FIQ, se discute a nona arte de forma inteligente, mas sem perder o lado lúdico que 'sa mídia traz em sua síntese.
Parabéns BH, por fazer uma porção de gente feliz, assim como eu.
Como é bom encher a boca e gritar:
FIQ, eu fui!
Desabafo
Em pensar que em Natal eu 'tou batalhando faz tempo por empresas que queiram patrocinar um projeto que foi aprovado na Lei Municipal Djalma Maranhão, de incentivo à cultura, na qual a empresa não precisa desembolsar nada, apenas concede que até 20 % do seu ISS seja repassado ao projeto;
ou seja, uma boa propaganda, de graça.
Número de frases: 32
Eu 'tou na cidade errada ...
Uma fala que sabe o nome das coisas e vai amarrando no ar com as mãos e os olhos a história a ser contada, dedilhando as sílabas com precisão, conduzindo rio abaixo as palavras.
Mulher de letras, língua, água na boca, saliva que rega sua 'crita, numa oralidade sabida dos meios-tons de cada linguagem.
Eleuda de Carvalho é uma cabocla híbrida entre o sertão e a cidade.
Jornalista, nascida no interior do Ceará, perto de Jaguaruana, quase na fronteira com o Rio Grande do Norte, numa velha casa que ainda 'tá de pé.
Saída de lá, ainda menina nova, com dez meses, rumo a Fortaleza, cidade que lhe fundiu entre o barro e o ferro, taipa e concreto armado, numa arquitetura intelectual, erudita e popular.
Desde a menina, que devorou boa parte do romance francês do século XIX nas bibliotecas da mãe professora e do colégio de freiras, até a universitária que, num erro de cálculo, foi bater no curso de Estatística da UFC, mas virou mesmo foi freqüentadora assídua da cantina das Ciências Sociais, onde conheceu, por as mãos do dramaturgo Arthur Guedes, Proust, Borges e Joyce ...
Tudo isso atolado às histórias de Tia Teta e às recordações das férias no sertão, fazendo um caldo grosso.
Cursando Letras, graduação que veio depois do abandono de Estatística e que para a mãe era o caminho mais óbvio desde o começo, o português de Tia Teta, que lhe parecia errado, virou acorde belíssimo, português arcaico que leu nas antigas histórias de Trancoso.
Em a mesma época, oitenta e dois, virou bolsista da Rádio Universitária para depois ocupar, como funcionária pública, o único cargo de locutor na folha da Universidade, que lhe assinou a carteira e fez as graças de sua mãe um dia antes da morte.
Em as páginas impressas dos jornais começou apenas em noventa e cinco, quando concluiu a segunda graduação, Jornalismo, já no caderno de cultura Vida & Arte do jornal O Povo, em que atua até hoje.
Eleuda de Carvalho nos recebeu em seu apartamento, no bairro Meireles, numa noite de quarta.
Em a varanda, um caco de mar a vista se curvando entre os prédios que não param de subir.
De ali, depois de mais da metade de sua vida morada no bairro do Benfica, tradicional por seu ambiente universitário e boêmio, observa a Fortaleza que se insinua em seus olhares.
Sentada, fuma um dos seus «raros» quatro cigarros diários, numa tentativa de reduzir o vício, mas também degustando 'sa sensação de falta, de distância, talvez a mesma que lhe faz olhar e inspirar fundo Fortaleza a cada retorno.
Sentada, com as pernas cruzadas, borda histórias de Trancoso, do São Francisco, de Canudos.
De Fortaleza ...
Feito árvores de dentro de uma semente.
Como é tua relação com o sertão?
Ah bom, tá certo, muito bem ...
Tem o fato de eu ter nascido lá ...
De os meu pais terem nascido no sertão e de todos os anos, a minha infância inteira e na minha adolescência, que aí já não era com gosto ...
mas na infância inteira nós íamos passar férias no sertão.
A gente viajava junto, a família inteira, o pai, a mãe e aquela reca de meninos.
A gente ia até Jaguaruana de ônibus, meu pai fretava um carro até a beira do rio.
Se desse passagem no rio, a gente seguia de carro até o lugar que chama-se Perereca, um pequeno distrito de Jaguaruana, nome de um riozinho intermitente que tem por ali.
Se não desse passagem, a gente atravessava o rio na canoa e de lá meu avô mandava uma carroça, um carro de boi ou a gente ia a cavalo.
Então todo ano a gente ia passar férias no sertão.
Em o mínimo três meses no ano.
As férias de julho, com aquele sertão quente, sabe?
E também os meses de dezembro e janeiro.
Em a adolescência, quando eu tinha 14 anos mais ou menos, ai eu já não ...
foi uma época em que tudo que tivesse a ver com sertão ...
sabe? Aquela coisa da rebeldia, era a negação de tudo, o sertão pra mim era o fim da picada.
Podia tar com a minha turma ouvindo rock pesado, ouvindo Led Zeppelin etc..
Ir para o sertão, cara?
Terrível. Me lembro de uma vez, a gente tinha uma vitrolinha portátil de pilha e eu ainda levei, levava meus discos, levava meus livros.
Como começou a tua relação com a cultura popular?
Pra você ver né, foi a universidade que me fez fazer 'sa ponte.
Quando eu fazia letras a gente fez uma disciplina sobre Narrativas Infantis Portuguesas e, de repente, quando eu comecei a ler aquelas histórias de Trancoso, eu tive contato com o texto 'crito de algo que eu já conhecia na minha infância.
Então eu passava férias no sertão.
Me lembro da minha tia avó Teta com mim no colo contando histórias que eu, na minha ignorância, achava errado e fazendo letras eu fui descobrir que era um português arcaico belíssimo, que se mantém vivo no sertão ainda hoje por a boca dos velhos.
Isso pra mim não é uma coisa apenas racional, passado por 'tudo, leitura etc e tal, mas algo da minha própria vivência, da minha própria história.
Então não é uma fonte erudita.
Quer dizer tem a fonte erudita, me sinto privilegiada por isso, porque eu tive acesso.
O fato de fazer letras, de gostar de ler, me deu todo um ferramental e a vida me fez perceber que eu também tinha uma outra fonte, outra voz com um sabor querido maravilhoso que me impregnou.
Esse barato de ouvir, contar histórias vem desses tios-avós, desses velhos.
Como entrou na Comunicação?
Cara, foi o seguinte, tava trabalhando na rádio, uma vidazinha tranqüila.
Papai foi me visitar, em 'se tempo eu tava casada, e meu pai me disse assim:
«Por que você não volta a 'tudar?
Se não você encrua».
Ele disse que não lembra disso.
Pra mim aquilo bateu feroz.
Tava boazinha a vida e quando papai me falou isso me deu uma ...
Em 'se tempo, eu fui trabalhar no Diário do Nordeste como revisora.
Lá foi meu contato com o jornal.
Cara, eu via os textos ...
não tinha como você revisar, porque era um defeito de fabricação total.
Ai eu digo:
«não, quero 'crever».
Aí teve uma puta de uma greve, grande greve dos jornalistas em Fortaleza.
Movimento Forte. Em 88. Ai eu me lembro que um dos chefes lá do Diário já veio me cooptar.
«Você 'tá em qual semestre?».
Já queria me botar na redação.
«Nenhum, eu sou formada em Letras».
Aí eu não pude entrar na redação.
Graças a Deus, imagina?
Que 'tréia mais horrível.
Mas isso ai me deu uma idéia, até porque eu tinha percebido que revisor era um cargo em extinção.
Era uma salinha lá ...
no fundo do quintal, uma coisa sem brilho, sem elã.
Juntou tudo isso ai.
Ai meu irmão me emprestou as apostilas de eles, dei uma 'tudada, fiz o vestibular e passei.
E o texto?
Você já tinha preocupação com o texto?
O meu grande mestre foi o Agostinho Gósson, porque eu cheguei na comunicação me sentindo, né?
Eu sempre 'crevi e sempre lia muito.
Tinha um texto legal e tal.
E a disciplina do Agostinho é justamente sobre a prática da redação.
E eu crente que tava abafando e ele:
«Não! Tá uma porcaria isso aqui».
Aí ele jogava fora o texto.
E eu desesperada.
Eu via as pessoas assim com um texto frágil e ele dizia:
«É isso, tá correto!».
O meu não.
Tá tudo uma droga.
Cadê o lide?
Cadê não sei o quê? (
risos). Foi maravilhoso isso.
Eu tive dois mestres no curso de comunicação.
O Ronaldo Salgado que trabalha em outro ângulo, né?
Se tá todo mundo de saco cheio, então vamos para a praia.
Ele é a coisa, como eu diria, dionisíaca.
Mas na vida a gente precisa de tudo, né, querido?
E o Agostinho foi fundamental porque ele me afiou a ferramenta.
Quer 'crever lindo e bonito, faça literatura, meu amor.
Jornalismo é outra coisa.
Você pode usar as mais variadas técnicas que você quiser, as mais diversas linguagens que você puder, para que você consiga transmitir, com vigor, da maneira mais clara e objetiva, a informação, a notícia.
Mas o principal é a notícia, querido.
Se você quiser usar uma técnica narrativa para seduzir o leitor, ótimo, mas não perca o foco daquilo que você quer.
E como é o processo das tuas pautas?
Como é 'se processo de criar, de onde elas vêm?
Bom, eu vou contar um caso para ser mais objetiva.
Eu trabalhei quatro meses no jornal O Povo e fui para o mestrado.
Saí do jornal.
Passei dois anos maravilhosos só 'tudando.
Muito bom!
Bom demais.
E, em 97, a Beatriz Furtado era editora do Vida & Arte e a Ethel de Paula foi lá em casa, perguntando se eu não queria uma vaga no Vida & Arte.
Eu fui para o jornal com o objetivo de propôr uma reportagem sobre os caminhos do Conselheiro.
Apresentei o projeto.
A Bia topou e confiou.
Nem eu mesma tinha a mínima idéia do que eu ia achar.
A minha idéia era seguir o caminho do Conselheiro.
É uma coisa que eu gosto de fazer.
Eu gosto de reviver o passado.
O passado ainda existe hoje, então eu vou atrás, saber onde ele tá.
O mundo como um palimpsesto.
Então eu vou atrás.
O que eu tinha para 'ta matéria?
O livro do Euclides da Cunha.
Sabia do cenário, das cores.
Mas os relatos são vitais.
Eu li um livro, muito legal, de um 'critor cearense, eu não lembro o nome.
Ele é jornalista também.
Em os anos 50 ele foi a Assaré e entrevistou um dos irmãos Vila Nova que foi, digamos assim, uma figura importante para os comerciantes cearenses.
Amigo do Conselheiro. E ele conseguiu 'capulir.
Ele e a mulher e voltou para Assaré.
Esse jornalista tinha feito o livro com as memórias de ele.
Honório Vila Nova. Aí eu fui começando a ligar as coisas que eu ia achar.
A idéia era ir para Quixeramobim atrás da família Maciel.
O pessoal do curso de história da UECE tinha descoberto, em Guaraciaba do Norte, um senhor que se dizia neto do Antônio Conselheiro.
Então vamos bater em Guaraciaba do Norte.
Em Assaré, eu ia atrás dos rastros dos Vila Novas.
E depois eu ia para a Bahia, para Canudos.
A Bia topou e o jornal bancou 'se negócio, cara.
Claro que na época era melhor, 97 era um ano que tinha grana.
A reportagem foi feita em dois momentos.
Em julho, eu passei 10 dias por o interior do Ceará.
Primeiro em Quixeramobim, onde conheci o seu Marcílio Maciel.
A mãe de ele ainda era viva, a velha já caducando.
Eu ainda tenho hoje 'se material todo.
Entrevistei o Patativa, que tinha um soneto belíssimo, perfeito, em versos perfeitos, tão perfeito quanto um poema de Camões.
E fui atrás do Vila Nova.
Olha, só a leitura é pouco.
A gente tem que contar com a sorte, com a intuição.
E um pouco você ir no faro das coisas.
É bom contar com a ignorância também porque ela é reveladora.
Você tem que ir atrás das coisas.
Aí pedi para o Amaral, o motorista, para ele parar no cemitério.
Porque quem eu vim atrás tá aqui.
Quando eu chego no cemitério, logo na entrada, tinha um mestre de obra fazendo um jazigo perpétuo da família Vila Nova.
Meu senhor, de onde é isso?
Ele disse:
«A encomenda é do cartório lá».
A gente saiu e foi bater no cartório.
E a cartorária lá nos atendeu.
Ela era simplesmente a neta do Honório Vila Nova.
Quer dizer, é sorte, querido.
Pronto. Achei um Vila Nova.
E lá em Guaraciaba achei um que se dizia neto do Antônio Conselheiro.
Que também foi uma figura, um velho ferreiro.
A entrevista foi na porta, um cara já bem velho.
Quer achar coisas, em qualquer lugar, vai numa bodega, fala com um mototaxista, 'se povo é antenado de tudo, criatura ...
posto de gasolina ...
A gente parou no posto de gasolina para pedir uma informação.
O dono do posto era filho da senhora que eu tava atrás.
Pronto. Taí!
Né sorte?
E depois, dez dias no interior do Ceará, voltei com 'se material.
Em o mês seguinte, mais 10 dias.
Nós fomos até Canudos de carro.
Eu, o fotógrafo Cláudio Lima e o Amaral.
Canudos, Monte Santo, Uauá.
Foram 10 dias na Bahia, atrás do rastro do Conselheiro.
E com isso aí, eu fiz 'se material que saiu exatamente no último dia do Belo Monte, 100 anos depois.
Cinco de outubro com dois Vida & Arte.
Um normal, com Sônia Pinheiro e tudo.
E outro Vida & Arte sem nenhum anúncio, só com o editorial da Bia e minha matéria e mais nada.
Foi muito legal fazer 'se caderno.
Essa reportagem foi o primeiro lugar na ACI [Associação Cearense de Imprensa], do ano de 1997.
Foi aí que eu descobri mais ou menos um 'tilo, um modo meu de trabalhar que eu gostei de trabalhar.
Mas não tem nada de novo aí.
Eu é que gosto de trabalhar assim.
Pego uma citação boa e vou costurando as coisas.
E não parou mais depois disso?
Não parei mais de bordar, querido.
Eu sou uma bordadeira.
Eu acho que tenho um ouvido bom.
Eu tenho uma boa mão pra cortar, para encaixar e editar.
Qual a habilidade que eu acho mais legal em mim, no trabalho que eu faço.
É claro que numa conversa, você não vai tirar do jeito que tá aí.
A conversa é cheia de idas e vindas.
Como é que você pode pegar uma fala e transformar num texto de uma maneira tal que ler é quase como 'cutar aquela pessoa falando.
Eu não posso tirar e colocar igual ao que eu ouvi, eu tenho que editar.
Eu comecei a falar uma coisa aqui, aí interrompi, então eu edito.
Dou uma coerência e ponho algumas pontuações da fala de maneira tal que quem ler aquilo pensa que é daquele jeitinho, parece que eu tô ouvindo.
Mas tem umas falas que são tão maravilhosas, que eu não vou conseguir fazer.
A boniteza tá ali.
Como por exemplo o Zé do Mestre lá em Salgueiro me falou:
«Sou feliz de ser eu».
Ora mais, eu podia passar duas páginas desdobrando 'sa idéia.
Essa frase ela diz tudo, né?
«Sou feliz de ser eu».
Pronto! Tá aí.
Fantástica. Eu faço 'sa edição, faço minha costura.
Qual a importância da viagem para você?
A viagem é fundamental.
O negócio é viajar.
De qualquer maneira. A melhor, ou pelo menos uma muito boa, é pé na 'trada.
Eu prefiro viajar na 'trada do que na 'trada virtual, que também é ótima.
Eu acho uma delícia.
Começo a entrar em site de revistas literárias.
Em 'panhol ou português.
Aí eu vou pra uma e depois vou pra outra.
Chego na Guatemala.
É maravilhoso.
Mas nada, nada, nada melhor do que cair na 'trada.
E a viagem para o jornalismo?
Para o jornalismo é fundamental.
Em o caderno do São Francisco, que a gente fez, eu cheguei na chefia e propus ...
Eu sabia que ia haver o caderno sobre o São Francisco e que ia fazer o percurso do rio.
Se por um acaso fosse eu fazer o percurso do São Francisco, eu ia fazer outra coisa também, né?
Então, por o preço de uma viagem, eu faria duas, porque era o cinqüentenário do Grande Sertão:
Veredas. Eu já ia para aquelas bandas de ali.
É a forma de você fazer alguma coisa no jornal.
Então eu fui lá, atrás das histórias ao longo daquele rio.
Nada de políticos.
O jornalismo tem que ter isso também.
É a parte que eu acho mais legal e onde a gente pode inventar mais.
O inventar que eu digo é ficar mais solto, ficar mais livre, cultivar mais o texto, sem ter que se preocupar muito com os números.
Eu gosto da subjetividade.
E ainda bem que no jornalismo, ainda há um 'paço para poder fazer isso.
Sempre vai haver.
Sempre vai ter 'paço para um negócio mais demorado.
Se não for no papel, porque tá caro, em outro suporte cabe.
E 'se ritual é maravilhoso, porque é caminho que você tem que percorrer.
Quando o jornal de papel acabar, vamos fazer viagens em outros cantos.
Eu realmente gosto demais de viajar.
Ainda bem, porque é minha alternativa no jornalismo.
Porque 'se negócio bem objetivo não dá.
Não dá.
Eu gosto mesmo é de chão.
Sempre vai sobrar alguma história.
Queria perguntar como é a tua relação com a própria Fortaleza.
Por que apesar de você ter uma completa paixão por o sertão, você tem uma forte ligação com o urbano.
Como é isso?
Eu tento todo 'se lance com o sertão e é incrível como trabalhando com 'tes temas, constroem de mim a imagem de uma figura sertaneja.
Eu até gosto disso.
Eu até acho isso legal.
Mas a minha cidade, a onde eu me reconheço, a onde eu me vejo é 'ta daqui.
Não é Jaguaruana.
É como eu te falei, eu não tenho ligação com a cidade de Jaguaruana.
A não ser umas imagens fugazes, né?
Mas a minha cidade é Fortaleza.
Quando eu tinha 12 ou 13 anos, eu comecei a gazear aula.
Pegava o ônibus de um bairro que eu não conhecia, ia até o fim da linha e voltava.
Eu rodava, três ou quatro vezes no Circular, dentro da cidade.
O natal era na casa da minha avó.
Era lá o natal da família.
Mas na véspera de natal, antes da ceia na casa da vovó, o passeio da família suburbana, na década de 70, era ir para o centro da cidade ver as vitrines coloridas da Praça do Ferreira.
Em o parque da criança, sempre tinha um parque armado, aí a gente podia brincar nos brinquedos ou com aqueles carrinhos, com o trem fantasma, aí tinha a maçã do amor.
Depois você pegava o ônibus elétrico na Bezerra de Menezes e ia para a casa da vovó.
Minha paixão é por a cidade toda.
É a minha memória.
Você ainda hoje anda de ônibus ...
Claaaaaaaro.
É fundamental para jornalista, querido.
Andar de ônibus é fundamental.
De ônibus e de topic.
Eu tenho umas idéias ótimas lá.
Você ouve cada história, entendeu?
É bom porque você vê a cidade.
É diferente de você 'tar dirigindo, prestando atenção.
Eu não sei dirigir nem bicicleta, querido.
Tudo isso que você fala parece mais uma Fortaleza antiga?
Existe admiração por 'sa cidade de prédios?
Eu adoro vê-los.
Cara, são muito lindos.
Eu falei mais de 'sa coisa bucólica, mas eu gosto de toda ela.
A vista daqui de esse paredão da rua onde eu moro é maravilhosa.
Esse prédio daqui de a frente, todo dia eu descubro uma coisa nova.
Aqui tem um apartamento com uma biblioteca maravilhosa.
É uma janela que dá para ver bem daqui.
É uma biblioteca linda.
Todo dia eu fico 'piando, em 'sa coisa meio voyeur.
É até bom não saber direito ...
Eu fico imaginando:
o que é aquilo?
Mais adiante dá pra ver o povo fazendo churrasco.
Aqui do lado uma coisa mais sofisticada, uma coisa chique.
E do outro tem o Campo da América, que é povo fritando lingüiça, logo bem aqui do lado.
O grande barato do Meireles é porque aqui eu tenho, ao alcance dos olhos, a cidade na sua diversidade total.
Tem o lado chique, tem o mar, tem a montanha bem ali, tem o sertão, tem o Campo do América, tem uma comunidade bem aqui que faz o maior fuá.
É uma coisa divertidíssima durante a Copa do Mundo.
Jornalista é um voyeur?
Ah sim.
É claro que é ... (
silêncio) Qual a importância disso?
É um voyeur ...
O voyeur é curioso.
Quando você me fala de voyeur, a primeira palavra que me vem é:
o que você olha?
Se você olha, você quer saber.
Essas duas coisas.
Em 'sas duas patas dá pra sustentar um bom repórter.
Tem que ser curioso.
A gente não deve se contentar com o nosso saber.
às vezes saber muito é bom, é ótimo, mas gente não pode desprezar o poder da ignorância.
A ignorância no sentido de não conhecer.
De você sempre achar que tem algo a conhecer.
É 'se sentido que eu tou falando da ignorância.
Sempre tem algo a conhecer e saber.
Eu acho que já tem um mocotó 'perando a gente ...
Número de frases: 316
* * * alguns texto seus ...
Fica Com mim é uma tentativa de Eric Khoo de fazer uma narrativa não linear entremeando paixões, isolamento, conexões e muita comida alternando ficção e realidade, mas o resultado é um filme desigual que desperdiça seu maior trunfo.
Um homem cujo único prazer é a comida encontra um objeto de desejo e uma fonte de 'perança, duas adolescentes que descobrem os prazeres e as dores do amor, e um senhor cuja única habilidade é cozinhar são os personagens fictícios que dividem a tela com Theresa Chan, a cega-surda e musa inspiradora do filme.
Apesar de extremamente interessantes, as histórias apresentadas têm pouco peso, suas execuções são desiguais e a única conexão que nos é permitido fazer é baseada em clichês dignos de novelas.
O ponto forte do filme, a história de Chan, acaba sendo enfraquecido por ser sempre interrompido por histórias mal trabalhadas, cujo único apelo reside em curiosidade mórbida ou a admiração das belas garotas apaixonadas.
E a trilha sonora, para piorar, é de péssimo gosto, e usa constantemente melodias ultrapassadas e melosas, que criam até um certo embaraço.
Já Chan é de fato uma figura sensacional.
E ela abre inúmeras possibilidades narrativas sobre a natureza do isolamento, o auto-sacrifício e a melancolia que irritantemente são ignoradas.
O mérito do filme em 'sa questão 'tá na quase total ausência de diálogos, seria um filme mudo não fosse por o barulho ambiente e por as exclamações em momentos de grande emoção.
A personagem que mais fala é exatamente Chan, pois, ironicamente é a que tem mais a dizer.
Me entristece que o filme poderia ter sido muito mais do que é.
Vale como registro de Chan.
Gostaria de ter 'crito um texto sobre isolamento e angústia, numa seção lotada da cinemateca mas o filme não me inspirou tanto.
Continuei tão retraído quanto antes, e não encontrei forças para entrevistar uma chinesa com forte sotaque que comprou ingressos logo depois de mim, e seria um ótimo adendo a 'te relato.
Número de frases: 14
A Resistência do Vinil
Quem me despertou para 'crever 'sa colaboração foi o Eduardo Castro, cineasta e músico, mineiro de nascimento mas tocantinense por 17 anos.
O que nós temos em comum?
Ele morou em Araguaína entre 1974 e 1992.
Só agora o conheci, quando justamente não mora mais aqui.
Está em Goiânia e o que permitiu o nosso contato foi o bom e velho vinil, com a ajuda do Overmundo.
Ele entrou em contato com mim e eu topei na hora falar sobre o tema, afinal ele produziu um documentário premiado "
Dia 7 de março 'tará na programação da Cinemateca Brasileira em São Paulo
Proposta do «Projeto nas Asas do Cinema», do Instituto Magneto Cultural, é contribuir para uma visão crítica do mundo a partir do debate da produção brasileira de curtas-metragens
Começa em 'te mês de março, em São José dos Campos, no Cone Leste paulista, a terceira edição de um projeto regional bem sucedido de exibição e debates de curtas-metragens nacionais.
É o «Em as Asas do Cinema», cuja proposta genérica é formar público com consciência.
Para isso, promove a exibição gratuita de filmes nacionais de curta-metragem e realiza debates sobre eles em 'colas públicas, universidades e instituições públicas.
Patrocinado por a Concessionária NovaDutra com base na «Lei Municipal de Incentivo à Cultura de São José dos Campos, Em as Asas do Cinema» visa alcançar de março a agosto deste ano 24 mil 'pectadores com a exibição de 19 curtas-metragens.
O projeto, que conta com o apoio da Fundação Cultural Cassiano Ricardo e da Prefeitura de São José dos Campos, deve abranger, além de 'tudantes da rede pública municipal do segundo ciclo e da rede 'tadual de ensino médio, professores, arte-educadores e 'tudantes de Letras, Pedagogia, História e Comunicação Social em sessões 'peciais.
Envolverá ainda os internos da Fundação Casa (antiga Febem) e do Centro de Ressocialização Feminina.
Programa conta com o apoio da Prefeitura, por meio da Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
Segundo Wallace Puosso, Diretor Executivo do Magneto Cultural, a principal proposta do projeto é agir para a democratização do acesso à produção nacional de cinema de boa qualidade, contribuindo para a formação de público e para a construção de uma consciência crítica a partir da linguagem audiovisual.
«Não se trata apenas de oferecer entretenimento de qualidade, mas de 'tabelecer uma relação diferenciada entre os jovens e a produção audiovisual, de maneira a permitir uma leitura crítica da produção artística e do seu papel na transformação da sociedade», diz Puosso.
«A o utilizarmos curtas-metragens nacionais, fortalecemos o imaginário e as identidades locais, potencializando debates de interesse social».
De a sala de cinema para a sala de aula
Sete programas de exibição foram definidos por o Instituto Magneto Cultural de forma a permitir diferentes possibilidades de debate junto aos jovens.
«Em as 'colas, os professores serão incentivados a utilizar os temas debatidos após cada sessão como ferramenta pedagógica», lembra Puosso.
«A partir de um determinado aspecto debatido, o professor pode aprofundar as discussões de acordo com os conhecimentos que 'tão sendo ministrados em sala de aula».
Estabelecendo um via de mão-dupla, o Programa não só oferece a possibilidade de enriquecer as discussões sobre questões sociais, ambientais, educativas e 'téticas nas instituições de ensino, mas também ampliar a visibilidade da produção audiovisual brasileira, cujos 'paços de exibição 'tão restritos aos festivais e cineclubes.
«Com o programa, proporcionamos o contato do jovem do Interior com o que há de melhor em produção cinematográfica e de vídeo no Brasil, sem sair da cidade onde mora», destaca Puosso.
«De outra maneira, isso seria praticamente impossível, porque não há 'paços para exibição de trabalhos de 'sa natureza fora dos grande centros urbanos».
Ano III
O Programa «Em as Asas do Cinema» entra no terceiro ano de existência, num processo de amadurecimento que permitiu ampliar sua abrangência e os desdobramentos dos debates entre os jovens abrangidos.
«Quando iniciamos o Programa, em 2005, a pretensão era bem menor e o Programa, apesar de bem 'truturado, era muito mais modesto», lembra o realizador.
«Hoje, 254 exibições e 34 mil 'pectadores depois, vamos bucar vôos mais altos».
Entre os sonhos 'tá a reinserção do Vale do Paraíba no cenário nacional da produção audiovisual.
Para isso, os artistas do Magneto Cultural propõem a criação de uma nova geração de profissionais e técnicos voltados para cinema e vídeo, por meio da promoção de cursos e oficinas de alto nível e realização de debates com a participação de cineastas de renome internacional na região.
«Muitos garotos que debatiam com nós em 2005, na primeira versão do «Em as Asas do Cinema», despertaram para o mundo audiovisual e hoje já 'tão realizando seus curtas-metragens na região e isso mostra que há potencial a ser explorado a curto e médio prazos», diz o empreendedor.
Os filmes
Durante sua itinerância por 'colas municipais, 'taduais, universidades e instituições como a Fundação Casa e o Centro de Ressocialização Feminina, o projeto «Em as asas do Cinema» exibirá os seguintes curtas-metragens:
Passo
Animação, de Ale Abreu.
3 min.
Sinopse: A idéia revela-se como um pássaro desesperado para alçar vôo.
O processo criativo é uma luta contra gaiolas reais e imaginárias, que 'pera o momento em que nos decidimos a dar um passo -- o de pensar com liberdade!
Vida Maria
Animação, de Marcio Ramos.
2006. 9 min.
Sinopse: Maria José, uma menina de 5 anos de idade, é levada a largar os 'tudos para trabalhar.
Enquanto trabalha, ela cresce, casa, tem filhos, envelhece.
A o final, o início de um novo ciclo que vai reproduzir o seu passado no futuro de sua filha.
Alguns Prêmios:
Popular Juri, Mostra Tiradentes, Tiradentes, 2007 / ABD & C Award, Janeiro International Short Film Festival, Janeiro, 2006 / Honorable Mention On International Short Film Category, Cleveland International Film Festival, Cleveland, 2007 / Melhor Curta-Metragem, Melhor Roteiro, Prêmio Especial da Crítica, Cine PE, Recife, 2007 / Melhor Curta, Prêmio BNB, Prêmio Aquisição Canal Brasil, Cine Ceará, Fortaleza, 2007 / Melhor Direção, Festival Guarnicê, São Luís, 2007 / Melhor Curta de Animação, FAM, Florianópolis, 2007 / 2º Lugar Melhor Animação Brasileira, 2º Lugar Melhor Primeira Obra, Anima Mundi, Rio de Janeiro, 2007.
Melhor Animação, 5º Fest Cine Amazônia.
Maré Capoeira
Ficção, de Paola Barreto.
2005. 14 min.
Com: Felipe Santos, Isabela Faberezza, Mestre Chaminé.
Sinopse:
Maré é o apelido de João, um menino de dez anos que sonha ser mestre de capoeira como seu pai, dando continuidade a uma tradição familiar que atravessa várias gerações.
Um filme de amor e guerra.
Prêmios:
Prêmio do Júri Infantil no Festival de Hamburgo 2006
Melhor Curta Infantil no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Oberhausen 2006
Marangmotxíngmo MÏRANG (De as Crianças IKPENG Para O Mundo)
Direção e fotografia:
Kumaré, Karané e Natuyu Yuwipo Txicão.
Vídeo nas Aldeias.
2001. 35 min.
Sinopse: Quatro crianças Ikpeng apresentam sua aldeia respondendo à vídeo-carta das crianças da Sierra Maestra em Cuba.
Com graça e leveza, elas mostram suas famílias, suas brincadeiras, suas festas e seu modo de vida.
Curiosas em conhecer crianças de outras culturas, elas pedem para que respondam à sua vídeo-carta.
Prêmios:
Menção Honrosa do Júri oficial do Cinesul 2002, Rio de Janeiro
Prêmio Melhor documentário, II Anaconda 2002, Bolívia
Prêmio Revelação, troféu Tatu de Prata, XXIX Jornada Internacional de Cinema da Bahia, 2002 Prêmio Manoel Diegues Júnior, 9ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico Dezembro 2003, Janeiro
Melhor documentário no All Roads Film Festival da National Geographic, Los Angeles, EUA, 2004 Prêmio Valor Testemunhal e Documental, VII Festival Internacional de Cinema e Vídeo dos Povos Indígenas, Chile, 2004 Ilha das Flores
Documentário, Experimental, de Jorge Furtado.
1989. 13 min.
Com: Ciça Reckziegel.
Sinopse:
Um ácido e divertido retrato da mecânica da sociedade de consumo.
Acompanhando a trajetória de um simples tomate, desde a plantação até ser jogado fora, o curta 'cancara o processo de geração de riqueza e as desigualdades que surgem no meio do caminho.
Prêmios:
Urso de Prata no Festival de Berlim 1990
Prêmio Crítica e Público no Festival de Clermont-Ferrand 1991
Melhor Curta no Festival de Gramado 1989
Melhor Edição no Festival de Gramado 1989
Melhor Roteiro no Festival de Gramado 1989
Prêmio da Crítica no Festival de Gramado 1989
Prêmio do Público na Competição " Em o Budget no Festival de Hamburgo 1991 "
As Coisas que MORAM Em as Coisas
Ficção, de Bel Bechara e Sandro Serpa.
2006. 14 min.
Com: Gabriel Fantini, Jesser de Souza, Lucas Arruda, Luciana Arruda, Raquel Scotti Hirson, Robson Emílio.
Sinopse:
Enquanto acompanham sua família formada por catadores de lixo, três crianças atribuem novos significados aos objetos descartados por a cidade, inventando brincadeiras e pontos de vista.
Prêmio:
Porta Curtas no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2006
Taxi Para O Devaneio
Ficção de Ansgar Ahlers, Dirk Manthey, Eder Augusto.
2007. 12 min.
Com: Pierre Semmler, Adriano Veríssimo, Daniel Torres, Isabella Parkinson, Guntbert Warns
Sinopse: Países diferentes?
Pessoas diferentes, mas um mesmo devaneio:
um táxi viaja de São Paulo (Brasil) a Kiel (Alemanha).
O que acontece se você dá uma olhada inesperada em outra parte do mundo?
Boa Viagem IBANTU!
Direção:
Vincent Carelli, RealizaçãoTV Escola / Ministério da Educação e Vídeo nas Aldeias.
18 min.
Sinopse: Para vivenciarem a diversidade cultural, quatro jovens, de diferentes regiões do Brasil, são convidados a viajarem até a aldeia dos Krahô, situada no 'tado do Tocantins.
Os jovens chegam cheios de expectativas e idéias preconcebidas.
Os Krahô os recebem de braços abertos e a integração é imediata.
Os jovens participam das cerimônias e dos trabalhos realizados na tribo.
Têm o corpo pintado com urucum e jenipapo.
São batizados e recebem nomes indígenas.
A despedida é pura emoção.
Terceiro da série de dez programas educativos «Índios no Brasil» produzida por o Vídeo na Aldeias em parceria com a TV Escola / Ministério da EducaçãoEscola para renovar o curriculum 'colar.
Os programas são apresentados por o líder indígena Ailton Krenak, e mostra, sem intermediários, como vivem e o que pensam os índios de nove povos dispersos no território nacional.
Prêmio da ABDeC, Associação Brasileira de Documentaristas na 6ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, Janeiro, 2000.
Chico
Abelha Documentário, de Uiara M.C. da Cunha.
2005. 15 min.
Sinopse: A história de Chico Abelha, que mora no meio da mata, na Serra da Mantiqueira, de onde só se afasta para apresentar um programa na rádio comunitária de Monteiro Lobato.
O Jumento Santo E A Cidade Que SE Acabou Antes De Começar
Animação de Leo D. e William Paiva.
2007. 11 min.
Sinopse: O sertão nunca mais será o mesmo, depois que o jumento Limoeiro vier à terra pra dar um jeito na humanidade, que sucumbiu à tentação do capeta.
Prêmios:
Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Vídeo, Prêmio Especial da Crítica, Cine-PE, Recife, 2007 / Menção honrosa, CINEPORT -- Festival de Cinema de Países de Língua, Pessoa, 2007 / Melhor Vídeo de Animação, FAM, Porto Alegre, 2007 Sapucaia
Documentário de Sílvia Bigareli e Victor Menezes.
2007. 23 min.
Sinopse: Um mosaico de imagens, frases e sons de diferentes tempos e culturas, revelam aspectos presentes de um patrimônio cultural da região.
DOS 10 AOS 14
Ficção, de Marcio Schoenardie.
2005. 12 min.
Com:
Carolina Arn, Diego Acauan, Diego Costa, Fernanda Guimarães, Ivan Iiahner, Luciana Verch, Luiz Antônio Pereira, Paloma Vecchia, Rosa Campos Velho, Suellem Sá.
Sinopse:
Marciano é um adolescente prestes a completar 15 anos.
Em um veraneio chuvoso, no Rio grande do Sul, ele analisa a sua vida e de seus amigos, no presente, passado e futuro.
Saliva
Ficção, de Esmir Filho.
2007. 15 min.
Com: Gabriel Cavicchioli, Hellen Vasconcelos, Mayara Comunale.
Sinopse:
Uma viagem na mente de uma menina de 12 anos prestes a dar seu primeiro beijo.
Dúvidas e medos mergulhados em saliva.
Prêmios:
Melhor Atriz no Curta Canoa 2007
Melhor direção no Curta Canoa 2007
Melhor Filme no Festival Cultura Inglesa 2007
Melhor direção no Festival de Gramado 2007
Prêmio aquisição Canal Brasil no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2007
Melhor Curta no Festival Internacional de Filmes de Cataluña 2007
Melhor Curta no Festival Tudo Sobre Mulheres 2007
2º Melhor Curta no Mostra Curta Pará Cine Brasil 2007
Exibições voltadas para professores, arte-educadores e universitários em sessões 'peciais
1." Coco Fusco:
I Like Girls in Uniform "
Brasil, 2006 Duração:
48 minute31 second (quarenta e oito minutos e trinta e um segundos)
Produção: Associação Cultural Videobrasil
Direção: Wagner Morales
Referência no cenário artístico e intelectual contemporâneo, a norte-americano de origem cubana Coco Fusco discute os choques entre culturas em ensaios, vídeos, instalações e performances.
Em Coco Fusco:
I Like Girls in Uniform, novo documentário da série, o diretor Wagner Morales usa elementos emprestados da obra da criadora e fragmentos prosaicos de seu dia-a-dia para introduzir o 'pectador em seu complexo universo de teorias e práticas artísticas.
Realizado entre Nova York e São Paulo, o filme revisita o trajeto de Fusco como professora, ativista, performer e pesquisadora e acompanha o processo de criação de Bare Life Study & 1, performance baseada em torturas militares americanas que a artista apresentou durante o 15º Festival Internacional de Arte Eletrônica (2005).
Participação em mostras e acervos externos *
1º Dockanema -- Festival do Filme Documentário (Maputo, Moçambique) *
Itinerância Videobrasil 2006-2007 no Museu Victor Meirelles, Florianópolis *
Rencontres Internationales Paris/Berlin 2006 *
VCA na Colômbia
2." Um Olhar Sobre Os Olhares De AKRAM ZAATARI "
Brasil, 2004 Duração:
42 minute21 second (quarenta e dois minutos e vinte e um segundos)
Produção: Associação Cultural Videobrasil
Direção: Alex Gabassi
Em os anos de guerra civil no Líbano, Akram Zaatari registrou o cotidiano num diário.
Explosões, abrigos e, também, aulas na auto-escola e a compra de um carro:
«as contradições da vida que continua em áreas de conflito», diz ele.
O diário foi o primeiro contato com a produção de imagens, centrais nos vídeos e nas instalações que faria em seguida.
Sua obra, marcada por as mudanças no país, tem como temas-chave sexualidade, política e história.
o filme o acompanha em seu país de origem e no Brasil, e traz como extra depoimentos inéditos de alguns dos principais nomes da arte contemporânea libanesa.
Zaatari é um ativo articulador da nova cena libanesa, marcada por parcerias e multidisciplinaridade.
Participação em mostras e acervos externos *
1º Dockanema -- Festival do Filme Documentário (Maputo, Moçambique) *
Itinerância Videobrasil 2006-2007 no Museu Victor Meirelles, Florianópolis *
Mostra de Vídeo no Programa (DV) Brasil -- Belo Horizonte *
Mostra de Vídeo no Programa (DV) Brasil -- Alegre *
Mostra SESC Eletrônica Arte 2005 (SESC Paraíba, Pessoa) *
Sole e Luna Doc Fest 2006 (Palermo, Itália) *
VCA na Colômbia *
Video / economy -- Distributions in Global Format (ZKM, Germany)
3." Mau WAL:
Encontros Traduzidos "
Brasil, 2002 Duração:
52 minute41 second (cinqüenta e dois minutos e quarenta e um segundos)
Produção: Associação Cultural Videobrasil
Direção: Fabiana Werneck e Marco Del Fiol
Maurício Dias e Walter Riedweg costumam dizer que seu ateliê são as ruas.
É da observação de elas e dos que as povoam que surgem instalações sobre encontros, identidade e territorialidade.
Brasileiro, Dias encontrou o suíço Riedweg em 1993.
Juntos, descobriram ser capazes de potencializar idéias.
«Esse casamento se transformou em Mau Wal», conta Dias.
Em 'te documentário eles apresentam seus trabalhos e os diferentes personagens por trás de eles:
gente que compõe o dia-a-dia das grandes cidades.
Vendedores ambulantes de uma feira nordestina em São Paulo, migrantes ilegais em busca do sonho europeu, adolescentes de rua e suas memórias.
Através de histórias ou do papel que exerce, o elemento humano ocupa sempre 'paço central na obra da dupla Mau Wal.
Participação em mostras e acervos externos *
ArteCinemaArte * Chroma Festival de Arte Audiovisual (México) *
Ciclo de Cortos (FUNCEB, Buenos Aires) *
Circuitos em Vídeo (Alagoas) *
Circuitos em Vídeo (Curitiba) *
Circuitos em Vídeo (Londrina) *
Circuitos em Vídeo (Rio de Janeiro) *
Dias & Riedweg -- Possibly Talking About the Same (Kiasma, Finland) *
Itinerância 14º Videobrasil (Laboratorio Arte Alameda, México) *
Made in Brasil -- Três Décadas do Vídeo Brasileiro *
Mostra SESC Eletrônica Arte 2005 (SESC Paraíba, Pessoa) *
Mostra Vídeo Itaú Cultural -- abril 2003 (Museu Histórico Abílio Barreto, Belo Horizonte) *
Vídeo em Debate 2004 -- Produção, Pesquisa, Circuitos (Museu Victor Meirelles, Florianópolis) *
Video / economy -- Distributions in Global Format (ZKM, Germany) *
X Festival Latinoamericano de Video -- Rosario 2003 (Argentina)
4." RAFAEL França:
Obra Como Testamento "
Brasil, 2001 Duração:
25 minute23" (vinte e cinco minutos e vinte e três segundos)
Produção: Associação Cultural Videobrasil
Direção: Alex Gabassi e Marco Del Fiol
Em os anos 1970, quando a aliança entre arte e tecnologia dava os primeiros passos no Brasil, Rafael França inovava com o uso de fotocópias.
Em os 1980, foi um dos pioneiros da videoarte, subvertendo e criando novas formas de ficção, com farta referência autobiográfica.
Este documentário reúne imagens do artista, trechos de obras e depoimentos da artista plástica Regina Silveira, sua grande incentivadora, do teórico Arlindo Machado, e de Mario Ramiro e Hudnilson Jr., com quem, nos 1970, formou o trio 3 NÓS3.
A provocadora carreira do gaúcho França, nascido em 1957, foi precocemente interrompida por a Aids em 1991.
Como último trabalho ele deixou o impactante Prelude to an announced death, finalizado dias antes de sua morte, em que se confronta com a proximidade do fim.
Participação em mostras e acervos externos *
1º Dockanema -- Festival do Filme Documentário (Maputo, Moçambique) *
47º Festival dei Popoli (Firenze, Itália) *
Acervo Videobrasil na PUC Minas (Belo Horizonte) *
Ciclo de Cortos (FUNCEB, Buenos Aires) *
Corto Circuito 2002 (Napoli) *
Itinerância Videobrasil 2002 -- SESC São Paulo *
Mostra Itinerante/BH -- 13º Videobrasil (Belo Horizonte) *
Mostra Itinerante Bahia -- 13º Festival Internacional de Arte Eletrônica Videobrasil (Salvador) *
Mostra Itinerante Videobrasil 2002: SESC Arsenal (Cuiabá-MT) *
Quinta Bienal de Video y Nuevos Medios (Chile) *
Sessão da Tarde -- Retrospectiva Videobrasil no CCSP (São Paulo) *
TechnoImage 2002 *
VCA na Colômbia *
Vídeo em Debate 2002 -- Produção, Pesquisa e Circuitos (Museu Victor Meirelles, Florianópolis) *
Video / economy -- Distributions in Global Format (ZKM, Germany) *
X Festival Latinoamericano de Video -- Rosario 2003 (Argentina)
5." Certas Dúvidas De WILLIAM KENTRIDGE "
Brasil, 2000 Duração:
51 minute18" (cinqüenta e um minutos e dezoito segundos)
Produção: Associação Cultural Videobrasil
Direção: Alex Gabassi
Filmes, desenho, instalações, teatro, ópera:
William Kentridge, um dos mais importantes nomes da arte contemporânea sul-africano, transita com a mesma fluidez por diferentes meios, numa combinação de referências e técnicas que torna único o seu trabalho.
Em 'te documentário, que o acompanha por Johannesburgo e por o Brasil, ele fala do impacto da paisagem e das contradições sociais sobre sua obra, e comenta a vida de personagens como Felix Teitlebaum, seu alter ego.
Realizado em vídeo digital e super-8 ultragranulado, numa referência aos desenhos a carvão do autor, o filme mostra ainda a montagem de uma instalação inédita de peixes virtuais e um carro real, para a Mostra Africana de Arte Contemporânea, em São Paulo.
Participação em mostras e acervos externos *
1º Dockanema -- Festival do Filme Documentário *
45º Festival dei Popoli *
Acervo Videobrasil na PUC Minas (Belo Horizonte) *
Ciclo de Cortos (FUNCEB, Buenos Aires) *
Itinerância Videobrasil 2002 -- SESC São Paulo *
Mostra Itinerante Videobrasil 2002: SESC Arsenal (Cuiabá-MT) *
Mostra Vídeo -- abril 2001 (Itaú Cultural, Belo Horizonte) *
Sessão da Tarde -- Retrospectiva Videobrasil no CCSP (São Paulo) *
VCA na Colômbia *
Vídeo em Debate 2002 -- Produção, Pesquisa e Circuitos (Museu Victor Meirelles, Florianópolis) *
Video / economy -- Distributions in Global Format (ZKM, Germany) *
XX Festival International du Film Sur L'Art (Quebec, Canada) *
Número de frases: 263
arteirosdadanca@hotmail.com
Escrever: luta inglória?
Um clássico da literatura (seja brasileiro ou 'trangeiro) é atemporal.
Transpôs a barreira do tempo.
Cem anos depois de 'crito, por exemplo, um clássico ainda toca a sensibilidade do leitor de hoje, assim como tocou por ocasião do seu lançamento.
A obra permanece imutável, através dos anos.
Ela não se transforma, quem muda são os homens que a lêem, e se em algum ponto ela envelhece, se aqui e ali aparecem algumas ruguinhas, a 'sência é sempre atual e única, e os netos dos netos vão sentir tanta emoção quanto seus antepassados sentiram.
Mesmo as obras datadas, como Ulisses, Lusíadas, e outras, ainda tem o seu fascínio e encanto, e permanecerão para sempre.
Mas a formação do autor é temporal e cumulativa, como a própria vida.
Vai mudando, com o tempo.
Novas experiências e informações são agregadas, dia após dia.
O 'critor trás com si uma bagagem de conhecimentos anteriores, crenças e convicções, uma forma toda pessoal e particular de olhar o mundo que vai se refletir inteiramente em sua prática autoral.
Muitos dos bons autores aprenderam a trabalhar a palavra na prática, acertando e errando.
Esta é uma aprendizagem sofrida, ligada à própria sobrevivência profissional do autor.
Seria o famoso «aprender a nadar, nadando».
Vencida 'sa etapa de um saber experimental, algumas vezes adquirida por tentativa e erro, finalmente vem a fase das «certezas», quando o 'critor apropria-se dos macetes do ofício e o 'crever passa a ser quase que uma rotina de trabalho.
Escrevi «certezas» entre aspas, pois em literatura, dois e dois podem dar cinco e não existem fórmulas prontas, ao menos naquela literatura em que há um compromisso maior por parte de quem 'creve.
Esses saberes que o autor trás com si e acaba refletindo-se em seus 'critos provêm de diversas fontes:
o ambiente familiar em que foi criado, a sua história de vida, o seu conhecimento empírico e também a formação acadêmica. (
Essa é talvez a que menos conta.
Mas conta).
Houve uma época em que para se analisar a obra levava-se em consideração também a biografia do autor.
Anos depois, passou a ser quase um crime analisar a obra tendo como parâmetro o autor.
Era considerado sacrilégio.
Hoje, vejo que os teóricos voltam a valorizar a vida do autor, diante da análise de uma obra.
Creio que o caminho é 'se.
Citei há pouco tempo numa comunidade da internet o fato de que quando Machado de Assis 'creveu:
«não quero transmitir a ninguém o legado da minha miséria» poderia ser uma frase autobiográfica, pois ele 'taria falando de si mesmo.
Responderam que Memórias Póstumas era uma ficção, e que eu 'tava afirmando que Machado voltara depois de morto para falar de si.
Ora, eu não tirei 'sa tese da minha cabeça!
Até poderia tê-lo feito, mas apenas repeti o que li de um crítico literário.
Há uma corrente que acha que 'sa frase de Machado foi 'crita porque ele sofria de epilepsia, e nunca teve filhos, por medo da doença ser contagiosa.
São suposições, não podem ser tidas como verdades incontestes, mas é uma interpretação.
As pessoas que discordam de 'sa teoria partem para a conclusão equivocada de que quem assim pensa 'tá misturando autor / narrador.
Não é nada disso.
Sabe-se sobejamente que narrador na primeira pessoa não significa memórias biográficas.
Posso 'crever um livro todo na primeira pessoa e ainda assim não 'tarei falando de mim.
Narrador na primeira pessoa não é nem jamais foi considerado como o próprio autor falando de si.
Grande equívoco de quem pensa assim.
Seja qual for o foco narrativo, o autor pode colocar na boca do personagem palavras e atitudes que seriam suas.
Ou não.
No entanto, uma das formas de se analisar um texto é recorrer à biografia do autor.
Apenas dando um exemplo rápido, quem lê a obra inicial de Jorge Amado vai notar cores fortes voltadas para a literatura engajada, de cunho social.
A o 'tudar a biografia do autor, vai-se constatar que, em 'sa época da juventude ele era perseguido por o governo Vargas, por o fato de pertencer ao partido comunista e ser amigo pessoal de Prestes.
Saber 'ses dados vai auxiliar na interpretação das obras de Amado 'critas em 'sa fase.
Nem por isso, eu, leitora, vou achar que o pequeno Ernesto, personagem que morre de disenteria no livro ', seria filho de Jorge!
Não era a família de Jorge, retratada ali, mas sabe-se que, durante a feitura desse livro, o autor 'tava muito envolvido com os problemas sociais que existiam no país.
Faço aqui uma pausa para falar que o livro «Seara Vermelha», de Amado é muitas vezes confundido com» Arara Vermelha», obra posterior a 'ta e que foi 'crita por José Mauro Vasconcelos, 'critor injustiçado por a intelectualidade brasileira, a meu ver.
(Falando ainda de José Mauro, ele 'creveu um livro chamado «Barro Blanco».
Conta-se que quando foram perguntar ao lendário Oswald de Andrade qual a opinião de ele a respeito do livro de José Mauro de Vasconcelos, Oswald apenas teria respondido:
«Achei-o FLACO ").
Fecho aspas.
O conhecimento do autor não é apenas teórico e conceitual;
é também uma soma de sua bagagem de vida.
O 'critor (vocacionado) é um operário das letras, vive a serviço de sua criação.
Ele vai 'crever sempre, mesmo que não ganhe um centavo por isso.
Quem trabalha com a interação, seja ela no plano físico ou apenas no mundo das idéias, (como ocorre com o autor), tem de aprender a contar com si mesmo, pois em algumas ocasiões, ele só vai ter a seu favor a capacidade e o talento para se ancorar.
Caso contrário, ele sucumbe.
A prática de se criar um texto literário envolve emoções;
exaure e alimenta quem 'creve, e o produto final desse trabalho provoca efeitos e às vezes até mesmo mudanças em quem lê.
As mudanças são raras, mas os efeitos, sejam eles bons ou maus, são percebidos logo após a leitura.
O leitor reage sempre de forma emocional ao que lê.
Ora amando e mudando seus conceitos e vindo a tornar-se admirador do 'critor, ora odiando o que lê e 'tendendo 'se ódio àquele que fez o texto.
às vezes quando ouvimos ou lemos algo que provoca em nós um profundo sentimento de rejeição queremos tirar de diante de nós aquele texto.
Alguns vão além, e querem tirar de vista também o autor, 'quecendo-se de que todo homem é igual diante da lei.
Se não 'tou ferindo a lei, posso 'crever o meu pensamento.
Ninguém é obrigado a aceitar, mas também ninguém deveria ter o direito de me calar.
Aqueles que têm mais idade e viveram o período de exceção que o nosso país atravessou sabe que muitos pagaram com a própria vida pelo direito de expressar-se.
Triste daquele cujos 'critos não provocam reação nenhuma.
Esses são os mornos.
E segundo diz a Bíblia, «Por seres morno, vomitarei-te-de a minha boca!».
O morno não provoca resistências, mas também não provoca mudanças.
O autor alcança grandes façanhas contando apenas com o código das letras.
É a sua matéria prima.
São apenas 23 letrinhas.
Mesmo que ele faça uso do K, Y e W, ainda assim serão meras 26 letrinhas.
Arranjá-las no papel de forma a mudar convicções arraigadas, 'se é o grande desafio.
Ele não poderá contar com nenhuma expressão corporal, nenhuma ajuda sonora para ajudar na comunicação 'crita.
É só isso:
o autor, a letra como veículo e o leitor.
Pense no sapateiro:
para executar um lindo par de sapatos que irá embelezar os pés de Gisele Bundchen, ele vai precisar de couro, sola, verniz, cola, e outras coisas mais.
Assim será em tantos outros ofícios.
E o 'critor?
Ele, suas idéias e sua mente são a matéria prima mais importante.
Se o 'critor não tiver papel e lápis não importa, ele fará como José de Anchieta:
'creverá na areia.
Mas quando as adversidades se acumulam, chega-se a um ponto às vezes, em que o próprio autor se questiona quanto ao valor do seu texto e ao seu «saber fazer», ou seja, ele põe em dúvida até mesmo a sua 'tética da sensibilidade.
Não podemos 'quecer que o autor é gente, é um ser humano, e antes de tudo, mesmo amando a interação e a comunicação, acima de qualquer coisa ele é uno, primeiro de tudo ele é um indivíduo, e como o nome já diz, in-divisível.
Em princípio ele 'creve para si, depois para o outro.
Ele tem de ser coerente com o seu modo de pensar e agir, ou será um hipócrita que 'creve apenas para agradar.
O autor é um só, os leitores são mihares ou milhões.
Digo isso referindo-me ao autor já consagrado, é claro.
Ele 'tá falando para uma multidão e não pode, para agradar cada leitor em particular, mudar seus conceitos e convicções.
Mesmo porque cada leitor também possui o seu universo próprio, e ele, autor, não conseguiria a aprovação unânime.
Esse questionamento do autor sobre o seu interagir e os efeitos que isso pode causar no outro (leitor) faz com que o 'critor lance mão de uma grande carga emocional e até mesmo afetiva e tenha uma enorme necessidade de 'miuçar as suas emoções e descobrir até onde ele pode contar com sua própria capacidade de ação.
Escrever é portanto, um ato solitário.
O autor gosta de ser lido porque a leitura de sua obra é uma forma de resposta que ele tem.
Ele aprende, por os olhos do leitor, a mensurar o alcance de suas emoções e valores, vistos agora sob uma ótica nova, a ótica de quem lê.
Antes, o autor falava sozinho;
depois da leitura do outro, ele pode não 'tar mais tão só.
Alguém mais pode pensar como ele.
Quando o autor morre, ainda assim a sua obra continua a dialogar por ele.
Mesmo depois de vencida a primeira barreira, ou seja, convencer o leitor a ler o seu texto, o autor não consegue ir além disso.
O leitor só vai «comprar» a idéia exposta no texto quando ele mesmo, leitor, aceita partilhar de 'sa interação e cumplicidade.
Muitas vezes o leitor já parte para o texto com uma opinião pré-concebida, ele já sabe, de antemão, que vai discordar do que leu.
Até aí, tudo bem.
Discordar do texto sim.
Jamais 'tender isso ao sujeito da ação.
Mesmo porque há opiniões e opiniões.
Ninguém é senhor da verdade.
Quem lê a crítica que Monteiro Lobato fez aos quadros de Tarsila do Amaral fica inquieto com tanta agressão dirigida à jovem pintora, que voltava da Europa com a mente repleta das grandes mudanças nas artes que ocorriam no mundo todo.
O nosso querido Monteiro Lobato chamou os quadros de Tarsila de «rabiscos de uma louca», ou coisa semelhante.
Além de 'crever, o que não é nada fácil, o autor tem ainda diante de si a luta titânica de convencer, de ser sedutor e persuasivo, e para isso ele lança mão de algumas 'tratégias que auxiliam nas relações humanas.
Mas não de todas as 'tratégias.
Como já foi dito aqui, não entra em 'sa relação o olhar, a expressão corporal, a entonação da voz, as pausas, reticências, exclamações.
Ou seja, tudo, aquilo que auxilia no contato humano.
Ganhar o leitor seria quase como ganhar um amigo.
Escrever é como percorrer uma longa 'trada.
E nem sempre se chega lá.
Já conversei com autores cujo único motivo de serem discriminados foi o fato de serem talentosos.
Falavam uma linguagem que não era interessante para os poderosos que a mesma fosse veiculada.
O autor, sempre que 'creve um texto acha que vai alcançar a linha de chegada.
Aposta tudo.
Lança no pano verde todas as suas letras.
É isso:
o texto é apenas uma aposta.
De vez em quando, muito raramente, quase nunca, a gente ganha a rodada.
A maioria são perdas.
São meras palavras lançadas ao vento.
E sabemos que o vento não lê.
Fecho aqui com uma frase de " Ítalo Calvino:
«Ler significa despojar-se de toda intenção e preconceito a fim de 'tar pronto a acolher uma voz que se faz ouvir, quando menos se 'pera».
Número de frases: 133
A maestrina nunca 'tudou música na vida, mas garante que rege orquestra e coral.
Aprendeu «de ouvido», de tanto acompanhar os 13 irmãos tocando violão, bandolim e piano.
Dona Celina Vieira orgulha-se do dom que a acompanha desde a infância e que lhe tornou a líder do grupo Bandolins de Oeiras, formado por senhoras com idades entre 65 e 80 anos.
A história começou há décadas, quando elas ainda eram adolescentes e viviam às voltas com saraus em suas casas ou nas casas de amigas.
Em Oeiras, a primeira capital do Piauí, era comum que as moças aprendessem a tocar algum instrumento musical, para que os pais orgulhosos pudessem relatar seus talentos aos amigos.
Mas depois de casadas, os cuidados com marido, casa e filhos acabaram consumindo todo o tempo e a música ficou apenas na lembrança.
Em o começo dos anos 80, por algum desses motivos que ninguém explica, as moças, que àquela altura já eram senhoras, resolveram tocar para homenagear os 250 anos da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Vitórias.
Dona Celina vibrou com a idéia e passou a incentivar as amigas a continuarem tocando.
E foi assim que o grupo surgiu.
De lá para cá, donas Lilásia Freitas, Petronília (Petinha) Amorim, Rosário Lemos, Niêta Maranhão e Maria José Ferreira, a Zezé Cabeceira, não pararam mais de tocar.
Agora são 'trelas de primeira grandeza, convidadas para tocar em eventos por todo o país.
Já tocaram até no Palácio do Planalto, na cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural.
Ao lado do presidente Lula e dona Marisa, encantaram a platéia ao som do Hino Nacional.
Dona Celina conta que nas viagens o grupo vai sem regente.
«Morro de medo de andar de avião.
Já andei, mas fico nervosa demais, prefiro não ir.
Elas tocam bem sozinhas», diz.
Atualmente o grupo tem, além dos bandolins, dois violões e um pandeiro, para a música soar de forma mais completa, segundo Celina.
«Tem gente que reclama do pandeiro, mas eu gosto, fica mais bonito, tem mais ritmo».
Devido à idade avançada, as «meninas de Oeiras» não podem ter uma agenda recheada de eventos, mas mesmo assim procuram atender a todos os convites e viajam acompanhadas por familiares.
Dona Celina diz que para ela não existe um ou outro show mais importante.
«Todos são bonitos, todos nos emocionam, temos consciência de que fazemos apresentações bonitas e as pessoas gostam."
Em o repertório, a doçura do chorinho e das valsas, de vez em quando um samba.
Elas fazem questão de tocar valsas do conterrâneo Possidônio Queiroz, compositor autodidata que emociona por a delicadeza dos arranjos.
Os oeirenses mais bairristas afirmam que são de Possidônio as mais belas valsas brasileiras.
Como as «meninas dos bandolins», ele nunca 'tudou música, mas soube extravasar um talento nato;
hoje a neta Vanda, dona de uma voz encantadora, é quem demonstra o poder musical dos genes da família Queiroz.
O reconhecimento agora, na terceira idade, é motivo de orgulho para as seis senhoras.
«Imagine que coisa bonita é isso, de você 'tar velha e de repente começar a ter uma vida diferente.
Subir num palco e tocar para dezenas e até centenas de pessoas, mostrar para os mais jovens como era boa a música do tempo em que nós tínhamos a idade de eles.
Todos gostam, acham bonito», comenta.
O grupo gravou um CD há cerca de três anos, mas a divulgação foi pequena e não há exemplares disponíveis para venda.
«Nós gostaríamos muito de gravar outro disco, deixar registrado o nosso trabalho, a nossa dedicação à música.
Seria bom poder contar com outros músicos, fazer arranjos bonitos e gravar.
Número de frases: 34
É um sonho nosso, que 'pero que todas nós possamos ver realizado».
Escrever não é uma tarefa fácil, 'crever bem, menos ainda.
Em uma língua onde amor rima com dor, calor, fervor, odor e tantos outros substantivos convenientes, poesia parece ser, poesia simplória e ruim ao menos.
Escrever uma boa prosa não 'tá tão distante.
Daniel Galera é um jovem 'critor «Porto Alegrense» nascido em São Paulo que consegue 'se feito, com três livros lançados e o quarto em 'tado quase embrionário.
Com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla fundou a editora Livros do Mal, por a qual editou seus dois primeiros livros:
Dentes Guardados (uma coletânea de contos agora disponível para download em seu site) e Até o Dia em que o cão morreu -- recentemente adaptado para o cinema no filme Cão Sem Dono.
Até o Dia em que o cão morreu, como Galera mesmo descreve, é uma fábula pseudo-realista.
O protagonista é formado, solteiro e vive sozinho, mesmo dependendo dos pais financeiramente.
Não sabe o que quer, mas consegue demonstrar de inúmeras maneiras o que não quer, e uma das coisas que não quer é procurar emprego, ou se ligar demais emocionalmente.
Mas da mesma maneira que ele tenta ignorar o tempo que corre e o mundo que 'tá-la fora, dois novos personagens em sua vida ignoram suas patadas:
Seu cão e a modelo Marcela.
Assim, como se não bastasse a dificuldade de tentar achar um rumo sozinho, nosso protagonista precisa decidir se quer carregar outros com si.
O personagem é palpável, até demais, pois em minha parca experiência pessoal já 'barrei com diversos tipos parecidos, mesmo que não admitam a identificação, e é claro que já enxerguei algo de mim ali.
Os jovens-adultos agora tornaram-se adolescentes tardios, e 'se é um grande trunfo do romance:
ele consegue captar o 'pírito de 'sa geração que se acha capaz de fazer tudo mas não acha nada digno de ser feito.
O que nos separa do narrador são alguns maneirismos quase-fantásticos.
Um livro honesto e gostoso de ler.
-- Agora vivendo em São Paulo, Daniel Galera publicou seu terceiro livro e segundo romance, Mãos de Cavalo por a Companhia das Letras e relançou semana passada Até o dia em qua e o cão morreu por a nova editora.
Enquanto isso segue trabalhando como tradutor -- em seu currículo constam livros como Minha Vida (Robert Crumb), Pornô (Irvine Welsh) e Reino do Medo (Hunter S. Thompson);
'creve para o blog de video-games Jogatina e já tem planos para sua próxima história, parte do projeto literário Amores Expressos:
Criado por Rodrigo Teixeira, despachará 16 'critores brasileiros para 16 cidades do mundo que têm como missão retornar com uma história de amor enquanto são observados por uma equipe de filmagem;
o destino de Galera é Buenos Aires.
Abaixo segue uma entrevista por e-mail com o autor:
Fernando Mafra -- Qual o seu grau de envolvimento no filme?
De onde partiu a iniciativa de adaptar o livro?
Daniel Galera -- Meu envolvimento foi participar de leituras do livro, opinar sobre o roteiro em algumas ocasiões e conviver um pouco com a equipe.
Acompanhei alguns momentos da filmagem, virei umas noites em bares, 'sas coisas.
A iniciativa de fazer a adaptação partiu do Beto:
uns três meses depois de lançar o livro, ele me ligou para perguntar o que eu achava da idéia.
Acho que o livro chegou nas mãos de ele por o Marçal Aquino.
FM -- O que você achou do filme?
A 'sência do que você tentou passar no livro 'tá lá?
DG -- O filme ficou muito bom e acho que uma grande parte da 'sência do livro 'tá em ele, mas trata-se claramente uma releitura, uma obra nova feita por outros autores.
Os principais temas 'tão lá:
a apatia do narrador, o encontro de duas pessoas que juntas conseguem anular suas solidões por breves instantes, o peso e o encanto que as possibilidades da vida exercem sobre nós.
Mas também há várias diferenças.
Quem fala no filme são seus diretores, sua equipe, seus atores, que se inspiraram numa criação minha para mergulhar num processo de criação próprio.
FM -- Considerando seu trabalho de tradutor, o que o torna um adaptador, você tentou «pegar leve» com o filme?
Você acha que existe uma compreensão na mente do público sobre os problemas de se adaptar / traduzir uma obra em qualquer grau?
DG -- Sempre acreditei que adaptações são obras originais, ainda que inspiradas em outras.
Desde o início, me posicionei de 'sa forma com o Beto e o Renato:
ajudo com o que precisarem, mas não vou me intrometer.
Não sei até que ponto o público pensa em 'se tipo de coisa.
Acho que é preciso 'tar na pele de um autor adaptado para conhecer a 'tranha sensação de ter uma obra ao mesmo tempo homenageada e transformada.
É agradável, mas também um pouco perturbador.
Acho que os leitores que gostaram muito do livro poderão se deter um pouco na questão do que se ganha e se perde numa adaptação, mas para o público do filme me geral eu acho que isso não importa.
FM -- Em seu blog você diz que não há resposta sobre se o livro é autobiográfico ou não -- em paralelo ouvi críticas de leitores seus dizendo que a 'calação de Tainá (mulher de Galera) como Marcela foi um erro justamente por reforçar a idéia de que a história é de fato autobiográfica.
Qual o seu veredito sobre isso, se há algum?
DG -- Meu veredito é que a Tainá 'tá maravilhosa no papel e que todo o resto é irrelevante.
Sustento o que disse naquele post:
é impossível afirmar de forma honesta se o livro é autobiográfico ou não:
a história é uma mistura de experiência própria, observação do mundo a meu redor e pura invenção.
Quase toda a literatura é concebida de 'sa maneira.
Talvez valha a pena ressaltar que a Tainá nem sonhava em ser modelo na época em que 'crevi o livro.
E ao contrário do meu personagem, eu nunca tinha morado sozinho nem trabalhado como tradutor.
Mas acho cansativo entrar em 'ses detalhes, porque nada disso importa.
As pessoas vão acreditar no que preferirem acreditar, e já me acostumei a isso faz tempo.
FM -- Li o livro há algum tempo, mas dois detalhes na adaptação me chamaram a atenção:
A mudança no título e a adição de um nome ao protagonista.
Você tem idéia ou teorias de porque 'sas decisões foram tomadas?
Você acha que elas têm algum impacto sobre a história?
DG -- Foram 'colhas dos diretores e roteiristas.
Sei que o título do livro foi considerado inadequado para as telas.
Não gosto do novo título, mas de acordo com minha visão de que o filme é uma obra nova inspirada no livro, isso não me incomoda.
Quanto ao nome do protagonista, entendo que deve ter sido importante para o roteiro.
Em a literatura é muito mais fácil ocultar o nome do protagonista.
Em a tela, isso pode ser um problema.
FM -- Tropecei no próprio Overmundo num texto de Fábio Godoh, envolvido na produção, que elogia Beto Brant em detrimento de você e de seu texto.
Você acha que isso é uma atitude ética?
DG -- Fui pego de surpresa quando li 'se post, mas não acho que seja anti-ético.
Em a verdade, não acho que 'se assunto mereça atenção.
FM -- O que mudou em sua vida desde sua mudança para São Paulo?
DG -- A principal mudança é que tenho dificuldade em encontrar um bom churrasco por aqui.
Ou é insanamente caro, ou a carne não é lá 'sas coisas, apesar da tentativa de disfarce.
Dia desses descobri uma churrascaria de gaúchos no Alto da Lapa que é boa e barata, me lembra as churrascarias de Porto Alegre, então o problema aliviou um pouco.
FM -- Você acredita que agora é um 'critor bem-sucedido?
Está satisfeito com os rumos na sua carreira?
Há objetivos distantes que você não tem certeza se serão alcançados?
DG -- Nunca planejei muito uma carreira como 'critor.
O que sempre tive foi a certeza de que 'crever era importante -- ou melhor, 'sencial -- para mim, e acho que os livros que publiquei até agora são decorrência disso.
Penso em curto prazo -- tenho uma idéia, quero muito 'crevê-la, quero publicá-la.
Algumas oportunidades busquei sozinho, outras chegaram até mim.
O caminho se faz ao percorrê-lo, com o perdão por a filosofia barata.
FM -- E a Livros do Mal, acabou?
DG -- Eu e o Pellizzari nos recusamos a assumir que acabou, porque no fundo ainda acreditamos que o projeto 'tá vivo, em hibernação.
Mas a Livros do Mal foi uma explosão que surgiu de uma reação em cadeia a partir do encontro em alta velocidade entre um átomo de entusiasmo e outro de oportunidade.
Será necessária outra reação de 'sas para que o projeto desperte de sua caverninha aconchegante no alto da montanha.
FM -- Como se deu seu envolvimento no projeto «Amores Expressos»?
Como 'tá sendo a experiência de 'crever sob encomenda?
DG -- Meu envolvimento foi ter sido convidado.
Fiquei entusiasmado com a idéia e pretendo aproveitá-la plenamente.
Não acho que será exatamente uma 'crita por encomenda.
Já 'crevi por encomenda antes, e em 'se caso há limites rígidos.
Creio que o projeto cria a oportunidade para que os autores se dediquem a um trabalho verdadeiramente autoral.
Há apenas um limite de tempo, mas não acho que será um problema.
FM -- Além do seu envolvimento em 'se projeto, há mais 'critos por vir?
DG -- Sim, pretendo começar outro livro logo após terminar a história de Buenos Aires.
Mas ainda é uma idéia vaga demais para entrar em detalhes sobre ela.
FM -- Já ouvi dizer que você se considera um autor saído da internet.
Isso procede?
Além do Rancho Carne e do Jogatina, você participa ou participou de outras iniciativas puramente online?
DG -- Procede em parte.
Eu tiro sarro de 'sa coisa de «autor saído da internet» porque acho a expressão bisonha, parece que o sujeito saiu voando do monitor.
Ao mesmo tempo, é verdade que comecei a publicar na internet e isso foi crucial para eu descobrir a 'crita e abrir caminhos na literatura.
Editei um site literário, o Proa da Palavra, e 'crevi durante três anos no mail-zine Cardosonline, que foi uma das coisas mais legais que me conteceram na vida.
FM -- Muito anda se falando sobre conteúdo e jornalismo colaborativo, em 'pecial com receio de acadêmicos e profissionais jornalísticos.
Você tem acompanhado algo sobre o assunto?
Qual a sua opinião sobre isso e de outras iniciativas ligadas como a liberação de direitos atravéz de licensas livres?
DG -- Gosto de 'sas iniciativas.
Acho que tudo isso veio para ficar, desde Wikipedia até A Nova Corja, passando por o próprio Overmundo.
E me interesso muito por a idéia de licenças livres.
O ato de doar uma parte do trabalho tem imenso valor para quem 'creve, sobretudo literatura.
Negar a beleza e a importância da noção de compartilhamento da expressão humana é uma forma triste de cegueira.
O desafio de cada autor e das publicações é conseguir conciliar a recompensa material por o trabalho com 'sa outra dimensão, a do compartilhamento.
A internet é hoje um imenso e fascinante laboratório desse assunto.
FM -- Alguém já comprou o Mãos de Cavalos para adaptar?
DG -- Está negociado e quase comprado por uma produtora de Porto Alegre.
Eles já 'tão trabalhando no roteiro.
FM -- Essa é mais um convite, para você acrescentar uma entrada no Guia do Overmundo falando de 'sa churrascaria que você descobriu para ajudar outros imigrantes de Porto Alegre.
DG -- Vou dar uma olhada lá, se for fácil eu coloco.
É a Gaúchos da Pio XI, na Rua Pio XI.
Número de frases: 122
-- Texto elaborado com consultoria de Mi [de Camila] Cortielha A arte circense é uma das mais antigas da história da humanidade, teve origem em povos viajantes, e existe nas mais variadas categorias, circo de rua, circo tradicional, circo chinês, circo russo e diversos outros.
O circo consegue agrupar vários tipos de arte, como o malabarismo, o palhaço, a acrobacia, o adestramento de animais, equilibrismo, magia e muitas outras atrações.
Fatos históricos também evidenciam o surgimento do circo, como os 'petáculos feitos por os romanos nos grandes 'tádios, onde os cristãos eram jogados na arena para serem devorados por leões, os bobos da corte que no circo acabaram assumindo o papel do palhaço, e outras coisas mais que foram se juntando com o passar do tempo como peculiaridades de culturas locais, como a mulher barbuda, o homem pássaro, os números de magia, entre outros.
A grande maioria dos artistas moravam em confortáveis traillers, e desenvolviam sua rotina diária juntamente com sua família, o que já não é tão fácil realizar atualmente, as crianças vão ao colégio brincam e iniciam seus ensaios para sua futura profissão circense, as mães costumam cuidar dos afazeres domésticos e dos ensaios no picadeiro.
Os homens têm a rotina dos ensaios, cuidam da manutenção dos carros e dos trailler bem como de outras atividades domésticas e do circo.
A alegria e fascinação que o circo proporciona tem sido comprometida, e caso não venhamos a fazer algo para o incentivo de 'ta arte ela pode desaparecer.
Em as grandes cidades muitas vezes o circo não consegue mais atrair aquele público de antigamente, geralmente ele concorre com os shoppings, que se tornaram o programa principal de muitos cosmopolitas.
As crianças fascinadas por a tecnologia encontrada em video-games e lan-houses não vêem tanto atrativo assim no circo, como na época de nossos pais e avós.
O incentivo por parte do governo também é um fator relevante nos problemas enfrentados por o circo, na maioria das vezes o circo arca com toda os custeios desde o aluguel de espaço, a manutenção, a divulgação e outras coisas mais que poderiam ser patrocinadas ou incentivadas por a iniciativa pública.
Atualmente o circo brasileiro passa por uma crise, as produções 'tão sendo ameaçadas devido ao custo de manutenção de animais de grande porte que acaba desestimulando sua presença nos picadeiros.
Além do custo de manutenção dos animais serem altos, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e as ONGs, sempre que podem, dão um jeito de aplicar multas.
Os equipamentos 'truturais do circo como as lonas também são uma dificuldade, cada vez mais sofisticadas em sua confecção elas 'tão com preços extremamente altos, devido a baixa procura muitas vezes não existe forma de baratear afirma grande maioria de circenses.
Isso demanda a necessidade do aumento do ingresso, afirma Dalva Maffi, dona do Circo Moscou, porém com a alta dos ingressos que já se mantêm o mesmo valor por três anos ocorre o afastamento do público.
Segundo Dalva, o público do circo em grandes cidades como Belo Horizonte costuma ser de 3.500 pessoas por semana, um número cada vez mais minguante, o circo se tornou uma atividade com retorno arriscado e inseguro.
Existem algumas iniciativas no país que persistem em manter a arte circense, como a Academia Brasileira de Circo que vem tentado mudar a realidade, incentivando os jovens a se interessar por o circo, inclusive com aulas e apresentações realizadas por os próprios alunos.
O Festival Mundial de Circo do Brasil, realizado anualmente, que surgiu com a constatação de que a arte circense se mantém viva e intensa em nosso país e que, fazia-se necessário um evento que reunisse todas as tendências de 'sa importante manifestação cultural.
O desafio é 'timular as novas gerações e o aprendizado de 'sa arte como possibilidade real de inclusão social e de geração de emprego e renda.
O Movimento Rua do Circo de Brasília é um outro exemplo de iniciativa, conta com uma equipe de oito profissionais de entre artistas, organizadores e psicólogos.
Uma vez por semana, o grupo se reúne para fazer exercícios de aquecimento, alongamento e começar as aulas debaixo da lona no Clube da Imprensa, onde uma área 'tá em reforma para 'sa finalidade.
Os moradores de rua almoçam no projeto e depois partem para uma conversa em grupo, quando fazem uma grande roda e discutem as principais novidades e anseios de todos.
Mas o grupo ainda não conta com patrocínio fixo para as atividades.
Mesmo com todas as dificuldades de reunir o grupo e trabalhar na busca de um futuro melhor para os moradores de rua, os artistas do movimento continuam tentando se mobilizar para conquistar novos alunos e manter o projeto de pé.
Em 2007, eles pretendem aumentar o número de aulas e buscar novos financiamentos.
A vinda do Cirque de Soleil para o Brasil contribuiu para chamar atenção dos governantes.
Com sua moderna 'trutura tecnológica, figurino luxuoso e ótimos efeitos, nada mais é do que um circo que começou como qualquer outro, com 'truturas simples, porém que recebeu investimento e crédito por parte do governo, e agora é referência mundial.
Quem nunca se encantou com o globo da morte, o homem bala, o mistério dos grandes mágicos, o talento das contorcionistas e o dom de fazer palhaçadas e aquela famos frase «Respeitável público».
Que tal se trocássemos uma ida ao shopping para dar um pulinho no circo e ver 'petáculos únicos que nos dão uma grande lição de superação e capacidade humana?
O 'petáculo não pode parar, o circo precisa continuar e isso também 'tá em nossas mãos, dê você também um incentivo ao circo, leve seus filhos, faça-os conhecer 'te mundo que já encantou e fez muito feliz a vida de nosso pais e avós.
Texto:
Luiz Gustavo Pacete de Lima -- gustavo.Pacete@revistanucleo.com.br
Número de frases: 30
N ão precisa nem ser um leitor assíduo de histórias em quadrinhos para conhecer personagens que já se tornaram ícones da cultura pop, como Batman e Superman.
No entanto, muitos desses leitores inveterados ainda desconhecem os heróis tupiniquins.
Nomes como «O Judoca», O Careca» e " Capitão 7, por exemplo, devem soar, no mínimo, engraçados aos ouvidos dos mais aficcionados.
F oi pensando em 'ses nomes «curiosos» e na tendência dos brasileiros ao humor 'crachado, que o artista plástico potiguar, Wanderline Freitas, resolveu criar seus personagens, Urubu Man e Eni Guimá.
O bbf (belo, burro e forte) Urubu Man, foi concebido como uma paródia do Homem-Morcego;
já Eni Guimá, um atrapalhado detetive, além de ser uma caricatura do próprio desenhista, é uma homenagem ao Ed Mort, personagem do Luís Fernando Veríssimo.
A primeira história publicada e recém-lançada de 'sa dupla foi batizada de Eni Guimá:
o diamante vale ouro.
O enredo gira em torno do roubo do diamante homônimo, da coleção do Sr. Vale Ouro da Silva, que oferece uma recompensa para quem achá-lo.
Visando a gorda soma em dinheiro, entram na disputa detetives, policiais (e um herói?):
Eni Guimá, Otto Brucker, Jack Roland, Descone Fiado e Urubu Man..
De 'sa forma, Wanderline criou uma bem humorada e inteligente sátira aos clássicos noir, com um traço que nos remete a Frank Miller, de quem o artista confessa ser discípulo.
Mas, afinal, quem é Wanderline Freitas?
A ntônio Wanderline Freitas tem 32 anos, é artistas plástico, quadrinista e professor de desenho, natural de São Rafael, município do Rio Grande do Norte.
Desde criança sempre foi inventivo, é auto-didata e afirma que foram as histórias em quadrinhos o principal vetor de seu interesse por as artes em geral.
O trabalho mais «polêmico» de Wanderline foi feito no final do ano de 2005, quando o jornalista Alex Medeiros, do Sanatório da Imprensa, fez uma encomenda bastante intrigante:
pediu ao artista para pintar a Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, retratando-a com as imagens de super-heróis.
Eis que surgiu a «Ceia dos Heróis», tela pintada em acrílico, a qual foi destacada no site 'pecializado em quadrinhos:
Universo HQ
http://www.universohq.com/quadrinhos/ 2005/ n 21122005.21.
cfm O artista não pára, 'tá sempre criando.
Wanderline não foge a 'sa máxima.
Recentemente passou a produzir diversos artigos de memorabilia, como:
porta-lápis, porta-livros, porta-dvds, telas-relógio, relógios de mesa, entre outros, todos expostos na Garagem Hermética Quadrinhos http://www.ghq.rg3.net
D 'enhos em grafite, 'ferográfica e nanquim, telas e painéis em acrílico 'tão entre as técnicas que Wanderline domina e ensina de forma didática e singela.
Q uem quiser conhecer um pouco mais o trabalho desse versátil artista plástico, é só acessar o blog:
Número de frases: 26
O título acima era provisório, e foi 'colhido na falta de um melhor.
Acabei, no entanto, me afeiçoando a ele e desistindo de encontrar outro que, com maior precisão, ilustrasse 'sas minhas reflexões, totalmente impressionistas, a respeito daquele período da História do Brasil.
Que ninguém 'pere, portanto, nenhuma dissertação acadêmica ou, mesmo, o menor rigor científico em 'ses comentários sobre o período, que vai de 1937 a 1945, e em que Getúlio Vargas governou, ditatorialmente.
Quando ainda tentava decidir sobre um título mais adequado ao assunto tratado, cheguei a pensar em «Encantos e Abominações do Estado Novo» e até mesmo em «Aromas e Fedores dos tempos de Vargas ditador» pois se trata bem disso, de algo que, para além da historiografia oficial, isto é, para além do que 'tudei sobre 'te período no ginásio e colégio (pobre historia do Brasil a que me ensinaram), noto que existem coisas interessantes e progressivas, a par das abomináveis, que, de resto, não são um privilégio daquele período.
Marcas Indeléveis na Memória de Oeiras
Em Oeiras era interventor, na época, o coronel Orlando de Carvalho;
segundo contam, de um perfil supinamente autoritário.
Além disso, no entanto, é preciso dizer que foi instalada a energia elétrica, erigido o aeroporto e construídos, no centro histórico da cidade, um mercado e, principalmente, um conjunto de prédios 'tilo art-déco (o Cine-Theatro, o Café Oeiras e um terceiro prédio que hoje abriga o Sebrae e o Clube dos Diretores Lojistas, todos eles datados do início dos anos 40), muito belos em si mesmos mas que, principalmente, constituem, para mim, a mais feliz intervenção urbana num sítio histórico de tamanha importância de que tenho conhecimento, pois foram plantados em plena Praça das Vitórias, fazendo figura ao lado da centenária Catedral de Nossa Senhora da Vitória (1733), uma coisa que deve, certamente, ser melhor 'tudada por arquitetos, urbanistas e outros pesquisadores.
Claro que Oeiras, de lá para cá, progrediu, mas não existe, eu creio, nenhum sinal tão marcante do progresso quanto 'tes que acabo de listar e que lá 'tão à vista de todos.
Em 1937 foi criado o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e são do final dos anos 30 seis das sete únicas edificações tombadas, em nível nacional, no Piauí (três de elas em Oeiras).
Isso me faz pensar que o novo orgão, dedicado à preservação do nosso patrimônio, teve conhecimento prévio das edificações que se perpetravam no sítio histórico e, se não as avalizou oficialmente, também a elas não se contrapôs.
Fico muito curioso por conhecer detalhes do processo que levou ao tombamento da Igreja Matriz de Nossa «Senhora da Vitória».
«Respostas» para a Educação
O que eu disse sobre Oeiras precisava ser dito, mas não tenho ilusão de que isto possa ser tomado como um termômetro do que ocorreu durante o Estado Novo no Brasil, como um todo.
Não foi isso o que me levou a abordar o tema.
Envolvido, desde os últimos meses do ano passado, com o livro colaborativo «Reminiscências da Escola», não pude deixar de notar que pelo menos quatro dos nossos colaboradores, eu inclusive, tiveram, para o bem e para o mal, ligações com instituições criadas durante o Estado Novo.
Curioso também notar que, cada uma de 'tas instituições procurava, a seu modo, dar uma resposta a questões que preocupavam a sociedade naquela época.
O «Colégio Técnico Agrícola Estadual Dona Sebastiana de Barros» onde 'tudou o Agenor, e a «Escola Técnica de Pesca Darci Vargas», que presenciou as dores e as delícias do Nivaldo Lemos foram, ambas, criações do Estado Novo que se propunham a dar uma alternativa educacional profissionalizante a comunidades fora dos grandes centros urbanos e, se uma de elas subsiste, em São Manuel -- SP a outra deixou saudades, como pudemos constatar, no amigo Nivaldo e em muitos de seus ex-colegas.
Seja por qual ângulo desejemos analisá-las, não resta a menor dúvida de que representaram um 'forço sério para dar uma resposta a questões que se colocavam para a sociedade da época.
As duas outras 'colas instituídas durante o Estado Novo parecem ter sido criadas como pólos opostos de uma bateria, tal a contraposição em que se encontram.
Falo da Escola de Aplicação ao Ar Livre, pré-'cola onde se passa uma das minhas reminiscências, e da 'cola-prisão, conveniada ao Serviço de Atendimento ao Menor -- SAM em que ficou aprisionado o Spirito Santo dos cinco aos oito (?)
anos de idade.
Escola de Aplicação ao Ar livre:
Uma Escola Modelo
Por ter 'crito sobre a Escola de Aplicação ao Ar Livre, que funcionava nas dependências do Parque Fernando Costa (mais conhecido como Parque da Água Branca), um Oásis de tranqüilidade a vinte minutos (a pé, afinal sou andarilho) do centro de São Paulo, fui procurado por um jovem mestrando em Educação Física cuja dissertação versava, justamente, sobre aquela 'cola.
Vejam só alguns dos procedimentos pedagógicos que lá eram preconizados:
«Em a classe pré-primária, as atividades se destinarão ao exercício físico, acuidade sensorial, linguagem, hábitos higiênicos e senso 'tético.
A função da professora será apenas a de orientar e 'timular o comportamento das crianças, interessando-as e fazendo-as obter, através da observação e experiência, conhecimentos compatíveis com a sua idade.
Não haverá programa nem horário, apenas o aproveitamento livre das iniciativas infantis.
O plano da professora tomará uma forma toda ocasional.
O programa a seguir no primeiro ano primário é, sem duvida, aquele exigido por o Departamento de Educação.
Em a 'cola primária o que importa, é o método, para que o assunto se torne interessante e a crianças aprenda, sem perceber, brincando, sem 'tar presa a uma rotina que é contra a sua natureza."
SAM: Escola-Prisão, Prisão-'cola, ou Cárcere de Menores?
Quem teve a oportunidade de ler o comovente relato da passagem do Spirito Santo, aos cinco anos, por as dependências do SAM -- Serviço de Assitência ao Menor -- no Rio de Janeiro certamente não precisa ler a descrição abaixo para entender o que eu quero dizer:
«Criado por o decreto n. 9744, de 19 de novembro de 1938, o SAM -- Serviço de Assistência aos Menores -- passou a atuar em todo território nacional, com caráter centralizador e na área do Ministério da Justiça.
Nascia com a missão de organizar os serviços de assistência, fazer o 'tudo e minimizar o tratamento aos menores.
No entanto, o SAM logo ficou famoso por os terríveis maus tratos e exploração dos menores e por 'cândalos e alta corrupção.
O Diretor Geral do SAM (1954-55), Paulo Nogueira Filho, deixou um livro sobre a Instituição, que se tornou famoso por as denúncias que fez sobre a vida dos jovens internos de seus asilos.
Mais uma vez, vemos que a terrível situação dos jovens infratores, altamente vulneráveis aos maus tratos, vitimização e violação de seus direitos, em nada mudou, com a nova instituição.
Em Quintino, no Rio de Janeiro, denunciava Nogueira:
«Havia um corredor com celas para rebeldes e os difíceis.
Em elas eram atirados nus, após surras de 'trondo que abalavam a casa, e, não raro, quebravam ossos, mutilando as vítimas».
Sobre os descalabrados existentes na instituição relata que havia dentro da instituição corrupção em todos os graus ...
O comércio da fuga ia mais longe ...».
«Vivendo na ociosidade total, sem vislumbre de 'perança, que podiam fazer os moços ali senão se gabarem uns aos outros das proezas cometidas e tramarem fugas e rebeliões». \> (
«O jovem infrator e a Febem de São Paulo História e atualidade», por Maria Luiza Marcílio, O Estado de São Paulo, 27 / 03/2000)
Romantismos à parte -- rememoro a música que o Spirito citou ao lembrar-se da morte do cantor Francisco Alves (eu também me recordo das pessoas chorando ante a infaustosa notícia) o tal «bando de andorinhas» formado por as crianças do «nosso Brasil» -- não se pode negar o realismo com que foram encarados os dois problemas:
como educar as nossas crianças, de um lado, e de outro, como confinar os «menores», aqueles deserdados da» infância feliz «para que não venham a nos dar dores de cabeça e até se tornarem urubus a atrapalhar o gracioso voo do nosso» bando de andorilhas».
É claro que a «Escola de Aplicação ao Ar Livre», 'pécie de protótipo de 'cola do futuro para as» nossas crianças " nunca chegou a generalizar-se, inclusive porque a 'cola pública deixou de ser um local adequado para educá-las.
Em 'tes termos, não pode ser comparada ao monstro, operado em nível nacional, em que se constituiu o Serviço de Atendimento ao Menor, mas, seja como for, as duas concepções de «ensino» foram geradas no mesmo útero da ditadura 'tadonovista e, se pensarmos bem, elas são como duas faces da mesma moeda, de uma sociedade que não se cansa de reproduzir, nos fatos, e até na nomenclatura, as desigualdades em que se baseia.
De o festejado «Estatuto da Criança e do Adolescente» até hoje não participa o Menor Carente, uma rima nem rica nem pobre, mas profundamente triste, um retrato fiel da sociedade em que vivemos.
Atenção:
Citação de algo que me veio à cabeça sem qualquer motivo aparente.
Boas Festas
Assis Valente Anoiteceu, o sino gemeu.
E a gente ficou feliz a rezar.
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar.
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel.
Bem assim felicidade eu pensei
Que fosse uma brincadeira de papel.
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu ou então
Felicidade é brinquedo que não tem.
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar.
Número de frases: 68
Número de frases: 0
Que outro 'critor diria com orgulho que seu biografado não gostou do livro?
Pois 'se é o jornalista Fernando Morais, lançando em Santos O Mago, que 'miúça em mais de 600 páginas a vida de Paulo Coelho.
Em quase duas horas de bate-papo e alguns charutos, Fernando parecia um 'critor falando de seu primeiro livro.
Em 2004, começou a acompanhar a rotina de Paulo Coelho, que já havia autorizado a biografia.
Com mais de 40 anos de jornalismo e as biografias de Assis Chateaubriand e Olga Benário no currículo, Fernando sabia da importância de documentos para se contar uma boa história.
E foi no testamento de Paulo que viu, numa linha apenas, uma menção a um baú (que não era o do Raul), que deveria ser incinerado após a morte do mago.
Fernando insistiu, e conseguiu que Paulo Coelho liberasse 'te baú, mas com uma condição:
descobrir quem o havia confundido com um guerrilheiro e o torturado no Paraná, em 1969.
Adivinhe se Fernando descobriu o paradeiro do major?
Ainda fez uma entrevista, tirou fotos e as enviou a Paulo.
Com as chaves na mão, Fernando 'tava ansioso para descobrir o que 'tava guardado na arca.
«Abri o cadeado, levantei a tampa e começaram a sair fantasmas de dentro».
Eram dezenas de cadernos e fitas em que Paulo Coelho registrou sua vida, dos 10 aos 50 anos.
Em contato com 'se material, Fernando não teve dúvidas:
jogou fora as 200 páginas que já havia 'crito.
As revelações mais dramáticas foram retiradas dos diários.
Tanto que Paulo Coelho se arrependeu de ter dado as chaves do baú.
«Mas o livro não tem uma sílaba que seja fruto da minha imaginação», justifica-se Fernando.
Os acontecimentos dos diários são tão pesados que Fernando teve um dilema ético:
«Várias vezes me flagrei perguntando se deveria expor a vida pessoal de ele.
O livro revela as internações em manicômios quando Paulo era criança, suas tendências suicidas, relações homossexuais, pacto com o diabo, epifanias ...
Mas um fator foi fundamental para Fernando 'crever tudo.
«Não deveria transferir para o leitor a censura que Paulo Coelho não me deu».
Aliás, não seria um contrasenso um ateu como FM 'crever sobre um místico como PC?
Foi o que de início preocupou Paulo Coelho.
Fernando tem a clara convicção de que foi o melhor.
Uma visão cética sobre os acontecimentos era o ideal para a biografia.
«Eu fazia perguntas que um cristão não faria», diz Fernando.
Com o sucesso da biografia, para novembro 'tá previsto o lançamento do livro em 47 países.
Além disso, cinco produtoras de cinema -- entre elas uma americana -- já revelaram interesse na adaptação da obra.
Mineiro de Mariana, FM é humilde com seu mérito:
«Eles 'tão interessados é na vida de Paulo Coelho».
Mesmo assim, Fernando afirma nunca mais 'crever sobre uma pessoa viva.
Para o futuro tem em mente uma biografia de Antônio Carlos Magalhães, que antes de morrer havia aceitado a proposta.
Porém, o momento mais 'perado do dia foi o meu, ao pegar o autógrafo no A Ilha.
FM:
Olha só, edição de bolso!
MG:
Pois é.
Sabe que eu comprei 'se livro há mais de seis meses e ainda não li?
Mas vou ler sim, ainda mais agora.
FM:
Que bom.
MG:
Brigado.
A mineirice ficou ainda mais latente no autógrafo:
«Caro Márcio:
'pero que você goste.
Com o abraço do FM.
2008 ";
Publicado também em www.vinilliterario.wordpress.com
Número de frases: 51
Revisão: Talita Alves O projeto que já passou por 29 cidades e pretende rodar um total de 25 mil quilômetros até dia 27 de julho montou sua tela para revelar alguns Brasis num aconchegante pedaço de Sergipe.
Já é noite quando sigo na minha carona para Canindé do São Francisco (SE).
De a capital Aracaju até lá são 213 km.
Parte da equipe do Revelando os Brasis já 'tava na cidade que fica na beira do Rio São Francisco.
No meio do caminho pegamos informação precisa com um sujeito degustando seu copo de café na beira de um posto " Tem errada não!
Vocês pegam a próxima à direita e seguem sem dó, sem dó mesmo ...
vão passar por um bocado de cidadezinhas:
Glória, Poço Redondo e vão cair lá em Canindé».
Sem dó seguimos então.
Uma música não sai da minha cabeça durante grande parte do trajeto.
A bela poesia de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga de «Estrada de Canidé» é a trilha sonora mental.
Ainda no meio do trajeto, uma rápida parada no povoado de Cajueiro para pegar informações.
O cenário:
casa de taipa (barro batido com madeira), mesa de sinuca em jogo disputado, conversa de beira de 'trada e, sobre as cabeças, um dos privilégios das localidades pouco iluminadas:
o belo teto celeste 'trelado.
Chegamos a Canindé quase às dez horas da noite.
A equipe se divide:
Beatriz e Orlando, os dois coordenadores e idealizadores do projeto, vão descansar no hotel;
Aécio contador de boas histórias, piloto do caminhão e da equipe de apoio da projeção continua imóvel recuperando seu sono.
«Ratão» Diniz (fotógrafo da equipe e simpatia em forma de gente), o bom baiano-paulista Val (da equipe de projeção e apoio) e eu (overmano caroneiro) decidimos dar um volta na cidade e acabamos conhecendo um arraial cheio de histórias.
Dia da Projeção
Começo de manhã nublada, mas o Sol logo aparece.
A equipe circula na cidade pela manhã e vai 'palhando a notícia da projeção dos curtas à noite.
Folhetos do projeto são entregues em pontos de moto táxi, farmácia e no pequeno centro da cidade reforçando o que o carro de som fez alguns dias antes.
«A programação da noite vai ser boa.
Vamos passar alguns filmes de graça.
Terá um sobre o vaqueiro seu Zé Leobino feito por gente aqui de Canindé.
Hoje no Forródromo às sete da noite."
Beatriz passa em algumas 'colas.
Em a volta para o hotel descemos umas vielas e flagramos um gostoso banho de riacho.
A garotada interrompe a brincadeira no riacho para cercarem o fotógrafo com seus olhares curiosos.
As canetas brindes do projeto fazem o maior sucesso, falamos dos filmes que iam ser exibidos a noite.
A notícia segue se 'palhando.
Uma entrevista na Rádio Xingo FM completa o convite às pessoas da região.
A noite de céu limpo, poucas nuvens, chega rápida.
Tudo 'tá pronto e instalado num 'paço chamado de Forródromo.
Uma 'pécie de pátio montado para as apresentações de bandas, trios de forrós e quadrilhas.
Além da bela decoração de bandeiras, uma pequena vila cenográfica foi montada ali:
igrejinha, pequenas casas e até um coreto.
Aos poucos as pessoas vão chegando de mansinho, não demora para a maioria das cadeiras 'tarem ocupadas.
Pode-se dizer que o vaqueiro Zé Leobino, 83 anos, foi o grande astro da noite e ele 'tava adorando aquele movimento.
O curta Zé Leobino, 65 anos de Cavalhada de Clésio Vieira dos Santos e José Ventura Lins é um breve relato sobre a vida do vaqueiro que brincava com seus amigos de infância com cavalos de pau e hoje é um dos líderes mais respeitados da cavalhada.
Manifestação de origens medievais em que dois grupos de cavaleiros disputam para acertar suas lanças em pequenas argolas.
Isso tudo ao som de uma banda de pífano (flautas de taboca).
Geralmente a brincadeira acontece entre o Natal e os dias dos Santos Reis (primeira semana de janeiro).
Hoje graças à dedicação de alguns mestres como seu Zé Leobino a cavalhada é uma celebração entre vaqueiros da Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco.
Em a abertura da seção algumas palavras sobre o projeto, a dupla de repentistas Vem-vem e João Bezerra improvisaram alguns versos.
Mas as atenções 'tavam voltadas mesmo para o mestre da cavalhada.
Mal pegou no microfone recebeu as palmas do público e alguém da platéia soltou um grito «Esse é o Zé Leó!».
O velho vaqueiro era só simpatia, com seu colete e chapéu de couro.
Recitou seus versos, concedeu entrevista e deu risada ao se ver na tela do cinema.
Isso, inclusive faz parte de um dos grandes méritos do Revelando os Brasis -- o reconhecimento das diversas vidas, modos de encarar o mundo na tela do cinema.
Além de buscar facetas desconhecidas desse país-continente, o projeto possibilita ao povo reconhecer-se protagonista de produções culturais.
Ver vizinhos e pessoas conhecidas é também uma diversão a parte, pois a mostra 'tá passando nas pequenas cidades dos próprios realizadores.
De o atento público de aproximadamente 600 pessoas teve gente que riu da agilidade do protagonista velho ao subir na jaqueira e se deixou conquistar por a sua figura humana em Brinlhatino de Ériton Bernardes (Muqui -- ES);
houve aqueles que se impressionaram com o café feito no meio da caatinga em Tropeiros de Artur Gomes dos Santos (Carnaubeira da Penha-PE);
teve quem acompanhou a aflição e os passos rápidos de um menino em Nelson de Thales Gomes (Capela-AL) ou navegou junto com os barcos em Borboleta de Vicentina Lyra (Piaçabuçu-AL).
Aos poucos o poder do áudio-visual foi conquistando e trazendo histórias distantes e ao mesmo tempo tão próximas a Canindé.
Passando na tela 'sas histórias para jovens que nunca tinham entrado num cinema, como Cleidiane de 16 anos:
«achei uma noite muito interessante porque eu não sabia a história de seu Zé Leobino, gostei muito dos Tropeiros e daquele sobre um senhor [Brilhantino] muito bonita história de ele."
A caravana Revelendo Os Brasis encerra mais uma noite de projeção e segue para Alagoas, subindo e adentrando os brasis.
E em breve algum outro overmano pega mais uma carona pra contar mais histórias e trazer novos olhares.
( ...) Rápida Conversa com Zé Leó (sua simpatia concedeu 'ta pequena intimidade).
Só para registrar qual a idade do senhor?
Minha idade.
Eu nasci no dia 28 de fevereiro de 1924, então eu 'tou com 83 anos, né?
Agora eu não fico velho.
Eu sou o amor e o amor não envelhece [risos].
O que o senhor achou de 'ta noite?
Para mim não sei onde 'tou, parece que 'tou no céu.
Não ganhei nada, não ganho nada, mas ganhei uma fama e minha afama é do gibão.
Que eu nasci pegando gado.
Agora tem uma coisa!
Desde quando Adailto da Silva Melo [um dos idealizadores do curta] me convidou eu nunca andava em 'cola não, mas eu gostava de ver aquela literatura de cordel.
Como foi a viagem para o Rio de Janeiro?
Foi uma beleza.
Peguei um vôo em Aracaju gostei da viagem de avião.
Como foi a viagem de avião?
Uma coisa linda, rapaz!
É melhor do que 'tar em casa dormindo!
É ... o avião quando sai faz aquela zuadinha na pista, né?
Depois que sobe acabou-se ...
pronto. Eu gostei demais.
É verdade que o senhor conheceu de Lampião (1)?
O senhor tem lembrança de 'sa época?
Lembro sim.
Em 32 ele chegou aqui em Canindé eu tinha 7 anos.
Eu ia para as fazendas, né?
O emprego que tinha era na vaquearia [emprego de vaqueiro cuidando do gado].
O bando de ele passava por a cidade e bonito era o arreio.
O arreio do cangaceiro era um arreio que ninguém tem não.
Era bonito demais, hômi!
Então eu tinha a vocação não para ser cangaceiro, mas para ser vaqueiro e para a cavalhada que eu fiz [durante] 65 anos.
Já corri em muitos cantos.
Porque dois cangaceiros chegando na cidade acabam com tudo.
Só dá boniteza.
Eles chegam de duas formas:
por o medo e a boniteza.
Para o senhor o que é melhor na cavalhada, por que ela é boa?
A cavalhada é boa, porque é o divertimento que não tem briga, não tem cachaça.
Todo mundo gosta da cavalhada.
Somos doze cavaleiros e todo mundo gosta de eles.
Para encerrar que tal uns versos de sua autoria?
Onde há vida há 'perança
Tirada do desespero
Vou fazer um paradeiro
Esperada por o momento
Vê se sai o sofrimento
Que sinto na minha vida
Passará uma ferida
Que tenho no coração
A dor que meu peito sente
É a dor da separação ( ...) (
1) Lampião morreu na Grota de Angicos que fica em Piranhas (AL), vizinho a Canindé numa emboscada.
Quando vivo seu bando costumava fazer constantes saques a cidades da região.
Número de frases: 115
Inspirada na diversidade cultural de uma realidade que comporta hábitos e costumes de nada menos que 73 etnias, a professora de antropologia cultural, Nara Oliveira, da União Dinâmica de Faculdades Cataratas (UDC), criou há dois anos o projeto Coisaria -- Gabinete de Curiosidades.
A gaúcha de Porto Alegre, há 10 anos vivendo em Foz do Iguaçu, no Paraná, se encantou logo de início com as possibilidades que vislumbrou.
«Não foi a beleza natural que me encantou, mas 'se verdadeiro caldeirão de culturas.
Passei 30 anos em Porto Alegre e todos eram gaúchos.
Cheguei aqui e encontrei gente de todo biótipo, falando todas línguas e isso me fez parar para uma auto-crítica do Rio Grande do Sul:
como alguém pode ficar tanto tempo diante de um único referencial?»,
se perguntou.
Tão rápido quanto percebeu 'sa riqueza, veio a percepção de que, para os moradores da cidade, o que se mostrava a seus olhos como a maior preciosidade não era valorizado.
«Se dizia muito que a cidade não tem identidade, mas acho que a identidade é exatamente 'sa aparente falta», comenta.
Foz do Iguaçu, como outras cidades, avalia, não considera isso um traço importante.
A tendência é achar que existe um problema de descaracterização por o fato de ter muitos 'trangeiros.
«Isso tinha de mudar até porque hoje em dia o conceito de identidade nacional 'tá ameaçado e Foz é um laboratório para se 'tudar 'sa nova abordagem», observa.
Partindo de 'sa percepção, ela começou a pensar em sala de aula como poderia trabalhar para reverter o quadro.
«Lancei algumas provocações do tipo pensar sobre como é possível que pessoas vivam num território sem conviver.
Porque em Foz há cordialidade no convívio, mas as pessoas não se conhecem de verdade."
Para ela, o mais interessante é que hábitos diferentes jogam outras luzes até sobre o que pensamos.
«Decidimos apelar para os objetos porque as histórias das ' coisas ' ajudam as pessoas a irem se acostumando com outros jeitos de ver o mundo», diz ela, em cujo projeto atuam alunos dos cursos de comunicação social, pedagogia e turismo.
O termo «coisaria» surgiu no século 16, quando os navegadores iam recolhendo objetos e coisas de todos os tipos e natureza, até coisas inanimadas e animais.
Depois organizaram exposições e aos poucos foram se criando câmaras de curiosidades e coleções privadas.
De aí surgiram, mais tarde, os museus.
Aliás, outro argumento em prol do projeto é que Foz não tem museus.
«Os patrimônios mais conhecidos são da Humanidade, a cidade é apenas uma depositária.
Tanto as Cataratas quanto a Itaipu têm seus equivalentes no mundo.
Mas as 73 etnias não.
Daqui a pouco teremos pesquisadores do mundo inteiro porque é um 'paço geográfico muito pequeno para tamanha diversidade e isso vai despertar a atenção», aposta.
Mas não se trata do objeto por o objeto.
«Uma panela é só uma panela.
Mas quando se conta que em ela foi feita a primeira macarronada italiana para a amada de alguém e que, cinqüenta anos depois, ela é a 'posa, já não temos mais só uma panela.
Nos interessa trazer uma síntese da relação do objeto com o proprietário, o que lhe confere o diferencial e ainda acaba contando a história da cidade», argumenta ela, cuja equipe conta 'sas histórias nas etiquetas das peças.
A idéia, diz, não é nada cronológica, mas a união de diferentes culturas.
«Por exemplo, a cuia de chimarrão gaúcha fica exposta junto do tererê, do mate, do anarguilé árabe e da xícara de chá inglês, ou japonesa.
Porque são objetos distintos, mas todos de uma mesma natureza:
usados para unir pessoas em torno de um convívio.
A intenção é quebrar 'sa visão de que são mundos postos.
Mas isso não significa que vamos negar diferenças, ao contrário».
A professora conferiu que 'sa relação provoca uma inversão e o 'tranhamento que em geral outras culturas provocam se dilui.
«Essa troca de valores ajuda indivíduos a serem mais críticos em relação à sua própria cultura."
Em dois anos, cerca de 700 alunos reuniram 800 objetos e mais de 20 mil itens, que incluem revistas, publicações avulsas, discos.
A recepção ao projeto foi imediata.
Primeiro foram os alunos que criaram todo o conceito durante as aulas, provocados que foram a pensar a cidade e suas características.
A primeira inversão de percepção aconteceu nas salas de aula.
«Eles descobriram verdadeiros museus dentro das casas.
Mas, antes, fizeram vários trabalhos reflexivos já reconhecendo as regiões de fronteira como ambientes dinâmicos.
Foram dois anos só em 'te processo para depois apresentar o projeto à faculdade», conta.
Claro que a instituição encampou a idéia na hora.
Também teve apoio de pequenos empresários.
Ainda falta a sede.
Mesmo assim, a cada seis meses acontece uma exposição da Coisaria.
O envolvimento é cada vez maior:
agora os alunos e a faculdade são procurados por pessoas que querem doar seus pertences históricos.
Também surgiram outros produtos paralelos, como publicações para levantar verbas para as exposições.
Em relação à sede, Nara não desanima e tem certeza de que conseguirá.
«Já temos o acervo que é o mais complicado.
Também temos envolvimento da comunidade, de autoridades e empresários.
Número de frases: 54
Acredito sinceramente que 'se processo não tem volta."
Toda a cobertura do Dia «D» RPG no site www.okigames.com.br, saiba oque rolou no evento, Aracaju nos dias 10 e 11 de Março realizou no SESC Centro um grande evento que uniu o RPG, games e muita cultura.
Fotos e videos para que você não perca nenhum momento, o Dia «D» RPG foi realizado em mais de 21 Estados em todo o Brasil e a OKIgames 'teve presente levando muita diversão e entretenimento, o NINTENDO WII foi uma das grandes novidades do evento, crianças, jovens e adultos jogaram e competiram.
acesse e veja oque rolou no evento
Fúlvio Alexandre Diretor Geral do Portal OKIgames
Número de frases: 5
www.okigames.com.br okigames@okigames.com.br O pequeno ai de cima se acalma quando a mãe digita alguma coisa.
O som das teclas, pra ele, é tão familiar que conforta.
Não existe «revolução», nem» inclusão " digital:
ele simplesmente já 'tá lá na frente.
Nasceu assim e pronto.
Ele Não vai se deslumbrar com sincronização de dispositivos com «I-seja lá o que for», nem vai achar lindo poder comprar música sem sair de casa.
Vai dizer, aos nove anos, ao ver um Imac:
«Minha mãe tinha um monstrengo desses quando eu era pequeno, véi».
Com certeza, para o meu desespero, vai driblar qualquer sistema de rastreamento que eu tentar utilizar e ainda por cima instalar o que quiser, onde quiser, na hora que quiser, modificando tudo a seu gosto e vontade própria.
Orgulho de mamãe.
Eu duvido que uma geração entrona, pegando carona na onda do digital, tenha capacidade pra acompanhar isso tudo se continuar pensando pequeno, em termos de revolução digital. (
Falando da web de hoje).
De o povo total do mundo só 3.4 % de africanos são utilizadores de internet, por exemplo.
Mas vá lá, isso nem incomoda tanto.
Então vamos usar o Brasil de exemplo.
Aqui a gente projeta, fala de interação, usabilidade e usuário, ignorando solenemente uma fatia desafiante de indivíduos quando se fala de digital.
Até 2025, o Brasil será o sexto país do mundo com o maior número de pessoas idosas. (
Idoso = mais de 60 anos).
Meus pais têm 'sa faixa etária e não sabem usar direito o pc.
Não por preguiça de eles, mas dos responsáveis por o desenvolvimento da coisa toda.
E os vizinhos, da mesma faixa etária e classe social, também não.
São 14,5 milhões de pessoas, 8,6 % da população total do País.
Em 2020 eles devem ser 30 milhões.
Essa galera que não consegue gravar um cd ou abrir o Itunes tem força comercial e é parte dos consumidores influentes para uma grande parte de empresas. (
carros de luxo, por exemplo) Entretanto, não têm acesso ao FAQ de um site simplesmente porque sua interface não se adapta aos seus conceitos.
Projetar pra quem já sabe navegar não tem graça, pelo menos pra mim.
É só repetição e adaptação de conceitos, na maior parte.
Os «idosos» 'tão de fora da «revolução», assim como a secretária aqui de casa, que só usa mesmo o celular (só para a sms) e o orkut.
Ó inclusão.
Eis aí um exemplo de que não há revolução social ainda.
Só comercial e olhe lá.
Criamos uma web fechada, comercial, repetitiva, condicionada e sujeita à regulamentações inadequadas.
Criamos novas maneiras de vender, trocar e fazer marketing, mas enquanto alguns problemas continuarem ignorados, a rede vai se limitar ao que é, cumprindo um sub-papel dentro da verdadeira revolução.
«Uma re volução só pode ser experimentada quando todos os pontos fundamentais que sustentam o status quo de uma sociedade invertem-se completamente."
Não sou marxista nem de longe, mas costumo dar atenção a leituras que façam sentido.
Número de frases: 35
E em 'sa, 'tou completamente a favor.
Atenção distinto público.
Conforme anunciado aqui mesmo em 'te sítio, temos o orgulho de apresentar o segundo e último (pelo menos por enquanto) episódio da transcendental série:
«Barbárie Também É Cultura '
Apresentando hoje um tema que apesar de, enquanto peça de humor, não ter a menor graça, nos ajudará sem dúvida nenhuma a compreender, definitivamente, porque talvez devêssemos começar a nos livrar logo (além da hipocrisia, do cinismo e de outras manias sub-urbanas) de algumas expressões outrora tão jocosas e pitorescas (ó jocosidade brasileira hoje tão efêmera!),
tais como, por exemplo, ' Bárbaro! ` (
quando nos referíamos a uma coisa tão boa, que chegava a ser fantástica) ou a gauchíssima " Barbaridade!" (
com um sentido mais ou menos igual, só que exagerando mais ainda), ou mesmo " Sinistro!" (
algo assim como ' Incrível! ', '
Pra lá de bom '!),
ou mesmo «Terror», ' Horror ', ' Alucinante ` e outras palavrinhas que, ditas assim, no calor de uma conversa sadia e sem compromisso, podem agora assustar alguns desavisados, 'tressados, como 'tamos ficando nós todos hoje em dia principalmente os cariocas-que de hilários piadistas de plantão, antes cuca-frescas profissionais, nos tornamos pilhas de nervos, literalmente perdidos como cegos em tiroteio, ouvindo a briga de foice no 'curo, abaixando aqui e ali a cada zás das foices (vai que uma de elas é a daquela ' velha dama ' que nos quer a todos, um belo dia, em sua fria companhia?).
Coisa de louco!
Vamos em 'sa então, enquanto vivos 'tamos (o episódio de hoje aliás, passa ao largo de 'tas palavras que não se deve mais sequer ousar falar).
Escrito no já distante 4 de Janeiro de 2004 e publicado em 2005 (em 'ta versão de 2007 há uma brevíssima atualização), num jornal on line chamado «Observatório da Imprensa», leiam o candente tema da 'curidão jornalística, do ' apagão ` imagético, do ' branco ' da nossa antes tão corajosa e impoluta mídia, enfim sobre a ausência de imagens que a barbaridade real (até demais) destes nossos dias vai nos legar para o futuro (que, se recuarmos à 2004, nada mais é do que 'te inquietante presente).
Com vocês então:
A Iconografia da Barbárie
Mídia e imagem popular no Brasil
Como um filme mal editado, a Mídia no Brasil começa a sofrer, em muitos aspectos, as conseqüências da ausência de imagens que reflitam o que realmente acontece nas entranhas de nossas grandes cidades, principalmente no interior dos enormes bolsões de exclusão e miséria ainda hoje chamadas, com certo descaso semântico, de ' comunidades carentes '.
Que efeitos 'tas circunstancias produzirão num futuro mais imediato, sobre o acervo de imagens da vida contemporânea de nossas grandes cidades, principalmente Rio e São Paulo;
sobre a iconografia de nossa alma urbana em suma?
Que falta 'tas imagens farão á compreensão de nossa realidade, aquela compreensão tão necessária á formulação de políticas que 'timulem nosso desenvolvimento?
Para início de conversa, pode-se supor talvez que, entre outras razões, a circunstância de 'ta nossa carência de imagens reais do cotidiano, foi recentemente instalada por a violenta e absoluta rejeição que os traficantes de drogas -- e as diversas outras modalidades de bandidos que hoje infestam o nosso Brasil -- passaram a sentir por a imprensa em geral, principalmente por aqueles setores voltados para o registro de imagens, em coberturas jornalísticas que, por força do enorme aguçamento da violência urbana, passaram rapidamente a assumir a condição de cobertura de guerra.
Havia já na moderna iconografia jornalística do Brasil (na filmografia inclusive), por conta dos renitentes (embora sutis) mecanismos de afirmação do nosso elitismo, um certo manto de invisibilidade que encobria, por exemplo, a trágica vida nas favelas, invisibilidade 'ta encoberta por a criação de uma imagem, idílica, romântica, do favelado cordial, pitoresco e submisso, dominado por meia dúzia de contraventores fuleiros e desorganizados, imagem que talvez nada mais fosse do que uma 'pécie de projeção de como os intelectuais de nossa iníqua classe média, gostariam que os favelados efetivamente fossem:
Seres miseráveis porém, conformados, bem humorados, e inofensivos.
Foi justamente quando 'te manto de hipocrisia jornalística parecia se dissipar, que a síndrome Tim Lopes se abateu, de forma definitiva sobre 'ta arriscada forma de se fazer imprensa no Brasil.
Produzindo sub-repticiamente o registro, flagrando os delitos, o modus operandi da bandidagem, num contexto que já poderia ser descrito, sem nenhum exagero, como um típico 'tado de guerra, com dois lados empenhados em verdadeiras batalhas de morte;
auxiliando (ou sendo utilizada) na produção de certo tipo de retrato do submundo que, por sua contundência, acabavam por se transformar em provas e atos de denúncia direta contra indivíduos de alta periculosidade, nossa imprensa talvez só tenha se dado conta dos enormes riscos -- jornalísticos e humanos-contidos em 'ta sua temerária 'tratégia, quando Tim Lopes foi barbaramente trucidado por Elias Maluco.
O fato é que, no afã de cumprir, talvez açodadamente, sua função de caçadora de notícias, a imprensa de nossas grandes cidades, passou a divulgar, de maneira muito sistemática, certos segredos 'tratégicos cruciais para a 'tabilidade do crime organizado 'quecendo-se de que 'tava envolvida na cobertura de uma guerra e que, em 'te caso, não poderia autorizar jamais, que seus correspondentes penetrassem, sem apoio policial ou militar, nas linhas inimigas.
Em a Teletela de Orwell
Esta ojeriza por a utilização judicial ou comercial de imagens de seu cotidiano, foi crescendo lentamente no meio dos traficantes, ao mesmo tempo em que ia se formando no Brasil, a exemplo do que já ocorria no resto deste nosso globalizado mundo, uma 'pécie de sociedade «Big Brother», com a privacidade de cada cidadão (sempre em nome da segurança de todos), sendo controlada por milhares de câmeras e microfones ocultos, gerando em todas as pessoas de bem, uma sensação de contraditória insegurança.
Perdendo o controle da situação e abandonado a imparcialidade (condição difícil mas, 'sencial á imprensa também em situações de guerra) os jornalistas (fotógrafos, principalmente) passaram a ser vistos como ' chisnoves ', 'piões em potencial, se transformando, na ótica dos traficantes, em bolas da vez, vítimas preferenciais de mortes exemplares, assassinatos emblemáticos, quase culturais, como efetivamente aconteceu com o hoje mítico Tim Lopes.
É por 'ta, entre outras razões, que hoje existem apenas lendas, relatos orais do que acontece realmente no interior de um complexo de favelas.
Circula também, a bem da verdade, um certo tipo de imagem bem próxima do real (talvez um tanto glamurizada demais) que anda sendo expressa por aí em bons filmes e telefilmes como Cidade de Deus e Cidade dos Homens.
Desde que o controle violento dos traficantes sobre os 'paços mais carentes da cidade se agudizou no entanto, rigorosamente nenhuma imagem real -- principalmente noturna -- pôde ser gerada ou trazida para fora do contexto onde foi produzida (em 'te ponto um novo preâmbulo com uma pergunta que não quer calar: Haverá uma iconografia autorizada por as milícias '?).
Outro aspecto importante é que, ao mesmo tempo em que a enorme popularização de máquinas, meios e equipamentos para o registro de imagens virava um fenômeno de consumo no Brasil, o crescente interesse das, agora 'caldadas, empresas jornalísticas (principalmente emissoras de TV) por a aquisição das impactantes imagens de 'ta guerra, passou a ser orientado no sentido de racionalizar, ou mesmo anular, todos custos operacionais e humanos diretos, comprando imagens geralmente produzidas por outro interessante personagem de nossas selvagens cidades:
O bravo e indefectível «cinegrafista amador».
É com efeito 'ta conjuntura que acaba por 'timular, se não o surgimento, pelo menos a afirmação deste tipo de ' profissional ' de imprensa, safo, ágil, clandestino, biscateiro 'pecializado na documentação de solenidades comunitárias, batizados, festas de casamento, bailes Funk, etc. indivíduos que, transformados numa 'pécie de paparazzi de mazelas e tragédias urbanas, logo se transformaram em incansáveis caçadores de qualquer imagem inusitada que tenha interesse jornalístico 'pecial (e o conseqüente valor comercial) -- exceto é claro aquelas cuja obtenção signifique o risco da vida ou a certeza da morte.
Ninguém sabe ...
ninguém viu.
Está se criando por conta disso tudo, uma extensa área de sombra na iconografia de nossas grandes cidades, um apagão provocado por a falta de registros gráficos (fotografia, cinema, TV) retratando o dia á dia, o bem e o mau viver de 'sa gente, ou até mesmo o que acontece nos 'paços públicos onde vivem ou circulam 'tes milhões de pessoas que o Brasil rico e remediado, hoje já meio apavorado, teima em 'conder.
Infelizmente 'te vazio, muito provavelmente, só poderá ser preenchido um dia, por a pesquisa ou coleta de imagens privadas, registradas por aqueles mesmos cinegrafistas amadores em festas comunitárias, casamentos, álbuns de família, etc. imagens aleatórias, cifradas, censuradas por severíssimas leis do ' silêncio ', geradas que serão por as mais vagas motivações e interesses fortuitos, sobre as quais não podemos ainda sequer prever a 'tética e os conteúdos que conterão porque, serão reflexo da visão 'treita, da visão possível, obtida através de um ângulo bem fechado, de dentro de 'tas comunidades, que se tornaram trágicas cidadelas da invisibilidade.
Parece óbvio, pelo menos nos aspectos abordados até aqui, que 'ta situação só poderá provocar a curto prazo, a confrontação na mídia brasileira de duas iconografias contraditórias mas não excludentes:
Uma hegemônica, que voltará a ser imaginada ou idealizada por os habituais profissionais criadores de imagens (fotógrafos e cineastas principalmente), segundo sua exclusiva visão 'tética e ideológica, alimentada por seu interesse comercial evidente e aquela outra, produzida por os próprios habitantes das tais comunidades carentes (inclusive os traficantes e integrantes de ' milícias '), anárquica, 'pécie de iconografia autofágica, movida por códigos de linguagem e conteúdos absolutamente imprevisíveis mas de valor sociológico muito maior.
Não é difícil se concluir portanto que na falta de outras, 'tas imagens quase endoscópicas ou tomográficas de nossa sociedade, serão 'senciais á compreensão de nossas doenças sociais mais graves, pistas vagas porém, quiçá únicas, para almejarmos talvez alguma cura no futuro.
Extrair e compreender as imagens retidas no interior de 'tas nossas cidadelas de invisibilidade será uma tarefa jornalística urgente daqui para a frente.
Sem elas não haverá antropologia possível no futuro.
Quem sobreviver verá.
O melhor cego é aquele que quer ver.
Spírito Santo
Número de frases: 49
Rio, 4 de Janeiro de 2004 (publicado em Observatório da Imprensa em 2005) Por que a polícia condena, de forma tão severa, os assaltantes de banco?
Nunca entendi.
Eu não, eu tenho admiração por todo e qualquer assaltante de banco.
Eu queria mesmo roubar um banco!
Mas sou covarde, fui criado para ser um banana, logo, nunca vou assaltar um banco.
Serei sempre um bobão.
É muito difícil não querer roubar no Brasil.
O sujeito que não rouba é um imbecil.
Ou, tal como 'te pobre ganso, é um banana.
Mas já tive inúmeros sonhos com isso:
tiros, fugas policiais, troca de palavrões:
«corra! Corra!
Joga a sacola pra cá!
Joga a sacola pra cá!
Vai lá John!
Vai lá Teddy!
Vai lá Wilson!
Vai lá Scott!
Vai lá Pierre!».
O sujeito que rouba um banco assume que não é um imbecil.
Já perceberam o quantidade de dinheiro que é descontado de maneira nonsense das contas de todos os brasileiros?
Vou contar uma história.
Certo dia, resolvi fechar minha conta.
Eles disseram que eu devia 200 reais por a taxa de manutenção.
Mas aí eu justifiquei:
«amigo, eu não usei 'sa conta em 'se período».
Ainda assim, eles pediram que eu pagasse.
Resultado: COMECEI A Chorar.
Chorei mesmo.
O gerente ficou com pena, viu que eu era um ganso miserável, e me deixou ir embora com as penas sujas de lágrimas.
Todos os dias somos açoitados.
Para quem dirige, meus pêsames, o 'tacionamento do Shoping Center Recife agora é 3 reais.
Acredito que, só a renda do 'tacionamento do Shoping, é PIB do Uruguai.
Vendo tudo isso, é exigir demais que o sujeito não seja assaltante.
Perdoem-me, mas eu queria ser ladrão.
Número de frases: 35
A Presença De Alice RUIZ,
Vampira Buscando Sangue Vivo
Sérgio Augusto Silveira * A presença e a fala da poeta curitibana Alice Ruiz, na edição mais recente do Festival Recifense de Literatura, trouxe de volta aquela antiga e mal resolvida discussão em torno do papel da poesia concreta em 'te país.
O tema não gerou -- durante sua fala no auditório da Livraria Cultura, no Recife -- nenhum quebra-pau, tal como aconteceu há anos, mas foi oportuno para percebermos a existência, hoje, de um vale profundo no qual Alice plantou e fez crescer uma safra nova na nossa literatura.
É a safra do hai-kai, ou seja, um salto dialético após o confronto entre as poesias sentimental, confessional, neo-romântica, e a poesia concreta.
«Ela -- a poesia concreta -- teve um papel benéfico, embora tenha sido tão destratada.
Creio que isso ocorreu porque 'távamos na entre-safra do final do período getulista e o início da ditadura de 1964.
naquele momento, muitos exigiam engajamento social na poesia." --
recorda Alice, que naquele momento ainda não conhecia o poeta Paulo Leminski, que veio a ser seu companheiro alguns anos depois.
Em seguida, a poeta ensinou, negando que a literatura possa ser uma ferramenta para mudar o sistema político de qualquer sociedade:
«Revolução se faz com poesia para revolucionar a forma».
Ou seja, não é com poesia que vamos derrubar um regime.
Hoje existe muitíssimo mais consciência sobre isso do que há 40 anos.
Por falar em tempo, Alice notou que já 'tá perto de fazer 100 anos que a forma poética japonesa, o hai-kai, chegou ao Brasil.
O centenário será em 2008.
Vamos comemorar, já que nos trouxe um grande aprendizado a partir de uma nova forma, concisa e nunca usando a primeira pessoa.
«O hai-kai que faço é uma prática zen (não é 'se uso da palavra zen que se faz por aí para diluir o seu sentindo), como atitude de vida.
O zen deu-mo 'tado de fazer poesia " -- ensina Alice Ruiz, notando em seguida outra coisa fundamental:
«O hai-kai é o oposto da poesia ocidental.
O eu não pode aparecer.
Em o exercício da ausência do eu não se fala nem de sentimentos e nem se emite opinião.
Fala-se sempre sobre coisas concreta, no sentido material.
De aí as referências às 'tações do ano, para descrever a impermanência das coisas.
Em a prática do zen aprendemos que paramos de sofrer quando nosso desejo deixa de ficar nas coisas».
Alice reforçou a fala seguinte, do poeta Cláudio Daniel, no momento em que ele colocou, num tom didático, que a poesia confessional, coloquial cotidiana «não nos interessa».
Então, o que interessa?
«Interessa a poesia centrada na linguagem poética, em cima daquilo que não foi 'gotado e nos surpreende.
O poema que não surpreende nada, não informa nada».
O caminho para eliminar a surpresa de uma composição poética é ficar seguindo, como um cachorrinho, o trabalho dos mestres, perdendo-se no conteúdo e 'quecendo de questionar a forma.
Por isso, Alice, sem imitar o cachorrinho, lembrou o que disse Bashô, fundamental poeta japonês da Antigüidade:
«Não siga os antigos.
Procure o que eles buscavam».
A o final, a poeta curitibana foi definitiva:
«De certo modo, o poeta é um vampiro.
Precisa de sangue quente, vivo!».
Sejamos todos vampiros.
Número de frases: 36
* jornalista no Recife
Coco, samba de roda, maracatu de baque solto, maracatu de baque virado, cacuriá, caboclinho.
Foi-se o tempo em que os curitibanos não tinham familiaridade alguma com 'se palavreado da cultura popular brasileira.
Ao longo da última década algo aconteceu.
A magia colorida desse rico universo conseguiu quebrar o gelo tido como típico do comportamento curitibano.
Hoje em dia os cortejos por o calçadão da Rua XV de Novembro, promovidos por o grupo Boizinho Faceiro, são na companhia de fãs animados.
Até um aquecimento para o carnaval -- outra manifestação que luta para não morrer na cidade -- tem adeptos eufóricos nos dias que precedem a folia, sob o comando do grupo Mundaréu.
Parece que foi quando a saudade dos que vieram de longe bateu -- e eles invadiram as ruas com a alegria dos festejos -- que a mágica se deu, abrindo mentes e corações para o fascínio de 'sas manifestações.
E não há possibilidade de falar de 'sa mudança de comportamento em Curitiba sem passar por o nome do maranhense Itaércio Rocha.
Ele não foi o único responsável, claro, mas foi e é fundamental.
Desde 1996 ele faz parte do Grupo Mundaréu, que 'tá comemorando os primeiros dez anos.
«Pode parecer piegas, mas são palavras como saudade, paixão, busca por identidade, enquanto formas de resistência diante da necessidade de sobreviver, que provocaram a mudança», diz ele.
Sobre Curitiba -- e o Paraná -- se aprendeu que foi construída por poloneses, japoneses, italianos, ucranianos, sem que ao lado de eles fosse citada a importância das culturas indígena e negra.
Culturas 'sas que foram suprimidas em sucessivos «projetos de higienização da raça», desenvolvidos no final dos século retrasado no Brasil.
Aqui isso foi tão forte a ponto de fazer com que 'sas comunidades ainda hoje tenham que lutar para se tornar mais visíveis.
Uma falta que bateu fundo no peito do maranhense quando aqui chegou.
«Faltava o batuque e eu tinha necessidade de exercitar a questão do jogo coletivo.
Uma necessidade de exercitar a alegria como um ato de resistência», conta.
Foi com 'ta disposição que ele tirou de cena a sisudez e a rigidez.
Trocou o mecanismo da tristeza, que serve à opressão e imobiliza a vida, por o poder do riso festivo e ritmado.
Itaércio lembra que sua primeira apresentação foi sozinho, na Feirinha do Largo da Ordem, por volta de 1984.
«Foi 'tranho:
pessoas há 4 metros de distância e ninguém que me olhasse nos olhos».
Aos poucos uma roda se formou reunindo bonequeiros e músicos e os «exercícios» ficaram mais e mais freqüentes.
Entre 85 e 95 ele 'teve em Maringá -- cidade no norte paranaense, onde promoveu rodas junto com o pessoal do grupo Pau de Fita -- e Rio de Janeiro.
Quando voltou recebeu o convite para entrar no Mundaréu.
«Encontrei o Nélio, Mauricy, Pedro, Daniela Gramanni numa roda de cacuriá», lembra, citando os demais integrantes do Mundaréu na época.
Isso tudo só aconteceu, acredita ele, porque existia aqui uma memória da alegria como fonte de resistência.
«Se não houvesse 'sa lembrança, nada teria sido feito e eu teria desistido.
Houve 'te 'tímulo, fruto da necessidade de reagir, de resistir -- e isso não é invenção minha».
Um novo curitibano
Para Itaércio é certo que, quando se desenha um curitibano frio, arredio, distante de sua própria cultura popular, se fala, na verdade, do cidadão classe média alta.
«Esquecem do povo da região metropolitana, dos bairros, do tanto de terreiros de candomblé que existem em 'ta cidade, das 'colas de samba.
Tem gente que ainda diz que isso não é ' coisa de curitibano '.
Mas, é sim.
Vem da classe pobre brasileira como um todo, que produz sua própria arte em qualquer lugar do país que 'teja», pontua.
Se o paranaense não tivesse 'sa paixão por o fandango, por a Congada da Lapa, eles não teriam dado a virada que deram, segue em seus argumentos, Itaércio.
A Congada da Lapa, lembra, ficou parada por 17 anos, reprimida uma vida inteira, até a década de 30, pois as pessoas não podiam se juntar na rua para conversar.
O Fandango ficava acuado, só executado dentro das casas e entre familiares;
as Carvalhadas de Guarapuava foram 'quecidas por quase 20 anos.
«Algumas manifestações sucumbiram, mas mesmo assim são muitos os grupos que resistem e sobreviveram a perseguições.»,
diz, citando ainda as Festas de São Gonçalo, as Juninas, as religiosas em geral, os autos-natalinos.
«E agora tem toda 'sa cultura quilombola sendo descoberta.
São mais de 80 quilombolas num 'tado que se propagou como sendo totalmente branco, europeu», pontua.
É evidente que Itaércio é completamente apaixonado por isso tudo e encontrou outros apaixonados também.
«Se pensava que nada existia e, de repente se (re) descobre a Ilha de Valadares, a Família Pereira, Eugênio, mestre Romão.
Eles 'tavam lá fazendo, com seu conhecimento, 'sa roda girar e chegar aqui, onde 'tamos», diz citando alguns dos nomes-refer ência do Fandango paranaense.
Academia
Seu entusiasmo tem razão de ser.
Agora, o tempo todo se tem notícias de novos grupos nascendo e de pesquisas caminhando nas universidades e até editais públicos de apoio a 'sas manifestações 'tão acontecendo.
«Foi uma quarentena prolongada, 'tavam hibernando para ressurgir no momento exato e dar 'sa resposta», celebra Itaércio.
Para ele, todos 'ses grupos que trabalham com cultura popular vindas princialmente do Norte e Nordeste brasileiros trazem um campo simbólico de referências paranaenses.
«Muitos acham que o Mundaréu faz 'petáculo de cultura nordestina, mas não concordo.
A o fazer ciranda, coco, maracatu 'ses grupos todos trazem a 'sência paranaense.
É verdade que falta ainda se aproximar mais do que acontece no interior do Paraná, para podermos amalgamar toda 'sa carga que veio do Japão, Itália, Alemanha, Ucrânia.
Se formos atentos vamos ver que o paranaense 'tá misturando culturas populares -- e isso é muito moderno», observa ele, que conseguiu nos finais de semana que antecedem o carnaval reunir mais gente que os desfiles das 'colas de samba, sem apoio oficial, sem divulgação na mídia.
Só que a festinha para os amigos virou mania.
«Prefiro pensar que a cidade é que me acolheu porque percebeu em mim a necessidade que ela tinha, também».
É uma via de duas mãos, então, pergunto?
«Duas, apenas», rebate ele, incrédulo, diante da minha falta de percepção.
«São 252 vias e meia».
Em o mínimo.
Boizinho sai faceiro com seu maracatú por o calçadão
O Boizinho Faceiro é bem mais novo que o Mundaréu, nasceu em 2002, mas já 'tá gerando outros grupos.
Tudo começou quando com Luciano Fagundes, 23 anos, reuniu um pessoal para ensinar maracatú e caboclinho e as aulas viraram brincadeiras na rua.
Em os primeiros cortejos a platéia era reticente.
Ninguém se aproximava, ficavam olhando de longe.
Em a primeira vez que o Boizinho convidou o pessoal para uma ciranda viu as cerca de 400 pessoas que o assistiam praticamente sumirem.
Hoje em dia, Luciano se impressiona com a mudança de comportamento.
«Essa coisa da brincadeira, da festa, a percussão são muito fortes», comenta.
Ele, que é curitibano, concorda que a cultura popular paranaense ainda fica um pouco à margem, porque a nordestina 'tá mais na vitrine.
«As pessoas tem mais acesso.
Eu mesmo confesso que conheço pouco ainda das manifestações do Paraná.
Já vi algumas e o Fandango é algo maravilhoso, mas noto que isso tudo ainda 'tá meio longe do olhar das pessoas daqui, comenta.
Porém, ele acredita piamente que é só questão de tempo.
«Tem algo muito claro acontecendo, as pessoas 'tão começando a reconhecer em 'sas manifestação sua própria identidade cultural».
Fagundes diz que ainda tem muita gente que vê a cultura popular como sinônimo de Folclore, dentro de um conceito 'tático.
«Quando nos aproximamos é possível ver claramente que é algo muito vivo, em transformação», avalia ele, que é sobrinho de Antônio Nóbrega, e no momento se divide entre Curitiba e São Paulo, onde trabalha com o tio.
Garoto de cidade grande, puxa por a memória uma fala de Ariano Suassuna na tentativa de exprimir seu encantamento por 'te universo.
«Suassuna diz que aquelas lantejoulas e vidrilhos que eles usam para a economia são falsas, mas do ponto de vista do povo brasileiro são verdadeiras riquezas, porque ali existe uma quantidade maior de sonhos humanos».
E fica emocionado quando lembra as primeiras vivências.
«Eu 'tava num terreiro em Olinda e não sabia o que fazer.
De repente ouvi um chocalho, e o som foi aumentando.
Quando me dei conta 'tava no meio de uma roda e vários caboclos fazendo manobras coreográficas ao meu redor.
Fiquei deslumbrado sem saber o que era aquilo.
Foi a primeira vez que vi uma sambada de maracatu rural por os próprios brincantes», diz o rapaz, com voz ainda embriagada por a força da lembrança que nunca mais o deixou.
Serviço:
www.mundareu.com.br
Número de frases: 88
www.boizinhofaceiro.com.br Com 'te título o jovem historiador Marcos Vilhena publicou um instigante, importante e inspirador livro, de produção totalmente independente:
criou a capa, fez a revisão e o diagramou, sendo que pagou, do próprio bolso, por a impressão da obra endividando-se no banco.
Trata-se de sua dissertação de mestrado transmigrada em livro.
O 'tudo se referência à trajetória de Antonio José de Sampaio (1857/1906), piauiense de Livramento (hoje José de Freitas), de família bastante abastada.
A o reverso de outros filhos de proprietários de terra (e de gado) que quase invariavelmente 'tudavam Direito em Recife ou no Rio de Janeiro, ou Medicina, em Salvador, Sampaio decidiu complementar seus 'tudos na Suíça, onde 'tudou línguas e onde formou-se em Engenharia Química, retornando à sua terra natal cheio de idéias modernizadoras e convencido de que era possível construir uma sólida economia progressista no Piauí.
Mais que proselitismo, o Dr. Sampaio pos suas mãos à obra e assinou um contrato, nos 'tertores do Império (Abril de 1889), de arrendamento de grande parte das chamadas «Fazendas Nacionais do Piauí».
O contratante se obrigava a uma série de medidas, a principal de elas, a construção de uma Fábrica de Laticínios utilizando o que de mais moderno existia na indústria européia, particularmente Suíça.
Em 9 de abril de 1897 foi, finalmente, inaugurada a Fábrica de Laticínios dos Campos ('ta história 'tá contada em detalhes em " Era uma Fábrica de Sonhos ").
A derrocada de Sampaio, e o posterior fracasso do empreendinmento é explicado por Vilhena por a alteridade que se criou entre Sampaio e seu discurso otimista e modernizador, que dizia bem do Piauí, que não lastimava a seca, mas propunha soluções para armazenar e preservar a água, enquanto os poderosos latifundiários viviam da «Indústria da Seca» pois, afinal de contas, quem não chora não mama.
Para o historiador, ao sair de seu país para educar-se no 'trangeiro, Sampaio perdeu as referências da piauiensidade retrógrada de antanho tornando-se, por seu discurso e sua prática, um 'tranho em sua própria terra.
E complementa «ousou voar contra as verdades do Piauí do século XIX ao tentar implantar um dos mais ambiciosos projetos de desenvolvimento agroindustrial da sua época».
As enormes lacunas encontradas na biografia do cientista-Y não se sabe ao certo onde morreu nem, muito menos, onde foi enterrado, de onde provinha sua 'posa Dna Augusta Franco de Sá Sampaio (também de família rica, tanto que dizem que seu dote foi utilizado por Sampaio no seu empreendimento), nem quando e onde se casaram -- 'ta aura de mistério, coadjuvada por um manto, socialmente confeccionado, de 'quecimento, torna, ainda mais emocionantes as descobertas que o livro faz, desenhando, com certa riqueza de detalhes, a personalidade do visionário cientista para quem as pastagens do Piauí rivalizavam com as da Argentina e da Austrália bastando para isto a modernização das práticas de manejo do solo e dos recursos hídricos.
O livro de Vilhena, em meio a tantas qualidades, padece de um defeito:
assim como todo o resto, a ´ «distribuição» do livro, se é que se pode assim chamá-la, é caseira!
Para adquiri-lo é necessário enviar um e-mail para o autor (marcos.Vilhena@uol.com.br).
Também temos alguns exemplares para venda na FNT.
O livro custa vinte reais e vale cada real por ele cobrado.
Número de frases: 17
Sarau
504 Pararam as chuvas mas a dengue continua atormentando nossa capital e quase todo o Paraguai.
Ricardinho, coração de leão, pegou no começo do ano;
Gelton, acabou de se curar ...
«Paraguai», nosso novo ajudante;
Minha vizinha;
o pedreiro;
o padeiro ...
ta todo mundo «dengoso».
Em a terça fui ao futebol da AMP, lá no Belmar Fidalgo.
Foi bem legal encontrar os amigos músicos, sem aedes, entre eles o Bosco, baterista do Bando do Velho Jack.
Deixei mais uma vez minha marca na artilharia, saí contundido mas com a certeza de que não 'tou mais tão fora de forma.
Passei a noite gravando uns cds para o Zé Pretim e na quarta cedo, eu já 'tava na ferroviária montando a 'trutura para o Sarau.
O palco, mais uma vez, lotado com o equipamento de som que a dupla sertaneja utilizou no ensaio de terça à noite, enquanto eu jogava futebol (ufa!!!)
Arrumei as artes, 'parramei as fotos, acertei o som e deixei rolar Paul Mc Cartney.
Em a parte da tarde, embaixo de chuva, atendi a um aluno e ainda prestei depoimento como testemunha numa ação no Fórum, sabendo que na quinta, retornaria para uma conciliação e acordo num contrato desfeito há 3 anos atrás!
Olha as coincidências ...
Em uma mesma semana duas visitas ao Fórum.
Brrrrrrrrrr!!!! A chuva, passageira, já havia cessado, quando comecei a me arrumar para mais um Sarau.
Chegamos, eu e a Val, antes das oito, já 'tava quase tudo pronto.
O Ricardo já tinha deixado o caldinho de feijão nos trinques, Alex e Gabi já 'tão chegando do jantar, Paul continuava ...
Então fui à feira buscar incensos.
A o sair, percebi passar por mim um músico com violão nas costas.
Pensei com mim:
Deve 'tar indo para o tal Sarau que o chileno disse que iam fazer na feira.
Onde será?
Vou segui-lo, porque afinal 'tamos indo na mesma direção.
De repente, 'cuto os guardadores de carro, responderem-lhe:
Sarau? Ó ...
O cara que faz o Sarau vai indo ali ó ...
Ô Zé Geral!!!!
Esse é o cara!
Disseram os flanelinhas, ele que faz o Sarau.
Oi Zé ... Prazer ...
Eu sou o Manoel Vital ...
Prazer ... Vamos com mim ali na feira, buscar os incensos e no caminho a gente troca uma idéia.
O Vital, irmão do Zé, grande músico da terra, confessava então, que 'tava há 18 anos fora e queria se inteirar das coisas e se enturmar com a rapaziada.
Segundo ele, o Lucio Val deu-lho toque pra vir para o Sarau, que aqui ele conseguiria seu intento.
Como funciona o Sarau Zé?
Seguinte Manoel: Ele ta perto de começar ...
Entra com mim e você terá todas as respostas.
A o chegarmos, fui encontrando outro músico das antigas, que tinha vindo pela primeira vez.
A o equalizar meu violão, o Vital pegou o de ele, o João o de ele e começou uma boa brincadeira.
Vital e João solaram umas pérolas da bossa nova, conheceram-se no palco alí mostraram seus valores.
Então eu disse:
E aí Vital ...
deu pra sentir ...
Subi em seguida, depois da benzeção e cantei, acompanhado com o Vital em seu violão.
Nesta altura ele já 'tava maravilhado com o que rolava.
O Vitor Verruga, mais uma vez deu as caras, depois de eu te-las visto durante toda a semana em comerciais na TV.
Quando ele cantou, o Kundera já havia montado a bateria e o Vital pegou então seu verdadeiro instrumento:
O Contra-baixo!
Seguiram canjas do Thiago, do Emmanuel, do Rubens Paixão e do Daniel.
Preparei um 'paço em frente ao palco, pedi que as pessoas se afastassem um pouco, criando um meio-circulo para as bailarinas Lisa e Karina Lima, darem seu show de «Dança do Ventre» A rapaziada delirou!!!
Em 'te instante já tinha umas 300 pessoas!!!
Apanhei um pouco, como contra-regra, mas acabou que ficou lindo!
Aproveitando do momento de sedução e lirismo, brindamos ao Dia Nacional da Poesia e chamei mais presenças femininas:
Primeiro pop rock e músicas próprias com a banda Idis (só mulheres, com a princesa do Sarau no baixo).
Em seguida, continuando a Jane no baixo e a volta do Kundera na bateria, chamei a Ana Cabral para mais MPB, depois a Jaqueline Medeiros.
Só subiu o Junior Bahia que iria acompanha-la ao violão.
Cadê a Jack?
Sumiu! Chamei outra canja então ...
Leandro Abrão. Mais mulheres depois ...
Marcela e a banda Santo de Casa, também com regionais e próprias e a grande Karina Marques, que contagiou a galera!
A Nicole (ex-Estação Cultura -- TVE), leu um poema dedicado às mulheres e mais umas meninas citaram poema do Emmanuel Marinho.
Poesia? Poesia não compra sapato!
Mas como andar sem poesia!!!
Viva o Dia da Poesia!
Viva os artistas de Mato Grosso do Sul!!!!
Em 'te clima o Simona subiu ao palco e matou a fome de tocar no Sarau.
Deixei-o bem à vontade para que cantasse sucessos nacionais e mais algumas canções suas.
Levon Rodrigues deu canja e convidou as pessoas para o seu bar recém-inaugurado.
Em a rasteira dos recados culturais dado no palco o Ricardo divulgou um de seus eventos techno.
Vinicius de Moraes, foi bem lembrado em várias canções, inclusive nuns solos que o «Seu» João repetiu com o Manoel Vital.
Muitos músicos vieram hoje:
79 ... 16 novos cadastrados ...
Celso Cordeiro, Felipe, Rodrigão, Rafael, Franklim, e Zeca do Trombone deram canja.
O Zeca, mais uma vez, acabou intercedendo em quase todas as apresentações, sempre levantando a platéia!
Meu amigo Yuri Lopes, veio mais uma vez e o campeão de freqüência, Zezinho do Forró, mostrou que tava inteiro depois da pelada de terça!
A Jackie finalmente apareceu e claro, deu sua canja.
Limitei em três músicas por canja para que todos pudessem participar.
Meu trabalho hoje, dobrara e não sobrou tempo para filosofias ao luar.
Muitas idéias no ar e nas cabeças.
Mas não peguei nenhuma ...
Já 'tou cheio de elas e precisei várias vezes me desviar daqueles que querem me «dar» mais «idéias» Puts!
Como isso é chato!!!
Depois de alguns autógrafos, isto sim é uma delícia, e alguns beijos ...
também, subi novamente ao palco para cantar junto com o Alexandre Miguelito no baixo.
Deixei o palco novamente para o Vital que aos sorrisos dizia:
Puxa Zé ...
Valeu!!! Falô Mané ...
Realmente ... aqui é demais.
Toma aqui para o táxi ...
Volta mais meu amigo!
Rolou ainda um rock pesado com uma banda nova e uns amadores brincaram com música e poesia.
Supervisionei, como sempre, a festa de eles, para não haver «excessos» no palco.
O Piazza veio com o Caio Mota, das Minas Gerais, que bem à vontade foi cativando ...
e com sua mineirice e um violão bem suingado, passeou por a MPB.
Piazza também cantou.
Só alegria!!!
Tudo sob controle e depois de uma capela da Marcela, lembrando Janis Joplin, voltei ao Paul Mc Cartney e fui desmontando o circo.
Quatro e meia 'tava tudo desligado.
Cinco, tudo guardado.
Peguei um vale e fui com a Val para a casa.
O Felipe acompanhou a gente até o portão ...
Alex já foi dormir, Ricardo já se despediu.
Tchau Felipe! Afonso Pena, por a Calógeras, hot-dog, chocolates, guaraná, amendoins e sorvete!!!
Bom dia Brasil!!!
Número de frases: 108
1952.
Imensos andaimes por toda a Igreja do Santíssimo Sacramento em Cantagalo, interior centro-norte fluminense.
O pintor italiano Nardi começava a 'boçar o seu próximo painel:
uma figura angelical numa colheita de uvas.
Estava perturbado com a discussão que havia acontecido com o Padre Crescêncio sobre o Cristo do altar.
Um coroinha curioso levantou os panos que cobriam a pintura e entreolhou um Cristo crucificado que usava calção!
Os dois, padre e pintor, tiveram uma acalorada conversa tipicamente italiana em que o final foi o acerto de que o calção seria substituído por as vestes tradicionais.
Tudo por conta do coroinha, haveria o pintor de comentar com os seus pincéis ao saborear uma taça de vinho tinto.
Mais tarde, enquanto 'boçava o anjo colhedor de uvas, as famílias chegavam para a próxima missa rezada ali mesmo debaixo daquele monte de madeiras e 'truturas.
Devia fazer calor.
Penso que fazia.
Há tempos, Nardi já havia percebido um rosto expressivo e delicado de uma das moças da região.
Era o rosto de Ana.
Ela sempre se sentava no mesmo banco e agora próxima do artista italiano e a tela da colheita das uvas.
Nardi, por tanto olhá-la e gostar dos traços de seu rosto juvenil, o transpôs para o painel.
Assim deve ter sido ...
Minha cabeça de 'critor criou 'sa ficção.
Agosto de 2007.
Um encontro casual com o restaurador e professor de artes Gilson Andrade, no Colégio Estadual Maria Zulmira Torres, enquanto eu 'perava por o funcionário que abriria a Casa de Cultura Euclides da Cunha, foi o início da busca por a «moça» das uvas.
Aproveitei o tempo para entrevistar o responsável por o segundo restauro dos painéis de Nardi e, com a minha intuição me cutucando, liguei o meu pequeno gravador e registrei a conversa.
Sempre há algo interessante oculto nas camadas de tinta de pinturas antigas e foi a isso que me apeguei.
E 'tava certo quando de entre uma coisa e outra o restaurador falou sobre uma moça que havia servido de modelo ao pintor e que ainda morava em Cantagalo.
Ele só não sabia o nome ...
Com 'sa história tão boa, acionei mais uma vez o Professor João Bosco Bon, um historiador e «detetive» de mão cheia que já teve participação crucial num outro artigo 'crito para o Overmundo.
Outro grande historiador cantagalense -- o Professor Gilberto Cunha -- também participou ativamente da descoberta desse novo mistério.
Sim, passou a ser um mistério cheio de controvérsias.
De um lado, Dona Dirce Machado -- guardiã das memórias de Cantagalo -- e Sr. Jorge Ferreirinha -- coroinha que, em 1952, descobriu o Cristo de calção -- afirmam que as semelhanças do anjo do painel com alguém conhecido são muitas.
Dona Ana? Ambos desconversam, sorriem e admitem a possibilidade ...
Por outro lado o Professor Gilberto Cunha defende que não há elementos suficientes que abalizem a história.
Eis a síntese de seu raciocínio:
-- Ana, na ocasião, morava na Fazenda de Santana, distante da sede e a freqüentava apenas para assistir às missas, 'tudar e a passeio com os pais.
Era impossível que tivesse servido de modelo para Nardi, já que a demanda de tempo seria demasiada para o feito;
2-Naquela época, os padrões mais rígidos de educação familiar não admitiriam que uma moça ficasse à disposição de um pintor para servi-lhe de modelo;
3-Em todos os painéis, inclusive nos principais, «O Milagre de Santa Clara» e «O Milagre de Santo Antonio», as faces humanas, angélicas e divinas são idênticas, mudando apenas a posição, cor de cabelo e outros pequenos detalhes.
Um 'boço único para todas as faces descarta a participação de uma moça local;
4-Por fim, pessoas da convivência de Dona Ana nunca relataram nada que indicasse o acontecimento.
As conclusões do Professor Gilberto Cunha, notável por a grande sabedoria e vasto conhecimento sobre a história de Cantagalo, deixou-me totalmente desiludido e sem a boa história pra contar.
A não ser aquela do início desse artigo que a minha cabeça em devaneios criou.
Toda história em que muito se mexe ...
O Professor Bosco, por causa do tempo seco, sem chuvas e a baixíssima umidade do ar em nossa região em 'sa época do ano, ficou adoentado por conta de uma rinite alérgica.
Tentei incomodá-lo o quanto menos.
Mas há em ele um vírus potentíssimo:
o vírus do «fuça-fuça».
Bosco não se agüenta quando cai no colo de ele uma história como 'sa.
Foi através de uma boa conversa com a sua mãe, Dona Eva Maria de Paula Bon, que o sol voltou a brilhar nos vinhedos do painel da Igreja.
Dona Eva confirmou a teoria de Dona Dirce e Sr. Jorge e entre um telefonema e outro, a mãe de nosso «detetive» partiu em busca da verdade.
Primeiro tentou encontrar Dona Ana na missa.
Em vão. Depois ligou para ela (Bosco tem a quem puxar certamente!)
e a história, em nome da preservação da memória cantagalense, depois de anos sem ser contada veio à tona.
Santa Clara clareou ...
15 de setembro de 2007.
A o telefone, as duas senhoras conversavam.
Talvez o diálogo tenha sido 'se:
( ...) EVA -- Ana, um rapaz tá querendo saber sobre as pinturas da Igreja ...
ANA -- (silêncio)
EVA -- Muitas pessoas já disseram pra ele que aquela mocinha colhedora de uvas se parece com você ...
ANA -- (mais silêncio)
EVA -- Ana ...
Você serviu de modelo para o pintor italiano naquela época?
ANA -- Pra que ele quer saber sobre isso, Eva?
EVA -- É uma reportagem.
Ele 'tá querendo ajudar a preservar a nossa história.
Só falta você confirmar e ...
ANA -- Está bem.
Mas não servi de modelo para o Nardi.
De o outro lado da linha, Dona Eva frustrada.
ANA -- Em a verdade, como eu sempre me sentava próxima ao painel da colheita de uvas para assistir às missas, ele acabou transferindo traços do meu rosto para o anjo.
Mas ele mesmo nunca me disse isso.
E por não ter 'sa confirmação, não gosto de sair por aí propalando 'sa história.
Mais tarde, o próprio Nardi comentou com um advogado amigo de minha família que havia pintado o painel inspirado nos traços do meu rosto.
Não há como confirmar isso agora, pois o advogado morreu há algum tempo.
( ...) A conversa terminou com Dona Ana Maria Luterback do Amaral permitindo que a história fosse aqui contada.
Memória resgatada.
Mais uma página 'crita e final feliz para todos nós que compartilhamos tudo isso.
Número de frases: 74
É impressionante como o Brasil, um país potencialmente turístico, ainda sofra com o problema do desemprego.
Nós, abençoados por os céus, podemos desfrutar da beleza de vários tipos de clima, cultura, fauna e flora sem ao menos precisar chegar na nação vizinha.
De inverno a verão, nossa terrinha pode se dar ao luxo de apreciar e desfrutar de uma variedade intensa de modalidades de turismo.
Como se sabe:
Turismo é a indústria sem chaminé e representa um dos segmentos econômicos mais rentáveis de todo o planeta.
Por que será, então, que do litoral ao interior ainda existem milhares de brasileiros sem qualquer tipo de expectativa de renda ou geração de emprego?
São tantas belezas naturais a serem ofertadas como alternativa de passeio aos turistas nacionais e internacionais que nem precisaríamos nos preocupar com aquele dizer de alta e baixa 'tação.
Sem falar da criatividade e do alto envolvimento do povo brasileiro com vários segmentos artísticos seja na 'cultura, na pintura, na música, na literatura, entre outros.
Sabemos tanto e mostramos pouco ao mundo nossos talentos.
Existem muitas iniciativas, claro, como hotéis, pousadas, restaurantes, bares, casas de entretenimento, mas ainda existe algo que não nos potencializa a 'tar entre os principais roteiros turísticos do mundo.
Falta o quê?
São muitas vertentes e a principal de elas, com certeza, recai no terreno político.
Empresários e moradores das localidades culpam as autoridades por a falta do desenvolvimento da atividade turística, sendo que, no geral, a ausência de divulgação significa o maior problema diagnosticado.
Por outro lado, agentes políticos defendem-se ao justificar que fazem o que podem.
Todavia, de quem será a real culpa por o turismo não ser o principal segmento econômico, principalmente dos pequenos municípios brasileiros sem muitas oportunidades?
Difícil explicar.
Nossos problemas sociais como alta criminalidade, prostituição e violência de todos os gêneros?
Não somos os únicos a ter dificuldades.
Outras nações também possuem muito caos social e, entretanto, ainda motivam milhares de pessoas a visitarem elas.
Falta qualificação nossa para receber 'trangeiros?
Falta infra-estrutura?
Falta investimento na área?
São muitas questões.
Poucas respostas.
Mas, na visão de uma pessoa curiosa por o tema, creio ser uma das causas principais o descaso das autoridades públicas por a área de turismo.
Tem-se a impressão que ela é menos importante ou somente é lembrada em época de campanha eleitoral para suscitar paixões nos futuros eleitores com aquelas infinitas promessas de uma vida melhor.
O que acontece?
Iniciativas isoladas.
Temos que entender a seguinte máxima:
unidos somos mais do que só.
Quando chegar o tempo que o Turismo seja tratado como um caso de interesse público, afinal pode melhorar a condição de vida do nosso povo, então tudo vai começar a mudar.
Número de frases: 31
A história e a importante -- e bela obra musical -- de Radamés Gnattali, que completaria 100 anos em 2006, são lembradas por o projeto Circulação de Música de Concerto da Funarte.
O projeto que tem curadoria e direção artística de Paulo Porto Alegre percorrerá o Centro-Oeste do Brasil, em outubro e novembro.
Goiânia (GO), Campo Grande (MS), Três Lagoas (MS), Dourados (MS) e Cuiabá (MT) serão palcos de concertos do Trio Opus 12, com participação de pianistas, master class, palestras, exibição de vídeos sobre a vida e as composições de Radamés Gnattali.
O pianista, maestro e arranjador -- 'pecialista em Choro -- também é lembrado por ter unido harmoniosamente a Música de Concerto do Brasil com a Música Popular
Número de frases: 4
Mais informações e contatos em www.nadiatimm.jor.br
O Núcleo Artecana foi fundado em 2004 por a artista plástica Christine Reuter em Conceição da Barra.
Após uma parceria com o Sebrae, foram ministrados cursos de capacitação na técnica, marketing, iconografia, formação de preço e design para o artesanato.
Em julho de 2004, foi enviado um projeto para a Seleção Pública da Petrobras, Programa Fome Zero, denominado Artecana, que foi selecionado entre os 3840 de todo o Brasil.
Durante 1 ano tivemos o patrocínio da empresa que nos permitiu melhorar as condições de trabalho, alugar um local para trabalhar em grupo, e aumentar a produção.
O grupo participou de várias feiras de artesanato, inclusive em outros 'tados.
O patrocínio terminou, como os custos deste projeto são muito altos, o grupo enfrenta algumas dificuldades para continuar.
Mesmo assim, hoje mantêm 10 artesãos, que trabalham de forma solidária, produzindo artesanato com bagaço de cana, utilizando o resíduo de uma destilaria local, a Alcon.
Dentro de princípios éticos, ecológicos e sociais, gera renda para a comunidade e transforma o saber acadêmico em cultura e arte para a sociedade.
Meu nome é Christine Reuter, sou a artista plástica que criou a técnica e fundou o núcleo.
Formei-me na Ufes em 1981, e sempre atuei na área de decoração.
Morando em Conceição da Barra, senti a necessidade de fazer algo por a comunidade.
Resolvi repassar o meu conhecimento.
Assim nasceu o núcleo.
As peças produzidas podem ser encontradas no local ou em Vitória, na loja da Acarte.
Em todo Brasil na TOk Stok e já 'tá sendo exportado.
Inscrevi-me no Overmundo para participar de 'ta integração e aproveitar para divulgar nosso trabalho.
Percebo que muita coisa boa acontece no 'tado e devido a pouca divulgação acaba desconhecido dos capixabas.
São muitas as iniciativas positivas, e a mídia anda cheia de coisas negativas.
O Brasil é muito melhor do que tem sido mostrado na TV e nos jornais.
Precisamos buscar 'tas informações e mudar a cara do Brasil!
Sobre a técnica, a idéia partiu do artesanato com fibra de bananeira que é feito em Iconha.
Se pode com bananeira, também pode com bagaço de cana.
Pesquisei e cheguei a um ponto de massa que permite ser moldada sobre vasilhames.
O bagaço é cozido durante 6 horas com soda cáustica, lavado e alvejado para voltar a cor natural.
Depois é triturado no liquidificador, tingido ou não, e transformado em massa ou polpa para papel.
As peças moldadas são colocadas no sol e após alguns dias recebem acabamento com fibras naturais locais e envernizada.
A polpa é «pescada» em telas que são expostas ao sol até secagem total.
Podem ser usadas para fazer luminárias, caixas, blocos e uma infinidade de artigos da linha de papelaria.
Visite o local ou procure um dos nossos pontos de venda.
Para visitação ou maiores informações contactar:
Número de frases: 31
artecanaes@hotmail.com Considerada uma das mais belas expressões da arte fortalezense, ela era produzida no início do século passado como um simples passa-tempo, sobretudo por as mulheres que habitavam na faixa litorânea da cidade.
O lucro que se tinha com a fabricação das rendas em 'sa época ainda era inexpressivo.
Com o crescimento do comércio em Fortaleza, deixou de ser um produto tipicamente regional para ganhar notoriedade não só no âmbito nível nacional, mas internacional.
Tradicionalmente feita à mão, tendo o apoio de bilros de madeira e de uma almofada apropriada, a arte, desde os seus primórdios, tinha como principal matéria-prima as linhas de cores brancas.
No entanto, para se inserir no mercado globalizado de produtos regionais, a renda precisou sofrer algumas modificações:
linhas coloridas passaram a compor os desenhos rendeiros.
A renda fortalezense teve que aceitar 'sa mudança principalmente por o fato de ela ter passado a ser um produto típico de exportação da cultura local, principalmente para ser aceita no exterior, como por exemplo, em países da Europa e nos Estados Unidos.
Estaria a cultura local se rendendo à globalização e perdendo a sua 'sência, aquilo que é «sagrado» ou tradicional?
Existiria algo de positivo em 'sa nova forma de «fazer ou vender cultura»?
O psicanalista Félix Guattari (1986) chama 'se fenômeno de 'tandardização, o que, segundo ele, desvirtua o real valor ou expressão cultural que a arte agrega.
Também chamada de normatização, 'sa mudança transforma o produto inicialmente possuidor de um valor cultural expressivo num detentor de um valor simplesmente mercadológico.
Ou seja, deixou-se de se preservar aquilo que se afirmava como um produto cultural típico de Fortaleza para se tornar mais uma mercadoria vendável, que teve que se adequar aos moldes globalizados e capitalistas para conseguir se firmar como uma arte local exportável.
Com relação à renda produzida na bela capital do sol, notou-se a partir das últimas décadas, com mais intensidade, que ela passou a fazer parte de um sistema integrado, que sofre constantemente influências políticas e, sobretudo econômicas para se sustentar no mercado comercial global.
Fredric Jameson (2001) afirma que uma transformação de 'sa natureza é mais uma amostra característica da realidade que a globalização existente no mundo contemporâneo propõe.
Em a visão de Jameson, para que um produto cultural tenha aceitação fora de seu território, além de se «reinventar», é necessário que exista interferência tanto do lado político quanto financeiro para dar sustentação a 'sa difusão da cultura local.
Somente de 'sa forma é que seria possível entender 'se processo chamado globalização e que a nossa renda 'tá submetida.
Excelente para uns, péssimo para outros, a verdade é que as expressões de arte locais têm perdido a sua 'sência e a sua simplicidade para dar 'paço a concepções de países de «cultura e costumes dominantes» que se permitem interferir no que é natural ou original, para que venham, em troca disso, se firmarem como consumidores.
Cestarias e trançados são outros exemplos da arte local submetidos a 'se sistema.
Não precisa ir longe, a música regional, de «raiz», como é chamada, também sofreu modificações.
Resultado: acabou entrando na lista das expressões culturais que «teve» que se render às propostas impulsionadas por o capitalismo hodierno.
Tudo virou mercadoria.
São nações desenvolvidas e até mesmo imperialistas que em 'se caso se colocam como as vilãs de 'sa inaceitável transformação que sofreu a renda e outros produtos culturais, em 'pecial, na capital cearense.
Referências Bibliográficas:
GUATTARI, Félix.
«Cultura: um conceito reacionário?"
In GUATTARI, F.;
ROLNIK, S. Micropolítica:
cartografias do desejo.
Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1986.
JAMESON, Fredric.
Globalização e 'tratégia política.
In: Contracorrente:
o melhor da New Left Review em 2000, Emir Sader (org).
Rio de Janeiro: Record, 2001.
Número de frases: 34
Estava eu há certo tempo, como de costume, em frente a uma banca, olhando as manchetes das revistas semanais.
De as de variedade às de fuxico.
De 'tas, a Caras 'tampava um beijo inesperado entre a atriz global Karina Bacchi -- mais uma das loiras com «beicinho sexy» da emissora carioca -- e o baixinho da Kaiser, que tem o dobro da idade moça.
Os dois, assim como suas assessorias, não confirmavam o romance.
Apenas comentavam o encontro de modo a incentivar 'peculações.
O tempo passou;
o garoto-propaganda e a atriz não apareceram mais juntos.
Eis que, então, no novo comercial da cerveja, o baixinho aparece num bar, quando três garotas comentam interessadas:
«O Baixinho da Kaiser?
Sem a namorada?».
Elas disputam entre si para chegar até ele, mas, para desapontamento das três, logo surge em cena uma outra loira -- Adriane Galisteu, que abraça o baixinho, dizendo:
«Demorei, meu amor?».
Hipoteticamente, tratam-se de casos distintos.
Um envolvendo a vida particular, outro uma peça de trabalho destes artistas.
Mas as coisas não são tão simples assim.
Há muito tempo o limite entre vida pública e vida privada foi rompido;
e a distância entre elas diminui a cada dia -- incentivada por um número crescente de revistas e programas de fofoca, por a popularização da internet (em que a informação circula livremente) e por a autopromoção de famosos.
Ficou claro que o namoro entre o garoto-propaganda e a beldade global se tratava de um golpe de marketing, entrelaçado com a própria publicidade da cerveja.
Em 'te caso, todos lucraram.
Karina Bacchi certamente cobrou algum cachê por a encenação, e seus olhinhos azuis devem ter brilhado ao verem sua foto na capa da Caras.
A cervejaria ganhou exposição gratuita na mídia (em relação ao suposto namoro) e conseguiu maior atenção do público para seu comercial.
Já Galisteu e o baixinho cumpriram seu papel de garotos-propaganda, recebendo devidamente para isso.
Quanto à autopromoção de famosos, nos últimos anos houve uma evolução a ponto do vale-tudo por um lugar ao sol, seja para se fazer conhecido ou para tentar manter-se em evidência.
Vale desde abrir as portas de casa para cliques fotográficos até sair sem calcinha para mostrar o que antes só era exibido nas páginas de revistas masculinas.
Vale ir a programas de televisão para 'cancarar a própria vida sexual, os desastres amorosos ou para tecer comentários sobre coisa nenhuma.
Em meio a isto, namorar alguém famoso ou freqüentar o maior número de festas só para atrair flashes curiosos é fichinha.
E 'tes personagens pipocam na mídia, sob a indecifrável alcunha de «celebridade».
Não precisa ser um artista legítimo nem mesmo uma modelo-atriz e-dançarina " para ter direito aos 15 minutos de fama.
Ser uma celebridade instantânea é quase para qualquer um, desde que se tenha a sorte ou a tática necessária.
Ser bonito é praticamente a única qualidade indispensável para chegar lá;
se for desinibido então ...
Pode-se namorar um pagodeiro ou, com sorte, o maior craque do futebol de todos os tempos, um ícone do automobilismo ou um grande rockstar -- isto com chances de, depois, chegar ao cobiçado posto de apresentadora de TV.
Com uma bela 'tampa, também pode-se entrar para um reality show ou ser eleita a musa do momento (do carnaval, do rebolado e até musa do mensalão, pode?).
Ah, e ser filho de famoso já é um pontapé para também se tornar um famoso.
Há um grande porém em 'ta questão.
Como não produzem nada profissionalmente, as novas «celebridades» só têm a própria intimidade e as opiniões vazias para apresentar à mídia e se fazer notícia.
Para elas, vida pública e vida privada são a mesma coisa.
Se antes as revistas semanais de maior apelo popular traziam em suas capas a antecipação dos capítulos das novelas, hoje 'tampam a intimidade dos famosos.
Com isto, um novo conceito midiático começa a se instalar -- o de que a influência de um artista se mede por seu tempo de exposição, e não mais por sua produção cultural.
Vejamos o caso de Marília Gabriela, que em 2006 foi listada entre os famosos brasileiros que têm mais credibilidade para anunciar produtos em peças publicitárias.
Seu nome aparece junto ao de Xuxa, Raul Gil e congêneres.
Você acredita que isto é resultado das ótimas entrevistas que ela conduz ou da visibilidade que adquiriu em oito anos de casamento com o ator Reynaldo Gianecchini?
Enquanto isso, diante da rara aparição de um bom artista nos meios abertos de comunicação, a massa pergunta:
«Quem é?";
ou então exclama:
«Ué, achei que 'se aí já tinha era morrido!».
Eu 'tou achando que alguma coisa anda errada ...
Palavas da top-model Gisele Bündchen em entrevista publicada por a Folha de São Paulo, em 'te 19 de janeiro: "
Hoje parece que as pessoas querem saber mais sobre quem (um famoso) namorou, casou ou divorciou do que das coisas que acontecem no mundo.
É ridículo.
Você sabe por que isso acontece?
Porque as pessoas têm medo de olhar para dentro de elas mesmas.
Preferem viver a vida das outras pessoas.
Elas não 'tão despertas para o mundo, para as suas vidas.
Número de frases: 54
São como zumbis».
Foi no Segundo Encontro de Colaboradores do Overmundo no Rio que fiquei sabendo das atividades da Bienal da União Nacional dos Estudantes (Une) -- metade dos presentes no chope, gente de outras cidades, 'tava aqui por conta do evento universitário.
Uma das programações me chamou atenção:
todo dia 'tava saindo ônibus da Lapa para pontos de cultura (ações desenvolvidas por a comunidade que ganharam o reconhecimento do Estado e hoje recebem ajuda financeira pública).
Sempre quis conhecer alguns, mas a enrolação do cotidiano + distância (em certos casos) me impediam de tomar iniciativa de fazer as visitas.
Aí resolvi encarar a de quarta-feira.
Em a programação 'tava 'crito:
Ponto de Cultura Synval Silva e Império da Tijuca.
Pareceu interessante ...
A procura foi grande, a organização deixou um pouco a desejar, o ônibus arrancou (!)
o retrovisor de um carro na frente da Fundição Progresso, principal 'paço da Bienal, mas no fim deu tudo certo:
quando me vi, 'tava sentada no veículo lotado com um bando de 'tudantes -- chuto que 90 % de eles eram de outros 'tados -- rumo à Zona Norte.
Chegamos lá em pouco tempo.
A bela casa, de dois andares, que possivelmente já abrigou famílias abastadas, 'tava vazia há tempos, por 'tar localizada justamente na subida de uma das favelas da região -- o Morro da Formiga -- e numa área basicamente cercada de comunidades, nem todas comandadas por as mesmas facções.
Desde 2005, o Ponto de Cultura Synval Silva, uma iniciativa do Instituto Trabalho e Cidadania, funciona lá com oficinas de instrumentos musicais, graffiti e informática.
Ano passado cerca de 600 alunos passaram por lá.
Os visitantes se dividiram:
alguns foram fazer aula de percussão com Kleber, diretor de bateria do Salgueiro que dá aula no projeto;
outros foram aprender a manejar os sprays com Julio, grafiteiro morador da área;
e um terceiro grupo foi ouvir Alípio Carmo, outro diretor da casa, contar a história daquilo ali.
Foi em 'se grupo que me meti.
A conversa começou com cara de palestra.
Alípio explicou a homenagem a Synval Silva, morador da área que foi motorista de Carmen Miranda e acabou se tornando um dos compositores mais assíduos no repertório da Pequena Notável.
Depois, contou que, além das oficinas, cursos, bateria-mirim e atividades no 'túdio digital, o PCSS também prepara uma pesquisa sobre a produção musical das favelas da Grande Tijuca.
Imagina que riqueza de detalhes 'sa pesquisa não vai ter ...
A Tijuca é daqueles bairros cheios de preciosidades semi-'condidas.
Tem um monte de 'cola de samba, 'palhadas por todos os grupos do carnaval.
Eles já recolheram mais de mil sambas de compositores do bairro.
Tem baile funk a rodo, tem um monte de banda de rock -- vocação que existia desde os tempos pré-Jovem Guarda, quando Tim Maia, Erasmo e Roberto Carlos moravam por ali ...
Realizado no começo por pesquisadores propriamente ditos, o trabalho agora vai contar também com a participação de dez garotos e garotas da Formiga e adjacências (modelo bem-sucedido iniciado por Samuel Araújo, da UFRJ, no bairro da Maré, e que agora começa a se 'palhar por aí).
Essa não é a única iniciativa de memória:
para o segundo semestre, eles pretendem fazer um museu virtual do Morro da Formiga, nos moldes do Museu da Pessoa.
Funk como projeto social
Falando da diversidade musical da área, Alípio soltou a frase que fez meninos e meninas começarem a interagir:
«Não consigo entender como não existe ainda nenhum projeto social voltado para o funk.
Essa é a principal expressão do pessoal hoje em dia».
Causou um certo burburinho que o fez perguntar se tinha alguém do Rio entre o pessoal.
Só tinha eu.
Para praticamente todo aquele grupo, 'ta era a primeira vez na cidade.
Aí eles começaram a falar.
Um rapaz do Sul opinou que o funk não trazia nenhuma tradição, eram músicas descartáveis, de letras pobres, preconceituosas.
Mesmo sendo sambista de coração, Alípio ponderou que havia muitos funks com letras de protesto e que, preconceito por preconceito, o samba também tinha sua culpa no cartório.
Lembramos de «Ai que saudade da Amélia», de Mario Lago e Ataulfo Alves, e de» Mulher de Malandro», de Heitor dos Prazeres, só para ficar em dois exemplos um tanto desrespeitosos às mulheres.
Outros também falaram que, talvez por a distância de suas cidades, por lá só chegavam as letras de funk de pior calão.
E exclamavam que a coisa mais impressionante que acharam foi a mistura de paisagens no Rio, de favelas ao lado de mansões, de prédios chiques cercados de morros por todos os lados ...
«Isso ajuda a entender um pouco o caldeirão que isso forma.
Porque na minha cidade a pobreza não é vista por a classe média, ela fica 'condida na periferia», explicou outro menino com forte sotaque sulista.
Se houvesse um projeto social voltado para o funk, como sonhou Alípio, ele poderia ter sido uma 'cala no nosso passeio.
Possivelmente ajudaria a embolar ainda mais questões nas cabeças de quem participou daquela interessante conversa.
Mas como não há, 'tamos em vésperas de carnaval e o PCSS tem tudo a ver com o mundo do ziriguidum, partimos em seguida para a quadra da Império da Tijuca, ali perto.
Dez, nota dez
Entrar no universo dos preparativos de 'cola de samba é sempre um barato.
Aquela adrenalina de ver o povo acabando os detalhes de última hora, os carros alegóricos desmontados, o samba-enredo rolando sem parar ...
No caso das 'colas dos grupos de acesso, dá até para lançar um olhar de romantismo:
aquelas pessoas lá trabalhando pacas, fazendo fantasias simples, com o que dá, material mais barato, sucata, o que pintar.
Depois de muitos anos no grupo B, a Império da Tijuca foi campeã de 2006 e conseguiu entrar no grupo A (o que vem imediatamente antes do Grupo Especial, o poderoso).
Essa não foi a única alegria do ano passado para a 'cola que se gaba de ser a primeira a usar o nome «Império (" Antes mesmo da Império Serrano», repetem eles).
Há alguns meses, eles retomaram a antiga quadra, também na Conde de Bonfim.
E lá 'távamos nós, seres 'tranhos de sotaques variados, metidos entre plumas, chapéus e um São Jorge 'tilizado na entrada do 'paço.
O enredo, bem sacado, é uma 'pécie de «São Jorge antes da fama», ou seja, antes de virar santo (" O Morro da Formiga em procissão / Faz a sua homenagem ao santo de devoção ").
As batalhas, o dragão, o sincretismo (é Oxum no candomblé), a fé.
A primeira dama da 'cola ia contando que várias personalidades iam desfilar -- Jorge Fernando, Jorge Vercilo ...--
e que a 'cola conseguiu atrair um monte de devoto do guerreiro graças ao tema.
Eh, festa profana!
:) Enquanto meninas de outros 'tados se divertiam tirando fotos com pedaços de fantasias, encostei ao lado de Tales, uma criança que 'tava grafitando a parede do PCSS e depois nos acompanhou até a 'cola de samba.
Achei que o approach ia ser complicado, mas nada, ele já foi se apresentando:
«Eu tenho oito anos.
Faço aula de graffiti, informática e percussão».
Para fechar o círculo, Tales é neto da baiana mais antiga da Império da Tijuca e já é integrante da bateria-mirim do ponto de cultura.
Circulava discreto e à vontade no meio daqueles 'plendores, plumas e paetês, como um pontinho de cultura que bem simbolizava a importância de um pequeno projeto para a tradição popular de um bairro.
Número de frases: 70
«A 'perança tem duas filhas lindas:
a indignação e a coragem.
A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como 'tão.
A coragem, a mudá-las " disse Santo Agostinho.
Respeito e cidadania no Brasil, e porque não dizer, no mundo, são agora sinônimos de luta.
A luta por consciência, igualdade e dignidade hoje é fundamental para garantir uma sociedade civil justa e democrática amanhã, pois, uma transformação só é possível quando não somos inertes aos acontecimentos em nossa volta.
É preciso «arregaçar as mangas» para buscar 'sa mudança necessária e para enfrentar com dignidade as dificuldades que surgem!
Uma política linear, capaz de construir uma sociedade equilibrada, onde as diferenças naturais, como as características físicas, também não sejam motivos capazes de gerar conflitos.
É preciso criar forças ...
A união de um grupo formado por pessoas que tenham um mesmo propósito, que «plantem juntos a mesma semente que germinará» no dia seguinte, gerando os «bons frutos» tão desejados.
Assim é o Grupo de Valorização Negra do Cariri -- GRUNEC, entidade sem fins lucrativos, formado em Crato-CE no ano de 2001 com o objetivo primordial de promover a igualdade étnica / racial e a auto-'tima da população de cor negra na Região Caririense, além de propagar a consciência sobre nossa afrodescendência, valorizando a nossa história e cultura.
Ele conta com o apoio de entidades governamentais e não governamentais, profissionais liberais, autoridades religiosas, empresários e de qualquer pessoa da própria população que pretenda se engajar num propósito político-social consistente.
O GRUNEC foi idealizado de uma forma inusitada.
Depois de uma aula de natação, 5 pessoas que conversavam sempre sobre injustiças sociais resolveram criar algo maior e sair dos meros discursos individuais.
Depois de uma reunião na garagem da casa de um de eles, surge o GRUNEC, que agora com 7 anos de formação, já conta com o apoio de cerca de mais de 30 indivíduos qualificados para capacitações pedagógicas e para diversos eventos como seminários, oficinas e reuniões, sempre com embasamentos técnicos, legais e jurídicos de tudo o que diz respeito às questões políticas e sociais no País.
De entre eles, alguns nomes:
Verônica, Valéria, Adriano, Antônia, Eliane, Reginaldo, Ridalvo, Ronald, João, Josefa, Prof. Mota, Cícero, Diego, Cleone e muitos outros ...
Todas as pessoas do Grupo, acima de tudo, têm comprometimento.
Elas não «levantam a bandeira» por simples paixão momentânea ou «modismos de causas», não 'tão na» 'trada " vinculadas a nenhum partido político ou outra classe qualquer.
A questão é consciência e vontade!
A vontade, sem comodismo, de ver um verdadeiro Estado Democrático.
A Implantação das Idéias
O GRUNEC trabalha com diversas metodologias, 'pecialmente no ensino profissionalizante e no desenvolvimento de atividades artísticas, fertilizando um terreno para aflorar a auto-'tima do povo de pele negra no Cariri que se encontra em exclusão social, promovendo encenações de danças, desfiles, músicas e outras manifestações ligadas à arte.
Atua de forma efetiva na Semana da Consciência Negra e em ações realizadas junto às Secretarias Municipal e Estadual de Educação para garantir o cumprimento das normas reguladoras como um dos patamares que levarão a uma conscientização mais sólida sobre nossa afrodescendência, levando até mesmo a um contexto nacional.
Esse trabalho, não é feito apenas em auditórios universitários ou 'colares, nem tão somente nas salas de aula.
Ele não se dá unicamente de forma teórica onde alguns dos integrantes do Grupo pegam um microfone e fazem explanações científicas sobre o assunto com seus notáveis dons de oratória.
Ele é feito 'sencialmente junto às comunidades pobres da região, onde a população de cor negra atinge índice mais elevado e onde a marginalização, e tudo o que ela gera, 'tão concentrados num percentual preocupante.
A trajetória na causa já traz um relevante histórico.
O GRUNEC:
promoveu a 1ª Audiência Pública Federal no ano de 2007, para discutir a implementação da Lei nº 10.639/03 conseguindo reunir representantes de 42 municípios da Região do Cariri;
em 2005 realizou o 1º Seminário no Crato para discutir a Igualdade Racial;
é responsável por a Semana da Consciência Negra todos os anos, desde sua formação em 2001;
efetiva cursos para geração de emprego e renda;
junto ao governo municipal do Crato articulou a sua adesão ao Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial, coordenado por a SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial) como forma de afirmar o compromisso do município cratense no combate ao racismo e de garantir à população o aperfeiçoamento das políticas públicas voltadas para promoção da igualdade;
desempenha um excepcional trabalho junto às mulheres do Alto da Penha, que é um dos bairros mais pobres da cidade, etc., etc.,
Um trabalho social moldado em conscientização política, obviamente, deve ter como principal caminho o contato direto com a comunidade, porque, é em 'te contato que 'tá toda a 'sência do resultado.
Ele é o principal desafio, porque é no calor humano que as coisas acontecem, e, para melhor!
É olhando nos olhos das pessoas de cor negra, marginalizadas, que a transformação tão almejada por o GRUNEC tem o seu início.
Simplesmente olhar e enxergar aquelas pessoas e plantando em elas, aquela, semente de mudança começando a germinar com frases simples como " hei, se olhe ...
sua cor é linda!»,
que, a princípio, podem até parecer piegas para alguns, mas com certeza, fazem uma considerável diferença.
Outro grande desafio é trazer à discussão aqueles inclusos nas classes privilegiadas da população, muitos de eles com pele branca, alheios até mesmo aos significados dos termos afrodescendência e inclusão social, e que não se sentem parte integrante de todo 'se seguimento e metamorfose que a sociedade necessita de um modo geral.
Como maneira de se chegar a eles, os meios de comunicação também são usados, até para debater acerca das Normas Reguladoras pertinentes, dos princípios básicos dos Direitos Humanos, etc., o que, evidentemente, somente isso não é o suficiente, porque, respeito, como pilar de 'sa sociedade idealizada, não deve vir através, simplesmente, de uma imposição legal.
O respeito no seu mais amplo significado, deve vir naturalmente, de dentro de cada um, de uma consciência moral e por valorização das nossas raízes e conservação do nosso patrimônio histórico e cultural, deixando-as vivas para as próximas gerações.
As palavras podem ter um papel fundamental em 'ses processos revolucionários de transformações sociais e políticas, mas elas não são nada se não vêm integradas com as ações.
Assim pensa e age o GRUNEC em toda a sua busca.
O GRUNEC segue na sua caminhada ...
Com «idas e vindas», cujos obstáculos mais parecem» muros de Berlim» ...
Mas seguindo adiante, se aliando a outros grupos que têm propósitos de transformações sociais também como meta ...
De mãos dadas, olhando para a frente e sonhando juntos, para que 'se sonho vire realidade num futuro próximo, como diria Carlos Drumont de Andrade.
Em Notas:
As palavras em negrito não foram destacadas aleatoriamente.
Elas trazem o significado maior por trás do texto, 'pecialmente a palavra Respeito.
Novamente, venho ao Overmundo postando algo que traz, diretamente ou indiretamente, 'sa palavra tão 'sencial.
Venho agora falar sobre o GRUNEC, cuja apresentação acima dispensa comentários.
Em a prática, respeito e discriminação 'tão em lados opostos.
As diferenças existem, sejam elas sociais, culturais ou mesmo naturais, como a cor da pele, por exemplo.
Mas rotular e ferir as pessoas em razão de elas é completa ignorância!
Infelizmente, 'tamos cheios de ignorantes por aí, senão, dispensáveis seriam as leis disso e daquilo até para que alguém tenha acesso a uma 'cola.
Respeitar ... eis um grande começo!!!
Contato com o GRUNEC:
grunec cariri@yahoo.com.br
Número de frases: 62
Está lançada a teoria do jornalista sórdido.
Aquele em cujo jornalismo há a marca suja da vida.
Sai um jornalista de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira 'quina passa um caminhão e salpica-lha chapa-branca de uma nódoa de lama:
Tarso de Castro!
Olé!" E em 'te momento», brada o motorista a caminho do boteco mais distante, «75 kg de músculos e fúria se reúnem para fazer mais uma coluna».
Destrata-se da biografia do «poeta» gaúcho Tarso de Castro, 'crita por Tom Cardoso, e lançada recentemente por a editora Planeta:
um verdadeiro evangelho para aqueles que ainda acreditam no jornalismo pingente dos loucos e no lirismo pungente dos bêbados.
«Tom Cardoso, eu vos amo tanto, que até por vossa 'posa me dá um certo quebranto», diria Tarso, com sua própria biografia nas mãos, entre um copo e outro de uísque, terno e respeitoso como um clown de Shakespeare.
E a despeito de certos imbecis que se apropriaram indevidamente de seus acordes dissonantes, como Jaguar e Millôr Fernandes, Tarso, sem dúvida (gritos, murros e sussurros), foi o mais importante jornalista da história deste país, e também o mais bicha!
Isso mesmo!
Tarso era bicha!
Olé! Falando nisso, a proposta é a seguinte:
erguer uma 'tátua em bronze desse maldito mártir em frente ao Palácio Piratini, para que possamos, logo após, derrubá-la (viva a saia!)
a golpes de beijo, mijo e sêmen, num sacro ritual dionisíaco!
Viva Leonel Brizola!
A propósito, Glauber Rocha, um dos seus melhores amigos, com o qual costumava conversar e desesperar sobre tudo, principalmente sobre as mulheres (falavam até a voz enrouquecer e o coração latir) foi quem melhor definiu a personalidade do jornalista:
«Ele é uma só palavra:
coração». Olé!
E o coração de Tarso, misto de Don Juan e Che Guevara, ao contrário do que dizia Fernando Pessoa, quanto mais pensava, mais batia!
Apanhava? Sim, mas quando sangrava, florescia ...
Bla bla.
Eis Tarso de Castro, o astro, 'te verdadeiro «huracán sin ojo», como no poema de Joaquín Sabina, um lobo bobo que uivava como Carl Solomon em suas colunas, pois acreditava que o silêncio não passa de covardia, e que a revolta mais desafia do que nega.
Ui! No entanto, muito cuidado:
Tarso era um cara que não gastava pólvora com pseudo-artistas covardes e arrogantes (tipo Beto Brant e Renato Ciasca):
partia logo para a porrada, seja por meio do soco, ou do deboche.
Mescla de Oswald de Andrade e Martín Fierro, trepava por trás dos pedestais deixando um lastro de cócegas e hematomas na irmandade chapa-branca da cultura brasileira.
Assim, grosso e finíssimo, Tarso explodiu as 'truturas fossilizadas do periodismo de Pindorama (perdón por el subjorgemautnerianismo), justamente numa época em que a revolução «chimia geral» da cultura não encontrava eco nas páginas amareladas e sebosas da imprensa convencional.
Por isso tudo, é deprimente e revoltante observar como Tarso é tratado com desprezo por os ressentidos «amigos» que não souberam conviver com a sua genialidade.
Estou falando de Jaguar, aquele mesmo que apanhou do poeta Torquato Neto, em pleno calçadão de Ipanema, no auge do desbunde setentista.
Conta a história que, ao cruzar com o cartunista, Torquato arrancou e 'migalhou seus óculos, para depois sorrir:
«Você não precisa de óculos, Jaguar, você é cego pra tudo!».
Olé! E eu diria mais:
não se trata de cegueira, mas sim de canalhice!
Ei, Jaguar, guie-se no exemplo do poeta Mário de Sá Carneiro:
mate-se!
Só para termos uma idéia do seu caráter, na recente antologia de edições do Pasquim, lançada por a editora Desiderata, Jaguar reivindica para si alguns dos maiores méritos de Tarso, o verdadeiro idealizador e responsável por 'ta publicação que desestruturou o jornalismo brasileiro.
Entre outras bobagens, Jaguar se apresenta como autor do nome do jornal.
Mentira!" Pasquim», na verdade, era o modo como o pai de Tarso, Múcio de Castro, se referia ao jornal adversário do seu O Nacional, de Passo Fundo.
Outra piada:
Jaguar 'palha por aí que a publicação das entrevistas sem copidesque, grande sacada editorial vanguardista de Tarso, foi um lance do acaso, pois, responsável por a transcrição, Jaguar supostamente não sabia que isso era necessário.
Mentira! Chuta que é macumba!
«Para os meus amigos tudo, para os meus inimigos nem justiça», era o bordão de Tarso:
bringin it all back home!
Enfim!
Tarso era o cara!
Tom Cardoso, gracias!
Beijo na boca!
Nélson Rodrigues era macho?
Careta! (Alô alô André Arieta!
Vamos fazer um filme com a vida deste pássaro em chamas!
Já!) Peréio, eu te odeio!
Meu John Wayne predileto ...
«E que tudo mais vá para o inferno ":
Número de frases: 53
'te era o slogan de Tarso, e o do Sol.
Paris, 1950.
Nasce Jean Eugène Mouchère.
Ainda garoto, vivia apanhando dos colegas da 'cola só por ter sangue de negro correndo nas veias.
Foi diversas vezes expulso das aulas de canto porque a sua voz agredia os ouvidos da professora.
Ficou detido durante 11 meses num reformatório por um crime que jura não ter cometido.
Viveu nas ruas.
Saltou muros de mansões para comer os restos deixados por os cães.
Caminhou durante noites inteiras para não morrer congelado.
Salvador, 1999.
Uma menina de 13 anos morre afogada na Baía de Todos os Santos ao tentar chegar a um barco, junto com outras duas garotas de programa, para atender um grupo de clientes que aguardava seus serviços.
Fiquei sabendo do episódio ao chegar ao Correio da Bahia, jornal em que trabalhava na época, e dar uma olhada nas manchetes do dia.
Fiz o que tinha que fazer até a noite chegar, mas a história, o que a menina provavelmente sentiu quando a canoa alugada começou a afundar, seus possíveis sonhos e mágoas, sua vida vivida e não vivida, não saíam da minha cabeça.
Como era uma sexta-feira, resolvi sair pra 'quecer.
O destino foi um bar chamado Friday, no Pelourinho, no qual meu então namorado, Fernando Ferraz, me garantiu que 'taria rolando um blues fora do comum.
Depois de um tempinho de 'pera, aparece um cara cinquentão, com a maior cara de acabado, balbuciando umas coisas num português quase incompreensível e com uma voz sufocada que mal dava pra ouvir.
Foi aí que a mágica aconteceu.
Aquele que ninguém acreditava ser o vocalista da banda se transformou num autêntico bluesman, cantando com as vísceras «I ' m goin ' to kansas City / Kansas City here I come», delirando no palco improvisado e arrancando aplausos fervorosos do público que ocupava a meia dúzia de mesas do local.
Paris, 1970.
Em um batismo de fogo ao som de Eddie Cochran, Jean Eugène torna-se Jean Mitchel.
Montou várias bandas de blues, fez turnês na Espanha e Itália, teve acesso a discos brasileiros e, pouco tempo depois, decidiu partir rumo ao «país tropical e bonito por natureza» incentivado por a célebre canção de Jorge Ben.
Já no Rio de Janeiro, passou uma das fases mais difíceis de sua vida, retratada de forma romanceada no livro «Anjos Negros» que ele 'creveu dentro de um presídio e o governo da Bahia, através do Programa Faz Cultura, lançou em 2001.
Salvador, 1990.
A o passar numa noite em frente à Cantina da Lua, no Pelourinho, Jean Mitchel ouve uma mistura de jazz e rock ' n ' roll que lhe chama a atenção e o faz duvidar de que 'tá mesmo na terra do dendê.
Foi ver do que se tratava e, mesmo preocupado com o fato de não cantar há quase duas décadas, juntou-se aos músicos responsáveis por o som -- o guitarrista italiano Gini Zambelli e o baixista venezuelano Keko Vilarroel -- e pôs-se a evocar James Brown, Robert Johnson, Little Richard, Chuck Berry, Steve Wonder, Otis Reding, Jerry Lee Lewis, George Gershwing e Wilson Picket.
Nascia ali a Jean Mitchel Blues Band, aplaudida de pé, inclusive, no Bourbon Street Music Club (Paulo), por onde já passaram nomes como Buddy Guy, Ray Charles e B.B..
King.
Salvador, 1999.
Terminado o show, não resisto ao impulso de parabenizar o bluesman que tanto me impressionou.
E foi aí que aconteceu uma daquelas coisas que fazem a gente se sentir dentro de um filme de Almodóvar.
Ele sussurrou, com uma expressão abatida, acinzentada, típica de uma fogueira quando se apaga:
«Muito obrigado, mas hoje não foi dos meus melhores dias.
Estou com o coração partido, destroçado mesmo.
Perdi minha filha de 13 anos ontem.
Está na capa de todos os jornais».
E seguiu em direção ao balcão do bar, resignado, em busca de alguém que lhe pagasse uma cerveja ou lhe cedesse um cigarro.
Epílogo
Em 'sa época, Jean Michel morava no porão do Friday, «gentilmente cedido» por a dona do bar, alternava duas únicas mudas de roupa e sobrevivia com os trocados que recebia de cachê.
Contava os dias pra chegar sexta-feira, pois era o único em que ele podia cantar e garantir o rango do resto da semana.
Pra controlar a ansiedade e fazer o tempo passar mais rápido, pintava quadros abstratos com material doado por alguns artistas plásticos do Pelourinho, praticava meditação e fazia anotações para o seu próximo livro, «Luz nas Trevas», ainda não publicado.
Com o Friday cada vez mais às moscas (a vida cultural do Centro Histórico já dava seus primeiros sinais de decadência) a dona decidiu fechar o 'tabelecimento, não restando outra opção a Jean além de voltar a morar na rua.
Pra piorar a situação, ele engravidou uma mulher viciada em crack, que sumia durante dias e deixava o bebê aos seus cuidados.
Foi em 'se contexto que Jean acabou preso, desta vez, por furto.
Assim que deixou a penintenciária, tentou retomar o trabalho com a banda, mas as portas dos 'paços alternativos de Salvador 'tavam ainda mais inacessíveis.
Chegou, no entanto, a fazer uma curta temporada no bar Alphorria (Santo Antonio além do Carmo) no verão de 2006 e a participar de um festival de rock em Conceição do Almeida (cidadezinha com pouco mais de 20 mil habitantes, próxima a Santo Antonio de Jesus) realizado no ano passado.
Hoje, segundo informações do guitarrista Gini Zambelli, Jean continua sem-teto e internado no hospital das Obras Sociais Irmã Dulce por causa de problemas respiratórios.
Enquanto seus companheiros de banda aguardam sua recuperação, prosseguem firmes na batalha por novos lugares pra tocar, sendo que a perspectiva mais concreta é um restaurante a quilo no Comércio.
Julgamentos morais (que nada têm a ver com o bom e velho blues) à parte, o que o pessoal do Café Portela, Balcão Botequim e Boomerangue 'tá 'perando?
O maior e mais sensacional cantor de blues que já passou por 'tas bandas 'tá aqui, doente por não poder viver da sua arte, enquanto os amantes do gênero (que não são poucos na Bahia) sobrevivem à míngua.
Contato:
Número de frases: 50
Gini Zambelli (71-8133-2689 ou " \> ginizambelli@terra.com.br) Generosa em elogios aos seus colegas de trabalho, Maria Bethânia sentenciou há pouco tempo:
«Vanessa da Mata precisa ser reverenciada, adulada.
Ela é o novo Guimarães Rosa do Brasil».
Exageros à parte, o aval da primeira-dama da MPB tem sentido, pois desde o surgimento de Adriana Calcanhotto, no inicio da década de 1990, era 'perada uma outra cantora popular tão cheia de estilo.
Seu talento, a matogrossense mostrou já na 'tréia, em «Vanessa da Mata (2002)», um álbum intimista -- ainda o melhor de sua carreira.
Em o segundo disco, «Essa boneca tem manual» (2004) ela se reinventou e conseguiu provar que pode existir inteligência no universo Pop.
Mas foi com a pior faixa do disco, a radiofônica " Ai ai ai ..." que Vanessa alcançou o auge da popularidade e se tornou detentora da música nacional mais executada nas rádios, em 2006.
Agora, com «Sim» (2007), seu terceiro disco, Vanessa consolida a carreira ao mostrar que não 'tá amarrada a gêneros musicais.
Apenas a coerência é seu guia.
Em o novo disco, da Mata retorna às origens -- de quando foi vocalista das bandas de reggae Shalla-Ball e Black Uhuru -- e grava, pela primeira vez, o ritmo jamaicano.
E são logo três canções:
«Vermelho», que abre o disco, com potencial para se tornar um grande hit;
a ecológica «Absurdo» e «Ilegais».
Baladas, também são três:
«Amado», «Meu Deus» e «Minha herança:», 'ta, de extrema beleza e sensibilidade, quebra a festividade marcante dos arranjos e fecha o álbum com um intimismo que chega a doer.
Só o próprio violão de Vanessa acompanha sua voz, quase sussurrada, como se ela murmurasse ao pé do nosso ouvido.
Detalhe: é a primeira vez que a cantora, rudimentar em suas técnicas, toca um instrumento musical nos próprios discos.
Mas a emotividade supera deficiência das poucas notas ao violão.
Em «Sim» há 'paço para a disco music, na ótima «Você vai me destruir» -- também um possível grande sucesso, em que a cantora exibe uma rara interpretação dramática.
Os sambas também 'tão presentes, nas 'pirituosas «Fugiu com a novela» e «Quando um homem tem uma mangueira no quintal».
Até uma rumba 'tá presente em «Sim» (Pirraça), isto sem falar no Pop de «Boa Sorte/Good Luck», primeira faixa de divulgação, cantada em dueto com o norte-americano Ben Harper.
A canção foi a mais executada nas rádios do Rio de Janeiro, entre 11 e 15 de junho.
Em 'te disco (produzido por Mário Caldato e Kassin), se Vanessa da Mata não consegue repetir a delicadeza e o preciosismo das composições de seu primeiro álbum, ao menos ela 'tá bem mais diversa que em «Essa boneca tem manual».
A cada novo disco, novos méritos.
Número de frases: 24
Agora Vanessa da Mata nos prova também que a inteligência pode 'tar associada ao grande varejo da música e que, sim, ela veio pra ficar.
Imagem popular:
Visibilidade zero
Exterior / Noite
Entre outras e mais dramáticas conseqüências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma 'pécie de perturbadora «impropriedade 'tética», causada por a contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.
Por que nos 'paços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?
Acreditem, 'ta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias.
Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema 'tá invisível é porque ele não 'tá acontecendo ou simplesmente jamais existiu.
Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia -- expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em 'pelhos simbólicos -- tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo 'sencial de nossa personalidade:
nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio 'tético intocável.
Racismo é pouco -- e vago -- para definir 'ta 'tranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa auto-imagem.
Que diabo de paranóia seria 'ta?
Por que ficar durante séculos como uma 'pécie de «país michael jackson», tentando 'conder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes?
Seríamos uma sociedade acometida por uma 'pécie de vitiligo moral?
Você viu quantas vezes, nos livros 'colares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes?
E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a 'calação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro 'calão do atual governo do país?
como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?
Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia-a-dia, o merchandising rasteiro, o jingle 'pirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.
Em 'te jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro.
A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime «organizado», do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido por a jovem favelada de shortinho leg, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale:
a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).
Para distensionar os ânimos e os 'píritos, no restante de 'ta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais 'paço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos:
belas mulatas -- geralmente sós --, jovens negros musculosos -- acompanhados por falsas louras desinibidas -- mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens «etnicamente corretas», no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da 'cravidão.
É coisa de gente normal, isso?
Câmera discreta
Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia-a-dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social -- muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista --, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão (e na atual ocupação) do Iraque.
Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais?
Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos?
Claro que não.
Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, 'condidas dos olhos das pessoas «de bem».
Um conjunto de elementos 'téticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial, são portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo -- ou não recomendadas -- aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.
E quem seriam em 'te contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil?
São aqueles 30 % que 'tão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do outro.
A questão básica portanto passa a ser:
por que, no contexto de 'ta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm -- uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social -- o componente étnico, racial é tão determinante?
Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como 'ta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70 % restantes de não-brancos?
Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado?
O que podemos fazer com 'ta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir?
Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniqüidade?
Deve ser por isso que, do ponto de vista 'tritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria 'magadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitu m, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.
Em a literatura, entre a mais recente exceção à regra -- Paulo Lins -- e a última já se vão mais de um século.
Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a 'curidão, representada por o simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores 'critores, ambos negros:
Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.
E é em 'ta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.
(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama no take 2 de 'ta história meio ' film noir '.
Desliguem os celulares, por favor)
Spírito Santo (Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003)
Veja isto!:
Número de frases: 48
Uma campanha do bem
Em 1959, Mário de Andrade eternizou em seu livro Danças Dramáticas do Brasil a seguinte afirmação:
«O Pastoril nunca teve repercussão verdadeiramente nacional, sendo sua maior expansão e florescimento no Nordeste e Bahia, o que já não ocorre com as Cheganças, Congos, Caboclinhos e Bumbas, que deixaram vestígio marcante por quase todo o solo brasileiro».
O poeta paulista, referência nos 'tudos étnicos do País, completa o seu raciocínio:
«Isso ao menos parece provar a pouca importância étnica do Pastoril, coincidindo com a sua pouca importância etnográfica e folclórica.
De fato, o Pastoril é um fenômeno de imposição erudita, de importação burguesa, uma verdadeira superfetação, que jamais chegou a se nacionalizar propriamente e nem mesmo a se popularizar».
Porém, em Alagoas, desde a chegada dos colonizadores portugueses, o pastoril encontrou solo fértil, onde até hoje brota a tradição.
Durante todo o século 19, da mais distante cidade do interior ao mais movimentado centro urbano -- na época, a capital Marechal Deodoro -- a terra vermelha do massapê, banhada por o azul intenso do mar, foi palco de incontáveis disputas entre os cordões azul e encarnado.
A brincadeira que nasceu num mosteiro, segundo o poeta Mário de Andrade, ganhou ares profanos com o passar das décadas e promoveu, em meados do século passado, ferrenhas discussões entre respeitados 'tudiosos da cultura popular acerca dos caminhos que o pastoril tomava em cada Estado do Nordeste, principalmente em Pernambuco e Alagoas, onde 'taria maior representado.
Com uma certa dose de provocação e despeito, e com clara preocupação com a reputação da cultura popular alagoana, o folclorista Théo Brandão, em seu livro Folguedos Natalinos, cuja primeira das três edições existentes dada de 1962, fez questão de frisar a diferença entre os pastoris apresentados em Alagoas e " Pernambuco.
«O pastoril alagoano diferencia-se da versão pernambucana do auto porque, apesar das deturpações, da inclusão de música e textos profanos, nunca chegou, mesmo o pastoril de rua, à licenciosidade, à chalaça, à imodéstia dos trajes, gestos e costumes que caracterizam o Pastoril popular do vizinho Estado».
Tal colocação é compreensível quando é observada a definição do antropólogo pernambucano Valdemar Valente do Pastoril que se popularizara no Recife.
«O Pastoril, embora não deixasse de evocar a Natividade, caracteriza-se por o ar profano.
Por certa licenciosidade e até por o exagero pornográfico, como aconteceu nos Pastoris antigos do Recife», 'creveu o pesquisador recifense, em artigo titulado Pastoril, publicado no site da " Fundação Joaquim Nabuco.
«As pastoras, na forma profana do auto natalino, eram geralmente mulheres de reputação duvidosa, sendo mesmo conhecidas prostitutas, usando roupas 'candalosas para a época, caracterizadas por os decotes arrojados, pondo à mostra os seios, e os vestidos curtíssimos, muito acima dos joelhos», detalhava Valente, que na revista Brasil Açucareiro, de 1969, noticiou:
«Os jornais da época censuravam o ar indecente de que se revestiam certos presépios, lembrando que a polícia, no seu propósito de zelar por a moral pública e por os bons costumes, devia cancelar o seu funcionamento».
A origem e o significado
Apesar dos rumos diferenciados que o pastoril seguiu nos diversos povoados do Nordeste, os pesquisadores costumam dar a mesma versão para a origem e o significado da manifestação folclórica.
De acordo com Mário de Andrade, a primeira idéia de representar o nascimento do Menino Jesus foi do monge Tuotilo, ainda no século 10.
Primeiro chamada de Presépio, a dramatização da chegada do filho de Maria à Terra fragmentou-se com o tempo, transformando grande parte do 'petáculo em jornadas soltas, canções que contam a aventura das pastoras em direção a Belém para visitar Jesus Cristo na manjedoura.
«Em a verdade, a invenção de 'sa representação mística que é o Presépio é atribuída a São Francisco de Assis, que já em 1223, ajudado por seus frades, representou pela primeira vez a cena sagrada», conta Mário de Andrade em Danças Dramáticas do Brasil.
O folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo 'creveu em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, de 1954, que o pastoril " nasceu dos dramas litúrgicos representados nas igrejas, nos quais se assistia ao nascimento de Jesus, ao aviso [dos anjos] aos pastores, à adoração dos magos, e à oferenda de incenso, mirra e ouro.
Antes de findar a encenação, há leilão de prendas, frutas, flores, trabalhos manuais, oferecidos por as mestras e pastoras, açulando a rivalidade entre os partidários dos cordões azul e encarnado».
Para Théo Brandão, conforme publicou em «Folguedos Natalinos,» tem sido 'se partidarismo dos cordões, apesar dos tumultos, das alterações, brigas e disputas, que ocasiona em fator da preferência do Pastoril por todas as classes sociais e uma das causas de sua extraordinária persistência e difusão no Estado».
Em seus 'tudos, citados na obra de Luís da Câmara Cascudo, o folclorista alagoano José Maria Tenório da Rocha registrou que o pastoril «é o folguedo de maior aceitação popular na capital alagoana, reflexo das disputas acirradas entre os adeptos do cordão azul e os do cordão encarnado, que muitas vezes brigam pra valer, até com peixeira».
O cordão que mais arrecada dinheiro, no dia seis de janeiro -- Dia de Reis, recebe a coroação e se torna o grande vencedor do ano.
Os personagens e a música
Com a difusão do pastoril no Nordeste, ao longo dos anos cada grupo adaptou a sua apresentação.
Alguns personagens se tornaram fixos, como a mestra, líder do cordão encarnado;
a contramestra, líder do cordão azul;
a Diana, que dança no centro e é sem partido;
e as pastorinhas, geralmente seis de cada cordão.
As jornadas também sofreram adaptações, permanecendo iguais apenas as chamadas «jornada de chegada» e «jornada de despedida».
A representação da borboleta, da cigana, do pastor e do anjo Gabriel é comum entre os grupos e simbolizam as figuras que as pastoras vão encontrando no caminho até Belém.
Algumas para ajudá-las e outras, para atrapalhar a marcha.
A música tem importância singular no pastoril, mas nem ela permaneceu intocável.
Com a formatação profana do auto natalino, até os grandes sucessos das rádios na época tinham 'paço durante as apresentações.
«Interpretadas por as pastoras em busca de aplausos e agradecimentos aos seus partidários, cançonetas, valsas, modinhas foram introduzidas como ' parte ' dos atos e depois, à proporção que foram sendo música da moda, compareceram tangos argentinos, fox-trotes, boleros, rumbas, congos baiões e até macumbas e xangôs, divulgados por os discos, além naturalmente do samba e dos maxixes brasileiros», relatou Théo Brandão em seu 'tudo Folguedos Natalinos.
Formadas de violões, cavaquinhos, trombones ou saxofones, pandeiros e surdos, as orquestras que acompanham as jornadas do pastoril contam ponto por a animação, mas tem o número de músicos determinado por a condição financeira de cada grupo.
Houve tempo em que diversos poetas duelavam, criando jornadas para atacar o cordão adversário e exaltar o próprio cordão.
As «chateações poéticas» originavam ainda palavras de ordem, como as que foram recolhidas por " Théo Brandão:
«O encarnado no seu palacete.
O azul levando cacete», ou «Azul é o sol, azul é o mar, azul é a rainha que nós vamos coroar».
Tamanha as disputas, os pastoris invadiram as rádios, primeiro em Maceió e depois no Recife, se tornando cada vez mais populares e tradicionais nas duas cidades.
A o conversar com pessoas que dedicam suas vidas para conservar o pastoril em Alagoas, a impressão que dá é que elas mantêm um elo sagrado com seus ancestrais -- um canal por onde se alimentam de entusiasmo e da certeza de que 'tão cumprindo o seu papel para firmar e, sobretudo afirmar, sua identidade cultural.
Apesar da falta de apoio institucional e das deturpações promovidas por as mudanças do comportamento humano, 'tas manifestações chegam aos dias atuais com diversas características ainda conservadas.
Em as linhas a seguir, o leitor vai conhecer brincantes alagoanos e as suas declarações emocionadas de amor por a cultura popular.
Dedicação tamanho família
A família inteira de Jeane Darc participa do Pastoril Menino Jesus.
Mais conhecida como Jane, ela tem 39 anos e coordena 22 pessoas em dois ensaios semanais.
Entre os integrantes do grupo, o 'poso de Jane, José Vanildo, é o animador do cordão encarnado;
a filha mais velha, a universitária Rafaela, 18, 'tudante de Pedagogia, é a Diana;
o único filho tem 14 anos e é o pastor;
a filha mais nova, Daniela, é a borboleta;
e a Renata, a filha de 16 anos, é a contramestra.
«O apoio da família é fundamental.
Meu 'poso no começo não gostava muito da idéia porque não dava dinheiro.
Hoje ele adora o Pastoril.
Depois dos ensaios, é ele quem leva todas as meninas para casa», revela Jane, enaltecendo a dedicação de José.
Foi na Catedral Metropolitana de Maceió que Jane dançou pastoril pela primeira vez.
«Eu tinha uns 12 anos.
Quem ensaiava era Eudora Vasconcelos.
Parei com 15 porque ela acabou o grupo de adolescentes e ficou só com o de idosos».
Quando os filhos de Jane 'tavam freqüentando a catequese, na Paróquia Menino Jesus de Praga, no Sanatório, ela convenceu as mães de outras crianças a montar um pastoril na igreja.
«Eu queria voltar a ensaiar.
Mas depois de um ano, ocorreram as desistências.
Ao mesmo tempo, falei para mim mesma que iria conseguir.
E consegui».
Desde criança, ela diz que tem fascinação por o Pastoril.
«O meu desejo é reativar o Pastoril da Catedral.
É difícil porque agora aquela área é toda comercial, mas não é impossível.
As pessoas dizem hoje que a cultura popular é cafona, mas antigamente toda a elite dançava», recorda.
Depois das missas na Catedral, Jane e as demais pastoras costumavam já se encontrar no palco, preparadas para começar a apresentação.
«As disputas eram divertidas.
A minha família sempre ia assistir.
O dinheiro arrecadado por os cordões era destinado a uma 'cola de domésticas que havia ao lado da igreja.
Os partidários que não tinham dinheiro davam abóbora, galinha, tinha fazendeiro que dava até cheque.
A gente pendurava com alfinete todo o dinheiro na roupa.
Era muito bonito.
Hoje em dia, as pessoas nem conhecem mais o pastoril.
Quando contratam, querem pagar com lanche e transporte, mas eu não vivo de lanche e transporte», reclama Jane.
«Antes, todas as 'colas tinham o seu folguedo.
Agora é só televisão e internet que interessa aos jovens», conta ela, que é agente cultural do Estado e dá aulas de pastoril em seis 'colas da rede pública de ensino.
Os CDs que «ressuscitaram» pastoris
O grupo Recordar é Viver surgiu há dez anos, quando Lucineide Medeiros, 38, foi convidada para ensaiar um pastoril na Igreja do conjunto " Salvador Lyra.
«Mas só podia participar quem freqüentava a missa e, então, faltou menina».
Persistente, ela se juntou às amigas da vizinhança.
«Formamos um grupo misto, com crianças, jovens, adultos e idosos.
Nosso objetivo é reunir todo mundo em prol da cultura popular», explica Ana Ferreira, 66 anos, a contramestra da turma, que na infância não teve oportunidade de dançar pastoril.
«Cresci na Paraíba e por lá não existe 'sa dança.
Hoje não me vejo fazendo outra coisa».
Nilda Santos, 52, diz que tinha o desejo de ser pastora guardado há muito tempo.
«Só agora é que 'tou vivendo a minha juventude», conta, dizendo 'tar feliz e orgulhosa.
Ex-aluna do folclorista e professor Pedro Teixeira, Lucineide, a diana do grupo e caixa de uma casa lotérica, começou a dançar aos 5 anos.
«Levei muita pisa do meu pai.
Ele não gostava de me ver nos palanques, durante as festas».
Certa do que queria, ela fazia de tudo para não perder as apresentações.
«O grupo do professor Pedro era muito conhecido, 'tava sempre viajando.
Uma vez, meu pai disse que só deixava eu viajar se minha irmã fosse junto.
Ela não gostava de pastoril, mas convenci dando presentes.
A gente já 'tava 'perando o ônibus e ela desistiu.
Eu fui, mesmo sabendo que levaria uma pisa quando voltasse para casa».
Mãe de três meninas adolescentes, Lucineide ia ensaiar com os bebês a tira-colo.
«É como se fosse uma profissão, eu me sinto realizada dançando pastoril».
A dedicação da equipe resultou na gravação de dois CDs, com mais de trinta jornadas diferentes.
«O mais gratificante foi saber que muitos pastoris foram reativados por causa dos discos», conta Ana Ferreira.
Um de eles é o de Igaci.
«A pessoa que ensaiava o pastoril de lá faleceu e o grupo havia acabado.
Quando ouviram o disco, umas meninas se juntaram, aprenderam as músicas e hoje 'tão dançando», explica Lucineide.
«Voltar a dançar pastoril foi como ganhar um presente.
Fico relembrando meus tempos de menina», diz Ângela Maria, 52, natural de São José da Lage.
O grupo quer, na véspera do Natal, se apresentar em Itapetim, Pernambuco.
Tem 'tadia garantida, mas falta transporte.
«Também 'tamos tentando lançar um DVD.
Gravamos até com o padre Antônio Maria».
A vitalidade da cultura popular
O nome Áurea de Barros Tavares é quase sinônimo de pastoril em Alagoas.
Ela tem 82 anos e há 71 se dedica à dança folclórica.
Natural de Satuba, desde os 5 anos já sentia que a sua missão seria levar adiante o auto natalino.
Hoje, é ela quem costura os trajes de todas as meninas, toca surdo durante os ensaios e as apresentações e compõe as jornadas do Pastoril Mensageiras de Fátima.
Em a juventude, representou a borboleta, a cigana, a mestra e a contramestra, a libertina, a florista e atualmente diz ser uma eterna diana.
«Meu partido são os dois cordões.
Meu coração é do azul e do encarnado».
Sem apoio do Estado, Áurea de Barros ensina às suas pastoras a bordar as indumentárias.
«Não temos dinheiro, então elas me ajudam com a costura, e a música eu mesma marco.
Contrato só o sopro».
Por causa das economias e, principalmente, da falta de interesse dos jovens, o pastoril de Áurea também foi perdendo personagens.
«Muitas vezes apresentamos sem cigana, sem anjos, sem florista.
Vamos adaptando as jornadas.
Fui numa 'cola convidar os alunos, 16 deram o nome, mas só três apareceram», lamenta.
Mesmo quando morou por seis anos em Fernando de Noronha, Áurea não deixou de ensaiar.
«Dava aulas por lá também».
Antiga como a sua paixão por o folclore, a máquina de costura que ela usa tem mais de meio século.
«Em 'ta máquina, fiz a roupa de borboleta da minha filha quando ela tinha seis anos.
Hoje ela tem 60 e nem dança mais».
Rígida com a tradição, Áurea não gosta que adultos dancem o pastoril.
«Tudo tem seu tempo.
Em a Bíblia, os pastores são jovens».
Ela fica feliz quando lembra das pessoas que já dançaram em seu pastoril.
«Tinha um pastor que hoje é padre lá em Roma», conta, orgulhosa.
«Recebo carinho de muita gente que ensaiava com mim.
Muitos são advogados, médicos e até secretários de Estado.
Já saiu do meu pastoril, inclusive, duas miss " Alagoas, revela.
Com a mesma vitalidade de Áurea de Barros, se apresenta Luzia Simões, 72 anos, em " Coqueiro Seco.
«Eu não deixo de ensaiar o pastoril porque é ele que dá vida ao município».
Há três anos, apresentou o pastoril Nossa Senhora Mãe dos Homens no Recife, de onde traz boas lembranças.
«Lá eu dancei com Antônio Nóbrega, numa barca no rio Capibaribe.
É muito gratificante encontrar pessoas como ele, que valoriza o que a gente faz».
Com muita saudade, Luzia lembra de seu tempo de menina, quando as disputas entre os cordões azul e encarnado rendiam brigas feias em " Coqueiro Seco.
«Saía até tiro.
A gente brincava de julho até janeiro, Dia de Reis, com a coroação da mestra ou da contramestra.
Hoje é mais desanimado, mas mesmo assim, faz gosto ver as meninas dançando».
Ela também recorda a ida de um grupo e pesquisadores do sul na sua cidade, que percorreu o Nordeste ano passado, catalogando as manifestações da cultura popular.
«Mais turistas deveriam aparecer por aqui.
Foi uma festa grande.
Dançamos das três da tarde até às nove da noite».
Luzia recebe uma bolsa do governo para repassar os seus conhecimentos nas 'colas de " Coqueiro Seco.
«Eu só paro se Deus quiser.
Enquanto eu tiver saúde, vou em frente».
Quando a persistência vence o preconceito
O sonho de criança de um dia subir no palanque e dançar o pastoril, Elúzia Maria Correia Cordeiro, 50 anos, nunca realizou.
Nascida em Marechal Deodoro, ela não perdia uma apresentação na cidade.
Suas três irmãs mais novas todas dançavam, Elúzia só podia olhar.
«Meus pais nunca deixaram.
Minhas irmãs nasceram brancas e eu sou de cor.
Meu pai dizia que pastoril não era dança para negros.
Ele tinha medo que zombassem de mim».
Ela conta que, na época, tinha o pastoril da elite, que se apresentava na frente das igrejas, e o de rua, com pessoas menos abastadas.
«As mocinhas, além de brancas e bonitas, também tinham que ser virgens.
Quando descobriam que alguma pastorinha não era mais, expulsavam do grupo e todo mundo na cidade ficava sabendo», relata.
Certa de que não teria chances de fazer parte de nenhum pastoril de Marechal Deodoro, Elúzia, aos 14 anos, resolveu montar o próprio grupo.
Reuniu algumas meninas da vizinhança e começou a ensaiar.
«Um dia, uma senhora ligada à igreja chamou as pastoras que eu havia reunido e as convenceu de irem dançar em outro pastoril.
Fiquei sem ninguém.
Foi muito triste».
Mesmo com tantos contratempos, Elúzia sente saudades da época em que os pastoris eram a atração na primeira capital alagoana.
«Toda semana, tinha pastoril por causa da feira.
Antes era dia de quarta, então na terça, os matutos chegavam do sertão a cavalo para dormir em Marechal.
De noite, o pastoril se apresentava.
As pastoras faziam rosas e cravos de papel perfumado, e, durante a dança, saiam colocando no bolso dos feirantes para conquistar partidários e ganhar dinheiro».
Elúzia diz que, entre as jornadas, as pastoras cantavam as músicas que faziam sucesso na época e ofereciam a alguém da platéia.
«Principalmente a quem tinha dinheiro, como fazendeiros e políticos da região.
As meninas cantavam músicas de Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo e Paulo Sérgio para conquistar votos e o cordão sair vencendo.
Além de serem bonitas e virgens, as pastoras tinham que ter uma boa voz».
As flores perfumadas eram devolvidas com alguma quantia.
«O dinheiro era colocado na roupa, com alfinete.
Depois começaram a usar urnas.
Hoje e dinheiro é quase nenhum e é dado na mão mesmo».
Elúzia, junto com as irmãs, mantinha um pastoril em Marechal.
Mas em 2004, o sobrinho, que era músico do grupo, foi assassinado.
«Resolvemos dar um tempo, mas 'tamos pensando em retomar os ensaios no próximo ano», anuncia.
A banda oficial das jornadas alagoanas
Romildo Manoel da Silva tem 57 anos e é o músico mais requisitado por os grupos de pastoril em Alagoas.
Em o mês de dezembro, ele se desdobra para dar conta de tantos pedidos.
Natural de Coqueiro Seco, desde os 17 anos toca trombone.
«Comecei tocando pífano de canudo de mamoeiro de brincadeira para as meninas que dançavam pastoril, eu tinha uns 12 anos na época, depois fui convidado para tocar na Filarmônica Francisco de Carvalho.
Disseram que eu já tinha vocação para a coisa».
Foi no início da década de 1960 que Romildo aprendeu a tocar as jornadas.
«Hoje as jornadas sofreram mudanças, cada grupo canta de um jeito diferente.
Quem é músico, tem que conhecer bem as letras».
Ele diz que a 'trutura de palco, a duração das apresentações e o público também mudaram.
«Quando a gente ia se apresentar na Praça da Faculdade cobravam até ingresso.
O palanque era grande, todo enfeitado, chamava atenção.
Hoje quase não temos mais lugar para o pastoril.
Ninguém dança mais na véspera de Natal e nem no dia 31 de dezembro.
Antigamente, antes da missa do Galo, o pastoril fazia a festa na frente das igrejas.
Eu começava às oito da noite e só terminava lá para uma da manhã.
Rompia ano novo no palanque.
Agora, se muito a gente toca é uma hora, 50 minutos.
O pessoal não quer mais pastoril, quer somente uma demonstração», lamenta, ao explicar que antes cada pastoril tinha a sua banda.
«Depois os músicos foram morrendo.
Até uns dois anos atrás, eu dividia os pastoris com Agerson, um músico de Marechal, mas ele faleceu».
A banda de Romildo, batizada de Sete de Ouro -- ou Gold Seven -- também anima bailes.
Formada por seu filho, Romildo Júnior (sax), Luís Simão (surdo), José dos Coco (banjo e cavaquinho) e Zé Muganga (pandeiro), ele afirma que cobra o cachê de acordo com a distância.
«Se é em Maceió, fica na faixa de R$ 70;
mas se é interior, sobre para R$ 120, por aí».
Para tocar as jornadas do pastoril, Romildo explica que é fundamental um instrumento de sopro e o surdo.
«O surdo marca o ritmo e o sax ou o trombone acompanha o canto».
O segredo da preferência dos pastoris por sua banda, o músico revela:
«Eu não faço nada com preguiça.
Eu gosto de tocar.
Tudo o que eu faço é rindo».
Número de frases: 222
Versão não editada da matéria publicada na Gazeta de Alagoas, no dia 03 de dezembro de 2006.
Meu primeiro contato com Caio foi há exatos 10 anos.
Em 1997, Eu tinha 14 anos, fins de Século XX.
Em aquela época antipatizava Clarice Lispector quem é 'sa mulher de olhar enignático na contracapa dos livros que não param de sair da Biblioteca?
e devorava Paulo Coelho (velhas 'tratégias falidas de conquista).
Talvez eu mentisse dizendo que foi uma Paixão arrebatadora o que senti por o 'critor gaúcho.
Em o melhor 'tilo de Caio:
ao ler a primeira frase da primeira página.
Toda aquela linguagem urgente, transbordante, transcendente.
Mas não foi assim.
Em a verdade aos treze ou quatorze anos experiências do tamanho destes adjetivos geralmente são no máximo intuições protofórmicas, embrionárias.
Caio chegou no primeiro outono da minha vida.
Em aquela época em que todo adolescente passou, passa ou passará:
a Sentimentos, digamos, 'treantes, mas talvez ainda de certa forma presentes, latentes.
Mas Caio não veio junto com os morangos.
Por quê? Não sei.
Quem não o apresentou?
Também não.
Só há a vaga lembrança daquele livro na prateleira de novas aquisições:
Morangos Mofados.
Morangos sem dono.
Morangos sem caio.
Relançado por a Companhia das letras, é o máximo que consigo resgatar.
Poderia devaneiar, falando que passei diversas vezes por ele, relutando, pressentindo.
Aquela capa formada por a selva de concreto que era -- e é -- a cinzenta São Paulo, e sobre ela distribuídas aquelas toscas figuras de morangos não-mofados vermelhos.
Mas também não foi assim, pelo menos não totalmente.
O nome serpenteava meu cotidiano.
Até por que havia acabado de ver a Cuca na MTV (papa dos teenagers naquela época e talvez ainda hoje) que uma banda de sucesso geralmente tem seu nome formado por um substantivo seguido de um adjetivo pungente (seria 'se pressuposto válido também para livros?).
Lembro, que as pilhas eram novíssimas e a capacidade de armazenamento deste tipo de era inesgotável.
Não que hoje não seja mais assim.
Em a verdade a sensação vivida em relação aos «Morangos Mofados» é a mesma que sinto hoje em relação a um outro livro que tenho visto nas mesmas velhas e famigeradas prateleiras de novas aquisições:
Novelas Nervosas.
Sustantivo + Adjetivo pungente = Sucesso?
Não sei ...
mas a fórmula parece funcionar.
Assim como naqueles dias de 1997 (hoje parecendo tão distante, ai que saudade dos meus ...
menos ... afinal 'tou apenas nos vinte e quatro), não conhecia nem memorizara o extenso nome comum de Caio Fernando Abreu (Sim, eu não sabia nem quem era.
Só decorara MorangosMofadosMorang ...)
também não guardei o nome do autor de novelas nervosas.
Me lembro apenas de um nome cheio de kas, ou talvez nem tão cheio assim.
Mas sei que 'sas nervosas novelas 'tão no meu caminho.
Há se 'tão.
Havia novelas no meio do caminho.
Mas não traiamos o relato infanto-juvenil.
Voltemos aos morangos.
Contudo, outra indagação chega:
seria traição mesmo?
Seria viável um relato daquele momento sem a utilização do filtro da percepção contemporânea?
A resposta do Cineasta italiano Bertolucci para 'ta lendária indagação é um Não, «caio efemente» falando, assim mesmo, maiúsculo e negrito.
Bertolucci foi tão longe em 'ta sua posição em relação ao tema que no seu filme «Os Sonhadores (sobre as manifestações juvenis ocorridas na França de 1968)» a cena do manifesto na Cinemateca Francesa foi rodada com o mesmo ator-militante que lera o panfleto 'crito por Godard 40 anos atrás.
Jean-Paul, agora um senhor de meia idade, se viu novamente diante de uma multidão -- agora de atores e figurantes -- com o ofício de reinventando aquele maio em Paris.
Em a finalização do filme Bertolucci decidira por intercalar as imagens verdadeiras (em preto e branco) com as da representação no set de filmagem.
Falta de verossimilhança perceber a intercalação entre o passado real e a tentativa de reconstrução fictícia?
Destoante ver o peso dos anos no rosto ator-manifestante?
O cineasta italiano que sim, propositalmente sim e argumenta que toda reconstrução cinematográfica fala muito mais do hoje que da situação em questão.
Parece que isso acontece não só no cinema, mas em toda forma de inter-ação com o passado.
Gosto de pensar 'te tipo de situação como semelhante ao mecanismo de defesa do ego chamado -- não por acaso e cinematograficamente de projeção, (eita psicanálise de botequim) onde a acusação do acusador fala mais de ele que do próprio acusado.
Mas voltemos aos anos 90.
Ou à minha auto-ficção dos anos 90.
Como já disse não lembro quando exatamente naquele 1997 levei os morangos para ler em casa.
Vasculho minha agenda do citado ano a procura de indícios.
Inútil. Apenas um vestígio já encontrado anteriormente:
na lista pessoal de auto-sugest ão de livros, entre «Razão e Sentimento» de Jane Austin e " Setembro ":
Morangos Mofados.
Seco assim:
sem referências a autor, nem editora.
Nada. Sem Caio:
Sem a Clarice Lispector que ouviu muito Rock e tomou algumas drogas.
Sem as trips, sem as cartas, sem dragões, sem a prisão por roubar na Inglaterra os dois volumes da biografia de Virginia Woolf (aliás também, ainda não havia para mim Virginia Woolf) 'crita por Quentin Bell.
Nada. Seco e simples:
morangos mofados.
Escrito de caneta azul no dia seis de janeiro de 1997 -- uma segunda feira-época em que o Brasil disputava a sede das olimpíadas de 2004.
O rio de janeiro continua lindo.
Arrepio na 'pinha.
Caio já 'tava morto e nem existira para mim.
Eu só descobriria isso nove anos depois.
Em a verdade se eu quiser endoidar e fazer a abordagem Caio não 'tava morto, por que ele nem existia.
E se quiser ratificar meu argumento com Tolstói (na Morte de Ivan Ilitch, livro que Caio achava dos mais angustiantes -- vide a crônica sobre Frida Khalo em Pequenas epifanias) rememoro a frase final da Obra quando Ivan 'tava morrendo:
«acabou-se a morte -- disse de si para si -- Ela não existe mais».
Sim, a morte só existe para quem ficou sentindo a ausência, para o morto só restou o Nada, a ausência de tudo inclusive da morte.
E para quem não tomou conhecimento do morto, nem da sua ausência, ele (o morto) nunca existiu.
Não, não posso dizer que Caio 'tava morto naquele momento porque não existia Caio.
Em aquele momento só havia a intuição guiada por um 'pectro rasante, rascante:
Morangos Mofados.
«a vida é uma ponte entre dois nadas e tenho pressa «-- disse Caio por a boca de Pérsio em» Por a noite».
Caio 'tava para além da minha pontezinha de menos de uma década e meia.
Voltemos a 1997: Levei morangos para casa.
Lembro que á época pensava que o livro tinha acabado de ser 'crito (quando na verdade a primeira publicação acontecera em 1982 -- um ano antes do meu nascimento).
O caso é que não sabia muito a diferença entre lançamento e Reedição.
Ora, não 'perem muito de um recém-adolescente dos anos 90.
O livro tinha sido relançado por a ocasião da morte de Caio -- mas como já disse, e correndo o risco de ser chato, todos, menos eu, sabiam daquela morte «desanunciada».
O fato é que não avancei muito sobre os morangos.
Em a verdade nem cheguei em eles.
Parei no Mofo.
Mais precisamente não fui além do primeiro conto:
Diálogo. A:
Você é meu companheiro.
B: Hein?
Achei um saco.
Outro arrepio na 'pinha.
Parei exatamente uma página antes do que considero hoje o mais histórico (com agá mesmo) dos textos de Caio:
«Os sobreviventes».
Arrependimento? Não.
Em a verdade ainda não havia bagagem o suficiente para entendê-lo ou qualquer outro relato daqueles anos 1960/70 (e haveria hoje?).
Meu contato mais próximo com aquela juventude tinha sido, até então, através das lentes da Globo na minissérie Anos Rebeldes, a qual não acompanhei por ser exibida num horário muito tarde e também por ser «complicada».
Contudo as cores psicodélicas da abertura embaladas por o som de Caetano caminhado contra o vento exerciam um premonitório fascínio.
Enquanto que a morte de da personagem de Cláudia Abreu (mesmo nome e sobrenome da irmã de Caio) no último capítulo não fazia o menor sentido para mim.
Metralhada porque tirou a identidade de dentro da bolsa?
Como assim?
Não. Não havia as bases mínimas na minha ponte para a compreensão.
Ou se quisesse uma pequena verborragia pretenso-marxista diria assim:
não havia o desenvolvimento suficiente das minhas condições objetivas e sócio-históricas para uma compreensão mais totalizante do processo de resistência juvenil diante da autocracia burguesa na disputa por a hegemonia político-cultural.
Um desconto deve ser dado, Anos Rebeldes datam do início dos anos 90.
Eu deveria ter uns 9 anos.
O fato é que Caio ficou latente, 'perando ser descoberto durante anos após sua partida.
Veio a ovelha Dolly, Morreu Renato Russo, Clinton disse que sexo oral não é sexo, Titanic se igualou a Ben Hur em número de Oscars, caíram as torres gêmeas, Madonna deixou (?)
de ser puta, Lula (o sindicalista do Abc) foi eleito presidente da república, Regina Duarte foi surrada no meio da rua por dizer na TV que Lula mudou, antes de todo mundo admitir que ele mudara mesmo.
E nada de Caio.
Os morangos mofados e sem donos 'tavam sepultados na janela dos 'quecimento.
Enquanto isso eu na 'cola, depois no grupo de jovens, depois universidade, movimento 'tudantil, Afinal o que foi que aconteceu em 'se tal Maio de 68?,
primeiros baseados, depois a Ioga, eleições no Diretório central dos 'tudantes, por uma universidade pública, gratuita e de qualidade, militância virtual:
O orkut é pós-moderno?,
mapa astral por a internet, disputa do centro acadêmico:
por um projeto democrático e popular, blind meetings via MSN, ousar dizer o nome:
uma antropologia da noite urbana.
all we need is love!
E numa canção do último cd em vida de Renato Russo uma constatação velada:
«na saída da aula foi 'tranho e bonito todo mundo cantando baixinho, strawberry fields forever».
Campos de morangos para sempre.
Eles (os morangos vermelhos e sumarentos) nasciaM expontaneamente, sem caios nem contos.
Mas o (re) encontro inevitável com o 'critor gaúcho finalmente aconteceria numa animada noite em junho de 2006.
Um amigo do outro lado da linha, do rio e da formação acadêmica convida:
«Tem uma peça em cartaz no Sesc.
É de um 'critor brasileiro que eu gosto muito».
Não me empolguei muito.
Em o auge de minha contradição ambulante:
adolescência lendo literatura norte-americano e no início da juventude me dedicando a Marx e companhia, não havia muitos lugares para literatura brasileira contemporânea.
O último livro de 'ta 'tirpe que eu havia lido tinha sido «o matador» de Patrícia Mello.
Chatinho -- foi minha avaliação entediada.
«O nome de ele é Caio Fernando Abreu, vamo, tu vai adorar».
Não fazia idéia de quem vinha a ser aquele ilustre 'pectro desconhecido-conhecido.
Em cartaz:
Uma flor de Dama.
10, 11, 17, 18, 24 e 25/06, 20hs -- Adaptação livre do conto «Dama da Noite do Livro» os dragões não conhecem o paraíso " feita por o diretor e ator Silvério Pereira ('se garoto tem futuro).
Em a platéia:
Eu de jeans, preto e cabelo arrepiadinho.
Todo mundo 'pera alguma coisa de um sábado à noite.
Em o 'petáculo:
eu 'tarrecido e chocado e dentro de minha camisinha Mr. Wonderful fui encolhendo diante de tanta «compreensão sagrada de tudo».
E fascinado e insultado fui me expandindo nas urgências dos becos e texturas.
Dissimulações e simulacros.
«Pós-tudo, puro simulacro».
Não, eu não 'tava de jeans, preto e Camisinha Mr. Wonderful.
Eu 'tava nu.
Desnudado por a voragem vertiginosa de Caio Fernando Abreu.
Após o 'petáculo, na calçada do teatro, semi-pronto para adentrar carro e a noite:
«E aí gostou do 'petáculo?».
Eu ainda em processo de recomposição.
Tonto no sentido de nauseado, mas também de abestalhado:
«Adorei» -- disse eu sem conseguir dizer.
«Pois eu vou te emprestar um livro de ele que tu vai adorar mais ainda:
Morangos Mofados».
Strawberry fields forever.
Caio nascia.
Número de frases: 164
Prólogo
Egito, agosto de 1927 A o passar a mão afastando o suor que lhe cobria a face, o Dr. Albert Raidech ergueu a cabeça e seus olhos fixaram-se então na Esfinge -- o colosso de pedra -- que a uns trezentos metros de ali contemplava-o com o mesmo olhar enigmático que por milênios inquietava a todos que se deparassem com seu majestoso semblante.
-- Aqui!
Eu encontrei -- gritou o nativo contratado por a expedição.
O Dr. Albert correu em direção ao homem que acenava freneticamente, apontando para o que parecia ser uma imensa lápide com inscrições corroídas por o tempo obstruindo a entrada de um túmulo subterrâneo.
Com instrumentos trazidos por seu assistente, o emérito professor e egiptólogo britânico limpou-a cuidadosamente.
Sua face então iluminou-se ao contemplar a águia bicéfala.
Ele finalmente descobrira a tumba perdida do faraó Amenófis IV -- o faraó sacerdote, o grande mago do Egito que aterrorizava o mundo antigo.
A pedra foi removida, e com uma tocha, seguido por o seu assistente Max Fuchon e por os nativos, o Dr. Albert desceu os sessenta degraus de uma 'cadaria que, por milênios, ninguém havia passado.
A sala mortuária era um imenso retângulo, a visão das paredes, em auto-relevo, representando batalhas antigas, 'quecidas na história, logo era substituída por o brilho ofuscante de dezenas de 'tátuas em tamanho natural de homens e deuses do antigo Egito.
-- Professor, isto aqui é ouro!--
disse Max Fuchon enquanto removia a camada de poeira que recobria a face altiva do deus Hórus -- um homem com a cabeça em forma de falcão.
O 'plendor era extraordinário -- tesouros se amontoavam para onde quer que os olhos se dirigissem.
-- Onde 'tá o sarcófago?--
perguntou o egiptólogo voltando à realidade.
Todos se entreolharam -- sarcófago?
Haviam descoberto os tesouros de um faraó e o velho senil preocupado com um sarcófago?
-- Professor Albert -- disse o assistente -- talvez não haja sarcófago.
-- Não diga bobagens, Max!
Se isto é um túmulo, tem que haver então um sarcófago -- disse, enquanto caminhava em direção ao fundo da tumba, alheio a dezenas de arcas repletas de ouro e jóias, que de tão abarrotadas, algumas peças haviam caído no chão, fazendo o velho professor, por mais cuidado que tivesse, caminhar sobre pérolas e colares.
-- Meu Deus, olhe 'sas inscrições, Max!
O jovem assistente relutou em desviar sua atenção dos enormes vasos de alabastro que em sua parte superior apresentavam jóias recobertas de diamantes.
-- Max, olhe isso aqui -- continuou o professor.
Os olhos do assistente encontraram então as paredes apontadas por o professor.
-- O que tem de 'pecial 'ses desenhos, professor?--
perguntou enquanto sua atenção voltava para os vasos de alabastro.
-- As pragas do Egito ...--
continuou o velho olhando fixamente para os desenhos.
Mas quem as produz usa as mesmas vestes que um faraó!
Max, isso é surpreendente!
A atenção do assistente voltara-se para o egiptólogo.
-- Como assim, professor?
As pragas do Egito não foram, segundo a Bíblia, enviadas por Moisés?
-- Sim, isto mesmo, mas aqui as inscrições mostram o faraó mandando as mesmas pragas enviadas por Moisés.
Isto comprova ...
-- Professor, olha aqui uma alavanca!
Parte das inscrições que recobriam a parede havia desmoronado por a ação do tempo, deixando parcialmente visível uma alavanca, outrora oculta.
-- O sarcófago deve 'tar aqui em algum lugar atrás de 'tas inscrições -- ajude-me com a alavanca, Max!
-- Está emperrada, Professor!
Uma parte da parede recuou alguns centímetros.
-- Veja, a parede se moveu!
Com o 'forço de Max e dos nativos, ombreando a parede, 'ta cedeu vagarosamente, deixando visível uma câmara secreta.
-- Céus!
O ataúde de Amenófis IV -- exclamou fascinado o ancião.
-- Totalmente de ouro, Professor!
A câmara secreta era um semicírculo, cujas paredes cobertas de inscrições desconhecidas, possuía em seu centro um sarcófago dourado ostentando em sua parte superior uma águia bicéfala de lápis-lazúli.
-- Olhe isso aqui, Max -- disse o Professor, indicando o desenho em relevo sobre o sarcófago.
-- É 'tranho, professor, nunca vi uma representação egípcia com um falcão de duas cabeças!
-- Não, Max ...--
o Professor 'tava visivelmente excitado -- não é um falcão ...
* * * -- O que o senhor 'tá dizendo?--
perguntou surpreso o assistente.
-- Isto aqui não é um falcão, é uma águia bicéfala, ou melhor, é uma fênix, um tipo muito 'pecial de águia, segundo a mitologia ...
-- Aquela que renasce das cinzas!
-- Isso mesmo, Max, agora também não é um símbolo egípcio, é sumério.
-- Sumério? ...
Mas o que um símbolo sumério 'taria fazendo num sarcófago egípcio?
-- Max -- a voz do velho egiptólogo saía com dificuldade, e tomado por a emoção ele continuou: --
talvez 'tejamos nos deparando ao abrir 'te sarcófago com um dos mais terríveis segredos já revelados ao homem, que acreditávamos 'tivesse perdido na noite dos tempos.
Eu tenho medo, Max, que a humanidade não 'teja preparada para ter acesso ao que possa 'tar aí dentro!
-- Professor -- os olhos do jovem assistente brilhavam -- eu 'tou mais curioso do que assustado.
O que pode haver de tão terrível assim, para assustá-lo dentro de um sarcófago de mais de quatro mil anos?
-- Meu jovem -- disse o ancião -- você já deve ter ouvido falar do incêndio da famosa biblioteca de Alexandria, não?
-- Sim, foi uma 'tupidez praticada por um fanático califa árabe que achava que 'taria livrando o mundo do mal, destruindo todo o conhecimento do mundo antigo guardado naquela biblioteca.
-- Nem tudo foi destruído, meu jovem, nem tudo.
O incêndio da famosa biblioteca foi em 646 de nossa era.
Júlio César, quando seduzido por os encantos de Cleópatra, 'teve no Egito em 48 a.C. retirando algumas peças da biblioteca de Alexandria e levando com si para Roma.
A grande maioria do acervo encontra-se nos arquivos secretos do Vaticano, herdeiro natural do Império Romano, porém, durante o ataque a Roma, ocorrido em 1527, por tropas alemãs, sob o comando de Carlos V, algumas de 'sas obras acabaram sendo vendidas a inescrupulosos comerciantes venezianos, indo por fim parar no Museu de Londres -- obras perturbadoras, cujo acesso só é permitido a um seleto grupo de pesquisadores ligados à Coroa Britânica.
-- O senhor é um de eles?--
perguntou fascinado o jovem.
-- Sim, Max, eu sou um dos que tiveram acesso a 'tas obras.
-- Mas o que é que elas dizem, professor?
O jovem não conseguia se conter.
-- De entre elas há um pergaminho muito antigo levado para Alexandria por Alexandre o Grande, quando da conquista da Judéia, provavelmente tomado de antigas seitas secretas judaicas.
Pois bem, 'se pergaminho nos revela a existência de uma cidade muito, mas muito antiga.
-- De os primórdios da civilização?
-- Sim, mas não das civilizações que nós conhecemos, originárias do crescente fértil e do delta do Nilo.
Uma civilização ainda mais antiga, até mesmo pré-diluviana, a cidade de Lagahs, segundo o pergaminho a cidade do pecado.
-- Cidade do pecado?
Como assim, professor?
-- Esta cidade, segundo o pergaminho, seria a própria causa do dilúvio.
Provavelmente você jamais encontrará isso na enciclopédia britânica, pois não há mais do que dez pessoas no mundo que sabem alguma coisa sobre 'sa cidade, mas deixe-me continuar: --
segundo o pergaminho, e aqui vamos encontrar algumas coisas em paralelo com a Bíblia, os filhos de Deus (anjos) foram seduzidos por as filhas dos homens (mulheres) e de 'sa união nasceram homens extremamente poderosos que oprimiam e 'cravizavam os povos de então.
Seu poder não era decorrente da enorme força física, mas dos conhecimentos secretos revelados por seus magníficos pais.
Tal era a depravação desses homens, que fundaram a cidade de Lagahs, e a partir de ela subjugaram todo o mundo antigo.
Com isso Deus castigou-os com o dilúvio para aniquilar a maldade na Terra.
Sobrevivendo apenas Noé e sua família para repovoá-la, relata-nos porém o pergaminho que Ninrode, neto de Cão, um dos filhos de Noé, ao fazer 'cavações para fundar uma nova cidade entre os rios Tigre e Eufrates, local onde ficava a antiga cidade de Lagahs, encontrou um livro -- não um livro qualquer, mas um livro de ouro -- o Livro de Ouro de Lagahs, como ficou conhecido.
De posse desse livro sua mente teve acesso aos mistérios ocultos da magia, de tal forma que Ninrode acabou expulso da cidade que fundara, em razão da maldade que o dominou, refugiando-se então no Egito.
Protegido por o faraó, deu origem a uma dinastia de magos, cujo poder assombrava a todos.
-- Janes e Jambres, os magos do Egito que, sob as ordens do faraó resistiram a Moisés!
-- Sim, Max.
Esses magos foram seus descendentes, até que acumulando tantos poderes místicos e fortalecendo-se de maneira 'pantosa, eles acabaram destronando e matando o próprio faraó, usurpando-lho trono do Egito, que acabou sendo ocupado por um dos mais destacados magos da Dinastia de Ninrode.
-- Amenófis IV!--
o jovem 'tava em êxtase.
-- Isto mesmo, Max -- sorriu o velho.
-- E o livro?--
os olhos de ambos pousaram sobre o sarcófago.
* * * Este livro pode ser adquirido na livraria Cultura:
www.livrariacultura.com.br
Número de frases: 99
Poucas cidades do Estado de São Paulo têm salas de cinema públicas.
E Assis, a cerca de 440 quilômetros centro-oeste da capital, é um desses municípios privilegiados.
Isso graças à reforma do antigo Cine Pedutti (construído nos anos 60 e que ficou desativado durante a crise que assolou a área em cidades menores), feita por a Fundação Assisense de Cultura (FAC).
A cidade possui mais um cinema comercial.
De lá para cá, a sala, com 620 lugares (maior que muitas salas comerciais por aí), tem transformado o panorama cultural da cidade, dando prioridade à exibição de filmes de arte e nacionais.
«Nossa idéia é trabalhar o cinema como cultura e não apenas como entretenimento», diz Juliana Batista Brito, 28 anos, coordenadora do cinema municipal.
O projeto Cinema FAC, como foi batizado, faz mostras temáticas durante o ano e, com isso, tem conseguido ampliar seu público, envolver entidades, ONGs e até virar referência na região, atraindo 'tudantes de cidades próximas.
«Desde que assumi a coordenação, em abril deste ano, consegui praticamente triplicar o número de freqüentadores do local.
Tudo devido ao fato de sempre fechar seis filmes e divulgá-los através de cartazes e panfletos, assim as pessoas podem se programar."
explica.
Também rolam debates e mostras temáticas de países e diretores, como produções italianas, iranianas e do Mix Brasil (com temática sobre a sexualidade), entre outros, já passaram por Assis.
«Estamos vendo a possibilidade de trazer no início do ano que vem um festival de curtas-metragens também."
A sala «abre exceções» com filmes comerciais, mas por boas causas.
Em o Dia das Crianças, exibiu o desenho animado Os Sem Floresta para crianças de todas as 'colas da cidade.
«Conseguimos trazer quase mil crianças em três dias de exibição», comemora» Juliana.
«É muito difícil formar 'se público e mantê-lo.
Cinema é caro.
Tratamos o cinema como um direito, o direito de acesso à cultura."
O projeto recebe visitas de moradores de cidades vizinhas.
Crianças de uma 'cola de Tarumã conheceram a sala de projeção e como tudo funciona.
«Muitas de elas nunca assistiram a um filme no cinema», diz Juliana.
Um dos principais problemas para se manter uma sala pública é o custo dos filmes.
Com preço do ingresso a R$ 4,00, sendo que 'tudantes pagam meia, a arrecadação da bilheteria do Cinema FAC -- ainda mais se tratando de filmes não-comerciais -- nem sempre cobre tudo.
«Alguns filmes têm um preço fixo para serem exibidos, mas muitas distribuidoras apóiam nosso projeto e aceitam receber metade da bilheteria que fizermos, assim ninguém sai no prejuízo».
Paixão -- Juliana, que acaba de se formar em jornalismo, já fez cursos de produção, direção e roteiro para cinema com o cineasta Walter Webb, além de um curso de videodocumentário.
Em o Cinema FAC, é responsável por quase tudo.
De os contatos com as distribuidoras até a montagem do projeto e a exibição em si.
«Temos um projetor de 1939 que foi restaurado e sou eu quem opera», conta.
Existe um projeto para a compra de um projetor novo.
Em o final de 2002, fez um documentário de 15 minutos, Aumbhandan, sobre a umbanda, no qual visitou terreiros da religião afro em Assis.
O trabalho foi premiado num festival em Assis e participou de outros, inclusive na França.
Mesmo assim, acha que poderia ter feito melhor.
«Em a época eu ainda não tinha uma noção de edição e montagem do vídeo, isso eu aprendi durante o tempo em que fiz 'tágio na TV universitária de onde 'tudo.
Hoje acho que faria totalmente diferente."
Serviço:
Projeto Cinema FAC
Rua Brasil, 15, Assis -- SP
Telefone (18) 3224-2605
e-mail: cinemafac@gmail.com
flog com a programação: www.flogao.com.br/cinemafac
Número de frases: 40
O ano era 1999.
Em um bar de Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, artistas e militantes culturais e sindicais reuniram-se para um pequeno sarau, com números musicais e leitura de poesias.
O dia era 1º de maio.
Dia do Trabalhador.
E 'se grupo saiu de lá com a revolução planejada.
Não era uma revolução por meio de fuzis.
Pelo menos num primeiro momento.
Mas sim por meio da palavra, da arte e da cultura.
Em todas as suas formas.
Estava ali criado o embrião do que, um ano depois, virou o Sarau Tribo das Artes:
realizado mensalmente há 5 anos, exceto em janeiro e fevereiro, sempre na primeira terça-feira do mês, é um 'paço aberto para qualquer linguagem artística.
Seja artes plásticas, artesanato, lançamento de livros, poesia, artes cênicas, exibição de curtas-metragens, música, fotografia ou entrevista.
Em o democrático palco do Cantoria MPBar, na Praça do DI, todos têm voz e têm vez.
Até quem não é artista.
«Todo mundo pode participar», afirma o poeta Carlos Augusto Cacá, um dos organizadores.
«Nós distribuímos uma ficha para o público, perguntando que relação quer manter com o sarau:
apresentar-se, colaborar na organização, 'crever e desenhar para a revista Tribo das Artes ou simplesmente ser avisado do evento».
Depois, os organizadores se reúnem, avaliam e discutem as idéias para novas apresentações e selecionam o que consideram adequado para o sarau.
«Desejamos acabar com as injustiças sociais e toda 'pécie de opressão.
Então descartamos propostas que atentem contra isso ou revelem conteúdo preconceituoso.
Não pensamos que toda arte tem que falar de política.
Mas mantemos postura crítica diante de cada obra.
Temos um manifesto e um texto sobre política cultural para os trabalhadores que nos servem de referência, e isso influência no conteúdo dos saraus e da revista Tribo das Artes», afirma Cacá.
A revista Tribo das Artes, aliás, é a primeira cria que extrapola os limites das mesas do Cantoria MPBar.
Com tiragem de 7 mil exemplares e distribuição gratuita, sua edição é regida por os mesmos princípios que norteiam o sarau.
Há ainda uma mostra fotográfica itinerante retratando grande parte dos artistas que passaram por lá.
Realizada com o apoio do Fundo de Amparo à Cultura, o FAC, a exposição já circulou por alguns lugares.
Mas a meta é levá-la a todos os 'paços possíveis.
E fazer lançamentos com recitais de poesia e debates, para aproveitar a oportunidade e propor a organização de saraus semelhantes em diferentes comunidades.
O grupo Radicais Livres já realiza na cidade de São Sebastião um evento nos mesmos moldes.
Mas vem mais por aí.
Em breve, também com recursos do FAC, será lançado um livro de fotografias comemorando os cinco anos do sarau.
E há em curso projetos de captação de verbas para uma coletânea de poetas do DF e para a gravação de um CD com os intérpretes de poesia e músicos mais assíduos do evento.
Com exceção do apoio do FAC, todos os projetos da Tribo das Artes são realizados sem verbas públicas ou apoio de empresários.
Para Cacá, isso confere maior liberdade artística ao trabalho do grupo:
«Inventamos isso tudo porque queríamos mostrar nossa arte, difundir nossas críticas às políticas públicas de cultura e valorizar a produção cultural popular.
Mostrar que é possível produzir e debater cultura sem apoio do Estado ou de patrocinadores é nossa maior vitória.
Assim, 'tamos livres de compromissos com governantes ou de interesses comerciais e podemos nos manifestar com maior independência».
Calcada em bases políticas de liberdade e igualdade social, mas longe de ser panfletária, a Tribo das Artes é certamente a realização de um sonho.
Ou talvez apenas o começo de uma revolução que pretende extrapolar as fronteiras artísticas.
«Assim como realizamos nossos pequenos sonhos depois de inúmeras tentativas, também vamos realizar os médios e grandes:
um dia levaremos nossa arte a todo o país e um dia acabaremos com a exploração», acredita.
Não é o caso de ser simplista e querer reduzir o trabalho a apenas uma frase.
Mas o próprio Cacá disse algo que, creio, explica muito bem a filosofia que norteia todas as realizações ao longo desses cinco anos.
Com a palavra, o poeta:
«Se há algo que torna o movimento Tribo das Artes importante é o fato de acreditar que somente o público pode ter autoridade para calar o artista».
Palmas para eles.
Contato:
Número de frases: 48
caca@conectanet.com.br O II Festival Varadouro iniciou no dia 20/10.
Cheguei na madrugada do mesmo dia e sem ainda ter me adaptado ao fuso-horário de duas horas já fomos até a rádio do Governo do Estado.
Essa rádio tem ótimas programações.
Tivemos a oportunidade de 'cutar Superguides, The Smiths, Joy Division e muitas outras bandas legais.
Gostei muito da iniciativa e da 'trutura do 'túdio de rádio e televisão.
Sei que 'te projeto talvez não seja novidade para outras cidades, mas adoraria se já tivesse uma de 'sas em Macapá.
Concedemos uma entrevista à rádio.
Quem falou foi o Fernando Rosa da Senhor F de Brasília, o cartunista Pedro Luna do Rio de Janeiro e eu (Paulo Zab rs).
A idéia era fazer um balanço parcial do Festival Varadouro e do avanço da música independente na Amazônia.
Fernando falou de sua coletânea que reunirá bandas da Amazônia, Pedro falou de sua produção no Rio (de Janeiro) e seu Araribóia Zine (do Movimento Araribóia Rock) e eu falei da cena no Amapá e do exemplo que o Festival Varadouro 'tava dando para a região.
Conversamos coletivamente para falar de música de forma descontraída.
Em os intervalos o apresentador e baterista da Los Porongas, Jorge Anzol, nos mostrou fotos memoráveis do Rock na cidade.
Muito legal.
à tarde tivemos a discussão sobre A política da Nova Música Brasileira, mediada por Daniel Zen (Catraia Records) e teve como debatedores Fabrício Nobre, Presidente da Abrafin;
Pablo Capilé, articulador do Circuito Fora do Eixo;
Fernando Rosa, da Senhor F, Assis Pereira, presidente da fundação 'tadual de cultura e o Vereador de Rio Branco, Marcio Batista.
As falas foram no sentido de fazer um balanço positivo da cena independente no Brasil.
O Representante da Fundação de Apoio a Cultura, do Estado manifestou sua satisfação com o festival e sua importância no processo de valorização cultural da região Norte, além de ter se comprometido com mais quatro anos de Festival devido à vitória do atual Governo nas Eleições.
Olha que vamos cobrar, hein tio?
à noite o pau começou a comer.
A organização 'colheu casa de shows Mamão Café para as apresentações.
A 'trutura do 'paço deu um clima muito bom ao ambiente e sua equipe não pecou.
Dois palcos, o Cachoeira e o Bom Destino, se intercalaram para as apresentações dos dois dias sem deixar os ouvidos 'friarem.
Quem abriu foi a Banda Gogó de Sola (AC) uma apresentação que junta elementos do Rock com a leveza da música Amazônia.
A cantora Kelen Mendes, que já formou várias bandas no Acre, fez o vocal.
A segunda atração da noite também era do Acre.
Mamelucos fizeram uma ótima apresentação.
Eles realmente têm uma boa aceitação na cidade e a participação da lenda da cena Rock do Norte, Pia Vila, foi muito empolgante.
A galera pirou o cabeção e 'te foi um dos momentos fortes do festival.
A Banda Ultimato (RO) também fez uma boa apresentação e sua influência de Rage Against The Machine concede à banda um caráter bastante performático no palco e um vocal destacado.
Nicles, outra banda da casa, foi uma das que mais me surpreendeu.
Boas músicas acompanhadas por uma galera de pulantes e cantantes rs.
Bastante original.
A apresentação do Coletivo Radio Cipó (PA) não poderia ser diferente.
Eles vêm se destacando há tempos no meio independente e seu disco é bem comentado.
Depois foi hora de curtir um lance meio assim ...
Sem vocal, saca?
Macaco Bong (MT) rodou muito 'se ano.
Apresentaram-se em pelo menos 8 festivais.
Acredito que foi uma das bandas que mais se destacou.
Dá pra ver na hora da apresentação de eles o público se agitar como se deve.
Um showzão que alegra até quem 'cuta pela primeira vez.
Parabéns mais uma vez.
Deixei de ser admirador e passei a ser fã.
Camundogs é a banda acreana que, depois de Los Porongas, mais rodou 'se ano.
Já se apresentou em Festivais importantes no país e mostra que o Estado ainda tem muitos reservas culturais e bons músicos pra mostrar para Brasil.
A seqüência do dia foi fechada com Moptop (RJ).
Estava meio sem condições de avaliar a banda, mas deu pra ver que fizeram jus em fechar o primeiro dia do Festival.
Acredito que a evolução do Circuito Fora do Eixo tem permitido que bandas do outro lado do país toquem no Acre mostrando que a cena 'tá mais articulada.
Isso é bom para o fomento de Estados e meios sociais mais distantes dos grandes centros.
Em o dia 21 à tarde, no invejável 'paço da Usina de Artes João Donato, teve a apresentação Jornal Varadouro, que foi fundado em 1977 e tem seu histórico de lutas marcado por o conflito na região por a defesa da terra e da natureza.
O Jornal fechou em 1981, mas manteve seu grito presente na sociedade e em figuras como Chico Mendes.
Vimos também o vídeo que fala da historia do próprio festival, com cobertura das apresentações no Guerrilha Rock que juntou bandas do Acre e de Rondônia.
Depois sobre o I Festival Varadouro.
Deu pra ver a evolução que o Festival teve desde sua edição passada, os convidados, que antes não chegavam a dez, passaram para quase setenta 'te ano.
Depois foi aberta a mesa Usina Varadouro, arte em formação que teve como expositores da cena do Norte Marcelo Damaso (PA), Paulo Zab (AP), Wander Loghi (RR), Paulo Lins (AM), Daniel Zen (AC), Vinicius Lemos (RO) e Gustavo Andrade (Te o).
Cada um falou de seu Estado e suas dificuldades de integração.
Rolou até uma proposta de fazer um Woodstock na Amazônia.
A galera não levou muito a sério, mas quem sabe um dia amigo?
rs. Após a exposição tivemos como debatedores Fabrício Nobre (Abrafin;
Monstro Discos; MQN), Pablo Capilé (Espaço Cubo), Fernando Rosa (Senhor F) e Gustavo Sá (Porão do Rock).
Eles deram boas propostas para o crescimento da cena através de suas experiências e prestaram apoio para ajudar a superar as nossas dificuldades coletivamente.
à noite, no Mamão Café, o palco já 'tava pegando fogo quando chegamos.
Auttreyd (AC) mostrou que o público que gosta de peso 'tá em toda a parte e os decibéis que a natureza produz não são suficientes para satisfazer os 'píritos famintos do Death, Doom e Black Metal.
Fire Angel (AC) é uma banda muito boa de Metal, o desempenho agradou.
O vocal é muito bom e o visual da banda condiz com a proposta.
Não possui aquele problema de boa parte das bandas do 'tilo que de tanto aparato acabam ficando engraçadas ou toscas.
Tenho certeza que todos que curtem Angra, Shaman e Stratovarious iriam adorar 'sa.
Parabéns.
A atração vinda de Manaus também fez ótima apresentação.
Mezatrio mostrou que 'tá em contínuo processo de crescimento.
O ponto auto da apresentação foi no momento da música Despacho, contida no single da banda, que foi cantada por várias pessoas.
Álamo Kário (AC) reafirmou sua boa aceitação do público e mostrou que as misturas nordestinas também 'tão presentes na música independente acreana.
Outra banda que vem agradando é Porcas Borboletas (MG) que com uma apresentação teatral e musicalmente precisa.
Gosto de ver o conjunto de instrumentos e dos trechos como «é melhor dizer, amor acabou a cerveja ...».
Depois foi hora de curtir a 'perada MQN (GO), ainda não havia assistido ao vivo e constatei que eles são tão bons quando no 'túdio.
Gostei da atitude da banda e dos recadinhos toscados.
I listened what you said and I know you are wrong ...
Los Porongas é a banda independente que mais vende Cd em Cuiabá.
Isso significa que já 'tão em processo muito satisfatório de sucesso, pois sendo uma banda realmente muito firme, deve ainda trazer muita alegria para o Estado do Acre e para as pessoas que acreditam na música amazônica.
Sua apresentação foi cantada por a galera presente e eu me senti feliz de ter presenciado 'te momento.
Walverdes (RS) fizeram um grande show e deixaram o festival com aquele gosto de saudade.
Outra prova importante do intercâmbio cultural no meio independente.
Depois da festa / trabalho chegou a hora de voltar para o hotel e começar as atividades de retorno.
O domingo ficou livre para conhecer a cidade, participar de um churrasco e reunir com o pessoal do Circuito.
Infelizmente não deu pra ir até a Bolívia ou participar de uma sessão de Daime, mas a cidade de Rio Branco me ensinou que eu 'tava errado em muitas coisas.
De a visão política principalmente.
O povo tem consciência e identidades bem definidas.
Imagino que deve ter impressionado muito mais as pessoas que não são do Norte.
Quero mais uma vez dar os parabéns a organização do Festival e dizer que 'se foi um marco para a cena independente do Norte.
Número de frases: 90
O movimento provocado na cidade para o Festival vai fazer com que muitas bandas novas e atividades por o entorno da música cresça e o próximo Festival Varadouro será muito aguardado.
A primeira vez que ouvi Sgt.
Pepper ` s inteiro foi na manhã de Natal de 2003.
Eu 'tava dentro do carro do meu pai, na casa de meus avós.
A partir daquele dia, toda vez que ouço 'se disquinho que acaba de completar quarenta anos sinto o incômodo próprio das obras desafiadoras.
Como um caleidoscópio -- não há comparação melhor -- as formas e cores abundantes são resultado da improvável mistura entre barroco, rock e circo.
Arrisco dizer que as minhas «portas da percepção» deram sinais de abertura lenta e gradual bem ali.
O álbum pode até ser o mais celebrado por a crítica, mas, curiosamente, não é o que percebo entre os beatlemaníacos.
Quase todos eles reconhecem a sua importância, juram que amam todas as treze faixas, mas na hora «H» se afeiçoam a qualquer outro disco.
Eu me incluo em 'sa história.
Sou mais o Abbey Road e seu lado b impecável.
Esse fenômeno de «rejeição» do Sgt.
Pepper ´ s, e bote aspas nisso, acontece por dois fatores.
Primeiro porque os fãs parecem não querer reiterar o discurso massacrado de que o álbum de 1967 é o melhor.
Segundo, mas não menos importante, é o fato da banda do Sargento Pimenta ser um tanto quanto eloqüente, pretensiosa e, portanto, menos simpática.
Os argumentos são bobos, afinal, ser eloqüente e pretensioso às vezes faz muito bem, mas eles aquecem o debate entre fãs.
Vira aquela discussão que não leva a lugar algum.
Sgt.
Pepper ´ s é choque, descoberta de novos caminhos.
Todos os fãs sabem disso e, assim como eu, o associa a um momento 'pecial da vida.
A celebração de seus quarenta anos mostra o frescor do álbum e é 'sencial para que mais garotos como eu -- então com dezesseis anos em 2003 -- se deslumbrem, se emocionem e sintam 'se incômodo saudável que, convenhamos, não há paralelo hoje em dia.
Leia mais em www.falavitrola.blogspot.com e concorra ao Sgt.
Número de frases: 22
Pepper's Depois dos grooves com banda completa de De a pegada primitiva à pulsação urbana, o cantor e compositor Cileno passou seis meses quieto num canto de casa até despir arranjos de novas canções à simplicidade de um violão.
Com Ando meio desplugado, que será lançado em 'te mês, o artista chega ao oitavo disco da carreira, se confirmando como um dos músicos mais prolíficos da MBP amazonense, um território pleno de idéias, mas parco de recursos.
De os 25 anos de carreira, completados no fim do ano passado, Cileno só começou a gravar depois de 10 anos de 'trada.
Desde então, vem lançando em média um CD a cada dois anos, sempre de maneira totalmente independente.
«O retorno é legal.
Não ganho muito, mas tenho total controle sobre tudo o que gasto e o que ganho», afirma.
Por outro lado, sem contrato de distribuição, seu trabalho fica praticamente restrito ao território amazonense -- manauara, para ser mais preciso, cercado de um verde tão denso que não aparece aos holofotes da indústria cultural brasileira.
Por aqui, entretanto, a história é diferente.
Cileno é um caso bastante peculiar no mercado musical de Manaus.
Suas músicas tocam nas rádios locais com uma certa freqüência -- sem jabá, ele garante -- e suas apresentações conseguem reunir tanto o público mais velho quanto os novos fãs que ele continua a conquistar.
«Eu tenho a constante preocupação em me reciclar», explica ...
Mas não é só isso.
O «Negão», como é conhecido no meio artístico, é um dos poucos a viver exclusivamente da música:
produz eventos, divide seu tempo entre as duas bandas que mantém -- uma de MPB e outra de reggae, toca tanto no Teatro Amazonas quanto em bares como o Coração Blue (casa noturna bastante popular de Manaus) e o A o Mirante (mais underground) e 'tá sempre em contato com os novos grupos da cidade, principalmente os do movimento reggaeiro, firmando parcerias e dividindo palcos.
Essa capacidade gregária, aliada à liberdade com que conduz seu trabalho -- recusando-se a ficar preso a um determinado formato, além de mantê-lo em evidência no meio musical, também se reflete em sua variada discografia.
Ando meio desplugado, pois, é um claro exemplo disso.
Inéditas e revisitadas
Depois de trabalhar, no ano passado, um disco que direcionava a sonoridade para o funk e o samba-rock (De a pegada primitiva à pulsação urbana), Cileno tirou um tempo para compor, e no decorrer desse processo -- que de acordo com o artista durou seis meses aproximadamente -- percebeu que a maioria das músicas se adaptava a arranjos bem mais simples, com um ou dois violões no máximo e alguns toques de percussão.
Depois da 'colha do repertório, a gravação durou apenas uma semana.
Chamou alguns amigos para participar e a trupe enxuta registrou 11 faixas (sete inéditas), tudo ao vivo, aproveitando o som vazado entre microfones na acústica do pequeno e aconchegante 'túdio do produtor Mauro Drummond.
Ando meio desplugado ainda vem com uma canção tirada do CD do último Festival de Música do Sesc, no qual Cileno ficara entre os 10 finalistas.
Vibe Zona Sul saiu do lado reggaeiro do Negão, ganhou duas versões no CD -- a acústica e a tal da compilada (com banda cheia) -- e foi logo 'colhida como a primeira música de trabalho.
Os fãs da faceta mais baladeira do cantor também vão poder conferir novos arranjos para composições mais antigas, como Língua de beija-flor, Garota de Brasília e www.
iloveyou -- um expediente de revisita que já foi a tônica de outro álbum de Cileno, Dialética, gravado durante uma curta passagem do artista por o Rio de Janeiro, em 2003.
Ainda 'te ano, o músico pretende gravar um DVD do novo disco que seria o primeiro de sua carreira, a partir dos shows de divulgação que se iniciam em 'te mês.
O show de lançamento do CD, entretanto, que será realizado no Teatro Amazonas, ainda não tem data definida.
Referência
Coincidências ... Durante a infância, Cileno divertia seus colegas de 'cola cantando e imitando a performance de Tony Tornado com a música Br-3.
Mais tarde, o jovem se formaria Técnico em Estradas por a Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM), mas se criaria mesmo como crooner em banda de baile na noite manauara a partir de 1979.
Paralelo a 'se trabalho -- que garantia o retorno financeiro -- Cileno montou a banda Transcendental, para dar vazão às próprias composições e participar de festivais.
O reconhecimento veio logo:
suas constantes participações no Festival de Música do Parque Dez (um evento que durante os anos 80 foi responsável por o lançamento de muita gente nova não apenas da MPB, mas do rock e do punk amazonenses) renderam-lhe uma participação na coletânea Nossa música, vinil duplo de 1983, com a música Feira hippie, considerada o primeiro reggae gravado no Amazonas.
O reggae, aliás, sempre 'teve presente pontuando alguns momentos de sua carreira, intercalando as incursões de Cileno por as várias vertentes da música popular.
Mais recentemente, a partir de 2003, ele foi um dos responsáveis -- ao lado de bandas como Deskarados, Johnny Jack Mesclado e Casulo -- por o boom de popularidade por que o gênero vem passando até hoje no Estado.
Número de frases: 34
Cia..
Pierrot Lunar coloca 'pectadores em situações nada confortáveis com a peça «Atrás dos olhos das meninas sérias», gerando ácidas reflexões sobre temas existenciais como a felicidade e o sofrimento
Um lugar pequeno.
Cerca de 80 pessoas em meio à 'curidão.
Uns sentados em cadeiras, outros acomodados em almofadas 'palhadas por o chão.
Em o centro -- enquanto uma sonoplastia minimalista simula o gotejar de algo, que repetidamente cai em forma de angústia na cabeça dos presentes, uma mulher se põe a falar.
Não vagamente.
Todo aquele ódio e ironia de Ana (Neise Neves) são direcionados, vomitados para um homem da platéia:
«Sangue pingando no copo pra você beber.
Bebe um pouquinho, bebe.
Bebe tudo.
Isso». O sujeito acha que se trata de mais uma peça de comédia, finge 'tar bebendo o líquido num copo imaginário, enquanto sorri para a atriz.
É surpreendido com um indicador na cara e muitos gritos:
«Toma tudo.
Tudo, porra!
Quem aqui tá brincando, hein?
Quem aqui tá sorrindo?
Eu não 'tou sorrindo».
O homem, extremamente encabulado e sem jeito, se torna alvo de todos os olhares.
A platéia fica apreensiva, talvez por medo de não saberem quem seriam os próximos a participarem do ritual catártico.
Vivendo desejos suicidas, sexuais e / ou homicidas.
Vivendo a crueza da vida, sem máscaras.
É assim que você se sente ao sair de um lugar pequeno, como cerca de 80 pessoas em meio à 'curidão, com uma mulher descontrolada, louca, gritando compulsivamente tudo aquilo que guardou para si durante anos de um casamento despedaçado.
É sobre mudanças, sobre gente e as várias formas de ser gente-mudada que trata a peça Atrás dos olhos das meninas sérias, da Cia..
Pierrot Lunar. A linha-mestra da peça -- adaptação do premiado romance Falar, do dramaturgo Edmundo de Novaes Gomes -- é uma tentativa de retratação da vida de Ana, mulher obsessiva que seqüestra seu ex-marido (Léo Quintão) e faz de um casebre no sertão o seu cativeiro.
É lá, longe da conturbada vida urbana, que a mulher 'colhe as formas mais apropriadas e satisfatórias para se comer o frio prato da vingança.
Torturas psicológicas e agressões físicas são as entradas principais da trama.
«A vida é mesmo 'sa.
Quando você quer, não querem te dar.
Quando você dá, não querem receber.
Todo mundo olhando ao contrário.
É como se fosse uma navalha de cinema.
Fake. Você passa em seu pulso e ela não corta.
Você se arrepender e ela já sangrou tanto em sua imaginação que você já 'tá morrendo», desabafa Ana com algum «sortudo» da platéia.
Além de 'sa incursão dialógica com as propostas subversivas do dramaturgo alemão Bertold Brecht -- fazendo com que o público se envolva, como se toda a história ali contada fosse uma analogia de suas próprias vidas, representadas, expostas, que numa só navalhada falso-verdadeira pulso a fora do 'pectador faz jorrar toda a sangria imaginária, um dos méritos do diretor Juarez Dias é conseguir representar diversos universos físicos e abstratos através do uso de somente dois atores.
Quintão, por exemplo, é um ator que de forma geral faz o papel do marido de Ana, mas que em alguns momentos se transforma na personificação da própria Ana torturando o ex-marido ou até mesmo a metaforização de toda a confusão mental de 'sa mulher.
Em geral os atores contracenam momentos passados da vida dos personagens -- quando se conhecem na faculdade, na primeira viagem juntos para praia, entre outras coisas.
Mas quando se trata das partes mais agudas da obra, em que Ana tortura o marido, é o público que prepara o rosto para a hora do soco.
A mobilidade dos atores se dá de forma muito instigante.
Em alguns casos, Léo Quintão é Gurgel, uma 'pécie de personificação da pulsão de morte de Ana -- em forma de alucinação humanizada ou fantasmagorizada, convencendo e arquitetando junto com 'sa o seqüestro do ex-marido, também interpretado por Quintão.
É notável, por exemplo, a resposta de Gurgel ao ser questionado por Ana -- em meio a um grande conflito existencial -- sobre como é morrer:
«Vai te foder no útero, sua piranha.
Me chamou pra perguntar como é do outro lado?
Pra mim é uma merda, uma merda total.
Falta de tudo:
cerveja Brahma, cigarro Hollywood, revista de sacanagem.
Pra cada um é de um jeito, igual 'sa bosta daqui.
Não tem diferença, não tem explicação, só existe miséria.
Deus, sua puta, também não tem.
A gente inventou, mas não tem.
Igual revista de sacanagem, Brahma e Hollywood.
A gente inventou, mas não tem, porra!
Esgotou». Gurgel é a metáfora que grita, atormenta, elucida, pedindo a Ana que o libere, o satisfaça -- seja através do suicídio ou do assassinato do ex-marido.
Em outros casos, o ator encarna o papel da própria Ana -- com os trejeitos, hábitos e feminilidade da mesma -- torturando o ex-marido, cena que sugere o quão confusa e imersa em loucura ela 'tava.
A platéia volta ao processo catártico, mas de 'sa vez o algoz é Quintão no papel de Ana:
«A Elisa, aquela puta, aquela vagaba!
Eu tenho que lembrar disso outra hora pra você lembrar também, seu idiota, pra que você se recorde que você já meteu naquela piranha.
Não é mesmo?
Você não meteu naquela preá?
Agora eu vou meter nocê, vou te foder com 'se pedação de pau cheio de ferpa, seu veado, as ferpinhas entrando assim no seu rabo.
Tá doendo?
Tá doendo muito?
Não morre agora não que eu tenho que falar.
Não morre não, seu merda.
E pára de cagar, porque senão vai ter que comer bosta de novo», ameaça verbalmente o ex-marido (leia-se alguém da platéia) por tê-la traído com Elisa.
Essa flexibilidade nas atuações também se dá com a atriz Neise Neves, que em dados momentos deixa a carcaça de Ana para se tornar Nê -- a filha do caseiro da casa de praia onde Ana passava férias com o então marido.
Em 'se exato instante da peça, nas palavras do próprio marido, é extraordinário perceber como um tema-tabu foi trabalhado de forma tão simplória, humana, gerando um clima extremamente obscuro de desconforto: " ( ...)
Nós só vimos mesmo quando o Noca desceu com sua filhinha neguinha.
O bibelô mulatim que devia ter seus nove aninhos.
A gente fingindo ver a paisagem.
Mas nós só vimos muito bem quando ele sentou atrás de uma pedra assim e tirou a calcinha da Nê.
Depois, o Noca tirou o pau pra fora e foi ajeitando, a menina mexendo, o pinto entrando.
O pinto do Noca entrando na bundinha da filhinha de ele e a gente não podendo ver mais nada, a gente não podendo ver mais nada, a gente querendo ver tudo aquilo.
O silêncio, meu bem, é algo triste como a chuvinha que começou a cair naquela hora ( ...)».
Outro grande momento nas interpretações se dá quando Neise Neves coloca um óculos de grau e se transforma em Marcinha -- amiga supostamente careta e reprimida de Ana, mas que se revela uma sedenta por a vida à ponto de descobrir verdadeiramente o sexo com uma travesti por nome Amanda.
«Em a hora que ela tirou a calça pude divisar, por traz da calcinha branca de rendinhas, um pequeno volume que nem de longe se assemelhava àquilo que em pouco tempo 'taria dentro de mim, dentro da minha boca, dentro da minha boceta, enfiado em meu cu.
Um feixe grande de carnes e músculos, poderoso como um colosso, com veias protuberantes.
Ai, Ana, eu chupei tudo aquilo:
peitos, bocas, pau, a cabeçona vermelha, o cu, todos os líquidos, limpei as merdas e descobri o que é sexo.
Descobri em 'sa coisa maluca que é gozar com um sujeito lindo e loiro indefinível».
É em 'se instante, aliás, que Ana também passa a se descobrir, nas festas na casa da amiga.
«Fui de Pierrô, um Pierrô lindo, xadrez e colorido, com pinturas leves e ternas na face e um chapeuzinho que se perdeu.
Perdeu-se junto com mim, porque me perdi mesmo.
Arreganhei, arregacei a buçanga.
Dei pra pinto, dei para a xota, dei para a língua, dei pra dedo, dei pra consolo preto, branco ( ...)
Mas o melhor mesmo da festa foi uma hora em que a Amanda me roubou e foi me levando para o quarto da Marcinha ( ...)
Você não ia agüentar, seu pervertido.
Gozava na hora vendo uma traveca enrabar sua ex-mulherzinha ( ...)»,
grita Ana -- através do ator Léo Quintão, provocando outra pessoa da platéia, como se fosse a representação do seu ex-marido.
Em diversos instantes da peça, a questão da identidade e a fragmentação de 'sa são trabalhadas nos personagens.
Marcinha descobre o prazer sexual com um travesti e se apaixona por a vida.
Ana, em constantes transtornos mentais e desencontros com a vida, também se descobre de forma surpreendente nas orgias na casa de sua amiga.
Já o ex-marido é uma figura que, embora extremamente significativa em toda a obra, não possui nome.
É em 'se ponto que a hipótese desse tratar-se apenas de uma imagem fantasiosa, vertiginosa -- criada por Ana como forma de exorcizar seus demônios, como uma 'pécie de válvula de escape, cura -- se torna aceitável.
«Daqui a pouco eu saio curada.
Só mais um, dois dias e pronto.
Curada. Sã e salva.
Cabeça limpa.
Problemas resolvidos.
Cu-ra-de a, diz Ana.
Ela mesma se auto-classifica fake.
Em determinado momento, Ana 'tá sentada numa cama na qual diversos momentos de sua vida 'tavam 'critos -- «Rock in Rio» III», «Vagaba» etc -- e por 'crever, nos remetendo a uma metáfora sobre a memória humana e sua fugacidade.
O tratamento com a questão identitária é percebido até mesmo tecnicamente, quando se opta para, em determinados momentos, Léo Quintão e não Neise Neves interpretar Ana, nos remetendo justamente a 'sa fragmentação referencial da identidade.
Atrás dos olhos das meninas sérias é uma peça que, embora feita com poucos recursos, nada deixa a desejar à grandes produções.
O uso de 'paços alternativos é completamente viável a proposta brechtiniana de rompimento da hierarquia entre atores e público.
Em os momentos mais dramáticos, a sonoplastia é impecável, ressaltando a parte que Ana tortura seu suposto ex-marido.
«Não dói não, olha só:
pego 'sa agulhona aqui, 'sa seringona aqui e enfio na minha veia e tiro sangue.
O meu sangue, que é a mesma coisa, a mesma marca do seu sangue.
Já tirei uns meio litro.
Tem grilo não.
Põe em 'sa garrafinha de coca-cola mesmo.
E agora, é só fazer o contrário, o inverso, o reverso.
Te alimentar com meu sangue».
Em 'se ponto, a sonoplastia simula gotejos (no caso, de sangue), criando uma ambientação de angústia e tensão únicas.
Além do mais, as luzes são muito bem projetadas, trabalhando conjuntamente com a sonoplastia na construção de climas ideais para tal contexto.
Esse fato deve ser ressaltado e elogiado, uma vez que muitas peças caem no pecado dos exageros, com luzes e sons tornando-se protagonistas no quesito «irritação do 'pectador».
Mas, depois de tanto falar e mais falar, vem o silêncio em forma de chuva triste, que cai sem cessar, formando grandes oceanos dentro de cada um de nós.
Silêncio melancólico, em ondas que vem e vão, revelando que o indo e vindo infinito do poeta é mesmo uma mudança constante «o tempo todo no mundo».
Após falar, titubear e parar para pensar, Falar torna-se uma quimera definível somente no falar do poeta Manoel de Barros e sua didática inventiva:
Em o descomeço era o verbo / Só depois é que veio o delírio do verbo / O delírio do verbo 'tava no começo, lá onde a criança diz:
Eu 'cuto a cor dos passarinhos / A criança não sabe que o verbo 'cutar não funciona para cor, mas para som / Então se a criança muda a função do verbo, ele delira / E pois / Em poesia, que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos -- O verbo tem que pegar delírio.
Sala vazia, fim do ritual de purificação.
Ali dentro, talvez, o fôlego 'tivesse viciado, preso dentro do peito, diferentemente de um dia normal, seguido de outro dia normal, no qual as pessoas lentamente roubam o ar do mundo por o nariz e suavemente o devolvem por a boca.
Dias, Juarez;
Neves, Neise;
QUINTÃO, Léo.
Roteiro da peça Atrás dos olhos das meninas sérias, 4ª versão.
Adaptação teatral do romance original Falar, de Edmundo de Novaes.
Número de frases: 129
Informações sobre as próximas apresentações da peça podem ser encontradas em http://ciapierrotlunar.blogspot.com
Rio, 10/03/2006 -- Acabo de ver na internet o exército discutindo e trocando tiros com moradores do Morro da Providência, no Rio de Janeiro.
O Morro 'tá em guerra.
Butes contra chinelos.
Pistolas versus metralhadoras.
Granadas contra granadas.
E todo mundo lá, uns indo para a venda, outros para a casa, sem falar daqueles que foram pra lá mesmo.
Fiquei abstraído vendo a 'cadaria, que tantas vezes subi, ocupada por soldados dando tiros para o alto enquanto moradoras em shorts de nylon fugiam acuadas.
A história se repete.
Lembrei dos primeiros militares que subiram aquele morro.
Eles tinham invadido a tiros o Morro da Favela, lá em Canudos.
Mataram e prenderam muitas pessoas pobres armadas que teimavam em fazer de ali um território com leis próprias, afinal o governo ...
Atravessaram as vielas, com medo de algum tiro, e alcançaram o objetivo final.
Prenderam e mataram o dono do lugar, Antônio Conselheiro.
Mas nossa história se passa no Rio.
Em 1897, soldados de quase todo o Brasil, cansados de 'perar as bonificações da vitória, subiram o Morro da Providência e montaram ali suas barracas, aquelas mesmas usadas na guerra de Canudos, que depois viraram seus barracos.
Outros cariocas se juntaram a eles, pois nunca faltou gente pobre a 'sa cidade.
O morro ficou cheio de barracas, barracos, vielas apertadas que mais pareciam o Morro da Favela, conforme descrito por " Euclides da Cunha:
«antes que o olhar pudesse acomodar-se àquele montão de casebres, presos em rede inextricável de becos 'treitíssimos, o observador tinha a impressão exata de topar inesperadamente com uma cidade vasta».
E o morro virou o Morro da Favela.
A solução foi tão genial que todo mundo fez igual no Rio de Janeiro inteiro, surgiram, então, outras favelas.
Depois o Brasil copiou.
Hoje, os soldados subiram novamente o Morro da Favela.
Resultado da operação:
um homem, uma mulher e um bebê atingidos por 'tilhaços de granada, além de 10 quilos de cocaína, armas e uma roupa do exército.
A imagem da roupa camuflada no chão da favela da Providência é a de um achado arqueológico.
mais de cem anos depois, o Morro da Favela foi novamente invadido por o Exército, e os soldados encontraram, numa roupa, o seu passado, as suas origens.
Será que o Rio virou Canudos?
Quem são 'ses novos «heróis da pátria»?
Número de frases: 29
Qual o futuro da Favela?
Há dez anos atrás conheci Roberto Victório, um músico carioca que na época dividia com mim e mais sete companheiros o cargo de conselheiro de 'tado de cultura, era o momento da implantação do Conselho Estadual de Cultura de Mato Grosso, um marco na política cultural do Estado.
Uma cumplicidade logo se 'tabeleceu e passamos a conviver semanalmente nas reuniões ordinárias do conselho.
Formávamos uma trindade:
Roberto, que é músico erudito, compositor, maestro, pensador e pesquisador, o 'critor Ricardo Guilherme Dicke e eu.
Sempre dividíamos as caronas e em 'ses percursos muitos sonhos foram sonhados, muitos projetos idealizados, de uma forma ou de outra queríamos comungar nossas experiências e realizar obras artísticas.
Em a época, Roberto me falou de um projeto de pesquisa etnomusical que desenvolveu para concluir o doutorado na UFRJ e que resultou numa composição musical erudita e contemporânea de nome Aroe Jari, em língua Bororo, que significa:
Morada das Almas.
Um lugar que, na interpretação simbólica dos Bororos, transcende a fisicalidade e representa o mundo imaterial, o mundo 'piritual para onde todos deverão retornar segundo a concepção de eles.
Fizemos planos de realizar um documentário sobre a pesquisa e a música, mais que planos, tentamos fazer e sempre 'barrava em dificuldades para conseguir recursos.
Dez longos anos se passaram, agora conseguimos dar visibilidade ao projeto e 'tamos muito próximos de realizá-lo.
Fomos até a aldeia do Merure, que fica a 400 km de Cuiabá, perto de Barra do Garças, pedir a autorização dos bororos para iniciarmos processo de pré-produ ção do documentário.
A o chegar na aldeia levei um choque ao me deparar com as profundas mudanças que ocorreram e continuam a acontecer no comportamento da comunidade.
De imediato, percebemos mudanças na arquitetura da aldeia, as antigas ocas foram substituídas por pequenas casas padronizadas, tipo 'sas casas do sistema de habitação popular, organizadas em formato quadrado, quebrando a disposição circular de antes que tinha toda uma significação hierárquica importante na 'truturação das relações entre os diversos clãs, sub-clãs e hipo-clãs.
Observei também que havia muitos sacos de plástico jogados próximos às casas, embalagens de diversos produtos de consumo doméstico, resultando num ambiente que precisa urgentemente de uma ação para organizar a destinação do lixo.
Fui logo sendo apresentado ao Agostinho, um bororo bastante efeminado, que, inicialmente, me deixou em dúvida se era uma moça ou um rapaz.
Diretor do Museu da Etnia Bororo, ele é extremamente respeitado por todos na aldeia e vem realizando um grande trabalho na organização do vasto acervo que possuem, em áudio, vídeo, fotografias, muitos documentos e publicações diversas.
Eles mantêm uma biblioteca com muita coisa publicada sobre a etnia, que é das mais 'tudadas.
Conheci um outro jovem bororo, o Paulinho, cameraman, videomaker, que logo quis nos mostrar seu primeiro filme, um documentário sobre o ritual funerário.
Um olhar de dentro pra fora, um cara que conhece as minúcias do lugar.
O ritual funerário que dura de dois a três meses é o tema da música do Roberto Victório, que é o nosso tema do documentário e assim, surpresos com a coincidência, fomos ver o filme.
Ele leva jeito, o filme é razoável.
Paulinho fez oficinas de vídeo, tem uma boa mão, muito firme para operar a câmera e um bom olho, com o tempo deverá crescer, pois 'tá bastante empolgado.
Por o fato de ser membro da aldeia pôde entrar e registrar determinadas partes do ritual que ninguém de fora poderia.
As mulheres e as crianças não-iniciadas também são proibidas de presenciar alguns momentos do ritual.
Me levaram pra conhecer a sala multimídia e ao chegarmos lá um grupo de adolescentes bororos 'tava dançando ao som eletrônico do batidão e do funk.
Outro garoto que conheci operando um computador é completamente fascinado por tecnologia.
Quer acesso à internet, quer 'tudar, quer tocar, ele e Paulinho 'tão montando uma banda.
Querem tocar pop rock e eletrônico misturado com música indígena.
Paulinho é fã de Legião Urbana.
A etnia Bororo sempre se destacou por a sensibilidade e complexidade de seus ritos, além de ter uma organização social rigorosa que reflete uma cultura rica e organizada, com uma noção 'pantosa do 'paço e suas significações.
Em aquela época Roberto 'tava encerrando um longo ciclo onde pesquisou, catalogou, criou notações para definir os percursos da música bororo, ou seja, revelar, 'crever, descrever, tornar legível.
Se embrenhou na selva de uma música que considerou extremamente rica, criativa e condutora dos rituais mais importantes da etnia.
De 'sa experiência compôs a peça musical composta de três movimentos:
Aroe Jari, Egnoware e Aroe Maiwu.
A praga branca se alastrou devorando os sertões com sua fome de máquina.
Máquinas de moer gente que se 'palhou por o Mato Grosso.
A ocupação de terras aqui foi sob o jugo do fogo, sob fogo cerrado.
Fogo nas vísceras, fogo nas gargantas.
O álcool e suas delícias.
Quem aí vai negar o poder do fogo na celebração da vida?
Se os bororos têm a água como elemento divino que representa a origem e a passagem de volta para o mundo imaterial, o homem branco -- os invasores (os inimigos, em bororo: animais) -- mostrou o poder do fogo representado tanto por a aguardente como por a 'pingarda.
O que aconteceu com a Nação Bororo foi um autêntico genocídio.
Eles ocupavam uma faixa de terra que ía da Bolívia até o Triângulo Mineiro (MG).
Foram usurpados, roubados, quase exterminados.
Felizmente sobreviveram e 'tão recuperando seus ritos mais importantes, passando seus conhecimentos ancestrais para as novas gerações que 'tão se adaptando aos novos tempos tecnológicos.
Estão resistindo hoje com uma população de cerca de 1.500 índios.
Com uma cultura riquíssima e complexa.
A última vez que fui numa aldeia, se não me engano, foi em 1992, 93, não me lembro bem, mas não importa, foi numa aldeia Xavante, inimigos ancestrais dos bororos, eles não se toleram, já foram protagonistas de muitas batalhas, não se entendem.
Em a reunião que fizemos com as lideranças bororos no Meruri para conseguir autorização para o documentário, o bororo Agostinho falou que 'sa rusga com os xavantes já vem de tempos remotos, que eu não conseguiria entender.
Ouvi dizer que os xavantes roubavam mulheres bororos, sempre provocavam brigas, não podiam se cruzar que era briga certa.
Os bororos consideram os xavantes excessivamente materialistas, pouco dados a 'piritualidade.
Essa última aldeia que visitei nos anos 90, perto de Nova Xavantina, região do médio Araguaia, era bem típica ainda, apesar de 'tarem levantando uma construção de alvenaria, uma 'cola, o que já me causou um certo preconceito.
Confesso que não consegui ver com os olhos livres as mudanças que ocorriam no interior das comunidades indígenas.
Minha visão era preconceituosa, queria ver os índios como vieram ao mundo, eu não percebia que o mundo dos brancos chegou para eles e impôs com todos os seus apelos, o desejo de consumo e as facilidades que a tecnologia trás para o ser humano.
Não! Índio deve ficar em suas ocas, isolados!
Mas como, se já os contaminamos?
Levamos a doença e o remédio, a cachaça, o açúcar, a cárie, a diarréia, o vírus.
Quem nunca visitou uma aldeia e mantém uma idéia do índio como um ser isolado, primitivo, idílico, puro, não tem a mínima noção do que vem ocorrendo.
As transformações são muito profundas e eles, no Meruri, 'tão desenvolvendo uma nova consciência sobre o valor da memória.
Agostinho criou uma obra representando as relações clânicas da aldeia, uma instalação, reproduzindo a 'trutura clânica definida por a disposição 'pacial circular da aldeia, uma bela montagem, que faturou um prêmio cultural nacional na Petrobras, o Cultura Viva.
Eles têm consciência hoje de 'sa importância e da importância de desenvolverem outras formas de representação para manter vivo um conhecimento ancestral que é importante como fator de auto-valoriza ção e conservação de sua cultura.
Segundo Roberto Victório constatou em sua pesquisa, existe uma 'trutura mítica dual ditada por os " antepassados imemoriais Baitagogo / Akaruio Boroge como personificação da alma Bororo perdida no tempo e posteriormente corporificada por os antepassados Bakoro Kudu/Akaruio Bokodori, como os primeiros chefes transmissores dos ensinamentos no plano material."
A o sairmos da aldeia no retorno para Cuiabá, não pude deixar de pensar:
índio gosta de tecnologia, índio quer tecnologia.
As aldeias nunca mais serão as mesmas.
O céu 'tava lindo naquele momento, derramava 'trelas por as bordas.
Número de frases: 67
Evandro Calisto Filho
negro145@yahoo.com.br Félix Julião, meu filho de três anos, aliado a dois cúmplices, meninos vizinhos, destruiu em alguns segundos, munidos de pedaços de madeira, um raro exemplar de planta que a avó cultivava fazia mais de anos.
Em um rompante a tia desesperada grita ao ver o desastre ecológico.
-- Félix, o que foi isso meu deus?!
O 'cândalo fez 'tremecer a vizinhança, o criminoso ambiental, pego em flagrante delito, congelado no lugar olha para a imensa figura a sua frente e percebe que não foi feliz na sua empreitada, sem nem mesmo saber o valor que feriu ou ofendeu.
-- Mais Félix?
A polícia recolhe o meliante e leva a presença do júri paterno que no papel de educador toma o papel de promotor, defensor e juiz, e tenta num interrogatório buscar no réu uma nesga de consciência do seu ato:
-- Meu filho você sabe de quem era aquela planta -- a pergunta se perde, não é a propriedade o valor que se quer julgar, pergunta errada, resposta errada, e oráculo me devorou.
-- De Eliane (a tia) meu pai?
-- Não Félix!
-- De Tarcísio (o primo) meu pai?
-- Não Félix!
-- De minha mãe?
-- Não Félix!
-- Então meu pai, a planta é da planta!
O interrogatório se inverte, a pergunta engole o juiz e traz em si uma sábia tangente.
O júri, 'pectador, tia, mãe, comparsas e curiosos, que antes, na sólida postura tinha certeza da culpabilidade e já dava o veredicto no olhar, coça agora os neurônios frente ao paradoxo da doxa e 'pera o desenrolar.
-- Não Félix a planta era da sua vó, se a planta fosse da planta não seria uma planta, seria um homem na existência sartriana.
-- Por que meu pai?
-- Deixa pra lá meu filho, não faz assim na planta não, a planta sente dor e chora.
-- Te a meu pai --
Como é que fala a tia?
-- Desculpa.
Desfez-se o júri e cada um tomou seu caminho, naqueles dois minutos e meio a pergunta que se fazia se tornou pergunta que se fez.
-- Evandro de quem é Félix?
-- Meu!
-- Não, Evandro --
De a mãe --
Não, Evandro --
De a avó e do avô --
Não, Evandro --
Então Félix é de Félix.
-- Sim, seu pai, Félix é de Félix e se constrói a si mesmo, pai de si, como você também e apenas pai de você mesmo
«O homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se realiza, não é portanto nada mais do que o conjunto de seus atos, nada mais do que sua vida» Sartre.
Félix 'ta condenado a ser livre» ...
condenado porque não se criou a si próprio:
e no entanto livre, porque, uma vez lançado no mundo é responsável por tudo que fizer ...
responsável por sua paixão " Sartre, e passo a passo num ínfimo 'paço de tempo provou, o pobre, dos três elementos que constituem a condição do homem existencialista:
sofreu da angústia de 'colher, de existir e sofrer, de ter de 'colher numa infinidade de possibilidades da pergunta mal formulada, a resposta que salvaria sua pele.
-- De quem é a planta Félix?
De o desamparo de ter que 'colher para onde caminhar, sozinho, sua vida, seu destino, ali 'tava a única pessoa que ele imaginaria poder ampará-lo questionando e 'perando a sua resposta, 'perando a 'colha que determinaria sua vida, o pai o carrasco, e ele sem ao menos saber o valor que se exigia e pesava a pergunta, que moral e que lei se baseava a pergunta?
Nada importava, valia sim a consciência de saber que a 'colha de ele que determinaria sua vida, que o salvaria do infortúnio;
do desespero de não poder com nada a nós exterior, ali 'tava sua base, sua mãe, seu pai, sua tia, seu primo, os amigos comparsas, todos sobe ele nos olhares em lâmina, não existia Deus, nem a humanidade, nem a avó, nem a figura imaginária que brinca com ele nas tardes, ninguém o acudia, só podia contar com o conjunto das probabilidades que tornava a ação possível:
-- Então meu pai, a planta é da planta!
Imediatamente o 'pelho reflete e troca num piscar à posição dos atores, e me sinto angustiado, desamparado e desesperado, a situação me pergunta o que é ser pai?
Se somente se Félix determinará sua vida?
O que será ser pai se na tentativa de educar sofri da angustia de 'colher e 'colhi a pergunta errada, de quem é a planta Félix?
Busquei no valor da propriedade privada a educação ecológica numa infeliz 'colha, e sabendo disso ali desamparado sozinho via a platéia 'perando o resultado da peleja, eu que sempre pensei ter o melhor projeto de pai, de educação, 'colhi errado, fiz errado e entro em desespero ao ver os resultados por saber que cabe apenas a mim e mais ninguém a responsabilidade dos meus atos.
Deixei o pequeno Félix ir, meu filho que pensava eu ser meu projeto, mas que não é por ser homem, não é por nunca ser minha as suas 'colhas, deixei meu pequeno Félix ir, ele que já não é meu e sim filho do seu próprio projeto que na sua solidão se constrói pai de si, e me deixa no sofá na solidão do meu pensar buscando responder o que fiz de mim.
Bibliografia
NOGARE, Pedro Dalle.
Humanismos e Anti-Humanismos, Introdução à Antropologia Filosófica.
Número de frases: 52
Petrópolis, 1994.
Demorou muito.
Faz uns cinco anos que eu queria colocar os vídeos que produzíamos na minha adolescência na internet.
E não é que finalmente coloquei algumas produções no tal do " youtube.
com». Os «crássicos caseiros» começaram a ser produzidos em 1995 em Pirassununga, interior de São Paulo.
Lá se vão mais de dez anos.
Esses vídeos que foram os «culpados» da minha 'colha no vestibular (rádio e tv) 'tavam restritos para poucos.
Verdadeiras pérolas nasceram no improviso.
Em 'sa época uma idéia bem absurda, alguns amigos, umas roupas de brechó e uma câmera VHS eram mais que suficientes.
Vídeos inocentes e feitos num período onde o que valia era juntar os amigos e se divertir.
Nem sabíamos o que era edição.
Era feito tudo ali.
Erro no «texto»?
A solução era voltar a fita e fazer tudo de novo.
Até acertar.
E chegou uma época, que de tanto fazer, quase não errávamos mais.
Sem roteiro, sem iluminação, sem dinheiro para produção.
Não havia «se não», o prazer 'tava simplesmente em fazer.
E depois que conheci a aura do «ser profissional», cheio de encanações e restrições, que começei a valorizar tudo aquilo.
Aquelas tardes de sábado me ensinaram certas lições que os quatro anos de rádio e tv nem citaram.
Hollywood que nada!
Que Projac coisa nenhuma!
Tudo o que queríamos ver 'tava no interior de São Paulo, em Pirassununga, no quintal da minha casa.
Em o Youtube também colocarei as produções mais recentes.
O programa de humor Maike Festa, realizado em 2004, e as novas produções poderão ser conferidas ali.
Muita coisa ainda não 'tá na rede, mas já é um começo.
Confiram e comentem no:
www.youtube.com/user/danzao OBS:
Duas sugestões para entenderem logo de cara o que fazíamos:
o clip «How can» e o programa de tv «Guia dos Melhores Bar».
Número de frases: 30
Aguardo a visita.
Quando, em 1834, deixou Oeiras-PI mudando-se, com toda a família, para Portugal, o menino Pedro Francisco tinha oito anos de idade e ele nunca mais retornou à sua terra natal.
Quando faleceu, rico e famoso, em 1883, em Lisboa o Dr. Pedro Francisco da Costa Alvarenga era um respeitadíssimo médico e cientista em dimensão européia.
Quando os oeirenses dizem que a água do riacho Mocha é inesquecível a gente pensa logo em patriotada, mas o Dr. Costa Alvarenga é um belo exemplo de que isto pode até ser verdade:
Quando faleceu era um homem muito rico e, num de seus legados, destinou uma quantia à Província do Piauí para a construção de uma Escola em Oeiras.
Provando, também, nunca ter renegado suas raízes piauienses, o cientista instituiu, com sua herança, o «Prêmio Alvarenga do Piauí para as Academias de Medicina de Paris», Lisboa, Bruxelas, Viena, Berlim, Filadélfia, Estocolmo e Rio de Janeiro.
Saber que a mentalidade de «Corte Imperial» que fez com que a mudança da capital, em 1852, para Teresina, operasse, também, a mudança se suas duas 'colas * para a nova capital, deixando Oeiras sem nenhuma, permite-nos aquilatar a importância do gesto do cientista para com a sua terra natal, ao consignar o legado.
E não diminui em nada o valor da intenção o fato do governo piauiense ter embolsado o dinheiro e postergado, por cerca de quarenta anos, a criação do «Grupo Escolar Costa Alvarenga».
Um Cientista de Primeira Grandeza
A grande descoberta que o fez conhecido mundialmente e lhe deu fama e fortuna foi a descrição sintomática do «sinal do duplo sopro crural da Insuficiência aórtica» também denominado «sinal Alvarenga / Duroziez», mas não se limitou a 'ta a contribuição do Dr Costa Alvarenga às Ciências Médicas do Século XIX.
É impressionante a sua contribuição bibliográfica:
Anatomia patológica e patogenia das comunicações entre as cavidades direitas e 'querdas do coração Outros 1872
Anatomia patológica e sintomatologia da febre amarela em Lisboa no ano de 1857 Memórias 1861
Apontamento acerca das etocardias a propósito de uma variedade descrita, a traquocardia Outros 1867
Apontamentos sobre os meios de ventilar e aquecer os edifícios públicos Memórias 1857
Apontamentos sobre os pontos de aplicação das vias de absorção dos medicamentos Outros 1882
Bosquejo histórico da percussão Outros 1874
Bosquejo histórico e crítico dos meios terapêuticos empregados contra a erisipela Outros 1873
Bosquejo histórico e 'crito da cianose Outros 1873
Como atuam as substâncias brancas e cinzentas da medula 'pinhal na transmissão das impressões sensitivas e terminações de vontade Outros 1862
Considerações sobre o cólera-morbus epidêmico no hostal de S. José de Lisboa Outros 1856
Considerations et observations Outros 1869
De a cinose Outros 1871
De a importância da 'tatística na medicina Outros 1869
De a propilamina, trimetilamina e seus sais Outros 1877
De la therminologie generale Outros 1871
De la thermosemiologie et thermacologie:
Outros 1871
Des medications hypothermiques et hyperthermiques, et des moyens therapeutiques que les remplissent Outros 1881
De o salicato de potassa no tratamento da erisipela:
Outros 1875
Elementos de termometria clínica geral Outros 1870
Esboço histórico sobre a epidemia de febre amarela na freguesia da pena em 1857 Outros 1859
Estado da questão a cerca do duplo sopro crural na insuficiência das válvulas aórticas Outros 1863
Estatística dos hospitais de São José, São Lázaro e Desterro no ano de 1865 Outros 1868
Estudo sobre as perfurações cardíacas Outros 1870
Estudo sobre as variações de comprimento dos membros pelvianos na coxalgia Outros 1850
Farmacotermagenese Outros 1880
Fragmentos de farmacoterapiologia geral ou matéria médica e terapêutica Outros 1883
Grundzüge der Allgemeinen clinischen Thermometrie und der Thermosemiologie und Thermacologie Outros 1873
Leçons cliniques sur les maladies du couer Outros 1878
Memoria sobre a insuficiência das válvulas aórticas e considerações gerais sobre as moléstias do coração Memórias 1855
O doutor Pedro Francisco da Costa Alvarenga no Brasil Memórias 1884
Reclamations et reponses:
Outros 1880
Relatório sobre a epidemia do côlera-mobus no hospital de Sant Outros 1856
Simtomatologia, natureza e patogenia do beriberi Memórias 1872
Theories de l ´ action therapeutique du tartre stibiè dans la pneumonie Outros 1881
Tratado de matéria médica e de terapêutica por o Dr. Mothmagel Tradução 1879
Além de tudo isto foi, durante trinta anos (1845-1875), redator da «Gazeta Médica», perioódico lisboeta de caráter cientifico.
A história do Dr Costa Alvarenga é uma das provas de que o Brasil não conhece -- mesmo -- o Brasil!!!!
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Notas:
Oeiras foi a Capital do Piauí (capital, antes mesmo de ser cidade, como gostam de lembrar os oeirenses) de 1759 a 1852.
* As duas 'colas que funcionavam em Oeiras em 1852 eram o «Liceu Piauiense inaugurado em 1845» e o «Estabelecimento de Educandos Artífices de vida ainda mais efêmera, visto que», criado em 1847, só começou a funcionar em 1849.
Número de frases: 56
Seria terapia pós-freudiana, se não fosse música.
O que a banda Desconcerto tem feito em Palmas, capital do Tocantins, não é canção para ir ao divã, mas traz em si -- sarcasticamente -- elementos 'senciais da psicologia humana.
Formada por acaso em setembro, durante uma roda de amigos músicos, a banda usa o teatro e a música para forjar seu objetivo maior, que é o de criticar o mundo adulto.
«O mundo adulto é uma grande comédia.
Temos regras que nos tornam falsos», dispara Bento -- o baixista da banda.
Segundo ele, as crianças não necessitam das tais regras para viver, enquanto os adultos dependem de elas.
«Essas convenções matam a 'pontaneidade das pessoas», acredita.
Freud explica:
o sujeito, com seu mundo de exigências pulsionais depara-se com um outro mundo -- diferenciado de seu próprio corpo -- que não satisfaz aquelas exigências e desse choque nasce a fantasia.
Voltando à Desconcerto, é exatamente o jogo entre fantasia versus realidade, mundo adulto versus infantil que forma o quebra-cabeça das músicas da banda.
Com metáforas que remetem ao mundo infantil, os músicos desconcertam o imaginário e usam o teatro para que o público perceba a crítica.
Em O boneco de pano -- um rock que inclui a 9ª Sinfonia de Beethoven -- a brincadeira é bem adulta e inclui uma morte inusitada do boneco, sem muitas explicações.
Alguns integrantes, como Sérgio Gobira (guitarra solo) e Chico Daher (violoncelo), têm formação erudita, talvez por isso algumas intervenções de concerto.
«Mas não gostamos de levar 'sa carga para nosso som.
Usamos 'sa experiência para desmontar o som, o nome veio da necessidade de explicar isso», justifica Bento.
Já Piettro Lamounier (vocal e violão) e Gil Doliath (vocal, guitarra base, violão e cavaquinho) -- única mulher no grupo -- deram à Desconcerto um tom teatral.
Piettro é ator e a cada música faz uma performance.
«O Desconcerto precisa disso, acho que temos que dar à música o que ela necessita.
Não adianta encher de coisa se o som não pede, isso polui um trabalho», avalia o baixista.
Tadeu Guimarães Jardim (bateria) marca o som da banda.
Vindo de outros grupos universitários ele é o único que ainda não compõe letras, mas faz as músicas;
todos os demais emprestam sua inspiração para a costura do Desconcerto.
Bento, que veio de várias bandas punks de Palmas, entre elas, Os Creyssons e Mercedes 75, prefere não definir o tipo de som que eles fazem.
«É complicado porque viemos de 'colas muito diferentes e todos têm 'paço para levar isso para nosso som, mas com certeza tudo tem um pouco de rock», explica.
Tem um pouco de tudo, na verdade.
A poesia Cama boa de pedra dura, musicada por a banda, é uma mistura de funk -- não o carioca, mas funk soul, rock e pitadas de cordel;
já Frase com ar é o puro rock and roll na veia;
Curto rock, mas no fundo sou do samba, como o nome sugere, reúne elementos dos dois ritmos.
Em Chama o pai, o rock ganha corpo de suingue.
O grupo já gravou duas faixas numa demo e pretende ir a 'túdio com mais seis.
Há ainda outros planos para 'te ano.
«Estamos 'tudando um 'petáculo para lançar a banda e o CD, que terá intervenções teatrais e poéticas», assegura Bento.
Espaço nunca foi problema para o Desconcerto.
Por não ser ' comercial ', o grupo toca nos locais alternativos de Palmas, e os convites surgem do resultado do boca-a-boca.
«A receita é simples, se 'tiver gostando do que 'tá fazendo é só se dedicar que vai dar certo.
Forçar a barra é fria.
É isso o que acontece com bandas descartáveis, você logo perde o interesse, fica chateado e fim», define Bento.
Número de frases: 37
Hoje pela manhã, na 'cola em que trabalho, tive a oportunidade e o desprazer de me deparar com um exemplar da revista Veja de 'sa semana.
A matéria da capa não poderia ser outra, o garoto que foi arrastado por um carro durante a fuga dos ladrões que o roubavam no Rio de Janeiro, porém no canto superior da pagina um chamativo convite «A revista Veja leva vocês ao país dos Aiatolás atômicos».
Em a matéria usam o termo «aiatolá» de forma depreciativa, atribuem ao atual presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad problemas sociais enfrentados por o país desde os seus primórdios (antigo império Persa século VII a.
c), usam uma retórica hipócrita para transformar atitudes, mesmo que extremistas de Ahmadinejad, em crimes contra a humanidade, acusam de violar decisões da ONU (tipo aquela que proibia os E.U.A de invadir o Afeganistão), menosprezam um povo que sobreviveu através do tempo graças a sua capacidade de se adaptar ao mundo que o cerca.
O «jornalão» Estado de São Paulo acusa o governador do Paraná Roberto Requião de atrasar o desenvolvimento do país por proibir uma multinacional suíça, Syngenta, de destruir uma área de preservação ambiental do 'tado.
E tantos outros ataques a democracia, sistema tão valorizado por 'tes meios de comunicação, são cometidos diariamente por os mesmos, isso para não citar a Rede Globo.
Juntando todas 'sas informações, cheguei a conclusão de que eu não sei de nada, tudo que me dizem é mentira, não que eu seja um alienado telespectador do JN, mas a realidade é alterada quase que fisicamente por os miditadores.
e se o verde não for verde, mas sim uma cor que resolveu desafiar o poder norte-americano, e por isso foi pintado de verde por 'sas vozes do além!?
E se eu vivo realmente na Matrix dos irmãos Wachowski!?
Número de frases: 9
As informações que chegam à massa a qual pertenço formam a minha consciência, o meio me influência, mesmo tendo eu acesso a outras fontes que não as oficiais do grande capital 'trangeiro, não posso me livrar disso, e entro em desespero, será só um surto de alta ansiedade?
Um pequeno sítio numa propriedade abandonada num pé de serra, nos confins do mundo, oficialmente denominada Santa Cruz, distrito de Crato, Ceará.
Como se confirmaria depois, e por um outro itinerário, aparentemente sem nenhum motivo para ser lembrado.
Afinal, muitos são os pequenos sítios e também muitas são as propriedades que de tão abandonadas não se destacam em seus relentos no abandono geral daquelas terras sem dono do Sertão do Cariri.
Outro, não menos 'quecido, de nome José Lourenço Gomes da Silva, cruzou com o caminho do sítio em meados da década de 20 do século passado, ao receber a posse das terras de um ilustre donatário.
Após vê-lo preso por, simplesmente, pregar a palavra de Deus em praça pública, o Padre Cícero de Juazeiro do Norte destinou o sítio para que o Beato José Lourenço pudesse viver em paz a sua fé.
Apartado do mundo, longe de tudo.
Sem nenhum motivo para ser lembrado.
Assim foi feito.
Palavra de Santo não é muito dada a desobediências.
Mas num ponto a ordem de Padim Ciço não pode ser cumprida por inteiro.
Sem explicação aparente, ou por o vigor que aquele povo tem em construir sua própria história, o sítio começou a atrair a atenção dos sertanejos que, em grandes grupos, se mudavam para o local, agora batizado de Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.
Com a fama 'palhada por o Nordeste, sertanejos de outros 'tados, principalmente do Rio Grande do Norte, procuraram a comunidade para fixar moradia.
Com o tempo mais de duas mil pessoas habitavam o Caldeirão.
Em sua maioria, gente pobre querendo sobreviver.
Expiando com muita reza e trabalho os pecados de sua vida seca, do solo seco, do futuro rachado por o não menos seco silêncio indiferente das autoridades.
Em o Caldeirão, nada tinha dono, não havia posse.
A vida era comunitária, o sistema cooperativo.
Era dar para receber.
E todos recebiam.
Com o plantio de cana, arroz, feijão e a criação de animais, como bois e cabras, José Lourenço e seus companheiros resolveram o problema da fome numa região marcada por a 'tiagem e, consequentemente, por a falta de comida.
A população do Caldeirão crescia e, com isso, vieram carpinteiros, ferreiros e artesãos que passaram a produzir cintos, roupas, ferramentas, sapatos.
Tudo fomentado com matéria prima local.
O algodão, por exemplo, era plantado na própria comunidade.
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto caminhava para ser auto-suficiente.
Até aqui o sítio doado por o Padre Cícero cumpria sua sina.
Exatamente onde o vento faz a curva, uma terra pobre habitada por gente de olhos fundos, com pouca carne entre ossos e pele, marcada por a privação.
De proprietário, apenas a Vida.
De capataz, apenas o Tempo.
Conseguir se sustentar por o próprio trabalho parecia o coroamento da palavra do patriarca de Juazeiro do Norte.
O Caldeirão não praticava o comércio, seus integrantes não conviviam com a Sociedade, numa existência praticamente apartada do Mundo.
Era somente trabalhar e rezar, segundo os desígnios do Beato José Lourenço.
Mais do que nunca parecia, para o Beato, que aquela sociedade que tão injustamente o havia encarcerado 'tava ficando para trás.
Seu Caldeirão não precisava do mundo.
O mundo não valia a pena.
Melhor era 'quecer dos que o 'queceram, viver afastado, sem nenhum motivo para ser lembrado.
Mas não tão fácil, meu caro.
Em o mundo do cão nada sai de graça e até mesmo a morte, seja ela física ou simbólica, tem um preço.
De repente os 'quecidos passaram a ser lembrados.
Acontece que o Padre Cícero, cuja imagem emprestava bons ares ao ajuntamento de José Lourenço, resolvera curtir sua santidade ao lado de Deus desde 1934.
Com o perdão do trocadilho, foi caixão.
Os padres salesianos, junto ao bispado e ao governo do Ceará, começaram a delirar.
Mas nada de onírico havia no devaneio dos donos do Estado.
Parecia mais com um pesadelo.
O antes inofensivo Caldeirão da Santa Cruz do Deserto virou uma célula do «comunismo primitivo».
Seus moradores praticantes do fanatismo e adoradores de ídolos pagãos, no caso um boi chamado mansinho, porém, de fato, uma versão matuta do bezerro de ouro relatado na Bíblia.
Alguns historiadores acreditam que, na real, 'tava faltando a tradicional mão-de-obra barata, quase 'crava, para as fazendas dos latifundiários, algo parecido com Canudos.
Paralelos à parte, o Caldeirão incomodava, metia medo.
E, por isso, seria implacavelmente cassado.
Só para contextualizar, eram tempos de ditadura getulista.
Era o ano do Departamento de Impresa e Propaganda, de Vinícius de Moraes, futuro poetinha do Brasil, ainda censor de audiovisual.
O pecado de conseguir sobreviver na seca e fazer do semi-árido um oásis não iria ser perdoado facilmente.
Em 1936, a Polícia Militar do Ceará invadiu o Caldeirão e tomou todos os bens da comunidade, expulsou seus membros e só não prendeu o Beato José Lourenço porque 'te fugiu para a Chapada do Araripe.
Apesar de tudo, ainda não era o desterro do Caldeirão.
Seus membros continuaram nos arredores prontos para reerguer a obra.
Aqui tem lugar o episódio mais trágico de 'ta história.
Algo que poucos conhecem e que, sem dúvida, merece relevo.
O Governo de Getúlio Vargas mandou Caças, da Força Aérea Brasileira, para bombardear o território do Caldeirão.
Morreram 700 pessoas.
Estamos falando de aviões e bombas contra o povo que, ao contrário do de Canudos, não ofereceu resistência violenta e nem mesmo tinha armas, a não ser que consideremos como tais foices e enxadas.
Em 'te momento, o autor gostaria de perguntar:
quantos de vocês, leitores, sabiam disso?
Poucos, eu imagino.
A endemonização do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto atendeu, por vias tortuosas, aos desígnios de seus criadores.
Nada do que foi 'crito aqui foi publicado nos jornais da época, até porque isso não interessava aos poderosos.
Por muito tempo o Caldeirão continuou do jeito que nasceu:
apartado do mundo.
Só a partir da década de 70, 'ta história foi sendo desvendada pouco a pouco por alguns corajosos da cultura caririense, com participação da Universidade Regional do Cariri.
No entanto, muitos dos interessados no assunto continuam a acreditar e divulgar que o Caldeirão foi mesmo uma experiência socialista-comunista, sendo inclusive veiculado em dissertação de mestrado e documentário.
Ou seja: a mesma balela divulgada por aqueles que o destruíram.
A memória coletiva sofre.
O verdadeiro Caldeirão dorme.
Tão profundamente quanto o sono eterno de José Lourenço e do Padre Cícero, os únicos a terem êxito em seu intento.
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto dorme, sim, sem sonhos, nem pesadelos, sem nenhum motivo para ser lembrado.
Número de frases: 74
Em a década de 1990 todo o cinema brasileiro foi atingido por as medidas do governo Fernando Collor de Mello, que extinguiu a Embrafilme e destruiu qualquer possibilidade de sobrevivência para a produção nacional.
Entretanto, a produção de documentários brasileira permaneceu graças a possibilidade da gravação em vídeo e exibição em alguns restritos canais de TV educativos.
Uma das características do período da chamada retomada do cinema brasileiro, na segunda metade da década de noventa, é a presença do documentário de longa-metragem nas salas de cinema.
Essa presença marca a diversidade 'tética do atual cinema brasileiro, como uma 'pécie de contraponto às ficções distribuídas por as majors e alavancadas por o apoio da Globo Filmes.
Embora as 'tatísticas não sejam as mais confiáveis, tendo em vista que apenas O Boletim Filme B procura manter os números atualizados, a participação do documentário brasileiro em salas de cinema vive uma curva ascendente.
Para se ter uma idéia, dois documentários 'trearam em 1998;
quatro, em 1999;
seis, em 2000;
oito em 2001;
11, em 2002;
cinco em 2003;
17, em 2004.
Isso representa um terço dos filmes nacionais que alcançaram distribuição comercial.
O percentual é impressionante, e dificilmente o mesmo é observado em outros países.
Contudo, o desempenho de cada título é o calcanhar de Aquiles do documentário brasileiro, com uma média, largamente aproximada, de 15 mil a 20 mil 'pectadores.
Mas o avanço é inegável.
Como ressalta Maria do Rosário, na Revista de Cinema, Sílvio Tendler é único nome, entre os brasileiros, a conseguir emplacar três títulos entre nossas maiores bilheterias documentais, amargou o fracasso de «Glauber, Labirinto do Brasil».
Lançado com oito cópias, seu quinto longa (o quarto foi " Castro Alves ") não chegou a 20 mil 'pectadores.
Número terrivelmente baixo, se comparado aos ostentados por outros filmes seus como «O Mundo Mágico dos Trapalhões» (que foi lançado 1981 com 107 cópias e ocupa o primeiro lugar
entre os dez documentários brasileiros de maior bilheteria, com 1.891.425 'pectadores), «Jango» (de 1984, lançado com apenas 17 cópias, que ocupa mil terceiro lugar, com 850 mil 'pectadores) e «Os Anos JK (de 1980)», com 600 mil 'pectadores e apenas 12 cópias, em quarto lugar).
O cineasta Eduardo Coutinho, o mais influente dos documentaristas
brasileiros, realizou, na Retomada, três longas-metragens -- «Santo Forte (1999)», Babilônia 2000» (2000) e «Edifício Máster (2002)».
Enquanto «Cabra Marcado para Morrer», o documentário de Coutinho mais festejado da história do país, 'tacionou nos 200 mil 'pectadores, os filmes mais recentes do cineasta não chegaram a 100 mil (" Edifício Master» atingiu 74 mil 'pectadores;
«Santo Forte e Babilônia «2000», com 30 mil cada um).
João Moreira Salles mobilizou público significativo com o documentário «Nelson Freire» (61 mil com apenas cinco cópias).
Já Miguel Faria, ao acumular em março de 2006, de acordo com números do Boletim Filme B, um total de 265.466 'pectadores, com seu longa-metragem «Vinícius», passou a ser o documentarista de maior bilheteria do cinema brasileiro da Retomada.
O aumento do número de documentários lançados no circuito comercial possui diversos fatores, como procurarei relacionar aqui de forma breve.
O primeiro desses fatores, a meu ver, é o próprio perfil das leis de incentivo fiscal, cujo foco é mais concentrado nos recursos necessários à produção do projeto do que com sua viabilidade econômica e performance de mercado.
De qualquer maneira, cabe registrar um fato negativo:
a penetração dos documentários nas salas de exibição reflete sua ausência nos canais de televisão, onde, a princípio, o produto teria uma maior adequação.
Para se ter uma idéia, até o início dos anos oitenta, por exemplo, um programa como o Globo Repórter era uma verdadeira 'cola de documentaristas:
toda semana eram exibidos trabalhos captados em película 16mm realizados por profissionais como Eduardo Coutinho, João Batista de Andrade e Maurice Capovilla, entre outros.
Hoje, apesar das transformações do conceito das janelas de exibição, o documentário ainda tem circulação bastante restrita, podendo ser visto num ou outro canal fechado como a GNT, mas sem a repercussão da TV aberta, onde a TV Cultura de São Paulo se destaca.
Contudo, o principal fator de difusão do documentário de longa-metragem nas salas de cinema é possivelmente a difusão da tecnologia digital.
Documentários captados com uma simples câmera MiniDV podem chegar às salas de cinema.
O digital trouxe ao cinema documental uma transformação de âmbito 'tético e econômico.
De um ponto de vista 'tético, a câmera leve e portátil conferiu maior flexibilidade às gravações, além de evitar as desnecessárias trocas de rolo.
Em termos econômicos, o digital reduziu Consideravelmente os custos de produção, tornando possível a utilização de horas de material gravado, economizando o custo do negativo e de laboratório (revelação e copiagem).
A maior utilização das ilhas de edição não-linear facilitou em muito o trabalho de montagem do documentário, 'pecialmente se a captação é feita em digital, reduzindo problemas de sincronização e de seleção do material gravado.
Essas novas tecnologias de captação e edição de imagens também influenciaram a linguagem e a temática dos documentários
atuais.
Os canais de televisão a cabo também passaram a investir na produção documental mas na maior parte dos casos o canal garante a exibição e são as produtoras independentes que predominam na viabilização dos filmes através das leis.
A parceria com a TV, que é uma prática comum no resto do mundo,
aqui se dá de forma bastante tímida.
Há exceções, é bem verdade, como são o caso do Programa DOCTV, fruto da parceria entre o Ministério da Cultura-TVs públicas-ABDs) e produções da STV -- Rede Sesc/Senac.
O sucesso de 'sas iniciativas vem contribuindo, inclusive, para outras redes de televisão invistam na produção de documentários, como é o caso do recém-lançado «Documenta Brasil», parceria inédita entre a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Televisão (ABPI-TV), Petrobras e o SBT -- Sistema Brasileiro de Televisão.
A TV Cultura de São Paulo é um exemplo pioneiro de TV pública e aberta que investe periodicamente na produção de documentários.
O canal via cabo da Globosat, o GNT, mesmo não investindo significativamente na produção e comprando muitos filmes 'trangeiros, ainda é o canal que tem garantido a exibição da nova safra do documentário brasileiro.
Temos que citar também a experiência do Canal Brasil que garantiu o resgate e a divulgação do cinema nacional de todos os gêneros e épocas.
Em 'se contexto, vale ressaltar que a chegada da TV a cabo no Brasil coincidiu com a regulamentação de algumas leis de incentivo a cultura e a produção audiovisual por parte do governo, como a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual.
A o comentar a situação atual do cinema brasileiro em relação à TV, o experiente cineasta Nelson Pereira dos Santos posicionou assim o documentário no contexto:
«O filme de ficção, por si só, não supre as necessidades de programação da TV.
Em 'se sentido, o documentário tem um grande 'paço para ocupar e parece interessar mais as emissoras».
Como referência da produção na década de 90 e que podem determinar uma amostra do que caracteriza a pluralidade de temas e o hibridismo das linguagens que de uma certa forma retomam temas relacionados com o povo brasileiro, nossos costumes, contradições e cultura, podemos citar Futebol (1998), de João Moreira Salles, série de três programas para o canal GNT que se transformou num filme de uma hora e meia registrando o mundo do futebol através da trajetória de jogadores desde as «peneiras» até o 'trelato e depois a aposentadoria.
Outra série representativa e que se trata de um caso raro de co-produ ção da GNT são os cinco capítulos intitulados Os Nomes do Rosa (1998), dirigidos por Pedro Bial e Claufe Rodrigues tratando da obra e vida do 'critor Guimarães Rosa.
Outros exemplos de filmagens em série, destinadas para a televisão são Três Chapadas E Um Balão (1998), de Maurício Dias, exibido por a TV Cultura, que mostra três chapadas brasileiras (Diamantina, dos Veadeiros e dos Guimarães) a partir de imagens captadas de um balão além de depoimentos e histórias dos moradores de 'tas regiões;
O Velho -- A História De LUÍS Carlos Prestes (1997), de Toni Venturi, que retoma a história de Luís Carlos Prestes, teve seus episódios finalizados com recursos da TV Cultura e GNT e também se transformou num longa-metragem de uma hora e meia.
Os três episódios da série Mapas Urbanos (1997), de Daniel Sampaio Augusto, realizados também para TV Cultura, busca fazer uma retrospectiva sobre São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador a partir de depoimento de poetas.
Não só filmes feitos para a TV encontraram seus 'paços no mercado durante o período inicial da chamada Retomada.
Documentários realizados com objetivo de serem exibidos nos cinemas também conseguiram ser bem-assistidos, como é o caso do filme «O CINEASTA DA SELVA (1997)», de Aurélio Michilis, sobre o cineasta pioneiro Silvino Santos, que conseguiu levar uma boa platéia às salas de exibição.
Também o filme de Ricardo Dias, O Rio das Amazonas (1995), que retrata a cultura e o conhecimento popular da Amazônia através do cientista, poeta e músico Paulo Vanzolini, obteve uma boa repercussão nos cinemas.
O primeiro longa metragem do cineasta Marcelo Masagão, Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (1999), apesar de só existirem duas cópias, teve uma ótima recepção de público e crítica.
O filme foi realizado com baixo custo, o que se tornou uma 'pécie de manifesto de Masagão que, inspirado por o movimento dinamarquês Dogma 95, passou a proclamar que o futuro do cinema brasileiro 'tava nas produções de baixo orçamento, que prima mais por a capacidade do realizador do que por recursos técnicos, o que no fundo nada mais é do que uma releitura do Cinema Novo e todos os movimentos em que ele foi inspirado.
Outro dado importante a ser observado é que o público dos festivais e mostras de documentários 'tá em constante crescimento desde os anos 90, como é o caso do sucesso do Festival Internacional de Documentários de São Paulo, o «É Tudo Verdade».
Também os documentários 'tão cada vez mais presentes nos festivais tradicionais de cinema como é o caso do Festival de Gramado, 1999, onde dois documentários disputaram a categoria principal, o já citado Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos, e Santo Forte de Eduardo Coutinho.
Em os anos 90, os documentaristas brasileiros também viabilizaram a carreira de seus filmes nos festivais internacionais de cinema, como foi o caso do documentário «Fé», de Ricardo Dias, que venceu o Festival francês de Biarritz.
Em os três últimos anos, as mais importantes premiações internacionais para o cinema brasileiro foram atribuídas a documentários.
Como exemplo, podemos citar «Justiça», de Maria Augusta Ramos, que venceu nada menos que dois dos principais festivais do gênero, o de Nyon, na Suíça, e o de Taipei, em Taiwan;
«Estamira», de Marcos Prado, que venceu o festival de Marselha, na França, e a disputa de documentários no tradicional festival da República Tcheca.
Em o mesmo período, o documentário brasileiro contemporâneo mereceu um ciclo 'pecial dentro da terceira edição do Paris Cinema.
A Estética do Documentário
Após 'te mapeamento do filme documentário brasileiro nos anos 90, podemos concluir que também no campo 'tético, houve uma reformulação.
Uma característica parece comum ao documentário dos anos noventa:
a participação das entrevistas.
Jean-Claude Bernardet, no epílogo da nova edição do seu clássico Cineastas e Imagens do Povo assinalou o uso exacerbado da entrevista no documentário brasileiro recente como um cacoete de linguagem,
como se fosse o único modo disponível para se fazer documentário.
Para isso, talvez tenha contribuído a repercussão do grande mestre do documentário brasileiro de hoje:
Eduardo Coutinho. Para Coutinho, a entrevista surge como 'tilo, como viga mestra de um olhar sobre o documentário.
Mas 'pecialmente a partir da repercussão de Santo Forte, o 'tilo de Coutinho passa a ser usado como tal padrão de referência que a entrevista surge como base de apoio possível para uma 'trutura que apenas por si só não funciona.
Ou seja, o 'tilo se revela cacoete de linguagem;
o 'tilo dá lugar ao maneirismo.
A proposta de um cinema documentário que se assuma como processo de interação entre equipe e objetos-personagens filmados surgiu com maior força no cinema brasileiro na década de 1990.
Entretanto, o modelo de documentário que incorpora a reação dos participantes a seus próprios depoimentos tem
sido praticado com certa freqüência, em vários países, desde a década de 1960, quando Jean Rouch e Edgar Morin o criaram, na França, no clássico Crônica de Verão, um marco do cinema-verdade.
Em o Brasil, Eduardo Coutinho é um dos pioneiros na aplicação de 'sa forma do documentário auto-reflexivo, onde o ato de documentar aparece em primeiro plano.
De Cabra Marcado para Morrer a Edifício Máster, passando por Babilônia 2000 e Santo Forte, Coutinho vem alterando os parâmetros arcaicos para a realização de documentários, propondo uma nova linguagem.
Mas é preciso ter cuidado para que 'tes novos parâmetros não incorram em novos padrões.
Corre-se o risco, com isso, de se criar um cacoete na forma de se fazer documentários, como pôde ser visto mais recentemente em Nem Gravata, Nem Honra, de Marcelo Masagão e à Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel, filmes que fecham o foco da discussão num aspecto geralmente negligenciado nos documentários sobre camadas menos favorecidas da sociedade:
a auto-percep ção.
Percebe-se também que a temática dos filmes da Retomada voltou-se para questões profundamente relacionadas aos problemas sociais brasileiros, com um olhar desinstitucionalizado, uma postura que buscava a realidade brasileira por a voz do oprimido, do povo, conhecendo aspectos de 'ta cultura popular, fragmentos do «real» que compõem na montagem cinematográfica, uma análise sociológica.
Tanto o cinema documentário como o ficcional se direcionaram em 'ta vertente.
Até mesmo o termo documentário a partir deste momento passa a relacionar-se a um outro significado que seria ainda o de filmes que se utilizam da «realidade», mas agora com um caráter autoral, com uma 'tética, um pensamento cinematográfico.
Em 'se contexto, o documentário «Justiça», de Maria Augusta Ramos, traz uma enorme contribuição ao documentário brasileiro contemporâneo, no sentido de proporcionar uma redescoberta do cinema-verdade, e quebrar o velho mito das entrevistas como fundamentais para se fazer documentário.
Vale lembrar, a título de contextualização, que a diretora de Justiça concluiu sua formação em documentário na Holanda, longe do Brasil.
Para ela, a referência passou a ser o documentário holandês.
Assim, ela pôde desenvolver um 'tilo próprio sem a referência explícita de Eduardo Coutinho.
Justiça não possui nenhum depoimento.
A câmera 'tá presente na cena como se fizesse um «mero registro», simulando-se transparente, captando
as cenas «que 'tão acontecendo diante de ela», tentando reduzir sua participação no desenrolar dos fatos ao máximo.
Por isso, a alcunha de cinema-verdade:
o caráter não-intervencionista do realizador passaria uma idéia de captação de uma realidade que acontece diante da câmera sem nenhuma interferência de 'ta.
Com isso, o cinema-verdade buscaria romper com o suposto caráter de «manipulação» do documentário tradicional.
Em 'se sentido, Justiça é o documentário anti-Coutinho.
Enquanto o diretor de «O FIM E O PRINCÍPIO» mostra o seu processo como pura fabricação, Maria Augusta Ramos o 'conde ao máximo que pode.
Número de frases: 104
Caos-canção, meios, os meios, a palavra movimento, a palavra manifesto, a palavra-palavra:
Go -- Um nome artístico (em japonês, go) é um pseudônimo, usado por um artista japonês, que ele algumas vezes pode mudar.
Em alguns casos, artistas adotaram diferentes go em diferentes 'tágios de suas carreiras, geralmente para marcar mudanças significantes em sua vida ou em sua obra.
A idéia abstrata-concreta do Marco Zero.
Nunca se contentar com a cidade construída.
Estar sempre pronto a descobrir novas possibilidades, novos Marcos Zero, e não ter pudor em destrui-los como um monstro iconoclasta;
e dos destroços absorver a 'sência, lançar luz independente, livre, mas não ser uma vanguarda 'condida em guetos, em grupos conformados com a sua radicalidade, pôr um poema dadaísta como trilha sonora de uma novela brasileira.
Aniquilar os preconceitos tê-los em sã inconsciência.
Que se multipliquem os formatos, os não-formatos, os «decompositores», as desarmonias, os grunhidos ...
Canção é somente barulho organizado.
Acabo de fazer uma música.
E agora?
Crítica, s.
f.: Arte de julgar as produções literárias, artísticas ou científicas;
comentário; apreciação (às vezes negativa).
há vagas para públicos ...
Minha cidade 'tá a ponto de implodir com tanta canção, eu já passei das cem, quantas mais virão?
Pra toda canção há um ouvido à sua 'pera?
Uma banda dos anos 50 influência três bandas dos anos 60 que influência 90 dos anos 70 que influência 200 dos anos 80 que influência 500 dos anos 90 que influência 2.000 dos anos 2.000, que sofre também influência de bandas dos anos 90, 80, 70, 60 e 50.
A o terno altivo:
nós, os farrapos.
Música contemporânea expressionista pós-dodecaf ônica viola cravo e clarinete dois dedos de percussão minimalista sons eletro-eco-acústicos ...
Eu tenho uma banda de Udigrude sem tambores de recife com teclados desintetizados de melodias distorcidas das grandes óperas com cantores sertanejos ...
Música moderna do sul da Europa com toques inerentes da áfrica oriental com voz e violão de orquestra de cool jazz mexicano tocado num cabaré de cuba ...
Para quem sobreviveu a enxurrada de palavras:
A idéia marco zero é a seguinte:
Movimentar músicos e bandas;
e de 'ta movimentação propor que desfaçam as suas bandas originais e montem outras, com outros músicos, que mudem os nomes, que cantem canções de outrem, que componham com outros, marquem encontros com desconhecidos e se houver contaminação mútua, que trabalhem, vamos fazer um disco-manifesto!
Esta é apenas a idéia marco zero ...
p.
s.: Não sei se haverá um músico sequer a aderir a 'te movimento, apenas me surgiu 'ta idéia, não 'pero (talvez só sonhe, e sonhar é muito!)
muita coisa, tampouco 'pero que bandas mais conhecidas embarquem em 'ta canoa (furada?),
eu que não tenho nenhuma banda pronta, talvez 'teja mais livre para participar, não conheço ninguém, ninguém me conhece ...
p.
s. 2: Mesmo não tendo muita 'perança ...
Gosto do trabalho do Dead Super Stars (é assim que se 'creve?),
adoraria colaborar com alguns de eles ou com músicos da banda Profiteroles (é assim que se 'creve?),
adoraria compor com Tomaz (é assim que se 'creve?),
gosto das letras de China e das harmonias de Marcelo Campello (é assim que se 'creve?),
saindo de Recife, gosto muito de Fernando Catatau e Pedro Sá.
p.
Número de frases: 41
s. 3: Aqui 'tá!
São 18 anos de cidadania (curiosamente a mesma idade da Constituição Federal do Brasil) e nunca consegui marcar o X ou apertar teclas para eleger um candidato a qualquer que fosse o cargo.
A os 18 anos minha bandeira era o voto nulo.
Ainda hoje é assim.
Não se trata de manifesto, protesto ou o que quer que possam alegar aqueles radicalmente contra o ato de inutilizar 'se direito paradoxal (ser obrigada a exercer um direito que, por definição, é uma faculdade acaba com o meu humor).
Anulo cada voto porque me recuso a eleger o famoso «menos pior», entendo que -- a despeito de quem seja eleito -- o sistema que 'trutura os Poderes Legislativo e Executivo não funciona (o Judiciário é tema diverso e maior).
De a forma como são eleitos, senhores e senhoras nem sempre ilustres, por mais que bem intencionados, sempre terão que ceder a alguma forma de crime / contravenção para atuar na máquina pública.
A história não deixa dúvidas quanto a isso.
Já dizia um amigo, a quem admiro:
«Meu partido conta mais de 500 anos, milito até a morte por a cultura».
Concluí minha graduação em Direito por um daqueles mecanismos da vida que a gente nunca vai entender.
Aprendi muito, passei muita raiva, encontrei o link do universo juris com minha atuação em comunicação e produção cultural, acabei ingressando numa pós-gradua ção em Direito Ambiental.
O meio ambiente cultural é meu campo de pesquisa.
Dia 27 pp assisti uma palestra do professor doutor Celso Fiorillo, sumidade em Direito Ambiental com publicações e currículo suficientes pra cansar a vista.
O cidadão sabe muito e qualquer oportunidade de ouvi-lo me é grata.
De 'sa vez não foi diferente.
Com sua oratória eloqüente disse exatamente o que penso, independe se 'te ou aquele candidato for eleito Presidente da República Federativa do Brasil enquanto os paradigmas da Administração Pública desse pedaço do planeta não forem dramaticamente modificados.
Enquanto aquele ser maldito (são milhões), varrendo sua calçada com milhares de litros de água doce e potável, achar que isso é direito de ele, afinal quem paga por o consumo é ele, voto nulo.
Enquanto ética for apenas um jargão de discursos demagógicos, voto nulo.
Enquanto a educação gerar seres de uma mediocridade e ignorância absurdas, voto nulo.
Enquanto o grito for o argumento maior, voto nulo.
Como dizia no início, me irrita ser obrigada a exercer um direito.
E amo o mestre palestrante que, ao ser taxado cínico, dá de ombros e segue desconstruindo dogmas.
Número de frases: 23
Desde que éramos crianças, ouvimos que devemos preservar o planeta.
Isso vai desde as tirinhas de Maurício de Souza (aquelas onde a Mônica dava lições de ecologia) às propagandas do Greenpeace na televisão.
Atualmente, até a moda tem procurado alternativas para a preservação do meio ambiente.
Em janeiro foi realizado o São Paulo Fashion Week, o maior e mais importante evento de moda do país.
Em sua última edição o evento mostrou que a moda também se preocupa com o meio ambiente ao apresentar o desfile-protesto da grife Cavalera, que aconteceu nas margens do rio Tietê.
Porém, a preocupação não pára por aí.
Em 2007 o evento firmou uma parceria com a ONG Iniciativa Verde.
Desde então, em todas as edições do evento existe um contador que registra a quantidade de gás carbônico liberado.
Essa contagem é revertida no número de árvores a serem plantadas.
A o final do evento, a ONG e o São Paulo Fashion Week plantam 'se número de árvores.
Além disso, todos os cenários dos desfiles e lounges são feitos em papelão, que depois é encaminhado para a reciclagem.
Outra atitude ecológica que o mundo da moda vem tomando é relativa à fabricação de tecidos.
Um dos processos mais poluentes na indústria têxtil é a coloração dos tecidos.
Sendo assim, aos poucos 'tão sendo desenvolvidos tecidos que dispensam 'se processo, ou seja, o fio já vem com a coloração correta.
Um exemplo é o nosso já conhecido algodão colorido.
Seguindo 'sa linha, a Redley 'tá investindo num algodão tingido com corantes naturais.
Outra novidade é o Ecovogt, desenvolvido por o 'tilista Caio Von Vogt.
É um tecido fabricado a partir da fibra da juta e que tem a textura do linho.
Esse tecido também é tingido com corantes naturais.
Atualmente, o Ecovogt tem sido usado tanto para a fabricação de roupas e acessórios como também na fabricação de sacolas que substituem as tradicionais sacolas de plástico que recebemos nas lojas.
As sacolas de Ecovogt se degradam em 2 anos, quando o algodão leva 10 anos e o poliéster 100. Essas sacolas viraram até tendência, super usadas nos corredores do prédio da Bienal no último São Paulo Fashion Week.
Se não as sacolas de eco-tecido, que pelo menos o cuidado com o planeta vire tendência.
Número de frases: 22
Ti Superar Ou Substituir Chamada para o dossiê:
«A Humanidade Sitiada "
Informamos que já se encontra definido o tema do dossiê da edição número 4 da revista «História, imagem e narrativas» (http://www.historiaimagem.com.br).
Trata-se de " A Humanidade Sitiada:
o medo e suas manifestações no tempo».
Encontramo-nos numa época na qual o aquecimento global promove alterações significativas no clima, na economia e, quiçá, nas relações sociais.
É também um momento em que as mídias suscitam receios arraigados em diversas sociedades e as confrontações políticas avançam num campo de batalha urbano e internacional por o terrorismo ou por o 'pectro do uso bélico da energia nuclear.
Cumpre-nos**, portanto, observar a efervescência de novas e antigas formas de enfrentarmos, compensarmos ou exorcizarmos nossos medos ou sucumbirmos a eles.
O que as Ciências Humanas e as demais formas de saber podem dizer a respeito?
Em meio às situações concretas de pavor em seqüestros de ônibus, trafegando por construções imaginárias apocalíptico-milenaristas, evocando o fantasma do levante de uma massa de marginalizados nos constrangimentos dos seqüestros virtuais, os fatores que levam o mundo atual a lidar com 'sa avalanche de experiências intensas clama por uma análise mais acurada.
Seria 'se um fenômeno exclusivamente contemporâneo?
Convidamos os interessados a enviarem suas colaborações.
O dossiê explorará as diversas formas de representação dos temores coletivos, os elementos que os justificam, aquilo que os promove, as construções e desconstruções em torno do assunto etc.
Tornamos a recordar que os artigos e resenhas devem ser enviados até o dia 01 de março de 2007.
Confiram as normas de publicação no endereço:
http://www.historiaimagem.com.br/normaspublicacao.pdf Saudações cordiais,
Número de frases: 16
Carlos Hollanda Há um livro que sempre indico para as pessoas que desejam conectar-se com as pesquisas cênicas contemporâneas, tais como a de um teatro contaminado por as outras mídias (dança, música, artes-plásticas), tomado por o hibridismo e que foge às categorizações:
Working in progress na cena conteporânea, de Renato Cohen.
O autor, que encantou-se em 2003, é um pensador-criador do teatro experimental, que ele denominava nos últimos 'critos de pós-teatro:
um plano de criação intermídias, processual e instável.
Cohen traçou caminhos em zig-zag, desnorteando referências por demais fixas, avizinhando-se de zonas fronteiriças, imprimindo um teatro gestual, de forte impacto visual e sonoro.
Trouxe para a cena o mito e o ritual, não de modo ilustrativo, mas sim ao modo de uma produção desejante, de um agora carregado de passado e futuro.
Cohem aponta para um procedimento de criação cênica que não se faz mais como obra acabada, mas como obra em processo.
Isso não quer dizer que ela seja mal-acabado, mas sim que, em ressonância com o 'pírito de época, sua incompletude passa a ser a sua virtude.
A obra em processo rompe com séculos de tradição artística ocidental, instaurando uma arte corroída por o seu próprio discurso.
Paul Virilio mostra, a respeito da contemporaneidade, que a arte torna-se acidente.
Porém, acrescenta, as obras de arte caminham, em sua maioria, sem saber desse fato.
Não se trata de uma visão catastrófica ou apocalíptica.
Virilio mostra que tudo já é acidente -- só falta tomar conhecimento disso.
E tal fato deveria ser visto como uma positividade.
Em 'se sentido, a obra processual de Renato Cohen incorpora as vicissitudes do trajeto, a incompletude dos significados, o atravessamento de multiplicidades, produzindo uma cena outra, na qual o acidente configura uma realidade existencial.
A pesquisadora de artes cênicas, Sílvia Fernandes, aponta alguns dos procedimentos utilizados por Cohen:
a) narrativas sobrepostas;
b) noção de obra progressiva a partir do corso-ricorso, tomado de James Joyce;
c) variáveis abertas num fluxo livre de associações, evitando assim o fechamento do sistema, como ocorreria, por exemplo, com o texto dramático;
e d) leitmotive condutores.
Tais procedimentos substituem o desenvolvimento dramático, procedimento clássico do teatro.
Cohen cita, constantemente, a arte minimalista, com suas fases e defasagens, com o uso de repetição que varia na sua diferença e que instaura planos meditativos.
Para os atores e performers, Cohen faz uso de diversos instrumentos, desde aqueles que foram transmitidos no âmbito da atividade artística, quanto daqueles que vêem do ritual, como o caso do xamanismo.
A performance, para Cohem, é tanto um campo sombrio e sinistro, carregado de ironia, quanto uma viagem de iniciação -- daí suas constantes referências na obra do artista e performer Joseph Beuys.
Uma iniciação que não se dá em moldes pré-'tabelecidos, mas a partir das próprias mitologias pessoais dos performers no encontro com as forças que atravessam a sensibilidade contemporânea.
Renato Cohen fez vários 'petáculos que fundiram na cena tais princípios e procedimentos:
entre eles, a sua 'tréia nos anos 80 com Magrite, 'pelho vivo (1986), Sturm and Drang / Tempestade e Ímpeto;
merecendo destaques, ainda, sua parceria com Peter Pál Pelbart e Sérgio Penna, junto com usuários do sistema de saúde mental, com Ueinzz, Viagem à Babel (1997) e posteriormente, Gothan SP (2001).
Tive a oportunidade de assistir a uma conferência e oficina de Renato Cohen, no Centro de Cultura de Belo Horizonte, em 2001, no projeto Seminário.
Perguntei, então, a Renato, como ele definia a dramaturgia (que não se limita ao teatro dramático, incluindo o chamado teatro pós-dramático), ele responde na velocidade de um raio:
é hipertexto, você entra num lugar e já cai em outro.
Porém, posso entender que ele não dizia simplesmente de uma alternância de paisagens, mas sim de uma coexistência não linear e não hierárquica das diversas imagens, que não tem a função de se explicar ou de se traduzir mutuamente.
O seu livro de 'tréia nos anos 80 (reeditado em 2004), Performance como linguagem, trouxe o campo da performance art, abrindo perspectivas sobre 'tética contemporânea e criação cênica.
A sua pesquisa mais recente, interrompida por a sua morte, referia-se à Performance e tecnologia na era da técnico-cultura.
Working in progress na cena contemporânea, o seu último livro, é um caixa de ressonâncias e conexões com os pensamentos criativos e com os procedimentos das vanguardas históricas, perpassando informações preciosas e dicas muito interessantes.
Aqueles que se interessam por a criação intermídias e processual, bem como desejam adentrar nos caminhos do pós-teatro, encontrarão no livro de Renato Cohen, Working in progress na cena contemporânea, fontes de pesquisa e inspiração.
Referências:
COHEN, Renato.
Working in progress na cena contemporânea.
São Paulo: Perspectiva, 2004 Performance como linguagem.
São Paulo: Perspectiva, 2004.
VIRILIO, Paul and LOTRINGER, Sylvère.
The accident of art.
MIT Press: Cambridge, Mass and London, England, 2005.
Número de frases: 44
Manos ...
ou melhor, hermanos ...
É possível um outro olhar sobre 'ta América nossa, latina, andina.
Como já abordado aqui em outras ocasiões, o tema volta à baila, pois se de um modo geral as relações entre nós 'tá para crescer e se afinar, cada vez mais e sempre, inclusive politicamente, por qual razão também não expandirmos fronteiras musicais?
Em um tempo em que decantamos a globalização como ferramenta imperiosa em mercados de toda ordem, por que não em 'se onde plantamos pés de feijão e coca e guaraná?
Oilá!
Vem a público agora em novembro (em São Paulo) e em dezembro no Mercado Cultural da Bahia o show América Contemporânea, mesmo nome do disco recém gravado e lançado por o selo Núcleo Contemporâneo.
O projeto nasceu da inquietação de Benjamin Taubkin, que com a responsa da curadoria de vários eventos musicais e ativa participação em festivais internacionais, pôde desenvolver com outros países uma linguagem de aproximação que culminou na realização de um encontro reunindo bons nomes da fauna musical brasileira e de alguns países vizinhos para tocar por aqui, em iniciativa que acabou rendendo o cedê.
Em turnê que nos dias 12 e 14 agora 'tará passando por Nova Iorque e Montreal respectivamente -- em Sampa a data é 27, no teatro Frei Caneca --, no palco cada um de eles apresenta ritmo (s) de seu país de origem, acompanhado por todos os outros, o que deve se transformar numa interessante usina sonora.
Recebi uma lista das músicas presentes na coletânea, com sucintas descrições que transcrevo abaixo, além de lincar cada um dos participantes, para que assim eles possam ser melhor conhecidos por todos nós.
-- Um Outro Centro
Carmelita, adiós (domínio público)
Um bullerengue.
Canto de origem ritual de mulheres da Costa Atlântica da Colômbia.
Panguito Lando (domínio público)
Canto tradicional da Costa Pacífica da Colômbia.
LUCIA PULIDO (Colômbia)
La musica y la palabra
Uma chacarera, ritmo do norte da Argentina
Carlos AGUIRRE (Argentina)
Misterios de mayo
Uma peça baseada no ritmo de saya-caporal, derivado dos ritmos do mundo afro-andino que gradualmente tem influenciado a música popular boliviana.
ÁLVARO MONTENEGRO (Bolívia)
A mis hermanos
Um merengue venezuelano dedicado aos irmãos de Aquiles, Julio e Gustavo.
Aquiles BAES (Venezuela)
Cantos de vaqueria (domínio público)
El gavilán (domínio público)
Cantos tradicionais dos vaqueiros colombianos
ANGEL CUSTODIO LOYOLA (Venezuela)
Vale do Jucá
Poema em ritmo de ciranda, dança de roda tradicional de Pernambuco, que fala sobre ancestralidade e a busca por as origens.
Siba (Brasil)
Cajoneando Um solo de cajon com ritmos afroperuanos inspirado nos 'cravos que vieram da África para o Peru.
O cajon é um instrumento originariamente peruano que depois foi absorvido por o Flamenco (há apenas 30 anos).
Atualmente é utilizado em todo o mundo.
Luis Solar Narciso (Lucho Solar) -- Peru
Tonada para mi niña
Baseada no ritmo da «tonada chilena», uma sofisticação rítmica e harmônica da cueca, ritmo e dança nacional, herança da mistura dos índios com os colonizadores 'panhóis.
CHRISTIAN GALVEZ (Chile)
Primavera ' A primavera é quando ninguém mais 'pera '
ZÉ MIGUEL WISNIK (Brasil) ... ...:
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Número de frases: 44
www.sitiodoesso.com O silencioso grito da periferia
Velho Mulato O pai era pintor de automóveis.
De aí a primeira relação com a tinta.
Mas os desenhos ele começou a fazer ainda no jardim da infância.
Aos poucos, o vigilante bancário Paulo Corrêa foi tomando consciência política e social do mundo a sua volta, e os ingênuos desenhos infantis foram transformando-se em arte que inspira reflexão social, com um olhar sobre a periferia, sobre os excluídos e sobre toda e qualquer injustiça social.
«Minha arte é uma maneira de cobrar da sociedade um olhar para a questão social», diz Paulo.
O artista pelotense, nascido em 1965 e habitante da periferia, já usou várias técnicas em seus trabalhos.
De o tradicional grafitte, passou por o guache artesanal (que se diferência do acadêmico por se feito com a tradicional têmpera) e por a tinta acrílica até chegar na pintura a óleo, utilizada nas obras mais recentes.
O resultado engloba trabalhos que começam a receber reconhecimento.
Uma brasileira que vive em Nova York acaba de comprar três quadros e, junto com as obras, levou também o currículo de Paulo para ser analisado nos Estados Unidos.
A forte ligação do artista com os movimentos sociais o levou a participar de atividades culturais ligadas à questão racial, como o seminário sobre Cultura Afro, realizado em 2000 juntamente com o grupo Odara, ligado ao Colégio Pelotense.
Foi aí que Paulo conheceu a artista plástica Carla Chuab, que o convidou para expor junto com seus alunos do " Instituto de Letras e Artes da UFPel.
«Foi uma ótima oportunidade, principalmente por o fato de que são poucos artistas negros que conseguem reconhecimento, a maioria fica no animato», diz ele num misto de alegria com uma ponta de frustração.
Paulo é autodidata, nunca 'tudou arte.
Tudo que produz parte do instinto, da alma mesmo.
«Uma manifestação silenciosa mas que chama a atenção», diz orgulhoso por ter vários trabalhos seus utilizados por os movimentos sociais como símbolo de uma luta e, muitos de eles, premiados em importantes festivais.
A tela «Grito da Periferia» ficou classifacada entre os cinco melhores do trabalhos do país e em primeiro lugar no RS no 1º Salão de Arte Afro-Brasileira do RS, realizado em 2005 no Memorial do RS, em Porto Alegre.
A exposição saiu da capital e percorreu as principais cidades gaúchas.
Perseverança
Nem mesmo o grave acidente ocorrido em 2001, que resultou na perda do braço 'querdo, fez paulo repensar seu trabalho.
Pelo contrário, serviu de 'tímulo e de força de retomada da própria vida.
«Ainda no hospital, quando soube que ficaria sem o braço, pedi à minha mulher meu material de desenho e alí mesmo comecei a criar», diz ele sem dar qualquer chance ao desânimo.
Por:
Número de frases: 23
Jairo Sanguiné (Núcleo Popular de Jornalismo) O primeiro longa-metragem e documentário realizado no Rio Grande do Norte
Sou um entusiasta por a sétima arte, onde, obrigatoriamente, busquei no excelente livro do jornalista potiguar «Anchieta Fernandes, Écran Natalense», conhecer a história do cinema no Rio Grande do Norte.
Desejava que uma curiosidade fosse satisfeita ao ler 'te livro;
qual foi o primeiro longa-metragem produzido em terras potiguares?
Em uma das páginas, uma pequena nota apontava para um documentário produzido por o governo do 'tado, no início dos anos de 1920.
Busquei maiores detalhes sobre 'te projeto cinematográfico e encontrei uma interessante história:
Em uma edição do jornal «A Republica, de 25 de julho de 1924», temos uma reportagem sobre a criação de um» film «que mostrava a» vida actual «e» as possibilidades econômicas do Rio Grande do Norte».
Informava «que o Dr. Amphilóquio Carlos Soares da Câmara 'tava com a missão de dirigir, e naquele momento, acompanhava no Rio de Janeiro a conclusão do material para posterior exibição».
Lendo a reportagem detalhada sobre a película, me recordei que já tinha tido oportunidade de ler um livro chamado «Scenarios Norte-Riograndenses removeme de 1923», de autoria do mesmo Amphilóquio Câmara, que mostrava as diversas regiões, os potenciais econômicos, as cidades, as características e particularidades do Rio Grande do Norte dos anos 20 do século passado.
Este livro fora preparado visando mostrar aos potiguares o que o 'tado possuía e como as nossas riquezas foram vistas na Exposição Nacional do Centenário da Independência, em 1922, quando o próprio Amphilóquio havia sido designado delegado do Rio Grande do Norte para 'te evento.
Comparando a descrição e as fotos existentes no livro, e lendo a reportagem sobre o documentário existente em «A República», pude perceber que o livro e a película tinham ligação concreta.
Mostrando como os conhecimentos de Amphilóquio Câmara 'tavam sendo utilizados na execução deste projeto cinematográfico.
O então governador José Augusto Bezerra de Medeiros apoiou a idéia de Amphilóquio, que buscou contratar um dos melhores cinegrafistas existentes no país, o mineiro Aristides Junqueira, autor do curta-metragem «Reminiscências», hoje considerado o filme brasileiro mais antigo (1909) ainda disponível.
Ficou decidido que o título da película seria, «Cine-Jornal removeme».
Junqueira e Amphilóquio iniciaram o trabalho no final de 1923, tendo sido rodados quatro mil metros de película.
Foram feitas, segundo o relato existente no jornal, imagens da capital com seus bairros, avenidas principais, igrejas, praças, a vida cotidiana, vistas do mar e imagens do dia-a-dia.
Um dos exemplos foi uma panorâmica em 360° da cidade, feita a partir da torre da Igreja Matriz, na praça André de Albuquerque, então o ponto mais elevado de uma Natal que possuía uma população em torno de 25.000 pessoas.
Como a principal área urbanizada da cidade, praticamente se restringia ao Centro e a Ribeira, provavelmente em 'ta tomada, Junqueira filmou toda a área da capital potiguar.
Igualmente foram filmados ações de governo, prédios públicos, 'colas, obras de saneamento da cidade, hospitais, sanatórios e outros.
Fatos sociais foram mostrados, um de eles foi o desembarque de José Augusto em Natal, na manhã de 24 de dezembro de 1923.
Foi um evento concorrido, onde várias autoridades e figuras sociais 'tavam presentes no cais da Tavares de Lyra.
José Augusto chegava do Rio de Janeiro, então Capital Federal, para tomar posse como governador.
Toda a solenidade foi filmada tanto fora, como dentro do palácio de governo.
Outro evento mostrado foi à inauguração da sede da Associação dos Escoteiros de Natal.
O governador decidiu que seriam realizadas filmagens no interior do 'tado.
Para 'ta empreitada, além de Amphilóquio e Junqueira, uniu-se ao grupo o advogado Dioclécio Duarte.
Estes seguiram visitando e filmando aspectos sociais e econômicos de Macaíba, Ceará-Mirim, a praia de Muriú, Macau, Mossoró, Areia Branca e Grossos.
Em Macaíba, as lentes de Junqueira apontaram para o então Campo de Demonstração Agrícola.
Em Ceará-Mirim, o alvo foi a produção de cana-de-açúcar, onde uma das tomadas foi realizada num ponto elevado do engenho «Villa Bella».
Em o engenho «União», foram feitas cenas da moagem da cana, do trabalho tradicional e da casa do seu proprietário, o» coronel " Felismino Dantas.
Em Muriú, a saída dos pescadores em tradicionais jangadas, foi apresentada para o grupo que realizava o documentário.
Em Macau foram filmados solenidades na cidade, os aspectos da indústria salineira, com imagens da salina «Conde Pereira Carneiro» e o transporte do sal para os barcos salineiros impulsionados por a força dos ventos.
Em a povoação de «Independência» (atual Pendências), foi apresentado ao grupo à cultura da carnaúba e alguns vastos carnaubais.
Mossoró era apresentado como o «maior empório comercial do 'tado, com sua população de 20.000 habitantes».
Foi realizada uma panorâmica da cidade, feita a partir da torre da igreja de São Vicente.
Praças, igrejas, ruas, prédios públicos, com destaque para a Escola Normal, foram capturados por a lente de Junqueira.
Já Grossos e Areia Branca tiveram destaques por as salinas e o porto.
Segundo as notícias, as fortes chuvas ocorridas no primeiro semestre de 1924, impossibilitaram que fossem filmadas outras cidades do interior do Estado.
Além das notícias publicadas no jornal «A Republica», uma referência sobre 'te filme pode ser lida na própria mensagem governamental de José Augusto, no ano de 1924, onde nas páginas 67 e 68, no tópico» Museu Agrícola e Commercial», o governador afirmava a necessidade de se fazer propaganda dos recursos do Estado, utilizando 'ta película, em 'te museu que 'tava sendo criado por o Governo Federal.
O trabalho do cinegrafista Aristides Junqueira parece ter-se prolongado mais tempo no Rio Grande do Norte.
Em a edição de 12 de novembro de 2000 da «Tribuna do Norte», numa reportagem sobre pesquisas e catalogação do material relativo a Intentona Comunista, existente no próprio Arquivo Público do Estado, existem cartas de Junqueira comentando sobre o levante de 1935.
Em a reportagem, a então diretora do Arquivo, Vanilde de Souza Rêgo, comenta que o cineasta fez relatos de como ocorreu o movimento comunista na região salineira, algo então desconhecido para muitos.
Em uma das cartas, Junqueira afirmava 'tar «cavando com a machina cinematographica o pão nosso de cada dia ...»,
onde ele filmaria «as salinas para os meus jornalecos quando 'tourou o movimento comunista em Natal».
Teria o cinegrafista Junqueira continuado trabalhando freqüentemente com filmagens no Rio Grande do Norte?
Ou 'te cineasta mineiro teria retornado ao 'tado, apenas para uma nova refilmagem da região salineira e, coincidentemente, 'tava na área quando ocorreu a Intentona Comunista?
Haveria outros antigos documentários sobre o Rio Grande do Norte?
Esta película é certamente o primeiro trabalho cinematográfico, em longa-metragem, no formato de um documentário, realizado de forma profissional no Rio Grande do Norte e desenvolvido por um dos melhores cinegrafistas existentes no Brasil da década de 1920.
Foi um projeto executado como uma ação de governo, apresentando a nossa realidade social e econômica, em meio a um país eminentemente agrícola.
difícil, mas é possível acreditar na possibilidade de que existam alguns fotogramas de 'ta película, talvez algo mais completo do filme, bastando para isto pesquisar de forma correta e trabalhar sério.
Encontrar o que sobrou deste material é rever uma Natal e um Rio Grande do Norte que não existem mais.
Não é necessário muito 'forço para imaginar a importância que a descoberta material de 'ta película teria para a história iconográfica do Rio Grande do Norte e para nossa história de maneira geral.
Após as filmagens, foi realizada a preparação das imagens no Rio de Janeiro, onde houve uma primeira exibição do «Cine-Jornal removeme» e a película volta ao 'tado.
Em o dia 16 de outubro de 1924, o documentário começou a ser anunciado nos jornais locais.
Era informado que 'te seria um «filme que interessa a todo riograndense do norte».
A exibição ocorreu nas duas principais salas de exibição existentes em Natal, o Royal e o Polytheama, onde o material cinematográfico foi dividido em duas exibições, em 13 partes distintas.
Em a primeira apresentação foram expostas seis partes, no dia posterior, outras sete partes foram exibidas, tendo sido a película repetida por mais uma semana e de forma contínua.
Em a primeira exibição o valor da entrada foi de 1100 (um mil e cem réis), na segunda exibição o valor foi de 2000 (dois mil réis).
Ainda segundo a opinião dos redatores de «A Republica», o filme causou uma boa impressão na cidade.
Entretanto, Américo Gentile, o proprietário das duas salas de projeção, baixou o preço da entrada para 1000 réis.
O «Cine-Jornal removeme» foi ainda mostrado em Mossoró e Caicó.
Em a Capital do Oeste a exibição ocorreu no início de 1925, na Escola Normal.
Já em Caicó, a notícia informa apenas o fato, mas não o local.
Após 'tas apresentações, não se encontram notícias sobre outras exibições do documentário nos jornais e ele é 'quecido.
Número de frases: 64
Rostand Medeiros -- Pesquisador
Rio Subterrâneo: Impressões da leitura
Discutem, ele e o amigo, sobre a existência ou não de Deus.
A certa altura, o amigo afirma: --
Sábado que vem eu vou morrer e no outro eu venho te falar se Deus existe ou não.
Brincadeira, é claro!
Em o sábado seguinte, no entanto, recebe a notícia do suicidio de seu amigo.
Taturanas no umbuzeiro.
As maiores, coloridas, são inofensivas, e ele se diverte enforcando-as e vendo sair de dentro de elas um líquido purulento.
As menores, no entanto, ele as teme, pois sabe que tem por os urticantes que provocam dores e, até, febre.
Isolada num quarto do sobrado vive um velha alienada por a loucura.
Ele a visita sempre, sem que ninguém fique sabendo e sem que ela denote qualquer reação á sua presença.
Mas será que a velha não irá demonstrar nada diante da ameaça de um contato com a taturana venenosa?
Debalde ele leva a taturana em direção à velha, em atitude ameaçadora e como ela não reage, consuma o ato, atirando a taturana sobre a velha que, nem mesmo assim, 'boça qualquer reação.
Horas depois presência movimentação no sentido de remover a velha, ardendo em febre, do casarão.
Incestuosos, edipianos, sádicos;
loucos ou vivendo uma atmosfera delirante, são assim os personagens que povoam «o mais desesperado livro que se 'creveu no Brasil» na justa definição dada por o crítico e ensaista Homero da Silveira à novela «Rio Subterrâneo» do oeirense O. G. Rêgo de Carvalho (1930-), o mais importante ficcionista piauiense em todos os tempos.
O Uso do Cachimbo faz a " Boca Torta?
Rio Subterrâneo " foi apenas a terceira mas também a última novela 'crita por OG que, no entanto, permanece vivo e gozando saúde aos 78 anos de idade, aposentado do Banco do Brasil e casado, desde 1996, com a professora Divaneide Maria.
A novela é considerada sua obra-prima, um livro que o inscreve entre os grandes nomes da literatura brasileira.
Foi publicada há mais de 40 anos, 'tando, portanto.
o 'critor, em plena maturidade criativa.
A ninguém seria lícito supor, naquela altura, um abrupto fim de sua promissora carreira como 'critor.
O próprio OG anunciava os preparativos para uma nova empreitada literaria, que até ja tinha nome «Era noite, Afonsina».
» ... Sem se fazer notar, aproxima-se do garoto por as costas.
A sua imobilidade seria absoluta, não fosse a respiração ansiosa que lhe agita o corpo magro e ossudo.
A mão direita parece tocar em alguma cousa no 'trume, algo que Dulce não percebe, pois a cabeça do sobrinho lhe toma a vista.
Um passo, na terra fofa -- e eis que solta um grito agudo, 'tridente, não sufocado na garganta.
Ao pé da roseira há uma coleção de lagartas, insetos e rãs mortos, alguns já ressequidos, outros apodrecendo.
Em aquele instante, Lucínio acariciava a pele de um rato seco, em cujo rosto havia coágulos de sangue " (Rio Subterrâneo, pág 20)
Contaminado, por assim dizer, na construção da pútrida atmosfera onde seus doidos personagens chafurdam e deliram, OG foi, ele mesmo, levado a internamento psiquiátrico com sintomas da doença que tão bem descreve em suas novelas.
Passada a Crise Psicótica, foi terminantemente proibido, por os médicos que lhe deram tratamento, de voltar a 'crever pois, caso contrário, o desatino, mais que inevitável, seria irreversível.
A síndrome piauiense dos «poetas trágicos», apontada no livro do 'critor e jornalista Zózimo Tavares, pode ser novamente descrita no caso do ficcionista OG Rego de Carvalho.
precocemente vitimado por a própria e incontida criatividade, fazendo de 'critor um misto de Dom Quixote e Miguel de Cervantes, uma fusão do criador com sua criatura.
Orlando Geraldo Rêgo de Carvalho nasceu em Oeiras em 25 de janeiro de 1930, filho de José Rego de Carvalho e de Dona Aracy de Carvalho.
Dito por ele mesmo:
«Eu nasci numa família que tem uma certa ambição de nobreza, tenho ancestral que foi Barão do império, tenho ancestrais ligados à colonozação do Piauí, gente educada em Portugal:
é Ribeiro Gonçalves, é Barbosa de Carvalho, é Coelho Rodruigues ..."
Seu avô, o Coronel Orlando de Carvalho, foi interventor em Oeiras durante o Estado Novo e é possível enxergar, sem 'forço, no centro histórico da cidade, as obras construídas em 'te período, a mais evidente constituida por a belissimo conjunto arquitetônico Art Nouveau (1940) integrado por o Cine Theatro, Café Oeiras e um terceiro prédio, hoje ocupado por o Clube dos Diretores Lojistas.
Órfão de pai (suicida) aos oito anos -- fato.
aliás, reportado no seu livro autobiográfico de 'tréia (aos 23 anos de idade), OG muda-se para Teresina em 1942.
Sua mãe, bandolinista e uma das pessoas responsáveis por a tradição do instrumento em Oeiras, após a morte do marido abandona o ensino musical.
Quando publicou «Ulisses entre o amor e a morte, em 1953», OG dicidiu enviar cópias de seu livro a cerca de trezentos 'critores e luminares de literatura em todo o Brasil, tendo recebido inúmeras críticas extremamente favoráveis à novela, que trata de maneira sutil e refinada os conflitos próprios da adolescência.
Só por o tema, Ulisses já denoda a diferença entre o seu fazer literário daquilo que era praticado por os literatos piauienses de antanho ...
Mesmo se considerada a literatura nordestina, é singular o local ocupado por OG, que, num cenário tipicamente piauiense, eu diria até, oeirense, constroi reflexões sobre temas universais.
Aliás, sempre teve plena consciência de seu valor como 'criba, sendo ácido crítico em relação a seus «pares», o que lhe valeu, certamente, muitas inimizades.
Em a minha segunda ou terceira viagem a Teresina, me lembro como se fosse hoje, fui visitar, na Oficina da Palavra, o professor Cineas Santos que, na época, além do grande intelectual orgânico que é, era um empresário de sucesso, dono da Corisco, livraria e editora, que chegou a ter uma simpática mega-store em Teresina, além de outras filiais
O Cineas me recebeu muito bem, e me mimoseou com um livro cujo título não me recordo (acho que se chamava «prosa reunida» de OG Rego de Carvalho).
O fato é que o livro continha as três novelas de OG:
Ulisses entre o Amor e a Morte, Somos todos Inocentes e Rio Subterrâneo.
Perguntado por mim, Cineas já havia me dito que «Rio Subterrâneo» era a melhor das três mas, naquele ano de 2003.
comemorava-se os cinqüenta anos do lançamento de Ulisses.
Li Ulisses entre o amor e a morte, uma novela encantadora que faz uma reflexão sobre a adolescência, li «Somos todos Inocentes» e ...
emprestei o livro para uma amiga.
Nunca mais revi o livro e, por via de conseqüência, acabei, até poucos dias atrás, não lendo «Rio Subterrâneo».
Devo dizer que não se trata de uma leitura fácil e que nem vale a pena dá-la por concluída;
lidas todas as suas páginas 162 páginas uma única vez.
Mas também preciso salientar que dizer isto é muitíssimo pouco.
Em uma crônica intitulada «Para entender OG Rego de Carvalho» o Dr. José Expedito Rego propõe uma mudança na seqüência da leitura dos capítulos, aproximando os similares, alegando que OG «'facelou o texto, dispondo em desordem as várias partes do livro».
Não concordo com 'ta visão por dois motivos:
não acho que a leitura que Zé Expedito propõe facilite o entendimento da obra, nem que o texto, tal como apresentado, 'teja «'facelado».
O que há, na realidade, é que «Rio Subterrâneo» possui uma linguagem cinematográfica, visceralmente moderna, onde se entrelaçam lembranças e delírios dos personagens, com, eu diria, pequenos fragmentos de realidade.
A leitura de «Rio Subterrâneo» me deixou convencido de que OG ainda não ocupa o lugar que merece na literatura brasileira.
Há também um interessante comentário denominado «O Complexo de Édipo na obra de OG Rêgo de Carvalho» também de autoria do Dr José Expedito Rego.
Para adquir os livros do OG Rego de Carvalho:
Livraria Des Livres 086-32327998 deslivres@hotmail.com
Livraria Leonel Franca -- Rua Barroso, 353 --Centro -- Fone (86) Livraria Leonel Franca -- Av..
Ininga, 1201.
Loja V 70/71.
Livraria Piauiense: Av..
Frei Serafim, n° 1932 Centro Teresina / Piauí * Fone:
Número de frases: 71
(86) 3223.7994 * www.livrariapiauiense.com.br.
Casa da Photographia comemora 10 anos com grande mostra em Brasília
Em comemoração aos seus 10 anos, a Casa da Photographia realizará de 14 de dezembro de 2006 a 14 de janeiro de 2007, na Caixa Cultural de Brasília, a exposição coletiva Mostra de 10 anos da Casa da Photographia.
Serão 60 obras, todas em P & B, de cinco artistas.
São eles:
Filipe Cartaxo, Exídio Correia, Francisco Vieira, Paulo Lima, todos ex-alunos e Marcelo Reis, diretor da Casa da Photographia e também curador da mostra e dos trabalhos individuais.
Mesmo sendo cinco fotógrafos, com diferentes olhares, há semelhanças entre as fotografias de Filipe, Exídio e Paulo.
Os três abordam a utilização da natureza por o homem.
Cartaxo, utilizando como cenário a contra-costa da Ilha de Itaparica, na Bahia, registra o cotidiano do povo daquela região.
A sensibilidade do olhar de Filipe é sentida em cada corte, em cada ângulo, e na perspectiva de cada fotografia.
Exídio Correia em ensaio feito em Remanso, Chapada Diamantina, com muita sensibilidade, disponível de forma consciente a poucos homens, faz uma pesquisa foto-literária.
Em 'te trabalho é possível saber que a fotografia, quase artesanal, é a verdadeira contracorrente dos próprios desejos humanos.
Já Paulo Lima, traz cenas densas, evidenciando uma poética na construção das imagens figurativas.
Com um «ar» plástico e às vezes de um moderno -- no sentido de novo -- jornalismo documental, nas suas fotografias percebe-se a presença numerosa do elemento construtivo da criança, hora ocupando todo o quadro, hora quase que imperceptível, mas com densidade de igual valor.
As fotografias de Francisco Vieira e Marcelo Reis apresentam semelhanças ao abordarem a relação da realidade para o homem.
Em o seu trabalho, Vieira usa como ponto central o operário.
É um tema representativo, que expõe e destaca a força de trabalho dos que se ocupam em construir.
As fotografias, uma homenagem ao trabalhador da construção civil, revelam a percepção do fotógrafo sobre o cotidiano de uma obra.
Enquanto isso, Reis utiliza elementos fundamentais para a sustentabilidade da modernidade, vista como um sistema funcional, para falar da solidão a qual o homem moderno é submetido ou mesmo condenado.
O artista faz uma leitura crítica sobre as problemáticas que cercam o homem em sua vida moderna, tendo como pano de fundo a megacidade de São Paulo.
Criada em 1997, então como Núcleo de Pesquisas Fotográficas, a Casa da Photographia mantém, desde a sua criação, a proposta de divulgar projetos e trabalhos de novos talentos na área de fotografia, sempre buscando o apoio e a coerência dos próprios fotógrafos veteranos, que através de palestras, cursos ou atividades práticas propiciam o aprendizado de técnicas e 'tilos.
Em 2001, a Casa da Photographia passou a assumir, mais intensamente, a postura de Escola de Fotografia, buscando com isso uma rentabilidade que pudesse assegurar a continuidade de todas as suas atividades, já que a instituição é totalmente privada.
Coordenada por Marcelo Reis, fotógrafo de atividade plena, a Casa da Photographia mantém cursos técnicos e conceituais.
Além disso, em 2004 se tornou Produtora Cultural e já começou com sucesso.
Produziu a exposição Nossas Almas, de Francisco Vieira, na Caixa cultural do Rio de Janeiro e o lançamento do livro A Leveza do Concreto, do mesmo artista.
Foi também da Casa da Photographia a produção do II Festival Nacional de Fotografia -- A Gosto da Photographia, uma série de palestras, exposições e oficinas.
Realizado nas cidades de Salvador, Cachoeira, Feira de Santana, Vitória da Conquista e São Félix, o festival reuniu os maiores nomes da fotografia local e nacional, a exemplos de Mario Cravo Neto, Christian Cravo, Rogério Ferrari, Marcelo Reis, Evandro Teixeira, Fernando Stickel, Carlos Carvalho, de entre outros.
Serviço
Evento: Mostra de 10 aos da Casa da Photographia
Local: Caixa Cultural de Brasília
Endereço: SBS, quadra 4, lote ¾, edifício anexo, 4 andar -- Brasília.
CEP: 70092900
Contato: 61 3206 8982
61 3206-86-8671
Mais informações
Número de frases: 35
Marli Santana Assessoria de Imprensa 71 3263 1388 / 3248 9797 / 9153 1971
Ah, que saudade da época da 'cola ...
A saudade foi tanta que decidi parar e fazer 'sa viagem no tempo ...
Nossa, foi questão de segundos!
As lembranças começaram a chegar de todos os cantos e lá 'tava eu na segunda metade dos anos 70 em Fundão, pequena cidade do Estado do Espírito Santo, arrumando meu material 'colar no embornal, costurado por a minha avó Almerinda, para ir à 'cola.
Acordávamos bem cedo e, enquanto meus tios mais velhos saíam para o trabalho na roça, eu, meus primos e os tios mais novos começávamos nossa aventura de todos os dias.
A 'trada era longa e por isso brincávamos muito na ida e na volta.
Em 'sa época, as 'colas rurais eram denominadas «Escolas Unidocentes» -- uma única sala para as quatro séries iniciais e uma única professora que também era diretora, servente e, é claro, «mãe».
Com direito de corrigir os filhos com reguadas e beliscões, se preciso fosse.
A minha primeira professora era uma mulher alta e muito severa, de poucos risos e quase sempre se valia do direito de «mãe» para nos corrigir numa leitura gaguejada ou numa tabuada respondida incorretamente ...
e era impossível não errar tamanho era o nosso nervosismo diante de ela.
E se mostrássemos em casa orelhas vermelhas, marcas deixadas por beliscões e réguas, apanhávamos de novo dos nossos pais.
A professora tinha sempre razão.
E era professora!
Em a roça nunca tivemos o hábito de chamar de «tia» quem não fosse irmã dos nossos pais.
As marcas ficaram.
Não só as ruins ...
Aprendi com ela a ler e 'crever com segurança!
Depois de dois anos na Escola Unidocente Valão Grande, nos mudamos para outra um pouco mais perto de nossa casa que acabara de abrir ...
Escola Unidocente Duas Bocas. A professora-faz-tudo era um doce, se chamava Marly e até brincava com a gente na hora do recreio.
Quando dava bronca não amedrontava ...
impunha respeito.
Um dia na semana, a merenda era sopa de legumes preparada por ela no fogão à lenha do pequeno colégio.
Como éramos todos filhos de agricultores, cada aluno levava um legume ou verdura e os meninos ficavam responsáveis também por ir catando lenha seca durante o trajeto até a 'cola.
As sopas eram sempre deliciosas.
Posso sentir o cheiro em 'se momento ...
A maior vergonha que já passei na vida também 'tá atrelada às minhas boas lembranças desse tempo e não consigo apagá-la.
Um dia, na hora do recreio, 'tava distraído no meio do pequeno pátio e um outro menino, numa ação rápida, veio por trás e puxou meu calção até os pés ...
até hoje quando me lembro sinto um pouquinho de vergonha.
Eu era uma criança muito tímida e chorei o resto do dia.
Mas aquilo serviu para eu crescer mais atento a tudo.
Algumas «brincadeiras» nos marcam pra sempre.
Já adolescente, nos inesquecíveis anos 80, a 'cola agora ficava no centro da cidade, bem mais longe de casa.
Quando não 'tava chovendo íamos de bicicleta.
A minha passagem por o «polivalente» -- Escola de 1º grau Eloy Miranda foi uma festa!
Foi lá que fiz grandes amizades que duram até hoje.
Foi lá também que me apaixonei pela primeira vez e que conheci Inez Gottardi, a melhor professora de português que já tive e que teria total importância na minha 'colha profissional.
Depois de terminar a oitava série, com o coração partido, tive que me mudar para o Rio de Janeiro e concluir aqui os meus 'tudos.
Cursei Letras e me 'pecializei em Arte-Educa ção.
Mas minha ligação com Fundão é e sempre será muito forte.
Em 2005 lancei um livro infantil «A menina que vendia bala no trem» e na ocasião fui convidado por a Prefeitura de lá a fazer um trabalho nas 'colas municipais.
Fui com o maior prazer!
Em a noite de autógrafos, na casa da cultura, junto com muitos amigos, 'tava ela:
Inez, a minha professora de português.
Os olhos brilhando emocionados e eu parecendo seu aluno outra vez, fazendo tudo para impressioná-la.
Foi a minha primeira grande emoção de retorno à cidade.
Durante a semana percorri as 'colas com o pessoal da Educação.
Fiquei sabendo, então, que as unidocentes não existiam mais.
A prefeitura disponibiliza ônibus para transportar os 'tudantes para a cidade.
Em uma das 'colas que me apresentei outra grande surpresa me aguardava.
No meio de muitas crianças e professores, um rosto me era familiar.
A o se aproximar ...
Meu Deus!
Os mesmos cabelos compridos e amarelados, a pele rosada e agora marcada por o tempo ...
Os olhos tinham o mesmo viço de quando os vi pela primeira vez.
Marly Demoner! A minha doce professora da 3ª série cumpria seu último ano ali naquela 'cola como coordenadora, antes de se aposentar.
Nos abraçamos por alguns minutos.
E eu, tão acostumado com as palavras, fiquei em silêncio olhando para a ela e fotografando aquele momento.
Foi um dos abraços mais gostosos que já recebi.
Hoje sou professor e amo o que faço!
Tenho muito desses e outros mestres no meu modo de ensinar e de amar!
Número de frases: 61
Este texto nasceu na seção Conversas e após uma breve troca de opiniões fiquei encarregado de postá-lo aqui no Overblog.
Estive em Recife durante a Feira Música Brasil e gostei muito de ter participado.
É certo que grande parte do meu entusiasmo decorre de ter reencontrado amigos queridos e conhecido pessoas bacanas também, mas 'pero conseguir dar um depoimento isento.
As conferências apresentadas no Porto Musical foram, no geral, muito interessantes.
Em as que freqüentei o nível do debate foi muito bom, o que demonstra não só a qualidades dos palestrantes mas também o nível da assistência.
Uma pena que houve mais palestras do que tempo para assisti-las, mas feiras são assim mesmo.
Vale a pena comentar o guia da feira, um caderninho prá lá de simpático com toda a programação musical, mapas, resumos das conferências e -- muito importante!--
uma pequena biografia dos palestrantes, que se mostra muito útil nas ações pós-feira.
Os shows:
A FMB contou com shows de todos os tamanhos, alguns nos bares e restaurantes do Recife Antigo, outros no Teatro Santa Isabel, alguns na Praça do Arsenal e os maiores no Marco Zero.
Não assisti a muitos shows mas como os palcos eram próximos circulei bastante enquanto aconteciam e vi um público que -- no meu entender -- me pareceu pequeno.
Esta baixa freqüência talvez se explique em razão da grande oferta de atrações, pois havia muita coisa acontecendo não só na feira mas em todo o Recife e talvez isto tenha dispersado o público.
Outro detalhe:
vi poucos olheiros nos shows, ou seja, se o objetivo foi ofertá-los para serem vistos por produtores 'trangeiros ávidos por comprá-los, frustrou-se.
Sobre o curso Especialização sobre gestão de propriedade intelectual como ativo econômico, não tenho como opinar pois não o freqüentei, mas só o fato de ele 'tar inserido na programação da feira é -- no meu entender -- muito positivo.
A mostra de produtos foi igual à todas outras que já vi, sem grandes novidades:
muitos 'tandes, muitos produtos bacanas, centenas de milhares de CDs à venda, muita gente circulando, 'sas coisas.
As grandes vedetes foram, sem dúvida, o Venture Forum Música Brasil do BNDES e as Rodadas de Negócios comandadas por o Sebrae.
Não cheguei a participar do Venture Forum -- de caráter bem empresarial -- mas vi e ouvi pessoas muito motivadas com 'ta iniciativa.
As Rodadas de Negócios do Sebrae tiveram foco em negocições com selos, gravadoras e distribuidoras, mas nem por isso foram menos importantes.
Muitos músicos miúdos (como eu) tiveram oportunidade de oferecer seus produtos a empresas 'trangeiras e brasileiras que por sua vez tiveram acesso a uma produção não ofertada no mainstream.
Acredito que 'tas iniciativas foram um golaço da organização da feira porque elas extrapolaram o discurso e passaram à ação.
Todo o dia ouço alguém dizer que a cultura é um dos maiores ativos do Brasil e coisa-e-tal, mas via de regra são só palavras.
Estas ações concretizaram 'te discurso e acho que isso foi um marco, 'pero ver 'tas iniciativas repetidas em outras feiras no Brasil.
Para ser sintético, era isso.
Número de frases: 25
Estou ansioso para ouvir outras opiniões.
Uma nova ferramenta de acesso a conteúdo digital 'tará disponível em breve no Brasil, e o Netlabel pioneiro do Brasil 'tará presente.
Trata-se da FUN STATION que nada mais é, que um posto de abastecimento de conteúdo digital com música, vídeos, ringtones entre outros tipos de mídia.
De 'sa forma, o selo agora, além de 'tar presente nas webstores de música, também poderá ser acessado em shoppings, aeroportos, supermercados, baladas, livrarias e diversos outros pontos do Brasil e no exterior.
Todo o catálogo 'tará disponível, sendo que do «Netlabel» 'tará sendo distribuído de forma gratuita e o novo catálogo pago será vendido com preços que variam de 1,00 a 2,00 reais.
O Lançamento acontece no Festival Eletrônica em Belo Horizonte, e em seguida na FNAC em São Paulo.
O «Primeiro Album Meeting of Good Souls de Modern Process» já poderá ser baixado nas 'tações para o seu mp3 player ou celular.
Número de frases: 7
A Fun Station é um projeto desenvolvido por a UNIVERSITÁ De ela SVIZZERA Italiana, e no Brasil representada por a Maynard Enterprises.
Há algum tempo, 'perava-se que com avanço da idade as pessoas mudassem seu comportamento, tornassem-se mais caseiras, mais sisudas.
Mas uma nova geração de trintões ('tou inclusa em 'sa), quarentões, cinqüentões e até mesmo sessentões tem mostrado que é possível envelhecer sem perder o vigor e a «juventude».
Essa nova geração, porém, não pode ser confundida com os «adultescentes», ou seja, com aqueles marmanjões que se recusam a sair da casa dos pais ou com aqueles coroas que tentam parecer meninos, tipo Tio-Sukita.
Muito pelo contrário disso.
Essa nova geração, que nos Estados Unidos recebeu o apelido de «grup», uma contração de grown up (adulto), tem responsabilidades normais -- trabalho, casamento, filhos.
No entanto, tem visual e até mesmo hábitos de adolescentes, isto é, usam tênis e roupas descoladas, são fissurados por aparelhos eletrônicos tipo iPod, câmera digital, palm e etc, curtem bandas alternativas e até freqüentam casas noturnas.
É uma nova forma de ser adulto.
Afinal, segundo o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro aumentou de 66 anos para 71. Portanto, um sujeito de 40 anos hoje tem pelo menos três décadas de vida útil, se tudo correr bem.
Com o aumento da expectativa de vida, as fases 'tão sendo redefinidas, diz a psicoterapeuta Lídia Rosenberg Aratangy em entrevista à revista Época.
Mas não é só isso, pois, segundo Janelle Wilson, socióloga americana e autora de um dos mais completos 'tudos sobre os adolescentes, 'sa geração, denominada de A Geração X, cresceu com uma nova realidade social.
Muitos eram filhos de pais separados, viviam em casa em que homem e mulher trabalhavam fora.
Assistiram ao início da decadência dos antigos padrões sociais e não têm medo de jogá-los para o alto.
Além disso, diz Janelle, eles sempre tiveram contato com as novas tecnologias.
A maioria nasceu depois da chegada do homem à Lua (1969), viu surgir o videocassete e o computador pessoal.
E tudo isso se reflete no comportamento dos grups.
Apesar de toda 'sa mudança de comportamento, porém, não pense que os grups não exigem que os filhos avisem se vão chegar tarde em casa, tirem boas notas no colégio e diminuam o volume do som no quarto, viu?
Afinal, como foi dito no início, os grups são pessoas que têm apenas jeito de adolescentes, mas são Adultos! (
risos).
Fonte (s):
Revista Época
Número de frases: 21
Musiquinhas de Natal me dão arrepios nervosos.
Tocas vermelhas nos funcionários do comércio provocam-ma tentar assegurar ao trabalhador o direito de não fazer papel de ridículo por causa de seu emprego.
Comprar presentes por obrigação também não é do meu agrado.
De fato, tenho dificuldades para entrar no 'pírito natalino.
Amigo secreto de final de ano no trabalho -- a parte dos bilhetes é suprimida, afinal quem quer se dar ao trabalho de 'crever mensagens anônimas e criativas para uma das criaturas com quem trabalha todo dia?
Para facilitar, há a indicação do presente que se deseja receber.
Em a hora da revelação, o sorriso amarelo finge surpresa -- o colega comprou exatamente o que o mandamos comprar.
Bom, pelo menos tem-se o prazer de ter delegado a compra.
Entendo a necessidade de impulsionar o comércio no período do décimo terceiro salário (vai que o trabalhador resolva poupar ...)
a fim de garantir o famoso «crescimento econômico».
Fazer distribuição de renda, ainda que seja dos que já tem para o que querem mais ainda -- 'se é um dos lemas implícitos de Natal.
Por outro lado, reivindicar o 'pírito cristão e humanizador da data, alegando que Natal não significa apenas comércio, só surte efeito para quem é cristão e praticante de sua religião;
para os demais, é só papo moralizante tentando justificar a ânsia de consumo.
Aliás, mais chato do que o marketing de Natal é a defesa do «'pírito natalino».
A noção de crescimento econômico 'tá equivocada, como alertam os ecologistas.
Crescer em nome da exploração e do consumo gera um impacto ao meio ambiente, que, por sua vez, causa danos irreversíveis ao planeta e à saúde dos seres vivos.
Para tentar reparar os danos, mais gastos e mais impacto são necessários.
Consumir e produzir mais acaba saindo mais caro para todo mundo em todos os sentidos a médio e longo prazos (que são bem curtos atualmente).
Comprar, comprar.
De preferência com uma embalagem bonita, como anunciam algumas lojas:
«Presente de Natal é na * * * * [ ...]
com embalagens maravilhosas."
Plástico, papel, isopor, madeira, os «embrulhos», como se dizia antigamente, são naturalmente todos jogados fora no dia 25 de dezembro.
Antes disso, o 'pírito compralino deixa as pessoas em alvoroço por as ruas.
Os presentes são dados, a felicidade e a alegria são divididos, mas a que preço?
São indispensáveis todas as coisas inúteis compradas e trocadas no Natal?
O décimo terceiro comprometido, as prestações até março e abril (na melhor das hipóteses) e os juros significam mais trabalho, mais aprisionamento.
Se em vez do 'pírito compralino, as pessoas se motivassem a fazer coisas de que gostam.
Embora possivelmente gostem muito de comprar, poderiam tentar descobrir outras formas de se alegrar e alegrar os outros -- mais baratas ou mais caras --, mas que não envolvessem ter que dar uma lembrancinha (um mimo) a todo mundo que conhece.
Talvez surgisse a possibilidade do não-presente, do não-impacto, do não-desgaste.
Quem sabe mais atividades culturais, artísticas, 'portivas, religiosas ...?
Número de frases: 31
Quem sabe mais tempo para curtir os amigos e familiares, trabalhando menos e tendo mais lazer?
Antigamente, até o ano 2000 mais ou menos funcionava assim:
as gravadoras gravavam quem elas queriam e achavam que faria sucesso, então, faziam a divulgação em rádios e Tvs.
Em a maioria das vezes fechava-se o pacote.
Por exemplo, fechou pacote com a Globo, fechou com TV e seus variados programas com variados públicos;
fechou também com suas rádios AM e FM e seus variados públicos, mais seus jornais, suas revistas e seus sites em território nacional.
Isso se fechar só com a Globo.
Se fizer contrato com mais outras empresas de comunicação que também têm rádios, jornais, revistas e etc, isso se multiplica muito.
Não é pouca coisa.
E não é barato.
É caro.
Muito.
Mas depois dos computadores, da grande rede e da pirataria (graças a Deus) o jogo mudou um pouco.
O ministro das telecomunicações continua privilegiando e sendo indicado por os conglomerados de comunicação e suas rádios e TVs (meios diferentes, mesmos donos) e deputados e senadores são donos, ou como eles preferem eufemizar, são cotistas das afiliadas das grandes redes em seus 'tados.
Pra mim, não muda muito se são donos por inteiro ou cotistas já que ao deputado seu interesse empresarial pode vir 1º em suas 'colhas no congresso.
Mas as gravadoras sofreram mais.
Com a pirataria perdeu dinheiro e com a internet perdeu muito de sua influência e credibilidade no meio musical.
Se antes ter um contrato era um sonho quase incacansável por qualquer músico que se prezasse, hoje o mesmo é quase um pesadelo indesejável pois pode ser uma geladeira de anos para a maioria de eles.
E nisso o mercado independente cresceu como nunca e tem hoje seu maior bum.
Qualquer um hoje pode botar a boca e mostrar sua arte, o que é muito democrático e bom.
Incrivelmente não se vê a mesma «independência» nas rádios e TV's.
O lobby das gravadoras com os meios de comunicação e seus donos ainda é fortíssima e quase -- quase?--
não se vê artistas independentes nas grandes redes de comunicação.
Em a TV, nos programas mais assistidos só se vê os mesmos poucos e privilegiados artistas de gravadoras que ainda têm o seu 'paço intocado lá.
As tentativas ainda são muito tímidas.
Existe um quadro chamado «Pistolão» no Faustão, mas ainda tem que ser amigo de alguém muito famoso para poder fazer.
Partindo deste princípio, penso que as gravadoras não devem 'tar assim tão falidas.
Como pode a internet mostrar tantos artistas, bons artistas e ótimas músicas e somente os artistas de gravadoras têm 'paço na TV e no rádio?
Claro que a concentração de mídia na mão de poucos donos, a chamada propriedade cruzada (na qual não se pode ser dono de mais de um veículo de mídia, é ou jornal ou Tv ou rádio, não pode ter dois juntos ou mais, como normalmente acontece aqui) influi totalmente na disparidade de espaço dado aos artistas contratados por as grandes empresas que têm poder, dinheiro e influência política e os outros que 'tão sozinhos e têm tão somente a boa música.
Com 'sa influência toda, não é de se 'pantar que nossos políticos não votem e não discutam sobre isso.
Para que discutir isso quando você também é dono de canais de rádios e TV's e retransmite o sinal das grandes empresas de comunicação que recebem para manter 'tes artistas lá?
É incoerente para os negócios, não é verdade?
Ah, mas alguém pode dizer que «os negócios» são ilegais e que os deputados não podem ou não poderiam ser donos de canais de rádios e TV's.
Sim, isso é verdade.
Eles não podeRIAM.
Mas são.
Até o ministro das comunicações tem a sua rádio (clique aqui para ler sobre).
Dizem que com a rádio digital o número de canais no rádio vai aumentar.
Em a TV ainda nada.
Mas se isso acontecer provavelmente vai aumentar e melhorar muito o mercado independente de música que sobrevive graças a internet e 'te poderá inclusive sair do meio internet e entrar no meio rádio, muito mais popular e ainda muito mais democrático e poder ganhar as ruas e tocar país afora.
Hoje só se ganha dinheiro fazendo shows, mas fazer shows ainda é muito difícil.
Dificilmente alguém contrata um show de alguém que não toca na rádio.
Se você não toca na rádio você não existe, não é conhecido e se você não é conhecido porque trazê-lo para fazer show?
Que empresário contrata para perder dinheiro?
Com a regulamentação de propriedade cruzada e a abertura do 'pectro de rádios e TV's a mais empresas e mais diferentes tipos de negócios, podemos ter com isso a abertura à bandas independentes o mercado independente vai de vez conseguir se auto gerir sem somente se auto sobreviver e depender de festivais que não pagam caché mas recebem dinheiro através de patrocinadores que geralmente não é repassado aos artistas.
Ou seja, 'tes não recebem mesmo tocando.
Enquanto isso não acontecer e a regulamentação não for sequer discutida como se não fosse necessária ao país teremos 20 artistas muito famosos fazendo muitos shows e tocando na rádio e ganhando dinheiro com mega-shows lotados em 'tádios de futebol e publicidade enquanto todo o resto -- sabe-se lá o nº de artistas independentes e populares -- vão cotinuar na vontade de querer 'tar fazendo shows e vivendo de música.
Sem poder se dedicar aquilo e sem até gerar empregos já que um 'petáculo musical gera-se muitos empregos.
Mas nossa política, infelizmente, é outra.
Desestimulamos a criatividade do nosso povo e vetamos que o próprio povo possa decidir sobre o que ele quer ouvir, deixando isso por anos na mão de executivos de gravadoras, que sempre pensaram 1º no lucro das empresas que trabalhavam ou eram donos.
E isso continua assim nas TV's e rádios.
Será que isso um dia muda?
Talvez no dia em que regulamentem a propriedade cruzada.
Ou talvez no dia que a internet cobrir 95 % do território nacional assim como a televisão.
É, 'se dia deve vir mais rápido.
Isso se não mudarem as regras da internet.
* * * Mais infos sobre 'sa politica:
http://www.youtube.com/watch?
v = T zm0 ZS5DQ8
http://www.youtube.com/watch? v = D54SacPPYyQ
Número de frases: 60
http://www.youtube.com/watch? v = eVn0 kx6mvW4
«Confesso que» não é a melhor maneira de começar um texto, acho um jeito meio pobre de fazê-lo, sem criatividade, mas confesso que me sentei para ler Piauí com um certo nojinho.
Isso porque João Moreira Salles -- o líder do projeto -- tinha dito para uma rádio gaúcha que a publicação era para quem tinha «um parafuso a mais».
Hmm, pensei, começou mal.
A questão toda é que o slogan denota uma qualidade do consumidor, mas não diz muito da revista mesma.
É natural que sobre Piauí (ignoro o p minúsculo, que considero um preciosismo besta) já soubessem aqueles leitores mais atentos às mudanças do mercado editorial brasileiro -- quem leu sobre a Festa Literária Internacional de Parati deste ano, por exemplo, mais ou menos já sabia da revista, quem seriam os colaboradores, etc..
E quem ouvisse a entrevista com Moreira Salles no rádio saberia classificá-la antes do lançamento?
«Uma revista para quem tem um parafuso a mais» não diz nada.
Tem o demérito de açular a vaidade do leitor mais ignorante, que compra a publicação antes por auto-elogio do que por o que 'pera encontrar.
Se nada sabe de Piauí, mas tem a si mesmo em alta conta, o consumidor conclui, 'fuziante, o silogismo:
«para quem tem um parafuso a mais?
É para mim!"
E errará.
Apelar para a virtude do leitor é um recurso meio arriscado.
Fazendo uma concessãozinha à sociologia da distinção (coisa que não repetirei, juro), ler uma revista «para quem tem um parafuso a mais» me cheira a «verniz cultural».
Se você, como eu, detesta 'sa expressão, me perdoe, mas o fato é que muita gente leva a sério a questão da aparência -- e talvez 'sas mesmas pessoas se sintam tentadas a ler Piauí exatamente por isso.
Que uma publicação assuma um significado distintivo no decorrer do tempo, só temos que lamentar;
sem estardalhaço, contudo, para que não pareça ressentimento.
Mas que assuma assim, de início, 'sa evidência, é ainda menos abonador para si mesma.
Há leitores que só muito a contragosto lerão Piauí em público.
Eu, por exemplo.
«Ele 'tá lendo aquela revista para quem tem um parafuso a mais», dirão de mim, como se eu assim desejasse parecer.
É bom para a auto-'tima que cada um pense de si que tem um parafuso a mais.
Mas isso não é o tipo de coisa que se admite em público:
o observador mais atento pode concluir exatamente o oposto do que se quer comunicar.
Se, do contrário, Piauí fosse a revista para os parvos, idiotas e limitados, eu viraria assinante.
Embora a ironia de um slogan assim fosse constrangedoramente clara, é melhor que um mote que pressupõe toda a minha complexidade e profundidade como leitor.
Se li?
Número de frases: 28
Sim. E gostei.
Sentado sobre os calcanhares, ele observa, inerte, o movimento dos engravatados.
Registrado e batizado José de Lima Brito, Seo Brito para os colegas, F6544347 para a empresa.
Hoje é sexta-feira, e já são quatro da tarde.
Está só 'perando o fumante apagar seu cigarro pra que ele possa varrer as cinzas, 'vaziar a lixeira, trocar de roupa e ir embora.
Escuta o papo do sujeito ao celular, que combina com alguém a quem se refere por ' meu amor ', um happy hour no pub mais próximo.
Não sabia o que era pub, mas provavemente não era ambiente pra ele.
Enquanto veste a camisa vermelha e dá um lustre nos sapatos, pensa em Catarina.
Pegaria o 151 no terminal, saltaria de frente à avenida, 'peraria por o 876, que o levaria até ela.
O feijão aumentou em sete porcento 'sa semana.
Havia lido no jornal que usara para forrar a lixeira aquela manhã.
Ficou triste, sem saber que o periódico era datado da semana anterior;
'sa semana o aumento já 'tava na casa dos onze e meio porcento.
Não entendia bem a euforia do Dr. Alberto, com o final do expediente.
Era um homem gordo, parrudo, de 'tatura mediana, calvo no topo da cabeça;
cabelos grisalhos faziam a volta por trás das orelhas.
Usava terno claro e havia concluído a tardia faculdade de contabilidade no ano passado.
Recebera uma promoção no setor e gostava quando tratavam-no por doutor.
Seo Brito não o desagradava.
Correra para o terminal, senão perderia o ônibus que ia para a Catarina.
Sacoleja daqui e de ali, deixa a gestante passar, cuidado com a pochete.
Salta na avenida e respira fundo a fumaça do diesel.
Confere os pertences e a colônia que a Catarina adora.
Tudo nos conformes.
Atravessa a pista, pega o 876. Mais sacolejos, o dia se vai;
já são seis e meia.
Um lugar vazio, afinal.
Confere se o assento 'tá limpo.
Senta-se.
Confere se não tem poeira no encosto.
Encosta-se.
Com a pochete no colo, relaxa.
Esboça um sorriso e sonha com Catarina.
Passa um quebra-molas e ele acorda de sopetão.
Havia perdido a parada da casa de de ela.
Desce um quilômetro e meio depois e volta andando.
Para em frente ao portão da amada.
Late o cão.
Tira o pequeno pente do bolso, ajeita o cabelo e as sobrancelhas, e toca a campainha.
Bate palmas.
Late o cão.
Passa a bicicleta.
Bate palmas.
Viu um movimento lá dentro, podia sentir o perfume de ela no ar.
Abre-se uma fresta na porta, uma idosa senhora diz que Catarina acabara de sair.
Sabia que havia sentido seu perfume.
Porque havia de dormir no ônibus?!
Aquilo não era certo ...
não merecia mesmo aquela mulher.
Já eram oito horas e ele ainda 'tava na frente da casa, pensando quão irresponsável havia sido.
Senta sobre os calcanhares, como gostava de fazer.
Esfrega as mãos ressecadas e calejadas tentando realizar o acontecido.
Número de frases: 52
Volta para a casa no 745, pensando nos sete porcento do feijão.
Tudo começou quando o médico disse que eu precisava perder alguns quilinhos.
Humpf!!! Desagradável ouvir que 'tá acima do peso mesmo quando se tem a certeza de que 'tá.
«O Dr. Raiz tem um chá fabuloso para emagrecer, vou comprar as ervas mais tarde.
Quer ir com mim?"
Convite de uma colega de 'tágio.
E a supresa ao saber que uma das lojas do Dr. Raiz ficava na rua do meu 'tágio e não numa «colonha» distante da capital, como imaginava.
Pura ignorância dos não-acreanos desinformados e fora do peso.
Quatro lojas rua acima, que vergonha!
Figura simpática, com um «acreanês» singular, Raimundo Nonato Pereira da Silva, 39 anos, nasceu no Seringal Aquibadam, a 12 km de Xapuri e veio para Rio Branco, ainda rapaz, em busca de uma vida melhor.
Diz que herdou dos avós e dos pais o interesse por as plantas, mas só começou a trabalhar com elas em 1986 quando foi morar no bairro Plácido de Castro.
As mães o procuravam para rezar por seus filhos doentes e em 'sa reza sempre entrava uma planta medicinal.
Reza tem tudo a ver com plantas medicinais.
Ajuda a curar quebranto, campainha caída, 'pinhela caída e todo tipo de mal.
Milagres da Floresta fica dentro do Mercado Velho, entre o restaurante e uma loja de roupas de bebê.
Fiquei zonza com o aroma das ervas, levou um tempinho para acostumar.
Em um pedaço livre da parede fica o certificado de 'pecialista em plantas medicinais, conferido por a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2002.
Em as prateleiras dezenas de pacotinhos com cáscara sagrada, cupim, pau-pereira, cipó ambeca, carapiá, chapéu de couro, cumaruzim, cravo de defunto, canapú, chá preto, cravo da Índia, canela em casca ...
e as ervas cobrem todas as paredes.
Raizeiro bom que é, ficou conhecido dentro e fora do Acre por causa do Xampu Esperança e a garrafada Fortalecimento do Ser Humano e Saúde da Mulher.
O xampu é bom para combater a queda de cabelo e a calvície e promete melhora entre duas semanas e um ano.
A fórmula é feita à base de mulateiro, babosa e outras ervas não reveladas.
Se falar, perde o mistério e a clientela.
A garrafada, receita conceituada que o fez ganhar o prêmio Qualidade Brasil, é conhecida como «Viagra do Amazonas», contra impotência sexual masculina e feminina.
Contém catuaba, chuchuá, marapuama, nó de cachorro, pó de guaraná, pau de resposta, jucá, e por aí vai ...
«Muitas mulheres tomam e ficam menina, como diz o outro ...
ele restaura vontade sexual e auto-'tima de elas.
Muitas vezes, por falta de amor, perdem a vontade na relação e a relação é uma coisa que não pode acabar ...»,
disse, docemente, o Dr. Raiz.
E o Dr. Raiz ficou ainda mais conhecido dias atrás com a reportagem veiculada no Globo Repórter que divulgava seus produtos.
Agora recebe pedidos de todo o Brasil e até os acreanos, que já conheciam o Xampu Esperança, passaram a consumir mais.
Será personagem real da minissérie Amazônia, apareceu na revista Caras com Cristiane Torloni."
É bom para a gente quando um artista de renome como a Cristiane agradece», disse.
«Muitas pessoas voltam pra agradecer, outras são sinceras em avisar que o chá não serviu.
A gente não é perfeito com as coisas que faz, mas tá procurando ser inteligente com as coisas de Deus, com as coisas da natureza ..."
Sempre há um chá contra qualquer malefício que atinja uma criatura de Deus:
o óleo da copaíba é um excelente cicatrizante.
O sangue de dragão serve para tratamento de úlcera, gastrite e pedras na vesícula.
Tem xarope para gripe, bronquite, asma;
garrafadas para gastrite, ácido úrico, gota.
Até para depressão, tem o calmante composto.
Ainda não experimentei o chá emagrecedor.
Meu ceticismo impede um mergulho mais profundo nos conhecimentos tradicionais das ervas da Amazônia.
Levo mais tempo com certas adaptações, mas pude constatar que muitos acreanos crêem na eficácia das ervas tanto ou mais do que o tratamento médico, o que significa que algumas funcionam mesmo.
Mérito dos sábios raizeiros.
Número de frases: 45
Resenha
História, Teatro e Turismo cultural
Uma experiência
Originalmente, o projeto de encenação do Auto do Manoel Kongo, foi concebido no contexto de um trabalho de ação cultural, desenvolvido junto com animadores culturais da Secretaria Especial de Programas Especiais do Estado do Rio de Janeiro, (Cieps), no âmbito dos municípios do Sul Fluminense (Vale do Rio Paraíba do Sul).
Sob a orientação geral da musicóloga Cecília Conde e a inspiração do antropólogo Darcy Ribeiro, o programa de Animação cultural em Cieps, foi um formidável 'forço de arte educação que abrangeu uma rede de centenas de 'colas, entre os anos de 1982 e 1996.
Proposto por a coordenação de animação cultural da área (função que o autor desempenhava na ocasião) pretendeu-se com 'ta ação unir os 'forços de diversas instituições oficiais, municipais, 'taduais e federais, num amplo 'forço, que servisse para 'timular 'tratégias de turismo cultural (a exemplo do que ocorre em cidades como Nova Jerusalém, no nordeste), talvez uma das poucas alternativas para a (na época) combalida economia de 'ta região fluminense.
Assim, constatando-se ser o passado histórico, representado, entre outras coisas, por a bem preservada cultura tradicional da população local, a única herança pública deixada por a decadência em que o Vale mergulhou com o fim dos áureos tempos do café, buscou-se um tema que, conjugando o rico patrimônio histórico e arquitetônico das cidades do local, servisse de subsídio para a elaboração de um texto para um auto teatral, que pudesse ser encenado nas ruas de uma cidade da região.
Sem muita dificuldade, o coletivo de animadores culturais optou por a história do Quilombo de Manoel Kongo e por a cidade de Vassouras, palco deste que é, sem dúvida, o evento histórico mais importante e abrangente, ocorrido naquela região quando de seu apogeu e, talvez em todos os modorrentos tempos que se seguiram.
Por conta de diversos fatores e percalços, as circunstâncias da época (1996) acabaram por tornar inviável a primeira tentativa de montagem do 'petáculo que, do ponto de vista artístico, já 'tava em fase bastante adiantada (ensaio geral)
De entre 'tes percalços, além dos problemas apresentados, à última hora, por a empresa que produzia o evento, foram também significativos (embora não determinantes), os problemas encontrados para se sensibilizar os empresários e fazendeiros da região quanto à pertinência do conceito de ' Turismo Cultural ' que defendíamos, que não omitia alusões óbvias ao passado 'cravocrata da cidade, que, não podendo ser omitidas da trama do 'petáculo, por serem a sua chave dramatúrgica, de certo modo constrangiam a 'tratificação social da região, como no tempo de Manoel Kongo, ainda hoje quase que inalterada, com muito nomes de tradicionais famílias da aristocracia cafeeira, citados no texto do auto como 'cravocratas empedernidos no passado, figurando ainda no quadro de poder local em prefeituras, câmaras e secretarias.
Tendo o seu texto baseado nos autos de condenação de Manoel Congo, reproduzidos no livro ' Insurreição negra e Justiça'de João Luiz Duboc Pinaud e outros autores, a encenação abortada, contou também com o inestimável apoio do pesquisador vassourense Paulo Mandaro, da arquiteta Isabel Rocha (diretora do Iphan da área), da direção do Ciep de Vassouras na época, além dos cerca de 30 animadores culturais da região que envolvia, além de Vassouras e entre outras, as cidades de Paraíba do Sul, Rio das Flores, Paracambi, Paty do Alferes, Barra do Piraí, Valença e Pinheiral.
A Forma
O Auto do Manoel Kongo foi 'crito em 1996, 'pecialmente para ser apresentado em cenários naturais, originalmente o perímetro urbano de Vassouras ou de outra cidade histórica qualquer, localizada no Vale do rio Paraíba do Sul, no 'tado do Rio de Janeiro.
O roteiro do 'petáculo obedece às condições gerais do 'paço previsto para a encenação:
Ruínas, sacadas de prédios históricos, trechos de rua, chafarizes ou quaisquer outros pedaços de passado preservado, que possam compor a cenografia (ou a geografia) do 'petáculo.
O roteiro original propõe também a participação de grupos culturais da periferia da cidade (música e dança tradicionais) tanto no contexto dramático do 'petáculo, quanto em eventos paralelos, à cargo de instituições e agentes culturais locais.
Em o elenco proposto, parcialmente, integrado por atores profissionais, 'tá prevista também a participação de um número considerável de figurantes (não atores), recrutados entre a população local.
Como peça de divulgação (folder e programa) do 'petáculo, o programa propõe a edição 'pecial do tablóide fictício " A Voz da Comarca ', a ser amplamente distribuído na região, a partir da semana que antecede ao 'petáculo.
De 'ta edição do tablóide (que reproduz um jornal do século 19), constará além da ficha técnica e demais informações sobre o 'petáculo, peças de publicidade dos patrocinadores.
Para a véspera do 'petáculo, também como 'tratégia para a divulgação do evento, o roteiro prevê a encenação de diversas situações do cotidiano de uma cidade do Vale, no século 19, com figurantes 'palhados por ruas e 'paços onde o auto será encenado.
De o mesmo modo, o programa sugere aos agentes culturais locais, a promoção de passeios de charrete (com cocheiros vestidos a caráter) e visitas guiadas às fazendas da região (com a possível realização de saraus de música popular ou erudita)
A História
Com o 'gotamento do ouro nas Minas Gerais, a economia brasileira se deslocou para o Vale do Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro.
O posterior 'plendor da região, com seu eixo localizado na Vila de Paty do Alferes e, logo em seguida, na Vila de Vassouras, alavancou o desenvolvimento do Brasil por quase todo o século 19.
O signo principal deste ciclo de desenvolvimento era o café, mercadoria com enorme importância no mercado internacional do período, do qual o Brasil foi, durante muito tempo, o maior produtor.
Brasil e sua economia dependiam, no entanto, de outra mercadoria, ainda mais 'sencial do que o café;
A força de trabalho do 'cravo africano.
Ambos negros, 'cravo e café, fizeram algumas das maiores fortunas do mundo da época, fortunas 'tas que, concentradas quase todas na região do Vale do Paraíba do Sul, geraram a sociedade dos chamados ' barões do café ', nababesca e prepotente, assentada numa 'trutura social sem povo, composta, basicamente, por aristocratas e 'cravos.
Seqüestrados de Angola, Congo, Moçambique e trazidos a partir, principalmente, do porto de Luanda para serem vendidos no mercado do Valongo, próximo ao porto do Rio de Janeiro, os africanos que, depois de longa jornada a pé, chegavam à plantações de café do Vale do Paraíba, acabaram se tornando, não só um elemento 'sencial para a economia local mas também, como se pôde concluir mais tarde, num elemento capaz de ameaçar a própria segurança física daquela sociedade.
A Trama
Em 6 de novembro de 1838, o africano Camilo Sapateiro, 'cravo da fazenda freguesia foi morto a tiros, quando se dirigia, clandestinamente, à fazenda Maravilha, ambas pertencentes ao maior proprietário de 'cravos e principal autoridade da comarca:
o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier.
O assassino, um capataz da fazenda, quase foi linchado por os 'cravos.
O que pretendia fazer Camilo Sapateiro na fazenda vizinha quando foi morto?
Teria sido a sua morte, por o capataz (um incidente algo corriqueiro na rotina 'cravista), a verdadeira razão da insurreição de 'cravos de tão grandes proporções, que se seguiu?
De roldão, os 'cravos rebelados, divididos em dois grupos, saquearam as duas fazendas do Capitão-Mor e fugiram para a mata próxima.
Em um ponto, ao que tudo indica, previamente combinando de 'ta mata, um dos grupos se encontrou com um número indeterminado de 'cravos de outras fazendas, além das duas de propriedade do Capitão-Mor.
A imediata adesão de 'cravos de outras fazendas chama, fortemente, a atenção para a possibilidade de ter havido algum tipo de articulação prévia entre os rebelados.
O fato é que, um grande grupo se embrenha na mata, rumo a alto da Serra da Estrela, montando um arranchamento para pernoite, á cada fim de tarde do trajeto da fuga.
Perseguida por tropas da Guarda Nacional e homens recrutados por o juiz de paz da comarca, uma parte deste grupo é atacada e dominada, quando ainda dormia, no quarto dia de fuga.
Tropas do Exército Imperial, convocadas às pressas, comandadas por o então Capitão Luiz Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, só chegam na área do conflito quando tudo já havia terminado.
Em o grupo de 'cravos derrotados, 'tá o suposto chefe da insurreição, denominado ' Rei ', Manoel Congo, ferreiro da fazenda Maravilha e uma mulher, denominada ' Rainha ', a costureira Marianna Crioula, 'crava de confiança da senhora dos 'cravos das fazendas Maravilha e Freguesia, Dona Elisa Xavier.
A um 'cravo morto na refrega, mas, não identificado nos autos, é atribuída a função de ' Vice-rei ' da insurreição e do futuro suposto quilombo.
Este 'cravo pode ser identificado, nas entrelinhas dos autos, como sendo o africano de nação Munhambane Epifânio Moçambique.
Um número indeterminado de negros do grupo atacado consegue se embrenhar na mata, serra acima e de ele não se tem mais notícias.
Não se tem notícias também do segundo grupo, comandado por um 'cravo chamado João Angola que, não 'tando presente no ponto de encontro com o'Rei ', nem presente no momento do ataque, foi visto no dia anterior prestes a assaltar a fábrica de pólvora da região, desaparecendo por outro caminho, rumo á Serra do Couto, próxima à Serra a Estrela, aparentemente, o destino final de todos os rebelados.
Pode-se, por 'tas evidências, entre outras surgidas na pesquisa, supor que os relatos que dão conta da existência de um quilombo na região, jamais desbaratado, são factíveis.
A despeito de 'tas evidências, a maioria dos proprietários alegou que seus 'cravos retornaram, 'pontaneamente, à suas fazendas, mas, não existem registros seguros dando conta de quantos, efetivamente, fugiram e retornaram.
A alegação livrava os fazendeiros das pesadas custas processuais, caso tivessem negros de sua propriedade (e responsabilidade) arrolados como rebeldes.
O peso total de 'tas custas processuais acabou recaindo sobre o Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, que, depois dos 'cravos presos e condenados, passa a ser a principal vítima dos incidentes.
De um total de cerca de trezentos 'cravos fugidos e rebelados, apenas vinte e três (todos pertencentes a Manoel Francisco Xavier) são aprisionados (sete haviam sido mortos na refrega).
De estes vinte e três presos, sete são mulheres (é significativo, do ponto de vista logístico, o fato deste grupo de presos, a maioria feridos na refrega, ser aquele onde 'tavam a maioria das mulheres e, provavelmente, os homens mais velhos e as crianças).
Cerca de dezesseis presos deste grupo são, efetivamente, julgados.
A maioria é condenada, com uma única exceção:
o 'cravo Adão Benguela que, apesar de 'tar tão envolvido quanto todos os outros nos conflitos, é 'tranhamente absolvido.
O suposto ' Rei'Manoel Congo ', é condenado à forca e executado em 1839 em Vassouras.
Os Antecedentes
A observação acurada -- e crítica -- de fatos descritos em documentos da época, principalmente os autos do processo montado na ocasião, contendo os depoimentos dos 'cravos presos, pequenos indícios ou omissões aparentemente deliberadas, contradições entre os depoimentos, etc., formam a base principal utilizada para a elaboração deste texto teatral.
Formam também a base de dados da pesquisa, textos 'parsos, de outras fontes e um raro e inestimável relato, ao vivo, extraído por o autor de uma entrevista (veja em 'te link) por ele realizada em 1975, com uma ex-'crava de uma das fazendas da região, que ali viveu, alguns anos após os incidentes descritos por os autos.
A intenção foi, portanto, construir a trama, mais ou menos como uma reportagem (' Teatro-Verdade ', talvez fosse o conceito mais apropriado) sempre que possível, a partir de dados verídicos, mais ou menos à maneira de uma reconstituição policial.
Com efeito, coisas muito inusitadas ocorriam naquela região em 'ta época de grande efervescência social.
Segundo dados descritos na crônica da cidade de Vassouras, um ano antes da fundação da vila, ocorrida em 1833, um grupo de proprietários criava a Sociedade Promotora da Civilização e da Indústria, de verniz positivista, e dedicada, entre outras coisas, à formação de artífices 'cravos, como mão de obra 'pecializada, com o fim de possibilitar a manutenção de equipamentos, até então, feita por engenheiros vindos da Inglaterra e até -- suprema ousadia -- iniciar talvez a própria substituição da importação de máquinas e ferramentas agrícolas que, oriundas da Europa, obviamente com a mão de obra dos 'cravos-operários 'pecializados, formados por a SCPI, passariam a ser fabricadas por aqui mesmo.
Ferreiros e marceneiros eram as principais 'pecialidades indispensáveis à incrível proposta desenvolvimentista da SCPI.
Os artífices a serem treinados, seriam recrutados, por seus proprietários, entre os seus 'cravos mais hábeis e inteligentes.
A mais incrível das coincidências era que o ofício de ferreiro era, ainda em 'ta época, a partir de uma tradição africana que remonta o século 15, uma ocupação exclusiva de reis e nobres, um status de poder hierárquico superior na cultura dos Kimbundos, grupo étnico angolano que, em grande maioria, contribuiu com 'cravos para as plantações de café do vale do Paraíba do Sul.
Sabe-se por as mesmas fontes que, um ano depois (por volta de 1834), uma curiosa sociedade secreta, composta por negros 'cravos e libertos, com uma elaborada 'trutura, havia surgido em Vassouras, quatro anos, portanto, antes da insurreição de Manoel Congo.
Esta ' insidiosa ' organização, segundo foi descrito por 'ta mesma crônica da Cidade de vassouras, andava ruminando um levante que pretendia libertar todos os 'cravos da área.
Somente nove anos depois, ou seja, em 1847, a tal organização secreta pode ser desbaratada.
Os registros policiais da ocasião, afirmaram que ela se autodenominava Elbanda (Embanda, mais propriamente talvez, por ser a expressão o mesmo que sacerdote ou médico no idioma de origem) e era formada por núcleos ou células clandestinas, dirigidas, obrigatoriamente, por 'cravos ferreiros e marceneiros, chamados por os outros 'cravos de ' Pais ` (ou ' Tatas ') Korongos.
Também curiosamente, pesquisas bem recentes sobre a cultura dos Kimbundos, nos dão conta que era por demais comum na sociedade angolana do século 19, a proliferação de seitas e sociedades secretas, por diversas motivações, prática que pode ter sido seguida por os 'cravos de Vassouras.
Esta emocionante reconstituição nos dá conta, enfim, de uma malha de 'tranhas relações, interesses e contradições, bastante incomuns na história oficial do 'cravismo brasileiro, 'tabelecidas entre proprietários e 'cravos, 'cravos entre si, além de proprietários, do mesmo modo entre si.
Um impressionante conflito humano sacudindo os alicerces daquela sociedade imperial, questionando o seu anacronismo.
Matéria pura para teatro.
Drama.
Você vai poder ler num próximo momento, em 'te mesmo site, o texto completo deste emocionante Auto do Manoel Kongo, cuja extensa resenha disponibilizamos aqui.
Saiba desde já, contudo, que para a felicidade geral da nação (mesmo que incomode a alguns poucos) toda história que precisa ser contada, mais cedo ou mais tarde o será.
O Quilombo do Manoel Kongo vive!
Spírito Santo
Número de frases: 78
Agosto de 2007 Há quase um ano, Wander Wildner passou aqui por João Pessoa pra lançar seu ultimo «CD, 10 nos bebendo vinho», e fez um show junto com as bandas locais Scary Monsters e Musa Junkie.
A festa foi, como já era de se 'perar, uma loucura:
o que começou com voz e violão depois passou prum som enérgico e com o público gritando em coro quando os músicos da Musa Junkie subiram para o acompanhar Wander em canções clássicas como «Bebendo vinho»,» Jesus Voltará», «Hippie Punk Rajneesh», Surfista calhorda» e «Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro».
Eu não poderia perder a oportunidade de bater um papo com o ex-integrante de um dos grupos mais influentes no 'tilo, o Replicantes e 'sa lenda do punk nacional, que 'tava viajando por o Nordeste sozinho, com sua guitarra e mochila nas costas, nos ônibus de linha fazendo shows onde parava e sem frescura nenhuma, no maior 'tilo «do it yourself».
Depois de uma feijoada, bebendo vinho e tirando onda, o que era pra ser apenas uma brincadeira com os nomes das composições de 'sa lenda punk acabou tomando um rumo interessante ...
Dá uma olhada.
Você acredita mesmo que Jesus voltará?
Wander -- (risos) na verdade aquela é uma música que surgiu da seguinte forma:
Um dia eu tava voltando para a casa e eu passei por uma kombi que tinha um adesivo atrás 'crito «Jesus voltará».
Aí eu fiquei pensando ...
Se Jesus voltar, ele vai ter que voltar pra algum lugar, né?
Comecei a pensar:
Mas pra qual cidade ele vai vir, como é que ele vai 'colher uma cidade ou outra?
Por aí já começava o absurdo da história.
Foi ótimo porque eu cheguei em casa e a letra veio toda de uma vez.
Então como eu moro em Porto Alegre, o imaginei lá, andando por as ruas ...
Imaginei também que a minha mãe ia querer que ele ficasse na casa de ela (risos).
O legal é o que completa isso:
Um clipe da música.
Fizemos o vídeo de Jesus andando por as ruas, de calça branca.
Colocamos um amigo nosso que não tinha nada a ver com Jesus, mas tinha cabelo comprido e barbicha pra ser o tal filho de Deus.
Em a história ninguém o reconhece na rua, então clipe continua falando de 'sa história ...
Ele anda descalço e acha um tênis na lata do lixo, bota e saí caminhando ...
Mas vem uns caras e o assaltam, porque naquela época 'tavam roubando muito tênis ...
Isso foi em 89!
Bom ...
Em o final ele senta num lugar, fica bem triste porque ninguém o reconheceu e nota que 'tá saindo uma fumaça de um galpão.
Quando ele entra lá é um show nosso.
Aí ele fica alegre!
Terminamos o clipe numa mesa com ele no meio de nós, como se fosse a santa ceia.
Ficou lindo, mas foi censurado por a MTV, por o Zeca Camargo e Sérgio Gal, que eram os diretores na época.
Eles na verdade não entenderam nem a letra nem o clipe, a gente foi muito inteligente em 'sa sacada ...
E olha que eles eram considerados modernos e loucos, na verdade eram super católicos e conservadores ...
Bom, mas eu to montando um DVD agora (sobre a turnê Européia dos Replicantes) e vou colocar 'se clipe, quase ninguém viu, acabou nem rolando na TV por conta disso.
Você só se entorpece bebendo vinho?
Wander-Hehehehe.
Não, me entorpeço de varias maneiras ...
Bebendo vinho é uma de elas.
Em a verdade o vinho é porque eu sempre achei legal, é uma coisa que lá no Sul é importante.
Fui criado tomando vinho desde pequeno e hoje eu procuro tomar sempre.
Sem contar que lá os vinhos chegam bem mais baratos.
Pra você ver:
Eu ontem 'tava em Maceió, fui à rodoviária pra vir pra cá pra João Pessoa e almocei por lá mesmo.
E tinha um vinho ...
Eu nem sei se era daqui de o Nordeste ou do Sul, mas pedi.
Eu prefiro tomar um vinho, mesmo sendo suave, a tomar cerveja (refrigerante eu não bebo mesmo), e ainda mais depois que os Replicantes foram para a Europa, em 2003 (que é 'se DVD que 'tamos lançando agora), descobrimos o lance da cerveja:
a gente fez 24 shows em 27 dias e a primeira coisa que fazíamos quando chegávamos a algum lugar era comprar cerveja, porque lá cerveja é outra coisa!
Então tinha pra todo mundo, e sempre fabricadas na cidade onde 'távamos, eles tinham muito orgulho, lá todos querem fazer a melhor cerveja.
E aí a gente tomava cerveja desde a hora que acordavamos até a hora que íamos dormir ...
Eu voltei 10 quilos mais magro!
Mas cerveja não engorda?
Wander -- É que cerveja lá é outra coisa, entende?
É Cerveja mesmo.
Aqui não.
Aqui 'sa parada incha!
Reza lenda que a maior empresa de cerveja aqui no Brasil é também a maior compradora e importadora de alpiste, ou seja:
ou eles são os maiores criadores de canários ou 'sa cerveja é feita de alpiste, hehe.
Lá não engorda mesmo!
Pois bem, o que aconteceu?
Depois que voltamos eu diminuí muito meu hábito de tomar cerveja ...
Quando eu quero mesmo uma eu compro importada.
Mas é interessante 'sa história de entorpecer bebendo vinho ...
Antes de tocar eu não bebo nada, não gosto de nenhum entorpecente.
Mas hoje você não 'tá bebendo 'se cálice de vinho com nós?
Wander -- Mas hoje eu 'tou aqui com vocês ...
Vocês ofereceram e seria uma desfeita não aceitar (risos) ...
Pois é, há exceções!
Eu realmente, na maioria das vezes, não bebo antes de tocar.
Por que não?
Wander -- Porque eu não gosto de fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Beber vinho já é fazer alguma coisa, entende?
Eu faço show tomando água, pra 'tar 100 %.
Se eu tomar vinho ou usar algum tipo de droga, eu vou ficar viajando e 'tar tocando, ou seja não vou 'tar bem.
Então você se entorpece depois ...
É, porque o entorpecer pode se também varias coisas.
Várias coisas têm drogas.
Depois de 30 minutos que tu ta correndo, desenvolve endorfina, que é uma droga.
Tu se sente tribem ...
Se tu faz um 'porte mais rápido teu corpo desenvolve adrenalina.
Por exemplo, em 'sa viagem para a Europa, eu senti que 'tava sempre com endorfina, sempre!
Wander, você é hippie, punk ou rajneesh?
Wander-Eu sou brega.
Em a verdade eu brinco dizendo que sou brega porque ninguém admite isso de si mesmo.
E o brega, comparando com o resto mundo, seria o punk brasileiro.
Por quê?
Wander-O brega é uma característica, uma virtude da nossa cultura que a classe média e a classe alta depreciaram.
O que é o punk?
O punk inglês, por exemplo:
A historia do faça você mesmo, que surgiu em Nova Iorque ...
Bla bla. Essa historia que a gente tem do punk clássico, de coturno, calça de couro, isso é em Londres.
Aí você imagina:
por que que ele se veste assim?
De jaqueta de couro e tal?
Por quê? Porque é frio, entende?
Só que os punks daqui, como o Brasil é um país 500 anos mais novo e é uma colônia, copiam as coisas, eles não pensam muito.
Então o punk brasileiro pode 'tar em Salvador, em Florianópilis ou em São Paulo, de coturno e tal ...
Eu acho que um punk em Florianópolis ou em João Pessoa tinha que andar de chinelo e bermuda, de camiseta branca e não preta, se ele for inteligente.
Então o punk brasileiro é burro?
Wander-é como eu digo numa música dos Replicantes:
Seja punk mas não seja burro.
Não é que ele é burro, é que o povo brasileiro é informado de coisas que não são produtíveis.
Toda informação que é gerada por a 'cola e por a mídia são informações que só servem pra tornar a pessoa 'crava de um patrão.
Isso é o capitalismo.
Os americanos mentiram dizendo que com o capitalismo todo mundo ia ser igual, que nem eles lá.
Mas isso é uma mentira, na verdade eles queriam 'cravos.
Qual a diferença entre aqui e os EUA em termos de capitalismo?
Lá os 'tados são independentes, não vai tanto dinheiro só para a Washington, entende?
Cada 'tado tem leis próprias porque são regiões diferentes.
Só que aqui a gente funciona como se todos os 'tados fossem iguais, mas 'tamos num país gigante!
As músicas que tocam em todas as rádios são as mesmas 32 músicas, na parte rock pop, que é o que passa na televisão.
Eles unificaram o Brasil em vez de separarem visando às diferenças de costumes.
Cada 'tado deveria ser mais autônomo.
Republica Federativa do Brasil, que é o que era antes.
E o brega?
Wander-Então ...
O brega na verdade é muita coisa.
Tem gente que diz que o brega é o prostíbulo, o puteiro, a casa da luz vermelha no interior do Nordeste.
Esses tempos nós 'távamos num projeto sobre isso e o Zé Rodrigues falou que existia uma rua em Salvador que chamava-se Manoel de Nóbrega, só que o nome apagou e ficou só o Nóbrega, então todo mundo falava «Vamo lá no brega» e tal ...
São várias definições, várias coisas ...
Se a gente pegar os anos 50, o brega era uma característica da pessoa humilde.
A pessoa mais simples se arruma pra ir numa festa, por exemplo, a gente visualiza aquela imagem:
uma camisa amarela, sapato branco, calça colorida ...
Mas isso na verdade era a melhor roupa que ele tinha, é uma característica do povo brasileiro.
Mas com o crescimento do capitalismo e a classe média tomando poder, ela ridiculariza.
Porque 'sa pessoa é o funcionário, o empregado, o 'cravo de ela.
Então eles acabaram com o brega.
De uma virtude passou a ser um defeito.
Então o brega que você utiliza é como uma forma resistência?
Wander -- É, aí eu uso isso em vez de dizer punk, porque o punk é muito mais difícil explicar, sabe?
Eu, Wander Wildner-carreira solo, não faço música punk, faço uma coisa com minhas influências de criança.
Eu ouvia os vinis dos meus primos ...
Roberto Carlos e Jovem Guarda.
Depois no rádio, nos anos 60, com 10 anos eu ouvia a música brega, era o que rolava.
Depois nos anos 70 tive influência da música folk e latina, que toca muito no Rio Grande do Sul.
Número de frases: 134
O ônibus sai da sede do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), no Centro da cidade.
às 16 horas deste sábado, muitos ainda se cruzam sob o sol alaranjando no 'quadrinhado das ruas comerciais do bairro mais movimentado de Fortaleza.
A porta do meio, de uso exclusivo nos terminais de ônibus, abre-se para os viajantes de 'ta tarde.
O ônibus é da mesma 'pécie daqueles que rasgam a cidade de uma ponta à outra todos os dias, levando e trazendo pessoas por um real e sessenta centavos.
Hoje, o trocador não veio e, ao invés do nome de algum terminal como destino, traz grafado com letras pretas numa placa amarela:
Percurso Urbano.
Tomo assento num dos bancos.
Todos os sábados à tarde, um ônibus de linha como 'te, fretado por o projeto Percursos Urbanos, sai da sede do CCBNB rumo a algum ponto de Fortaleza, abrindo veredas, remexendo os trajetos pré-determinados do cotidiano, cavucando a memória da cidade, tencionando diferenças.
«A gente tenta mostrar como é que 'sa cultura tá acontecendo, como é que ela tá se manifestando e tentamos fazer com que as pessoas percebam com naturalidade 'sas diferenças, que elas mergulhem no mundo de outra pessoa sem achar aquilo um absurdo», fala Júlio Lira, 47 anos, articulador da Mediação de Saberes, ONG idealizadora do projeto que desde 2005 é tocado em parceria com o CCBNB.
Hoje, o destino é alguns dos 'paços da cidade que serviram como pautas para as reportagens da terceira edição da revista Farol, da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo da Prefeitura de Fortaleza.
A revista, que se propõe a pautar a polifonia urbana através de um jornalismo narrativo muito ligado a oralidade e a memória de moradores de Fortaleza, 'teve nos últimos dias no epicentro de uma polêmica.
A foto de uma matéria sobre os cines pornôs no Centro da cidade foi considerada por alguns vereadores pornográfica e o debate moralista lançado.
Essa é a curiosidade de dona Nilde Magalhães, quando chega para mais um percurso urbano.
«Eu vim hoje mais por a curiosidade de 'sa história».
Desde o começo do ano ela assiste ao pôr do sol de sábado em algum lugar desconhecido da cidade.
Conta as histórias com a inquietação de quem não pára em casa.
«Eu mesmo sou uma pessoa que há trinta anos moro aqui na capital, mas vim do interior e eu entrei na cidade grande, porque tem gente que mora na cidade grande, mas não entra em ela.
Eu não vou dizer que conheço a cidade toda não, mas eu gosto que assim quando tem uma coisa nova que inaugura, eu gosto de ir, eu mesma ver», apresenta-se.
O 'paço da polêmica Nilde não verá.
Os cines pornôs não 'tavam no roteiro do dia.
Ouve apenas a jornalista Ethel de Paula, editora-chefe da Farol, relatar e argumentar sobre a questão na fala introdutória que antecede todo percurso.
De ali, das cadeiras acolchoadas do teatro do Centro Cultural, direto para as cinzas de plástico do ônibus.
Em o caminho:
o Lord Hotel, o Flórida Bar e a Cidade 2000.
Se pegássemos um mapa de Fortaleza e nos aventurássemos em tracejar todos os caminhos percorridos por o projeto em seus quatro anos de existência, teríamos que pintar minuciosamente cerca de 320 linhas tortuosas.
Umas tantas, em vermelho, mais ou menos a metade, saindo ali mesmo do Centro e se 'gueirando por as 'quinas da cidade, cruzando extremos, indo aos centros de Umbanda e Candomblé;
aos pontos de referência do rock cearense ou da cultura surf;
seguindo por os jardins da cidade, a religião protestante, a história do teatro cearense;
ou mesmo percorrendo os marcos da mentira em Fortaleza.
Outras linhas, 'tas em amarelo, saindo de bairros da periferia rumo às regiões da cidade onde se concentram os equipamentos culturais, públicos, mas desconhecidos de grande parte da população;
ou então, ligando de uma ponta a outra ONGs e associações comunitárias conterrâneas, mas 'tranhas entre si.
Em sua 'trutura atual, o projeto realiza mensalmente cerca de oito percursos divididos em duas propostas diferentes, ambas gratuitas.
Uma que acontece, como dito, todos os sábados e leva as pessoas aos mais diversos pontos da cidade, sempre sob a orientação de algum facilitador do tema do percurso.
Os temas são discutidos por a equipe da Mediação de Saberes e publicados na programação mensal do CCBNB.
A outra versão do Percursos Urbanos segue, na maioria das vezes, o sentido inverso.
«Nós vamos na periferia da cidade, articulamos com alguma associação e ao invés do ônibus sair daqui (Centro), ele sai da periferia.
Em geral, ele faz o movimento para o centro da cidade, para os equipamentos que as pessoas são excluídas, ou então o movimento entre organizações.
As organizações muitas vezes se fecham entre si, elas são, às vezes, paroquiais e a gente faz o trabalho de levar uma instituição pra outra.
Um coordenador de uma conversa com o de outra e daí surgem novas idéias», explica Júlio.
Esses percursos acontecem todas as quintas-feiras, são discutidos juntos com as instituições envolvidas e as vagas preenchidas por convite.
Em o outro caso, vai no ônibus quem se inscrever durante a semana que antecede o Percurso.
A programação em 'te mês de setembro trouxe 'tampados cinco percursos abertos ao público:
De os mercadores aos mercados (a história de Fortaleza através da história dos mercados da cidade);
J ardins de Burle Marx em Fortaleza (visita a alguns 'paços verdes em Fortaleza através do olhar de um dos maiores paisagistas nacionais);
Três casas, uma novidade (visita às Casas Brasil de Fortaleza, projeto de formação e capacitação em tecnologia aliada à cultura, arte, entretenimento e participação popular.);
Por os caminhos de ferro (percurso por a malha férrea de Fortaleza, dialogando com as memórias dos moradores da cidade);
e Cidade Revista, 'te em que 'tamos percorrendo, seguindo por a Tristão Gonçalves até parar quase na altura do Beco da Poeira, ainda no Centro.
Ali perto, prostra-se o Lord Hotel.
Primeiro edifício de apartamentos da cidade, considerado o mais elegante hotel dos anos 1950.
Acuado, o Lord hoje 'tá com todos os pontos comerciais do térreo emparedados.
Lá em cima, apenas quatro famílias ainda ocupam o lugar.
Não fossem os latidos de dois cachorros presos e assustados com os cerca de trinta visitantes inusitados ou então os dois meninos atiçados que correm por as 'cadas 'treitas com uma bola debaixo do braço, a impressão seria de malassombro.
Em o começo da década de 1990, o namorado de Rita Vieira costumava levá-la ao restaurante que havia nos últimos andares do prédio para tomar alguns drinks e assistir ao movimento da Praça José de Alencar, próxima de ali.
«A gente ficava lá, tomava um drink e era bonito e agradável.
Agora, ver numa situação de 'sa, sucateado.
Gostaria muito que as autoridades resgatassem 'sa memória», relembra.
A instrumentista cirúrgica trocou as tardes de sábado em frente a televisão por a cidade.
«A Globo segura muito a gente.
É um cabrestinho.
Vai puxando você, vai puxando e você fica viciada.
Também é cultura porque fala alguma coisa interessante e tal, mas é muito melhor você conhecer sua cidade», fala segurando uma pastinha azul sobre as pernas.
Dentro, a programação do mês de outubro e um caderninho, confidencial, em que anota o que mais lhe impressiona durante o passeio.
Uma das experiências que antecederam o Percursos Urbanos aconteceu quando Júlio trabalhava em São Paulo com crianças de cortiços.
O projeto educacional da Prefeitura da megalópole tinha uma grade flexível.
Júlio punha as crianças em ônibus ou metrôs e seguia por as ruas da cidade.
«Uma vez por semana eu saía para passear com as crianças e tinha 'sa coisa de leitura da cidade, de andar e tudo.
Isso talvez tenha sido a primeira experiência de como passear é uma coisa rica», conta.
Em quatro anos, o projeto amadureceu sua proposta, conjugando um olhar crítico e diverso sobre o 'paço urbano e as políticas públicas.
«A gente elogia a dispersão.
Nós temos que 'tar indo pra teatro, indo pra cinema, lendo bastante, tendo uma visão ampla das coisas pra poder a gente conseguir formar uma visão abrangente também das coisas.
Nossa proposta é política.
A gente ia nos fóruns de movimentos sociais e as pessoas eram as mesmas em todos os fóruns.
Nós acreditamos que têm que ser criadas novas formas para a pessoa perceber os problemas da cidade, perceber as dificuldades da cidade e depois agir de acordo com isso.
E o Percurso surge também pra isso, como uma forma de agregar e politizar.
É uma proposta, antes de tudo, política», afirma Júlio, cientista social com 'pecialização em Urbanismo, mas, como ele mesmo enfatiza, com uma formação «dispersa».
Em os percursos, tenta-se 'tabelecer o diálogo entre o facilitador que conduz o roteiro e os «passageiros» do ônibus, sempre de linha, para não ser city tour.
Como conceitua Júlio, «para as pessoas que 'tão dentro do ônibus não se sentirem superiores a cidade, para que as pessoas possam virar a cara de um lado para o outro, possam dialogar entre si».
O microfone, ligado a uma caixa de som posta no fundo do ônibus, já passou por as mais diversas mãos.
Exemplo é o primeiro percurso realizado em que o professor do Curso de Geografia da Universidade Federal do Ceará, José Borzachiello, e o rapper Carioca, do grupo Costa a Costa, cruzam a orla de Fortaleza da Barra do Ceará até o Morro de Santa Teresinha, na outra ponta da cidade.
«Enquanto o Zé (Borzachiello) dizia um dado técnico, aí o rapper dizia assim:
é aqui que minha irmã se prostitui ... '
E os dois dialogaram muito bem, em 'sas duas perspectivas», reconstrói Júlio.
Em o final de 2006, a Mediação de Saberes foi convidada para apresentar a experiência dos Percursos Urbanos num encontro latino-americano de iniciativas de artistas que aconteceu em Buenos Aires promovido por o Proyecto Trama.
De o encontro surgiram alguns diálogo como o com a Ediciones Vox, uma iniciativa que mescla intervenções culturais, literatura e artes visuais na Argentina.
Um dos integrantes já veio duas vezes a Fortaleza, participou de vários percursos.
O intercâmbio continua até hoje, entre as iniciativas 'tá até uma coletânea bilíngüe de poesia contemporânea de Fortaleza.
Nilde também ficou impressionada com o 'tado do " Lord Hotel.
«Nunca tinha visto ambiente igual.
Isso tá pior que favela».
Ela, com seus 64 anos, não pode passar por grandes emoções.
O médico a proibiu de ir a velórios por razão de sua labirintite.
O tratamento da doença e a personalidade inquieta levam-na à reuniões de vários grupos de idosos da cidade e até ao Grupo de Apoio aos Doentes Reumáticos do Ceará, mesmo sem ela ou algum parente próximo ter a doença.
Como suas pernas finas e olhos pequenos, entra na cidade.
«Entrar na cidade é você não ficar alienado com o que acontece com a cidade.
Não tudo, porque não tem como a gente absorver tudo, né?
Eu vou em grupo de idoso, eu vou em num sei o quê.
Eu vou no grupo da terceira idade do Shopping Benfica, na última quinta-feira do mês.
Ontem eu fui lá na FIC (Faculdade Integrada do Ceará) que teve uma festa para o idoso e hoje eu já to indo aqui», diz orgulhosa.
A nutricionista, nascida em Iracema, interior do Ceará, faz parte de um grupo de cerca de dez pessoas que 'tão no CCBNB praticamente todos os sábados.
«Você vai ter uma dez ou quinze pessoas que fazem uma 'pécie de curso de Fortaleza.
Elas 'tão em quase todos os percursos, 'sas pessoas 'tão meio que viciadas na cidade», diz Júlio.
Em o Flórida Bar, segunda parada no Centro, tradicional reduto da boemia fortalezense, o assunto numa das mesas foi o passeio de trem de sábado passado.
-- Tu foste o de sábado?
-- Não ...
-- Foi ótimo.
O ônibus segue para a Cidade 2000, cortando boa parte da Aldeota, centro econômico de Fortaleza, até chegar ao conjunto habitacional inaugurado em 1971 e que hoje virou um bairro com quase oito mil moradores.
A noite já se aproxima.
A pracinha do bairro, conhecida por o movimento intenso, ainda 'tá vazia, mas pode-se comprar crepe numa banquinha armada ainda com sol.
Júlio provoca:
«Eu quero que cada um bata quatro fotografias mentais».
Memória.
Antes do percurso, eu havia perguntado, depois de uma deixa, para o Júlio Lira:
Onde 'tá a alma de Fortaleza?
E ele respondeu:
«Em a memória da cidade, no que as pessoas guardam.
Essa memória 'tá guardada em algumas pessoas, em alguns lugares, e só quando ela é transmitida é que 'sa alma é compartilhada.
Eu não tô falando da grande memória, não tô falando do grande patrimônio histórico, isso também, mas tô falando da pequena memória.
Tô falando de uma mulher que fala que quando ela era criança, quando ia para a 'cola atravessava correndo o Passeio Público, sabe?
Em a hora que 'sa pequena memória é compartilhada, o Passeio Público não é mais um monumento histórico.
Número de frases: 119
É uma criança correndo através de ele, entrando por um portão e saindo em outro."
Uma guerra contra o 'pelho -- A ocupação das favelas por o Exército, e a lógica segurança urbana no Rio de Janeiro
3 de março do ano de 2006.
O Exército ocupa nove favelas nas regiões do centro a da zona norte da cidade do Rio de Janeiro.
As forças armadas justificam a manobra como uma reação ao roubo de 10 fuzis e uma pistola de um quartel em São Cristovão.
Depois de uma semana de ocupação, vários conflitos com os traficantes (deixando apenas moradores como vítima) nada foi encontrado.
Hoje, 14 de março, o Exército reorganiza seu efetivo, partindo para ocupação da Rocinha e outras comunidades com o anúncio que só deixa as favelas quando as armas forem encontradas.
Independente das possíveis motivações políticas que envolvem 'te episódio.
O Olhar Periférico tenta trazer aqui cumprir seu papel, trazendo uma reflexão com o olhar de dentro para dentro.
Focado em como 'ta situação atinge as comunidades.
De a mesma forma como ocorreu nos instantes prévios a instalação da ditadura militar em 1964, existe hoje a construção de todo um ambiente de insegurança, tensão e medo.
A assimilação destes sentimentos por parte da sociedade, me refiro mais diretamente a classe média -- verdadeira força motriz das ações populares, é o que finda por gerar uma demanda em para o de ações drásticas para alcançar a solução ideal:
a reinstauração da perfeita ordem social.
Em 'te processo, é necessária a criação do antagonismo entre os que legitimam o conjunto de normas seguidos por a boa sociedade e os que de alguma forma põe em risco 'ta mesma cartilha social.
Assim, adota-se a noção de que existe um inimigo a ser combatido.
Em a ditadura militar, 'te inimigo se personificava em alguns personagens como os comunistas e os subversivos.
E hoje, quem seriam os indivíduos que compõem o corpo a ser visto como contra-ponto da boa sociedade?
É interessante pensar um pouco sobre a chamada situação de guerra qual a imprensa constantemente classifica com manchetes inflamadas a cidade do Rio de Janeiro.
O 'tado de guerra é aquele conflito onde o a figura do inimigo é colocada de forma clara e objetiva, logo, a oposição é feita de forma mais ferrenha.
Tendo, como em toda guerra, o objetivo final da eliminação do inimigo.
Novamente realizando um paralelo com o momento da instauração da ditadura militar, as ações do chamado inimigo são utilizadas para legitimar a truculência da reação.
Em a ditadura a identificação do inimigo se colocava a partir do posicionamento político do indivíduo.
Hoje, 'ta identificação parte de pressupostos geográficos e sociais, impondo a parte mais miserável da população o 'treitamento entre a relação de pobreza e criminalidade.
Este processo de criminalização da pobreza coloca todo foco de suspeita sobre uma classe social em 'pecífico.
Que ocupa um 'paço em 'pecífico na dinâmica urbana de 'ta sociedade fluminense.
Desta forma, a oposição entre cidadão e criminoso passa facilmente a ser entendida como cidadão e favelado.
Esta é uma percepção que ecoa em vários sentidos.
Seja na fala dos próprios moradores de comunidade, quando opõe o seu 'paço ao 'paço da chamada sociedade:
«Você manda lá em baixo, aqui em cima quem manda sou eu.
Eu não piso em seu terreno, nem você pisa no meu».
Seja na literatura que crava máximas como a da cidade partida, seja na própria atenção dispensada na percepção cotidiana da sociedade.
Assim se 'tabelece de forma geográfica e personificada o reconhecimento dos dois lados que configuram a guerra.
O criminoso, habitante das favelas e inimigo eleito da sociedade.
Tem no jogo de sua caracterização, ou na caracterização das suas motivações como criminoso, o ato ilícito entendido não como conseqüência da crescente desigualdade social.
Mas como uma simples característica de 'ta criminalidade.
O criminoso não o é devido ao seu 'tado sócio econômico, mas a precariedade do 'tado sócio econômico é uma característica inerente ao criminoso.
Em 'ta operação o criminoso é colocado como único responsável por a transgressão da regra.
como se em 'te momento o criminoso 'tivesse optando e qualificando-se como opositor, como verdadeiro inimigo do corpo social.
Se continuarmos operando com a lógica de situação de guerra.
O que é coerente, visto que as ações da polícia e a lógica da segurança pública trabalham com 'te mesmo paradigma.
Compreendemos -- a partir de 'ta ação de caráter militar-que uma intervenção policial no 'paço do inimigo, a favela, que resulta em alguma morte não ofende a lógica da segurança 'tatal.
Diferente de uma ação de preceitos policiais, uma ação que em sua 'sência deve privar por a prevenção do crime.
Ou seja, a morte de um favelado, inimigo eleito -- mais uma vez aqui colocado como oposto ao cidadão, é encarado antes de tudo como a baixa de apenas mais um suspeito.
Esta lógica é reafirmada por o processo de demonização do outro.
O favelado não cidadão se torna um monstro -- da mesma forma como ocorria com o comunista que comia criancinhas.
O que finda por fazer dos olhos da sociedade insensível a morte de um de seus membros, e os olhos do poder público cegos ao caráter de ilegalidade das ações policiais.
A ilegalidade das ações policiais é tolerada, ou incentivada, por os órgãos do executivo dada a avalanche da demanda de ações contra a chamada 'calada da violência.
Para compreendermos 'tes atos ilegais, sua aplicação e funcionalidade dentro da lógica da segurança pública, podemos nos focar em três pilares deste tipo de articulação:
os autos de resistência;
o crime de associação ao tráfico e o mandato de busca e apreensão genérico.
O auto de resistência é um documento policial que foi criado no período da ditadura com a finalidade de registrar eventuais momentos de resistência armada no decorrer das operações policiais.
O que acontece hoje é que os autos de resistência vem sendo utilizado para registrar todas as ocorrências de morte, sejam elas fruto ou não de uma situação de resistência a prisão.
Desta forma a polícia fluminense vem manipulando o registro de informação das ocorrências em todas as operações em que acontecem mortes.
As condições em que 'sas mortes acontecem são descaracterizadas, e isso ocorre sempre no sentido de incriminar a vítima.
Esta manipulação acontece quando as mortes não ocorrem em situação de conflito, e contradizem as regras da própria corporação policial -- quando a vítima não 'ta armada, ou é morta por as costas, por exemplo.
Portanto, a manipulação do auto de resistência acontece para disfarçar a ilegalidade das incursões policiais nas comunidades carentes do Rio de Janeiro.
O crime de associação ao tráfico vem sendo utilizado como uma ferramenta de desrespeito a individualidade dos moradores de comunidade, no sentido que cerceia até mesmo circulo de relações sociais que 'tas pessoas possam desenvolver.
A tentativa da polícia militar evitar o velório de um comerciante de drogas assassinado, por exemplo.
Retira dos parentes e demais relacionados daquele cidadão morto o direito de cumprir determinado ritual religioso.
Partindo para outro tipo de análise, 'ta determinação tem coibido também a manifestação pública dos moradores de comunidades carentes.
É uma tentativa de freiar a expressão das pessoas que na grande maioria das vezes, tem a motivação para os protesto nas execuções arbitrárias realizadas por a mesma polícia militar.
Mesmo os protesto organizados e não violentos são coibidos, acompanhados de perto por a polícia -- situação impensada em qualquer uma das «passeatas da paz» que acontecem em áreas privilegiadas da Zona Sul carioca.
O mandato de busca e apreensão genérico é outro instrumento que vem sendo utilizado para invadir a liberdade individual dos moradores de comunidades carentes.
A manipulação do mandato 'tabelece termos tão genéricos que permite a polícia invadir e revistar qualquer casa ou 'tabelecimento dentro de determinada comunidade.
Esta articulação contraria o ordenamento processual jurídico brasileiro em sua parte processual, nos seus artigos 240 e 243 do Código de Processo Penal, que compreende uma busca domiciliar e individual.
Ampliar 'ta busca a toda comunidade (um coletivo na ordem de milhares de pessoas, que em comum, tem apenas a localização da moradia) reforça a idéia de criminalização da pobreza, pois coloca todos os indivíduos que habitam em determinada área como suspeitos apenas por morarem naquele lugar.
Por fim, o ponto mais cruel é o caráter de 'ta guerra.
Uma guerra contra o 'pelho:
Policiais Militares, soldados do Exército e traficantes de drogas.
Os atores que protagonizam a guerra trazem, em sua grande maioria, a mesma origem social e étnica.
São moradores de comunidades de baixa renda.
E acabam optando, por falta de opção, em seguir uma vida em armas.
Por a legalidade, ou por a ilegalidade, quem mata e morre é o brasileiro comum.
Homem moldado a não ter identidade, a não ter rosto, e que por isso não enxerga um 'pelho do outro lado da mira.
Não percebe que ocorre uma guerra entre iguais.
Não percebe que o conflito não satisfaz nenhuma demanda das classes economicamente inferiores, a qual os guerreiros pertencem.
Seguem a necrófila rotina -- deixar o papel de pai de família e se transformar em 'tatística de guerra.
Enquanto isso, a opinião pública pautada por a «boa sociedade», apoia a ocupação em nome da paz e da ordem pública.
Sentem-se seguros, por mais que seja 'sa a ordem que faz sangrar a cidade.
Em um mar de lágrimas e sangue que caem de forma intensa, assim como as águas de março que fecham mais um verão carioca.
Número de frases: 80
originalmente publicado em www.rockpress.com.br Um fracasso minha campanha para que as pessoas fossem mais ao cinema.
Após ter saído no domingo noturno de uma sessão inebriante com a certeza de que aquele ambiente e seus acontecimentos e mecanismos próprios eram, sim, realmente, mágicos e altamente fecundos em relação às emoções e criatividades dos participantes desse verdadeiro ritual de transmutação, senti-me forte por ter finalmente encontrado um motivo, uma causa concreta e merecedora que justificasse e impulsionasse meus hábitos e minhas atitudes a partir de então.
Pois eis que dois dias após incluir nas mais díspares conversas comentários sobre a necessidade 'piritual de se ir ao cinema -- ainda mais quando em contato com 'tudantes da sétima arte, cai a notícia:
fechou o Cine Capitólio.
O Cine Capitólio é um dos dois cinemas de Pelotas.
Possui duas salas, uma pequena e convencional na disposição da tela e das poltronas e uma outra, a sala um, enorme, uma tela gigantesca acima de todos os setecentos fiéis assentos posicionados um atrás do outro com uma suave elevação em direção aos frontais e aos finais.
Um parêntesis deitado, assim lembro, 'tranho, exótico, Massa, o Cine Capitólio.
Fechou.
Sobrou o outro, chamado CineArt, três salas, alguma centena de lugares, posicionado num dos tantos shoppings-galeria do calçadão central pelotense.
Em o quarto andar do dito 'tabelecimento comercial, chega-se até ele através de 3 'cadas rolantes mumificadas responsáveis por a circulação de pessoas entre os andares.
Detalhe que é uma única -- e 'treita -- 'cada de ligação por piso, o que leva os rapazes a aguardar para subir quando alguma moça desce.
Cavalheirismo old times na marra.
Mas minto, ou omito (ominto), se não conto do elevador.
Há, sim, um elevador, um metálico e alucinado elevador, diria-se-comprado de um parque de diversões.
Diria-se-.
Hoje passei lá, uma cerca amarela não permitia o acesso:
há de ter salvo muitas vidas.
Mas aí já 'condi outra 'cada, uma em 'piral, 'sa larga, antiga, no fundo do shopping.
Atravessa os andares e leva até o 2m por 2m pôster do Homem-Aranha 2 que lhe acompanha os últimos degraus.
Findos, eis o CineArt.
Caminhei até ali para tirar algumas fotos, mas, desculpem-me, não havia o quê ser fotografado.
Rodeei por o Hall de entrada, olhei alguns pôsteres e voltei à agora íngreme 'cadaria.
Em o andar de baixo um segurança entrou no carrossel.
Me vendo olhar o chão do primeiro andar por o vão entre os contorcionismos arquitetônicos, disse:
«Não pula que tu vai se machucar».
Ri e não deixei de aproveitar:
-- Tu viu que fecharam o outro cinema?
Ele:
-- Hein?
-- Fecharam o outro cinema, o Capitólio.
-- Ah, sim, também, não dá dinheiro.
Vai virar igreja.
Nada dá mais dinheiro que a fé.--
Segurei o " FÉ DOS BOBOS!" pra saborear a cereja -- A fé remove montanhas, guri.
Vou até o Capitólio.
Alguns homens conversam em frente, 'corados num carro.
Eu do outro lado da rua tiro algumas fotos.
A o meu lado, um sujeito imita com o celular.
Penso em dizer alguma coisa, um «bah» grave e pesaroso, mas não sai nada.
O ar carregado de vislumbres do quê o falecido Cine Capitólio poderia muito em breve se tornar encarcerava qualquer palavra a respeito dentro da boca e do coração de qualquer um.
Atravesso a rua, fotos e fotos, e ouço um pouco da conversa dos três sujeitos.
Apenas um de eles fala, o maior, mais novo e mais careca, a balaca num 'quisito fone de um ouvido apenas:
«Tem que fechar, não adianta, ali no outro bota duzentos e tá lotada a sala, aqui ...
Pssssss." É tudo.
O poder dos idiotas.
Número de frases: 45
Passei anos da minha vida achando que a dança de salão era um reduto de adoradores de Emílio Santiago e senhoras viúvas em busca de uma ocupação, pra variar um pouco além do bingo.
Achava que «se você dança de tudo, no fundo você não gosta de nada».
Mordi a língua quando comecei a dançar e conheci gente de todas as idades, pessoas divertidas e que gostam mesmo é de música boa.
E continuo com minhas preferências musicais intactas:
em casa rola The Clash, no baile rola Adil Tiscatti;
em casa berro as músicas do Blur a plenos pulmões, no baile o que mais gosto de dançar é forró.
E daí?
Fazendo um resumo bem grosseiro, a história da dança de salão no Brasil remete a séculos anteriores, quando a valsa e a polca chegaram em Terra Brasilis por pés europeus, criando o hábito da dança a dois -- mas foi em 1914 que Madame Poças Leitão aportou em São Paulo para ensinar a dança de salão aos brasileiros.
Até então, se aprendia dançando.
Fora dos finos salões de dança, o maxixe e o xote eram danças sociais bem populares (e coisa de gente pouco educada, vê se pode!).
A diversidade de ritmos que já existia no início do século XX começou a formar diferentes correntes da dança a dois:
do porte clássico do tango argentino às acrobacias do lindy hop -- que, como o próprio nome entrega, na alusão ao vôo de Charles Lindbergh por o Atlântico, introduziu os passos aéreos na dança (mas em seus momentos mais calmos, o lindy hop não tem nada de acrobático, e é bem gostosinho de dançar).
A partir dos anos 40, as 'tações começaram a se misturar:
O samba, que até então era um ritmo bem popular, restrito ao carnaval, às rodas de partido alto e ao rádio, ficou irresistível até mesmo para os familiares salões de baile.
Tocado por orquestras, deu origem ao samba de gafieira:
uma dança limpa, sem malícia.
Ou melhor, com pouca malícia.
Porque ninguém resiste a um samba bem dançado, uma condução firme ...
Acontece que, enquanto aqui a dança a dois era uma dança entre casais, para casais, e se dançava coladinho, lá fora a coisa já pegava fogo:
as flappers nos anos 20 já não faziam questão de cavalheiros para dançar um charleston arretado, o jazz dos anos 30 e 40 era uma música selvagem, jovem, considerada revolucionária (e até comunista!!),
e dançar a dois era um hábito, sim, mas com passos abertos -- e não necessariamente com sua mulher, o que dava margem à troca de parceiros (swing, troca de parceiros, pescou?
Pescou?). Lá pelos anos 50, o rock ' n ' roll ainda era dançado a dois -- mas não necessariamente.
Em o Brasil, veja bem, a bossa nova não era exatamente a música mais dançante do mundo -- das músicas de fossa, então, nem se fala!
O twist dos anos 60 matou a dança a dois de vez, a Gafieira Estudantina fechou suas portas (mas já reabriu, não se preocupe!)
e a moda da discoteca foi a pá de cal, a missa de sétimo dia da dança a dois -- mas, que bom, focos de resistência continuaram aqui e ali, sobrevivendo na dança popular dos subúrbios, nos senhores e senhoras que freqüentavam os salões de baile e mantiveram o hábito da dança social como era no princípio.
Talvez por isso você ainda ache que dança de salão é coisa de velho ...
... e era mesmo.
Durante um bom tempo, a dança de salão / dança social foi considerada brega e fora de moda.
Lá fora, a ballroom dancing não era exatamente uma dança social, mas uma dança de competição.
Aqui no Brasil, a novela ' Pai Herói ' chegou a ter algumas cenas gravadas na Gafieira Elite, a Estudantina reabriu no finzinho dos anos 70 e a pioneira Maria Antonietta continuava firme e forte, desde os anos 40, dando aulas no Rio de Janeiro (ainda que a procura não fosse das maiores).
Maria Antonietta, aliás, dança ainda hoje, com mais de 90 anos de idade.
As danças a dois, no entanto, sempre 'tiveram ali, cada dia com mais adeptos, mas o eixo Rio-São Paulo desconhecia o forró, o carimbó e outras danças divertidíssimas do Norte e Nordeste do país -- que, na era pré-internet, só indo até lá pra conhecer.
Anos 80/90
Os anos 80 trouxeram alguns grandes fenômenos que popularizaram e consolidaram de vez a dança de salão como ela é hoje:
-- Em 1987, o filme Dirty Dancing botou a dança de salão novamente na ordem do dia.
Patrick Swayze e Jennifer Grey eram Fred e Ginger numa versão atualizada e muito mais romântica (porque Fred e Ginger, vocês lembram, sempre começavam os filmes se desentendendo!).
A dança de salão voltou a ter seu charme.
Ainda meio cafoninha, mas eu sei que você já dançou muito ao som da música-tema do filme, posso apostar.
-- A verdadeira dirty dancing, no entanto, foi a lambada.
Filha do carimbó e sobrinha do merengue, a lambada explodiu Brasil afora graças a um empresário francês que soube transformar o grupo Kaoma num sucesso nacional em 1989.
Sucesso internacional, até.
E aqueles dois gurizinhos dançando lambada no clipe, bem, a verdade é que qualquer um podia dançar.
Mas ... onde aprender a dançar fora da Bahia?
-- Ninguém discorda do caráter lançador de moda das novelas.
Hoje, em 2008, temos trocentos canais de tv a cabo, Youtube bombando e a Record investindo na teledramaturgia com a mesma qualidade técnica da TV Globo -- mas no final dos anos 80 e início dos 90, deixa eu te relembrar como funcionava:
o SBT importava novelas mexicanas, a Globo dominava o mercado e a TV Manchete, embora não tivesse a mesma audiência, se 'merava em suas produções que não tinham o'padrão Globo de qualidade ', mas cativavam por a fotografia, direção e temas diferenciados do universo atual e urbano da líder.
Foi assim que, em 1989, a novela ' Kananga do Japão ', dirigida por Tizuka Yamasaki e protagonizada por Raul Gazzola, retratou o universo das gafieiras nos anos 30 -- e tornou conhecidos os trabalhos de Carlinhos de Jesus e Jaime Arôxa (ambos discípulos da veterana Maria Antonietta), por causa da abertura de extremo bom-gosto.
Coincidentemente, 1989 foi o ano da lambada no Brasil e a procura por a dança de salão começou a aumentar.
Em 1992, o assunto voltou à baila (com trocadilho!
Ha!) na telinha com a novela ' De Corpo e Alma ', 'trelando a 'posa de Raul Gazzola, a dançarina Daniela Perez.
Sua mãe, Glória (por sinal, autora da novela), deve ter achado interessante retratar sua filha no universo que já lhe era familiar:
e tome Daniela dançando!
O drama folhetinesco dos bastidores da novela (todo mundo se lembra do assassinato de Daniela por Guilherme de Pádua, que fazia seu par romântico na novela, não lembra?)
rendeu mais homenagens à dançarina e atriz, que freqüentava a Gafieira Estudantina.
O poder das novelas (principalmente as do horário das 20h) era tão grande que ' De Corpo & Alma ' levantava a questão dos transplantes de coração e, logo na semana de 'tréia, nove doadores apareceram no INCOR de SP, depois de meses sem doações.
Pra você ver ...
Em o mesmo ano, durante a ECO 92, a Estudantina serviu de cenário para um documentário da CNN que 'trelava Maria Antonietta.
Pronto. A confluência de fatores favoreceu ainda mais a procura por aulas de samba de gafieira e lambada -- e, além dos já conhecidos Arôxa e Jesus, outros dançarinos, grupos (como a Cia..
Aérea de Dança, do Circo Voador) e academias finalmente voltaram a encher -- e hoje em dia a dança de salão carioca vai muito bem, obrigada.
Concorrência saudável
Jaime Arôxa e Carlinhos de Jesus.
Dois 'tilos bem diferentes, duas formações bem diferentes -- Arôxa criou sua própria metodologia e levou para suas aulas elementos da dança moderna e posturas clássicas;
Jesus é roots, começou como passista, sambista e aprendeu a dançar nos bailes de subúrbio.
Se a «rivalidade» entre os dois realmente existe, só mesmo eles para dizer.
Para quem quer aprender a dançar, a possibilidade de 'colha entre linhas bem diferentes (e várias outras, menos conhecidas, mas não menos peculiares -- o samba do Jimmy de Oliveira, por exemplo, você reconhece de longe!)
é muito saudável e garante a diversidade dos bailes do Rio de Janeiro.
Quem sabe se adaptar a parceiros de diferentes 'colas e procedências não cria vícios e tem, obviamente, mais chances de dançar bem com mais pessoas.
O currículo básico da dança de salão compreende o bolero (costuma ser o primeiro ritmo ensinado, já que é mais lento e, assim, fica mais fácil entender a dinâmica de condutor / seguidor), o samba (sempre um sucesso no Rio de Janeiro) e o soltinho (também chamado de ' swing brasileiro ', uma simplificação extrema do swing americano e apropriada para músicas pop mais ou menos modernas).
Há quem ensine forró (e baile de dança de salão sem cortina de forró não existe!),
salsa e zouk.
Há quem ensine swing americano e rock ' n ' roll.
O universo do tango costuma ser um universo à parte, com bailes exclusivos deste ritmo.
Quem quer dançar não tem desculpa:
sempre tem um baile rolando em qualquer bairro e horário (o Baile do Meio-Dia, toda 6a feira no Centro Cultural Carioca, de 12h30 às 15h, é um clássico obrigatório, sempre lotado, onde iniciantes se misturam aos dançarinos cascudos que vêm de todas as partes da cidade -- vale a pena dizer para o chefe que passou mal na hora do almoço, só pra dar um confere!).
Imagine um universo onde as pessoas bebem pouco (se passar de dois drinks, fica impossível fazer um ' S ' no bolero!),
raramente fumam (o cheiro afasta os pares não-fumantes, o fôlego diminui consideravelmente, além dos bailes serem em lugares fechados), tudo começa cedo (em horário de happy hour) e termina a tempo de pegar o último metrô, a educação impera (códigos de etiqueta, «Estatuto da Gafieira», um certo machismo que se confunde saudavelmente com cavalheirismo) e há um respeito aos limites de quem dança com ti.
Parece o paraíso.
Número de frases: 77
E, pra ser sincera, 'tou em 'sa há quase um ano e nunca ouvi Emílio Santiago num baile ...
Esperando começar a palestra com o Maurício Menezes, e entediado resolvi 'crever no celular sobre a abertura do evento.
Bom, uma banda de alunos vai abrir o evento, e por o que eu entendi eles vão se revezar no palco.
Entrou um trio acústico.
O percussionista é bom, o violonista / backing é razoável.
A vocalista é um cover da Ana Carolina.
Chaaato ...
Entraram dois novos vocalistas.
O repertório de eles é batido, que só.
A menina tem uma voz boa mas faz uma segunda voz irritante demais.
O vocalista é razoável, respira mal mas é afinado.
O auditório 'tá cheio mas eles não 'tão conseguindo empolgar ninguém não.
A menina que irrita tá tentando animar o pessoal, mas não funcionou, coitada.
Agora ela sola.
Tem uma voz bonita mas o repertório (ou a falta de ele) 'tá acabando com o grupo.
Eu nunca tinha vindo ao auditório do SENAC.
É um 'paço bem bacana para pequenas apresentações.
A vocalista agora vai fazer um dueto com outro cantor que acaba de entrar.
O tom 'tá baixo pra ele coitado, mas tem uma voz bacana.
Entraram mas dois violonistas e tem um baixista paradão na ponta 'querda.
A menina do backing irritante dá um agudo desnecessário no final.
O vocalista do tom baixo agora sola e canta Los Hermanos, se não me engano.
Ele 'queceu a letra, coitado, não 'tava numa noite feliz.
Nem ele nem eu pelo visto.
Espero que 'sa palestra valha a pena.
Esse clima de bagunça universitária é ótimo.
Eu ia parar de falar da banda, mas os dois violonistas 'tão cantando e fizeram uma modulação 'tranhíssima.
E 'ses dois cantando juntos são uma desarmonia só.
Agora é a última canção.
Veio todo mundo para o palco pra cantar junto.
Tipo final de Criança Esperança.
Começou outra parte do evento que eu ainda não tô entendendo.
Um batuque 'quisito.
Ah, é teatro.
Ninguém ouviu o que o menino falou no começo, a platéia demorou a se ligar que tinha algo no palco.
Peraí! O que é isso, meu Deus?
A coisa degringolou de vez!
Uma alusão a uma dança afro repleta de branquelos e loiras.
O mais engraçado é o retrato do Andral (coordenador do curso falecido no último dias do ano passado) lá atrás presenciando tudo, coitado.
Não dá pra entender nada direito, só sei que fala sobre a África.
Ah não, a dancinha voltou!
Gente eu tô ficando com medo disso.
Entrou uma sonoplastia que parece alguém sendo açoitado no tronco, mas que poderia ser perfeitamente de um ritual sadomasô.
E tem uma loira no tronco!
Você conseguem visualisar isso?
I na cre di tá-vel.
Algum pseudo-intelectual do grupo deve ter sugerido:
«E se fosse uma loira no tronco?».
Alguém deve ter apoiado:
«Genial!». Ah 'ses diretores contemporâneos ...
Veio uma morena e libertou a loira.
Agora tem uma mulata cantando muito bem para salvar o número.
E tome mais dancinha!
Ei, é incrível como sempre tem uma gordinha que erra a coreografia toda.
Acabou. Ufa sobrevivi!
Não se pode culpar quem dirigiu isso.
Uma oficina de dois dias com uma maioria que nunca fez teatro, não dá pra preparar nada apresentável.
Erro da coordenação que deve ter insistido para que o pessoal se apresentasse.
Tinha gente com texto na mão, acredita?
Mas quem dirigiu podia ter pegado um texto mais fácil pra 'sa galera.
Mas como eu conheço a obsessão do novo coordenador por tudo o que é afro, aposto que o diretor não teve muita 'colha.
Depois veio a parte de moda, que eu achei ótima.
Um exemplo de respeito à limitação de cada aluno.
Saiu tudo direitinho e eu gostei bastante do trabalho das meninas.
Ah, e a palestra foi ótima!
valeu 'perar!
Número de frases: 66
Sala 'cura:
um toque de caixa invertido digitalmente permeia samplers aleatórios de trompetes e trombones, e prepara os ouvidos do público para o que virá nos próximos quarenta minutos:
o 'petáculo de dança contemporânea Fervo, em que a coreógrafa Valéria Vicente desmembra os movimentos do passo (a dança do frevo), para propor ao público reflexões acerca da origem e manutenção da violência urbana, arraigada e somatizada no corpo da cada brasileiro.
Sua primeira temporada (três semanas, em setembro) reuniu um público médio de 200 pessoas por apresentação.
Para quem perdeu, a boa notícia é que Fervo volta em cartaz 'ta semana no Recife, no palco do Teatro Armazém (Recife Antigo), de 02 a 05 de novembro (quinta a sábado), sempre às 20h.
Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia).
Será a última chance de assistir a montagem antes de ela viajar Brasil afora.
A começar por o Rio de Janeiro:
dias 17 e 18 de novembro, no Teatro Cacilda Becker, ela integrará o Panorama Rio Arte, um dos mais importantes e exigentes festivais de dança do país.
Para Walter Benjamin, a história é feita de fragmentos, documentos a serem coletados, recombinados e interpretados de acordo com a ótica contemporânea.
Caso contrário, ela se torna linear e absoluta, um museu em prol do status quo.
Prestes a completar 100 anos (data de 9 de fevereiro de 1907 o primeiro registro na imprensa pernambucana), o frevo nasceu num contexto de fortes tensões sociais.
A o desconstruir seu repertório 'tético e suas amarras históricas, Fervo olha para o passado de forma a explicar o presente.
Algo bastante incomum, considerando os padrões conservadores em que o frevo tem normalmente sido celebrado.
Ao contrário do viés folclorista-institucional visto nas apresentações de frevo durante o Carnaval, aqui tem frevo com rock, hip-hop, roda de pogo, e até valsa.
A coreografia é baseada não só nos movimentos que fazem a dança, mas também no contexto social peculiar em que ele surgiu -- a libertação dos 'cravos e a conseqüente repressão das culturas negras.
É bom situar que o frevo surgiu da necessidade de expressão dos negros alforriados, que adaptaram a capoeira, então proibida por lei, com a música das bandas marciais em desfile por a cidade.
Restitui-se, assim, o contexto que rege as culturas afro-brasileiras:
alegria como resposta ao sofrimento.
Dor reinventada em prazer.
«As questões que nos afligem são historicamente construídas.
A herança da 'cravidão não 'tá somente no 'cravo que apanhava, mas também no senhor que batia.
A forma como o Recife lida com isso nas relações sociais parece ser a mesma de 100 anos atrás.
Existe, nos problemas sociais de hoje, uma violência no corpo das pessoas, mas que não 'tá assumida», diz Valéria.
Cenografia -- Pacotes de jornais arremessados ao palco e entre os bailarinos, como numa guerra de travesseiros, são alguns dos poucos objetos cenográficos.
Eles foram incorporados ao 'petáculo após uma pesquisa em arquivos públicos revelar que as notícias sobre violência no início do século 20 são muito parecidas com veiculadas na imprensa de hoje.
Em aquela época o Recife vivia um sem número de conflitos sociais, fazendo encher as páginas dos diários de mortes, 'pancamentos e caçada por «marginais».
Em o 'petáculo, manchetes de diferentes épocas são gritadas e projetadas sobre os bailarinos, dando a entender que a overdose de notícias acaba por se tornar uma modalidade a mais de violência.
«A imprensa faz parte da sociedade.
Assim como as obras artísticas ela é um lugar bastante interessante para compreensão das 'truturas sociais.
Em Fervo, a gente evoca 'se papel das notícias», explica Valéria.
De olho no potencial dos bailarinos, Valéria optou por a criação coletiva.
«Atualmente 'ta é única opção que eu enxergo para que o 'petáculo não seja uma imagem pré-criada.
É verdade que saímos de um lugar mais seguro, por ser mais conhecido.
Mas assim que o elenco assume seu papel criador, as movimentações são ' defendidas ' com mais propriedade e, principalmente, o público pode ver o processo do corpo vivo, e não apenas 'culpido por uma técnica», considera Valéria.
Desta forma, a singularidade de cada um foi aproveitada ao máximo:
da força dramática de Leda Santos, à versatilidade e improviso de Jaflis Nascimento (filho de Nascimento do Passo, o primeiro artista a sistematizar um método para o frevo);
da 'pontaneidade brincante de Iane Costa à suavidade e precisão dos movimentos de Calixto Neto.
A trilha -- Boa parte da força do 'petáculo vem da música, uma trilha sonora original composta no capricho por Silvério Pessoa, Yuri Queiroga e uma equipe de músicos, batizada de Coletivo DerrubaJazz.
Todas as faixas 'tão postadas no Overmundo, em formato Torrent.
Vantagens do copyright flexível:
Vermelho Medo, uma associação da faixa «Medo, parte II» com as imagens Fotos Vermelhas foi recentemente postada no Banco de Cultura.
Esta é a experiência de 'tréia do coletivo na confecção de trilhas sonoras, uma nova fase que começou como uma brincadeira.
«Estávamos em Paris, quando Yuri teve a idéia do nome, um tanto insólito e divertido.
Mas, é isso mesmo, começamos a colecionar as mais diferentes experiências com o jazz, e resolvi colocar ' coletivo ', pois compomos com a participação de vários músicos», explica Silvério.
A trilha é uma viagem não-linear por o frevo, composta por samplers, efeitos eletrônicos, ruídos, vozes processadas e, claro, pandeiro, caixa (tambor) e trombone.
«Procuramos deixar os temas objetivando emocionar, seja na tensão, seja na emoção, ou nos passos dos dançarinos.
Algo que particularmente me 'timulou bastante foram os gestos, a linguagem dos olhos e das mãos em perfeito contraponto rítmico com a trilha.
Eu chamaria a trilha uma «desconstrução» do conceito tradicional de frevo -- assim como é a coreografia», afirma o compositor.
Mais fotos e depoimentos sobre a gravação 'tão no blog de Silvério.
Pra quem quer conhecer mais de seu trabalho em trilhas sonoras, Silvério compôs trilhas para o Canal Futura, e também o tema do premiado curta de ficção Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, intitulado «Luvas Verdes», disponível para download.
Número de frases: 51
Estou enjaulada em 'ta condição de artista carioca.
Estou prisioneira de 'ta miséria que é ser (boa) artista no Brasil.
Nasci no Rio de Janeiro, em Ipanema.
Estudei aqui, trabalhei aqui, aprendi a viver e a ser alguém aqui, construí a minha carreira aqui.
Sendo boa cantora, tendo personalidade artística e alguma cultura, tendo tido experiências múltiplas na música e na vida, tendo ralado e galgado degraus, tradicionais ou não, da carreira, do boteco ao Canecão, tendo me preparado pra exercer a minha profissão, tendo trabalhado ao lado de grandes e reconhecidos músicos deste país, tendo tido público, belas críticas, prêmios ...
Ainda assim não consigo viver de cantar na cidade onde nasci.
Se eu quisesse ser mais artista que cantora, se eu quisesse mais o clima que a carreira, se eu tivesse gana de fama, talvez ainda pudesse 'perar ganhar dinheiro.
Desconfio que já ganhei o quinhão que cabe aos -- quase todos -- bons artistas profissionais brasileiros:
prestígio. Sem fama e sem grana.
Mas pra mim, prestígio é um chocolate recheado de coco.
Peço perdão ao rebanho d' O Segredo, mas cansei de repetir aos ventos e de visualizar minha agenda e minha platéia lotadas, muito público pagante sem desconto, minha conta bancária no azul, meus músicos com boas condições de trabalho, os discos tocando no radio e na TV, eu não precisando trabalhar com outra coisa pra pagar o aluguel, com tempo e cabeça pra me dedicar, pra 'tudar, podendo investir no meu trabalho e formação, pagando, com folga, todas as minhas contas com meu trabalho musical:
bom, maduro, bem feito, com personalidade, cada vez melhor, ascendente.
Projetei, mas acho que O Segredo não pega em músico brasileiro.
Em os cariocas, certamente não pega.
Se pega, dá prestígio.
Grana não dá.
Depois de ter ganhado o Prêmio Tim ao lado dos meus colegas, de ter cantado no Ano do Brasil na França, de ter feito milhares de shows, pra milhões de pessoas, ao lado dos melhores músicos deste país, ainda acontece de eu não conseguir pagar minhas contas com música.
Canto, sempre, sim.
Fiz 24 shows em três meses.
Oito por mês, dois por semana.
Não é muito, mas não é pouco.
Mas cantar não paga conta.
Nem pensar numa loucura de 'sas, menina!
Não tem onde colocar os músicos, o público carioca não faz mais 'se programa, as casas não bancam música.
Acabou. Não 'tou falando da Lapa, 'se Baixo Gávea universal embalado a samba.
Estou falando de todo o resto da cidade.
Onde 'tá a rede que torna possível a atividade profissional do músico, ao lado da laia de técnicos de som, roadies, iluminadores?
Estão todos parados?
Como pode viver um artista sem desaguar sua arte?
Pra poder criar mais, pra discutir, pra pensar, pra praticar, pra não parar de aprender.
Experimentar: fazer fundamental para o artista.
Como ter resultados sem praticar?
Como? Como ser músico sem ter uma cena onde se inserir?
A Lapa 'tá cheia de sambistas acidentais por isso:
porque há uma cena à qual pertencer.
Não quero reger o cordão dos ressentidos, não 'tou despeitada.
Não considero a minha carreira um fracasso artístico, pelo contrário.
Mas é um fracasso financeiro, enraizado na podridão deste país de ladrões.
Como muitas outras carreiras, muitas carreiras de grandes talentos que conheço.
Tenho ódio de sentir novamente 'te nó na garganta, 'sa infelicidade, 'sa sensação de incompetência, 'sa impotência.
Tenho ódio da sensação de corda no pescoço, de beco-sem-saída.
Tenho ódio de ver meus amigos-puta-músicos atrasando a mensalidade da 'cola dos filhos e tendo que ir negociar:» ...
é que eu sou músico ...».
Meu cartão de crédito 'tourou, a moça ligou:» ...
a senhora é cantora, né?
E não tem um emprego? ..."
Tenho ódio de 'crever para a Europa pra sondar trabalho, pra morar em outra merda de cidade onde não quero morar, longe da minha casa, pra um dia na vida ter o prazer de viver do meu trabalho sem 'sa 'pada na cabeça.
Não me superestimo, não quero uma limusine preta e 40 toalhas brancas.
Quero trabalhar e ganhar por isso, como todo mundo.
Tenho desprezo por quem pergunta:
«Você só canta ou você também trabalha?"
Tenho minha historia, meu roteiro, meu sucesso aqui.
Quero ter um presente maravilhoso aqui.
Quero poder ter um futuro brilhante, se for o caso.
Quero respeito, mereço respeito, quero ser paga por o meu trabalho.
Te o prontinha pra trabalhar, tinindo, trincando.
Quero ter onde trabalhar.
Já joguei um monte de idéias no lixo por descrença.
Já deixei de fazer milhares de coisas por falta total de recursos.
Just like. Foda-se, quem se importa?
Eu me importo.
Mas eu não paro de trabalhar, não paro.
Trabalho do jeito que for possível, sempre, porque antes de qualquer coisa eu sou cantora, 'se é o meu trabalho.
Esse é meu alimento e meu produto 'sencial:
música. Tenho feito isso quase de graça e, se for necessário, continuarei fazendo.
Mas sei que, em 'te mundo onde tudo se vende, eu deveria poder fazer música e ganhar um dinheiro justo sem ser a maior 'trela do país.
Eu e milhares de artistas brasileiros comuns, profissionais, que quase vivem do que fazem, quase pagam as contas, quase vão à falência, quase têm que largar tudo e ir trabalhar em outra coisa, todos os dias.
Pra ter uma casa pra morar, uma família, uma vida.
Minha solidariedade aos colegas:
que a jornada lhes seja prazerosa como a minha.
E bem mais remunerada!
Número de frases: 71
Efeito Colateral -- Mano Brown no Roda-Viva
Mano Brown ao vivo no programa Roda Viva, da TV Cultura SP, mostrou, antes de mais nada, do que é feito um homem que se forma sozinho (do isolamento no que ele próprio chama genéricamente de periferia à ausência do pai que nunca conheceu).
Seu raciocínio e suas opiniões ora se aproximam do resumo bruto de uma inspirada busca de auto-conhecimento ora chafurdam na mais completa confusão.
A primeira investida para tentar politizar a entrevista, exibida em 'ta segunda, 24/9/2007 -- já que o que se 'pera ali no programa é uma discussão que renda posições sobre problemas «macro» (da política, da cultura, do comportamento humano ...),
veio da psicanalista Maria Rita Kehl.
Logo nos primeiros instantes do programa, Rita Kehl convidou o cantor dos Racionais MC's a aproximar-se de outros representantes populares e dar sua opinião sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST).
A resposta foi reveladora.
Mano Brown respondeu com um completo desconhecimento:
«Tem um cara preso, certo?
Lutando por uma causa que não é só de ele, é de milhões.
E por o que eu tô vendo, vai pagar sozinho».
E devolveu a pergunta para " Rita Kehl:
«É isso?».
Rita Kehl, levada a reconhecer que ela própria levantava um assunto que desconhecia, responde:
«Não sei».
Brown então retorna:
«É José Rainha, é isso?
Tenho que dizer que sou um cara que lê pouco, mesmo.
Sou muito mal informado sobre muitas coisas».
Mano Brown referia-se a um assunto de cinco anos atrás (a prisão de Rainha), sugerindo mais que desconhecimento do MST (que levou de roldão toda a arena de entrevistadores, já que ninguém posicionou-se: onde 'tá José Rainha?),
um desconhecimento particular, que beira o constrangedor.
Em o caso 'pecífico de José Rainha, o «ex-líder» do MST, que responde a processo em liberdade, é considerado como pessoa que «não faz mais parte de nenhuma instância de coordenação nacional, 'tadual ou local do nosso movimento», diz nota de junho deste ano do MST, em seu site.
Mano Brown revelava, assim, que se apegaria -- como deixou parecer num «as coisas que me interessam, eu me informo» -- ao seu universo e linguagem forjados a duras penas.
Mesmo respondendo, logo em seguida, sobre os 'cândalos do mensalão que levou o ex-chefe da Casa Civil e amigo pessoal de Lula, José Dirceu, à condenação política, o fez como um comentário próprio de uma roda de amigos.
Respondeu dizendo que Lula não iria " dar a cabeça dos amigos para os inimigos de ele.
E que o presidente «preferiu 'perar a Justiça» e, só depois, se provada a culpa, seria «pau no gato».
Isso fez com que o programa se arrastasse, deixando a impressão que, entre outros motivos, a ausência do músico nos meios de comunicação (atitude por a qual também foi perguntado) deve-se tanto a uma opção quanto a uma necessidade.
Os blocos seguintes do programa, no entanto, sugeriram o contrário.
Mano Brown ensaiou um discurso cortante quando o assunto tocou diretamente na realidade apresentada em suas composições (" o que lhe interessa "), sempre recusando a posição de modelo ou líder.
«Adoro o Marvin Gaye mas não vou levar a vida que o Marvin Gaye «levou».
A bancada cedia a seu ritmo.
O jornalista da versão brasileira da revista Rolling Stone (Ricardo Cruz), que chegou com um descolado paletó «pretinho básico», voltou ao segundo bloco já de camiseta com a foto de Tim Maia, deixando aparecer os braços fechados de tatuagens e já, adiante, perguntaria a Mano Brown sobre» líderes brasileiros».
Sobre os conselhos que dá a jovens rappers, pergunta feita em tom de um ardiloso inquérito por o jornalista policial Renato Lombardi, Mano Brown superou seu vocabulário truncado com opiniões, pelo visto, há muito elaboradas.
Disse que sugere aos jovens que não se refiram ao público de cima para baixo, como um pai ou professor, mas numa relação horizontal, «ombro no ombro».
«às vezes, a única coisa que o mano quer é um companheiro».
Outros termos usados como tesouros por sociólogos e jornalistas, como «cultura», aparecia na boca do músico de maneira menos dotada de uma aura mágica e mais vivos.
O próprio Renato Lombardi entrou na rota de um irônico e inesperado comentário ao pegar as letras de Mano Brown para questioná-lo:
«Hmmm ... Antes de mais nada, isso é uma rima».
Marta Suplicy teve, talvez, o mais objetivo resumo sobre sua derrota para José Serra na eleição municipal de São Paulo, em 2004.
Segundo Mano Brown, os próprios moradores de periferia, que receberam os Ceus (amplos centros de cultura e arte instalados nos bairros mais afastados da cidade) votaram contra ela, por ela ter se separado do marido, o senador Eduardo Suplicy, para se casar com o (argentino) coordenador de sua campanha, Luís Favre.
Enfileirava, assim, mais um dado à impressão de que a vida particular de Marta Suplicy teria, como revelação dolorosa, pesado mais do que seu empenho como administradora.
No entanto, num dos momentos mais confusos do raciocínio formado -- sem leituras -- por Mano Brown, traficantes e fabricantes de bebidas alcoólicas foram associados como um mesmo grupo de «comerciantes», propondo mais liberdade aos traficantes do que penalização aos produtores de» cerveja e 51».
A idéia é validar e promover um discurso primeiro para depois descobrir seu alcance.
Nada, no entanto, comparou-se à constrangedora intervenção final do mediador Paulo Markun, que, de maneira para lá de inusual, praticamente isolou Mano Brown à periferia da qual ele vinha falar.
Número de frases: 44
Markun, de maneira nunca feita em programas anteriores, encerrou o programa com um texto, pelo visto, rabiscado às pressas, sobre a função «da tv pública» em abrir 'paço para todos os tipos de opinião -- ainda que a única coisa que conseguiu passar foi a preocupação em garantir a devida distância da desumana lógica construída em 'sas «quebradas» do Brasil.--
Quem foi assistir ao 'petáculo do Circo Picolino no Centro de Cultura João Gilberto?--
pergunta Leonardo, na altura de seus 18 anos de vida -- seis de NAEND ' A.
Em a manhã de uma segunda-feira de abril, vozes dissonantes se 'palharam por o círculo formado por cerca de 30 crianças e adolescentes da periferia de Juazeiro-BA.
Clériston, 12 anos, é o mais agitado.
Com seus seis anos de oficina, ele sonha em adentrar um circo profissional.
-- Sabe por que eu queria que vocês fossem assistir a 'te 'petáculo?
Para vocês verem uma coisa que eles têm e vocês precisam ter.
Agora, me respondam:
o que é que eles têm e vocês precisam?
As vozes dissonantes prosseguem, como se não fosse possível ficar inerte a uma pergunta como 'ta:
-- Salto mortal -- tenta um dos aprendizes.
-- Não.
Não é isso ...
-- Concentração.
-- Te a chegando ...
-- Perder o medo.
-- É por aí ...
-- Perder a vergonha.
-- É quase isso ...
Com o título de «Cenas cotidianas», o Circo Picolino montou em Juazeiro uma apresentação baseada no dia-a-dia de uma 'cola de circo numa grande cidade.
Acordar, 'covar os dentes, lavar o rosto, trocar de roupa, pegar ônibus cheio e ensaiar são cenas que, numa apresentação circense, adquirem uma dimensão mágica.
«Coisas» que, medidas as proporções, também fazem parte do cotidiano dos mais de 200 meninos e meninas participantes das oficinas de circo, percussão, balé, dança popular, teatro, filarmônica, artes plásticas e capoeira oferecidas por o Núcleo de Arte-Educa ção Nego DÁgua.
E de pensar que tudo isto surgiu sob uma cobertura de lona ...
Estávamos no ano de 2002, quando a fundação cultural trouxe para Juazeiro um projeto de Arte-Educa ção que envolvia cinco Organizações Não-Governamentais de Salvador, entre elas o Circo Picolino.
Durante três dias, as lonas do circo montadas para acolher as oficinas de sensibilização foram testemunhas de um momento inesquecível:
a germinação do NAEND ' A.
Uma semente jogada em solo fértil.
A partir de um corpo em 'tado de vida latente, aqueles dias assistiram ao processo inicial do crescimento de uma planta, que Márcio Ângelo, primeiro coordenador do Núcleo, se recorda como se fosse ontem:
-- Dentro das cinco ONG's tinha um grupo pedagógico que discutia a criação de um Núcleo de Arte-Educa ção na cidade.
A gente já tinha o projeto filosófico de descentralizar a cultura em Juazeiro, mas não sabíamos como.
Foi aí que ficamos sabendo que a Arte-Educa ção fazia parte de 'ta política que queríamos implementar.
Arte-Educa ção?
Leonardo, que há três anos é oficineiro de circo, ainda não se sente à vontade com 'ta palavrinha mágica:
Arte-Educa ção.
-- Por enquanto, eu tento multiplicar na arte, por que na educação ...
Eu ainda 'tou tentando me formar como arte-educador de circo.
A impressão é que, no NAEND ' A, a Arte-Educa ção é parte de um processo que vem sendo construído e reconstruído cotidianamente.
Como princípio fundamental do Núcleo, há a necessidade de uma compreensão da Arte-Educa ção em seus diversos sentidos:
filosófico, sociológico, educacional, político, ambiental e cultural.
Eis um desafio constante para uma realidade rica e complexa.
Atual coordenador do NAEND ' A, Adegivaldo vê em 'ta metodologia a possibilidade da formação de cidadãos críticos, atores sociais na comunidade em que vivem.
Algo que se alinha com a opinião de Elzirene, pedagoga e arte-educadora de artes plásticas.
Para ela, a linguagem artística é um veículo:
-- O nosso objetivo maior não é formar artistas, mas sim oferecer às crianças e adolescentes dos bairros próximos uma formação voltada para a questão da cidadania, consciência ambiental, valorização da cultura popular ...
A maior parte de 'tas crianças e adolescentes que hoje têm a oportunidade de preencher o turno oposto à sala de aula com oficinas criativas são de localidades que há pouco tempo eram vistas como à margem da sociedade juazeirense.
Entretanto, já é possível vislumbrar uma nova percepção social.
Isto porque além de despertar nas crianças e adolescentes dos bairros próximos a ânsia de querer ir além dos 150 metros quadrados do 'paço de oficinas, a presença do NAEND ' A tem incitado a formação de um público cativo nos eventos culturais da cidade.
O bairro do Kidé, sede do NAEND ' A, já é uma referência cultural em Juazeiro.
Antigamente dizia-se, ao se referir àquela faixa de terra afastada do centro:
«Eu vou para o que der e vier».
De aí ficou:
Kidé. Hoje ninguém duvida do que se pode encontrar na Rua das Algarobas ou do que a Rua das Algarobas pode encontrar ...
Não por acaso, a pergunta feita por Leonardo na primeira linha deste texto faz muito sentido.
A maioria das pessoas presentes no Centro de Cultura João Gilberto para o 'petáculo do Circo Picolino era proveniente do Kidé.
A distância física, em 'te caso, foi compensada por a proximidade afetiva.
Leonardo continua:
-- Por que eu perguntei o que é que eles têm e vocês precisam?
Não é questão da habilidade de dominar um malabaris com seis ou sete bolinhas ou andar no monociclo de dois ou três metros não.
Se vocês se dedicarem a isto, melhor ainda.
Só que hoje eu quero é que vocês comecem a falar e ouvir, respeitar uns aos outros, ajudar todo mundo, em casa, na rua, na 'cola ...
Não 'queçam que quem vai dar aula de circo mais tarde serão vocês.
Detalhe:
Número de frases: 63
Por falta de financiadores para as atividades desenvolvidas no NEND ' A, todas as pessoas que facilitam as oito oficinas oferecidas por o Núcleo trabalham voluntariamente.
A cena britânica é uma das mais ávidas para revelar novos nomes.
Faz isso até com uma certa sofreguidão, com uma ânsia desmesurada por o novo.
Com a internet, isso acabou virando uma tendência mundial.
O nome da vez, no cenário independente brasileiro, é o de Mallu Magalhães.
Com apenas 15 anos de idade, a jovem cantora compõe canções folk (ou rock acústico para alguns) em inglês.
O material pode ser conferido no 'paço de ela no MySpace.
«Don ' t you leave me «e» Tchubaruba» são algumas das canções.
Essa última já foi 'cutada mais de 4 mil vezes.
Mallu Magalhães tem vários shows agendados para fevereiro em São Paulo:
dia 7 (no Milo Garage) e 15 e 22 (no Studio SP) de fevereiro.
Parece que a tendência cada vez mais se confirma:
a música em si perde valor comercial;
o artista passar a lucrar prioritariamente com shows.
O que não é tão diferente de antigamente, bem verdade (a porcentagem do artista na venda de discos era ínfima).
A diferença é que, muitas vezes, artistas ganhavam muito dinheiro em adiantamento para gravar álbuns.
Além de muitas facilidades possibilitadas por as gravadoras:
rede de distribuição de discos consolidada, verbas infladas para gravar álbuns, 'quema forte para divulgação dos trabalhos, todo o staff (assessores, relações públicas etc.) da gravadora em favor do seu trabalho entre outros.
Vale ressaltar que havia inúmeras variações de acesso a 'sa 'trutura por parte dos artistas.
Uns com mais, outros com bem menos.
De qualquer forma, o cenário é bem distinto para novos nomes:
militar via «faça você mesmo» pode não ser mais opção inicial mas sim o único caminho a ser seguido.
Isso se você não 'tourar e conseguir certa visibilidade para chamar a atenção das combalidas gravadoras.
Número de frases: 23
E, para os menos «sortudos», que o boca-a-boca on-line dê visibilidade ao trabalho.
Por que pensar cultura?
A cultura, o mercado cultural propriamente dito, tornou-se a chave, a coluna vertebral, o sustentáculo do sistema capitalista e desenvolvimentista do nosso século e promete tornar-se ainda mais central nas décadas vindouras.
Se recorrermos à história, vamos observar um grande vazio ideológico deixado com a queda do muro que separava ocidente e oriente, as vigas que mantinham intactas o denominado modo de produção socialista.
Um pouco antes, mas quase que paralelamente, assistimos ao nascer dos códigos e aparelhos eletrônicos que mais tarde fluiriam naturalmente para um novo 'paço criativo cujo nome vem, não por acaso, do vocábulo «net», gerando o seu derivativo internet, uma 'pécie de rede em todos os sentidos.
Rede de comunicação, de troca de idéias, de pesquisa e armazenamento.
Se ontem muitos não viviam sem televisão, hoje 'tes mesmos passaram a ter o micro como referencial e assistente de tarefas que vão desde a mais simples composição de um texto até as complicadas e sofisticadas trocas virtuais.
Com a projeção do 'pectro sensorial e mnemônico do âmbito meramente humano, para o campo do virtuosismo e da infinitude de recursos, é mister resolver, dentro desse novo contexto, o que exatamente a cultura, enquanto mercado de bens simbólicos e enquanto fator de valoração do humano, realiza ou colabora no sentido de compreensão do novo homem, antenado e compenetrado, um homem ao qual não se pode mais fazer concessões, ao qual não se pode mais delir.
Em um primeiro momento, presencia-se a queda do capital, dos latifúndios, e das mercadorias assim como os conhecemos.
O mundo respira mais seccionado em todos os aspectos.
Porém, mais uno se levarmos em consideração a derrocada cambiante dos direitos autorais, como primeiro passo na direção da demolição do conceito de propriedade intelectual.
Autores compreendem que se passou de um 'tágio comunal para um processo histórico justamente a partir do fenômeno da propriedade.
Assim podemos dizer que o meio virtual «socializou», até certo ponto, o acesso à determinado status cultural, pois quem possui as ferramentas certas é dono de um acervo incomensurável de informação e conhecimento.
Chegando até mesmo a interagir com todo o seu domínio.
Por outro lado, em oposição à maré cultural facilitadora, ou talvez, em razão de ela, surge uma busca dentro do mercado cultural, por a autenticidade e por a inovação como jamais vista.
Uma procura incessante, que se coaduna com o individualismo tão difundido em territórios ocidentais capitalistas.
Aparecem as chamadas indústrias criativas que perseguem os benefícios passíveis de serem extraídos daquilo que não tem dono, ou melhor, que possui milhares de donos e consumidores num só tempo.
Dentro dos parâmetros de uma sociedade da informação e à medida que 'ta alcança seu ponto de ruptura, rumo a uma sociedade do conhecimento, a cultura deflagra uma tese recorrente:
a sujeição do cérebro (um monomotor, digamos) à uma amplitude de conteúdos infinitesimal (um ônibus 'pacial).
Adequar o meio social às necessidades intrínsecas à nova realidade cibernética ou virtual, como se queira, tornou-se o grande desafio da cultura e seus atores para 'ta década.
Em 'se plano, vale questionar:
quais as pontes éticas entre o fato e o seu derivativo virtual?
Que elementos nos levam a suspeitar da informação?
Existem, ou existirão, fatos meramente virtuais?
Todos os indícios levam-nos a crer num eterno descompasso entre os avanços e os retrocessos, nas práticas e nas intermediações culturais, respectivamente.
Enquanto as primeiras evoluem a passos de tartaruga, as segundas desprendem-se ladeira abaixo sem qualquer óbice que lhes imponha uma desaceleração gradual.
A gravidade, assim como despertou a curiosidade de Newton, parece corroborar o velho ditado, cujo teor encontra-se mais próximo de um presságio:
«o futuro a Deus pertence» (ou deuses).
A cada dia que passa, a cultura parece mais beirar um destino ignorado e ignorante.
Sem prumo, parece perderem-se os significados em mentes insignificantes.
Apenas um detalhe:
não se pode mais voltar atrás.
A história agora não é mais 'crita por os vencedores, mas por todos, numa forma de colaboração indelével e perene.
A nova formatação do mundo permite que todos sejam latifundiários assim como é permissiva a que países de terceiro mundo desenvolvam ogivas atômicas.
Pouco importa, entretanto, o cenário de guerra que se instaura em dimensões tangíveis, mais perigosas são as insurreições subcutâneas, as ondas, e saliências capilares que forjam, todos os dias, milhares de desafetos sistêmicos.
Aqueles para os quais não interessa se o mundo vai acabar hoje ou amanhã, para os quais o futuro pode ser definido em minutos numa tela multidimensional, aqueles que padecem da síndrome do «deixa (a cultura) pra lá».
Eles vieram ao mundo para aperfeiçoá-lo, mas apenas até alcançarem a última fase e «the game over».
Número de frases: 37
Ouço as canções de Bob Dylan -- sua voz rasteira e suja, seu violão despedaçado, empoeirado, suas letras-contos, suas idéias
fantásticas, sua verborragia -- e me animo a encarar a minha voz e o violão.
«Ou vou para a frente ou vou pra trás.
O que não posso é ficar parado."
Caminho com passos curtos, mínimos, quase nada, mas é do quase 'tático, é de 'ta mínima fagulha que construo minhas flamas donde os ventos a fazem crescer ...
Encaro com angústia os músicos inventados, diferentes de inventivos, os músicos fabricados, diferentes de fabricantes, os músicos trabalhados, diferentes de trabalhadores ...
Em 'te momento 'tou justamente a pensar se cito nomes ou não ...
Melhor não, tenho só 25 anos.
Castro Alves morreu com 24 anos.
Li algo que Décio Pignatari 'creveu, algo sobre PRODUSSUMO, não cheguei a formar nenhum tipo de conclusão, mas fiquei pensando, bastante, em 'tas duas palavras que se apresentam em uníssono, aqui as separo:
Produção e Consumo.
Li em comentários, que se a cidade se apresenta indigesta para os artistas, seja em que área for, os artistas de 'ta cidade são os grandes culpados. (
Farei uma metáfora rasteira com o Futebol:
por mais que possam existir dirigentes, empresário, torcida, imprensa, técnicos.
Só quem tem o poder de decidir uma partida é o jogador de futebol.
Uma bola só existe quando 'tá em movimento.)
Não falemos em culpas ...
Mover, sempre mover-se ...
O que significa um livro na 'tante?
O livro só existe na mão dos leitores.
O que significa um disco numa prateleira?
Um dia feliz, seria o dia em que eu entraria na maior biblioteca da minha cidade, e para a minha surpresa, não encontraria livros nas 'tantes ...
Ninguém (não subestimo as exceções) quer parar para ouvir uma canção de alguém no meio da rua, ali, ao vivo.
Todos (subestimo as exceções) querem ter o produto artístico ali na sua frente, mastigado, com capa bonita, encarte com todas as letras, se possível as cifras para violão, querem assistir a clipes na tv, naquele formato consagrado, querem entrar na loja e mostrar que consomem tais músicas.
Alguns (aqui, falo das exceções) não 'tão satisfeitos com a relação Produção e Consumo que permeia a sua cidade ou como disse Décio:
Produssumo. Alguns, com ações individuais ou em pequenos grupos, tentam a todo custo movimentar aquela 'fera, mover a bola e dar graça ao jogo, acender a mínima fagulha, ascender frente ao caos habitual, em 'te momento 'tou justamente a pensar se cito nomes ou não ...
enfim-sem-fim:
Acabo de fazer uma música.
E agora?
p. s.:
O título do texto não se trata de uma simples metáfora.
É uma frase literal.
Que perpassa a minha vida num misto de alegria e angústia.
Número de frases: 33
Uma conversa com a Professora Patrícia Mc Quade sobre suas experiências literárias em sala de aula
Professora de uma 'cola na região metropolitana de Belo Horizonte, Patrícia Mc Quade vem desenvolvendo há quatro anos uma série de ações ligadas à literatura e à criatividade com seus alunos.
Em 2003, lançou o primeiro trabalho:
o livro «Versos travessos» é um lindo exemplo de boa poesia 'crita por crianças de apenas 10 anos.
Não parou por aí.
Em o ano seguinte, inspirada em 'se primeiro sucesso, decidiu criar uma biblioteca na sala de aula que se manteria com a colaboração dos alunos.
O projeto se chamava «Doce de ler» e ela o mantém desde 2004, nas suas sucessivas turmas.
Ao mesmo tempo, compartilhava com eles sua paixão por as narrativas maravilhosas da infância e também desenvolvia o projeto «Cordelistas mirins».
De este trabalho, surgem 31 livretos de cordel, todos de autorias dos alunos.
A impressão feita manualmente em 2004 com a colaboração de alunos de outras turmas, pessoas da comunidade 'colar e até alguns familiares dos alunos que faziam parte do projeto.
E o trabalho dos cordéis continua, desta vez com o nome de «Cantadores de cordel» (a 'colha é sempre feita com a colaboração dos alunos, comungando o desejo de ver o resultado final).
O resultado (impresso em 2007) são 15 cordéis e mais um, criação coletiva, inspirado no conto «A terra onde nunca se morre», copilado originalmente por Ítalo Calvino no livro Fabulas italianas (Cia das Letras, 1992).
E a brincadeira não para:
Patrícia ainda desenvolve atividades de teatro, fantoches, circo, contação de histórias, saraus, coro de poesia, projeto de 'crita de fábulas e os seus alunos produzem sempre muita poesia.
Não foi à toa que no final de 2005, o programa Minas um livro aberto, da TV Minas, filmou a turma de alunos de Patrícia para fazer o último programa do ano, 'pecial de natal.
Acredito que toda 'sa experiência anuncia um conjunto de exemplos a serem seguidos na educação brasileira:
em primeiro lugar, que o professor nunca abdique de suas paixões ao ministrar suas aulas.
Em o caso (a paixão por a literatura) um excelente produtor de desejo por parte dos alunos.
Em segundo lugar, a necessidade de mostrar o valor de uma empreitada com produto final palpável e com valor que ultrapasse a sala de aula.
Com 'se trabalho, a literatura não vira produto de competição via concurso ou melhor nota, mas instrumento de expressão pessoal.
Por isso decidi propor aqui 'sa rápida conversa que, tenho certeza, merece ser muito comentada, anotada, discutida e alimentada.
Leo Gonçalves:
Fala-se muito, hoje em dia, em como as pessoas 'crevem cada vez pior.
Isto é um mito conservador ou trata-se de uma realidade a qual devemos combater?
Como 'se combate pode ser feito?
Patrícia Mc Quade:
Eu acredito que se trata dos dois casos.
Não diria exatamente «mito conservador», mas senso comum, jargão reducionista.
Me incomoda muito 'se rótulo pejorativo que marca muitas realidades em apenas uma.
Contudo devo admitir que 'se senso comum tem sua razão de ser em parte, pois é notória a dificuldade que os jovens têm atualmente em 'crever.
Principalmente no que diz respeito à coerência, repetição de palavras e de idéias, dificuldades 'truturais de texto e de ortografia, falta de imaginatividade e ausência de argumentação, etc..
Essas dificuldades são mais marcantes em determinadas classes sociais, no entanto são problemas em todas elas.
Porém, discordo que 'se seja um problema que aflorou em 'ta geração.
Talvez 'teja mais evidente hoje considerando que, a passos de tartaruga, os brasileiros vêm aumentando sua 'colaridade e conseqüentemente suas produções na área da 'crita criativa ou acadêmica.
Considero como principal desafio da educação a formação de verdadeiros leitores e a democratização da 'crita.
Logo que a educação regular 'tá cada vez mais difundida, por que não trabalhar agora por uma qualidade de ensino?
Não se pode culpar a falta de contato desses jovens com os mais variados tipos de textos por a falha no exercício da 'crita:
uma imensa máquina textual nos rodeia 24h por dia.
O fato 'tá em como 'sa variedade textual pode ser aproveitada na produção de textos na 'cola.
Para mim, o problema 'tá primeiro nas práticas pedagógicas das instituições de ensino que não respondem mais às necessidades da geração de hoje e das que ainda 'tão por vir.
Nossa máquina educacional 'tá obsoleta.
Já que o senso comum sobre a dificuldade de se 'crever é a nossa realidade, como devemos combatê-lo?
Digo que melhorando a produção textual das crianças e jovens nas 'colas públicas e particulares, reinventando outras novas práticas didáticas e renovando suas relações com o próprio texto.
Mas, como fazer?
Trazendo de volta o prazer do texto, das palavras, dos sons.
E ainda antes disso, trazer novamente a própria prática da 'crita para dentro das salas de aula, ela deve ser o foco em todas as disciplinas, principalmente na área das humanas.
Reconto, interpretação de texto que desafie o aluno, leituras ensaiadas de vários gêneros textuais, relato, relatório, resenha, 'quema, resumo, produção criativa e / ou coletiva, poema, propaganda, trava-língua, paródia, paráfrase, tudo pode ser trabalhado de forma substancialmente significativa dentro das salas de aula, desde que visando primeiro, uma base humana:
a consolidação de uma auto-'tima dentro de um regime de confiança onde o erro faz parte do processo assim como o sucesso;
e segundo:
o aprimoramento da 'crita em cada ínfimo detalhe.
Considero uma como reflexo da outra.
Leo Gonçalves:
Qual o papel do livro e da literatura na nossa sociedade e como você entende o papel de ela na sala de aula?
Patrícia Mc Quade:
É muito difícil responder 'sa pergunta.
Não saberia aqui discorrer sobre a importância do livro e da literatura para nossa sociedade.
Por mais que construísse uma possível resposta acho que nunca a 'gotaria.
Esta pergunta me remete à idéia de que a 'crita surgiu da necessidade de se fazer registros religiosos, que os nossos primeiros livros foram hieroglifos para depois pergaminhos, até chegar ao formato que conhecemos hoje e já migramos para outro 'tágio de livro que passa do concreto ao virtual.
Basta pensar que um dos primeiros livros a serem impressos foi a bíblia traduzida para o alemão e depois disso nasce uma imensa industria editorial que vai desde literatura e ciência até panfletos que são distribuídos nas ruas.
Através do livro se descobrem saberes, conhecimentos que não podemos adquirir unicamente através do contato com o mundo do nosso cotidiano.
Através do livro se formam e transformam ideologias, crenças e realidades.
Podemos sim descobrir muitas coisas a partir da leitura de um livro.
A curiosidade é sua melhor e maior aliada.
Com curiosidade e um bom livro nas mãos acredito que se pode fazer mágica.
A criatividade é uma magia que deve ser alimentada através de leituras diversas.
Para mim, a literatura é uma de 'sas possibilidades, e uma das mais agradáveis.
Procuro apresentar aos meus alunos 'se prazer, o de se encontrar quando se encontra o outro.
O livro é um dos meios, a literatura é uma das mensagens.
Ela toca no humano e o faz despertar do imenso sono que é a realidade.
A literatura atiça as percepções do nosso corpo porque trabalha a mente, porque a 'timula a conhecer.
Quem gosta de literatura gosta da idéia de que as possibilidades de conhecimentos são infinitas, de que nunca vai conseguir conhecer tudo sobre determinado assunto.
Quem gosta de literatura gosta de pesquisa, gosta da 'crita e gosta da dúvida.
Para mim 'ses são elementos muito importantes dentro de uma sala de aula para a formação de verdadeiros 'tudantes:
leitura, pesquisa, 'crita e dúvida.
Esses elementos podem ser despertados e trabalhados a partir da literatura, mas 'se não é o único jeito.
Cada professor deve descobrir qual é o seu.
Leo Gonçalves:
Em as suas aulas do curso fundamental você dá um enfoque todo 'pecial à literatura.
Não apenas como fonte de conhecimento, mas como liberador da criatividade dos educandos.
Seus alunos lidam com a literatura como leitores, criadores, performadores.
Todas 'sas atividades são complementos apenas para o ensino de Português e Literatura?
Como a maioria dos professores do ensino fundamental você trabalha também com outras disciplinas, como Geografia, Ciências, História.
Seus projetos colaboram para o aprendizado das outras áreas?
Patrícia Mc Quade:
Meu enfoque 'pecial é a literatura porque eu gosto de literatura.
Dizem que meus projetos são legais, eu acho que isso se dá porque tento despertar nos meus alunos o gosto por aquilo que eu gosto.
Mais do que ensinar, em 'te caso, é compartilhar.
A partir de 'sa soltura de compromissos formais acontece a magia da criatividade junto com o aprender.
Não há avaliações nem conceitos a serem contados.
O leitor e a leitura podem acontecer, de repente, prazerosos.
As crianças começam a notar coisas que só uma leitura solta poderia mostrar.
As críticas que partem de elas são muitas, condescendentes e severas.
Indicações de autores e títulos passam a ser cada vez mais freqüentes em sala de aula.
O contato com a literatura acontece.
A contação de histórias é um ótimo meio para se chegar ao prazer de ler:
o retorno ao prazer de ouvir.
Ouvir histórias consiste também numa leitura, 'timula a criatividade, silência o agitado corpo da criança que fica agora atiçado por a curiosidade de ouvir e faz falar outras vozes, as da imaginação.
Trabalhar variados gêneros literários como teatro e poesia, de uma forma bem concreta, seria outra maneira de tocar no prazer do texto.
Mas tudo isso não se dá de uma forma totalmente solta.
O professor deve 'tar atento aos interesses que são despertados nos alunos e modificar o projeto didático a fim de dar conta de 'sas curiosidades, desses desejos e, com isso, pode-se aprofundar nas suas mais variadas disciplinas:
geografia, história, artes, filosofia, etc..
Os diferentes saberes não podem ser compartimentados, considerando que no mundo eles 'tão em constante diálogo.
Trabalhar a biografia de um autor, o contexto em que determinada obra foi 'crita, aquele momento político, traçar itinerário a partir de uma literatura de viagem, ou mesmo a localização de determinada obra dentro de um tempo / 'paço seria somente um ponto de partida para outras novas descobertas.
Para isso basta ouvir as perguntas que surgem dos alunos em sala de aula e saber transformá-las em propostas de pesquisa e / ou produção criativa.
Trabalhando de forma interdisciplinar, o professor passa a ser também um construtor de pontes.
Leo Gonçalves:
O poeta Waly Salomão, pouco antes de falecer, quando assumiu a mesa do livro e da leitura no ministério de Gilberto Gil, criou um projeto que fazia par com o programa «Fome Zero».
Waly não viu avançarem suas ações, mas numa entrevista concedida a Heloísa Buarque de Hollanda, afirmava:
«minha meta é transformar o livro numa carta de alforria».
Você crê que o livro pode ser uma carta de alforria?
De que maneira?
Patrícia Mc Quade:
Só acredito na carta de alforria da princesa Isabel, e olha que nem ela conseguiu de fato dar liberdade a ninguém.
Não vejo o livro ou o conhecimento que ele nos traz como instrumentos de libertação, pelo contrário, já vi muito intelectual por ai aprisionado em determinados conhecimentos, linhas de pesquisas ou defendendo 'te ou aquele autor de maneira cega e limitada, e ainda muitos discursos científicos atrelados a preconceitos.
Os livros e seus conhecimentos não libertam ninguém.
A bíblia protestante veio com o objetivo de libertar o cristão da ditadura da interpretação católica e acabou se transformando em outras algemas para o homem.
Talvez se pensássemos nisso como uma metáfora seria mais convincente:
«o livro e a literatura como libertadores da criatividade», e sabemos que 'ta só acontece quando livre.
A liberdade, acredito eu, pode acontecer depois do livro, depois da leitura, quando o sujeito passa a 'tabelecer relações sobre aquilo que já conhece com o que acabou de conhecer através de sua leitura.
Talvez o livro seja um meio para que uma pessoa possa construir o caminho de sua liberdade, talvez um modificador de mentalidade se o leitor assim se permitir, um enriquecedor de conhecimentos, mas 'sa construção é árdua, depende de cada receptor e não vem de presente, encadernada num livro.
Depois da leitura de um livro pode vir a dúvida ou não, aquilo que intriga, que joga o leitor num momento de reflexão e muitas vezes de angústia, ou não acontecer absolutamente nada.
Não basta viabilizar o acesso de todos ao livro, deve-se hoje ensinar que a função de ele é a de questionar-se a si mesmo e não de instituir verdades.
Considero o livro e o saber que ele nos traz como apenas um dos meios para uma possível libertação, mas isso vai depender do tipo de uso que se faz do livro, e o que se pode construir a partir de ele.
* você encontra um pouco do trabalho de Patrícia Mc Quade nos seguintes blogues:
www.travessos.zip.net
Número de frases: 125
www.cordelmirim.blogspot.com www.salamalandro.redezero.org Símbolo de resistência -- por ter um casco grosso e viver em média 80 anos -- o jabuti tem como inimigo declarado os destruidores da floresta.
Por sua lentidão em se locomover é, junto como o bicho preguiça, uma das maiores vítimas das queimadas.
Em o imaginário popular, povoa histórias como personagem vitorioso nos embates com a onça.
Nascido em meio a um encontro de cultura popular, e tendo como referência o Boi-bumbá do Maranhão, o grupo Jabuti-bumbá vem com toda 'sa vivência.
Misto de sagrado e profano, o Jabuti-Bumbá se apresenta como crítica à devastação da floresta e como apanhado das manifestações culturais brasileiras e amazônicas, como a catira, cacuriá e a religião popular do Acre -- o Santo Daime.
De os instrumentos musicais utilizados por o Jabuti-Bumbá destacam-se a sanfona, zabumba, tambor e os maracás -- instrumentos feitos de lata parecidos com choqualhos utilizadas nos hinários.
As coreografias e as músicas do Jabuti-Bumbá, que se baseiam em passos do bailado do Daime, são criadas e recriadas por os próprios brincantes do jabuti a cada encontro.
O grupo conta com quatro puxadores e trinta brincantes permanentes.
Organizado por os Farias, tradicional família acreana de artistas, o Grupo Jabuti-Bumbá já se apresentou em diversos encontros de cultura popular por o Brasil a fora e se prepara para se apresentar em outras feiras e festivais em 2007.
O jabuti bailou com o boi
Boi Bumba do Maranhão Lá de onde o mestre veio
Pra uma divina missão
Jabuti pegou o boi
Amarrou e deu um nó Com medo de tanto pasto
E da mata virar pó ( ...)
Jabuti olhou para o boi
E antes do boi perguntar
Jabuti foi respondendo
Eu também sou um bumba ( ...)
E no meu casco ninguém vai fazer farofa
Tá dado o recado jabuti e jabota (
Número de frases: 21
letra de uma música do Jabuti-bumbá)
Em a próxima segunda-feira, dia 30 de junho, será realizada a primeira Assembléia Extraordinária da Cooperativa da Música de Minas (Comum), que nasce com o objetivo de dar suporte, tirar da informalidade e integrar os músicos, produtores e todos os profissionais da cadeia produtiva da música de Minas.
O evento será um momento para que as pessoas interessadas possam se filiar e também para apresentação das ações realizadas no seu primeiro semestre de existência.
A Assembléia Extraordinária da Comum acontece na Sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes, às 19h.
A Comum foi criada em dezembro do ano passado, com a associação dos primeiros 24 membros-fundadores.
Ela propõe uma nova forma de relacionamento comercial no mercado musical de Minas, baseando-se em conceitos como a economia criativa e redes solidárias.
Um exemplo disso é a criação de um banco de serviços, que permitirá a troca de serviços e conhecimento entre seus diferentes profissionais.
Ou seja, um músico que 'teja gravando um disco encontrará na própria cooperativa outros músicos para participar, ou um produtor para o show de lançamento, ou ainda um designer para a capa do disco.
Além disso, a Comum oferecerá outros serviços básicos a seus associados como, por exemplo, emissão de nota fiscal -- um grande diferencial para músicos que hoje trabalham na informalidade.
Desde que foi fundada, a Comum 'tá em pleno funcionamento e já desenvolveu planos de ação e formou parcerias.
Faz parte do Fórum da Música de Minas Gerais, que foi criado com o intuito de 'tabelecer um diálogo com o poder público de forma a atender as demandas da classe musical.
Também elaborou o chamado Programa da Música, que engloba um edital de circulação nacional e um plano de exportação apresentado à Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais.
A criação da Comum é uma consequência inevitável do momento de renovação e de mobilização que vive hoje a cena musical de Minas.
O músico ou qualquer outro profissional ligado à música que quiser se filiar deve preencher a Proposta de Adesão, que 'tará disponível durante a Assembléia Extraordinária, e pagar o valor de R$ 25 referente à quota-parte.
Número de frases: 14
A mensalidade para cooperados é de R$ 10.
Tyto Livi lançou em 1977 o seu primeiro e último disco -- um dos primeiros a ser gravados de forma independente no Brasil e até hoje cultuado por fãs catarinenses.
Mas afinal o que fez o advogado Ortenilo Azolini abandonar tão precocemente a música?
Falar do trabalho de Tyto Livi, no meu caso, talvez seja um processo de velamento.
Diferente das demais pessoas, que terão a oportunidade, se ainda não conhecem, de desvelar o compacto Memórias de um certo louco, lançado de forma independente em 1977.
O motivo que me aproxima do trabalho deste artista -- que se recolheu depois de seu primeiro e único disco -- é simples:
sou natural de Chapecó-SC, cidade que Tyto Livi, natural de Vargeão, adotou para morar.
Acho que 'sa aproximação poderia explicar tudo, mas proponho outra explicação, sem a intenção de 'clarecer nada, apenas para complicar um pouco mais.
Quando nos perguntavam (a mim e ao meu irmão), qual era o ponto referencial que nos aproximava do trabalho do Marcelo Birck (produtor da demo Campo e lavora, dos discos Repolho Vol. 1 e Vol. 2, e do disco dos Irmãos Panarotto, 2 Violão e 1 Balde), a resposta era muito simples.
Passamos a nossa infância 'cutando o compacto do Tyto (junto com outros discos, não muitos) numa pequena vitrola, mas, preciso frisar, em 45 rotações (pra ser mais rock, é claro).
Isto é, as 'tranhezas que as pessoas (alguns críticos também) observam no trabalho de Birck eram, para o nosso universo, completamente naturais.
Acabei me empolgando com as 45 rotações e para não perder a deixa faço um parágrafo a respeito.
A tecnologia avança e nos brinda com coisas maravilhosas, da mesma forma que nos priva de outras que aos poucos permanecem marcadas em algum lugar do passado, sítios arqueológicos soterrados por as construções culturais (pré pós ultra super mega) modernas.
Desculpem o devaneio, retorno.
Quando falo que 'cutar o trabalho do Birck para nós era completamente natural, não 'tou querendo dizer que seus discos têm a ver com o compacto do Tyto, mas que nós, em função da forma como 'cutávamos o compacto, é que tínhamos uma maneira marcada em algum lugar do tempo de aproximá-los. (
Uma outra pergunta passa ser natural, como seria 'cutar um disco do Birck em 45 rotações?
Essa, por enquanto, permanece no ar para quem se habilitar a responder.).
Mais tarde, quando nos embrenhamos no submundo da música, (re) descobrimos o compacto Memórias de um certo louco (agora, em rotação normal), que aos poucos voltou a fazer parte do nosso universo, mas, muito além disso, passamos a entender a importância do disco para os desdobramentos musicais (culturais) de uma cidade, isto é, a forma como o trabalho do artista refletia o universo cultural daquela região.
Mas só o fazia por conseguir reconhecer ou, ainda, se reconhecer em ela.
E é 'se (re) conhecimento que permite que outras pessoas se reconheçam no trabalho do Tyto Livi, de ele como artista, e aqui, me parece, que 'tá o ponto referencial que o aproxima do trabalho de músicos que, mais tarde, nas décadas seguintes, movimentam a cena musical da cidade.
O disco foi gravado em 1977, no 'túdio Estéreo Som, São José, grande Florianópolis, e lançado de forma independente.
Tyto Livi vendia o disco de porta em porta, reza a lenda, para concluir o curso universitário de direito.
São quatro faixas:
Rock 700, Memórias de um certo louco, O Mundo não perdoa e Viva o presente.
Cada qual com um arranjo diferente, mas todas elas com a marca debochada do artista.
Vocês podem perceber isso por o pequeno trecho da letra de Rock 700.
Por ser acéfalo
Tornei-me ectiófago
Sou genicófago
É o que me dizem
E 'te disco, que passou muito tempo atrapalhando a discoteca de uns, virou peça de colecionador para outros.
As pessoas procuram por o (hoje) advogado Ortenilo Azolini (Tyto Livi), com a intenção de obter informações sobre o material, saber se o Tyto não conhece alguém que queira se desfazer do compacto.
No entanto, a procura parece inútil, pois quem tem guarda.
Resta como consolo baixar as músicas na internet. (
O material 'tá disponível na página http://www.geocities.com/tytolivi/)
A idéia de independente, muito em voga nos dias de hoje, me permite uma outra relação, então a faço.
Para Tiago Hermano Breunig, em texto lançado recentemente (08/10/2005) no caderno de cultura do Diário Catarinense (O Rock no Velho-Oeste), «o historiador Marcos Napolitano afirma que a produção musical independente no Brasil teve como marco o pioneiro Antonio Adolfo, que teria produzido, no Rio de Janeiro, o primeiro LP independente da história, datado de 1977», desta forma, seguindo o raciocínio de Tiago, e relembrando que o disco do Tyto Livi é do mesmo ano (também lançado de forma independente), isso me permitiria colocá-lo entre os pioneiros da música independente de Santa Catarina, por que não, do Brasil.
Todavia, na distante Chapecó, não sei se 'sa informação teria função alguma.
Vou tentar explicar / confundir, afinal de contas, o trabalho do artista, como já comentei, 'tá diretamente ligado com o funcionamento da cidade.
Chapecó, se olharmos para o Brasil como uma periferia em relação aos donos do mundo, se encontra na periferia (em relação à Europa e aos EUA) da periferia (em relação aos centros brasileiros) da periferia (em relação aos centros regionais).
Deixa-me fornecer uma outra informação que pode ajudar a entender o processo:
Chapecó 'tá distante 490 km de Curitiba, 450 de Porto Alegre, e a 600 de Florianópolis (só para lembrar, porque muita gente se atrapalha, a capital do Estado).
Está distante 1.350 km de Buenos Aires, 1.320 de Montevidéu, 780 de Assunción, e 2.400 de Brasília (longe, né?
É quase outro planeta).
Ou seja, é um ponto em algum lugar do mapa que, como dizem muitos, se deixar de fazer parte na próxima edição, talvez as pessoas (óbvio que, me refiro às pessoas que não são do local) não sintam falta.
Quase uma zona morta, árida, um deserto.
Um deserto verde onde brota a cultura da soja, do milho, do feijão (mais os frigoríficos).
Por sua vez, os demais elementos que marcam a cultura da cidade, em alguns momentos (vários), parecem ser arrancados do solo como se fossem ervas daninhas.
É 'se o local que o cidadão Tyto Livi 'colheu para fazer música -- para mais tarde influenciar outras gerações locais -- e, ao mesmo tempo, se recolher (sair de fininho) como se tivesse «medo» de atrapalhar os interesses de alguém.
Se em algum outro local 'se pioneirismo ecoa, isso não tem a menor importância.
Afinal de contas, em Chapecó, no distante velho oeste de Santa Catarina, da forma como lidam com as questões culturais, na maioria das vezes como eventos sociais, a importância é praticamente nula, a não ser, para um pequeno número de pessoas da cidade interessadas em música, sim, pois como disse, para 'se pequeno universo de músicos locais, Tyto serve de referência.
Ufa, 'tá quase no fim.
Em o apagar das luzes por ora veladas sugiro uma outra aproximação, mas 'ta, em 'te momento, derradeira, porque a prosa já 'tá se alongando demais e a sugestão daria pano para a manga de pelo menos mais uns dois ou três causos.
Refiro-me à opção de Tyto Livi por se retirar do mundo artístico precocemente.
E vejo em ela a frase do 'criturário de Herman Melville, como se, Tylo Livi, diante das ironias do universo musical, repetisse a mesma frase:
«I Would Prefer Not Te o.
E 'se preferir não mais fazer de Tyto me permitiria olhá-lo como mais um Bartleby e, desta forma, procurar um posto, nem que seja pequenininho, na galeria de Bartlebys do 'critor 'panhol Villas-Mattas.
Número de frases: 57
Em o final da tarde o Titanzinho se apinha de crianças, jovens e adultos carregando pranchas feitas de resina e compradas com suor de longas horas fazendo bicos.
Os trabalhos que fazem nada tem a ver com o que 'tão prontos para executar dentro do mar.
É só chegar um novo swell que a moçada do bairro Vicente Pizón, diga-se que a maioria de eles descendentes de pescadores expulsos da Praia Mansa por tratores Titan, desvia caminho por baixo de ondas que quebram na areia.
O destino certo que tantas crianças seguem em 'te bairro é o de pegar uma onda atrás da outra até um campeonato internacional de surfe.
Para quem já sabe raspar a parafina da prancha não é mistério falar que André Silva, Martins Bernardo, Argelino Santos, Tita Tavares e Pablo Paulino saíram da Praia do Titan para brilharam na categoria de acesso do surfe internacional (WQS).
Antes de serem reconhecidos fora do país, eles eram um desses garotos.
Não havia incentivo financeiro para aprender a dropar uma onda.
Hoje os garotos crescidos vivem fora do Estado e alimentam o sonho destes meninos e meninas do Titanzinho, sobrevivem com o patrocínio de grandes empresas do surfe que, aos poucos, vão descobrindo e divulgando os jovens que vivem numa das regiões mais pobres de Fortaleza.
João Carlos Sobrinho, conhecido por todo mundo aqui como «Fera», viu um dos» amigos de prancha " morrer em cima do asfalto por conta do tráfico.
De aí para maquinar num caderninho como tirar 'sa juventude do crime foi um pulo, em 2 de fevereiro de 1995 criou a Escola Beneficente de Surfe Titãzinho.
Em o início as atividades eram simples e não havia muitas pranchas para a garotada entrar no mar e testar as manobras que treinavam na areia.
Os humanistas e políticos de plantão também não tinham criado termos elegantes como «Responsabilidade Social», sobretudo não havia a Secretaria da Juventude (Sejuv) para dar o modesto patrocínio de pranchas e pouco mais de R$ 300,00 mensais.
Além do mais, naquele tempo surfar era coisa de malandro.
«Muitas das pessoas daqui brincavam dizendo que eu era louco porque vivia agarrado toda hora 'crevendo aulas de surfe num caderninho», lembra João Carlos.
Se a falta de assistência social continua e o 'tereótipo do surfista incomoda, pelo menos alguma coisa mudou nos 12 anos da 'colinha.
Primeiro, João criou uma taxa de R$ 1,99 e abriu a 'colinha para quem não mora no bairro, «é uma taxa simbólica que serve para 'timular os alunos a freqüentarem mais as aulas».
Depois, vieram aulas teóricas sobre o surfe e reforço 'colar, que funciona à noite com uma professora.
Quase tudo aqui ainda é voluntário, os exemplos de pobreza e superação são o 'timulante para fazerem os alunos aprenderem a subir e surfar numa prancha em menos de 3 meses.
«Você pega o exemplo de D. Luzenira, mãe do Fábio Silva.
Hoje o rapaz vive no Rio, mas se você ver, D. Luzenira vive numa das piores regiões daqui.
Quando chovia, eles tiravam a água dentro da casa e hoje melhorou as condições da casa, e aí, é quando comunidade vê isso que dá mais valor ao surfe», conta Fera.
A realidade continua dura no Tintanzinho, quem olha de dentro do mar pra dentro da comunidade, num fim de tarde como 'te, encara uma paisagem de pobreza.
É que a 'perança dos 30 meninos e meninas da comunidade, que hoje 'tão aprendendo a surfar por a 'colinha, 'tá depositada, assim como a dos seus antepassados, no mar.
Marcelinho, que tem por volta de 8 anos, aproveita as aulas de educação física na areia para tirar brincadeiras com os outros e é só sorriso.
«Vem cá, Fábio Gouveia!»,
provoca quem se sente incomodado por o «brincalhão».
O elogio de ter o jeito do surfista paraibano que virou filme e foi campeão mundial em 1998 não é por acaso.
A cabeça de Marcelinho vai fugindo dos colegas, sorri muito com o apelido, vai virando sonho em forma de onda.
Serviço:
Escola Beneficente de Surfe Titãzinho
Endereço: Rua Ponta Mar, 15 Vincente Pinzón
Número de frases: 31
Fortaleza / CE -- Brasil
Conheci o poeta baiano, compositor, jornalista, roteirista e ex Diretor da revista, já extinta, Manchete, Olympio de Azevedo, no «Buca Del Pazzio», restaurante italiano na AV.
Angélica, em Sampa, point no início dos anos 80 dos amantes da música e do futebol.
Ele 'tava em companhia de Toquinho, Cessare Bevenutti, Chico Buarque, Paulinho, Carlinhos Vergueiro, Gonzaguinha e Paulinho Boca de Cantor.
Yone, uma pernambucana amiga de Elis Regina, lutava por uma nova gravadora para a mais bela voz da MPB.
Célia Moreira Salles, minha tutora sentimental, a 'cudeira fiel, circulava bem e festejava a todos.
Em a época eu trabalhava no IAC da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo como Assessora de Imprensa e Relações Públicas.
Era um ambiente de astral altíssimo, principalmente às quartas-feiras -- dia da pelada em que todos participavam.
Ninguém trabalhava em 'se dia!
Até a Briquet Films do Ado fechava, onde o baiano fazia roteiros.
Assim pude me envolver e participar dos sentimentos de época que reinavam de forma ímpar.
às vezes 'tendíamos para o famoso «Spazzio Pirandello», da Rua Augusta de Maschio e do jornalista Wladimir Soares.
Revendo alguns discos de vinil encontrei o LP «Valeu», de Paulinho Boca de Cantor, a capa assinada por o maior artista gráfico brasileiro -- Elifas Andreato -- e cujo título é uma letra de Paulo Leminski.
Lá 'tava o diretor artístico do LP independente, responsável por a 'colha do repertório, Carlo de Piatã, pseudônimo do Olympio de Azevedo.
Dei muitas risadas, pois curti muito sua música «Estrela Manhã», que fez do LP» Valeu " o maior sucesso de venda da primeira distribuidora independente do Brasil.
Resolvi localizar o querido baiano, e com as facilidades da internet, tudo foi possível através do seu blog de poemas.
Queria saber o que o Poeta andava fazendo.
Depois de alimentar as saudades, perguntei se topava uma breve entrevista.
Manso que só ele, perguntou o que eu queria abordar.
Falar de Carnaval e como anda a vida do Compositor.
E o Olympio de Azevedo foi respondendo o meu ping-pong com toque de nostalgia e mais de 100 músicas inéditas.
CT -- O que você faz atualmente?
Continua no jornalismo?
-- Escrevo uns frilas, sou gosthwriter para defender o indefensável, acabei de fazer um livro de 900 páginas, induzo o poema, crio motes para campanhas publicitárias, depois fico lambendo as crias e quando possível chamo um parceiro para musicar os poemas.
Para variar pesco na beira da praia, aumento os quilos dos peixes quando encontro os pescadores conhecidos ...
O jornalismo é o exercício da manhã para quem não faz Cooper!
É a única atividade que se torna um vício, e hoje como não precisamos correr atrás das notícias, você fica analisando os excessos que os colegas mais jovens praticam, divide por dois o texto e fica com a matéria limpa para comentar no 'paço da coluna.
Gosto da prosa porque provoca o imaginário sem perda da informação.
-- E o carnaval baiano ainda é o mesmo?
Totalmente de rua?
-- Salvador profissionalizou o carnaval criando circuitos de ruas, a velha Praça Castro Alves já não suportava a massa, o peso dos trios elétricos com seus infindáveis cordões assustava.
Os decibéis das caixas de som chegavam a massagear a caixa tórax fazendo fibrilar o coração.
O risco das ladeiras para os freios dos trios, tudo isso fez com que se buscasse mais segurança, então a opção foram circuitos planos.
A animação ficou em dois planos, os que pulam atrás dos trios elétricos e os que ficam em camarotes, na maioria das vezes em casas luxuosas que 'tão no circuito, como é o caso do Farol da Barra e em Ondina nos hotéis que cercam a avenida.
Muito usados por as 'trelas e seus convidados que fazem o carnaval em cima do trio.
Convites caros com direito abadas do bloco.
O centro de Salvador ficou pequeno para os milhões de turista que chegam.
Tem uma opção de carnaval a moda antiga no Pelourinho bastante interessante, músicas acústicas onde se curte antigas marchinhas que foram sucessos.
Carnaval é um período em que os interpretes e compositores aproveitam para lançar suas musicas inéditas que deverão fazer sucessos em rádios e TVs durante o ano.
Caetano, Gil, Ivete Sangalo, Nelson Rufino, Margareth Menezes, Armandinho do Trio de Dodô e Osmar e outros já famosos que 'tão na mídia, fazem a festa junto com 'trelas da mesma categoria.
É um festival mega, único no gênero.
-- Fale-me de suas músicas, como 'tá o mercado para o Compositor?
-- A nível nacional tudo sofreu uma mudança que eu diria quase brusca com o avento do CD, que em breve será substituído por um pen drive ou um data traveler de 16 GB, que você compra com 10 mil músicas ou 'colhe um repertório prévio!
O toca CD vai ficar igual à velha radiola!
As gravadoras 'tão procurando se associar para tentar salvar o repertório e seus direitos.
Hoje na internet você faz um CD em menos de 5 minutos com um repertório a seu gosto!
Uma evasão de direitos autorais sem fim.
Hoje se monta uma radio MP4 com transmissão em freqüência modulada (FM) do tamanho de um maço de cigarros e até menor, que passa ser seu veículo de divulgação no 'paço que quiser podendo alcançar acima de um quilômetro, funcionando dentro do bolso!
Não há limite para a má qualidade das obras, é qualquer coisa por qualquer coisa.
É uma realidade irreversível.
Recentemente um grupo comprou três grandes gravadoras e vai disponibilizar o repertório gratuitamente, aí sim é o final de tudo!
De minhas músicas sou suspeito para falar, fico lambendo as crias o tempo todo.
A única via para os compositores não intérpretes, meu caso, serão os shows através dos artistas com mídia garantida.
Gravar com Ivete, Zeca Pagodinho proporciona um «advance» que pode chegar até 100 mil reais.
Como diz o tabaréu afora isso tem que ir para o palco e encher a casa.
Bom, minha música que 'tá na oitava regravação é Estrela Manhã com Paulinho Boca de Cantor e Jota Veloso, e outra inédita que tenho um carinho 'pecial e 'perança de acontecer é Feras e Flores com Nelson Rufino.
Valeu Cíntia dos Zoios de Folha Minha!
Letra:
Estrela Manhã
Carlô de Piatã, Paulinho
E vê seu rosto 'pelhar
Em a luz da Estrela Manhã
O brilho doce do Sol
Caindo sobre 'se sonho
Esse cheiro no ar Essa loucura verão
Bate em compasso de festa
Minha alma e meu coração
E não existe melhor
Maior alegria na há Não sinto a vida correr
Nem vejo o tempo passar
Quero tudo o céu na terra
Quero muito, eu quero é mais
Quero tudo o céu na terra
Quero muito, muito mais ...
Esse teu corpo que o mar
Lambe bem de mancinho
E o Sol com todo carinho
Bronzeia e eu fico louco
E não existe melhor
Maior alegria não há Não sinto a vida correr
Nem vejo o tempo passar ...
(Audio ao Lado)
com Paulinho Boca e Baby do Brasil (Baby Consuelo).
...
Ficha Técnica:
OLYMPIO De Azevedo, Carlo de Piatã, nascido em Salvador em 1946, Jornalista formado por a Escola de Comunicação da UFBA (1971), com passagem por o Jornal do Brasil, Chefe da Sucursal da Bloch Editores na Bahia, professor universitário de Marketing, Rádio e TV, editorialista, publicitário, 'critor, poeta das dores mal curadas, compositor orgânico por força dos deuses africanos, autor do «Cajila» em homenagem a Oxum mais bonita Mãe Menininha do Gantois, roteirista do «Lamarca o Capitão do Sertão» para a Tatu Filmes, pesquisador incansável dos valores, sentimentos, reflexos e imagens do sertão nordestino.
Contato:
Salvador, BA
Tel (71) 3356 2761
E-mail: brs coly@hotmail.com ...
PAULINHO Boca De Cantor:
Contato:
Salvador, BA
Teles. (71) 34618955 e 91179458
E-mail: labouche@terra.com.br ...
ELIFAS ANDREATO Artista plástico, autor das capas mais importantes da música -- MPB.
Veja: http://vejasaopaulo.abril.com.br/entrevistas/ m 0117294.h tml
e ´ Cíntia Thomé
mariacintiatt@yahoo.com.br ...
Número de frases: 99
São cada vez mais freqüentes as investidas de bandas curitibanas para fora de seu território
Houve um tempo em Curitiba em que se acreditava piamente que uma banda para ter chance de sobrevivência, próxima que fosse do profissional, tinha que se mudar para São Paulo ou Rio de Janeiro.
Hoje 'se pensamento já não é unanimidade e as investidas dos grupos curitibanos fora do seu território 'tão cada vez mais freqüentes, sem que isso exija, necessariamente, mudanças radicais de endereço.
De tempos em tempos quem 'tá habituado a percorrer o circuito de shows alternativos topa com algum de eles:
Relespública, Terminal Guadalupe, Pelebrói Não Sei, Charme Chulo, OAEOZ, Polexia, Faichecleres, Zigurate, Mordida, Dissonantes, Sugar Kane, Ovos Presley, Wandula, Os Catalépticos, Cores d Flores, Gengivas Negras, Bonde do Rolê, Índios Eletrônicos ...
e vai embora 'sa lista, pois os grupos proliferam na capital paranaense geração após geração.
A aceitação tem sido das melhores.
Exemplos recentes:
a Relespública lançou em abril o DVD MTV Apresenta.
O Terminal Guadalupe, com o disco Vc Vai Perder o Chão foi 'colhido o melhor entre os independentes de 2005 do prêmio da revista Laboratório Pop, com voto do público.
Também é a banda que inaugurou entre os alternativos uma nova mídia de gravação de CD que barateia os custos, o SMD -- aquela criada por o Chrystian da dupla sertaneja.
Além de em pouco tempo ter tocado nos principais festivais, participou, junto com a Poléxia, do CD tributo ao Odair José.
O Bonde do Rolê (foto), que faz «funk-indie», foi citado entre os dez mais da revista Rolling Stone e 'tá fazendo turnê por os EUA e Canadá, junto com a Cansei de Ser Sexy, já com o disco de 'tréia produzido por o norte-americano Diplo na mala.
Enquanto isso, o Índios Eletrônicos 'tá terminando a música que vai sair na coletânea do selo português Merzbau e já lançou também disco produzido via email em parceria com Glenn Hall, saxofonista canadense de jazz experimental, que já trabalhou com Lee Ranaldo (Sonic Youth).
E não pára de produzir novos discos.
Elas fazem parte do chamado circuito independente da música brasileira -- em 'ta reportagem entendido como o universo de artistas que trabalham sem o aparato de grandes gravadoras.
Em Curitiba, 'sas bandas mais ou menos se articulam em grupos de afinidades que, de uma forma ou outra, contribuem para criar as mínimas condições para proliferar sua arte.
A cidade tem um circuito de bares de 'tilos variados ('tão nas dicas do Guia das cidades do Overmundo) e festivais (Curitiba Rock Festival, Metal Festival, Psychobbily Fest, Pscyho Carnival, Rock de Inverno, National Garage, Local, Tinidos, Curitiba Calling, Prasbandas).
Só tem poucos selos.
No geral, as bandas gravam e divulgam em shows para depois 'tabelecer parcerias de distribuição.
É o caso do Pelebrói com a Monstro;
Mordida, com o Senhor F;
ESS, Wandula e Índios Eletrônicos, com a Peligro.
O 'paço em rádios, televisão e jornais também é 'casso mas existe.
Em a tevê Paranaense (Globo) tem o Plug, programa que cada vez apresenta uma banda, entre outros assuntos do «universo jovem».
Em o Canal Paraná (tevê pública) o 'paço é no Enfoque, sobre arte e cultura paranaense em geral.
Em as rádios Lúmen e 91 Rock tem programas produzidos por (e para interessados em) artistas locais.
Entre 'tes 'tá o Cena Local, feito por a vocalista da banda Cores D Flores Mariele Loyola, que (além de 'tar terminando o primeiro álbum, Paixão) também 'tá articulando um circuito de sites para transmitir simultâneamente a rádio web Circuito CWB, com 24 horas com a produção musical paranaense.
A Relespública com seus 15 anos de existência também vive um bom momento -- o seu melhor até agora, com o lançamento em abril do DVD e CD MTV Apresenta Relespública.
É a primeira vez que um grupo paranaense alcança tal projeção.
A empreitada foi junto com a única gravadora em atividade na cidade, a Vila Biguá, que bancou o projeto.
E a Relespública é um bom fio da meada para uma conversa sobre a cena independente curitibana.
O trio que começou a tocar junto na pré-adolesc ência já experimentou 'tar no casting de uma grande gravadora (Universal), não curtiu e voltou a ser independente.
Em o caminho, 3 discos -- uma demo-cassete impressionante e infelizmente pouco conhecida com o primeiro vocalista, Daniel Fagundes -- e, nem eles devem saber, quantos shows.
Com direito até ao Rock In Rio III.
Em a 'trada desde que a música independente brasileira era dominada por a língua inglesa, Fábio Elias, Ricardo Bastos e Emanoel Moon sabem fazer muito bem canções que têm a energia do rock com pegada pop, várias de elas 'tão no disco mais recente, As Histórias São Iguais, cantadas em coro por o público.
Mais novos
Tanto Índios Eletrônicos quanto o Bonde do Rolê garantem que foi depois de começarem a «brincar» de My Space que tudo se precipitou, tornando, no caso do Bonde, o que era uma mera brincadeira entre amigos para 'pezinhar outros amigos, numa bola de neve que nem o trio acredita.
Em entrevista quando a onda em cima de eles começava a crescer Mariana Ribatski, Pedro Deyrot e Rodrigo Gorky contaram que «foi uma seqüência de sustos».
Primeiro, uma festa em Florianópolis -- para a qual Gorky era DJ e ofereceu três por o preço de um.
Todo mundo cantou as músicas disponibilizadas no site do produtor.
«Tinha umas 700 pessoas», lembrou, ainda com 'panto, Gorky.
Depois Fredi, da gaúcha Comunidade Nin-jitsu, se enrodilhou para o lado do trio e acabou produzindo um disco-demo.
Só em 'te ponto, conta o DJ, o Bonde foi para o My Space (Espaço virtual que congrega páginas com imagens, sons e textos tanto de gente que já 'tá no 'trelato quanto de bandas como as nossas independentes.
Vai se adicionando amigos, ao modo do Orkut, e algumas pessoas ganham algumas surpresas mais 'peciais, como parcerias com artistas já consagrados).
Essa é a história do Bonde com Diplo.
«A gente ficou sabendo por amigos que ele tinha incluído música nossa no set de ele e depois ele respondeu no My Space.
Conversa vai conversa vem surgiu o convite para inaugurar o selo de ele, lembra Gorky, garantindo, na época, que a banda ia «manter os pés no chão».
Mas, não mais agora, no instante em que o leitor do Overmundo tem 'te texto nas mãos, afinal em julho eles passaram por longas horas no ar por conta dos shows junto com Diplo e Cansei de Ser Sexy por Nova York, Montreal, Boston, Chicago, São Francisco, Washington, Seattle e Los Angeles.
Em a bagagem seguiu também o vinil de 12 " que inaugurou o selo Mad Decent de Diplo.
Agora, é bem possível que o leitor já tenha ouvido falar do tal «funk-indie curitibano» inventado por o trio que foi até considerado uma das dez bandas pra se prestar atenção no mundo, na avaliação da toda poderosa revista Rolling Stone.
Já no caso do Índios, a coisa toda foi mais planejada.
Não com a pretensão de fazer sucesso ou coisas do tipo, mas com o intuito de experimentar mente e corpo, 'ticando as possibilidades sonoras, conforme a cartilha de gente como Lee Ranaldo, Sonic Youth e John Frusciante.
Os «índios» são André Ramiro e João XXIII, que no palco promovem uma hit tec».
A banda usa para traduzir suas experimentações duas guitarras, um verdadeiro arsenal de pedais e, pelo menos, oito amplificadores para serem combinados com ruídos vocais, além da participação de amigos e seus instrumentos.
Os discos são gravados em sessões 'porádicas de encontros e parecem jorrar aos borbotões, já que o duo promete fechar o ano de 2006 com 10 discos lançados.
Eles já andaram aqui no Overmundo e deixaram uma pitada da experimentação no banco de talentos.
Confira!
É uma lista enorme a das bandas existentes hoje só em Curitiba -- e tem o que prolifera fora do eixo rotativo da capital em todo o Estado, além do hip hop e do circuito metal, ambos bem fortes.
Não existe nenhum 'tudo ou pesquisa formalmente publicada sobre o assunto, embora a cidade seja, reconhecidamente, uma das mais profícuas na geração de bandas independentes desde o começo dos anos 90, movimentação que foi batizada de «Seatle brasileira» e que deu continuidade a uma história que começou a ter visibilidade no final dos 70, com A Chave, parceira de Paulo Leminski, primeira a ser reconhecida por fazer repertório próprio no Estado.
O curitibano sempre teve um jeitão «cada um na sua» de fazer as coisas, mas a geração atual de bandas 'tá trilhando um caminho interessante, pondo mais a cara pra bater com bons shows Brasil afora.
Talvez por 'se jeito isolado de trabalhar dos grupos, o impacto na mídia acabe um pouco diluído, mas quem prestar mais atenção vai notar que ultimamente sempre tem uma banda curitibana fazendo bonito por perto.
Pra conhecer o um pouco mais a internet é o caminho mais rápido.
Algumas dicas:
www.prasbandas.mus.br
www.movimentoleitequente.com.br www.curitibaunderground.com
www.relespublica.com www.myspace.com/indioseletronicos
www.myspace.com/coresdflores www.myspace.com/bondedorole
www.movimentomusicacuritibana.kit.net deinverno.
blogspot. com
www.villabigua.com.br amigosderamirez.
zip. net
www.terminalguadalupe.com.br polexia.
Número de frases: 73
com. br
Sempre gostei de ler poesia.
Exagero. Lembro-me mais ou menos da segunda fase do curso fundamental (era assim que se chamava no tempo em que fiz o antigo ginasial).
Estava na sexta série quando descobri os versos de Cecília Meireles, por meio de meu professor de português:
Paulo Afonso Carneiro.
Aliás, foi com ele que descobri a literatura de uma forma geral.
Já gostava de ler antes, mas não tinha muito método.
Um dia numa aula de português, Paulo Afonso apresentou Cecília Meireles para a turma.
Eu me apaixonei por ela.
Queria ler todos os seus poemas e não me contentei com o Motivo, presente no meu livro de texto que integrava a grade curricular do curso.
A solução foi a biblioteca do Lyceu de Goiânia.
Foi lá que passei muitas tardes (muitas vezes matando aula) lendo O Romanceiro da Inconfidência, Nunca Mais ...
E Poemas dos Poemas.
Todo ano quando começava o período letivo, eu copiava o poema abaixo na primeira paina de meu caderno de português.
Retrato
Eu não tinha 'te rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem 'tes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha 'tas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha 'te coração
que nem se mostra.
Eu não dei por 'ta mudança,
Tão simples tão certa tão fácil:
-- Em que 'pelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles sempre foi minha poeta predileta.
Aguçou-ma fome por poesia.
Fome que tentei saciar lendo Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira.
Ana Cristina César foi a primeira poeta moderna a entrar na minha lista de prediletas.
Seus versos me assustavam.
Nunca tinha lido versos de uma artista que se revelasse tanto, que valorizasse como ela 'sa inquietude tão inerente, a quem busca na palavra 'ta tradução e verbalização do ser.
Sobre ela, 'creveu «Cristina Mutarelli» Sua linguagem resiste a ondas e fórmulas fáceis.
Ana queria a palavra depurada, decantava as coisas e, sabia, como Manuel Bandeira que extrair o sublime do cotidiano não é tarefa das mais fáceis».
Seus últimos versos refletem bem a angústia que vivia:
«Estou muito compenetrada de meu pânico / lá dentro tomando medidas preventivas».
Lembra de Baudelaire, Ana C. pediu licença e fez 'se poema.
Flores do mais
devagar 'creva
uma primeira letra
'creva nas imediações construídas
por os furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar o pano de boca
aberto sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar sobre o galope molhado
dos animais;
devagar peça mais
e mais e mais.
Elisa Lucinda.
Elisa Lucinda me ensinou, no palco, a gostar ainda mais de poesia, a parar de falar mal da rotina e fazer várias 'tréias de «eu te amo».
Se ler um poema de Elisa Lucinda já é uma experiência fantástica, o que dizer de ouvi-la interpretando seus poemas no palco.
Recomendo para todos que gostam de poesia.
E se não for possível, tente ouvi-la ainda que seja nos CDs que geralmente acompanham seus livros.
Este aí é simplesmente belo:
Safena
Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim.
Vestirei vermelho carmim 'carlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
Adélia Prado.
Essa é hors-concours.
Com ela descobri que a poesia não é feita só de encantamento, que a poesia pode e deve ser a meta do encontro entre leitor e poeta e que a riqueza maior da poesia 'tá na simplicidade.
Os textos de Adélia Prado são muito cuidados, mas claros e palpáveis.
Como os deste poema:
Sedução
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a 'cutar imóvel
o seu discurso 'drúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia para a eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada de ela.
Quando comecei a 'tudar inglês, descobri Elizabeth Barret Browing e me apaixonei por a história de ela com o marido Robert Browing, o poeta inglês cujo talento só foi reconhecimento postumamente.
Com eles redescobri que a arte tinha valor superior, como expressão mais pura da emoção humana, e de que a tarefa do artista é unir o ideal ao real.
Depois veio Emily Dickinson.
Essa calou fundo.
Se de Cecília Meireles me lembro sempre do poema Retrato e mais precisamente do verso " ( ...)
Em que 'pelho ficou perdida a minha face? ( ...)»,
de Dickinson ficaram no inconsciente os versos " That it will never come again / is what make life so sweet (Que nunca mais vira de novo / é o que torna a vida tão doce).
Muitos e muitos poetas passaram por a minha vida todos 'ses anos.
Dylan Thomas, Yates, W. H. Auden, e.
c. cummings (em minúsculas mesmo), Afonso Romano de Santana, Marina Colasanti, o contemporâneo Arnaldo Antunes ...
Por tudo que a poesia já me proporcionou é difícil acreditar que Poesia não vende, como afirma Rodrigo Capella em seu mais recente livro.
Difícil acreditar propriamente não.
Difícil de me conformar com 'se fato.
Eu mesma, sempre apaixonada por poesia, comprei poucos livros -- de Cecília Meireles, Drummond, Adélia, todos de Elisa Lucinda, Dylan Thomas, Emily Dickinson, Auden.
A maioria dos livros de poemas que li -- e copiei em cadernos e mais cadernos -- o fiz nas bibliotecas.
Hoje percorro páginas e mais páginas da Internet para reler meus poetas prediletos, descubro lançamentos como o de Alguns Poemas -- Emily Dickinson, com tradução de José Lira.
Em a Internet posso ler versos como 'se de Ms..
Dickinson.
If I can stop one heart from breaking,
I shall not live in vain;
If I can ease one life the aching,
Or cool one pain,
Or help one fainting robin
Unto his nest again,
I shall not live in vain
É verdade que poesia não vende.
Mas é verdade também a afirmação de Aurélio Buarque de Holanda, que define poesia em seu dicionário como «aquilo que há de comovente nas pessoas ou nas coisas».
O jornalismo me levou a entrevistar vários poetas ao longo dos anos.
E por as conversas, pude perceber que a grande maioria 'creve poesia porque ela oferece a possibilidade de ir além de si mesmo.
Ela prescinde de personagens.
Para nós, leitores é a pausa para suspirar.
Quando autor e leitor se encontram no texto, trata-se do instante mágico em que compartilham o sonho.
Precisa mais?
Dylan Thomas, o poeta que foi homenageado por Bob Dylan (na 'colha do nome artístico de um certo Robert Allen Zimmerman) é o autor de um dos meus poemas prediletos de todo os tempos.
Eu o vi e ouvi pela primeira vez no filme De o you remember love (Para Lembrar Um Grande Amor), que Jeff Bleckner fez para TV americana em 1985.
O filme tem Joanne Woodward como uma professora e poeta que dá aulas de literatura inglesa na universidade e se descobre vítima de Alzheimer.
E quando vence um prêmio literário, já em 'tágio avançado da doença, 'colhe o poema de Dylan Thomas para expressar seus sentimentos.
O poema foi 'crito em homenagem a seu pai, velho e cego, no leito de morte.
Quem assistiu Quatro Casamentos e Um Funeral certamente se lembra do personagem de Simon Callow, ótimo e culto ator, lendo no enterro de seu namorado o poema Funeral Blues na medida certa de emoção:
«He was my North, my South, my East and West, / My working and my sunday rest» (leia tradução abaixo).
Auden, como o personagem de Callow, era gay, mas seu poema foi decorado por amantes de qualquer opção sexual desde então.
Também foi Auden que deu um depoimento importante sobre poesia num poema em que diz:
«Pois a poesia nada faz acontecer;
sobrevive Em o vale de sua criação onde jamais executivos
Quereriam brincar, e corre para o sul
De ranchos de isolamento e atarefada águas,
Rudes cidades nas quais acreditamos
e morremos;
sobrevive um jeito de acontecer, um 'tuário.
Número de frases: 177
Os Souza Breves foram os maiores fazendeiros de café no período de 1820 a 1890.
Dominaram do mar fluminense até as Minas Gerais, e o comendador Joaquim José de Souza Breves foi a figura mais polêmica de todos eles.
Dono de um poderio feudal, chegou a possuir mais de 10.000 'cravos juntamente com seus irmãos e aparentados.
Suas terras iam da Marambaia até Minas Gerais com mais de 90 propriedades.
Possuía navios e gozava da amizade de Pedro I, tendo participado do Grito do Ipiranga.
Diversos autores já trataram de 'sa figura:
Taunay, Griecco, Zaluar, Ternaux-Compans, Agassiz e Assis Chateaubriand.
Não há que se fazer apologia da 'cravidão -- uma mecha suja de nosso passado.
Mas história é história e bens culturais em toda sua amplitude devem ser preservados.
Importantes monumentos arquitetônicos e de valor artístico para a história de nosso Estado, encontram-se no mais completo abandono.
Três péssimos exemplos de destruição podemos apontar:
1 -- Igreja da Fazenda de São Joaquim da Grama:
situada em Rio Claro -- RJ.
Berço dos Breves, célula-mater de inúmeras outras propriedades, mandada construir por Joaquim Breves, a monumental capela serviu de repouso para seu criador e família por algum tempo.
Com o caso Danna de Tefé, que a polícia local suspeitou durante o inquérito que houvesse sido enterrada ali, pois foram encontrados túmulos revirados, o lugar ficou maldito.
A igrejinha (de grandes proporções), situada no altiplano, domina a região de São Joaquim da Grama, e 'tá toda destruída.
O teto 'tá desabando, a 'cada em caracol que levava até o sinos (roubados) caída ao chão, os altares apodrecendo comidos por os cupins.
Ainda se vê parte da pintura do teto, e do mármore importado no chão.
Bois e vacas usam-na hoje como moradia.
Uma vergonha.
De a casa-grande de São Joaquim, resta 1/3 da fachada ainda conservada.
2 -- O casarão da Fazenda do Pinheiro:
Situa-se o palacete em Pinheiral -- RJ, próximo a Volta Redonda.
Em ruínas a casa do Comendador José de Souza Breves, que já foi Posto Zootécnico Federal, visitado por os reis da Bélgica, e que funciona hoje o Colégio Agrícola Nilo Peçanha.
A casa-grande que foi do Comendador José de Souza Breves (irmão de Joaquim), foi doada em testamento (não teve filhos) para que ali se 'tabelecesse uma entidade de ensino, com prêmios anuais e verba destinada ao seu funcionamento.
A propriedade passou ao Governo, que ali se fixou.
Hoje, completamente destruída, com o madeiramento de pinho-de-riga, tetos em 'tuque pintados a trompe-l ' oeil, portais ricamente decorados, serve de abrigo a mendigos, morcegos e outras criaturas.
Estive lá e fiquei horrorizado.
Aqueles enormes salões incendiados com a vegetação nascendo entre as táboas.
Ora, o Colégio Agrícola é uma extensão da Universidade Federal Fluminense.
Por que a Universidade não restaura o casarão?
Poderia servir à comunidade local para eventos (teatro, museu, ou mesmo extensão do próprio colégio).
Foi uma das maiores fazendas de café da antiga província, com toda a riqueza de história que bem conhecemos (foi palco de 'cravaria numerosa, banda de música, hospital, armazéns, jardins, bailes e festas, reuniões políticas, etc).
Visitada por ilustres em 1870 como Cantagalli -- embaixador da Itália, Ternaux-Compans (legação francesa), e o português Augusto Emilio Zaluar, que descreve em suas cartas, a magnífica residência.
O desinteresse, demonstrado por as autoridades (IPHAN, Prefeituras, e outros órgãos), é evidente.
Cultura e preservação nunca foram o forte das autoridades.
Número de frases: 36
Com milhares de médiuns 'palhados por o Brasil e exterior, o templo principal do Vale do Amanhecer, em Planaltina (DF), procura manter-se fiel às suas origens e à sua missão de libertar a humanidade.
O Vale do Amanhecer é a maior comunidade 'otérica do Distrito Federal.
Talvez a maior do país, já que conta com quase 600 templos 'palhados por o Brasil.
Além de mais de uma dezena em outros países, como Japão, Alemanha e Trindad & Tobago.
A doutrina surgiu quando a caminhoneira Neiva Chaves Zelaya, ou apenas Tia Neiva, começou a ter visões e contatos com entidades 'pirituais.
De esses contatos, recebeu uma missão:
trazer libertação para a humanidade.
E o que significa 'sa libertação?
Antes de responder, vamos dar uma pausa e explicar algumas coisas.
O Dia do Doutrinador
O templo principal fica em Planaltina, uma das cidades-satélites de Brasília.
Está ali desde os anos 60, quando Tia Neiva e mais alguns aventureiros mudaram-se para um descampado, à beira de um morro (coisa rara no Distrito Federal, diga-se).
Fundaram a Doutrina do Amanhecer, um misto de kardecismo, umbanda e catolicismo.
Eu já havia ido diversas vezes ao local, mas para 'crever 'sa matéria fui de novo, em duas ocasiões.
A primeira foi no dia 1º de maio.
Para muitos, é apenas o Dia do Trabalhador.
Mas para quem é da doutrina é também a data mais importante do ano:
o Dia do Doutrinador.
Todo o trabalho lá 'tá baseado na existência de dois tipos de médium:
o apará, que é quem incorpora entidades como caboclos e pretos velhos;
e o doutrinador, que serve de canal energético entre os dois mundos, o nosso e o 'piritual, e é o grande pilar da doutrina.
Em 'se dia, centenas de médiuns viajam de todo o país para Planaltina, para participar das festividades e dos trabalhos.
Aproveitei para conversar com Jurandir, um doutrinador que enfrentou uma longa viagem de ônibus partindo de Almas, em Tocantins, onde freqüenta o templo local.
Queria saber o que o motivou a sair de casa para 'tar ali.
«Tem que trocar energia com os outros templos.
Tem que visitar o pai.».
O pai a que ele se refere é conhecido na doutrina como Pai Seta Branca, o mentor 'piritual, retratado na roupagem de um índio.
Para eles, Seta Branca é uma outra encarnação do 'pírito de São Francisco de Assis.
«Não 'tava preparado "
Darlan, 20 anos, não freqüenta mais o templo, mas tem profundo respeito por tudo o que se passa lá.
«Minha mãe mora aqui no Vale.
Eu fiz parte da doutrina por dez anos, mas agora saí.
Não 'tava preparado.».
«E o que é 'tar preparado?»,
pergunto.
«É ter responsabilidade.
Aceitar as regras, que incluem não beber nada alcoólico.
Um médium tem que 'tar em equilíbrio energético, e a bebida atrapalha isso.
Como ele pode ajudar alguém se não 'tá bem?»,
responde ele, que não deixou a fé de lado, e agora faz parte da igreja católica, além de ser DJ quando tem tempo.
Aí a conversa começa a ir por outros lados.
Quero saber de ele o que acha da expansão do Vale do Amanhecer, que da pequena vila com 500 habitantes nos anos 70 agora virou uma cidade com 35 mil moradores, com 'colas, creche, comércio desenvolvido e posto policial.
E descubro que muita coisa ali mudou depois da morte de Tia Neiva, em 1985.
Ele é enfático.
«A expansão não foi boa para a doutrina.
Agora tem violência e assalto.
Ficou perigoso.
Tem uma área na cidade que não tem compromisso com fé e religião."
«Então vamos lá».
«Vamos».
A outra parte do Vale do Amanhecer é mais pobre.
Existe um trecho com ruas sem asfalto e barracos de madeira.
E, por o caminho, muitas igrejas, de todos os tipos:
católicas, batistas, evangélicas e até terreiros de umbanda e candomblé.
A fé e a religião 'tão ali, portanto, mesmo que em outras variações de crença.
Paramos para conversar com Messias e Peterson, rappers que moram em 'sa parte nova da cidade e não participam dos trabalhos do templo.
E mesmo assim têm suas vidas ligadas à doutrina, de alguma maneira.
«Vim pra cá porque minha mãe 'tava doente e procurava uma cura», conta Messias, que respeita e acredita no que se passa ali do lado.
Mas, assim como Peterson, prefere outros caminhos.
«A gente sabe tudo de umbanda».
«E a violência aqui?»,
pergunto." A violência faz parte da nossa racionalidade», afirma Messias.
É o preço que se paga por o crescimento.».
Antes de ir embora, peço para eles fazerem um rap sobre o Vale.
E lamento ter levado apenas papel e caneta para anotar, pois não pude registrar a criação instantânea da dupla.
Visita encerrada, volto ao lugar meses depois, para colher mais depoimentos.
Em comparação com o Dia do Doutrinador, considero que 'tá vazio, apesar de haver trabalhos acontecendo.
Atendimento 24 horas
«Aqui não tem distinção.
Todos são recebidos, a qualquer hora.
Se chega alguém no meio da madrugada, a sirene é tocada e logo aparecem médiuns para atender», afirma Solon Pinheiro, um doutrinador que orientava o trânsito de pessoas dentro do templo principal.
Aí eu aproveito e pergunto uma questão que deixei aberta ali no terceiro parágrafo:
o que significa 'se trabalho de libertação da humanidade?
«Significa manipular energia e libertar vítimas do passado transcendental, 'píritos que 'tão em volta da gente, nos cobrando por os nossos erros em vidas passadas», responde, para depois completar, dizendo que ali são atendidas, em média, 5 mil pessoas por mês.
Quase 200 por dia.
E todas gratuitamente.
Em o Vale, as doações financeiras são proibidas, e são os próprios participantes da doutrina que mantêm os diversos templos que existem.
Em épocas em que fé e comércio se confundem, quero saber o que os move a 'tar ali.
«É um trabalho por o qual não recebemos nenhum dinheiro.
Fazemos apenas por o amor."
Outra curiosidade também são as roupas que os médiuns de lá utilizam.
Normalmente quem vai visitar não entende nada daquilo.
«É simples», diz Solon.
«As calças marrons simbolizam São Francisco.
As camisas pretas, o ocultismo.
As fitas laranjas e roxas, luz e cura.
E a cruz, que aparece sempre vazia, o Cristo liberto.».
Se é sincretismo religioso o que você procura, sincretismo é o que vai encontrar lá.
E agora, para os freqüentadores, qual o papel do Vale do Amanhecer no 3º milênio?
«Nosso papel aqui continua sendo de importância 'plêndida.
Viemos trazer a cura das pessoas.
Nosso trabalho abrange o mundo inteiro».
Para saber mais:
1.
www.valedoamanhecer.com.br 2.
www.valedoamanhecer.com 3.
Número de frases: 96
www.valedoamanhecer.cjb.net Após o discurso (ou seria choramingo), ocorrido na semana passada no senado, protagonizado por o ex-presidente e, infelizmente, atual Senador da república por o 'tado de Alagoas Fernando Collor de Melo, fiquei entristecido, enraivecido, decepcionado, enfim, nem mesmo consigo definir tal a mistura de sentimentos negativos que senti.
Sempre pensei que o palanque da casa representativa do povo brasileiro, responsável por tomar decisões importantíssimas sobre nossa legislação e outros assuntos tão decisivos quanto, fosse local para explanações e questionamentos de interesse do povo e não para autopromoção, mesmo que isso ocorra com mais freqüência que o desejado (se bem que de uma maneira mais sucinta.),
mas foi o que ocorreu.
Foi palco de um discurso, muito bem elaborado, pois não posso negar as qualidades da oratória do mesmo, e ridiculamente cínico.
Não quero acreditar que o povo brasileiro seja realmente, alienado, 'quecido ou de memória fraca.
Quero crer que a maioria ficou enojada, que os, na época, Cara-Pintadas, como eu, não deixarão que a lábia sobrepuje a lógica e a realidade dos fatos.
Como uma pessoa pode querer se tornar inocente baseada no fato de ter sido o único punido.
O Brasil vem amadurecendo, basta olhar os questionamentos que, cada vez mais, fazemos sobre as falcatruas e negociatas ocorridas nos bastidores da política brasileira.
Concordo que o ilustre Senador foi servido a opinião pública em fartura para que não houvesse 'paço para sobremesa, contudo a culpa de ele é inegável.
A o mesmo foi imputada uma condenação de inelegibilidade por oito anos e 'ta foi muito bem embasada em alicerce documental público.
Ressalta-me aos olhos o fato de tal explanação só ter ocorrido agora, meses após sua posse.
Penso no que ocorreu nos bastidores, do senado e de Brasília, para que todos, sem mais nem menos, dessem apoio ao cidadão, que cartas guardadas e negociatas antecederam tal feito.
Em o passado o impeachment só ocorreu por vontade do povo e não por desejo de justiça dos políticos.
Estes ficaram atônitos com tamanha demonstração popular de revolta e repúdio a um governante.
Quantas famílias perderam o emprego por motivo do fechamento de pequenas empresas que do dia para noite ficaram sem capital de giro, confiscado nos bancos?
Quantas famílias ficaram destruídas por crises financeiras, causadas por o mesmo motivo, com suas economias surrupiadas, deixando-os ao Deus-Dará, enquanto, por intervenção divina ou superpoderes mentais, alguns afortunados, ricos e bem relacionados, sacavam nas vésperas do fato seus montantes dos bancos ...
É realmente «o rio só corre para o mar».
Para piorar o fato, a imprensa deu um valor enorme a tal oratória.
Vamos lá «Geração Coca-Cola», como cantou Renato Russo, eu prefiro dizer, Geração Cara-Pintadas, vamos reavivar a memória do Brasil, relembrar o ocorrido e mostrar o nosso desejo.
Alagoas rechaçou 'te Senhor, Senador Fernando Collor de Melo, quando tentou ser governador do nosso 'tado, contudo é um 'tado sofrido, com uma miséria cultural muito grande, faltam 'colas e as que existem não funcionam com total capacidade, se arrastam graças ao 'forço heróico de funcionários que se superam a cada dia, numa luta para formar crianças e jovens para melhorar o futuro desses e do 'tado.
Sendo assim acabou sucumbindo à fantástica oratória do ex-presidente e lhe concedeu uma cadeira no Senado Federal.
Acredito no povo alagoano e sei que aprenderá e não repetirá erros como 'se.
Quero acreditar nos irmãos mais bem afortunados, irmãos brasileiros que virão para lembrar a todos o ocorrido, irmãos Cara-Pintadas.
Relato um caso ocorrido nas eleições em que o ilustre Senhor Senador concorreu ao governo, e foi 'magadoramente derrotado, quando uma senhora me confidenciou que foi ao comitê do ex-governador Ronaldo Lessa e doou um arquivo pessoal completo, com reportagens de jornais, revistas e vídeos dos noticiários, sobre o concorrente e pediu:
«Por favor, não deixe que 'se homem volte, use tudo isso para lembrar a população o que ocorreu, reavive a memória dos alagoanos».
Solicito a Imprensa brasileira que volte com as reportagens, relembre o povo, faça uso do enorme poder que possui e comece a mudar, mais uma vez, o caminho por nós trilhado.
Mudar com informação e não omissão, com verdades e não falsas interpretações de fatos, 'colhidos a dedo, com honestidade, e não conveniência.
Vamos Pintar nossas caras de novo, ressurjam Cara-Pintadas.
Número de frases: 28
Há alguns meses, tive uma idéia, que ainda parece ser minha, de um novo formato de reality show.
Procurei pensar em algo que pudesse contribuir de forma mais efetiva, culturalmente falando, com a disponibilidade que as pessoas têm para perder tempo.
Algo que fosse além da pura diversão gratuita, que possuísse elementos que não reduzissem a audiência ao desfecho de uma intriga infantil, dentroutros ingredientes que levaram o gênero à exaustão.
Em a verdade, nem sou grande apreciador destes programas, mas sempre procurei saber no que deram e o que não deu certo em cada formato.
O fato das emissoras brasileiras terem de pagar fortunas para obter o direito de idéias geradas no exterior me incomodou bastante.
Foi a verdadeira motivação para o desenvolvimento do projeto.
Pois bem, o título do programa acabou sendo o primeiro que pensei,
Sonhos, Câmeras, Ação:
Os participantes serão atores, profissionais ou não, de preferência inéditos na tevê.
Não tive como não pensar em ver o SCA exibido na Rede Globo, não só por a tradição na teledramaturgia, mas por as oportunidades de encaixe do programa em várias outras atrações da emissora.
E também por a premiação final conter o contrato do ganhador com a empresa, imaginemos, por exemplo, como um dos protagonistas da novela das 8 ou das 9.
12 participantes, como de praxe.
O primeiro dia de exibição do programa será numa noite de domingo, apenas para apresentação dos participantes entre si e ao público.
Em a segunda-feira, a primeira prova, de conhecimentos sobre teledramaturgia, teatro e cinema, definiria o Diretor.
Este, poderá 'colher 5 participantes para formar seu grupo, que chamaremos de Grupo A. Os remanescentes formarão o Grupo B.
As avaliações dos participantes serão realizadas através de apresentações dramáticas.
O Diretor poderá 'colher, de entre cinco peças / cenas, a que o Ga realizará.
Um sorteio, também realizado por o Diretor, determinará a peça / cena que o GB representará.
Um segundo sorteio determinará se o GB receberá o roteiro ou terá de produzir uma adaptação.
Não haverá interação entre os dois grupos durante os ensaios, pois 'tarão divididos em duas casas.
A Casa A é confortável, possuindo toda a 'trutura necessária para o desenvolvimento tranqüilo dos ensaios, dispondo de fartura em todos os sentidos.
A Casa B é bem menor, possuindo apenas o indispensável.
Deve representar pressão.
Em a terça-feira, uma nova prova determinará qual dos grupos receberá cenários e figurinos completos.
O grupo perdedor terá de improvisar com os objetos do Porão.
Detalhe: o número de objetos retirados do porão será limitado, assim como o tempo para a tarefa.
O grupo vencedor de 'ta segunda prova receberá, na quinta-feira, a visita de um diretor ou ator consagrado, que, durante uma ou duas horas assistirá o ensaio, enfim, ajudará na realização.
O Grupo B se apresentará na sexta-feira, antes do Globo Repórter.
O Grupo A se apresentará no Sábado, antes do Zorra Total.
As apresentações serão ao vivo, tendo no mínimo vinte e no máximo trinta minutos de duração, avaliadas por três jurados presentes e por o público através de telefone ou internet.
A equipe perdedora seria anunciada durante o Domingão do Faustão.
Imediatamente os participantes de 'ta, individualmente, indicariam um membro de seu grupo para deixar o programa.
Em caso de empate, o Diretor da semana, o único imune, determina quem sai.
à noite, os participantes se reencontram, logo após o Fantástico, numa nova festa.
A partir daí a base do programa é a repetição do formato da primeira semana, com algumas outras idéias inseridas no decorrer, até chegarmos aos dois monólogos finais.
(Não perdendo a oportunidade, no parágrafo acima 'tá o embrião de outra idéia, o DOMINGLOBO, só por o nome já dá pra captar, né?
Com o DOMINGOL fechando a programação ...)
Infelizmente, não consegui apresentar o projeto à Rede Globo.
Insisti por telefone, por carta, jamais conseguindo retorno ou brecha.
Enfim, por e-mail, o Senhor Webmaster me respondeu:
a política da TV Globo é de uma empresa 'truturada de forma a que seus processos de criação e comercialização sejam de exclusiva responsabilidade de equipes internas.
É política da TV Globo não receber colaborações externas.
Não vou perder tempo com comentários críticos.
Apenas devo deixar claro que, apesar da muralha, sempre fui bem atendido, tanto quando liguei, quanto por o Webmaster.
Pena ninguém ter perguntado sobre o que era o projeto.
E isso que em momento algum falei em dinheiro.
Brasil.
Número de frases: 47
Foi lançado no último dia 6, o 2º Festival de Cinema na Floresta.
Este ano o evento será realizado no período de 04 a 10 de maio e 'tá sob a responsabilidade do Cineclube Floresta, entidade criada durante a primeira edição do festival, ocorrido no mês de maio de 2007, que na ocasião, contou com a exibição de 27 produções cinematográficas e levou um público superior a 4 mil pessoas durante os 7 dias do evento.
Em a primeira edição o Teatro Experimental de Alta Floresta (Teaf) assumiu a responsabilidade da produção e execução, pois já era sabido que se criaria uma entidade para prosseguir os trabalhos em 'ta área artístico-cultural.
A partir deste ano o Teaf assumiu o papel de co-produ ção, uma vez que vê a necessidade de fortalecer 'sa modalidade artístico-cultural em Alta Floresta e região norte de Mato Grosso.
Diferentemente do que aconteceu em 2007, os filmes que comporão a programação oficial do evento passarão por uma curadoria na qual 'calará as produções que julgarem mais interessantes.
Poderão ser inscritos trabalhos de todos os gêneros, na qual concorrerão ao Troféu Capivara nas modalidades Longa, Média e Curta-metragem e ainda, Vídeo e vídeo-clipe.
Já para a II Mostra ' Viva Floresta Viva ', que acontece paralelamente ao festival, a temática dos filmes deverá ser obrigatoriamente voltados ao Meio Ambiente.
Para mais informações, solicitação de regulamento e ficha de inscrição, os interessados deverão entrar em contato via email -- cineclube floresta@hotmail.com, ou ainda, através do telefone:
Número de frases: 8
66 3521 1760.
Uma hora da manhã.
O pau-de-arara roda a cerca de 80 km/h na CE-020, saindo de Canindé, rumo a Fortaleza, levando na carroceria mais ou menos três mil quilos de imagens de santos e nossas senhoras em gesso e 15 pessoas apertadas num 'paço que não chega a medir 3m². Em 'sa madrugada, a 'trada é um tapete preto iluminado por uma banda de lua no céu e por os faróis dos caminhões que cruzam o Ceará.
Enquanto a maioria dorme, talvez depois de um resmungo que lamentou o fim de mais um domingo, a vinda de mais uma segunda-feira;
outros, em grande parte senhoras de Fortaleza, dormem ansiosos para a chegada da manhã de mais um dia 13, agora de novembro.
Quando amanhecer, elas se vestirão de branco e rumarão para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Av. 13 de Maio, com um terço na mão, cheios de fé, a rezar.
A 'trada é o caminho que leva peregrinos de Fortaleza a Canindé, quando acontecem as romarias, em outubro, a São Francisco das Chagas, padroeiro da cidade, segundo maior destino de romeiros no 'tado, perdendo apenas para Juazeiro do Norte de Padre Cícero.
Mas, uma vez por mês, a peregrinação inverte o destino, ao invés de romeiros a caminho de Canindé, caminhões, carregados de imagens em gesso e vendedores, atravessam os 108 km que distanciam as duas cidades e seguem para a capital.
É «a treze», como chamam os vendedores.
Um dia inteiro de missas em frente a Igreja de Nossa Senhora de Fátima.
Bastião dorme torno, encolhido, num dos cantos da carroceria do pau-de-arara.
A cabeça cai sobre o ombro 'querdo.
Antes, tinha dito:
«Não é bom dormir na viagem que dá preguiça».
Mas agora, enquanto o caminhão ganha o asfalto, descansa um pouco.
Quando chegar, descarregará a mercadoria e passará mais de doze horas em pé, vendendo-a a devotos, em sua maioria, de Nossa Senhora de Fátima.
O clima gaiato do começo da viagem, com um celular -- garrafa de plástico com meio litro de cana -- passando de mão em mão, cigarros e muitas piadas, silência depois da primeira meia hora de 'trada.
Apertadas, num engodo de pernas, as pessoas dormem no que restou de espaço na carroceria do caminhão, que 'tá quase todo tomado por os caixotes de madeira com imagens enroladas em jornais.
Em os últimos dias, o trabalho foi duro para todos que 'tão ali, mas provavelmente poucos trabalharam tanto quanto Bastião.
Em a «fábrica» de imagens, em sua casa, onde mais duas irmãs e um irmão trabalham, ele foi quem encarou sozinho as etapas de fundição e lixamento.
A primeira precisa da força de seus músculos, quando roda com as mãos as fôrmas das imagens com o gesso dentro.
Dura duas semanas.
A segunda, o trabalho de lixar as imagens, mergulha-o numa nuvem de pó branco, que faz sua irmã Dora sentir pena.
Ela não trabalha nisso como o resto da família justamente por não gostar de vê-lo sofrendo.
Márcia, uma das irmãs que mora com Bastião, se concentra na etapa da pintura das imagens e acabamento, até a emplastificação.
Mesmo em 'sas etapas, Bastião trabalha intensamente.
Ele tem um cavanhaque ralo, uma fala seca, sem muitas palavras.
Beira os 30 anos.
«Já trabalhei de tudo» e começa a listar as mercadorias, desde os cordões e pulseiras quando rodava São Luiz, no Maranhão, com a outra irmã Cícera, como hippies prematuros, de mais ou menos 10 anos, até as imagens religiosas de hoje, serviço no qual 'tá há quatro anos.
«Só não fui ladrão», diz com o típico orgulho de um trabalhador.
A casa de Márcia e Bastião, na véspera da «treze», vira realmente uma fábrica.
Quando se chega, se vêem imagens amontoadas, inacabadas, por os cômodos.
Além dos dois, trabalham a irmã Cícera, que começou tudo há seis anos, Zé, outro irmão de 19 anos, e o Antônio, Toim, amigo que, de tanto chegar para olhar e dar uma ajudinha, ficou trabalhando.
A renda da maioria de eles vem toda das vendas na treze.
Em a linha de produção, as imagens recebem a pintura na cozinha e nos corredores.
Depois, precisam ter a poeira batida com um pano, até entrarem nos quartos para serem emplastificadas sobre as camas.
Um exército de santos e santas enfileirados, chamados intimimamente por o primeiro nome na hora da produção -- Fátima, Aparecida, Graça, Expedito, vai se juntando na noite do dia 12.
Assim como naquela casa, em outras tantas de Canindé o trabalho 'tá apertando, nos acabamentos finais.
A cidade tem boa parte da economia baseada no comércio e turismo religiosos.
Em o entorno da basílica, existem várias lojas de imagens e outras miudezas religiosas, além de ambulantes e fotógrafos, que ainda tiram fotos em método lambe-lambe sobre jumentos artificiais em cenários religiosos multicoloridos.
As imagens alvas, com detalhes dourados, contrastam com as peles morenas -- que brilham de suor sob a luz amarela -- daqueles que as produzem.
Como fundo musical, Legião Urbana, Aviões do Forró ou Ivete Sangalo.
Por que não tem imagens da nossa cor, Bastião?
«Se fosse por o meu gosto, era da minha cor mesmo, porque não existe gente de 'sa cor.
As imagens que vão para a Bahia, tudo é puxado pra nossa cor».
Apesar de gostar mais da Nossa Senhora de Fátima, fica pensando em qual das Nossas Senhoras é a verdadeira mãe de Jesus.
Esses pedaços de gesso que os sustentam se transmutam com o significado que cada um dá.
«Você observa a imagem, imagina e acredita psicologicamente.
Um pedaço de gesso não faz milagre, o que vale é a fé», explica Cícera, enquanto embala as imagens.
Eu chafurdo mais na teoria.
Ela responde:
«Eu acho que fizeram a imagem pra definir o que ela poderia ter sido».
Cícera conta que Nossa Senhora Aparecida é pretinha, porque, quando foi achada, levaram-na para uma barraca que pegou fogo.
Já Santo Expedito, ela não tem certeza, mas acha que ele era africano.
Cícera tem 27 anos.
Em a ordem etária, vem logo depois de Bastião.
Foi ela quem começou com o serviço de fazer imagens há seis anos.
Um homem, que alugou metade da casa em que morava, fabricava.
Ficou olhando, até que quando ele foi embora, começou a fazer.
«Eu sempre gostei de trabalhar, mas toda vida eu trabalhava no que era dos outros, então agora eu gosto porque é uma coisa que eu aprendi, eu sei fazer, então eu do valor ao que eu faço, porque é feita por a gente, uma coisa minuciosa».
Ela não perde o ritmo do trabalho enquanto fala, rápida, consegue perceber que uma santa 'tá caolha, antes de emplastificá-la, mesmo com toda pressa.
O pau-de-arara chega a Fortaleza, sem muitos problemas, apenas uma parada para uma mijada e outra para ajeitar a lona que cobria parte da mercadoria.
Quando 'tavam carregando o caminhão, uma coruja cantou, sinal de azar.
João se benzeu.
«Caminhoneiro é bicho perseguido», diz o motorista na profissão há 20 anos.
Em o mês passado, não era o João quer iria trazer o pessoal.
Resultado: o caminhão não veio.
Esperaram horas até que descobriram que o motorista tinha achado um serviço mais rentável:
vender gelo.
Passaram a noite rodando Canindé atrás de outro pau-de-arara.
Conseguiram, mas chegaram em Fortaleza às 12h do dia 13, quando boa parte do movimento tinha ido com a manhã, mesmo assim conseguiram vender bem e quando voltaram -- depois de dias trabalhando nas imagens e vendendo-as em Fortaleza, além do problema com o pau-de-arara -- alguns ainda foram montar a banca em Canindé.
Era o último dia da festa de São Francisco das Chagas.
Hoje, a chegada foi às três horas da madrugada.
Quase todas as barracas e bancas já 'tão montadas.
As da praça em frente à igreja, localizadas em local privilegiado, 'tão cobertas por lona preta.
Lá dentro, alguns vendedores dormem à 'pera da primeira missa às seis horas da manhã.
Os vendedores em bancas ou com as imagens organizadas em carrinhos de mão tomam quase todas as calçadas próxima à igreja.
Só não ficam na calçada de ela, por ser proibido, já que a própria igreja também possui uma lojinha para a venda de artigos religiosos, com preços mais salgados.
Os preços dos vendedores de Canindé são baixos.
Uma imagem de 60 cm custa em média R$ 8,00.
A concorrência é grande.
Em pouco tempo, começará a primeira missa às 6h, mais uma às 7h, outra às 8h, até às 20h.
O trânsito se transformará.
Os carros ficarão mais lentos e muitos se atrasarão.
Para quem 'tiver de ônibus, o cenário será ainda pior.
Os ônibus lotarão na medida em que se 'vaziam.
E as senhoras de branco chegarão, com um terço na mão, cheias de fé, a rezar.
Em a volta, trarão nos braços imagens de santas ou outras miudezas religiosas.
Número de frases: 88
Quem passou em 'se dia por a Av. 13 de Maio, uma das mais movimentadas da classe média de Fortaleza, nem imagina a romaria silenciosa que se deu durante a madrugada.
Proibido proibir é sobre a juventude de hoje, que 'tá perdida na sua própria inércia.
Uma juventude que tem que arranjar novas bandeiras para levantar, que tem que descobrir contra o que se rebelar, já que o país goza de uma democracia plena (até que provem o contrário) há anos.
Caio Blat 'tá perfeito como o 'tudante de medicina drogadito Paulo, assim como Alexandre Rodrigues (Cidade de Deus) como o 'tudante de sociologia Leon e Maria Flor, que encarna a namorada de Leon e 'tudante de arquitetura Letícia.
O trio, que 'tá para se tornar um triângulo amoroso, 'tá afinadíssimo em 'se filme do chileno Jorge Durán.
Em a trama, Paulo e Leon dividem uma casa no subúrbio do Rio e vivem para 'tudar até que os filhos de uma paciente terminal de Paulo se envolvem numa confusão com a polícia, quando o mais velho morre executado e o caçula fica jurado de morte por ser a única testemunha do crime.
Letícia e Paulo resolvem visitar o menino na favela onde mora e isso os aproxima mais ainda.
Eles fazem planos de salvá-lo.
Enciumado, Leon decide salvar o garoto sozinho e acaba sobrando bala pra ele, como diria um jornal sensacionalista.
O filme deixa a platéia meio deprimida pois a questão da exclusão social é mostrada em sua face mais realista.
É impossível não ser tomado de um sentimento quase agoniante que compartilhamos com o futuro médico de não haver o que fazer para dirimir o problema da violência urbana, ainda mais envolvendo a banda podre da polícia, que é corrupta e mata.
O único senão é o final do filme, que não chega a ser conclusivo, coisa que tem em comum com outros filmes nacionais da nova safra.
Com uma coleção de prêmios nacionais e internacionais, vale uma conferida.
Número de frases: 13
Cotação: * * *
Particularmente, quanto menos eu souber sobre um filme antes de assisti-lo, melhor.
Meus amigos 'tão cansados de saber disso, e por isso fico atento à opiniões (não sinopses) de pessoas selecionadas (que não incluem críticos renomados como Rubens Ewald Filho, no qual dei um literal 'barrão hoje, e se 'sa crítica 'tiver ruim, já sabem o porque).
E é sempre um dilema, é preciso saber alguma coisa a respeito antes de entrar na sala de cinema.
Em 'te caso sabia que envolvia a Espanha, um Labirinto, e obviamente, um Fauno (criatura mitológica que conheci de fato em As Crônicas de Nárnia).
Pois bem, logo imaginei algo como de Alice no País das Maravilhas, em que a Espanha seria brevemente mostrada no início do filme e em seguida entraríamos num mundo mágico repleto de fantasia.
Mas em se tratando de Guilhermo Del Toro (Espinha do Diabo e HellBoy), logo imaginei que haveria um toque dark, ou ao menos de humor negro.
E eu 'tava afogado em razão.
O Labirinto do Fauno não é o centro do filme, ele é o 'topim que carrega uma trama bem 'crita e conduzida.
É de fato um mundo mágico, mas ele não 'tá além de uma porta pequenina no fundo de um buraco, ele corre lado a lado com a Espanha pós Guerra Civil.
É difícil saber em que lado 'tá o Fauno, mas o monstro mais importante da história logo nos é revelado numa cena que me lembrou Irréversible (o polêmico filme do 'tupro de 12 minutos) -- mas caso 'se não seja o seu 'tilo de filme, por favor não se deixe levar por 'se comentário.
Há bastante violência, e muita fantasia, e apesar de ser simples distinguir o real do mágico, em alguns pontos do filme eles se entrecruzam, e chegamos a ter três histórias paralelas igualmente fascinantes mas que parecem pertencer a três filmes totalmente distintos se não fosse Ofélia, a personagem-elo;
mas mesmo com 'se contraste tudo parece fluir de maneira bem planejada.
A ambientação é impecável, bem como a fotografia e a caracterização dos personagens.
Não há falhas de caráter, todos agem de acordo com um histórico anterior que desconhecemos mas que somos capazes de deduzir facilmente.
Del Toro fascina com sua imaginação e crueldade.
Ele parece uma mistura de Tolkien com David Cronenberg, injetando imagens fortes numa fantasia intrigante.
E mesmo ao final do filme, racionalizando os eventos, paira no ar qual é realmente a verdade a respeito do Fauno.
Definitivamente um conto de fadas para adultos.
Número de frases: 19
«É, Fredi, 'tás com um cancerzinho no pulmão».
Foi 'sa frase, dita por um médico sem jeito para informar o diagnóstico preciso, que o engenheiro civil, Fredi Maia, ouviu em maio de 2006, aos 82 anos de idade.
É com muito bom humor que o homem que há pelo menos 30 anos, entre idas e vindas, preside o Automóvel Clube de Pernambuco, conta os percalços que enfrentou durante a vida.
«Só não me pergunte nomes e datas que eu não me lembro de nada disso, adverte.
Maia é sorridente, alegre, lúcido, íntegro e falador.
Fumou até os 50 anos, quando perdeu um grande amigo para um enfizema pulmonar, adora dirigir -- a 40 km/h, com um motor sofrido porque ele não passa da segunda marcha --, leva a sinceridade e honestidade ao extremo, faz e come tudo o que lhe dá prazer, a não ser quando é necessário se recuperar de algum problema de saúde.
Contabilizando a operação de fimose, uma arrumação na coluna, amígdala, algumas intervenções na próstata, apendicite supurada, a retirada de 52 pedras da vesícula, três pontes de safena, a remoção de parte do pulmão, mais recentemente, entre outros casos, Fredi já enfrentou 19 cirurgias.
«Certa vez fui fazer um checkup que começou por os exames cardíacos.
O enfermeiro me deixou numa cadeira de rodas para verificar o resultado do primeiro exame e quando acordei, 'tava na UTI, havia sofrido um enfarte do miocárdio», conta às gargalhadas.
Casou uma única vez, enviuvou e depois disso, segundo o próprio, «ajuntou, porque casamento só acontece uma vez».
De o primeiro casamento, a vontade de gerar uma menina rendeu-lhe quatro filhos homens, e um aborto 'pontâneo, da única mulher que poderia ter sido sua herdeira.
Os filhos, o mais velho com 52 anos e o mais novo com 45, lhe deram oito netos, entre eles, uma garota, que se tornou o xodó da família.
Uma história curiosa que ele descreve se passou logo após a graduação no curso de Engenharia Civil.
As dificuldades impostas aos recém-formados daquela época não diferiam muito das de hoje, exceto por o fato de que os alunos não eram aceitos como aprendizes por empresa alguma.
Formado, abriu uma firma e, não conseguindo aceitação por nenhum contratante, resolveu conversar com um major que administrava as licitações do Exército sobre a situação:
«Eu disse que queria trabalhar, mas as pessoas não me davam chance porque não tínhamos experiência alguma.
Ele gostou da sinceridade e disse que eu poderia participar da próxima tomada de preço, mas que se alguém quisesse uma ' bola ' extra a cada serviço, eu deveria denunciar a ele».
Oferecendo o preço mais baixo do mercado, a empresa começou a prosperar até o dia em que um determinado oficial lhe cobrou 10 % do que ele deveria receber.
Prontamente, Maia se colocou frente ao major, que denunciou o tenente.
Nada aconteceu.
E o major seguiu acusando todos que não se posicionavam até que a história chegou ao ministro da Guerra.
«Aí um dia o major vira para mim e diz:
«são um bando de bandidos!
Estou sendo transferido para a fronteira», relata.
Desafeto de grandes personalidades políticas e de parte da aristocracia pernambucana de outrora, por a sua sinceridade cáustica, o engenheiro diz que ao pensar sobre a quantidade de histórias que tem para contar, sente vontade de 'crever um livro de memórias.
Por um instante vacila, explicando logo que várias pessoas ficariam magoadas porque «eu andei falando umas verdades», mas após uma breve incitação, ele retoma o brilho nos olhos e o sorriso, e determina:
«Mas um monte de gente já morreu mesmo, como é que eles vão ficar chateados?».
Ex-campe ão de tênis por Pernambuco e exímio jogador de bridge, atualmente ele 'tá terminando o tratamento do câncer no pulmão.
Durante a entrevista, acabava de voltar de um encontro com o médico e logo atende um telefone da companheira, apreensiva, sobre o comentário deste.
Ele faz suspense e diz «vou ter que operar de novo!»,
mas arremata a brincadeira com um 'clarecimento:
«Não se preocupe, ele disse que eu 'tou ótimo!».
Em o hospital onde dá continuidade ao tratamento de quimioterapia e faz o acompanhamento periódico, Fredi é apontado como a baraúna, a madeira que cupim não rói, por resistir bravamente aos efeitos colaterais de todos os medicamaentos a que anda sendo submetido.
Número de frases: 33
Sem sofrer enjôos, diarréia ou mesmo da queda de cabelo, típica da quimioterapia, ele 'tá comemorando os banhos de mar e camarões que poderá voltar a usufruir daqui em diante.
Vida, amor e morte são temas capitais da poesia de Mário Faustino.
Entrelaçados, 'ses elementos sustentam o seu timbre poderoso, erudito.
A morte em Mário não é apenas um pretexto de 'crita, uma vacilação.
É anseio, pressentimento.
A sua morte trágica em 27 de novembro de 1962, na explosão de um Boeing da Varig, confirmou a previsão de uma frenóloga de Nova York.
Morreu aos 32 anos de morte anunciada e pressentida.
Toda a sua obra é marcada de presságios, envolta numa aura dramática, tensa, onde a morte paira seu silêncio e vulto.
O poema Romance é exemplar de 'sa premonição.
A respeito de 'ta peça literária, a professora Albeniza Chaves, da Universidade Federal do Pará, se pronunciou:
«O poeta experimentará situações místicas, pressentirá a proximidade do seu fim, sentirá, novo Cristo, o abandono e a traição, o peso e a ingratidão do mundo, fará, enfim, a sua via crucis sem conseguir resolver o enigma Vida-Morte, diante do qual seu sentimento é o trágico e o amor fati -- aceitação heróica do destino».
Albeniza prossegue em sua análise:
«Esse amor fati, ainda expressão de erotismo universal de Mário Faustino, tem algo de tragicidade inerente à atitude desafiadora do homem que procura uma 'tranha fé na Vida que a Morte revigora.
É a confiança do ser desnudo, a fé na existência por a existência, que chega até mesmo a transformar a morte num acontecimento festivo, amado, 'perado, como proclama a canção " Romance:
«Não morri de mala sorte / morri de amor por a morte».
Poeta construtor, artífice, a mão suando cada verso, a palavra precisa em cada gesto, Mário -- que também era jornalista -- sabia das torturas que o poeta submete o vate desamparado.
De nada adianta recorrer às musas simplesmente;
é preciso pulsar a obra, concebê-la como universo a lapidar, suor, trabalho.
Escrever -- e 'crever bem -- é uma tarefa difícil, mas o poeta se atirou a 'sa penosa empreitada.
Buscou em Eliot, em Pound, nos poetas da Antigüidade, as pilastras para a consumação de uma obra em vertiginosa ascensão.
Durante os anos em que editou a página Poesia Experiência, no Jornal do Brasil, mostrou sua verve crítica, a capacidade de reconhecer o verso preciso, a poesia fundamental em contemporâneos e avoengos.
Comentava com precisão a metáfora ímpar e demolia sem titubear o texto empavonado e incompetente.
Exigia dos autores o compromisso com a palavra, com a evolução da poesia.
Exigia-lhes conhecimento do terreno, capacidade de superação.
Seu único livro publicado, O Homem e sua Hora, foi suficiente para dar a conhecer a sua voz poderosa.
Poesia de tom nunca decadente, a de Mário.
Em seu texto jamais o desleixo, a irresponsabilidade que conduz ao verso mal acabado à barbárie do poema sem convicção e sem unidade.
Em 'ta edição, há bons exemplos de sua 'critura.
A palavra como ética, como expressão e como 'tética.
Mário nasceu no Piauí e aos nove anos mudou-se para Belém.
O episódio da vidente de Nova York é significativo.
Mário não levou a sério as previsões da astróloga e frenóloga sobre as péssimas conjunções do período.
Riu-se o poeta, mas na hora de viajar adiou o quanto pôde, afinal a vidente havia conseguido revelar, sem erro, detalhes do passado de Faustino.
Quando não era mais possível adiar, ganhou coragem e partiu.
Antes, cheio de desconfiança, deixou com a mãe adotiva (sua cunhada) instruções de como proceder caso a fatalidade ...
ah, a fatalidade ...
Os que falaram com Mário antes da viagem revelaram-no tranqüilo.
Tranqüilo, voou nas asas da morte.
Partiu, deixando um vácuo na vida literária brasileira.
Sim, porque não são poucos os que afirmam que a página Poesia Experiência até hoje não encontra par por a contribuição que promoveu do fazer poético, por a crítica contundente e por o debate teórico profundo e refinado.
Mário Faustino era bem o crítico arguto, exigente, implacável, que não poupava nomes da envergadura de Drummond e João Cabral de Mello Neto, sem falar em Vinicius de Moraes.
De o poeta de Claro Enigma, afirmou convicto e quase cruel que nunca seria um Pound, um Elliot, pois faltava-lhe «participação», deixar de agir poeticamente só por os poemas que publicava e discutir a sério a poesia.
Outra: " Cala-se.
Não manifesta grande interesse por o progresso da poesia», cobrou a certa altura do competentíssimo Drummond.
Mas sua fina percepção sabia reconhecer as virtudes de cada um.
Jorge de Lima ainda não havia sido suficientemente apreciado, e Faustino lhe teceu fervorosos elogios, dizendo-o um «finado mais vivo que todos os que sobreviveram», apesar de, segundo ele, não ter incendiado, em suas revoluções, muitos dos templos em que deveria ter ateado fogo.
«Libertou-nos de muita sintaxe, de muitos cacoetes -- materiais e formais -- porém 'timulou outros.
É muita coisa, mas não basta», sentenciou.
à frente da Poesia Experiência, Mário incendiou o panorama literário brasileiro entre setembro de 1953 e novembro de 1958.
Com o lema «Repetir para aprender, criar para renovar», foi o primeiro a apoiar o Concretismo.
Crítico seguro, um dos mais conscientes de sua geração, pôs por terra a fama de muitos autores erroneamente endeusados e cobrou avanços de outros tantos, ao mesmo tempo em que recuperou de nomes de valor que 'tavam soterrados, e revelou outros.
Porém não atravessou em mar tranqüilo a dissecação que operou sobre o corpo 'tirado da poesia brasileira.
Sofreu -- como não poderia deixar de acontecer a um polemista -- ataques à sua forma de proceder a revisão dos autores do passado e de sua época.
Com o 'critor Haroldo Maranhão e o ensaísta Benedito Nunes (um ícone da teoria literária da atualidade e um dos principais críticos de Faustino), o poeta fundou a revista Encontro, que não passou do primeiro número.
Mário e Nunes fizeram a revista em Belém e a enviaram para Haroldo Maranhão, no Rio de Janeiro.
Fiel ao seu 'tilo cáustico, Maranhão não hesitou a folhear o material:
«Está uma m ...!».
Acabou-se assim Encontro, mas os amigos permaneceram juntos, discutindo e trabalhando no suplemento literário do jornal «Folha do Norte», do Pará.
Mário viajou para os Estados Unidos, a fim de 'tudar no Pomona College, com bolsa do Rotary International.
Um ano depois voltou a Belém, onde trabalhou na extinta Spvea (atualmente Sudam).
A trabalho, viajou para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de professor-assistente na Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas.
Depois, foi para o Jornal do Brasil, onde 'treou com Poesia-Experi ência e depois assumiu a Editoria de Política.
Viajava para Cuba como correspondente na área quando o avião chocou-se com o Cerro de La Cruz, próximo a Lima.
Junto com ele foram-se os originais de um novo livro, sem título, e que o poeta paraense Ruy Barata -- um dos raros a lê-los -- disse que já se distanciavam dos de O Homem e sua Hora e que eram brilhantes.
A pedra dura, a mão rochosa do destino despetalou a não rosa.
E Mário, obcecado pela palavra, foi-se para sempre, com seu poema alado.
Para saber mais:
Há dez anos a editora Max Limonad lançou «Poesia Completa e Traduzida», de Mário Faustino.
Introdução, organização e notas de Benedito Nunes.
O livro traz poemas, fotografias do poeta, traduções e fragmentos de um poema que não chegou a concluir.
Romance
Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
A o tronco de minha glória
E pastava-ma memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude 'quecer a cor
De os olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor por a Morte.
O Som De 'ta Paixão ESGOTA A Seiva
O som de 'ta paixão 'gota a seiva
Que ferve ao pé do torso;
abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som de 'ta paixão expulsa a cor
De os lábios da alegria e corta o passo
A o gamo da aventura que fugia;
O som de 'ta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
A o rosto suicida, anula o riso;
O som de 'ta paixão detém o sol,
O som de 'ta paixão apaga a lua.
O som de 'ta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.
O Mês Presente
Sinto que o mês presente se assassina,
As aves atuais nascem mudas
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre homens nus ao sul de luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz 'querda
A o beco de agonia onde me 'preita
A morte 'pacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-mas fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas de 'ta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora (
Em a libra 'corpiões pesam-ma sina)
Há panos de imprimir a dura face
A força do suor de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio.
Amen, amen vos digo, tem domínio.
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para Assassinar-nos num mês assassino.
Soneto
Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler
à luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.
Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso
Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.
Número de frases: 159
O Brasil vive momentos de agitação quando chega a Copa do Mundo.
Embalada por a tão versada paixão nacional, a população muda de ritmo, impulsionada também por a pesada mídia promocional em torno do tema, um verdadeiro bombardeio de prêmios e vantagens 'peciais.
Em Aracaju, não é diferente.
Em as bandeirinhas que decoram ruas, casas, bares e lojas, tradicionais em 'ta época de festejos juninos, predominam o verde e o amarelo.
O Forró Caju e a Vila do Forró, mega-arraiás promovidos respectivamente por a prefeitura e por o governo do 'tado, também engrossam o caldo da torcida canarinho.
Em os momentos que antecedem à primeira partida da seleção brasileira, o papo é um só:
onde assistir ao jogo?
Declinando todos os convites e intimações de amigos, parti para o município de Laranjeiras, cidade sergipana situada a apenas 19 km da capital do 'tado famosa por as suas manifestações folclóricas, para testemunhar a 'tréia da seleção na comunidade do povoado Mussuca, que recebeu em abril a certificação como comunidade remanescente de quilombo da Fundação Cultural Palmares.
Meu guia foi o fotógrafo Márcio Garcez, um profissional que documenta a cultura popular sergipana desde o final dos anos 90 e que elegeu o grupo folclórico de São Gonçalo do Amarante da comunidade como um de seus objetos de pesquisa visual.
A dança do São Gonçalo é um folguedo popular de raízes ibéricas realizado em diferentes regiões do Brasil, mas que ocorre em Sergipe com características bem distintas, com traços notadamente africanos.
Quando o convidei para assistir à partida entre Brasil e Croácia na Mussuca, Márcio aceitou no ato.
Criou laços de afeto com os líderes do grupo e seria uma boa oportunidade de rever os amigos;
por isso até comprou vinho e cerveja para presentear Seu Sales e Seu Eupídio, as maiores autoridades do São Gonçalo.
Em o caminho, os telefones tocam insistentemente para mais convites:
a hora do jogo se aproxima e todos se aquecem para a peleja.
Mas nosso destino não se modifica.
Nossa idéia foi documentar a movimentação daquela comunidade em torno da 'tréia do time brasileiro, refletir sobre 'te evento e também produzir um ensaio fotográfico a ser disponibilizado no Banco de Cultura do Overmundo.
Tradição
Apesar de já conhecer comunidades étnicas em áreas urbanas, como a aldeia Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, em Alagoas, eu mesmo tinha a expectativa de viver uma experiência exótica.
Conhecia o ritmo, a cadência e as fitas coloridas da dança vibrante executada por homens negros de calças compridas cobertas com saiotes, mas nunca havia 'tado ali na terra onde vivem os descendentes de 'cravos refugiados em busca de proteção contra os maus tratos dos donos da terra a partir do século 18.
No entanto, exceto por os traços e tom de pele de seus moradores, a localidade em si não tem uma característica dominante visível, um elemento visual que a diferencie de vilarejos de igual porte.
A casa do mestre do São Gonçalo, Seu Sales, 65, é nossa primeira parada na Mussuca antes do jogo.
Situada bem no início da 'trada que leva ao núcleo central do povoado, é uma construção simples, como tantas outras no interior do Brasil.
Seu Sales e sua família já 'tão preparados para o jogo, devidamente vestidos com as tradicionais cores da bandeira brasileira.
A TV já 'tá ligada.
Como optamos por não avisar a comunidade sobre nossa visita para não nos depararmos com uma festa «pra inglês ver», fomos recebidos com surpresa.
O bar de seu filho Reginaldo nos foi indicado como o melhor campo para nossa tarefa.
Antes de nos instalarmos por lá, fizemos uma visita a Seu Eupídio, um ancião de 85 anos que na hierarquia do grupo São Gonçalo é considerado o chefe maior.
Reconhecimento
A Mussuca foi recentemente reconhecida como área remanescente de quilombo, com direito a ser incluída no programa Brasil Quilombola, que prevê uma série de projetos como regularização fundiária, infra-estrutura e serviços, desenvolvimento econômico e social e controle e participação social.
Pergunto se eles já receberam algum contato sobre 'tes projetos.
«Se tem alguma coisa foi para a associação, a gente mesmo não viu nada até agora não, mas a gente sabe que se tiver alguma coisa, todo mundo tem que assinar», respondem-me, sem demonstrar muita preocupação com o tema e, aparentemente, sem muito valorizar a nova condição da comunidade.
«Estamos precisando de uma caixa [instrumento de percussão] para o São Gonçalo Mirim, vocês não conseguem para a gente?»,
demanda seu Sales.
O que dizer em 'sa hora?
Garantimos aos dois que iríamos saber quanto custava o instrumento e que, se necessário, poderíamos angariar dinheiro entre os amigos para a sua aquisição.
Impossível que duas pessoas como nós tivessem outra reação.
Tínhamos consciência de que 'távamos diante de dois compêndios vivos da tradição oral, tesouros da cultura popular brasileira.
E que eles 'tavam ali nos solicitando apoio para preservar sua história, sua identidade, transmiti-la aos seus descendentes.
«É mais de um século de dança, eu aprendi menino, mas a gente tem que ter ajuda pra continuar», completa seu Eupídio.
Sales me garante que crianças e jovens da localidade se interessam por a dança e por outras ali praticadas, como o Samba de Pareia.
Mas concorda que a «juventude» aprecia as apresentações de bandas de sucesso do chamado «forró eletrônico» no Encontro Cultural de Laranjeiras, participações que têm sido constantemente criticadas em recentes edições do evento por setores mais engajados na cena cultural e no meio acadêmico.
«Não tem jeito, o povo gosta, aí eles [os governos] botam pra tocar, pra divertir o povo», conforma-se o mestre.
Eis que chega a hora do nosso compromisso patriota.
Seu Eupídio prefere permanecer na tranqüilidade de seu lar, mas partimos com Seu Sales e seu neto Henrique para onde assistiríamos à partida.
Em o caminho, muita gente vestida de acordo com a ocasião, mas nada de casas fartamente decoradas ou qualquer sinal de batucada se 'quentando para o rolar da bola em campo.
Os traços africanos dos moradores saltam aos olhos.
É, obviamente, o sinal mais marcante da presença negra na comunidade.
Mulheres e homens de porte altivo e sorriso largo, de uma beleza característica.
Em os poucos bares que existem no local, mesas começam a se formar sem muito alvoroço.
Um bom e velho radinho de pilha passa colado a um ouvido atento.
De resto, crianças e suas mães caminham por as ruas, conversam em grupos nas portas das casas.
A Mussuca não parecia se alterar muito por causa da Copa, a vida seguia seu curso normal, correndo por as ladeiras e morros naquele recanto de onde se pode vislumbrar Aracaju bem ao longe.
Bola rolando
Bandeirinhas verdes e amarelas adornavam o Bar do Cabecinha.
Lá nos deparamos com uma grande mesa já formada.
Filhos e parentes de Seu Sales e alguns amigos preparavam-se para degustar uma galinha de capoeira encomendada 'pecialmente para a ocasião.
O sorteio do bolão já havia acontecido.
Dez reais para aquele que tirasse o nome do autor do primeiro gol do Brasil.
No entanto, mesmo com tantos integrantes de um grupo de dança popular ali presentes, nem um chocalho.
O ambiente foi se animando, e o papo também, quando a bola começou a rolar, no movimento típico de uma partida assistida entre amigos, como em qualquer 'quina do Brasil naquele momento:
comentários técnicos e táticos, piadas sobre o peso de Ronaldinho, mudanças necessárias no time.
«Tem que colocar o Robinho!"
Quando Kaká faz o primeiro (e único) gol do Brasil, a alegria, como não poderia deixar de ser, é geral.
Para manter a tradição junina nordestina, soltamos uma bomba que o fotógrafo havia levado.
Ouvimos uma resposta de fogos de artifício ali por perto, muito tímida.
Em o segundo tempo, as críticas ao desempenho do time eram uma prévia dos comentários de 'pecialistas de programas 'portivos.
A insatisfação diminui um pouco com a entrada de Robinho, mas quando a cerveja desce e depois sobe para a cabeça, seguem-se discussões acaloradas de avaliação do desempenho da seleção, opiniões contundentes são disparadas, do outro lado da mesa alguém se lembra de uma piada.
Até que as mulheres reclamam que querem prestar atenção no jogo.
A propósito, a presença feminina já domina o ambiente.
São as torcedoras mais animadas, imitando os «ahs» e «ohs» de um comercial.
Não resisto e reproduzo aqui um pensamento corrente, quase clichê:
em Copa do Mundo até as mulheres se interessam por futebol.
São as que mais se produzem para assistir ao jogo, com camisas, lenços, pulseiras e outros acessórios.
Talvez até 'te seja um dos motivos por os quais a Copa no Brasil é um evento tão alegre, com ambientes e situações 'sencialmente masculinos sendo tomados por torcedoras fervorosas.
Impressões
Após o final da peleja, é hora da partida para Aracaju.
Em a despedida, Seu Sales nos relembra da caixa para o São Gonçalo mirim.
Confirmamos nosso engajamento e voltamos para casa revoltados com o fato de que altos cachês são pagos a determinados artistas e bandas para que animem festas popularescas e eleitoreiras, enquanto 'tes pequenos, e valorosos, construtores da cultura popular têm de pedir ajuda para adquirir um simples instrumento de percussão.
Refletindo sobre o momento que acabávamos de presenciar ali na Mussuca, chegamos à conclusão que a experiência de assistir a um jogo do Brasil em Copa do Mundo parecia ser a mesma de todos os cantos do país.
A impressão que tivemos foi que teríamos vivenciado a mesma sensação em qualquer um dos encontros de amigos para o qual havíamos sido convocados, muito provavelmente com os mesmos comentários e brincadeiras, como nos mais diversos pontos do Brasil onde houver um grupo de brasileiros diante de um aparelho de TV sintonizado numa partida do campeonato mundial de futebol em que a seleção brasileira 'tá jogando.
Em a comunidade remanescente de quilombo da cidade de Laranjeiras, interior de Sergipe, também se partilha desse sentimento de ser parte da sociedade nacional proporcionado por o futebol.
Mesmo que por lá eles ainda não tenham usufruído das vantagens relacionadas à situação diferenciada a que têm direito enquanto grupo étnico e que permaneçam sendo negligenciados por o poder público por a falta de apoio cultural e de atendimento de outras necessidades básicas, unem-se ao restante do Brasil em costumes, interpretações e manifestações de alegria diante dos canarinhos guerreiros, 'se exército de chuteiras que alimenta nosso sentimento de brasilidade.
* * * " O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada por a comunidade do Overmundo.
A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo por o país afora.
A proposta é contar como foi a 'tréia do Brasil no torneio em diferentes locais.
Número de frases: 86
Para ler mais relatos sobre o assunto busque por a tag Especial Copa, no sistema de busca do Overmundo."
Uma grande lona de circo onde houve shows e aulas-'petáculos, tendas com mostra de cinema e apresentações cênicas, além de cortejos de grupos populares.
Todo 'se cardápio cultural foi servido a mais de 4 mil adolescentes e jovens 'tudantes da Rede Estadual de Ensino do bairro de Santo Amaro, hoje, dia 22, durante o Festival Cultural de Santo Amaro, que aconteceu no 'tacionamento da Fábrica Tacaruna, em Recife, PE.
Organizado por a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), o evento integra as ações do Pacto Por a Vida, programa do Governo de Pernambuco que visa o resgate da cidadania e a erradicação da violência, também através da cultura.
É também uma ação do Projeto Células Culturais que pretende integrar os alunos às manifestações existentes em cada região.
Será um dia para marcar a história do bairro que, atualmente, sofre com o alto índice de violência.
Os jovens tiveram acesso fácil e num mesmo momento a uma enorme variedade de manifestações culturais genuinamente pernambucanas, proporcionando-lho conhecimento e o usufruto de 'sas expressões.
Outro aspecto importante é o fato de que todos os Pontos de Cultura, projeto do Governo Federal, 'tavam presentes no evento, reforçando a parceria entre as duas instâncias governamentais em prol da democratização dos bens culturais.
A festa iniciou-se às 8h30, reunindo o público de 2 mil meninos e meninas que 'tudam nos 13 'tabelecimentos de ensino do Estado existentes em Santo Amaro.
Outros 2 mil alunos 'tiveram presentes no período da tarde.
Para acolher todas as pessoas, foi armada uma grande lona de circo, com capacidade de 1,5 mil lugares, e picadeiro, além de tendas de Audiovisual e Artes Cênicas.
A primeira atração a passar por a tenda principal foi Lia de Itamaracá (9h), que é Patrimônio Vivo de Pernambuco.
Em a ocasião, ela cantou várias cirandas e deu uma aula-'petáculo baseada na sua trajetória artística.
Em a seqüência, subiu ao picadeiro outro patrimônio vivo, Mestre Salustiano (10h), seguido de Zé Brown e o grupo de rap Guerreiros de Rua, formado no próprio bairro.
à tarde, a partir das 14h, outras três apresentações aconteceram no local:
Bloco Flor da Lira, Arlindo dos 8 Baixos e a banda Devotos.
Quem quis circular por a Fábrica Tacaruna também teve a opção de entrar na Tenda do Audiovisual ou na Tenda de Artes Cênicas.
A primeira, com 100 lugares, contou com climatização, tela de projeção e mostra de curtas-metragens pernambucanos, além de vídeos produzidos por os pontos de cultura Cinema de Animação, Canal Capibaribe, Cuca, Ação Cultural e Estrada da Vida.
Ainda fez parte da programação a exibição dos primeiros trabalhos em animação gráfica desenvolvidos por 38 alunos, moradores de Santo Amaro, que desde o início do semestre participam do curso Desenhando Cultura.
Já na Tenda de Artes Cênicas, cuja capacidade é de 150 pessoas, os jovens e adolescentes tiveram a oportunidade de assistir à peça Pilares do Recife (9h), encenada por o grupo Teatro Armazém;
ao 'petáculo Presepadas da Escola Pernambucana de Circo (10h);
à peça da Casa Menina Mulher (14h);
e ao 'petáculo do Teatro de Mamulengos (15h).
Além da programação das tendas, durante todo o dia foi possível ver, ouvir e sentir a cultura pulsando na Fábrica Tacaruna ao som dos 10 cortejos de grupos populares.
Somente para citar alguns exemplos, desfilaram o Afoxé Alafim Oyó, Maracatu Leão Coroado, o Boi da Macuca, as Filhas de Baracho, o Coco de Umbigada e o Maracatu Estrela de Ouro.
Pontos
De Cultura -- Vinte e três 'tandes dos Pontos de Cultura foram 'palhados no 'tacionamento Fábrica Tacaruna, visando aproximar do público jovem as atividades desempenhadas por cada um dos grupos.
«Os meninos e meninas puderam conhecer todas as realidades culturais do 'tado, tendo mais opções de 'colha para um futuro melhor», resumiu a coordenadora do festival, Marileide Freitas.
Festival
Cultural De Santo Amaro -- Programação
Tenda Principal -- Solenidade de Abertura --
Aula-'petáculo com Lia de Itamaracá --
Aula-'petáculo com Mestre Salustiano --
Show com Zé Brown e Guerreiros de Rua --
Aula-'petáculo com o Bloco Flor da Lira --
Show com Arlindo dos 8 Baixos --
Show com Devotos
Tenda do Audiovisual Mostra de curtas-metragens e vídeos
Tenda de Artes Cênicas -- Pilares do Recife (Grupo Teatro Armazém) --
Presepadas (Escola Pernambucana de Circo) --
Casa Menina Mulher -- Teatro de Mamulengo
Cortejos Afoxé Alafim Oió
Boi da Macuca Filhas do Baracho
Coco de Umbigada Maracatu Leão Coroado
Maracatu Estrela de Ouro Maracatu do Pró-Crian ça
Maracatu Rural Maracatu Luanda (
Fonte: http://www.cultura.pe.gov.br)
Número de frases: 47
Duas dramaturgas 'creveram duas histórias encenadas por dois atores e duas atrizes.
Isso é o que 'tá por trás de Atos de Violência, com textos de Marici Salomão (Shangrilá) e Beatriz Carolina Gonçalves (Umzé), direção de Hélio Cícero, em cartaz até 06/06 no Espaço dos Satyros 1, na tão conhecida Praça Roosevelt.
Essa praça, pra quem ainda não ouviu falar, é o principal foco da 'peculação imobiliária em São Paulo o que começa a preocupar as autoridades sanitárias mais do que os focos de dengue da cidade.
Porque você, querido leitor, deve saber que 'peculação imobiliária pega e nem precisa de mosquito.
Imenso parêntese de lado, a montagem tem todos os traços da falta de recursos.
Extrema simplicidade no cenário, que, engana-se quem o chama versátil, é na verdade duplo.
Cada peça ocupa prioritariamente um pedaço do proscênio.
Shangrilá é a primeira história e se passa na frente, Umzé se passa atrás.
A luz, como a trilha parecem não terem sido pesquisadas com o afinco necessário para nos transportar para 'se universo de um Brasil radicalmente violento.
O Brasil do amanhã.
Por sorte contaram com grandes atores para fazerem sumir os problemas técnicos.
A Shangrilá de Marici Salomão, diferente daquela de James Hilton em Horizontes Perdidos, é irônica.
Em ela, a paz só acontece através de ainda mais violência.
Pelo menos é isso que os dois justiceiros da trama querem nos provar.
Tudo se passa nos momentos posteriores ao primeiro assassinato que a dupla comete.
Apesar de bem 'critos (a la Mário Bortolotto), os diálogos parecem ainda não chegarem ao ponto necessário para que enxerguemos as diversas vozes que falam através personagens da favela tão distante.
Os dois vestidos de pastores, falando o texto muitas vezes de bíblia na mão, dão somente um sentido para história.
Há que se ressaltar, no entanto, o mérito da cena não realizada, mas sugerida, da mãe que encontra o filho justiceiro na frente da TV.
Umzé é a história de uma dupla improvável de detentas numa cela qualquer da cidade.
Xaxá é ruiva, magra, bonita, alfabetizada, mãe e tem o institinto do colonizador.
Umzé (não a peça, mas a personagem) é morena, analfabeta, bem mais mal-tratada, bruta, sem carinho e chupa chupeta.
Essa, aliás, uma das imagens mais bem construídas da peça, 'corre ralo abaixo, momentos depois quando a personagem explica (e fecha) o sentido da cena.
Umzé é a história de amor obrigatório entre duas presas e da forma como enxergamos 'sa relação.
Mais uma vez a TV aparece.
Mais uma vez ela tem o melhor 'paço da peça.
A boa nova é que não vemos uma cena sequer na TV.
Ficam, de todo o 'forço do 'petáculo, sobretudo o 'forço dos textos, algumas imagens cheias de sentidos, as quais parecem até terem sido feitas sem propósito, de tantas rebarbas que a peça apresenta.
Tendo ou não propósito, vale atentar para a forma como a televisão aparece em ambas as representações.
Número de frases: 28
Talvez no teatro, o sentido não seja muito claro, mas certamente a peça se aproxima da vídeo-arte ao incluir 'se objeto famigerado, de formas tão criativas em cena.
Cheguei sábado, dia 30 de junho, ainda no comecinho da manhã, no Colégio Estadual Dr. Alfredo Backer, em Imbariê -- Duque de Caxias / RJ.
Com o apoio da Prefeitura de minha cidade, levava em minha bagagem 14 figurinos confeccionados por mim e por a minha mãe para um 'petáculo teatral adaptado do livro infantil A Menina Que Vendia Bala no Trem, ilustrado por mim e 'crito por o meu amigo Professor Adilson Sarti.
Encontrei uma cena pouco comum para um fim de semana.
Uma 'cola pública aberta, com funcionários da limpeza dando uma faxina geral, enquanto alunos chegavam com tintas e pincéis para terminar os desenhos nos muros da 'cola.
Aos poucos, mais alunos chegavam e se juntavam em grupos para terminar os preparativos para a IX Oficina de Artes (detalhes sobre a Oficina de Artes na colaboração " É sucesso na 'cola!"),
com início das atividades marcado para segunda, dia 02 de julho.
Cheguei bem antes do Professor Adilson Sarti.
Ele é o coordenador e incentivador do projeto na 'cola, mas não trabalha sozinho:
uma equipe de professores animada e bem articulada faz da Oficina de Artes uma excelente prova de que o trabalho coletivo sempre funciona.
O Professor Adilson mora no Catete, bairro histórico da zona sul do Rio de Janeiro, mas nem pensa em transferir as suas duas matrículas para uma 'cola mais próxima de sua residência.
Gosta do colégio, dos alunos e tem preocupações com a comunidade de Imbariê.
O Professor Adilson, enfim, chega afobado ao colégio.
Vai conferindo todos os detalhes para a festa da arte que ele faz sempre com tanto carinho.
Tudo checado.
Um teste de figurino pra de ali a pouco, outro de maquiagem com o seu grupo CIA.
Teatral FAZARTE ...
Quase tudo pronto.
Como todo bom professor de Língua Portuguesa, lembrou-se de conferir os banners imensos que ficariam expostos com duas poesias da 'critora homenageada do evento, de 'sa vez, a poetisa capixaba Elisa Lucinda e a sua poesia pop.
Em o local 'colhido para fixar as poesias, sentiu falta de uma.
Comentou que era a mais interessante e devia 'tar sendo confeccionada ainda.
Por curiosidade, perguntei qual era o assunto e ele me disse que Elisa Lucinda havia feito um poema dedicado a sua empregada doméstica, Ligia Maria, que por coincidência morava ali na comunidade de Imbariê.
Achei muito bacana, mas nem tive chances de comentar nada porque ele emendou a sua fala dizendo que, no poema, Elisa Lucinda diz que Ligia Maria, na sua simplicidade e sabedoria do cotidiano, era muito melhor do que o Papa.
O sonho de Ligia era ter somente uma pedra do anel do Papa para construir uma creche para as crianças carentes de Imbariê.
Gostei demais do mote da poesia, mas minha cabeça matutante me dizia algo ...
Não demorou muito e depois de alguns telefonemas feitos por o Professor Adilson, onde percebi que o tom das conversas se elevou, descobrimos que não haveria banner da poesia Deus CHORA.
Em os bastidores da censura, um grupo de professores conservadores e católicos decidiu que os alunos não teriam acesso àquela leitura.
Os motivos, no decorrer de tantos telefonemas e embates feitos por o Professor Adilson, foram sendo revelados:
a poesia era infame, inapropriada, ofensiva, ultrajante, ridicularizava o Papa e o seu rebanho, Ligia Maria não podia jamais ser melhor que o Papa e «aquilo» nem era poesia e muito menos arte.
Como 'pectador de um filme, a perplexidade me abateu.
Uma fúria libertadora tomou conta do professor.
Enquanto ele passou mais de um mês cuidando da promoção da arte numa comunidade pobre e sem acesso às facilidades propiciadas por os grande centros, existia a censura e a hipocrisia sendo habilmente tramadas."
Forças nem tão ocultas», mas perigosamente camufladas de roupas históricas da educação brasileira que tanto lutou contra a ditadura militar e o seu silêncio imposto e absurdo.
A Oficina foi aberta sem o banner.
Mas o que há de pior na educação pública do país sofreu um solavanco e uma derrota.
O Professor Adilson vestiu-se nobremente com as armas da liberdade e como um 'tudante revolucionário panfletou na entrada do auditório do colégio e fez cada aluno, cada professor e cada visitante conhecer os desejos da humilde Ligia Maria através da poesia pungente de Elisa Lucinda.
Além disso, subiu ao palco do teatro do seu colégio e delirante dentro da sua crença e fé na arte travou uma batalha decisiva, através de um incrível monólogo utilizando os poemas da poeta, em favor da liberdade de pensamento e do livre acesso ao conhecimento, ao debate e à reflexão.
Foi aplaudido e criticado.
Mas fez o que devia ser feito.
Alma limpa.
Consciência tranqüila.
Tocou a IX Oficina de Artes para a frente e avante.
Como todo bom guerreiro sabe fazer.
Em homenagem à Elisa Lucinda ainda preparou um belo recital com o grupo Mania De Poesia.
O grupo é composto por meninas corajosas que entenderam que não há palavras, palavrinhas e nem palavrões quando o artista cria, burila, gera e traz ao mundo a sua arte.
Em conversa rápida com as componentes do Mania De Poesia, perguntei se elas tiveram conhecimento sobre o ocorrido com uma das poesias de Elisa Lucinda.
Elas me disseram que todos da 'cola souberam do fato e que a maioria dos alunos não concordou com o veto.
Quiseram conhecer o texto e discutir sobre o assunto.
Essas meninas conhecem mais sobre o papel da 'cola do que alguns professores, pensei.
As «meninas lucindas» disseram que não viram nada de desrespeitoso na obra da poeta capixaba e quando perguntei se elas tiveram vergonha de falar algumas palavras como buceta, punheta, pau, trepar, tive uma resposta taxativa.
«Não falamos nenhum palavrão no palco.
Falamos palavras com poesia.
Elisa Lucinda 'creve de um jeito que compreendemos."
Fim de papo.
Há professores que podemos chamar de mestres e educadores.
Há meninas tão lucindas que podemos nos orgulhar de 'sa geração.
Mas há os professores que ainda fazem 'cola com censura e flertam com a inquisição.
Quanto a minha opinião sobre o Papa?
Pouco importa.
Cada um construa a sua.
Ligia Maria morreu sem conseguir realizar o seu grande sonho de melhorar a vida das crianças em Imbariê.
O anel do Papa ainda 'tá lá no «Vaticomo» com creches para crianças carentes incrustradas no seu potencial de poder.
Quando eu morrer, quero ir para o céu onde Ligia Maria 'tá.
O grupo Mania De Poesia é composto por as alunas:
Sheila Florêncio
Andercéia de Oliveira Carol Paiva
Raquel Sérgio Érica Burguinhão
Número de frases: 67
O grupo Mania De Poesia é coordenado por o Professor e Arte-Educador Adilson Sarti.
Ritual De Iniciação --
Oi, Mario.
Lembra de mim?
Mario Wiedemann foi meu colega na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Eu cursava graduação em Comunicação Social e ele, em Ciências Sociais.
Meu foco era o jornalismo e o de ele, a antropologia.
A convite da professora Rosane Manhães Prado, queridíssima, viajei com ela, Mario e Roberta Zanatta, seus orientandos, para a Ilha Grande, mais precisamente, para a recôndita Praia da Longa, onde os três desenvolvem uma pesquisa com os moradores da região.
Foi lá que me iniciei na seita dos etnográfos.
Uma viagem inesquecível.
A Longa é uma praia bem pequenininha, habitada por cerca de 90 domicílios, desde engenheiros florestais em repouso, como o Seu Mauro, até humildes pescadores que aos 84 anos largaram 'posa e quatro filhos em Angra dos Reis para viverem sós na Longa, como o Seu Ditinho.
Seres fantásticos como os gêmeos Branquinho e Pretinho, cada qual com a sua cor.
E vagalumes -- muitos vagalumes -- nunca vi tantos como naquela noite!
Mario me olha um pouco constrangido.
Acho que ele nunca me viu na vida.
-- Lembro, claro -- e um sorriso amarelo.
Talvez eu passe um pouco despercebido na multidão, sem nenhum grande atributo chamativo, nenhuma cicatriz cruzando as maçãs do rosto, nenhum olho de vidro, nenhuma verruga na ponta do nariz ou um cocar no alto da cabeça.
Um sujeito comum.
Talvez eu não seja digno de nota.
Talvez não seja do tipo a ser observado.
Observação Participante NA Sala De Projeção
Depois de um suspense vai-não-vai, os organizadores abrem a porta do cinema e rapidamente a lotação cumpre todos os assentos.
A o meu lado, um sujeito vira para o outro e diz:
-- Mostra Etnográfica, não é?
O que é 'se etnográfico?
É de «cultura»?
-- Acho que de «etnia», não?
-- Tipo, os guaranis são uma etnia.
É isso?
-- Mas acho que aqui não tem muito a ver com índio.
É outro sentido, mais no sentido de «cultura» mesmo.
O ritual de sentar numa sala 'cura para assistir a um filme é algo muito curioso se desnaturalizado.
Eu poderia ter ido assistir a Kahehijü ügühütu, o manejo da câmera e a Pïrinop, meu primeiro contato, dois filmes que versam sobre o primeiro contato de uma dada etnia indígena com a câmera e o cinema.
Assim, talvez o etnográfico no sentido de «etnia» dos sujeitos que conversavam aí em cima podia se fazer valer.
Mas quem disse que o sentido de etnia e o sentido de cultura não 'tão entrelaçados?
Eu fiz que não ouvi nada, para também não precisar falar.
Em a poltrona da frente, um sujeito meio baixinho, moreno, grisalho se sentou sob o pretexto de que:
-- Quero ficar bem ao lado do meu cineasta!
A Mostra de Filmes Etnográficos tem 'sa empática oportunidade de se poder assistir ao filme com diretores e realizadores, e, no fim, debatê-los.
É uma experiência muito interessante.
E eu, sabendo disso de outras primaveras, não me assustei nem um pouco.
Estava ali na minha diagonal direita o diretor de um dos filmes.
Mas aquele sujeito grisalho continuava a me incomodar.
Fosse porque falava alto ou porque punha a cabeça na minha frente.
Eu me ajeitei para assistir o máximo que coubesse no 'paço entre uma cabeça e outra -- não foi tão ruim.
O susto maior veio quando um dos produtores da mostra anunciou a ilustre presença não apenas dos respectivos diretores como também do principal personagem de dois dos filmes, Seu Evando do Santos.
Seu Evando, os mais 'pertos já devem ter adivinhado, era exatamente o sujeito «cabeçudo» e «tagarela» que sentou na minha frente.
É 'tranho pensar na situação de se assistir a um filme sobre você.
Estranho pensar na situação de você ser objeto de um documentário etnográfico.
Mais 'tranho ainda pensar que o filme sobre você que é objeto de pesquisa ou objeto de cinema concorre num festival e você 'tá lá para assisti-lo e debatê-lo ao lado de uns quantos desconhecidos.
Estranho pensar em você mesmo como algo exótico.
Mas o Seu Evando já deve 'tar acostumado.
Foi com um aceno de cabeça e um sinal de positivo com o polegar que ele respondeu e me fez começar a enxergar a mim mesmo como um observador participante ali, naquela sala de cinema.
Etnografia DOS Filmes Etnográficos
Mas em certa altura eu volto à questão dos dois ao meu lado.
O que quereria dizer o etnográfico como adjetivo de filme?
O que afinal é um filme etnográfico?
Definitivamente não saberia conceituar filme etnográfico como um gênero.
Também seria um pouco reducionista dizer que é um tipo de documentário -- muito embora o «gênero» documentário tenha nascido a partir de uma distinção dos chamados filmes de viagens, logo depois que Flaherty pôs a narrativa à prova em seu docudrama Nanook of the North, sobre o contato com uma tribo 'quimó.
Filme etnográfico é um produto de impressões do etnográfo sobre a realidade pesquisada.
Não sei se minha definição é tautológica demais, mas a mim me parece que o barato de se assistir a um filme desses não é somente por o personagem que constitui o «etno» pesquisado, mas também por as 'colhas mediadas por o «graphos».
E, ali, naquela sessão que contrapunha O homem-livro ao Pedreiro literário, ficava claro que 'sas 'colhas não são fruto do acaso.
O homem-livro é um filme de Anna Azevedo, cineasta e jornalista, foi o ganhador do 39º Festival de Brasília como melhor filme por o júri popular.
O Pedreiro literário é de Luiz Claudio Lima, professor de geografia e morador, assim como Seu Evando, da Vila da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro.
Luiz Claudio era aquele tal a que Seu Evando se referiu como «meu cineasta» antes da sessão começar.
Anna 'tava sentada mais longe.
Os dois filmes contavam um pouco a história de Evando e sua luta para construir uma biblioteca pública na Vila da Penha.
Pedreiro por profissão, a paixão por os livros, como ele próprio conta, começou ao aprender a ler através da Bíblia.
De ali, partiu para ajuntar em casa, «por livre e 'pontânea pressão» sobre a 'posa, os seus mais de 45 mil livros.
A casa de Seu Evando é, acreditem, um mar de livros, ou, como na analogia perfeita que Anna propõe sem dizer numa das suas poéticas cenas, os livros são os tijolos da casa.
O filme de Anna conta o início:
num programa de entrevistas ao vivo com Niemeyer, uma voz aparece no ar e diz:
-- Mestre, admiro muito seu trabalho.
Eu tenho o sonho de construir uma biblioteca na Vila da Penha, mas não tenho recursos.
O senhor não poderia me ajudar com o projeto arquitetônico?
A apresentadora já 'tava para cortar a ligação quando veio a resposta:
-- Estou pronto.
Luiz Claudio Lima mostra um pouco mais o dia-a-dia, a obra, o Seu Evando pintando versos e dizeres no meio-fio da rua para enfeitá-la para a biblioteca.
-- Embora não tenhamos filmado a obra propriamente dita ela se fez presente o tempo inteiro, até por o som durante as filmagens -- diz Anna, referindo-se à construção física da biblioteca, trabalho para pedreiro nenhum botar defeito.
Estava plantada uma pequena diferença.
Anna diz que seu filme é uma tentativa de «fazer do filme um livro», explorando sempre a relação de Seu Evando com os livros e a literatura.
Para Luiz, o Seu Evando " é mais do que um homem-livro.
Ele tem uma relação muito interessante com o lugar " e tome brasa puxada para a sua sardinha.
Seu Evando, o próprio, não se mantém imparcial para falar de um e de outro:
-- O filme da professora Anna é uma obra machadiana.
O do nosso Luiz é Lima Barreto.
De o povão mesmo.
É o Gláuber.
Um 'tudante de cinema se contorce na platéia:
-- Me desculpe a franqueza, eu não vejo no filme do Luiz uma preocupação autoral.
Gláuber tinha 'ta preocupação -- diz o jovem.
-- A autoria 'tá em dar voz ao personagem.
Aliás, não gosto de chamar de personagem.
Para mim, o Seu Evando não é um personagem, é uma pessoa.
E eu não queria mostrá-lo como algo exótico.
O debate seguiu agitado.
A constatação era de que o filme de Anna é mais técnico, bastante poético, uma obra-prima.
O de Luiz é um filme «heróico» (nas palavras de Seu Evando), uma «obra aberta» (nas palavras de Luiz).
Ganhador do Festival de Brasília, O homem-livro chega credenciado à Mostra de Filmes Etnográficos.
Mas Anna não saiu imune às brincadeiras de Seu Evando, que encampava o projeto de Luiz de filmá-lo desde 2001 e acumular material biográfico a seu respeito e criticava a falta de envolvimento da cineasta, registrando até a queixa de um certo sumiço após as filmagens.
O distanciamento entre Anna e Seu Evando ficou inconscientemente implícito na posição que cada um ocupou nas cadeiras para o debate.
Em uma ponta 'tava Evando.
Ao lado de ele, Luiz.
Uma outra diretora (a do filme Almir Mavignier.
Memórias coletivas, também exibido na sessão) e a pesquisadora que a acompanhava 'tavam no meio, e Anna só do outro lado.
A velha rixa entre observação e participação, exotismo e familiaridade na etnografia moderna 'tava a pleno vapor no debate sobre os dois filmes.
Descrição Densa do Personagem
Seu Evando é um figuraça.
E eu não mentiria se dissesse que o grande barato em tê-lo como personagem é justamente a consciência que ele tem sobre isso.
Atuando carregadamente como se 'tivesse no teatro, ao invés de no cinema, seu ar político me obriga a concordar com o veredito de Anna, " Seu Evando é um homem de tiradas!"
A entrada triunfal, deixando de lado as desculpas de que é tímido para então descer ao debate, foi logo quando ouviu que a moça da primeira fileira era uma alemã.
-- É alemã, é?
De verdade?
Puxa, então tira uma foto com mim?
Eu adoro o seu país.
Eu adoro a Alemanha.
Ele não 'tava mentindo.
Tirou a foto.
E justificou sua paixão por a Alemanha dizendo que gosta mesmo é da paixão de Tobias Barreto, seu ídolo-mor, por a nação germânica.
Em dois momentos dignos de serem colados aqui como citações, ele dizia:
-- Só há duas coisas boas na vida:
o beijo e a leitura.
Mas o beijo, tem uma hora que acaba.
e --
O livro quer que você o domine para que ele possa lhe dominar.
Mas o instante emblemático foi ainda no filme de Anna, quando ouvi da boca do personagem a mais perfeita definição de Paulo Coelho:
-- É a Xuxa da literatura brasileira.
Para chegar a uma definição como 'sa, eu mais tarde compreendi, é preciso, como diria mesmo «Seu Evando,» lapidar o intelecto».
A biblioteca ainda não foi inaugurada.
Está emperrada nas burocracias da política brasileira.
Com projeto de Niemeyer e apoio do BNDES, o prédio, no entanto, só terá 'paço para 10 mil livros.
O que fazer com os outros 35 mil?
Antropologia Interpretativa da Noite
O burburinho durante os filmes é de um público que talvez 'teja mais interessado em discutir o filme do que em assisti-lo.
O burburinho durante o debate idem.
Mas o bom etnógrafo faz do contratempo sua própria etnografia.
Memória Social
O filme termina.
Depois de ele o debate.
Eu saio feliz com a experiência, mas desesperançado em cruzar novamente com Mario e ser reconhecido.
Olho para ele de cabeça baixa, como quem não quer nada.
E ele:
-- Falou, Viktor.
Número de frases: 143
Um abraço.
A cultura novelística brasileira, há muitos anos intacta, tem como uma de suas principais características a presença de temas globais (sem trocadilho).
Estes podem tanto causar polêmica, como no caso da clonagem humana de O Clone, quanto passarem quase despercebidos.
Em 'te último caso, cabe-me citar o socialismo presente na favela da Portelinha, comandada por Juvenal Antena.
O socialismo, sistema pensado (e talvez nunca realmente praticado) para ser um meio de transição ao comunismo, é caracterizado por tencionar a abolição das desigualdades sociais, de modo a organizar a sociedade para que todos tenham as mesmas oportunidades e, de 'tas, benefícios.
Em a Portelinha, pode-se ver Juvenal Antena coordenando a distribuição de alimentos aos que não dispõem de sustento, bem como ouvindo os moradores e fazendo uso, às vezes, do próprio punho para tentar manter o sistema governamental que fora instituído, de entre outras atitudes de cunho socialista.
Quando algum residente da favela deixa de pagar à associação de moradores as «taxas de manutenção», é ameaçado ou, como vimos recentemente, expulso.
O início harmônico, o apogeu e a decadência desse sistema também foram e são abordados por o autor, que atualmente nos mostra a decadência por conta do autoritarismo do governante, como se viu ocorrer na história, por exemplo, de Fidel Castro.
Resta sabermos, então, qual será a conseqüência de 'sa decadente do socialismo da Portelinha, e no futuro talvez possamos ver, novamente exemplificando, as conseqüências do fim do socialismo cubano e seus reflexos globais (agora com trocadilho).
Número de frases: 9
-- Tiago Torres [tiago@tiagotorres.com].
Estive visitando por alguns dias a cidade de Curitiba, no 'tado do Paraná, ao voltar de algumas semanas passadas em Porto Alegre.
Nasci em 'ta última cidade, embora há mais de 10 anos habite os sepulcrais edifícios do plano piloto da cidade de Brasília, a insólita capital do Brasil.
É, brou, 'tou de saco cheio des primárias dissertações que frequentemente 'crevo sobre a vida em 'ta merda!
De tanto observar e 'crever sobre o cotidiano em 'te caos de país ando chegando até a sentir gosto de sangue e fezes na boca -- 'te é o presente sabor do «país do futuro!».
Então agora vou voltar às cronicazinhas tradicionais, nas quais ao menos me divirto com a idiotice de 'sa gente -- além de apenas sofrer com ela.
Em Brasília vivo o mais que posso afastado do máximo de pessoas que consigo.
Tento viver como um «bicho na toca», trabalhando em horários que me afastem das confusões urbanas e freqüentando lugares em que a maioria das pessoas não freqüentam -- o que não é difícil, já que tenho tanta afinidade com as brasilidades populares quanto com os rituais tribais dos Azande, na África.
Tenho horror ao brasileiro, quanto mais tipicamente brasileiro ele pareça.
O típico brasileiro atual me dá nos nervos, ao vê-lo com suas idéias moldadas por a publicidade, por o jornal nacional, por a revista Veja ou Época, por telenovelas infantilóides e por filmes americanos de ação, suspense ou romance.
O típico brasileiro atual é um total idiota, mas que sempre tenta ser, ou parecer, «'perto»,» gostosa «ou» fodão».
Suportar 'sa gente não é fácil!
Visitando o Sul do país tenho comumente momentos de ilusão com um Brasil menos decadente.
Porto Alegre e Curitiba tinham, e até certo ponto ainda têm (mas agora em menor extensão, vivendo mais 'condidos e mais assustados em suas «tocas ") tipos urbanos mais» europeizados», mais silenciosos e reflexivos, com quem a convivência (ao menos a uma certa distância) é mais fácil, ou, pelo menos, menos medíocre e intolerável.
Ainda reconheço 'ses tipos quando cruzo com alguns de eles nas ruas de Porto Alegre.
De forma idêntica ao passarem por mim, também parecem reconhecer-me como um de eles.
Acho que todos nós, 'tes 'quisitos, já desistimos da vida em grupo, sociável;
no máximo, nos solidarizamos entre si sem deixar-mos de lado nossa solidão, trocando rápidos olhares de reconhecimento mútuo ou singelos pedidos de desculpas quando nos aproximemos muito ou nos 'barremos.
Mas não fiquei, desta vez, muito tempo em Porto Alegre:
depois de alguns dias, família enche o saco!
Fui para a Curitiba.
Fazia muito tempo que não visitava a cidade.
Tendo tempo livre e disposição, resolvi passear por alguns lugares tradicionais da cidade e ficar, como gosto de fazer, observando a esmo as pessoas.
Em outros tempos eu já transitara muito por o centro de Curitiba à noite, em momentos de vampiragem explícitos, à caça de bocas e bucetas disponíveis, e até de algum papo ou outro que me interessasse por alguns instantes.
Tentei, então, devido a 'ta merda de saudosismo maldito, da época em que eu era mais humano e sociável, caminhar outra vez por o centro de Curitiba, à noite.
Consegui caminhar contemplativamente, relaxado, por no máximo três ou quatro minutos.
Logo comecei a ser invadido por um pavor crescente das pessoas que se aproximavam.
A quantidade de mendigos, moradores de rua, loucos, bêbados e drogados não era tão grande assim, mas era quase o único tipo de gente que havia por ali.
Os demais transeuntes noturnos que não pareciam 'tar em 'sas condições, mais descaradamente sofridas ou desesperadoras, de algum modo demonstravam 'tar um tanto quanto desconfiados ou mesmo apavorados por terem que atravessar aquelas ruas às 10 horas da noite.
Uma minoria, contudo, da qual logo comecei a ficar mais temeroso ainda, parecia 'tar totalmente à vontade por entre aquela fauna, como a andar com segurança num campo minado.
Pareciam 'tar a 'perar que otários como eu lhes caísse nas mãos, pra pedir algo ou por distração.
Tive, portanto, nos dias seguintes, que me contentar em caminhar durante o dia, principalmente nas regiões mais centrais da cidade.
Infelizmente concluí que a população noturna local já se tornara demasiadamente selvagem para ex-vampiros amadores como eu.
Curitiba não conseguiu deixar de ser mais uma grande cidade brasileira afundando-se no horror.
E eu havia envelhecido demais, mentalmente, para não ter medo do caos.
Estranho mesmo, no entanto, seria se Curitiba tivesse conseguindo passar incólume ä decadência brasileira.
Com as pessoas retiradas artificialmente de cena por algum programa de computador, numa eventual fotografia da cidade, talvez a cidade ainda parecesse a mesma Curitiba sofisticada e civilizada de outrora.
Mas não:
as pessoas, ao contrário dos prédios, infelizmente, não conseguem viver todo o tempo de acordo com as peças publicitárias que os governos da cidade continuam a produzir.
Arquitetonicamente, tudo parece bem.
Humanamente, entretanto, tudo vai mal.
Bom, ao menos isso era o que eu pensava.
Até que, numa de minhas andanças por a cidade (durante o dia, é claro), acabei deparando-me com um vistoso shopping center.
Não gosto de shoppings;
de modo que eu não entraria não fosse sua peculiaridade:
à medida que eu me aproximava das entradas da imponente fachada do prédio, as mulheres que eu via passar por mim pareciam-me cada vez mais bonitas e sedutoras.
Além disso, na redondeza do shopping a quantidade de mendigos e bêbados era suficientemente grande.
Devia haver pelo menos um ou algum grupo pedindo 'mola a cada 50 metros de caminhada.
Era suficiente para que eu me cansasse de ter que ficar o tempo todo dando negativas e tendo que ficar atento e incomodado com possíveis e sutis ameaças.
Dentro do shopping, logo de cara, senti-me mergulhando repentinamente em algum artificial paraíso celestial.
Deslumbrar-me com um shopping center a 'ta altura da vida não 'tava em meus planos, mas ainda assim deixei-me levar.
A sensação de alívio momentâneo, de segurança e tranqüilidade súbitas me fizeram dar ainda maior valor ao que logo de início saltou-me aos olhos:
eu parecia realmente ter chegado ao paraíso do bem 'tar pessoal e da beleza 'tética.
Não gosto da artificialidade arquitetônica de shoppings e suas lojas, sempre cheias de vidros e pisos reluzentes, de muitas luzes e cores 'palhafatosas.
Muito menos gosta das multidões de pessoas embevecidas e fúteis que costumam freqüentar 'tes lugares.
Em aquele momento, entretanto, aliado a meu cansaço, tanto físico, por ter caminhado muito, quanto mental, por 'tar saturado da cidade «real» lá de fora, entrei na onda daquele lugar.
Uma sucessão de rostos e corpos femininos a passarem por mim, como se 'tivessem a desfilar em alguma passarela angelical, onde apenas loiras de corpos sarados fossem permitidas, absorveu-me por completo.
Deslumbrei-me com aqueles corpos bem torneados, à mostra em fartos decotes, que me mostravam justamente o que cada uma daquelas mulheres julgava ter de melhor e de mais arrasador para os homens.
A maioria claramente 'tava ali passeando e fingindo distração justamente para ter seus raros momentos de desbunde, de adoração, de franca sedução grupal.
Muitas de elas, então, se deixavam apreciar.
Faziam caras e bocas de «a mais bela do pedaço».
A maioria dos homens fingia não 'tar ali para olhá-las.
Mas eu não!
Olhava, olhava!
E me lambuzava! ...
Olhar ainda não dá cadeia.
E elas 'tavam lá pra serem olhadas.
Quanto mais eu olhava, guloso, mais elas posavam, desfilavam, com seu ar exibido e expressão de arrogância.
Sentiam-se também no céu.
E eu era o diabo.
Olhavam-me com desprezo.
Mas apenas desprezavam-me após terem certeza que eu as olhava enfeitiçado.
Quase todas, ao passarem por mim, fitavam-me por instantes, até ter a certeza que eu não as ignorava.
Como a dizer:
«Sim, eu sei que você 'tá me achando o máximo, mas eu sou intocável!"
Em 'se ritmo, e em 'sa contemplação, andei por os corredores de um andar após o outro, sempre com mais e mais mulheres a cruzar meu caminho.
Pensei: " Meu Deus, onde 'tavam tantas curitibanas deliciosas que eu não as tinha reparado antes?!"
Como eram maravilhosas!
E 'tavam ali, ao meu alcance, ao alcance de meus olhos, de mau olfato, até de minha pele se em algumas de elas eu 'barrasse, fingindo distração;
ou mesmo, em meu pensamento, ao alcance de meu gozo se eu me dispusesse a seduzir e a deixar-me seduzir por aqueles olhos deslumbrados;
ao alcance de minhas mãos, de minha respiração, face a face, olho no olho, boca a boca, língua a língua ...
Eu apreciaria como um viciado fissurado cada cheiro daqueles poros, cada sabor daquelas reentrâncias e músculos, cada milímetro de pernas torneadas infinitas horas de academia;
cada fragrância a 'vair-se em minha memória, a lembrar-me aqueles possíveis momentos de total entrega à volúpia, ao prazer, ao sexo, ao sexoooooooo!!! ...
Toda aquela 'candalosa realidade brasileira, de mendigos, bêbados, de crianças sujas e de putas perambulando assustadoramente entre modernosos edifícios e reluzentes carros e ônibus nas ruas centrais de Curitiba haviam se apagado de minha mente enquanto eu me deixava absorver por aquela fortaleza 'tética artificialmente bela.
Minha vontade de apenas gozar feliz e alegremente, de sentir-me um deus entre aquelas mulheres, tendo qualquer uma de elas entre minhas mãos e meus sentidos, e de voltar a crer, a partir do prazer total, num mundo ideal, cheio de beleza e de segurança;
tudo isso ao mesmo tempo e ao meu alcance enfim levaram-me com toda a intensidade a fazer com que eu entendesse a maravilhosa beleza dos shopping centers, da modernidade ocidental, da loucura humana, da perversão total, do desespero 'tético ...
É isso que dá vida a 'se bando de gente imbecil que eu odeio!
Mas naquele momento, não.
Tornei-me mais brasileiro do que jamais fora:
-- Ah ...
Como era difícil 'quecer os mendigos, a decadência social, os conchavos e artimanhas de minha perversa vida de classe média no caos!
Mas aí 'tá:
num instante o sexo 'vazia-me de 'sa dor.
A 'sa altura, continuando a caminhar, a observar e a sentir, eu já devia 'tar com a mesma expressão fútil e deslumbrada de todos aqueles que passavam por mim, muitos dos quais já deviam ter como hábito se refugiar do caos e do horror em 'te templo do prazer e da artificialidade moderna.
Sim, eu já me sentia pronto para uma nova vampiragem.
E ao velho 'tilo de outros tempos.
Pronto e ávido!
Muito ávido por abandonar minhas tocas solitárias e embebedar-me no seio daquela beleza exibicionista.
Deviam 'tar todas carentes de vampiros entusiasmados como eu.
Eu iria sugar-lha alma, toda aquela energia de vida tão concentrada em tantos 'forços para mover sedutoramente seus corpos e para fazer expressões faciais de luxúria, de promessa de gozo, de alegria, de prepotência ...
Sim, eu queria toda aquela vida, todo o sangue daquele mundo 'tético idílico.
Eu queria o maior de todos aqueles gozos, um após o outro, 'fregando-me em todas aquelas pernas, naqueles seios, deixando-me 'magar naqueles braços, sendo engolido por todos aqueles rostos e olhares ...
-- Ah!
Eu quero todos 'tes olhares me absorvendo, me emocionando.
Depois ensandecidos a me verem gozar e a gritar, feito um louco ...
Descontrolado! ...
Em o auge de toda aquela viagem emocional eu já 'tava no quarto ou quinto andar do shopping, próximo aos cinemas, a algumas lanchonetes, em sua parte mais luxuosa.
Continuava a andar, a admirar e a viajar, quando então deparei-me com uma grande parede de vidro transparente ä minha frente.
Ela se 'tendia por dezenas de metros, como se o shopping se transformasse de repente num castelo de cristal, um grande labirinto de pequenas salas envidraçadas, transparentes, animadas em seu interior por dezenas ou centenas de pessoas descontraídas, sorridentes e exuberantes.
Surpreso, ao olhar melhor, percebi impressionado que não eram lojas.
Mas não lojas comuns.
Eram algumas dezenas de salões de beleza agrupados numa grande galeria com paredes de vidro.
Muitos salões eram 'pelhados, cheios de mulheres entrando e saindo, repletos de cabeleireiros, manicures, massagistas, todos a circular em volta de várias mulheres sentadas em cadeiras modernosas, recebendo produtos de beleza e aparelhos coloridos que eram refletidos nos 'pelhos, a contrapor a transparência dos vidros e a cor preta ou metálica das cadeiras e de alguns poucos móveis 'tilosos.
Não entendi de cara o que era tudo aquilo.
Afastei-me um pouco para ver.
Realmente era um labirinto de lojas separadas por paredes de vidro, cada uma fechando compartimentos que eram salões de beleza, cada qual para uma, duas ou três mulheres serem produzidas simultaneamente.
Ao todo deveriam ser 15, 20 ou mesmo 30 salões.
Não sei ao certo quantos eram, mas eram muitos, praticamente incontáveis para quem olhasse do lado de fora como eu.
Havia três ou quatro entradas gerais que davam acesso, por corredores de vidro, a todos os salões.
Olhado à distância parecia um grande aquário compartimentalizado, com pessoas agindo normalmente ao mesmo tempo em que, 'tando lá dentro, eram também uma atração para 'pectadores situados do lado de fora.
Em o alto de cada entrada, em letras pretas, 'tilizadas, o nome daquele conjunto de vidro:
«LADYLAND».
A o ter me afastado e olhado o nome no alto, e entendido que aquele lugar era, em seu conjunto, um grande centro de tratamento 'tético, a produzir a beleza feminina que vinha me levando a sucessivas fantasias grandiosas de êxtase e prazer, tive um súbito e imediato choque de realidade.
Meu entorpecimento acabara.
Meu senso crítico instantaneamente me acordou, ao mesmo tempo que me atordoou de um outro modo.
De um segundo a outro desaparecera-me todo o 'tado de excitação e deslumbramento:
-- Por que deixaram tão 'cancarado que até as minhas sensações de prazer com todas 'sas mulheres eram tão falsas, tão artificialmente produzidas em larga escala!?
Deixem que ao menos eu me iluda, s em paz!
Seus desgraçados! ...
Não tenho culpa, nem nenhum desses idiotas que aqui 'tão, como eu, a se lambuzar, por o fato da realidade ter se tornado insuportável!
Não temos culpa de ter que fugir para 'se ridículo mundo de sonhos solitários para que possamos nos sentir ao menos um pouco vivos!
Voltei-me sem olhar para trás, quase a correr saindo daquele lugar.
E pensando:
-- Tirem 'ses vidros daqui, separem todos 'tes salões, seus filhas da puta!
Escondam como é feito tudo isso que me levou ao êxtase.
Tudo isso que dá sentido à vida de todas 'sas mulheres, dos maridos de todas 'sas infelizes, dos namorados, dos conquistadores, dos voyers ...
De todas as invejosas, dos cafetões, dos que pagam pra gozar ...
Escondam que tudo não passa de uma fraude fabricada em série, sem substância, sem 'sência, sem sustentação por mais do que uma punheta, ou do que uma gozada às pressas ...
Deixem-me pelo menos ter prolongada, por uma mísera tarde de sábado, a fantasia de que em algum lugar a vida com outras pessoas ainda vale a pena..
Malditos vidros.
Número de frases: 140
Jornais diários e revistas semanais vêm desvalorizando a literatura e, mais 'pecificamente, a arte poética desde a década de oitenta, trocadas por as embalagens de mercado.
Há uma dissociação drástica entre jornalismo e literatura.
Uma barreira inexistente, já que um se faz por o outro e vice-versa.
Um bom texto jornalístico sempre contém elementos «literários».
A palavra, em seu sentido 'trito, por si só já significa e comunica, como dissociar?
Sendo assim, por que o ocaso da poesia nos jornais?
O jornalismo contemporâneo criou os cadernos B de arte e cultura que, hoje, são um guia de eventos e cinema.
Quantas críticas de livros ou teatro falam de arte propriamente?
São mais coberturas de eventos, como lançamento de livro de autor famoso e «mais um novo 'petáculo do Falabella».
Onde 'tá o 'paço para a cultura afinal, a arte feita na periferia, a arte marginal dos artistas negros?
Temos exemplos isolados, como o afro-reggae no Rio e a timbalada na Bahia.
Onde 'tão os poetas?
Com suas indagações sobre a vida e a morte, suas rimas e desrimas, seu contentamento de viver sentindo tudo ao redor, sempre sorrindo, provocando e acreditando na vida?
Celebração da beleza
A poesia, segundo o filósofo Heidegger, 'tá na origem e na 'sência da linguagem.
Para ele, arte é a experiência da verdade.
Então, a obra de arte tem o «poder», ou a capacidade, de transformar todo aquele que a experimenta.
Não poderia ser diferente com a poesia, que contém em sua natureza 'tética a origem do pensamento e a dignificação da verdade sentida de um mundo em desajuste.
Leonardo da Vinci, em seu Tratado, explica que o artista deve entender para além da situação humana, que deve intuir e pensar os aspectos mais íntimos da natureza.
Que jornal, hoje, se preocupa em entender algo além?
Em refletir sobre sua atividade, seus prós e contras?
Quem 'tá preocupado com a alma e a sensibilidade?
Machado de Assis, em 1° de setembro de 1878, 'creveu:
«Pobre 'pírito!
Quem pensa em ti em 'sa dança macabra das coisas sólidas."
Deveríamos exercer um jornalismo assim como Machado sonhou.
Uma República do Pensamento, onde todas as idéias, ideais, pontos de vista e moral possam ser discutidos livremente.
Onde a poesia (além) tenha 'paço e celebre a beleza e a sensibilidade humanas.
Número de frases: 28
Gustavo Lucas é poeta, 'critor e jornalista em Brasília
Com a proposta de mostrar ao público santista a arte da gravura, foi aberta na Aliança Francesa de Santos a exposição Homenagem:
Mariana Quito.
A mostra reúne 31 gravuras da artista plástica portuguesa, que morreu em Santos no ano de 2003 (conferir).
Mariana Quito nasceu em 1928 na região de São Miguel de Machêde, no Alentejo.
Estudou gravura na Escola do Boulevard de Montparnasse, em Paris, dirigida por Jean Debech.
Em 1970, mudou-se com a família para Luanda, Angola, onde fundou o «Barracão», a primeira 'cola de Artes Visuais do país.
No entanto, em 1975, com a guerra civil no país, as famílias portuguesas tiveram os bens confiscados, e os pais e irmãos de Mariana viajaram para o Brasil.
Só que Mariana decidiu ficar em Angola naquele ano, fazendo viagens a Portugal, ajudando o país africano como voluntária da Cruz Vermelha.
Apenas no final de 1975, ela chega a Santos.
Em a Avenida Conselheiro Nébias, 331, montou o primeiro ateliê em solo brasileiro.
Em 1977, mudou-se para São Paulo onde, por meio de aulas e exposições, difundia a gravura original.
Voltando a Santos, em 2000, Mariana passa a ser responsável por o curso de gravura da Secretaria de Cultura da cidade.
Doa todo o material de seu ateliê para a secretaria.
Lá deu aulas até o fim da vida, em 2003, aos 75 anos, vítima de problemas cardíacos.
O curso de gravura só foi retomado no ano passado, com a professora Márcia Campos dos Santos.
Ela é uma das curadoras de 'sa exposição, junto com a professora Sonia Luiza Cruz.
Márcia já tinha feito uma exposição em homenagem a Mariana Quito no ano passado, e em 'te ano foi procurada por Sonia para organizarem juntas outra mostra da artista.
Começaram a conversar com a família, que disponibilizou todo o acervo da artista.
Foram selecionadas 31 gravuras, para serem expostas em novembro, mês de nascimento de Mariana.
Sonia conheceu Mariana em 2001, durante o II Intercâmbio Brasil-Portugal de Gravura.
O encontro, realizado em Évora, reuniu artistas da Baixada Santista e de Portugal.
Sonia organizava o setor brasileiro da exposição, que fora a última em vida de Mariana Quito.
Sonia diz que ficou 'pantada na primeira vez que viu Mariana.
Uma senhora baixa, de aparência frágil, era difícil imaginá-la trabalhando com materiais que exigem tanto 'forço físico como os utilizados na gravura, principalmnente no momento da prensa.
Mas depois Sonia pôde vê-la em ação, dando aulas.
«Mesmo com problemas de saúde naquela época, ainda era uma mulher muito ativa."
Em as gravuras da exposição foram utilizados diferentes materiais, como cobre, zinco, madeira, e várias técnicas, como a xilogravura, a cologravura, a calcogravura, entre outras.
A obra da artista não segue uma 'cola, os temas e 'tilos são variados.
É possível perceber em algumas gravuras paisagens de Évora, ou de Luanda, lugares onde Mariana 'teve durante sua vida.
O que mais chama a atenção na obra da artista é o uso das cores.
Todas as gravuras são coloridas, algo incomum em 'te 'tilo de arte.
Isso pode se justificar por o início de Mariana como pintora, mas Sonia tem uma explicação melhor:
a cidade de Évora, onde a artista cresceu, é bastante colorida.
Viver naquela região certamente influenciou Mariana na opção por as cores em suas gravuras.
Após o fim de 'sa exposição na Aliança Francesa, Sonia não tem certeza se a família de Mariana Quito pretende continuar exibindo os quadros em outros locais.
Por ela, a exposição seguiria sendo exibida em 'colas, universidades e outros 'paços.
«É muito importante, porque não dão valor à gravura, ainda mais por ser em papel.
Preferem ver em tela.
Número de frases: 39
É bom que conheçam».
Fui um dos curadores do festival MTV Tordesilhas, realizado em 1997.
Não foi um sucesso popular, nem de longe.
O Gigantinho, em Porto Alegre, local 'colhido para as duas noites de vários shows, ficou vazio, mesmo com Paralamas e Skank colocados 'trategicamente na programação também para atrair o público.
Se tocassem sozinhas, as duas bandas brasileiras provavelmente teriam casa lotada, mas o público gaúcho -- que imaginávamos o mais aberto no Brasil para um festival como aquele -- deve ter 'tranhado os nomes das bandas que abririam seus shows, tipo «não conheço, nem quero conhecer».
Pena: 'sas bandas hoje são um pouco mais conhecidas por aqui, então mais gente consegue avaliar o que perdeu.
Cito os nomes:
Café Tacuba, do México;
Aterciopelados, da Colômbia;
Los Tres, do Chile;
e Yllya Kuryaki & The Valderrama, da Argentina.
As quatro 'tavam vivendo períodos extremamente criativos em suas carreiras.
Andar com 'ses músicos, todos juntos, por as ruas de Porto Alegre, foi uma experiência formidável.
Estávamos ali, gente de todos os cantos da América Latina, conscientes da possibilidade de inventar uma nova união para o continente, na qual o traço comum era o sampler, usado para reconfigurar tanto tradições locais quanto informações globais (em 'se sentido o Re do Café Tacuba, continua sendo uma obra-prima indispensável, e um dos melhores discos de rock de todos os tempos).
O fato de tão pouca gente ter se interessado por o festival revelava que tal união iria demorar mais um pouco para acontecer.
O 'tádio vazio do MTV Tordesilhas não me intimidou.
Continuei buscando encaixar atrações latino-americanas em todas minhas curadorias.
Nunca deu muito certo.
Mais recente tentativa:
a programação do Kinky, banda mexicana, no Tim Festival de 2004.
Foi o show que vendeu menos ingressos na história do Tim.
Os jornais elogiaram depois, mas já era tarde.
E mesmo quando vejo Fito Paez no Canecão lotado, sinto que a acolhida brasileira é tímida diante da grandiosidade e importância da música que 'tá sendo tocada no palco, exemplo de uma história bem maior (e tão interessante ...),
a do rock argentino (para quem quiser saber mais sobre 'sa história, indico dois livros: o clássico Corazones em llamas, de Laura Ramos e da amiga Cynthia Lejbowicz;
e o mais recente Alternatividad, divino tesoro, de Laura Lunardelli -- além desses, para um panorama mais amplo do rock no continente:
Bailando sobre los 'combros, de Carlos Polimeni).
Sempre saio dos shows deprimido, envergonhado, como se o Brasil nunca fosse se interessar verdadeiramente por a cultura dos países vizinhos, com a mesma intensidade com que 'ses países (e seus melhores artistas) se interessam por a nossa cultura. (
E o sucesso de Borges ou Garcia Marques nas livrarias brasileiras não contradiz meu sentimento de isolamento continental -- afinal eles vendem bem em qualquer lugar do mundo.)
Já andei com Fito Paez e Charly Garcia (muito bom o nome do site de ele: " demolindo hotéis ") por as ruas tanto do Rio quanto de Buenos Aires.
Parece que vivemos em galáxias diferentes.
Nada indica as poucas horas de vôo entre o Galeão e Ezeiza.
Lá, eles provocam congestionamentos em qualquer lugar que passam, aqui são totais desconhecidos ...
Fiquei pensando em 'ses passeios quando ganhei há um mês o disco Litoral, da cantora argentina Liliana Herrero.
Fazendo uma pesquisa no Google, descobri que ela cantou no ano passado no restaurante Cais do Oriente, no Centro do Rio, e no Teatro Municipal de Niterói.
Tocou também no Clube do Choro, em Brasília;
no Festival América do Sul, de Corumbá;
no Mercado Cultural, em Salvador;
e no SESC Vila Mariana, em São Paulo.
Tão perto.
Nunca tive notícias de nenhuma de 'sas suas passagens por o Brasil.
Aliás, nem sabia que Liliana Herrero existia.
Minha sensação foi de ser uma daquelas pessoas que não reconheceram Fito ou Charly quando encontrei com eles em Copacabana.
Arthur de Faria, nosso homem-ponte transplatino, me falou pela primeira vez da existência de Liliana, já dizendo maravilhas, o que me fez ganhar o disco.
Contou que ela, além de cantora, é professora de filosofia, o que aumentou mais minha curiosidade.
Mas fiquei fascinado mesmo com o disco Litoral (ainda não 'cutei nenhum outro, mesmo ela tendo lançado vários, desde o final dos anos 80).
Sei que 'tou abusando dos superlativos (tendência bem latina ...),
mas aqui vai outra afirmação bombástica:
é um dos grandes lançamentos do novo século, em qualquer língua.
Os argentinos sabem disso tanto que deram vários prêmios para Litoral.
Jornais como o Página 12 ou a revista Rolling Stone argentina reconhecem que trata-se de um momento maior na carreira de Liliana Herrero.
Litoral é um CD duplo, juntando canções que falam de rios.
O primeiro disco é dedicado ao rio Paraná, o segundo ao rio Uruguai.
São dois rios que nascem no Brasil.
Fácil então para os brasileiros se reconhecerem no projeto, também porque temos tantos outros rios formadores de nossa personalidade cultural (basta pensar nos discos que poderíamos fazer para o São Francisco ou para o Amazonas).
Liliana passou anos 'colhendo / coletando as faixas.
E tratou cada uma de elas -- de milongas a pop bem argentino -- com enorme carinho e emoção, apesar dos arranjos exatos, moderníssimos.
A versão de Parte del Aire (" vengo de dos rios, que dan al mar "), uma das minhas canções preferidas (gravada naquele disco sublime de Fito Paez e Luis Alberto Spinetta -- outro campeão das lindas melodias) e por isso mesmo que penso não necessitar de nenhuma transformação, resume tudo que gosto no disco, apenas com a voz de Liliana e o piano (" de 1/2 cola ") de Hugo Fattoruso, tocando com uma inteligência que no pop só consigo encontrar na performance de Mike Garson em Aladdin Sane, de David Bowie.
Mais interessante foi descobrir Liliana Herrero ao mesmo tempo em que 'tava entrando em contato também com uma outra cena musical continental que Ronaldo Lemos já batizou de New Weird Latin-America (algo como Nova América Latina Bizarra, parodiando a New Weird America).
Escutando o programa de rádio que mais gosto, The Wire Presents Adventures in Modern Music, da londrina Resonance FM, fiquei 'pantado com uma música do Las Malas Amistades, de Bogotá.
Fui procurar mais sobre o grupo na internet e dei na sua página do MySpace, que me levou a outras bandas sensacionais como os também colombianos Ensemble Polifonico Vallenato, Dick my Fuck you, Niña Fea (cuidado, ela é feia mesmo!),
Animalitos Dulces; os mexicanos Sistema Sonoro Macaco e Sonidero Nacional;
o argentino Sonido Martines (tem mais, muito mais!) --
todos eles se equilibrando entre a música mais descaradamente e caricaturalmente «tropical» e o experimentalismo mais radical.
Em a maior parte das vezes o resultado é brilhante, ou pelo menos divertidíssimo.
Fiquei, é claro com aquela vontade enorme de organizar imediatamente um outro festival Tordesilhas.
Imaginem Liliana Herrero, Sistema Sonoro Macaco e Mestres da Guitarrada (em 'se link tem uma foto na qual eu apareço ...
hilária ...) no mesmo palco.
O Gigantinho iria continuar vazio?
A unidade cultural latino-americana seria mais uma vez adiada?
Não importa.
A festa seria ótima.
PS:
Um dos objetivos deste texto é dizer que o Overmundo também 'tá aberto para receber colaborações que nos façam descobrir novidades culturais de outros lugares do mundo, fora do centro óbvio europeu-norte americano do qual todos os outros sites já falam.
Número de frases: 73
Ano:
1961. Um dia depois de ter prestado exame final de português (que é como a matéria se chamava, não sei se se chama assim, ainda hoje) minha mãe foi chamada por a Orientadora Educacional do «Instituto Estadual de Educação Professor Alberto Conte».
O Instituto era um dos mais renomados colégios públicos da cidade de São Paulo, cujo prédio, construído num grande quarteirão no centro do bairro de Santo Amaro (Zona Sul de São Paulo, de classe média quando o colégio foi construído, em franco processo de proletarização, já em 1961) possuía quadra de basquete, piscina (que nunca funcionou, pois parece que foi construída de maneira errada) e até anfiteatro onde, aliás, vi, nos idos de 1964, pela primeira vez, um show do Chico Buarque, então no início do inicio de carreira -- «eu quero tanto um dia, o pobre ver sem frio, e o rico com coração» rsrsrsrs -- ele era amigo da presidente do Grêmio Estudantil.
Ano conturbado 'se 1961, onde tinha havido a renúncia de Jânio Quadros enquanto o vice-presidente João Goulart encontrava-se em missão diplomática (sic) na China e teve o seu retorno, para assumir a presidência, contestado por forças militares.
Mas, do ponto de vista da minha 'colaridade, até ali um ano tranqüilo, em tudo diferente do anterior, onde um professor de matemática, de nome Besi, depois de me reprovar, perguntou para minha mãe, ofensa das ofensas, se eu havia sido tirado a fórceps tal o meu destrambelhamento dentro e fora da sala de aula.
Minha mãe, que contava com orgulho (besta, talvez) que teve de entrar na maternidade fechando as pernas para eu não nascer no táxi, convocou meu pai e os dois resolveram que eu daria uma resposta à altura ao professor na segunda época.
Em aquelas férias eu acho que nunca 'tudei tanta matemática na minha vida (não que desgostasse 'pecialmente, mas acho que acabei gostando mais de matemática graças ao desaforo que o professor Besi fez à minha mãe).
Resultado: 9,6 no exame 'crito e 10 no oral, sendo que o exame oral, naquela época, era feito por uma banca examinadora (dois ou três professores).
O telefonema da Orientadora Educacional para a minha mãe, um dia depois de ter feito exame final de português, naquele final de ano, em que, na minha cabeça, todas as matérias «'tavam no papo» me deixou preocupado.
Por outro lado, fazendo um exame de consciência, achei que tinha feito uma prova até bastante razoável e uma redação muito imaginativa.
Em a redação eu contava, com detalhes, um sonho-quase pesadelo em que, no dia do exame final de português, além de acordar atrasado, uma série de peripécias ocorreram que me impediram de chegar a tempo no local da prova e que, em lá chegando, 'pavorido, tinham já trancado o portão, isto é, que, em resumo, eu tinha perdido a prova até que acordei do sonho e 'tava ali fazendo o exame, mas preocupado com o sonho, que poderia ser premonitório «pois preciso de 4 e 4» -- nota quatro no 'crito e outro 4 no oral, era assim que a gente calculava a nota pra passar.
Pois foi só isto que bastou para que a professora procurasse a orientadora educacional e me acusasse de «pedir nota» e que, embora ela reconhecesse que havia mérito na redação, se ela me desse a nota 'taria sendo conivente com o meu «pedido» e, portanto que minha nota seria menor do que 4 (acho que não me deu zero, mas não tenho certeza), Apesar do absurdo da situação, disse pra minha mãe deixar pra lá, inclusive porque eram menores que «quatro e quatro» as notas que eu precisava.
Ah, ia 'quecendo de dizer, passei em tudo, até em Português!
Número de frases: 13
Em a última semana, não postei nada, pois 'tava na 12ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo / RS.
Fui com a idéia de relatar diariamente os fatos da Jornada, mas infelizmente não consegui ponto de internet para trabalhar.
Bem, para pagar a minha «dívida» sobre os fatos da Jornada que não postei, vou fazer um apanhado geral do evento e da minha 'tada na Capital Nacional da Literatura.
Nunca havia ido à Jornada de Passo Fundo, inclusive, nem sequer conhecia a cidade.
Ir ao evento foi uma experiência realmente válida, porque, além de assistir às inúmeras discussões da Jornada, tive a oportunidade de conhecer a verdadeira cara da cidade encoberta por a 'trutura do grande evento.
Hospedado no apartamento do meu amigo Tiago Tissot, morador da cidade, pude conhecer detalhes da cultura local.
Destaco entre os diversos elementos de Passo fundo que tive acesso, a música de Ricardo Pachecol.
Logo na minha chegada, Tissot me falou sobre a gravação do DVD de um músico local que aconteceria na noite de quarta-feira (29/08).
Como curioso de carteirinha, eu não poderia deixar de conferir.
Tive uma ótima surpresa como o show de Ricardo Pacheco.
O músico e sua banda buscam referências na música 'pano -- latina compondo uma linguagem que representa muito bem a ligação do interior do Rio Grande do Sul com o Uruguai, Argentina e Paraguai. (
Algumas das músicas do artista podem ser conferidas em http://www.garagemmp3.com.br/ricardo-pacheco).
Sendo a Jornada composta por diversas ações simultâneas não consegui acompanhar todas.
Detive-me mais às atividades da lona central, das quais destaco a participação do 'critor Ferréz (Capão Pecado, 2000).
Destoando dos palestrantes dos demais dias, o autor do Capão Redondo relatou sobre sua trajetória, que parte de uma das mais miseráveis favelas do Brasil para constituição de uma literatura marginal autêntica, que utiliza a língua da periferia brasileira.
Durante todos os dias da Jornada, em meio a pensadores brasileiros e gringos, permaneci sempre com uma pulga atrás da orelha perante as suas exposições sobre a leitura e literatura.
Mesmo sendo um apaixonado por os livros, reconheço que a literatura distanciou-se muito da cultura popular no decorrer do século XX.
Assim, uma pergunta constante em minha cabeça é «De que vale escrever num país de não-leitores removeme?».
A experiência de Ferréz, que vendeu quarenta mil exemplares apresentando uma linguagem condizente com a realidade da maioria dos brasileiros, me fez perceber que é possível atingir públicos de não-leitores com boa literatura.
Cada vez mais creio que a literatura, assim como a utilização da língua portuguesa em geral, deve ser desmistificada.
A língua e a arte devem servir aos homens, circularem livremente entre eles, e não manterem-se distantes em pedestais criados por elitizados acadêmicos que fazem da sua imaginária posse instrumento de dominação.
De exemplos como o da arte de Ricardo Pacheco e de Ferréz trago de Passo Fundo a certeza de que, mesmo em meio a um mundo globalizado, a fundamental peça para se fazer boa arte é o respeito por o regional.
Já diria " Guimarães Rosa:
Número de frases: 23
«o sertão é o mundo».
Em o dia 11 de julho eu saí para comer um pizza de madrugada.
Uma vez por ano, é de lei, vários grupos se formam e vão fazer isso.
A chance de botar na mesma mesa um bom papo sobre os quadrinhos e, também, sobre um monte de outros assuntos.
A tevê 'tava sintonizada num jogo da Copa do Mundo Sub-20 de futebol, da qual o Brasil foi vergonhosa e exemplarmente desclassificado, quando eu, Sidney Gusman, Marcelo Naranjo, Sam Hart, Rod Reis e Alexandre Linares começamos a papear.
Apenas um evento, todos os anos, permite que conversas desse tipo aconteçam:
o HQ Mix, a principal premiação de quadrinhos brasileira, que completa, no ano que vem, 20 anos de existência.
É uma festa sem igual e, em 'ta edição, foi 'pecial por muitos motivos.
Certamente o principal foi a afluência de gente de muitas partes do Brasil, das cinco regiões, algo que por si só é pra se comemorar.
Afinal, nunca os quadrinhos viveram um momento tão 'pecial em todos os anos em que se publica 'te tipo de arte no país.
Mas, desta vez, a presença maçica das editoras e das pessoas que 'tão nos bastidores da publicação de HQs no Brasil, bem como de jornalistas da área, zineiros, roteiristas e desenhistas deu ao 19º HQ Mix uma cara de alegria.
Foram diversos reencontros, de gente que não se via faz tempo, além de trocas de impressões como não se via há um bom tempo no evento.
Em um mercado tão pequeno e com tantas rusgas, apenas a habitual ausência dos editores da Panini e da Devir foi mesmo sentida.
A primeira, a maior publicadora de quadrinhos no Brasil.
A segunda, uma editora que soube se reinventar após a perda de grandes títulos para a Pixel e começa a trazer ao país grandes e impensáveis títulos de editoras que não tinham chance alguma há apenas um ano.
O fato da Panini não aparecer é de algum modo justificável:
quase nenhum prêmio ter sido delegado a 'ta editora que é a mais maciça presença em bancas no Brasil chega a ser um tremendo absurdo.
São as distorções do prêmio, que eu comento com mais propriedade em meu blog pessoal.
Apesar disso, houve a festa.
E que festa!
A apresentação, como é desde a primeira edição, coube ao Serginho Groisman que, em 'te ano, teve a feliz idéia de trazer a tiracolo a banda que o acompanha no programa Altas Horas.
Até arriscou cantar uma versão (sejamos sinceros, bizarra) de Não se vá, clássico popular de Jane e Herondy.
O grande homenageado da premiação foi um quadrinista que a nova geração desconhece, mas que foi um dos caras de ponta dos anos 70 e que, após morar anos e anos na França, hoje vive no Taiti.
Seu nome é Sérgio Macedo e é um verdadeiro moleque, o que casa muito com a sua obra exótica e tropical.
Ele dançou, falou, fez caras e bocas e ainda levou sua 'posa, uma legítima taitiana em trajes típicos, a fazer uma apresentação também típica de dança.
Foi difícil não se sentir no Hawaii.
Aquele dos filmes do Elvis, não do seriado do Magnum.
Mas também muita gente nova subiu ao palco pela primeira vez.
Talvez um movimento de genuína renovação, que começou há poucos anos, 'teja realmente amadurecendo.
Foi 'ta a impressão que passou quando o pessoal da Front subiu ao palco, completamente diferente da formação inicial da revista, que era comandada a mão de ferro por o Kipper.
Aliás, foi um dos pontos altos da noite, quando Bira pegou sua gaita na hora dos agradecimentos e tocou, acompanhado da banda, uma versão de Asa Branca em homenagem a Conceição Cahú, artista gráfica morta no ano passado e que participou com sua última obra justamente na edição premiada da Front, vencedora do prêmio de melhor revista mix nacional.
Mas as homenagens foram falhas:
outros artistas de renome se foram, como Joacy James e Ely Barbosa, mas nada de se mostrar o trabalho de eles no telão.
No caso de Barbosa, um crime capital, visto que ele, na década de 70 e no começo da de 80, foi o único criador infanto-juvenil a fazer frente a Maurício de Sousa -- ainda hoje seus trabalhos podem ser vistos em diversos produtos do Baú da Felicidade, por conta da interessante relação entre Barbosa e Sílvio Santos.
É sempre triste quando gente boa se vai, mas existem aqueles que podem ser reconhecidos a tempo, como o piauiense Renato Canini, provavelmente o maior desenhista nacional a trabalhar com o material Disney.
Sua originalidade e inventividade levaram os organizadores do HQ Mix a fazer o troféu deste ano 'tampando seu personagem mais bacana:
Kactus Kid, um caubói à italiana bem à brasileira.
Novamente, algo a que os novos só tem acesso nas pouquíssimas gibitecas e acervos públicos de quadrinhos no Brasil.
[E vale um adendo:
também é, sempre, de uma falha crassa da organização não apresentar o homenageado impresso no troféu.
Mas deixa que, 'te ano, eu faço isso para vocês:
clique em 'te link e agradeça ao site Porta Curtas por a gentileza.
Agora, de volta ao texto.]
Este lado bom do HQ Mix, o do resgate, agora é somado ao incentivo à pesquisa e 'tudo das HQs, graças à premiação de trabalhos acadêmicos sobre o assunto.
Também o lançamento de cada vez mais livros teóricos sobre quadrinhos faz com que se tenha uma melhor compreensão de um mercado que, hoje, tem pouco mais de cem anos de idade.
Algo bem modesto em relação ao resto da imprensa 'crita nacional.
E não por isso menos importante.
O HQ Mix hoje tem uma comissão que trabalha anualmente por o prêmio.
Mas os cabeças do projeto, Jal e Gual, continuam firmes por ali, cada vez tentando deixar o processo de 'colha mais transparente (hoje, a votação é auditada, por exemplo) e a entrega dos prêmios, mais legal.
Afinal, tem que ser uma festa, não um simpósio.
E foi assim:
prêmios para cá, prêmios para lá, e isso literalmente, porque o palco do anfiteatro do Sesc Pompéia, local tradicional do evento, separou a platéia em dois cantos.
Tanto que a maioria das pessoas não sabia pra que lado olhar quando eram premiadas.
O que, na verdade, era bem divertido de se ver de fora.
E isso foi o mais bacana:
ver de fora absolutamente tudo.
Estar lá, num meio que me é familiar, olhando com os olhos alheios de quem volta após uma longa ausência, foi renovador.
Para alguns, eu era o jornalista.
Para outros, o vilão de gibi criado em comunidades de orkut.
Para mais alguns, o ex-companheiro de trabalho.
Para muitos, o amigo que nunca abandonou nem suas perspectivas nem aquilo em que acredita.
E foi com alguns de eles que pude dividir, em 'te ano, a tal mesa na madrugada.
Uma mesa que respeitava as diferenças em sua heterogeneidade:
Gusman e Naranjo, como eu, são jornalistas da área de quadrinhos, sendo que o Sidney faz muito mais coisas, inclusive tendo sido editor na Conrad;
Linares é um dos homens fortes da Conrad e um apaixonado por HQs;
Rod Reis faz, hoje em dia, cores para grandes títulos da DC Comics;
Sam Hart é desenhista, colorista, roteirista e já trabalhou junto com John Higgins, o colorista de Watchmen (considerada a obra seminal dos quadrinhos de heróis);
e, enfim, eu, que sou jornalista e recentemente comecei a trabalhar na Pixel Media.
O que une 'tas pessoas é a paixão por os quadrinhos e a amizade, acima de qualquer fronteira editorial.
É como a banda toca:
bom papo até que, finalmente, chega à mesa o pretexto de nos reunirmos.
Número de frases: 71
Afinal, pelo menos alguma coisa no Brasil tem que acabar em pizza e não indignar ninguém, não é mesmo?
«Cinema, Aspirina e Urubus» é a história de dois viajantes.
Um de eles, um foge da guerra de seu país, a Alemanha de meados do século XX, outro, da seca do Nordeste de sempre.
Talvez a idéias mais forte que o filme expressa seja a opressão do mundo sobre o indivíduo, sobre como o exterior define seu caminho.
Essa linha de pensamento participa mesmo da construção da história -- o modo que as cores são usadas, como as cenas são filmadas.
E o segredo no título.
Em o filme, duas cores são predominantes:
o branco e o preto -- ou a luz e a sombra.
Uma e outra definem onde 'tá o foco:
no ambiente (lugares por onde os personagens passam) ou na situação (seu 'tado psicológico).
A ser explicado:
a luz serve para definir a realidade da seca, que oprime quem vive em ela;
a sombra isola o personagem daquele contexto, torna-o individual.
O excesso de luz nas cenas em que se filma a paisagem torna opacas todas as cores.
Contra o cenário de terra sem vida e árvores secas, a cor da pele de Johann, o alemão, quase se dissocia -- e talvez seja exatamente isso o que o diretor queira expressar:
uma série de pessoas engolidas por a seca, levadas mesmo que contra a sua vontade de um lugar para o outro.
As únicas cores que se destacam 'tão na roupa dos personagens, numa imposição social primária -- novamente, poderia ser dito que são o contexto em que 'tão, acrescido da função que devem cumprir no momento.
Quando é dia, foca-se o trabalho dos dois, os comentários sobre o país, os negócios, as pessoas que encontram por o caminho.
Foca-se o contexto.
Já quando é noite, acontecem os momentos mais pessoas, mais íntimos.
É envolto por a sombra que Ramulpho, o nordestino, inventa uma história para a própria vida, assim como Johann conclui (após um pouco de frebre causada por veneno de cobra) que passou «a vida inteira juntando dinheiro» e talvez morresse sem aproveitar:
é a primeira mudança de rumos, fugaz.
Entre outros exemplos, um que pode parecer fortuito ou definitivo, de acordo com quem lê:
em certo momento, quando o Brasil entra na guerra e a volta de Johann para a Alemanha é exigida, o alemão disfarça seu carro, ele o pinta de preto.
Destaca-o do contexto, se concordamos com o que foi 'crito, e aí a pintura é apenas simbólica -- o que se comprova, já que ele o faz para pouco depois abandoná-lo.
Forçando um pouco a interpretação, o segredo:
pode-se enxergar 'sa relação entre o branco e o preto, a luz a e a sombra mesmo no título:
de um lado, a aspirina, branca, onipresente na história, " cura para todos os males ";
do outro, os urubus, aves de mal-agouro, comedoras de restos -- surgindo no exato momento em que o rumo de uma vida se transforma por a segunda vez, desta vez de verdade e em definitivo.
Em última análise, 'sa relação também 'tá na palavra " cinema ":
a luz possibilita a história, mas é sobre a sombra que ela ocorre.
A sombra:
o único lugar para o amor no filme.
Sempre, à noite e à revelia.
Enquanto se observa as 'trelas.
Número de frases: 35
Enquanto a primavera arde.
A aventura começa ...
Parece filme de Indiana Jones rumo ao encontro de um tesouro perdido numa civilização distante.
Mas em 'se filme não tem efeitos 'peciais.
Só magia ...
Não há galã bonitão fazendo 'tripulias com chicotes e chapéus ...
Só pessoas comuns, uma cidade pequena, um cineasta sumido e uma película valiosa para a filmografia brasileira e alagoana.
Muito interessante, mas vamos por partes:
sou apresentador de um programa de TV chamado Sétima Arte, onde exibo curtas-metragens de ficção, documentários e animações de cineastas iniciantes.
Em o programa faço comentários sobre os trabalhos exibidos, falo sobre cada realizador e sobre a sua cidade também.
Não seria fácil conseguir muitos trabalhos na década de 80.
Mas hoje com a internet e com os canais de comunicação instantâneos, baratos, acessíveis e cada vez melhores, consigo mostrar a diversidade cultural do meu país, através do audiovisual, numa TV comunitária em minha cidade, Cordeiro, no interior do Estado do Rio.
O poder da comunicação transformando 'se planeta numa aldeia cada vez menor.
Melhor? Não sei.
O roteiro
O roteiro rocambolesco começa exatamente a partir daí:
Diante de um computador.
Estava à procura de material para os próximos programas da TV comunitária.
Sempre deixo recados em comunidades 'pecializadas no Orkut e, em alguns casos, volto para fazer convites individuais ao vasculhar profiles interessantes.
Em os scraps que 'palho no Orkut, geralmente acrescento o meu contato no MSN.
Belo dia, deparei-me com o «Rafhael Spielberg», na verdade Rafhael Barbosa, cineasta, jornalista e amante da sétima arte.
Entre uma teclada e outra, algumas negociações e possíveis contatos com diretores iniciantes e outros nem tanto, ele me perguntou se eu morava perto da cidade de Cantagalo.
A o teclar um «SIM» parece que ouvi um grito de " Bingo!"
vindo lá das terras alagoanas.
Resumindo a história para dar-lhe um melhor desfecho a seguir, o Rafhael me pediu pra sair em busca de um tesouro perdido nas terras de Euclides da Cunha.
Eis o tesouro:
o primeiro filme rodado em Alagoas.
«Um Bravo do Nordeste» desapareceu juntamente com o seu realizador, o cineasta Edson Chagas.
Aventurei-me encorajado por o meu novo amigo.
Todos ganhariam muito com o desvendar desse sumiço cinematográfico e, de certa forma, ainda 'creveríamos umas páginas a mais na memória da cultura nacional.
O que sabíamos era exatamente isso:
Em 1931, Edson Chagas botou a película debaixo do braço, ganhou chão e uma de suas últimas aparições foi em Pilar, ainda em solo alagoano, onde também exibiu o filme.
Depois daí, viveu e morreu em terras do Cantagalo como veio relatar o jornalista, poeta, folclorista, cineasta e crítico " Fernando Spencer:
«Ary Severo (cinegrafista) me contou que foi visitá-lo no Rio, o encontrou casado com uma moça mais alvoroçada que ele (risos).
Segundo ele, Edson viveu na região do Cantagalo até sua morte, no começo de 1959».
A busca
Hoje, sem a película, nenhum registro de «Um Bravo do Nordeste» e o fato de Edson Chagas ser pernambucano que passou apenas dois anos em Alagoas, a candidatura à vaga de primeiro filme alagoano é controversa.
A defesa de «Casamento é Negocio?»,
de Guilherme Rogato, como justo merecedor do título parece 'tar ganhando vantagens e aos defensores de «Um Bravo do Nordeste» resta apenas a busca frenética por algum novo indício do paradeiro de Edson Chagas.
Sendo assim, parti muito motivado para a pesquisa e também à procura de pessoas que acreditassem em 'sa história incrível.
O primeiro a ser contactado foi o Professor Gilberto Cunha, 'tudioso e pesquisador da história de Cantagalo.
Logo ficou empolgado, mas achou um pouco 'tranho desconhecer o nome do cineasta e qualquer referência a uma passagem significativa de ele por lá.
Outro historiador e grande interessado por o patrimônio histórico-cultural da cidade, Professor João Bosco Bon, contagiou-se por a história e na possibilidade de encontrar registros de vida e morte de Edson Chagas em Cantagalo.
Apostou em cidadãos que guardam, com carinho, o passado de sua gente na memória e podiam ser de grande valia.
Foi assim que contou toda a história baseada nos dados de pesquisa de Rafhael Barbosa aos senhores Adalto Machado (poeta e trovador), Aloisio Falcão (contador de histórias e ex-chefe da 'tação ferroviária) e às senhoras Eni Kroff (poetisa e professora aposentada) e Eni Baptista (professora aposentada e atuante no cenário cultural).
O retorno foi desanimador.
Em as primeiras horas, de uma manhã de quinta-feira do mês de agosto, recebo o telefonema do Professor Bosco, desalentado.
Nada havia encontrado.
Ninguém sabia de nenhum Edson Chagas, de nenhuma 'posa de ele e muito menos descendentes.
E a película?
O grande tesouro a ser «desenterrado» de uma história cheia de vai-lá-vem-cá?
Nenhuma pista muito menos.
Em o caso, o valioso trabalho de Edson Chagas são seis rolos de uma história de «faroeste» onde " um ladrão de gado tenta ludibriar um rico proprietário, comprando o seu gado.
Chegando à fazenda, enamora-se da filha do coronel e dispõe-se a casar.
Vendido o rebanho, o fazendeiro vai ao banco depositar o dinheiro, mas o caixa recusa-se a receber em virtude de ser dinheiro falso». (
registro de sinopse encontrada na cinemateca brasileira).
A última tentativa dos novos bravos foi folhear cuidadosamente os livros de registros de óbito da cidade.
Com data de morte delimitada em 1959, Claudia Fernanda Amaral Salgado, responsável por o cartório de registro civil do 1º distrito de Cantagalo, ajudou a aprofundar ainda mais a pesquisa.
Nada foi encontrado.
Mistérios a desvendar
Parece que o cineasta, ao largar o Nordeste, simplesmente desistiu de filmar, produzir cultura e, por fim tomou chá-de-sumiço justamente na região centro-norte fluminense.
Tudo parecia 'tar fadado a nenhum milímetro de avanço em 'sa aventura.
Mas algo levantou os ânimos dos bravos personagens de 'sa história quando uma análise mais cuidadosa da fala de Fernando Spencer feita por o professor Bosco acrescentou uma novidade em torno do desaparecimento de Edson Chagas."
A o registrar em sua fala «regiões do Cantagalo», Fernando Spencer nos fez acreditar que, na verdade, não seria Cantagalo interior fluminense, mas o Cantagalo, localidade da capital do Rio de Janeiro».
A o notar 'se pequeno acréscimo de artigo diante da preposição, o Professor Bosco acrescenta uma reviravolta na localização geográfica do sumiço do cineasta e, conseqüentemente, a história ganha outro rumo!
Um novo começo ...
Brilhos nos olhos e 'perança renovada para o Rafhael Barbosa, um bravo do nordeste, e os seus mais novos bravos colaboradores fluminenses.
É assim que se 'creve boas histórias no século XXI.
Novas buscas vão começar a partir de agora.
Quem se habilita?
Número de frases: 70
Processo coletivo engajado, Fazendeiros e Posseiros abriu a II Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, da Petrobrás, que acontece no Centro Cultural São Paulo, entre 30 de abril e 6 de maio de 2007.
A montagem tem pouco valor 'tético e menos importância, ainda, se procurarmos inovação.
Sem trilha, nem iluminação, a peça aposta na atuação, na poesia rimada das falas e, sobretudo, na transmissão (unilateral) de uma mensagem muito clara, a do Movimento Sem Terra.
Ficam frustradas todas as expectativas de se construir significados a partir de belas imagens, pois o conteúdo 'tá lá, prontinho pra ser despejado sobre o público.
No entanto, há que se considerar a atualidade de algumas metáforas, como a comparação entre um leilão de gado e um desfile de moda, com direito a uma famosa vaca chamada Isabelle Drumond.
Para entender o valor da obra e encontrar uma razão para o fato de 'tar na abertura da mostra, é preciso, antes, entender sua proposta e origem para, então, perceber que o que mais chama a atenção ali é a sinceridade que cada componente do grupo expressa.
«Acabou», soltou um de eles ao final do 'petáculo, demonstrando que a mesma medida que há de convicção na verdade do que se diz, há de ingenuidade teatral.
O grupo Filhos da Mãe ...
Terra existe desde 2003, é amador e 'tá entre os quase 40 grupos de teatro que funcionam em assentamentos e acampamentos do Movimento Sem Terra, por todo o Brasil.
A organização fica por conta da brigada nacional Patativa de Assaré, cujo processo teve início em 2001 e foi concluído em 2005, com a ajuda de Augusto Boal e do Centro de Teatro do Oprimido.
Com tais influências, o grupo, que se encontra em Sarapuí (SP), no assentamento Carlos Lamarca, nasceu para reaproximar e reorganizar a juventude do movimento que, após os assentamentos, havia se distanciado para cuidar das terras individualmente.
A peça que apresentam é fruto de um trabalho coletivo coordenado por Douglas Estevam da Silva, também coordenador da Patativa.
A dramaturgia, também coletiva, se baseia na peça Horácios e Curiácios, de Bertold Brecht, e em pesquisas em jornais, revistas e filmes sobre a situação da distribuição das terras no Brasil.
A montagem usa texto acessível, piadas semi-prontas, coreografias divertidas, rima, tudo para envolver um " público-alvo que, em muitos casos, nunca tinha ido ao teatro antes.
Uma das poucas sacadas que o grupo apresenta é a relação com temas e questões muito atuais.
Um dos momentos mais marcantes, que só entende quem lê o jornal Terra Livre (distribuído durante o 'petáculo), é o uso de uma frase do presidente Lula, retirada da Revista Caros Amigos de 2000 e colocada na boca de um personagem do coro:
«Não se justifica num pais, por maior que seja, ter alguém com 30 mil alqueires de terra!
Dois milhões de hectares de terra!
Isso não tem justificativa em lugar nenhum do mundo!
Só no Brasil, porque temos um presidente covarde, que fica na dependência de contemplar uma bancada ruralista a troco de alguns votos."
O Filhos da Mãe ...
Terra já foi a Brasília e ao Rio de Janeiro, mas fica muito claro que seu objetivo 'tá longe de ser a apropriação de influências.
A idéia é, sim, limitada e fechada, num exemplo típico de teatro pedagógico e político.
Para o bem ou para o mal.
O bem da causa e da verdade artística e o mal da 'tética teatral.
Número de frases: 25
Pedro Claudino dos Santos, conhecido por Caxá, é o maior contador de causos da região, todos os acontecimentos lhe servem de inspiração para criar um «causo».
Este relato sobre ele é uma homenagem à sua força, seu caráter, sua insistência em ser natural resistindo ao progresso ...
Caxá -- Insistindo contra o progresso
A televisão mostra imagens novas, seu Caxá não se importa, o seu rádio de pilhas tem todas as notícias, pode sabê-las de olhos fechados.
Mantém a tradição rigorosa em tudo, comida, bebida e até na hora da consulta diz para o médico:
-- Quantos anos você tem?
Imagine, não pode saber mais que eu que já vivi 87 ...
E assim ele continua tomando seu?
veneno?, mistura de raízes curtidas no vinho ou na pinga.
Se a saúde piora toma logo uma injeção de óleo de pau ou banha de sucuri, ele mesmo a injeta.
A sandália nos pés é de um modelo único, foi ele que fez, se perguntam diz:
-- É do Paraguai.
É uma planilha de pneu com tiras de couro, tão bem feita que já dura 47 anos acompanhando os passos arrastados do grande homem que nunca será velho ...
Não se conforma com os homens que ficam em casa cuidando de tudo enquanto as mulheres vão?
trabalhar? na Espanha, diz que tem vergonha de ver isso.
De entre suas proezas aconteceu 'sa que marcou muito:
Seu Caxá mesmo com a idade tem muito vigor físico para contar causos, fazer piadas, faz com que tudo se torne engraçado, até a morte, mesmo que seja sem querer, como no episódio a seguir.
Sempre prevenido, já deixou o túmulo pronto, com fotografia e tudo, no cemitério Santana, na cidade de Uruaçu onde reside há uns 60 anos.
Construiu o túmulo dizendo que é para não dar trabalho quando morrer.
E assim faz suas visitas corriqueiras ao cemitério e à sua tumba também.
Certo dia foi conferir se 'tava tudo certo e distraído arrancava um matinho ali, outro acolá, e não percebeu alguém que o olhava de longe.
O curioso que observava foi chegando mais perto olhando a foto, fazia comparações, parecia muito;
devia ser um irmão gêmeo que 'tava sepultado ali, deduziu.
Não suportando a curiosidade chegou bem perto e disse:
-- Bom dia, senhor.
-- Olá bom dia -- respondeu sorridente seu Caxá, apertando a mão do desconhecido.
Travaram conversa, falaram sobre os cuidados com as sepulturas no cemitério, quando o curioso lembrou de perguntar:
-- Este da foto aí, é seu irmão?
Seu Caxá, todo sorridente responde:
-- Não, sou eu mesmo ...
O homem saiu correndo, não olhava para trás e desapareceu antes que o seu Caxá pudesse explicar qualquer coisa ...
Seu Caxá é o maior contador de causos da região, seja de política, religião, velhice, mocidade, para cada episódio ele cria um causo 'pecial.
Escolhi?
Ritmo de Vida? que ele compôs, o qual transcrevo respeitando seu modo original de 'crever:
Ritimo de vida
Eu mialembro, tenho saudadi
do ritimo que fui criado,
naquele tempo
um jovi com trinta anos não coecia pecado
andava de camizola com os pai acompanhado
vistia longo porque para joeli fica tampado
existia obediência, os pais era emprazerado
os ano forão paçando oje o disco ta virado
eu sotenho dó dos pais que são omilhado, tavendo as filias ando quase nua e os filios cuase pelado.
tudo xei de tatuage, brinco, andano entuziasmado, faz tudo que tem vontadi, o pai fica calado
é um ditado antigo ta sendo realizado
que ainda xegava um tempo de todos pais ser omiliado
até la eles quem manda nos pais vão ser dominado
com ordi do promotor do juízo e delegado
vai cabar os querer bem i o amor aos pobris velios coitados.
Dizoito ano abaxo para eles é tudo liberado
com isto noço mundo ta compreto de jenti clacificada, marginal, maconheiro, maloqueiro, traficanti diplomado
São os aluno do Fernandim beira mar i os Ozana Bilar
ta no mundo 'parramado..
E assim ele vai 'crevendo seus causos, nunca foi à 'cola, porém aprendeu a ler e 'crever registrando suas histórias com palavras que gritam contra o consumismo, o progresso desenfreado, onde segundo ele, os valores se perdem.
Seu Caxá pertence a uma geração de homens sérios, que sabiam falar e calar na hora certa, se respeitavam, como ele mesmo diz:
-- Hoje os homens não têm mais vergonha, apanham na cara e no outro dia 'tão na rua sorrindo.
E lutando para manter o jeito original de viver, ele continua;
os passos lentos lutam contra o tempo, quer viver, mas insistindo contra o progresso.
Número de frases: 59
Parabéns, meu amigo Caxá!
Vivemos tempos nos quais álbuns de músicas já não precisam existir fisicamente.
Por mais que a indústria fonográfica insista em ameaçar internautas com processos a quem baixa arquivos mp3 por a Internet, o fato é que a tendência é irreversível.
Querer conter a troca de arquivos na rede é algo tão utópico quanto tentar curar um ferimento a bala com band-aid.
O começo do fim do mundo musical como o conhecíamos ocorre em 1987, quando um laboratório do Instituto Fraunhofer, da Alemanha, desenvolve um algoritmo para compressão de áudio, o Eureka 147.
Prossegue com o surgimento de um grupo de pesquisadores sobre o assunto, o MPEG (Moving Picture Experts Group), e desemboca na criação do MPEG Audio Layer-3, terceira geração de arquivos capazes de comprimir áudios, codificando-os sem que houvesse expressiva perda de qualidade.
A música utilizada nos testes que originaram os arquivos MPEG-3 é Tom's Diner, de Suzanne Vega.
Em 1995, os pesquisadores do Instituto Fraunhofer definem o nome por os quais 'tes arquivos passam a ser conhecidos em definitivo:
MP3. Em 1999, um jovem de apenas 19 anos chamado Shawn Fanning cria um programa que facilita imensamente o compartilhamento de músicas entre internautas do mundo inteiro, o Napster.
Desde então, a indústria musical nunca mais seria a mesma.
É bóbvio que gravadoras e muitos músicos não ficaram satisfeitos em ver suas obras serem distribuídas gratuitamente a torto e a direito.
Por outro lado, o acesso rápido e descomplicado a canções de todos os cantos do mundo facilitou a divulgação de bandas de garagem, que já não dependem mais da intermediação de empresários, gravadoras ou jabás para fazer com que seu som seja conhecido.
Que o digam grupos como Arctic Monkeys e Clap Your Hands Say Yeah, que chegaram ao topo das paradas graças ao boca-a-boca fomentado por pessoas que os conheceram por intermédio de MP3, blogs e listas de discussão.
MySpace e YouTube são outros veículos preciosos de divulgação para músicos novos, como provam os exemplos de Lily Allen (considerada a " musa do MySpace ") e Ok Go (notabilizados por o clipe de Here It Gões Again, cuja coreografia dos integrantes da banda fazendo 'tripolias em 'teiras rolantes já foi visualizada quase 9 milhões de vezes no YouTube).
Em o Brasil, podem ser citados casos como o do grupo gaúcho Fresno, que contabilizou mais de 250 mil downloads de suas músicas no site Trama Virtual e foi parar no Top 20 da MTV.
De Ewerton Assunção, compositor paranaense que hoje faz shows por todo o Brasil desde que sua canção Vou Te Excluir do Meu Orkut criou o gênero «sertanerd».
Ou do Mombojó, grupo recifense que disponibilizou em seu site todas as faixas do seu disco de 'tréia, «Nadadenovo», para download gratuito sob a licença Creative Commons, e hoje é considerada por crítica e público uma das melhores bandas brasileiras da atualidade.
Em tempos nos quais encontramos tudo quanto é tipo de música ao alcance de alguns cliques na rede, cantores e compositores não podem mais depender da venda de álbuns para garantir o pagamento dos quartos de hotel que ainda hão de quebrar.
Ok, a principal fonte de renda das bandas sempre se originou de shows, e isso certamente não mudará em 'tes tempos em que músicas circulam livremente por computadores, iPods, celulares, Soulseeks e Pandoras da vida.
É digno de atenção, pois, encontrar iniciativas como a da cachaça Sagatiba, que encomendou a um dos mais conhecidos músicos brasileiros no exterior, Seu Jorge, uma composição para divulgar sua marca:
Eterna Busca.
É algo no mínimo curioso:
a música, que fará parte de seu próximo álbum, «Nova América (com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2007)», já 'tá tocando nas rádios.
No entanto, a letra não omite seu aspecto promocional.
A palavra «Sagatiba» é repetida várias vezes, como se fosse um mantra ou uma mensagem nada subliminar.
Em uma iniciativa rara no Brasil, Eterna Busca ainda não 'tá disponível para compra no formato CD ou single, mas já pode ser downloadeada legalmente e gratuitamente no site da marca.
Diferente de casos como o de Tim Maia tentando persuadir seus ouvintes a lerem o livro «Universo em Desencanto», ou dos Mutantes fazendo comerciais para a Shell, 'tamos diante de um interessante caso no qual rádios veiculam um jingle disfarçado sob a forma de hit, um exemplo sui generis de tempos em que a expressão» marketing viral " é citada com freqüência cada vez maior.
É lógico que nem todos os artistas terão 'ta 'pécie de mecenato neoliberal como meio para garantirem sua subsistência.
Cresce, pois, a importância da aproximação maior entre artistas e público.
Agora você pode ser amigo de seu roqueiro predileto no MySpace ou Orkut, comentar os posts do blog de uma banda, conferir o que seus ídolos ouvem por intermédio do Last.
fm ou Pandora.
É como cantou Bob em 1964: The Times, They Are A-Changin '.
Sobre 'tes instigantes tempos pós-modernos nos quais a única constante é a mudança, vale a pena citar uma declaração feita por Dylan em recente entrevista à revista Rolling Stone, quando questionado a respeito do fato das pessoas 'tarem baixando suas músicas de graça na Internet:
«Bem, por que não?
Elas não valem nada mesmo».
Independente de concordarmos ou não com sua declaração, uma questão fica no ar:
a indústria musical saberá se adaptar a 'te admirável mundo novo?
Outra, certamente mais relevante:
Número de frases: 38
músicos realmente dependem de 'sa indústria para sobreviver?
Acabou um patrocínio, o Unibanco rapou:
a arte depende disso ...
O que se pode dizer do iminente colapso do Cinema da Casa de Cultura Mário Quintana?
O Antigo Hotel Majestic-magnífico projeto do arquiteto alemão Theodor Wiederspahn, onde circulavam as personalidades das décadas de 20 e 30, como Jango e Getúlio Vargas, Virginia Lane e Francisco Alves, na então charmosa Rua da Praia, onde todos iam aparecer e desfilar, «footing» foi tombado em 1990 e abriga salas de exposição, Bibliotecas e teatros.
Assim, numa cidade que tem na sua arquitetura um dos grandes-e poucos, atrativos turísticos, e na cultura uma das mais fortes características, ela torna-se o destino inevitável de qualquer amigo visitante.
Sem falar que Mário Quintana -- que lá morou -- é um poeta amado por todos:
já tive oportunidade de fazer leitura de seus poemas, e vi no rosto emocionado dos ouvintes que eram todos leitores, alguns poemas as pessoas sabem de cor.
A Casa é um símbolo da cidade, mas o que 'tá mais ligado com a vida do porto-alegrense são mesmo os cinemas ...
Foi lá que muitas boas experiências eu tive, o local representa um oásis na loucura urbana, na avalanche de imagens globalizadas.
Um 'paço de fôlego, reflexão.
Todas as capitais do mundo têm sua pequena câmara de salvar da opressão, opressão da mesmice e do medo do mundo contemporâneo.
Sem isso, que seria a vida?
Nossa vida de asfalteiros vivos?
A criatividade é o que as cidades têm de bom, ainda.
Porto Alegre, sem mar, sem mata, sem São Paulo, tem na força dos criadores sua salvação.
E, sem um diferente que entra entre outras coisas por o pensamento em telas grandes, acabamos morrendo por dentro.
É uma vergonha que nossos empresários, políticos, intelectuais, pensem tão pouco na necessidade de vida a ponto de deixar acontecer algo como isso ...
O natural seria que o Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul assumisse o patrocínio, 'se banco que dá lucro e que é do povo, mas 'tamos em final de gestão, e tudo fica lento ...
É uma pequena tragédia para a cidade.
4 mil pessoas já pediram ajuda, mas o Estado 'tá em cortes de orçamento ... (
sabe como é, sempre têm alguma empresa que precisa de «isenção» para não ir para o Nordeste ...)
Quem sabe se alguém toma para si 'sa responsabilidade?
De a minha parte posso doar alguns livros, que, se alguém quiser comprar, podem ser ajuda simbólica ...
Abaixo, o comunicado do site da Casa.
A Cinemateca Paulo AMORIM
Está em Busca De Apoio.
Colabore, Divulgando A Todos!
Desde janeiro de 1996, a Cinemateca Paulo Amorim contou com a parceria do Instituto Moreira Salles -- Espaço Unibanco de Cinema.
O patrocínio, infelizmente, chega ao fim em dezembro de 2006.
Sem 'se apoio, fundamental para a manutenção das suas três salas, a Cinemateca corre o risco de fechar suas portas.
A Associação DOS Amigos De a Cinemateca Paulo AMORIM Está Em Campanha Para Salvar Os Cinemas De a Casa De Cultura MARIO QUINTANA.
Liderada Por LUIZ PIGHINI, Diretor E Programador das Salas, A Iniciativa Vem Buscando O Apoio De o Governo, Imprensa, Empresários e do Público.
Agradecemos
A Todos Por as Manifestações De Solidariedade E Participação Em 'sa Campanha, Em Especial à RBS E à Associação DOS Moradores De o Centro De Porto Alegre.
NA Bilheteria De a Sala EDUARDO HIRTZ, Um Abaixo-ASSINADO PEDE A o Novo Governo Estadual que GARANTA O Futuro da Cinemateca.
PARTICIPE!
Primeira Colaboradora
Assistindo ao Jornal do Almoço, DENISE ARGEMI, 'pecialista em Direito Internacional Público e Privado, sensibilizou-se com as dificuldades da Cinemateca Paulo Amorim e resolveu ajudar.
De dezembro a abril, vai colaborar com R$ 1.000,00 (mil reais mensais), do próprio bolso, na tentativa de salvar as salas.
É insuficiente em relação ao que a Cinemateca precisa para se manter funcionando (R$ 15 mil por mês), mas um gesto significativo, sobretudo por se tratar de uma iniciativa individual e de um exemplo de solidariedade e preocupação com a cultura do Estado.
Número de frases: 41
O show de lançamento do CD GerAções, realizado no domingo (17), fez mudar o velho ditado.
O concerto dos músicos sul-mato-grossenses pode ficar conhecido como o «dia em que o santo de casa fez milagre».
A apresentação levou um dos maiores públicos à Concha Acústica Helena Meirelles, localizada no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande.
Duas mil pessoas lotaram o local literalmente, como há muito tempo não acontecia num show com artistas do 'tado.
Mais do que isso, o público vibrou com as músicas, se emocionou com as interpretações e no final todos ovacionaram em pé os cerca de 30 músicos que participaram da apresentação.
O CD GerAções foi produzido por o músico e publicitário Márcio de Camillo e tem patrocínio da Petrobrás.
O projeto reuniu, aproximadamente, 60 artistas sul-mato-grossenses para gravar canções relacionadas ao universo musical de MS.
O disco GerAções tem 14 faixas com dois artistas, de gerações diferentes, dividindo cada canção.
O show de lançamento foi uma mostra do CD e provou o potencial do repertório e artistas 'colhidos para o projeto, que conta com músicas de diversos compositores do MS, como Almir Sater, Tetê Espíndola, Paulo Gê, João Fígar, Carlos Colman, Paulo Simões e Geraldo Roca.
Um dos charmes do 'petáculo foi os vídeos exibidos no telão nos intervalos de cada música.
Imagens raras, muitas da década de 80, mostravam ' clipes ` e depoimentos de artistas sul-mato-grossenses, entre eles, Geraldo Espíndola, Grupo Terra e Tetê & Lírio Selvagem, que tornaram o show ainda mais emocionante e afetivo para quem acompanha o desenvolvimento da Moderna Música Sul-mato-grossense desde final dos anos 60.
Não só o público se emocionou, mas vários artistas que participaram do show também ficaram com o'coração mole ' nos bastidores.
O clima foi de total integração entre platéia e músicos, com direito a pedido de autógrafos e gritos histéricos do público.
Em o final da apresentação, todos os músicos se reuniram no palco para cantar junto o'hino não-oficial ` do 'tado, a canção Trem do Pantanal (veja imagens deste momento final do show Aqui).
A sensação depois do show era de que algo ' diferente ', como não ocorria há muito tempo, havia acontecido.
O público, que era minguado na maioria dos concertos regionais, havia aparecido de novo.
Mais do que isso, deixava evidente que 'tava sedento por a reunião destes artistas, conhecia a maioria das canções e que aquela ' turma ' era sim uma parcela significativa dos que constróem a música de MS.
Não só os mais conhecidos, como Paulo Simões, Geraldo Roca e Celito Espíndola, mas alternativos como os veteranos Beth e Betinha e Amambay e Amambaí, as bandas de rock Bêbados Habilidosos e O Bando do Velho Jack (assista ao superclipe do grupo Aqui), as cantoras Melissa Azevedo e Clarice Maciel, que raramente aparecem.
O'zumzumzum ' foi tão grande que no outro dia já havia pedido para mais uma edição do show GerAções.
Em o dia 11 de outubro, quarta, pode ter repeteco do 'petáculo, inaugurando o Memorial da Cidadania e da Cultura Popular Apolônio de Carvalho, um grande complexo cultural que dará lugar ao ex-Fórum de Campo Grande.
Outros pedidos também 'tão chegando para o 'petáculo se repetir.
É o GerAções dando frutos.
O objetivo do coordenador projeto, Márcio de Camillo, é 'se mesmo."
Quero que o show seja apresentado mais vezes e vá para outras capitais do Brasil.
A idéia é fazer circular os artistas vinculados aos CD e mostrar que Mato Grosso do Sul tem uma música de qualidade, diversificada e com potencial para ser descoberta de uma vez por todas não só por o público de MS, mas do Brasil inteiro», ressalta Márcio.
Eu não tinha visto quando postei 'ta matéria aqui no Overblog, mas o meu amigo Assum Preto (Altayr) também postou as suas considerações sobre o show Gerações duas horas antes de mim.
O legal é que, sem combinar, os dois textos se completam.
Leia o artigo do Assum Preto sobre o Gerações Aqui!
Mais informações sobre o projeto e o CD GerAções clique Aqui!
Número de frases: 29
ou por o telefone 21.2594.1354 ou 21.9857.6967 com Márcia Gomes O fandango é uma manifestação popular tida como genuinamente paranaense, mais precisamente do litoral.
Sua origem na verdade é nebulosa, mas conta-se que veio de Portugal, com influências 'panholas e se uniu aqui a outros rituais e crenças, tanto do Paraná, quanto de Santa Catarina e São Paulo.
É uma dança sapateada com tamancos, que funcionam como percussão marcando o ritmo, que vem embalado nas cantorias.
Sobreviveu no mundo da cultura oral e andava fraquinha das pernas, com pouca gente interessada em aprender a tocar e, principalmente, em fazer a rabeca, seu principal instrumento.
Estava ficando só na memória dos mais velhos e os jovens achavam que era algo cafona.
Mas agora isso 'tá mudando, pois nota-se, nos últimos cinco anos um evidente novo interesse por a manifestação, expresso tanto no crescente número de pesquisas acadêmicas, quando no uso de elementos sonoros do seu mundo na música popular.
Em Paranaguá, cidade portuária a uma hora de Curitiba, se concentram os fandangueiros, 'pecialmente nas ilhas das redondezas, como Guaraqueçaba.
Lá 'tão vários grupos, como a família Pereira, os mestres Romão e Eugênio -- nomes, entre outros, sempre citados quando o tema entra em cena.
Há um ano surgiu a Associação Manticuera, entidade que quer organizar o circuito de manifestações culturais da região.
«É um jeito de dar respaldo jurídico e conseguir patrocínios para atividades que ajudem a profissionalizar, de certa maneira, e a preservar, ensinando as crianças.
Temos em 'te instante 350 que batem tamanco, meninos que também tocam viola», diz o presidente da associação Eloir Paulo Ribeiro de Jesus, comentando que para aprender a tocar e fazer a rabeca é mais complicado.
«Mas agora que ganhamos apoio do MinC para o projeto Rabecando:
A preservação Através do Repasse, vamos ensinar a fazer instrumento e a tocar viola, rabeca, adufo e caixa do divino», conta ele, que tem doces lembranças da avó cantando músicas de fandango.
«Nunca tinha visto um baile.
Mas lembro de ela cantando e dançando com a gente."
Ele explica que o fandango sobreviveu em lugares de difícil acesso pois foi sendo empurrado para longe por a exploração imobiliária.
Por isso é importante se criar uma didática para passar o conhecimento adiante.
A gente tem que mostrar que não é feio», observa ele, que desde 2000 passou a se interessar mais seriamente por o fandango e até instalou uma residência na ilha de Valadares, o principal reduto dos batedores de tamanco.
Quando não 'tá a serviço da Associação, Jesus é um restaurador de móveis antigos.
«Me mudei para ficar mais perto do pessoal do fandango», diz.
Ele concorda que 'tá se vivendo um momento muito 'pecial para o fandango.
«Ontem mesmo a gente tava com um casal de canadenses que 'tá colhendo histórias de crianças mundo afora e fotografou as crianças batendo fandango», conta.
Mas, diz, há uns dez anos teve um outro momento de se tentar resgatá-lo.
Foi quando veio à tona Mestre Romão, por exemplo.
«Só que trouxeram um designer 'panhol para fazer as roupas e meio que fugiu do que é de verdade.
Ele faz um fandango para o palco, nós fazemos o fandango como é feito em casa», diz ele, que toca com um grupo de veteranos, o Pé de Ouro.
«É fandango tradicional», diferencia.
Experiências como o do Grupo Fato, que leva elementos do fandango para sua música, agradam a Jesus.
«Eles divulgam, como foi com o maracatu e o mangue beat.
O Chico Science e sua turma levaram o maracatu para o mundo.
Nós temos um cantor de MPB, o Guilherme Costa, que coloca muito fandango na música de ele.
Tinha até uma batida do tamanco e ele convidou a gente para um festival em Maringá», comenta ele, que participou também do projeto Sonora Brasil, acompanhando o Mestre Eugênio por 52 cidades em 15 Estados.
Oswaldo Rios, do grupo Terra Sonora (que gravou um disco com a família Pereira) é um que anda envolvido com pesquisas sobre o Fandango.
Em a empreitada mais recente participa, junto com o parceiro, Rogério Gulin, do projeto Museu Vivo do Fandango, iniciativa da associação Cultural Caburé, no Rio de Janeiro.
Trata-se de um livro e dois CDs sobre os fandangueiros de Guaraqueçaba / Paranaguá e Morretes, no Paraná e Cananéias e Iguape, em São Paulo.
Para tal trabalho, que deve ser finalizado até abril, se aprofundou mais uma vez no mundo dos tamancos batidos.
«Com base no que vi e ouvi não acho que existe uma diferenciação do fandango que é feito hoje.
É que muito antigamente, o fandango era a festa que alguém oferecia para as pessoas que o ajudavam na colheita, por exemplo.
O pagamento, digamos assim, era o baile de fandango.
Hoje em dia não tem mais isso», explica, sobre a manifestação que acontecia, primeiro, nos chamados mutirões e, depois, no entrudo, uma festa precursora do carnaval.
«O mutirão não era com grupos formados como é hoje, nisso é diferente e acho que é isso que o Eloir quer dizer.
Era uma jam session, eles pegavam suas violas e rabecas e iam tocar», completa Rios.
Para ele, o que o poder público tem feito ainda é muito pontual e pouco.
Mas, os grupos de pesquisa 'tão sim ajudando a levar adiante 'sa existência que, até agora, era eminentemente oral.
«Mas em São Paulo, a gente não imagina, é pior ainda», conta o músico-pesquisador, para quem o fandango tinha que 'tar nos currículos 'colares desses 'tados.
O Paraná também passou a integrar recentemente uma rede caiçara de cultura, iniciativa que partiu de pesquisadores do Rio de Janeiro, cuja intenção é criar um circuito de informações e ações não só sobre o fandango mas sobre todas as manifestações deste universo.
Importante também é o apoio recebido recentemente por outra Associação, a de Fandangueiros de Guaraqueçaba, através do projeto Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura.
Através deste projeto o MinC repassa diretamente, sem uso de leis de incentivo, verbas para manter projetos de cunho cultural.
Ele integra o Programa Cultura Viva e agrega agentes culturais cujo objetivo é articular e impulsionar um conjunto de ações em suas comunidades, e de 'tas entre si.
Número de frases: 49
Estamos nos aproximando de mais uma Páscoa, ou seja, mais uma oportunidade de darmos chance a vida.
Este é o maior símbolo, talvez a razão de termos um feriado pascal, o de celebrarmos a ressurreição, refletirmos os valores de viver num mundo, onde os conceitos confundem-se, ora por culpa de interesses duvidosos, ora por culpa da omissão de cada pessoa considerada cidadão.
Se 'tamos celebrando a nova vida, 'tamos tendo outra chance de fazermos algo correto, lembremo-nos de Jesus Cristo, ao morrer na cruz, ressuscitou ao terceiro dia, além de provar a sua pregação, ensina-nos** o caminho certo, o caminho do perdão, da humildade, da fraternidade, do amor ao próximo, enfim, o caminho da vida.
Quem não seguir algo semelhante, 'tará num caminho onde dificilmente encontrará a felicidade, onde dificilmente sentirá-se-bem com si próprio, e 'ta lição é preciso ser aprendida em 'ta páscoa.
A violência 'tá a nossa porta, podemos a ver por os noticiários da televisão, em nossa cidade, bairro e até mesmo em casa, mudar é uma questão de 'colha de caminho, significa mudar de atitude, a tolerância é fundamental em nossa sociedade, sem ela não há respeito as diferenças tanto de credo, política, artística, ou seja, a vida 'tá comprometida, portanto o nosso feriado pascal não tem sentido, pois o maior símbolo deste é justamente a mudança de comportamento, a renovação da vida para o caminho correto, onde uma pessoa não faz mal a outra.
Mudar a sociedade, soa algo utópico ou radical, melhorar seria um termo mais adequado.
Nenhuma mudança acontece drasticamente, mas por evolução, quando há um certo cansaço e repúdio ao caminho errado, há mudanças, como aconteceu na cidade do Rio de Janeiro / RJ, onde o exército foi às ruas recuperar suas armas roubadas, teve apoio da população, sendo bem sucedidos, 'te episódio mostra claramente o cansaço, a fadiga por um caminho trilhado e incoerente com a vida, o apoio ao exército por a população, é claramente um sinal pascal, as pessoas 'tão pedindo nova vida, 'tão exigindo um caminho onde haja liberdade, emprego, fraternidade, porém, sem a violência.
É preciso saber ouvir e interpretar corretamente, por melhor das intenções, somente quando a sociedade pressiona, acontecem as mudanças, não basta apenas ter ongs (organizações não-governamentais), é preciso um apoio de toda uma comunidade para elas funcionarem, inclusive o apoio financeiro.
A corrupção não é o caminho correto, o pior é aceitar o sistema, não adianta criticar, se 'ta não vier precedida de uma mudança, de uma renovada forma de agir.
Se a Páscoa é renovar a vida, por que não renovamos a política?
A corrupção acontece por o fato de aceitarmos o sistema atual, onde se ganha alguma lembrança do candidato, seja caneta, camiseta, e ainda há possibilidade de conseguir algum outro benefício próprio com o mesmo, apoiar 'te sistema é ir contra a páscoa.
Também precisamos de uma mudança, mas ela começa elegendo candidatos ou partidos sem 'ta prática, o eleitor tem de deixar claro o que ele quer, pois o futuro depende de pensamentos coletivos, fraternos.
Ninguém vai conseguir combater a violência, se antes pensar no bem próprio, na pequena vantagem prometida, um político tem de lutar por a infra-estrutura de uma sociedade.
Lutar por a vida, não pode ser um momento de Páscoa, mas continuadamente, todos os dias de um ano, assim como a sua reflexão, os destinos dados a cada dia.
Mas a Páscoa é o momento de maior apelo por as mudanças, isso já é histórico, é o momento onde a renovação serve para motivar as pessoas, sensibilizando-as, tentando alcançar o coração de cada um.
Feliz Páscoa.
Número de frases: 16
O expressionismo, nascido na Alemanha no final do século IX, é maior que a idéia de um movimento de arte, e antes de tudo, uma negação ao mundo burguês.
Seu surgimento contribuiu para refletir posições contrárias ao racionalismo moderno e ao trabalho mecânico, através de obras que combatiam a razão com a fantasia.
Influenciados por a filosofia de Nietzsche e por a teoria do inconsciente de Freud, os artistas alemães do início do século fizeram a arte ultrapassar os limites da realidade, tornando-se expressão pura da subjetividade psicológica e emocional.
Os objetos reais deixaram de ser o «motivo» da representação artística, agora filtrada por as pulsões alucinantes de um «eu» que se debatia com o mundo exterior.
Fez-se presente nas artes gráficas, pintura, 'cultura, literatura, música, dança, teatro e no cinema, assumindo formas mais radicais, onde a expressão do sentimento tem mais valor que a razão.
Iniciou-se como um movimento de revolta contra o Impressionismo acadêmico, sendo por oposição, uma extensão deste.
Tendo nascido num importante período da história da cultura, o expressionismo alemão foi fundamental para a arte moderna e sua contribuição pode ser conferida nas exposições que tratam deste valioso movimento.
Pois, não só ocorriam mudanças políticas e econômicas, mas também intelectuais e culturais.
Foram rompidas as crenças religiosas, e a existência de um Deus não era mais incontestável.
O homem agora era responsável por si próprio e por seu futuro;
a vida após a morte já não era certa.
Foram tais incertezas que resultaram no medo, na angústia, na solidão, nos sentimentos mais sombrios que uma sociedade inteira poderia sentir.
A deformação das figuras dos expressionistas mostra claramente os impulsos libertários do movimento que submeteu o real às leis da imaginação, com pinturas de atmosfera apocalíptica e anarquista.
Os expressionistas tiveram, além de nova postura 'tética, uma atitude moral em que se lia a força do indivíduo sobre as pressões autoritárias da sociedade.
Entretanto, foram 'sas premissas ideológicas que levaram a obra expressionista a ser considerada decadente por o regime nazista.
Em os anos 30, com o crescimento do nazismo na Alemanha, dizia-se que a dissolução das formas expressionistas equivalia a uma dissolução da moralidade.
Várias obras foram destruídas na Segunda Guerra Mundial, inclusive as de museus de Wuppertal.
De as primeiras obras doadas por Von der Heydt, em 1909, aos dias de hoje, o patrimônio foi reerguido por a própria população e o museu que leva o nome do doador é considerado um dos dez mais importantes do país.
Em nosso país o movimento também foi muito importante.
Tendo se destacado, nas artes plásticas, os artistas expressionistas mais importantes:
Candido Portinari, que mostra em suas telas a migração do povo nordestino para as grandes cidades.
Outros representantes:
Anita Malfatti, Lasar Segall e Osvaldo Goeldi (autor de diversas gravuras).
As peças teatrais de Nélson Rodrigues também apresentam significativas características do expressionismo
Finalmente, pode se concluir, que o Expressionismo, foi uma vanguarda de extrema importância na evolução da arte e da sociedade.
Principalmente porque superou o comum com uma linguagem própria, permitindo a comunicação das emoções e a reflexão da imagem da sociedade alemã e por o mundo afora, por a qual se fez possível a recriação de valores.
Número de frases: 26
Caso um neófito em história brasileira republicana se proponha em ela mergulhar, com o intuito de desvendar o período em que a questão da identidade nacional começa a ser abertamente 'truturada por intelectuais, artistas e até mesmo autoridades governamentais do país, encontrará seguramente nas décadas de 1920 e 1930 a sua fase mais frutífera.
Tendo a abolição da 'cravatura e a proclamação da República como processos recentemente deflagrados, o Brasil do início do século XX procurou, através do movimento modernista, 'tabelecer um novo tipo de diálogo com as informações irradiadas dos países centrais.
Em 'ta época, as influências externas que chegavam ao Brasil 'tavam relacionadas ao processo civilizador por o qual nações como França e Inglaterra haviam recentemente atravessado em suas conjunturas internas.
Uma vez visto como completo e terminado por as sociedades européias em seu próprio seio ('pecialmente no e após o século XIX), o conceito de civilização se transforma em justificativa para a conquista e dominação de povos não-europeus, vistos como incivilizados e, portanto, inferiores, da mesma maneira como a aristocracia da corte se enxergava perante os outros 'tratos sociais que a rodeavam.
Se a civilização tinha a Europa como centro, o ingresso do Brasil nos tempos modernos, 'pecialmente após o advento da República, implicava a imposição de um modelo de civilização que excluía a diversidade brasileira, pois que calcado na experiência européia.
O endeusamento do modelo civilizatório, notadamente parisiense, crescia durante as primeiras décadas do século XX, em detrimento da mistura de tradições que caracterizava a sociedade brasileira.
Em 'te período, conhecido como a belle époque carioca, a postura da elite ('pecialmente no Rio de Janeiro, então capital da República) era a de negar qualquer manifestação da cultura popular, o que era feito através da expulsão dos pobres e portadores de heranças culturais tradicionais dos centros (o que ocorreu no Rio através das reformas do prefeito Pereira Passos no panorama urbanístico do centro da cidade, na década de 1910) e da tentativa de erradicação das religiões afro-brasileiras e do controle policial das festas carnavalescas.
Tal visão elitista, como fica claro, encontrava-se impregnada de valores construídos de fora para dentro, resultante de um grande torcicolo cultural que denunciava o papel central de países 'trangeiros na constituição do caráter nacional do Brasil.
Com efeito, o vírus do recalque só acharia um antídoto, ao menos no plano cultural, a partir da fruição intelectual ocorrida no movimento Modernista.
Não irei aqui me deter nas idiossincrasias do Modernismo, uma vez que tal 'forço exigiria a redação de um novo artigo (o que provavelmente farei em outra oportunidade).
O importante, em 'te momento, é frisar que os modernistas brazucas procuraram valorizar um olhar introspectivo em relação à sua própria cultura, sem que a proposta de um contato mais direto com as particularidades brasileiras fosse revestida de um caráter exótico e cerrado, cientes que 'tavam da necessidade de alinharem-se à marcha de modernidade e progresso, símbolos da civilização européia que aqui se fazia impor.
O ponto é que, desde então, a discussão entre o que é parte da «cultura brasileira» e o que seria «influência externa» tem alimentado discussões em salas de aula, pátios de faculdades, mesas de botequins.
Enquanto Mário de Andrade, na década de 20, não via com bons olhos a proposta de Oswald de absorver influências externas -- cioso da possibilidade de descaracterização da nossa cultura --, o crítico José Ramos Tinhorão, quase 50 anos depois, chegava ao ponto de ver na Tropicália de Gil e Caetano um plano para impor a dominação cultural 'tadunidense (afinal, aqueles baianos 'tavam botando roquenrol na bossa-nova, que porra é 'sa?).
Pra não dizerem que 'tou exagerando, vejam o que o cara 'creveu:
«Alinhados com o pensamento expresso por seu líder Caetano Veloso, «Nego-ma folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas», os tropicalistas renunciaram a qualquer tomada de posição político-ideológica de resistência e, partindo da realidade da dominação do rock americano (então enriquecido por a contribuição inglesa dos Beatles) e seu moderno instrumental, acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar de 1964 no plano político-econômico.
Ou seja, a tese de conquista da modernidade por o simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no país " (Tinhorão, História social da música popular brasileira, p. 324-325).
Com o movimento Mangue não foi diferente.
A peleja entre Chico Science e o 'critor Ariano Suassuna, Secretário de Cultura de Pernambuco entre 1995 e 1998 (durante o governo de Miguel Arraes) produziu frases como 'ta, dita por Suassuna a Chico:
«Você 'tá servindo de ponta-de-lança para os piores inimigos do Brasil, aqueles que tentam descaracterizar a nossa cultura.
Mude o nome de Chico Science para Chico Ciência que eu subo no palco do seu lado».
Ou seja, existe um claro embate cultural travado há quase cem anos no Brasil (e também alhures) entre os que assumem uma postura «purista», de defesa da legitimidade da cultura brasileira, e os que promovem a livre imbricação entre as culturas.
Pessoalmente, considero os dois lados discutíveis, pois se há algo de nocivo na irrefletida absorção de elementos culturais externos, por outro lado acho um tanto complicado recorrer a uma suposta «legitimidade» cultural tupiniquim -- e assim como Alfredo Bosi, me recuso a ver a «cultura brasileira» assim, no singular, preferindo pensar em «culturas populares» de forma plural.
Número de frases: 22
As imagens capturadas por olhos frenéticos de ver, descobrir, sentir e transpor um quê de incômodo 'pelho na alma compõem mais que a paisagem, um itinerário de tempo transcorrido e vertido nos passos das gerações, 'sa sucessão na corrente sanguínea e nas águas tranqüilas de um rio de nome sugestivo:
Rio Vermelho.
Histórias que mexem e remexem com a gente, sem explicação plausível.
Exposta ao atrito das pedras e das almas, sigo o itinerário das pedras da Cidade de Goiás, antiga capital da Província e do Estado, os passos do imaginário e o despertar de alguns fantasmas mais vivos do que nunca nas palavras que legaram ao futuro de todos os tempos.
Espicho o olhar o mais que posso.
Agora mesmo sigo o tropel de palavras de Hugo de Carvalho Ramos, que em 1917 publicou Tropas e Boiadas -- leitura recomendada por Mário de Andrade, o mais modernista dos modernistas que dizia que era preciso realizar o Brasil.
Procuro em Hugo um pouco das trilhas batidas por os bois carreiros do meu avô materno que transpôs o rio Paranaíba (divisa natural de Minas e Goiás), deixando para trás os gerais de Minas que tornaram a sua alma refém de um passado saudosista.
Também tenciono reler Cora Coralina que, contrariando os críticos, deu um salto mágico além do seu tempo e da figura exótica que a popularizou plasmando-se como referência da poesia goiana, isso mais de 20 anos depois de sua morte.
Esbarro ainda em outras histórias dignas de reverência na errância e na grandeza dos becos de Goiás, 'ses labirintos de paredes, pedras e janelas que me convidam a olhar e sentir, profundamente ...
A cidade é transpiração e arte.
E também fonte de inspiração.
Desperta em nós um desejo de cometer palavras e capturar imagens e almas.
Mas devagar, como os passos retardados por as pedras do caminho e no meio do caminho.
Em maio do ano passado cometi algumas palavras, registrando as primeiras impressões do contato tardio com a antiga Vila Boa de Goiás.
Este ano, pela primeira vez, segui a Procissão do Fogaréu -- as impressões verbais ficam para depois.
Por ora, as primeiras imagens.
Espero que agucem o desejo de ver por dentro, além das fachadas, vão das pedras e o fluir sereno do rio ...
Compartilho aqui uma visão da primeira impressão que ficou.
Imaginem 'te cenário sob a luz da lua cheia ...
Ladeiras abaixo e acima, becos que mais parecem labirintos para quem não 'tá familiarizado com a geografia tortuosa do lugar.
Tudo em 'ta cidade desafia o nosso sedentarismo e preguiça, principalmente dos olhos e dos pés.
Só depois de caminhar sobre o tapete de pedras que calça 'ta cidade podemos vislumbrar um princípio de intuição da alma das pessoas que habitam 'ta cidade-redoma -- distante 130 quilômetros de Goiânia.
Uma cidade que flui no remanso do Rio Vermelho e tem o horizonte emoldurado por a Serra Dourada.
A cidade exige olhos vigorosos para transpor os seus limites naturais e os séculos de história e tradição que transformam a antiga Vila Boa num cenário de reflexão.
Patrimônio da Humanidade, antiga capital da Província e do Estado, Goiás é uma intrigante festa para os olhos e para quem se dispõe a olhar atentamente, sob todos os ângulos:
a paisagem, os monumentos, as pedras, os vãos das portas e janelas, a alma das pessoas que caminham com atenção redobrada aos passos no deslize das pedras ...
É uma cidade que vive pra dentro e sai para ir à missa, batizar os filhos e seguir a procissão.
E a Procissão do Fogaréu, com os farricocos, reconduz a cidade ao calor das tochas do passado, reacesas com a fé, ano após ano, de geração em geração.
É uma cidade que tem aroma de mato e água fresca correndo da fonte e também cheiro de museu, de cupim no oco da madeira, de velas derretendo, de livros antigos, de quadros saltando do porão, de arte despertando os nossos olhos -- de um recorte na pedra bruta às fachadas das casas e prédios públicos, tudo é transpiração e arte.
Ah, e Goiás tem sabores que vêm de longe, dos tachos de cobre aquecidos nas fornalhas de lenha onde se apuram o fio de deliciosos doces.
Um, por a sonoridade do nome, me lembra figura de anjo, alfenin, e no plural, mais bonito ainda de pronunciar, alfenins ...
Que sonho no céu da boca!
Os sabores em Goiás têm memória antiga, muito antiga.
Mas também o frescor dos frutos do cerrado, que desde criança a gente aprende a distinguir no mato ...
Mangaba, gabiroba, murici, cajuzinho do campo ...
Poucas vezes visitei Goiás.
Fiquei sempre com impressões distintas, com 'ta cidade mexendo com mim de um jeito incômodo.
Mas cada vez vou me soltando e gostando mais e descobrindo uma coisa nova para um olhar novo.
Inegável:
Goiás tem charme.
Um cenário cinematográfico e um não sei quê de nostalgia, de sussurro, de embriaguez ...
De encantamento.
É isso.
A cidade encanta a gente.
E da última vez foi covardia.
Nem precisa daquela lua cheia, derramando-se nos contornos da Serra Dourada e no 'pelho do Rio Vermelho em que a lua vem se mirar na noite cor de prata ...
Suave, suave, de ver e de sentir.
Número de frases: 47
Em agosto, o grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado 'tará lançando o seu novo «CD» Transfiguração, mas na noite de segunda-feira, dia 19, eles lançaram seis músicas inéditas durante o Forró Caju, um dos maiores festejos juninos do Nordeste, realizado em Aracaju.
«Não temos o costume de tocar em festas juninas, mas 'sa presença aqui no Forró Caju é tradicional», disse o vocalista Lirinha, que há quatro anos toca com sua banda no evento, sempre antes de fazer uma apresentação na cidade natal de Arcoverde / PE.
O grupo mistura música, teatro, poesia e dança, em músicas de arranjos nada convencionais, mas que despertam a atenção até de quem não conhece o trabalho dos pernambucanos.
O show programado para o Forró Caju foi uma revisitada por os dois «CDs Cordel do Fogo Encantado» e «O Palhaço do Circo sem futuro», além das músicas inéditas.
Música local -- Antes da atração principal, o público sergipano parou para assistir a última apresentação da banda local NaurÊa antes dos seus integrantes embarcarem para a Alemanha, onde irão realizar vários shows em festivais paralelos à Copa do Mundo.
Amanhã, a banda sergipana partirá rumo à Europa para realizar quatro shows nas cidades de Köln (Colônia), Dortmund e Berlim.
Em o dia 25, NaurÊa se apresenta ao lado dos grandes artistas brasileiros Jorge Ben Jor, Roberta Sá e do grupo Berimbrown no Funkhaus Summer Stage -- World Wide Music -- Köln (Festival Internacional de World Music, em Colônia).
«Vamos lançar nosso segundo CD, que se chama ´ NaurÊa apresenta o Sambaião ´, mas o show vai ser uma mescla dos nossos dois discos», explicou Aragão (cavaquinho, violão e voz).
Com músicas que falam de particularidades sergipanas, mas também que valorizam a cultura brasileira, a banda Naurêa consegue não se enquadrar em 'tilo algum e assim vai crescendo como uma mistura de rock, samba, forró e música eletrônica.
Entre os sucessos da banda 'tá «Bonfim», que terá seu clipe exibido durante os festivais no país da Copa.
Forró Caju -- Os festejos juninos continuam na capital sergipana até o dia 29, e cerca de 1 milhão de pessoas devem passar por a praça de evento Hilton Lopes no Mercado Municipal.
Até o dia 29 'tão programados shows de Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Forroçacana, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Fagner, além de muitos artistas locais.
Link para o site da banda Naurêa.
Link para a programação oficial do Forró Caju.
Número de frases: 14
Sábado, 26 de agosto de 2007.
Tórrido sábado, uma névoa cinzenta vai colorindo a lua de um vermelho intenso sob o sagrado manto da noite desse mês soturno que é agosto.
Enquanto seguimos por as vias abertas e metropolitanas da nova Cuiabá, em direção ao Porto de entrada e origem da formação da cidade, penso:
Abre aqui a temporada mais quente da história cultural de Cuiabá.
De o palco, cercado por milhares de pessoas nas arquibancadas, o rufar dos tambores, ôpa, digo:
o rufar dos mochos prenuncia, como um ritual primal, que as forças (mais diversas) do povo cuiabano se unem em torno de um bem comum.
E o centro da questão 'tá aí, na afirmação da capacidade dos coletivos (agrupamentos de indivíduos e ou grupos) se organizarem e ocuparem seu lugar, construir seus próprios 'paços de vivência, de produção e de circulação de 'sa produção.
Existe um processo crescente de profissionalização dos grupos que perpetuam 'sa tradição em Cuiabá.
O 6º Festival Siriri e Cururu propiciou religações com uma ancestralidade latente, dava para sentir isso por o jeito das pessoas que, por exemplo, ficaram literalmente em transe, numa 'pécie de comunhão com forças primordais, com a pegada afro do tocador de mocho do grupo Quilombolas, de Mata Cavalo Cima que fica no município de Livramento.
Paralelo a 'sa energia o festival propiciou o contato do público com a telinha azulada dos computadores no telecentro da tenda Casa Brasil, disponibilizando o acesso das pessoas, gratuitamente, sob os auspícios e licença do Linux, software livre, linguagem contemporânea.
Contraponto: Siriri & Cururu & Software Livre.
Pergunto ao secretário da cultura de Cuiabá, Mário Olímpio:
A raiz cabe dentro da internet?
Sorrisos. Mário 'tá feliz e, em 'tado de êxtase, transita no meio da multidão completamente à vontade, sem glamour, sem aquela renca de gente que costuma acompanhar políticos.
Aqui, a política é outra.
Essa praça é festeira, onde transborda a alegria simples e contagiante de um povo que 'tá mesmo é afim de dançar e cantar, ao som da viola-de-cocho, do ganzá, do mocho e das vozes que repetem mantras circulares de conteúdo bem humorado.
Por vezes, o que ouvimos parecem cânticos que remetem a orações, ladainhas, cantigas de roda.
É impressionante a harmonia com que tudo vai acontecendo, muita paz, muita alegria e despojamento no ar.
A 'trutura é grandiosa, profissional ao extremo e isso é muito bom, pois dá uma dignidade grandiosa ao evento.
Qualidade do som impecável, palco bem colocado, pista de dança apropriada com piso 'pecial, arquibancadas laterais e na entrada, área de exposição de artesanato, comércios diversos, gastronomia (um sucesso!),
enfim, é a cultura movimentando cerca de 10 mil pessoas por noite, gerando com isso, conhecimento, contato com a cultura local, diversão e atividade econômica.
Dentro e fora.
O bairro do Porto 'tava repleto de pessoas com todos os bares e lanchonetes lotados, vendedores ambulantes gritando alto para oferecer seus produtos, tudo cheio, tudo movimentado.
Todo mundo saiu ganhando.
O velho Porto parece agora muito mais revigorado.
Fico extasiado e realmente abduzido por o 'petáculo, o siriri e o cururu conquistam o centro da arena onde desfilam toda sua força e brilho.
Amparados por uma 'trutura que dá a dimensão de sua força expressiva, como 'petáculo mesmo, deram um show!
Chitas brilhantes no rodopio da dança tecendo novas vestes novos mantos elegendo novos foliões, a alegria reina e se 'palha por os arredores.
Não! O Porto não é só violência e marginalidade.
O Porto é um lugar carregado de boas energias, é só uma questão de 'timular a vivência em 'ses 'paços, as pessoas sairem para suas portas, sentar nas calçadas e contar histórias como o cuiabano gosta de fazer.
Ir às festas.
Ir para as ruas e 'pantar o medo de uma violência que é muito mais psicológica, é preciso encarar os 'paços públicos com a consciência de que nós é que fazemos as cidades.
É nossa responsabilidade também ocupar os 'paços e encarar a realidade com a convicção de que podemos construir a cidade tal e qual a queremos.
Em a tenda onde 'tava montado o telecentro da Casa Brasil era muito interessante ver a reação de surpresa da garotada:
É de graça?
Quanto que paga?
Não paga nada, rapaz!
A maioria absoluta dos usuários era de jovens.
Uma senhora de 50 e poucos anos me surpreendeu ao pedir acesso para entrar em contato com sua filha que «devia 'tar no Orkut ou MSN».
Ela queria pedir a filha para vir buscá-la.
Achei bacana o fato de ela utilizar a internet para contatar a filha.
Falando em Orkut, foi o campeão absoluto de acesso por a gurizada, pensei logo:
site de massa.
Pior que a torcida do Flamengo, ou do Corínthians.
O projeto Casa Brasil é de inclusão digital e 'tá diretamente ligado ao movimento do Software Livre, Cultura Digital, Economia Solidária, Conhecimento Colaborativo, Cultura Livre, enfim, 'tá atuando lá na ponta, atendendo as comunidade que não têm acesso à tecnologia, com a utilização de novos conceitos aliados à cultura.
Achei muito bacana 'se mix entre a tecnologia e a tradição do povo da Baixada Cuiabana e de Cuiabá.
A noite avançava, junto com os temores de agosto.
Nosso carro atravessava a ponte do rio Coxipó quando me lembrei do Nelson Rodrigues, de um personagem que ele sempre recorria quando evocava forças 'pirituais, o Sobrenatural de Almeida, que parecia sobrevoar insistentemente acompanhando nossa aventura.
Íamos em direção ao Espaço Cultural Silva Freire onde 'tava rolando uma série de shows de bandas independentes que disputavam para tocar no Festival Calango.
Mas isso é outra história.
Nelson Rodrigues certamente diria com sua voz cavernosa:
Número de frases: 51
«Essa noite 'tava 'crita há mais de 6 mil anos!"
Se você ainda não conhece o Autoramas, 'sa é a hora.
A banda acaba de lançar doze faixas no novíssimo Teletransporte.
A boa composição do trabalho anterior, Nada pode parar os Autoramas (2003), com músicas «surfs», baladas, tapas na orelha e outras de riffs e letras grudentas, manteve a classe.
A sonoridade do álbum parece ser coisa dos anos 2000 (seja lá o que signifique isso), com a sugestão, inclusive, de uma nova engrenagem numa das faixas (" Faz acontecer ").
A banda -- que acaba de completar dez anos de vida e tem a manha de fazer mais de cem shows por ano (só não toca mais que o Calypso!) --
dá as caras novamente com um disco vibrante e carregado de boas canções de palco.
E marca a 'tréia de Selma Vieira, na co-produ ção de um álbum.
Em o anterior, «Simone Dash» ainda empunhava as quatro cordas.
Quem freqüentou as apresentações do trio formado por Bacalhau (bateria, programação), Selma Vieira (baixo e voz) e Gabriel Thomaz (guitarra e voz) no ano passado, já conhece a trilha de abertura de Teletransporte:
«Mundo Moderno».
Ela segue uma «pegada» surf / new wave que a banda curte fazer.
Com um riff poderoso, curta, direta e, como vários outras do disco, extremamente dançante.
É daquelas que coloca a galera pra «polgar» logo quando as primeiras notas são tocadas.
O álbum inicia-se também como no trampo de 2003 (" Você sabe "), com muito gás.
Em a seqüência «Faz acontecer» coloca os famosos (pra quem já conhece o trio) efeitos que parecem «tiros de uma arma 'pacial», mais ou menos como a faixa» Nada a ver " do Nada pode parar os Autoramas.
«A 300 Km / H» é uma balada trabalhada, calma e romântica, de 'sas que o Gabriel costuma fazer (Estou a 300 km por hora, sem freio / na sua direção).
«Marketeiro» retoma o clima surf e dançante do álbum.
Coloca na letra a ironia (?)
de que somente o profissional que dá nome à faixa, é o salvador da pátria (Marketeiro / marketeiro / só você pode me salvar!).
«Hotel de Cervantes», que já tem vídeo-clipe e tudo, senão tivesse letra, poderia ser uma trilha dos Dead Rocks -- a melhor banda de surf music do Brasil, atualmente.
«Já cansei de te ouvir falar» é uma baita pedrada no ouvido, de 'sas boas para tocar ao vivo.
Os vocais mesclados de Gabriel em contraste com a voz de Selma se encaixam perfeitamente à toada dançante da faixa, para a perna nenhuma ficar parada.
A letra revela mais ou menos como os Autoramas conseguem misturar tantas influências (Jovem guarda, rockabilly, punk, surf music entre outras tantas) e ainda assim ter um som original (Eu quero ser o que nunca existiu / ter ambição por o que nunca ninguém viu / imitar alguém que eu nunca conheci).
«Identificação» é também balada de letra melódica e clima anos 50, talvez.
Lembroa Blitz que tocou na FM.
Tem um solinho com um desses pedais que o Gabriel achou sabe-se lá onde.
Mas passa despercebida.
«Surtei», apesar do refrão ruim (Surtei / E daí?
/ Agora foda-se!),
possui vários e bons timbres de guitarra, alternados conforme a música vai se 'ticando.
«Eu mereço» é outra faixa que certamente pega fogo ao vivo.
Tem cara de FM, justamente porque é grudenta.
Em «Muito mais» podemos perceber bem o peso do baixo de Selma e o dedilhar veloz de Gabriel ('cute o solo de ela e saberá por que).
Já «Digoró» é o herói (ou anti-herói) da música, que parece ser fruto do flanar de Gabriel por as vias urbanas, com um toque «viajado» das películas de nave espacial:
um tipo de crônica ficcionista, baseada em garotos que jogam flippers.
Cheia de frases soltas e efeitos sonoros (entre outros tantos, também na voz de Selma), é o ponto alto de criatividade do álbum.
«Panair do Brasil» é instrumental e a antepenúltima faixa, com cara de praia havaiana.
O título remete à uma das pioneiras companhias aéreas do Brasil.
Mas, em 'se caso, melhor nem falar de aviões atualmente.
«O inesperado» já de cara mostra uma combinação de pedais com sons e ecos legais, além de uh uh uhs que caíram bem atrás do voz do Gabriel.
A derradeira «Guitarrada» é a própria 'sência de seu nome.
Depois de ligado o motor, a música é praticamente instrumental, de uma «guitarrada» intensa, faz tipo uma apresentação do trio e deixa um clima de partida no final:
«felicidade e prazer!».
Pronto, as doze músicas foram e você nem viu.
O quarto de 'túdio dos Autoramas surge depois de 4 anos sem um disco de inéditas, ao mesmo tempo em que chega para consolidá-los como uma das bandas brasileiras atuais «que realmente importam».
Assim, devem continuar com um pé no mainstream -- por o alto respeito nos festivais nacionais e um grande e fiel público no exterior (já vendeu 40 mil cópias lá fora) -- e outro pé no cenário independente, de onde o grupo nunca saiu.
Número de frases: 47
O notável adestramento técnico dos poetas de hoje, se traduz num movimento inconcluso que parte de um «repetir para aprender» e não chega sequer a roçar as bordas de um «aprender para criar».
Eles exercitam uma 'crita minuciosa, derivada de uma acuidade de scholars, mas, no mais das vezes, feita a medo, porque seu intuito se restringe a ratificar o continuum da tradição e do entorno poéticos a que eles mais se submetem do que problematizam.
Esses poetas encaixam seus ombros dentro de uma moldura a que fazem jus por obra de seu excelente comportamento.
Amparo-me em 'tas considerações preliminares para aplicar à resenha trecho do poema «Outra noite, do livro Planos de fuga e outros poemas de Tarso de Melo (CosacNaify, 2005)», diz assim:
«é tarde, de novo / a madrugada inscrita / nas poucas janelas / ainda acesas no prédio / em frente;
o vento, / o guarda-noturno, / alguma ave rápida / e seu barulho /resistem/a se recolher ( ...)».
Pois bem, sei que recorto e apresento ao leitor apenas o detalhe de um poema que, inclusive para constituir-se com tal, não precisa ser brilhante em todos os seus passos, e, por sua vez, não é senão um exemplar entre os cerca de setenta que 'tão enfeixados em 'te volume, forjado como uma coesão de significantes e significados no sucessivo encadeamento de suas peças.
No entanto, o trecho sublinhado e justamente por sua inócua neutralidade, me parece paradigmático de um dilema que atravessa boa parcela da prática poética de agora-agora, e que eu, não sem alguma ironia -- e me solidarizando com Leyla Perrone-Moisés -- chamaria do dilema da «retomada» do poeticamente correto.
Posso ser, ainda, mais injusto com o poeta Tarso de Melo -- ou, parcial, isso se é verdade, como diz Baudelaire, que toda crítica toma partido e que, portanto, 'tá sujeita a cometer injustiças (1).
Com efeito, mais do que investigar a eventual singularidade de linguagem que seu livro teria a nos oferecer -- quando de fato não oferece, me interessa aqui abordá-lo em sua condição, digamos assim, de sintoma, ou melhor, de índice (em sentido semiótico).
Ou seja, na trama do livro restam marcas, inscrições da passagem de um 'tado recente de nossa mentalidade quando a questão em causa é o poético.
E Tarso de Melo nos propõe uma figura provável para 'sa mentalidade na qual 'tamos implicados, a saber, a linguagem mesma que informa o seu Planos de fuga e outros poemas.
Não posso imaginar o que pensa, ou que julgamento faz o leitor a propósito do fragmento do poema «Outra noite» com que abrimos a presente abordagem, mas ele suporta -- não obstante se deva observar em sua defesa que o aproveitamento de elementos prosaicos vem sendo, há muito, incorporado à poesia, um complexo de imagens extremamente convencional a emoldurar uma dicção «de poesia» que evoca um tom entre light e cult, de evidente qualidade literária, mas que qualquer indivíduo pode «acessar».
O lance dos jogos de 'pelhos em abismo, isto é, o poema que 'barra no poema, o onanismo da auto-refer ência e as metáforas alusivas à entidade do poema, são convocados com a maior naturalidade.
Então, tornam-se recorrentes menções do tipo:
«anotações para um mapa qualquer» (pág. 8);
«a paleta «e» o poema silente -- cego boletim de ocorrência» (pág. 11);
«sombra dos poemas» (pág. 14);
«o poema, / fazê-lo surgir / minúcias nos cortes» (pág.
29); e, finalmente, a peça intitulada «A certa altura», onde» Tarso de Melo «" lê» um poema de Ruy Belo (págs.
34-35). Listar mais passagens similares seria ocioso.
Planos de fuga 'tá, portanto, repleto de 'tilemas típicos de um período onde são encarecidas e cobradas competências poéticas e filiações consagradas e consagradoras.
Dentro de 'sa perspectiva, a poesia recente não se recusa a uma inserção filisteísta nos quadros de um sistema literário cada vez mais chapa-branca e coincidente com as ondas canônicas propostas por o mercado livreiro-editorial.
Estamos condenados a uma poesia que incorpora como um fim aquilo que, seja para a tradição, seja para a alta modernidade, era tão-só um meio, a saber, sua mise-en-scène.
Outro traço de 'sa geração de poetas parece ser o de uma vocação para uma poética que se 'poja num pastiche tanto do passado como de um futuro algo cínico.
Poesia da diluição e do relativismo de fast thinkers;
mixagem 'pirituosa de alta e baixa cultura.
E em 'te tocante, Tarso de Melo, involuntariamente, nos ministra a filosofia «da casca de banana» do Machado de Assis, cronista de A Semana (de 1892 a 1900), que 'creve:
«tudo provém de ela ( ...)
se 'tá mais próxima do bico do sapato, faz cair de ventas, se mais perto do tacão, faz cair de costas».
Em Planos de fuga, o poeta mostrando correto jogo de cintura, machuca com o bico do sapato uma epígrafe de Paul Valéry e com o tacão, em outro momento, cutuca uma epígrafe de Mano Brown com a qual fecha o volume.
Tarso de Melo, e, como de resto, a imensa maioria dos seus pares, se distingue por dominar o nível de competência da tecnologia poética.
Isto é, o poeta paulista, por meio de seus poemas, demonstra conhecer, por exemplo, os pontos cruciais da tradição literária do ocidente;
'tar familiarizado com a voz dos mestres do modernismo histórico;
ter um bom ouvido para os traços distintivos dos recursos da versificação, quer seja livre ou metrificada;
e, por fim, simpatizar com as proposições das vanguardas de quatro décadas atrás, que, agora, passados os sobressaltos, já podem fazer parte do piquenique domingueiro do sistema literário.
Mas, o nível de competência, ou seja, o repetir para aprender, é aquilo que fica a caminho de algo, aquilo que vale como tarefa;
enquanto o nível de desempenho, o aprender para criar -- que supõe um renovar, é que determina se o conteúdo do barril será de vinho ou de vinagre.
Para exemplificar até onde vai o nível de competência do poeta, vejamos as referências incrustadas em alguns textos de Planos de fuga.
Em a primeira seção, de onde o autor extrai o título do livro -- que se divide em cinco outras, deparamos dezesseis fragmentos de poemas em prosa, 'truturados em torno a um comportamento de linguagem que, para não 'capar ao habitual, oscila entre o monólogo interior à maneira de Joyce e a montagem cinematográfica de flashs imagistas.
Exercícios de monótona proesia em decupagem enumerativa:
«A memória organiza -- agoniza -- infinitos recortes de jornal, o mosaico dos fatos entrega um grito, devora-se, vale-se da caricatura de um outro -- o vulto avança» (pág. 18).
Em a seção «Canções para depois», Tarso de Melo apresenta as suas credenciais ao fazer um encômio metalingüístico a um dos» trigênios vocalistas «da poesia concreta no poema» Commedia para Haroldo».
Saúda com intimidade em tercetos brancos (não rimados) o tradutor-transcriador de Dante, numa empostação que denuncia ressonâncias das Galáxias do poeta poliglota, morto em 2003:» ...
a música que levo de 'sa margem a outra / é a música que invade o resto do riso, / é a música que amarra as festas da fala, / fende a razão, prende, entalha um astro / em cada asterisco, deus em cada traço ..." (
pág. 53).
A penúltima seção do livro «7 X2 (Drummond em retrato)», 'crita a quatro mãos com Eduardo Sterzi, dá prosseguimento ao expediente cada vez mais kitsch da» re-leitura», intertextualidade rebaixada a burocráticos empréstimos do vocabulário 'tilístico do autor de As impurezas do branco (1973).
De Drummond, sobram breves pontos luminosos que rompem a casca desses poemas vazados em opacidade mais irritante do que intransitiva, porque inercial;
'pécie de hermetismo soft que se deteriora em 'garçamento verbal travado numa parataxe a ponto de exaurir-se.
E aqui cabe lembrar Horácio que, na Epistula ad Pisones, censura a linguagem por a qual se alcança uma obscuridade que faz lembrar os oráculos de Delfos.
Duplos de Tarso de Melo, lemos a toda hora em revistas como Sibila, Inimigo Rumor e outras, 'ses sujeitos inventores da poesia mestranda ou doutoranda, versões recondicionadas e atualizadas daquela poesia «preparatoriana» que Mário de Andrade, lá nas primeiras décadas do século 20, soube identificar no livro de 'tréia do medíocre Luis Aranha.
Planos de fuga, infelizmente, é mais um livro que não foge às exigências do cânone da poesia presente, que se impõe como eclética e recessiva.
E Tarso de Melo dá a sua cota de sal para a reificação de um círculo vicioso de auto-refer ências e auto-reconhecimentos, cujo resultado é 'sa sorte de submissão a um acordo tácito em torno do virtuosismo técnico, da erudição intertextual perdulária e sem razão de ser e da eficiência diluída em 'nobismo.
Tal crítica desenha um panorama cujo diagnóstico talvez indique um processo, senão de decadência, no mínimo de 'tagnação ou acomodação.
Toda 'sa competência poeticamente correta -- que mal-'conde a mediocridade de que se constitui, pois se compraz na autopromoção e no elogio mútuo e, ainda, num desaprender no repetir-se, mas cum laude -- é agenciada dentro dos 'tritos limites do contemporaneamente tolerável.
O artista, e o poeta em particular, inclusive porque ele é, ou deveria ser, o «inventalínguas», o transgressor incestuoso do idioma materno, ainda ocupa, apesar ou mesmo devido a sua excelente formação, o lugar do bufão de costume.
Ele é tolerado.
Mas, tolerância e desde o ponto de vista de quem administra suas regras, quer significar, mesmo:
até certo ponto. Em outras palavras, o poeta que não tenta, ao menos, romper a margem ou o lugar-comum da tolerância, não presta para nada.
(1)» ...
o comentário demasiadamente elogioso produz mais indiscrições que a censura», Nietzsche.
Ronald Augusto Poeta, músico, letrista e crítico de poesia.
É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992) e Confissões Aplicadas (2004).
Número de frases: 63
A data de 26 de abril de 2007 deve ser comemorada por todo o mundo artístico e cultural da cidade do Rio:
depois de uma batalha de mais de 15 anos foi finalmente aprovada a criação do Conselho Municipal de Cultura do Rio de Janeiro.
O Poder Legislativo do Rio de Janeiro, através de sua Câmara Municipal e do conjunto de seus vereadores percebeu a importância do papel, cada vez maior, que terão a arte e a cultura como fatores para o desenvolvimento econômico, social e humano numa sociedade globalizada.
As atividades ligadas à arte e à cultura 'tão entre as que mais crescem e as que mais geram renda e emprego em todo o mundo.
Essa percepção do legislativo carioca reflete uma consciência mundial que se fortalece nos últimos anos, e que se traduziu, por exemplo, na aprovação em maio de 2004, em Barcelona, da Agenda 21 da Cultura, onde cidades e governos locais de todo o mundo assumiram o firme compromisso de fazer com que a cultura seja uma dimensão chave das suas políticas urbanas.
A cidade do Rio, com sua vocação para a arte e a criatividade, investindo na Cultura como ferramenta 'tratégica para o desenvolvimento, poderá se tornar um pólo mundial para as indústrias criativas, tirando da informalidade um contingente enorme de cariocas hoje à margem da cidadania.
Mas isso só irá acontecer se a Sociedade Civil e o Executivo Municipal compreenderem 'sas atividades não só como prioritárias para o desenvolvimento local, maximizando o seu potencial, mas como instrumentos poderosos para o fortalecimento dos laços comunitários, do diálogo cívico e da consciência democrática.
Em a região do grande Rio de Janeiro iniciativas de inclusão social por a arte com seus projetos de música, teatro, cinema e vídeo, fotografia, dança, literatura e artesanato, mostram que não há melhor antídoto contra a violência, a desagregação e a desigualdade.
O Legislativo deu a partida.
Resta agora que, junto com o Executivo e a Sociedade Civil organizada, artistas, produtores, gestores e instituições culturais, transformem em realidade um sonho longamente acalentado.
A Cultura do Rio merece!
Caso você queira participar de 'ta carta, juntando-se ao movimento por a efetivação do Conselho Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, assine o «abaixo-assinado» que 'tá no endereço:
Número de frases: 12
«target = «blank» \> http://www.petitiononline.com/ 26052007/ petition.html
Quando se fala em vinho, a primeira coisa que surge na cabeça das pessoas é o famoso ditado «quanto mais velho, melhor».
Mas seria o ditado verdadeiro ou apenas um mito amplamente difundido?
Segundo 'pecialistas, 'tudiosos e apreciadores -- os enófilos, o ditado não é uma verdade absoluta, já que são poucos os vinhos mais velhos que podem ser considerados melhores.
«Existem vinhos muito bons de cem, 150 anos, mas eles são exceções.
Só grandes vinhos franceses como o Bordeaux, ou o Vinho do Porto, agüentam todo 'se tempo», diz o médico José Carlos Ferreira, presidente da Confraria dos Enófilos de Sorocaba.
Os enófilos concordam que para vinhos, qualidade é muito mais importante do que idade.
Mas, apesar do ditado ser questionável, o vinho e o tempo têm uma curiosa relação entre si, em diferentes níveis, desde a fabricação do produto até momentos após ser tomado.
Para os grandes vinhos, tudo começa nos novíssimos barris de carvalho, onde são colocados depois de terem fermentado, para descansar e oxidar.
É em 'sa hora que os aromas da madeira são absorvidos.
O tempo necessário varia:
nos Vinhos do Porto, 'se «descanso» pode levar de dois a seis anos.
A oxidação continua mesmo depois de engarrafados.
Conforme o vinho vai oxidando, ele vai melhorando.
O tempo passado na garrafa é muito importante para que um vinho evolua.
«às vezes vale a pena guardar um vinho porque você 'pera que ele vá melhorar com o tempo.
Os taninos ficam mais bem resolvidos, mais arredondados, e algumas vezes ele precisa oxidar mais para revelar os aromas mais profundos», analisa um dos integrantes da Confraria, Paulo Roberto Gomes Castilho.
Mas tudo depende do vinho.
Cada vinho possui sua fase ideal para ser apreciado, a chamada maturidade, que dependendo do tipo de vinho, pode ser de meses ou de muitos anos.
O tempo de maturação 'tá relacionado também ao seu armazenamento.
Para que o amadurecimento ocorra sem problemas, vinhos devem ser mantidos em temperatura e umidade ideais (muita umidade pode provocar bolor externo, enquanto pouca pode ressecar a rolha) e o contato com a garrafa deve ser evitado ao máximo.
Castilho conta que é comum colocarem etiquetas nas adegas com o nome, a safra e outras informações do vinho, evitando assim o contato e permitindo que ele repouse.
Antes de serem servidos, os vinhos, 'pecialmente os tintos, passam por um processo chamado aeração.
O vinho é colocado num recipiente 'pecial para que entre em contato com o oxigênio novamente e volte a oxidar, despertando então todo processo que 'tava adormecido, liberando aromas e aprimorando os aspectos gustativos.
Quanto melhor o vinho, maior o tempo de aeração.
José Luís Monteiro, outro integrante da Confraria, diz que o tempo vai de minutos até uma ou duas horas.
«Os bons vinhos jovens devem 'perar cerca de trinta minutos até uma hora e meia».
Em um 'paço muito curto de tempo -- minutos, é possível perceber a mudança olfativa que ocorreu com um vinho que já 'tá na taça.
O tempo, mesmo que breve, é 'sencial para despertar aromas secundários e terciários num vinho já servido.
«Uma experiência interessante que pode ser feita é deixar de um dia para outro a taça em que o vinho foi bebido e experimentar as sensações olfativas no dia seguinte», sugere Ferreira.
Ele adverte que tal experimento só funciona se feito com vinhos muito bons.
Dentro de um universo certas vezes imprevisível mesmo para conhecedores, acompanhar a evolução de um vinho sempre é uma experiência interessante para os enófilos.
«Quando você abre um vinho não dá para saber exatamente o que vai acontecer.
Eu já passei por a situação de ter o mesmo vinho, de mesma safra, guardado, e como era um vinho com mais idade, uma garrafa 'tava de um jeito e a outra de outro.
O primeiro que abri não 'tava bom, já o segundo 'tava», lembra Castilho.
Outra experiência interessante que relaciona vinho e tempo é a degustação vertical.
Diferentes safras de um mesmo vinho, como por exemplo de um vinho das safras de 2004, 2003 e 2002, são provadas em ordem e analisadas por os enófilos, que discutem a evolução do vinho nos anos passados na garrafa.
Se por um lado o tempo é fator imprescindível nos mínimos processos de produção e apreciação do vinho, por outro pode ser seu maior inimigo.
Ferreira afirma que é bastante comum as pessoas acharem que o tempo só funciona a favor dos vinhos.
«Tenho um irmão em Portugal que ainda acha que vinho bom é vinho antigo.
Número de frases: 40
Outro dia abriu uma garrafa de 1986 e mesmo o vinho 'tando com aspecto pior que vinagre, continuou dizendo que 'tava maravilhoso», conta, meio rindo, meio indignado.
Segundo a Unesco, são necessários três fatores para que existam leitores num país.
1. O livro deve 'tar num lugar privilegiado no imaginário nacional.
2. É preciso que existam famílias de leitores.
3. A 'cola deve saber formar leitores.
Nem é preciso dizer muita coisa sobre o lugar do livro no imaginário do brasileiro.
Quem o ocupa é a onipresente (e agora até onisciente) televisão.
Quanto à quase inexistência de famílias de leitores, isso parece ser decorrência do fator número 1 somado à própria história da educação no Brasil.
Quem sabe um suposto afastamento dos valores europeus, ao mesmo tempo que uma aproximação à cultura 'tadunidense, pragmática, televisiva, de massa seja uma explicação para o fato de nossas famílias lerem tão pouco?
E olha que não em comparação com os nossos colonizadores europeus, mas até com famílias de países de realidades bem próximas à nossa.
Argentina, Uruguai e Chile, por exemplo, consomem, proporcionalmente, mais livros e jornais que os brasileiros.
Uma comparação com 'ses países pode ser útil para encontrar pistas sobre as origens da falta de leitura no Brasil, mais do que analogias com outras realidades ainda mais distantes, tanto geográfica quanto culturalmente, da nossa.
Tudo bem, 'ses três países têm um histórico bem diferente do Brasil em termos de colonização e educação.
Em 1915, de cada três argentinos, um tinha nascido na Europa.
Em Buenos Aires, um em cada dois.
Diferentemente de quase todas as famílias no Brasil, 'ses imigrantes receberam terras ao chegar na América.
Uma maior base patrimonial fez com que, logo em seguida, 'sas populações já 'tivessem exigindo do Estado educação pública, o que não aconteceu no Brasil.
Desde os jesuítas, até agora, a história da educação no Brasil pode ser dividida entre educação para a elite (de qualidade e cara) e educação para os pobres (de baixa qualidade e não para todos).
Os resultados desse processo são enfáticos:
há um abismo entre o Brasil e nossos vizinhos tão parecidos em termos de (ou falta de) desenvolvimento econômico.
Embora pobres como nós, nos anos 90, por exemplo, segundo o 'tudo do Departamento Intersindical de Economia e Estatísticas Sociais e Econômicas (Dieese), A Situação do Trabalho no Brasil (2002), o Chile baixou sua taxa de analfabetismo de 5 % para 4 %, a Argentina, de 4 % para 3 %, e o Uruguai, de 3 % para 2 %.
O Brasil, no mesmo período, diminuiu seu número de analfabetos de 19 % para 15 %!
Claro que 'ses índices e outros comparativos podem ajudar a explicar os vergonhosos números brasileiros em se tratando de leitura.
Em um recente levantamento, a Associação Nacional de Livrarias afirma que cada brasileiro lê, em média, dois livros anualmente.
Uruguaios, chilenos e argentinos lêem mais de quatro livros per capita / ano, conforme afirmou no ano passado o ex-presidente da Câmara Rio-grandense do Livro, Paulo Flávio Ledur.
Em países desenvolvidos da Europa, no Canadá e nos Estados Unidos, a média é de 15 a 25 livros por ano.
Segundo o Anuário Editorial Brasileiro, do Grupo Editorial Cone Sul, o Brasil inteiro, onde vivem cerca de 170 milhões de pessoas, tem apenas 2008 livrarias, o que dá, em média, um 'tabelecimento para cada 84,4 mil brasileiros!
Uma única cidade européia, Paris, tem duas mil livrarias.
A Argentina, antes da crise, tinha mais de 950 livrarias (para uma população de 37 milhões de habitantes).
Em dois anos, a crise fez fechar 250 desses 'tabelecimentos.
Em o Brasil, muitas cidades, inclusive no Rio Grande do Sul, não possuem uma livraria sequer.
A Câmara Rio-Grandense do Livro e o Clube dos Editores divulgaram há três meses que 75 % das cidades gaúchas não têm pontos de venda de livros.
A situação é ainda pior em 'tados do Norte e Centro-Oeste.
Roraima, Tocantins e Amapá têm, cada um, apenas duas livrarias em seus vastos territórios.
Em a Região Norte do Brasil, há apenas uma livraria para cada 215,3 mil habitantes.
Sul e Sudeste 'tão um pouco melhores.
Em a Sudeste, a média é de uma livraria para cada 64,2 mil pessoas, enquanto que, na Sul, a média é de uma livraria para cada 56,7 mil habitantes.
Certamente, a altíssima concentração de renda brasileira -- uma das maiores do mundo -- impede as camadas mais pobres da sociedade de terem acesso aos bens culturais, a livros, teatro, música e informação que não venham diretamente da cultura de massa, seguindo a fórmula da indústria cultural:
ou seja entretenimento barato, de baixa qualidade, para quase todos.
Tanto o fator número 1 (O livro deve 'tar num lugar privilegiado dentro do imaginário nacional), quanto o número 2 (É preciso haver famílias de leitores) parecem não ser assim tão fáceis de serem resolvidos, ainda mais quando se vive numa sociedade conservadora e concentradora, que faz questão de manter as coisas tais como 'tão.
Para tentar melhorar as coisas, são criados, de tempos em tempos, programas de incentivo à leitura.
Implementados por o governo federal, eles, como se pode ver em diversos dados, têm se mostrado um flagrante desastre.
São ineficazes na reversão dos números desfavoráveis, embora o Ministério da Cultura, a despeito de todas as evidências, venha afirmando o contrário.
O problema é claro:
'sa tentativa do governo federal, de reversão nos baixos índices de leitura, fica impossibilitada por suas próprias práticas nos planos político e econômico.
Afinal, é um tanto difícil formar «um país de leitores» com campanhas 'porádicas, se ao mesmo tempo se implementa uma política econômica que mantém sistematicamente elevadas taxas de desemprego (do início da década de 90 ao seu final, passamos de 10 % de desempregados para mais de 20 %) e baixíssimo poder econômico às camadas mais pobres da população.
Outras contradições que claramente dificultam 'se objetivo é o direcionamento da política educacional para a privatização (que diminui o acesso de camadas mais pobres ao ensino) e a falta de mecanismos públicos que desmercantilizem a cultura (ao contrário, tem havido uma concentração de poder da indústria cultural).
Esses são alguns de muitos outros elementos que, sem dúvida, têm relação direta com o preço do livro, o número de livrarias, a incapacidade das bibliotecas públicas se equiparem, os professores de trabalharem melhor e os 'critores de terem uma melhor «competitividade» num mercado marcado por o fordismo cultural.
O terceiro fator necessário para a existência de leitores num país é:
A 'cola deve saber formar leitores.
Como se sabe, não bastassem as políticas econômicas excludentes, a história da educação no Brasil é também uma história de exclusão, de fortalecimento de uma elite que se beneficia do que de melhor há em termos de ensino e de uma crescente mercantilização do saber.
Segundo David Plank (em Política Educacional no Brasil: Caminhos para Salvação Pública.
Editora Artmed, 2001, Porto Alegre), desde o seu início, ainda no século XIX, as políticas educacionais brasileiras, excetuando breves períodos, ainda no começo do século XX, não tiveram como fim o desenvolvimento de uma sociedade menos desigual.
Pelo contrário, salientaram as diferenças, promoveram a nítida separação entre uma educação de elite e outra para os pobres.
Com a entrada no século americano, o XX, 'sas políticas educacionais, como se sabe, eram a mera tradução de determinações que os Estados Unidos colocaram em prática em todo o mundo pobre.
Decorre daí a pragmatização do ensino, o tecnicismo, direcionamento da educação para a formação de mão-de-obra para o tipo de desenvolvimento que o Império (Estados Unidos e países ricos) necessitava.
O objetivo era formar peças para a máquina capitalista ao invés de seres humanos críticos.
E quem é que pagou o pato?
O leitor, é claro.
É ele o alvo do acordo Mec-Usaid, da reforma do ensino de 1964 e da Lei de Diretrizes e Bases de 1967.
De lá para cá, nunca mais teríamos leitores, afinal aquelas reformas ainda não foram de todo revertidas, nem mesmo por os governos «democráticos».
A 'cola continua sem literatura 'trangeira, sociologia e filosofia no ensino médio, o que significa:
continua sem leitores.
Há pouco Fernando Henrique Cardoso vetou a volta das disciplinas humanas nos currículos.
Flagrante contradição de um governo que afirma 'tar empenhado em fazer do Brasil «um país de leitores».
Resulta de toda 'sa história uma 'cola que é uma verdadeira «máquina de destruir leitores».
E é aqui que 'tá um outro grande problema, talvez o maior, a ser enfrentado.
Com o atual 'tágio de mercantilização e anestesia em que a sociedade brasileira se encontra, parece ser impossível colocar o livro em «um lugar de destaque no imaginário nacional», assim como não se pode fazer com que as famílias se tornem famílias de leitores.
Só nos resta intervir na 'cola, 'paço que 'tá mais perto dos verdadeiros interessados em fazer do Brasil «um país de leitores».
São eles os educadores, 'critores, leitores desinteressados, humanistas em geral que sabem:
a 'cola atual é uma máquina de destruir leitores porque «a 'cola não sabe ler».
Por isso, quando vai formar leitores, toma caminhos tão tortuosos que acabam resultando mais no afastamento dos alunos dos livros do que no contrário.
E quais são 'ses caminhos, ou melhor, quais as engrenagens da máquina de destruir leitores?
Vamos a elas.
A primeira é a promoção de um recorte utilitarista e pragmático, um tipo de leitura feita na sala de aula que, decididamente, é um empecilho violento à formação de leitores.
Esse recorte dá um peso à leitura que ela, quando feita fora da 'cola, não tem.
A leitura feita na 'cola é chata porque é profissional, porque continua sendo usada para passar ideologias, conteúdos etc..
Não se lê na 'cola com o fim único e exclusivo de formar leitores, e sim para passar português, história, geografia.
Assim, dá-se uma «utilidade» a 'se hábito que, sem 'se conteúdo, ele pareceria não ter.
Aí 'tá um primeiro contrapé em que se pode pegar a 'cola, 'sa não-leitora.
Se ela tivesse o hábito da leitura de literatura, saberia que é na sua aparente inutilidade que a leitura é de fato útil, pois é em 'sa «inutilidade» que ela discursa contra um mundo prosaico e utilitarista.
Atrapalhada, a 'cola coloca ao jovem ou à criança não-leitora uma série de entulhos, seja de forma concreta, através do livro para-didático (em que se «usa» uma história para passar algum conteúdo), da utilização da literatura para «enriquecer o vocabulário» ou, o pior de tudo, da mais utilitária das relações:
prepará-la para o vestibular.
Claro que, chata, pesada, a leitura será uma aventura de poucos (e dolorosos) dias.
E a vida «lá fora» -- a que Platão diria que de fora não tem nada, que é só o interior 'curo da caverna -- 'tá cheia de divertimentos garantidos com muito menos investimento.
Se quer, de fato, formar leitores, e não, no máximo, vestibulandos, a 'cola tem que, em primeiro lugar, saber o gosto que a leitura tem.
Até agora ela só mostra que não se relaciona com os livros de forma diferente do que a sociedade pragmática e utilitária.
E se ela quer ser um diferencial, se acredita que seu trabalho tem alguma 'pecificidade na comparação com o mundo fora de ela, tem que ser rebelde, revolucionária também na sua visão da leitura.
Não pode olhar para os livros da mesma forma que o mundo prosaico, lá fora.
Um primeiro passo é desvincular a leitura da educação, retirar o peso que o ensino colocou e que transformou 'sa aventura da leitura num passeio de ônibus forçado, dirigido não por o leitor, mas por o professor-motorista.
Os leitores não lêem só para aprender.
Em primeiro lugar, lêem para se comover, para rir, chorar, vibrar, sentir.
É daí que vem o gosto, que nunca mais se abandona.
Aprender algo, ou não, é coisa secundária.
É preciso que a leitura leiga entre na 'cola, 'se lugar sagrado demais.
Precursores do Renascimento, os goliardos (filhos de Golias) eram grupos de 'tudantes que iam do interior dos países europeus para 'tudar nas universidades que ficavam nas capitais.
Em sua época, século XIV e XV, as universidades eram clérigas e 'ses leigos interioranos muitas vezes tinham dificuldade em se adaptar à vida religiosa.
Para serem cultos, era preciso ter fé.
E isso não é para qualquer um ...
Por isso mesmo, alguns desses 'tudantes abandonavam a faculdade no meio do caminho para não perder a laicidade.
Sem profissão, muitos iam parar nas ruas, onde viravam poetas, boêmios -- um de eles era o famoso poeta francês François Villon.
Foi nas ruas das grandes cidades que ficou borbulhando um tipo de relação com a leitura que não era clériga nem leiga, mas uma mistura, um meio-termo.
O Brasil nunca teve goliardos.
A única leitura que se faz aqui é a clériga, a 'colada, a utilitária feita entre as quatro paredes 'curas da máquina.
O resultado todos nós, infelizmente, conhecemos.
Sem atacar 'se problema, um entre tantos outros, nós nunca vamos conseguir fazer do Brasil um país de leitores.
Número de frases: 106
Algumas de elas se enxergam na indiferença de vidros insulfilmados.
Outras vêem em trocados, possibilidades.
Algumas se 'condem em becos de sombras.
Outras são chamadas de ruído ou cheiro desagradáveis.
São todas crianças.
Todas elas, em seus milhões, sobrevivem de forma muito aquém do que se imagina ser necessário para um pleno desenvolvimento de qualquer pessoa, independente de cor, sexo ou raça.
Foi então a partir disto que, em parceria com a UNICEF, os produtores Maria Grazia Cucinotta, Chiara Tilesi e Stefano Veneruso decidiram montar o filme Crianças Invisíveis (All the invisible children).
Composto por sete curtas realizados no Estados Unidos, Brasil, Itália, Inglaterra, Sérvia e Montenegro, África e China, o trabalho teve como principal objeto trazer à tona, a partir do olhar de cada diretor, a situação calamitosa em que diversas crianças vivem ao redor do mundo.
Aparentemente distintas, as histórias que compõem o filme, unem-se por um fio condutor bastante simples:
a universalidade dos sentimentos humanos.
É como se Tanza, personagem de Mehdi Charef, visse em Ciro, de Stefano Veneruso, o próprio incômodo em não pertencer ao mundo que os rodeiam.
É exatamente por isso também que, embora com visões bastante pessoais a respeito do que venha a ser a invisibilidade das crianças, a acidez do mundo das drogas de Spike Lee casa-se perfeitamente com o lirismo da boneca de porcelana de John Woo.
Além disso, as Crianças Invisíveis se assemelham por a necessidade de se inserirem num meio social distante, já que isso, teoricamente, subentende o pertencimento a ele.
É o caso do tênis Nike de Tanza em contraste com a pobreza de Ruanda, do culto de Blanca a 50 th cent em meio à decadência de sua família, da Ferrari de Bilu e João 'tacionada na calçada de uma das ruas da periferia paulistana, ou do pedido de Ciro por ingressos para brincar num parque de diversões, mesmo que 'te 'tivesse no mais completo abandono.
Tem-se a sensação que todos, sem exceção, realizam, talvez de forma inconsciente, uma constante avaliação de sua existência:
avaliam-se quanto ao seu papel no mundo, questionam-se a sobre a incongruência dos caminhos no qual suas vidas têm se desenrolado e refletem sobre o desconforto de situarem-se entre o anonimato e a clandestinidade.
É talvez por 'se desconforto que, embora vivendo num mundo absorto, nota-se uma vontade refletida na ação das personagens em quebrar a barreira que, até então, as excluem.
Assim, todas elas se vêem incumbidas de se despirem da invisibilidade social em que se situam e tornarem-se, a partir de ações bastante particulares, notáveis.
É o momento epifânico de todas elas:
Bilu e João são vistos quando, ao pilotarem sua Ferrari, atrapalham o tráfego de carros;
Ciro e Marjan se tornam visíveis quando roubam carros;
Tanza se torna notável quando, junto com seu grupo, abre caminho com tiros de metralhadora;
ou Jonathan, num reconhecimento intimista, vê-se novamente criança quando mergulha num rio de lembranças.
Crianças Invisíveis é denúncia silenciosa.
Silenciosa. Não omissa.
Isso porque privilegia a veracidade da ausência de palavras -- ora por diálogos curtos, ora por imagens que dizem por si só -- como uma forma inteligente de mostrar àqueles que assistem ao filme o abismo que há entre a beleza da infância e a vida «em-preto e-branco» de milhares de crianças.
Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que há um contato muito próximo das personagens com toda uma simbologia pueril e lúdica, o Rolex roubado toma o lugar do algodão doce e a metralhadora, do 'tilingue.
Repleto de verdades desconcertantes, o filme nos proporciona a reflexão não somente sobre as condições deploráveis em que milhares de crianças vivem, mas até que ponto nossos olhos conseguem enxergar além da realidade pré-fabricado que nos rodeia.
Além disso, num misto de incômodo e inconformidade, Crianças Invisíveis traz um apelo à construção de um universo que possibilite a plena inserção de 'sas crianças.
Um universo tão necessário, quanto ainda distante.
Número de frases: 30
Esta semana participei de um «happening» bastante inspirador.
Irresistível 'crever!
Não deixaria passar batido ...
Desde criança, gosto de criar relatos sobre vivências e / ou experiências que me marcam, de alguma forma.
Algumas vezes, registro e guardo pra mim.
Outras muitas, compartilho com amigos próximos, que me conhecem bem, e têm a sensibilidade pra captar «quase exatamente» o que me moveu para 'crever sobre aquele assunto 'pecífico!
É como se eu me sentisse mais plena, trocando.
Dividindo aquela surpresa, aquela sensação, aquele entusiasmo com o que quer que seja ...
Amplia! ...
Desta vez, uma amiga jornalista, a quem consegui contagiar com meu «desabafo virtual», me convenceu a dividir com mais gente!
E cá 'tou no OVERMUUUUNDO!
Aliás, já aviso que o «tal evento» em si não é nada de outro mundo!
Trata-se de uma audição de disco.
Mas falo aqui de alguma coisa muito mais ligada à energia trocada naquele momento, e com aquelas pessoas.
Por isso, intitulei " pequenos Grandes encontros ..."
Esperávamos ouvir um lindo trabalho, mas nossas almas ganharam mais do que belas canções!
Essa foi a minha sensação, pelo menos.
Sou cantora e participei de um projeto há alguns meses.
Despretensioso, inicialmente, mas que poderá gerar bons frutos!
Pra nós que participamos, já é um sucesso!
Por o clima bom, por a oportunidade, por as novas amizades, por o encontro criativo em si!
A maior parte é de artistas «novos».
Não exatamente novos no ramo ...
A maioria já 'tá por aí batalhando há tempos.
Digo em termos de uma maior visibilidade mesmo, para o público em geral.
Até ganharem certa «'tabilidade» na mídia, são sempre considerados «novos» ...
Mas, de fato, são todos jovens e joviais (e música ainda tem disso.
Rejuvenesce!)! Com uma carreira longa por a frente e muito gás pra trabalhar!
São compositores, intérpretes e músicos que se empenharam em criar para 'te projeto, já que se trata de uma coletânea de canções totalmente inéditas.
O mais bacana é que as faixas do disco incentivam a união de artistas de 'tilos diversos dentro da música brasileira, mas flexíveis e ecléticos suficientemente para construírem arranjos democráticos, e por isso, riquíssimos!
Sem preconceitos, mas sem perder personalidade.
O fato é que todos têm 'sa característica comum!
Ousadia, vontade de experimentar!
Pois bem.
Disco pronto, masterizado, e o produtor promoveu então, um encontro dos artistas envolvidos para «conhecerem» o produto final!
Um costume que tem se tornado bastante comum.
Afinal, «muito justo» que os participantes das gravações tenham a oportunidade de ouvir, em primeira mão, o resultado de seus «serviços»!
Isto depois das edições, da mixagem, enfim, das manobras tecnológicas musicais cada vez mais incríveis!
Bate mesmo a curiosidade!
Fora a desculpa boa para a confraternização.
Músico adoooora uma confraternização!
Rs ...
E 'te não era o primeiro.
Desde a pré-produ ção do disco, rolaram saraus pra que as pessoas realmente se conhecessem melhor, se enturmassem.
Mostrassem suas novas composições, seus caminhos musicais, gerassem idéias, encontrassem afinidades ...
A intenção não era, simplesmente, 'colher um elenco para gravar um repertório já pré-'tabelecido.
As canções foram aparecendo com o tempo e as formações de cada faixa foram se 'truturando assim, naturalmente.
Muito mais 'timulante!
Tem gente do samba, do rap, da MPB, do rock, do pop, do soul, do eletro.
Tem gente da Lapa, Zona Oeste, Zona Sul, Madureira ...
É gente do Rio!
Aliás, não por acaso, o projeto 'tá ligado ao tema «Rio».
Mas sem ser «mais do mesmo».
As letras não precisam, necessariamente, citar a cidade, seus bairros, suas favelas ...
Basta ter um «ar» que nos remeta.
Esta era a intenção dos produtores.
O suingue, o molejo, o tempero carioca.
O resultado ficou mesmo bastante surpreendente!
Moderno, quente, diverso, suingado, delicioso de ouvir.
Mas o interessante foi que isso tudo nos levou a um bate-papo gratificante no final.
Foi 'pontâneo!
Todos muito felizes por 'tarem participando de um encontro desses.
Satisfeitos com o que ouviram.
A lei ali era a união de forças.
Mérito mesmo do produtor que é uma pessoa, naturalmente, agregadora.
Que se 'forçou para juntar aquela galera e propor certa quebra de barreiras entre timbres, 'tilos e origens de cada um.
E o papo que surgiu foi exatamente em relação a isso.
Estávamos vibrando com 'sa possibilidade, com 'se movimento.
Rolou quase uma «mesa redonda» e todos se puseram a falar um pouco de como um encontro desses pode ser significativo e rico pra nossa música.
às vezes (na maioria das vezes) e, principalmente, por sermos cariocas com fama de «gargantas», ficamos acomodados, preguiçosos de dar um primeiro passo pra juntar as pessoas, fazer um sarau, criar um projeto novo, compor junto!
Ainda mais nos tempos de hoje, com a correria cotidiana, com as facilidades da internet.
As reuniões com intenção de criar ficaram mais 'cassas ...
Fica tudo restrito ao âmbito virtual.
Ou então, trocamos o trabalho em equipe por a criatividade solitária do «me basto».
Por isso dei imenso valor ao que aconteceu ali.
Em meio a tantas dificuldades que encontramos na caminhada em busca de um «lugar ao sol», quando se fala de carreira artística, agradeci por 'tar simplesmente fazendo parte de um projeto deste tipo.
Com 'sa energia mais humana, menos burocrática, mais agregadora.
Torço para que possamos manter 'sa proposta sempre que for possível.
De os encontros, da união de forças, da quebra de barreiras!
Por enquanto, preferi não dar detalhes sobre os participantes e produtores da coletânea.
Talvez até para que 'se movimento se amplie e não fiquei restrito a 'te universo.
Quis falar da importância e riqueza dos encontros criativos.
Não apenas na música.
Quis tentar 'timular a abertura pra isso a partir de uma experiência que, pra mim, já foi bastante bem-sucedido.
E do sentimento de satisfação mútua, delicioso, que pesquei dentro daquele 'túdio.
Valeu demais!
E viva os encontros grandes ou pequenos!
São sempre «grandiosos»!!
Número de frases: 88
Não há 'capatória, Os Grandes Amores ACABAM, não há saídas, entenda, e quando encontrar uma porta e imaginar que através de ela 'tará livre, eu aviso, tenha a certeza de que por trás de ela haverá uma canção do LUDOVIC te 'perando, pronta para cuspir na sua cara.
E pedidos de desculpas apenas por a franca confissão de nunca ter visto alguém tão fraco, e assim você será admitido no clube aonde nada é intolerável, conclamando todas as incompetências amorosas praguejando culpas e acusações.
É a sensação de ouvir o primeiro disco, Servil ou Melhor Ainda, presenciar uma das sempre caóticas apresentações da banda.
[" Essa próxima música é dedicada pra todo mundo que já fracassou na vida.
'sa música é dedicada pra todo mundo que já se apaixonou e tomou no cu, e voltou para a casa com vontade de morrer.
'sa próxima música chama-se ' Você Sempre Terá Alguém aos Seus Pés ..."]
do Lat. furia
s. f.,
acesso violento de loucura;
braveza;
cólera;
ira;
sanha;
raiva;
inspiração;
'tro;
entusiasmo;
fervor;
pessoa furiosa;
mulher desgrenhada;
(no pl.)
divindades infernais, na mitologia pagã.
Escolhendo qualquer uma das definições acima, resultados da procura por o significado da palavra Fúria, a felicidade de classificar uma apresentação do LUDOVIC é quase certa.
Evoco a minha primeira vez, um DESCABAÇAMENTO violento, um quase-'tupro [semi-consentindo?]
num bar apertado na periferia de taboão da serra [SP?],
naquele não-palco do tico's bar, o chão que fugia da responsabilidade de distinguir banda e público, corpos desafiando leis da física, urros num uníssono desajeitado «Azar O Seu, Querida», e tantos outros versos funcionando como instrumento de desconstrução coletiva num culto aos nossos demônios mais vexatórios.
[Uma festa pagã]
Melhores Apresentações nos Piores Lugares
Para quem não sabe, o Bar De o BAL ficava Além do Jardim ÂNGELA, aquele bairro que um dia recebeu o título de Mais Violento do Brasil.
Era uma garagem grande, sem reboco e com chão de cimento.
Pôsters de bandas de heavymetal dos anos 80 enfeitavam as paredes, e o palco contava com a presença de uma cruz, um crânio bovino e uma forca.
A cerveja barata fazia a festa de quem chegava a passar até Três Horas dentro de um ônibus Sem Sair De a Cidade De São Paulo na sanha de provar dos pouco mais de 20 minutos de 'tro despejado ao longo de 7 músicas, dose homeopática para cavalos.
Os motivos de tamanha devoção são muitos e todas na casa do extremo, as feridas expostas de maneira tão 'cancaradas nas letras, o peso dramático das guitarras que até há pouco trabalhavam sozinhas, pois o contrabaixo empunhado por o vocalista não costumava passar intacto das primeiras músicas, vitimado por a performance quase suicida do seu dono.
Tais atitudes provocam no público sentimentos de entrega numa mistura de coisas vistas normalmente nas catárticas, porém distintas, apresentações do At The Drive In e The Smiths.
A libertação do orgulho vexado.
Prever possíveis alterações sobre comportamento noturno do paulista no primeiro final de semana após o nosso September Eleven era algo que poucos arriscavam, e encontrar o OUTS [local do show do Ludovic naquela noite, Rua Augusta.]
relativamente Vazio a uma e quinze da madrugada de Domingo parecia confirmar o que muitos temiam.
Fui ao banheiro, e fiquei dançando na pista por volta de uma hora.
Quando desço para ver uma banda de Curitiba terminar sua apresentação.
O Número de pessoas já é considerável, e aumenta ainda mais enquanto afinam seus instrumentos.
Conversei rapidamente com umas 5 pessoas que 'tavam ali pela primeira vez, todas sob o mesmo argumento «Muita gente dizendo Preciso ver um show do Ludovic».
[a fama das apresentações já levou a banda a tocar no CAMPARI Rock, festival paulista que em 'ta última edição contou com a participação do Supergrass e Mission Of Burma.
E em 'te caso ocorreu algo atípico:
o tamanho da 'trutura fez com que o Ludovic passasse por uma experiência 'tranha, tocar a uma certa distância do público, o que não foi um impedimento para um ótimo show, talvez o ódio quando amantes encontram-se separados por uma distância covarde.]
Uma apresentação diferente, seja por o novo baixista que permite ao agora somente vocalista potencializar sua autodestruição, seja por a presença de um segurança na beira do palco com a tarefa inglória de conter a cólera coletiva.
A o final eu ainda vejo três das pessoas que 'tavam ali pela primeira vez, todas elas dividindo sorriso semelhante, ' por terem saído vivos ' aposta uma amiga, minutos antes, todos eram parte de uma massa descontrolada de corpos embaralhados, pessoas que já experimentaram uns tantos sabores da finitude de 'sas coisas do coração, que é oco e opera o maior dos ecos, são os berros que recusaram-se a continuar choro baixo.
É a Fúria, beibi, tentando evitar [proclamar?],
muitas vezes sem sucesso, a inundação de culpas por as apostas perdidas por as maneiras mais 'túpidas e absurdas.
Foto:
Juliana Alves
Recomendações shows no You Tube
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Página Oficial orkut
Número de frases: 53
Poesia em diálogo com diversas linguagens artísticas -- música, teatro e audiovisual -- é a tônica do projeto Poesia, Blues e Rock ´ n roll, concebido por o músico e professor, Carlinhos Perdigão, apresentado nas programações de centtros cultuais de Fortaleza e outras cidades -- Centro Cultural Banco do Nordeste (Fortaleza e Cariri), e Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Segundo Perdigão, o intuito do show Poesia, Blues e Rock ´ n Roll é valorizar o gênero literário poético como representante de idéias e sentimentos humanos, procurar sensibilizar a platéia para a sua importância e incentivar a relação do público para com a leitura de uma forma em geral.
O set-list traz composições próprias e de outros artistas consagrados, como Lobão, Frejat, Arnaldo Antunes e Rita Lee, e é entremeado por performances teatrais e poemas exibidos em vídeos.
Carlinhos Perdigão é professor de língua portuguesa e literatura, produtor cultural e baterista.
É mentor dos projetos Bateria Brasileira, Led Zeppelin-Blues, Projeto Cream:
tributo a Eric Clapton.
Suas baquetas já acompanharam músicos como Manassés, Téti, Rodger Rogério, Isaac Cândido, o guitarrista mineiro Alexandre Araújo e o gaitista carioca Jefferson Gonçalves.
Já gravou 08 discos e realizou shows em todo o Ceará, e também no Rio de Janeiro, São Luis, Campina Grande, Natal e Brasília.
Número de frases: 8
A visibilidade que eles têm por conta da (cada vez mais) comercial MTV levaria a supor que o público seria bem maior.
Mas a pista quase vazia no show da banda-gozação Massacration, na casa Tom Brasil Nações Unidas, em São Paulo, no último domingo (7/5), contrariou as expectativas para um 'petáculo que teve certa divulgação (modesta, diga-se de passagem) na «grande imprensa».
Talvez o grande impacto do pequeno público seja mesmo a composição da platéia, que lembraria facilmente uma matinê de baile carnavalesco -- não fosse por a enxurrada de camisetas pretas e cabelos compridos da molecada.
Isso mesmo:
molecada. O show do Massacration não passou de mais um evento-família em São Paulo.
O 'pectador mais atento do 'petáculo certamente notou a peculiaridade da platéia.
Família inteiras em pé, na pista, sacolejando a cabeça ao som do heavy metal gozação do quarteto de roqueiros-humoristas.
A quantidade de pais acompanhando crianças (sim, crianças) no show causou 'panto.
Talvez por isso o evento tenha sido marcado em tão «tenro» horário:
18h. O perfil da banda talvez ajude a explicar um público tão homogêneo, que misturava habitués da Galeria do Rock (para quem não sabe: famoso reduto metaleiro do Centro de São Paulo) com meninos e meninas de mais ou menos 11 anos de vida.
O Massacration, em si, merece algumas linhas à parte.
Para quem não sabe, a banda nasceu no programa humorístico pretensamente alternativo «Hermes& Renato», que a MTV emplacou em sua programação há alguns anos.
O humor tosco e politicamente incorreto da trupe não demorou a fazer sucesso entre o público jovem da emissora musical.
E o Massacration, um dos subprodutos do programa, ganhou tal dimensão que deixou de ser um mero quadro de «Hermes& Renato» para entrar no circuito roqueiro de praxe:
shows, videoclipe, álbum gravado, centenas de fãs com camisetas, bandanas, munhequeiras e outros acessórios que 'tampam o nome do conjunto.
A «proposta» do Massacration também é das mais curiosas.
Capitaneada por o vocalista Bruno Sutter (mais conhecido como Detonator) e por o guitarrista Fausto Fanti (ou Blondie Hammet), a banda é uma cópia 'crachada, porém fiel, do Manowar -- quarteto norte-americano que conquistou o mundo com sua música pesada, suas letras monotônicas (nota da redação: todas as composições contêm a palavra «Metal» em alguma passagem) e seu figurino que mistura o look de heróis medievais, hell's angels e praticantes de sado-masoquismo.
Apesar do 'cracho rasgado do Massacration, a banda é, sim, musicalmente afiada.
Bruno é um vocalista de mão cheia, que consegue levar sua voz a tons de agudos que fazem qualquer cantor «sério» de heavy metal se morder de inveja.
Bruno é um guitarrista talentoso, que incorporou com precisão todas as chaves instrumentais para a condução de um bom rock pesado.
A cozinha também dá conta do recado, graças aos trabalhos eficientes de Marco Antônio Silva (o baixista Metal Avenger) e Felipe Torres (o baterista Jimmy, The Hammer).
O «show-família» deste domingo, apesar de curto, certamente agradou quem se propôs a passar o final de tarde no Tom Brasil Nações Unidas.
Até os pais que foram arrastados à casa de shows, por causa de seus filhos, se divertiram.
Além do repertório musical, que pode ser conferido no CD «Gates of Metal Fried Chicken of Death» (sim, o título é 'te absurdo mesmo), o Massacration abusou dos recursos visuais de palco:
o papagaio satânico (tema da canção «Evil Papagali "), a cadeira de dentista (de» Metal Dental Destruction "), a caixa de Sucrilhos 'tilizada em «Cereal Metal», a guitarra em chamas (clichê copiado de Ace Frehley, do Kiss) e outras gozações com os lugares-comuns que tanto atraem os fiéis metaleiros.
O Massacration talvez seja a piada mais inteligente criada por os humoristas do «Hermes& Renato».
E a grande prova disso é a vida própria que a banda ganhou, com direito a CD nas prateleiras de grandes lojas e uma legião de (pequenos) fãs.
Mas o melhor de tudo isso é que os caras seguem fazendo humor.
Afinal de contas, nem os próprios integrantes da banda levam o Massacration a sério.
Número de frases: 29
(Rosana Mauro e Fernão Silveira) A 116 km do centro do Rio, indo para o oeste, a um pouco mais de 400 metros de altitude, na região Centro-Sul Fluminense, na margem direita do Rio Paraíba do Sul, mais ou menos na metade do seu curso para o mar, mora uma princesinha.
A Princesinha do Café, apelido que recebeu há muito tempo atrás, quando era cortejada por os barões plantadores de café no auge de seu poder por volta da metade do século 19.
Em aquele tempo, a economia nacional era o café e perto de 70 % de sua produção vinha de suas terras que incluíam desde os atuais municípios de Paty do Alferes e Miguel Pereira até parte de Paracambi.
Para se ter uma idéia da riqueza da princesinha, o Brasil exportava em 1830 perto de 484 mil sacas.
Dez anos depois já exportava perto de 3 milhões e quinhentas mil.
Em 1850 o Brasil já era o maior exportador mundial de café.
O ouro verde.
A princesinha vivia cercada do luxo, do requinte e da riqueza imperial.
Dizem que Companhias de Teatro vinham da Europa 'pecialmente para seu deleite e de seus convidados.
A princesinha gostava de exclusividade e pagava um extra para que as companhias, ao voltar ao Rio de Janeiro, embarcassem para a Europa diretamente, sem nenhuma outra apresentação no Império do Brasil.
Os barões do café formavam uma aristocracia rural morando na província, que se dava até ao luxo de 'nobar um pouco a Corte, embora todo o café saísse por o porto do Rio.
A princesinha se preocupava mais com festas na cidade, em palacetes iluminados por lustres de cristal da Boêmia.
O vinho e a champagne eram importados, lógico.
Afastadas ficavam as imponentes fazendas com suas amplas casas-grandes ao lado de lagos e suas extensas filas de adolescentes palmeiras imperiais.
A cidade crescia e com ela um enorme contingente de serviços ligados ao comércio do café mas também por ser local de entroncamento das 'tradas e linhas da região, levando mercadorias, servindo viajantes e tropeiros.
Mercearias, 'talagens, hospedarias e pensões surgem sem parar.
Por trás de tudo isso, o trabalho 'cravo, que faz com que a cidade chegue a ter, em determinado momento (censo de 1851), num universo de 28 mil e 638 habitantes, um total de 19 mil e 210 'cravos.
Bem mais da metade da população.
Mas todo período de crescimento, por mais que dure, tem um fim.
E o preço por todo 'se fausto imprevidente foi caro.
A natureza, a primeira da fila, apresentou sua fatura:
a princesinha descobriu que cerca de 50 % de suas terras já não podiam produzir mais nada a não ser pasto.
Os 'cravos são libertos depois de várias insurgências que tiveram na revolta de Manuel Congo, 'cravo da região, um de seus líderes mais contundentes.
A produção do café na província de São Paulo, apoiada no novo braço do imigrante e com melhor tecnologia cresce continuadamente.
Finalmente, em 1894, a produção de café fluminense já 'tava em 20 % da produção nacional.
Enquanto a província foi poderosa, o Império brilhou.
Quatro anos depois ele se extingue com a chegada da República.
A princesinha, na virada daquele século, vê no comércio e nos serviços uma saída para sua sobrevivência, ao lado da agricultura mais diversificada, com produtos agrícolas variados, principalmente o tomate, mas também o milho, a cana, o arroz e o feijão, além do gado de corte e o leite.
A Estrada de Ferro Central do Brasil é o principal 'coadouro e 'pinha dorsal de 'sa produção muito mais modesta, porém mais diversa.
A crise internacional de 1929 contribui para abalar também a economia da região, seguida da revolução de 30 e mais tarde a Segunda Guerra Mundial.
Apesar disso, a princesinha atravessa a primeira metade deste novo século em relativa bonança com o surgimento de hotéis e novos moradores à procura de busca de novos ares mais limpos, longe da crise sanitária da Capital da República.
No entanto, ainda continuava em busca de sua nova vocação.
Os tempos eram outros e o antigo fausto e riqueza já se perdiam no horizonte quando, para além da metade do século 20, a Princesinha conhece um Severino cearense que iria modificar sua vida.
Era um militar e professor, formado na Escola Militar de Realengo, fascinado por a força da educação e dos projetos pedagógicos como instrumento de segurança nacional desde que era capitão e redator da seção de pedagogia da revista do Exército Defesa Nacional, em 1935.
Severino Sombra de Albuquerque, general de Exército, instala a primeira Faculdade de Medicina na região, em fins de 1969, atendendo principalmente a militares veterinários do Posto de Exército de Paty dos Alferes, cidade próxima.
Em o ano seguinte instala um Hospital Universitário e mais tarde 15 postos de assistência médica na zona rural.
Em 1975 se consolida a Fundação Educacional Severino Sombra.
Um grande campus é criado, outros cursos surgem na Fundação (História Social recentemente é um de eles) e a princesinha descobre sua nova vocação.
Alunos surgiam do Brasil inteiro para 'tudar na cidade, uma das primeiras universidades regionais do país.
O curso de Pedagogia agregou o maior contingente de 'tudantes de Santa Catarina de que se tem notícia.
Os aluguéis na cidade disparam e uma vaga para 'tudante era o preço de um apartamento no Rio de Janeiro.
Em os anos seguintes os médicos formados na Universidade trabalham nas cidades em torno mas moram ali, e suas famílias contribuem para o desenvolvimento da cidade.
Diz a lenda que uma parte considerável do comércio local de miudezas, lembranças e presentes, numa determinada época, era dirigida por mulheres de médicos.
A princesinha vive alegre em meio ao seu segundo grande período de crescimento.
Mas, já entrando no século 21, num mundo globalizado, com o crescimento das inúmeras demandas urbanas e populacionais no interior do desenvolvimento local, surgem novas questões a serem enfrentadas.
Com a facilidade para a abertura de universidades regionais em todo o Brasil nos anos posteriores a 1980 e principalmente nos últimos 10 anos, a Fundação, embora ainda forte e 'tabilizada, sofre um decréscimo considerável em suas matrículas vindas de outros 'tados, agora com muito mais alunos da própria região e grande parte de eles com menor poder aquisitivo.
A princesinha olha para seu futuro em busca de um novo consorte.
Dizem que ela 'tá namorando a Cultura.
Alguns acreditam, outros, acham que ela 'tá apenas «ficando».
Quem achou que a Cultura podia ser um bom partido para a princesinha foi o Turismo.
A antiga memória imperial se manteve preservada parcialmente na arquitetura das fazendas do café e nas construções do Centro histórico da cidade.
Isso só foi possível por conta de uma luta de 50 anos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -- IPHAN, com o tombamento do Centro Histórico em 1958 (e ajudado mais tarde por a lei que transformou a cidade em Estância Turística).
O seu Escritório Técnico, hoje instalado no Museu Casa da Hera, palacete também tombado, enfrentou cerrada oposição dos moradores na primeira década, mas teve enfim seu trabalho reconhecido com a atuação firme de sua diretora, desde 1984, a mestre em arquitetura Isabel Rocha.
A influência francesa, presente no Império, retorna agora com as idéias do Agroturismo, desenvolvido na França há mais de 40 anos.
Duas entidades foram criadas para se pensar o desenvolvimento sustentável do Vale do Paraíba fluminense, tendo como 'pinha dorsal o turismo.
O Conciclo -- Conselho de Turismo da Região do Vale do Ciclo do Café, e o Preservale -- Instituto de Preservação e Desenvolvimento do Vale do Paraíba, com foco nas questões do patrimônio histórico, cultural e ambiental da região.
As fazendas, algumas transformadas em hotéis e outras abertas à visitação, tentam fazer do turismo histórico-cultural parte substancial de seu novo negócio.
A princesinha ainda não tem certeza de sua nova posição, pois se agroturismo pressupõe responsabilidade sócio-ambiental, ela não parece 'tar disposta a sujar as mãos em 'ta jardinagem:
Segundo o Tribunal de Contas do Estado, enquanto as pastagens representavam 49,4 % do uso do solo, as florestas diminuíram sua área de 16,6 para 9,6 % segundo dados de 2001.
O assoreamento das colinas próximas é visível, e o desbaste por o fogo parece ser ainda uma prática comum.
O «mirante» do Morro da Vaca, próximo ao centro da cidade, mencionado nos folhetos como ponto turístico, é um descampado arenoso necessitando de vegetação e cuidados.
Se não há movimentos visíveis em defesa da questão ambiental, Cultura como fator de desenvolvimento integrado e participativo ainda é expressão confusa na cabeça da princesinha.
Para alguns, no entanto, não há opção melhor.
Ricardo Plastino, ex-Secretário de Planejamento da administração municipal anterior, afirma que só um Plano Diretor Participativo com um de seus focos na Cultura e outro na Educação poderá dar um novo sentido a vida da princesinha.
O próprio IPHAN, junto ao Programa Monumenta, 'timula iniciativas em 'sa direção como deixou claro no seu projeto de apoio ao Festival Vale do Café (principal iniciativa para o turismo na região) onde incluía entre seus objetivos resgatar as tradições culturais locais e integrar e valorizar a comunidade negra, através de um Núcleo de Apresentações e Palestras, um Núcleo de Cursos e um Núcleo de Tradições do Vale.
Além da arquitetura do século 19, para além da pedra e cal, o «Patrimônio Imaterial deve ser resgatado e incentivado», diz o projeto.
A harpista Cristina Braga, que junto com o violonista Turíbio Santos, teve a idéia do Festival, em 2003, fez questão, desde o primeiro momento de integrar, de alguma forma, as tradições populares ao Festival.
Mas, mais que integrar, há que fomentar e dar autonomia a 'ses grupos.
André Jacques Monteiro, 'tudante de História, Griô Aprendiz do projeto Raízes do Vale que congrega os grupos de tradição popular ao projeto Ação Griô de valorização da tradição oral, do Ministério da Cultura, tem batalhado em 'sa direção.
A administradora Celia Pinheiro Moreira e o maestro Claudio Pereira Moreira, o casal à frente do PIM -- Programa Integração por a Música, projeto chancelado por a Unesco que atende a mais de 800 jovens da região, e responsável por todos os cursos de música durante o Festival, percebem a importância de 'sa integração comunitária.
O jornalista local João Henrique Barbosa em artigo na Tribuna do Interior, jornal da região, aponta na mesma direção:
«Mais que business, o Festival Vale do Café já faz parte do coração e da alma de Vassouras.
É preciso ter vida longa."
Resta saber como a princesinha irá perceber e conciliar 'ses novos conceitos.
Parece não haver outra saída.
De outro modo 'tará condenada a vagar indefinidamente qual um 'pectro por os 'parsos bosques das cercanias, tarde da noite, envergando seu traje nupcial e com uma lâmpada na mão, como reza uma antiga lenda da cidade de Vassouras.
Número de frases: 76
Sem passaporte, sem bagagem e só com um punhado de reais no bolso, fiz minha primeira incursão a Cabo Verde.
Mas minha «viagem» não se 'tendeu além de Mesquita, na Baixada Fluminense.
Lá, fica a Associação Caboverdiana do Rio de Janeiro, que reúne cerca de 300 associados, imigrantes do país africano e seus descendentes.
Nunca antes ouvira falar sobre a existência de uma comunidade cabo-verdiano tão perto de casa -- para quem não sabe, Mesquita é um ex-distrito de Nova Iguaçu.
Descobri ao ler uma reportagem sobre a associação, que iria promover uma festa julina para comemorar os 32 anos de independência de Cabo Verde.
E lá fui eu.
Confesso que meus conhecimentos sobre Cabo Verde não eram grandes coisas:
um país africano, cujo idioma oficial é o português e, portanto, membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa;
além de ter lido algo sobre a invasão de sacoleiras cabo-verdiano ao comércio de Fortaleza.
Tampouco sou expert em Mesquita.
Essa cidade para mim era mais ou menos como aquele vizinho que você sabe que existe, cruza no elevador ou na mesma calçada de vez em quando, mas ignora quase tudo sobre ele.
Assim, dei mais voltas do que deveria para chegar à associação, que ocupa um imóvel simples, pouco mais que um galpão, no bairro Maria Cristina.
A o saltar do ônibus, graças à Lei de Murphy, segui na direção errada e as pessoas a quem pedi informações sabiam menos do que eu sobre a existência de uma associação cabo-verdiano no bairro.
Finalmente, após comer um pouco de poeira, trazida por um vento inesperado, localizei o endereço (Rua Magalhães Pinto 51, atrás da Supergasbrás).
Fui uma das primeiras a chegar.
Não havia nem sinal de festa julina.
Em a verdade, era um almoço comemorativo da independência cabo-verdiano, que também serviu para arrecadar fundos para a associação, que 'tá reiniciando suas atividades com uma nova diretoria.
A presidente Neusa Oliveira Silva (que me autorizou a divulgar seu telefone para contato: 21 9251-6609) 'tava no maior corre-corre, às voltas com os preparativos de última hora e não pôde me dar muita atenção.
Fui salva por o Seu Eduíno Soares Oliveira, um cabo-verdiano de 66 anos e que imigrou para cá em 1964, e apesar de ter morado quase 20 anos na Europa, sempre manteve residência fixa no Rio.
«Só voltei ao meu país em 2006, mas fiquei feliz porque meus amigos falaram que eu ainda tinha sotaque.
Não era que nem os 'tudantes que vêm pra cá, voltam depois de um tempo e já ficam falando brasileiro», contou, sem 'conder o orgulho.
Foi seu Eduíno quem começou a me tirar da ignorância sobre seu país.
Cabo Verde é um arquipélago formado por 10 ilhas, nove de elas habitadas.
A língua oficial é o português, mas há também o crioulo.
«O português é falado no trabalho e na 'cola.
Em casa e nas ruas, as pessoas falam crioulo», explicou.
Ele disse que as diferenças entre o português de Cabo Verde e o do Brasil são poucas.
Nada que dificulte muito a compreensão.
Mas, às vezes, rende histórias curiosas.
«Certa vez um navio brasileiro atracou por lá e um marinheiro quis comprar macacos.
Ele perguntou quanto era e o vendedor disse que eram dois sacos de farinha de pau por animal.
Ele voltou ao navio e encheu os sacos com pó de madeira», riu.
Farinha de pau nada mais é do que nossa farinha de mandioca.
Se a história é verdadeira ou história de marítimo -- profissão que ele exerceu até se aposentar -- não dá pra saber.
Enquanto conversávamos, as pessoas iam chegando -- e ocupando todas as mesas no salão.
A fila para comprar o PF (prato feito) do almoço cresceu rápido e seu Eduíno teve de ajudar a atender o pessoal.
A o seu lado, dona Maria Fernanda, uma portuguesa que conheceu no ano em que chegou ao Brasil e com quem 'tá casado há 35 anos -- se tivesse uma eleição para o Casal Simpatia, os dois teriam meu voto.
Ora pois, pois!
O cardápio era quase todo típico:
cachupa (canjica de milho, feijão, carne de porco, lingüiça, aipim), frigenote (canjiquinha de milho com miúdos de porco), modge (carne e legumes picados) e 'trogonofe de frango -- curiosamente, o 'trogonofe, única iguaria não cabo-verdiano, acabou primeiro.
Provavelmente, por causa do maior número de descendentes do que de nativos de Cabo Verde.
Para acompanhar o cafezinho, cuscuz de milho.
Milho e mandioca têm presença forte na culinária cabo-verdiano, talvez isso explique a maior identificação desses imigrantes com o Nordeste brasileiro -- de lá há vôos diretos para a capital Cidade da Praia, na Ilha de Santiago.
Aos poucos, fui descobrindo mais sobre 'sa ex-colônia portuguesa.
Cônsul Honorário de Cabo Verde no Rio de Janeiro, Pedro Antônio dos Santos, contou que seu país tem mais filhos no exterior do que em seu território.
A população residente lá gira em torno de 434 mil pessoas, enquanto 'palhados mundo afora são uns 600 mil cabo-verdiano.
Em o Brasil, eles se concentram mais em Fortaleza, São Paulo e Rio.
A prefeitura de Mesquita 'tima em 800 pessoas -- entre nativos e descendentes -- a comunidade cabo-verdiano no bairro Maria Cristina.
Já o cônsul calcula umas 50 famílias.
E eu, mais uma vez observando a Lei de Murphy, só conversei com quem mora no Rio ou em Nova Iguaçu.
Talvez a Neusa seja de Mesquita ...
não lembrei de perguntar!
Em todo caso, eles concordam num ponto:
a associação em Mesquita é a única regularizada que reúne cabo-verdiano no 'tado do Rio.
Mas por que eles 'colheram Mesquita para morar?
Em os anos 50 e 60, as terras no então distrito eram bem mais baratas do que na cidade do Rio.
Aí um se 'tabelecia na região e depois chamava um parente ou um amigo.
Assim, a comunidade foi surgindo -- e criando raízes.
Fundador da associação, seu José Alberto Oliveira, que imigrou para o Rio e tempos depois mudou para a Baixada Fluminense, falou sobre suas primeiras visitas à cidade:
«Todos os domingos eu vinha almoçar na casa dos amigos em Mesquita».
Por o depoimento de ele, dá para deduzir que a 'colha da área para instalar a associação foi mais uma questão econômica:
«O bairro era feio.
Tinha de ter coragem pra comprar terreno ali."
Já os jovens cabo-verdiano de hoje parecem não querer criar raízes no Brasil.
Estudante de engenharia elétrica na Universidade Santa Úrsula, Victor Rabindranah de Pina, de 26 anos, explicou que há poucos cursos universitários em seu país -- a formação em engenharia elétrica mesmo não era oferecida até dois anos atrás -- e por isso decidiu vir 'tudar no Rio.
«Você pretende se fixar por aqui?»,
perguntei." Não, assim que acabar o curso, volto para Cabo Verde.
Aqui é só para férias», respondeu de imediato.
Ele não é exceção.
Prestes a se formar em Direito, Rui Delgado já 'tá em contagem regressiva para embarcar de volta à terrinha.
Ele foi presidente da Associação dos Estudantes Caboverdianos no Estado do Rio de Janeiro (AECERJ) e hoje a comunidade 'tudantil no 'tado reúne cerca de 350 jovens.
Se o idioma facilitou a adaptação dos imigrantes ao Brasil, atrapalhou pelo menos num ponto:
o crioulo é raramente falado na comunidade do Rio.
Brasileira e filha de uma cabo-verdiano de São Nicolau, Neusa disse que só fala um pouquinho da língua de seus pais.
Seu Eduíno e dona Fernanda também não praticam.
«Acredita, falei mais crioulo quando morei na Holanda.
Aqui falamos português mesmo», afirmou dona Fernanda.
Há meio século no Brasil e desde 1964 morando em Nova Iguaçu, seu Luiz Rodrigues Pires, de 74 anos, reforçou o coro.
«Hoje não falo mais crioulo», disse, meio sem jeito.
Em 'ses anos todos, seu Luiz, que é primo em segundo grau do atual presidente de Cabo Verde, voltou a sua terra três vezes, mas nunca ficou mais de 30 dias seguidos:
«Sinto saudades daqui.
Em a festa, só ouvi crioulo duas vezes:
Victor, a meu pedido, e o cônsul Pedro Antônio, quando lhe perguntei sobre os idiomas do arquipélago.
A língua pareceu-me bem complicada.
«É uma mistura de inglês, 'panhol, francês e português», disse Victor.
E, na hora de anotar algumas palavras, preferiu ele mesmo assumir a caneta:
«Me o ki bus ta?" (
Como vai você?)
e " Es vida sta bai dreto?" (A vida 'tá boa?).
Ainda bem que ele tomou a iniciativa de 'crever.
Foi Victor também quem me explicou os ritmos musicais cabo-verdiano.
Nada mais natural, já que ele é professor de dança.
Tem a coladeira (mais agitada), a morna (para dançar junto -- «Lembra o bolero», disse dona Fernanda) e a funaná (quase uma lambada).
Pouco depois, vi Victor e mais alguns 'tudantes indo de um lado para o outro do salão.
Estavam articulando para conseguir uma televisão:
era dia do jogo Brasil x Argentina, decisão da " Copa América.
Verde pára em dias de jogo do Brasil», lembrei logo das palavras do cônsul.
E quando me preparava para sair, ouvi que na semana seguinte haveria a gravação de um documentário sobre a comunidade cabo-verdiano em Mesquita, na Sala Popular de Cinema Zelito Viana -- a gravação fez parte do Projeto Nossa Gente, da prefeitura local, que tem o objetivo de preservar e resgatar a memória cultural da cidade.
E, claro, lá fui eu de novo.
Depois de meu segundo encontro com os cabo-verdiano, na volta para casa, ainda podia ouvir os versos de Rui Delgado (abaixo), 'critos em homenagem à sua terra e declamados com paixão -- e saudades -- para o público no cinema.
E deu uma vontade danada de ir pra lá também.
Quando me vês
De traje diferente
Falando o crioulo
me perguntas geralmente:
És De Onde?
Eu sou daquela terra
cheia de morabeza
Sem minérios e sem riquezas
De aquela terra de mulheres com crianças nas costas
Cochindo milho, catando lenha ...
Eu sou daquela terra de Homens
Que todo o ano semeiam
Com 'perança de boa colheita.
De aquela terra sem miséria,
pois tem um povo de muita firmeza.
Lá não tem ouro, nem diamante
Não tem floresta nem selva
Mas tem vales, praias e tem montanhas
Tem músicos e brilhantes poetas
Tem morna, funaná e coladeira.
Eu sou daquela terra
Onde a paz reina e o amor queima
De aquelas ilhas do Atlântico
que nasceram quando Deus
sacudiu os dedos seus ...
e surgiu o meu país.