Eu sou de Cabo Verde!!!! Por Jefferson Pinheiro e André de Oliveira, da Catarse -- " Coletivo de Comunicação «O Chico Caruso, num debate aqui na UFRJ, disse que não sou cartunista, sou ativista. Que quero botar fogo no mundo, enquanto ele e outros cartunistas como Jaquar e 'sa turminha querem construir uma mídia democrática para o Brasil: Rá, rá. Queríamos a palavra do artista que tem sua obra exposta nos folhetos zapatistas no México, no muro dos campos de refugiados palestinos no Líbano, nas revistas dos sindicatos coreanos, nos livros bielo-russos sobre anarquismo e em tantas outras causas humanistas de peso na atualidade. Era preciso saber como ele encara toda 'sa influência do seu trabalho militante sendo negociado somente por o valor da imagem e das idéias que elas trazem. Mas ouvimos mais. Latuff, além de construir novos padrões de compartilhamento da cultura, assume o engajamento político como 'sência de sua arte. Chegamos até o cartunista Latuff para conversar sobre cultura livre, como parte de uma reportagem 'pecial para a TV Brasil. Uma versão da entrevista foi publicada no jornal Brasil de Fato, na edição de 20 a 26 de março. Aqui, ela 'tá na íntegra: http://agenciasubverta.blogspot.com/ 2008/03/ arte-engajada 27.h tml. Então, qual a tua arte, o teu trabalho? O papel da arte não é ser correia de transmissão de políticas reacionárias. A arte que vale a pena hoje é aquela que questiona exatamente 'ses modelos. Ela tem que te colocar na parede, tem de fazer você sentir. Não precisa ser o tempo toda engajada, mas falta arte engajada. Comparativamente, por exemplo, à época da ditadura, que você tinha muitos artistas que davam a cara para bater, que produziam arte de contestação no cinema, no teatro, na poesia, no desenho, pintura, 'cultura. Mas hoje, de acordo com o pensamento vigente, não existe mais necessidade de se levantar, de reagir, de questionar porque nós 'tamos na democracia. «Resistir só faz sentido quando você tem tanque na rua ..." É um ledo engano pensar a liberdade de 'sa forma, porque hoje se vive num sistema autoritário, de pensamento único, em que a mídia dita para você o que é ou não verdade. Democracia é o que tem lá nos Estados Unidos, que só dois partidos centralizam a disputa? Democracia é o Paquistão, porque os Estados Unidos apóia o regime? O governo norte-americano ao mesmo tempo em que diz que Cuba é uma ditadura, não se refere como ditadura ao governo do Paquistão, porque é pró-americano. Dizem que o Hamas ganhou as eleições legítimas, na Palestina. Houve observadores internacionais ... Mas eles são considerados terroristas. Depois do 11 de setembro foi foda, inverteu tudo. Então nem tudo pode ser arte engajada, porque senão fica chato. E nem tudo pode ser entretenimento, porque fica vazio. É preciso ter a combinação das duas coisas, que é o que não vemos atualmente. Hoje, é só entretenimento, e em ele já tem a questão ideológica colocada, só que de maneira subliminar ou lúdica. As pessoas não percebem. Normalmente, o cara que assiste Jack Bower ou Tropa de Elite é daquele tipo: «Ah, eu não gosto de política, eu não sou político». Mas já 'tá sendo cooptado sem saber. Tu acreditas no poder de transformação da tua arte? Eu questionava se a charge poderia ser, de fato, um agente transformador. Eu pensava: «Porra, mas é só um desenho na revista, num jornal, na internet. Um desenho não pára um míssel, não pára uma bala». Mas aí, conversei com um cara, em Gaza: «Vem cá, faz diferença meu trabalho para você»? Falou que sim, que dava ânimo para eles, levantava a moral. Aí ele me fez lembrar que um dos heróis do povo palestino é um cartunista: Najir Al Ali. Então pensei: «Caralho, é isso. Realmente faz diferença. A arte levanta a moral quando você 'tá na crise, é um tapa no ombro, é um afago na hora que você precisa». As pessoas precisam conhecer teu trabalho para que ele tenha 'se efeito, e até Gaza tem um caminho ... Qual é a relação que tens com tua produção, na questão da distribuição, do uso das imagens? Antes da internet, eu não tinha qualquer perspectiva de ter o meu trabalho exibido nacionalmente ou fora do Brasil, porque eu dependeria, teria de me vender para um grande truste de comunicação. Mas com a internet ficou plenamente possível a distribuição de 'sas imagens. Quando você cria uma página na internet, um blog, ou envia um desenho por e-mail para alguém, existe um fluxo, é o que se diz de processo viral. Eu achava que 'se fluxo se restringia ao mundo virtual. Mas aí é que vem a mágica do negócio: o sujeito vê aquele desenho na internet e tem a possibilidade de imprimir, reproduzir numa publicação. Fiz uma charge sobre o atentado contra Benazir Butto, e saiu em jornal de grande circulação lá na Turquia. Eles pegaram na internet. Assim como acontece com o Comitê de Solidariedade aos Zapatistas, que pegava os meus desenhos e reproduzia em posters, folheto, panfleto, numa camisa. Os comitês de solidariedade à Palestina, ao Iraque, fazem da mesma maneira. E, aí, fodeu, aí corre ... É um processo multiplicador. Eu não tenho controle sobre isso. É domínio público. E é isso que me importa, pois 'sas imagens apresentam uma visão diferente da grande imprensa burguesa e corporativa. São aquelas verdades inconvenientes que eles não querem que sejam vistas, mas a internet consegue quebrar 'ses bloqueios midiáticos. Então, para mim, como artista engajado, o copyleft é a melhor solução. Tu não 'tás preocupado se pessoas ganham dinheiro com 'sa liberdade de uso das imagens? Como é tua arte ser de domínio público, de se apropriarem de ela, mesmo que tu não saibas pra quê? Aí vem o ativismo. Só é possível fazer isso com vistas a uma questão político-social. Não é uma questão monetária que 'tá em jogo. Tem gente que usa 'ses desenhos para fins da militância, têm outros que são para embolsar, mas isso não é importante para mim. Por exemplo, a imagem do Che Guevara usando um kafia, aquele lenço que se coloca na cabeça ... Aquele desenho, independente de neguinho faturar ou não, o que importa é que ele 'teja rodando, 'teja vivo. Ano passado me mandaram uma fotografia de um campo de refugiados palestinos no Líbano e tinha 'se desenho (mostra a camiseta que 'tá usando) na parede. É isso que eu quero, que 'ses desenhos façam parte do ideário, do imaginário das pessoas, porque eles têm uma mensagem positiva sobre os palestinos que você não vê em lugar nenhum, porque o senso comum sobre os palestinos é que são terroristas, assassinos, fundamentalistas. Então, para quebrar o senso comum a melhor maneira, a que toca mais profundamente, é através da arte. Muita gente vai soltar foguetes quando eu bater as botas, vai abrir champagne no dia em que eu morrer. Se você procurar no Google por o meu nome, você vai ver gente que me ama e que me odeia. Em um site chamado Likudnik, em Israel, me ameaçaram dizendo que Israel já deveria ter cuidado de mim de um jeito ou de outro. Então, é sempre possível que alguém tome uma providência contra mim. Mas aí vem o exemplo do Najir Al Ali, que foi assassinado em Londres. O trabalho de ele continua rodando o mundo, o tempo todo. Isso é a vitória maior. E como é isso de também usar a arte para sobreviver? Tenho um trabalho paralelo que faço junto à imprensa sindical, desde 1990. Se construí uma carreira, consegui viver até hoje, comer, foi graças à imprensa sindical. Com meus pontos de vista, jamais poderia trabalhar na grande imprensa. A não ser que eu fosse uma 'pécie de Arnaldo Jabor, que me vendesse. Tem muita gente que tem um passado comunista ou de 'querda, que diante das «circunstâncias», do chamado do canto da seria da mídia, se vende. Franklin Martins era guerrilheiro, agora acho que é até ministro, né? Eu achava que ter um passado guerrilheiro era credencial para alguma coisa. Porra nenhuma! Que aí, os caras ficam velhos e viram a casaca fácil! como se 'sa coisa da queda do muro fosse a desculpa que precisavam: «Não tem mais a disputa ideológica de 'querda e direita ... os tempos mudaram ... agora é democracia». Aí, os caras abrem as pernas. E vai trabalhar onde? Em a Globo, para de repente bater nos movimentos que, no passado, ele tinha afinidade ideológica. E a gente ainda vive numa luta de classes ... Evidente! Dizer que não existe luta ideológica é conversa fiada. Agora, «tudo é mercado». É muito ruim, hein! Se fosse assim, bastava você pagar para ter publicado na grande imprensa qualquer conteúdo. Mas não é assim que a banda toca. Em 1999 eu queria fazer uns outdoors de uma exposição de charges sobre violência policial, com o título «A Polícia Mata». Eu tinha o dinheiro, mas a empresa de outdoor se recusou. «Ué, mas não é o mercado? Não tinha o dinheiro?" Essas censuras são permanentes, continuam. Não é oficial, como na época da ditadura, mas agora você tem a censura do mercado, que é baseada também em questões ideológicas. Eu lembro que a Cut tinha um 'quema para montar uma emissora de televisão, com 'túdio, tudo pronto, mas não conseguia a concessão. Como é que se dá concessão de rádio e TV? É uma questão mercadológica? Nada disso, é uma questão 'sencialmente ideológica. Mas tem sempre 'ses arautos do mercado, do liberalismo dizendo: «Não, caiu o muro, agora não tem mais 'querda e direita». Aqui que não tem! Neguinho bate no Chavez 24 horas! É uníssono. Não é possível que num país enorme como o Brasil, de norte a sul, todas as emissoras só batam no Chavez. Não pode haver 'sa unanimidade, tem de ter um contraponto. Até nos EUA, que são aquele monte de reaça, você tem contraponto. Sobre a guerra do Iraque, sobre a questão palestina, em Israel você tem o contraponto. E o que tu achas sobre 'sas pessoas que transgridem com o direito autoral para fazer circular mensagens? Tem um novo filme do Brian de Palma chamado «Redacted», que já 'tá na internet, devidamente legendado. Eu baixei e assisti. O Brian de Palma não tem trajetória de militância, é 'sencialmente um diretor hollywoodiano, comercial. Rapaz, 'se «Redacted» é uma porrada, um soco no 'tômago. Mostra os eventos que antecederam ao 'tupro de uma menina de 15 anos, a sua execução e da sua família por soldados americanos em Samara, no Iraque. Se você não sabe que foi o Brian de Palma que filmou aquilo, você vai dizer que é o Michael Moore ou qualquer ativista de 'querda, comunista. Fernando Botero, que não é artista engajado, é um pintor de galerias, viu aquelas imagens de prisioneiros sendo abusados em Abu Ghraib e resolveu fazer uma série de pinturas que incomodam as pessoas, e elas não 'tão à venda. A maioria das galerias dos EUA se recusou a exibir as pinturas. Ele, que sempre encheu o rabo de dinheiro com aquelas figuras rechonchudas, teve seu chilique. Então, mesmo que o sujeito não seja um ativista, se como artista, de vez em quando, comprar 'sas brigas, lutas justas, já 'tá bom. Que você não vê um puto de um artista fazer concerto por a Palestina. Diversas outras campanhas que você possa imaginar, eles fazem: Darfur, as baleias, aquecimento global, o caralho de asas, mas você nunca tem da Palestina. Eu 'pero que os artistas sejam tocados, porque a situação 'tá muito feia. As idéias fascistóides 'tão brotando do chão como erva daninha, 'tão ganhando 'paço, sendo bem recebidas por as pessoas. A grande mídia tem servido de alto-falante para 'sas coisas. É preciso voltar a incomodar, o que não 'tá mais acontecendo. Está todo mundo abraçando o pensamento comum: todo mundo só quer o entretenimento ... E a ideologia vai sendo colocada na nossa bunda no entretenimento, mas ninguém sente. É preciso que os artistas tenham um ímpeto guerrilheiro. Número de frases: 152 Um dia desses eu 'tava conversando com alguns amigos, e um de eles me disse que ouviu falar que popozuda significava mulher de bunda caída. A o ouvir isso, comecei a refletir (pasmo!) sobre a situação atual brasileira, e porque não, mundial. Será que as pessoas não sabem mais o que falam? Só repetem o que ouvem por aí. Imaginem só, uma multidão gritando empolgada: «Só tem mulher de bunda caííída, mexe demais!" Isso é, no mínimo, ridículo. Para confirmar meu abismo (conjugação do verbo «abismar» Eu abismo, Tu Abismas, e etc), numa das aulas de Sociologia da Era Virtual, analisamos a nossa era atual, dominada por o Tecnocentrismo (precedido do Antropocentrismo), onde conceitos como Tautologia, Hipertelia, Circularidade e Comutação, mostram o quanto que nossa sociedade é superficial e despreocupada com a significação (no sentido semiótico) dos termos. Estamos na Era do «Achismo». Hoje em dia, ninguém 'tuda mais nada profundamente, ninguém conhece nada profundamente. O simples fato de ler uma reportagem sobre fertilização de elefoas com óvulos de mamutes pré-histórico, já faz de qualquer pessoa, um profundo conhecedor de genética pré-história criogênica. E o que é pior, uma pessoa que lê 'sa reportagem se sente no direito de, no meio de uma discussão de bar, dizer: -- «Não! Vocês sabem que de fertilização de elefoas eu entendo!" E todos se rendem ao argumento de autoridade do interlocutor. Sem nenhum contra-argumento. Não 'tou nem falando dos erros e vícios de linguagem que vem se tornando cada vez mais comuns, inclusive dentro dos meios de comunicação de massa. «A nível de» já aparece em diversas publicações de livros (de qualidade duvidosa, mas ainda sim, livros), e o uso excessivo do gerúndio inunda os discursos de pseudo-intelectuais, cuja credibilidade permanece intacta, por a ignorância geral da população. Os poucos sobreviventes, sentem-se cada vez mais isolados, como em pequenas ilhas de conhecimento rodeadas por um mar de bundas, peitos e silicones protuberantes e descartáveis. Não é difícil ver uma pessoa ser discriminada por utilizar o português corretamente, numa conversa. Isso tudo chega a ser revoltante. Mas o pior de tudo é ver alguém reclamando da superficialidade da sociedade sem saber mais da metade dos termos que vomitou numa crônica. Aliás, eu nem sei se popozuda realmente é «mulher de bunda caída». Mas um amigo meu disse que ouviu falar que era. Número de frases: 24 Deve ser verdade. Jaqueline Porto Uma mistura dos arquétipos do rei e do palhaço, ou simplesmente um homem tipicamente brasileiro. Esse é Pedro Dinis Quaderna, paraibano, preso e acusado de subversão por o Estado Novo e personagem do romance A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna e adaptado para o teatro por o diretor Antunes Filho. Em cartaz no SESC-Tijuca, no Rio de Janeiro, até dia 26 de agosto. A história se passa no ano de 1938. Preso na cadeia da Vila de Taperoá, sertão da Paraíba, Quaderna narra, de forma pitoresca, as façanhas ocorridas até sua captura, julgamento e detenção. O arquétipo construído por Suassuna revela um homem de contundente complexidade, que através da própria história contextualiza o período histórico-cultural, social, econômico e político do Brasil na primeira metade do século passado. A montagem foi formulada a partir das obras: A Pedra do Reino, o Príncipe do Sangue do Vai-e-volta e História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: ao Sol da Onça Caetana. Em o palco, o cenário nulo representa a mente do protagonista. Em as histórias que conta, e com auxílio dos figurinos e adereços, ele materializa a história política da Paraíba e do nordeste coronelista da década de 30. A Coluna Prestes, o cangaço, a revolução, o início da Era Vargas, a cultura popular e o artesanato brasileiro formam o contexto social da peça. «O palco nu nos permitiu brincar com a questão do 'paço e do tempo, assim como Suassuna faz em seus livros, e com os poucos movimentos de luz a perfomance dos atores fica mais valorizada. Além de que 'se minimalismo realça todo o 'plendor barroco da obra, não sufocando ou poluindo as características do 'critor», explica Antunes. O desejo de montar A Pedra do Reino surgiu em 1983. Antunes começou a 'truturar o projeto sob descrédito de Suassuna, que dizia que o romance-armorial, de quase 800 páginas, não funcionaria no teatro. «Essa minha obra não dá teatro, não», afirmava o 'critor, enquanto o diretor investia ainda mais no sonho de adaptar a obra. Em a 'tréia, em São Paulo, Suassuna conferiu emocionado o resultado final da história de Quaderna. «Demoramos em torno de três a quatro meses ensaiando, mas antes disso gastamos meses testando atores do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) nos papéis. Sem contar a preparação e os ajustes de técnica vocal e corporal», conta Antunes Filho. Por os «causo» de Quaderna um universo lúdico e, ao mesmo tempo, sofrido é evocado. De as artimanhas praticadas por as 'tradas sertanejas às histórias grotescas e gloriosas que mesclam as misérias e tristezas do mundo real com a imaginação, alegrias e desafios de um mundo de sonhos. Antunes participou de cada detalhe da produção. A trilha sonora, orientada por ele, exibe poesias e músicas de Suassuna, interpretadas ao vivo por o elenco de 21 atores. «A principal referência foi o Quinteto Armorial e as sugestões do autor em relação às cantigas ibérico-sertanejas, além dos cordéis», conta. A encenação divide-se em dois atos. O primeiro é da exposição da prisão e o segundo inicia-se com a chegada do Juiz Corregedor Joaquim Navarro Bandeira, vindo da capital federal para julgar o caso de Quaderna. Começa o entrave que contrapõe as palavras, imagens alegóricas, motivações e delírios do preso à pressão do corregedor para obter a confissão. «Procuro pegar a linha de força da personagem. Sua síntese. No caso de Quaderna, apenas trouxe à tona 'sa idéia multifacetada do brasileiro, do próprio Suassuna, e talvez de mim mesmo. Porque não é o brasileiro só, é o homem. Aquele que carrega tudo dentro de si: o assassino, o santo, o rei, o palhaço, o picaresco e o amante. Temos tudo isso em nós e 'se inconsciente coletivo de cada indivíduo me interessa», relata Antunes. A Pedra do Reino SESC Tijuca -- Rua Barão de Mesquita 539 -- Tijuca Telefone: 3238-2100 De quinta a sábado às 20h e domingo às 19h Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada); R$ 5 (comerciários) Número de frases: 42 Até 26 de agosto Bebo como quem perde o trem. Fracassado, um resto de fila pingando de qualquer balcão, sem traço do orgulho tácito de se chegar a tempo e pegar um bom lugar. Meu deus, péssimo dia pra beber. Em o rádio ambiente não há conforto: «True colors» da Cindy Lauper, cantada por o cara do Gênesis ... pelo menos é o que parece. Mais uma vodka. Gosto de beber vodka com gelo e um limão 'premido; a saliva coalha na língua, como o faz uma completa falta de assunto. Ah sim ... álcool e falta de assunto, os pilares do Jornalismo. Uma olhada nos cadernos culturais que circulam por Manaus dá um belo exemplo disso -- da falta de assunto, porque o gosto de jornalista por o álcool já pertence ao senso comum. Quem já trabalhou em qualquer redação de jornal por aqui sabe que editorias de cultura são tratadas apenas como veículo de propaganda de festa e assessoria de imprensa para a Secretaria de Estado da Cultura (Sec), que adora bradar aos quatro cantos que foi a responsável por o reflorescimento das artes no Amazonas, mas que faz, na verdade, uma forte política de eventos -- grande parte sem qualidade ou proposta 'tética alguma -- que, no fim das contas, não vai deixar nada. Essa mesma falta de senso crítico da Pasta Cultural e da quase ausência de investimento em formação -- e não adianta ninguém da Sec querer dizer que o Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS) é uma prova de que o Governo banca formação de artista, porque aquilo lá é celeiro de voto de pais de alunos: o que interessa é oferecer o máximo de vagas com prejuízo óbvio para a qualidade do ensino -- também acontece nos próprios jornais da cidade. Com algumas exceções, quem vai trabalhar num caderno de cultura é quem não 'tá fazendo falta na seção de Cidades, ou quem pegou uma assessoria de imprensa e não quer ser demitido ou ferir a ética da profissão -- sim porque jornalismo cultural não é jornalismo. O resultado desse descaso é a transformação dos cadernos de cultura em colunas sociais e propagandas incensadas da arte canastrona mas amiga do chefe-de-redação. Não há uma nesga de senso crítico, e parece que a própria classe artística gosta disso, sente-se segura e intocável no provincianismo. Faz qualquer coisa, ganha a capa do caderno e tudo fica por isso mesmo. Não há discussão sobre políticas culturais -- ou a falta de elas -- ou sobre 'tética, nem uma pesquisa sobre movimentos artísticos alternativos. A culpa não é só do despreparo do repórter -- são poucos os jornalistas amazonenses que entendem e 'crevem sobre arte --, mas também de editores que não instigam o trabalho de ninguém e fazem cara feia para qualquer coisa nova ou fato que vá chatear fulano ou beltrano. Trata-se de um certo paradoxo, pois imbuídos do desejo de «popularizar» os jornais, muitos editores só se interessam em dizer em «primeira mão» o que todos já ouviram. Há um caso absurdo, que Nem se refere à cultura amazonense, relatado a mim por o jornalista Omar Gusmão, que mostra bem isso. Ele quis 'crever um artigo sobre a obra do Chico Science no dia em que chegou a notícia da morte do artista, mas o chefe de redação achou besteira dar destaque ao fato porque «ninguém conhecia Chico Science». Para provar seu ponto, saiu na redação inteira perguntando a um por um quem conhecia o artista, e para 'panto de Omar apenas ele e o editor do caderno o conheciam. Um ou outro disse «já tinha ouvido falar». De qualquer forma, mesmo que nem os próprios jornalistas soubessem da importância de Chico, que passassem finalmente a saber depois do artigo. O bom jornalista parece que é aquele que desistiu, sabe-se prescindível diante de um bom humorista em qualquer lugar. Os bons, que ficaram, são carne de pescoço: continuam se levando tão a sério que não 'tão fazendo galhofa quando se dizem os olhos da sociedade, os fiscalizadores das misérias, mazelas e mazorcas 'tatais ... besteira! Um jornal aqui pode publicar qualquer coisa desde que nunca deixe de trazer os classificados. Meu deus, onde 'tariam minhas putas, detetives particulares e necrológios? Mais uma vodka. Desta vez me traga uns amendoins. Talvez, se salgasse o céu da boca, chegava finalmente ao discurso impróprio; 'sa azia, coágulos nas papilas, bafo de coco verde vazio. A vodka era barata e perdi todos os trens ... meu discurso é um polegar tonto pedindo carona. Péssimo dia pra beber. Aqui, jornalista nunca toma partido, mas se filia ao PT. Número de frases: 41 Quando se pensa na presença de manifestações artísticas em locais distantes de regiões metropolitanas, logo o imaginário recorre àquela logística de municípios médios e pequenos fora do círculo de apresentação de grandes 'petáculos de teatro, dança e música. Apesar da visão aparentemente 'tereotipada, 'sa é a realidade da maioria das cidades do interior do país. Em muitos casos, a ausência de uma infra-estrutura adequada impossibilita a expressão da riqueza cultural conservada por os múltiplos povos interioranos. Manifesto-me do interior do Rio Grande do Sul, em Passo Fundo, a 300 quilômetros da capital Porto Alegre e a mais de 1 mil quilômetros do eixo Rio-São Paulo -- onde tenho a impressão de 'sa relação público-arte ser mais acessível. Mesmo intitulado de Capital Nacional da Literatura, o município de pouco mais de 180 mil habitantes poderia se encaixar perfeitamente na lista de cidades-negras do ponto de vista de expressão cultural. Porém, se as peças teatrais produzidas em centros como São Paulo, Janeiro e Porto Alegre dificilmente incluem o município no seu percurso, um movimento surgido ainda na década de 40 tenta fazer o percurso inverso: partir daqui, com elenco local, rumo a outras cidades do 'tado e até do país. Além de possibilitar a apresentação dos grupos de Passo Fundo em outras regiões, o desafio consolidou um público local apreciador de teatro -- algo inédito e considerado impossível para uma cidade de porte médio nos anos 80. O 'forço, concentrado principalmente em dois grupos, alterou a rotina da cidade e permite que mais de 50 atores, produtores, coreógrafos, entre outros, sobrevivam exclusivamente da segunda arte. Atualmente, é comum 'petáculos serem encenados com teatro lotado em plena meia noite -- eu pude comprovar mais de uma vez só nos últimos 30 dias. Ou encontrar atores pendurados em lençóis por as ruas ou praças invadidas por um ônibus-palco. Já conhecidos em vários 'tados, o Grupo Viramundos, mantido por a Universidade de Passo Fundo, e a Cia da Cidade, da Faculdade do Planalto, não só deram continuidade à tradição de bons 'petáculos produzidos na cidade lá na década de 40 como também profissionalizaram o teatro. Aquele 'tágio amador enfrentado no início acabou superado e, atualmente, nossos artistas deixaram de encarar os palcos como segundo plano para sobreviver exclusivamente de eles. Mesmo com uma história de mais de 60 anos de artes cênicas, 'sa fase de consolidação só veio recentemente. No caso do Viramundos, em 2005, quando a universidade contratou um grupo inicial de 10 atores, três técnicos e um coordenador administrativo e passou a pagar salários fixos -- antes, recebiam bolsas para auxiliar no pagamento da faculdade. Em sete anos de histórias sobre os palcos, o Viramundos elaborou cinco peças teatrais e protagonizou 531 apresentações para um público de cerca de 500 mil 'pectadores -- quase o triplo da população de Passo Fundo. Todas as encenações em cima do famoso ônibus-palco, que, por ora, transforma-se num cenário perfeito, e depois, um eficiente meio de locomoção aos artistas, equipe e equipamentos. A idéia é baseada num antigo grupo italiano. Em meio a números de apresentações e histórias, vale uma consideração de quem assistiu à maioria das encenações. Sempre gostei dos roteiros do grupo, principalmente por o forte apelo à contextualização histórica. O Viramundos jamais pulou a etapa de pesquisa, seja para compor seu figurino -- aliás, 'te sempre impecável -- ou o enredo coberto da mais pura comédia. Para visitar os mais de 184 municípios onde a trupe de Passo Fundo passou, o ônibus-palco acumula milhares de quilômetros rodados por as 'tradas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo Gerais e Distrito Federal. A trajetória do Viramundos iniciou com a peça «O Ferreiro e a Morte». Mais tarde, vieram «O Parturião», o polêmico» Timbre de Galo «-- polêmico porque, de certa forma, utiliza do tradicional comportamento do gaudério gaúcho para fazer piadas,» Fantoches», em homenagem a Erico Verissimo, e por último «Till Eulespingel», finalizada 'se ano. Admirador e envolvido com o teatro desde a adolescência, o diretor do Viramundos e também ator, Sandro Augusto Pasini, garantiu ser privilegiado por poder dispor de uma 'trutura e de um grupo de atores permanente. «Quem trabalha com teatro sabe da importância de encenar várias vezes a mesma peça para que ela fique cada vez mais afinada. Mas isso só é possível quando se tem um investimento como 'se. Passamos também a olhar o teatro sobre o ponto de vista econômico e administrativo», disse. Depois de falar sobre um dos grupos responsáveis por 'sa sonhada profissionalização do teatro em Passo Fundo, passo a relatar sobre o outro: a Cia da Cidade, 'se mais recente. No caso da Cia da Cidade, o grupo iniciou sob uma lógica mais administrativa, com a premissa de fazer arte e, através de ela, sustentar a equipe. Com base em 'sa idéia, uma trupe de atores já conhecidos por seus trabalhos na cidade montou uma empresa e firmou parcerias com instituições públicas e privadas. Recentemente, a Cia da Cidade completou dois anos e já produziu quatro peças, entre elas «Diário de um Bonitão»,» Psicose -- A Comédia «e» Onde o Diabo Perdeu as Botas». Em um bate-papo descontraído durante o ensaio, o ator e produtor do grupo, Beto Mayer, revelou que a equipe procura trabalhar as diversas linguagens do teatro, com a inserção de performance em tecido, malabares, trapézio manipulação de bonecos e contação de histórias. «Nós temos 'sa característica de valorizar todos os elementos que compõe o teatro. Em relação a 'sa questão econômica, o apoio de uma faculdade como a Faplan e outras empresas, juntamente com projetos paralelos, nos permite trabalhar exclusivamente com as artes», contou. Trajetória de três décadas Se Passo Fundo vive atualmente um momento completamente distinto de outras cidades com a mesma característica -- com dois grupos de teatro profissionalizados e outros dois no mesmo caminho, nada é por acaso. A relação dos passo-fundenses com a segunda arte surgiu ainda no início do século passado. Porém a história começou a ganhar proporções até chegar ao cenário de hoje na década de 60, quando nasceu o principal e mais duradouro grupo de teatro amador da cidade. Inspirados nas companhias de teatro que viajavam do Rio de Janeiro ou São Paulo de trem para se apresentar na cidade, um grupo de jovens, liderado por Paulo Giongo, funda o Delorges Caminha -- 'tranho, o nome é uma homenagem ao galã do teatro e do cinema nacional, cujo pai, Geolar Caminha, residia no bairro Boqueirão, um dos maiores aqui de Passo Fundo. Sinceramente, apesar de conhecer um pouco do grupo, nunca assisti a nenhuma peça. Quando cheguei a Passo Fundo para cursar jornalismo, há exatos quatro anos, o que restava da companhia eram apenas histórias -- relatos que contarei a diante. A primeira peça da Delorges Caminha, «Sinhá Moça Chorou», foi encenada no histórico Cine Real, extinto há mais de 20 anos, com a presença surpreendente na platéia ator Delorges, acompanhado da atriz Henrite Morinau. De lá até a última encenação do grupo, «Ciúme», em 1979, passaram-se 35 anos de atividades ininterruptas. Durante 'sas mais de três décadas, quase 80 peças foram produzidas, muitas apresentadas não só nos palcos gaúchos, mas também em São Paulo e Brasília. Aqueles poucos que lembram da história da companhia acreditam que o seu elenco era formado por cerca de 40 pessoas, entre médicos, professores, advogados, farmacêuticos e pintores. Em aquele passado, a maioria dividia o tempo entre trabalho, três horas diárias de ensaio no salão de um colégio da cidade e as viagens no final de semana. Para manter a 'trutura, como figurino, cenário e viagens, o Delorges usufruía apenas o dinheiro arrecadado nas bilheterias, além da comercialização de anúncios para um folder que trazia informações sobre a peça e o apoio de algumas (sem dúvida nenhuma, pouquíssimas) empresas. «Era um teatro amador em 'se sentido. Não havia a possibilidade de sobreviver apenas dos palcos. Fazíamos por amor à arte. Levávamos o Delorges e o nome da cidade para vários lugares do Brasil», Lembra Paulo Giongo, que dirigiu a maioria dos trabalhos, em entrevista depois de várias tentativas adiadas por viagens ou outros compromissos. Além de diretor, Giongo atuou muito como ator e não 'quece de algumas histórias daquela época. «Havia muitas situações inusitadas. Em Carazinho (município vizinho a Passo Fundo, situado a cerca de 80 quilômetros), por exemplo, faltando cerca de 20 minutos para iniciar a apresentação, o ator Gildo Flores caiu no alçapão e bateu a cabeça. Ele acabou levado ao hospital e ficou em observação. Como eu sabia todas as falas de ele, não tive alternativa a não ser subir do palco», recorda com gargalhadas. A partir do fechamento das cortinas para o grupo Dolores, em 1979, o diretor Paulo Giongo seguiu a sua carreira de farmacêutico e advogado, porém nunca chegou a se afastar completamente dos palcos. Hoje, diante de uma outra realidade, o ex-diretor e ator é um 'tímulo para a nova geração. «Olha, eu vejo com muita satisfação a profissionalização do teatro em Passo Fundo. Temos ótimos elencos e isso precisa ser valorizado», orgulha-se. O teatro dos anos 80 Se os anos 50, 60 e 70 consolidaram o Delorges Caminha como o mais importante do teatro passo-fundense, o grupo mal saía de cena e já surgia nos corredores de uma 'cola do município um outro para dar continuidade a arte na década de 80: o Alma Livre, considerado o grupo formador da maioria da atual geração de atores de Passo Fundo. Liderado por uma professora, o elenco nasce a partir de uma oficina de 'tudantes e se torna a principal referência de teatro na região. Diferente dos grupos atuais -- com um viés financeiro -- e do Delorges, o Alma Livre toma proporções a partir de um pensamento pedagógico, principalmente entre o público infanto-juvenil. Mas logo a turma rompe as paredes de uma única 'cola para chamar a atenção de alunos de outras instituições de ensino. Durante 'se período, os atores protagonizavam duas sessões diariamente, de segunda a sexta-feira, com cadeiras lotadas de 'pectadores, a maioria 'tudantes. Os jovens talentos da segunda arte recebiam tratamento de 'trela. Eles eram dispensados de algumas aulas, recuperadas posteriormente, e até adquiriram o direito de realizar provas em diferentes datas para cumprir agenda. como se não bastasse à formação de novo atores, o Alma Livre também se destacou por o pioneirismo no universo teatral. Aqueles apreciadores da época contam até hoje -- mais de dois me contaram somente para 'tá matéria -- que era comum ver os atores em bares da cidade interagindo com os clientes em pequenos 'quetes. A primeira trilha sonora ao vivo numa peça, por exemplo, com formação de bateria, violão teclado e percussão, também se realizou a partir do Alma Livre. Assim como os demais grupos, a sua atuação não se restringiu a Passo Fundo. Durante os seus 10 anos de atividades, rodou por o interior do Rio Grande do Sul. O curioso é que muitas de 'sas viagens foram a bordo do Opala Vermelho de uma das professoras responsáveis por a companhia, a famosa Desdemona Machado. Em a lista dos 'petáculos produzidos, destaque para «O Homem do Princípio ao Fim, de Millôr Fernandes». Encenada em 1992, a peça foi premiada como melhor direção e melhor 'petáculo gaúcho, inclusive com um pequeno 'paço de crítica na revista Veja. A professora incansável na batalha por mais grupos de teatros em Passo Fundo dedica-se ao teatro gospel atualmente. Ela ainda guarda as lembranças e as histórias curiosas daquele período. Uma de elas envolve a artista plástica Ruth Schneider, que empresta seu nome a um dos museus da cidade. «Uma vez pedimos que elaborasse o cartaz de uma das nossas peças. Ela criou uma verdadeira obra de arte e o pessoal do grupo não gostou. Fui voto vencido e tivemos que trocar de cartaz», brinca a professora durante rápida conversa. Não foram poucas as vezes em que ela retirou dinheiro do próprio bolso para ajudar no orçamento do grupo. Histórias de quem acredita no teatro passo-fundense, desde quando ainda dependia exclusivamente da vontade de seus atores. Assim, concluo 'sa matéria sobre a história das artes cênicas na pequena -- hoje um pouco maior -- Passo Fundo, desde o seu surgimento amador até a profissionalização. Para quem ainda não assistiu às peças do Viramundos ou da Cia da Cidade, fica a dica: até o final do ano, ambos os grupos retornam a se apresentar na região Sudeste e Centro-Oeste. Número de frases: 89 Produção de quadrinhos no Brasil. Incentivo, falta de incentivo (a discussão é a mesma como nas demais vertentes culturais). De repente uma oportunidade que se transforma em realidade: uma revista apoiada por uma lei de Incentivo a Cultura (poder público). E a pergunta parece inevitável -- verba pra quadrinhos!!? Antes que me recriminem corrijo o meu 'tarrecimento: não que o trabalho não mereça, acho que, como tantos (alguns) outros, merece. Mas a surpresa fica por conta de não ser comum o poder público destinar grana para os quadrinistas -- afinal de contas, na maioria das vezes, as políticas culturais são pensadas como atividades sociais para que o governo possa / consiga contabilizar politicamente em cima. E talvez os quadrinhos não (e nem sempre os quadrinhos) sejam o melhor investimento / possibilidade de angariar retornos políticos. E talvez o humor presente nas tiras não case bem com as podridões do poder público. E talvez alguns nem entendam. E talvez exista interesse em não querer entender porcaria nenhuma. E talvez ainda ... Cale-se! Cale-se! Cale-se! você 'tá me deixando louco!!! Pois bem, após o projeto ter sido aprovado, verba liberada, revista nas bancas, a surpresa geral no legislativo: Quem aprovou? Passou por as mãos de quem? Mas não viram os teores? E a câmara dos vereadores de Joinville (norte do 'tado de SC) se transformou num muro das lamentações: Foi fulano. Foi Beltrano. Chamem os responsáveis por a revista. Sessões e mais sessões. Ânimos exaltados.-- Mas o projeto não era 'se, não foi pra isso que nós demos verba (Tóin!). Pra encurtar o causo, a revista já 'tá circulando faz um tempo e continua volta e meia repercutindo aqui e acolá. Abaixo uma (pequena) entrevista com Paulo Gerloff, editor da Banda Grossa, onde ele fala um pouco, entre outras coisas, sobre o rolo todo. 1. Fale a respeito da revista (Banda Grossa), quem são os responsáveis por a edição? Os colaboradores? De quem partiu a idéia? -- A concepção embrionária era um fanzine, xerocado, sem frescura. Quem tava na roda era eu, o Luimar, o Rodrigo Damati e o Gui Neves, que eu juntei por a internet (eram de outras cidades e / ou 'tados) e havia empurrado a idéia da publicação. Aí o Luimar veio com um conceito mais ambicioso de fazer uma revista com referências e seções e já batizou a revista, porque acho até que ele tinha um projeto solo de fazer uma revista, mas que não levou para a frente. Deu que ficou um ano em 'se «vamos fazer a revista», mas ninguém tinha começado a produzir, procrastinando ao máximo. Aí foi-se perdendo contato, o Gui Neves já tava em outra e o Rodrigo Damati tava se dedicando à banda de ele. Isso quando surgiu o Edital de Apoio à Cultura, que inscrevemos sem muita 'perança. Eu e o Luimar acabamos assumindo a edição, com o Rodrigo Damati só colaborando. 2.O projeto (da revista Banda Grossa) foi aprovado por a lei de incentivo à cultura (administração municipal de Joinville), mais tarde deu toda aquela confusão em função do conteúdo da revista, comente um pouco a respeito?? -- Toda 'sa situação que a Banda Grossa sofreu foi um grande equívoco. A começar por o equívoco dos vereadores semi-alfabetizados, que confundiram quadrinhos com literatura infantil e nos acusaram publicamente de pedofilia (?), entre outras coisas. Depois, o equívoco da própria fundação cultural que não teve culhão de admitir que foi o projeto que eles aprovaram, onde entra um possível equívoco da equipe que analisou o projeto descritivo, que analisou mal e porcamente. E tem o equívoco de uma parcela da imprensa que não apurou os fatos e passaram umas duas ou três semanas cacarejando insultos pessoais diariamente, tendo comprado a imagem que os vereadores fizeram de nós, e principalmente de mim. 3. Depois de todo o rolo (depois de ameaçarem voltar atrás e retirar o patrocínio ou retirar a revista do mercado) em que pé 'tá a situação hoje?? -- Recebemos uma notificação judicial pra tapar as logomarcas da prefeitura com uma tarja preta. Depois fomos processados por, supostamente, não haver aviso de censura para menores. O bizarro é que, de fato, há 'se aviso de censura na capa. Esse processo já foi arquivado. Agora tá pra rolar um processo para a devolução da verba destinada para o desenvolvimento do projeto. Com isso eu não tô preocupado, o foda mesmo é ter que ficar queimando grana com advogado. 4. Como é que a revista 'tá circulando? Aonde 'tá chegando? E a aceitação dos leitores? A revista tá sendo vendida por o site e 'tamos recolhendo o refugo das bancas. Isso porque a número dois tá sendo produzida pra entrar na pista em dezembro ou janeiro. Agora tão tranqüilas as vendas por a internet, tem semana que vendemos duas ou três revistas, tem semana que não vendemos nenhuma. Em o ápice da nossa exposição na mídia por parte dos vereadores, em que aparecíamos tanto na tv, rádio, jornal quanto na página da UOL como destaque, vendíamos 20 revistas por dia por o site e as bancas venderam tudo rapidamente. Há lendas de que tinha nego oferecendo R$ 20,00 por uma mísera revista e outra que um casal de evangélicos comprou todas as revistas que 'tavam na banca. Espero que haja algum tipo de discussão daqui a uns 10 ou 15 anos sobre a Banda Grossa, com os leitores dizendo que são oldschool, que foram na festa de lançamento e presenciaram as strippers se chupando e enfiando velas acesas no rabo. 5. Mudando um pouco o foco, quais são as tuas referências? Elas se concentram nos quadrinhos / cartoon? -- Gosto de pensar que tenho influência do Robert Crumb, Angeli, Allan SIeber, RHS ou Marcatti nos quadrinhos, não só por a 'tética, o traço sujo, hachurado, mas também por a temática. Mas isso é complicado, porque sempre que dou entrevista, cito autores diferentes como referência. Há também os 'critores Charles Bukowski, Pedro Juan Gutierrez e Edward Bunker, que chamam atenção por a temática, disseca a sordidez humana com sarcasmo. Não sei se é isso que eu produzo, mas é isso que leio e o que me motiva. Deve ter mais coisa, mas a primeiro momento, não lembro. 6. Como é que tu foste parar em 'sa vida?? E como é a vida de cartunista / quadrinista no Brasil? -- Acho que o universo conspirou para isso. Em a minha infância eu vivia recluso, desenhando, trancafiado em casa. De aí pra vir a ser quadrinista, é só persistir no erro. Pô, vida de cartunista acho até comum, eu acordo, almoço, dobro, passo, lavo. É mais uma função complementar, porque ninguém enche barriga fazendo quadrinhos. Não em 'se país. 7. Fale a respeito da produção brasileira hoje? -- O mercado editorial é uma piada. Há pequenos grupos que fazem e editam como a revista Quase (ES), a F. (RJ), a Tarja Preta (RJ) a Mosh (RJ), Sociedade Radioativa (SP) entre vários outros, mas a tiragem é pequena porque o público ainda não se mobilizou, não se tem tradição na compra e leitura de quadrinhos. E 'sa situação é inversamente proporcional a qualidade dos trabalhos publicados. 8. Projetos futuros?? Outros projetos?? Onde mais tu colaboras?? -- Tô editando o fanzine Muco a 6 patas com o PabloMayer e o Diogo Cesar. Também temos um projeto de curta-metragem em animação, que tá em fase de pré-produ ção. E tenho uns outros projetos de revistas, ainda não desenvolvi direito, mas com uma proposta diferente da Banda Grossa. 9. Tem algo que tu gostarias de falar que não tenha sido comentado?? -- Tenho duas: 1º -- Comprem a revista Banda Grossa & 1 no site www.bandagrossa.com. 2º -- Não se enganem por as aparências, apesar de editar uma revista com uma abordagem sexual e herege, sou um católico fervoroso! Número de frases: 94 Enxergamos um mundo de imperfeições ou um belo e florido planeta, com canto de passarinhos e tudo mais? Vemos o «real» ou apenas a sombra de uma fogueira? A resposta eu não faço idéia, apenas sei que cada pessoa vê o mundo por meio das suas percepções e conhecimentos. O que vejo não é o mesmo que você. É claro que isso acontece quando ambos não formos portadores de necessidades visuais. Se mesmo «enxergando» existe muita diferença do que vemos, imagine quando se trata de uma pessoa cega desde os 10 meses de vida. Este é o caso de " Molly Sweeney. «Ela não é cega de nascença, então existe uma 'perança para que ela enxergue». Mesmo não sendo cega de nascença, Molly viveu toda a sua vida vendo no máximo vultos. A vantagem de ela sobre as outras pessoas é que a sua visão de mundo é muito mais particular do que a nossa. Ela sente o mundo por meio das suas sensações. Para enxergar a moça pega o objeto. Sente os seus entornos. Se for o caso cheira ou sente o seu gosto. Só depois disso ela saberá o que é 'te objeto. Já nós, que «enxergamos» normalmente, é bem diferente. Para nós é só olhar para o lado e 'tá tudo lá. Tudo já 'tá pronto, formatado. Precisamos apenas seguir o que já 'tá 'crito. São palavras e pronto. Não precisamos questionar. O mundo já 'tá todo denominado. Tudo já 'tá 'crito ou inventado, resta apenas re-inventar o já inventado. A história de Molly Sweeney foi 'crita por o dramadurgo irlandês Brian Friel baseando-se em fatos reais. Em o Brasil a obra foi adaptada para o teatro por o diretor Celso Nunes. Com o subtítulo «Um Rastro de Luz», a peça é encenada por Julia Lemmertz, Orã Figueredo e Ednei Giovenazzi. Em o palco três monólogos. Três personagens que contam a sua participação na história. Nenhum diálogo acontece entre eles. Cada um 'tá no seu 'paço e tempo. Vemos Frank Constantin, o marido, que viveu toda a sua vida tentando conquistar o absurdo. Agora ele sente que poderá finalmente ter sucesso caso 'posa volte a enxergar. Para o médico Peter Rice é a grande chance de recuperar a fama perdida. Caso obtenha sucesso na operação, a volta ao topo é uma questão de tempo. Temos ainda o monólogo da protagonista, que consegue transmitir as suas emoção até para os não cegos. Molly não tem certeza se quer «ver o mundo» com uma nova ótica, mas a sua vontade é a que menos importa. Celso Nunes consegue fazer todos «enxergarem» durante a peça. Em o palco, ao fundo, um olho cubista observa a platéia e demonstra as sensações da protagonista. Em o final fica apenas o vazio interior dos personagens. Não é um final feliz. Número de frases: 40 É um final nostálgico com uma bailarina daquelas caixinhas de música. Penso que, por gostar da sensação de 'tar viajando costumo dormir pouco nas embarcações, quando 'sa predisposição se alia à vontade de presenciar um nascer de sol mágico, o resultado só pode ser abrir os olhos antes da luz do dia. Estamos descendo o rio Negro há 20 horas, desde que saímos da cidade de São Gabriel da Cachoeira. Mais uma vez levanto pouco antes do sol, desmonto a barraca e coloco minha máquina fotográfica para trabalhar em mais um 'petáculo. Não é todo dia que vemos o sol nascer num 'pelho do tamanho de um rio com visual de mar, o resultado é a formação de imagens com exuberância digna de filmes bíblicos -- o leitor tem todo o direito de me julgar exagerado, mas com a devida licença que peço à sua eventual distração, note que a foto acima foi publicada de cabeça para baixo, sim ... onde você pensa que é céu, na verdade é puro reflexo. A claridade começa a levar pessoas ao terraço, nos andares de rede o movimento é grande nas pias que ficam nas áreas externas próximas aos banheiros, um grande 'pelho colabora na promoção de um curioso compartilhamento de intimidade para quem não 'tá acostumado em executar o ritual ao lado de desconhecidos. Alguns passageiros aproveitam para tomar banho, mas a expectativa 'tá em torno do início do café-da-manhã. às sete horas, mal chegam as garrafas térmicas nas mesas do primeiro e segundo andares e muitas pessoas já se dirigem para se servir, o café com leite já vem preparado com uma quantidade generosa de açúcar evidenciando uma característica no paladar do amazonense em bebidas e sucos -- muito açúcar. O restante da comida vai chegando numa bacia com pães que já vêm com manteiga, outra com ovos mexidos, bandejas com bananas, abacaxi cortado em rodelas e mingau de banana em copos descartáveis. Me servi e voltei para o terraço com sua incansável paisagem. à frente, o barco vai se aproximando de um rio dividido por várias ilhas que oferecem várias opções de caminho, 'tamos entrando em Mariuá, um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo. Entrando por o labirinto de água e floresta, os canais 'treitos permitem a visão de alguns pássaros e muitos «bichos de casco» (tartarugas, tracajás, etc.) que sobem para respirar e rapidamente desaparecem nas águas 'curas assustadas com barco, também é comum a aparição de botos tucuxi na superfície para respirar, mas conseguir fotografá-los é uma outra história por a imprevisibilidade e rapidez no movimento. A natureza domina e a participação do homem é resumida a alguns pescadores em suas canoas, ou na passagem de recreios ou grandes balsas com carga. A cidade de Barcelos Levamos três horas para sairmos do arquipélago e chegamos para uma última 'cala na cidade de Barcelos, numa parada prevista para trinta minutos, muitos passageiros ainda em trânsito descem em terra para telefonar a amigos e parentes. Outros aproveitam para fazer um turismo relâmpago por a cidade do peixe ornamental, atividade econômica tão importante para o município que originou a Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, um dos festivais mais visitados do interior do Amazonas onde, no último final de semana de janeiro, os grupos folclóricos dos peixes Cardinal e Acará-disco travam um duelo em moldes assumidamente clonados da festa dos bois-bumbás de Parintins. Olhando para a orla da cidade, alguns pequenos barcos carregados de fardos de piaçaba lembram outro produto cujo auge ficou no passado, embora sua exploração ainda persista sob modo menos acelerado. A buzina do barco avisa pela primeira vez que é hora de deixar a cidade, são três os toques até zarpar. Em frente ao porto, um homem tem a bicicleta cercada por passageiros, o tumulto só permite ver um «vai» de dinheiro, e um «vem» de garrafas cheias de suco que ele desamarra do guidom. Mauro Batista, 30, vende o vinho (suco) de bacaba, uma 'pécie de bebida-símbolo da cidade de Barcelos que produz em casa com a ajuda da 'posa e do filho. «Sempre que eu vejo ou me avisam que chegou barco eu vou lá em casa e trago para vender, nunca sobra», conta abrindo um sorriso, enquanto vende cada garrafa de dois litros por R$ 4 reais. Bacaba e amizade O barco buzina a segunda vez, momento em que uma passageira pergunta se tenho dinheiro trocado. «Eu 'tou no barco, mas não vai dar tempo de pagar dinheiro lá, você me empresta?», perguntou. Emprestei a grana, e assim ela se tornou a compradora das duas últimas garrafas fazendo a alegria do dia para Mauro. «A gente vai tomar depois do almoço», virou-se me convidando. Há uma da tarde, meia hora depois de sair de Barcelos, o almoço foi servido sem novidades, mesmo por que não parava de pensar no vinho de bacaba que iria provar depois. Estava curtindo uma sombra pós-almoço no terraço quando fui chamado por a minha nova amiga ao primeiro andar, e assim conheci a 'tudante de ensino médio Aparecida, a pedagoga Waldete e a 'tudante de radiologia Aldelízia, todas naturais de São Gabriel da Cachoeira e morando em Manaus. Conversamos muito sobre o festival da cidade, o Festribal, seus méritos e suas contradições saboreando aquele gosto incomparável e saboroso. «A gente come como açaí: puro, com açúcar, com farinha de mandioca ou farinha de tapioca», disse Waldete. De consistência grossa e certamente muito nutritivo, pensei que o suco de bacaba seria aquela carta na manga para o dia que as academias do sudeste cansarem do açaí, mas como duvido que isso aconteça, a bacaba continuará por muito tempo sendo apenas nossa, amazônica, e um prêmio para viajantes que nos visitam. Deixando o rio levar A partir das quatro da tarde, silenciei e deixei o segundo dia da viagem passar, o tempo fechou tirando o glamour do pôr-do-sol e deixando um suave tom azul tomar toda a paisagem até o cair da noite, condições que permitiram o descanso de minha superexplorada máquina fotográfica que enfim pode dormir seu sono stand by. De o Negro para o Branco Por volta das 23 horas, o rio ficou mais 'treito e sua cor mudou inteiramente, tínhamos entrado no rio Branco, turvo e levemente 'verdeado naquela 'curidão. Atracamos numa comunidade ribeirinha composta de nove casas perfiladas à margem, compondo o que poderia ser considerada a única rua. Foram embarcados algumas caixas de isopor e três passageiros, um de eles, um jovem aparentando 18 anos tinha a família acompanhando sua partida à margem. Depois de instalar-se, o jovem ficou a conversar e ouvir as últimas recomendações e piadas. «Vê se vai fazer a prova, não vai fazer filho pra trazer menino pra cá que já tem demais», diz aquela que parece ser a mãe, provocando uma gargalhada nos demais. O barco começa a sair, os familiares e as crianças se despedem. Em o grupo tem uma senhora, ela liga uma lanterna e direciona o foco para o rapaz, balançando, como um último afago luminoso no jovem que parte. Em a simplicidade daquela senhora talvez a melhor das sensações humanas de viajar: compartilhar dos sentimentos de alguém que se despede, ou da alegria de quem recebe. O gerador da comunidade 'tava em funcionamento permitindo a iluminação dentro das casas e o fascínio dos moradores por as televisões ligadas, em algumas comunidades, os aparelhos são distribuídos por políticos ou líderes que ganham em troca uma óbvia fidelidade eleitoral de populações que, apesar de isoladas, possuem sua sabedoria que no âmbito político sofreu distorções por o assistencialismo secular a que foram submetidas, massacrando sua criatividade e as distanciando do conceito de cidadania. Em o barco, a energia prega uma surpresa: um fusível queima calando a música alta e interrompendo o dominó. Mesmo sem luz até para focar o caminho, o comandante prossegue como uma volta ao tempo em que as 'trelas guiavam os navegadores no Amazonas (isso não é uma metáfora), e a lua, quando havia, fazia o papel de holofote. O tempo 'tá nublado e ameaça chover, à frente, o rio se une às nuvens pesadas em cinza contrastando com o contorno negro da floresta nas margens, e acredite, se o rio não tiver pedras encobertas no leito, a viagem pode ser feita tranqüilamente com 'ta visibilidade. Todos já 'tavam recolhidos quando a energia voltou, novamente montei a barraca no último andar do barco e fui dormir. Lembro da chuva ter me acordado com pingos invasores determinados, mas nada que sair e puxar tudo para a parte coberta do terraço não resolvesse. Depois que todos acordarem, faltarão poucas horas para chegarmos em Manaus. O que realmente importa Quando amanheceu 'távamos saindo de Anavilhanas, outro arquipélago de dimensões colossais no rio Negro. O tempo nublado mantinha a paisagem menos glamourosa, o que não diminuía o prazer de ir para frente do barco sentir o vento frio disponível na Amazônia apenas em ocasiões bem 'pecíficas como 'ta alvorada quase chuvosa. Um passageiro que fazia o mesmo virou-se para falar com mim. «Acho que quem vem de fora e viaja por 'te Amazonas volta com uma cabeça muito diferente», disse o 'tudante de processamento de dados, José Ronildo, 24. Ele continuou, «namorei com uma gaúcha que veio trabalhar no interior, ela me disse antes de voltar que aqui descobriu o que era realmente importante». Percebendo sua vontade de conduzir a conversa mantendo um tom enigmático, tentei levantar aquele véu com nossa conhecida «sutileza» jornalística. «E o que é importante?», perguntei. Ronildo felizmente não se deixou levar por a cretinice da minha objetividade. «Isso foi coisa da cabeça de ela lá, mas olha ali», disse ele apontando para uma típica comunidade, com igreja, 'cola e poucas casas. Lá seis mulheres lavavam roupas na margem, homens pareciam descascar mandioca numa casa de farinha, enquanto algumas crianças brincavam de se atirar no rio. «Tu pode até não saber falar, mas olhando para um negocio desse você sente», concluiu, enquanto decifrávamos aquela imagem que transmitia a paz de uma vida simples. Apesar da provocação eu já sabia do que Ronildo se referia, mas na minha tentativa de tirar de ele um modo de definir o sentimento que uma viagem por os rios da Amazônia desperta, apenas percebi reforçada nossa incapacidade de tradução. Senti que naquele momento minha viagem tinha acabado. Estava feliz, Anavilhanas ficou para trás e o Rio Negro ficou largo afastando seus detalhes dos nossos olhos. Concordo, o rio Negro quanto mais selvagem melhor; porque quanto mais selvagem, mais 'treito, e assim, mais perto de constatarmos o que realmente importa. Número de frases: 70 Dois dias inesquecíveis se passaram, agora era só 'perar Manaus aparecer no horizonte amplo e sem pressa deste presente chamado rio Negro. Eu vi e ouvi o canto mágico das mawacas em Aracaju. Já tinha ouvido falar das meninas, por Jorge, nosso amigo regente-filósofo que mora no Rio de Janeiro, há muitos anos. Certa vez, ele nos presenteou com o cd mawaca pra todo canto. Ficamos encantados. Mas até pensar que poderia vê-las e ouvi-las ao vivo em Aracaju, seria um tanto quanto eqüidistante, pensar em 'sa probabilidade. Pois bem, aconteceu. Ontem, dia 22, no Teatro Tobias Barreto, as sete mulheres entoaram seu canto inquietante dos povos do mundo, sobressalente ao infinito. Como que verdadeiras xamãs, as sete mulheres nos envolveram com sensibilidade tamanha, no seu caldeirão sonoro alquímico. E pensar que elas não poderiam não ser brasileiras. Como são tão belas e tão competentes, 'sas meninas. Que bom que pude ter 'se gozo alquímico. Me senti vingada de Mário de Andrade. O grupo paulistano (Mawaca), formado há mais de dez anos por sua diretora musical, Magda Pucci, uma das principais referências brasileiras em world music, interpreta canções em mais de dez línguas -- como 'panhol, búlgaro, finlandês, japonês, swahili, árabe, hebraico, ioruba e outras, o grupo recria e mistura a música ancestral de diversos países com a música brasileira. Coincidência poder assistir ao show do meu primeiro cd ganho do grupo. Acompanhei intensamente cada balbuciar das meninas, até ensaiei alguns «ais». Elas também dançam muito bem, com uma alegria inspiradora. Tá triste, vá ver o Mawaca, não tem como voltar para a casa do mesmo jeito. Se ainda não encontrar sensibilidade o suficiente, então, meu filho, não tem cura. Se seu 'pírito já for livre e leve, então é um gozo só. O show ' Mawaca Pra Todo o Canto ' traz a sonoridade das cantoras Angélica Leutwiller, Cris Miguel, Cristina Guiçá, Magda Pucci, Sandra Oak, Susie Mathias e Zuzu Álvares que as acompanha. O grupo instrumental acústico apresenta uma multiplicidade de timbres: acordeon, violoncello, flauta, violino e sax soprano, baixo, além dos instrumentos de percussão como as tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone, pandeirões do Maranhão e marimba. É muita gente no palco. Em sua discografia, as meninas lançaram os CD ´ s: Mawaca CD-Plus (97); astrolábio tucupira. com. br (2000); Mawaca-Remix (edição limitada Rock in Rio 2001); Os Lusíadas (trilha sonora 2002). Mawaca Para a Todo Canto (2004), o grupo apresenta temas que já faziam parte dos shows, mas que ainda não haviam sido registrados; é o caso de As Sete Mulheres do Minho, do compositor e poeta português Zeca Afonso -- faixa que conta com a colaboração do premiado baixista Célio Barros. Há também Ahkoy Te, dos Índios Gavião, que se encontra com a cantiga japonesa Hotaru Koi, numa perplexidade surpreendente. Já em Boro Horo, o grupo reúne, numa só faixa, uma diversidade ímpar de 'tilos: um canto das índias Tupari (Hirigo); um horo búlgaro (Bre Petrunko); e a canção de runa finlandesa Suuret Ja Soriat. De o terceiro CD -- trilha sonora da peça «Os Lusíadas» -- foram regravados dois temas: «Kali «oração à Shiva que se tranformou num rap indiano tendo a participação 'pecial de Ratnabali Adhikari e» Salam!" expressão muçulmana que significa paz, que ambientou, no 'petáculo, a chegada das caravelas portuguesas a Melinde. De a nova safra, o álbum traz Êh boi!, música do Norte recolhida por o poeta modernista Mário de Andrade. De gregoriano, transformando-se, na visão do Mawaca, num gostoso baião minimalista. Em Dendê com Curry, o grupo apresenta uma saborosa brincadeira musical com um ritmo indiano, acompanhado por pandeiro e tabla. Pra qualquer santo é baseada num cordel de Patativa do Assaré, cordelista do Ceará. O CD traz mais: temas hebraicos, como o animado Tango dos Chavicos, cuja letra, foi extraída de uma 'trofe do Cântico dos Cânticos, livro bíblico sui generis, considerado a mais sagrada entre as Sagradas Escrituras. De entre as novas, um hit nos shows: Acometado, um delicioso coco / maracatu de Susie Mathias em parceria com Oswhaldo Rosa, que diz: ' tudo 'tá fora do lugar, onde é que isso vai dar? ' http://www.mawaca.com.br Ai que delícia. Número de frases: 51 Rô Rocha Vi no jornal que haveria na cidade um Festival de Música Universitária. O primeiro a ser realizado em Palmas. Fui lá conferir. Em o jornal dizia que seria na sexta-feira, 23, às 20h. E eu acreditei! Cheguei às 20h30, pensando que 'tava atrasada, mas a primeira banda subiu ao palco às 22h. Antes que eu descreva o que rolou na festa da música universitária palmense é preciso abrir um parêntese para apresentar os organizadores do evento: Arnaud Júnior (ator e apresentador e também filho de Arnaud Rodrigues -- humorista que atualmente faz uma ponta na " Praça é Nossa "). E a namorada de Arnaud Júnior, a tocantinense Núbia Dourado (cantora pop, pré-selecionada para o global «Fama», universitária e, agora, promoter). Juntos, eles organizaram o show do DJ Marlboro, em abril, em Palmas. Voltando ao festival. Dez da noite, depois de muita enrolação e piadas de Arnaud Júnior, o compositor Sergius Prestes subiu ao palco e cantou uma moda sertaneja. Intitulada Um sonho, a canção romântica fez alguns torcerem o nariz na platéia: «O rapaz é corajoso de cantar assim num festival universitário», comentou a jornalista Gina Carla. Passou. Recebeu aplausos e quebrou o gelo para os próximos concorrentes. Léo Pinheiro jovem cantor que por 'sas bandas já foi conhecido como «Pinheirinho», ainda na infância em sua fase sertaneja, ousou e fez um misto de pop e rock na canção Visão da Paz -- letra de sua namorada. Boa presença de palco -- tanto que conquistou o júri levando para casa o prêmio de melhor intérprete. Mas quanto à apresentação musical, há controvérsias. Não sei se por dor-de-cotovelo ou por conhecimento empírico, mas o fato é que muitos artistas presentes na noite de sexta-feira disseram que Léo Pinheiro teria usado o play back no acompanhamento de back vocal, guitarra e bateria. Não entrarei em 'te mérito porque não percebi isso durante a apresentação -- talvez a interpretação de Léo tenha sido tão convincente que não notei, mas quem quiser falar mais sobre o assunto, o 'paço «comentários» abaixo deste texto 'tá aberto ao fórum. O festival segue. Foram 22 apresentações. As 12 melhores, na opinião dos jurados, serão incluídas num CD homônimo ao festival. O primeiro lugar ficou com o grupo cênico musical Trupe Atrupelo e a sua Rosa e a Bola de Fogo -- inspirada na literatura de cordel. Mais para o teatro do que para a música, o grupo trouxe à cena amálgama de forró, com xaxado e rock. A torcida era grande, com direito a faixas (" Trupe Atrupelo atropela a tristeza " -- dizia uma de elas), gritos e a mesma entonação. Só que num descuido, num momento de silêncio em meio à apresentação, um anônimo na platéia grita: «Vão para a Fecoarte». Explica-se: Fecoarte é a Feira de Folclore, Comidas Típicas e Artesanato do Estado do Tocantins, que também 'tava rolando no mesmo dia. A Trupe Atrupelo realmente se apresentou na feira, mas só no domingo. Em o momento do grito, nem a torcida se conteve e riu, porque, de fato, a Trupe parecia folclórica. Mais adiante, as faixas foram para frente do palco e a Trupe conquistou o restante da platéia, que aplaudiu bastante o 'petáculo. Quem zombou da banda teve que engolir o grito e admitir que ali 'tava sendo feito algo novo e bom. Colorida, entusiasta e cheia de alegorias, a Trupe Atrupelo somou 90 pontos extras, além das notas do júri. O primeiro lugar deu ao grupo o prêmio de R$ 3 mil. Com a segunda colocação ficou a banda Cripta. Com bateria, sax tenor, flauta doce, violão e com o intérprete Tiago, 'treante em apresentações públicas, ele agradou com o Palhaço triste. A música um tanto longa, é bastante reflexiva. Tiago foi um show à parte. Vestido de palhaço fez lá uma graça e agradou. Dramático, ele mergulhou na performance. E nos bastidores já se ouvia: «Ele tem que ganhar a melhor interpretação», comentou Gil Doliath -- guitarrista da banda Desconcerto e da Trupe Atrupelo enquanto deixava o palco. Não foi o melhor intérprete, mas faturou o segundo lugar e, de quebra, R$ 2 mil. Polêmica Antes que eu diga quem ficou em terceiro, faço uma pausa em 'ses dois quesitos. O motivo é polêmico, o corpo de jurados, formado por Cícero Belém, diretor da Cia. de Teatro Chama Viva e de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, o humorista e músico Arnaud Rodrigues, o diretor e produtor teatral, Marcelo Souza, o músico Camacho, e o cantor e compositor Orley Massoli, 'tá sendo questionado por as 'colhas feitas no festival. Como os dois primeiros lugares ficaram para bandas que apresentaram performances mais teatrais que musicais, e o festival se propunha a ser de música, o público, as bandas e os jornalistas presentes no evento começaram a se perguntar: por quê? A maioria apontou o óbvio, a presença de dois jurados ligados ao teatro, sendo que um de eles ensaia a Trupe Atrupelo, impediu a isenção no julgamento. Para pôr mais lenha em 'sa fogueira, cito aqui o que ouvi quando cheguei ao festival. Nitidamente, um dos jurados virou-se para o músico Marquinhos, da Trupe Atrupelo, antes da apresentação e disse: «Meu voto é de vocês», sendo cumprimentado por o mesmo. O circo 'tá armado. Bandas como a Desconcerto, que foi bastante aplaudida, não gostou do resultado e promete entrar com uma representação contra o festival. Já a Mestre Kuca -- selecionada para o CD -- diz que não vai participar do disco em protesto. «Não têm condições. Qualquer leigo que 'tivesse no festival saberia dizer que muitas bandas que ficaram de fora da gravação do CD mereciam ter ganhado e muitas que entraram não tinha a menor qualidade técnica», afirmou o guitarriasta da Mestre Kuca, Samuel Daltan. Para ele, apenas a Trupe mereceu o prêmio." Não tem lógica», categorizou. O Jornal do Tocantins engrossou a discussão publicando em 'ta terça-feira, 27, a repercussão com os artistas. Grande parte insatisfeita, a classe questionava os critérios de votação do júri. Outra parte dizia que a 'tudante da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Glacielle Torquato, merecia o prêmio de melhor intérprete por o Blues Azul. De fato a música era boa e Glacielle, experiente de outros festivais, fez uma excelente apresentação. Sua premiação era certa, a maioria dos veículos presentes até pegou entrevista com ela antecipada, para garantir. Mas não deu. Em entrevista ao jornal, Arnaud Rodrigues defendeu os jurados explicando que eles pontuaram de 0 a 10 os concorrentes nos quesitos letra, harmonia, melodia, interpretação, vocal e carisma e ainda listaram os três melhores, sendo que os primeiros recebiam 30 pontos, os segundos, 20, e os terceiros, 10. Rodrigues acrescentou que se as bandas quisessem reclamar que o fizessem antes, já que a lista com o nome dos jurados foi divulgada com antecedência. Mas a comissão mudou no dia do evento, mais precisamente poucas horas antes. Mesmo assim, aos descontentes e aos curiosos, as todas as notas 'tão disponíveis no DCE-Diretório Central dos Estudantes do Ceulp/Ulbra (Fone: 63 -- 3223-2002). Ia me 'quecendo, quem faturou o terceiro lugar foi o cantor Leonardo Torres, com a música Quimera. Uma crítica social de arrepiar. O 'tilo comove e, segundo o próprio músico, seria uma forma «de cantar um novo mundo, um novo negócio». Quem quiser conferir a lista de premiação 'tá abaixo. É importante frisar aqui que, apesar dos tropeços de organização, e da polêmica -- que na minha opinião até favorece o festival porque mostra a veia crítica do público -- a iniciativa é louvável. O 'paço para novas bandas e novos cantores foi aberto de fato -- e com democracia. Selando a festa, o cantor e compositor Nando Reis deu uma canja -- de mais de três horas de show -- no encerramento do evento, no sábado, 24. O show fechou com chave de ouro o festival, mas não abafou a polêmica que deve seguir durante 'ta semana, e render ainda notas e páginas nos jornais. Colocação 1º lugar -- Trupe Atrupelo (A Rosa e a Bola de Fogo) 2º lugar -- Cripta (Palhaço Triste) 3º lugar -- Leonardo Torres (Quimera) 4º lugar -- Melhor Intérprete, Léo Pinheiro (Visão da Paz) 5º lugar -- Beto Naves (Bruce Lee) 6º lugar -- Glacielle Torquato (Blues Azul) 7º lugar -- Ubirajara (Vou tentar) 8º lugar -- Vertical / Primo Itt (Coisa Alguma) 9º lugar -- Sinestesia (Mandala Alada) 10º lugar -- Nacotal -- (Já Era) 11º lugar -- Mestre Kuca (A cada história) Número de frases: 91 12º lugar -- Meu xampu fede (Ska da Praia) [[Reflexões sobre o boneco ' luladepelúcia ', do artista plástico Raul Mourão, inspiraram 'te texto.] Assim define o Aurélio: Pelúcia. S. f 1. Tecido de lã, seda, algodão, fibra sintética, etc., com um lado felpudo e outro liso, e que apresenta pêlos mais longos e mais ralos que os do veludo. 2. Pelugem, pêlos. Lula. S. f.. Molusco cefalópode, dibranquiado, decápode, lologinídeo, do Atlântico, de coloração amarelada com manchas 'carlates, podendo mudar de cor segundo o meio ambiente, corpo alongado, com nadadeiras triangulares do lado oposto à cabeça, provido de dez tentáculos com ventosas, dois dos quais são mais finos e alongados. Sua carne é muito 'timada nos mercados. E assim vamos. Sambando calados, num passo miúdo que 'conde a vergonha de não saber sambar direito. Um samba que atravessa, um caldo que entorna. E o caldo é quente, queima a pele. Como crianças que 'condem a cara depois de terem derramado o leite (ou o seria o caldo?) no carpete, corremos para o quarto, fugimos da responsabilidade. Me contem, me contem aonde se 'condem? Em 2006, Paris é uma quimera vã para quem vive embaixo do Equador. Afinal, cá não existe pecado. Não é assim que diz aquela velha canção do Chico? Tem uma nova do, também novato, grupo carioca Moptop que diz «você é tão Paris, eu sou um zé qualquer». Somos um monte de zés, zés quaisquer, não somos nem um pouco Paris. Um monte de zés que olham o grande Zé passear por aí, ir ao cinema, aparecer nas colunas sociais, 'crever um livro para capitalizar em cima do próprio crime, contando aquilo que não contou quando foi intimado. Ninguém intima o Zé. Cassar até cassaram, mas intimar já é demais! Afinal, o Zé é o Zé. Mas o Zé intima qualquer um dos zés aqui. Todos passíveis. O Zé, cê sabe coméque é ... O Zé é amigo e credor do Fidel. Tais quais os jovens que aparecem no documentário Falcão -- Meninos do Tráfico, de Mv Bill e Celso Athayde, o Fidel é o fiel do Zé, que é o fiel da lula, que é o fiel dos zés -- que somos nós. O fiel do Fidel era o Guevara, que morreu de tiro e que não tinha entrado na história. E assim como em Drummond, só resta a quadrilha. O Zé, cê sabe coméque é ... O Zé deu vida à grande lula que se movimenta no Lago Paranoá. E trata-se de uma lula das mais originais! Afinal, não é qualquer lula que dá em lago. Essa é a lula-da-cara-felpuda. Dizem que ela 'tá lá temporariamente, mas parece que ela gostou do ambiente e não quer mais sair de lá. Voltar ao habitat natural? Essa idéia a lula-da-cara-felpuda descarta. Essa lula era daquelas que já foram bem 'carlates, mas que com a idade deixaram a coloração amarelada se sobrepor. Os únicos defeitos que, aparentemente, 'sa nossa lula-de a cara-felpuda tinha era não ter o corpo alongado e só ter nove tentáculos, não dez, como é o normal na 'pécie. A nossa lula é meio manca. Mas ela se movimentava bem, com desenvoltura, encantadora como uma foca do Sea World ou como uma marionete de pelúcia. E as lulas, você bem sabe e o Aurélio explica, as lulas mudam de cor segundo o ambiente. E o Zé? O Zé, cê sabe coméque é ... O Zé, como grande ventríloquo que sempre foi, ajudava a lula manca a se articular. Mas o'zés ', todos os ' zés ', desde os mais reles zés até o próprio Zé, também têm a cara amarela. O amarelo tomou conta da lula 'carlate, que começou a 'palhar amarelo na cara de todos os zés. São as caras-pintadas 2006. Todas monocolor. Todas pintadas de amarelo. Amarelo. E não é o amarelo de Miró. As lulas, você bem sabe, as lulas mudam de cor segundo o ambiente. A lula-da-cara-felpuda é um animal que não se encontra muito, como já dissemos ... São raras e exercem fascínio no povo. Felpudas por fora, lisas e 'corregadias por dentro. Pelúcia tóxica. A lula-de a cara-felpuda é pop. A lula-de a cara-felpuda é capaz até de ganhar eleição no tal do brasil, ao sul do Equador, aquela terra sem pecado. Lá, tudo dá. Lá, pode até quebrar sigilo bancário de caseiro que ainda sim é democracia. Lá você pode governar por medida provisória, pode fazer caixa dois em campanha e pode até sambar na câmara de deputados. Lá ninguém é de ninguém, nada é de ninguém. Lá, lula lá. Lá o pessoal caga, mas não dá descarga. Pois bem. O Aurélio também diz que até o mercado adora a lula-da-cara-felpuda. Ela gera altas receitas para o mercado. Ela e o mercado são muito chegados, sabe ... Dizem que quando a lula era mais 'carlate, o mercado se borrava de medo de ela, mas que depois que a lula amarelou de vez, fez-se 'sa bela amizade. Só tem uma coisa que me intriga: o Aurélio também diz que a carne da lula vale muito para o tal do mercado e é isso que eu não entendo ... Se vale tanto, porque não fatiá-la e vendê-la em caras porções? Eu quero 'sa carne aqui. Cortadinha, em miúdos. Quero pagar pra ver se 'sa carne é boa mesmo. Vamos cortar a carne de 'sa lula amarela. Dizem que é o tipo de carne que se come frio. Ou seria a vingança? Mas pensando bem, não quero comer de 'sa carne. A pelúcia da lula é tóxica. A cara de 'sa lula, além de felpuda, é amarelada com o amarelo do cinismo, o amarelo de Franco, não é o amarelo do Miró ... É um amarelo-fosco, um amarelo pálido e cínico. E é 'te amarelo que tanto encanta o mercado. A pelúcia amarela já 'tá 'garçada de tanto se contorcer em situações 'treitas. Além de 'garçada, 'tá soltando 'sa tinta perigosa em cima de todos os zés. Abram seus guarda-chuvas! Mantenham-se a salvos deste mal! A tinta é tóxica. O amarelo da apatia e do cinismo! Há quem diga que a lula-de-cara-felpuda 'teve ameaçada de extinção há alguns meses. Bons tempos. Dizem que ela 'tá dando sinais de recuperação, que é dibranquiada e que quer usar 'sa segunda brânquia para respirar mais tempo. Acontece que a sua chaga já é uma praga. Precisa ser sacrificada para servir de exemplo, para não contaminar o resto. A lula-da-cara-felpuda, os mosquitos da dengue e as aves da gripe do frango precisam passar por isso para não 'palhar mais os seus vírus por aí. E não me venham com discursos ecologicamente-xiitas! Tem que abater! Faça sua parte! Não se anule. Assuma que também deixou o caldo derramar no carpete e a lula-da-cara-felpuda soltar sua tinta amarela por aí. Ajude a limpar. Guarde sua pelúcia no armário ou na sala para que ela continue lembrando o momento da sua ingenuidade, o tempo em que você falava com ursinhos e achava que eles te respondiam e gostavam de você. Eu quero guardar a luladepelúcia, felpuda e 'corregadia, na sala. Para olhar e lembrar do tempo da delicadeza, do tempo da pureza. E assim como um marco do holocausto, quero que fique lá para eu olhar e saber que nunca mais aquilo pode se repetir. Sugiro que faça você o mesmo: erga o busto da memória do seu próprio erro. Espalhe a luladepelúcia por aí. Eu sujei o carpete. Eu também derramei o caldo ... Mas 'tou aqui, com o rodo eletrônico na mão, 'perando o mutirão pra começar a limpar 'sa merda toda que a gente deixou por aí. De outubro não pode passar. * * * * * * * * * * Bruno Maia 'creve no www.sobremusica.com.br. Sempre votou no 13, mas hoje acredita que 'se número dá azar. Número de frases: 118 O 14º Abril para o Rock começou ontem, no Centro de Convenções, e já é a edição mais peculiar de todas. Sem muitos rodeios, 'te foi o ano com mais interesse da mídia por o evento e com menos interesse de público. O que leva pensar que muita gente, no fim das contas, não faz um bom show. Mas pouca gente definitivamente faz um show ruim. E o pavilhão nunca 'teve tão vazio. E isso nunca foi tão incômodo. Quem chegava ao Centro de Convenções percebia de cara a novidade. O pavilhão onde o Abril para o Rock acontece todos os anos 'tava fechado. Uma área menor fazia um «palco 3» logo na entrada, onde aconteceriam todas as apresentações da noite. Sim, 'sa foi a tal noite eletrônica. Depois de ela acho que dá para concluir duas coisas. Ou 'se público aqui é muito pequeno, ou ele não serve para nada. Porque às 23h, quando o Montage subiu no palco, não tinham nem 300 pessoas ainda para conferir o que seria uma das melhores apresentações da noite. Mesmo com uma 'trutura de som péssima que só rendia ruídos, Daniel, uma mistura de Brian Molko-David Bowie-Vive la Fete, roubou a cena com uma presença de palco para lá de divertida. A música não trazia muita novidade. É aquele eletrônico afetado, meio rock, feito com uma guitarra e um computador. Letras em português e inglês, que não fariam tanta diferença, não fosse o público já cantando elas de cor, colados no palco. Pensar em Internet é pensar que o público do Abril 'tá mais refinado e, talvez por isso, tão restrito. Quando a apresentação terminou de meia noite, o pavilhão continuava com o clima vazio. A disposição da programação do Abril para o Rock é bem engraçada. Este ano, o que eles têm de atração forte, ficou no meio e não no fim da noite. Em a sexta, pareceu que eles quiseram entregar logo as cartas, mostrar o que tinham trazido de melhor e pior logo de cara. Porque depois do Montage, subiu uma das 'colhas mais infelizes do evento, a dupla Kook and Roxxy. Supostamente alemã, já que a menina, a Roxxy, é daqui de o Recife. Com declarações de que «é muito lindo tocar em casa», a dupla não acrescentou muita coisa além de caretas na cara do público. O " Palco 3, inaugurado clandestinamente por o The Playboys ano passado, agora é oficial e também muito pequeno. A aparelhagem técnica tinha melhorado o som da dupla, mas o 'paço parecia pouco para a menina que não parava de dançar 'quisitamente no palco. Hora de lavar a alma, com o toque da meia noite no relógio e a dupla Stereo Total se organizando no palco. Não tem como negar um sorriso para a simpatia dos dois. Uma mistura de Walter Matthau com Kramer (do Seinfeld) e uma professora de colégio americano, mais o delicioso sotaque inglês (eles são da Alemanha) e uma hora de música O show mais legal da noite teve ainda o pessoal que 'tava na frente do palco subindo, tocando os instrumentos, dançando e cantando junto. Tudo num clima ótimo e bem divertido, desses para guardar como boa lembrança. Talvez por isso, pareceu demorar muito mais que a uma hora que teve de duração. Perto das mil pessoas, o Abril para o Rock chegava ao seu ponto alto. O que fez valer a noite. Diplo funcionou como uma 'pécie de divisor de águas da noite. Com a injusta tarefa de se apresentar numa hora, o DJ americano fez um set pra lá de misturado. Com o 'perado funk a remixes legais das velhas músicas de sempre. Divertido, mas naquele momento, a noite começava a ficar mais segmentada. Algumas pessoas já iam se afastando, cientes que não conseguiriam nada melhor que aquilo. Teria sido muito legal, não fosse a inocente idéia de Diplo de homenagear Chico Science. Desnecessário. Em os bastidores, o DJ, bem eufórico, disse que tinha sido uma de suas melhores apresentações. Não entendeu, no entanto, porque o público não tinha gostado tanto da homenagem que ele fez a Chico Science. Bem vindo ao Recife, Diplo. =) Quando o DJ Dolores entrou com seu bloco Mega Hits já eram três da manhã. Pouquíssima gente, um calor infernal. A idéia de Helder Aragão (alcunha que um dia foi o nome verdadeiro de Dolores) é muito, mas muito legal. Também é totalmente deslocada da noite do Abril para o Rock. Uma orquestra de verdade, da Bomba do Hemetério (um dos bairros barra pesada do Recife), tocando aqueles sucessos mais batidos de uma festa cansada. Depeche Mode com Eye of the Tiger (isso mesmo, a trilha da cine-série Rocky). Bizarro, o ator Mateus Nachtergaele, completamente louco, subiu no palco e tentou cantar (ou era recitar?) alguma coisa. Quando a noite entrou na reta final, já era dia. Quatro da manhã, João Gordo e Igor Cavalera no palquinho, Black Sabbath na caixa. A dupla fez o set hetero do Abril para o Rock. Som pesadão, com hip hop e muita guitarra. Mas depois da maratona, era preciso muita boa vontade para agüentar mais uma hora de música. Número de frases: 57 Pelo menos em 'se contexto bem irregular que foi o repertório da sexta-feira. Não, eu nunca vi um show de eles, mas porque eles nunca tocaram por aqui. E a resposta também é não, se a questão for saber se o disco de eles 'tá na minha prateleira. A razão é que eles nem lançaram a bolachinha ainda. Mas os sons em mp3 'tão no meu computador. Em a verdade tenho dúvidas, agora, de como 'sa história começou para mim: se com um daqueles 550 e-mails diários advindos de contatos do orkut me convidando para entrar numa das milhares de comunidades criadas ou apoiadas por os autores dos e-mails, os quais têm, freqüentemente, caráter de auto-proclama ção; ou com mensagens na minha página de recados do mesmo orkut, deixados por as pessoas ligadas direta ou indiretamente à banda. A verdade é que não era mais um recado descartável. Aquele tipo de coisa que, por a pessoa que envia, você já saca se vale a pena conferir. E no mais, para conhecer o som da banda bastava visitar 'sa página aqui. O fato é que não pensei duas vezes em clicar no link. E se já era fã do Wado e Realismo Fantástico e do Siri, tinha mais uma banda que conta com alagoanos para tocar na festa: O Fino Coletivo. Fino Coletivo. O nome pode não dizer tudo, mas já diz alguma coisa. É mais do que ' qualquer ' grupo musical. É, antes disso, um coletivo, o que se revela na própria dinâmica de criação e apresentação: começaram já com cinco compositores e quatro cantores, os quais se revezam nos vocais de músicas que têm no fino do samba seu ponto de partida, mas, nem de perto, seu limite. É um quase isso e mais que tudo que posso falar: pop com ambientação eletrônica, um disfarce de um samba torto. O resultado é música brasileira dançante, da melhor qualidade. Por enquanto, falta somente definir a gravadora. Questão de negócios, afinal, as propostas existem. Enquanto o material final não é comercializado, os músicos apostam mesmo é no aperfeiçoamento. Eu mesma já tenho uma três versões «melhoradas» de algumas músicas. E para incrementar ainda mais o negócio, o septeto virou octeto: as apresentações já contam com o VJ e DJ Lucas Margutti. Pois é. Em os shows, ta rolando telão, além da tal sintonia e embalo ao vivo que, infelizmente, ainda não conferi, mas segundo fontes seguras, é motivo suficiente para apostar na banda. O projeto musical surgiu na cidade maravilhosa, possibilitado por o deslocamento geográfico de três alagoanos (de nascença ou adoção): Oswaldo Schlickman, o Wado (hoje em São Paulo, depois de um retorno breve a Maceió), Alvinho Cabral (violão / voz), Adriano Siri (voz e teclado). Instalados no Rio, eles se juntaram a quatro cariocas: Marcelo Frota (voz e guitarra), Alvinho Lancellotti (percussão / voz), Daniel Medeiros (baixo / programações), e Marcos Coruja (bateria). A saída de Wado e Alvinho de Maceió teve como principal razão os contatos e os shows cada vez mais freqüentes da banda Wado e Realismo Fantástico (na qual Alvinho toca violão e guitarra) no eixo. Já Siri resolveu deixar o Paraíso das Águas na expectativa de outras possibilidades no campo musical. Em Maceió, tocava seu projeto solo, Cabeça Cheia, e participava do Santo Samba (cujo CD, apesar do excelente resultado, não foi lançado). «Olha só quem vem aí ..." Segundo Alvinho Cabral, tudo começou, como não poderia deixar de ser, de uma maneira informal, em ritmo de admiração mútua entre cariocas e alagoanos. «Foi quando eu, Wado e Siri viemos morar no Rio de Janeiro, num churrasco lá em casa, onde 'tavam também os amigos compositores Marcelo Frota, Alvinho Lancellotti, Daniel e Coruja tomando cerveja e tocando violão», conta. Então foram justamente desses momentos despretensiosos, entre cervejas e carnes e, claro, afinidades musicais, que veio a idéia da banda. Simples, comum, sem graça? e quem disse que a nossa proposta é contar a mirabolante história do início de uma banda cujos integrantes se conheceram quando 'tavam de mochila na 'trada pegando carona até chegar em Machu Picchu? E, aliás, o que pode ser mais interessante do que compartilhar entre amigos uma proposta musical, ainda mais quando eles realmente crêem no talento de cada um? será que compartilhar momentos informais não é o indício de uma sintonia que pode se refletir no trabalho comum? Se, para mim, a resposta não 'tivesse na música, não 'taria 'crevendo aqui ... Bom, mas tinha ainda uma questão a influenciar na formação do Fino: como também possuem projetos paralelos, a existência do coletivo serviria ainda, conta Wado, para " viabilizar uns shows no Rio e somar 'forços, forças e públicos. Um projeto para dar vazão às composições individuais e coletivas do grupo. Uma forma de celebrar as parcerias e afinidades destes amigos compositores». E, em pouco tempo, o Fino já 'tava na rua, fazendo seu nome através de propaganda boca-a-boca, internet, telefone ... Logo de cara (como quase tudo hoje em dia), ganharam comunidade no orkut. Há algum tempo, disponibilizaram músicas no site da Trama (aqui no Overmundo você pode conferir a «música de trabalho» Dragão). Mas a principal 'tratégia para divulgar o trabalho é mesmo mostrá-lo ao vivo, a cores e em sabores ao público (pois acreditamos em sinestesia). E desde o começo, a receptividade foi tão grande que, mesmo com pouco tempo de vida ativa, eles já tinham convites para tocar em vários lugares e até propostas para gravar " CD. «Já finalizamos a gravação das músicas, no 'túdio Arena, no Rio. As expectativas são as melhores. Devemos lançar nosso trabalho ainda 'se semestre, mas vai depender da gravadora», revela Alvinho Cabral. Uma das propostas de tocar fora do eixo -- que acabou não rolando -- foi de mostrar o trabalho no famoso palco alternativo do carnaval recifense, o Rec Beat. Em fevereiro deste ano, tocaram todas as segundas no Grazie a Dio, em São Paulo; e em fevereiro e março, agitaram algumas noites no Madame Vital, no Rio. Mas as propostas continuam surgindo, e em breve devem aportar por o Nordeste. Em os planos, Recife e Maceió. E uma raiz é uma flor / que despreza a fama ... Quanto à reação do público a um grupo novo, com composições próprias, os integrantes acreditam que têm sido a melhor possível. «Fizemos algumas apresentações no Madame Vidal, Baratos da Ribeiro e Circo Voador, a recepção tem sido melhor do que 'perávamos», conta» Siri. «O projeto é bem groovento, então o povo dança bastante», completa Wado. Para Alvinho Cabral, somente as apresentações que o grupo vem fazendo já têm garantido a conquista de admiradores. E, de fato, o som do Fino é daqueles que agradam de cara por as letras simples e poéticas, por os sotaques e por o balanço. Mesmo somente ouvindo o CD, é impossível não mexer os pés, os ombros, a cabeça, ter vontade de levantar e acompanhar fácil, fácil. Gratuito e verdadeiro, simples e eficaz, tal qual como o sorriso da musa de Siri em Sou seu fã, uma declaração rasgada, difícil de não cantar (e gritar) junto. Resultado das influências e da sintonia dos componentes, que, sem purismo, transformam o som numa festa cheia de sabor e ginga, partindo do samba e do groove e dando umas salpicadas de funk. Wado pensa ainda em «coisas de disco music e pós-punk misturados com samba». Outro fator que ajuda em 'se processo evolutivo é o fato do baixista Daniel Medeiros ser dono de um 'túdio, onde o grupo ensaia com muita freqüência, priorizando sempre canções inéditas. Daniel atua ainda como engenheiro de som do disco que 'tá por vir. A empolgação dos músicos com o resultado é nítida. «Eu tô meio deslumbrado com 'sa banda, somos compositores que têm uma ligação mental muito forte e conseguimos interagir de forma 'pontânea nas músicas», entusiasma-se Siri, que quer se dedicar integralmente ao projeto e até colocou de stand by o Cabeça Cheia, o trabalho solo ao qual nos referimos mais acima. A admiração dos integrantes por os trabalhos paralelos de cada músico também é 'cancarada. Wado já afirmou considerar «Siri» o melhor compositor alagoano da atualidade " (Siri é autor de Fafá, gravado junto com Tarja Preta por Wado em seu segundo CD, Cinema auditivo, e que foi para a trilha sonora do filme Contra todos e ganhou versão de Maria Alcina) e admira muito o trabalho solo de Marcelo Frota (cujo disco, Bom que vocês vieram, é belíssimo e pode ser baixado na Trama). Alvinho Cabral destaca a família Lancellotti como referência (seu xará é irmão de Domenico e filho de Ivor Lancellotti, parceiros na composição de algumas músicas da banda). E é justamente me utilizando de um trecho da bela canção de Alvinho e Domenico Lancellotti (Boa Hora) que encerro 'sa matéria: «Quem te disse que era a hora de partir? / hora boa é sempre hora de voltar». Pois é, ao invés de você ir embora de 'sa página desconfiado de que 'te é apenas mais um texto sobre música do Overmundo, 'cute o som. E se gostar, volte a ouvir, vá ao show, 'palhe a notícia. Afinal, eles 'tão chegando. Número de frases: 86 É (boa) hora de recepcionar. Em pouco mais de um ano a Editora Éblis chega ao quinto título dedicado à poesia Com a publicação de Passeios na floresta, de Ademir Demarchi, e Camisa qual, de Cândido Rolim, a Editora Éblis chega ao quinto título do seu catálogo, confirmando, em pouco mais de um ano de existência, a impertinência do seu projeto editorial: o gesto 'tético e crítico da publicação de poesia. Contra o pano de fundo do cenário literário contemporâneo, onde o provincianismo é muito ativo e o cult muito cansativo, os dois novos títulos reafirmam o rigor e a unidade do catálogo da editora: um time de poetas que encaram a criação poética como uma sempre confrontação com a linguagem, como um fazer frente à exaustão da linguagem, envolvendo a experimentação e a negação de clichês retóricos. Em Passeios na Floresta, Ademir Demarchi, paranaense radicado em Santos, sem receio do extravio, se embrenha por as vias imprecisas da floresta da linguagem, usando a metáfora de Paul Valéry capturada à epígrafe do livro. A partir daí, o poeta alcança a sua errância por meio de efeitos de cálculos, mapeando encontros imprevistos, aqui com Mr. Conrad (imensidão de água sob os pés / dentro do barco bêbado o mar no convés), ali com Nietzsche (pequenas nuvens no pasto ôntico e ótico) e acolá com o Sangue Ruim (caminhamos como sempre para o grande encontro / com o imenso Espírito-de-Porco). Em o extravio calculado, Ademir alcança, como Ulisses, a possibilidade de ter o que contar, em articulações inesperadas, a experiência da linguagem: não, não tenha medo não / pois o homem em guerra morre em vão / lançando setas sem osso ao caos / enquanto o sábio poeta deleita-se nos seios das sereias / e navega o acaso cantando as naus. Camisa qual de Cândido Rolim, cearense que viveu alguns anos em Porto Alegre, mas que recentemente voltou para Fortaleza, é um livro grave, onde na superfície árida da palavra o poeta afirma uma paradoxal emoção cética ao se (des) confessar: por dentro repleto / de outros travos / deixo que a simples / distração alcance / o razoável. Assim que, no poema que dá título ao livro, abre um irritado parêntese à cordeira 'tridência das patriotadas de domingo: e aquele um equatoriano / camisa algo que levou / o drible memorável aquele / o pano de fundo de / chão para a ubérrima 'tridência / nacional / ( ...) o quem mesmo? da 'calação / o zagueiro número de cobre às costas sem / classe = 2 desses não vale 1 nosso / com quem o craque / exaltável ao máximo não / troca a camisa / nem a pele. É em 'se rigor das indagações e no cuidado da forma que o livro de Cândido se faz e nada concede gratuitamente e nem sequer lhe ocorre / ser bom não livra / do risco de ser mal / interpretado. Com 'tes dois novos títulos, reafirmamos que os poetas e textos que pretendemos publicar são realidades e movimentos efetivos com os quais nos identificamos. Os queremos como nossos interlocutores. Com eles a editora 'tará bem acompanhada. Os valores da editora são os mesmos da tradição, isto é, inventar a tradição, ou as tradições, e, quanto às práticas: não desprezar as traições, os desvios, etc., sempre que a maturidade amortecida, ou a voz melíflua da consagração 'tiverem farejando nosso afazer e nossa afasia. Contra o pano de fundo do cenário literário contemporâneo, onde o provincianismo é muito ativo e o cult muito cansativo, marcamos e afirmamos uma posição centrada na lucidez de que a criação poética é sempre uma confrontação com a linguagem, é um fazer frente à exaustão da linguagem, e que seu resultado, o poema, o livro de poemas, é sempre inconcluso. São 'ses os valores da Éblis. Nossas práticas, por sua vez, se mostram na opção que a editora faz de publicar e pôr em circulação poetas que tenham presente, de uma forma ou de outra, a consciência da «dificuldade» da poesia, o que envolve a experimentação e a negação de clichês retóricos. De esse modo, a experiência da Éblis se constitui simultaneamente como investimento ético e como criação 'tética. Em 'te primeiro ano, experimentamos exatamente a compreensão de 'ta inequívoca co-relação entre ética e 'tética, na dimensão da fruição, do prazer, sem impostação. Assim, Éblis é irônica ao «fetichismo cult alternativo» e à poesia como «sorriso da sociedade». Não abrimos mão de problematizar a força de qualquer empreitada-arte, e isto parece interessante porque por meio de 'sa suspeição irônica nos tornamos mais aptos para compreender a arte e a poesia numa dimensão menos grandiloqüente ou menos 'perançosa em relação ao seu poder de fogo. Talvez, mesmo a revelia de seus pais fundadores, a editora Éblis venha a ter alguma importância frente à multiplicação libidinosa de 'sas visibilidades sem fundo ou das novas tecnologias e sua correlata insolvência. Mas isso foge ao nosso controle, pois o futuro pertence à Éblis. Nosso projeto gráfico já afirma uma 'pécie de vontade não-perdulária no que toca ao aproveitamento dos signos. Nossas capas revelam um gesto severo de calígrafo: uma 'tocada de nanquim sobre a folha branca. A recusa sob a 'colha. Ronaldo Machado & Ronald Augusto, Editores Sobre os poetas: Cândido Rolim nasceu em Várzea Alegre (Ceará) em 1965. Reside em Fortaleza. É autor de Fragma (Fortaleza: Funcet, 2007), Pedra Habitada (Porto Alegre: AGE, 2002), Exemplos Alados (Fortaleza: Letra e Música, 1998), entre outros livros. Tem poemas, resenhas e ensaios publicados em jornais e revista do país e na internet. e-mail: candidorolim@hotmail.com Ademir Demarchi nasceu em Maringá (PR) em 1960. Reside em Santos (SP). Doutor em Literatura Brasileira (USP), é editor de Babel -- Revista de Poesia, Tradução e Crítica. É autor de Os mortos na sala de jantar (Realejo Livros, 2007) e organizador de Passagens -- Antologia de Poetas Contemporâneos do Paraná (Imprensa Oficial do Paraná, 2002). Tem poemas, ensaios e resenhas publicados em jornais e revistas impressos e na internet. Número de frases: 47 noticia = 1109 Quando conheci Koellreutter, 'tava 'tudando análise em Londrina durante um festival nas férias de julho de 1994. Não sabia que tinha sido justamente ele a ter inventado 'se negócio de festival de música nas férias aqui no Brasil, entre outras contribuições. Eu não sabia nada de Koellreuter. Em a primeira aula, para uma classe de jovens compositores de todo o país que formavam uma grande roda no meio da sala de um colégio 'tadual em Londrina numa manhã extremamente fria, o mestre perguntou com naturalidade: «O que vocês fazem aqui?». Nossos olhos 'bugalhados, nossos dedos congelados, nossos ouvidos em dúvida. Fez-se um longo silêncio e alguém, ávido por destaque supôs ter a resposta: «viemos 'tudar análise, professor!». Já visivelmente impaciente Koellreutter retorna a pergunta: «Por que vocês vieram 'tudar análise?"; «Para que serve a análise?». Como ninguém se manifestava, visto que o desconcerto havia sido geral, Koellreutter lançou um último desafio: «Vão para casa pensar! Amanhã vocês me explicam o que 'tão fazendo aqui e assim poderemos começar com o curso! Adeus!" E saiu da sala. Ficamos ainda mais uns bons quinze minutos sentados 'perando alguma coisa acontecer. Para mim já havia acontecido. Em os próximos dias fui descobrindo quem era Koellreutter por intermédio de alguns discípulos que o seguiram até Londrina. Descobri que o mestre chegara ao Brasil em 1937 fugindo do Nazismo e organizara um movimento chamado Música Viva junto com seus primeiros alunos brasileiros, entre eles, os primeiros dodecafonistas Cláudio Santoro e Guerra-Peixe. Fui informado da intensa atividade deste grupo que, em pleno debate populista a respeito da necessidade de se produzir uma música de raiz nacionalista baseada em ritmos e temáticas consideradas brasileiras, ousou sugerir que música nova deveria ser concebida livre de qualquer programa. Descobri também que a noção de liberdade do mestre Koellreutter o fez opositor mesmo do realismo socialista proposto por os soviéticos como diretriz necessária para se realizar uma arte proletária. A 'se respeito li, perplexo, a Carta aos músicos e críticos do Brasil 'crita por Camargo Guarnieri em 1950, contra o mestre, onde o nacionalismo brasileiro de raiz stalinista finalmente mostrou suas verdadeiras intenções ao se referir ao perigo da música dodecafônica, vista como uma música degenerada, numa autêntica recaída fascista de nosso nacionalismo de raiz comunista. Em sua resposta, Koellreutter lembrava o óbvio: o dodecafonismo não passa de uma técnica ... não se trata de um gênero nem tampouco de uma 'tética. Tal peleja, de maneira inacreditável, perdura até os dias de hoje. Um compositor para conseguir cair nas graças da elite, basta 'crever uma sinfonia com ritmos regionais. Qualquer outra atitude poética ou 'tética acaba sendo considerada uma heresia. Descobri que Koellreutter, no decorrer de toda a sua vida, não só foi um herético genial, como formou praticamente toda a vertente herética da música brasileira. Com o grupo Música Viva, orientou a geração de compositores que veio a orientar os signatários do Manifesto Música Nova no início da década de 60 (Gilberto Mendes, Rogério Duprat, Damiano Cozzella, Willy Correia de Oliveira, etc); com a invenção dos cursos de férias, em São Paulo e na Bahia, formou, entre outras coisas, toda a geração dos tropicalistas; A geração dos signatários do Música Nova, por sua vez, foi tutora de compositores e grupos vinculados à ECA-USP, como Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, Premeditando o Breque, Terço, Luis Tatit, no campo da música popular, e Silvio Ferraz, Flô Menezes e Denise Garcia, no campo da música eletroacústica. Ou seja: mesmo que algum compositor não tenha tido aulas diretamente com Koellreutter, com certeza, se 'tá envolvido com a criação de música nova, foi orientado por um ex-aluno do mestre. Puxa! pensei: como alguém tão importante para a música brasileira pode permanecer tão oculto, mesmo em São Paulo? Nunca tinha ouvido falar de ele. Quer dizer, já conhecia seus livros de Contraponto modal do séc.. XVI e de Harmonia Funcional, mas não tinha idéia do alcance de suas propostas. O caso é que Koellreutter sempre se recusou a cantar afinado com o coro dos contentes. Não por querer dar uma de arauto da dissonância ou do experimentalismo, mas porque, para ele, a atividade musical deveria ser, 'sencialmente, uma atividade libertadora. Essa atitude representava, e continua representando, para a Instituição Música Brasileira um constrangimento, visto que seus compositores preferem seguir o seguro caminho proposto por a tradição. Toda proposta alternativa é logo taxada de excêntrica, inócua, ou mesmo inconseqüente. O experimental foi sacrificado em favor do tecnicismo. O risco, em favor de uma segurança 'téril. Koellreutter, ao contrário do que possa sugerir a sua opção por o experimental, pregava que, num futuro próximo, a música que não fosse funcional, deixaria de existir. Com tal declaração, o mestre experimentou críticas diversas. Alguns adornianos logo o acusaram de 'timular o culto à Industria Cultural entendendo que o mestre defendia a pasteurização da música. Koellreutter se referia à derrocada iminente de uma realização musical voltada para a simples e pura contemplação a portas fechadas, em favor de algo mais afim com a forma como os homens no mundo real fazem música: para exercitar sua própria humanidade através do câmbio de 'tímulos sonoros dentro de eventos sociais interativos. O caminho da música nova seria, portanto, o caminho de uma música de caráter coletivo onde os conceitos de autoria, intérprete e fruidor acabariam re-definidos e as prerrogativas de uma elite musical se tornariam, pouco a pouco, prescindíveis. Tais preceitos fazem parte de um imenso pacote de idéias exposto no decorrer de muitas décadas a respeito de um fazer musical mais afinado com as necessidades 'tético-sociais da América Latina. Talvez os primeiros tratados do que poderíamos chamar de uma Prática Musical do Oprimido, só para citar a afinidade do mestre com os trabalhos de um outro herege genial chamado Paulo Freire. Além de todas 'tas heresias, Koellreutter cometeu o pecado de, num país como o Brasil, ter nascido na Alemanha (em Freiburg). A elite brasileira nunca poupou saliva ao taxá-lo de 'trangeiro. Em 'se sentido não deixa de ser irônico que o mestre tenha se tornado compositor depois de adotar a nacionalidade brasileira: isso significa que ele é um compositor brasileiro desde o seu Op. 1, e, considerando os anos em que viveu e se dedicou a 'te país, fora a década em que trabalhou por o Instituto Goethe na Índia e no Japão, possuía uma vivência dos nossos problemas muito maior do que muitos de seus críticos. Hans-Joachin Koellreutter, compositor, regente, flautista, ensaísta, educador musical, agitador cultural, faleceu ano passado, dia 14 de setembro de 2005, em São Paulo, aos 90 anos, em consequência de um ataque cardíaco. O mestre, já há quase oito anos, sofria do Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa que eliminou sua memória aos poucos. O silêncio da imprensa brasileira sobre sua morte me parece um sinal de que vivemos uma fase preocupante: varremos para baixo do tapete da história aquele cuja atuação deixava nua a nossa falta de iniciativa diante do que poderia ou deveria ser feito para que saíssemos da condição de indigência cultural voluntária em que 'tamos envolvidos até hoje. Talvez agora, consciência pesada, achemos por bem divulgar seus trabalhos e adotar suas idéias como possibilidade, ao menos dentro da academia, lugar onde suas idéias nunca vingaram por preconceito, despreparo ou puro plebeísmo. Koellreutter foi a figura mais importante da história da música brasileira nos últimos 60 anos. Ponto. Teremos dado um enorme passo à frente quando tivermos compreendido isso. Não sei para onde foi o mestre após a sua morte. Sua visão religiosa foi sempre um mistério. Certa vez lhe perguntei se era católico e ele respondeu com um sorriso terno «também». Costumava despedir-se de mãos juntas e com um baixar de cabeça ao 'tilo dos indianos. Isso não diz muito sobre sua religião. Significa: o deus que habita em mim reverência o deus que habita dentro de você. Isso é apenas ... Koellreutter. Número de frases: 73 Teatro em «Mato Grosso» ... «hoje» ... do Sul O jogo de 'pelhos, do olho a olho, do corpo a corpo entre palco e platéia, constitui algo único e insubstituível. A partir de 1914, com a chegada dos trilhos da Noroeste do Brasil a Campo Grande, possibilitando a ligação entre Bauru e Porto Esperança, companhias de São Paulo e do Rio de Janeiro vinham com relativa freqüência a Campo Grande, Aquidauana e Corumbá. Em os anos quarenta, cinqüenta e sessenta, nenhuma grande companhia visitou Mato Grosso do Sul. Os filmes eram precedidos de um «complemento nacional educativo» e dos traillers dos lançamentos da semana. Ali, com no Cine Ouro Branco, de Dourados, aconteceram os já conhecidos 'petáculos da primeira metade do século, realizados na base do entusiasmo e da improvisação. A inauguração do teatro Glauce Rocha, em 7 de novembro de 1973, no campus de Campo Grande, da então Universidade 'tadual de Mato Grosso representou uma conquista para a arte e a cultura local. O Glauce Rocha tornou-se o centro dos acontecimentos relevantes do Estado. Em 19 de outubro de 1989, é inaugurado, com a presença da homenageada, no primeiro andar do Centro Cultural José Octávio Guizzo. O teatro Aracy Balabanian. Com exceção do Aracy Balabanian, há mais de vinte anos não se constrói um teatro em Mato Grosso do sul. Os municípios do interior vibravam de alegria, com a chegada dos trapezistas, dos palhaços, dos acrobatas, dos animais ferozes, que desfilavam por as ruas, convidando ao riso, à fantasia. O circo-teatro funcionou como 'paço do entretenimento, da improvisação, tanto para os atores, como para o público, desde o início do século, até o advento da televisão. Os textos, traduzidos do italiano e do 'panhol, versavam sobre acontecimentos históricos ou casos da vida cotidiana e visavam à educação de hoje, o teatro constituía o grande acontecimento social da época. Os alunos do Colégio Dom Bosco, dos anos quarenta lembram-se com certeza dos dramas e comédias encenadas por José Alberto Veronesi; apelidado carinhosamente Mata Onça, ou das festas organizadas por o Padre José Valentim. A ideologia do autor 'tá patente nas peças Educação Moderna e Último Pelotão. São praticamente inexistentes os registros sobre o teatro amador encenado antes dos anos sessenta. As maiores referências acham-se na revista Folha da Serra, 1940. Uma pesquisa acurada nos jornais, tanto da Capital, quanto dos municípios, forneceria maiores informações, que ajudariam a reconstituir a memória teatral do Estado. De forma sistemática, no sentido de um trabalho contínuo, o teatro em Campo Grande afirma-se com a criação dos primeiros cursos superiores. De ele fizeram parte alunos das Faculdades Dom Aquino, das Faculdades de Farmácia e odontologia, de Direito e do terceiro científico do Colégio Estadual Campo-grandense, dispostos a encenar peças, que abordassem a realidade social brasileira, num tempo em que o teatro sofria forte pressão do serviço nacional de censura. As três primeiras peças do TUC: ARENA Conta Zumbi, Liberdade e Morte E Vida Severina, denunciadoras da situação, por que o País 'tava passando, foram objetos de severa vigilância por parte da Censura, que 'teve presente em todas as 'tréias, tanto na Capital, quanto nos municípios, ameaçando a direção, quando algum dos atores saía fora do script. Para isso receberam apoio financeiro dos prefeitos da época. Em agosto de 1970, o TUC fez sua última apresentação nas comemorações do aniversário da cidade. A peça foi DIADORIM Meu Sertão, adaptação do livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, feita por os alunos do terceiro ano de Letras da Faculdade Dom Aquino: Arlete Machado lves, Maria Jerusa Rodrigues e Ismael Xavier de Oliveira. Os atores cuidaram da cenografia e da parte musical. A partir de 1974, a Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande passou a realizar no encerramento do ano letivo um festival de teatro, que valorizava as criações dos alunos, e fazia do teatro instrumento de amor à 'cola e de entrosamento com a vida. O secretário de Educação, ao ver refletida no 'pelho do teatro a própria 'trutura hierárquica do órgão, sob sua direção, ordenou ao diretor da peça Hélio de Lima, que parasse o 'petáculo e deu por encerrado o Festival da REME. Como resultado do incentivo dos festivais, surgiram em Mato Grosso do Sul diversos grupos de teatro, como o GUTAC (Grupo de Teatro Amador Campo-grandense) e o GUTIC, dos quais faziam parte Américo Calheiros, Vanderley Rosa, Maria Crisitna Moreira de Oliveira, Hélio de Lima, Joana d'Arc, Rosemary Lamontano. Em a década de trinta, segundo depoimento de Celso Muller do Amaral ao livro Memória da Cultura e da Educação em Mato Grosso do Sul, existiu o grupo de Dona Antonia Capilé, com repertório, que abrangia o drama, a comédia e a tragédia e que viajou a cidades vizinhas. O percurso e fundador do teatro em Três Lagoas foi Nestor Guimarães, que na década de trinta encenava musicais. De o grupo fazia parte Conceição de Oliveira, uma das primeiras atrizes da cidade. Em a década de sessenta, o jornalista Vicente Leão dirigiu um grupo, que ajudou na construção do Cine Lapa. Irene Marques Alexandria é hoje a figura mais importante do teatro três-lagoense. O teatro da Patota Infantil, fundado por ela em 1974, é pioneiro na representação com bonecos. Texto: Maria da Glória Sá Rosa «Resumo Extraído do Livro Memória da Arte em MS». Vamos continuar a história ... Agora em Mato Grosso do Sul. Número de frases: 45 Ostentando um título desses, era de se 'perar que uma festa indescritível tomasse as ruas e palcos de Olinda e do Recife, em Pernambuco. Sim, provavelmente 'te foi o melhor Carnaval do qual se tem história nas duas cidades, uma explosão de cores, sons e animação. De a Zona Sul à Norte, os palcos descentralizados foram um sucesso já consagrado, já que moradores das mais diversas comunidades, oito no total, tiveram a possibilidade de acompanhar shows como Nação Zumbi, Zélia Duncan, Zeca Baleiro e Mombojó. Isto tudo sem a necessidade de se deslocarem até o Centro do Recife, contribuindo ainda mais para o inchaço costumeiro nos dias de festa. Entretanto, no meio de tanta alegria, vários problemas, ligados à frágil questão da violência no 'tado. Além de um número que a Secretaria de Defesa Social (SDS) considera irrisório, 70 homicídios, os foliões e muitos turistas foram obrigados a conviver com arrastões freqüentes e com a nova modalidade utilizada por os bandidos, a do assalto-porrada. Em ela, grupos de marginais, que chegam a 15 ou 20, cercam um determinado cidadão desavisado (se tiver falado recentemente no telefone celular e eles tiverem visto, melhor ainda) e começam, num acesso de fúria, a 'pancá-lo. Socos, pontapés, voadoras, tudo que daria o maior orgulho a qualquer diretor de filme de briga de rua. O 'pancamento coletivo dura alguns segundos, até a vítima tombar no chão, quando então, geralmente em meio a cortes e contusões, é roubada sem muita piedade. Não tive a oportunidade de ver uma cena de 'tas acontecer, mas um amigo foi o «'colhido» num dos ataques. Também ouvi outras pessoas que tiveram a infeliz sorte de serem os eleitos. A verdade é que o policiamento de 12 mil homens, segundo dados da SDS, deslocados para cobrir os inúmeros focos de folia, não foi consciente. Segundo a própria secretaria, morrer «apenas» 70 pessoas é uma vitória, já que foram nove mortes a menos que em 2006 e isto representaria um ganho de 'tatísticas e mostraria a eficiência do equipamento militar. A justificativa é que apenas uma morte foi num foco de folia, aquela no desfile interessantíssimo do Balança Rolha, nas prévias carnavalescas. Em ela, um folião foi alvejado com dois tiros, morrendo, dias depois, na emergência do Hospital da Restauração, no bairro do Derby. Em a ocasião, a própria cantora Ivete Sangalo, do alto do trio elétrico, pedia segurança para uma situação que parecia fadada a violência coletiva, que foi o que realmente aconteceu. Em dado momento, virou-se para o governador Eduardo Campos e soltou: «governador bonitinho, cadê a segurança que eu lhe pedi?" Quem acha que o Carnaval de Salvador é violento, precisa ver o nosso por aqui. Em um 'tado campeão de mulheres assassinadas e com 473 execuções apenas no mês de janeiro, a violência dos dias de folia foi mais um reflexo de que com o pão e circo ainda existem as transgressões. Ainda nas prévias, um folião foi morto nas ladeiras olindenses e outro na Av.. Conde da Boa Vista, centro da cidade. Tiros na cabeça, execução sumária, pá. Não vou entrar no mérito da questão da desigualdade social, da falta de 'colaridade etc.. O Carnaval sem os cordões de isolamento funcionam, a prova disso foi o policiamento bem resolvido nas ladeiras do Sitio Histórico de Olinda. Todas as vezes que um princípio de confusão acontecia e os homens apartavam os brigões, palmas eram entoadas por os foliões. Em o Recife, também sem o apartheid dos cordões, se o clima foi tranqüilo na maioria das horas, em outros momentos a situação foi de caos. Em o show da Nação Zumbi, com Pitty e Marcelo D2, no Marco Zero, Bairro do Recife, verdadeiras galeras abriam caminho entre a multidão de quase 1 milhão e meio de pessoas. Em a Rua da Moeda, uma das mais problemáticas do bairro, arrastões aconteciam de forma velada. Em a terça-feira de madrugada, um enorme deixou muita gente sem documentos e dinheiro. Pertinho de ali, marginais vendiam «a massa, o sucesso e a pedra». Quem não se contentatou com maconha e loló, ainda tinha o adicional de crack, vendido às 20h. Coitados daqueles que não protegiam os bolsos ou que não deixaram seus celulares em casa. É rapaz. Em Recife é coisa de maluco sair com o celular no bolso. É roubo na certa. E agora, além dos furtos costumeiros, que infelizmente todo mundo já se acostumou (eu mesmo já passei por a experiência duas vezes), o assalto-porrada chegou pra valer. Número de frases: 37 Ver Tom Zé, Vanguart, Nação Zumbi e afins foi realmente interessante, dentro da proposta 'tipulada, mas ver com medo de apanhar e ser furtado, tenho que assumir, não foi das melhores experiências. Pernambuco tem realizado uma grande quantidade de filmes, sejam curtas ou longas. A Produção local tem crescido de uma maneira formidável, gerando empregos e movimentando um 'tado que acredita no cinema como forma de expressão. Um grande número de jovens que se interessam por o Audiovisual, seja de forma amadora, jovens nas 'colas se reúnem para contar suas histórias ou profissionalmente ou tantos outros que tem batalhado por leis de incentivo e patrocínio para realizarem suas obras. Existem aqueles que buscam os poucos cursos ou oficinas oferecidas em nosso 'tado para iniciarem as suas carreiras no mercado Áudio Visual. Em o ano passado, além do Cine-Pe, tivemos o Festival do Minuto (outubro), o Festival de Vídeo (dezembro) -- que também premia roteiros e a MostraMundo (novembro) -- organizado por a AESO. Em 'te ano teremos em São Paulo uma mostra de filmes nordestinos, ou seja, mais uma porta que se abre para o que é produzido aqui. Depois de Baile Perfumado, o filme Cinema, Aspirinas e Urubus, ganhador de vários prêmios nacionais e internacionais, provocam novos olhares para as produções de Pernambuco. Além da ficção e da animação, os documentários têm assumido um leque de possibilidades. Isto é um fenômeno também no Brasil. Diretores conhecidos por as suas obras de ficção mergulham agora numa outra possibilidade. Não 'queçamos: Documentário também é filme, embora alguns preconceitos afastem um merecido lugar no mercado. Sabemos que muitos cineastas começaram na prática ou em Cursos de Jornalismo, explorar a linguagem audiovisual. Outros 'tudaram fora do Brasil ou de Pernambuco, mas os primeiros passos foram dados aqui. Quem nunca ouviu «uma câmera na mão e uma idéia na cabeça»? Hoje, além de boas idéias, sabemos que tem muita coisa ruim também, é necessário apoio financeiro e mobilização para o pagamento dos profissionais e que o filme não fique a 'pera de festivais para sua exibição. Ainda não avançamos na distribuição. O 'paço destinado aos filmes brasileiros ainda não é merecido no circuito comercial. A idéia do auto-sustentável 'tá em voga, a chamada lei do retorno. Temos sinais de bons tempos por aqui. De repente, um incentivo para que tenhamos, em breve, um Curso ou Faculdade de Cinema Digital. Parece que a Faculdade Maurício de Nassau dará 'ta notícia ainda 'te ano, quando colocará a disposição o seu curso de cinema digital. Nosso 'tado merece, pois dispõem de muitos roteiristas, diretores, técnicos, atores, produtores e tantos outros profissionais que contribuem para que muitas imagens 'tejam nas telas dos cinemas ou em eventos como festivais. Kléber Mendonça Filho, Camilo Cavalcanti, Cláudio Assis e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) entre tantos outros que contribuem para 'ta história. Em o mês de Abril teremos a 10ª edição do Cine PE, entre os dias 16 a 22. Uma oportunidade para se acompanhar as produções nacionais e é claro as de nosso 'tado. A programação completa 'tá no site www.cine-pe.com.br. Ósculos e Amplexos para todos! Número de frases: 29 Viajar por o Brasil é interessante, sobretudo quando se atenta para peculiaridades dos povos e dos lugares deste nosso país continental. A diversidade cultural é muito grande e salta aos olhos da gente, principalmente nas cidades do interior. Em elas é que as pessoas se relacionam amistosamente e até se mostram mais irreverentes e criativas, avessas à correria comum das cidades grandes que tanto nos enerva e nos torna indiferentes. Pois foi viajando por aí que me deparei com umas bicicletas nada convencionais, como 'tas três que mostro aqui no Overmundo. A idéia de mostrá-las me ocorreu depois de conversas com ciclistas do interior, que têm opinião formada a respeito do 'tilo moderno adotado por certos ciclistas que a gente encontra nas grandes cidades, geralmente disputando 'paços com veículos no trânsito infernal, claro, correndo riscos de se envolver em acidente. Sabe-se que pedalar faz muito bem à saúde. Pena é a gente ver que nos tempos atuais a onda é usar bikes modernas, caras e nada confortáveis: selim finíssimo de doer os ossos da bunda, guidom baixo para encurvar a coluna, além de uma infinidade de apetrechos que a indústria divulga promovendo moda para faturar. Isto sem contar aquela frescura toda de capacete, luvas, roupas e sapatilhas 'peciais, entre outros produtos, indumentária que deixa o sujeito mais com cara de E.T. ou astronauta do que com cara de ciclista propriamente. Credo em cruz com tanto acessório! Não faz mesmo o 'tilo da gente interiorana. Vejam só algumas magrelas nada comuns que encontrei andando por aí. Além da 'tilosa da foto do alto da página, mostro mais duas na coluna à direita, abaixo de um ciclista moderno e urbano retratado em pintura em óleo sobre tela, todo mochila, capacete, roupa pegajosa e velocidade. Incomoda? Então. Que tal andar de magrela sem ficar naquela de segurar o equilíbrio o tempo inteiro? Em 'te caso, refiro-me ao triciclo abaixo do ciclista modernoso e velocista. Além de 'tiloso e confortável, não é mesmo de chamar a atenção nas ruas?! E que tal uma bike como a amarela, de duas rodas dianteiras e uma traseira? Em 'te caso, o guidom é um conjunto de manoplas na base do selim doidão; na verdade, uma verdadeira cadeira de «macarrão» ambulante. Bacana?! Cá com meus botões, a partir do que aproveito das conversas com a gente simples e interiorana, penso que 'sa infinidade de produtos para os ciclistas não passa mesmo de jogada de marketing com disfarce de cuidados com segurança para quem é mesmo besta ou tem dinheiro a torrar. E concluo, matutando como a nossa gente simples: excêntrico não é só ser diferente, mas sobretudo criativo. Número de frases: 25 A cantora baiana que sempre foi avessa a expor sua vida em público tem se deixado filmar, tanto no palco quanto fora de ele, para várias produções nos últimos anos. Alguém dúvida que Maria Bethânia é uma artista que nasceu no palco? Um palco, que vale lembrar, no caso de Bethânia, vai além do local onde a cantora canta e encanta o público -- mesmo quando desafina. Em o palco, Bethânia se apresenta assim como uma atriz que preferiu seguir carreira de cantora, mas nunca abriu mão de sua veia interpretativa. A ponto da crítica chegar a afirmar que Bethânia «dramatiza demais». Outro dia vi no Youtube, um vídeo de Maria Bethânia e Ana Carolina, em que a cantora baiana diz que. «Não componho. Minha criação é na hora de interpretar. Descobrir minha autoria na forma em que entendo a letra, a harmonia». Isso explica a forma com que a artista compreende todas as músicas de seu repertório. Não existe no Brasil outra artista que se «entregue» tanto à interpretação como ela. Com Bethânia a gente consegue até mesmo gostar um pouco de Ana Carolina -- que grita mais do que canta. A menina mineira 'tá até suave em para a Rua Me Levar. Bethânia funciona até mesmo ao lado da alemã Hanna Schygulla cantando La Vie em Rose. E alguém já tinha ouvido Bethânia cantando em francês? pode conferir no Youtube. Bom, mas a idéia inicial deste texto era falar da força interpretativa de Maria Bethânia. Que ela existe no palco, todo mundo sabe. E que existe também fora de ele, quando a artista 'tá sendo fotografada a 24 quadros do segundo, pode ser conferido no documentário Maria Bethânia: Música É Perfume (2005), dirigido por o francês Georges Gachot e nos mais recentes Bethânia Bem de Perto e Pedrinha de Aruanda, recém-lançados por a Biscoito Fino em DVD duplo. Os filmes permitem aos fãs conhecer características de personalidade e gostos artísticos que permaneceram e que mudaram na trajetória da maior intérprete da canção brasileira. Bem de Perto -- Bethânia, ainda jovem, teve seus primeiros passos profissionais registrados por ninguém menos que Eduardo Escorel e Julio Bressane numa produção inegavelmente histórica. Em ele a cantora baiana aparece com 20 anos de idade. A fama tinha sido conquistada três anos antes com Carcará (João do Vale -- José Cândido), no Teatro Opinião. Aquela lenda da cantora baiana que substituiu Nara Leão no Teatro Opinião. Ainda em 'tado bruto de formação, Bethânia nem imaginava que iria se tornar uma das grandes cantoras do Brasil. Se soubesse, certamente teria sido mais comedida ao responder as perguntadas do entrevistador ocultado por as câmeras. Com a vivacidade e a 'pontaneidade da juventude, a reclama que o público só quer ouvi-la cantar Carcará -- «Eu quero cantar outras coisas», desabafa para as câmeras de Bressane. Dando voz a outras canções e refrões que não apenas ao «pega, mata e come», ela consegue se desvencilhar do rótulo de cantora de protesto. Ela canta Vinicius, Baden Powell, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga. O filme tem participações de Jards Macalé, Rosinha de Valença, -- que eu vi num show na cidade de Dijón, na França, em 1989, Susana de Moraes -- que media as negociações para Bethânia se apresentar no exterior e Caetano Veloso. Bethânia não presta atenção ao empresário 'trangeiro que 'tá fechando uma turnê européia de ela, detona um clássico da bossa nova -- «Eu odeio O Barquinho» -- e ironiza " Roberto Carlos. «Eu vi ele cantar Quero que Vá Tudo para o Inferno. Acho a música de uma pobreza total». Curiosamente, em 1993 Bethânia gravaria um disco inteiro dedicado às canções do rei. A dramaticidade teatral fica por conta das canções. Closes mostram gestos grandes e jugular 'tufada. É uma Bethânia bem menos expansiva que se encontra em Maria Bethânia -- Pedrinha de Aruanda, de Andrucha Waddington. Em ele o diretor de Eu Tu Eles e Casa de Areia acompanha a viagem da diva no carro conduzido por o irmão Caetano Veloso até a baiana Santo Amaro da Purificação para comemorar seus 60 anos de vida ao lado da família. Ele dirige, ela conversa sentada a seu lado. Expressões e gestos sobrepõem-se às palavras. «Você sabe como Fernando Pessoa chamava a lua?», pergunta Bethânia. Caetano solta: «Ele não chamava de lua não?" " Chamava. Mas em alguns momentos ele chamava de Nossa Senhora do Silêncio», rebate. «Essa é expressão linda». Em a verdade Bethânia pouco fala no filme. Ou melhor, pouco se expõe, ainda que Andrucha Waddington tenha conseguido afrouxar as defesas da artista. Bethânia 'tá desarmada, longe dos rigores cênicos, vivendo o cotidiano familiar sem maquiagem, sem retoques. São momentos raros, mas que nos dão a sensação de 'tarmos mais próximo da artista. Quando ela fala, expõe lembranças como a de João Gilberto ao volante do carro, dirigindo «tão bem quanto canta». ( olha ele se redimindo por falar mal da bossa nova em Bem de Perto!). Os pontos altos do filme são a missa rezada em homenagem a ela e a seresta organizada na casa da matriarca Dona Canô. Acompanhados por o violão do maestro Jaime Alem, mãe e filhos interpretam emocionados canções como Chuá Chuá, Felicidade, Oração de Mãe Menininha, Exemplo, Tristeza do Jeca e Gente Humilde. Dona Canô, que fez 100 anos recentemente, é, na verdade, o centro de Maria Bethânia -- Pedrinha. A câmera de Andrucha pega os olhos de 'sa senhora fixando o longe, contando que foi «seu» Caetano quem colocou o nome na irmã e cantando. Isso mesmo. O talento musical Caetano e Bethânia herdaram da mãe. Vendo os filmes, me lembro da primeira vez que ouvi Bethânia num bolachão de meu pai. O disco era Recital na BoateBarroso e as música que me marcaram foram Molambo, composição de Jayme Florence/Augusto Mesquita e Lama, de Paulo Marques e Aylce Chaves. Eu adororava a densidade dramática de Bethânia desfilando os versos: ' Se eu quiser fumar, eu fumo / Se eu quiser beber, eu bebo / Não me interessa mais ninguém / Se o meu passado foi lama / Hoje quem me difama / Viveu na lama também / Comendo a mesma comida / Bebendo a minha bebida / Respirando o mesmo ar». O disco que integra a lista dos 100 discos fundamentais da MPB, foi relançado recentemente em CD e merece uma audição. Número de frases: 65 Em o último dia 11 de dezembro eu 'tive em Vila Isabel. Meu objetivo era ver como o bairro onde viveu Noel Rosa homenageava os 95 anos de seu nascimento. Peguei o ônibus, num domingo sem sol, chato e um pouco nublado, e segui para a Vila. Algumas tristezas no caminho: o povo sem cara de alegria na rua, quase tudo fechado, um Maracanã fechado para reformas e com uma aparência tristemente decadente. Foi em 'te clima que eu cheguei até o Petisco da Vila, local tradicional do bairro, cujo nome é uma alusão a um dos grandes sucessos de Noel. De acordo com a Prefeitura do Rio, haveria interdição de uma rua para uma grande comemoração ao poeta e compositor. Quando cheguei, lá por as quatro da tarde, havia quatro mesas verdes de metal impedindo o acesso a um trecho de rua. Era a 'quina das ruas Torres Homem com Visconde de Abaeté. Em os bares, nenhuma movimentação 'pecial ou diferenciada. Havia três: o Zeca's Vila, o Bar do Costa e um terceiro inomidado, além da Confeitaria Abaeté. Porém, no Bar do Costa, algumas pessoas trajavam um mesmo modelo de camisa amarela. Tomando isso como outra alusão a um sucesso de Noel, 'colhi uma mesa na calçada e lá fiquei, 'perando. Começava a garoar e o clima começava a ficar muito parecido com o de São Paulo em 'sa época do ano: não muito quente, com uma chuvinha fina, rala e constante. Eu já me decepcionava e achava que havia mesmo um grande desrespeito à memória musical do Brasil quando, irrompendo por a rua, um pequeno grupo chegava, gritando e cantando. Não eram mais do que quinze pessoas, todas trajando a mesma camisa amarela que eu vira naquele bar. Eu 'tava, afinal, no lugar certo. Mas aquilo era muito diferente de uma massa humana que prometia, segundo faixas colocadas próximas ao local, fazer uma passetada da 'tátua de Noel Rosa àquele ponto. Então, começam a entoar um parabéns a você. Antes que eu pudesse virar mais um gole de cerveja, o parabéns termina com o inesperado coro de ' Noel! Noel!», fazendo com que eu repare um pouco melhor. Havia, no fim das contas, dois blocos distintos. O da camisa amarela, chamado Eu sou eu, jacaré é bicho d' água, e um de camisas pretas e chapéus com fitas azuis, chamado Saco do Noel. De repente, comecei a me sentir mais em casa, trajado com minha bela camisa pirata da seleção da Nigéria (que é verde, para quem não sabe) e um guarda-chuva antigo. As pessoas começaram a interagir e eu percebi que, mesmo com pouca gente, algo iria rolar. Tiro e queda: próximo às mesas verdes que impediam o acesso à rua, colocaram uma 'pécie de toldo branco, que, minutos depois, suficiente para abrigar um conjunto, chamado Grupo Caviúna, que começou, por volta das cinco da tarde, a tocar grandes sucessos de Noel. Bem na hora em que a chuva começou a apertar um pouco mais. Conversando com algumas pessoas, descobri que aquela comemoração ao Poeta da Vila tinha começado apenas em 2004. Era, portanto, uma tradição recente. Isso poderia explicar a pouca participação popular, mas o que me deixou inquieto foi o homem que celebrizou aquele bairro ter ficado 'quecido por tanto tempo das comemorações populares. Que, aliás, só ocorreram por iniciativa própria dos dois blocos citados, pois, por a Prefeitura, acho que nada 'taria acontecendo. Para você ter uma idéia, apenas 'tava por lá um solitário homem da Guarda Municipal, com uma cara de tédio indisfarçável. E a rua que foi fechada, sinceramente, não teria mesmo um grande fluxo de carros naquele dia. A música, que 'tava realmente boa e animada, alegrou os foliões, que, no entanto, decidiram se manter abrigados abaixo de marquise a ir dançar no meio da rua, na chuva. Os consumidores dos outros bares 'tavam, em sua maioria, impassíveis, assistindo a um jogo do recém-campe ão Corinthians contra uma Seleção do Campeonato Brasileiro. Estavam pouco ligando para um repertório que destacou, entre diversas canções, as parcerias de Noel com Ismael Silva, Orestes Barbosa e as pouco conhecidas músicas compostas por um emergente Cartola. E que durou horas. No meio de 'ta seleção, 'tava Onde 'tá a honestidade?, antecipada por um discurso-clich ê que refletiu o que a mídia tem imposto desde o início das declarações duvidosas de Roberto Jefferson. No entanto, o que veio ao meu pensamento é que, daqui a cinco anos, vão aparecer oportunistas de plantão na Vila tomando para si os louros das homenagens ao vindouro centenário do Noel. Que vão aparecer livros, CDs, discos, homenagens e diversos outros caça-níqueis para capitalizar em cima de um dos primeiros grandes nomes da MPB e, por que não dizer?, do samba ' branco '. E que, provavelmente, quase ninguém vai se lembrar do que houve naquele longíquo 11 de dezembro de 2005, quando um bom grupo cantou em meio à chuva grandes sucessos de Noel para um público pequeno, mas fiel. Vão, sim, se lembrar de pseudo-grandes nomes que vão se aproveitar da ocasião para aparecer em mídia, coisa que os blocos do Jacaré e do Saco não conseguiram anos antes. E então será a hora de perguntar, verdadeiramente, onde 'tá a honestidade. Nota complementar: Em 2006, no Festival de Cinema do Rio, o filme Noel: Poeta da Vila, de Ricardo Van Steen, foi exibido pela primeira vez. Em o elenco, Rafael Raposo, Camila Pitanga e Paulo César Pereio. As homenagens não precisam 'perar um centenário. Mas pode ter certeza que, em 2010, vai passar na tevê. Nota pessoal: Esta matéria é a última da minha chamada ' gaveta ' do Overmundo. Curiosamente, foi a primeira a ser produzida e, por conta da data, nunca foi publicada. Era 2005 e a armação política iniciada com Mr. Bob Jeff 'tava a mil. Era um dia nublado e, quando saí da Gávea, me senti feliz, porque, afinal, eu iria trabalhar numa matéria, coisa que eu fiz muito pouco no Rio em 2005. Era um dia de folga meu e de Gabriela, mas não a vi o dia todo: quando acordei, ela não 'tava lá, tinha saído com o Tom. Foi assim que parti para a Vila Isabel: quieto, ansioso e sozinho. Uma das coisas mais tristes, no entanto, é lembrar que, exatamente um ano depois, ela 'colheu exatamente 'ta data para pôr fim a uma chance de uma vida a dois, ao menos em 'te momento. Sinto falta de ela e do meu menino. E pensei na pergunta que dá título, desde sempre, a 'ta matéria. A resposta é fácil: Número de frases: 67 ela 'tá aqui, com mim, e olha firme nos olhos de quem não crê e apenas pergunta, sem tergiversações, o porquê de uma traição sem sentido. Olá! É com muita satisfação que disponibilizo para download a pesquisa «Gravadoras Independentes e o Futuro da Indústria Fonográfica no Brasil», licenciada em Creative Commons no recém-inaugurado portal Música do Brasil. Embasada num relato histórico da indústria fonográfica brasileira, coletado por meio de extensa bibliografia e entrevistas, a pesquisa mergulha na realidade de selos, gravadoras e artistas independentes, apresentados por a jornalista Andréa Thompson como uma possível saída para a crise em torno da indústria do disco, ao lado das múltiplas possibilidades que a tecnologia tem nos descortinado na era digital. Desde já, ficam autorizadas e incentivadas quaisquer reproduções deste trabalho (sem fins lucrativos, é claro), como fomento de 'tudos acadêmicos acerca do futuro da música e da aparentemente conturbada indústria que a cercea. Para os que ainda não conhecem, o Portal Música do Brasil é uma parceria das principais associações relacionadas à cultura e à música independente no Brasil, entre elas o Ministério da Cultura (MinC). A idéia do projeto é ser um elo de interseção entre todos os agentes envolvidos com a música brasileira, trazendo informações e dicas de como exportar Cultura brasileira, além de 'tudos referentes à indústria fonográfica, como a minha pesquisa, que pode ser acessada (e downloadeada) no link a seguir: http://www.musicadobrasil.org.br/site/index. asp? Fuseaction = Conteudo & Menu = 1,26,0,0 & ParentID = 26 Agradecimentos: Mario e Odaléa Guimarães; Marcelo Thompson; Gê Vendramini; Alan Dove (UK); Antonio Adolfo; Arthur Dapieve; Bruno Levinson; Cássia Chaffin; Cesar Romero Jacob; Edna Calheiros (ABPD); Eduardo Andrade (Unicamp); Gustavo Vasconcellos (FMI); Jerome Vonk, Ana, David e Leandro (ABMI); João Augusto, Kelita Myra e Roberta Guimarães (Deckdisc); Karina Kuschnir; Larissa Vieira; querido e saudoso Liô Mariz (Som da Rua); Malu Cooper; Olívia Hime, Joana Hime e Ester Lima (Biscoito Fino); Ricardo Cravo Albin; Romana D ´ Angelis; Ronaldo Lemos; Steve Altit; Madeleine Peyroux; Jamie Cullum; Missy Higgins; Vinícius de Moraes e Alanis Morissette. Um grande abraço, Atenciosamente, Andréa Thompson E-mail: athompson@terra.com.br Número de frases: 30 Web: www.andreathompson.com.br Peço calma ao leitor. Isso porque, de início, 'te texto parecerá algo panfletário, fruto de politicagem. Peço calma porque é preciso falar de política para explicar como o poder, em sua forma política, em algum momento da história, castrou a cultura. Voltando à questão da imigração européia em Santa Catarina, sutilmente citada em 'te texto aqui, é preciso explicar como ela aconteceu, por alto, a fim de explicar como a política brasileira deu fim ao desenvolvimento cultural dos imigrantes. Um Pouco De História O século XIX foi marcado por o êxodo rural europeu, mas ao contrário do que normalmente acontece, 'tes retirantes não somente se instalaram nas grandes cidades européias, mas muitos de eles tiveram de viajar ao Novo Mundo, à América do Sul. O Brasil, então administrado por o Império, foi otimista com a vinda de imigrantes. Via-se a Europa como um país muito grande em que a cultura, a educação e a economia eram virtudes inerentes aos seus habitantes. Recebendo terras gratuitas e incentivos por parte do Império, imigrantes alemães começaram a se fixar no Vale do Itajaí e em várias outras regiões de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Os imigrantes alemães que vieram para o Sul do Brasil tinham uma característica particular. Denominado de Deuschtuum (dóitchtum), o sentimento destes emigrados era de que, onde quer que 'tivessem, falando qual fosse a língua, continuariam sendo alemães. Isso, somado à idéia da Heimat (raimat), ou seja, de pátria, os fazia sentirem-se em casa mesmo que tão distantes, no Brasil. De 'sa forma, as colônias foram se desenvolvendo e os imigrantes alemães davam origem, agora, à comunidade teuto-brasileira. Se, de um lado, havia em 'sas comunidades quem tivesse nascido na Alemanha e emigrado para o Brasil, por outro já havia os filhos e netos destes imigrantes, que eram genuinamente brasileiros por terem nascido no território desse país. Acontece que, nas colônias, os próprios moradores não sabiam realmente o que eram: se alemães que viviam fora da Alemanha ou se brasileiros que sentiam saudade da terra natal. O que se pôde perceber nas colônias alemãs era a capacidade de organização de seus habitantes. Praticamente, toda a população teuto-brasileira era alfabetizada. De isso se encarregavam pais e professores. Um dado interessante é que em 1916 havia em Blumenau cerca de dez 'colas do governo brasileiro (que ensinavam a cerca de 500 crianças) e mais de cem 'colas privadas notavelmente germânicas, com mais de 5.000 alunos. Ou seja: era importante aos colonos que seus filhos conhecessem o idioma alemão, assim como a cultura germânica. Afinal, mesmo 'tando distantes da Alemanha, 'tavam muito próximos de ela, ligados por uma 'pécie de cordão umbilical patriótico. A partir de meados do século XX, uma grande preocupação começou a afligir o governo brasileiro. Com a proclamação da república em 1889 e tendo já enfrentado algumas das mais cruéis guerras separatistas da história do país (Guerra dos Farrapos e Guerra de Canudos), o recente governo brasileiro via-se obrigado a demonstrar sua força de modo que os habitantes do Brasil percebessem que ali havia uma força unificadora que conseguia unir o território brasileiro de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Como preocupasse a República o fato de haver lugares no Brasil onde não se falasse português (o que poderia se tornar um grande empecilho na comunicação entre governantes e governados), surge a necessidade de nacionalizar o ensino: os idiomas 'trangeiros deveriam ser restringidos e, aos poucos, deveria se instituir o português como língua oficial em todo o território brasileiro. Em os primeiros anos de república começam as campanhas de nacionalização do ensino. Isso, a partir da década de 1910, vinte anos antes de Getúlio Vargas e do Estado Novo. Com as campanhas de nacionalização do ensino, o que se queria era, aos poucos, fazer com que os imigrantes assimilassem o idioma português, bem como a história e os costumes brasileiros. Por o fato das colônias teuto-brasileiras não demonstrarem grande interesse em se integrarem a 'se sentimento de adoração por o Brasil enquanto nação, a nacionalização não somente do ensino, mas das próprias colônias foi se tornando uma obrigação e um problema para os 'tados e para a federação. Em a verdade, vale lembrar que, quando falamos em teuto-brasileiros (imigrantes e filhos de imigrantes alemães 'tabelecidos em território brasileiro) é preciso fazer a importante ressalva de que 'tes, apesar do sentimento de nacionalismo alemão que traziam com si (Deutschtuum), faziam parte do Brasil constitucional: cumpriam a constituição e 'tavam subordinados ao governo brasileiro. A maioria dos habitantes de 'sas regiões tinha noção que não morava mais na Alemanha (o 'pírito sim, 'te ainda habitava por lá), mas que agora precisavam viver as novas regras e as novas leis do país para onde migraram. GETÚLIO Vargas, PLÍNIO Salgado E O FRITZ Quando Getúlio Vargas tomou o poder à força em 1930 através de um golpe de 'tado, o gaúcho percebia -- como percebiam as elites intelectuais brasileiras -- que o poder econômico centralizado em São Paulo e Minas Gerais era um mau negócio para o Brasil e para os brasileiros. De 'sa forma, procura centralizar o poder no Rio de Janeiro, a capital nacional da época, através do fim das unidades da federação, os 'tados como então conhecemos hoje. Assim, em 1937, Getúlio Vargas queimas as bandeiras dos 'tados brasileiros e hasteia, no lugar de cada uma de elas, a bandeira do Brasil. Estava dado o último aviso de que o Brasil rumava junto à unificação, à centralização. Apoiando Getúlio Vargas e o nacionalismo promovido por o governo, 'tava a Aliança Integralista Brasileira. Sob a batuta do 'critor Plínio Salgado, 'te movimento livremente inspirado nos regimes totalitários mundo afora (o nazismo alemão, o fascismo italiano) fazia as vezes de partido político, religião e polícia. Para os integralistas, era 'sencial que o Brasil proclamasse a sua independência, finalmente. Em a verdade, os integralistas apoiavam Getúlio no intuito de tomarem o poder à força ou ao menos conseguirem representação política garantida, já que seguidores eles tinham. Consta que tiveram 500.000 associados, mas o número de apoiadores pode ser bem maior. O cerco se fechava contra as colônias teuto-brasileiras. Havia um governo totalitário que tentava forjar, a qualquer custo, a idéia de Nação e um grupo partidário-ideológico que buscava a pátria brasileira apoiado em teóricos (e, pior, práticos) de alguns dos piores regimes totalitários que o mundo já pôde ver: o nazismo e o fascismo. No entanto, nada disso teria sido tão traumático quanto a declaração de guerra feita por o Brasil contra os países do Eixo: Alemanha, Japão e Itália. É em 'se momento, sobretudo, que a repressão às colônias 'trangeiras no Brasil cria força e torna-se invariavelmente violenta. A Guerra E O Silêncio Ninguém melhor que a imprensa para explicar o que acontecia no Brasil das décadas de 1930 e 1940. Jornais europeus como o London Times plantavam a discórdia nos territórios em que havia colônias 'trangeiras no Brasil. Em 1937, 'te jornal inglês denunciou o grande número de alemães que moravam no Sul do Brasil e alertavam: Hitler tomaria 'tas terras e seria apoiado por a população germânica que vinha habitando aquela região nos últimos cem anos. Foi o início de um turbilhão de violência. Se antes já era difícil para o teuto-brasileiro ter de conviver dentro de seu eterno dualismo de Saudade e Esperança e já sofrer as conseqüências das campanhas de nacionalização do ensino e da ascensão de Vargas ao poder, agora eram tratados como criminosos. Antes, o idioma alemão era, aos poucos, substituído por o português nas 'colas. Agora, falar alemão era proibido. Falava-se em casa e 'condido; se denunciados, os falantes e praticantes de culturas germânicas eram humilhados e muitas vezes presos. Foram também proibidos os cultos em língua alemã nas igrejas luteranas, até então as que continham o maior número de adeptos. Nomes de ruas, de prédios públicos, de entidades privadas, de 'colas. Enfim. Nomes em alemão eram proibidos e substituídos por nomes em português. Foi assim que a Wurststrasse (Rua da Lingüiça) tornou-se Rua XV de Novembro e o Teatro Frohsin, Teatro Carlos Gomes. Mas mais do que nacionalizar nomes e o idioma, o nacionalismo exacerbado do Estado Novo -- que pretendia instituir o sentimento de nação, uma vez que Estado já havia -- acabou por frustrar o desenvolvimento de toda uma população de imigrantes. Cabe lembrar que todas as colônias sofreram penalidades. Foi assim com descendentes de japoneses, italianos, poloneses ... No entanto, apesar de envolvidos de uma forma ou de outra com a Segunda Guerra Mundial, nenhum de eles tinha um Hitler no comando, e poucos eram tão temidos como a Alemanha e o que fizesse lembrar o Nazismo. Denominado como «Silenciamento Lingüístico», o período em que não se pôde falar alemão nas colônias teuto-brasileiras tornou-se um momento para se 'quecer. De a mesma forma como a literatura produzida nas regiões de imigração no final do século XIX e no início do século XX não descreviam os motivos que obrigaram alemães a emigrarem para o Brasil, até bem pouco tempo não se discutia 'se longo período de silêncio que chegou que durou até alguns anos depois do término da Segunda Guerra. No entanto, há que se ver que com o fim da guerra, a queda de Getúlio Vargas e a retomada da liberdade de expressão em idiomas 'trangeiros, as marcas demoraram a passar. Desde a proibição de livros em idioma alemão (década de 1930) até as primeiras publicações literárias datadas da década de 1960, são trinta anos de silêncio. De a mesma forma, outras classes artísticas além da literária sofreram com 'te período. E, claro, quem mais sofreu foi o povo. Se com o passar dos anos já 'tava superada a saudade da terra natal e 'tes descendentes de alemães foram tratados novamente como invasores e criminosos, com a liberdade alcançada com o fim do Estado Novo era hora de voltar a cultivar o germanismo, as tradições dos antepassados. EIN PROSIT, BLUMENAU A colaboração das elites burguesas de Blumenau foi 'sencial para que tanto o movimento integralista quanto o policiamento proposto por Getúlio dessem certo. Como Blumenau 'tá dentro do mundo e o mundo é o que é, não poderia ser diferente que houvesse, por parte das oligarquias, colaborações tão interesseiras. Acontece que -- e é aqui que reside o paradoxo -- as elites nas colônias de imigrantes eram compostas por ... imigrantes! Este apoio às tendências nacionalistas não foi em vão. Desde o início do século XX podem ser visto imigrantes e descendentes de imigrantes relacionados com o poder no Governo do Estado e nos Governos Municipais. O que se costumava chamar de oligarquia, hoje classe média-alta, não ascendeu ao poder e não conseguiu posses em vão: tiveram apoio do mesmo governo que combatia seus iguais, mas tinham noção de que, colaborando com o silenciamento cultural, conseguiriam seu lugar ao sol. Então, se hoje combato (não arduamente, mas insistindo) na visão que se tem de que a região Sul do Brasil é, em determinados pontos, tentativa reconstituição germânica, é porque isso raramente acontece. Há, sim, regiões que apostam na germanidade, na continuação dos costumes germânicos por isso mesmo, por costume. Mas não há que se enganar: o que ocorre é a teatralização do germânico. Festas como as que acontecem em outubro na região do Vale do Itajaí (Oktoberfest, Schützenfest etc.), festivais de danças típicas alemãs e a propaganda que se faz denominando a região de Vale Europeu são antes 'tratégias turístico-financeiras para quem ganha com isso. O Fritz e a Frida, os descendentes de alemães que trabalham nas malharias, que ainda criam seu gado e vivem nos minifúndios 'palhados por a região Sul não tem nada a ver com isso. De certa forma, é possível compreender que o fato de Santa Catarina 'tar dividida em ilhas étnico-culturais impede que haja uma cultura caracteristicamente catarinense. No entanto, há que se ver que o diálogo saudável entre 'tas regiões étnicas (a italiana, a alemã, a açoriana, a gaúcha) foi interrompido antes mesmo de ser possível. E é por isso que se tornam tão louváveis artistas e 'critores que conseguem criar, publicar e exibir suas obras. Isso porque, quando o Vale do Itajaí ainda se desenvolvia enquanto pólo cultural, foi castrado, acusado de antipatriótico e seus artistas e não-artistas foram silenciados. Certamente, as colônias teuto-brasileiras 'palhadas por o Brasil têm em si marcas do que foi 'te período duro e antropologicamente tão significativo para suas constituições culturais e ideológicas. Hoje, lugares como o Vale do Itajaí podem ser visitados como pontos turísticos. O que restou das antigas colônias pode ser conferido nos Clubes de Caça e Tiro e nas Sociedades Recreativas. A culinária mantém 'treitas ligações com a gastronomia colonial e o sotaque carregado de alguns moradores não 'conde: há ali resquícios da língua alemã, hoje reduzida a um dialeto que aos poucos vai sendo 'quecido. Mas precisa ser dito: não fossem os múltiplos 'forços por parte do Governo do Estado e da República em silenciar a cultura imigrante, regiões como o Vale do Itajaí poderiam ter tido um desenvolvimento exemplar no que diz respeito às artes e à cultura. Acontece que antes mesmo de ter havido a simbiose entre brasileiros e alemães -- ou antes que 'sa comunhão fosse visceralmente positiva para os dois lados -- tratou-se de cortar pela raiz um mal que nem mal era: silenciou-se a cultura de um povo que agora, por mero costume, fala baixinho. Mas que há de recuperar o vigor de outros tempos. É 'perar para ver. Número de frases: 105 Mais que uma banda, o Pedubreu já virou filosofia de vida para nove rapazes da Grande Natal. Em a zona rural de São Gonçalo do Amarante, RN, lugar com profundas tradições populares, a música brota das mãos de lavradores, operários, rendeiras e lavadeiras. Gente que nunca 'tudou em academia, gente que sabe o dia certo de plantar feijão e milho, filhos que aprenderam com os pais, pais que aprenderam com os avós e assim já se passaram 200 anos ... Chegou a hora desses mesmos filhos passarem adiante o que aprenderam com os mestres do boi de Reis, do bambelô e do congo (manifestações da cultura popular). A tarefa não é fácil: distrair a atenção de quem 'tá vidrado na tal comunicação globalizada não é pra qualquer um. E ainda convencer o cidadão que ' aquilo ' é o que há de mais legítimo em sua natureza. Talvez seja 'sa a missão subliminar que motiva a banda-ong-ponto de cultura do Ministério da Cultura a buscar a consolidação de uma cena com luz própria, capaz de mover uma cidade em nome do experimento antropofágico -- no melhor sentido da expressão! Ponto de Cultura Núcleo formado por Gláucio Câmara (voz e letras, arte educador), Nego DLasonga (DJ, percussionista nas horas vagas), Paulinho Menezes (percussão, professor de música), Dinei Teixeira (percussão, voz e funcionário de um restaurante), Didi Torquato (violão e mecânico), Kiko Moska (guitarra e professor de artes em 'cola pública), Adeildo Palhares (baixista e autônomo -- grava CD, DVD etc. em casa), Domingos (bateria) e Zé da Rabeca (professor de rabeca), o Pedubreu segue cheio de planos para 2006. Agora, na condição de Ponto de Cultura do MinC -- através da ONG Núcleo de Arte, Cultura e Educação Popular -- e prestes a receber a primeira remessa de verba federal, o grupo se prepara para gravar seu primeiro CD Pé no Breu, pé no mundo. «Nosso trabalho tem despertado o interesse da comunidade, as pessoas querem saber que som é 'se. Por outro lado, enquanto entidade, vamos identificar cada manifestação, cadastrar artistas populares e traçar um mapa genealógico da nossa cultura», adianta Gláucio Câmara, 24, porta voz da turma e atual presidente da ONG. Mesmo sem um apoio sistemático do poder público municipal, o Pedubreu segue firme com o movimento. «A próxima barreira que precisamos diminuir é 'se 'tigma regional. Nossa música pode ser apreciada por qualquer público, em qualquer lugar. Queremos abrir 'paço, tocar na noite de Natal, mostrar a cara ... Ainda mais agora com o CD [previsão de lançamento no segundo semestre] na mão», planeja. Fusão rural x urbano As misturas de hip hop, reggae e rock com bambelô, capoeira, congo e coco de embolada não são aleatórias. Gláucio é sobrinho do mestre de bambelô Sérvulo Teixeira, e neto do mestre de congo Lucas Teixeira, de 92 anos. «A região descende de quilombolas, e meu avô já ' brincava ' com o pai de ele, lembrou. Outro que também tem os dois pés fincados na tradição é o endiabrado rabequeiro Zé da Rabeca. De o alto de seus 20 e poucos anos, Josenilson deve receber vibrações de seu tio, o saudoso mestre Manoel Marinheiro do Boi de Reis de Felipe Camarão (bairro da zona oeste de Natal) -- o trabalho de Marinheiro foi considerado obra prima do patrimônio imaterial por o MinC. Em tempo: o nome Pedubreu foi inspirado no mestre de boi de Reis Pedro Guajirú, já falecido, e na localidade Breu, ponto de encontro para ' brincantes ' de folguedos populares. juntamos Pedro, que é um nome forte, sólido, e Breu, que traz toda a mística que paira até hoje no lugar, desocupado há mais de 40 anos após uma enchente. Apesar dos moradores terem cedido lugar às lavouras, até hoje o Breu é uma referência que instiga o imaginário das novas gerações», explicou o vocalista. Além de música, a banda lança mão de elementos do cordel, do mamulengo, dos romances ibéricos de dona Militana (outra personalidade condecorada por o MinC). «Chega de importar, queremos é exportar nossa cultura», finaliza. O Pedubreu representou a música do Rio Grande do Norte na Festa dos Estados, em Brasília, participou do Fórum Social Nordestino, em Recife, e foi o único grupo não natalense selecionado por o festival Cosern Musical, evento que reuniu uma parcela significativa da música autoral potiguar em 2005. A banda também foi uma das atrações da festa que lançou o Overmundo em Natal, no último dia 10 de março (veja o vídeo aqui). Número de frases: 32 Sábado, 28 de maio de 2008, véspera da Parada do Orgulho GLT. Dia de casamento. O 'paço 'tá enfeitado com arranjos de flores: rosas, margaridas, crisântemos, véu de noiva e dois cordões de folhas pequenas pregados nas pontas de cada uma das cadeiras, no final das fileiras, divididas em dois grupos. São 136 assentos pretos com 'tofados vermelhos. Em o fundo do auditório há um palco que costuma receber dirigentes sindicais, mas, em 'sa noite, comporta uma mesa branca de uns dois metros de largura, sobre a qual colocaram um pão do tipo italiano, duas velas amarelas, uma bíblia aberta, um cacho de uvas, um arranjo com as mesmas flores do corredor e um Menorá, 'pécie de candelabro de sete pontas. à direita do público que ocupa quase todos os assentos ficam três pedestais de microfones, os quais Luana Moreira, uma cantora de voz muito bonita e um piercing no lábio inferior direito, utiliza para ensaiar canções de louvor a Deus. Antes do início da cerimônia, os suportes iriam para a 'querda e dariam lugar aos noivos e ao pastor. Perto da cortina preta atrás da mesa, mais dois arranjos de flores com o dobro do tamanho daqueles em cima da mesa e daqueles próximos ao corredor. Os padrinhos e os convidados, a maior parte formalmente vestida, começa a chegar. Em a porta, José Antônio, mais conhecido como Tony, e Ricardo, membros da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), distribuem o roteiro da cerimônia, que apresenta também uma breve história da entidade e a lista de parceiros que apóiam a celebração. O panfleto traz, além do nome de parlamentares brasileiros e sindicatos, o Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades, a Associação da Parada do Orgulho GLT em São Paulo e a Católicas por o «Direito de Decidir,» entidade feminista, de caráter inter-religioso, que busca justiça social e mudança de padrões culturais e religiosos vigentes em nossa sociedade, respeitando a diversidade como necessária à realização da liberdade e da justiça», conforme define o release do grupo mais conhecido por defender a legalização do aborto. Antônio comenta que alguns convidados confundiram-se com a presença da Igreja Nossa Senhora do Líbano, logo em frente, mas logo perceberam que o matrimônio para o qual foram convidados 'tava do outro lado da calçada. Um telão de cerca de três metros começa a baixar do lado direito do público, 'querdo de quem 'tá no palco. Mesmo com a decoração em tom primaveril, os quadros com imagens de assembléias e outros marcos do ramo químico permaneceram pendurados nas paredes do auditório do Sindicato dos Trabalhadores Químicos do Estado de São Paulo. às sete e quarenta da noite, com uma hora de atraso, a cerimônia começa. Primeiro, um vídeo que apresenta a ICM e destaca a trajetória do Reverendo Troy Perry. Nem primavera de Praga, nem maio de Paris. O que realmente aconteceu de importante no mundo para aquele grupo de cristãos do segmento GLBTT que se reúne, pela primeira vez, para a celebração coletiva da benção de união de casais homoafetivos foi o nascimento, nos Estados Unidos da América, da Igreja da Comunidade Metropolitana. Perry, homossexual norte-americano, acreditou, segundo o curta-metragem, no desejo de viver a mensagem de Jesus de forma a incluir, e não excluir. «Não há nenhum lugar no Evangelho em que Jesus tenha condenado a homossexualidade. Jesus veio e morreu por meus pecados, não por minha sexualidade». Em silêncio absoluto, o público permanece atento ao vídeo do reverendo. Alguns homens, aconchegados no 'curo da sala, encostam a cabeça no ombro dos companheiros. O mesmo acontece com um casal de mulheres, com tranças azuis nos cabelos. Ninguém olha abismado quando os casais beijam-se ou passeiam de mãos dadas. Em o final, aplausos da platéia. O orador pede a Beto de Jesus, representante da América Latina e do Caribe da Associação Internacional de Gays e Lésbicas e membro da direção da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros, para subir ao palco. Após um selinho no homem que segurava o microfone ele diz: «nos tiraram muitos direitos e um de eles é nossa profissão de fé. Estar aqui hoje é dizer que Deus, os deuses, as deusas são nossos e não vão nos tirar isso." Odézia Rodrigues, da Rede Nacional de Religiões Afro Brasileiras e Saúde complementa: «eu venho de uma família católica, com tradição católica e senti na pele o que é preconceito. Tenho orgulho de encontrar as matrizes africanas, meu berço, meu axé», disse, para depois falar sobre sua profissão e classificá-la como um ato de amor. «O amor ao próximo é saúde e quando lidamos com um enfermo não levamos apenas medicamento, mas também nossa vibração. Estamos aqui 'sa noite por amor." às oito e vinte, após o DJ errar o fundo musical por duas vezes e colocar o início da Marcha Nupcial, os padrinhos descem a rampa íngreme do sindicato sob uma sinfonia que desconheço. O processo é rápido, dura menos de dois minutos e depois, novamente, a Marcha Nupcial toma o salão. De 'sa vez, é a música certa. Em o início da fila, Suzane Araújo, 39 anos, e Noemi Miranda, 47, caminham lentamente sobre um tapete vermelho, trajadas com vestidos da cor prata. O casal que se conheceu numa sala de bate-papo GLS na Internet e 'tá junto há três anos, segue logo após Clarice, 18, e Gabriel, 20, respectivamente, filha e genro de Noemi, mas, em 'ta noite, madrinha e padrinho das noivas, que acomodam-se na primeira fileira de cadeiras. Trouxeram também Arthur, o neto de seis meses de ambas. Noemi foi casada durante três anos (parece um número cabalístico) e há 17 'tá divorciada. Ele é professora há uma década, enquanto Suzane 'tuda para ser 'teticista. «A cerimônia de hoje serve apenas para formalizar, porque já moramos juntas», diz Suzane. Clarice, a filha, diz que nunca teve preconceito, que acha normal a mãe casar com uma mulher. «Isso é graças à criação que ela teve», comenta Suzane, a mais extrovertida. Ao lado de ambas, tanto Luiz Ramires e Guilherme Nunes, quanto Maria Venâncio e Marlene Sturari, os outros dois casais, permanecem de mãos dadas. Com o sexteto à direita do auditório, o pastor Cristiano da Silva inicia o ritual. Entre agradecimentos a Deus (" damos-te graças porque 'se amor foi capaz de vencer todas as barreiras "), ele comanda o evento. Há 'paço, porém, para Yuri Orozco, apresentada como teóloga e feminista do grupo Católicas por o Direito de Decidir, encaixar mais um discurso. «Estamos aqui porque acreditamos que um mundo mais humano e justo é possível." Após a liturgia da palavra, Levi de Souza, um dos três cantores da noite, interpreta «Monte Castelo», canção da» Legião Urbana. «Um tempo sagrado e justo 'tá começando. Celebramos as coisas boas da vida e hoje celebramos uma conquista: o amor de vocês», retoma a palavra o pastor, que evoca justiça, importância do amor romântico e do divino. «Falaram que relações do mesmo sexo são pecaminosas. Não tocarás o divino! Deus nos criou para sermos livres e nos quer felizes. Hoje é tempo de rever nossos conceitos." Juras de amor. Chegou a hora de trocar alianças que chegam numa bandeja de prata decorda com flores e prometer fidelidade na felicidade e na desventura, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença. Prometer amar e querer até o dia em que morte vier. Chegou a hora do noivo beijar o noivo e da noiva beijar a noiva. Chegou a hora de descobrir que Suzane e Noemi são tímidas e apenas tocam os lábios após incentivo do público presente. Porém, para o pastor Cristiano Silva, o ápice de cerimônia é agora. Trata-se da última parte do ritual: a benção dos casais. A Reverenda Bispa Darlene Garner, então, faz-se presente diretamente do México. Coordenadora da região latino americana e da região do sul dos EUA da ICM, ele envia uma mensagem que o orador resume, " por o adiantado da hora." Os noivos assinam o livro de registro de uniões da Igreja e, nos alto falantes, Elton John canta «Can You Feel The Love Tonight», capaz de arrancar coreografias da platéia. Recém-casadas, Suzane e Noemi sobem para a quadra do sindicato, transformada em salão de festas. Levam numa mão um certificado e na outra um buquê, a sete dias do fim do mês das noivas. Número de frases: 73 E dos noivos. Quando uma pessoa da etnia Tukano fala siniya pocka para alguém, ele certamente já 'tá passando para as suas mãos uma cuia ou caneca com água e farinha de mandioca misturados. «Beba chibé» é a tradução para um gesto comum de hospitalidade e generosidade aos visitantes, e sendo o anfitrião 'pecialmente Tukano, é recomendável beber para mostrar simpatia e boa vontade em sua visita. Mas se o gesto for oferecido com as palavras ren xibe, que significa o mesmo em língua geral, Nheengatu, o visitante pode desobrigar-se de beber, pois sua eventual recusa não carrega o risco de ofender membros das etnias que falam 'te idioma. Beber chibé a qualquer hora do dia é um habito comum em São Gabriel da Cachoeira, no interior do Amazonas. Basta andar na rua para perceber alguém na frente de casa, em franca atividade com uma colher e uma caneca de alumínio nas mãos. É uma cidade fascinante por os detalhes da cultura indígena que permanecem mesmo com o 'tabelecimento de um modo de vida urbano. Não poderia ser diferente, já que 80 por cento dos moradores é indígena ou descendente. Em o município, a proporção sobe para 98 % entre etnias dos quatro troncos lingüísticos que predominam na região da Cabeça do Cachorro, no alto rio Negro: Nheengatu, Tukano Oriental, Aruak e Yanomami. Muitas características fazem deste município o mais indígena do Brasil, e já que 'tamos falando de língua, São Gabriel da Cachoeira é o único município brasileiro a ter três línguas além do português como co-idiomas oficiais aprovados por lei: Nheengatu, Tukano e Baniwa ('ta última pertencente ao tronco lingüístico Aruak). Caminhando por a cidade é comum ouvir pessoas conversando na rua, a maioria em Tukano e Nheengatu, isso ocorre principalmente no âmbito familiar ou entre amigos da mesma etnia. «A gente 'tá conversando aqui em Piratapuia (tronco lingüístico Tukano Oriental)», respondeu o professor Genival Gonçalves, 35, durante almoço com outros dois amigos. «É importante falar para manter nossas raízes, não deixar nossa cultura se perder», comentou. Mas o idioma que predomina nas manifestações coletivas é o Tukano, usado no mesmo nível do português e bem mais compreendido. O Festribal, festival da cidade que celebra a cultura indígena da região, é uma ótima oportunidade para a constatação da força do idioma também usado nas assembléias de associações comunitárias ou movimentos sociais locais. «Todo mundo sabe Tukano», conta o professor. Assim como comunicar, a alimentação como necessidade cotidiana gera manifestações culinárias tradicionais, embora mais presentes no meio familiar ou comunitário. Em o comércio predomina o sistema self-service e as conhecidas refeições práticas, sendo poucos os restaurantes que mantém alguns pratos indígenas no cardápio tornando 'cassas as oportunidades de degustação por parte de visitantes. Mas muito além do chibé de todo dia, algumas famílias fazem questão de preservar hábitos culinários também como um ato social que simboliza amizade. «Gostamos de reunir a família e amigos aos domingos, fazemos uma quiampira bem tradicional (isso significa: com muita pimenta) e nos reunimos para comer sentados ao chão e conversar em nossa língua», conta o descendente da etnia Desana, Délio Alves, 23. Reforçando o aspecto fraterno, a refeição ainda é acompanhada de uma bebida, servida numa cuia que é passada de mão em mão, em geral o chibé, caxiri ou vinho de alguma fruta (vinho aqui significa suco. Sofre curta fermentação, mas não-alcoólica). Os bairros periféricos de São Gabriel da Cachoeira crescem como resultado de um movimento populacional do interior para a sede do município, que geopoliticamente representa uma ilha cercada de reservas indígenas, logo, a chegada de 'tas populações trazendo costumes mais arraigados à cultura indígena provoca situações peculiares, como a construção de casas populares por o poder público sem a divisão por cômodos. «O indígena não tem individualismo, não precisa de quartos», explica Délio, considerando a casa como 'paço coletivo de comunhão entre parentes e amigos. Choques culturais -- Religiosidade O encontro das culturas na região do alto rio Negro é em princípio conflitiva. Embora a igreja católica colonial tenha chegado de modo pragmático, considerando «obra do demônio» tudo que era indígena, hoje, motivada por o descontentamento de fiéis e o avanço de outras doutrinas, têm tornado sua atuação mais maleável numa tentativa de caminho inverso chamada inculturação. «É um termo teológico sob o qual a fé em Cristo é exposta a partir dos costumes destes povos», afirmou o bispo da cidade, Dom Walter Azevedo. A construção de novas igrejas nos bairros periféricos materializa 'ta disposição em seu formato que lembram ocas, mas o discurso não demora a revelar sua curta flexibilidade. «O importante é que se creia num Deus único independente de seu nome, mas com o cuidado de tirar uma idéia imperfeita. Não podemos admitir um Deus com 'posa, filhos e antropomórfico», explica o bispo, negando considerar isso uma imposição ao basear-se na experiência com índios Yanomami. «Mantemos todos aqueles 'píritos da sua crença, mas os colocamos como intermediários de nosso Deus supremo e único», conclui com naturalidade, mesmo jogando toda uma mitologia para um segundo 'calão 'piritual. Mas 'ta nova 'tratégia encontra duas razões para existir. Para o psicólogo Márcio Albuquerque, a postura violenta de doutrinação entrou em choque com os movimentos organizados de resgate cultural. «Se não fizessem isso, daqui a pouco não teríamos nem mais um índio católico aqui», afirma, apontando ainda o avanço das igrejas evangélicas principalmente nos bairros periféricos. Choques culturais -- Exército Uma das maiores atrações do Pelotão Especial de Fronteira -- PEF, baseado em São Gabriel da Cachoeira, é o destacamento de soldados indígenas armados com zarabatanas, arma silenciosa na forma de um tubo comprido de madeira que, ao ser soprado em sua extremidade lança dardos envenenedos com curare. Mas o que parece uma harmônica integração entre culturas a serviço da pátria, teve alguns detalhes revelados por um soldado de origem indígena que preferiu preservar sua identidade à reportagem do Overmundo. «Não é tão fácil para nós aqui, viemos para o exército por ser uma alternativa de ganhar um dinheiro, mas a gente era muito humilhado e os comandantes são todos de fora, tudo 'trangeiro, não tem índio comandando», explica, reproduzindo o termo 'trangeiro como um modo dos locais de se referirem à brasileiros oriundos do Sul e Sudeste. O levante por a revigoração dos valores da cultura indígena também teve reflexos em 'te 'paço, gerando um episódio vitorioso para os índios, mas com a repercussão abafada fora do quartel. «Por muito tempo fomos chamados de Maku (macú) por tenentes e superiores que sabiam que 'tavam nos humilhando chamando assim, mas eles faziam isso assim mesmo», conta o soldado, até que, cansados de serem ofendidos, soldados indígenas desencadearam um movimento dentro do quartel que quase descambou para a briga. «Ninguém queria brigar, mas não respeitavam a gente, no final, conversamos e conseguimos acabar com 'se negócio de chamarem a gente de Maku. Estamos aqui pra defender o país, ninguém tem que humilhar ninguém», enfatiza o militar. Apesar de designar um tronco lingüístico, o termo Maku representa entre os povos indígenas um 'tigma terrível. Segundo o antropólogo Antônio Maria de Sousa, um termo recomendado apenas para quem quiser arrumar uma confusão muito grande na cidade. «Chamar alguém de Maku significa associá-lo à 'cória das sociedades indígenas, índios sem poder ou autonomia que historicamente foram 'cravizados até por outras etnias», conta. Ouve-se popularmente que Maku que é Maku, somente possui identidade quando tem dono, quem determina o que ele é e o que faz. Logo, a baixa auto-'tima arraigada ao termo gera brigas com conseqüências sérias cada vez que alguém resolve ofender o outro em São Gabriel da Cachoeira, no seu mais alto grau. Choque cultural -- Saúde O conhecimento mítico indígena explica tudo o que existe no mundo e condiciona a relação do homem com o mesmo. Em as questões de saúde, não só a aplicação do conhecimento tradicional na cura de doenças por meio de folhas, cascas de árvores ou flores no preparo de misturas é amplamente utilizado, rituais de reza e benzimento por meio de pajés, que variam conforme a etnia, também são freqüentes. «Quando a administração dos hospitais percebeu a força dos pajés nas comunidades e os trouxe para atuar dentro dos ambulatórios, o atendimento melhorou e os indígenas passaram a respeitar e seguir o tratamento indicado por os médicos», conta o psicólogo Márcio Albuquerque, 'pecializado em Saúde Hospitalar e que trabalha no hospital de baixa e média complexidade em Yauaretê. Normalmente os comunitários ainda procuram muito mais os pajés do que a medicina, principalmente nas comunidades, 'tes personagens centralizam não apenas o poder de cura, mas o posto de homens mais sábios. «Tudo gira em torno do pajé, é com ele que crianças e adultos vão se orientar, pedem conselhos e buscam proteção 'piritual antes mesmo do aparecimento de doenças», conta o psicólogo, que quando chegou para trabalhar na região testemunhou cenas de maus-tratos de enfermeiros e médicos com os indígenas, por conta da falta deste entendimento. Hoje, Márcio trabalha visando a união harmônica das culturas como complementares. «A nossa cultura chegou subjugando um conhecimento que somente agora, percebendo seu valor inclusive para nós, 'tamos concluindo que o melhor é associar o tradicional ao ocidental», explica, apontando como o único problema a chegada de alguns profissionais do Sudeste e Sul do país com uma visão colonizadora. «Com o tempo fazemos o profissional perceber que se trata de indivíduos com uma cultura diferente, e não pessoas em 'tágio inferior de evolução», conclui, repetindo o conceito elaborado na Constituição de 1988, que representou o mais significativo ganho político para os indígenas. Número de frases: 58 Quando sair das páginas para o senso comum do brasileiro, o que primeiros habitantes do Brasil 'peram é a implementação de um processo de integração menos doloroso em São Gabriel da Cachoeira e todo o alto Rio Negro. Corpomancia é um neologismo --e um neologismo muito recente-Y, portanto não adianta ir procurar a palavra nos dicionários, porque não vai encontrá-la. Corpomancia designa um jogo, uma dança, expressão cor-poral. Tudo junto forma um 'petáculo em que o corpo é o protagonista. Esse 'petáculo, que ganhou o título de «Um Jogo de Dança em Cena» será mostrado ao campo-grandense em 'ta quinta-feira, 5/ jun. / 2008, no Cena-Som. Criado por as designers Paula Bueno e Luciana Cristofari, o corpoman-cia é uma inovação no palco e joga com a interação com o público, comu-nicação, educação cultural e aproximação do público com a dança, de forma lúdica e, em geral, muito divertida. Participam de " Um Jogo de ..." as bailarinas Ana Maria Rosa, Luiza Rosa e Franciella Cavalheri, além da própria Paula Bueno. O 'petáculo é produzido por o Coletivo Corpomanci-a, formado por bailarinas que desenvolvem outras atividades além da dança -- Ana Maria Rosa é engenheira-ambiental, sua irmã Luiza Rosa é jorna-lista, Franciella Cavalheri é terapeuta-ocupacional, e Paula é designer. Para a concepção e realização do 'petáculo, o Coletivo Corpomancia contou com a colaboração do ator e diretor de teatro Espedito Montebran-co, responsável por a luz e cooperação na concepção da encenação; decoradora Maria Bernadette Bueno Netto e Márcia Gomes, cenografia, jornalista Alexandre Spengler, que participa da captação e edição em vídeo de ima-gens do 'petáculo; e a designer e tecelã Mary Saldanha, apoio na criação visual e no desenvolvimento de peças utilizadas. O 'petáculo traz uma proposta inovadora de improviso na dança, promovendo em cada apresentação um 'petáculo diferente, na medida em que os jogadores sorteiam os 'paços e o tempo da dança, as peças mu-sicais, as partes do corpo utilizadas, os modos de movimentos, e outras variáveis de criação do 'petáculo. O Jogo De a CORPOMANCIA Corpomancia, 'tá lá no texto de apresentação do 'petáculo, «é um jogo de tabuleiro, cartas e dado». Segundo Bueno e Cristofari, suas criado-ras, o jogo foi pensado para aproximar as pessoas da dança, a mais huma-na e sensual das artes, e do movimento, para que tenham certeza que qualquer corpo pode dançar. Resumindo, qualquer um pode dançar e, em conseqüência, entender e vivenciar a dança como forma de expressão e auto-conhecimento, de forma lúdica e alegre. Para participar, os 'pectadores -- pode ser de qualquer idade, sexo, re-ligião e facção política-Y preenchem alguns 'paços em cartões semelhantes a cartas de baralho, em que 'colhem partes do corpo -- cabeça, tronco, pernas, braços e quadril, além de um curinga-Y, chamados de instrumentos corporais. Os participantes, bailarinos e voluntários, 'colhem movi-mentos que podem ser pressionar, socar, flutuar, chicotear, pontuar, tor-cer, sacudir e deslizar, bem como intensidade, 'paço e tempo. Depois, alguns são chamados ao palco, onde irão dançar junto com as bailarinas a partir das premissas dadas. Quem já viu e participou achou muito diverti-de o e instigante. O Significado Corpomancia é um neologismo resultante da junção da palavra corpo --a 'trutura física de um organismo vivo ('pecialmente os animais e o homem) englobando suas funções fisiológicas-Y e o elemento de composição mancia, que em grego significa adivinhação, predição por meio de algo designado por o precedente. Existem inúmeras palavras em português compostas com mancia: necromancia, bibliomancia, cartomancia, piro-mancia, quiromancia e outras. Paula Bueno foi quem deu o nome ao jogo: «'se título quem me inspirou foi o ('critor) Rubem Fonseca, autor do livro de contos ' Excreções, Secreções e Desatinos ', que contém um conto chamado ' Cropomancia ' -- que trata de uma prática muito 'tranha de adivinhação. Usamos a palavra para criar nosso próprio neologismo, querendo significar o adivinhar al-guma coisa através do corpo». Luca Maribondo Número de frases: 29 luca.Maribondo@uol.com.br Não, não é o pai do Carlton (Não podia perder a piada). Beleza, chega de hahahas e vamos ao post. Eis que na manhã de terça feira, 2 de Maio, o Tiago me liga perguntando se eu 'taría afim de fazer um rolê no centro da cidade com o Phil Minton, Thomas Rohrer e o Lauro, com a intenção de fazer um som com crianças de rua, desempregados, moradores de rua, músicos de rua. Vixi doido, nem pensei nada, batí a xepa, catei um trompete, um pífano de plástico e caí para o centrão e encontrei eles no metrô Anhangabaú. Feitas as apresentações, fomos à um kilo na 7 de Abril para eles almoçarem. Phil falava das impressões sobre SP, que não 'perava encontrar algo tão similar às cidades européias e como SP é populosa. Primeira parada foi no Vale do Anhangabaú, 'tavamos indecisos se tentaríamos primeiro com as crianças ou com os adultos. Bem, com os adultos, só conseguimos bater um papo e ouvir alguns cantarem, pois eles não 'tavam no barato de participarem da fita, queriam chapar de cachaça mesmo. Com as crianças, mesmo sendo muito difícil por 'tarem entorpecidas por solventes, rolou uma interação, que não durou muito, pois logo elas perderam o interesse. Fomos a pé em rumo a Praça da Sé. Em o caminho, nas ruas do centro velho, Phil deu algumas moedas à um sanfoneiro cego que 'tava na rua. Em a praça, não encontramos ninguém que 'tivesse receptivo ou algum músico. O ambiente lá é tenso e triste. Sugerí o Parque da Luz, pois lá é bem mais tranquilo. Foi muito legal, pois encontramos alguns adultos que foram muito receptivos e conseguímos fazer um som com eles. Bem, no saldo geral, foi bem divertido. Foi um passeio muito instrutivo, inclusive aprendí que o interior da igreja do Largo São Bento serve de negociata para celulares roubados. Mas o principal foi que a cidade 'tá triste, carente, muito mais do que parece. Sobre o som, Phil é pouco usual no que se conhece sobre cantar. Por exemplo, qualquer palavra, som emitido com a voz, ele transforma em música. Seja o canto dos pássaros, alguém 'pirrando, vendedor ambulante, etc.. É a improvisação total mesmo. O cantor é um nome de destaque no cenário de improvisação inglesa, conhecido por seus trabalhos com John Zorn, Tom Cora, Fred Frith e Albert Harth, entre outros, como também com o diretor de teatro Mike Figgs. Em 1988 recebeu da International Jazz Forum, o prêmio de melhor cantor europeu. Número de frases: 24 Em 1991, recebeu o prêmio Cornelius Cardew de composição. O nosso ouvido tem sido um canal condutor de sonoridades da dita modernidade que nem sempre capta e processa o que existe de puro, verdadeiramente original, seminal, 'truturador em nossa vida. Um som é uma informação importante para nossa formação 'piritual, humana, como cidadãos até. Ele passa ser um conhecimento adquirido dentro de um contexto histórico em que o incorporamos como um pequeno degrau que nos eleva a patamares de evolução em todos os níveis. A globalização vem trazendo efeitos destrutivos em nosso ouvido, o humano. Posto que exista o ouvido desumano, aquele que ouve e destrói o que ouve, sem deixar legado em nossa memória. O que ouvimos? O tear existente em nossa cabeça acústica trabalha enquanto houver fios sonoros para tecer. E eles precisam 'tar purificados de ruídos de comunicação, distorções, desafinações, vírus, bactérias corrosivas do nosso tecido auricular. Número de frases: 9 Aqui, fica um ponto de partida, um acorde musical em aberto que podemos mudar de configuração harmônica para vcs possam continuar tecendo 'te pre-texto, pro-testo, e manter a conversar em modo tonal maior sujeito as modulações de tom ad litibum. Vejam bem, não é porque 'crevo aqui com alguma freqüência que levo uma vida branda e preguiçosa. Tenho um trampo -- alguns aqui já devem ter lido algo a respeito em 'te relato -- que consome uma boa fatia do meu dia. Coisa de doze ou mais horas de relógio. Claro que existem hiatos em que o bacana aqui se dá ao luxo de sentar ao PC e 'pecular um pouco. Exercitar meu lado «cabeçudo». E foi num desses momento de quase ócio que eu comecei a ocupar a cabeça com pensamentos inesperados. De 'sa vez, uma única audição da Nação Zumbi, mais precisamente a frase «a alma do negócio é você», da música Propaganda, me alertou para um fato: a nossa época é a que será lembrada, em grande parte, por a sua vertente consumista. Livros, música, moda, 'porte, arte em geral, tudo é enfiado num saco para se transformar em produto. Algumas marcas já se firmaram em nosso imaginário. Jingles são lembrados por o resto de nossas vidas como canções de infância. Nosso passado e nossa memória 'tão impregnados de elementos que são, 'sencialmente, propaganda. Não que isso seja de todo ruim. É um fato. Não vou entrar numas de saudosista. Ou virar um xiita de longas barbas e cara emburrada, negando tudo que me cerca. De esse balaio de gato coisas boas pintam, ao lado de um monte de porcarias. Que têm como único mérito «serem vendáveis e lucrativas». É daí que vem minha preocupação. Ou seja, o excesso. O famoso e batido joio, misturado 'pertamente ao trigo. A coisa anda cada vez mais exagerada. Um dos exemplos mais recentes foi a Copa do Mundo. Chuteiras, camisas, cuecas, meias, apitos, gramado. Tudo tinha uma logomarca. Uma verdadeira guerra 'tava sendo travada nos 'critórios dos marqueteiros engomadinhos e cheiradérrimos. Nossa seleção voltou mais cedo e totalmente apática. Ronaldinho «gordo» ganhou umas bolhas de uma chuteira de alguns milhões de dólares -- somem o investimento total naquilo. E os manés não fizeram nada além de desfilar com suas meias bacaninhas e o batido uniforme amarelo. A Fórmula Um nem se fala. Além dos carros rodando, rodando e rodando, tomados com os nomes de todos os patrocinadores, aqueles macacões cheios de logos já até fazem parte do famoso «circo». Já são indissociáveis do 'porte em si. Tornaram-se elementos ligados ao evento. Em a arte a situação não é lá muito diferente. Em um festival de grande porte realizado na capital baiana, ano passado, onde bandas como Barão Vermelho tocaram, podia-se ouvir o som de um celular nos potentes alto-falantes, como anúncio de uma das empresas de telefonia móvel patrocinadoras. A todo tempo éramos lembrados de que empresa X 'tava bancando a festança -- ao menos foi 'sa a intenção do publicitário «gênio». Tudo bem, seria até tolerável se não fosse o fato de que 'te som irritante surgia justamente no meio das músicas executadas por as bandas. Temos também o exemplo clássico do «artista vendido». Em um dia o sujeito aparece com cara de poucos amigos, tal qual um verdadeiro punk cuspindo palavras de desordem para, num dia seguinte, sorrir em sua Tv tentando te convencer a comprar um jeans, um papel higiênico dupla face (provavelmente com vitamina «E», um luxo!) ou um carro do ano -- isso até me lembrou os velhacos dos Sex Pistols que, num golpe genial de sarro e publicidade em causa própria, batizaram uma de suas recentes turnês por o mundo de «Lucro Sujo». Grande sacada, diria eu. De o jeito que a coisa anda não vai tardar e iremos presenciar situações das mais alucinadas. Não vai levar muito tempo para que padres façam suas orações e, de forma quase despercebida, venham com a lembrança de que 'se ou aquele vinho é melhor para acompanhar a hóstia -- que, a 'sa altura, já foi devidamente oferecida com a apoio das " Farinha de Trigo Cook Master. «Vão com Deus e em paz ..." diria o padre,» ... mas não 'queçam: Tomem vinhos São Roque Maravilha, o vinho da família cristã ...», para encerrar o sermão de forma impactante» ... o resto é coisa do Satã». Ou então num enterro. Onde algum marqueteiro de plantão em meio aquele típico discurso inflamado, citando somente as qualidade do defunto, entre prantos e soluços, diga: «Ele se foi. Mas foi com classe, graças a funerária Deus te leve». Isso sem falar nas garotas do tipo «dispostas». Vai lá que numa bela noite de luar, antes de realizarem peripécias com a boca, elas venham -- num exemplo prático de como fazer um eficiente marketing direto -- a sussurrar no ouvido de algum desavisado: «Eu uso Creme Dental Super Fluor Maxxi, gatão ... slup!, slup!». Obviamente sem 'quecer da piscadela de olho e do sorriso faceiro. Bem, é o mundo. que gira e evolui -- ou involui; mas o tempo, como nos fizeram crer sendo algo linear, vai para «frente». A grana norteia uma porrada de coisas. Logos, slogans, jingles. O tal marketing, cada vez mais invasivo e agressivo, se aperfeiçoa. Não dá para viver no mato, na boa, assobiando canções de escoteiro e bebendo água de coco. Temos de 'tar 'pertos. Escolher de tudo. De a religião até a música que nos comove, como se a vida fosse um interminável -- mas não menos divertido -- hipermercado. Número de frases: 69 Porque tem horas em que o bom e velho funciona melhor. Você fica aguardando a resposta de ela hoje à noite. 20:40 e ela ainda não decidiu se vai sair com você hoje ou não. Tá querendo descansar, tá de saco cheio da obrigação de sempre ir para os mesmos cantos que todo mundo vai só pra aparecer. Acha tudo aquilo uma bobagem, e prefere ficar só em casa, namorando por a internet até onde der o sono. E ele fica conversando com ela on-line, pressionando-a se decidir. Ele não agüenta mais 'se papinho furado de virtual, pensa que tem coisa que tem que acontecer sempre, como baladas e festas com a namorada, e depois um bom amasso e ... quem sabe? Mas ela tá naquelas infinitas crises existenciais que toda mulher sempre têm. Basta um bom comprimido, conversa e cama. E ele forçando, e ela cedendo. Afinal ela também gosta muito de ele, não namora ninguém por namorar. Enfim, decidiram. Um barzinho perto da casa de ela, mais à vontade. Iria conversar com ela de verdade, sem outras interferências, virtuais ou reais. A noite seria perfeita, e o desfecho também. Ufa! Não teria sido bem melhor um simples telefonema, ou uma ida até sua casa? Até seria, mas em 'se caso a situação parecia pedir um diálogo mais encorpado, sem o tradicional olho no olho intimidante a quem quer resolver uma situação da qual não tem controle. Enfim, no final o real prevaleceu, e sempre prevalecerá, pois o virtual depende de ele, e não o contrário. Em certas situações o que mais se quer é um corpo a corpo bem real, pra resolver qualquer problema amoroso que venha a ocorrer num relacionamento aberto como 'te, ou até mais tímido como tantos outros. Em a verdade a situação em questão teve origem no relacionamento de um casal, mas poderia ser tranqüilamente uma reunião de negócios, uma pauta para uma matéria jornalística, uma discussão sobre um projeto arquitetônico. Não importa o que 'tá se discutindo, e sim a gravidade do problema. Tanto que, quando o bicho pega, a boa e velha realidade vem à tona rapidamente, e resolve questões que a virtualidade simplesmente não atinge, com sua impessoalidade cada vez mais sufocante. Olho vivo! Número de frases: 25 Volto para o Over a fim de 'crever sobre uma cantora baiana da atualidade, Mariene de Castro, que faz o som da antiguidade, o samba. Castro faz um ritmo da nossa raiz musical e cultural. Raiz 'sa africana! O samba foi trazido da África por 'cravos que, para 'quecerem dos seus maltratos que sofriam durante o dia por os seus senhores, faziam suas festas e seus ritos nas noites da senzala. «Só vou para casa quando o dia clarear eu sou do samba pois o samba me criou ...». Os negros nos deixaram uma vasta cultura que até hoje vem gente do mundo todo beber de 'sa fonte, como, por exemplo, Pierre Verger. Assim que aportou em Salvador, apaixonou-se e ficou, virando até Ogan de casa de santo. Mariene de Castro faz do samba, que é o mais típico ritmo brasileiro, sua arte com tanta dedicação que chega a emocionar. Ela tem uma forte ligação com o candomblé, pois é filha de santo e aproveita de 'sa benção para fazer uma forte ligação com o samba, que também não se separa muito de 'sa religião maravilhosa. Uma observação: 'se samba que eu falo no texto é o samba de roda, que é diferente do samba paulista e carioca, mas que deu, dá e dará sustentação e base a 'ses samba da atualidade e do futuro! Samba De Roda Samba de roda é uma variante musical mais primitiva do samba, originário do 'tado brasileiro da Bahia, provavelmente do século XIX. É um 'tilo musical tradicional afro-brasileiro, associado a uma dança, que por sua vez 'tá associada à capoeira. É tocado por um conjunto de pandeiro, atabaque, berimbau, viola e chocalho, acompanhado por canto e palmas. Número de frases: 17 Não é o Rio de Janeiro mas tem ótimas praias cheias de gente interessante e com montanhas a norte. Também não é Paris, mas o charme das terrazas e das milhares de lojas transpiram elegância. Está longe de Amsterdã, mas multidões passeiam a pé ou de bicicleta por as ruas e ciclovias da urbe enquanto entram e saem de museus, catedrais, galerias de arte, livrarias, bares e restaurantes. Não é como Londres, nem Madrid. Barcelona é pequena, mediterrânica, organizada mas orgânica, aberta e agitada sem perder la ternura. Secular e moderna. Barcelona é um dos pulsos da Europa. Talvez por tudo isso, aliado à facilidade de convívio com a língua castelhana -- apesar da oficial ser o cifrado catalão, milhares de brasileiros fizeram o caminho contrário ao de Colombo e fincaram a bandeira canarinha naquelas paragens. Ele continua na Plaza Cólon, em frente ao mar, apontando a rota para as Américas, mas é debaixo do seu suvaco que parte de 'sa galera fez da capital catalã o seu pouso criativo, contribuindo também para que o cosmopolitismo da cidade contenha os tons do nosso verde e amarelo. É só chegar Em Barcelona, o agito começa logo à saída do aeroporto El Prat. Visitantes oriundos de vários países e continentes evitam os quase 30 euros de táxi até ao centro da cidade e entram na concorrida fila do aerobus. Passageiros de havaianas disputam 'paço com as próprias malas enquanto assimilam o surpreendente calor local. Aos poucos, entram na área metropolitana e começam a mergulhar nos quarteirões regulares conhecidos por L'Example, projetados por Ildefons Cerdà há quase 150 anos para modernizar a obsoleta arquitetura da cidade. Próxima 'tación: Plaza Catalunya. A pulsação aumenta na chegada. Centenas de gentes circulando, seja num bom par de tênis ou de skate, moto, carro, ônibus, metrô, patins ou bicicleta. Madames com sacos de griffe, artistas de rua, freaks tatuados ou a lourinha mais gostosa do dia se 'barram para chegar às Ramblas ou subir a larga Passeig de Gracia. E é mesmo a partir de ali que quase tudo acontece na cidade: hospedagem desde o pé-de-chulé a 30 mangos o quarto duplo ao privilegiado cinco 'trelas; rango farto e barato ou aquele restaurante chique que fica bem na foto; o caminho para a praia e a marina de Barceloneta ou para o histórico e frenético Bairro Gótico. Tem Gaudí e graffitti. Miró, Picasso e as filipetas mais iradas do planeta. Mas algum cuidado com a carteira é prudente. Depois de se instalar, a onda é bater perna. Barcelona faz-se andando e se perdendo em suas ruas e vielas. Ramblas abaixo. É de 'ta verdadeira coluna vertebral do bairro antigo que se chega até a Plaza Real, Raval, Barceloneta e a todas as atrações possíveis para os gostos mais que diversos de quem o visita. Flagra-se alemão comprando sombreiro mexicano e mané pagando 15 euros por um pedaço de madeira achando que é haxixe. Quando a fome aperta, não faltam bocadillos e tapas ou uma pita indiana. O moleque jogando bola pode ser boliviano e o carinha tirando foto, francês. Mas pode ser ao contrário: em Barcelona, pode. Em o final do dia, só tira as havaianas quem quer. Para quem tá longe do chuveiro, basta pegar as filipetas e cair dentro, porque a descontração é geral e muitas festas têm entrada gratuita. Os 'tilos são vários e as caras mais ainda. Tem norueguês dançando salsa e salseiro tomando champagne. Em cada bar outro bar. Em cada rosto, um motivo para sorrir. E não se 'pante se trombar com o Manu Chão ou com a Scarlett Johanson. Bienvenido a Barcelona. * * * * * Mão na massa, brasilidade, modernidade e 'pírito cooperativo Marise Cardoso (ou Djiiva para os antenados), radicada em Barcelona desde 2000, sente-se em casa. Dj, produtora, líder do grupo N'Sista e organizadora da feira alternativa PulgasMix (que mistura música, artesanato, artes circenses, moda, cinema e otras cositas más), roda a baiana e é uma das que temperam a agitada vida cultural da cidade. Marca ponto toda terça-feira no bar SideCar, na Plaza Real, nas obrigatórias Brazelona Sessions -- comandadas por os dj's Wagner Pa e AndyLoop, seja para discotecar, dançar ou apresentar a festa para mais um visitante. «Fazemos ' brazillian point of view ` e não ' Brasil é samba e bunda '», avisa Djiiva. «Já fizemos 12 edições do PulgasMix em quatro anos e passaram por aqui mais de 200 artistas do mundo da moda e uns 70 da música. Em 'te rolou uma pausa, mas agora voltamos com tudo», empolga-se Marise. E não é exagero. O festival voltará às calles em novembro, nos dias 10 e 11, e já tem desdobramentos do evento agendados. «O PulgasMix Visita é um projeto que implantei 'te ano para levar o Pulgas a outros bairros e outras realidades menos ... digamos ... fashion, e 'tá marcado para 15 e 16 de Dezembro», arremata. Pilotando também o grupo N'Sista há poucos meses com a irmã -- a cantora Lili Jones, e tocando em várias baladas na cidade ao longo da semana, Marise ainda descola tempo para receber os amigos e mostrar a cidade. Dois destes já se consideram locais. Os cariocas BNegão e Pedrão Selector -- ambos integrantes do grupo Seletores de Frequência, só rasgam elogios quanto à cidade e à movimentação brasileira. «Em o sentido do clima e vibe, Barcelona é a cidade européia mais carioca que conheço», declara BNegão. «Mas na minha área de atuação, que é a cena alternativa, nem dá para comparar: Barcelona dá até saudade», confessa o ex-Planet Hemp e um dos eternos batalhadores da cultura independente brasileira. Já Pedrão ressalta um sentido maior de cooperação que nota em relação ao Brasil: «aparentemente, por 'tarem em outro país, os brasileiros aqui se mobilizam para agitar boas festas e shows; um fortalece o outro, não vejo tanto aquele clima de concorrência e, sim, as pessoas cooperando umas com as outras, muito diferente do que ocorre aqui no Rio», detona o trompetista, que já atuou em várias baladas -- para além dos shows dos Seletores de Frequência -- com a banda Los Tédio Gonzales, com o percussionista brasileiro Sandro Lustosa (ex-Macaco), com o próprio Macaco, sem contar as participações nas concorridas jam sessions que pipocam nos bares e discotecas à noite. * * * * * Um dia perfeito em Barcelona segundo ... BNEGÃO Seletores de Frequência cantor " Almoçar no Organic (vegetariano), dar um pulo na praia, depois dar umas voltas por a cidade, jantar no Romesco e tentar ver algum show bom por lá (tem vários sempre!). Mais tarde, dar um pulo na festa Cannibal SoundSystem, na Sala Apolo, e seguir para a Brazelona Sessions, no Sidecar». MARISE Cardoso Djiiva / N'Sista / PulgasMix dj e produtora «Café da manhã num chiringuito (quiosque) na praia depois de um mergulho e umas braçadas no Mediterrâneo. Passeio de bicicleta até ao centro, ver alguma exposição para dar aquela atualizada e comidinha rápida por a zona a seguir. Logo depois um cafezinho numa terraza no Born, showzinho no fim de tarde e umas copitas à noite para relaxar». PEDRÃO SELECTOR Seletores de Frequência trompetista e guitarrista «Um bom café da manhã numa padaria catalã (com direito a pão com tomate e chouriço de Pamplona), passeio no Parque Guell e depois um mergulho em alguma praia da orla (de preferência Barceloneta); Depois, uma parada 'tratégica na Champanheria Can Paixano para umas cavas e bocadillos e seguir por todos os bares e boates que rolam no Bairro Gótico, sempre atrás da melhor ..." Número de frases: 79 Imagem: Giselle Godoi A Kantuta é uma feira que acontece aos domingos no bairro do Pari. mais de 80 barracas refletem a busca de identidade da comunidade boliviana em São Paulo e representam um contato com a comida típica, a música e a origem dos migrantes. Mais do que isso: a feira é um 'paço onde se desenvolvem iniciativas sociais, como a Associação Brasil -- Bolívia, que defende o interesse dos oficinistas. É por isso que o migrante recém-chegado vai à Kantuta em busca de ajuda e informação. Ali, bem pertinho da 'tação Armênia do metrô, 'tão penduradas, lado a lado, as bandeiras do Brasil e da Bolívia. Elas enfeitam a rede que separa jogadores de 'pectadores. É final de campeonato e a feira da Kantuta volta seus olhares atentos para a bola de futebol. Ao redor da quadra 'tão as barraquinhas, que vez ou outra recebem um olhar perdido de um dos torcedores. Organizadas, fica fácil perceber que elas 'tão divididas em setores. Em a rua da 'querda ficam as iguarias bolivianas: temperos, chás, grãos, bebidas quentes feitas do milho. De o outro lado 'tá a seção de artesanato: bolsas, brincos, roupas, sapatos, instrumentos musicais. É aí também que o vendedor de CDs se encontra. Ele traz direto da Bolívia os mais recentes sucessos para quem 'tá longe da pátria. Por último, posicionadas 'trategicamente, 'tão as barracas de comidas quentes, de onde as panelas fumegantes perguntam se tem gente com fome. Os mais prevenidos seguram suas saltenhas nas mãos e não perdem nenhum lance do jogo. Os bonecos do pebolim 'tão parados na mesa de madeira. A disputa de melhor de cinco custa 1,50 real, mas a maior concorrência que o futebol encontra é a fila da associação, que ajuda os migrantes recém-chegado a encontrar trabalho e informação. Com a música típica que rola solta nas caixas de som, o cenário 'tá completo. Mas é o ar inconfudivelmente paulistano que faz a maioria dos migrantes se lembrar do que eles vieram fazer aqui. Quando o futebol termina, o clima festivo é rapidamente substituído. A Kantuta se transforma numa feira de trabalho. Em folhas de caderno são feitas placas, à caneta bic, que anunciam vagas em oficinas de costura: «Se necesita rectistas, se paga el 50 %». De o outro lado os mais empenhados mostram roupas prontas, exibem seu portfólio. Para aqueles que conseguem emprego, 'tá claro que a habilidade com costura não é um dom dos bolivianos, e sim trabalho árduo, cansativo. Número de frases: 29 Em conversa, é possível perceber que 'ses migrantes se consideram trabalhadores dedicados, mesmo que, para vários de eles, o trabalho com a costura, muitas vezes feito em péssimas condições, seja a oportunidade de conseguir apenas juntar o dinheiro para depois voltar para a casa. Angelo Arruda: Novos projetos precisam ser discutidos Caro leitor. A cidade de Campo Grande 'tá sem discutir inúmeros projetos de interesse público que 'tão sendo lançados por a administração municipal e até da iniciativa privada. Sem o combativo CMDU -- Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano entrar na discussão ou tomar conhecimento da discussão de diversos projetos, vai ficando cada dia mais difícil suportar a falta de debate de propostas. Senão vejamos. Depois de rápida passagem por a Câmara de Vereadores para apreciação, em 2005 e 2006, o Plano Diretor e a Lei de Uso e Ocupação do Solo Urbano, duas das mais importantes leis urbanísticas de qualquer cidade, criadas com a promessa de combater os vazios urbanos de Campo Grande, quase dois anos depois, não 'tamos assistindo nenhuma ação do governo, que anda excessivamente preocupado, como sempre, com obras de pavimentação asfáltica. Aliás, alguns meses depois de aprovada, a Lei de Uso do Solo foi alterada para beneficiar o surgimento de um empreendimento privado no quarteirão central da cidade, ao lado das Lojas Americanas, em 'se momento em obras. Benefícios públicos de uma lei para ajudar a iniciativa privada: e eu que achava que isso tivesse acabado há 20 anos atrás quando conseguimos aprovar na Câmara de Vereadores a antiga lei municipal 2.567/88 que organizava o solo urbano de Campo Grande e somente aprovava processos quando o CMDU se manifestava. Esse dispositivo foi retirado do novo Plano Diretor. Havia mais democracia na lei anterior e não houve debate em 'se processo nem na alteração da lei. Outro ponto refere-se à Rodoviária de Campo Grande: não se discutiu a que 'tava em obras, paralisada há anos que um juiz determinou que a obra continuasse; durante todos os últimos 8 anos alegou-se serem muito altos os investimentos para que ela fosse concluída, às custas de exigências exageradas e descabidas da administração municipal anterior. Pois bem, o Poder Judiciário, que foi indomável durante anos na questão da rodoviária, volta atrás e permite que se faça uma «quinta» rodoviária para Campo Grande, na saída de São Paulo, lugar 'colhido mediante quais 'tudos de viabilidade que demoram, em média, 12 a 15 meses para serem elaborados? Vem a pergunta: quem participou do debate para a 'colha do novo local? Juiz e médico conhecem planejamento urbano? E os técnicos da municipalidade? E o PLANURB / E o CMDU? E os arquitetos e suas entidades, o IAB e o Sindicato? E o CREA? E você foi chamado para discutir? Bem, no local da rodoviária com as obras paralisadas, no bairro Cabreúva, o Prefeito Nelson Trad Filho apresentou à comunidade cultural, dias atrás, uma proposta de transformar o projeto da rodoviária do arquiteto Rubens Gil de Camillo num Espaço Cultural. Pois bem, o Zeca do PT tentou fazer isso e o Poder Judiciário não permitiu. Porque proibiu para um e permite para outro? E porque os fóruns não são chamados para a discussão? O Conselho Regional do Centro, o CMDU, as entidades culturais somente tomam conhecimento da proposta pronta? Continua faltando discussão. Agora e por fim mas não finalmente, a Concha Acústica na Praça do Rádio. Você sabia que será construída uma Concha em concreto armado, no centro da nossa bela praça, para realização de shows de vez em quando enquanto a cidade não tem um Teatro Municipal, uma Biblioteca Municipal, 'paços para a cultura nos bairros, de entre outras necessidades. Quem decidiu que a Praça do Rádio deve ter uma Concha Acústica permanente? Um objeto de concreto que vai desarmonizar a paisagem da praça. Sem discussão, a obra foi lançada, a comunidade fica olhando e nada faz. Esses e outros pontos, que acabamos de mencionar, se juntam a outros do passado, como a retirada dos trilhos, demolições de casas e prédios, abertura da Av.. Mato Grosso, sem a mínima discussão com a comunidade. Se vivêssemos numa ditadura, como nos anos 60 e 70, ainda havia falsos argumentos mas se tinham alguns. E hoje, em plena democracia, com a cidade tendo mais de 1500 arquitetos e 5000 engenheiros, um monte de entidades, conselhos, fóruns de debates, ONG's, etc, sem discussão de propostas importantes para a cidade, não cabe mais. O planejamento participativo, que tanto lutamos no passado para que ele existisse, não permite mais 'sas obras, às vezes algumas loucuras em nome do desenvolvimento, como se fez no passado. Caro leitor, 'crevo 'se artigo um pouco indignado pois como arquiteto e urbanista e professor universitário, não vejo mais debates sobre muita coisa na minha cidade, que adotei para morar e viver. Prezo que as coisas sejam, democraticamente, decididas, como fiz com minha equipe do PLANURB, nos anos de 1987, na administração do saudoso prefeito Juvêncio César da Fonseca, que nunca permitiu que nada da Prefeitura fosse colocado em prática sem discussão com a comunidade interessada. Juvêncio: tenho dito a amigos da saudade que ando tendo de suas administrações democráticas e exemplares e que definiu que o planejamento fosse a ferramenta mais importante para Campo Grande. Precisamos debater mais os problemas e as idéias para a nossa cidade. Somente assim seremos modernos e felizes. Como sempre fomos. Angelo Arruda Arquiteto e Urbanista, professor da UFMS e Presidente da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas -- FNA. Fonte: Número de frases: 50 Midia Max Vou conhecer a nascente do São Francisco. Começo por São Roque de Minas, a entrada da Serra da Canastra, berço do rio. Vejo logo o porquê do nome: as montanhas em forma de uma imensa canastra de couro. Saberei que por mais que ande não verei as anfractuosidades próprias das serras: as montanhas se juntam suavemente, harmoniosamente, sem nenhum conflito. Estamos numa geografia de pedras e pedras, mas sem conflito, o mundo concertado com a beleza deste domicílio do homem. Onde o homem 'tá só de passagem. Para contemplar. Mesmo que seja um morador do lugar. Somos quatro, o Léo, a Danúbia, a Sônia e eu, guiados por o José Maria, que nasceu em 'te chão, e tem pedra e água, e bichos e vegetação nos olhos e na alma. Andamos e andamos, a caminhonete sacolejando na 'trada irregular, pedregosa, e são pedras a paisagem que vemos: as cercas de pedras costeando os morros, subindo desgraciosas, tirando graça de sua própria falta de graça. Coitados dos 'cravos que as ergueram, como cercas naturais, baratas, para conter o gado ali criado. Vemos as cercas de longe em longe, depois mais e mais de perto, até aportarmos num Curral de Pedras. Um cercado de pedras que naturalmente se encaixam, sem cimento, barro ou qualquer outra liga. Depois, se erguem divisórias, para separar os bezerros, para ordenhar as vacas. Comemos a distância, com a poeira 'branquiçada, pó de pedras, através de um campo amarelado por o sol, por a seca feia deste tempo seco. Em um mês 'tará coberto de lírios, brilhando ao sol, explica o guia José Maria. E bem mais à frente veremos um campo de margaridas, que florescerão em novembro. A natureza tem o seu calendário, quando irá vestir-se de 'ta ou daquela beleza. Quando irá mostrar a beleza da sua nudez de pedras. Entre as pedras, resistindo à seca brava deste ano, de qualquer ano, as sempre-vivas. Como o nome diz, 'tarão sempre vivas. Contra a morte de pedra, eternas. E o mais são pedras, pedras. Vejo um casal de gaviões-carcará, soberbos, majestosos, enormes, dominando uma elevação de pedra. Dominando 'te horizonte, que lhes pertence. É o tempo do acasalamento, e veremos vários casais no caminho, reinando grandiosos, imponentes. São belos. Têm uma beleza que impressiona, impõe respeito, uma 'pécie de veneração, quase sagrada. O que não impressiona nada, mas impressiona!, é o galito. Um pássaro muito pequeno, difícil de ver, como é difícil de encontrar, raridade. Tem uma particularidade que o distingue de todos os outros pássaros: o rabinho vertical, como o leme de um avião. Os outros pássaros têm o rabo deitado, horizontalmente. Ele, não. É como se fosse o leme, que vira para a direita ou 'querda, manobrando o seu vôo minúsculo. Lindo, com seu colorido dourado e azul e sangüíneo -- que sei eu?, mal pude vê-lo. Mas adivinho a sua beleza rara, invulgar e preciosa. Em a região há cartazes do Instituto Terra Brasilis de " Procura-se vivo!" à cata de informações sobre a localização do pato mergulhão, raríssimo. Pois o galito é mais raro. Deus o conserve. Passamos por a entrada do Capão Forro, que guarda no nome a origem e dor, a 'cravidão. Somente em 'sas brenhas inexpugnáveis a liberdade poderia ser intocada, e hastear as suas bandeiras verdes. O verde das árvores, que se vêem aqui e acolá, além e além mais, nos capões 'parsos entre os morros de pedra. E o verde dos coqueiros e das palmeiras. O grito verde das maritacas. Os ninhos secos de guaxo, dependurados num só coqueiro, ao vento, oito, dez, doze ninhos 'voaçantes. Uma montoeira de capim e pêlos de animais, balançando-se no ar, num desequilíbrio que desafia o perigo e permanece. E o vôo negro e vermelho dos guaxos a protegê-los. Os guaxos também são de uma beleza inaudita, no seu vôo furioso, protetor. Dependurado de uma árvore à beira da 'trada, bem maior, um ninho de graveteiro. O nome já diz, graveteiro. Faz o ninho, não de capim, com a aparência de ordem dos outros ninhos, mas de gravetos. Um emaranhado de gravetos, pedaços irregulares de pau, intrincados, numa desordem calculada, que lhe dá 'tabilidade. Um diferencial: o ninho é a sua casa. Os pássaros fazem ninhos para pôr os ovos, e chocá-los, certo. O graveteiro faz o ninho para morar. Semelhante a ele apenas o joão-de-barro, que também faz a sua casa para morar. Não vimos nenhum lobo-guará, que não é raro. Mas vimos um tamanduá. Calmo, sossegado, cruzou a frente da caminhonete. Indiferente ao perigo, como se não tivesse nenhum medo, como se nos ignorasse. Ligeiro, porém. Sumiu-se, rápido. Tamanduá-bandeira, grande, os braços pensos, quase arrastando-se no chão. Mais um senhor deste sertão. Por fim chegamos ao grande senhor, o príncipe infante, a dar os seus primeiros vagidos em seu berço verde. O rio São Francisco. Dois filetes de água que se encontram, vêm formar um riacho, que se vai, deslizando entre as pedras. Chegamos à beira de uma mina, do que poderia ser uma mina comum, empoçada entre a vegetação do cerrado, um olho d' água borbulhando, com seu exército de girinos à flor nadando, fazendo evoluções. Aqui nasce o grande rio. Enorme, descomunal, tem aqui o seu berço privilegiado, aqui geme os seus vagidos de uma dorzinha que encanta, como encantam os bebês, aqui começa a engatinhar, inseguro, não sabendo ainda quão poderoso será. Dezesseis quilômetros à frente ainda é um riozinho que poderia ser atravessado com poucos passos, que tem um ou outro poço mais fundo, entre as pedras. Um rio pequeno ainda. Mas já com um bom volume de água. Esconde o volume, não se diria que tanta água explodiria na Cachoeira Casca d'Anta. Subimos as pedras da cachoeira, uma encosta íngreme, difícil, que nos fez pôr os bofes de fora, mas não perigosa. Lá embaixo o panorama de montanhas e vales, e o rio entre as pedras, vêem-se as pedras douradas, sob as águas, longe, cada vez mais longe. Sob nós, a cachoeira. Como um pulmão, a cachoeira explode. Como um canhão d' água arrebentando do meio das pedras da montanha. A água projeta-se no ar, e, de repente, cai de uma altura de uns duzentos metros. Nasceu o rio São Francisco. Um detalhe. O nome Casca d'Anta foi dado ao lugar onde havia uma árvore com excelentes propriedades descobertas graças à anta, que em ela vinha se coçar. É de onde o rio se projeta para o mundo. De uma árvore. Tem as suas raízes numa árvore. Que siga o seu destino natural como o destino das árvores, que muitas vezes são mortas por o homem. Não matemos o rio. Transposição? Que o rio siga o seu curso natural, prodigalizando o dom da vida por onde passa. Salve, São Chico. Número de frases: 97 Em Recife [PE] a SDS -- Secretaria de Defesa Social -- ressaltou, depois do Carnaval, que não houve nenhum arrastão no 'tado inteiro durante o tempo transcorrido de festa. Ora, não é preciso argumentar tanto para provar o contrário. Quem circulou por as ruas do Recife Antigo, principalmente entre os dias 17 e 20, de Fevereiro, no Cais da Alfândega, onde aconteceu a décima segunda edição do Festival Recbeat, viu que, óbvio, aconteceram arrastões. E muitos, diga-se de passagem. Não quero com isso dizer que o Recbeat -- 2007 foi a trilha-sonora para a grande violência, mas sim criticar a forma que o pessoal, lá presente, encontrou para reconhecer o bom trabalho da Prefeitura do Recife que, sempre no período carnavalesco, oferece gratuitamente atrações multiculturais. Também não quero me aliar a um conhecido blog local, questionando o festival por usar dinheiro público para trazer atrações de fora. O Recbeat usou o dinheiro do contribuinte, ou seja, o nosso dinheiro para nos fazer ver shows [Isca de Polícia, Bonde do Rolê, Tom Zé, Vanguart, entre outros] que nunca assistiríamos pagando. Mas, não é isso que fazem os outros pólos carnavalescos da cidade? Vale salientar que 'sas apresentações públicas são, contudo, o verdadeiro link de avanço da cena musical pernambucana. Sem isso, nossa produção não vai adiante e o nosso cenário musical não circula ou se desenvolve, por favor. Sendo assim, carecia de um pouquinho mais de cautela para não ser devorado por 'sa violência que vem se 'tabelecendo com sucesso na cidade. Número de frases: 11 Esta matéria foi publicada originalmente no fanzine Elefante Bu " Nasci em 1966, cresci nos anos da ditadura militar, em São Paulo, que ainda não era 'sa megalópole que conhecemos hoje. O bairro em que eu cresci se assemelhava muito a uma pequena e gostosa cidadezinha do interior. Quando eu tinha cinco anos, eu queria tanto, mas tanto ler os livros do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, que pedia para meu pai, o tempo todo, para me colocar na 'cola. Eu queria aprender a ler. O meu pai tinha o hábito de ler para nós um capítulo do livro por noite. Um mísero capítulo. Aquilo era muito pouco para a minha ânsia de saber o que é que ia acontecer com Narizinho, Pedrinho, Emília. Eu queria ler tudo, sozinha, por minha conta. Eu tinha frequentado o Jardim da Infância e não tinha gostado. Muito barulhento, muitas crianças correndo por o pátio o tempo todo, muitas atividades que eu considerava «bobas». Eu não queria passar o tempo todo desenhando ou colando coisas. Eu já fazia isso em casa. Eu queria aprender a ler. Meus pais me matricularam numa 'cola particular, fui para a aula muito feliz. A minha alegria não durou muito. Eu sempre fui muito tímida, as outras crianças me intimidavam. O que me segurou na 'cola foi a professora, cujo nome não me lembro, mas que começou a nos ensinar a ler e 'crever. Foi ela também que descobriu que eu não enxergava e orientou minha mãe a me levar a um oculista. A os seis anos, eu lia fluentemente e pude realizar meu sonho de ler o Sítio do Picapau Amarelo inteiro. Tive que sair da 'cola particular, meus pais não tinham como me manter lá. Fui para uma 'cola pública, cursar a Primeira Série. Durante muitos anos não compreendi bem o que tinha acontecido, mas analisando em retrospectiva, hoje eu sei o que aconteceu. Primeiro, eu gostava de 'tudar. Sempre gostei, porque meu pai sempre 'timulou muito seus filhos a 'tudarem. Ele costumava dizer que tudo no mundo vem e vai, objetos materiais, pessoas, bichinhos de estimação (perdi vários ao longo da vida) mas uma única coisa ninguém pode tirar de você jamais: conhecimento. Assim que realizei minha ânsia de ler o Sítio, passei a ler os outros livros que meu pai possuía. Lia de tudo, porque meu pai sempre 'tava ali, orientando o que ler. Li todos os livros de Julio Verne, li as Mil e Uma Noites e passei a ler também os livros de biologia, física e outras ciências. Esse foi meu primeiro problema. Um belo dia, ainda na pré-'cola, corrigi uma professora. Ela disse que um Ranforrinco (Rhamphorhynchus spp.) era um pterodáctilo (Pterodactylus sp.). Acontece que não é. Apesar de ambos os répteis pré-histórico terem asas, a semelhança acaba aí. Eu tinha acabado de ler um livro sobre dinossauros, os períodos históricos em que eles viveram e classificações. Levantei meu dedinho em aula e corrigi a professora. A professora não aceitou a correção. Ficou furiosa de uma fedelha de cinco anos e meio se atrever a corrigi-la na frente da classe toda. Meu pai foi chamado à 'cola, seu único comentário foi " minha filha 'tá certa, a professora errou. A professora é adulta e professora, tem que saber lidar com isso." Mas a professora não sabia. E a 'cola não sabia lidar com a professora. Fui para a 'cola pública. Eu tinha uma cartilha, a turma 'tava sendo alfabetizada, eu li a cartilha inteira no primeiro dia. Passei o ano inteiro «fingindo» que a 'cola me interessava, desanimada, porque já tinha aprendido aquilo tudo. Estudei na mesma 'cola até a quinta série, quando tive outro problema, de 'sa vez com a professora de ciências. Ela lecionava em «'tilo militar». Ninguém podia abrir a boca durante a aula, todos passavam a aula toda copiando o livro didático num caderno, éramos todos obrigados a 'premer as mesas e cadeiras no fundo da sala porque era necessário, de acordo com a professora, abrir um 'paço limpo na frente da sala. Além do clima repressivo, novamente o assunto da aula não me interessava. Eu já tinha 'tudado tudo aquilo sozinha, lendo livros de ciências em casa. Meu pai, novamente, enfrentou a professora e a 'cola. Como, novamente, ninguém sabia lidar com a situação -- o professor, naquela época, tinha um poder inquestionável -- lá fui eu para outra 'cola. Entre a quinta e a oitava série, mudei de 'cola quatro vezes. A maioria das vezes, por problemas relacionados a professores, a conteúdo das aulas defasado do meu real conhecimento. Não em todas as disciplinas, mas era fato indiscutível que o programa de curso não possuía soluções para nenhum aluno que 'tivesse avançado em relação ao programa. Eu não era a única em casa com problemas. Meu irmão tinha problemas maiores que eu. Hoje em dia, desconfio que ele sofria de distúrbio de atenção. Em uma sala com 40 crianças, as professoras largavam ele, porque não tinham como se dedicar a uma criança problemática que não acompanhava o ritmo da classe. Até hoje ele apresenta «sequelas» da primeira educação mal resolvida. Tem problemas de grafia, de compreensão de texto. Foi mal alfabetizado. Teve sérias dificuldades de completar até o Segundo Grau (hoje chamado de Ensino Médio). Eu cresci, fiz faculdade, me formei. Comecei a lecionar com vinte e poucos anos. Trabalhei em várias coisas, mas sempre lecionei. Estou agora terminando a pós-gradua ção, quero lecionar em curso superior. Eu adoro lecionar. Cada aluno problemático é um desafio para mim, dou dedicação extra para eles. Alunos talentosos são minha maior alegria. Procuro dar a eles material extra para 'tudarem. Vejo hoje as consequências de um sistema de ensino que tinha muitos problemas quando eu era criança, somados aos problemas todos que o sistema capitalista selvagem traz. Os problemas do passado não foram resolvidos e novos problemas foram criados. As 'colas particulares se tornaram «prestadoras de serviço». Os alunos se tornaram «clientes». O sistema de ensino público implantou uma «aprovação automática» independente do fato do aluno ter ou não aprendido alguma coisa, para resolver a «demanda 'colar». Os professores ganham muito mal. A população é miserável. Os alunos do ensino público mal comem, não conseguem aprender. As salas são superlotadas e os professores, cada vez mais despreparados. A educação sempre foi maciça, nivelada por a média. Crianças com mais desenvolvimento não encontram ambiente para se desenvolver ainda mais. Crianças com baixo desenvolvimento não encontram ambiente para se desenvolver e alcançar o desenvolvimento que deveriam ter. A educação é um sistema industrial e não deveria ser assim. O ensino precisa de outra reforma, mais realista. Os certificados 'tão sendo concedidos sem uma avaliação real do que o aluno sabe ou não sabe. A consequência é que temos cada vez mais pessoas não-formadas, sem opinião própria sobre nada, com conhecimento por a metade e massificadas. E, pior, ninguém mais lê o Sítio do Picapau Amarelo. As crianças 'tão perdendo muitas coisas boas com a «globalização» do ensino. Ninguém mais é ensinado a gostar de 'tudar. O 'tudo se tornou uma obrigação chata que é importante, porque leva a um diploma. O professor se tornou um profissional descartável que é mal remunerado. O conhecimento perdeu o valor. Daniela Castilho é diretora de arte, artista visual e designer. Número de frases: 94 Enquanto pesquisas mostram que o brasileiro deixa a desejar no quesito leitura (menos de cinco livros por ano, em média -- Ibope, 2008), o Prêmio Jabuti chega às vésperas de seu cinqüentenário simbolizando, mais do que nunca, a luta por a valorização do 'critor e dos demais profissionais envolvidos na produção de livros. Em a tarde de 'ta última quinta-feira, 28 de agosto, os 60 jurados da premiação definiram os 200 finalistas que vão à etapa final do concurso, que busca distinguir as melhores obras publicadas no ano de 2007. Essa seleção final acontece no dia 23 de setembro, na Câmara Brasileira do Livro, onde serão conhecidas as três melhores obras de cada uma das 20 categorias definidas no prêmio. Hoje, a maioria das notícias acerca do Jabuti que chegam a se tornar relativamente populares entre o grande público refere-se aos prêmios de Melhor Livro de Ficção e Melhor Livro de Não-Ficção (R$ 30 mil em 'te ano para cada um -- resultado a ser conhecido apenas no dia 31 de outubro). Poucos sabem que, além dos dois prêmios maiores, o Jabuti elege as três melhores obras de 20 categorias distintas, que vão do conteúdo dos alfarrábios (Poesia, Contos, Crítica e Tradução, por exemplo), a outras atividades não relacionadas necessariamente com a 'crita (como ilustração, capa e projeto gráfico). Por fim, o prêmio ainda distingue produções voltadas para campos profissionais 'pecíficos (Direito, Psicologia, Arquitetura, Economia e Reportagem, entre outros), contemplando de forma diversificada os vários segmentos e tipos de profissionais envolvidos no setor. Justamente em 'se sentido, Rosely Boschini, presidente da CBL, destaca a importância do prêmio: «O Jabuti homenageia os diversos segmentos atuantes na produção de um livro. Em função disso, tornou-se um autêntico patrimônio cultural brasileiro, reconhecido por todos que têm no livro um objeto de paixão». Em o Prêmio Jabuti deste ano foram inscritas 2.141 obras. Ao todo, o primo da tartaruga concederá a monta de R$ 120 mil aos vencedores de 'ta edição (além dos dois prêmios de R$ 30 mil, o primeiro lugar de cada uma das 20 categorias recebe R$ 3 mil). Bem: o réptil quelônio 'tá fazendo a sua parte; o que falta é o poder público fazer a sua e promover ações que realmente fomentem o mercado editorial e a cultura literária, em detrimento de eventos pontuais, que muitas vezes servem a interesses imediatos, mas que não colaboram significativamente para a transformação de nossa realidade cultural que se apresenta aquém do resto do mundo desenvolvido (e do idealizado por nós, 'critores e apreciadores de bons livros). * texto postado originalmente aqui. Número de frases: 15 «Cortam as matas ignorando tudo o que 'tá dentro. Ninguém quer saber que lá têm milhares de animais, centenas de milhares de 'pécies de insetos, de plantas, que fazem o seu equilíbrio. E o equilíbrio natural é complexo, onde às vezes a ausência de um elemento pode causar uma falha muito grande. O homem é que perturba e desequilibra». Frases como 'ta, eram comuns no repertório de Augusto Ruschi, Patrono da Ecologia Brasileira e pioneiro no 'tudo do beija-flor. Nascido em Santa Teresa -- Espírito Santo, no dia 12 de dezembro de 1915, Augusto Ruschi foi cientista, agrônomo, ecologista, naturalista e, até mesmo, advogado. Reconhecido por seus 'tudos sobre os beija-flores e também sobre as orquídeas, Augusto Ruschi foi, sobretudo, um árduo defensor da fauna e flora brasileiras, lutando e trabalhando incansavelmente como muito poucos na história da humanidade. Dedicado às descobertas, Augusto Ruschi catalogou 80 % das 'pécies conhecidas de beija-flores, descobriu duas novas, e elaborou a descrição de cinco, além de onze subespécies. Preservacionista, ainda na primeira metade do século XX, Augusto Ruschi realizava excursões por o Brasil e polemizava com personalidades acadêmicas, políticas e empresariais muitas questões relevantes sobre a importância de se pensar o homem e a natureza numa relação respeitosa e sustentável. Sensibilidade Hereditária Seguindo a tradição de quase dois mil anos no trabalho com ciência e plantas da família, Augusto Ruschi, ainda menino, apresentava uma curiosidade inata por as flores que seu pai cultivava como hobby na «Chácara Anita». Começou seus 'tudos em Santa Teresa, no colégio Ítalo Brasileiro, onde diversas vezes era chamado a atenção nas aulas, pois detinha-se em brincadeiras com insetos que levava em vidrinhos e caixas de fósforos. Com dez anos passou a residir na cidade de Vitória, para 'tudar no colégio 'tadual. Sua professora de Ciências e História Natural foi a pesquisadora e historiadora capixaba Maria Estela de Novaes, que, percebendo sua paixão por a vida dos insetos, bichos e plantas, foi a grande incentivadora do jovem Ruschi em sua iniciação ao mundo das ciências. A sensibilidade da Maria Estela, aliada à sua lucidez e firme temperamento, foram os ingredientes básicos deste processo de iniciação científica que auxiliaram o jovem Ruschi, ele, que vivia por as matas observando, desenhando e colecionando plantas, flores e animais, passando por até diversos dias sem retornar. Os livros aos quais Ruschi tinha acesso na época iam se tornando insuficientes e alguns, até mesmo, incorretos perante seus questionamentos e observações de campo. Em conseqüência, iniciou um intercâmbio com pesquisadores do Museu Nacional e do Jardim Botânico, enviando materiais coletados aos pesquisadores, em troca de bibliografias 'pecializadas. Certa vez, o jovem Ruschi enviou suas observações sobre uma praga dos laranjais que assolava a lavoura, descrevendo o ciclo de vida do bicho e solicitando maiores informações a respeito do assunto ao Museu Nacional. O responsável por 'ta área no Museu Nacional era o Professor Mello Leitão, que passou as informações de Ruschi para o Professor Felippo Silvestre, cientista italiano e 'pecialista, que 'tudava formas de combater a praga que dizimava os laranjais de todo o mundo. As informações de Ruschi foram fundamentais para a solução dos problemas, pois entravam justamente na complementação de uma pesquisa mundial que se desenvolvia sobre o assunto, onde milhões de dólares foram investidos. Ruschi havia tido tempo suficiente para montar e observar mais de 500 caixas de lagartas, coisa que os laboratórios não haviam feito. Desta forma, ainda jovem, aos 12 anos, começou a se tornar conhecido e admirado por alguns cientistas do país. Apadrinhado desde então, Augusto Ruschi contribuiu para o aperfeiçoamento científico e para o desenvolvimento de várias pesquisas. E aos 17 anos, começou a trabalhar para o Museu Nacional e Jardim Botânico como coletor de materiais botânicos e zoológicos. Suas pesquisas foram fundamentais para o conhecimento da fauna e da flora da Mata Atlântica, passando, pouco tempo depois, a residir na cidade do Rio de Janeiro. Mas com sua sede de conhecimento, sua 'tadia por a «cidade maravilhosa» foi breve. Augusto sentiu que o trabalho de campo que realizava antes, nas matas virgens do Espírito Santo, era muito mais relevante para a ciência do que o trabalho nos laboratórios. Iniciativas como 'sa, fizeram de Augusto Ruschi a principal autoridade mundial sobre ecologia da floresta Atlântica, sendo o único cientista no mundo a viver 50 anos no interior da floresta e 'tudá-la por todo 'te período. Reservas Ambientais Mas antes disso, nos anos 40, Augusto Ruschi assessorou a Secretaria de Agricultura do Espírito Santo, desenvolvendo uma política de preservação do meio ambiente. Como resultado deste trabalho, implantou diversas unidades de conservação. Em 26 de junho de 1949, na mesma data em que 74 anos antes, italianos haviam colonizado o solo teresense, Ruschi fundou de Museu de Biologia Professor Mello Leitão, uma instituição que servia de suporte para a política 'tadual de meio ambiente e para suas pesquisas. Para dar início às atividades científicas do Museu, Ruschi juntou todos os levantamentos que havia realizado até então e iniciou a publicação de seus trabalhos. Foram editados cerca de 400 números do Boletim do MBML. Lançou duas teses principais, uma sobre as Reservas Ecológicas, assunto pouco comum na época, e outra sobre o Desenvolvimento Agrícola Auto-sustentável em Florestas Tropicais. Em a sua tese sobre as Reservas, Augusto Ruschi as defendia como 'paços de preservação que o mundo não poderia prescindir, por se constituírem em reservas genéticas de 'pécimes da natureza ameaçadas de extinção. Lançada num dos primeiros congressos florestais de âmbito internacional, em Roma no ano de 1951, a tese foi muito bem recebida nos meios científicos internacionais, que passaram a difundi-la por toda a Europa. Assim, no início de 'sa década começaram a surgir Reservas Florestais por todo o mundo, como uma das mais importantes políticas de preservação do meio ambiente. Incansável, Ruschi deu início a discussão sobre a poluição causada por o uso de agrotóxicos sobre os ecossistemas. Depois da Segunda Guerra Mundial, veio a necessidade de aumentar a produção de alimentos, utilizando adubos químicos e um controle sobre as pragas. Ruschi passou a observar a morte dos pássaros e insetos após a pulverização com agrotóxicos e outros efeitos provenientes do envenenamento da natureza. Publicou vários trabalhos sobre o assunto, sendo um dos primeiros a denunciar para a sociedade os perigos do DDT. Augusto, O Bravo Fino observador da natureza, Ruschi publicou mais de 450 trabalhos científicos e obras de grande importância, como Aves do Brasil e Beija-Flores do Espírito Santo, livros sobre orquídeas, beija-flores, morcegos, macacos, aves e trabalhos com propostas de solução para problemas ambientais de diversas regiões do país. Seu amor e respeito por a natureza o transformaram num verdadeiro mito nacional, quando ele enfrentou, corajosamente, em 1977, o Governador do Estado do Espírito Santo, que havia baixado um decreto determinando que na Reserva de Santa Lúcia fosse implantada uma fábrica de palmitos enlatados, que seriam extraídos da própria reserva. Em a Reserva de Santa Lúcia, havia a Estação Biológica do Museu Nacional, local onde por mais de 40 anos, Ruschi trabalhou catalogando mais de 20 mil árvores, enumerando-as com plaquetas de identificação, sem permitir que se cortasse um galho de árvore ou fosse retirada uma planta. Ruschi recebeu os fiscais do governo com uma 'pingarda na mão e disse: «Aqui não. Se passar daí, ficam definitivamente no chão. Em defesa da natureza eu sou capaz de matar ou morrer». Ruschi ainda mandou um recado para o governador. «Podem voltar diretamente para o Palácio e avisem ao governador que ou ele muda de idéia, ou amanhã cedo eu vou lá matar ele pessoalmente, no Palácio». Ruschi ainda foi uma das poucas vozes que se ergueram no período do Governo Militar para denunciar a derrubada de áreas na Amazônia região. Conseguiu, por várias vezes, evitar que grandes áreas florestais fossem devastadas, e dizia que no tempo que lhe restasse de vida continuaria o mesmo, defendendo a floresta brasileira e brigando por ela, porque sabia que assim também 'tava defendendo a humanidade. E assim o fez. Dois anos antes de morrer, moveu uma nova campanha contra o desmatamento de uma região do norte do Espírito Santo, último refúgio de três 'pécies de colibris sob ameaça de extinção. É por 'sas e outras, que a história de Augusto Ruschi, suas trajetória e polêmicas, devem ser lembradas. Seu amor e trabalho por a conservação da natureza são exemplos para a humanidade. Um verdadeiro homem da floresta, Augusto Ruschi morreu convencido de que a única 'perança de sobrevivência para a humanidade era o homem mudar radicalmente a sua relação com o meio ambiente. Augusto Ruschi morreu em 1986 de cirrose hepática e foi enterrado, coincidentemente, no dia 05 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Número de frases: 60 * Esta redação 'tá concorrendo ao 13º Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação. Antes não havia nada no universo além da 'curidão, por isso, cansado de viver sozinho, o «Avô do Universo» chamado Umuri ñehku -- um ser que segundo a crença surgiu por ele mesmo -- decidiu criar a terra e todos os seres para habitá-la. Utilizando-se de sete peneiras, cada uma feita de um material diferente, criou a terra, matas, rios, animais e peixes num ritual onde abençoava cada objeto. «Esta peneira de uarumã de água será os rios e lagos de crescimento da ' Gente do Universo ', dando-lha bebida e a saúde que nunca terão fim». O registro original de 'ta cosmologia 'tá no livro A Mitologia Sagrada dos Desana-Wari Dihputiro Põrã, que faz parte de uma coleção de oito volumes intitulada Narradores Indígenas do Rio Negro. Cada livro é dedicado a uma etnia 'pecífica, e o lançamento da primeira obra no ano de 1995, evidenciou uma das ações mais bem sucedidas da Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro -- FOIRN, no resgate, documentação e revigoração de ensinamentos da cultura tradicional para povos que corriam o risco de perder seus referenciais com o passar do tempo. Assim que terra e água começaram a existir, Umuri ñehku abençoou mais uma vez a terra, benzendo-a como se fosse uma mulher para que ela gerasse filhos. Feito isso, surgiu uma mulher, Yebá Buró, a «Velha da Terra», como o primeiro retrato da mulher-mãe, a qual as mães das gerações futuras iriam se assemelhar. Eles se saudaram, mas durante muito tempo Umuri ñenku procurou fazer sozinho a «Gente do Universo», nunca obteve sucesso, somente com a participação de Yebá Buró isso foi possível. Em demorada cerimônia, Umuri ñehku permitiu que ela soprasse a fumaça de um cigarro para dentro de uma cuia que 'tava sobre um suporte e foi coberta em seguida por outra cuia de mesmo tamanho, ao mesmo tempo em que soprou a fumaça, Umuri ñehku orava para abençoar a mulher. Quando terminaram a cerimônia, os dois destamparam a cuia e viram sete sinais de gente, parecendo-se larvas. A produção do conteúdo sobre a mitologia Desana-Wari Dihputiro Põrã seguiu a mesma lógica dos demais volumes, ao gravar depoimentos somente daqueles que possuem a legitimidade nas tribos para relatar o conhecimento mítico. O narrador Diakuru, também tuchaua da sua comunidade, foi traduzido para o português por o filho Kisibi, numa contínua rotina de revisão entre ambos. Supervisionados por a antropóloga Dominique Buchillet, ao final do trabalho, os autores incluíram notas explicativas assim como Dominique incluiu curtos 'clarecimentos de pontos etnográficos particulares para permitir melhor entendimento. «Agora sim, nós conseguimos formar a Gente do Universo», disse Yebá Buró, mas Umuri ñehku 'tava preocupado em saber quem seria o líder supremo dos sete sinais de gente, somente depois de algumas horas, decidiu. «O primogênito será Abe, a luz que nunca terá fim, fará o bem para os seus irmãos e dominará a terra inteira». Em seguida, abriu a cuia e ordenou: «Abe, saia da cuia transformadora e comece agora seu trabalho». Abe saiu da cuia e no mesmo instante surgiu a luz, pouco depois apareceram as 'trelas que mais tarde geraram seus descendentes. Depois, Umuri ñehku voltou-se de novo para a cuia e disse: «O segundo irmão será Deyubari Gõãmu. Dono da caça e da pesca, inventará instrumentos para que as gerações futuras se alimentem. Agora saia da cuia e comece seu trabalho conforme eu lhe ordenei». Assim os sete sinais de gente se transformaram nos sete líderes ancestais dos Desana, segundo o grupo dos Wari-Dihputiro Põrã, tendo ainda Baaribó, como o dono das plantações; Buhsari gõãmu, o mestre da natureza, Wanani gõãmu, o dono do veneno, e as líderes mulheres Amo e Yugupó, a primeira destinada a trabalhar na nascente dos rios, e a segunda na foz. Em 'tes dois últimos casos o livro revela o que poderia ser considerado uma falha, sob o ponto de vista documental, justificada por uma afirmação do seu narrador indígena logo no texto de apresentação. «Este livro somente conta o que os cinco líderes ancestrais dos Desana fizeram», afirma, na declaração em destaque. A o final do livro, o leitor percebe que as duas líderes mulheres não são sequer citadas após sua gênese entre as sete larvas na cuia de Umuri ñehku. Entre o conceito de falha editorial e o que a nossa cultura interpretaria como menosprezo, a cada página, percebe-se o papel apenas secundário do feminino na mitologia a excessão da sua importância para a criação da Gente do Universo. Caso a hegemonia do masculino se manifeste nas relações interpessoais dos indivíduos de 'ta sociedade em questão, fica a ordem de Umuri ñehku para as duas líderes como a perspectiva que, desde a criação do mundo, não se concretizou a tempo da edição do livro." Vocês duas mulheres serão grandes criadoras e seus trabalhos serão muito prestigiados por as gerações futuras». Abe resolveu procurar um bom lugar para morar sossegado, conversou com seus irmãos para saber onde poderia ficar para tomar conta de todos eles. Em o fim, resolveram que Abe deveria morar no centro do universo para iluminar o mundo inteiro, e assim fez o imortal e líder supremo dos Umuri Mahsã (Gente do Universo). Deyubari Gõãmu, o segundo líder, casou-se com uma descendente da Gente-Estrela, o problema é que os descendentes da Umuri Mahsã não reconheciam a liderança da Gente-Estrela, embora 'ses tivessem surgido no mesmo momento que a luz de Abe. Com o passar do tempo, a Gente do Universo foi enfraquecendo o poder da Gente-Estrela e os baniu, por 'te motivo a união de uma descendente com um Umuri-Mahsã era mal vista por a Gente-Estrela, que conseguiu separá-los deixando Deyubari Gõãmu sozinho para criar um filho, enquanto o outro foi transformado em pássaro. Além da beleza simbólica das alegorias, a mitologia revela ao leitor a origem de todas as coisas existentes na natureza, no livro da etnia em questão, a ênfase se concentra na origem das doenças segundo a cultura tradicional, já que todas são conseqüências de algum episódio mítico, assim como a descrição da planta e a reza que as combate usadas até hoje por os curandeiros. Todos os volumes são abastecidos com notas explicativas, glossários com nomes científicos das plantas e animais citados, assim como seu correspondente na língua da etnia em questão e até mesmo mapas apontando os locais sagrados onde ocorreram os fatos míticos. Deyubari Gõãmu não suportou criar o filho sozinho e mudou-se para morar com uma família vizinha que era Gente-Sukuku -- nome de um tipo de sapo -- que não sabiam pescar e sempre voltavam da pesca sem trazer nada. Um dia Deyubari Gõãmu sentiu fome e resolveu pescar, antes, ele fez criar no corpo de seu filho feridas que 'corriam gordura com o cheio de todos os tipos de jenipapo que havia no mundo. Colocando o menino sobre uma árvore, a gordura ao pingar na água atraía vários peixes por a sua 'sência de jenipapo, mas Deyubari Gõãmu flechava apenas o limite de cinco peixes por dia. A Gente-Sukuku não entendia por que apenas Deyubari Gõãmu conseguia pescar, então, aproveitando um dia em que foi caçar, abordaram seu filho e o forçaram a contar o segredo. Um aspecto importante das obras é perceber que alguns mitos são compartilhados por etnias distintas, alteram-se nomes, alguns desdobramentos, mas a 'sência do ensinamento mantém-se apenas com as variações que justificam e enriquecem ainda mais diversidade dos povos que habitam o alto Rio Negro. Para uma compreensão exata de 'ta complexidade, acompanhe (com calma) o caso dos narradores Diakuru e Kisibi: eles moram na comunidade chamada Cucura, no igarapé de mesmo nome e afluente da margem 'querda do rio Tiquié. Sua etnia de origem soma aproximadamente mil indivíduos divididos em 50 comunidades por os rios Tiquié e Papuri, sendo representantes de um grupo de descendência Wari Dihputiro Põrã, os «Filhos de Cabeça Chata», dentro da etnia Desana, que se auto-denominam Umuri Mahsã, Gente do Universo. Por sua vez, os Umuri Mahsã são parte de um dos 15 grupos indígenas da família lingüística Tukano Oriental que moram com outros povos da família oriental Arawak e Maku, na região do Rio Negro. Ao todo, são 25 mil pessoas vivendo em cerca de 500 povoados dispersos ao longo do Rio Negro e seus afluentes. Coagido, o filho de Deyubari Gõãmu revelou o segredo para a Gente-Sukuku, imediatamente eles levaram o menino e o amarraram sobre uma árvore. Como de costume, a gordura das suas feridas começou a pingar dentro da água e sem demora, os peixes, atraídos por o cheiro de jenipapo começaram a se aproximar para lambê-la. Vendo isso, os rapazes começaram a flechá-los, mas eles ultrapassaram o limite de Deyubari gõãmu. Vendo o excesso, o menino começou a gritar " Meu pai não flecha tantos peixes! Vocês já passaram dos limites! Tirem-me logo daqui! Chega de flechar! Me levem logo de volta para casa! Tenho medo que alguma desgraça aconteça com mim!». A o mandar o menino calar a boca, a Gente-Sukuku mal viu a cobra grande Diá-Doe, a Cobra-Traíra, devorar o menino e fugir. Deyubari Gõãmu mesmo longe sentiu que algo ruim havia acontecido ao seu filho, e depois de várias outras decepções em sua vida, resolveu deixar a Terra e ascendeu ao universo se transformando num pássaro Tukano. Hoje os indígenas de 'ta etnia são seus descendentes. Embora o público-alvo de 'tas publicações seja os próprios indígenas, a Coleção Narradores Indígenas do Rio Negro revela o valor da sabedoria destes povos para o mundo e todas as suas raças. Em tempos em que a preocupação com o meio ambiente consegue ocupar onipresença na mídia, a mitologia Desana na alegoria do filho de Deyubari Gõãmu, mostra uma reação adversa da natureza representada por a cobra-grande após uma ação predadora da Gente-Sukuku. Atualmente, o uso deste conhecimento é percebido quando comunidades ribeirinhas no Amazonas, para proteger seus manancias, contam histórias sobre a presença de feras devoradoras que habitam 'tes lugares para amedrontar invasores. No geral, a reflexão histórica que o conteúdo destes ensinamentos provocam é de pesar, ao lembrar-mos que, no ano de 1500 os colonizadores tenham utilizados mais arcabuzes do que os ouvidos para absorver conceitos que, se utilizados, poderiam construir sociedades bem diferentes das atuais. O registro deste conhecimento é uma vitória para as comunidades indígenas brasileiras e um presente para o resto do mundo ... pena que 'te mundo ocidental que conhecemos, dificilmente vai dar ler. Os livros podem ser adquirido por meio da Casa de Produtos Indígenas Wariró, contatos por o telefone (97) 3471-1450 / 1349, ou por o endereço eletrônico wariro@foirn.org.br. Os valores variam entre R$ 25 e R$ 60 reais, mais despesas postais. Nota: Número de frases: 67 Os trechos em itálico são apenas um resumo produzido por o autor da matéria, o conteúdo original das obras segue uma transcrição muito mais rica e detalhada por vir dos relatos gravados diretamente dos anciãos das tribos. Talvez um ambiente-limite. Ou de encontro entre opostos. Entre a vida e a morte, o tétrico e o belo, a ostentação e a simplicidade. Assim, ele se tomba, entre a Jacarecanga e o Centro. A o adentrar, sente-se imergir no passado, na História, mas também em subjetividades, superstições, crenças. Logo de entrada, eles recepcionam, e acompanham por todo o caminho. Eles, os anjos, ali surgem, às vezes contritos, ou redentores. Também existem os santos e, claro, os crucifixos, aos tantos, que dominam o local. As 'culturas, o mármore, impressionam com a beleza e grandiosidade que ostentam. E, percorrendo todo o 'paço, formando uma alameda, as árvores, antigas, que dão um tom bucólico ao ambiente. O olhar curioso se deixa atrair por os textos nas pedras gravados, perenizados. São frases que lembram, falam de memória, de imorredouras saudades do passado. O ambiente, hoje afastado do cotidiano das pessoas, normalmente só se torna presente em momento de dor, tristeza. Desta forma, por mais que belo, não parece ser o mais conveniente para uma caminhada diária. Pelo menos, não o mais convencional. Caminhar por lá todos os dias poderia parecer algo, no mínimo, excêntrico. Mas de excentricidades, isso é apenas o começo ... Chego há vinte antes das nove. Nove é o horário convencionado, por mais que não havíamos marcado. «Ele já passou por aqui?», pergunto ao guarda da entrada. «Não, ainda não. Tem dias que chega mais cedo, outros que chega mais tarde». «Mas será que ele vem?», continuo." Bom, ele veio ontem. É raro um dia que não venha», responde o guarda. Espero, então. Pouco depois, ele adentra. Religiosamente, por mais que sem crença, ele cumpre o ritual diário que já percorre 17 anos: caminhada por o Cemitério São João Batista. A obrigação do exercício veio do médico, como tratamento para a diabetes que já perturba. Mas a 'colha por o cenário é de ele, e sem mistério, sem superstição, sem medo. O seu nome? Este, já registrado no «campo santo», encontro ao percorrer a alameda. Vejo-o numa placa, sigo a sua orientação e chego ao túmulo, onde se inscreve: Joaquim de Sousa Míteri. Sim, no túmulo, na laje que também porta o seu retrato. Sem nada de sobrenatural, ele caminha ali, vivo e em carne e osso. É que, há seis anos, quando reconstruía o túmulo de seu pai, aproveitou para deixar o seu pronto, que, junto ao retrato, traz o epitáfio: «Filho do mundo. Não deixou nem levou. Saudades». Uma tentativa de auto-defini ção. Definição 'sa que, para Seu Sousa, como é conhecido, é bastante difícil. «Minha mãe dizia assim: ' o Sousa não gosta de ninguém '. Outro dizia que eu era pirata, que não tenho amor nem pátria. Meus próprios filhos às vezes dizem isso», lembra. Isso ele vai dizendo, relembrando, desabafando ao percorrer a alameda. São três voltas, hoje. Já foram mais, depois passaram para quatro, mas então a dificuldade pediu que reduzisse mais uma. Em o caminho, muitas pausas: «Olá, como vai?». É a popularidade que acaba ganhando um habitué de infância do local. «Eu toda vida me sentia bem aqui. É silencio, não atravessava a rua, não tinha trânsito de carro. Aí eu fui tornando o mundo amistoso com os funcionários. E ficou tão bom que eu criei uma 'pécie de colônia de amizade», comenta ele, que, quando criança, já percorria o local, a caminho da praia. Mas relação com pessoas, reflito, é feita sempre de encontros e despedidas. E despedida parece ser aqui uma palavra bem cabível, que caracteriza satisfatoriamente o local. Mas que, para ele, que convive diariamente com a morte, 'ta é encarada de forma diferente. «Realmente eu sou assim. Converso com todos, brinco, mas quando dizem assim: ' Morreu! ', Morreu. Não vou me desesperar. Morreu, acabou-se. É o fim e é pra todos nós, ninguém pode 'capar. Eu me acostumei», 'clarece. A caminhada para ele, mesmo que sempre interrompida por conhecidos, acaba sendo um mergulho em si mesmo, em pensamento e reflexões. Os epitáfios sempre despertam 'tes momentos absortos. «Tem uns que são comuns, mas tem uns que são bonitos e você faz uma grande análise. Fico pensando quem foram 'sas pessoas, como viveram. Eu sou louco por o passado», conta. E, assim, ele pensa na vida, na morte, nas superstições. «Eu tenho medo de morte sofrida. Quero uma morte rápida», sentencia. A vida, pra ele, se mistura a seu oposto: «A vida já é um câncer, a pessoa 'tá condenada na hora que nasce». O andante, que afirma não ter crença, não 'capa da reflexão sobre o sobrenatural: «Se você chegar pra mim e perguntar se eu acredito em alma, eu digo que não. Mas se perguntar se eu tenho medo de alma, eu digo: tenho!». A contradição, ele justifica: «O medo vem adiante de uma crença. Se você a tem, ela impõe um medo em você. Eu, quando era pequeno, minha família fazia muito medo. Dizia assim: ' Olhe, ali aparece visagem '. E a gente vai ficando com aquilo. Quando a gente vai ficando grande, o subconsciente da gente acusa». Conviver com a morte faz pensar sobre a vida, e isso ele faz, diariamente. Apesar de lamentar a idade e a doença, e de afirmar não perseguir mais nenhum sonho, ele se considera feliz. «Descendentes, deixei uma porrada; passear, passeei bastante. Conheci todos os 'tados do país e treze países da Europa. Se fosse voltar tempo, faria a mesma coisa. Eu iria por a mesma 'trada», conclui. A polêmica admiração Ser freqüentador assíduo do cemitério faz com que Seu Sousa já seja visto por o outros de maneira, no mínimo, curiosa. Ter o seu túmulo já pronto, com seu nome e epitáfio, torna-o ainda mais excêntrico ao olhar alheio. Mas, observando o seu monumento sepulcral, percebe-se que 'te ainda traz outras curiosidades, chocantes, até. E que ainda despertam mais interesse sobre sua controversa personalidade. Ao lado da foto de Seu Sousa, encontram-se gravadas duas suásticas, símbolos do regime nazista. E isso ele deixa claro. Logo abaixo de seu nome, define-se para a posteridade: neo-nazista. O admirador de Hitler explica que tudo começou ainda criança, quando conheceu um alemão que participara da Guerra. Este era seguidor do Führer, e passou 'se sentimento a " Seu Sousa. «Eu admiro a ascensão de ele [Hitler], que era pobre e conseguiu todo aquele poder. Isso me lembra meu pai, que também pobre, surdo e mudo, cresceu na vida e deixou-me grande herança», justifica. «Mas, claro, não concordo com as atitudes que Hitler tomou. Como posso concordar com alguém que matou crianças em câmaras de gás?», pondera. E a admiração continuou e ficou gravada, não só em sua história, mas na de seus descendentes, como na de Adolph Hitler Bastos Míteri, seu filho. Não satisfeito, ele ainda batizou outros de seus treze com o nome dos principais personagens do regime alemão na Segunda Guerra Mundial: Adolfo Eichmann, chefe da polícia secreta alemã, a Gestapo, e responsável direto por a deportação de milhares de judeus durante o conflito; Herman Goering, braço direito de Hitler e criador da Gestapo, e, por fim, Heinrich Himmler, o nome do criador dos campos de concentração, onde foram executados os judeus. No meio de eles, como que para fazer o contraste, ainda batizou um de João Evangelista de Sousa Neto. Seu Sousa, pode-se afirmar, é um homem sem precedentes. O próprio nome já indica. Míteri vem de seu avô paterno, cujo sobrenome era, na verdade, Mittri, e que era português. «Quando fui tirar a certidão de nascimento, no lugar do «T», ele colocou um» E», e eu fui reclamar, Só que uma pessoa disse: ' Rapaz, deixa isso aí. Você é o criador de uma família. De aqui para a frente, quem nascer é seu descendente '. E aí eu deixei». E assim, o andante vai 'crevendo sua história, em linhas, nota-se, bem fora das convencionais. Número de frases: 125 Newton Navarro -- o artista que virou ponte na Cidade do Sol Elizete Vasconcelos Arantes Filha A ponte, motivo de polêmica na cidade do sol por o seu tempo de construção, 1996-2007 e por o exorbitante valor que custou aos cofres públicos (R$ 196 milhões) tornou-se um dos maiores empreendimentos da construção civil brasileira e só será liberada à população potiguar no final de 2008. No entanto, segundo os 'pecialistas da UFRN, não surtirá o efeito 'perado, uma vez que não desafogará o trânsito. A população, sofrendo cotidianamente com os reveses do trânsito na zona norte, desde já criou muitas expectativas, entrando em desespero cada vez que se formam os quilométricos engarrafamentos na ponte velha. Bem, a 'perada ponte que ligará a Praia do Forte à Praia da Redinha recebeu o nome «Ponte de Todos -- Newton Navarro» imortalizando definitivamente o nosso maior artista e colocando-o junto ao povo que fazia parte dos seus temas. A sugestão do nome para a ponte foi dada por os imortais da Academia Norte-riograndense de Letras, a pedido dos admiradores da obra do artista, através de abaixo-assinado. O merecimento de Newton Navarro, artista falecido em 1992, de ter seu nome alcunhado numa ponte de tão grande porte e de tão grande importância para o povo potiguar se justifica por o fato de que grande parte das suas obras literárias, seus desenhos e suas pinturas possuíram como tema o Rio Potengi e as paisagens da Redinha. Ele próprio foi menino na Redinha, quando passava as férias 'colares na casa dos tios. Escritor erudito, dramaturgo, poeta, desenhista, pintor, enfim, um artista multimídia. Newton Navarro Bilro, nome completo de Newton Navarro, como ficou conhecido um dos artistas mais populares do Rio Grande do Norte, nasceu no dia 08 de outubro de 1928, na cidade do Natal na casa da sua avó, na Avenida Rio Branco, no «Grande Ponto». Filho de Elpídio Soares Bilro, sertanejo da região do Cabugi, e de Celina Navarro Bilro, professora primária. A aspiração artística de Newton Navarro desde cedo já despertara. A os quatro anos de idade, enquanto seu irmão brincava de bola, de velocípede, ele se divertia no chão da calçada fazendo desenhos e pintando com cores berrantes. Herdou do seu pai a aspiração artística já que ele trabalhava muito bem a madeira, o ferro e a alvenaria. Sua mãe também tinha muita sensibilidade para as artes. Foi entre o cenário do farol de Mãe Luiza, do porto, praias e barcos, que o nosso maior artista viveu e desenvolveu sua criatividade. Entre pescadores, mulheres, gatos, rendeiras, igrejinhas, o azul do céu e o verde do mar, entre o amanhecer e o pôr-do-sol, que Navarro cresceu. Foi observando as coisas do nordeste, as pessoas, em seu lazer, no seu trabalho, as danças tradicionais, a mitologia, os jogos de futebol entre Abc e América e também da seleção brasileira. A o retratar Natal e seus habitantes, ele buscava identificar os largos e ruas da boemia, becos simples, casario humilde, igrejas e prédios onde acontece a história da cidade, as bananeiras dos quintais, casas simples das favelas e as pipas coloridas. Certa vez, pintando em terras européias, retratando as paisagens do Sena, os jardins de Paris, afirmou: «Eu não acho cidade mais bonita que Natal, nem rio mais bonito que o meu rio. Eu vi uma vez o Sena. Achei uma porcaria. Vi também o Tejo e achei também uma porcaria. Mas o Potengi não. Que azul! E os morros que protegem a cidade? E as madrugadas? E as 'trelas da manhã? Só em Natal tem 'sas coisas. A 'trela repetida no forte da pedra ... Uma cidade coberta de elísios, embalada por a canção dos pescadores, enfeitada de um lado e de outro, rio e mar, por os azuis e verdes e por as jangadas. Que cidade maior e melhor? Não existe. Nenhuma. (Navarro, 1974). O artista Newton Navarro fez uso de técnicas como aquarela, óleo, nanquim aguada, guache, bico de pena e outros materiais como borra de café e chá. Ele desenvolveu a partir do grafismo a idéia de expressão, movimento e ritmo, apesar da linha ser considerada abstração com relação ao aspecto visual dos objetos ou de quantas formas se queira expressar. Pintor figurativo, acolheu o abstracionismo como forma de arte, abusava da cor, do traço anatômico. Os seus traços, aparentemente agressivos, são suavizados com o uso das cores. A arte de ele não era baseada na cor, utilizava apenas como informação cromática dentro de uma composição de desenho. A linha, o toque gráfico é o mais importante. Isso distinguia Navarro dos outros artistas, não se situando em nenhuma Escola de Pintura, apenas num grafismo íntegro e constante. Quando desenhava, observava cada passo do seu objeto e ficava horas e horas observando suas personagens, registrava na sua memória visual os movimentos, as cores, as formas para depois 'boçar e dar o acabamento final. Há quem compara o trabalho de Navarro com os de Portinari, o que vai tornar a obra de ambos semelhantes é a ascendência do cubismo e o engajamento regional, que cada um adotou da sua forma fazendo adaptações. Em o trabalho de Portinari, por exemplo, o nordestino é apresentado como um povo faminto, doente, que sai de sua terra em busca da cidade grande e no caminho se perde. O nordestino de Portinari é um perdedor. Em o trabalho de Navarro, o nordestino é um povo forte, gigante, com músculos à mostra, um vencedor. Analisando 'teticamente as formas que Navarro dá as suas personagens, elas fogem da 'tética acadêmica ainda aclamada como exemplo de verdadeira arte, no entanto, dentro da 'tética modernista. Navarro se expressa com propriedade, inclusive foi o precursor da arte moderna no Rio Grande do Norte. A cidade desconhecia o movimento da Semana de Arte de 22, que só se manifestou 27 anos depois, em 1949, através da primeira exposição de Newton Navarro. Muitas telas chegaram a chocar a população da pacata cidade de Natal, acostumada apenas às pinturas bucólicas do pôr-do-sol do Rio Potengi, do Farol de Mãe Luiza e da Praia da Redinha e dos pontos turísticos. Devaneando com Navarro O que mais chama a atenção na obra de Navarro, além dos traços fortes e as cores é a simbologia adotada como forma de expressão-uma transferência da imagem para um significado abstrato. Podemos observar 'sa transferência em vários pontos na obra de Navarro: o mesmo sol que aparece na aquarela do vaqueiro, também aparece na aquarela da salina e também na plantação de algodão, um sol 'caldante como é comum no nordeste, mas um sol que não mata, nem resseca a terra, um sol que traz vida e riqueza. A cor amarela que recai na plantação de algodão, na plantação de cana, nas salinas, no cavalo, é luz solar, é também ouro. Ouro que o nordeste tem em abundância, que em outro lugar não tem. As rendeiras de Navarro são quase sobre-humano, parecem gigantes, e são. São mulheres que tecem suas rendas enquanto os seus maridos vão para o mar buscar o peixe. Em a ausência do marido, sustentam a casa e ainda rezam por a sua volta. Os pés parecem árvores, firmes no chão. De o norte ao sul do país encontramos rendeiras, continuando uma tradição que começou com a vinda dos portugueses para o Brasil. Símbolo da resistência nordestina, o vaqueiro também foi representado por Navarro. As roupas de couro utilizadas por os vaqueiros, hoje são comuns entre os que acompanham moda. Os vaqueiros usavam o couro para quase tudo que os cercava: porta das cabanas, leitos, cordas, cantil, alforje, mochila, bainhas de faca e até as roupas com que enfrentavam a caatinga. Até hoje, em muitas regiões, os vaqueiros conservam o costume de se vestirem de couro. Em o álbum «Futebol» ele utilizou a aguada, uma mistura de pó de café com água. Os jogadores de Newton Navarro são analisados como dançarinos que atuam sobre as linhas, sugerem total liberdade, imune às pessoas do meio. Homens fortes, gigantes, porém, leves, jogam ou dançam? Podem ser meninos de rua, ou jogadores do América, do Abc, times do coração. Ou quem sabe os representantes do Brasil, lá fora, na copa de 70. Somos nós, cada um de nós, lá com eles. A paixão por o futebol era visível, embora nunca tenha assumido de fato por qual time torcia. «Boi-Calemba» bico de pena, com um grafismo mais trabalhado, onde procurava a distorção, substituindo sombras e volumes por a presença de manchas. O Álbum Boi -- Calemba é a versão potiguar do Bumba-meu-boi nordestino. Os brincantes do bumba-meu-boi potiguar se apresentavam com simplicidade, com pouca cor, com poucos enfeites. Navarro teve a liberdade de revesti-los com novos adornos, 'pelhos, coroas, muitas fitas. Quanto à qualidade do trabalho de Navarro, alguns pontos se destacam, por exemplo: criou uma gráfica particular, um fruidor atento que vê seu trabalho, reconhece arte gráfica muito pessoal. Poucos artistas conseguem isto. Newton Navarro, artista amado e aclamado por os intelectuais e também admiradores da sua arte, tornou-se objeto de 'tudos em teses de doutorado e dissertações de mestrados por a UFRN. Foi também personagem principal do vídeo-documentário «Devaneio do Olhar, dirigido por a professora Elizete Vasconcelos Arantes Filha, como» parte integrante da sua dissertação de mestrado em 2004, com o mesmo título, que resultou em prêmio de melhor documentário no FESTNatal em 2004 e o BNB de Cinema no XIV Festival de cinema do mesmo ano. Navarro, também é o artista preferido dos professores que atuam no ensino da arte na cidade do Natal, justamente por a forma didática com que tratou, entre traços e tintas, suas personagens tão comuns a cada um de nós. Muita coisa se diz de Newton Navarro, inclusive que ele é «o maior ou o mais importante artista de sua terra natal». Mas, muito mais do que dizem, é o que ele próprio diz das coisas que via e sentia e que passamos a vê-las junto com ele. E a ponte? Bem ... Um dia a «Ponte de todos-Newton» será inaugurada. Os transeuntes da zona norte demorarão menos tempo para chegar ao trabalho, os desastres automotivos da ponte velha que acontecem todos os dias serão reduzidos e ao passar por a ponte nova, ainda poderão lembrar do nome e da importância do artista de todos. Devaneio do Olhar / Direção: Elizete Vasconcelos Arantes Filha / 10 minute47" Natal: 2004. Número de frases: 92 «A 'tudante de letras da UESPI, Elimar dos Santos, representou, no ano de 2006, a personagem de Verônica, a conhecida Maria Beú por os oeirenses. Segundo ela, sempre foi um sonho ser Maria Beú, mas sempre era interrompido por o medo que tinha de cantar em público, principalmente para uma multidão de 30 mil fieis «(Passos do Bom Jesus, narrativas de fé, página 63)» ... a professora Socorro Brandão Rego, há mais de 20 anos é responsável por a seleção de candidatas a Maria Beú ... o teste consiste na 'cuta do timbre de voz ... Depois de 'colhida, todos os dias num prazo de três meses a aspirante a Maria Beú ensaia na casa da professora Socorro Brandão que também é guardiã das vestimentas e do sudario que é manejado por ^ Verônica na hora do canto " (op cit., pag 64) «A professora Sebastiana Tapety foi, na década de oitenta, Maria Madalena. Ela relata que, para ser Maria Madalena era necessário ter cabelos cumpridos e pretos para realçar a personagem. O cabelo deveria ser partido ao meio e não se utilizava nenhuma 'pécie de véu. Segundo a professora, que na época era uma adolescente ... resolveu colocá-lo de lado porém, ao chegar à igreja Nossa Senhora do Rosário algumas senhoras chamaram sua atenção e pediram que partisse o cabelo ao meio para não modificar a tradição secular " -- (Op. cit. pág 66) «O artesão Wellestrom Martins é um dos floristas dos Passos. Segundo ele as flores começam a ser feitas logo após a festa, ou seja, de um ano para o outro. O artesão disse que, antigamente, apenas as mulheres podiam praticar o ofício de fazer a flor de Passo, porém hoje já se vê muitos homens. Ele mesmo relata que sempre teve curiosidade, mas tinha medo por conta da sociedade machista " (Op. Cit. pág 67) -- O livro cita a professora fulana de tal, o Sr Beltrano da Silva e não acrescenta verdadeiramente nada de propriamente autoral à compreensão da Procissão dos Passos! Esta foi a crítica, formulada por um jovem amigo meu, ao livro «Passos do Bom Jesus, narrativas de fé» dos jornalistas oeirenses Francisco Stefano e Pedro Freitas Jr. Para mim, no entanto, é justamente isso o que há de encantador em 'se pequeno grande livro. Saber o trabalho que dá a 'colha e a preparação da Maria Beú, ficar sabendo que o 'tilista Wellestron combate o machismo confeccionando flores para enfeitar os Passos, descobrir que, por trás de cada detalhe da procissão, há zelosos guardiões da secular tradição religiosa, ser informado de que o transporte de um banquinho ter caráter de importante missão para o doce Zé de Helena, entender que os pagadores de promessas revigoram sua fé em atos de doação de si mesmos, tudo isto processado com objetividade jornalística onde o que importa é dar voz aos personagens, às personalidades e aos protagonistas da maior cerimônia religiosa do Piauí. Porque não vai muito com a cara dos autores do livro, e 'te Porque (?) não vem ao caso, o jovem contestador queria encontrar em ele, creio eu, grandes pretensões teosóficas, literárias ou, até mesmo, antropológicas para comprovar seu próprio preconceito segundo o qual Stefano e Pedro não passam de pavões pretensamente intelectuais. Seja como for, por piores que tenham sido as suas intenções, milita a favor do meu, ainda mal resolvido, amigo, o fato de que ele se obrigou a ler o livro. E, como eu disse no início, resumiu corretamente a leitura que fez, isto é, trata-se de dar voz a quem verdadeiramente faz a diferença na belíssima Procissão dos Passos do Bom Jesus. Santo de Casa faz milagres? A o definir, no início deste texto, como «jornalistas oeirenses» os autores do indigitado livro haverá quem me acuse de ter pecado por omissão: muito mais que jornalistas, Stefano e Pedro possuem uma vasta experiência no magistério secundário e universitário em Oeiras. Aliás, muito mais até que professores, eles podem ser qualificados como oeirenses da gema e da clara, tendo vivenciado, desde a mais tenra idade, junto com seus familiares, todas as emoções de participação na vida religiosa da cidade, coisa que o oeirense leva muito a sério e que ajuda a explicar sua fé renovada a cada ano, inclusive na mais 'petacular manifestação, a procissão dos Passos do Bom Jesus. Só por isso os dois jovens poderiam ser tentados a trilhar um caminho mais fácil e pontificar, requentando, as coisas que aprenderam na vivência de 'sa religiosidade latente que todo o oeirense tem. Resistiram a 'ta tentação, talvez, até, por influência de seu orientador, Orlando Berti, jornalista dos quatro costados, que também assina as fotos do livro. Por isso 'tou plenamente convencido de que defini com perfeição os autores ao chamá-los de jornalistas -- e isto, diga-se de passagem, sem que nenhum dos dois milite em jornal! O livro «Passos do Bom Jesus» é, da intenção ao resultado, puro jornalismo cultural da melhor qualidade, jornalismo que faz jorrarem todas as suas fontes de informação de forma agradável e harmoniosa conduzidas, de forma sábia e serena, por a batuta de dois maestros. Devo dizer, a bem da verdade, que a leitura deste livro funcionou, para mim, como uma revelação. Nunca mais irei ver os «Passos do Bom Jesus» (a cerimônia religiosa) com os mesmos olhos. Não se trata, no entanto, de uma revelação de caráter Sagrado mas do Humano, Demasiadamente Humano. Obra: Bom Jesus dos Passos-Narrativas de Fé, 85 páginas, 2008 R$ 10,00 Autores: Francisco Stefano Ferreira dos Santos e Pedro Dias de Freitas Jr. Photos: Orlando Berti Capa: Edmo Campos Diagramação Fernando Alencar pedidos através do e-mail: Número de frases: 41 franciscostefanof@yahoo.com.br Em 1990 passei o carnaval em Salvador. O grande acontecimento da folia foi o surpreendente desfile do Ara Ketu, que apareceu radicalmente eletrificado nas ruas da cidade. Em a época eu 'crevi: «Para mim foi a lição do ano. A união de candomblé com os sintetizadores desfilando por a Avenida 7 de Setembro: 'te é o país no qual eu quero morar." Gostava de imaginar que o Brasil todo pudesse ser como aquele desfile, juntando -- de maneira corajosamente independente -- tradição e alta tecnologia. Este fim de semana agora tive a mesma sensação ao andar por Natal, no Rio Grande do Norte, onde participei de três eventos muito 'peciais. Em todos os lugares, eu 'barro em países nos quais eu também quero morar. Todos podem ser chamados de Brasil mesmo. São diferentes do país do qual costumamos -- muitas vezes horrorizados -- receber notícias nos jornais (que não precisam inventar nada: o repertório de coisas horrorosas acontecendo por aqui é farto e vastíssimo). Mas não são territórios imaginários. São bem reais, acessíveis para quem ali quiser se aventurar. Vou aqui tentar descrevê-los. Peço desculpas de imediato por as imprecisões geográficas: como são países muito novos, tudo (mesmo medidas de latitude e longitude) ainda 'tá em processo de definição. O primeiro Brasil tinha uma cara 'tranha, de pesquisa científica de ponta, daquele tipo que não costumamos associar ao resto do país. Há muitos anos, quando encontrei pela primeira vez o Miguel Nicolelis, ele me falou sobre sua idéia de criar um instituto de neurociências no Rio Grande do Norte. Achei aquilo totalmente impossível -- mas como sou fã de coisas impossíveis, dei corda na conversa e permanecemos em contato. Queria encontrar uma maneira de colaborar, mesmo não sendo neurocientista. Sabia da qualidade do trabalho do Miguel -- mas reconhecia também que se não tivesse visto os vídeos (e artigos publicados nas mais importantes revistas científicas do mundo) que provavam que suas experiências tinham realmente acontecido, eu pensaria que tudo aquilo era uma fantasia com alto grau de maluquice. Não sei se vocês sabem do que 'tou falando. Mesmo com abundantes matérias publicadas em jornais e revistas brasileiros, percebo que muita gente ainda não ouviu falar em 'ta incrível experiência, feita na Universidade de Duke. Miguel treinou uma macaca, carinhosamente chamada de Aurora, para jogar vídeo-game. Era um game bem facinho, onde Aurora controlava um joystick como um mouse, para passar o cursor sobre umas bolonas que apareciam aleatoriamente no monitor situado bem na frente do seu rosto. Cada vez que acertava, ganhava suco de laranja, a coisa que mais gosta no mundo. Se fosse só isso (quem já viu macaca jogando vídeo-game?) já pareceria ficção científica, mas tinha mais, muito mais. Em o cérebro da macaca vários sensores implantados transmitiam informações sobre a atividade elétrica neuronal para um computador, que por sua vez comandava um braço mecânico. O processamento das informações foi ficando mais preciso, e o braço mecânico imitava cada vez com maior perfeição os movimentos feitos por o braço de Aurora. Quando Aurora 'tá craque no game, o joystick é desligado. A macaca percebe que alguma coisa 'tá 'quisita, que não é bem o seu braço que 'tá comandando a trajetória do cursor na tela do computador. Depois de investigar por algum tempo a nova situação, ela deixa de mexer o braço, e vê que pode fazer tudo apenas com seu pensamento. É para se 'pantar mesmo: não tenho dúvida: 'se momento vai ficar na história da ciência, como um acontecimento decisivo, pleno de grandes conseqüências que ainda nem intuimos quais serão. Miguel imagina o dia em que seres humanos, que perderam por os motivos mais diversos a capacidade de movimentar alguns membros de seus corpos, vão poder controlar próteses mecânicas que os farão andar (etc.) com comandos transmitidos diretamente do cérebro (será realmente o " poder do pensamento "). Miguel quer que o primeiro ser humano a fazer isso seja um (a) brasileiro (a), possivelmente um potiguar. Para iniciar o processo, construiu um Instituto de Neurociências em Natal, que na quinta-feira da semana passada inaugurou suas primeiras unidades, já com equipamento comparável ao de importantes laboratório 'trangeiros. Por que Rio Grande do Norte? Essa é a parte que mais gosto na história, até porque tem bastante a ver com os objetivos do Overmundo. O Overmundo foi inaugurado, quase um ano atrás, para combater a centralização excessiva da produção de conhecimento sobre cultura no Brasil. A produção científica no país não é menos centralizada. Seria bem mais fácil construir um instituto de neurociências no Rio e em São Paulo. Mas quem disse que o melhor na vida é o mais fácil? Ainda bem que existem pessoas que não se deixam amedrontar por dificuldades. E ainda bem que hoje existe a internet, que torna possível que o trabalho que se faz em Natal, ou em qualquer lugar do planeta, possa 'tar conectado com laboratórios de todos os lugares do mundo (e o Instituto de Natal já nasce parte de uma rede internacional de laboratórios de neurociência, com integrantes em Duke, Lausanne, São Paulo, Jerusalém, Japão e África do Sul etc.) Espantoso também: o dinheiro para bancar a etapa inicial das pesquisas foi doado por a família que é dona do Banco Safra, mostrando uma aliança entre a vanguarda de ciência e o mundo financeiro que me parece, em 'sas proporções, sem similar no Brasil. Ainda não disse tudo: a 'colha da localização não é inocente, ou fruto do acaso: o Instituto tem base em Natal, mas também em Macaíba, um dos municípios mais pobres do Brasil, e não é para flutuar sobre 'ses lugares como se fosse um disco-voador de primeiro mundo. O plano é bem explícito: a produção científica tem que 'tar conectada à realidade social dos seus arredores: ela só fará pleno sentido não quando ganhar um Prêmio Nobel ou distinção semelhante, mas também quando conseguir impulsionar a qualidade de vida da população do local onde os laboratórios 'tão instalados. Entre os edifícios já inaugurados visitei o prédio da foto acima, já em pleno funcionamento, com experiências curiosíssimas como aquela que coloca pessoas para jogar Doom (isso mesmo, o game best-seller que desafia seus jogadores com exercícios lógicos cada vez mais complexos) e depois para dormir, investigando se seus sonhos podem produzir insights que serão colocados em prática na próxima sessão do jogo. Mas também percorri outros laboratórios (de informática, biologia e física) que serão usados para a iniciação científica de alunos da rede pública de ensino, rede 'sa que -- segundo pessoas da terra me disseram -- possui uma das piores avaliações de qualidade em 'tudos feitos por o MEC. Também visitei o centro de saúde de Macaíba (conectado ao hospital Sírio-Liban ês, de São Paulo), que cuidará de mães e crianças, com atenção 'pecial para problemas neurológicos. Em os campos dos arredores, vegetais produtores de novo biodiesel serão plantados, contribuindo para financiar o resto do projeto. Para a inauguração vieram cientistas de vários cantos do mundo, todos visivelmente emocionados com o ineditismo do acontecimento. Houve um simpósio onde apresentavam resultados recentes de suas pesquisas (de robótica humanóide ao controle vocal de pássaros) para uma platéia de centenas de 'tudantes de todo o Brasil. Não tinha idéia que as neurociências brasileiras possuíam uma comunidade tão jovem e vibrante (que inclui, entre os mais jovens de pensamento, Ivan Izquierdo, professor da PUC-RS, um dos mais importantes 'pecialistas mundiais no processo de consolidação das memórias nos cérebros; ou Antônio Pereira, professor da UFPA, que 'tuda como o sistema neuronal detecta novidades). No meio de debates para mim totalmente psicodélicos, dei 'capadas para países paralelos, que apesar de seu menor impacto na cena global não têm para mim menor interesse, e também revelam aspectos promissores do Brasil, ou da maneira como o Brasil pode se conectar com o mundo. Em o noite de sábado deixei a roda de capoeira do Sidarta Ribeiro (isso mesmo, um dos diretores do Instituto de Neurociências de Natal é capoeirista, além de contista etc.), atravessei (não 'tava sonhando!) o desfile das 'colas de samba campeãs do carnaval potiguar, e fui encontrar o Buca Dantas -- o criador do cinema-processo e amigo de outros carnavais -- na porta do De o Sol Rock Bar. Cheguei atrasado (também o show começava às 17hs, o que é uma idéia genial, mas não para participantes de simpósios de fim de semana ...): o Superoutro já tocava, e o Vanguart iria subir no palco logo em seguida. Foi um prazer reencontrar também o Anderson Foca e a Ana Morena, criadores do bar, do festival, da gravadora, da produtora de vídeo, mostrando que é possível sim fazer coisas bacanas em todo o Brasil. O bar, por exemplo, já tem dois anos de atividade, sempre com bandas independentes e público ávido por novidades. Já tinha ouvido falar muito bem do Vanguart, principalmente aqui no Overmundo. Estava preparado para gostar do show, mas não para gostar tanto. Comentei com o Ronaldo Bressane -- que 'tava cobrindo o Simpósio de Neurociências para a Trip e foi com mim ao show -- logo nas primeiras músicas: «eles 'tão prontos!" Estão mesmo: não teve uma música que não gostei. Como disse o Thiago Camelo, em comentário aqui no site: mesmo os covers (em Natal eles tocaram até Sgt. Pepper's, para aumentar a psicodelia do meu fim de semana nordestino ...) não soam apelativos. Todo mundo toca bem. O Hélio Flandres, vocalista, tem uma voz e tanto. E as composições da banda têm qualidades melódicas evidentes, aliadas a um furor folk-roqueiro adolescente (os meninos têm 20 e poucos anos) absolutamente convincente. Porém, mais bacana ainda era o público. Todo mundo sabia cantar todas as músicas. Os primeiros acordes eram identificados com urros de aprovação. Meninas pulavam do palco para a platéia. Aquela festa. Quem precisa de gravadoras, de rádio, de lançamentos de CDs, para ser feliz? Ainda bem que existe a internet. A garotada que nasceu na rede não deve ter idéia de como as coisas eram difíceis antes ... Hoje é possível a existência desse Brasil indie, paralelo, sem depender do mainstream para «quase» nada. É óbvio que é diferente. Talvez não existam mais Legiões Urbanas daqui para frente. Grandes 'tádios. Discos de platina. Claro que aquilo tinha o seu charme. Mas era um charme para poucos. Agora existem muitas bandas em circulação constante Brasil afora. De ônibus ... Palcos menores. Públicos menores, mas não menos ligados ou fiéis. Não dá para comparar as duas situações. Mas acho que agora é melhor para mais gente, mesmo gente contando os trocados do cachorro-quente jantar. Saímos do de o Sol para comer uma pizza na Calígula, ali mesmo na Ribeira (que não teve o mesmo sucesso do Recife antigo -- mas também nunca vai ter o abandono de massa por o qual o Recife antigo já passou). Hélio Flandres me falou de sua paixão por os Birds, que vários componentes do Vanguart eram professores de inglês (Ronaldo Bressane comentou: " vários Renatos Russos!"), que 'tão de mudança para São Paulo. Como sempre, lamentei a mudança: assim as cenas locais não se fortificam, quem faz sucesso vai embora. Mas entendo as razões: ir de Cuiabá para Natal é bem mais penoso -- ou menos prático -- do que de São Paulo para Natal. Não sei até quando ... Espero que não por muito tempo. Então aviso aos paulistanos: tratem bem dos garotos cuiabanos! Quem sabe eles não ficam mais famosos que o Cansei de Ser Sexy! Minhas aventuras em Natal não acabaram com a pizza da Calígula. Em a segunda-feira ainda conheci o terceiro país da viagem. Fui fazer uma palestra para a garotada e professores do Conexão Felipe Camarão, periferia da cidade. Ainda bem que não era uma palestra normal (não agüento mais palestras normais ...) -- tudo era parte de uma «roda de prosa», que já começava com o microfone aberto para quem quisesse dar sua idéia. Estava invertida a 'trutura convencional palco-platéia, onde há aquela falação inicial e pouco 'paço para conversa depois (por isso também gostei das sessões de posters no Simpósio de Neurociências, quando havia efetiva troca de idéias, e os professores viravam também platéia dos 'tudantes). Tinha preparado uma fala, gravei até uns CDs para tocar músicas-exemplos da história do samba e do funk que eu ia contar, mas abandonei os planos e deixei a roda decidir os rumos dos acontecimentos. Bem melhor assim. E bem melhor o que aconteceu depois. Fomos para frente da igrejinha local, onde brincou o Boi-de-Reis das crianças. É o boi herdeiro do grande mestre Manoel Marinheiro, agora comandado por sua mulher, dona Isa, que faz de tudo, da costura das fantasias ao ensaio da coreografia. Antes do boi entrar na roda ainda houve a apresentação de Chico Daniel, outro grande mestre local (Felipe Camarão tem fartura de mestres) e um dos maiores mestres do mamulengo que o Brasil já teve. Gostei de ouvir as narrativas picantes, cheias de duplo sentido. Essa é uma longa tradição nas artes populares brasileiras, que não começou com o funk carioca, e nenhuma classificação indicativa vai domesticar. Depois da brincadeira ainda fui entrevistado por a equipe de TV do Ponto de Cultura da Conexão Felipe Camarão. Liliane, minha adolescente e adorável entrevistadora, começou nervosa, mas não titubeou em nenhuma pergunta. Em o final eu quis entrevistá-la. Ela me contou que quer fazer letras ou comunicação. ( Que comece a 'crever logo no Overmundo!) Tomara que ela consiga realizar todos os seus planos. Realmente as coisas mudaram. Antes, quem morava naquele bairro achava que a universidade era território terminantemente proibido. Em a volta para o hotel, Vera Santana -- a fundadora do Conexão Felipe Camarão, que existe em grande parte pois ela quer que exista, e incansavelmente move mundos para garantir que continue existindo, contra todas as dificuldades -- ainda fez questão que eu conhecesse a Limbo Quinquilharias, uma das mais simpáticas livrarias do Brasil, onde comprei alguns livros do selo Jovens Escribas, que lança autores locais. Como não ficar animado depois de um fim de semana desses? Só vi o lado bom das coisas? Estou sendo ingênuo? Tento ao máximo controlar meu otimismo. Mas deixo de lado a prudência e penso: são tantos bons sinais, tantos países interessantes aparecendo ... Quando todos eles se juntarem vai ser bem bacana ... É preciso batalhar para que se juntem. Como aprendi com Miguel Nicolelis, com Anderson Foca, com Vera Santana: dá muito trabalho (até para parar de reclamar de tudo e partir para a ação), é preciso uma persistência absoluta, mas o resultado pode ser muito compensador ... Número de frases: 148 -- História de uma geração Francelino Antunes de Carvalho nasceu em Uruaçu no dia 25 de abril de 1927. Hoje com 81 anos de idade reside à Avenida Tocantins bem em frente ao carro de boi que ornamenta a pracinha do museu Dom Prada Carrera. Seu Francelino olhou de longe toda a montagem do 'paço e ali compenetrado voltou no tempo quando trabalhou de guia ou candeeiro para o pai, o sr. José Antunes Fernandes na Fazenda Tapera. A Tapera é uma fazenda próxima a cidade, localizada às margens da rodovia que vai para Niquelândia. Foi uma das primeiras fazendas da região, inclusive em 'sa fazenda nasceu também Dr. Cristovam Francisco de Ávila, ex prefeito e promotor na cidade de Uruaçu. Seu Francelino conta emocionado de suas viagens carreando lenha para vender aos comerciantes como o sr. Camapum, sr. João Delegado e outros compradores. Essa lenha ia num carro grande (40 balaios) movido por 8 bois curraleiros: o Barcão O Rivirão, o Chatinho, o Jeitoso, o Moreno, o Chitão, o Carinho e o Dilicado. Esse carro de boi ele ainda conserva na sede da fazenda, só que depois da morte do pai nunca mais carreou. Porém seu Francelino descreve com muito orgulho todos os adereços do carro de boi: -- O carro tem o Cocão que não deixa o eixo sair da mesa. Para o carro cantar tem que apertar o eixo e engraxar com banha de porco ou azeite que fica no azeiteiro, um chifre com um pincel. O chumaço em cima do eixo serve para não deixar 'tragar a xeda que é o varão do lado. O eixo comprido é chamado de cabeçaio. O chaveio firma o tamoeiro da canga para segurar os bois. O pigarro segura a tiradeira para o comando da boiada. O fueiro é o pau que firma a 'teira para carregar peso como milho e outras mercadorias. E assim ele me leva até à fazenda Tapera para conhecer o velho carro. A casa da Tapera tem ainda o aspecto antigo como as telhas, o assoalho e tudo o mais. Seu Francelino vai todos os dias para a fazenda de bicicleta, seus 81 anos de idade não o envelheceram; pelo contrário, ainda tem muito fôlego para trabalhar e contar os causos. De entre 'ses causos ele narra as viagens junto com o pai no carro de boi. Um carro cheio de lenha era vendido ao Seu Camapum (influente comerciante dos anos 40/50), por 10 mil réis. Essa lenha era cortada em tamanhos de 1 metro mais ou menos e revendida aos moradores para ser queimada nos fogões à lenha. O percurso da fazenda Tapera até Uruaçu (4 km) era feito em 3 horas ou mais dependendo do clima. Em o carro eles usavam azeite no eixo para o carro cantar e era uma grande atração 'se canto conhecido como «baixão». A entrada na cidade era triunfal, a cantiga do carro atraía muita gente por a curiosidade de ver quem 'tava chegando e o que trazia de novidade. Seu Francelino sorridente diz: -- Quando o carro ia entrando na cidade e as moças ouvia o som do baixão corriam para a porta pra vê quem tava chegando aí a gente sorria e acenava com o chapéu. Para ele ser candeeiro não era cansativo, pelo contrário era muito divertido. Trabalhava conversando com o pai e gritando com os bois. Se tinha uma subida maior precisava apertar os bois como ele mesmo diz (chegar o ferrão) e ainda gritar: -- Barcão, Dilicado, vamos! Ôa vamos! E assim entre gritos e ferroadas os bois subiam de arrancada. Segundo ele o boi curraleiro era mais dócil e amansava mais rápido. Um boi de 3 anos já começava a ser treinado para carrear junto com um mais experiente. O trabalho de amansar era feito aos poucos com uma canga própria e assim o peso era puxado de forma igual. Um boi curraleiro podia trabalhar até 25 anos se fosse bem zelado. Em a fazenda Tapera os bois eram bem tratados e tinham um descanso ao meio dia e assim se conservavam fortes para o trabalho. Com o semblante triste seu Francelino diz sobre a despedida do boi curraleiro: -- Quando o boi já não dava mais para o trabaio a gente levava ele para o curral do matador. Era muito triste e eu nem gostava de vê. O boi curraleiro sabia que ia morrê e do seu zói curria água. Seu Francelino se cala e de cabeça baixa diz: -- Sabe, a gente fica sentido pois 'ses boi ajudou tanto ... Outra história que seu Francelino conta muito animado é sobre o namoro com dona Arminda Martins com quem é casado há 53 anos. -- Q uando o carro de boi passava na rua ela ficava na porta sorrindo e acenando pra mim toda bonita e enfeitada! E continua: -- Como ela 'cutava a cantiga do carro de longe dava tempo de se arrumar e até passar um pó de arroz! Os dois riem muito ao relembrar 'ses momentos. Assim a história de vida de seu Francelino e família se fez em torno de um carro de boi. E agora na fazenda 'se velho carro desgastado com o tempo (160 anos mais ou menos) 'tá encostado num canto como se olhasse os caminhos por onde passou. Esse carro acompanhou as mudanças, o crescimento da família e o progresso da cidade. Hoje ele é apenas uma peça representativa do passado de uma geração, 'pecificamente da história de Uruaçu. Número de frases: 56 O mundo Gay é perverso, perverso de pervertido mesmo. Noventa por cento dos homens são promíscuos, tanto no sentido léxico (de dicionário) da palavra (Promíscuo é aquele que não sabe o que quer) quanto no sentido do cotidiano (promíscuo é aquele que ' trepa ` com tudo e com todos, que não consegue, por falta de natureza, ser fiel e monogâmico). Infelizmente é assim, muitos gays chegam na ¿ boite ¿ e já começam até a contar nos dedos com quantos já ficaram, foderam, beijaram, ¿ garraram ¿, chuparam, daram, etc ... Sente orgulho quando 'te número passa dos 30 ou dos 40. Enquanto muitos -- inclusive eu -- se envergonhariam disso. Só podem se envergonhar disso, aqueles que têm caráter, coisa que quem é promíscuo (tanto no sentido léxico quanto no sentido cotidiano) não tem. Porque quando o número aumenta muito, denota que a pessoa não é alguém digno de confiança num relacionamento. Mesmo que aqueles que não têm mais parede para por seus diplomas de sexualidade -- batam o pé e digam que é necessário ' experimentar ', que é necessário ' buscar ` através das ' ficadas ' aquele cara ideal, isso só demonstra a fraqueza de caráter destes sujeitos, que necessitam para comprovar suas teorias textos e contextos acadêmicos. O que na realidade é uma farsa, eles usam destes textos e contextos para justificar sua vida fútil e promíscua. como se assim fosse dar um ar de celeridade a sua vida putesca. Promiscuidade é sinônimo de mal-caratismo sim. Promíscuos fazem parte da mesma legião (palavra que é coletivo tanto de anjos quanto de demônios) dos homicidas, ladrões, corruptos, 'tupradores e psicopatas, claro que em menor teor. Visto que promiscuidade é um defeito moral e de caráter, mas com fundamentos psicológicos. Não digo aqui que os promíscuos sejam vítimas, visto que eles sabem muito bem o que fazem. O único problema de eles é que para conseguir suas presas eles muitas vezes enganam, mentem, fazem outra pessoa sofrer. Em isto sim eles têm total culpa. Pouco me importa se o conceito «religioso» de determinadas pessoas -- que muitas vezes são promíscuas -- não absorve o termo de Culpa. O mundo Gay é um mundo podre, desfalcado de caráter. Não generalizei, visto que eu tenho caráter, sou Gay e conheço muitos caras que pensam como eu. No entanto, a imensa maioria age de forma promíscua. Eu sempre vou acreditar no relacionamento sério. Aquele que é comprometido com a fidelidade e o amor. Sou sonhador demais? Acredito que não, prefiro ficar na teoria do que agir feito uma puta burra (visto que as 'pertas cobram -- e 'perteza até um verme das fezes de uma porca tem). Acredito -- no entanto -- que existem pessoas que pensam como eu. Que agem como eu, que querem ser felizes ao lado de Um só homem, que querem Qualidade de relacionamento e não Quantidade. Que enquanto não chega o homem certo não vivem feito cadelas no cio ... Trepando e experimentando ninguém ... Todo relacionamento baseado em sexo e cama 'tá fadado ao fracasso. Número de frases: 28 Em um sobrado alugado no setor Itatiaia II, região Norte de Goiânia, um belo projeto de descentralização cultural 'tá ameaçado. Iniciado em julho de 2005 por um grupo de artistas e produtores, o Comunidade Fazarte não conseguiu captar patrocínio aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia e entregou em dezembro passado a casa que usava por falta de dinheiro para pagar o aluguel. O Fazarte consistia de um 'paço de convivência para o ensino-aprendizagem com oficinas de capoeira, música, artes plásticas, teatro, prática de contar histórias, apresentações circenses e de hip hop, entre outras. Tudo de graça e voltado para a comunidade do bairro e regiões vizinhas. Cláudio Roberto dos Santos, o Claudinho do grupo de rap Testemunha Ocular, diz que o projeto criou uma expectativa de atender a uma demanda por arte represada na região. \ «Aqui tem muito violeiro, 'cultor, o pessoal do artesanato, muita gente boa fazendo arte, mas infelizmente sem apoio você não consegue manter um 'paço de apoio permanente \», disse desapontado o rapper, que ajudava na coordenação. O projeto Fazarte, que tem como foco valorizar a produção cultural da comunidade do bairro e adjacências, começou 'tabelecendo parcerias 'tratégicas para driblar a dificuldade orçamentária. Os produtores se aproximaram da Universidade Federal de Goiás (UFG), cujo campus circunda o bairro do projeto, e convidaram professores de arte que já contassem com alguma subvenção e aceitassem a pequena ajuda de custo oferecida por o Fazarte. O início deu certo, com o Espaço Fazarte tendo as primeiras aulas de capoeira, circo e hip hop com professores que acabaram se entusiasmando por a idéia. Mas como o patrocínio não chegou, os custos maiores com a casa e material didático inviabilizaram a continuidade nos moldes originais. \ «As leis de incentivo de Goiás têm 'sa dificuldade burocrática como a delimitação de prazos muito curtos, sem distinção das 'pecificidades de cada projeto e acho muito alto os impostos que se abatem sobre 'se dinheiro, chegando a 30 % do valor arrecadado. É muito \», reclamou Claudinho, citando outra \ «fragilidade \» das leis de incentivo. Patrícia Vieira, coordenadora que liderou todo o processo desde o início, não desiste. Ela diz que o Fazarte 'tá encerrando da forma como foi pensado inicialmente, mas vai procurar soluções de continuidade. \ «Não vamos parar, a idéia agora é redimensionar o projeto, aumentar as parcerias com a UFG e passar a executá-lo em praças públicas e 'paços alternativos \», afirmou ela. Governos X artistas Dificuldade em captar recursos via leis de incentivo em Goiás não é uma particularidade do Comunidade Fazarte. Um sem-número de artistas e produtores goianos reclamam de critérios, prazos e burocracias para trabalhar com 'ses instrumentos de fomento cultural, já adotados há cinco anos tanto por o governo 'tadual quanto por a prefeitura da capital. Em 2004, a produtora e selo musical Monstro Discos teve rejeitado por a Secretaria Estadual da Fazenda um patrocínio de R$ 100 mil oferecido por a distribuidora da Coca-Cola em Goiás para a realização do 10º Festival Goiânia Noise. \ «A alegação da secretaria na época foi de que 'sa renúncia 'touraria o orçamento do Estado naquele mês \», recorda Leonardo Ribeiro, o Léo Bigode, um dos sócios da Monstro. Sem o apoio nunca tido, o festival que anunciara um show internacional (da banda norte-americano MC5) teve que cancelar a participação dos gringos e rever custos e programação.? O engraçado de 'sa história é que nós não podemos usar o patrocínio de R$ 100 mil, mas o governo apóia o filme de Zezé Di Camargo com um valor muito superior a isso?, criticou o produtor e baterista Léo Bigode. Ele se referiu aos cerca de R$ 600 mil dado ao filme dos cantores sertanejo-românticos por o governo de Goiás, via Lei de Incentivo à Cultura do Estado (Lei Goyazes). Comentou-se à época da realização do longa de um empenho pessoal do governador Marconi Perillo (PSDB) na concessão do patrocínio ao filme. \ «O problema de 'tas leis é que, além de colocar os artistas de pires na mão atrás de patrocínios, elas facultam aos próprios governos disputar os minguados recursos com os artistas \», diz Lucas Faria, músico e economista, sempre procurado por produtores e artistas goianos na hora de formatar projetos culturais. Segundo Faria, há pelo menos dois artigos \ «equivocados \» na Lei 13.613, a Lei Goyazes, cujo texto foi assinado por o governo em maio de 2000. Lucas Faria se refere aos artigos 5, que 'tabelece o percentual máximo (5 %) de crédito outorgado (prorrogação de imposto devido por 60 dias) às empresas patrocinadoras de cultura no 'tado; e ao 7, que define os beneficiários da lei em dois incisos. Em o entendimento de Faria, o art. 5 inviabiliza na prática a concessão da prorrogação dos créditos caso algumas empresas patrocinem vários projetos num único mês. \ «Se 'sas empresas somarem mais de R$ 150 mil em patrocínios, que é o teto admitido na lei, 'se valor de fato furaria o caixa do governo. Ora, se não pode conceder de fato por que 'tabelecer de direito? \», questiona criticando o músico-economista, que diz preferir que o governo adotasse um " Fundo Estadual de Cultura. \ «Já que é renúncia fiscal, ou seja, o governo terá que ressarcir 'se dinheiro às empresas cedo ou tarde, por que não constituir um fundo próprio para a Cultura de uma vez \», volta a indagar Faria. O Presidente da Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel, que 'tá prestes a voltar a ser denominada Secretaria Estadual de Cultura), historiador Nasr Chaul, admite os problemas da lei-mas acha que é uma questão de \ «maturação \» da legislação entre os próprios produtores, artistas e empresários. \ «Se fizermos um balanço da nossa produção cultural desde a promulgação da lei, vamos ver que houve muitos avanços. E isso só não foi mais amplo porque 'tamos ainda num processo de sedução do empresariado e formação de captadores no meio artístico \», disse Chaul ao Overmundo. Sobre a possibilidade de projetos do Executivo 'tadual competirem com os da demanda dos artistas por as verbas autorizadas via Lei Goyazes, o presidente da Agepel reconhece que a lei faculta, mas diz que a agência \ «nunca usou nem vai usar desse recurso \». A afirmação do presidente da Agepel responde também à crítica velada de artistas e produtores goianos de que a Agepel 'taria usando a lei na realização de projetos de vulto do governo Marconi, como o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica, na sexta edição, realizado em Goiás Velho) e o Festival Canto da Primavera (de música, realizado em setembro em Pirenópolis). Em a conversa com a reportagem sobre a Lei Goyazes, Chaul disse ainda que entende a função \ «reguladora \» que a Secretaria da Fazenda tem sobre os projetos aprovados e diz ser \ «muito favorável \» à criação de um Fundo de Cultura para o 'tado, mas que um projeto como 'te precisa envolver outras 'feras do governo para ser efetivado. No caso da lei municipal, o músico Lucas Faria concluiu enviando à reportagem cópia de um decreto do prefeito Íris Rezende (PMDB). Em o texto, o prefeito deixa claro que os recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) do município \ «aplicam-se também aos projetos culturais do Poder Executivo Municipal, não 'tando os mesmos sujeitos aos limites 'tabelecidos no artigo antecedente \» (sobre Art. 1º da lei que criou o FAC). Em o mesmo Decreto nº 2040, editado em 15 de junho de 2005, o prefeito autoriza, sobre o Art. 45, que os \ «projetos oriundos do Poder Executivo Municipal, financiados por o FAC, deverão ter seu mérito apreciado por o» Secretário Municipal de Cultura \». \ Número de frases: 43 «Ninguém havia sido tão explícito assim em termos de lei de cultura e fundos de financiamento à cultura \», ironizou Lucas Faria. Nossa história começa em 1998 com uma reunião de amigos admiradores de HQs e mangás. «Principalmente aqueles de super-heróis», ressalta Januncio Neto, um dos fundadores do coletivo MADE in PB, que a princípio era um fanzine criado por desenhistas autodidatas e amantes de quadrinhos que tinha histórias desenhadas por os própios criadores. Infelizmente, o fanzine não decolou e acabou depois de dois números editados. De os membros daquela formação hoje no grupo só existem dois remanescentes, como Januncio gosta de citar. Ele, Januncio Neto, 30, roteirista do grupo, amante de quadrinhos desde a infância e portador de uma doença degenerativa desde os 16 anos que limita seus movimentos e só permite sua locomoção em cadeira de rodas, e Josival Silva, arte-finalista. Aquilo que era apenas uma brincadeira começou a se tornar um hobby sério e, conseqüentemente, exigir tempo e dedicação. Aí aparece a primeira dificuldade -- como se manter? Januncio não trabalha fora em razão da sua limitação e os outros integrantes da trupe se profissionalizaram no mercado publicitário como ilustradores trabalhando em gráficas, uma forma de ganhar dinheiro para manter o hobby. No caso de eles, amantes de quadrinhos que tiveram de se profissionalizar em outros campos para poder sobreviver. Fazer e viver de quadrinhos morando distante dos grandes centros parecia um sonho e um conhecido de peso poderia ajudar a diminuir a distância entre os amantes de HQ que moram na Paraíba e o mercado dos sonhos. Mas 'se elo existiria? E por mais longe que pudesse parecer, quem seria 'se elo? Pois é, 'se elo não só existe, como tem um nome bastante respeitado no meio -- Deodato Taumaturgo Borges Filho, 42, mais conhecido como Mike Deodato (www.planetaesbornia.com.br), nascido em Campina Grande, Paraíba, profundo conhecedor das dificuldades de se ter um talento como 'se (provavelmente herdado do pai, segundo o próprio, autor do primeiro quadrinho do Nordeste -- As aventuras do Flama, 1963) e viver afastado dos grandes centros onde fervem os HQs. Mike Deodato, nome sugerido por o seu primeiro editor de um quadrinho para uma editora de quadrinhos internacional -- Santa Claws/MALIBU -- que achava o nome latino ruim para o mercado americano, tem uma extensa folha de serviços prestados ao HQ mundial, tendo desenhado HULK, BATMAN, Mulher-MARAVILHA, trabalhando para a MARVEL e DC Comics, entre outros tantos trabalhos mundo afora. Januncio conheceu Mike em 1995 e só voltou a se encontrar com ele em 1999. Em 2000, o agente de ele, David Campitti, em visita? cidade, viu o trabalho dos garotos do MADE in PB e gostou. Deu dicas importantes de aprimoramento do traço, falou da necessidade de ter uma postura profissional e deu dicas de como chegar ao mercado americano. Dicas valiosíssimas para um grupo que de fãs de HQ começava a vislumbrar uma possibilidade de trabalhar num mercado concorrido e distante. Em 'se período, eles participaram de uma série de quadrinhos editados e encartados semanalmente no jornal local -- A União. Essas edições traziam duas histórias por revista, com roteiros que abordavam de histórias infantis até quadrinhos de terror. «Tipo Lenda Urbana», afirma. De as oito edições, o grupo foi responsável por seis de elas. Depois de 'sa fase, eles pararam e começaram a fazer exatamente o que o David Campitti e Mike Deodato tinham aconselhado: aperfeiçoar o traço e melhorar a postura profissional com vistas a atingir o mercado americano. Conseguiram. Jackson Herbert, 23, «integrante da nova formação do grupo», diz Januncio, hoje faz parte do cast da Glasshouse Studios, agência do próprio David Campitti mesmo agente de Mike Deodato, e já tem trabalhos previstos para lançamentos no mercado americano em 2006. Perguntado para qual editora iria fazer o trabalho, ele se reservou ao direito de manter em sigilo o nome da editora com a qual 'tá negociando seu primeiro trabalho internacional: «Estamos no período de negociação de valores». A dedicação do grupo tem sido recompensada. Atualmente os rapazes 'tão trabalhando com SHIKO, artista plástico de João Pessoa, muito conhecido no underground da cidade por os seus quadros, grafites e edição do extinto Marginal Zine, um velho conhecido do grupo das oficinas e workshops de desenho. Eles também 'tão colaborando na finalização do vídeo clip Lelê, da Chico Corrêa & Electronic Band, feito todo em animação, e na editoração do livro Blue Note, do qual SHIKO é responsável por os desenhos. Por a própria história de Deodato, sabemos que a missão é árdua e exige uma grande dedicação. Vale torcer e conferir o trabalho dos rapazes que é de alto nível, que o diga o disputado mercado americano. Integrantes do MADE in PB: Januncio Neto, Josival Silva, Jackson Herbert, Alisson Rick, Raoni Xavier e Adjair França MADE in PB (flog) -- http://fotolog.terra.com.br/madeinpb/ http / geocities. yahoo. com.br Número de frases: 39 Em o século XIX, vários antropólogos, e até um eminente teórico do socialismo moderno, acolhendo as idéias de Darwin, defenderam a existência num tempo remoto da humanidade do sistema do matriarcado, uma organização social inteiramente predominada por mulheres. A hipótese matriarcal surgiu em 1861, quando o suíço Johann Bachofen sugeriu a existência de sociedades matriarcais na pré-história. Suas idéias influenciaram fortemente antropólogos e arqueólogos do final do século 19 e começo do século 20. Seguindo na linha dos antropólogos evolucionistas, o americano Lewis Morgan (A Sociedade Antiga, 1877), defendeu, ao 'tudar as tribos dos iroqueses, o ponto de vista de que as relações de parentesco eram dadas por as mulheres, por as mães (que até hoje encontra-se no antigo hábito ibérico de que o sobrenome da mãe é colocado no final, e não no meio do nome do filho). Conseqüentemente, confirmava-se para ele, a teoria do Direito Materno de Banhofen, como sendo o direito-matriz das sociedades. Friedrich Engels, bem como Karl Marx, entusiasmou-se por o trabalho de L. Morgan, extraindo de ele conseqüências bem mais amplas do que as origens do parentesco e as alterações ocorridas na familiar. Engels (Origem da família, da propriedade privada e do 'tado, 1884) aceitou também existir num passado longínquo uma sociedade matriarcal, não da mítica tribo das guerreiras amazonas, que tantas lendas gerou, na qual as mulheres dispunham de uma liberdade sexual desconhecida para os modernos. Para o companheiro de Marx, entretanto, o surgimento do patriarcalismo e as subseqüentes modificações na 'trutura familiar nada deviam à crescente proeminência dos deuses masculinos como pensara Banhofen, mas sim à introdução do princípio da propriedade privada. Com o surgimento do costume do cercamento e da delimitação das terras, adotadas por os homens vitoriosos em combates e guerras, os machos passaram, disse Engels, a exigir fidelidade sexual das mulheres porque não aceitavam ter de legar os seus bens, obtidos com sangue e por a exploração do próximo, a um descendente que não fosse seu filho legítimo, gente do seu próprio sangue. Foi então que o adultério feminino passou a ser considerado grave infração, senão crime capital. As exigências do patrimônio enfeixado nas mãos dos homens teriam então suprimido as liberdades femininas, tornando as mulheres cativas, presas a um casamento monogâmico. De certa forma era inevitável que um militante socialista como Engels concluísse que a opressão feminina derivava em última instância da existência e manutenção da propriedade privada, induzindo a que se concluísse que a verdadeira emancipação feminina só poderia advir da abolição da sociedade burguesa. Pesquisas antropológicas feitas com mais rigor no século XX concluíram que jamais houve uma sociedade matriarcal. Isso não significa negar que em várias tribos ou civilizações as mulheres fossem altamente consideradas (como por exemplo na Grécia arcaica). Elas Estão Tomando O Poder Coincidência ou não, o século XXI, aos poucos, surpreende eleitores mundo afora, deixando uma pergunta no ar: as mulheres 'tão tomando o poder? Discretamente -- e com muita competência -- uma nova geração de mulheres 'tá chegando ao poder em sociedades nas quais isso era impensável até pouco tempo atrás. E outras 'tão a caminho. Em a Alemanha, Angela Merkel é a primeira a chefiar o governo do país. Ela é doutora em física e foi ministra do Meio Ambiente. Em o Chile, Michelle Bachelet é a primeira mulher a presidir um país latino-americano sem ter herdado o poder do marido. Pediatra, ela foi antes ministra da Saúde e ministra da Defesa. Em a Libéria, Helen Sirleaf é a primeira mulher eleita presidente na África. Formada em administração na universidade Harvard, foi diretora do Banco Mundial e é chamada de «dama de ferro». Em a França, Ségolène Royal desponta como forte candidata a presidente em 2007, por o Partido Socialista. Formada em administração, foi ministra do Meio Ambiente. Em os Estados Unidos, a eleição de 2008 poderá ter duas mulheres disputando a sucessão do presidente George W. Bush. Tudo indica que a ex-primeira dama Hillary Clinton será a candidata do Partido Democrata. Ela se destacou como senadora e ganhou vida política própria, sem depender do marido. De o outro lado, a mulher que chefia a diplomacia americana, Condoleezza Rice, tem tudo para ser a candidata do Partido Republicano. Se for eleita, será não somente a primeira mulher como a primeira pessoa negra a presidir a maior potência mundial. Em o Brasil Ellen Gracie pode ser a primeira mulher a assumir presidência do país. A recém-empossada presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministra Ellen Gracie, tem grandes chances de ser a primeira mulher a assumir, ainda que interinamente, a Presidência da República. A possibilidade é grande devido à proximidade das eleições, que tornam incompatíveis os postulantes ao cargo que 'tão mais próximos na linha sucessória. Para que a ministra assuma interinamente a presidência, bastará que o presidente Luís Inácio Lula da Silva viaje para o exterior. E isto 'tá previsto para maio. à frente de Gracie, 'tariam o vice-presidente José Alencar, que deve ser candidato a cargo ainda não definido por o Estado de Minas, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-AL), e o do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). As três possíveis candidaturas os tornam incompatíveis para assumir a presidência. Ellen Gracie Northfleet, eleita no dia 15/3/06 para a presidência do STF (Supremo Tribunal Federal), é carioca e tem 58 anos, completados no dia 16 de fevereiro. Filha de José Barros e Helena Northfleet, Ellen nasceu na capital fluminense e passou grande parte de sua vida acadêmica no Rio Grande do Sul. Em o dia 14 de dezembro de 2000, tornou-se a primeira mulher, e até agora única, a assumir cargo de ministra na suprema corte, ao ser nomeada por o então presidente Fernando Henrique Cardoso, na vaga de Octavio Gallotti. Ellen foi nomeada vice-presidente do Supremo em maio de 2004. Antes disso, entre seus principais cargos, a de presidência do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) em 1997, quando dedicou sua gestão às metas de ampliação e interiorização da Justiça Federal de Primeira Instância e à racionalização dos serviços e praxes judiciários. Também já ocupou a vice-presid ência do TSE, entre 2003 e 2004. Trabalhou no Ministério Público de 1973 a 1989. Ellen Gracie iniciou seus 'tudos acadêmicos na Faculdade de Direito da então Universidade do Estado da Guanabara. Em 1970, concluiu o curso de Bacharelado em Ciências Jurídicas e Sociais por a Faculdade de Direito da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Graduou-se, em nível de 'pecialização, em Antropologia Social, também por a UFRGS no ano de 1982. De o jeito que o mundo anda, é evidente que ser governado por homens não 'tá dando muito certo. Com as mulheres no poder, é possível que as coisas melhorem. Mas elas vão ter que rebolar para consertar o que os homens fizeram. Número de frases: 52 Quando arrombaram a porta de seu barraco, ele, catador de cera de velas e flores mortas em cemitérios, 'tava também morto há meses. Aquela cena, garganta aberta a faca e dez anos de pot-pourris de flores secas para outrem, alastrou seu perfume -- era perfume?-- por todo o bairro. Com o texto intitulado O catador, Artur Farrapo talvez tenha chegado -- embora sem intenção -- à 'sência da publicação marginal que o editou. A revista Sirrose, que chega a sua sexta edição no próximo mês, em três anos de 'trada, saiu da clausura forçada de uma nova geração de 'critores, perambulando por as ruas com seus textos guardados rente aos sovacos -- era perfume?, sem possibilidade de publicação. Depois de anos de projetos sem repercussão, veio a idéia do fanzine: na capa, um erro ortográfico; no miolo, palavras errando entre o apenas chulo e o de fato, maldito. Seja qual for seu juízo sobre a arte dos caras, o cheiro se alastrou, sem pedir licença. Hoje, a Sirrose 'tá presente em shows de rock, com intervenções poéticas; recebe textos de autores do Paraná, de Pernambuco, do Ceará e até de um gringo de Chicago; publica quadrinhos; edita artesanalmente alguns livros de seus integrantes; já editou um livro infantil de um menino de 12 anos; invade saraus de gente graúda da literatura com uma polêmica e embriagada inconveniência; é convidada para eventos em universidades e, 'te ano, participa por a segunda vez do Congresso de Escritores Latino-Americanos, realizado em Letícia, na Colômbia. «Todo mundo achou que ia parar na quinta (edição)», afirma o 'critor Márcio Santana, um dos fundadores da revista, «diziam que era modismo, que não tinha qualidade literária», completa, mas Márcio tem a consciência de que todo novo movimento causa um certo 'tranhamento. A cada edição, a Sirrose separa a última página para publicar críticas dos leitores -- que mandam mensagens para o e-mail revistasirrose@bol.com.br, expondo claramente a divisão de opiniões que provoca. Polemizar é uma das prerrogativas do grupo. «A cidade precisa de 'sa irreverência. Chega de 'sa literatura sisuda, de gabinete, feita por advogados acomodados», dispara o 'critor. Vem dando certo, pois a revista já conseguiu incomodar cânones da literatura amazonense. De acordo com Márcio, um dos poetas do Clube da Madrugada -- que ele não quis identificar -- mandou uma mensagem em que dizia: «A Sirrose é o chulé da literatura». Para quem não conhece, o Clube da Madrugada foi um movimento primordialmente literário que tirou o atraso de 30 anos da literatura do Amazonas, finalmente inserindo a liberdade Modernista por aqui, em meados dos anos 50. A maior parte desses autores ainda 'tá viva e acabou formando uma 'pécie de panelinha editorial que impede a renovação artística que o Clube tanto pregou em sua juventude. Conquistas Parecia coisa da época da Ditadura. A primeira notícia sobre a Sirrose a veicular na mídia manauara saiu nas páginas policiais do jornal A Crítica, em outubro de 2003. O pessoal fez uma tiragem de 100 cópias da primeira edição e começou a percorrer 'colas da rede pública para divulgar a publicação e convidar os alunos para o lançamento, que seria realizado na Praça do Congresso. Acabaram detidos no Primeiro Distrito Policial. O diretor do Colégio Brasileiro achou o conteúdo impróprio e pediu que o grupo se retirasse do local. Os sirróticos resistiram e a polícia foi acionada. Após pagarem uma multa, os 'critores tiveram que bancar outras 100 cópias, porque a polícia deu sumiço no material. O fato é que o lançamento aconteceu na Praça do Congresso, conforme o previsto, sobre uma Kombi cedida por o Sindicato dos Metalúrgicos, onde os autores fizeram leituras de alguns dos textos. A partir daí, o negócio começou a crescer. O segundo número já saiu com 200 cópias e mais autores da terra. Em o terceiro, começou o intercâmbio com 'critores de outros 'tados e a Sirrose deu início a mais uma empreitada audaciosa: a publicação de livros de seus integrantes. Em a terceira edição, a revista bancou a tiragem de 200 exemplares de Obituário de Tanatos, um livro de poemas de Marcos Ney, outro de seus fundadores. «Nós percebemos que as pessoas que participavam da revista tinham seus trabalhos engavetados e decidimos publicá-los paralelamente», explica Márcio, que revela que é a própria Sirrose que fornece o material para a gráfica. Em o quarto número, foi a vez de Márcio publicar o romance A fuga, conquistando um maior 'paço na mídia, com resenhas publicadas em cadernos culturais da cidade. A quinta edição já saiu com 500 cópias, mas os dois livros que seriam publicados -- O admirável mundo cão, de Artur Farrapo; e Contos das vidas pregressas, de Amarildo Maciel -- acabaram não saindo. Hoje, entretanto, já 'tão prontos, e serão lançados com o número seis da revista. Nesse meio tempo, entretanto, a Sirrose lançou um livro infantil de um garoto de 12 anos, morador do bairro Terra Nova. Márcio conta que durante as andanças do grupo por as 'colas públicas, acabou descobrindo o talento de Daniel Souza, que 'tava com Daniel e o terceiro homem de Jade prontinho. A obra foi lançada na própria 'cola do menino, durante um evento da Caravana Literária, projeto dos 'critores Tenório Telles, Aldísio Filgueiras e Dori Carvalho, que percorre 'colas com palestras e recitais. A sexta edição, programada para o próximo mês, vem com dois livros, como fora de itox anteriormente, tiragem de 500 exemplares, mais páginas -- hoje a Sirrose possui mais de 50 colaboradores, segundo Márcio -- e três poemas inéditos do 'critor paulista Glauco Mattoso. Número de frases: 50 O preço da cópia será de " R$ 5,00. «PEC da Música» -- música x impostos x majors x independentes x qualidade, quem vai ganhar 'ta guerra?! Por: James Lima Desde os primórdios da indústria fonográfica, o Brasil foi completamente invadido por as culturas e modas de alguns países da Europa e Estados Unidos. Até ai tudo bem, fez parte das influências da nossa imigração. Depois das décadas de 30 e 40, quando a fase áurea dos artistas brasileiros na rádio nacional foi enfraquecendo, a cultura americana invadiu de vez nosso país. Foram pelo menos três décadas de reinado e quase 80 % das músicas tocadas em nossas rádios eram de origem 'trangeira. Hoje é completamente ao contrário, temos 80 % de música nacional em nossas rádios. A que preço?! E que música?! Nossa música, sempre foi de altíssima qualidade, mas 'tá fora do alcance da grande maioria dos brasileiros. A presença da música brasileira nas rádios cresceu por causa de uma iniciativa do governo militar, que, em 1967, incentivado por um «'pírito nacionalista», atribuiu benefícios fiscais às gravadoras que investissem em artistas brasileiros. Até 1990, 100 % do ICMS devido poderia deixar de ser recolhidos aos cofres públicos por as gravadoras, desde que 'tas assumissem o compromisso de incentivar a música nacional. Esse percentual foi variando ao longo dos anos, era 70 % até 1998/99 e hoje 'tá em 40 %. Em a verdade, foi uma reivindicação dos músicos para incentivar a contratação nas gravações, numa época em que os samplers 'tavam entrando nos 'túdios e os músicos 'tavam sendo descartados. Aliás, na primeira versão, 'se ICMS era destinado exclusivamente ao cachê dos músicos contratados para as gravações. Porém, como todas as outras iniciativas desde fatídico regime, isto incentivou não só a produção da música brasileira numa 'cala maior, mas a fome das multinacionais (majors) em controlar o mercado brasileiro. Elas vendiam todo seu imenso catálogo internacional (produzido no Brasil), e com incentivo do ICMS de 'tas vendas, usavam uma pequena parte para iniciar a produção de álbuns com os artistas brasileiros -- uma verdadeira festa. Em a verdade não foi o grande talento de nossos artistas que os atraiam, e sim, o lucro obtido por 'te mecanismo fiscal -- saiu tudo de graça para as majors. Isto aconteceu porque não houve um cuidado na formulação da lei e, numa jogada de mestre, as majors transformaram as fábricas nos verdadeiros produtores de discos no Brasil e tudo que era produzido (fabricado) tinha 100 % deste incentivo, burlando a idéia original da lei, que era a de beneficiar somente produtos brasileiros -- gravados no Brasil (no texto da lei, havia uma brecha, onde todos os CDs poderiam ter o benefício se «produzidos no Brasil», mas não considerava sua gravação no país). Por meio deste incentivo fiscal que de um lado fez o registro e projeção da música brasileira aqui e no exterior, de outro acabou trazendo uma série de distorções. As empresas passaram a usar dinheiro público (proveniente da renúncia de impostos) para apoio de obras que se adaptavam às suas 'tratégias de marketing e de mercado. O que atraia os artistas a assinar os seus contratos com as majors, era o sonho de poder obter muito sucesso, através do marketing agressivo de 'sas empresas, que dominavam e dominam as «mídias» radiofônicas e televisivas no Brasil, (digo «mídia» porque foi institucionalizada, já algum tempo, a prática do Jabá como venda de mídia com nota fiscal em 'ses veículos). Fora os mimos e regalias dadas aos artistas -- advances, carros de luxo e etc. e tal ... Foi ai que tudo começou a ruir, as majors tinham não só o poder econômico de suas matrizes, como dinheiro público para gastar a vontade nas produções artísticas e nos grandes veículos. Com o resultado de 'ta grande veiculação e execução de suas produções, elas ganhavam mais dinheiro recebendo os direitos conexos -- uma roda da fortuna. Em 'ta fase também compraram quase todas as grandes empresas fonográficas nacionais -- processo que terminou em meados da década de 90. Foi em 'ta mesma década que, para atingir grandes vendas, as majors produziram produtos de massa e quase sempre sem qualidade, apelando para sexualidade e modinhas regionais. Utilizando ações de marketing cada vez menos ortodoxas, comprando toda mídia disponível, fazendo uma over dose destes segmentos nas rádios e nos programas de TV. Foi assim que 'tes produtos explodiram nas prateleiras dos grandes magazines do país, e, por conseqüência disto, acabando com o lojista 'pecializado. Um tiro no próprio pé, pois todos nós sabemos que a indústria vive da venda de seus catálogos e os magazines só trabalham com o «sucesso». A culpa da queda nas vendas não é só da pirataria e da internet como as majors dizem. Elas que acabaram com as lojas de discos no país inteiro, abrindo 'paço para a bandidagem entrar. Em 'ses últimos dez anos mais de 70 % dos lojistas 'pecializados no Brasil inteiro fecharam suas portas. O que salvou um pouco 'sa tragédia, foram as grandes e médias livrarias, que por uma questão de 'tratégia, colocaram CDs e DVDs musicais para fazer o mix de produtos em seus 'tabelecimentos e acabaram sendo a base do crescimento do mercado independente atual. Hoje o mercado independente, que cresceu com seu próprio suor e competência, corresponde a 85 % da produção nacional, mesmo operando num mercado totalmente devastado e manipulado por as majors. Não toca no rádio, não tem verba de marketing e muito menos tem qualquer incentivo ou lei que de fato valha à pena. Uma luta de David e Golias, onde nem sempre o menor vence o gigante. Nosso maior patrimônio histórico e cultural hoje 'tá em poder das multinacionais, e pior, quase tudo fora de catálogo. Uma vergonha! E as vezes para abrandar sua culpa, são lançados algumas coleções mid price com maior descaso, sem informações, capas simples a preço de banana, para ficarem rolando nas gôndolas de promoção dos supermercados. Com a decadente fase da indústria do disco no mundo, as majors no Brasil hoje são simplesmente licenciantes de suas matrizes, investindo e produzindo muito pouco nos artistas brasileiros. Novamente ocorreu um descarte de profissionais nas grandes empresas. Esta situação ocasionou uma debandada geral de artistas para o mercado independente. Mas se o mercado independente não acordar corre o risco de cair nas garras do Golias novamente. Os independentes cresceram, aprenderam a se virar na produção de música, mas ainda o departamento comercial é um desafio, é seu calcanhar de Aquiles, e muitos voltam a seus algozes. Toda vez que se fala em mudanças nos incentivos na indústria fonográfica, como 'ta nova ação -- PEC da Música -- que trata da imunidade tributária para a música brasileira gravada, temos que lembrar nosso triste passado e ter muito cuidado para que não aconteça o pior -- se ainda há algo pior a acontecer em 'te mercado -- pois temos que ter absoluta certeza de quem será beneficiado com 'tas mudanças. De o contrário, o mercado independente e a música nacional correrão um grande risco de voltar a ser assimilados por as grandes multinacionais, e nosso passado, o nosso presente, e nosso futuro 'tarão de novo sendo prejudicados. Temos que ficar alertas! Além de ter isenção de impostos nos produtos gravados com artistas nacionais, onde as majors em 'te caso também vão se beneficiar, e, se fizerem algo que valha a pena para nossa música acho justo, deveria ser feito agora, algo para incentivar os lojistas na compra dos produtos independentes de empresas nacionais. E para 'tes compradores de produtos independentes nacionais, um incentivo fiscal para abertura de novas lojas em todo território nacional, restabelecendo o mercado e o 'coamento de 'ta enorme produção independente. Uma trava de segurança contra os oportunistas. Seria também indispensável revisar a lei (sem deixar brechas) dos incentivos já existentes para as rádios e emissoras de TV na veiculação de 'ta produção nacional, para que eles utilizem de fato o incentivo, que não é pouco, nas suas programações em horário de audiência com música independente nacional, equilibrando o 'paço que hoje é ocupado quase integralmente por o poder econômico das multinacionais. O principal ponto de 'ta nova ação é, caso a PEC seja aprovada, e torço que sim, somente os produtos de música brasileira gravadas no Brasil, ou gravações internacionais quando interpretadas por brasileiros deverão ter 'ta isenção de impostos, os produtos licenciados de outros países não deverão ter o benefício -- isto segundo as informações dos membros da comissão que representa 'ta PEC. Nada mais justo, e é por isto que devemos lutar. Vamos ver se assim, nosso patrimônio sai dos porões das majors e receba o respeito que ele merece e, em breve possamos ter acesso a toda nossa história. Esta luta por a isenção de impostos foi iniciada bravamente em 2007 única e exclusivamente por o mercado independente, (durante a «Festa da Música» em Canela -- RS), usando por base a lei constitucional de isenção de impostos do mercado livreiro -- uma vez que a música é igualmente uma formadora didática de informação de massa. A classe 'tá sendo representada por o porta voz da ABMI (Associação Brasileira da Música Independente) hoje ex-presidente da entidade Carlos de Andrade (Visom Digital), o jornalista Fernando Vieira da Festa da Música -- RS, por o o Autor da PEC da Música, como ficou denominada, o Deputado Otávio Leite PSDB / RJ, o Relator da PEC Dep. José Otávio Germano Pp / RS e o Presidente da Comissão Especial que julga a PEC na Câmara Dep. Décio Lima PT / SC. Quem quiser e se manifestar e apoiar 'ta ação pode enviar para o E-mail: musica. sim.Impostos.Nao@hotmail.com Todos os e-mails de apoio serão entregues a comissão da PEC. 26 de maio poderá ser o dia da Música Brasileira! Dia 26 de maio no Rio de Janeiro, será realizada uma reunião com os integrantes da Indústria nacional para discutir a PEC 98 / 07 que trata da imunidade tributária para a música brasileira gravada. Todos serão bem vindos para se juntar em 'ta luta, artistas, executivos, produtores, lojistas, enfim, toda cadeia produtiva da Música Brasileira. Local. Hotel Everest -- Ipanema às 19:00 horas. A Música é nosso maior patrimônio! Número de frases: 69 Reproduzo aqui no Overmundo o texto de Bruno Magrani publicado no site do Centro de Tecnologia e Sociedade a respeito dos processos instituidos por a IFPI e ABPD contra internautas que baixam músicas. Além disso disponibilizo o link para assinar a petição a favor da alteração da lei de direitos autorais. Se você concorda com a proposta assine a Petição Anúncio De Processos Contra Internautas Que BAIXAM Música A Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) e a Associação Brasileira dos Produtores de Disco anunciaram uma nova rodada de medidas contra as redes «peer to peer», de 'sa vez não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil. Hoje haverá evento em poucos minutos, no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, para a imprensa nacional. A IFPI informará que dará início a ações judiciais contra pessoas no Brasil que fazem download ilegal de música. É importante que a sociedade civil 'teja ciente dos problemas trazidos por 'sa questão. Estas ações são prejudiciais ao direito constitucional à privacidade, aos direitos do consumidor, ao acesso ao conhecimento, ao acesso à cultura, além de contribuir para uma interpretação ainda mais restritiva da já inadequada lei de direito autoral no Brasil. Faça sua voz ser ouvida. Número de frases: 10 Assine a petição preparada por o Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV Direito Rio, para ser enviada ao Congresso Nacional, pedindo alteração da Lei de Direitos Autorais. Por favor, não me abandonem que o assunto é grave: A cidade de Santana do Jacaré, onde vivi a infância, e que tem perto dos seus cinco mil habitantes, já recebeu outros caminhões como aquele, do «Revelando os brasis», que numa tardezinha quente de inverno, fixou-lhe, na praça de frente à Igreja do Rosário, no último primeiro de junho, um telão enorme de cinema. Ali mesmo, mas atrás e não na frente da igreja, já apearam, antes, caminhões com variados divertimentos: rodas gigantes, chapéus mexicanos, 'corregadores; ou grandes tendas de lona, que encobriam picadeiros com leões, engolidores de fogos e atiradores de facas, mulheres barbadas, palcos de teatro, choros, pipocas e risos. E, sua própria população, repetidas vezes, a presenteia: ao manter, por muitos carnavais, a andança medieval de sua Cavalhada, com seus mouros, damas e contradanças; nas festas de Congada, ao longo dos anos, com a beleza de seus Ternos de Vilão e Moçambique, que tem os 'tandartes, os cantos e as danças em honra de Nossa Senhora do Rosário, Santo Expedito e Santa Ifigênia; e também com a animada festa de Nossa Senhora da Aparecida (em outubro, quando o número de pessoas na cidade triplica), na qual se encena o encontro da santa no rio Jacaré, pouco depois da romaria, e antes das barracas que se 'palham, cheias de novidades. Cá entre nós, desconfio que se a cidade continua cidadezinha, é antes por birra, querendo ser sempre jovem, do que por falta de vocação. Tudo bem, não ter cinema é falta gravíssima, e Santana o sabe, porque já o teve; como provam a memória de minha mãe dos filmes mexicanos, e também um cartaz de 1962, anunciando, entre outras, uma película de Fellini. Mas o feito inédito, e realmente grave, que o caminhão do «Revelando os Brasis» trouxe pra 'sa cidade-menina, é que o filme que ele anunciava em breve passar, e que todos achavam ser um retrato, o curta-documentário «De aqui nóis», tirado de ela, por um de seus filhos, Jairo Teixeira dos Santos (no caso, meu irmão), acabou por revelar-se, ao fim das contas, e pra seu regalo, um 'pelho de oito metros de largura e cinco de altura. Talvez, o filminho dirigido por o Jairo, durante suas andanças em terras alheias, ao longo de dois anos, seja no festival de Brasília, Tiradentes, Vitória, e em outras tantas exibições por o Brasil, assim como no México, Argentina, França e Alemanha, tenha se mostrado, em elas, apenas assim, um retrato da cidadezinha mineira, que granjeou suspiros e fez levantar hipóteses de parentesco, mesmo com cidades maiores, por conta das características da retratada. Porém, como é função de todo 'pelho, na sua auto-exibi ção, ao ver suas múltiplas imagens, que vinham da luz daquele caminhão-projetor, a jovem cidade pôde vangloriar-se do charme de suas próprias cores e seus próprios trajes, mas também se assustou e soltou um grito surdo ao ver em tamanho ampliado uma cicatriz em seu rosto, de certo, resultado de uma grande traquinagem. Pensávamos todos, em casa, na possibilidade desse susto, e o aguardávamos. E, o Jairo, tentando afoguear a ansiedade, me chamou pra tomar uma pinguinha. Também a equipe de gravação do filme, a Luciana, o Ivan e a Michelle, assim como a equipe da Marlin Azul que acompanhou o caminhão, Beatriz, Gabriela, Felipe, Rogério e Jaqueline, pressentiam. E, pasmem: a própria Santana do Jacaré já ansiava por isso. Em a 'cola, as aulas da noite foram suspensas e cartazes sobre o evento foram afixados. Vindas do cabeleireiro, as personagens do filme, a dinha e a dinha Aparecida, desejaram, de tarde, que muitas pessoas aparecessem na projeção noturna, e pra isso era preciso um grande anúncio. Assim, mal entraram em casa, já foram ouvidas, sei lá por quais forças e de que modo: a motocicleta do moço Alceu, munida de um alto-falante, gritava, aos quatro ventos, algo mais ou menos assim: «hoje, as dezenove e trinta, venham todos assistir ao filme das irmãs Antônia e Aparecida Teixeira». E, se digo mais ou menos, é porque o Jairo e eu não vimos e nem ouvimos a moto, só ficamos sabendo depois; porque, no momento, 'távamos tentando apagar o fogo que a pinga trouxe, lavando o rosto nas águas do rio Jacaré. Pra quem não sabe, a cicatriz, que seria revelada na face da cidade-menina interiorana, eram os maus tratos com que parte de sua população vinha tratando as duas senhoras idosas, Tonha e Aparecida (no caso, nossas tias, por parte de pai, e também madrinhas). De aí o título do filminho-'pelho, «De aqui nóis», que, enquanto rolou, às vezes direta, e outras indiretamente, deu nome e endereço de seus algozes, que as atacavam com pedras, xingamentos, risadas e outras sortes de desmerecimentos. Por serem elas que, solteiras-de-pés-descal ços, ainda ousam plantar, sorrir e se auto-sustentarem?-- De a delação, vinha o receio. As duzentas cadeiras, trazidas por o caminhão, logo foram ocupadas. Mas se o cinema era ao ar livre, logo o público era quatrocentos, depois quinhentos e (não contamos) quem sabe tenha beirado os seiscentos, que ocupou também os três longos degraus da Igreja do Rosário e todos os cantos da praça. Creio eu que só não foi quem 'tava acamado, ou com medo do frio, os que não queriam ver cicatriz alguma, ou os que não tiveram coragem de abandonar as novelas cariocas. A lua tava cheia. E o céu compôs com a praça um «jardim de 'trelas», como diz a letra de Sérgio Pererê, músico que cedeu a trilha» Pedra que voa " para o filme. Entremeio às cadeiras, um longo tapete foi 'tendido, e, lá, antes da exibição, a dança e a música das belas moças e dos puxadores do Terno de Vilão, mais o canto sertanejo local de Geraldo e Paulinho, encantaram. Por fim, foram apresentados os realizadores do «De aqui nóis», seguidos, momento alto e belo, das irmãs Antônia e Aparecida Teixeira. Até que o caminhão-projetor mostrou a que veio. Silêncio. De as sete horas gravadas que eram agora quinze minutos, tomou-se o cuidado, na edição, de não se revelar nenhuma criança que tenha jogado pedras nas dinhas, ou que sabiam do caso; optou-se, bem no início, por a tela sem imagens, apenas com os depoimentos de elas (na verdade, uma balbúrdia de vozes, que mais parece uma brincadeira). Mas o 'pelho revelou-se límpido até mesmo no 'curo e uma criança do meu lado disse pra outra: é você quem 'tá falando. E a outra retrucou: agora foi você. Elas também depunham que as tias sempre revidavam, jogavam pedras, corriam atrás ... e as tias, também ao meu lado, disseram: jogávamos mesmo. As imagens entraram e dedos ao redor da praça apontaram: olhem aquele lá, olhem aquele outro. E o grito de susto da cidade-menina veio, quando a Igreja do Rosário, tão simples e bela, viu-se ao lado de si mesma, refletida quase em tamanho natural. Enfim, obrigado por não terem me abandonado. Depois da exibição do curta santanense, foi a vez de mais filmes do sudeste brasileiro, o «Brilhantino», de Ériton (E.S),» Vida», de Eduardo (M.G.), «A história de Delinho», de Flávio Antônio (M.G.),» O sonho de Loreno», de Alana Rosa (E.S.) e o «documentário sobre Chico Abelha» (S.P), de Uiara. E o «Revelando os Brasis» mostrou-se, em cada um de eles, um grande desejo de reconhecimento de outros modos de vida e da beleza que difere, da voz com modulações diversas, e da velhice ao lado da infância, clamando por respeito. Eram belos, mas terminando a terceira exibição, boa parte dos 'pectadores já se recolhia, fato que pode ter respostas várias: desde o prosaico costume do interior de ir dormir cedo; passando-se por a constatação de que em se tratando de cinema ao ar livre, então, nada mais simples que abandoná-lo, sem muitos constrangimentos. Mas eu prefiro ficar com a hipótese de meu irmão Jairo, sobre a vaidade da cidade-menina. Ela, provavelmente, 'tava embevecida de si mesmo e, por isso, preguiçosa de ver imagens que não fossem as suas. Era necessário, talvez, ir embora, pra repensar suas vozes e andados, já que o cinema-'pelho falava e movimentava-se. Meu outro irmão, Claudiney, concordou dizendo que Santana jamais será a mesma. Mudando o assunto, termino com uma frase da dinha, que, durante a exibição, duvidando do que ela própria depôs de frente a câmera, comentou (calando fundo na maior verdade sobre o cinema e toda tentativa de reconstrução da realidade): «Em a verdade, 'sa coisa de cinema é tudo uma grande mentirinha, né?" Santana do Jacaré, junho de 2007. Número de frases: 65 Se Deus tivesse um rosto, qual seria? A pergunta cantada em tom de protesto na música One of us (Joan Osborne) é um tapa na cara, mas de luva de pelica, no Oratório A Paixão segundo São Mateus, feito por o Coral Sinfônico do Tocantins a partir uma das obras mais importantes e complexas do músico Johann Sebastian Bach. Escrita originalmente em 1729, A Paixão segundo São Mateus é caracterizada como obra colossal, de dramaticidade barroca, mas de devoção íntima. Além da parte do evangelista -- imbuída de elementos eruditos -- há recitativos adaptados do texto bíblico, e das grandes árias e coros, que são notáveis, sobretudo, os breves e incisivos coros do povo. Em a versão tocantinense, o concerto foi composto por 120 pessoas e teve como personagem principal Jesus Cristo, mas em vez do que se tem no imaginário mundial desde que a figura de Cristo foi difundida, na sessão musical o filho de Deus foi representado por um menino de rua: negro, sozinho e em busca de um lar que o acolha. «Queríamos mostrar que a nossa culpa, como seres humanos, é muito maior do que nós pensamos. O concerto transferiu a inocência de Cristo à criança. Se ela se transforma em delinqüente é porque algum adulto a transformou», defendeu o regente William Fernandes. Em 1h20 de 'petáculo -- a obra completa possui seis horas, a música e o teatro embalaram os 'pectadores numa viagem atemporal, onde o passado (a era de Cristo) e presente se fundiram e se separaram, em momentos distintos divididos por encenações teatrais, para que a mensagem principal fosse valorizada. Por ser uma obra erudita em vez de religiosa, segundo o produtor cultural do 'petáculo, Fábio Garcia, o mote da obra adaptada é passar ao público a sensação de Cristo nos últimos dias que antecederam sua morte. Quem assistiu ao 'petáculo em Palmas, no mês de novembro, se viu diante desse dilema: e se Deus fosse um de nós? Para o músico Nilson Adriano Siqueira a grande mensagem que ficou foi saber que, da mesma forma inocente que Cristo morreu, há milhares de outras pessoas morrendo todos os dias no Brasil e o fato de não fazermos nada para impedir nos torna culpados por suas mortes. «Como Cristo, outros morrem hoje, inocentemente», disse. Um dos momentos marcantes, em que o 'pectador se sente culpado ou parcialmente inerte diante da realidade, se dá quando o silêncio corta o 'petáculo e o regente pede 30 segundos sem ruído algum em solidariedade às crianças que 'tão morrendo naquele instante. O repertório composto por as músicas Oh fronte ensangüentada -- 1ª e 2ª 'trofe, Após a Páscoa, Oh! Cristo por que sofre, Onde, Não, não eu, Ao lado de Jesus, Então prenderam meu Jesus, Teu é o Reino fez arrepiar até o mais duro 'pectador. Conquista Com o objetivo de formar platéia para a música clássica no Estado, o 'petáculo foi contemplado por o Projeto de Patrocínio dos Correios / 2005 e circulou no final do ano passado os Estados do Tocantins, Goiás (Goiânia e Anápolis) e o Distrito Federal -- onde encerrou a turnê. As apresentações também foram apoiadas por a Fundação Cultural do Tocantins (FCT) e da Organização Jaime Câmara. Em Brasília, a platéia formada por maestros, professores da Escola de Música de Brasília e alunos aplaudiu de pé os músicos e cantores de Palmas que desde o dia 10 de Novembro vêm apresentando 'sa obra. Em Anápolis, o coral levou uma multidão a pedir mais, aos brados de «bravo» no palco montado na praça Bom Jesus. Em Goiânia, a emoção tomou conta do público e dos músicos que inseriram Haja paz na Terra, como bis, e deixando assim um manifesto por a paz como um ponto final para 'sa fase do coral. Essa informação pode não representar muito aos moradores dos já aclamados pólos de cultura do país como São Paulo, Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, entre outros, já que eles podem 'colher nos roteiros de cultura o que querem assistir entre os vários concertos eruditos disponíveis na cidade. Mas para quem mora em Palmas, no Tocantins, ter um concerto de 'sa magnitude exibido em outros centros é motivo de orgulho. «Agora Palmas já pode ser inserida nas capitais culturais do Brasil», afirmou o maestro. Para 'te ano, o Coral Sinfônico do Tocantins que 'treou em novembro de 2003, pretende trazer novas surpresas do universo clássico musical e já prepara o concerto Villa-Lobos para todos, que deve 'trear entre julho e agosto próximos. Em 'se concerto o grupo apresentará um Villa-Lobos atual, universal e ao mesmo tempo glamuroso e intimista. Número de frases: 29 A obra contará com instrumentistas eruditos e percursionistas populares. Repensar E Aperfeiçoar O Mecenato Uma das necessidades da cultura, tanto em Goiás quanto no Brasil, é o urgente aperfeiçoamento das leis de apoio e incentivo à cultura. O modelo do mecenato que se baseia em renúncia fiscal 'tá 'gotado. A idéia original era muito simples: atrair o empresariado e iniciar a criação de um hábito de investimento cultural das empresas, além de promover a retirada, o «encolhimento» da presença do Estado. Obviamente é uma idéia que só podia mesmo vicejar no clima peçonhento de ultra-liberalismo dos anos 90. Não deu inteiramente errado, mas já chegou a um limite, a um 'gotamento. Em a verdade no Brasil nunca se tratou de mecenato pleno, mas de um meio-mecenato, já que feito fundamentalmente com dinheiro público e não com dinheiro privado, como seria a lógica do mecenato mesmo. No frigir dos ovos, na maioria dos casos, o poder público simplesmente abre mão de exercer o controle de parte dos recursos públicos destinados à política de cultura e transfere 'sa gestão para o setor privado o que, traduzido em miúdos, terminou significando passar para os departamentos de marketing, para as agências de publicidade, a decisão sobre a política cultural no que se refere ao financiamento à cultura. Existe alguma coisa mais distante de uma gestão democrática que um departamento de marketing? O 'gotamento pode ser constatado com uma simples comparação: a do número de projetos aprovados com a de projetos efetivamente executados. Em todos os mecanismos baseados no mecenato ambos começam bastante próximos. Dá-se, e vende-se, a impressão de que, com a implantação da lei de incentivo, resolve-se o problema crucial do financiamento da produção cultural. Passam-se dois, três, cinco anos, e vemos, em todos os casos -- seja o mecenato federal, seja a Lei Goyazes, os dois números se distanciando como ex-amantes amargurados. Para o andar de cima vão de elevador os números de projetos aprovados, enquanto sobe de 'cada o número de projetos executados. E se fosse só uma divergência numérica, mas não é, é também um tipo de projeto que se sobressai: aquele com forte apelo de mercado, ou aquele diretamente gerado por as fundações e outras instituições vinculadas aos grandes investidores na cultura. O pequeno projeto, diretamente elaborado por os artistas, por os criadores culturais, que se baseia não em mercado mas em expressão, 'se quase sempre já nasce condenado. No caso da lei federal pode ser aprovado, mas quem irá colocar dinheiro em ele? Que departamento de marketing por «aquilo» se interessará? É hora de reformular a lei federal e de aperfeiçoar a lei goyazes. O caso da lei municipal de Goiânia é mais curioso e vale a pena comentários futuros. Pergunta incômoda: Número de frases: 25 Quantos projetos culturais foram avaliados e descartados por os «'pecialistas» das agências de publicidade do probo Marcos Valério? Em a cidade da grana, formas não convencionais de expressão cultural impõem novas relações de mercado. São Paulo é sinônimo de caos urbano. A cidade foi construída na desordem, sem qualquer planejamento, e representa todos os elementos de um sistema em que a competição por o sucesso e a busca por o lucro superam qualquer trabalho por um ambiente saudável de vida coletiva. A poluição contamina o ar e os rios, o trânsito paralisa a cidade, os motoristas de carros e motos se sobrepõem aos pedestres, a violência se incorpora ao dia-a-dia e a busca por moradia em 'sa selva faz com que os habitantes das periferias invadam mananciais, e os mais ricos vivam em fortalezas. De o ponto de vista da organização cultural, a cidade também é caótica e desigual. Os equipamentos públicos culturais são subutilizados, dominados por a burocracia e por a caretice. Mas, nas entrelinhas, nasce e cresce vertiginosamente uma arte resultante da diversidade gerada na interpretação e na resistência ao caos. Seus intérpretes fazem parte de uma geração que assimilou a linguagem da internet, dos movimentos urbanos, da moda, da publicidade e de formas não convencionais de expressão. Em contraposição à falta de contato com equipamentos formais, 'ses personagens se organizam em coletivos, clubes noturnos, e galerias que não habitam somente o underground dos bairros mais movimentados como também buscam outros ares, revitalizando regiões da cidade. Estão por aí: dos Jardins ao Cambuci, do Baixo Augusta à nova Barra Funda, da Liberdade à Vila Madalena. A cidade se reinventa por a mão de gente muito nova e muito longe dos gabinetes e das decisões. Indie, hip hop, rock, graffiti, stickers, mangá, skate, cartoons, toy art, lambe-lambe, arte eletrônica. As palavras soltas dão pistas de 'sa realidade. As diversas expessões do comportamento, antes vistas apenas como formas de agrupamento e de busca de identidade de movimentos juvenis em 'se mundão, agora já se caracterizam como incríveis nichos econômicos de uma infinita «calda longa», capaz de superar na soma de tantos microuniversos de consumo cultural, os líderes das paradas de sucesso. A teoria do jornalista e 'critor Americano Chris Anderson, editor da revista Wired, que em seu best seller «The Long Tail» identificou a mudança dos hábitos de consumo cultural, contrapondo a economia do nicho com a economia do hit, já é visível no caos de São Paulo, com força e vitalidade. A soma dos públicos que freqüentam as centenas de clubes da cidade numa noite já supera o de grandes festivais; a multiplicação de marcas e iniciativas no universo da moda já faz a indústria repensar suas 'tratégia e linguagem; as pequenas galerias batem em relevância e público a arte velha e sisuda. Como 'pelho de tudo isso, eventos importantes como a São Paulo Fashion Week e seminários de instituições 'tratégicas como o BNDES mergulham de cabeça no tema e buscam compreender o papel da diversidade cultural na economia. Vivemos um momento crucial, em que os operadores deste universo devem atuar de forma incisiva na defesa de 'sa realidade, para que a sociedade como um todo compreenda que todas as novas formas de expressão cultural merecem ser cultivadas. É necessário e urgente buscarmos calcular o quanto gira em torno de 'sa cultura alternativa que pipoca por as ruas. Precisamos determinar qual o PIB De a Transgressão, para que possamos demostrar em números a importância desse fenômeno social. Em a cidade da grana, o universo da cultura alternativa se organiza para falar a lingua que São Paulo mais entende, e, de 'sa maneira, ativar a economia da criatividade. Os mais importantes clubes noturnos da cidade, por exemplo, criaram o movimento Noite Viva, para valorização da vida noturna. Em parceria com a Prefeitura já participaram do Aniversário de São Paulo e agora terão um palco na Virada Cultural. A disponibilização de postos de trabalhos noturnos para projetos sociais, um plano de incentivo ao turismo focado na noite paulistana, rotas de transporte público noturno e auxílio nos projetos de reurbanização de áreas degradadas já 'tão na agenda. Outro exemplo relevante são as exposições coletivas que a Galeria Choque Cultural promove. Recentemente os artistas mais importantes da arte urbana americana mostraram suas obras. Atualmente, uma ampla exposição com artistas japoneses em comemoração aos 100 anos da Imigração ocupa o local. Muito mais do que uma galeria, a Choque é uma agitadora que movimenta o mercado de 'sa arte, cultiva colecionadores e faz a ponte de vários artistas brasileiros para o mercado formal e internacional. Iniciativas coletivas em busca de canais de mercado para novos criadores se multiplicam por a cidade. A Galeria Ouro Fino se reinventa a cada 'tação, a Galeria do Rock, já é de todos os 'tilos e gostos e cada vez mais atrai pessoas com poder de consumo interessadas em micro marcas. Inciativas como a Endossa -- a loja colaborativa -- e a 'quina dos 'tilistas na Rua Bela Cintra, também apontam para isso. Há algo de novo no ar. Algo relacionado com a base da nossa 'trutura econômica e social. Novas relações de mercado, de formas de criação e de compartilhamento de conteúdo. Em o futuro, a economia baseada na cultura e na criatividade, será a base da mais rica cidade do Brasil. São Paulo 'tá ficando mais bonita. Número de frases: 40 Ele dança com deuses e demônios Tenho um amigo fotógrafo, o José Afonso Viana (Zekafonso para os íntimos), que me acompanha há mais de 20 anos. Ele fotografou minha irmã caçula, Jordanna, aos cinco anos e ao longo das últimas décadas flagrou vários momentos de ela, como apresentações teatrais, formatura ... Essas coisas prosaicas da vida que depositamos nos álbuns de família e no baú de nossas memórias, como tesouros. Hoje o Zé me chega com um CD, com fotos do 'petáculo O Olho da Fechadura (que eu julgava perdidas), em que Jordanna atuou no teclado de um velho piano no hall do Grande Hotel, prédio histórico de Goiânia, que hoje funciona como centro cultural. Tombado e restaurado por o Patrimônio Histórico, o velho hotel abrigou não só hóspedes ilustres nos áureos tempos da fundação de Goiânia, muitos anos de mofo e de descaso, mas projetos recentes que devolveram vida e graça às suas paredes e fachada art déco. Antes deste vertiginoso renascimento como 'paço cultural, lembro que 'tive lá para ver uma das edições da Casa Cor e assistir a um dos mais ousados 'petáculos do uruguaio Hugo Rodas, diretor teatral que fez história no Brasil e mora em Brasília, onde é professor da Universidade de Brasília (UnB). Isso deve ter acontecido há uns três anos. Hugo Rodas é um desses camaradas que transpiram talento em tudo que tocam, e deixam marcas. Pega um bando de atores principiantes, sem texto e apenas com o fio de uma idéia tece surpreendentes visões de mundo, algumas deliciosamente desconcertantes. Ele desconstrói a linearidade da maioria e constrói com linhas tortas novas possibilidades do olhar. E isso em pouquíssimo tempo. E Hugo Rodas é festivo, barulhento, um homem de gargalhadas altissonantes, divertidíssimo em seu 'panhol enviesado de português. Hugo Rodas também é um homem de cores fortes, ousado às raias do abuso -- uma 'pécie de Almodóvar do teatro, mas dentro do limite da melhor 'tética. Por isso ele transcende. Não há como deixar de ser uma presa fácil nas mãos de Rodas. Ele nos pega por todos os sentidos. Quando você pensa que 'tá 'capando, eis que fica irresistível virar a cabeça e olhar pra trás, melhor dizendo, olhar de frente. Porque com Hugo é assim, cheguei. Sempre de frente, como numa trombada. Tudo em ele é um exagero na medida certa. Difícil, não? Mas é assim mesmo. Acompanhei meio que de longe a montagem de ele para a peça O Olho da Fechadura, antes O Buraco da Fechadura, mas como poderia soar meio pornográfico -- mesmo em se tratando do anjo pornográfico Nelson Rodrigues --, prevaleceu o juízo do olho, que remete ao voyeurismo, ao olhar. Ficou bem mais convincente o título. Fiz algumas entrevistas com Hugo, fotografias de ensaio. Em dois meses, com ensaios aos finais de semana, a sua oficina virou peça, uma leitura pra lá de apropriada para Nelson Rodrigues. Toda Nudez Será Castigada, Anjo Negro, Vestido de Noiva, Engraçadinha ... Nem lembro mais, toda aquela preciosa fauna do Nelson, vestida com a exuberância de Hugo. Os atores não cabiam em si de contentamento com o resultado, que fez tremer o chão e a alma do Grande Hotel. O 'petáculo, que começou na rua, com a cena de O Beijo no Asfalto, ocupou salas, banheiros, corredores, 'cada acima e 'cada abaixo -- até os nossos subterrâneos ele ocupou com maestria, na linha da delicadeza, sempre!, terminou numa apoteose à lá Hugo Rodas nos jardins do pátio do velho hotel. Emocionante assistir uma tempestade criativa coletiva. Esse é o jeito Hugo Rodas de fazer teatro e cativar a gente. Apesar da casa lotada, durante todos os dias, considero uma pena um 'petáculo daquele nível, tão requintado e trabalhoso para a equipe, durar como o carnaval. O Olho da Fechadura é um 'petáculo para 'candalizar e cativar multidões -- se é que podemos falar em multidões em matéria de teatro. É um 'petáculo que muda a gente e mexe desde a raiz do cabelo. Arrepiei em O Anjo Negro. Quis fugir, mas não consegui. Voltei várias vezes à cena. Como fiquei fã de Darlene Glória no cinema, me entreguei como voyeuse encantada à cena do porre da prostituta em Toda Nudez Será Castigada, na pele de Valéria Braga. Em O Olho da Fechadura Hugo Rodas envolveu a todos, atores e público, numa frenética dança de olhar: olhar de dentro, olhar de fora, olhar pra dentro, olhar pra fora e afora, perdida e pervertidamente. Uma vez, duas, três, dez, até o limite da exaustão. E a gente encontrando em Nelson Rodrigues o nosso 'curo com a luz insidiosa do olhar de Hugo Rodas ... Inesquecível. Fiquei fã de carteirinha de Rodas. Com Hugo Rodas aprendi que o olhar deve ser desconstruído para se ver melhor e mais profunda e amorosamente, seja o que for. E a vida tem de ter cor e muita gargalhada. Assim também assisti, antes de O Olho da Fechadura, Memória Roubada, um inquietante diálogo tecido por o olhar de Hugo entre a obra da artista plástica goiana Ana Maria Pacheco, radicada em Londres, e Shakespeare. Aquela visão me jogou contra a nudez da parede e vislumbrei 'ses cortes e recortes para a palavra. Sonhos de uma noite de verão, a floresta encantada, as fúrias, o martírio do corpo, cabeças no armário ... Cenas de tirar o fôlego saltando dos porões mais fundos do inconsciente. Fechei com Hugo. Vejam só que deleite é Hugo Rodas! Ele me capturou. Bastou falar em ele para que roubasse a cena da intenção inicial do meu texto, que era falar de minha irmã Jordanna. Lembram aquela ao piano, lindamente vestida de vermelho, que tocou durante umas três horas valsas de Chopin, num velho Fritz Dobbert? Jordanna que me perdoe a volúpia, mas literalmente fui para a galera com Hugo Rodas. Fiquem apenas com a fotografia de Jordanna, a melindrosa de penacho, que aposto, também deve ter lá suas quedas por o charme ruidoso do uruguaio, que ainda por cima sabe dançar. Com Hugo Rodas é mesmo assim: ou você dança, ou você dança. Ah, um diabinho acabou de me contar. Agora Hugo 'tá com o diabo no corpo, na peça Os Demônios, direção que assina a duas mãos com o consagrado diretor Antônio Abujamra, que também foi fisgado por o poder criativo de Rodas. A peça é adaptação livre de Abujamra para o clássico de Fiodor Dostoieviski, aliás, 'ta é a primeira encenação integral no Brasil de Os Demônios, que lotou o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília (temporada que durou um mês), sempre com longas filas de 'pera. E amanhã chega ao Rio de Janeiro para uma temporada que vai até 8 de julho (CCBB). O mesmo diabinho me contou que o performático e inventivo Hugo dança com o diabo em clima de reencontro com o misterioso encanto da palavra. Não vi, me contaram. Mas com certeza o gênio indomável de Hugo Rodas, endiabrado que só, colocou toda a sua vitalidade na parceria com Abujamra -- que vem de amizade de mais de 40 anos --, para transportar o público ao mundo mágico da velha fórmula palco, ator e palavra. Hugo Rodas, com ele os deuses do teatro também dançam! Número de frases: 69 Aproveito a discussão iniciada em Forró Moderno pra compartilhar o que vinha me incomodando já faz um tempo: como tanta gente consegue dançar e curtir as novas modalidades de forró? Será que sou eu o ruim da cabeça e o doente do pé? Não tenho nada contra o forró «moderno» enquanto 'tética. Logo quando cheguei em Pernambuco, o achei engraçado e curioso, até. Fiquei muitos anos me sentindo um alienígena, até que, dia desses, descobri o que tanto me incomoda na história. Não é nem a falta de profundidade das letras ou da música sofrível. Vários outros gêneros musicais são assim, e têm sua relevância cultural. É a sua lógica externa, totalmente desvinculada de seu conteúdo, contra a qual criei uma aversão involuntária. Por trás de toda a pirotecnia do forró 'tilizado e dançado como fosse uma frenética aeróbica, 'tá a reprodução do que de mais grotesco há na sociedade nordestina: coronelista, violenta, miserável, alienante. O que falta mesmo em 'sas músicas é «qualidade». E não é uma questão de ser boa ou ruim. Falta qualidade no sentido de não haver troca nem ligação alguma com o contexto social onde surge aquela informação. Conexão bem presente no forró «antigo», ou» original " -- seja lá o que isso signifique. Se não, vejamos. Voltemos algumas décadas, e prestemos atenção nas letras e no jeito de tocar de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marines e sua gente e do Trio Nordestino. Seus temas são plantação, animais, viagens, festa, lendas e causos. É a tradução musical da realidade do sertanejo nordestino de cinqüenta anos atrás. Se por acaso entrei num surto saudosista, tomemos o hip hop, o samba e o funk «proibidão» como bons exemplos de como cada grupo humano pode expressar sua cultura sem fugir do contexto em que vivem. Pra citar exemplos gringos, lá teremos o blues, o funk e o rap americano. Por sua vez, na pornografia berrada por as loiras do Calcinha Preta ou Calypso, não existe conexão alguma com a realidade urbana (ou rural) vivida por os nordestinos hoje. Ela é fuga. Fuga bem lucrativa para os empresários, é bom dizer. Vertentes Como bem disse o crítico de música José Teles, hoje predominam dois tipos de forrobodó: o «xote romântico» e a «lambada erótica». O terceiro, o forró universitário, por sorte, sumiu das paradas de sucesso. De a primeira categoria fazem parte artistas como Santana (o cantador, não o guitarrista). Tocam aquele forró arrastado, com instrumentos típicos do pé-de-serra; cantam a paixão por a moça, a dor de cotovelo, mais uma ou outra homenagem à Gonzagão. Por isso, se consideram (e são considerados) parte da tradição forrozeira. A segunda categoria, o chamado forró «'tilizado», arrebanha milhares nos shows onde passa, vende toneladas de CDs pirata (sim, os empresários ganham muito com isso), e são um tipo de show da Xuxa mais (ainda) pervertido: paquitas seminuas, rebolando onipresentes nas mídias regionais. Em o jeito de tocar, até que o forró de Santana e sua turma é bem parecido com o som de seus antecessores. Alguns até chegam a vestir o emblemático chapéu de couro. Mas a semelhança só vai até aí. Em nada mais lembram a riqueza do imaginário e da poesia «originais». Já o 'tilizado, mesmo sendo um campeão de audiência, não pode ser considerado tão popular assim, no sentido de 'sa cultura ter surgido do povo. Parece mais um produto consumido por o povo nordestino. Imposto de cima pra baixo. Para encerrar, convido a quem gosta de forró a conhecer o lado B das festas juninas aqui de Pernambuco. É quando despretensiosos trios de pé-de-serra se reúnem aleatoriamente, embalando o aconchego das bodegas improvisadas para o período. Geralmente não têm roteiro definido. Precisa dar uma volta com os ouvidos abertos ao som do triângulo, zabumba e sanfona; para então se embriagar no ritmo, de preferência a dois, e antes do dia clarear ... Número de frases: 46 boa viagem! Gláuber Rocha profetizou e Conselheiro abriu os canais: o Sertão vai virar um mar de criatividade que inundará o mundo, contra a secura dos impostos por a indústria cultural. O inglês de Ariano Suassuna é tão pobre quanto o be-bop no samba de Jackson do Pandeiro. Mas quem precisa de inglês e be-bop, quando se tem Jacinto Silva e Cascabulho? Fato é que a Bossa Nova não nasceu com João Gilberto, mas a partir de ele. E por isso a Bahia colaborou com a preguiça, e a genialidade, da batida. A Tropicália nasceu com a Bahia, e Caetano e Gil; mas foi o tempero de Luiz Gonzaga e Capiba que 'tabeleceu sua posição de poesia na música, de ritmo na prosa de nossos brasis, tão unos e tão variados, tão puros e tão diversos. O Sertão é um punhado de casos e uma só história. Torquato Neto desconcertou o Sul, mas, já sem gás, abriu a torneira pra que o gás não deixasse o oxigênio respirar. Morremos todos juntos e renascemos em sua poesia, concreta em meio à subjetividade nacional. Em 'se Viramundo eletrônico, Luiz Gonzaga sampleia o baião, urbaniza a caatinga, e os caranguejos fazem vaquejadas no terreno onde antes só havia canavial. E quanto a nós? Vamos edificando a saga do caboclo de lança cibernético, nos versos de Bráulio Tavares, na cantoria austera de Pinto de Monteiro. Pois Zé da Luz não desconhece o Cordel do Fogo Encantado, nem 'tranha Silvério Pessoa, mas os recria quando Zé Limeira inventa Orlando Tejo e nos faz crer na impossibilidade de Cego Aderaldo ter sido obra, e arte, de um certo Jessiê Quirino ... O Nordeste é o que de ele temos feito, e o que ele nos faz, dia-a-dia. Esse texto é uma homenagem ao Projeto Baião de Viramundo, disco que reuniu os bons novos nomes da música pernambucana, numa releitura genaial da obra de Luíz Gonzaga. Stellio Mendes Em as letras, na música, nas artes plásticas ou na imortalidade da Academia, um nome muito singular da cena maranhense passeia e repousa tranqüilamente, o José de Ribamar. Muitos de eles 'tão reconhecidamente entre os melhores dos seus ofícios. Em a terra de São José de Ribamar, são muitos os «afilhados» do Santo, alguns ilustres e outros nem tanto. As promessas ao santo padroeiro do Maranhão 'tão entre os principais motivos de batizar o filho com tal nome. Entre os Josés de Ribamar, cruzamos com um Gullar, um Sarney, Baleiro, Godão, Papete, entre outros. Em a literatura buscamos um prosador, José Sarney, e um poeta, Ferreira Gullar. O primeiro, autor do Norte das Águas, o outro do Poema Sujo. O prosador nasceu José de Ribamar na cidade de Pinheiro, enquanto o poeta batizou-se Ribamar, em São Luís. O prosador é devoto do santo, o poeta é ateu. «Meus pais me puseram 'se nome porque meu nascimento coincidiu com a festa do santo. Foi uma coincidência. Não tenho nenhuma relação com 'se nome. Não me vejo como Ribamar», afirma José Ribamar Ferreira, o Gullar. «Nunca dei muita importância para isso não. Mas é curioso porque meus pais não eram religiosos. Não iam a missa, festas religiosas, procissões. Acredito que só no Maranhão tenha uma cidadezinha, uma igrejinha, com o nome desse santo." O autor de Um pouco acima do chão, que tinha na infância o apelido de Periquito, e seus dois grandes amigos eram Esmagado e Espírito da Garagem da Bosta, parece muito pouco à vontade com o nome José de Ribamar. Ribinha -- O moleque nascido no lugarejo chamado Boa Hora, no município de Bacabal, e que ganhou o mundo tocando percussão, adoraria que seu nome artístico fosse Ribinha. «Quando criança o apelido que mais gostava era Ribinha», revela Papete. O nome de José de Ribamar foi dado ao cantor e percussionista por a sua avó, Bárbara. «Imagino que tenha sido por a devoção que batizou o filho Ribamar. A minha família ia muito às festas de santo, Santo Antônio, São Benedito. Sou muito religioso», revela Papete. Para Papete, o nome Ribamar é um valor sublime, puro, além de referência cultural. «Ribamar é uma referência muito forte da cultura popular. Tem havido uma perda muito forte no Maranhão», comenta. Em o Rio e em São Paulo, Papete conta que ainda é chamado de Ribamar por muita gente. «Ribamar me identifica como maranhense, não tenho vergonha disso. Quando faço shows sempre conto a historinha do meu nome. Ribamar é nome muito cultural. Não gosto de Papete, acho chinfrim, não representa o que eu acredito ser a minha brasilidade», afirma. Promessas -- Duas outras personalidades culturais do Maranhão tornaram-se Josés de Ribamar por promessas das mães. Dona Socorro pediu ao santo para ter um bom parto, e teve. Graça concedida, o nome do filho seria José de Ribamar Coelho Santos. Mais tarde, o menino seria somente Zeca. E depois, o cantor Zeca Baleiro. O caso de Dona Leonora é semelhante. Fez um pedido a São José de Ribamar, e foi atendida. O filho então seria José de Ribamar França Pereira, mais tarde apenas Zé, depois Zé Pereira. Tanto o filho de Dona Leonora quanto o de Dona Socorro encontrariam na música o reconhecimento dos Josés de Ribamar. O Ribamar de Leonora, depois de crescer nas ruas da Madre Deus, saiu em busca da 'trela bailarina e criou a Companhia Barrica Teatro de Rua, com seu Boizinho Barrica e Bicho Terra. Já o filho de dona Socorro, saiu em busca do ator inglês Stephen Fry, e acabou por fazer muitas emboladas no meio-campo da música brasileira. «Quando eu nasci a minha mãe tinha uma idade avançada», brinca o cantor. Socorro Santos, mãe de Zeca, tinha apenas 36 anos, quando o filho caçula nasceu. «Fiz uma promessa para São José para que eu tivesse um parto normal», conta. Baleiro foi chamado de José de Ribamar apenas na época de 'cola. «Ninguém na família chama ele de Ribamar, chamam de Zeca, Zequinha, desde criança», afirma Dona Socorro. No caso de Zé Pereira, o apelido de infância foi incorporado e o moleque do bairro da Madre Deus tornou-se Zé Pereira Godão ou somente Godão. E o Ribamar para onde foi? «O Ribamar tem uma relação muito forte com a família. Quando me chamam de Ribamar isso leva à minha família, aos íntimos da casa», conta Godão. Zé Pereira separou-se cedo do " José de Ribamar. «Quando criança colocavam um monte de apelidos, e nenhum de eles tinha referência ao Ribamar. Em a 'cola já me chamavam de França, de Pereira, que é o sobrenome do meu pai», lembra. Depois que enveredou no cenário artístico ficou o " Zé Pereira Godão. «Ribamar ficou para o santo, para a família. Só quem me chama de Ribamar é minha mãe e minhas irmãs, a minha 'posa não chama, o meu filho me chama de Zé», diz. «O nome Ribamar tem uma ligação muito particular com a cidade. E olha que a cidade cultuava um preconceito com o nome, todo Ribamar tinha um apelido», explica Zé Pereira Godão. Número de frases: 78 Com ou sem preconceitos a verdade é que o Maranhão 'tá cheio de «afilhados» do Santo. O documentário Onde o Pai Cura e o Filho Pira, sobre o mais famoso e lendário palco de shows alternativos de Santa Catarina, situado num sítio em Guaramirim já 'tá disponível na internet. Roteirizado e dirigido por Gustavo Moura, o filme 'tá disponível para visualização no site www.myspace.com/kalystuart «Com o passar do tempo, não foi o Curupira que se adaptou ao município de Guaramirim e sim, o Município de Guaramirim que se adaptou ao Curupira», confessa o prefeito da pequenina cidade do interior de Santa Catarina. Esse processo de adaptação, que carregou nas costas contrastes de uma região basicamente agricula com um clube de rock alternativo e toda as peculiaridades antes apenas vistas em climas urbanos é a chave que abre uma história de amor, preconceito, luta ambiental e de um berço histórico do underground da região sul do país. A música é apenas um detalhe. A história circula em torno de Evair Nicocelli, um militante das causas ecológicas, que não 'conde suas raízes socialistas e também a paixão por a música. Como cenário, o sítio de sua famíia, que até pouco tempo era comandado por seu pai, um famoso curandeiro da cidade. A lenda do folclórico bichano de pés virados, protetor das matas vai se 'treitando ao 'tilo de vida de Evair até chegar a um ponto em que realmente você descobre. O Curupira mora lá! Onde o Pai Cura e o filho pira acompanha o cotidiano do lugar, documentando a história contada por os próprios personagens que fizeram do local um antro do rock catarinese. Ficha técnica: Roteiro e Direção: Gustavo Moura Direção de Fotografia: Ramiro Pissetti Direção de arte: Deborah Boeira. assista no: www.myspace.com/kalystuart contatos: Número de frases: 19 kaly902@gmail.com A grosso modo, eu penso que a diferença entre «clown» e «palhaço» é que os Clowns possuem um humor mais sutil, os movimentos são livres mas de certo modo suaves e delicados baseados na pantomima (que é diferente de mímica para quem não sabe), usam vestimentas mais comuns com pequenos toques extravagantes. O humor do palhaço é mais pastelão e brincalhão, costuma ser mais divertido e extravagante, 'banja alegria (mesmo que sem querer), usa roupas bastante largas ou apertadas que valorizam os aspectos engraçados de seu corpo. Em questão de sutileza eles não são muito bons e é isso o que os torna tão dignos de atenção. Eles são desastrados. Não confundir com Branco e Augusto. Existem Clowns Brancos e Augustos e existem também palhaços Brancos e Augustos. São subcategorias de cada «'pécie». Não há nada de certo ou errado em nenhum dos dois. Não é mais certo ser clown ou mais certo ser palhaço. A 'colha varia de acordo com o temperamento de cada pessoa. Há quem prefira o clown e há quem prefira o palhaço, questão apenas de opinião, mas é preciso saber que há uma diferença entre os dois. Em a questão da nomenclatura há outro problema. O termo Palhaço é muito 'tigmatizado e as pessoas não dão valor a arte por possuírem um preconceito formado. A palavra Palhaço é usada até como forma de ofensa, então 'sa palavra acaba tornando-se inadequada e pedindo que seja criada uma nova nomenclatura. Em a questão do Clown, o problema é o nome americanizado. Não que isso seja um grande problema, mas existem outros termos portugueses que poderiam ser mais interessantes já que pode-se criar uma arte completamente idependente do que vemos no exterior, portanto, o nome americanizado seria inapropriado. Para quem ainda não entende. O clown 'tá mais para Charles Chaplin. O palhaço 'tá mais para três patetas. Existem diversos gêneros de palhaço e 'sa é uma arte bem mais profunda do que imaginamos que seja. Os palhaços circenses, os palhaços de rua, os palhaços de palco, etc, são todos palhaços, mas ser palhaço é muito mais do que pintar a cara e fazer palhaçada. O curioso é que quanto mais um palhaço «Tenta» ser engraçado, mais sem graça ele é. O palhaço realmente divertido de se olhar é aquele que age verdadeiramente, 'pontaneamente. Ele não busca ser algo, ele já é. Ser palhaço exige um 'forço muito grande de autoconhecimento, de auto-aceita ção e de expressão corporal. Está quase ligado a 'piritualidade do indivíduo pois ele não pode simplesmente agir, ele precisa saborear cada movimento, cada gesto precisa ser «friamente calculado». Você me fala de máscaras ...-- Com uma máscara é fácil ser engraçado!-- Eu rebato seu argumento com a velha frase «Clown, a máscara que mais revela». É paradoxal, mas para ser um verdadeiro palhaço é preciso, antes de tudo, despir-se de todas as nossas Máscaras e armaduras sociais. Somente quando 'tamos limpos podemos ser suficientemente verdadeiros ser um palhaço. Em o fundo todos somos palhaços. Número de frases: 32 Só que a maioria de nós não assume. Sendo ainda dentro das fronteiras do Piauí, o respeitado grupo de teatro Harém, com vinte anos de palco, topa apresentar 'petáculo até no meio da praça. «Centramos nossas atenções aqui, tentando descobrir formas de levar o teatro a mais gente», diz o diretor Arimatan Martins. Qualquer pessoa pode dizer, sem medo de errar, que o grupo Harém é um divisor de águas no teatro do Piauí. Os vinte anos de palco deram à equipe autoridade para falar de teatro em qualquer canto, com qualquer um. Tanto tempo de 'trada já rendeu bons frutos, o grupo é um dos mais premiados do Brasil e orgulha-se de ter até prêmios internacionais, como o Mérito Lusófono, conquistado em Portugal, e vários primeiros lugares em festivais de teatro do Brasil, como o de Guaramiranga, no Ceará. O diretor Arimatan Martins conta que o Harém sempre teve objetivos muito claros: montar autores piauienses, formar platéias e aliar a cultura nordestina à linguagem teatral contemporânea. «Eu sempre acreditei que era possível fazer teatro assim. Nosso maior segredo talvez seja 'sa objetividade, 'sa clareza de idéias. Resolvemos apostar no mercado do Piauí e centramos nossas atenções aqui, tentando descobrir formas de levar o teatro a mais gente», diz, acrescentando que o grupo também já tem público cativo no interior do Estado. «Essa nossa característica de acreditar no mercado piauiense para o teatro nos abre caminhos. Se tivermos a oportunidade de apresentar um 'petáculo no interior nós vamos, mesmo que lá não tenha um teatro, mesmo que a apresentação aconteça num bar, no meio de uma praça." A peça Raimunda Pinto, sim senhor, do dramaturgo piauiense Francisco Pereira da Silva, é a mais assistida e mais premiada do Estado. Foi montada por o Harém pela primeira vez em 1992 e até hoje leva multidões ao teatro. «A peça 'tá em cartaz há 13 anos, já foram mais de mil apresentações e continua atual. As pessoas continuam indo, continuam rindo. Isso é que mostra que 'tamos no caminho certo. Não é porque 'tamos aqui no Piauí, no meio do Nordeste, que nós temos que sofrer do complexo nacional de inferioridade. Nosso trabalho é bom e é reconhecido». Raimunda conta a saga de uma mulher cearense feia, pobre, subnutrida e com lábio leporino que consegue vencer na vida longe do sertão. O ator Francisco Pelé é quem interpreta a personagem. A peça é parte da tetralogia Raimunda, que Chico Pereira dedicou à atriz Fernanda Montenegro no começo da década de 70. Os quatro textos -- Raimunda Jovita na roleta da vida ou Quis o destino: De Pucella e Ninon; O trágico destino de duas Raimundas ou Os dois amores de Lampião antes de Maria Bonita e só agora revelados; Raimunda Pinto, sim senhor e Ramanda e Rudá --, apesar de terem a ver uns com os outros, podem ser montados separadamente. O humor elegante do autor conquistou a crítica 'pecializada de todo o país. Pelé se orgulha de dizer que o Harém é capaz de se adaptar a qualquer palco, a qualquer 'trutura. «Nunca fizemos grandes investimentos em produção, até porque não temos mesmo como fazer. Não somos um grupo que só se apresenta no Theatro 04 de Setembro ou similares, com luz perfeita, som perfeito, palco perfeito. Já apresentamos peça no meio da rua e até em cima de mesas -- já chegamos numa cidade que não tinha um palco. Juntamos umas mesas e fizemos assim mesmo. Não fazemos peça para dentro de teatro." Arimatan Martins completa e afirma que o maior investimento que o grupo faz é na própria imaginação e criatividade. O diretor ressalta ainda que o Harém não faz questão de montar 'petáculos novos a cada seis meses. «Em vinte anos, montamos seis peças adultas -- Os dois amores de Lampião antes de Maria Bonita e só agora revelados; Raimunda Pinto, sim senhor; O vaso suspirado; O Auto do Lampião no Além; A farsa do advogado Pathelin; Dois perdidos numa noite suja (em parceria com o grupo de teatro Extremo, de Portugal) e mais recentemente O assassinato do anão do caralho grande; e as infantis O cavalinho azul, Pluft O Fantasminha e A Menina e o vento, da Maria Clara Machado, e mais o Princês do Piauí; uma média de um 'petáculo a cada dois anos. Encenamos todos os autores piauienses que quisemos -- Chico Pereira, Gomes Campos, Benjamin Santos -- e somos o primeiro grupo de teatro piauiense a fazer temporadas, a ter peças de vida longa. Além disso, o Harém é uma oficina, que nos permite experimentar novos talentos e nos renovar a cada montagem», diz. Em o final de 2005, o grupo 'treou sua versão da peça O assassinato do anão do caralho grande, do dramaturgo " Plínio Marcos. «Demos nosso toque ao texto, que nos foi dado por o próprio Plínio numa de suas visitas ao Piauí». O toque, em 'te caso, foi apresentar a peça como 'petáculo circense e inserir versões divertidíssimas de personagens do cotidiano de Teresina -- inclusive autoridades do primeiro 'calão do governo do Estado. O novo 'petáculo é dirigido por Martins e tem no elenco Francisco Pelé, Francisco de Castro (impagável!!), Marcel Julian, Moisés Chaves, Fernando Freitas (perfeito!!), Luciano Brandão, Bide Lima, Laiane Holanda, João Vasconcelos, Ozanan Sobrinho e Wil Silva; vale destacar que cada um de eles criou seu próprio figurino. As atrizes Bide Lima e Laiane Holanda são novas no Harém, vêm do grupo Asmodeus, uma das boas promessas do teatro piauiense. Ozanam também chegou agora à trupe. João Vasconcelos 'tá no grupo faz tempo, era contra-regra e resolveu agora virar ator. «Ele botou o pé na parede e disse que queria atuar, que não ia mais ser carregador de nada. Eu acho que 'tá muito certo», diverte-se o diretor. «O bom do nosso grupo é que somos mesmo uma cooperativa, todo mundo faz de tudo um pouco. Dividimos igualmente todos os lucros e todos os prejuízos». A iluminação de O assassinato ... é de Assaí Campelo e a trilha sonora leva a assinatura d ´ Os Caipora, banda piauiense que mistura forró, côco, embolada, ciranda, baião, maracatu e o que mais aparecer por a frente. Número de frases: 62 Se depender desse pessoal, os palcos continuarão iluminados por muito tempo Refletir a realidade da sociedade é a função da moda. Trazemos 'tilos e tendências que de acordo com o repertorio individual se traduz no cotidiano. Quando juntamos o clássico, o moderno e trazemos a moda vintage (peças com a exclusividade que as grandes marcas não trazem mais hoje em dia) as tendências nos guiam e se dissolvem criando uma outra moda, a chamada moda altenativa. Funcionando a mesma como mídia de expressão artística juntando na maioria das vezes peças e acessórios fora de uso por a massa criando um 'tilo singular. Pensamos a moda como material renovável nada caira em desuso se trouxermos ao nosso universo de expressão livre, cada vez mais vimos uma moda saudosista e nostálgica em todos os aspectos. Um bom exemplo disso são as saias bufantes, as chamadas ' balonês ` que volta repagina dos anos 80 alem das bolinhas, bolsinhas a tiracolo e cabelos de franja sessentista. Outra imagem que se repete 'ta no universo ' fashion ', cabelos coloridos, ' hello-kitty ' e outros ícones infantis, tênis coloridos e tantas outras peças que acabam distinguindo os grupos num breve olhar. São 'sas diferenças que criam a identidade que buscamos sempre conquistar, fugindo do processo de imitação da moda e não procurando difundir os padrões das classes elevadas que vêem vantagem em consumir roupas simplesmente com fim de ostentação. Essa busca em sua maioria vem associada a um modo de vida que privilegia o potencial criativo da cultura urbana se opondo a industria da moda, criando um processo de construção com grande significado. O urbano sempre será fonte inegostavel de referência e na rua que a moda encontra sua verdadeira 'sência, abandonando a imparcialidade da vitrine e se tornando um elemento difusor de sentido, de identidade e existência. Número de frases: 11 Com um belo trabalho, Heitor Branquinho se destaca na cena musical paulistana e mineira, e apresenta seu segundo «CD,» um Branquinho e um violão». O título faz referência ao formato do show gravado ao vivo em Três Pontas -- MG, sua cidade natal, onde o músico acompanhado por o violão, teve como cenário o Museu do Café. Em o disco, Heitor canta composições de sua autoria e conta com a ilustre participação musical do amigo e conterrâneo Milton Nascimento nas faixas «Amigo», tocando sua tradicional sanfoninha de 8 baixos, e» O que Vale É o Nosso Amor», num belíssimo dueto vocal. Branquinho assina também a produção do disco, mixado por «André Kbelo». O CD conta ainda com uma faixa bônus, um remix drum ' n ' bass da música «O que Vale É o Nosso Amor», produzido por o DJ carioca Marcelinho da Lua. Imperdível! Certamente Heitor Branquinho tem talento e carisma para conquistar o público brasileiro, quiça, do mundo! É só uma questão de tempo. Confira a entrevista de Heitor Branquinho: Francinne -- A vontade de ser músico, quando e como começou? Heitor -- Ser músico profissional mesmo, acho que encarei de frente quando comecei a tocar em bares, voz e violão. Tinha 17 anos. O trabalho começou a ficar mais sério. Mas comecei a fazer aulas de piano aos 6 anos. Não lembro se foi muito por a minha vontade ou se minha mãe que incentivou. Mas sei que fiz aulas até os 10 anos. A os 10 comecei a fazer aulas de violão por vontade própria. Aí já penso que a vontade já falava mais alto e parei de fazer aulas de piano. Não que eu não goste do instrumento. Eu fazia aulas de piano clássico, mas quando a professora saía da sala eu tentava tirar de ouvido as músicas que outros alunos 'tavam tocando em outras salas ... rs. Francinne -- Qual a sua formação musical? Heitor -- Comecei a fazer aula de piano, aos seis anos, com uma professora particular. Depois 'tudei um pouco de piano no Conservatório de Três Pontas. Violão no Conservatório e particular também. Fiz aulas de guitarra com o Jacques Mathias, em Varginha. E aulas de técnica vocal com a Babaya em Belo Horizonte por dois anos e meio. Francinne -- Sua família incentiva sua carreira musical? Heitor -- Incentiva sim e muito. Minha mãe, meu pai, sempre vão aos shows. Meu pai sai com mim viajando. Em a semana passada mesmo ele 'tava com mim em BH, fazendo divulgações. Meu irmão Hugo mora com mim em SP, e as vezes acho que ele sabe mais sobre mim do que eu mesmo. Conhece tudo! Meu outro irmão, o Higor, e minha avó também 'tão sempre presentes. Fora madrinha, tios, tias, primos ... Francinne -- Por que você veio morar em São Paulo? É necessário 'tar em 'sa rota cultural? Heitor -- Morei em Três Pontas durante minha infância e adolescência toda. Depois mudei para Belo Horizonte, por três anos, e já 'tou em SP há dois anos e meio. Não sei o porquê, mas algo me dizia que precisava ir pra um lugar maior, com mais trânsito de informações. Fiquei indeciso entre vir pra SP ou ir para o Rio. Aí o Bituca (apelido de Milton Nascimento) disse para a eu ir pra São Paulo. Resolvi seguir o conselho de ele. Tudo vem pra São Paulo. É a porta de entrada e a porta de saída do Brasil. Mesmo não morando aqui, é passagem obrigatória. Francinne -- Fale-me sobre o seu processo de composição. Heitor -- Meu processo de composição é bem variado. Tenho muitos parceiros e muitas músicas sozinho também. às vezes faço letras em cima de músicas de outras pessoas. às vezes componho músicas em poesias, em letras. Mas muitas vezes vem uma letra e uma melodia juntas, e já saio fazendo tudo de uma vez. Mas sempre costumo dizer, o telefone toca é de lá para cá ... Francinne -- Como surgiu a oportunidade de gravar, aos 20 anos, seu primeiro disco? Heitor -- Como 'te segundo CD, o primeiro também foi independente. Foi gravado em Varginha (MG), num home 'túdio, do Jacques Mathias, que foi meu professor de guitarra. Também foi produzido por ele. Já tocava nos bares, mas a ajuda também monetária da família. Foi feito com muito 'forço. Francinne -- Fale-me sobre a experiência de tocar em bares na noite paulistana? Heitor -- Tem toda a 'tória de que tocar em bar é uma 'cola. Realmente, mas não é fácil não. São Paulo é uma cidade que tem muitos lugares com música ao vivo, mas ao mesmo tempo, muitos músicos também. E muitas vezes a concorrência é um tanto injusta, por a atividade musical não ser tão regulamentada assim. Além de serem muitas horas tocando e cantando. As pessoas que 'tão conversando, «tomando uma», ou até o próprio dono do bar, não percebem que isso também é um 'forço físico. Talvez seja por o 'tereótipo criado por os músicos da época da boemia. A 'tória hoje é um tanto diferente. Muitos dias são legais, outros nem tanto. É um trabalho como tantos outros. Autônomo. Se trabalha tem dinheiro, se não trabalha não tem. Vejo como uma fase de transição, pois viver só autorias hoje em dia é o que muita gente quer, mas não é tão simples assim. Francinne -- É uma honra dividir o palco com Milton Nascimento. Como foi o início de 'sa parceria? Heitor -- A gente se conheceu em Três Pontas. Eu 'tava tocando num bar, junto com o Ademir Jr. e ele foi nos assistir / ouvir. De lá ficamos amigos, mas amigos de verdade. Participei também do DVD de ele, junto com o Lenine e outros músicos trespontanos, e também num show no Canecão, no lançamento deste DVD. Nosso primeiro encontro 'tá até registrado no livro da biografia de ele, «Travessia» (Ed. Record, 2006). A música «Amigo» fiz pensando em nossa relação, e uma vez em Búzios quando 'távamos de férias, eu lembrei que a música 'tava em Sol, o tom da sanfoninha de ele. Então tocamos a música e ficou super legal. Ainda não tinha o projeto de gravar 'te CD. E o tempo passou. Depois quando fiz «O que Vale É o Nosso Amor», imaginei o Bituca cantando com mim. Alguns dias depois fui a casa de ele no Rio, e coloquei a música pra ele ouvir. Ele pediu pra ouvir novamente e depois que a música acabou, expliquei pra ele que queria gravá-la no meu próximo trabalho, com a participação de ele. Ele respondeu de imediato: -- Claro! Francinne -- Está satisfeito com o resultado do disco? Gravar ao vivo, não é nada fácil. Ou é? Heitor -- Estou sim! Tive em 'te trabalho muitos amigos participando e apoiando, e também outros que se tornaram amigos por o caminho. Sou muito grato por a competência e o carinho de todos eles. Gravar ao vivo realmente não é muito fácil. Mas também não foi muito difícil! Rs ... O CD foi gravado num único show, em apenas uma noite. Eu fiz toda a produção musical, e ensaiei um mês em casa, pensando os arranjos todos, vocais e instrumentais. Acho que o mais difícil é por ser voz e violão. Todo 'paço tem de ser preenchido, e qualquer tropeço aparece na cara. Mas 'tou super satisfeito sim. O público se «comportou», o som ficou muito bem feito, gravação, mixagem e o projeto gráfico também, desde as fotos, cenário, encarte. Francinne -- Você me parece ter uma natureza tranqüila. Como cultiva a calma em 'se mundo tão «punk»? Heitor -- Acho que há diversas maneiras de ver o mundo. Se eu for pensar por a perspectiva de que o mundo é um congestionamento em São Paulo, às sete da noite, ficarei irritado sempre. Agora se eu coloco um jazz no som, tudo já muda. Nosso pensamento tem uma força muito grande. A gente precisa se adaptar às coisas. Uma fila de banco mesmo, sem nada pra fazer é uma coisa horrível, mas com um livro, nem é tão ruim assim. O que a gente precisa é buscar alternativas. Francinne -- O que é ter sucesso, pra você? Heitor -- Sucesso pra mim é fazer o que a gente gosta. Me considero uma pessoa de sucesso. A fama e o reconhecimento é que vem com o trabalho. Não acredito em sorte, nada acontece por acaso. Só de não precisar ficar trancado num 'critório, por exemplo, fazendo algo que não gosto, já é um sucesso! Sempre vivi da minha música, (às vezes melhor, às vezes não tão bem ... rs.), mas nunca trabalhei com outra coisa. Francinne -- Pode nos contar um pouco dos seus planos e projetos futuros? Heitor -- Quero cada vez mais poder cantar minhas músicas, de meus parceiros ou músicas que me identifico e que queira passar ao público de meu jeito. Já penso sempre no meu próximo disco e um modo de viabilizá-lo. E quero levar o show do CD «um Branquinho e um violão» a muitos lugares, pois é um show muito intimista e gostoso de fazer. Componho bastante também, tenho vontade de ouvir minhas músicas gravadas por outras pessoas. Francinne -- Que tal uma dica, para quem quer seguir a carreira de músico? Heitor -- Acredite sempre e exteriorize sempre a verdade. Quando a gente acredita no que existe dentro da gente com a maior intensidade, não tem como dar errado. É só trabalhar e o tempo se encarrega do resto. Francinne -- O sentimento mais lindo do mundo é: Heitor -- O Amor (não da forma banal, mas o sentimento pleno) Francinne -- Um recado para os leitores ... Heitor -- Mesmo os bares não pagando ECAD, toquem minhas músicas! Rs ... Estudem música, sem deixar a técnica ultrapassar os sentimentos. E tudo de bão! Francinne -- Obrigada por a entrevista!!! Heitor -- Por nada! Saiba mais sobre o músico: Branquinho Natural de Três Pontas, berço de ícones da música brasileira como Milton Nascimento e Wagner Tiso, Heitor Branquinho, 24 anos, tem se destacado em sua recente trajetória musical como cantor, compositor e multi-instrumentista. Formado nos bares da vida, Heitor iniciou sua carreira profissional como baixista, aos 15 anos, tocando no Sul de Minas, de onde seu trabalho partiu para grandes capitais em apresentações em Belo Horizonte, Brasília, Janeiro e São Paulo. Em seu primeiro CD independente, intitulado deu branco ..., lançado em 2004, começou a se destacar também como compositor -- o trabalho tem sete músicas de sua autoria e três parcerias. Em março de 2005, cantou o jingle para a campanha publicitária do Governo do Estado, criada por a Tom Comunicação, que divulgou o turismo em Minas Gerais, com veiculação nacional e internacional em televisão e cinema. Participou da gravação do videoclipe da música «Paciência» (Lenine / Dudu Falcão), com Milton Nascimento, Lenine e músicos trespontanos. O clipe 'tá no DVD Pietá, de Milton Nascimento, lançado em novembro de 2006 com show no Canecão (RJ) e que recebeu o prêmio TIM de melhor DVD em 2007. Em a faixa ele canta e toca violão. Em o final de 2006 se juntou ao Grupo änïmä Minas, formado para se apresentar nos eventos de lançamento do livro Travessia -- A vida de Milton Nascimento (Editora Record), de Maria Dolores. A banda apresentou releituras de clássicos de Bituca (como Milton é conhecido) em cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Três Pontas e São Paulo, além de participar de programas de TV. Em 'te ano 'tá lançando seu segundo CD independente, chamado «um Branquinho e um violão». A obra foi gravada ao vivo em sua terra natal e conta com a participação 'pecial de Milton Nascimento em duas músicas. O álbum tem ainda uma faixa bônus remix produzida por o DJ Marcelinho da Lua. Contato para shows: (11) 8228-8748 www.heitorbranquinho.com.br www.umbranquinho.blogspot.com Número de frases: 155 http://www.myspace.com/heitorbranquinho Para os que não tem tempo (ou paciência) de ler o relato completo da experiência, resumos em poucas palavras: A mostra Blooks é uma imersão no universo polifônico, democrático, labiríntico, ecoante, excessivo que é a internet. Mostra 'se momento, quando é a vez da histórica platéia subir ao palco. Momento quando, reinterpretando Barthes, o autor não morre, mas se multiplica. Agora exponencialmente, pois tem ouvidos e voz. E ecoa. Blooks propõe 'sa experiência. E é impressionante o resultado. Relato completo: Essa semana fui ao Oi Futuro, um dos únicos 'paços culturais do Rio (ou mesmo o único), dedicado à arte tecnológica, arte interativa, multimeios e etc. O 'paço tem uma boa programação e apresenta muitas obras interessantes, mas sempre questiono um certo descuido de curadores na contextualização das obras. De um modo geral, acho que as obras interativas, vídeo arte, multimieos, como ainda não são íntimas do grande público, aumentam o seu potencial de diálogo se bem contextualizados, projetados. Isso pode ser feito de diferentes formas, com recursos diversos de design, cenografia ou mesmo recursos de audio e outras possibilidades criativas: tudo o que possa contribuir para instigar os sentidos e provocar a redenção do participante à experiência. Em a última visita ao 'paço, duas surpresas: a exposição dos «babilaques» de Wally Salomão 'tá uma excelente. Sem nenhum recurso tecnológico / digital, a exposição impacta e leva o expectador àquele mundo poético e polissêmico do saudoso Wally. Mas foi subindo mais um andar que tive a grande surpresa: a mostra «Blooks -- Tribos & Letras na Rede». O texto da exposição introduz à experiência. Não o tenho na integra, mas ficou na memória a relação que faz entre as mil vozes, o 'paço do muito, do excesso, os diversos hoje de hoje, a viagem hipertextual e polifônica da rede, que ecoa a partir da apropriação dos usuários e da chamada web 2.0. Coordenada por Heloísa Buarque de Hollanda, com a curadoria é de Bruna Beber e Osmar Salomão (coincidentemente, filho de Wally), a mostra é sobre os mais de 200 blogs brasileiros de prosa, poesia, quadrinhos, grafismos e conexões entre letra e música. Apresenta as peculiaridades de 'ta produção e quer discutir 'se novo formato, as novas poéticas (que tanto falamos aqui), da arte literária que surge na web. A experiência é um mergulho! O áudio, a cenografia, o cuidado no design, a curadoria. Cada detalhe amplia a impressão de 'tar de fato numa experiência 'tendida de 'ta que fazemos diariamente: 'tar na rede, em rede, em 'te 'paço de intimidades impessoais, de transparências opacas, de fluxos indefinidos. Foi arrebatador! Mesmo. Um detalhe curioso, que completou o ineditismo da situação, foi o segurança do 'paço, que caiu na rede. Durante todo o tempo que fiquei lá, ele voltou cerca de 5 vezes para mais um mergulho. E navegava por as marés inconstantes e reveladoras dos diversos blogs que podiam ser acessados em plasmas 'palhados por o 'paço. O conjunto da visita foi inesquecível. Mais sobre 'se assunto (fotos, vídeos) e outras artes interativas, 'téticas e possibilidades digitais, etc em www.logorama.com.br Número de frases: 33 O Plantão de Bobagens em edição 'pecial, orgulhosamente, apresenta: Eu ADORO Pessoas Burras ( Bobagem número 4) Après a hipercitada Malu Xavier de Olinda (PE). Levemente inspirado no inimitável dansudansu RJ ( Enfim um Post Pop Help só para você!) ( Espaço curto para o comercial. Pode ser das fitas K7 da Bosch) Sou burro mas sou feliz. Nunca soube o que é Hermenêutica, Semiótica ou muito menos Epistemologia. Hermenêutica deve ser alguma coisa de muito errada (ou certa, como saber?) que algum cara chamado Hermes fez. Semiótica deve ser uma loja de óculos que só vende armações bem baratinhas, quase de graça, do povo, morou? Não é uma ótica, propriamente, é uma quase ótica porque, lentes mesmo, ela não vende; isto só na loja ao lado, onde os preços custam os olhos da cara. Epistemologia já é um verbete mais difícil. Só convocando uma tropa de neurônios mais experts, para desvendar 'ta difícil questão. Pensei logo em Alpistemologia, uma 'pécie de culinária para passarinhos, mas, um amigo, menos burro que eu, me disse que aí já não era mais caso de burrice, era de analfabetismo mesmo. Para arrematar ainda disse que o trocadilho era infame, de merecer tapa na orelha de tão ruim. Me ofendeu. Mas não adiantou. Continuo achando minha tese pra lá de correta: «Sou burro mas sou feliz!" Um conhecido meu, cheio de pompa, se diz Internauta. Sei lá o que isto quer dizer! Se for julgar por o jeitão 'quisito de ele, internauta é um sujeito que navega dentro de si mesmo, um cara tímido, introspectivo, que vive com o miolo mole de tanto tentar entender as coisas mais inúteis de 'ta vida. As garotas da minha rua comentam, com um certo frisson romântico, que o meu amigo é um Nerd, como se ele fosse um Batman, um Homem Aranha, ou algo assim. Nerd? Não vejo nada de sexy, de atraente nisso aí. O cara quase baba: Disse até para ele outro dia: «Não seria melhor você primeiro fazer um curso de inglês?" «Mas isto não é inglês, seu idiota! Isto é Internetês!" Fiquei na minha. Não me ofendi porque demorei um pouco para entender o raciocínio. » ... Ah, bem! Ele quis dizer que o tal do internetês é uma língua, um dialeto, seria isto?" Fiz aquela minha cara de 'túpido, de conveniência, e pensei com mim: Internetês: Parece papo de gente falsa, que tem uma cor pra ' fora ` (uma ' externetês ` falsa) e outra, a ' tês ' verdadeira, 'condida, virada para dentro. Sim por que, para mim, «tês» quer dizer, mais ou menos, coisa de pele, certo? Ou não? (Ui ... 'te até em mim doeu) Confesso que, as vezes quanto chego a 'tas conclusões, assim, tão bem sacadas, fico quase achando que, afinal, até que não sou tão burro assim. Foi daí que, 'timulado, animado, com a moral nas alturas, resolvi fazer uma coisa mais genial ainda. Peguei um dicionário da internet e elaborei 'tas mal traçadas linhas, só para você. Eu sei. Não dá ainda para ser considerado um Nerd (cá entre nós, as vezes babo sim, mas, é por outras motivações), também não dá mais para me chamar de lerdo, de 'túpido ou imbecil. Como se diz na Lan House da minha rua: Subi um nível no game. Mudei de fase! O certo é que fiz, como se diz, o meu Upgrade, aumentei a capacidade do meu HD e agora, nunca mais vou depender do Help de ninguém. Leia, com atenção, a minha carta em 'te File, amor. Eu a 'crevi, com todo o meu carinho, só para você. Se não entender, não tem problema. Gosto de ti mesmo assim. Sabe porque? Adoro pessoas burras! «Rio de Janeiro, ( Um dia destes qualquer, sem nada para fazer e com uma bruta saudade de você) Querida Clarinha, Sou do tempo da Arpanet. Meu Ad, naquele tempo, me levava sempre para a casa de uma tal de Betinha, que logo descobri, era sua irmã. Em um belo dia, o Hiperlink de ela quebrou. Testei o seu, pra refazer o de ela e acabei gostando mais do seu perfil. Troquei você por ela. Casei com você por amor, mas, o nosso limite de armazenamento de conflitos conjugais logo acabou e a nossa rede caiu. Minha máquina pifou; a sua desconfigurou. O nosso Attachment era sempre tão voluptuoso quanto fraco era o meu Bandwidth (tanto que a gente nunca pôde ter filhos). Gostaria de ter podido guardar o amor por você em Backup mas, sabe como é, o teu username era sempre 'tranho, um apelido de homem, um nome de remédio. Eu achava sempre que era algum Spam, recheado com vírus. Além do mais, a gente não batia muito bem de Browser, nos perdíamos sempre um do outro e, o percentual de Click through rate era alto demais, mesmo para um cara nada ciumento feito eu. De aí, sem nenhum Internet Relay Chat assim, comum, nossa Conexão caiu de vez. Chateado, entretido com meus dramas, meus traumas e com os Cookies que todo sujeito com dor de cotovelo armazena em 'ta vida, decidi me assumir Standard Generalized Markup Language e, totalmente Freeware, parti, de mala e cuia, para o Cyberspace mais desavergonhado que me apareceu. E fui viver a minha vida. Tentando ser feliz, entrei em todas, profícuo, prolixo, promíscuo. Garanhão mais famoso entre as meninas, fiquei conhecido como o Megabyte (MB para as íntimas) Minha Homepage, atravancada com a minha mania de grandeza, acabou travando, não houve Dynamic Hipertext Markup Language que resolvesse e eu, sozinho em 'te Cybermundo, caí em depressão profunda. Meus amigos rodaram ' trocentos ' atualíssimos Anti-vírus mas, nada. Elas, as mulheres da vida, haviam arrebentado com o meu Firewall, introjetando tantos Cavalos de Tróia em mim que o meu (ou minha?) Central Processing Unit pifou de vez. Virou sucata. Fiquei em Downtime meses a fio. Travadão, de cama, suando frio. O pessoal de um site de Search engines e Help, me mandou várias Frequently asked, como remédio, mas tudo entrava em Bug e eu regorgitava, antes mesmo de conseguir acessar a minha própria CPU, que 'tava sempre surtada também, é claro. Mandaram Emoticons simpaticíssimos. Para me animar e me tirar daquele 'tado. Mandaram figurinhas em Graphic Interchange Format, fácinhas de abrir, mas, eu recebia tudo criptografado. Tentaram até acessar meu Gateway mas aí eu chiei: «Pera lá, rapeize! Calma aí que não sou gay! Se vem de Hyper Text Transfer Protocol tudo bem mas, no meu Gateway, assim, direto, nem morto!" Cansei. Escondi minha Uniform Resouce Locator no armário da cozinha e fui passear. Joguei a tralha toda fora. Nem sequer um equipamento com Wireless Application Protocol quis manter com mim. Livre, Webmaster de mim, sentei na praça junto com uns bebuns que ali se embriagavam, ao léu. Fiquei soltão, horas a fio, falando somente abobrinhas, daquelas mais cabeludas, naquele português castiço que os despossuídos de tudo gostam de usar: «Qualé mermão? Aqui num tem 'sa de Webmaster não! Aqui nóis é tudo pé no chão, tá sabendo? ... e dinheiro na mão!" Bêbado, Já pra lá de Bagdá, concordei feliz. Adoro pessoas burras! Faço aqui então, querida, o meu ardente e amoroso logoff, Adoro você, meu amor. Volta pra mim!" Click! Spírito Santo Número de frases: 109 Maio de 2007 O Brasil quem USA sou EEUU Outro dia passeava eu tranquilamente por o simpático Município da Serra com a amiga e cronista Bia Marggotto, vencedora do último concurso de contos eróticos promovido por a revista Playboy, quando fui avistado por os integrantes das doze bandas de congo existentes naquela cidade, todos dispostos a retirar minha pele para produzir novos atabaques. Em o desespero, entrei no primeiro prédio disponível e, por ordens da deusa Fortuna, 'tava eu exatamente no interior da Casa do Congo Mestre Antônio Rosa. O prédio é bem cuidado e merece ser visitado por todos aqueles que não simpatizam com meu projeto Congo Zero. Protegido da turba assassina por as paredes seculares da construção, pude restabelecer a calma e observar, numa das prateleiras do museu, quatro interessantes discos de música popular brasileira. O primeiro de eles era Jungle Cat (lançado em 1989 por a DMP CD-470), do pianista Manfredo Fest, gaúcho cego e inteligente que abandonou o vanerão e mergulhou no jazz. Um dos precursores da bossa nova, Manfredo teve formação clássica, mas logo se apaixonou por o bebop. Em 'se disco, além da sólida cozinha, conta a presença marcante do trompetista Cláudio Roditi em algumas faixas. Sua morte, em 1999, foi mais uma grande perda para a música brasileira contemporânea. O segundo disco que encontrei foi Cool Bossa Struttin, da doce e jovem pianista carioca Paula Faour. Formada por a UFRJ, Paula já atuou em diversos contextos, desde o samba com Noca da Portela, passando por a música fácil a bordo de um transatlântico nas Ilhas do Caribe, até se entregar às forças invencíveis de músicos como Tom Jobim e Thelonious Monk. Ao lado de feras como Zé Bigorna (ts), Manuel Gusmão (b), Dom Um Romão (d, perc) e Ithamara Koorax (v), Paula nos oferece uma colorida e revigorante salada: Monk, Beatles, Jobim, Miles, Lennon e Deodato, tudo com muito swing e sabor carioca. Os outros dois discos excelentes que por lá encontrei são ambos do excepcional pianista paulista Hélio Alves. Hélio, filho de dois pianistas, soube associar a disciplina exigida por a música clássica à liberdade oferecida por a música popular. Sua grande atração por o jazz sempre foi uma constante. Após 'tudar em Berklee, ainda bem jovem foi para New York, tocando e aprendendo com mestres como Cláudio Roditi, Phil Woods, Herbie Mann e Duduka da Fonseca, entre outros. Hoje, depois de 40 anos de 'trada, Hélio é proprietário de uma técnica invejável, além de uma capacidade de improvisar com rapidez, intensidade e beleza bastante rara em pianistas brasileiros. Talvez apenas Eliane Elias e mais meia dúzia de pianistas brasileiros possam ser comparados a Hélio. Seus discos como líder são Trios (Reservoir RSR C D156, de 1997) e Portrait In Black And White (Reservoir RSR C D176, de 2003), ambos em trio com Santi Debriano, John Patitucci, Nilson Matta (b) e Al Foster, Duduka da Fonseca, Paulo Braga, Matt Wilson (d). Os dois discos são excelentes, sendo impossível recomendar apenas um de eles. Com algumas composições próprias e vários tributos a Bud Powell (Hallucinations), Tom Jobim (Retrato em Branco E Preto), Egberto Gismonti (Loro), Hermeto Pascoal (Santo Antônio), Hélio nos faz sentir orgulho em ser brasileiro. Os curiosos sem grana para comprar os discos podem dar uma olhadela no site http://www.helioalvesmusic.com/index3.html e ouvir alguns trechos desse artista que a Casa do Congo soube preservar em nossas memórias ainda relativamente vivas, embora atônitas. Número de frases: 22 Venha nos visitar no JAZZSEEN Quando ele faz mira e dispara, é fatal! Não se trata de um caçador empedernido, daqueles antigos, que ao arrepio da lei de proteção da fauna e flora (que então não existia), saía por aí atirando a esmo e decorando paredes com troféus de caça. De fato 'te também é um caçador. Ele é implacável, tem uma pontaria certeira e imobiliza o objeto ou o ser que entra em sua alça de mira, mas é um caçador de imagens. Isso mesmo, 'tou falando de um fotógrafo! Um jovem fotógrafo araguainense com pouco mais de trinta anos de idade e um trabalho maduro: Ulisses Holanda (colaborador aqui do Overmundo). E em 'te sentido quero dizer consciente, 'tudado, destro no conhecimento das possibilidades que seu equipamento pode permitir. «Interessante para mim a fotografia ter um sentido de liberdade, embora quando enquadro a imagem, ela é definitivamente capturada na reprodução. Acho que sinto isso por possibilitar ao meu leitor de imagens, como acontece com mim, viajar nas múltiplas interpretações que ela permite». Assim, de uma maneira bem particular e simples, ele define o seu ofício. Ofício que aprendeu há mais de uma década: exatos 14 anos. «Foi uma verdadeira guinada em minha vida, pois na primeira semana eu já sabia o que realmente queria ser: um artista», revela com humildade. Correios E Fotografia Em 1993, Ulisses Holanda era funcionário dos Correios e acreditava numa carreira como carteiro dentro da instituição. Quando uma máquina fotográfica entrou em sua vida, começou a pôr os pés fora da instituição. Mas não foi assim de repente. «Ainda fique um tempo com as duas ocupações, pois a fotografia não era então capaz de me sustentar». Mas quando comprou uma máquina melhor (Zenit), e arriscou-se de vez na profissão, não se decepcionou. «Dois anos depois, em 1995, melhorou bastante. Eu já tinha muitos clientes. Um de eles era uma ONG que patrocinava projetos de atendimento a crianças carentes de periferia. Eu fotografava em projetos em Araguaína, Wanderlândia, Tocantinópolis, Axixá e Buriti do Tocantins, além de ter uma boa clientela em Araguaína», confessa com orgulho seus primeiros passos na fotografia. Daí em diante procurou 'pecializações, realizando cursos em São Paulo e Goiânia, participando de feiras e exposições para atualização de sua arte. Como resultado da dedicação pessoal e do afinco profissional, além das várias exposições individuais de fotografia, emplacou trabalhos em cartões telefônicos Brasil afora. Seus trabalhos mais recentes 'tão em duas exposições simultâneas em Araguaína e Babaçulândia, cidades do Tocantins. São resultados do aprimoramento técnico e do aguçamento da maneira de ver o mundo. «Procuro detalhes nas coisas e particularidades nas pessoas, algo que 'teja invisível por causa da correria diária, mas que se revela para a câmera», define sua técnica. Exposições Realização de quatro grandes exposições: 1ª Exposição em 19 de agosto de 2002 Tema: Beleza de Araguaína -- 12 fotos -- Hoje faz parte da galeria de fotos da Secretaria Municipal da Fazenda da Prefeitura de Araguaína; 2ª Exposição em 19 de dezembro de 2004 Tema: Araguaína meu cartão-postal -- 16 Quadros -- Hoje faz parte da galeria de fotos da sala vip do aeroporto de Araguaína; 3ª Exposição em 12 de Novembro de 2007 Tema: Arte em Foco -- 14 quadros -- Em exposição no Ita -- Instituto Tocantinense de Artes em Araguaína até 30 de novembro; 4ª Exposição em 19 de novembro de 2007 Tema: Um Olhar sobre Babaçulândia -- 14 quadros -- Exposição itinerante que percorrerá 'colas, centros comerciais, associações de moradores e povoados do município, revelando as belezas e os pontos turísticos do município. Ainda sem data prevista para encerramento. Outros Trabalhos Em 2004, fez o lançamento de dois cartões da Brasil Telecom com foto do Parque das Águas e Panorâmica de Araguaína vista a partir do morro onde se situa o Cristo Redentor. Em dezembro / 2004, lançamentos de seis diferentes cartões-postais de Araguaína. Em abril / 2005, lançamentos de outros cinco cartões-postais. Novembro de 2007, lançamentos de mais dois cartões-postais. Número de frases: 48 As Fotos De 'ta Colaboração São das Exposições De ARAGUAÍNA E BABAÇULÂNDIA Teve uma época aqui em pernambuco que sonhamos que um dia o frevo iria dominar o Brasil (" Eu só queria que um dia O Frevo chegasse a dominar Em todo o Brasil O micróbio do Frevo é de amargar " composição de genival macedo) pois bem hoje 'se ritmo tão rico, que é centanário faz é tempo, apenas se limita ao período carnavalesco. mas por quê? muitos atribuem por a morte dos seus mestres (Capiba, irmãos valença, Nelson Ferreira etc) mas a verdade é que o verdadeiro «culpado» são as rádios. aqui em Recife podemos contar as rádios regionais numa mão (fora as evangélicas), que nem no carnaval tocam frevo direito (que blasfêmia tocam axé na terra do frevo) e muito menos durante o restante do ano, alegando que os ouvintes não tem interresse. a outra parte das são rádios de rede (as trasaméricas, jovem pan, oi fm, e a nova brasil fm, da vida) é que piorou mesmo, se eles não tocam música de artistas pernambucanos, é lógico que não tocam Frevo! e pra piorar 'sa situação (se é que pode piorar) a prefeitura do Recife lançou um projeto no qual haveria uma remuneração para as rádios que executassem o frevo. como? nós teremos que pagar para 'cutar a frevo. coisa que não aconteceria se a prefeitura do Recife implantasse a rádio municipal Frei caneca, projeto que há mais de 40 anos 'barra na burocracia (a última reunião, que teve foi há dois anos, para a formação do conselho). Assim, aqui em Recife as rádios tem ação antibacteriana que voluntariamente ou involuntariamente tentam destruir 'se micróbio do frevo (como também outros da nossa cultura) com programações homogêneas, mas felizmente há pessoas que lutam para mudar 'se panorama como o agitador cultural Rogê de Renor, que tentam buscar alternativas para 'sa realidade. Número de frases: 11 O canaimé, na cultura Macuxi, é um ser perverso da floresta, meio homem meio bicho, que despeja sua ira em cima daqueles que causam algum tipo de mal à natureza. Inspirados em 'se ser mitológico da cultura indígena roraimense, um grupo de artistas resolver se juntar para manifestar sua «ira» por a falta de apoio e reconhecimento da cultura local. Nascia então, o Canaimé. A primeira exposição, em 2002, surgiu com o nome «Canaimezado», que seria uma designação de que os artistas 'tariam» irados». «Fizemos aquela exposição com um grupo de seis artistas. A partir de ali, começou a se formar o grupo Canaimé propriamente dito, fortalecendo o universo cultural de Roraima», conta Amazoner Okaba, um dos fundadores. Descendente das etnias macuxi e wapixana, nascido na comunidade Malacacheta, Okaba ingressou por as artes plásticas em 1987, aos 14 anos, participando de um projeto cultural na 'cola que 'tudava em Boa Vista. Hoje, tem mais de 40 exposições individuais no currículo, além de várias coletivas. Além de Okaba, integram o grupo o jornalista Jessé Souza, editor do jornal Folha de Boa Vista, que, nas palavras de Okaba, é " um grande artista das letras, incentivador e articulador do movimento "; o maranhense Anthony Jamaica, que produz 'culturas, móveis e jóias em madeira e concreto; a paranaense Gracielle Harr, 'posa de Okaba, com pinturas em óleo sobre tela; o roraimense Ednel Pereira, que é paisagista, decorador, faz instalações e pintura em acrílico e óleo sobre tela; e Iran Azevedo, que também pinta, desenha e é expert em pedra sabão. Como tudo começou De acordo com Okaba, o grupo não nasceu com a proposta de ser um referencial. «Nós já fazíamos exposições há algum tempo juntos e, então, pensando em 'sa questão de dar uma identidade étnica à produção cultural local é que a gente cria o Canaimé», justifica, explicando que, como tinham vários artistas de etnias e raças diferentes, a proposta era dar 'sa identidade, mas ao mesmo tempo formar um grupo pluricultural, já que ele é aberto à participação de gente de outros 'tados. O Canaimé começou a expor seu trabalho na casa do jornalista Jessé Souza, num bairro da periferia de Boa Vista, mas há pouco mais de um mês ganhou um 'paço permanente para exposição e comercialização de suas obras: uma sala de 100 metros quadradros, no Centro de Cidadania Nós Existimos, no Centro da cidade. «Esse 'paço hoje serve como um ponto de referência para a gente se encontrar e expor nosso trabalho. Hoje, 'tamos com obras de seis artistas, mas existe uma rotatividade, onde vamos trocando à medida que elas vão sendo comercializadas ou chega a um determinado período de exposição», afirma. Desde a sua criação, o grupo já fez apenas três exposições oficiais, sendo que a última de elas aconteceu em dezembro do ano passado. O grande lance do Canaimé é a liberdade, pois não existe imposição para a criação das obras de cada um. «A única exigência que temos no grupo é que o integrante tenha algum tipo de trabalho voltado para o regional, pois quando nós fazemos uma exposição, procuramos homenagear Roraima, através de sua gente, da cultura, das etnias indígenas, o potencial turístico de um modo geral. E cada artista tem uma visão diferente sobre isso», comenta. Além dos integrantes do grupo, a galeria também abriga obras de outros artistas e ainda oferece cursos e oficinas para iniciantes nas artes plásticas. Em 'te primeiro momento, segundo Okaba, os cursos são pagos, mas a proposta é sociabilizar a arte, criando oportunidade para que crianças e jovens possam desenvolver seu talento. «Queremos dar acesso para que 'sas pessoas possam 'tudar. A gente sabe que, muitas vezes, elas têm muito talento, mas não podem desenvolvê-lo, pois não têm oportunidade, não têm material», conta. O 'paço, de acordo com Okaba, recebe visitas regulares de 'tudantes, que vêm em grupos pré-agendados por as 'colas ou faculdades, mas também tem uma freqüência muito grande de pessoas da comunidade. «A gente 'tá se mobilizando para dar mais visibilidade à galeria, realizando happy-hour, saraus e outras manifestações com a participação de outros artistas». Para 'te ano, o Canaimé ainda tem alguns projetos na prancheta. Um de eles é a campanha «Vista Roraima no peito», que é uma coleção de camisas do grupo com iconografias étnicas do Estado. O outro é o «Viaje Roraima», onde os integrantes farão excursões nos municípios do Estado mostrando o potencial turístico e a cultura de cada lugar. «Mas nosso grande lance é dar continuidade ao objetivo de fazer produtos 100 % Roraima, fortalecendo nossa cultura e contribuindo para intensificar a identidade cultural do nosso Estado», conclui Okaba. Serviço Galeria Canaimé Espaço Dom Hélder Câmara -- Centro de Cidadania Nós Existimos Rua Floriano Peixoto, Centro, Boa Vista-RR Contatos: (95) 9962-0918 Número de frases: 38 amazonerokaba@yahoo.com.br okababv rr@yahoo.com.br mais de um Nós " O sergipano Henrique Teles é uma pessoa interessante, uma 'pecie de «brincante» que encontramos na literatura nordestina, como nos livros de cordel ou em qualquer outra literatura cheia de magia que povoam nossas 'tantes. Circense, teatral, polivalente, imagem e som em arte. Com uma óbvia regionalidade nordestina, mas 'sencialmente moderno e cosmopolita. De a sua postura e vida artistica se fez um excelente compositor, tendo como resultado o Maria Scombona (que no linguajar sergipano significa «pirueta»,» cambalhota "). Nós já vimos 'sa história antes, não se trata da originalidade, mas de um contexto marcante chamado personalidade. Nascido e criado numa familia de artistas e músicos, sua vida não poderia seguir outro curso. São quase vinte anos moldando 'sa manifestação sonora alicerçada de dois pontos: o universalismo de suas influencias e seu lirismo personal. Em 'sa formação são explícitas as influencias de pioneiros compositores nordestinos como Alceu Valença, Ednardo e Zé Ramalho; o folclore de artistas populares e a cosmofagia do 'trangeiro de caráter rock. Entretanto o verbo não se faz sem corpo. Teles é completo quando definiu a formação ideal do Maria Scombona -- enxuta, ágil e expansiva -- com o excelente baterista Rafael Junior (também da banda Snooze), o 'tilo jazzy e rock do guitarrista Saulo Ferreira e a eficiência preciosa do baixista Robson; além de agregar outras feras locais em 'se seu segundo trabalho «Mais de um Nós» -- incluindo o destaque da participação de Silvio, vocalista da lenda punk aracajuense Karne Kura, na faixa-interativa acustica-blues embolada «A Saga». Cada faixa de «Mais de um Nós», mais recente disco com 11 músicas e uma faixa interativa, destrincha seus microcosmos, seja enveredando por a música negra (rock, blues e soul music), seja por à naturalidade nordestina (sotaque, costumes, lirismo) e a brasilidade impregnada de modernidade» mpbistica». É um disco pop porque transita muito bem sobre cada nicho com propriedade, por mais perigoso que a colocação possa ser. E sutilmente conceitual: em cada música / letra 'tão embutidas suas reflexões sobre quem ele é, de onde veio e como vê o mundo, bem confessional. Basta prestar atenção na abertura com «A repórter», onde fala com humor e sarcasmo sobre a indiferença de ser nordestino; ou no 'pírito universal quando diz «Eu não quero parecer com voce / Eu não quero parecer com ninguém / Eu quero olhar no meu 'pelho / E ver que tem uma cara pra se ver» sentenciado no pêso de «Cara de Coco». Talvez Teles e sua Maria Scombona tenham adquirido a madureza que tanto se cobra de compositores múltiplos como ele, em 'se expediente, basta verificar em faixas como o folk-nordestino setentista " Contemplário 79, a melhor faixa do disco; ou de um 'tilizado tango em «Retos versos» ou enveredando por o tradicionalismo MPB com sotaque nordestino no balanço de «Trança» e no funky-jazzy «Pra não desvairar». Em um registro fonográfico de uma banda, geralmente somos educados a ouvir destaques por partes ou seções, a performance de um instrumentista ou a exagerada idiossincrasia do letrista ou o carismático vocalista, etc ... O que acontece em 'te álbum é a certeza singela da audição de um trabalho unificado no bem preciso do equilibrio entre letras, melodias, harmonias e destacados arranjos, quase como uma fórmula perfeita de se fazer som. Ousaria compara-los a uma versão tupiniquim e mais humilde do lendário grupo canadense The Band. Em suma, aqui temos um disco bem produzido, com quarenta minutos de duração num pack gráfico de primeira, feito para ser apreciado calmamente em tempos de urgência. E ainda, democraticamente, pode ser baixado na integra no site da banda! Número de frases: 28 A campanha Rir Para Não Chorar adotou o Nariz De Palhaço como símbolo de protesto. Para todos aqueles que se sentirem ameaçados, humilhados, desprotegidos, faça o uso do Nariz De Palhaço para que a sua indignação não passe mais em branco. 1 Nariz De Palhaço no Rosto, Vale Mais De o QUE 1. 000 Palavras Vídeo http://www.youtube.com/watch? Número de frases: 5 v = N15 wonS10 André Lima -- Assessoria / Festival Chico Pop 20-Sep-2008 Bandas Acreanas celebram jornalista Chico Pop em Festival de Música Inspirado no jornalista Francisco Ventura de Menezes acontece no próximo dia 25 de setembro o Festival Chico Pop, a partir das 17 horas, na Praça da Revolução. O evento conta com a presença das bandas Capuccino Jack, Fire Angel, Marlton, Ultimato (RO), Pia Villa, Mapinguari Blues, Camundogs e grupo Capu -- com participação 'pecial dos Porongas João Eduardo, Diogo Soares e Jorge Anzol. Segundo Aarão Prado, vocalista da banda Camundogs e um dos articuladores do projeto, Chico Pop foi uma das primeiras pessoas no 'tado a trabalhar com jornalismo cultural e sintetizou de forma plena e incondicional seu amor por a cultura. «Valorizar sua contribuição para a cultura é resgatar um pouco da história sobre a nossa arte. Admirador da música e de poesia nos deixou um legado incrível, repleto de lições de dedicação e altruísmo. O exemplo de Chico Pop nos motiva a sempre continuar vencendo barreiras e a fazer arte». São sete bandas acreanas e uma de Rondônia que trabalham com músicas autorais, mas que possuem 'tilos e ideologias distintas. Diego Torres -- Dito; vocalista e guitarrista da banda Marlton, diz que 'te tipo de iniciativa é um instrumento fundamental de fomento a cultura e a música autoral. «O Festival foi criado como um 'paço genuinamente acreano para a difusão da música. Esses eventos servem para divulgar um pouco do que acontece no segmento musical da cidade, além de formar público e servir de incentivo na criação de novas bandas». Realização da banda Camundogs em parceria com vários produtores culturais independentes. Apoio do governo do Estado, através da Rádio Aldeia Fm -- Sistema Público de Comunicação; Drogaria Leblon, Big Head Estúdio e Esfera Produções. O Big Head Estúdio vai disponibilizar para todas as bandas participantes do evento a gravação de uma faixa musical, onde posteriormente fará parte de uma coletânea que leva o mesmo título do Festival. Número de frases: 18 Mais informações através do endereço eletrônico http://gritoacreano.blogspot.com " Alvorada festiva é assim, a gente tem que guentar as perna e sambá até mais tarde " Sr. Luís, cidadão laranjeirense e brincante do Lambe-Sujo Chegar à Laranjeiras durante a festa dos Lambe-Sujos e Caboclinhos é como viajar para um outro tempo, em que naquele 'paço a lei é outra. Indo atrás dos grupos, fugindo do chicote dos taqueiros, tentando alcançar o melhor ângulo das batalhas. A adrenalina toma conta dos brincantes durante a festa e 'sa há de nos acompanhar durante todo o dia. O cheiro doce do melaço da cana, a cor fosca do vermelho do caboclo, a cor negra linda «brilhenta» da pele dos Lambe-Sujos, os foguetes e batuques de marcação. Todos os sentidos envolvidos na poética e 'pontânea tradução da história do Brasil. Maracatu no tambor e o samba no pé. Os músicos do grupo Lambe-Sujo são incansáveis. Todo um dia de caceteiras, alfaias e onça, e muito gogó pra entoar os cânticos. Em as passadas ligeiras, dá tempo de dar uma sambada entre uma virada e outra. O coro do grupo é sempre mais encorpado, tamanha euforia dos brincantes, a alegria contagiante dos sambas sincopados. A diversão infantil de «melar» e ser «melado» por alguns é evitada, mas não há como sair de Laranjeiras num dia de Lambe-Sujo e Caboclinhos sem alguém lhe dar um abraço melado, ou um «Dá, Dá, iô-iô» que não resulte numa «mãozinha» de cabaú. Os Lambe-Sujos lançam até moda. Suas indumentárias tradicionais são incrementadas com óculos escuros, chupetas, colares e pulseiras. A festa, que possui uma maioria de figuras masculinas, agora é invadida por modelitos femininos feitos com a flanela das guritas. A timidez encantadora dos caboclinhos, algozes dos negros, desfila por as ruas com seus passos lépidos e o toque solitário da caixa. Penas de pavão e de galo enfeitam os cocares dos índios, a maioria ainda criança. A princesinha caminha para o seu seqüestro majestosa e coroada com sua 'colta vermelha. As embaixadas são verdadeiros eclipses, êxtases da evolução dos dois grupos. Batalhas simbólicas, momentos de atenção em que nem mesmo na eminência da luta, cessam os sambas. A batalha final consagra os índios vencedores, que saem com os negros a seu encalço a pedir 'molas em nome dos vencedores. O último a se render é o negro vigilante, aquele que vê o sol de mais perto, bem como vê do alto seu grupo se render, ainda festivamente, é claro. O brilho da festa é ofuscado por os brincantes de ânimos exaltados, não zeladores da tranqüilidade e da festa em si. O policiamento foi reforçado por forças de cidades vizinhas, e atrás do maracatu dos negros seguia o carro da polícia. Uma pena, tanta probabilidade de problemas num evento tão singular e significativo. Nem tudo são flores. Mas o encantamento com certeza sobressai os percalços. Vida eterna, a 'sa luta que é mais por a Cultura Popular Brasileira, do que entre índios e negros brasileiros. Número de frases: 29 A capital brasileira do rock, quem diria, 'tá se transformando aos poucos na capital da ... salsa! A dança, claro, não o tempero. Aos poucos, 'sa fusão dos ritmos cubanos e porto-riquenho com os metais das big bands americanas vem conquistando cada vez mais adeptos na cidade e até no Congresso Nacional. Quem não se lembra da já famosa dança da pizza, protagonizada por uma deputada há alguns meses? Aquilo era quase uma salsa, podem crer! Mas como a cidade, famosa por suas guitarras, se rendeu aos tambores afro-caribenhos? A explicação vem do Peru. Foi de lá que chegou, em 1997, Eduardo Antonio Santacruz, para 'tudar administração na Universidade de Brasília. Em sua mala, livros, cadernos e mais de 100 discos e fitas de salsa. Com saudades do seu país de origem, Eduardo passou a organizar festas na universidade. O dj era ele mesmo, já que pouca gente conhecia aquelas músicas. E o pior: quase ninguém sabia como executar as voltas e passos da complicada dança. Pronto! Como todo bom empreendedor, ele descobriu um filão novo e totalmente inexplorado. E em 1999 abriu sua própria casa noturna, o Caribeño. Em uma cidade onde bares e modas aparecem e desaparecem num piscar de olhos, é impressionante notar que o lugar continua sempre lotado. Mesmo já tendo mudado duas vezes de endereço. De a abertura da casa ao aparecimento da primeira turma de salsa foi um pulo. Ou um giro. O pioneiro foi o professor Saulo Borges, primeiro a ensiná-la na cidade, ainda para poucos alunos. Mas daí em diante a coisa começou a crescer rapidamente. E todas as academias de dança de salão de Brasília aderiram ao que parecia uma moda, mas revelou-se bem mais do que isso. As turmas ficaram lotadas. E permanecem assim há pelo menos 5 anos. O resultado é o 1º Congresso de Salsa de Brasília, que promete sacudir a cidade em agosto. Literalmente. A vontade de mostrar que o brasiliense tem salsa no pé é tanta que as academias se uniram e fundaram o BsB Salsa, grupo responsável por a organização do congresso. «Essa união de professores atuando por um mesmo objetivo é inédita no Brasil», afirma Luciana Del Fiaco, participante do grupo. «Por isso, o Congresso de Brasília tomou dimensões de um Congresso Mundial e contará com atrações internacionais de primeiro nível." As expectativas para o evento são as melhores possíveis. E parte de elas já vêm sendo confirmadas: os primeiros 50 pacotes de inscrição, promocionais, 'gotaram-se em apenas uma tarde. E 'tão sendo 'peradas excursões de Goiânia, São Paulo e outras cidades. Nada mal para uma cidade que foi apresentada a 'sa dança há tão pouco tempo. É claro que ainda não 'tamos no nível de São Paulo e longe dos melhores dançarinos do mundo, mas 'tamos trabalhando para tirar 'sa diferença», conta Luciana. «E a previsão é de melhorar ainda mais depois do congresso, com um significativo aumento do número de alunos nas academias». A o som de Célia Cruz, eu, que já fiz também um ano de aula de salsa, começo a me perguntar vários porquês: por que a fascinação de Brasília por 'sa dança? Por que eu, roqueiro desde criancinha, também me rendi ao ritmo? E, principalmente, por que a salsa não é apenas mais uma moda passageira? E Luciana mata todas 'sas charadas de uma só vez: «por meio da salsa, os jovens descobriram o que as gerações mais antigas já sabiam há tempos: o prazer de dançar junto». Verdade. Onde dançar a salsa em Brasília: * 3a feira -- Cactus Mexican Bar -- 415 Sul -- A partir das 22h. Entrada gratuita. DJ Bruno Mendes * 4ª feira -- Café Cancun -- Liberty Mall -- A partir das 21h. DJs variados * 6ª feira -- Caribeño -- Clube ASEL, Av das Nações -- A partir das 22h. DJ Eduardo Antonio Uma vez por mês: * Sábado -- Baile da Academia Estilo e Dança -- Clube Assefaz -- A partir das 22h. DJ Kromado * Domingo -- Almoço Dançante do Studio de Dança By Cia -- Café Cancún -- Liberty Mall -- De as 12h às 18h -- Buffet de massa e saladas. Número de frases: 57 DJ Irineu Alves Tem gente que usa a língua de outra forma. Uma forma mais profunda, ritmada, ao mesmo tempo orquestrada e caótica. Uma forma superior, enfim. E dá um tesão absurdo ... de ler. Clarice Lispector é uma de 'tas pessoas. Com seu método ou não-método de narrar, de expor a veia aberta de suas observações tão cotidianas e ao mesmo tempo tão excepcionais, Clarice nos dá uma aula de campo de como contar histórias, enfiando o dedo, ou a língua, lá no fundo de cada cavidade do existir. Andei lendo 'tes dias um de seus livros. Onde 'tivestes de noite, uma coletânea de contos desiguais, um dos quais dá nome à obra, todos com sua marca -- a absurda profundidade, intimidade. Por vezes me exaspero, como menino, frente às peripécias que 'ta mulher de olhos e olhar tão fortes faz com a língua e com o narrar. Me assombro, tento aprender, desisto. Só Clarice pode 'crever daquela forma impunemente. Só Clarice, ela mesma, pode ir tão fundo. A mim resta absorver o que meus poucos anos e pouca atenção permitirem, e contar o que tiver para contar, do jeito que eu souber. Só ela sabe fazê-lo do jeito de ela. Ninguém é como Clarice quando 'creve. Podem 'crever de outras formas, mas a de ela é profunda e tragicamente só de ela. Clarice é uma sacerdotiza da angústia e da redenção, profunda em sua humanidade e em sua honestidade silente. Há quem a compare com Kafka. Pobre Kafka. Pobre Clarice. Pobre tradutor, que teve a infeliz idéia de que se comparam assim as prosas e as pessoas. Só quem lê Clarice sabe o que é. Só Clarice sabia quem era ela mesma. A nós, resta ler Clarice, e aprender ... ou não. Esta é uma apresentação apaixonada de Clarice, é claro. Mas não se pode negar assim suas paixões. Não quando se fala de alguém que sempre expôs tanto, e foi tão fundo. Não quando se fala de ela -- de 'ta tal Clarice. Para ler mais sobre Clarice Lispector. -- Biografia da autora no site releituras. com -- Algumas obras de Clarice no mesmo site. -- Clarice Lispector no caracol. imaginario. com -- Clarice Lispector na pt. wikipedia. Número de frases: 37 (adaptado de um post publicado originalmente em meu ainda obscuro blog de poesias, fragmentos e anotações) por Francinne Amarante O poeta, compositor e cantor Luís Capucho mostra seu primeiro «CD, Lua Singela» -- produzido por Paulo Baiano e retoma sua carreira nos palcos do Brasil e exterior. Esse ano de 2006 foi 'calado para o projeto Pauta Funarte de Música Brasileira. Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, Niterói, Luís Capucho construiu uma arte visceral e sincera. De as músicas e da poesia de Luís, surgem personagens das sombras e do submundo, amores difíceis e malditos gritam por liberdade e por 'paço para serem exercidos. A canção «Máquina de Escrever», uma parceria com Mathilda Kóvak, foi o primeiro sucesso nacional de Pedro Luís e a Parede e voltou às rádios, três anos depois, na voz de Patrícia Amaral. Outro sucesso, «Maluca», foi gravado por Cássia Eller no disco» Com Você Meu Mundo Ficaria Completo». Luís Capucho é autor do romance Cinema Orly, lançado em 1999 e ganhador do prêmio Arco-íris (2005), na categoria literatura. Basta, chega de apresentações! Capucho é pura poesia. Contato: Número de frases: 12 http://luiscapucho.blogspot.com/ / Você acaba de rodar seu curta-metragem com a avançadíssima Sony HVR-Z1 e, então, após queimar seus olhos semanas seguidas na ilha de edição (um Mac, obviamente), descobre que praticamente todos os festivais brasileiros de cinema importantes não aceitam inscrições de filmes digitais. ( Eu sei, em sentido 'trito, não existe «filme digital» mas apenas «vídeos». Ok. E daí?) «F ... se», você pensa. E, ao investigar, descobre que ainda há muitos dinossauros que desconsideram a produção digital como sendo cinema de verdade ... (!) Ora, será que quando criaram a brochura os defensores do códice saíram por aí a dizer que aquele objeto não correspondia a um livro de verdade e, por conseguinte, tampouco era literatura? Claro que não, trata-se de um falso problema. A grande e irônica prova disso é que 90 % dos leitores de hoje jamais saberiam apontar a diferença entre um códice e uma brochura. Você sabe? ( Se eu não tivesse 'crito, em 1994, na Universidade de Brasília, um trabalho sobre a história do livro, é provável que eu tampouco conheceria tal distinção.) Em 1992, Coppola lançou Dracula, o primeiro longa-metragem de um grande 'túdio editado não-linearmente, isto é, digitalmente. Coppola ... Não-linear ... Dracula ... Correto. Foi gravado em formato digital? Não, foi captado em película, mas já era então possível processar, em computadores, os dados registrados por películas. Para os entendidos: já era possível «renderizar» um filme de alta definição. Logo, o problema nunca foi a capacidade de processamento dos computadores, nunca foi a idéia de que um computador jamais conseguiria trabalhar com toda a informação contida numa película, do contrário não assistiríamos a nenhum filme hoje, haja vista que todos, sem exceção, são editados não-linearmente. Até o Spielberg, que torce o nariz para as câmeras digitais de alta definição do seu amigo George Lucas, edita digitalmente. O cara filma em película, transfere tudo para o computador, edita e, por fim, devolve o produto final para película. É 'te o procedimento. Enfim, o único e verdadeiro problema sempre foi 'te aqui: as câmeras digitais são capazes de captar imagens com a mesma qualidade da película? Resposta: já 'tão praticamente cabeça com cabeça. Em dez anos, quem quiser continuar preso ao alto preço da película só terá uma justificativa para isto: puro fetiche. Melhor faria se todas as noites ficasse nu e se masturbasse em sua própria cama enrolado em 60 metros de película virgem ... Como eu dizia, você procura um bom festival brasileiro que aceite filmes digitais e não encontra mais que três ou quatro. Gramado? Brasília? Não, não aceitam. Pedem um DVD apenas para apreciar a obra e, caso selecionada, exigem a presença da famigerada e nobre película. Sim, para exibição só recebem películas de 16mm ou 35mm, uma coisa super glamorosa. ( Sacou a contradição? Se eles defendem tanto a qualidade da película contra a do digital, por que usam o DVD para avaliar previamente a qualidade dos trabalhos? Bem, na verdade, a questão é outra ...) E a piada de humor-negro por trás disso tudo é que a transferência de vídeo digital para película não sai por menos de R$ 1.000,00 o minuto, uma coisa linda que o faz pensar se vale a pena vender a casa da sua mamãezinha apenas para satisfazer seu ego de artista. Como você é filho de uma geração muito bacana e por isso ainda curte sua mãe, passa alguns dias melancólico, imaginando o quão diferente sua vida seria hoje se sua mãe tivesse sido uma louca 'pancadora de crianças ... Passada a decepção, você inicia uma peregrinação virtual por os sites dos mais diversos festivais internacionais e descobre que até o Oscar aceita filmes digitais (!). E não é só: Festival de Berlim? Aceita. De Biarritz? Aceita. De Clermont-Ferrand? Aceita. De Sundance? Aceita -- assim como mais algumas centenas de outros festivais 'palhados por o mundo, o que você poderá verificar tranqüilamente através do site Withoutabox. com. Em o fundo, creio que tudo não passa mesmo de pura e simples pobreza de terceiro-mundista. Não, pobreza mental, não: pobreza material. Se os vídeos digitais tornam a produção de um filme muito mais barata, por outro lado exigem que o exibidor adquira um novo e 'fuziante projetor digital, que, com o passar de dois ou três anos, deverá ser novamente trocado por outro projetor digital ainda mais 'fuziante e ainda mais capaz. Quem tem dinheiro para isso num país onde se trabalha quatro meses apenas para pagar impostos? Em o final das contas, a culpa não é dos organizadores de festivais e de seu suposto fetiche por película: é dureza mesmo. De aí meu conselho: se você acredita no seu filme digital, gaste dinheiro com a tradução e a legendagem e o envie para festivais internacionais. Afinal, para que servem 'ses festivais? Não é para garimpar talentos? Número de frases: 55 E quem disse que o talento depende do suporte material da obra artística? «A partir de agora 'tá no ar, a Rádio Difusora «RD». Assim teve início o VII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O céu 'trelado abrigava uma sorridente lua crescente, que compunha o visual iluminando o palco montado a céu aberto na Vila de São Jorge. Josino Medina e Paulin Amorim, os Embaixadores da Lua (MG) são os apresentadores da noite, com sua rádio recheada de poesia e música. «Temos hoje aqui a viola de Roberto Corrêa, o canto dos índios Krahô e uma receita de pão caseiro», anunciavam ao som caipira da viola. Enquanto isso, os moradores, turistas e integrantes de outros grupos de cultura tradicional participantes do evento iam se achegando. A dupla finaliza a apresentação da rádio com a música tema dos " Embaixadores da Lua. «Eu vou para a lua ver a lua A lua da lua é a terra E a terra da lua é a lua " É a vez do coordenador geral do projeto, Juliano Basso, subir ao palco. Sua missão é dar as boas vindas ao público, agradecer a presença de todos, aos patrocinadores e apoiadores que possibilitaram a realização do evento. Dança Koiré Em a locução da rádio, começa uma introdução sobre o povo Krahô, os primeiros artistas da noite. «Com vocês, a história da machadinha Krahô», proclamam os Embaixadores. Sob muitos aplausos sobem ao palco doze índios com seu canto Koiré. Visivelmente orgulhosos, e ornamentados com capricho, iniciam a apresentação que agrega desde bebês Krahô até respeitados anciões. De repente, um convite ao público. A o microfone, um dos índios explica que será feita «uma demonstração de como é que o mundo gira». Enfileirados, os Krahô descem do palco e vão formando um grande círculo. Imediatamente o povo se aproxima e a ansiedade por interação é evidente. Amigos, desconhecidos, crianças, adultos e índios giram de mãos dadas ou abraçados numa grande sintonia. Para encerrar sua participação em 'ta primeira noite, os Krahô convidam a todos para visitarem a Aldeia Indígena Multi-étnica, montada 'pecialmente para o VII Encontro de Culturas e que reúne dez etnias indígenas de várias regiões do país. A Folia Religiosidade e fé invadem o ambiente. Para a entrada da Folia de Colinas do Sul, dois adornos 'peciais: o arco da aliança, enfeitado com folhas de bananeira, e o cruzeiro, uma cruz enfeitada com velas. De a rádio vem o anúncio: «E agora a Folia, E agora a bandeira do Divino e de Nossa Senhora do Rosário " O momento é solene. A o som da caixa, a folia se dirige para o cruzeiro. Posicionados em duas colunas que trazem à frente as bandeiras do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora do Rosário, eles se benzem e dão início à cantoria. Vestidos de vermelho e branco, as cores dos santos padroeiros, os foliões abençoam a festa, girando as bandeiras e se preparam para atravessar o arco. Enquanto isso, uma mesa era preparada com velas, uma imagem do Divino, de Nossa Senhora e de São Jorge. Em o palco a cantoria prossegue. Novamente todos se benzem e começa a apresentação de uma dança tradicional da região: a carolina. Em 'se momento, os chapéus são peça importante, complementando a caracterização. Tocando seus pandeiros, os integrantes sapateiam e se movimentam levantando poeira e o público, que se despede com uma grande salva de palmas. Mais uma participação dos Embaixadores da Lua. De 'sa vez eles apresentam o violeiro e pesquisador Roberto Corrêa. A proposta é de uma aula-'petáculo com o tema O Divino e a Música Caipira. Ponteados (solos de viola), clássicos da música caipira como Tristeza do Jeca, modinhas e rasqueados são entremeados por explicações sobre a origem musical dos ritmos, histórias de composições e peculiaridades dos diferentes tipos de viola. O músico fez questão de lembrar a todos que no dia 28 julho, durante o evento, será lançado o CD produzido a partir do registro dos grupos que se apresentaram no VI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2006. Fechando a noite, a simpatia e musicalidade de origem africana. Fanta Konatê encantou o público com a música e a dança tradicional da República da Guiné. Acompanhada por Petit Mamady Keita e Luiz Kinugawa, a cantora e bailarina mostrou a energia e a força das danças da Guiné. O final do show foi «apoteótico». Respondendo aos pedidos de bis, o grupo lançou o desafio. «Só com uma condição. Se vocês dançarem junto». A frase foi o suficiente para que várias pessoas se animassem e subissem ao palco em mais um momento de interação proporcionado por o Encontro. Fim de noite. Apagam-se as luzes do palco. O público se dispersa, e fica a expectativa da programação do próximo dia. É hora de dormir, mas com a certeza de mais festa por a frente. Número de frases: 58 Por Alessandra Alves. Os amortecedores da Kombi 97 são feito uma ninhada de pinto correndo do latido confuso das portas frouxas e das maletas com o equipamento do DJ Doido. Zequinha no volante, o rumo é o bairro do Pirambu. Em 'se domingo de Ceará e Fortaleza no Castelão, a Caravana Hip Hop vai se encerrar ali na pracinha do Abel, na rua Santa Elisa. O objetivo é levar os três pontos. Break, DJ, Basquete de rua. Pirambu? «Vala me deus, sobe o vidro!" São uns 295 mil habitantes ali na beira do mar, logo depois da praia Leste Oeste, copacabosta, um tanto distante da de Iracema e Beira Mar, reduto dos que vêm sedentos por «litoral nordestino». De aqui de cima da avenida o mar 'tá bonito, a galera surfa, pega um bronze, 9 e meia, solzão. O Grande Pirambu inclui o próprio Pirambu, Nossa Senhora das Graças, Cristo Redentor, Colônia, Tirol, Cacimba dos Pombo, Goiabeiras ... Favela metrópole, «tem de tudo aqui dentro», comenta Zequinha. Bairro conhecido [conhecido ... por quem?] por a criminalidade, boca quente. E é justamente por 'sa percepção que a Caravana chega em 3 kombis e um caminhão em 'se domingo. Os bairros 'colhidos foram as quebrada onde os urubus de câmera e microfone sobrevoam: Lagamar, Bom Jardim, Serviluz, Quadra, Barra do Ceará e Pirambu. A Caravana acaba hoje, percorreu 'ses 6 bairros levando o Hip Hop, sua diversão, reflexão. O objetivo foi -- é -- sacudir a localidade, articulando as lideranças e os grupos artísticos locais. Fazer contato, trocar idéia, no jargão chamam isso de plantar uma semente. Coisa do tipo. O repórter 'covinha da TV Diário pegou a pauta desse domingo de manhã. Faz um corre aqui, ali, conversa com alguns, pega imagem, sonora, passagem ... «Dá pra agilizar o trabalho que eu preciso ir pra outra pauta ainda», o pedido é para a Dona Olga, líder comunitária que desde dos anos 90 -- «quando eu comecei a descobrir que os problemas sociais acabam na porta da delegacia» -- trabalha com jovens de risco, daí para o Hip-Hop foi só cruzar os olhares. O evento 'tá atrasado, mas por um bom motivo. O DJ Doido, Cristiano, chegou mais de uma hora depois do horário na Casa de Cultura, na Quadra, sede da CUFA (Central Única de Favelas) e do MCR (Movimento Cultura de Rua). Atrasado, suado, mas com sorriso malicioso. «Minha noite foi beautiful. Fortaleza é linda demais». É meu caro, o break do Conexão P3 se desenrola no papelão, do lado Cristiano já armou as paradas do som, não sei o que toca, coisa em inglês, mas é algo que faz a cabeça balançar levemente, você começa a andar compassadamente e seu dedo é um cano e resolver apontado para o chão. As tabelas 'tão montadas, o basquete rola, mas a bola não kika na mão dos moleques, o jogo é algo que a gente poderia chamar também de street rugby. A pracinha do Abel mais parece um terreno baldio cimentado, mas tem vida meu chapa, naquela manhã tem vida. A vista é para o mar, mas no meio do caminho se vê o canal de 'goto apontando. O menino canta, sentado no muro canta silencioso no canto de ele Vida Louca -- Parte I, fé em Deus que ele é justo! ei irmão nunca se 'queça, na guarda guerreiro levanta a cabeça, truta, onde 'tiver, seja lá como for, tenha fé, porque até no lixão nasce flor ... Eu sou ateu, mas me arrepio todo quando o Brown canta isso. Menino, Cláudio 11 anos, sei lá, o negócio faz rastro, chega e pôu, já era, o menino decorou a música, e se os caras já vendem milhões, o cerco ainda é grande. Ouve na casas dos amigos, às vezes no canal 17, TV União ... Fico devendo um CD para o garoto. O Hip Hop é caso complexo de se analisar. A 'tética que é apropriada, os exemplos dos Estados Unidos. Glamour, status, corrente de ouro, tênis nike, e o resto das bugigangas ... A CUFA 'tá se 'truturando em vários 'tados, o movimento vai se institucionalizando pra se organizar internamente e aproveitar os 'paços 'tatais, mas se posiciona, finca o pé na «base», no concreto, barro, morro. As divergências sempre têm, aqui MCR / CUFA não se bica com MH2O (Movimento Hip Hop Organizado), mas ao que parece não 'tá embarrerando a construção. Preto Zezé 'tá ansioso. Um preto de bigode ralo, voz grossa, articulado. Rapper do Comunidade da Rima, coordenador da CUFA no Ceará, militante das antiga, torcedor do Fortaleza ... mas a expectativa não é com o clássico de logo mais. O filme do Bill e do Celso Athayde vai parar o Fantástico. -- Zezé, tá bonito o negócio. -- Tá né. Com tão pouco a gente pode fazer várias coisas. Muito dinheiro, muito dinheiro ... Porra eu fico olhando assim, porra, se 'sas tabelas, se você pudesse pegar e comprar vinte pares de tabela e não precisa nem mandar nada, só 'colher uma rua lá e deixava elas lá e dava lá a bola para o povo ... Era um impacto da porra. -- Olha o garoto ali. -- Essa porra é pólvora. -- E a caravana? -- É isso. Você incorpora os talentos locais. Toda logística de apoio local foi fundamental. São bairros extremamente precarizados, bairros com problema de violência muito grande. E a gente conseguiu intervir sem que em 'se momento tivesse violência, a gente viu uma possibilidade muito boa de fazer coisas e também de como pode penetrar em 'se universo. A gente conseguiu ser entendido. Porque geralmente tudo que vai lá e junta gente tem que terminar em briga, em tiro. Inclusive os próprios caras que geralmente tão envolvido, eles 'tão participando das coisas. Meio-dia, hora de desarmar o acampamento. 30 mil conto nos bolsos pra fazer. Parceria com a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo da Prefeitura de Fortaleza. Era pra ser o ano todo. Foram dois meses. Fica a experiência e o olhar questionador para quem não tem o dinheiro dos camelos da caravana, mas traz Adriana Calcanhoto, Elza Soares, tá vindo a Rita Lee ... Estamos indo, a cultura aqui 'tá ouriçada, e no mais a política pública vai avançando. As expectativas de prolongar a parceria são boas. As coisas 'tão para os otimistas que acordam cedo com sangue nos olhos, um sorriso leve e 'sa raiva, sutil raiva, isso que faz as pessoas se sentirem vivas, subir num camelo e regar as flores no deserto. Mais fotos Número de frases: 77 Grupo TR.E.M.A. Uma das principais virtudes de Joseph Mitchell, considerado um dos maiores expoentes do Jornalismo Literário, é a fluência dos seus textos. Notório perfeccionista e muito cuidadoso com as palavras, o autor é capaz de dar leveza ao que 'creve e proporcionar horas seguidas de leitura de suas obras, sem que isso seja uma tarefa cansativa. O Segredo de Joe Gould é um exemplo típico de 'sa valiosa característica de Mitchell, um livro do tipo que as pessoas costumam dizer que lêem numa única «sentada», apesar preencher 138 páginas. Mas a fluência textual do 'critor não é o único fator que faz com que o livro possa ser lido de uma vez só, a personalidade extremamente instigante do protagonista é tão responsável por a façanha, quanto as habilidades literárias de Mitchell. O perfil irreverente, por vezes cínico e sarcástico, do boêmio de Nova York consegue despertar o interesse do leitor, que se sente mais próximo de Joe Gould a cada página virada. Essa intimidade entre leitor e personagem é fruto do exímio trabalho de apuração do jornalista, que conviveu vários anos com Gould até concluir os dois artigos que compõem o livro. «O Professor Gaivota, 'crito em 1942», e «O Segredo de Joe Gould, de 1964», são os dois perfis do boêmio, 'critos por Mitchell que juntos dão unidade à obra. Apesar de que a princípio o segundo possa parecer uma reiteração aprofundada do primeiro, aos poucos é possível entender a intenção do autor de juntar os dois artigos num único volume. A o término da leitura, depois da revelação do segredo, não resta mais hesitações acerca de como a união dos textos é imprescindível à coesão e à compreensão plena do livro. Outro êxito da compilação são as pertinentes digressões do autor que revelam partes de sua própria vida e fatos interessantes do processo de elaboração da obra. Alguns trechos metalingüísticos interrompem momentaneamente a descrição das peripécias de Gould e colaboram tanto para a que o texto não se torne cansativo, como para aumentar o interesse do leitor por o protagonista. Em certos momentos da narrativa, Mitchell parece ser capaz de transferir ao texto suas aflições, sentimentos e reações em relação ao boêmio de vida desregrada. Perfil de Gould -- Em a maior parte do livro, Joseph Mitchell se dedica a narrar e descrever a biografia, as idiossincrasias e as irreverências de Joseph Ferdinand Gould, que indubitavelmente representam o ponto alto da obra. Descendente de tradicionais famílias americanas, Joe desiste de se dedicar a um ofício depois que se graduou em Harvard e prefere ser um boêmio de Nova York, que usa roupas poídas, raramente tem mais de um dólar no bolso, vive às custas de favores de amigos e fuma guimbas de cigarro apanhadas no chão das ruas. No decorrer do texto, o personagem se mostra carente e revela imensa necessidade de chamar atenção. Para isso, não se cansa de enumerar suas qualidades, das quais a que mais gosta de exaltar é a capacidade de entender as gaivotas, já que segundo ele, passou bastante tempo as observando. Em as festas que freqüenta, quase sempre sem ser convidado, Gould não perde a oportunidade de expressar os grunhidos e movimentos típicos que aprendeu na companhia das tais aves. Apesar de todas as 'sas excentricidades, o maior atrativo de Joe Gould é o livro que ele 'creve desde o princípio de sua boemia, ao qual ele se refere como «A história oral de nosso tempo». Segundo o protagonista, o livro é o maior já 'crito no mundo, compostos de alguns capítulos de ensaios sobre seus devaneios e outros de transcrição de conversas ouvidas por ele, durante suas perambulações nas ruas. Para Gould, o livro representa o seu maior tesouro e o meio por o qual vai 'crever o seu nome na posteridade e ser considerado um grande historiador dos tempos modernos. Número de frases: 20 Aconteceu no dia 12 de setembro o 1º Encontro de Overmanos de Brasília. Reparem que coloquei em maiúsculas para dar um ar importante. Mas foi importante mesmo. Logo de cara, uma grande afinidade entre os presentes, e muitas boas idéias disputando 'paço na mesa com churrasquinhos e cervejas geladas. Depois de algumas horas de boa conversa, surge a idéia de cada um dos presentes 'crever um pequeno texto sobre o encontro, que publicamos aqui agora. Aproveitem. Thiago Perpétuo São sempre muitíssimo interessantes os apontamentos de mesa de bar. Este último -- do I Encontro de Overmanos e Overmanas de Brasília -- foi mesmo algo de singular. Pessoas de idéias, com conteúdo. Artigo cada vez mais raro nas noites etílicas. Ainda mais quando 'te tal de conteúdo não vem acompanhado do pedantismo. Tudo muito simples, quase família. E em pauta, planos, metas, projetos para a cultura que, muitas vezes, os jornais, «com seus segundos cadernos» não vêem. E as projeções sobre 'te tal ofício, a de colaboradores deste nobilíssimo 'paço de comunicação, são mesmo animadoras. Vem mais de Brasília por aí. Uma Brasília que não 'tá nos folhetos frios das agências de turismo, e passa longe das percepções engessadas dos detratores da Capital (os que pensam como uma tal de Cicareli, de que os daqui são como os que vêm de todo o canto, com seus ternos e falácias, e 'banjam maracutaias no Congresso Nacional). Há uma Brasília a ser descoberta, desvendada e exibida ... a verdadeira Capital, pulsante e acolhedora, com seu provincianismo sofisticado, e que chamo de lar. Ana Cullen De um jeitinho bem informal nos encontramos na terça, pra tomar um caldo, comer um churrasquinho, beber uma cerveja e trocar idéias, experiências, anseios, curiosidades sobre o Overmundo, sobre nossa relação com Brasília, sobre nossas histórias engraçadas, sobre nossas produções e formações ... enfim! O primeiro encontro dos overmanos e overminas (por enquanto só eu ...) de Brasília aconteceu de modo bem solto, como velhos amigos se encontrando para compartilhar coisas que andaram acontecendo nos últimos tempos; acontece que não eram velhos amigos, mas uma rede (pequena ainda) de novas amizades que 'tava sendo construída alí, baseada em interesses comuns: a paixão que desenvolvemos por 'se mundo que é o Overmundo, a vontade de conhecer a cultura brasileira, de divulgá-la, de fazer algo por a cultura brasiliense, de ler /ver/ouvir produções artísticas que 'tão sendo feitas por 'se país e divulgar as que nós fazemos ... Foi o primeiro de muitos! Daniel Duende Chegamos adiantados, eu e Ana, como não é de nosso costume. Estávamos ansiosos. Já na chegada, uma má notícia -- nosso garçom predileto havia se demitido após uma briga com o dono do bar e, portanto, os outros garçons haviam 'quecido de colocar nossas Heinekken 600m l para gelar. Tudo bem. «Fi-di-pobre bebe tudo», não é? Em o mais, o bar não 'tava cheio, mas foi necessário algum 'forço para conseguir arrebanhar mesas e cadeiras suficientes para atender às nossas melhores expectativas de comparecimento para o Primeiro Encontro de Overmanos de Brasília. Valeu a pena. Eventualmente os alquimistas começaram a chegar ... DPadua e seus cadernos caóticos de anotação; o xará Daniel Cariello e sua perspicaz companheira das terras da Gália; Thiago -- o nosso pequeno-grande Perpétuo; e, como uma agradável supresa, nosso novo amigo Gustavo Lucas (o nosso filósofo de privada). Sentados à volta das duas mesas de metal e devidamente providos de copos e acepipes, começamos uma agradável conversa de novos-velhos amigos. Cariello nos falou um pouco sobre os encontros nacionais já realizados, sendo devidamente complementado por nosso amigo DPadua em vários pontos. Nos pusemos então -- uma vez que devidamente informados sobre o que anda rolando por o Overmundo afora -- a conspirar ... Falamos sobre 'tratégias de propaganda / difusão do Overmundo (e suas propostas) na blogosfera brasiliense e nos cursos de jornalismo (e afins) da Cidade, e falamos sobre planos de novos eventos e programas de rádio ... e, claro, planos para a dominação do mundo de Brasília. Mas 'ta foi apenas uma parte da coisa. Em a maior parte do tempo trocávamos histórias, idéias, confidências, anedotas (no sentido lato da palavra, pois somos pessoas sérias, ó pá!) e referências sobre a cultura de Brasília de hoje e ontem. Falou-se sobre a queda do regente de nossa orquestra (ignorada por as mídias ...), dos shows do passado e do presente, da literatura da cidade ... de tudo um pouco, enfim. De 'tas conversas surgiu uma pauta gordota e graciosa de matérias que ficariam muito bem no overblog. Falamos também sobre a importância da «pessoalidade» no Overmundo -- em contraponto à «jornalisticidade» -- e sobre como são mais interessantes as publicações do Guia Overmundo quando apresentam o ponto de vista de um freqüentador apaixonado em vez de um guia turístico ... Foi, enfim, um longo bate papo que se 'tendeu até o fechamento do Steak Rio -- que já teve um serviço melhor mas continua um excelente botequinho. Saldo final, algumas pessoas notáveis traçaram ou reforçaram laços de amizade com outras pessoas notáveis (ou, trocando em miúdos, " viramos tudo bródi, sacou?"), comeu-se e bebeu-se bem razoavelmente, e muitos planos, idéias, projetos, sonhos e propostas foram trocadas, discutidas, acertadas, combinadas. Aguardem por as próximas notícias dos destemidos e alegres Overmanos do DF ... Em tempo ... A conta? menos de 70 reais. Overencontro bom é Overencontro barato, divertido, produtivo e criativo ... e tenho dito! :) Gustavo Lucas De entre os 'combros de parcos pensamentos bons sobre Brás-ilha, um encontro marcou os neurônios de alguns. Pensamentos de Brasilienses natos (todos ainda são natos por aqui). Não por parcimônia adquirida ou maluquice transviada, passamos todos por um momento particip-ativo. Cerveja é de golada. Vemos, mas não nos encontramos, perdidos por (h) 'tórias de indivíduos. Era de cada um a voz. O sorriso não era um artigo preciso. Era precioso. Duas notas tocaram minhalma em 'te dia: lá e si. Visitamos lugares conhecidos, outros não. De que mais necessito em 'ta cidade «fria»? Ser quente, ora bolas! Seria 'pantoso não acreditar no destino, ou era acaso, sorte. As coisas passam por nós ou nós passamos por as coisas? Palavras, encontros desencontrados? Basta uma mensagem, sentimento. Um abraço para a boa sorte. A voz surda do poeta não mais ecoa por as marquises só. Ganhou um coro. Será que podemos e / ou devemos acreditar em algo? Daniel Cariello -- Xará, já tô aqui. Traz um papel 'crito «Overmundo», para a gente colocar na mesa. Quando o Daniel Duende me ligou eu ainda 'tava em casa. Mas faltavam 15 minutos para começar a reunião. «Deve 'tar bombando», pensei. Organizei os papéis com uma pseudo pauta de discussão e saí correndo pra lá. Bem, bombando não 'tava. Mas todo mundo que disse que ia realmente foi. E isso foi bacana. Éramos 6 pessoas. Em o auge, chegou a 7. E o papo girou em torno de pautas, parcerias, textos do overblog e outras possibilidades para o site. Tudo regado a cervejas, caldos e churrasquinhos com preços que fariam qualquer grupo de cultura popular rodopiar de felicidade. Depois de muitas (ótimas) idéias anotadas, a percepção comum de que «precisamos nos encontrar mais vezes». O garçom já tinha recolhido todas as mesas em volta da gente. E aí cada um se dirigiu para sua casa, com aquela semente de revolução na cabeça. Número de frases: 100 Eis o resultado de impressões e conversas ao longo de dois dias: um, na noite de lançamento do Ciclo de Palestras Sopa de Pedras, sobre alimentação, na casa em que eles realizam eventos na Rua do Mercado; o segundo, no dia seguinte, na sede do grupo, no quarto andar da Fundição Progresso. Registro feito por uma câmera de vídeo e o duo iPod + iTalk. Apresentação (por Bruno Maia): A Georgiana, todo mundo que 'tá na faixa dos vinte e poucos anos conhece. Ela era a segunda filha da série «Confissões de Adolescente», ícone dos anos 90, aquela do cabelo meio raspado ... Tranqüila, hoje ostenta cabelos bem mais compridos do que naqueles tempos. Tanto ela quanto o resto da equipe demonstram entrosamento nos dois encontros, sem muitas interrupções de um sobre as falas dos outros. Cada um respeita o momento e o discurso do companheiro de uma forma particular, sempre se complementando, nunca se atropelando. Apresentação feita por os próprios: Helena Stewart: Eu sou Helena Stewart ... Georgiana Góes: Só isso? Já acabou sua apresentação? ... HS: Não ... você quer que eu fale do grupo? GG: Fala um pouco de você e tudo ... fala o que você faz no grupo, sei lá, é formada ... HS: Eu sou atriz, a gente formou o grupo em 2001, alguns do grupo já trabalhavam juntos em outros grupos, e outros em outros grupos, então a gente tem 'se histórico de trabalhar em grupos de teatro. A gente formou o Pedras em 2001, montamos um 'petáculo de final de curso de faculdade, curso de direção teatral, depois reestreamos 'te 'petáculo com algumas modificações. Em 2004, a gente montou O Muro, que é o segundo 'petáculo do grupo e tem o fato de que a gente mesmo 'creveu, dirigiu, produziu ... GG: Eu sou Georgiana Góes. Faço parte do grupo desde o início, em 2001. Trabalhei 10 anos no «Atores de Laura», que é um outro grupo. Em 2001, nós montamos o Pedras justamente com o objetivo de ter mais autonomia sobre o nosso trabalho, em todos os sentidos: o que a gente gostaria de montar artisticamente, como a gente gostaria pensar 'sa gestão, os rumos que gostaríamos de tomar, que tipo de pesquisa no trabalho do ator. Essa é uma das características do grupo, investigar linguagens ... a gente chama de técnicas tradicionais do trabalho do ator, então nós nos identificamos muito com o trabalho de máscaras, desde a Comédia Dell ' arte ... a gente se identifica muito com a linguagem de palhaço, aprendemos muito com o pessoal do Teatro de Anônimos, que são nossos sócios na sede da Rua do Mercado, próximo a Praça XV. A gente troca muito com outros grupos como o Lume, ligado à Unicamp, outros grupos que, como nós, fazem parte da Casa (Cooperativa de Artistas Autônomos). Além disso, sou atriz, trabalho também como produtora e co-dirigi o nosso primeiro 'petáculo, o Restin, que era uma reunião de textos de vários poetas brasileiros e nós usávamos andarilhos para falar aqueles textos e, além disso, sou formada em teoria do teatro, por a Uni-Rio. Marina Bezze: Meu nome é Marina Bezze, eu sou atriz, jornalista, bailarina e astróloga, (risos). E, na verdade também, minha formação de teatro mais forte foi no Parque Lage, onde eu participei da montagem de peças que ficaram muito tempo em cartaz. Acho que, com o Pedras, a gente nunca subiu num palco. O Restin, a primeira peça, era montada em arena e para O muro, nós construímos uma 'trutura que lida com 'paço aberto. A gente pesquisa muito 'sa relação com o público, que pra mim é uma coisa que já vem desde o Parque Lage. Diogo Magalhães: Bem, meu nome é Diogo, eu não sou muito de falar, mas em 2004 eu fui convidado para o grupo, por a Marina. Nós 'tudamos juntos no Parque Lage. Ano passado eu tive a chance de participar do Restin, já que a Adriana, que é do grupo e fazia a peça, 'tava viajando. E é isso. As apresentações foram longas e já indicaram muitas coisas. Inseridos na execução do Projeto Cultural Mercado do Peixe, que vem revitalizando a Rua do Mercado, no centro do Rio, o Grupo Pedras enxerga um movimento mundial de reaproveitamento de 'paços conduzidos por artistas. «Em várias grandes cidades do planeta isso 'tá acontecendo e no Rio de Janeiro isso também vem se realizando de uma forma feliz. A Lapa (região boêmia do centro da cidade) foi um exemplo disso, com os movimentos 'pontâneos que foram surgindo e os movimentos que se organizaram a partir dos primeiros, em pólos gastronômicos, pólos culturais, etc.. Agora, 'tá acontecendo algo parecido lá na Praça XV, mas ainda 'tá no início», explica Georgiana. «Esse movimento todo, dos anos 2000, tem a ver com uma coisa de resgate que é uma pouco resposta a todo o processo de modernização que se viveu. Uma sociedade que se apropria de 'sa tecnologia nova, mas que resgata o passado. Essa identidade histórica é muito forte no centro do Rio de Janeiro e não é à toa o fato de 'tarmos lá», completa Marina. Em o caso 'pecífico da casa onde o grupo se apresenta -- localizada no número 45 da tal Rua do Mercado, bem próximo ao Centro Cultural Banco do Brasil e à Candelária --, o pioneirismo foi do Grupo Teatro de Anônimos, que comprou a casa no ano 2000. «Era uma casa que tinha três andares e tinha sido restaurada em 1999. Mas três meses depois de uma linda reinauguração, pegou fogo. Isso fez com que o imóvel se desvalorizasse e o Anônimos pudesse comprá-lo. Durante o pagamento das promissórias, eles viram que precisariam de ajuda dos parceiros de eles e nós entramos, junto com o Cordão do Boitatá», explicam as três moças. Diogo assiste a tudo calado e aquiescente. Junto com 'sa junção de artistas, outros movimentos de reurbanização da região se somaram, fizeram melhoras 'téticas e fecharam a rua à entrada de carros. «Em o início, éramos apenas nós ali. Aos poucos, algumas pequenas coisas começaram a acontecer na região e nós íamos angariando. Um amigo fazia uma peça ali no Arco do Teles, depois o outro vinha e fazia algo que começava na Praça XV e terminava na porta da casa ... Aos poucos, as pessoas foram vendo que aquela galera, daquele sobrado, 'tava fazendo alguma coisa. A gente sempre dava um jeito de fazer alguma coisa, nem que fosse de graça ...», conta Marina. A casa é simples. Por dentro, um terreno retangular que -- de olhômetro -- deve ter uns 70m², com um pé direito altíssimo. Mesas e cadeiras, como 'sas de bar, 'tão 'palhadas por o ambiente. Há um segundo nível, que não pode ser considerado um andar -- só ocupa uma parte da área e só é acessível por uma 'cada, de 'sas de parede, em que se sobe segurando com as mãos os degraus de cima e impulsionando nos degraus de baixo. «O objetivo é transformá-la numa mini-casa de 'petáculos. A idéia é bagunçar mesmo aquela região da Praça XV. Estamos tentando captar recursos para reformar, criar um teatro pequeno para 70, 80 pessoas e fazer um segundo e terceiro andares com salas para os grupos que participam da cooperativa. Queremos construir também uma salinha de ensaios, mas, por enquanto, nós ainda não temos nenhuma 'trutura lá dentro», conta Georgiana. Antes da realização de 'ta matéria, só conhecia o trabalho do Pedras através de alguns pequenos e curtos pedaços de matérias em jornais. Por isso, durante a produção, entrei em contato com o grupo para saber quando teria um novo evento na casa. Fabrício Dornelles, do Departamento de Comunicação da Casa, me enviou a filipeta virtual do Sopa de Pedras, a produção do Pedras programada para o mês de maio. Li rápido, só para checar o dia e o horário. Eis que, para surpresa deste jornalista, ao chegar lá, uma palestrante falava sobre qualidade alimentar. Primeiro, achei que fosse alguma das atrizes do grupo e que aquilo seria uma 'quete que se revelaria em pouco tempo. Que nada! mais de uma hora e pouco depois, ela ainda falava e já 'tava claro que Rachel Barros não era uma atriz e, sim, uma educadora alimentar. Georgiana Gões era o único rosto conhecido por mim. Procurei e a avistei, vestida com uma camiseta branca, uma flor vermelha na orelha e um avental. Dedução lógica de que as outras moças vestidas de maneira parecida deviam ser do grupo. E a peça? Não vem? Eis que Rachel Barros acaba a apresentação. Agora vai começar, né? Nada. Helena Stewart e Georgiana Góes explicam que será servido uma degustação de alimentos, chás e sopas que fazem bem à saúde, e que depois vai rolar um filme. Mas elas querem avisar que o 'tacionamento de carros nas redondezas ainda não é muito seguro e que, por isso, entendem se algumas pessoas não ficarem para a sessão. A noite de quarta-feira já flertava com as 22hs. Meu carro 'tava muito a esmo e, com todo o pé-atrás que os cariocas têm em maio de 2006, parti. A pergunta da minha namorada -- que, lindamente, aceitou me acompanhar apesar da dor-de-cabeça que a atormentava desde a manhã -- é perfeita: «Eu adorei, agora, me explica? Não era teatro?" Era, ué. Mas não era. Ficou evidente que o trabalho desenvolvido por o Pedras é ligado à cultura. O que justificava aquilo tudo era a discussão de um aspecto cultural, no caso, a comida. Aquela tinha sido apenas a primeira de uma série de cinco palestras envolvendo 'te tema no mês de maio. O tratamento da cultura é feito de forma mais ampla. «Somos um grupo de arte, antes de sermos um grupo de teatro. O teatro é o nosso instrumento, mas nós somos artistas muito alimentados por a função da arte», afirma Georgiana. Uma nova informação fecha o sentido, inicialmente incompreendido, sobre o evento da noite anterior: «O nosso próximo 'petáculo vai se chamar Mangiare e tratará da comida. Este ciclo já 'tá sendo uma preparação, abordando várias formas da relação do homem com a comida», revela Georgiana. Ainda sem data para 'treá-lo, o grupo lamenta que as condições financeiras não permitam um horizonte mais claro. Para quem 'tá acompanhando 'ta série, deve parecer que o jornalista quer direcionar sua pena (ou, no caso, o teclado) contra o poder público, mas isso não é (necessariamente) verdade. Mais uma vez, as reclamações surgem no discurso e, rapidamente, se multiplicam. «É uma loucura, uma contradição. O que manda geral na história da captação de recursos é ter um nome, sim, é quem pode vender melhor um produto, sim, e isso se confronta com a nossa paixão em levar o trabalho adiante. É 'se amor misturado com uma tristeza, com um desânimo. Eu tenho quinze anos de carreira e até hoje não tenho independência financeira disso, mesmo botando um monte de projeto na praça, 'tando de olho nos editais ... Só que sempre são as mesmas pessoas 'colhidas». Não demora e pipocam os inconformismos diante da liberação através da Lei Rouanet de R$ 9,4 milhões para a vinda do Cirque du Soleil ao Brasi l." Essa história é uma vergonha. Enquanto isso, a gente 'tá sempre penando para conseguir o aval e captar cinqüentinha, vinte aqui, cem ali, para os nossos pequenos projetos», reclama Georgiana. Helena Stewart emenda: «Nós fazemos parte de um grupo que não coloca ator como um ser 'pecial na sociedade. O ator é um trabalhador, que tem que ganhar dinheiro com o trabalho». Em uma visão bem ligada a do cenário urbano caótico e violento do Rio, Georgiana completa: «Nós somos não só guerreiros, como guerrilheiros quando fazemos arte numa cidade como 'ta. Fazemos parte de um movimento de ocupação de território, que tem uma idéia própria de modelo de gestão cultural». * * * * * * * * * * Não coube na matéria, mas segue o link onde o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, comenta a liberação da verba. Número de frases: 125 Creio que chegou a hora de perguntar: Há algum tipo de censura no Overmundo? Uns dois dias depois de começar a postar sobre a Mostra, me dei conta de que 'tava falando de filmes 'trangeiros num site sobre cultura nacional. Mas dois membros mais versados que eu me deram um tapinha nas costas dizendo " Não se preocupe, como 'tá inserido num evento nacional, ainda vale. E mesmo assim, temos que ver como a comunidade aceita os seus textos." ( 'ta não é uma citação literal). E eis a chave: Vamos ver como a comunidade encara. Se todos passarmos a 'crever sobre produtos internacionais no Overmundo o que poderá acontecer? Haverá uma censura ativa? Dedicado a Hunter Thompson, Fuck lida um pouco com isso. Em minha opinião no Português não existe uma palavra como Fuck. Claro que podemos traduzir como foda ou foder, mas como traduzir motherfucker? fode-mãe ou come-mãe? E quanto a abso-fucking lutly? Absolu-foda-mente? Não tem a mesma graça. Foda não é tão flexível quanto Fuck. Por o mesmo motivo o documentário não é sobre a palvra Cunt (boceta, muitas vezes usada para chamar um homem de viado ou uma mulher de completa filha da puta, uma versão mais intensa de bitch -- erroneamente traduzido como puta), uma palavra muito mais ofensiva, algo inclusive apontado por Drew Carey no documentário. Cunt não é tão flexível, não há o verbo Cunt, o que limita muito o seu uso, ao menos por enquanto. Mas chega da aulinha de inglês. O documentário gira em torno de inúmeros depoimentos de artistas (incluindo duas 'trelas pornô) linguistas e outras figuras importantes conservadoras e liberais. Há algumas animações simpáticas 'palhadas, usadas para pontuar os tópicos discutidos nas cenas a seguir, e várias imagens de arquivo com notícias relacionadas ao uso da palavra e de profanidade em geral. Não há momentos excepcionalmente interessantes, ao menos não que sejam um produto dos documentaristas em si. Para quem conhece, o formato lembra bastante aqueles programas de Top 101 qualquer porcaria que passa no canal E! E não foge muito disso, exceto por a trilha sonora muito bem selecionada. Os momentos mais interessantes são quando a edição toma um papel mais ativo e parece simular uma conversa, um debate em tempo real, entre os entrevistados. Há algumas imagens preciosas, como alguém mandando Bill Clinton se fuder numa coletiva e Bush mostrando o dedo pra uma câmera. Há todo um segmento dedicado às fodas presidenciais. O debate em si é muito interessante, pois evoca direitos universais do homem. E isso é claro toma a forma da Primeira Emenda da constituição Estado-Unidense, apesar da maioria massacrante dos entrevistados serem norte-americano, o filme é inteligente o suficiente para nos explicar quais são as emendas em debate, e é Bill Connolly (ator 'cocês) que aponta que Fuck já é uma palavra universal. Fuck parece bem neutro em apresentar os debates e fatos, mas obviamente 'tá do lado dos fodedores, entretanto, a impressão que fica é que os conservadores acabam metendo os próprios pés por as mãos sozinhos e fazendo papel de bobos ('pecialmente Pat Boone) sem haver a necessidade de ridicularizá-los ativamente. O filme é curioso, mas não brilhante em si mesmo. Vale a pena ser visto na Mostra apenas por o fato de não haver previsão de 'tréia, ou como algo para relaxar. Mas a questão que deixo aqui é: Se a maioria das pessoas querem foder, que direito tem uma minoria de impedi-los? Número de frases: 35 Qual o limite da liberdade? Imagine um lugar ... Igreja iluminada, bandeira de São João hasteada, Prefeitura na praça principal, pessoas sentadas na calçada, ruas de paralelepípedo, céu coberto de bandeirinhas, barracas de comidas típicas ... Tudo isso em volta de um grande pátio. Conseguiu? Esse lugar é São João do Jaguaribe (e o padroeiro da cidade é São João, lógico!), região do Vale do Jaguaribe, 220 km de Fortaleza. Longe der ser mais um desses cenários cenográficos tão comuns nas grandes festejos juninos hoje em dia, o local foi 'colhido para sediar a terceira final do VIII Festejo Ceará Junino. E poderia ser em outro lugar? Entre os dias 30 de junho e 02 de julho, passaram por a cidade 14 grupos campeões das 18 eliminatórias realizadas em todo o Estado. Após a maratona de apresentações, a comissão julgadora formada por 5 membros, (entre eles atores, bailarinos, folcloristas e uma represente da Federação das Quadrilhas Juninas do Ceará), 'colheu a grande campeã do concurso. Quadrilha Ceará Junino (isso mesmo, o nome foi inspirado no concurso), de Fortaleza, que se apresentou no domingo e trouxe a fogueira como tema. Em quadra, cerca de 40 pares, figurinos coloridos, adereços cênicos e animação dos dançarinos. Além do primeiro prêmio, a Ceará Junino levou também o troféu de melhor casamento. Para o diretor do grupo, Roberto Souza, um dos objetivos para 'se ano era a conquista desse título. «A gente se preparou para isso, representar o Ceará em Natal no Nordestão e divulgar o nosso nome». Souza manifestou ainda a surpresa em relação à 'trutura do evento: «Está maravilhoso. Foi uma surpresa ver 'sa produção toda, até por 'tar no interior. A organização 'tá de parabéns». Realizado por a em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado -- Secult Prefeitura de São João do Jaguaribe, o evento fez com que a cidade se enfeitasse toda e entrasse no clima de " São João. «A gente entendia que não é missão do Estado fomentar a competição, mas houve a reivindicação do movimento. Escolhemos São João porque ano passado o município nos procurou e apresentou um projeto muito bom " afirmou a Coordenadora do Festejo Ceará Junino no Estado, Diana Gomes que falou ainda: «A cidade tem a mística do São João no nome. E quem sabe pode se tornar uma nova Caruaru». Em a área de apresentação das Quadrilhas uma arquibancada para mais de 7 mil pessoas, que assistiram aos mais diversos grupos, falando de temas também bastante diversificados. O casamento matuto, uma atração à parte, provocou gargalhadas. Entre os destaques a apresentação o Arraiá São João Batista, da cidade, lotou o 'paço. Todos queriam ver a «prata da casa». Falando sobre a água, a multidão aplaudiu e vibrou. Resultado, Vice-Campe ã, melhor Rainha e melhor Marcador. Em o encerramento, autoridades como o Prefeito Acácio Chaves e a Secretária de Cultura adjunta, Lucia Cidrão elogiaram o evento e a qualidade dos grupos. Ela chegou a cantar " olha que isso tá muito bom / Isso aqui tá bom demais ..." e prometeu: «garantimos que todos os Festejos Ceará Junino serão encerrados em São João do Jaguraibe daqui para frente». Quem 'tava presente aplaudiu. Festejo Ceará Junino Foram investidos R$ 234 mil, do Fundo Estadual de Cultura. A oitava edição do evento contemplou 18 projetos de festivais eliminatórios para a grande final. A o total 80 grupos concorreram em 4 (festivais) na Região Metropolitana de Fortaleza e 14 em macrorregiões do Estado. Cada um dos selecionados recebeu R$ 13 mil. Este ano ocorreu o retorno ao formato que vigorou por a última vez em 2002, quando os festivais selecionados serviam como eliminatória para a grande final em Juazeiro do Norte, 528 km da capital. A premiação máxima até então teve como campeã, ou melhor, bi campeã, a Quadrilha Fulô do Sertão, de Senador Pompeu, 273 km de Fortaleza. Número de frases: 43 Meu último 25 de setembro foi muito diferente. Em a tarde daquele dia fui desenvolver um projeto da disciplina de fotojornalismo lá da faculdade. A idéia era acompanhar um dia de trabalho dos repórteres fotográficos dos jornais da cidade. Escolhi o jornal Tribuna do Norte, muito mais por comodidade da minha parte (trabalho na mesma rua do jornal), do que por qualquer outra coisa. O prédio da Tribuna do Norte fica no velho bairro da Ribeira. De arquitetura confusa, o local mais parece um labirinto. É um tal de desce 'cada, sobe 'cada, dobre aqui e vira ali e voilá. Passei por a redação e cheguei, finalmente, à sala de fotografia. É certo que cruzei a redação em segundos. Mas foi o suficiente pra perceber que o clima na sala de fotografia era bem mais descontraído. Contrastava com a polidez da redação; com todos os repórteres um tanto quanto reflexivos e preocupados com a 'crita dos textos. Ana Silva, a editora de fotografia, me apresentou aos fotógrafos e disse que eu seguisse o repórter fotográfico Emanuel Amaral, o próximo na 'cala de trabalho. E assim aconteceu. O nosso primeiro destino era acompanhar uma sessão no Tribunal Regional Eleitoral e ver o que 'tava acontecendo. Sobre 'sa pauta, Emanuel foi comunicado verbalmente. Não sabia ao certo o que deveria fotografar. Enquanto nos dirigíamos ao TRE, pergunto ao Emanuel de onde veio o seu interesse por fotografia. Ele me disse que trabalhou durante muito tempo num laboratório fotográfico e, que de tanto ver fotos, resolveu um dia começar a fazer os seus próprios clicks. Chegando ao TRE, acompanhamos o andamento da sessão por, pelo menos, uns quarenta minutos. Emanuel procurou fotografar todas as partes envolvidas e explorou todos os ângulos possíveis. Fotografou em pé, sentado, com flash e sem flash e ainda trocou de lente três vezes. Entre uma fotografia e outra, Emanuel me contava sobre a 'trutura da " Tribuna do Norte. «Lá são seis fotógrafos ao todo. E as pautas variam entre duas ou três por fotógrafo. Mas quem trabalha de tarde, muitas vezes trabalha bem mais do que quem trabalha pela manhã». Isso acontece porque as pautas do turno da manhã «caem», vez por outra e, passam a ser executadas no período da tarde. O que acaba sobrecarregando o trabalho de Emanuel e outros colegas de turno. Em o jornal, as máquinas são alugadas por a empresa. Emanuel, que é repórter fotográfico há mais de dez anos, trabalha com uma câmara digital Canon Z0D. Sobre a fotografia digital, ele filosofa. «A fotografia digital é prostituída. Todo mundo vê a foto e dá pitaco." E ainda sentencia. «Pra ser um grande repórter fotográfico, tem que 'tar atento». O gabinete e a santinha O próximo passo era ir até o gabinete do Deputado Estadual Luiz Almir. Abro aqui, um parêntese sobre a figura pitoresca do Deputado. Luiz Almir, sujeito bonachão, além de cantor de música brega (seresteiro de talento duvidoso) e apresentador de TV, 'tava anunciando a sua pré-candidatura à prefeitura de Natal, uma vez que, em pesquisa encomendada por outro pré-candidato, o nome de Luiz Almir aparecia na segunda posição. O gabinete do deputado era pequeno e repleto de fotos de ele mesmo enfeitando as paredes. Eu e o repórter Everton Dantas nos sentamos. Emanuel ficou de pé e começou a fotografar o deputado. Pouco tempo depois, percebi a imagem de uma santa sobre a mesa do deputado. Abro aqui, o segundo parêntese. Em o programa de TV de Luiz Almir, o deputado lê todos os jornais da cidade e comenta as notícias. Para o bem e para o mal. Além de certo populismo e demagogia, Luiz Almir sempre clama por as graças de uma santa que em momento algum sai do foco dos seus câmaras-man. Só vendo mesmo ... Voltando ao gabinete e à imagem, devo confessar. Não sou muito bom de santa, mas acho que era a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A santinha 'tava virada de costas para mim. Tirei minha máquina digital da bolsa, me lembrei do programa do Deputado e tive uma idéia. Virei a santa ao contrário e tentei uma fotografia. Coloquei a «imagem» em primeiro plano e o deputado por trás de ela. Emanuel, ao ver o que eu 'tava fazendo, achou a idéia boa e pediu para trocar de lugar com mim. Colocou a santa mais próxima ainda do deputado e tirou, uma, dois, três fotos. Aproximou a santa mais e mais e disparou o flash outras duas vezes. Pronto. A fotografia 'tava feita e na manhã seguinte era editada com a seguinte legenda: «Deputado Luiz Almir garante que vai concorrer». Em 'sa fotografia, só uma coisa não saiu como deveria. Em a hora de creditar a foto, 'queceram de colocar o nome de Emanuel Amaral. Ao invés disso puseram «Arquivo Tribuna do Norte». E agora José? Depois da visita ao gabinete de Luiz Almir, a próxima parada era uma colônia de pescadores próximos à Macaíba, município que fica a menos de 20 km de Natal. Desde o desastre ecológico * há pouco mais de dois meses, os pescadores da comunidade de Água Doce 'tavam passando por dificuldades, já que a pesca 'teve proibida por um bom tempo. O repórter agora era Itaércio Porpino. Dono de um texto sensível e preocupado 'teticamente com as matérias que 'creve, Itaércio demonstrou todo o cuidado em nos explicar a pauta. Antes de chegar naquela comunidade, Itaércio perguntou: «Será que vai ter algum José por lá?" -- E eu respondi: «Acho que pelo menos uns três." Perguntei se era por causa da poesia de «Carlos Drummond de Andrade»,» José». Ele disse que sim; queria construir uma narrativa usando o poema como fio condutor. E assim ele fez. Mas antes disso, ao chegar à colônia, não tinha os três Josés como eu havia previsto, tinha dois, na verdade. O primeiro, José Fernandes, sete bocas pra dá de comer, conhecido como Zé Preto, 'tava de cócoras costurando a rede de pesca. Emanuel se agachou e tirou fotos de seu Zé Preto de Plano Médio * e muitas outras buscando acentuar o detalhe das mãos do pescador tecendo sua rede. Seguindo adiante, encontramos o segundo José. O José Nunes de Oliveira, acompanhado por o amigo e também pescador, Luiz Dalvino da Silva. Seu José Nunes e o seu companheiro Luiz também 'tavam consertando as redes de pesca também. Em o local, uma casinha simples na beira do rio Potengi. Por traz dos pescadores havia uma canoa velha, remos encostados na parede e a rede de pesca se 'tendendo por a área da casa. Emanuel e Itaércio ficaram felizes, pois sabiam que seria possível compor uma boa fotografia, sendo 'se um cenário riquíssimo. ( Pelo menos sob a ótica fotojornalística) Emanuel fez cerca de 10 fotografias. Explorou todos os ângulos e nuances que lhe davam na ' telha '. Como a foto de seu Zé Preto, Emanuel procurou mostrar o detalhe das mãos do velho pescador tecendo sua rede, enquanto eu e Itaécio ouvíamos o seu José Nunes e o seu Luiz Dalvino reclamarem da falta de peixe e ainda dispararem dezenas de aforismos de cunho político. «Esse povo só vem aqui atrás de voto. ' Que dê ' que vieram mais aqui. Vem mais nunca ...». E o resumo da ópera é o seguinte: do TRE eu continuo sabendo pouca coisa sobre o seu funcionamento. De o deputado e seresteiro Luiz Almir, concordo com as palavras de ele. «Em a disputa por a prefeitura no ano que vem, será o brega contra o chique». Os pescadores, coitados, acostumados a pegar uns 60, 70 e até mesmo 100 kg de peixe por dia, 'tão tendo que se contentar com mirrados 15 quilos e olhe lá ... Enquanto o mundo gira, o fotojornalismo como prática do jornalismo por meio da linguagem visual, não substitui a linguagem verbal dos meios de comunicação impressos. Ao contrário, elas caminham juntas e se completam; aproximam os leitores da notícia. Finalizando, termino a narrativa com a virtuosa comparação do fotógrafo " Emanuel Amaral: «O repórter fotográfico é como um médico, se ele 'tiver na rua e acontecer um acidente, ele tem que prestar o socorro. Assim são os fotógrafos, o comprometimento com a fotografia dever ser de 24 horas por dia». * Plano Médio: Em o enquadramento das fotografias feitas em Plano Médio, o corte é dado acima da cintura, podendo ser mostrado mais aberto ou mais fechado, conforme a intenção do fotógrafo. Elimina-se a parte do fundo como também a parte inferior do corpo. * Desastre Ecológico: Em a manhã do dia 27 de julho, milhares de peixes «acordaram» boiando no Rio Potengi. Algumas empresas de carcinicultura foram apontadas como culpadas por a mortantade dos peixes. Número de frases: 108 Mas como sempre, recorreram e, os processos 'tão se desenrolando até agora. Depois de alguns meses fora do mercado após 'gotarem as mil cópias postas à venda, «Azul Claro» (2006/ Independente), disco que lançou a carreira solo da cantora pernambucana Isaar, 'tá de volta às lojas. O álbum reaparece agora com uma faixa bônus inédita. «Caixa de Papelão» conta com a co-autoria de Lito Viana, Gabriel Melo e Sidclei (músicos que acompanham Isaar nos shows) e foi recentemente gravada e mixada nos 'túdios Muzak -- casa de muitos artistas pernambucanos. Esta tiragem -- novamente de mil cópias -- vem com várias novidades no projeto gráfico. Desde do papel à tipografia utilizada, tudo foi repensado com o objetivo de melhorar a legibilidade e acabamento do encarte. Para garantir a qualidade de impressão, a gráfica FacForm entra como parceira de 'ta nova fase. O Azul Claro já guarda na bagagem a participação em três importantes coletâneas: «Music from Pernambuco -- Vol. 02» (" Astronave); Música Contemporânea de Pernambuco " (Trama); e «World 2006: A selection of the best music from around the world by BBC Radio DJ Charlie Gillett» (BBC / Londres). Em 'ta última, o Brasil 'tá representado por duas faixas: uma de Isaar, outra de Gal Costa. Carreira -- As festas de Carnaval e de São João influenciaram Isaar a começar sua carreira como brincante no Maracatu Piaba de Ouro, em 1995. De 1997 a 2004, integrou a banda Comadre Fulozinha, com quem gravou dois CDs. Em 1999 e 2000, participou do show «Pernambuco falando para o mundo», do artista Antônio Carlos Nóbrega, em sua turnê por o Brasil e no Festival de Avignon, na França. Foi convidada para o projeto DJ Dolores e Orquestra Santa Massa, em 2001, e para o DJ Dolores e Aparelhagem, em 2004, no qual é co-autora e cantora principal. Isaar também participou da gravação de CDs de vários grupos, como Mundo Livre S / A, Eddie, Siba e A Fuloresta, Cidadão Instigado, Gonzaga Leal, Silvério Pessoa. Sua voz é facilmente reconhecida em trilhas sonoras feitas para teatro, dança, cinema, a exemplo de «Deus é Brasileiro», de» Cacá Diegues; A Máquina, de João Falcão "; e «Narradores de Javé, de Eliana Café». Onde Encontrar O CD?-- O Azul Claro se encontra hoje disponível nas principais lojas do Recife (Livraria Cultura, Saraiva Mega Store, Oficina da Música e Passa Disco). E para quem 'tá fora de Pernambuco existe uma maneira fácil de adquirir o CD, basta acessar o site da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) ou da Saraiva (www.saraiva.com.br), fazer uma busca por «isaar» na categoria «CDs» e solicitar seu disco. Número de frases: 23 Mais informações sobre Isaar acesse o site www.isaar.com.br ou a página no MySpace www.myspace.com/isaarazulclaro. Moda e cinema sempre andaram juntos. Moda também sempre foi o 'pelho dos grandes movimentos da humanidade, assim como das revoluções científicas, sociais, culturais e tecnológicas, sendo o cinema a grande vitrine de 'sas transfomações. A indumentária (roupa) existe quase que desde o surgimento do homem. Surgiu por necessidade de proteção e com o tempo adquiriu o poder de diferenciar os nobres dos plebeus. Mas até o século XV as roupas não mudavam com frequência, eram sempre as mesmas modelagens e cores, diferenciavam apenas um povo do outro. Isso tudo mudou com o Renascimento, foi a partir de ele que os trajes começaram a mudar com frequência. Antes do Renascimento além dos plebeus não poderem usar os mesmos tipos de roupas que a corte usava, existiam também leis que regulamentavam até a quantidade de tecido, ouro e pedras que uma roupa poderia ter. A moda propriamente dita surge quando os plebeus começam a querer imitar os nobres, que para fugir das imitações começam a mudar freqüentemente as suas roupas. Com o avanço da tecnologia, e principalmente da comunicação, o mundo evoluiu e a indumentária também. Mas principalmente houve uma evidente evolução na rapidez com que a moda passou a ser disseminada, e 'sa rapidez ficou mais evidente com a invenção do cinema. Primeiramente por ser mais um meio de comunicação, e em segundo lugar por transformar a roupa e a vida das 'trelas num objeto de desejo. Foi no século XIX que surgiu o cinema. Uma invenção dos irmãos Lumière que na época buscavam meios de melhorar a fotografia. O cinematógrafo, a invenção que possibilitou a criação do cinema, é o grande responsável por a revolução cultural que o cinema causou e ainda causa atualmente. A primeira exibição cinematográfica foi no subterrâneo de uma café em Paris. A partir daí o cinema foi disseminado por toda a Europa e depois por o mundo, sendo algum tempo depois considerado como a sétima arte. O cinema de início tinha como principais funções registrar acontecimentos e narrar histórias. Por ser um registro de imagens valioso, ele também é visto como uma das principais fontes de pesquisa de moda. De início a questão do figurino não era de tamanha relevância, mas a partir do momento em que os filmes passaram a ser produzidos mais cuidadosamente o figurino passou a ter uma grande importância tanto na função de acervo histórico como para dar realismo aos personagens da trama retratada. Diretores e produtores sempre lançam mão do figurino parar afirmar um personagem, concedendo-lhe certa peculiaridade. Um clássico exemplo é a Grace Kelly que sempre usava trajes mais claros e luzes diretas, uma forma de «mitificar» a atriz e seus personagens. Segundo Jean Baudrillard, é por meio da personalização que as pessoas definem-se em relação a seus objetos, 'tes constituem uma gama de critérios distintivos, mais ou menos, arbitrariamente, catalogados numa gama de personalidades 'tereotipadas. É 'se o artifício que os figurinistas e 'tilistas utilizam para compor os figurinos de 'trelas de cinema, eles são transformados em ícones a serem reproduzidos por a moda. O figurino 'tá acarretado de signos e significantes que determinam seu valor social, é o apelo do sonho de consumo. A moda e o cinema tem um grande elo em comum, eles são vendedores de sonhos, o que chega a ser uma necessidade no mundo caótico atual. É por isso que o cinema com o tempo deixou de ser apenas uma referência de moda e comportamento para ser também a grande indústria vendedora de moda do mundo. O cinema se transformou numa vitrine almeijada por as grandes marcas. A roupa da personagem do filme tornou-se um sonho de consumo. Porém sonho de consumo de uma forma de vida, e não apenas da roupa, que é exatamente o conceito que as grandes marcas de roupas tentam nos passar quando trabalham em conjunto com o cinema. A o usar um vestido Givenchy, você não é apenas uma diva do cinema. Você é a Audrey Hepburn usando um Givenchy e olhando a vitrine da Tiffany's comendo uma rosquinha. As personagens de Hollywood são as principais fontes de pesquisa na hora que os 'tilistas poem sua criatividade à tona, sendo as mocinhas de Hitchcock as preferidas e mais imortalizadas por a moda. Curiosidades -- O diabo veste Prada O Diabo veste Prada tem sido o comentário de cinema e moda em 'se momento. O filme tem arrecadado grandes bilheterias por o país, sendo o filme mais visto em muitos Estados. Toda 'sa movimentação é porque a diabólica jornalista retratada no filme «O diabo veste Prada» na verdade é a toda-poderosa editora chefe da vogue América, Anna Wintour. A os 55 anos de idade, 'sa inglesa revolucionou o jornalismo de moda desde que assumiu o cargo na Vogue. Dizem que quando foi fazer a entrevista de admissão com outra figura lendária do jornalismo de moda, Diana Vreeland, ela se deparou com a pergunta " que cargo você pretende assumir na revista?" e a resposta foi «o seu». O pai de Anna foi um grande jornalista norte-americano, Charles Wintour, que foi chefe do jornal Evening Standard. Mas Anna sequer chegou a freqüentar uma 'cola de jornalismo. A os 16 anos ela abandonou a 'cola ao ser repreendida por a diretora por 'tar usando na 'cola uma mini-saia. Com isso, fez da «swinging london» sua faculdade, freqüentando festas, conhecendo fotógrafos, 'tilistas e até trabalhando na Biba, uma das lendárias lojas londrinas dos anos 60. Depois acabou se tornando repórter de moda da Harpers & Queen. Anna já serviu de inspiração para persoagens de outros filmes devido à sua personalidade forte e relevância no mundo da moda. Um exemplo é o Willy Wonka, do remake da Fantástica Fábrica de Chocolates. Em o filme Willy usa óculos e cabelo idênticos aos de Anna, além de alguns gestos. Curiosidades2: -- O chapéu usado por Indiana Jones no filme de Steven Spielberg fez a fábrica de chapéus Curry ser a maior vendedora desse artigo até hoje. -- A moda praia começou a ser disseminada, e a praia começou a ser mais utilizada, depois que Brigite Bardot usou um biquini xadrez que foi muito copiado no filme «E Deus criou a mulher», em 1956. -- Por causa do filme «Os Pássaros», Alexander McQueen criou uma bolsa com o nome» Novak», inspirada em Kim Novak, que virou um clássico. Curiosidades3: -- Lista de filmes que pode servir de referência da moda do século XX organizada cronologicamente. -- Moderns (Allan Rudolph, 1987) -- The Lodger (Alfred Hitchcock, 1926) -- Henry e June (Kaufman, 1990) -- A era do rádio (Woody Allen, 1987) -- Gilda (George MacReady e Joseph Calleia, 1946) -- E deus Criou a mulher (Roger Vadim, 1956) -- Sabrina (Billy Wilder, 1954) -- Juventude Transviada (Nicholas Ray, 1955) -- Cinderela em Paris (Stanley Donen, 1956) -- Bonequinha de Luxo (Blake Edwards, 1960) -- Hairspray (John Waters, 1988) -- Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1963) -- Blow Up (Michelangelo Antonioni, 1966) -- Hair (Milos Forman, 1979) -- Sem Destino (Dennis Hopper, 1969) -- Casino (Martin Scorcese, 1995) -- Sid & Nancy (Alex Cox, 1986) -- Os embalos de sábado à noite (John Badlan, 1978) -- Conta Com mim (Rob Reiner, 1986) -- Máquina Mortífera (Richard Donner, 1987) -- Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994) -- Número de frases: 75 zip. net / Rotular a banda é tão difícil quanto identificar a língua em que eles cantam as músicas. Confira a entrevista A banda mineira Pexbaa é considerada uma das mais criativas do cenário independente atual. Formada por integrantes da extinta banda de metal Holocausto, a evolução para o Pexbaa apontou para um caminho de experimentações sonoras. Rotular a banda é tão difícil quanto identificar a língua em que cantam as músicas. É melhor não tentar, pois eles a inventaram. Composto por Rossano Vittório (vocal e trompete), Rodrigo Otávio (guitarra), João Marcelo (baixo e programção) e Rodrigo Magalhães (bateria e percussão), o conjunto mineiro lançou seu último disco em 2004 -- Pexbaa (Amplitude Records). O que foi a Escola Mineira de Disfunção? Rossano: Foi um laboratório musical que realizamos em 1996; ela constituiu um projeto desse laboratório de experimentações. O Pexbaa, que ainda não tinha 'se nome, era uma das experiências e faziam parte eu, o Rossano e o João. O Rodrigo [Magalhães] também fazia parte da [Escola Mineira de] Disfunção, mas em outra banda e nós o convidamos. A partir daí, apareceram oportunidades para tocarmos e nós tivemos que arranjar um nome, e aí surgiu «Pexbaa» no sorteio de letras. João: Nós mesmos organizamos [a Escola Mineira de Disfunção]. Tinhamos uma mesa de gravação e a gente ficava o tempo todo fazendo gravações e experimentando diversos sons. Cada dia fazendo uma coisa diferente, buscando um projeto novo. Rodrigo: Eram sessões de improviso que fazíamos, gravávamos e iámos identificando partes, riffs e batidas que soassem de maneira interessante. Depois pegávamos 'sas células e o trabalho era feito em cima de elas. Temos horas e horas de gravação em 'túdio. Mantivemos 'sa dinâmica, criamos 'truturas e veio o sorteio de letras e sílabas para dar a fonética. Como é sorteio de letras? Rossano: A gente fez combinações de letras do alfabeto. Aa, ab, ac, ad ... depois, ba, bb, por aí vai. O sorteio é feito com dado. Algumas palavras são sortedas e outras a gente inventa na hora. Começamos a fazer como brincadeira, depois achamos significado para isso. Escolhemos a aleatoriedade para 'vaziar 'sa idenfiticação do vocalista como o principal da banda. O ser humano é antropocêntrico e, dentro de uma banda, o vocalista é considerado o mais importante porque ele usa o instrumento que todo mundo tem. Todo mundo fala, mas não é todo mundo que toca bateria, baixo, guitarra ... Isso é besteira. A voz é só mais um instrumento, não tem nada de glamouroso em cantar. Como vocês definem o tipo de música que fazem? João: Estilo sonoro. Rossano: O que difere o Pexbaa de outros projetos nossos é a simplicidade rítmica. São músicas simples. Achei interessante, quando uma vez falaram que a banda soa como um sítio com as janelas todas abertas, entrando tudo quanto é tipo de som. Essa foi a única definição que teve mais a ver com o que a gente faz. Mas definir é o que menos importa. Rodrigo M.: Talvez para não se perderem, as pessoas tentam definir, achar uma referência, só que ao invés de se situarem, elas se limitam, se fecham naquilo ali, e, nós queremos expandir. Quanto menos definição para gente melhor. Por isso, única definição possível é «'tilo sonoro», é música, não mais do que isso. Por que a 'colha por cantar numa língua inédita? Rossano: Essa forma de cantar numa língua inventada é uma maneira de desregionalizar a música que fazemos. A gente não acha legal quando uma determinada região se apropria da música, como, por exemplo, querer definir alguma coisa como «música brasileira». Que nada! O cara pegou a música da África, umas harmonias da Europa que, por sua vez, pegou 'sa harmonia da Ásia e falou que a música é de ele. Falar que aquilo é seu, que você inventou, isso é mentira. João: Por causa de 'sa língua inventada, a nossa música causa mais sensação do que significado. Ela é sensasônica. Rossano: É uma comunicação não por meio da racionalidade, e sim de sensações Rodrigo M.: A o usar a linguagem tradicional, por exemplo, as pessoas vão associar a palavra à imagem. Com a nossa, isso não é possível. O que importa é a sensação que o som causa nas pessoas, a reação de elas é mais livre e imprevisível. E como as pessoas reagem? João: O 'tranhamento é normal e é legal. Meu sobrinho de dois anos adora, tem criança que morre de medo das nossas músicas. As pessoas reagirem ao som da banda que é o legal, não importa se seja 'tranhando ou gostando. Um dos shows mais legais que a gente fez foi na (avenida) Augusto de Lima, de graça. O pessoal passava para pegar ônibus, parava e ficava 'cutando. Mendigos, pivetes, bêbados, todo mundo parou para ouvir, meio sem entender. Rodrigo: A reação, na maioria das vezes, é adversa. Mas a reação dos diferentes públicos costuma ser a mesma: as pessoas se interessam, mesmo que não 'tejam entendendo muito, ficam prestando atenção. Tentando identificar alguma palavra. Rossano: É tudo uma questão de condicionamento ao sistema musical e determinadas regras. Por isso que criança, bêbado ou mendigo têm uma reação diferente, porque 'tão «despreparados», não foram ou não são mais condicionados. A gente faz 'se tipo de música há uns 15 anos, e o 'tranhamento hoje é menor porque 'tá todo mundo tendo acesso a outras formas de melodias e composições. Qual a relação entre novas tecnologias e o caráter experimental da música de vocês? Rossano: O melhor da tecnologia é que ela é barata. Você baixa um software de graça, pré-grava as coisas aqui, chega no show o computador dispara as gravações, e uma banda como a nossa que não tem grana para ficar pagando 10, 12 músicos economiza um bocado de grana. Em as gravações também. Você tem recursos que deveria pagar muito por eles e hoje em dia você baixa isso muito barato. A internet foi a maior coisa que aconteceu nos últimos anos para quem não tem grana para produção de música. E é todo mundo que se beneficia disso. O músico lá da periferia, com um computador ele grava o disco em casa. Rodrigo M.: Uma coisa que causa muito 'panto nas pessoas é que a não usamos amplificador. A gente chega sem nenhum amplificador no palco. Isso foi algo que a tecnologia nos proporcionou, não seria possível experimentarmos musicalmente de 'sa maneira, se não fosse 'sa facilidade que ela nos proporcionou. O que significa a internet para bandas que surgiram de dez anos para cá? Rodrigo M.: Alguns anos atrás, se você não tivesse um contrato com uma gravadora, mesmo que uma pequena, era impossível gravar um disco. Hoje qualquer um com um computador, que nem precisa ser dos mais caros, consegue fazer um disco, dentro de casa. Além de 'sa facilidade para gravar, usa-se a internet para divulgar. Ela ampliou bastante os horizontes das bandas independentes. Rossano: Tanto que as gravadoras 'tão quebrando. E têm que quebrar. O caminho é 'se, é irreversível. A música é livre. Você vai receber por o seu trabalho, mas todo mundo tem que ter acesso. Quem tem dinheiro e quer comprar o disco, tudo bem. Mas quem não tem, não pode ficar sem ter acesso. Rodrigo M.: Ninguém criou nada novo, são sempre influências. Então a música que você produz não é sua, ela é de todo mundo, você foi o compositor, mas não é propriedade sua, então você tem que abrir e disponibilizar para o maior número de pessoas possível. É possível definir influências da banda? Rossano: Tudo: forró, samba, macumba, rock, jazz. Não tem jeito de resumir a música a uma coisa só. Ela é a sua experiência de vida, é um resultado de tudo o que acontece. Rodrigo M.: Buzina, barulho de trânsito, natureza. Tudo causa uma sensação e um dia ou outro isso sai de alguma forma. João: Tudo o que você 'cuta acaba influenciando de alguma maneira. Até o que você não gosta. O: Falando do contexto mineiro. Vocês acham que existem 'paço físico quanto na mídia, para a produção cultural atual? Rossano: É preciso distinguir. Existe a mídia da internet que é democrática. Agora, a mídia «maior», como a televisão, envolve unicamente a questão financeira, não existe o mérito cultural. É outro assunto. E se 'sa mídia aceita ou não, para nós não faz a menor diferença. As televisões são parte de empresas, são veículos de divulgação dos funcionários de 'sa empresa. Mas isso vai melhorando a partir do momento que as pessoas têm educação e personalidade para se descondiocionarem de certos vícios, como a televisão. E aí elas vão passar a procurar outras coisas, como por exemplo, na internet. Rodrigo: Tendo qualidade e vontade de fazer, mais cedo ou mais tarde, os 'paços aparecem. Existem pessoas interessadas. Um problema que temos aqui realmente é a falta de casas de shows, praticamente temos só duas: a Matriz e a Obra. Fora isso só há lugares bem maiores, que são difíceis de serem alugados. Existem algumas pessoas que produzem eventos, fazem sites, organizam shows. Não dá para depender de uma 'trutura maior, de televisão, rádio. Como foram os shows na França, no fim do ano passado? [ O Pexbaa foi convidado a tocar em Paris por a Fundação Municipal de Cultura, em 2005] Rossano: Tocar fora é o mesmo que tocar no Brasil. A única coisa interessante é que quando a gente toca lá, não tocamos o que eles 'tão 'perando de música brasileira. Eles acham que qualquer músico daqui vai chegar lá com tambor e chinelinho de dedo. Rodrigo: Era a mostra da cidade de Belo Horizonte, e os artistas daqui toparam mostrar lá algo diferente do que se era 'perado. E foi muito boa 'sa participação lá, porque quebra 'se 'tigma que o Brasil é só samba João: E a reação do público foi exatamente 'sa. Chegavam e nos perguntavam " isso é música do Brasil?" Foi uma surpresa, não imaginavam que aqui tinha isso também. Arranjamos outros shows na Bélgica e quando tocamos numa rádio lá a recepção foi muito boa, muitos ouvintes ligaram e elogiaram. Rodrigo M.: E a questão da linguagem, de não ter um idioma 'tabelecido em 'se caso até ajuda. Porque a mesma 'tranheza que é sentida aqui, também acontece fora do país, não tem diferença. Número de frases: 157 Fica uma coisa mais universal, perde a identificação com um país e qualquer regionalismo. Semana do Rock discute a cena do rock pop colocando no caldeirão música, literatura e cinema A idéia é colocar no caldeirão música, literatura, cinema e lançar o debate sobre o rock pop no Novo Milênio. Que panorama é 'se? Para saber sobre tudo isso e muito mais vem aí a Semana do Rock. O evento que vai de 10 a 15 de julho traz um pacote diverso com shows, debates, lançamento de livro e exibição de filmes. A programação acontece nos 'paços Theatro Hélio Melo, Atlético Clube Juventus e Concha Acústica. A Semana reúne em Rio Branco os dinossauros do rock acreano e as bandas emergentes, que começam a 'crever mais uma página desse processo. Em o caldo não poderia faltar nomes do rock nacional como Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana), Mário Linhares ex-Dark Avenger e atual vocalista da banda Harllequin. Dado faz show com a banda acreana Los Porongas e os convidados Camundogs e Nicles e Linhares abre o Intermunicipal Rock com a participação de dez bandas locais: Fire Angel, Soldier, Metal Live, Nova Banda, Blush Azul, Escalpo, Nicles, Dream Healer, Silver Cry e Filomedusa. O show Tributo aos Dinossauros do Rock Acreano abre o evento no Ninho da Águia (Atlético Clube Juventus) na terça-feira (10) a partir das 20 horas. Heloy de Castro, Pia Villa e o grupo Capú comandam o palco. Cada um dos ' dinos ' recebe convidados. A banda Silver Cry saúda Helloy de Castro, Fire Angel Pia Villa e a banda Dream Healer o grupo Capu. A Semana é uma realização do coletivo formado por o governo do Estado, por meio da Fundação Elias Mansour e Secretaria de Turismo Lazer e Esporte, Prefeitura de Rio Branco através da Fundação Garibaldi Brasil e o gabinete do vereador Márcio Batista, e apoio da Amupac e Sempre um Papo. O Rock é mundialmente celebrado no dia 13 de julho. Segundo o vereador Márcio Batista a proposta é fazer uma programação para expor o trabalho das bandas locais. «A idéia é comemorar a data histórica em homenagem ao rock movimento universal. Aqui no Acre 'se movimento vem se enraizando e tomando forma. Bandas locais começam a se projetar nacionalmente. A proposta é fazer uma programação para expor o trabalho das bandas locais emergentes», diz Márcio Batista. Para o presidente da Fundação Elias Mansour Daniel Zen existe uma diversidade e contraste nas programações que 'tão sendo providas no Estado que surtem um efeito de fortalecer o coletivo. «O evento faz parte da Programação de Verão do governo do Estado, que começou com o 9º Arraial Cultural. Um revitaliza as tradições, e ao mesmo tempo, a Semana do Rock evidência os movimentos urbanos. Isso demonstra a diversidade da cultura acreana». Ele analisa que o rock acreano vive um momento de projeção nacional, inclusive com destaque nos veículos de comunicação. «A movimentação da música independente no Estado nos permite a realização de eventos desse porte, com bandas locais e nacionais com uma repercussão arrojada». Marcos Vinicius (FGB) analisa a cena do rock no Acre como o resultado de um processo que teve seu boom na década de 80 com o Festival do Amapá que reunia uma multidão à beira do " Rio Acre. Pia Villa, Helloy de Castro, Grupo Capu e tanto outros caras ajudaram a construir 'sa cena. A Semana do Rock». Cinema e literatura com muito rock in roll Um diferencial da Semana é que além da música o coletivo arma parceria com o projeto Sempre um Papo e o Circuito Documentário (ABDeC / AC). Em o Circuito Documentário música e cinema se unem com a exibição no projeto Circuito Documentário de Botinada -- A Origem do Punk no Brasil de Gastão Moreira. O filme será exibido no dia 11 (quarta-feira), às 19 horas, no " Theatro Melo. «O documentário narra às origens do punk rock no Brasil, sua primeira fase (1976 -- 1984) e o paradeiro de seus protagonistas. Foram quatro anos de pesquisa, 77 pessoas entrevistadas, milhares de horas nas ilhas de edição, 200 horas de vídeo e muitas imagens raras e inéditas compiladas pela primeira vez. Botinada traz à tona 'sa incrível história contada por os punks que vivenciaram de corpo, alma e jaqueta de couro 'sa caótica jornada " O Sempre um Papo faz o recorte com a Semana do Rock trazendo o jornalista, 'critor e produtor musical Alex Antunes, no dia 12 (quinta-feira), às 19 horas, no Theatro Hélio Melo. Antunes irá lançar A Estratégia de Lilith (ed. Conrad), seu livro de 'tréia que 'tá sendo filmado 'te ano, com roteiro de «Hilton Lacerda (" Amarelo Manga»,» Baixio das Bestas», " Cartola, Árido Movie "). Mesa redonda -- Dado Villa-Lobos (RJ), Pablo Capilé (MT), Mário Linhares (DF) e Diogo Soares (AC) participam da mesa-redonda com o tema Retratos do Rock e Pop no novo Milênio no dia 14, de 10 às 13 horas, no Theatro Hélio Melo. O produtor e DJ Dande Tavares media o encontro. A discussão lança o debate: ' depois do boom de inter-relações propiciado por a internet, a música jovem produzida no Brasil ganha nova dimensão 'tética, geográfica e técnica. Que panorama é 'se? '. Serviço: Intermunicipal Rock Quando: 13 (sexta-feira), 17h30 Onde: Atlético Clube Juventus Show de encerramento -- Los Porongas, Dado Villa-Lobos, Camundogs e Nicles Quando: 15 (domingo), às 19h30 Onde: Concha Acústica Jorge Nazaré Acesse a programação no site: Número de frases: 53 www.ac.gov.br Em o Brasil, a prática de jogos classificados de maneira pejorativa como jogos de azar e, em 'pecial o jogo do bicho, tiveram sua origem ainda no período da monarquia. Foi um desses ' Dom Pedros ' da vida, -- talvez o I ou II de eles, que deram vida ao jogo. Data daquela época a adoção de mais 'se costume europeu que, assim como o tabagismo e o'inocente ' hábito de beber, virou rotina e se impregnou como uma prática social qualquer. Alguns dizem que os jogos viciam, que pessoas perdem seus bens, sua liberdade, sua vida. Em suma, transformam-se em verdadeiros zumbis sedentos por jogatina. Outros dizem que os jogos corroboram com o crime organizado, causam problemas sociais e, que geram uma conseqüente perda para os cofres públicos. De fato, 'sas são premissas que devem ser consideradas, mas não tidas como concretas e decisivas. Não se pode proibir um hábito da sociedade, sem que se faça antes um diagnóstico que relacione todas as vertentes de 'sa problemática. Primeiro, ' jogar ', passa, antes de tudo, por o livre arbítrio das pessoas. Todo cidadão tem o direito de ir e vir (senso-comum) e se expressar da maneira que quiser. Jogar ou não, deve ser uma 'colha de cada um. A individualidade não deve ser algo passível de qualquer alienação 'tatal. Depois, se jogos ficaram à mercê da criminalidade, foi justamente porque não houve uma presença do Estado como fiscalizador. Para tanto, seria necessária a criação de uma tributação sobre os jogos. Uma organização séria e uma pesada vistoria. Tributando a atividade, seguramente, a histórica ligação entre jogos, ' cassinos clandestinos ', problemas sociais e criminalidade, se não acabasse por completo, pelo menos seria minimizada. Ives Gandra, um dos mais renomados tributaristas do país, dá a receita. «Controle rigoroso e muito imposto são melhores para o país do que a clandestinidade». Portanto, é melhor apostar na legalização assistida de perto por o Estado, do que perder as fichas com criminalidade e a evasão de divisas. Número de frases: 19 Entrevistei Lorenzo Mattotti no dia 28 de setembro de 2003. Era uma manhã quente que se seguiu a uma noite atribulada em Belo Horizonte, que encerrava uma jornada de mais de cinqüenta horas em quase total vigília. Tudo para chegar à 3ª edição do FIQ -- Festival Internacional dos Quadrinhos (evento que substituiu a antiga Bienal dos Quadrinhos, realizada nos anos 1990 no Rio de Janeiro). Foi em 'sa viagem que conheci muita gente boa nos quadrinhos, como Rogério Vilela e os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Reverenciei a arte de um mestre italiano dos fumetti (que é como as HQs são chamadas na terra da bota), o boa-gente Sérgio Toppi. Além disso, eu e Sam Hart passamos horas agradáveis e intermináveis tomando caipirinhas incontáveis (sim, perdi mesmo a conta) com David Lloyd, o criador visual de V de Vingança (juntamente com o roteirista Alan Moore). E, claro, Lorenzo Mattotti, o motivo principal da maratona Campinas-BH-Campinas. Afinal, era a chance de entrevistá-lo ao vivo para poder publicar uma entrevista no jornal em que eu trabalhava até então. Rolou um café da manhã bem reforçado antes de tudo, pois a entrevista foi no salão comunal do hotel em que acabei passando a noite, bem em frente ao Edifício Acaiaca, com suas carrancas que já acordavam qualquer um e botaram a entrevista no clima correto. Apesar de ter publicado alguns trabalhos expressivos no início da década de 80, nas revistas Linus e Alter Alter, o arquiteto Mattotti projetou-se no mundo dos fumetti a partir de 1983, quando fez parte do chamado Gruppo Valvoline, que muitos críticos rotulam como os principais representantes do pós-modernismo no novo quadrinho da Itália. De lá para cá, sua arte, expressiva representante do quadrinho de autor europeu, se ampliou além da fronteira dos quadrinhos e atingiu o mundo das ilustrações. Já ilustrou diversas capas e páginas paras revistas de prestígio mundial, como The New Yorker, Vogue e Cosmopolitan, bem como para os jornais Le Monde e Il Corriere de ela Sera. Em aquele mesmo 2003, ganhou o prestigioso prêmio Eisner, por sua novela gráfica Dr. Jekyll & Mr. Hyde, produzida em parceria com Jerry Kramsky e inédita no Brasil. Sua vinda ao Brasil se deveu ao lançamento do álbum Estigmas, parceria com Claudio Piersanti, por a editora Conrad. Mas sua vinda rendeu outro belo fruto: em 2005, Mattotti retornou ao Brasil para assistir ao desfile de carnaval no Rio de Janeiro, o que rendeu, no ano seguinte, um belo álbum sobre o tema, publicado por a Casa 21 e que seria a primeira publicação nacional com uma série de ilustrações do italiano, que lhe valeram inclusive menção 'pecial no semanário Fantástico, da Rede Globo. O bate-papo que se segue é uma homenagem antecipada ao aniversário do artista, no próximo dia 24 de janeiro, e também é um belo modo de apresentar ao público do Overmundo 'te notável mestre europeu. Delfin -- Em Estigmas, você só trabalha com os desenhos, e não com o roteiro? Ou você interfere no roteiro? Lorenzo Mattotti -- Em Estigmas, eu e Claudio (Piersanti) trabalhamos muito juntos. Ele não 'creveu o roteiro todo para que eu o desenhasse depois, não. A história, nós a produzimos juntos, debatendo um ponto, depois outro e outro. E foi uma contínua discussão. Então, eu não fiz só os desenhos. Depois, se decidiram os vários episódios e eu desenhei, dirigindo cada um de eles. Após isto 'tar pronto, o texto foi reescrito sobre o desenho. Mas foi um contínuo processo de contato um autor com o outro. Eu perguntei porque, quando se lê a história, se percebe muito na narrativa a presença do autor visual. Em geral, até que ponto a arte contribui para melhorar um roteiro? O problema é que eu faço a história com imagens, e todas as minhas histórias são baseadas em imagens que eu observo e, então, desenho. Por exemplo, em Fuochi (até hoje sua história mais lembrada), eu primeiro desenhei tudo para então colocar o texto. Sempre o meu método de trabalho é criar a história com o desenho e, depois, usar o texto como o contraponto da imagem. Para mim, a coisa mais importante é a potência da imagem. Mas ela deve vir numa história que me é envolvente. É por isso que é importante para mim apreender o que a história fala, para fazer uma história que verdadeiramente me interessa. Porque, assim, o desenho pode ser feito para atingir 'sa potência. Eu me lembro que duas ou três vezes de ter recebido um roteiro de última hora e eu desenhar mesmo assim, mas eu não me interessava muito. E desse modo era fatal e não saía uma imagem forte para a narrativa. E o que você pensa hoje é o mesmo que pensava há 20 anos, na época do Grupo Valvoline? Valvoline foi um momento muito importante, porque ali pus em discussão muita coisa do que pensava em princípio. Antes, eu pensava um pouco mais que o quadrinho, a história, era como fazer um curta-metragem, realizar as cenas. Aí comecei a pensar na potência da imagem pictórica do quadrinho, ao poder utilizar imagens abstratas, surreais. Isso abriu muito o campo da linguagem. Foi um período também de experimentação de que nós (do grupo) precisávamos. Qual a diferença entre seus trabalhos nos quadrinhos e como ilustrador? Ilustrar é um trabalho que me permite viver, que me permite fazer outras coisas com as quais não me envolvo muito. Mas me diverte. Em 'te trabalho eu procuro sempre encontrar um pouco de divertimento, algo de interessante. É apenas por o dinheiro? Não é só isso, porque não é chato. Eu me lembro que, quando eu trabalhava para a Vanity, eu preparava muitas coisas, tinha referências de vários pintores, vários quadros, usando os materiais, as técnicas. E também desenhar as mulheres. Antes eu as desenhava muito pouco. O fato de trabalhar com moda me aproximou aos poucos de um tipo de figura que eu produzi muito. Não é o mesmo envolvimento pessoal como quando eu faço quadrinhos, mas é complementar, serve para aprofundar técnicas, como os cartazes, pôsteres e desenhos para livros infantis. É o tipo de trabalho que me permite abrir a cabeça, me tornando melhor. Voltando a Estigmas. Senti uma grande tristeza em relação ao protagonista, no final ... o que o personagem significa para você? Eu não creio que o final seja pessimista. Nós conversamos (Mattotti e Piersanti) muito sobre o final, fizemos cinco ou seis diferentes. Tudo era se perguntar sobre o personagem e tudo o que ele viver, era se perguntar sobre a maneira para que tudo fosse natural. Pensamos num final cínico, em que ele contava sua história no show business, num programa de tevê ou numa revistinha de fofocas. Também pensamos na saída 'piritual, onde ele seria um pequeno guru. Mas decidimos por o final publicado, pois o personagem que, ao fim, simplesmente aceita o que há dentro de si e que não pode ver. E isso é aceitar o peso da vida, o peso da responsabilidade, de viver o dia-a-dia. Que pode ajudar as pessoas nas mínimas coisas. O personagem, aliás, não é um herói. É só uma pessoa do povo. Sim, é isso! É o que me interessa, falar das pessoas, falar daqueles que vivem por as cidades. Se você saísse agora para andar na rua e encontrasse uma pessoa como o seu personagem, com as feridas nas mãos, qual seria a sua reação? Eu acho que me poria a olhá-lo, como curiosidade. Eu ando e vejo personagens nas ruas que poderiam servir para 'ta ou aquela história, é o meu trabalho. Mas eu vi documentários sobre pessoas que possuem os 'tigmas. Havia um velho italiano que as possuía há uns 50 anos. Mas não era um santo, não era nada. Mas tinha que seguir, era um peso a carregar. É claro que isto é uma neurose, mas eu me poria a olhá-lo. Conheça a obra A arte de Mattotti impressiona logo de cara, mas não é apenas por o lindo trabalho ilustrativo que Estigmas é uma leitura recomendada. A união de forças entre o artista e o romancista, 'treante nos quadrinhos, Claudio Piersanti, possui uma força que raramente é vista nos quadrinhos que chegam ao país. É bom começar dizendo que não é uma história fácil. Um homem, que até então possuía uma vida normal, acorda com duas feridas, uma na palma de cada mão. As feridas não tinham sido provocadas por qualquer corte. E simplesmente não cicatrizavam, vertendo sangue de modo constante. E quais as conseqüências de um homem comum possuindo uma marca que poderia ser tanto um sinal deífico quanto uma doença, tanto uma marca sinistra como uma bênção? O personagem, que não possui nome, e justamente por isso pode ser qualquer pessoa no mundo, passa a viver uma série de situações que têm paralelos com as provações de um santo. Mas que também são situações que refletem o cotidiano de uma classe menos abas-tada da população, que sempre 'tá prestes a cair, mas sempre pronta a se levantar. O texto de Piersanti é direto e correto, mas apenas o conjunto formado com as pesadas ilustrações em preto-e-branco, sem cinzas, de Mattotti, é que dão a perfeita dimensão das trevas sempre vizinhas do caminho que cada ser humano tenta iluminar a seu modo. De maneira nem sempre feliz, mas sempre da melhor maneira possível. Pois não importa de se as marcas são 'tigmas ou neuroses: importa é que cada um de nós carrega suas próprias marcas durante a sua vida. E que, por isto, devemos aprender a lidar com elas do melhor jeito possível. Só assim podemos con-tinuar o nosso caminho. Ainda que, no final, ele não signifique nada. Nada além da própria vida. Para saber mais sobre a obra de Mattotti: Número de frases: 98 http://www.mattotti.com O «Portal Domínio Público, lançado em novembro de 2004» (com um acervo inicial de 500 obras), propõe o compartilhamento de conhecimentos de forma equânime, colocando à disposição de todos os usuários da rede mundial de computadores -- Internet -- uma biblioteca virtual que deverá se constituir em referência para professores, alunos, pesquisadores e para a população em geral. Este portal constitui-se num ambiente virtual que permite a coleta, a integração, a preservação e o compartilhamento de conhecimentos, sendo seu principal objetivo o de promover o amplo acesso às obras literárias, artísticas e científicas (na forma de textos, sons, imagens e vídeos), já em domínio público ou que tenham a sua divulgação devidamente autorizada, que constituem o patrimônio cultural brasileiro e universal. Desta forma, também pretende contribuir para o desenvolvimento da educação e da cultura, assim como, possa aprimorar a construção da consciência social, da cidadania e da democracia no Brasil. Adicionalmente, o «Portal Domínio» Público, ao disponibilizar informações e conhecimentos de forma livre e gratuita, busca incentivar o aprendizado, a inovação e a cooperação entre os geradores de conteúdo e seus usuários, ao mesmo tempo em que também pretende induzir uma ampla discussão sobre as legislações relacionadas aos direitos autorais -- de modo que a «preservação de certos direitos incentive outros usos», e haja uma adequação aos novos paradigmas de mudança tecnológica, da produção e do uso de conhecimentos. A falta de acessos e colaborações em 'se site 'ta fazendo que seja pensada sua desativação. Número de frases: 6 Colabore Perry Anderson (nascido em 1938) é um intelectual Marxista. É professor de História e Sociologia na UCLA. Defendia a idéia de um Estado Absolutista Feudal (pois a discussão historiográfica compreende três hipóteses: o Estado Absolutista como um Estado Burguês, Feudal ou Neutro). O texto de «Perry Anderson O Estado Absolutista no Ocidente» vem trazer a 'sência do Estado absoluto e suas contradições, a fase de transição entre o Feudalismo e o Capitalismo é marcada por o aparecimento das relações político-econômica do Mercantilismo e por o surgimento da 'trutura centralizadora do Estado absoluto. A organização dos Estados absolutos europeus aparece desde o fim da idade média, com a formação de limites e fronteiras e se acentua, principalmente, com o mercantilismo. Em 'te momento as relações sociais são marcadas por características feudais e por características embrionárias das relações burguesas. Em uma crítica a Engels e Marx acerca da gênese do Estado absoluto, Perry Anderson vai mostrar que: «A classificação do absolutismo como um mecanismo de equilíbrio político entre a nobreza e a burguesia muitas vezes resvala para a sua designação implícita ou explícita fundamentalmente como um tipo de Estado burguês enquanto tal». E vai além, alertando para o pouco aprofundamento de Marx e Engels a respeito das novas monarquias absolutas que se formavam por toda Europa: «Uma teorização directa das novas monarquias centralizadas que surgiram na Renascença européia nunca foi feita, quer por um quer por o outro dos fundadores do materialismo histórico». Para entender o problema da natureza social do absolutismo, diz o autor: «A sua solução correcta é, na verdade, vital para a compreensão da passagem do feudalismo para o capitalismo na Europa e dos sistemas políticos que a distinguiram». Com a introdução de exércitos permanentes, a criação de sistemas fiscais nacional, a codificação do direito e implementação de princípios do mercado unificado nos levam a acreditar que se tratam de medidas eminentemente capitalistas, o que não o é. O autor também nos mostra que o fim da servidão não significou o fim das relações feudais no campo e cita Marx que já tinha alertado para 'ta situação: «A transformação da renda em trabalho na renda em 'pécie nada de fundamental altera na natureza da renda fundiária ... o produtor directo, como anteriormente, é ainda o possuidor da terra, através de herança ou de qualquer outro direito tradicional, e deve dar ao seu senhor, como proprietário da sua condição de produção mais 'sencial, um excedente de trabalho-corvéia, isto é, trabalho não pago por o qual não é recebido equivalente sob forma de um sobreproduto transformado em dinheiro». Perry Anderson afirma que: «Durante toda a primeira fase da época moderna, a classe dominante-econômica e politicamente -- era, portanto, a mesma da própria época medieval: a aristocracia feudal». O absolutismo foi um mecanismo de dominação feudal, destinado a fixar as massas camponesas na sua posição social tradicional, a despeito e contra os benefícios que elas tinham conquistado com a mudança alargada das suas obrigações. O autor vai dizer que o Estado absoluto foi uma nova carapaça política de uma nobreza atemorizada. O conceito de Hill sobre a 'sência do absolutismo, diz Perry Anderson, é consenso entre os materialistas; afirma Hill: «A monarquia absoluta foi uma forma de monarquia feudal diferente da monarquia de suserania feudal que precedera; mas a classe dominante permaneceu a mesma, tal como uma república, uma monarquia constitucional, e uma ditadura fascista podem ser todas formas de dominação burguesa " o autor só alerta para o perigo do anacronismo de 'tas comparações ressaltando a importância de analisar cuidadosamente tais afirmações. Os mecanismos de apropriação dos excedentes uniam a exploração econômica e a coerção político-legal nos universos das aldeias. Com o desaparecimento do poder dos senhores feudais era inevitável com o fim da servidão, portanto, daí 'te deslocamento da coerção político-legal, de sentido ascendente, para uma cúpula centralizada e militarizada: o Estado absolutista. A realidade absolutista foi marcada por rupturas e conflitos intensos dentro da aristocracia feudal. Estes modelos de monarquias representaram instrumentos modernizadores para a manutenção do domínio da nobreza sobre a massa camponesa. Porém, a burguesia mercantil já vinha se desenvolvendo nas cidades medievais. Foi a presença deste terceiro segmento da sociedade européia, segundo Perry Anderson, que inviabilizou um processo semelhante ao que aconteceu com os campesinos do lado oriental, 'magando a sua resistência e amarrando-o ao domínio. Diz " Perry Anderson: «Assim, quando os Estados absolutistas se constituíram no Ocidente, a sua 'trutura foi fundamentalmente determinada por o reagrupamento feudal contra o campesinato, após a dissolução da servidão; mas foi secundariamente sobredeterminada por a ascensão de uma burguesia urbana que, no termo de uma série de progressos técnicos e comerciais, desenvolvia agora manufacturas pré-industriais numa 'cala considerável». O resgate do pensamento clássico greco-romano vai se dar também no direito romano, e no que diz respeito ao desenvolvimento econômico o triunfo jurídico vai ser fundamental para o crescimento do capital livre no campo e na cidade, pois o direito civil romano faz defesa a propriedade privada absoluta e incondicional. «Esta aceitação vai ser o sinal da difusão das relações capitalistas nas cidades e nos campos; ela atendia a interesses vitais da burguesia comercial e manufactureira», afirma Perry Anderson. O fim da hegemonia da nobreza feudal só vai se dar com o fim do Estado absoluto, após as revoluções burguesas e o surgimento do Estado capitalista. Número de frases: 39 As festas fazem parte da vida humana sobre a terra há muito tempo, mas, muita gente acredita que 'tas badalações são de certa maneira padronizadas em suas atrações e formatos. Há quem não consiga imaginar uma festa sem banda por exemplo, ou ainda, que dj seja sinônimo de música eletrônica. Para tentar discutir algumas de 'tas questões lanço mão de argumentos e pensamentos que são nada mais que a opinião de alguém que curte a festa na teoria. Desde os tempos mais longínquos, o homem nas diversas culturas conhecidas se utiliza de rituais de celebração. Esses ritos cheios de significados e citações são usados tanto na forma de divertimento, comemorando entrada e saída de ciclos, quanto na forma religiosa, onde sacrifícios e oferendas são pontos importantes na relação de nós, seres encarnados e festivos, com 'píritos e entidades que cultuamos. Ou seja, desde que o mundo é mundo, juntar pessoas em volta de uma mesma música é normal, divulgar e compartilhar uma crença com o objetivo de atingir algum tipo de transe hipnótico ou ainda celebrar a vida sem motivo algum é até tradicional em culturas antigas e contemporâneas. A música é, e sempre será, um artifício de inclusão social. Ela tem a capacidade de unir num mesmo 'paço pessoas diferentes, de fazê-las sentir as mesmas emoções e 'tímulos. A música ultrapassa até mesmo a barreira física do som, vide Beethoven e tantos outros que desprovidos do sentido da audição ainda sim conseguem percebê-la. Música ao vivo nos terreiros e nos salões e até mesmo em campinas são a principal atração das celebrações em todas as partes do mundo, desde os vestígios mais antigos de humanidade. Porém, com o desenvolvimento das tecnologias de captação e gravação, novos instrumentos começaram a fazer parte do mundo musical. Estes eram a chapa gravada (ou disco) e o seu respectivo aparelho reprodutor -- particularmente não sei quem veio primeiro se o disco de carnaúba (parente mais velho do disco de vinil) ou a vitrola (vó por parte de pai do toca-disco ou pick-up). Mas, com toda certeza quando conseguiram «prender» a música em algum lugar ficou muito mais fácil de se levar as orquestras e grupos musicais de baixo do braço. Com o advento do capitalismo, 'te mal que assola o nosso mundo artístico, e o altíssimo custo para se contratar uma orquestra de baile, e a real necessidade da existência destes bailes, surge a figura do operador de vitrola (tataravô do dj) que no decorrer da noite colocava todo mundo pra «bombar» nas pistas ao som dos hits de gente como Glenn Miller e outros grandes nomes do início do século XX. Com o surgimento da freqüência modulada (FM) e a necessidade de uma programação radiofônica de 24h oras a música passa a ser o carro chefe deste veículo que até então funcionava em poucas horas do dia. É em 'se momento histórico que o operador de vitrola passa a ser chamado de disc-jockey e suas habilidades na seleção musical passam a integrar o universo artístico mundial, pois por suas mãos passava toda a produção musical feita na época, voltada diretamente para os ouvidos sedentos de jovens e adultos. Com a grande revolução do funk, da disco music e a febre das discotecas nos anos 70, o dj passou a ser figura muito importante na vida noturna das maiores metrópoles do planeta. E a música eletrônica? Depois da invenção da fita magnética nos idos dos anos 30 na Alemanha, 'te país europeu trouxe para a realidade musical (tão humana) da época a possibilidade de equipamentos transformarem impulsos elétricos em música. Estudos destes sintetizadores de áudio eram feitos em laboratórios com o interesse de uso na música erudita. Após algum tempo, já nos anos 60, a evolução tecnológica dos aparelhos sintetizadores já faz parte da música de grupos alemães como Can, Tangerine Dream, Neu! e Faust. Porém, o grande e 'trondoso desenvolvimento da música eletrônica vem por as mãos do KRAFTWERK, que além de inventar novos equipamentos de produção de áudio apontam para que lado a musica mundial iria a partir do inicio dos anos 80. As festas, os djs e a música eletrônica «'tão» um sinônimo que não terá uma vida muito longa. Os caminhos a serem tomados por 'tes elementos do fim de semana contemporâneo são praticamente em sentido contrário. Em um futuro próximo, imagino djs tocando em festas de música orgânica (com sons tribais e bem primitivos), a música eletrônica sendo usada para finalidades terapêuticas na cura de alguma doença degenerativa, e as festas ... ... Bem, as festas nunca deixarão de celebrar a nossa imaginação. Patricktor4, é dj e músico da banda naurÊa. Número de frases: 29 às oito da noite do dia 24 de dezembro boa parte do comércio ainda resiste. Alguns ainda irão numa longa viagem urbana até as suas casas para a comemoração do dia festivo. Outros já se despediram ainda no turno da tarde de seus familiares e passarão a noite de Natal em seus postos e ofícios diários. O balconista do mercado ou da farmácia 24 horas, o garçom do restaurante fino ou do bar da 'quina. Fortaleza insiste em não parar. Esta noite os sinos ressoam de várias formas por a cidade. Aproximadamente, 4.300 porteiros 'ta noite trabalham nas guaritas dos condomínios de Fortaleza. A tradicional festa natalina não acontece da mesma forma para aqueles que 'tão na labuta. José Maria e Renato. Entraram às sete da noite para mais um dia de vigília noturna no coração da Aldeota. Um prédio em frente ao outro. Os códigos de companheirismo de trabalho mútuo ficam (quase que somente) entre os dois. «Se eu percebo que ele 'queceu de fechar o portão quando um carro passa, eu já assobio daqui, ascendo a luz, ele 'cuta de lá e pronto." Conta José Maria se referindo ao amigo do prédio da frente. «Assim que eu cheguei hoje, já desejei Feliz Natal pra ele». O movimento na rua e nos prédios já é de conhecimento de todos. Um peru aqui, uma salada ali, um compadre para tomar um vinho, uma comadre para falar do vizinho e assim vão as primeiras horas da noite de Natal da maioria daqueles condôminos. Zé Maria, sem titubiar na afirmação, diz: «Tá tendo festa no 1201, 601, 302 e 401. Tem alguns que são bem simpáticos e desejam Feliz Natal quando passam, outros nem falam nada." Diferente da guarita de Renato, a de Zé Maria é próxima da rua e não tem vidro fumê. Ele alerta do perigo da noite nas ruas da Aldeota e recua seu assento para fora da guarita, pelo lado de dentro. Em o prédio da frente, Renato fica mais isolado um pouco, mas disse que vieram alguns condôminos cumprimentá-lo. «O movimento aqui hoje foi só de carro. Se tiver passado quatro pessoas por aqui por a portaria desde que eu entrei, foi muito. A maioria do pessoal tá saindo de carro. Tá tendo festa aqui no prédio não». Ambos casados e com filhos. Hoje, deixaram os lares às 17 horas com um Feliz Natal para todos. Zé Maria, a Bela Vista. Renato, o " Conjunto Aracapé. «A gente tem que trabalhar né, é isso mesmo. Quando cai de ser a noite da gente né, o que a gente pode fazer? Mas se é de tá em casa bebendo também, eu prefiro tá aqui. Já tou acostumado, há oito anos que eu passo Natal trabalhando." Zé Maria conversa e não desantena do movimento da rua. Agora já bem diminuto. São 12 e 45. Somente um carro entrou no prédio desde 12 e 10." Minha filha caçula sente falta que eu passe o Natal em casa com ela. Tem 16 anos. A gente sempre se lembra dos familiares né ... perdi minha mãe e meu irmão 'se ano. Esse dia fica só trazendo lembrança da família. A gente sempre jantava junto na festa de fim de ano ... dá saudade. Ligo a televisão aqui, ligo meu radinho na verdinha e fico só me lembrando de eles. É ruim ..." De os 23 anos de casado de Zé Maria, há oito anos as manhãs de Natal se repetem " Hoje de manhã fui no mercado com minha mulher comprar umas cervejinhas, uns cereais e um panetone para ela comemorar hoje à noite. Eu sei que minha mulher gosta, comprei uma pacotinho de cerveja daquelas com doze, mas eu disse, não vá exagerar não, viu ... no máximo umas 3 ou 5. Aí pronto eu vim trabalhar. Amanhã eu vou folgar né ... quando eu chegar em casa tomo aquele banho de manhã, aí toma umas duas ou três coisinhas, só pra ir dormir. Ganhei uma vodka da minha irmã, né ... à tarde acorda, assa umas bistequinhas, aí toma mais umas coisinhas né ... fim de semana e feriado ... é bom». O telefone da guarita soou. Zé Maria conversa por uns 5 minutos e retorna à cadeira recuada da guarita. Era uma hora da manhã. A caçula de 16 anos com a mãe ao telefone para desejar mais uma vez um Feliz Natal. «Elas deviam 'tá na vizinha. Deve ter ido levar um pedaço de peru para ela e aproveitaram e ligaram de lá pra mim. Eu não disse que minha caçula sente falta. Eu sei ..." O hall do prédio 'tava todo iluminado. A castanhola na calçada balançava com um vento 'tranho à época na cidade. O silêncio era quebrado à voz de Ivete Sangalo numa casa próxima a qual não identificamos a origem. O som vinha longe, mas delatava mais uma casa em ritmo festivo. «Não tem um ano de Natal que eu não enfeite a árvore lá em casa, sabia? Deus me livre d' eu passar um Natal sem ter aquilo ali lá em casa ... Cheio de pisca-pisca, é bom demais. Isso era coisa da minha mãe. Morava lá perto, na rua de trás da minha. Enfeitava toda a casa também." Depois do código companheiro de Zé Maria para Renato, atravessando a rua, o prédio da frente sinaliza o fim de muitos Natais. Vários carros chegando, um atrás do outro, em seqüência. Renato com seus três controles em mãos, gerenciava o movimento dos portões e o trânsito dos carros. Eram quase duas da manhã. As festas familiares vão ganhando o fim. «Lá em casa termina muito mais cedo! Minha 'posa tá grávida e foi visitar a mãe de ela antes de ir lá para minha mãe, onde sempre tem festa. A mãe de ela não deixou mais ela sair. Acabou passando lá mesmo. Minha menina, de 13 anos, passou na minha mãe mesmo, longe da minha 'posa, lá no Jardim América." Os Natais de Renato somam três longe de casa. Em aquele aquário de vidro fumê é o primeiro. O prédio é novo. Sem muitas expectativas para 2007, 'pera ganhar o primeiro herdeiro da família para fazer companhia a mais velha, de 13 anos. A mãe, como todos os anos, fez o convite às festividades, mas " eu disse que ia trabalhar, ela mandou eu tomar cuidado e não beber antes de ir. Ela é muito preocupada. Meu outro irmão que é porteiro tá de folga hoje. Ela sabe que ele vai beber depois da festa. Lá em casa é assim: faz o convite para todo mundo da família, ver quantas pessoas confirmaram, aí divide. Um faz o arroz, o outro o peru, aí fica até umas onze, onze e meia lá em casa, dá uns beijinho na mamãe e pronto. Depois quem quiser sair, sai. Se a mulher não quiser ir, vai só mesmo ... é assim " Renato ascende a luz da portaria por precaução para zelar por o seu trabalho ou por alguma coisa que o incomoda naquele momento. «Vou ascender aqui a luz porque porteiro quando não dorme demais é namorador demais né ... pode continuar». Ilumina-se toda a entrada do prédio. A os 33 anos, " lembrar de um natal bom? Em a juventude, quando não era casado, era tudo diferente, não tinha hora para chegar nem para sair, era assim ... meio desbundado sabe?!?! Mas hoje se eu pudesse e meu dinheiro desse, eu queria 'tá numa casa de praia com a mulher e a menina. Fugir da aglomeração, né ... tu gosta da aglomeção?" Por toda a noite. De sete às sete na noite de Natal. Renato no seu aquário fumê. Zé Maria em sua cadeira recuada na guarita. Um em frente ao outro: -- Eu 'crevo poemas de amor, música romântica, sertaneja ... sabia? Sério, Zé Maria? Sabia não, o que você tem aí pra me mostrar? -- Depois que eu registrar vou cantar pra todo mundo. Por enquanto 'cuta aí 'se verso: ' Não existe limite de idade para se aperfeiçoar na sabedoria e no amor ... ' Número de frases: 119 Chegada a última quinta-feira do mês e com ela mais uma etapa da Batalha do Conhecimento. Depois de quatro semanas de muita ralação, já com o bolso beirando ao vazio, a rapaziada encontra na batalha um 'paço de entretenimento, informação e convivência. Tudo 0800! Em a real, o grande 'quema da Batalha do Conhecimento é ser um 'paço aberto, tanto pra quem faz como pra quem assiste. A programação da noite começou com a exibição do vídeo «Free style -- um 'tilo de vida», documentário produzido e dirigido por Pedro Gomes, um dos mais agilizados produtores da cena hip-hop paulistana. O vídeo faz uma investigação sobre o free style, entrevistando alguns dos principais MC ´ s que atuam em 'ta «modalidade» de rap, mesclando imagens de arquivo (batalhas de 2004) e depoimentos atuais. O ápice do documentário é a final da Liga dos MC ´ s 2007, protagonizada por os MC ´ s Simpson e Maomé. A o final do filme o público pode trocar uma idéia com o diretor que respondeu a várias perguntas vindas da platéia. Pedro comentou que tentou «fazer um filme para quem não conhece rap, um filme bem didático». E o vídeo cumpre muito bem 'se papel de apresentar o que é a cultura do free style. Quando perguntado do por quê de fazer um documentário sobre hip-hop Pedro respondeu: «Eu não sei rimar, discotecar, grafitar ou dançar. Então resolvi fazer um filme pra fortalecer a cultura». Mas o diretor alerta: «Eu busquei me profissionalizar, 'tudei bastante, me formei em cinema. Esse é o meu quarto filme, se fosse o primeiro talvez não tivesse alcançado 'se resultado». O debate foi concluído às 19:30h, quando a segunda etapa da Batalha do Conhecimento foi oficialmente aberta. Metade dos 16 MC ´ s que participaram da primeira etapa botaram a cara novamente na tentativa de somar pontos na classificação geral. O objetivo geral é concluir a temporada entre os melhores e alcançar uma vaga na grande final. Entre 'treantes, MC ´ s iniciantes e outros já consagrados a batalha pegou fogo já na primeira fase. Dois embates foram até o 3° round (Nissin X Malone e Emissário X Maomé). O campeão da etapa passada, Nissin, não conseguiu repetir o mesmo desempenho e, depois de uma batalha muito disputada, caiu na primeira fase. Em a Batalha do Conhecimento é assim, tem que matar um leão por dia. Se vacilar, já era! A tabela da 1° fase ficou assim (o vencedor marcado com negrito): YCE X Osama (batalhando pela primeira vez) Coé X Fred Meliante Ernesto X Th DJ Bola (batalhando pela primeira vez) X Rico Drope X Bizarro Nissin X Malone Emissário X Maomé MC Marcelo X LC Em a segunda fase as batalhas foram mais mornas, todas decididas em dois rounds. O público 'tava sonolento e, mesmo com o 'forço e as provocações dos MC ´ s, permaneceu meio apático. Vale a pena lembrar que a batalha depende da participação direta da platéia. Então, se você for a Batalha do Conhecimento, por favor, faça barulho! A casa agradece e o 'petáculo fica mais bonito pra todo mundo. A tabela da 2° fase ficou assim (o vencedor marcado com negrito): Coé X YCE Th X Rico Drope X Malone Maomé X LC O show de 'ta etapa ficou por conta da molecada do Start. Prova do 'paço que a Batalha abre para os novos grupos. O destaque da apresentação foi a presença dos avós dos meninos, que garantiu o momento de maior participação do público e ajudou a 'quentar um pouco os ânimos. Com os MC ´ s devidamente aquecidos, a semi-final rolou num clima diferente. Th e Coé fizeram um embate de alto nível. O primeiro engatou um flow nervoso, disparando rimas em alta velocidade sem perder o fôlego. O segundo investiu na força de sua voz marcante e no uso do quadro. Em o segundo round Coé atacou: «A rádio em Tupi-guarani anunciou mais um corpo que o caveirão derrubou». Arrancou a primeira vaga na final. A segunda vaga, disputada entre Drope e LC, também contou com o uso do quadro. LC tirou sexo e camisinha do quadro e jogou as duas palavras numa mesma rima: «S exo, claro que com camisinha. Pode ser lá em casa, ou então lá na Rocinha, mas sem calcinha». O botafoguense só não contava com a inspiração de Drope que, rimando com uma citação a Raul Seixas (!) conseguiu se classificar para a grande final. A tabela da semi-final ficou assim (o vencedor marcado com negrito): Th X Coé Drope X LC A grande final foi observada de perto por vários MC ´ s que se acumulavam na parte mais baixa da arena. Se o público não chega junto, os próprios MC ´ s fazem a coisa acontecer. Em o final de contas, são eles, ou por que não dizer somos nós?, que piram com a capacidade que os outros tem de construir rimas sinistras. Os dois MC ´ s corresponderam as expectativas. Cachaça Crew e Universo, referências a duas grandes famílias do rap carioca, eram as palavras que ocupavam o quadro. Os temas explorados na final não poderiam ser outros: boêmia e amizade. Coé bem que tentou, mas Drope não deu chance! «É difícil ser homem de aço, sou de osso. Mas se quiser pode descer a próxima dose moço». Tiro certo, vitória justa, 15 pontos para o Drope! Final: Drope X Coé Tabela de pontuação: Drope: 15 pontos Nissin: 15 pontos LC: 10 pontos Coé: 7 pontos Malone: 4 pontos Fael: 3 pontos Th: 3 pontos YCE: 2 pontos Airá: 1 ponto ODD: 1 ponto Panão: 1 ponto Feijão: 1 ponto Rico: 1 ponto Maomé: 1 ponto Algumas palavras postas no quadro: Madureira, Baixada, ronco, eutanásia, crack, cinema, gigolô, cuba, jornal, sistema, autodidata, copo, ditadura, Portela, São Jorge, orgulho, libertação, 'porte, exportação, cisco, cristo, Leão de Judah, Jáspion, sexo, Uruguaiana, camisinha, MP3, Resbolah, rádio, Tupi-guarani. Matéria 'crita ao som de: Rethink: Set on fire The Roots: Número de frases: 96 Rising down Quem disse que o índio do nordeste perdeu a sua cultura? Enquanto as festividades juninas peculiares da região giram em torno de quadrilhas, comidas típicas e forró pé de serra, os índios da etnia Xukuru fazem uma festa diferente. Dia 23 de junho, os Xukuru, residentes na serra do Ororubá, no município de Pesqueira, agreste de Pernambuco, comemoraram uma de seus eventos mais significativos -- a busca da lenha, que ocorre todos os anos na aldeia Vila de Cimbres. A festa começa muito cedo. Os índios dançam o toré o dia inteiro, prática que faz parte do ritual político e religioso da etnia. Por volta das 14h os índios vão, em comitiva, buscar lenha na mata. O Cacique Marcos Xukuru, lideranças indígenas presentes e os puxadores do toré vão na frente levando a bandeira de São João. Em a volta, cada pessoa traz um pedaço de lenha. Caso alguém da família não possa ir, outro familiar traz a lenha que 'te deveria carregar. Os que já possuem familiares falecidos também lembram de levar a lenha para eles, de forma significativa. De volta da mata, os Xukuru dão uma volta em torno da Paróquia Nossa Senhora das Montanhas, 'tabelecida em 1692, um berço da cidade de Pesqueira. A lenha é organizada em frente à igreja e chega o tocador do memby, flauta dos Xukuru, que inicia mais um ritual. Posteriormente, a fogueira é queimada em homenagem à Mãe Tamain, padroeira dos Xukuru, São João e São Pedro. Para os Xukuru, a Mãe Tamain é a Nossa " Senhora das Montanhas. «Desde que eu nasci eu conheço 'sa cultura, cada ano que passa ela atrai mais gente. É um momento muito importante pra nós», informou Wilma Bezerra Xukuru, Líder da Pastoral da Criança na Vila de Cimbres, se referindo ao ritual da busca da lenha. Alguns índios comentam que há pessoas que caminham sobre as brasas da fogueira sem se ferir. Atribuem 'te fato a fé de eles. E o motivo que os leva a isso, é para alcançar uma graça, isto é, uma penitência. «Só quem passa mesmo na fogueira é o pessoal mais velho, os novatos não tem a coragem de fazer o que os antigos fazem», disse Rita Spinola Xukuru, moradora da Vila de Cimbres. Os mais velhos são muito reverenciados na cultura Xukuru, onde são chamados toiopes. Eles são os que repassam os conhecimentos para os mais novos. Durante a comemoração os índios usam uma roupa chamada tacó, que constitui saia, pelerine e barretina feitos de palha, sendo o último um tipo de chapéu. Usam também colares, brincos, pulseira e cocar. Dentro da busca da lenha, ainda existe o ritual da Pedra do Conselho, local sagrado na aldeia Vila de Cimbres, onde os índios recebem os encantados, que são as entidades Xukuru. Dizem alguns índios, que quem cai na Pedra do Conselho, durante o ritual, morre no mesmo ano. O evento acontece por volta da meia noite. «É um fortalecimento 'piritual e da nossa tradição, se a gente perder o que os nossos antepassados deixaram, a gente não fortalece», disse Luana Rodrigues Xukuru, formanda do curso de Pedagogia do Instituto Superior de Educação de Pesqueira -- Isep e integrante do Conselho de Professores Indígenas Xukuru -- Copixo. Índios e não-índios simpatizantes da causa indígena participam da busca da lenha. Há uma clara diferença entre as festas juninas populares no nordeste e a comemoração dos Xukuru, embora muitas pessoas da cidade de Pesqueira não os considere como índios porque se vestem, no cotidiano, como não-índios, usam tecnologias e muitos já possuem graduação em universidades. «Hoje aqui a gente não dança forró, não tem quadrilha, hoje é 'pecialmente para busca da lenha e dançarmos o ritual», informou Luana Xukuru. O povo brasileiro ainda não conhece a própria cultura de onde tiveram suas raízes. Muitos acham que o índio deve viver isolado na mata, sem os recursos tecnológicos que tanto facilitam a nossa vida, sem direito a educação e saúde de qualidade porque são índios e já conhecem tudo o que precisam para viver dentro da sua própria realidade. Caso contrário, podem perder a sua cultura. Os Xukuru são um exemplo de como os indígenas podem interagir na sociedade recebendo todos os benefícios oferecidos a um cidadão brasileiro sem, no entanto, deixar de lado os aspectos da sua própria cultura, que é viva, inegável e constante. A organização da etnia é exemplo de cidadania, cooperação mútua e luta incansável por os seus direitos. Número de frases: 36 Em 'ta ressaca prolongada da Copa do Mundo e entre as reprises dos gols da última rodada do Campeonato Brasileiro, eis que cai em minhas mãos um livro improvável, deliciosamente antiesportivo, 'crito em 1940 por um obscuro jornalista do interior mineiro. Em pleno Estado Novo, tempo em que o 'porte era considerado uma 'tratégia de moralização do corpo, o comunista Orlando Ferreira (1886-1957), conhecido na cidade de Uberaba como «Doca», irrompeu sua retórica furiosa, recheada de conceitos filosóficos e científicos, em direção a uma das maiores paixões nacionais. Trata-se do livro Forja de Anões, um libelo contra aquilo que considerava a maior anomalia da cultura brasileira: o gosto por o jogo de bola. Doca lamentava a visível «decadência física da mocidade», sobretudo tendo em vista os avanços científicos do século. Ele argumentava que a classe médica poderia contribuir para a saúde dos rapazes, «se ela não 'tivesse envenenada por o dinheiro» -- pois os doutores 'tavam 'timulando os 'portes violentos para lucrar com o aumento de pacientes. Ele culpava também a imprensa por a ruína dos jovens, pois com os «relatos minuciosos e repetitivos de feitos 'portivos» e os «elogios aos campeões» ela «'timula os jogos violentos, como o foot-ball e outros, cujos malefícios são relatados por ela mesma». No entanto, o jornalista defendia que médicos e imprensa ainda poderiam tornar-se forças favoráveis ao progresso, caso combatessem as forças maléficas, como «os vícios, as doenças, os 'portes violentos, sobretudo o monstruoso foot-ball». Para defender sua tese antiesportiva, Doca dizia que o homem não é um animal de atividade muscular, mas um ser cerebral, voltado para a consciência. Por isso, o 'gotamento físico é um entrave para a inteligência, haja vista a 'treita correspondência entre fadiga corporal e fadiga intelectual. «Um cérebro fatigado possui uma consciência morta, nula, 'téril." Segundo ele, somente o repouso favorece o pensamento. «A fadiga é uma grande inimiga do cérebro e assassina do pensamento». Doca lembrava que as grandes criações da humanidade foram fruto de pensamento em ambiente tranqüilo, como os laboratórios. «Que seria da sociedade se 'ta fosse composta somente de corredores fatigados? Estaríamos engolfados no atraso, na miséria física e moral». Doca defendia que o homem é por natureza um «animal imóvel»,» frágil», características que nos diferenciam da besta: «Que importância tem a nossa carreira ante a agilidade diabólica dos animais inferiores, da prodigiosa desenvoltura da serpente, do galope, do cavalo, do salto do leão, do vôo da águia? Proporcionalmente, que vale a força humana ante a força da pulga? No entanto o homem é o mais temível dos animais." De que adiantam os músculos, questionava, se o homem é um animal sociável, preparado viver pacificamente; se possui inteligência, que vale mais que a força? «A musculatura e a inteligência tem ambas a sua finalidade: aquela, em maior 'cala, para os animais dotados de garras e dentes afiadíssimos poderem exercer a sua missão triste e bestial; 'ta, para o homem viver a vida fraternal e transformar o mundo." Por tudo isso, Doca dizia que o governo deveria mesmo proibir o futebol, para o bem da nação. Apesar da fúria, Orlando Ferreira sabia que seria 'quecido. «Escrevo, porém, sob a mais dolorosa das impressões: a do desânimo. Ninguém, tenho certeza absoluta, se importará com as minhas palavras, que talvez poderão ter méritos apenas: o de aumentar o número de meus rancorosos inimigos." Mas ao nos lembrarmos de Forja de Anões em pleno século 21, fica aí uma viva provocação aos novos entusiastas do futebol. Número de frases: 32 Ele é meio nômade, um dos mais requisitados instrumentistas do Mato Grosso do Sul e agora lança finalmente seu primeiro disco solo. Aqui, na Áustria e no Paraguai Antônio Porto é uma das principais novas cabeças da música do Centro-Oeste. Ele é um surpreendente instrumentista, diretor musical criativo e compositor inspirado. Acaba de lançar seu primeiro disco solo, Nômade, com um repertório cantado em português, inglês, alemão e hebraico. Antônio toca a maioria dos instrumentos das 10 faixas do disco. Sua música poderia ser batizada de world music. Mas a verdade é que o compositor revigora a empoeirada Música Popular Brasileira com canções cheias de suingue africano e letras filosóficas-epirituais. ' A alegria de ser um pouco luz ', como diz na faixa Fases da Lua. O campo-grandense Antônio Porto é um nômade. Descendente de uma família de nordestinos, até os 16 anos morou em internatos católicos no interior de São Paulo. Logo se tornou um dos mais requisitados instrumentistas de Mato Grosso do Sul, ainda em meados dos anos 80, e se transferiu para São Paulo para tocar com artistas como Renato Teixeira. Em 1988 foi morar na Áustria, onde permaneceu por 10 anos. Após dois anos para aprender o alemão, tocou em bandas de jazz, de reggae e teve contato com músicos da África, que acabaram o influenciando definitivamente. Voltou a morar em São Paulo no final da década de 90. Chegou a acompanhar Pena Branca e Xavantinho. Com a morte de Xavantinho em 1999, retornou em 2000 para Campo Grande, depois de tentar se fixar no Rio de Janeiro. Antônio Porto é um exemplo de músico que vive fora do eixo Rio-São Paulo. Desde seu retorno ao Brasil em 1998, 'tá mais ligado ao resto da América do Sul e à Europa. Em 2001, num telefonema inesperado, foi convidado para ser o baixista da banda de Hubert Von Goisern, uma 'pécie de Gilberto Gil dos países de música germânica. Até 2003, gravou três discos com Hubert, fez duas temporadas de shows em turnê por a Europa e participou da viagem que o cantor realizou com toda a banda para sete países africanos, que virou um DVD incrível. Em julho de 2005 foi gravar com Hubert na Áustria e acabou sendo contratado por a Atlas Music. A gravadora vienense lança em maio deste ano o disco de Antônio Porto com nova capa e encarte em inglês. Além do vínculo europeu, o músico 'tá atuando desde 2004 na cena artística de Assunção, no Paraguai. O seu CD foi lançado por a gravadora Kamikaze Records, em mais um passo para o movimento cada vez mais forte de integração entre artistas de Campo Grande e Assunção. Antônio vai se apresentar no dia 21 de maio no Festival América do Sul e será o diretor da banda, batizada de Godoana, que irá tocar no bar oficial do evento que acontece entre 20 e 27 de maio em Corumbá. Confira aqui outra matéria publicada no Overmundo sobre o músico Antônio Porto. Overmundo -- Como analisa o atual momento para o músico no Brasil? Porto -- Já morei em São Paulo, na Europa, passei por o Rio e voltei para Campo Grande. Quis conhecer todos 'tes lugares e não importa onde você 'teja, as coisas podem rolar. Mas no Brasil ainda não 'tá acontecendo. Tudo 'tá muito concentrado no eixo Rio-São Paulo. Outro foco é a Bahia e o Recife. Eles fazem a música de eles, mas que não tenho a menor intenção de tocar. Cada um na sua. Se o Rio fosse menos violento, gostaria de morar lá, até porque tem o meu filho que mora na cidade. Fico pensando em outras cidades e não vejo nada muito animador. Conheci um músico curitibano de 52 anos, por exemplo. Ele 'tá tocando por 60 reais em Curitiba. Essa é a realidade lá e na maioria do país. Então não tem outra saída: São Paulo. O Brasil desconhece a música de Mato Grosso do Sul? O Brasil 'tá começando a sentir a necessidade de conhecer outras coisas que 'tão fora do litoral brasileiro, que abrange Rio, Paulo, Bahia, Pernambuco. Conheci músicos no Rio Grande do Sul na Europa que até hoje não vi no Brasil com o mesmo nível de eles. Como Alegre Correa, Pedro Tagliani, Marcio Tubino, Endrigo, baterista de Curitiba. Conheci músicos gaúchos que no Brasil, até então, não tinha visto. Como 'tá sendo a experiência em Assunção, depois de tocar na Europa, São Paulo e Rio? A recepção 'tá sendo excelente. Fiz dois shows no La Trova, o bar do músico Hugo Ferreira, que já tem uma certa tradição de reunir um público que gosta de boa música. A gente juntou a música paraguaia com a brasileira. Misturamos no repertório canções conhecidas, para o pessoal se identificar com o Brasil mesmo. Fomos aplaudidos em pé por a platéia. Não tinha mais presenciado isto no Brasil desde a década de 80. Você arriscaria dizer que o Paraguai ainda 'tá no clima dos anos 80, num movimento que a gente já viveu aqui no Brasil, com a explosão do rock brazuca? Acho que sim. Mas o problema do Paraguai é que é um país muito pequeno, que se resume a Assunção. São Bernardino é uma cidade veraneio, ainda rola alguma coisa legal. O Paraguai é muito pequeno, tem pouco mais de 5 milhões de pessoas. É difícil ganhar dinheiro lá. Não penso em dinheiro em 'te mercado. Fale de sua relação com a gravadora Kamikaze Records? O Willy Suchar, dono da gravadora, tem os contatos lá e acesso à imprensa. Em o lançamento do meu disco foram jornalistas importantes. Fui a várias emissoras de rádio e televisão. A Kamikaze é como uma Trama do Paraguai. Mas o mercado de disco lá é muito difícil. Além de ser o berço da pirataria da América do Sul. Qual artista paraguaio chamou a sua atenção? Me aproximei do Rolando Chaparro. É um dos melhores músicos que já vi tocar nos últimos anos. O trabalho de ele é maravilhoso. O guitarrista Orlando Bonzi, do Paraguai, também é excelente. Também tive a oportunidade de conhecer o cantor argentino Rubén Goldin. Ele é muito respeitado em seu país. Me contou a história da moderna música da Argentina e entendi como rolou todo o movimento. Sinto que existe uma união muito grande entre 'ses países de língua 'panhola. Eles adoram a música brasileira. O Brasil é o principal país da América do Sul. O chileno 'tá rodando muito para Europa. Era o que o argentino fazia na década de 80. O argentino era sinônimo da contestação política. Como músico de Campo Grande, você sente que 'tá mais fácil se aproximar da cena musical paraguaia e Argentina? O vento da nossa música 'tá soprando para 'sa região? Nós temos com certeza uma proximidade muito grande com 'tes povos latino-americanos. Por ser um Estado de fronteira. Os 'tados fronteiriços que mais absorvem isto são o Mato Grosso do Sul e o Rio Grande do Sul. O Rio Grande absorve muito da Argentina. E a gente absorve muito do Paraguai. Uma faixa de terra que passa por o Paraguai, Argentina, o Pampa e o Pantanal e que tem a mesma vibração. Não é mais moda ir tentar a sorte na Europa? É porque 'tá muito difícil viver na Europa. Muito caro, tudo muito caro. Antigamente tinha aquele negócio de você juntar grana na Europa. Hoje em dia não dá mais. Nem você trabalhando no mercado negro você consegue juntar grana. Mas você 'tá voltando para lá como artista contratado, através da gravadora Atlas Music. Como foi conseguir 'te contato? Estava fazendo uma gravação com Hubert em julho de 2005 na Áustria. Acabaram me chamando para substituir o baixista do Kadero, um músico marroquino. Tudo de última hora. Tivemos um ensaio para tocar 20 músicas do cara. Depois do show dei meu disco para a Katrin Pröll da Atlas. Ela ouviu e me ligou no outro dia. Perguntou se tinha gravadora. Falei que não. Então ela disse que queria lançar o disco por a gravadora. Logo depois ela me mandou um e-mail dizendo que o Kadero foi o oitavo colocado numa pesquisa de mercado. Foi o oitavo disco de 2005 na Alemanha. Ou seja, uma gravadora pequena, com um ano de existência, conseguiu colocar um disco como oitavo na Alemanha. O que há de prático em 'ta relação? A Atlas Music vai lançar meu disco no verão deste ano. O CD já 'tá pronto com novo encarte e programação visual. A gravadora tem distribuidoras na Inglaterra, na França, na Alemanha e no Norte da África. É ótimo porque já tive em Marrocos e no Egito na turnê com o Hubert. Se o meu disco chegar lá mesmo vai ser legal. Já toquei com Josef Dafer, da Tunísia, uma boa referência. O fato de você ter tocado com o Hubert vai contribuir para alavancar seu trabalho na Europa? Acredito que sim. O Hubert é um cara que consegue circular muito bem por lá. Ele já 'teve na mídia. Foi top. De repente, começou a fazer um trabalho menos comercial, voltado para world music. Mais experimental e letras conceituais. Ele toca muito no assunto sócio-político e consegue destaque na mídia por o fato de ele também ser muito irreverente. Uma vez ganhou o prêmio Mozart, que é o grande prêmio da Áustria, promovido por a TV austríaca. De aí, ele ficou 20 minutos falando mal da TV que havia concedido o prêmio para ele. Tipo: «Vocês não me tocam e agora querem me premiar». Ele é assim. Tem gente que odeia e tem pavor de ele, mas é um cara que tem um poder muito grande na linha alternativa. Vai dar um impulso para meu disco. Mas vai rolar grana em 'se projeto? A gente tem que fazer um contrato. Com certeza vou ganhar uma porcentagem do que vender. E a Kamikaze Records, o que tem de concreto? Em a verdade, até agora a gravadora pegou alguns Cds e vendeu no Paraguai. Não aconteceu nada ainda. Sei que é diferente a condição do Paraguai em relação à Áustria. Estou investindo no Paraguai porque 'pero um retorno em termos de contato com outros músicos sul-americano. Encaro a Kamikaze como uma porta para a América do Sul. Tenho muita vontade de conquistar a Argentina. Sou muito fã deste país. Pedro Aznar é uma grande referência. Astor Piazzolla para mim é vital. Por que você acha que os músicos daqui não conseguem fazer uma pressão em Campo Grande e conquistar um maior público? Primeiro, nos faltam empresários e produtores. Pessoas que peguem nosso trabalho, coloquem debaixo do braço e vão à luta. Porque o que acontece em São Paulo é que o músico tem mais 'trutura, com uma pessoa fazendo 'te contato. Aqui não tem isso, só o pessoal do sertanejo. E eles não param de tocar. Mas um dia isso vai acabar. Existe a música sertaneja e a breganeja. A breganeja não tem nada a ver com Mato Grosso do Sul. O gaúcho do Mato Grosso do Sul usa calça jeans apertada e chapéu americano. O nosso bugre aqui usa botina e calça leve. É um outro tipo de sertanejo. Tão misturando música baiana com a gaúcha e dizendo que é a música de Mato Grosso do Sul. Como você vê isso? Não gosto. Não tem conceito. É extremamente comercial. A arte é conceito. Se for ver bem o que fazem, tudo é cópia. Nada é criado. Não tem uma melodia diferente. Por que seu disco não toca nas rádios daqui? Falam que minha música não é comercial. Um programador de rádio me disse isso. Disseram que minha música não é radiofônica. Não é radiofônica para eles. Se não quiser tocar, não toque. Não vou brigar e implorar. Mas vai chegar uma hora que minha música vai tocar. A geração dos músicos conhecidos como Prata da Casa manda no Estado ainda? Estão surgindo outros compositores. Só que é o seguinte: 'tes caras ditos Prata da Casa produzem até hoje. O Guilherme Rondon musicalmente evoluiu muito. Acho que ampliou bastante. Ele mostrou um samba que compôs em Assunção. Achei maravilhoso. Os Espíndola nunca pararam. Têm 'tilo marcado e sempre 'tão compondo. Principalmente a Tetê e a Alzira. Já o Almir (Sater) não vi nada de novo de ele. Acho um grande músico e instrumentista. Só que não tenho visto nada de novo no trabalho de ele nos últimos anos. O pessoal mais jovem 'tá mirando outros compositores. Quando vejo o Olho de Gato tocando e o público cantando minhas músicas acho maravilhoso. Acho que tem uma nova galera vindo, como o Filho dos Livres, por exemplo. Acredito que o certo seria tentar emplacar 'tes compositores menos conhecidos daqui. Um tocar a música do outro. O Paulo Simões tocou muita música de Geraldo Espíndola e Geraldo Roca. O mercado 'tá muito difícil hoje em dia. Lotar os 180 lugares do Teatro Prosa, por exemplo, é tarefa complicada. Então 'ta nova geração 'tá na hora de emplacar outras coisas. Não que 'queçam os medalhões. Estes caras, a gente nunca vai 'quecer, porque eles (Geraldo Espíndola, Paulo Simões, Geraldo Roca, Guilherme Rondon ...) 'tão para o Mato Grosso do Sul como Gilberto Gil, Caetano Veloso e João Gilberto para o resto do Brasil. Jamais serão apagados. Eles têm trabalhos bonitos e marcantes. Você é conhecido por as histórias malucas. Conta uma das loucuras que fez em cima do palco? Uma vez que fui tocar com o Perigo na Área, em São Paulo, na festa da Sabesp. Tava o Fernando Henrique Cardoso lá e outros figurões. Estava bêbado. Me deu vontade de fazer xixi. Olhei e vi que o banheiro 'tava muito distante do palco. Falei: «não vou chegar lá nem a pau». Não tive dúvida. Virei para trás do palco e mijei num vasinho. Número de frases: 211 Ninguém acreditou. Carnaval de pedras imutáveis e infanto-erês passeando por as vielas: um conto da segunda-feira momesca Há uma energia ancestral nas pedras do calçamento no Pelourinho, e para renová-la, centenas de pés infantis correm por as vielas, como Erês, apagando o sofrimento dos 'cravos. Achamos a vaga no vasto 'tacionamento e logo 'tamos cercados por famílias inteiras; há sangue e sonho; cabeleireiros preparam penteados afro e turistas caminham assustados no início da noite de marchinhas hipnóticas, de sopro e tambor. Sinto um gosto de cravinho. Tiro os sapatos e piso no chão, com os olhos voltados para o céu e a iluminação fraca das lâmpadas de tungstênio. A jovem família 'tá fantasiada de Os Incríveis e reclama com o filho inquieto. Tomam cerveja. Comem amendoim. Assistem às bandas de marchinhas. A banda 171 logo se aproxima, com camisa de presidiário listrada. Mais à frente, uma mulher solitária assiste ao show do marido -- sax e um teclado com programação de bateria, em meio ao restaurante de luxo onde turistas engolem vorazmente frutos do mar e carne do sol. O mesmo show, há 12 anos, «Yesterday». Em uma 'quina, surge um bloco de orientais -- tailandeses de pele morena; chineses de rosto achatado; japoneses muito brancos; coreanos de faces redondas. Eles tocam fora do compasso e arrastam uma multidão, como um pelotão de dançarinas exóticas e vendedores de tênis falsificados. Hippies de miçangas, encostados no muro da Faculdade de Medicina, vêm pedir cigarros, ávidos. Robson Andrade tem 31 anos e veio de Olinda. Despreza o carnaval do Pelourinho. -- Aqui não é carnaval. Acaba às 2 horas da manhã!-- diz. Aí reclama da violência na Barra e pede mais um cigarro, puxando os «d» e os «t». Em outra 'quina, Edna e Natan tentam vender uma fantasia do bloco Filhos de Gandhy, a R$ 220. Ela 'tá grávida. Natan 'tá entediado. A o seu lado, por o quarto ano seguido, Solange ajusta os turbantes dos Gandhys a R$ 5 ou 7. Depende do cliente, como tudo por aqui. As lojas de artesanato 'tão todas abertas. Com paciência bovina, a vendedora nem pisca os olhos enquanto assiste ao movimento noturno. É noite. Durante o dia, as ruas 'tavam mais sufocadas. Mostra-mas fotos da artesã com 'trangeiros, que parecem admirados com seus tapetes de piaçava -- troféus instantâneos para referenciar sua arte. Em a mesa de mogno, o capitão Edílson Santana assina o livro de ocorrências com calma, desenhando as letras, enquanto sorri e responde às minhas perguntas. Nada 'tá acontecendo e tudo 'tá tranqüilo. O tempo segue numa velocidade transitória de festejos carnavalescos -- o movimento não parece que chegou ao auge e já vai diminuindo. São 10h30 da noite. Em a entrada do 'tacionamento, um cortejo de baianas cibernéticas prepara-se para sair. -- É o bloco da Eterna Juventude -- explica Edivete Góes Bonfim, 63 anos, bordadeira. -- Não, é o bloco do Lixo ao Luxo, de Joaquim Assis -- corrige Joselita Patrocínio, que faz 70 anos no mês e usa um vestido feito com embalagens de Nescau, bem colado no corpo. «Aqui somos todos iguais. Tem quem pega no lápis, tem quem pega na roupa para lavar. Profissão aqui não importa». Depois de 'sa declaração, qualquer coisa parece mais humana do que registrar os fatos com precisão objetiva. Número de frases: 47 Voltando por a Baixa dos Sapateiros, sinto o gosto do sangue. De o it yourself! A cena underground sempre tem seus personagens e suas lendas. João Pessoa também tem seus ícones curiosos -- Guilherme, The Borges, guitarrista e técnico em eletrônica, autodidata em ambos, é uma de 'sas figuras. Combina as funções de guitarrista do Projeto 50, banda com a qual 'teve fazendo shows na França no ano passado, com a de dono de 'túdio de ensaios, onde faz gravações de demos de bandas de rock e improvisa inovações eletrônicas. Segue assim sobrevivendo na cena roquenrou paraibana. «Comecei a mexer com eletrônica bem cedo, aos treze anos. Em aquela época existiam umas revistas onde vinham uns circuitos eletrônicos e acabei me interessando por o assunto. Com dezesseis anos comecei a tocar guitarra e me interessar por equipamentos musicais. A os dezenove, comecei realmente a me interessar por a parte eletrônica desses equipamentos e a pesquisar, experimentar e buscar informações», lembra. Ele passou a reformar equipamentos antigos, como amplificadores valvulados, adaptando circuitos, válvulas e controles de acordo com o som que procurava para sua guitarra. Tocando com eles em shows e festivais, acabou atraindo o interesse de outros músicos que ficavam 'pantados com o aspecto -- digamos assim -- rústico dos equipamentos e, mais ainda, com o som que saía de eles. Alguns começaram a gostar e a encomendar pedais com timbres 'pecíficos. Os pedais fabricados por Guilherme ganharam logo o apelido carinhoso de GB Toscão». «Internet «A internet foi um grande passo em 'se aspecto de pesquisa e informação. Eu conseguia baixar os projetos de pedais e pré-amplificadores famosos e procurava materiais para conseguir montá-los. Em 'se caso, valia ir atrás de amplificadores velhos, sucata mesmo. Rádios antigos também entraram na minha lista. Muita gente queria uns timbres mais vintage e tive que procurar equipamentos antigos», afirma Guilherme. A receptividade foi extremamente positiva e hoje vários guitarristas da cidade utilizam seus equipamentos. Em a sua linha de produção 'tão pedais de distorção overdrive, fuzz, prés, tremolos e filters que continuam sendo montados em sua oficina eletrônica improvisada. «Primeiro, eu peço ao interessado pra trazer a guitarra aqui no 'túdio para a gente conversar sobre o tipo de som que ele quer tirar no instrumento. A partir daí eu vou desenvolvendo o projeto, sempre baseado em timbres de equipamentos famosos, como dos amplificadores Fender e Marshall. Também me inspiro em guitarristas como Jimi Hendrix e Tony Morello», explica. Guilherme conta que sua referência na internet são sites famosos de pessoas que fazem exatamente isso -- transformam alguns equipamentos a partir do original, testam e depois publicam suas experiências. Eles criam listas de discussões para ouvir opiniões de outros músicos. Alguns desses sites tem projetos abertos para que as pessoas possam trabalhar, opinar e publicar suas opiniões e modificações. Mesmo seguindo 'ses exemplos, Guilherme desenvolveu um 'tilo bem pessoal para montar seus amplificadores e pedais, reaproveitando as carcaças ou criando algumas em processo totalmente artesanal. Quem os vê pela primeira vez tem dificuldade para acreditar na qualidade som e na potência dos equipamentos. Os preços variam entre duzentos reais, por um pedal de distorção e quinhentos reais por um pré-amplificador valvulado. «Através de um amigo, consegui vender dois pedais para um cara nos Estados Unidos», comemora. E recomenda: «Coloca aí que 'tá tudo interligado, o 'túdio, os pedais, a eletrônica e a banda». Sim, a vida tem 'tado totalmente interligada por o som de sua guitarra. Por isso Guilherme, the Borges, apelido que ele não sabe extamente quem colocou, nem quando, é um ícones da cena alternativa de João Pessoa, e vai fazendo 'cola. Quer conferir o som desses equipamentos? Baixe MP3 no -- www. projeto 50. palcomp3. com. br Site oficial da banda -- www. projeto 50. com Número de frases: 42 Contato: theborges@hotmail.com -- (83) 8812 5311 Um tanto atrasada, a bem dizer, vencida, chegou em minhas mãos a programação da 6º Semana de Museus (12 a 18 de maio de 2008). Tivesse chegado a tempo, no entanto, mesmo assim de nada adiantaria -- a não ser que eu viajasse a Picos ou a Teresina, ou saísse do Piauí e fosse a Caxias no Maranhão ou a Sobral, no Ceará, por exemplo -- pois, para o Museu de Arte Sacra de Oeiras a Semana passou em brancas nuvens: nenhuma atividade foi programada! O Museu de Arte Sacra de Oeiras é assim descrito no site do Sistema Brasileiro de Museus: Histórico do Museu O prédio foi construído no século XIX, por a família Castelo Branco, e é conhecido por o nome de Capitão-Mor João Nepomuceno. Pertenceu, ainda, aos Burlamaqui, no ano de 1890, passou a ser residência do Coronel Alano Bezerra. Anos depois, foi adquirido para ser a sede da Intendência Municipal. Em o ano de 1929 passou a ser o Grupo Escolar Costa Alvarenga e, em 1940, o município de Oeiras doou o prédio para a Diocese, quando foi transformada uma de suas dependências em capela. Hoje é sede do Museu de Arte Sacra de Oeiras (1983). Histórico da formação do acervo O Museu de Arte Sacra de Oeiras pertence à Paróquia de N. S. da Vitória de Oeiras. Quase todo o acervo é oriundo de três igrejas: N. S. da Vitória (matriz), N. S. do Rosário e N. S. da Conceição. Uma pequena parte advém de colecionadores. O acervo é composto por imagens de madeira policromada do século XVIII, XIX e XX, varas do pálio, lanternas, crucifixos, castiçais, resplendores e coroas. Uma das dependências foi transformada em capela e em ela se encontram várias peças, como bancos, confessionários, genuflexórios, cátedra, algumas imagens policromadas do século XVIII, imagens em gesso e um altar que pertenceu à Igreja de N. S. do Rosário. Em uma das salas, encontram-se paramentos e outros objetos dos bispos que passaram por 'ta diocese. A maioria das peças ainda é utilizada no período de festas. Administração: pública / 'tadual Sem pretender rivalizar-se com os museus de Arte Sacra da Bahia, de Minas Gerais e, mesmo, o de São Paulo, o acervo do Museu de Oeiras é -- como não poderia deixar de ser -- consentâneo com as igrejas que deram origem a ele, o que lhe confere, inclusive, maior autenticidade. Trata-se, tanto por o 'paço físico onde 'tá instalado -- o sobrado João Nepomuceno é um dos poucos monumentos no Piauí tombado em nível federal -- como por o acervo que preserva, um Museu digno do maior respeito e que tem potencial para despertar o interesse de tantos quantos o visitem, mesmo de pessoas acostumadas a freqüentar 'te tipo de memorial. Param aí, no entanto, e infelizmente, os elogios que se podem fazer a ele. Não me admira que, na 6ª Semana dos Museus, formatada por o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em parceria com a ABM (Associação Brasileira de Museologia) nada fosse programado para ocorrer. Pois nada ocorre nunca lá. Trata-se de um Museu desvitalizado, embora não desvalido, como vimos. Alguém que o visite hoje munido da descrição que transcrevi acima (retirada do site referido) vai reconhecê-la perfeita nos seus mínimos detalhes, pois o que lá existe hoje é a mesma disposicão do acervo que havia 5 anos atrás quando eu o visitei pela primeira vez. Não há exposições temáticas, nenhuma atividade museológica, nenhuma publicação referente a seu acervo, nenhuma possibilidade de se adquirir qualquer souvenir. Trata-se da política de se fingir de morto; quanto menos gente aparecer, melhor, suja menos, dá menos trabalho. Uma lástima! A gente tem a tendência de crucificar a pobre da moça que toma conta do Museu já que ela é a única cara visível para se bater. Não que ela não tenha a sua parcela de culpa, seu conformismo é evidente, não tem amor ao que faz, não rema contra a maré. Sabe, no entanto, cumprir regras burocráticas absurdas, como a proibição de se fotografar o acervo, sem sequer saber o porquê de tal proibição ridícula. Mas é evidente que os principais responsáveis 'tão alhures, na FUNDAC (Fundação Cultural do Piauí). Se você conversar com qualquer gestor da FUNDAC, se compulsar seus documentos publicados ouvirá e lerá que, para a instituição, é palavra de ordem prioritária a Descentralização da Cultura. Em Oeiras, ela possui dois locais que poderiam ser centros irradiadores de 'sa propalada política: o Sobrado Major Selemérico, restaurado, encontra-se fechado, sem que se vislumbre qualquer sinal de um projeto para sua reabertura como Centro Cultural. Já o Museu de Arte Sacra constitui-se na negação de tudo o que prega a moderna museologia, como podemos ver em 'te pequeno trecho do texto de apresentação da 6ª Semana Nacional de Museus: «Os Museus 'tão em movimento, 'tão em mudança e desenvolvimento e são, eles mesmos, agentes de movimento, de desenvolvimeto e mudança social ... Entre em sintonia com o nosso tema gerador, descubra o mundo de possibilidades que os museus oferecem " Pode ser verdade em outros lugares, mas não aqui no Museu de Arte Sacra de Oeiras. Isso precisa mudar! Nota: Número de frases: 45 A bela foto «Visão do Campanario da Igreja Matriz», que ilustra a minha colaboração, de autoria de Adleuza Pacheco, foi adquirida por a OI para figurar num de seus cartões telefônicos de circulação nacional. A pirataria sempre foi -- e ainda é -- uma grande adversária do progresso da indústria nacional de software. Com os jogos, a situação não é diferente: a falsificação de games impede o progresso do mercado, à medida que empresas 'trangeiras preferem não se instalar no país, limitando significativamente a representatividade internacional do Brasil. Como 'te é um quadro de difícil reversão -- ao menos diante das políticas adotadas atualmente, havia dois caminhos: aceitá-lo e ver a indústria definhar ou, com o tempo, encontrar alternativas para «driblar» a situação. De fato, o mercado de games no Brasil passou por péssimos momentos, mas viu nos MMOGs (sigla em inglês para Jogos Multiplayer Massivos Online) um grande filão. Basicamente, MMOGs são games jogados exclusivamente online, em enormes mundos virtuais, na companhia de milhares de outros participantes, cada um com seu respectivo personagem, cujas habilidades e características podem ser evoluídas com o passar do tempo. O elemento mais atraente em 'te tipo de jogo é a socialização, a possibilidade de interagir com outras pessoas. Some-se a isso a explosão das lan houses, os baixos requerimentos exigidos e o modelo comercial dos MMOGs -- diferentemente dos games convencionais, eles não são vendidos nas lojas, mas baixados através da web, e o gênero rapidamente conquistou muitos adeptos por 'tas bandas. Normalmente, empresas brasileiras compram os direitos de jogos 'trangeiros para comercializá-los aqui, devidamente adaptados ao gosto local. É o caso do coreano Ragnarök Online, por exemplo, que já foi jogado por mais de um milhão de pessoas no Brasil. «Desenvolveremos aqui bons jogos Com lucro -- sempre que possível Com prejuízo -- se necessário Mas sempre bons jogos " Esta frase ficava pendurada na sala de entrada da sede da Ignis Games, em Niterói. A produtora foi a responsável por Erinia, o primeiro RPG massivo online brasileiro, desenvolvido durante três anos e lançado em maio de 2004. O principal diferencial de Erinia, e que acabou sendo uma alavanca para marketing e imprensa, era que seu universo misturava elementos medievais e do folclore brasileiro. Exemplificando, quem assumisse a pele de um personagem no mundo de Erinia, teria que combater figuras como sacis e até mesmo o homem do saco. Entre as armas, 'tavam bordunas, zagaias e lâminas sorocabanas. Até mesmo no que diz respeito às magias, havia 'paço para divulgar a cultura local: basta dizer que era possível fazer macumba para outros jogadores -- que, para se livrarem do feitiço, tinham que recorrer às sessões de descarrego. Até o final de 2004, Erinia ia muito bem, de acordo com a Ignis, tendo obtido 25 mil usuários cadastrados. Havia até mesmo a expectativa de lançá-lo no exterior, em países como a Alemanha, por exemplo. As maiores queixas dos usuários do jogo, até então, diziam respeito ao «lag» (atraso no envio e recebimento de dados), que deixava o game «devagar» em alguns momentos. Porém, com o passar do tempo, Erinia foi definhando, incapaz de manter uma média de jogadores suficiente para se sustentar. Sem dinheiro, as 'peradas melhorias e novidades para o jogo não vieram, até que Erinia foi praticamente desativado, encerrando de maneira triste o «bom jogo» desenvolvido por a Ignis. De qualquer maneira, Erinia abriu 'paço para outras produtoras nacionais tentarem investir no mercado de jogos online, como a catarinense Hoplon, que trabalha atualmente em Taikodom, cuja temática é 'pacial e, ao invés de um personagem qualquer, o jogador é representado no mundo virtual por uma nave espacial. Atualmente em fase aberta de testes, Taikodom promete uma liberdade imensa aos usuários, que podem 'colher entre ser patrulheiros, transportadores de cargas, donos de consórcio, piratas 'paciais e por aí vai. Aos poucos, os jogadores construirão a saga do jogo, que teve o enredo produzido por Gerson Lodi-Ribeiro, 'critor de ficção científica. Existem ainda outros jogos online brasileiros, como Ryudragon e Meteorus, só que, diferente do modelo convencional do gênero, eles não são em tempo real, mas em texto. Ou seja, o usuário joga do próprio navegador, formando alianças e combatendo outros participantes. Taikodom e outros eventuais futuros projetos no ramo dos jogos online podem mostrar que o Brasil também tem potencial para 'te tipo de jogo. O investimento costuma ser mais alto para um game massivo online -- uma vez que, após lançado, é preciso mantê-lo no ar, mas em compensação o mercado exterior é receptivo a 'te tipo de produto. Número de frases: 35 Você poderá ler a íntegra da carta de cancelamento do evento clicando aqui. Parti, eu, uma meia dúzia de brasileiros e alguns colegas de diversas nacionalidades, do prédio centenário do Instituto Goethe, em Göttingen, localizado na Merkelstrasse 4, em direção à nova prefeitura. Era já abril, de uma linda primavera, mas ainda fazia frio. Ao menos, para quem vinha abaixo da linha do equador. Tinha ouvido falar de um leilão, que a prefeitura, de quando em vez, realizava, de bicicletas usadas. Seria uma ótima oportunidade de adquirir uma, a bom preço, e conhecer, então, a cidade de Göttingen. Saí do porão do lindo prédio, onde havia inúmeras máquinas de café, chocolate e outras guloseimas. Cruzei o grande salão com piso de madeiras e lareira ao fundo. Salão reservado para as grandes solenidades, como concertos e excepcionalmente uma quadrilha de São João, organizada por mim e outros brasileiros. Mas, isso já é uma outra 'tória ... Em o leilão, vendo aquelas centenas de bicicletas, imaginei-me conhecendo um monte de lugares vistos nas fotos de Göttingen. A famosa Gänseliesel, em frente à velha prefeitura. A praça Wilhem e a Universidade. O observatório de 'trelas, local de trabalho do genial Carl Friedrich Gauß. O grande moinho, no canal do Leine. O Junges Theater, encontro de gente alegre e festeira. A torre de Bismark, alcançada por as trilhas da floresta. O lago Kies, ao sul de Göttingen. E muitos e muitos outros lugares. Todos 'ses pensamentos passavam em segundos na minha mente, como passavam os lances do leilão. E aí até entender, processar na mente e traduzir os números ditos em alemão, já tinham sido feitos, no mínimo, mais dois ou três outros lances. Explicando: para se falar «vinte e cinco» em alemão, diz-se «cinco e vinte». Resultado: nenhum de nós conseguiu comprar bicicleta alguma. Fiquei imensamente triste e já quase indo embora, ouvi alguém, que havia adquirido uma bicicleta, levantar a mesma e gritar algumas palavras a mim incompreensíveis. De aí, um outro alemão, meio em tom de brincadeira, gritou «um centavo», o que consegui entender. Como num impulso, gritei, em seguida: «dez marcos». Como ninguém mais se pronunciou, o dono da bicicleta veio falar com mim. Com grande 'forço compreendi que havia arrematado a bicicleta e que a mesma tinha apenas um pequeno defeito: um ponto no quadro 'tava quebrado e precisava de uma pequena solda, coisa simples, pensei. O restante aparentava bom 'tado de conservação. Em seguida, percorri, empurrando a bicicleta, a cidade quase toda, à procura de uma oficina que a consertasse. Fui informado em 'sa busca, que havia uma loja próxima à 'tação principal de trem. A o chegar mostrei, todo orgulhoso, a bicicleta que tinha comprado, e perguntei da possibilidade de conserto. Qual não foi minha surpresa, quando o dono da loja falou em alta voz: «Müll, total kaputt!». Não conseguia entender como uma bicicleta quase nova, tinha que ir para o lixo. Pensei em todas as crianças pobres do Brasil. Só descobri a resposta quando vi que o lojista tinha algumas bicicletas usadas para vender. Perguntei o preço de uma que me pareceu interessante. Custava trinta marcos. Comprei-a, então, e deixei a outra «de presente» na loja. Com certeza, o destino imediato de ela não foi o lixo. Depois, de posse da bicicleta pude conhecer todos aqueles lugares vistos nos cartões postais, além, é claro, de compreender melhor o significado da expressão: «Müll, total kaputt!». (Marcos Airton de Sousa Freitas, Brasília, 30.07.2006). Publicado em: Foi Legal! Número de frases: 48 Lembranças de ex-bolsistas na Alemanha, DAAD, Rio de Janeiro, Setembro de 2006. Em a onda dos blogs, o maior desejo de quem 'creve um é ver seu trabalho reconhecido por um publico fiel e numeroso. Até que 'se momento chegue é preciso muita força de vontade, paciência, perseverança e principalmente aprender a 'crever. Escrever corretamente! O domínio da 'crita e emprego correto das palavras do nosso idioma não é para qualquer um. Mas não precisa ser o professor Pasquale para ter o mínimo de boa vontade para evitar atrocidades, cometidas quase que naturalmente em algumas publicações que vemos em blogs. Não 'tou falando sobre abreviações utilizadas na digitação de palavras em MSN ou chat. É sobre 'crita errada mesmo. O que me faz pensar que a Internet dissemina uma nova doença chamada preguiça digital. Reconheço que também tenho pouca afinidade com a língua e que provavelmente em algum de meus textos eu cometi deslizes ortográficos. Como sei que nem nem de longe sou indicado para 'crever um artigo sobre 'crita correta, quero apenas compartilhar algumas dicas que procuro utilizar para produzir textos com o mínimo de erros e preferencialmente sem nenhum. Para 'crever melhor é primordial a leitura. Quanto mais leitura, mais se conhece novas palavras e seus empregos adequados. A leitura abre a mente e aumenta o vocabulário. Leia com mais freqüência livros, revistas, jornais e cada vez menos Orkut. Se existe uma dúvida sobre a grafia de uma palavra ou seu significado, é importante recorrer ao dicionário. Ainda que não tenha um dicionário impresso em casa, será muito fácil utilizar algum on-line e instalar um em seu computador. A utilização de um editor profissional, ajuda a minimizar ou mesmo impedir erros comuns. O Word, que não faz milagres, ajuda na correção de palavras digitadas incorretamente além de fornecer um dicionário de sinônimos que auxilia na substituição de elas. às vezes encontramos textos em blogs que evidenciam erros de digitação e não de português. Simplesmente o autor não revisou o texto antes da publicação. Revisar é necessário sempre. É na revisão que encontramos os erros e melhoramos o formato das idéias. Por falar em idéias, o uso correto da pontuação é fundamental para transmitir seus pensamentos sem enganos ou dúvidas na interpretação do texto. Para ajudar a não perder o rumo e facilitar a leitura, procure dividir as idéias em parágrafos. Quem deseja ter um blog reconhecido por um público que valha a pena, precisa se 'forçar para não cometer erros comuns. Qualquer texto perde o apreço quando cheio de erros. Por uma Internet com menos erros, dê sua sugestão sobre como melhorar a 'crita. Número de frases: 28 Utilize os comentários. A OMB, entidade criada em 1960 por Juscelino Kubitschek com a finalidade de regulamentar a profissão de músico no país, é encarada por a imensa maioria dos músicos como uma pedra no sapato. Um resumo de projeto de lei pedindo mudanças radicais na Ordem postada no Overblog chamou a atenção dos animadores regionais do Overmundo. Essas mudanças são propostas do Fórum Nacional Permanente de Músicos e fruto das resoluções tiradas de fóruns regionais, com representação em cerca de 18 'tados brasileiros. Esse relato é sobre como anda a mobilização da classe musical frente à instituição em São Paulo, capital. As críticas a OMB devem ser colocadas em perspectiva. A atuação do órgão é vista como burocrática, ultrapassada e ineficiente por a imensa maioria de músicos no país, já que se limita à concessão de carteiras de habilitação profissional e cobrança de anuidades -- ítens obrigatórios para o exercício da profissão, a fiscalização desses mecanismos e eventuais cartazes 'palhados por a cidade com os dizeres «Exija Música ao Vivo». É uma situação precária, que entusiasma a corrupção e mostra o descaso com a classe artística. Em uma matéria recente da revista semanal Carta Capital um repórter aprendeu a tocar dois acordes no piano e conseguiu tirar sua habilitação sem maiores dificuldades senão o pagamento das taxas (confira as tabelas no site). Essa morosidade tem um exemplo fundamental na presidência da Ordem. A sede da OMB por aqui fica na Avenida Ipiranga. É lá que Wilson Sandôli preside a associação desde 1965, quando assumiu a OMB após uma intervenção do governo do marechal Castelo Branco. Mais afeito a notas e comunicados oficiais do que a conceder entrevistas, ele também acumulava o mesmo cargo no Conselho Regional Paulista e no Conselho Federal. Por conta disso foi aberto um processo que obrigou Sândoli a 'colher entre um dos cargos. Sândoli ficou com o Conselho Regional, mas da nova eleição para o cargo, que deveria ocorrer em 90 dias, não há mais notícias. Existem em São Paulo pelo menos três iniciativas de mobilização contra a Ordem que devem ser levadas em conta. A primeira vem da Associação dos Profissionais da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, que redigiu uma moção de repúdio às atuações da OMB e do SMSP com abaixo-assinado on-line. A Cooperativa de Música de São Paulo, em atividade há mais de um ano e com mais de 100 membros, é uma entidade jurídica gerida por os participantes através de voto direto em assembléias. Uma das principais lutas declaradas da CMSP, que inclui grupos importantes como A Barca e Terrêro de Jesus, é a reforma da OMB. Recentemente Bruno Ramos, sócio do selo Peligro e advogado, conseguiu uma liminar permitindo as apresentações do artista gaúcho Tony da Gatorra, que tem seu trabalho lançado por o selo indie, no Sesc, sem que ele tivesse a habilitação. Sua argumentação frente ao júri foi que Gatorra não é um músico profissional -- categoria aliás que não é definida por lei até agora. Já que o gaúcho não vive de sua música, ele não teria porque ser filiado à OMB. Há notícias de ações isoladas como 'sa por todo o território nacional, inclusive da parte de profissionais que vivem sim de fazer música, mas também outras tantas de vitórias jurídicas da jurássica instituição. Resta agora que as diferentes vertentes de músicos consigam se articular em busca de uma solução plural. Número de frases: 24 Você mora em Pernambuco? Tem uma banda de rock com pelo menos uma música demo e um release prontinho? Então chegou a hora de tentar vaga no Pátio do Rock. Marque no calendário: até 30 de setembro, a terceira edição do festival para bandas iniciantes 'tá com inscrições abertas. O resultado sai dia 8 de novembro, às 18h. Em o total, serão 16 grupos (mais quatro convidados) em quatro noites: de 22 a 25 de novembro, no Pátio de São Pedro (São José). A realização é do Espaço Cultural Pátio de São Pedro (Prefeitura do Recife), sob a coordenação de Fred Salim. O evento é anual, e faz parte da proposta da prefeitura em tornar o local um celeiro de várias culturas, a exemplo dos consolidados projetos semanais Terça Negra, Dançando no Pátio, e Sábado Mangue. Assim como o Microfonia (que seleciona uma banda todo ano para o Abril Para o Rock), o Pátio do Rock é um concurso que cataliza o processo de revelar novos talentos. Participar destes eventos tem tudo pra ser o empurrão que falta na carreira de uma banda. Se 'colhida por um comitê de sete pessoas (entre jornalistas e produtores, 'te que vos tecla), ela tocará num palco com boas condições de 'trutura e técnica, para um público maior do que o de costume (formado por quem quer saber o que tem de novo na cena roqueira, e por quem gosta das outras bandas), ganhará visibilidade na imprensa local, e ainda por cima, um pagamento de R$ 300. Quer mais? Não precisa registro na Ordem dos Músicos! É bom ressaltar que o pagamento não é cachê, mas uma ajuda de custo pra facilitar nas despesas de transporte e alimentação dos selecionados. Esta é uma das evoluções deste ano no Pátio do Rock. A outra é que a grade agora 'tá mais bem distribuída, o que aumentou o tempo pra cada banda mostrar seu show. Em o ano passado, a grande dificuldade foi conciliar oito ou nove atrações por noite. Ainda comparando com 2005, diminuiu o número de dias (de cinco para quatro) e bandas (de 47 selecionadas pra 16). O que deixa a disputa mais acirrada, é verdade, mas resulta num festival mais enxuto, ágil e de qualidade. Quanto às categorias, continuam sendo três: punk / hardcore, metal, e o grande guarda-chuva do que se batizou pop rock -- 'te último contemplado com as duas últimas noites. As inscrições podem ser feitas pessoalmente, no Espaço Cultural Pátio de São Pedro, das 8h às 14h. Quem mora no interior do 'tado, pode fazer via Correios. É importante ler o regulamento completo, disponível no site da prefeitura. E boa sorte! Número de frases: 27 A partir de uma sugestão do amigo Thiago Camelo, decidi dedicar a última coluna de cada mês a recordar histórias e curiosidades da teledramaturgia brasileira. A cada mês, teremos um momento intitulado " E a teledramaturgia contou ..." ('pero que o título agrade, amigos), na qual revivemos virtualmente coisas que se passaram na nossa telinha. E, em 'ta primeira coluna, não poderia haver outro assunto que não Anastácia, a mulher sem destino, e o célebre desfecho que consagraria Janete Clair como uma das mais talentosas 'critoras de novelas, a «Nossa Senhora das oito», como bem definiu o pesquisador Mauro Alencar. Caso tenham mais sugestões, coisas que queiram ler em 'ta série, por favor, digam nos comentários. Bom, mas vamos logo à história. E foi assim que a teledramaturgia contou ... Anastácia, a mulher sem destino * * * Em seus primeiros passos na teledramaturgia, a TV Globo já buscava se diferenciar das concorrentes (que apostavam em melodramas adaptados de textos mexicanos e cubanos) para conseguir audiência. Para isto, a emissora contratou uma 'critora cubana chamada Glória Magadan, que, por ter vivido por muitos anos nos Estados Unidos, poderia trazer para o Brasil os truques e as artimanhas típicos das soap operas americanas. Ela 'crevia e supervisionava as tramas que iam ao ar na «jovem» emissora do Jardim Botânico, e acabou criando um tipo de novela designado por pesquisadores no assunto como «folhetim de capa e 'pada». O «padrão» de novela global tinha sempre a mesma característica: as histórias se passavam em séculos anteriores, ambientadas em países do Leste Europeu e da Arábia, e as tramas envolviam duques, condessas, bastardos -- não importava o nome do autor, todos (Dias Gomes, Walter George Durst e tantos outros) eram submetidos ao «'tilo» de Glória Magadan. Não seria diferente na novela que 'trearia às 21h da programação da TV Globo no dia 28 de junho de 1967. A partir daquela data, os 'pectadores globais passariam a acompanhar a saga de Anastácia, uma pobre moça que era cuidada por um lenhador desde que ele a encontrou abandonada numa floresta. A o crescer, ela descobria ser filha de uma paixão proibida de Nicolau III, o último czar russo. Mas com a crise que acabava com a monarquia do país, a moça se refugiava numa ilha vulcânica das Antilhas, 'condendo sua identidade. Assinada por Emiliano Queiroz, Anastácia, a mulher sem destino, aos poucos, foi se tornando uma dor-de-cabeça para a TV Globo. Solidário aos colegas de profissão, Emiliano arranjava emprego para atores e inchava o número de personagens na novela -- deixando a trama a cada capítulo mais confusa e, principalmente, dando mais gastos à produção da emissora. Em o capítulo 40, Glória Magadan recorreu a uma autora ainda de pouco destaque para tentar descascar o «abacaxi» que Anastácia, a mulher sem destino se tornou para a TV Globo. Contratada apenas para dar uma reviravolta numa trama, Janete Clair começaria a entrar para a história da TV brasileira por uma solução drástica e eficaz. Acontecia um terremoto na ilha em que se passava a trama, e boa parte dos personagens morria com o tremor de terra -- mas, por descuido de Janete, a personagem que sabia do segredo da trama acabava morta. Depois da catástrofe, passavam-se 20 anos, e surgia uma nova trama (tendo apenas quatro dos personagens criados originalmente por Emiliano Queiroz). Apesar de não alterar os números da audiência, Janete foi responsável por traçar dois destinos. O da pobre Anastácia (que chegou a se tornar mãe com a passagem de 20 anos, e ambas as personagens foram vividas por Leila Diniz) e o da história da teledramaturgia brasileira -- que, no mesmo ano, começaria a retratar a realidade do país, deixando obsoletos os melodramas das Arábias criados de maneira mirabolante por Glória Magadan. * * * Fontes consultadas: Site Teledramaturgia www.teledramaturgia.com.br Livros A Hollywood brasileira, de Mauro Alencar Nossa Senhora das oito, de Mauro Alencar Número de frases: 29 Memória da telenovela brasileira, de Ismael Fernandes Calma, leitor. Antes de pensar que 'ta se trata de uma frase tirada de um panfleto, preste atenção: ela foi dita por Lauro Muller, catarinense, engenheiro militar e político que morreu em 1926, no Rio de Janeiro. E por que 'ta frase 'tá aqui? Vem acontecendo, desde novembro de 2007 (vem acontecendo porque é em fases) o I Seminário de Língua Alemã de Blumenau. O projeto deste evento foi encaminhado ao Ministério da Cultura e acontece, hoje, graças ao Petrobrás Cultural. Um Pouco De História Há que ficar claro aos leitores que a questão da língua alemã no sul do Brasil não é somente séria, merecedora de revisões, como também mal 'tudada. Em a verdade, os 'tudos parecem ter recém começado, mas de qualquer forma faltam aprofundamentos. Pensando nisso, talvez, que o Seminário de Língua Alemã veio ao mundo. Pra quem não sabe, boa parte da região sul foi colonizada por imigrantes europeus. Oriundos de algumas grandes frentes regionais (Alemanha, Polônia, Itália, Ucrânia), 'ses imigrantes não somente deixaram seus países de origem como almejavam levá-los com si para o Novo Mundo. Foi o que aconteceu na região de Blumenau. Os migrantes que por aqui chegaram depois da metade do século XIX não somente possuíam nacionalidade alemã, como tentaram manter o 'pírito alemão, o deutschtum, que numa tradução imprecisa significa germanidade. Mas vivendo num país 'tranho, falando uma língua 'tranha, ainda que em comunidade, pode se imaginar o conflito vivido por 'tes novos moradores da América. De um lado, traziam a 'perança de, finalmente, possuírem terras, bens econômicos, liberdades política e social (que na Alemanha andavam 'cassas) e poderem oferecer vidas melhores a si e aos seus filhos. Por outro, ficava a saudade de uma Alemanha civilizada, de literatura desenvolvida, de pessoas que entendessem o idioma que falavam, enfim, irmãos de sangue e pátria. O Pioneirismo De VALBURGA HUBER A respeito desse tema, do dualismo constante vivido por os imigrantes alemães que chegaram ao sul do Brasil, ninguém pode ser melhor referência do que Valburga Huber. Doutora em Língua e Literatura Alemã por a USP, foi a primeira pesquisadora a abordar o tema da literatura teuto-brasileira (teuto, que vem de teutônico, que abrange os demais povos de língua germânica que migraram para o Brasil na época). A dissertação de mestrado que virou livro, Saudade e Esperança -- O dualismo do imigrante refletido em sua literatura, é o ponto de partida de uma série de novos olhares para 'sa realidade do imigrante alemão em terras brasileiras. Em Blumenau, o idioma alemão foi oficial por quase cem ano s. De 1850 a 1940, o alemão era oficial tanto na mídia impressa como nas 'colas e na literatura dos blumenauenses. Poetas e 'critores emigrados não fizeram somente muito sucesso entre as colônias alemãs brasileiras -- mesmo porque a literatura que produziam 'tava diretamente ligada aos fatos da imigração -- como muitos chegaram a fazer sucesso na própria Alemanha do início do século XX. A 'se respeito, nada melhor do que ler e se deixar apaixonar por as obras de Valburga Huber e Marcelo Steil, 'te que 'creve nos anos de 1990 sobre a poesia imigrante, procurar entender do que na verdade se tratava 'ta produção literária que era tanto alemã quanto brasileira. Se não no idioma, mas certamente no 'pírito. Com as Campanhas de Nacionalização do Ensino, impostas por Getúlio Vargas, não somente se perdeu o contato com 'se idioma 'crito, como aos poucos ele foi sendo deixado de lado até ser quase totalmente 'quecido. Pois bem. Em os anos de 1940, institui-se que o idioma oficial de Blumenau é o português. E daí? Proibiram-se os jornais, fecharam as 'colas e por um bom tempo se deixou de 'crever literatura. O BILINGÜISMO Pesquisado Por MARISTELA FRITZEN O leitor que veio até aqui pode imaginar o trauma causado por as decisões meramente políticas, burramente políticas, que silenciaram não somente um povo, como também emudeceram uma cultura. De a década de 1940 até as décadas de 1960/70 temos o período que chamamos «silenciamento lingüístico». Ou seja: por vinte, trinta anos, não se falou. Ou melhor: os então descendentes de alemães que por aqui viviam tiveram de reaprender a se expressar, dominar uma nova língua, novos costumes lingüísticos; tiveram de se tornar brasileiros. Ou não. E quem oferece a negação é outra pesquisadora que merece aplausos. Maristela Fritzen apresentou durante o Seminário de Língua Alemã partes interessantes de sua tese de doutorado. Denominada «Ich kann Name mit letra junta und letra separada schreiben» (Eu consigo 'crever meu nome com letra junta e com letra separada), o trabalho de pesquisa de Maristela descreve as experiência de bi e multilingüismo em 'colas da região de Blumenau. O que fica claro é que mesmo o silenciamento provocado por o Estado Novo conseguiu apagar os traços mais importantes da cultura alemã no sul do Brasil: seu idioma e as pessoas que o falam. Se no século XIX tínhamos alemães que deixaram a Alemanha em busca de uma Terra Prometida, por assim dizer, no século XXI temos uma comunidade extensa que procura ser respeitada por o idioma que ainda fala. É verdade que o alemão de Blumenau não é o mesmo da Alemanha, mas como frisa «Maristela,» o português do Brasil é o mesmo de Portugal?». A língua é viva, pois não. Acontece que falar o «alemão de Blumenau» não é uma questão de prestígio. Isso, Maristela explica muito bem, colocando como línguas prestigiadas o inglês, o francês, o 'panhol e até mesmo o alemão gramatical, aquele 'tudado em 'colas alemãs. O dialeto que surgiu no Vale do Itajaí, 'te sofre com o processo de 'tigmatização da língua por não ter prestígio, por 'tar limitado a um grupo relativamente pequeno de falantes. Voltando ao Seminário É preciso voltar ao I Seminário de Língua Alemã de Blumenau para terminar 'te meu texto. É preciso dizer que 'te evento tem uma importância desigual para a compreensão histórica e social do que aconteceu no Sul do Brasil nos últimos cento e cinqüenta anos. É preciso parabenizar seus organizadores por terem reunido, numa mesma fala, três dos maiores pesquisadores da língua e da literatura alemã no 'tado de Santa Catarina. Mas é preciso retomar um pouco da fala de Valburga Huber. Quando lhe foi perguntado se o uso do idioma alemão na literatura (sobretudo na poesia) era uma questão de mera sensibilidade ou uma prática política desses mesmos imigrantes alemães para que não perdessem o vínculo com o país de origem, a pesquisadora busca nos poetas de língua alemã lá do século XIX uma resposta precisa: ainda que 'crevessem em alemão, eles já saudavam a nova pátria, o Brasil, suas riquezas naturais etc. como pertencentes a 'ta terra, como seus novos moradores. E é aqui, finalmente, que se encaixa a frase-título desse texto. Ela foi dita por um desses descendentes de alemães que lutaram por o país para o qual migraram, o Brasil. Os imigrantes vieram da Alemanha, é verdade. Mas quem sofreu com as diretrizes políticas do Estado Novo foram os seus filhos. Se queriam, por um lado, manter contatos anímicos com o país de origem, em momento proibiram que seus filhos se tornassem «brasileiros». Pretenderam, na verdade, manter viva a cultura, mantendo-a acesa -- o que não é problema nenhum se virmos as oktoberfests que acontecem em todo o sul do país, os «vales europeus», os grupos de danças típicas alemãs. A verdade é que o Brasil foi o país que acolheu 'tes imigrantes quando seus países lhes davam as costas; de alguma forma, lhes eram agradecidos. Aos poucos, a língua alemã volta a ser pauta de discussão nos meios educacionais e políticos de Blumenau. Felizmente. Não que ainda dê para recuperar o tempo perdido durante as campanhas de nacionalização, a Segunda Guerra Mundial, a repressão com que sofreram 'tas milhares e milhares de pessoas. O tempo passou e as marcas 'tão aí. Mas que seria realmente muito bom se se reconhecesse a brutalidade que aconteceu contra brasileiros, em território brasileiro, que somente não tinham o português como língua padrão, ah, isso seria realmente muito bom. Seria, principalmente, o primeiro salto contra o preconceito lingüístico: aquele que diz que quem não fala o bom e velho (velho mesmo) português gramatical deve ser varrido das faces deste país. A respeito deste tema, já 'crevi no artigo Nacionalismo: marcas de um silêncio que persiste, de 2007. como se pode ver aqui, trata-se ao mesmo tempo de uma afirmação daquele, contendo a sua negação. Número de frases: 74 Vim denunciar, brigar, reclamar e não sei mais o quê, mas que seja para chamar atenção pelo menos. Sou negro e com muito prazer! Nunca sofri nem um tipo de preconceito e se sofri nem percebi, pois não ligo para 'sas coisas. Sei que temos que brigar por os nossos direitos e apóio 'sa atitude! Há anos 'tamos à margem da sociedade e não temos direito a quase nada, se não a nada. Mas não vou entrar em 'sa conversa, pois não perco meu tempo para falar sobre 'se assunto, pois acho que o preconceito atual se resume a quem tem e a quem não tem dinheiro. Há quem ainda tem preconceito por cor, mas a maioria é sócio-econômica. Vim falar de Evilásio, personagem de Lázaro Ramos, da novela das 9h, Duas Caras do autor, Aguinaldo Silva, que namora uma menina de família tradicional e rica, Júlia. O que vim falar é que na novela só se fala: afro pra lá, afro pra cá, o afro é isso ou aquilo. Será que eles não percebem que com 'sa maneira de tratar o negro 'tão fazendo um novo tipo de preconceito mais elitizado? Pois só vão mudar o nome, ou seja, elitizá-lo, mas o preconceito 'tará contido, infiltrado na palavra. E assim, quando a pessoa chamar o outro de AFRODESCENDENTE querendo ser preconceituoso não será, pois chamar de afro não é crime, chamar de afro «PODE»! Infelizmente as pessoas não lêem e não sabem que o que significa signos e significantes na linguagem semiótica. Talvez por isso não saberão que 'tarão sendo agredidos. Em o discurso 'tão contidas outras linguagens que já vêm com a pessoa desde sua infância, na 'cola e até mesmo o que é aprendido vendo mídia cultural televisiva. O discurso como toda " atividade comunicativa com interlocutores; atividade produtora de sentidos se dá na interação entre falantes», fala Helena Brandão em seu texto Analisando o Discurso. Convivendo com crenças, ideologias, etc, nosso discurso fica cheio de significados e significantes. Signo é qualquer elemento que seja utilizado para exprimir uma dada realidade física ou psicológica e significante é a imagem. «às vezes, 'ses sentidos são produzidos de forma explícita, mas na maioria das vezes não. Nem sempre digo tudo o que penso, deixo nas entrelinhas significados que não quero tornar claros ou porque a situação não permite que o faço ou porque não quero me responsabilizar por eles ...», disse Brandão. O negro na sociedade da teledramaturgia brasileira sempre foi o empregado, o motorista, o 'cravo ou qualquer papel que o julgasse menos dos que os brancos. Isso forma uma imagem bastante caricatura do ser negro. Em 2006 a novela Sinhá Moça teve um inquérito aberto, pois deturpava a imagem do negro como se ele não fosse capaz e precisasse de heróis brancos para ser salvo. Agora em 2007, o autor da novela Duas Caras 'tá «foragido», pois recebe ameaças por causa do núcleo Evilásio e Júlia. O autor 'tá fora do país para manter-se vivo. Número de frases: 28 Uma brincadeira milenar de significado puramente religioso que registra a visita dos três «Reis Magos» quando o menino Jesus nasceu, as Pastorinhas de Parintins como em todo o Brasil é uma peça teatral encenada e cantada ao som de cavaquinhos, banjos, castanholas. Os ensaios das pastorinhas já começaram nos barracões no quintal das casas das famílias envolvidas na brincadeira. Aqui a brincadeira é encenada também nas ruas da cidade durante a época de natal e no dia 06 do mês de janeiro, dia de Santos Reis. A o visitar a cidade em 'se período, o turista irá perceber a forte religiosidade e cultura de uma das brincadeiras cultivadas durante muitos anos no Município. A brincadeira é levada tão a sério que até existe a Associação Cultural das Pastorinhas de Parintins -- ACPP, fundada em 04 de novembro de 2000, com título de Utilidade Pública e tudo. Para manter a história das pastorinhas e principalmente relembrar ícones que marcaram a trajetória no Município, os grupos folclóricos criaram a Associação Cultural das Pastorinhas de Parintins. A cultura das Pastorinhas ganhou força e 'paço no Calendário Cultural de Parintins e já é uma referência no Amazonas. A representatividade à brincadeira veio com a criação da Associação Cultural das Pastorinhas de Parintins, uma vitória que serviu para ampliar e assegurar recursos para a brincadeira. Festival das pastorinhas reunirá grupos num só cordão Diferente do ano de 2005, o festival das pastorinhas será aberto com o auto do natal no dia 23, e reunirá todas as pastorinhas no único cordão. A disputa do festival acontece nos dias 25,26 e 27 de dezembro no bumbódromo, centro de convenções do Município. Mara Siderval, secretária da Associação Cultural das Pastorinhas, disse que pastorinhas 'tão se organizando e informou que elas irão inovar 'se ano. «O diferencial da apresentação da pastorinha do festival de 2006 será a chamada para o Natal, uma novidade que será realizada no dia 23 de dezembro. Em a apresentação que antecede o festival, todas as pastorinhas vão fazer uma evolução no mesmo momento, onde todas irão se unir, formando um único cordão». Explicou Siderval. A secretária revelou que a Associação 'tá apenas aguardando a liberação da verba para começar os trabalhos de barracão e confecção de fantasias. Messias Amazonas, assessor da Coordenação de Cultura, declarou que na segunda-feira, 20, houve uma reunião da coordenação com as pastorinhas para acertar os detalhes da organização do festival e definição da verba para o evento. «As pastorinhas fizeram suas reivindicações sobre o repasse da verba. Vamos manter contato com a prefeitura para definir o valor que será disponibilizado para cada pastorinha. Estamos aguardando uma resposta que será dada na semana que vem», previu Amazonas. Regulamento De acordo com Messias Amazonas, a 'colha de jurados já 'tá sendo viabilizada, mas há uma dificuldade muito grande por a falta de pessoas para julgar a brincadeira. «O regulamento é bem claro, que a pessoa que for julgar tem que ter conhecimento da cultura das pastorinhas. A gente tem uma dificuldade de 'colher jurados porque as poucas pessoas que entendem a brincadeira já foram juradas, o que 'barra no regulamento, pois, a maioria já participou de outros festivais. Estamos correndo atrás de pessoas aptas para julgar», declarou Amazonas. O festival das pastorinhas no ano passado reuniu cerca de 7000 pessoas. Conheça as Pastorinhas As Natalinas O grupo de pastorinhas conserva a tradição de brincar a pastorinha há 62 anos. A origem da brincadeira começou quando a fundadora Francisca Cataque prometeu cumprir a promessa de colocar a brincadeira. Tudo começou quando Francisca encontrou a imagem do menino Deus numa gruta na Vila Amazônia, reduto histórico da colonização japonesa no Município de Parintins. Segundo relato de sua filha Rosa Cataque, ao encontrar a imagem resolveu fazer a promessa de «colocar a pastorinha enquanto ela vivesse e suas filhas fossem solteiras». Algumas de suas filhas casaram e Francisca continuou com a promessa. Com o tempo migraram da Vila Amazônia para Parintins e continuaram por muitos anos com a brincadeira na sua residência, localizada na rua Fortaleza, no bairro de Palmares. Após um longo período as Natalinas se mudaram novamente, de 'sa vez para a rua Alberto Mendes, a convite da Sr. Efigênia que também havia feito uma promessa em colaborar com a brincadeira das pastorinhas. A brincadeira é realizada no local há 18 anos. As Filhas de Maria Levar alegria à noite de natal em comemoração ao nascimento do menino Jesus. Esse foi o principal motivo de criação da brincadeira da Pastorinha do grupo «Filhas de Maria, no ano de 1991», do bairro São Francisco de Assis, por a líder Rosimar Siderval da Silva, 44, que começou apenas com uma apresentação de alguns figurantes, e hoje na direção da Associação das Pastorinhas em Parintins, vem contribuindo com a afirmação e revitalização da cultura no Município com perspectivas de gravação de um CD, por a Fundação Vila Lobos e de apresentações em Manaus. Rosimar Siderval, lembrou que em 1994, quando enfrentou algumas dificuldades em relação à falta de apoio, que quase culminou com o fim da brincadeira, sua filha, Jucimara Siderval da Silva, conhecida como Mara Siderval, 25, na época com apenas 12 anos de idade interviu e pediu para a mãe continuar com a brincadeira, prometendo lhe ajudar a buscar recursos para o grupo «Filhas de Maria», junto às pessoas conhecidas. Rosa Siderval conta que com isso a brincadeira foi para sua residência na rua Uaicurapá, onde funciona até hoje. O Grupo integra 45 pessoas, de entre jovens e crianças humildes do bairro São Francisco. Em 1992, a idéia de sua Pastorinha ser composta de jovens e crianças foi da sugestão dada por o saudoso Bispo Dom Gino Malvestio, um grande incentivador da brincadeira. «A pastorinha sempre teve apoio do Bispo que nunca deixou de ajudar tanto do ponto de vista 'piritual quanto financeiro, ele sempre pedia para não deixar de colocar a pastorinha até que meus filhos pudessem assumir um dia», recordou a líder do grupo. Em 2005 a pastorinha foi a campeã do Festival das Pastorinhas. Conheça um pouco do significado das figuras Pastor -- Guia do rebanho Florista -- moça que zela por um jardim Rainha -- Representa Maria, princesa Cordões Vermelho e Azul -- O vermelho significa o Pastor e o azul a ovelha perdida Estrela -- sinal Arco-íris-sinal do céu Número de frases: 52 Fonte: Simas Cinco Décadas Que Não Cabem em Apenas CinqÜenta Anos De a janela da sua casa se vê um Rio de Janeiro antigo, preservado. De ela, sente-se cheiro de pedra molhada, ouve-se um riacho lento e vê-se arquitetura machadiana. É uma paisagem real e inspiradora. Aliás, naquele mesmo Beco do Boticário, ao pé do Morro do Corcovado, morou o autor de ' Dom Casmurro ` e ' Memórias Póstumas de Brás Cubas '. Quem sabe aquela mesma paisagem, hoje desfrutada por Barbara Heliodora, serviu de inspiração para Machado de Assis. É um excelente lugar para se 'crever críticas. É um excelente lugar para se 'crever qualquer coisa. É mágico que aquelas casas permaneçam de pé. É encantador imaginar que o sol e depois a 'curidão e de novo o sol, tenham entrado e saído daqueles aposentos todos os dias. Que a chuva tenha continuado a cair naquele telhado. E tudo continue tão inspirador. E a sinestesia ganhe força, dia após dia. De ali, a maior crítica de teatro do país, Barbara Heliodora, desmoronou e ergueu 'petáculos independentemente de autor, diretor, elenco. De ali, ela tornou-se a crítica mais temida das artes cênicas brasileiras usando uma só arma: a sinceridade. «Quando é ruim o que se pode fazer? Tenho que ser verdadeira». Era uma tarde nublada no Rio, quando Barbara nos recebeu em sua casa, horas antes do lançamento do livro ' barbara Heliodora -- Escritos sobre Teatro ', na Livraria Argumento, no Leblon. Em 'sa conversa, ela falou, entre outras coisas, do cenário teatral nacional, políticas públicas (ou falta de elas), censura, sua rotina de 'pectadora e claro, do livro que reúne mais de 250 textos de sua autoria. Gostaria de começar falando do livro. Esse livro na verdade não foi feito por mim. Ele foi coordenado e organizado por a Cláudia Braga que foi minha aluna de graduação. Hoje ela já 'tá fazendo pós-doutorado em Paris. Ela é que teve a idéia de publicar minhas críticas. Eu tinha guardado boa parte do que 'crevi, mas sem nenhuma pretensão de publicar. Aí, ela reuniu alunos da Universidade Federal de São João del-Rei -- UFSJ, onde ela é professora e coordenava um núcleo de pesquisa sobre teatro brasileiro. Ela e um grupo de alunos então fizeram todo o levantamento, digitalização e a seleção. Então o livro é um resultado de um trabalho fenomenal da Cláudia, eu já tinha 'crito há muitos anos e já tinha até 'quecido. Ela que organizou. O livro cobre 50 anos, de 1944, quando 'crevi pela primeira vez no jornal, até 1994. São 250 textos? Isso. Ela disse que eles digitalizaram cerca de quatro mil laudas. De maneira que o livro é só uma parte. É, sei lá, 10 %. O que a senhora achou da seleção dos textos? Eu não opinei. Foi tudo com ela. Mas eu acho que o que ela fez foi cobrir um panorama variado, quer dizer, não ficou muito num gênero só. Além disso, alternou as críticas com os artigos que fiz sobre teatro em geral. Essa 'colha foi feliz sim. Acabou que o livro é um panorama da época. Em 'ses 50 anos, o teatro mudou muito? Mudou bastante. Mudou de várias maneiras. Quando eu comecei ainda 'tava aquela briga, o Nelson (Rodrigues) tinha aparecido há pouco tempo e ainda havia aquele conflito entre o teatro moderno e o teatro mais antigo. Eu testemunhei 'sa leva do novo teatro brasileiro. Justamente em 'sa época, apareceu a Companhia Celli-Tônia-Autran, em (19) 56. Em (19) 59 apareceu o Teatro dos Sete, depois apareceu o Teatro Cacilda Becker. Quer dizer, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) foi se desmembrando e foi dando 'paço para novos conjuntos de alta categoria que fizeram 'petáculos extraordinários. Foi um período maravilhoso! Fantástico! Isso se perdeu quando? Com a censura? Nossa! A parte da censura foi uma coisa horrorosa. Ceifou carreiras de autores sensacionais que 'tavam surgindo e acabaram desistindo, e o pior, novos autores não tinham acesso livre aos palcos para começar a experimentar. De maneira que foi uma coisa que prejudicou demais o teatro. Mas, de algum modo, o teatro foi conseguindo se manter vivo, com 'petáculos teatralmente válidos, mas menos profundos. E aos poucos a coisa foi piorando muito e muito. A censura ou o teatro foi piorando? A censura. Ela tornou o teatro inviável. Existiu recuperação? Então, depois que acabou a gente foi perceber como o recomeço é doloroso. Até ser possível juntar os pedaços e recomeçar ... Quando acabou se teve a prova da cretinice, 'se é o termo da censura. Quando anunciava uma peça que finalmente seria liberada, a gente ia ver e não era nada. Ficava a pergunta: por que censurou? Não tinha nada demais na peça. Então, foi quando o teatro brasileiro passou por uma época de comédias ridículas? As pessoas ficam 'pantadas quando digo que 'sa época foi importante para o teatro. O besteirol foi um caminho ótimo para a reconquista do público. Porque depois da censura 'tava tudo morto. Qual é a maior tradição do teatro brasileiro? Justamente a comédia de costume. E o besteirol não é nada mais que uma pequena comédia de costume caricata, não é isso? Esse então foi o caminho da recuperação? Exatamente. Eu acho que agora 'tá havendo uma coisa importante: muito teatro brasileiro. Não 'tou dizendo que tudo é bom, mas se não existir muito, não vai haver bom. A grande diferença é que ainda na década de 60 apareceu a ' Lei Dois por Um '. Para cada dois textos 'trangeiros, você tinha que encenar um nacional. Aí os grupos 'treavam com um infantil nacional pela manhã e à noite levavam o estrangeiro. Aí se você olha o teatro hoje e vê que a maioria dos 'petáculos é de texto nacional, você percebe a evolução, a diferença. Em aquela época o estrangeiro tinha um domínio muito grande. Eu tenho uma lembrança que durante (19) 50 e (19) 60, se fazia sucesso em Paris, Londres ou Nova Iorque, era importado de qualquer maneira, relevante ou não para o público brasileiro. Isso fez com o que perdesse o 'paço do teatro universal? De as encenações que formam as pessoas? Shakespeare? Sófocles? Para o universal sempre existirá. Mas existe um pouco mais de critério, não mais se importa por importar. Acho que se tem uma peça muito boa a ser apreciada aqui, tem que trazer mesmo. Por que é bom ver bom teatro, mas acho que a descoberta do Brasil por os brasileiros é o que fez a maioria das peças serem nacionais. Acho que isso é um resultado do processo do Brasil. Gostaria que a senhora falasse de políticas públicas para o teatro? E tem? Existe? Antigamente existia o serviço nacional de teatro, agora supostamente existe, mas cadê? Eu não vejo. Acho que o Ministério da Cultura ignora o teatro completamente. Ele tem se ocupado de cinema e música popular, agora, artes plásticas e teatro? Eu não vejo. Dizer que existe uma política? Não! Falta uma política 'clarecedora. Há certas coisas que são incompreensíveis. Como o quê? Os aluguéis das casas de teatro, não os municipais, nem 'taduais, mas os particulares são abusivos, horrorosos de caros, no entanto, alguém baixa uma lei e diz assim: ' você tem que cobrar 50 % aos maiores de 60 e aos 'tudantes '. Quer dizer, o Estado ou a prefeitura não pagam 'se 50 % que foi tirado. Ninguém 'tá pensando que foi muito bonitinho ... Ah! que ótimo! Mas quem 'tá trabalhando 'tá sendo prejudicado. É uma dificuldade sobreviver com 'sas condições. Aluguel é caro, construir cenário é caro, tudo é caro. Como é a sua rotina, Barbara? Você consegue acompanhar todos os 'petáculos? Não vejo todas, mas vejo o máximo possível. às vezes vou a cinco 'petáculos por semana, três, quatro é o normal. E olhe, vou dizer uma coisa, geralmente desses cinco, quatro são horríveis. Agora, às vezes tem coisas maravilhosas. O que acontece é que a média é muito desigual. Quem você citaria como exemplo de bom teatro? Em Minas, por exemplo? De Minas: O Galpão. É sensacional! Eu adoro, é um grupo 'pecial. Acho um grupo tão dedicado ao teatro. Eles fazem tudo com tanto amor, é impressionante. Eles lançaram agora o'Romeu e Julieta ` em DVD, 'tou louca pra ver. Eles gravaram em Londres, né? É um ' Romeu e Julieta ' maravilhoso. Por quê? Por que é o tal negócio. É cortado? É. É absolutamente fiel, linha por linha? Não. Mas acho que a 'sência da peça é tão preservada que acho que eles fizeram com um carinho tamanho pra preservar o que é o'Romeu e Julieta ` que ficou emocionante. Lindo! Eu adoro também a ' Rua da Amargura '. Fantástica! Pra encerrar, gostaria que a senhora falasse do Paulo Autran. Nossa! Comecei a fazer crítica em 1958, mas antes de 'crever, eu já acompanhava muito teatro. Lembro de ter visto a primeira peça de ele e a última. Vi, em 1949, ' Um Deus dormiu lá em casa ', com ele e a Tônia (Carrero). Vi 'se e vi também ' O Avarento '. De maneira que é uma carreira que eu acompanhei com bastante detalhe. O Paulo é um exemplo de vida dedicada ao teatro, né? O Paulo cuidou de si não por ser bonito, mas por saber que o corpo de ele era um instrumento de trabalho. Então ele trabalhava a voz, o corpo, ele lia muito, ele conduzia a vida de ele para manter-se como um bom instrumento para o teatro. E fez uma carreira tão bonita ... O Paulo nunca parou, era uma peça atrás da outra. É uma perda muito grande e bastante séria para o teatro. Ele é a mostra que talento somente não basta, é preciso ter disciplina, buscar melhorar sempre. O teatro brasileiro seria melhor se houvessem mais críticas como Barbara Heliodora, mais atores como Paulo Autran e provavelmente, o Brasil seria melhor se existissem mais lugares como o Beco do Boticário e mais janelas como a que inspira 'sa entrevistada. A Crítica (De as Vítimas) «Fernanda Montenegro: «Se no futuro alguém quiser saber como fomos, o que fizemos, como éramos, certamente em 'se livro 'tá a opinião de uma crítica vocacionada, uma crítica que não é passiva " Você já foi vítima das críticas de ela? «Já, já. Eu acho que não só a crítica ou o crítico tem direito de achar o que ele quiser. A gente todos os dias se submete a uma platéia que coloca o polegar para a cima ou para baixo, não é isso? Então, a vida não é feita de críticas consagradoras, não é! Porque há diversos gostos, diversas idéias de uma mesma proposta de trabalho " «Sérgio Britto: «A Barbara é uma das pessoas mais cultas que tem um trabalho ligado ao teatro. Ela fez um trabalho, em 'se livro, profundo. Ela analisou teatro como uma 'tudiosa e não apenas como aquele que lê. Eu li muito teatro, mas a Barbara 'tudou tudo aquilo que li " «Othon Bastos: «A Barbara é uma das críticas mais importantes do teatro brasileiro. Acho que é uma pessoa digna da sua profissão. Uma pessoa que 'creve o que gosta, 'creve o que quer e 'creve realmente com o coração " «Arlete Salles: «às vezes as críticas são dolorosas. A gente trabalha para agradar, mas nem sempre conseguimos. A gente não ganha todas. Número de frases: 180 A Barbara nos ensina a cada dia a importância disso e a importância de aprender com isso, principalmente " De seu sampler MPC o DJ Edgar dispara um som etéreo. O carioca Mr. Catra entra no palco e começa sua apresentação rezando um Pai Nosso a plenos pulmões, que no caso, não é pouco. Catra tem um timbre áspero, grave e facilmente reconhecível. O louvor começou como um pedido a Deus e logo torna-se um anúncio da sacanagem que vem por aí, a chegada dos pecadores e seus atos: «Deus abençoe a PUTARIA'A'!!!!!!», ele berra, e o DJ toca nos pads o Tamborzão, um dos ritmos mais famosos do som carioca, que combina um loop do som Volt Mix, feito por o DJ 'tadunidense Battery Brain em 1988, batidas de 808 e atabaques de candomblé. O MC 'tá totalmente à vontade: enquanto o DJ constrói batidas ao vivo com reforço dos CD-Js, ele canta um breve medley de seus bordões mais famosos, e então mente: «hoje eu não vou cantar proibidão, hoje eu não vou cantar putaria, hoje é só cultura. E cultura é MPB. Mas agora eu vou cantar é rock». Sai das caixas o riff inicial de um sucesso ruim do rock nacional, os olhares da platéia parecem confusos por um instante, mas eis que Edgar solta o batidão e Catra começa sua versão sacana, e o que era uma música aborrecida torna-se diversão ilimitada. O MC é um grande cantor, sua voz maltratada por a balada tem alcance, e ele se diverte mudando as métricas das rimas, fazendo um balanço fino em cima dos graves marcados decalcados do Miami Bass. A versão brasileira é ainda mais sexualista, é radical, agressivo, sem dó. Continuando suas subversões rítmicas e melódicas, Catra destrói «Uma Tarde em Itapuã» e outros cânones sagrados da Música Popular Brasleira com letras falando abertamente sobre o que pode acontecer entre quatro paredes, mostrando uma predileção (temática, ao menos) por o sexo oral. A dupla usa também a versão instrumental de The Next Episode de Dr. Dre, e a orquestração sampleada de David Axelrod combina com a grandiloqüência do baile funk -- um jogo entre simplicidade e teatralidade. Pára a base, Catra entoa Is This Love de Bob Marley, e as odes então são para a maconha. Em a verdade uma tematização como 'sa é falha, valendo apenas para o tema central de cada canção, já que em sua antropofagia -- no sentido de Oswald de Andrade -- ele tudo mistura. Usa as canções e ondas mais populares pra fazer seu show (micareta, bossa nova, etc), e os elementos que trata em suas letras: sexo, drogas, protesto, morte, a vida boa nas favelas -- 'tão mixados, costurados, como a própria vida. Catra -- ou Wagner Domingues Costa -- 'treou nas prateleiras de CDs na década de 90, com os álbuns O Bonde do Justo e Esconderijo do Altíssimo, que saíram por a independente Zâmbia, mesma que lançou os primeiros discos dos Racionais MCs. Seus primeiros hits de baile foram O Retorno de Jedi, Vida na Cadeia e Peida Agora (Pra Não Peidar na Hora). Como dá pra sacar por 'ses títulos, ele se destacava por o teor ácido de suas letras, tom que nunca perdeu. Suas letras conscientes e de denúncia social tinham 'se quê da linguagem bandida usada nos Proibidões. Uma virada temática foi registrada por o carioca de 37 anos (e dez filhos, todos com mulheres diferentes) em O Fiel, de 1999. O disco foi fruto de um contrato com a multinacional Warner, a respeito do qual Catra tem recordações amargas, e seguia a linha mais sensual do funk. Presente em seus primeiros álbuns, aqui a sacanagem era linha de frente. Imposição da gravadora ou não, de ele saíram Mercenária, O Adestrador e O Simpático, 'sa última bem Proibidão, além de Cadê o Isqueiro (baseado no antigo sucesso do funk carioca Bonde do Rastafári, e utilizado mais tarde por Marcelo D2), Me Ter é Bom e Montagem Capô de Fusca. Atualmente ele só faz CDs em edições limitadas, como o intitulado Só Putaria, seu grito de guerra e engavetou o anunciado disco ao lado da banda de funk rock Os Apóstolos, que formou para uma temporada de 12 shows na Vila Mimosa, distrito de prostituição do RJ. Mesmo assim continua colecionando clássicos, como seu repertório safado atual e a incrível Sem Mistério. Em 'se momento ele já ganhou definitivamente a platéia de adolescentes periféricos e também o pessoal que 'tá vendo o show das coxias -- o empresário de 'sa noite, os funcionários da casa e seus amigos, o mesário, sua produtora e até um contratante de shows de Santos. O santista 'tá pilhadíssimo de energético, não se agüentando em si, e 'tá junto pra garantir que Catra vá fazer três shows na Baixada ainda 'sa noite. Não, nós não 'tamos num baile na terra natal do funk, o Rio de Janeiro. Estamos na periferia de São Paulo. Por aqui, ao contrário do Rio, o funk não permeia a vida diária da cidade e de seus ocupantes: é um fenômeno periférico. O mundo é diferente, da ponte pra cá -- o mundo é um gueto. Mas a pequena grande entrada que o funk tem em São Paulo (lembre-se, a periferia é maior que o centro) também tem sua versão de luxo. Os bem-nascido rebolam até o chão graças a um baile que capitalizou a onda do funk de dois anos atrás. A residência semanal do DJ Marlboro, atualmente o maior empreendedor -- além de bom moço -- do funk carioca, no clube Lov. e, localizado na rica Vila Olímpia, é sucesso, mas suas duas tentativas de realizar um grande festival na mesma vizinhança foram fracassos de público. Os bailes no 'quema carioca acontecem semanalmente em áreas distantes do centro, e na ensolarada Santos, onde o 'tilo tem até 'trelas locais. Ao contrário de SP, a Baixada tem tradição no funk e já produziu até um herói de âmbito nacional, o MC Primo, exportado para o Rio e para o resto do Brasil via a ultima coletânea do DJ Marlboro. Há também heróis locais como a dupla Glória & Betinho e a revelação Gil do Marapé, que mostrou num baile no Espaço Santista o 'tilo que compartilha com Primo, fortemente influenciado por a temática de protesto do rap nacional, cujos maiores nomes 'tão alocados na vizinha São Paulo, e com muita cantoria onomatopéica. Chegamos ao Espaço, um galpão tosco, com pé direito alto, lotado de gente e suor em pleno centro de Santos, depois de descer a Anchieta chuvosa acelerando. Logo na saída do primeiro baile nos perdemos do bonde do Catra, mas fomos seguindo Marco, irmão do empresário responsável por 'sa vinda dos cariocas ao Estado, que também pisava fundo. Mesmo assim perdemos o baile do Boulevard, na Praia Grande, de tão rápido que o carro do cantor foi. Essa é a prova que quando Catra dedica em seu show um medley de antigos sucessos da história do funk carioca aos MCs que faleceram «vítimas de acidentes, de violência, e de outras coisas», não 'tá fazendo demagogia. Em o galpão, a maioria do público, novamente, é de adolescentes. Aqui o palco é muito alto, você teria que dobrar o pescoço pra trás para assistir o que se desenrola lá, daí que o 'paço não se configura como uma casa de shows, mas como baile. Os caras de bermuda de surf, bonés, peitos nus, as meninas de minissaias, tops, shortinhos, se reúnem em pequenos grupos, dançando, conversando, bebendo, fumando. O ambiente é quente, mas nada carnavalesco. A o calor térmico da ausência de ar condicionado e o calor sexual das pessoas comuns querendo a diversão máxima do sábado à noite contrapõe-se 'sa 'trutura grupal -- nos caminhos pra chegar ao bar, no fundo do baile, o que se sente é a importância do respeito. Muita gente muito louca, cheiro de sexo no ar, mas ninguém olha demais, nem atravessa na de ninguém. Tipo uma sessão de BDSM sem chicotes numa sauna molhada. Enquanto MCs novatos se revezam no palco, todos concorrendo a dezenas de categorias de um prêmio local, anunciadas uma a uma por o apresentador, Catra 'tá sentando fumando, com cara de poucos amigos. Moças devidamente trajadas (calças justas, minissaias, calcinhas a mostra) borboleteiam do camarim para o palco. Após algum tempo, se irrita, levanta e vai para a porta do local, acompanhado por o seu DJ, que já desmontou seu equipamento, e por elas. Vêm os donos do baile, e a conversa, na rua larga cheia de carros 'tacionados na transversal e barracas que vendem cachorro quente, cerveja e goró, é tensa. Depois de algumas subidas no tom de voz de ambas as partes, resolve voltar ao palco, onde faz um set de cerca de 15 minutos, sem muita empolgação, mas com boa resposta da audiência, que idolatra o MC carioca. O método de divulgação não poderia ser mais subterrâneo: o DJ Edgar traz vários CD-Rs na sua mala, cada um com cerca de 120 arquivos de MP3, e distribui pra os outros DJs nos lugares onde tocam. As faixas também são distribuídas via internet. Gravadora pra quê? Próximo baile. A tensão que a trupe emanava se dissipa quando embarcamos no bote a motor para cruzar para o Guarujá -- é a última apresentação da noite, 'tamos eu, a fotógrafa, Catra, DJ Edgar, o contratante pilhado e outro cara da trupe carioca, um gordinho vestido como rapper que se declara comandante do exército israelense. Ladeamos navios cargueiros enormes, todo mundo falando pra caralho, os olhos brilhantes. O semblante fechado de Mr. Catra some, fica um sacana maconheiro bom de papo. «Esse prejú vai ser no rabo do Serafim, não quero nem saber», referindo-se ao contratante responsável, que já havia adiantado metade do cachê do Espaço Santista. Em o desembarque, um taxista se recusa a nos levar ao local da apresentação, alegando que são apenas quatro quadras até lá. Catra joga uma nota de dez reais no console, tudo resolvido. O galpão é ainda maior e 'tá mais lotado que o anterior. Entramos por os fundos, num anexo da cozinha somos presenteados com energéticos Bad Boy e um goró que eu não sei se era uísque ruim ou conhaque, tudo à vontade. Os ânimos sobem, a conversa fica ainda mais frenética, «'sa SP portátil que você falou é boa, mas a MPC tem O som, tem que ser a MPC», diz Egdar, enquanto Catra recebe os bolos de dinheiro por o show que fará. O cachê por cada apresentação do MC é de quatro dígitos, e numa noite de pouco movimento como 'sa -- «no Rio a gente faz sete bailes por noite» -- o ganho bruto chega à casa dos cinco. Todo mundo dá risada quando comentamos que o tal concurso do baile de Santos tinha a categoria Proibidão. Uma resposta bombástica de Catra à minha pergunta " porque não tem funk no prêmio Hutuz?" fica só em " Ah, mermãoooo!! Fulano é simpático, tá ligado? O ..." -- somos interrompidos e levados ao camarim, um quartinho com banheiro e sem janelas, passando por o baile: mais de duas mil pessoas, a mesma freqüência, mas clima bem mais descontraído que o anterior. Gil do Marapé aparece pra cantar novamente e ganha elogios do ídolo. A apresentação de Catra vai até o dia clarear, com direito a participações 'peciais: o comandante israelense ao microfone, uma adolescente subindo no palco pra pagar peitinho e a platéia fazendo coro para cada palavra. Ninguém arreda o pé enquanto O Fiel não pára. Em a travessia de volta, sob o sol, Catra diz: «o funk é reconhecido na Europa como a verdadeira música eletrônica brasileira. Em a Alemanha eles se amarram no som, porque a gente pegou o que eles fizeram e deixou melhor», diz, referindo-se a outro dos alicerces do som gerado nas favelas cariocas, Planet Rock, de Afrika Bambaataa, que usa o tema de Trans-Europe Express. «Então eles 'cutam o que a gente faz e ficam loucos». Aponto para seu anel, com uma 'trela de Davi. «Eu sou judeu, é a religião mais antiga. Tá tudo certo, é o que 'tá 'crito ali. Eu respeito os muçulmanos, porque a religião de eles é antiga também». Além de várias turnês européias, Catra também já se apresentou em Israel uma vez, e deve voltar pra lá em breve. Em a loja de conveniência onde paramos pra comer somos convidados a ir para o hotel com eles. A arquitetura do lugar, que fica no alto de um morro, com vista panorâmica para o mar, lembrava um motel inacabado -- material de construção 'palhado por o lobby, janelas sem vidro. Seguimos o bonde do Catra pra um anexo, achando se tratar de outra sala, mas encontramos uma cama gigante onde três das mulheres que 'tavam devidamente trajadas no Espaço Santista 'peram nuas. As meninas topam ser fotografadas, e tentam convencer o artista a posar com elas. Ele declina e sobe com uma de elas pra um quarto, pra se recuperar de mais um dia como os outros. Vida loka, vida delícia. Depois de uma sessão de fotos e algumas partidas de sinuca no lobby cheio de material de construção, a equipe continuava contagiada por a energia dos bailes. Fomos para a praia beber caipirinhas de maracujá até as quatro da tarde. Número de frases: 102 O palco foi montado na Avenida Vieira de Carvalho, ao fundo, os prédios em perspectiva acompanham a Rua Aurora, a história toda acontece a cem metros da Praça da República. Por sinal, uma história que já foi vivida por seu protagonista, há 50 anos, momento em que um jovem Tito Madi deixava Pirajuí em busca da carreira musical na Capital. A o perceber que as maiores oportunidades 'tavam no Rio de Janeiro, o cantor deixa São Paulo e segue em rumo a uma trajetória de grande sucesso, que se 'palharia por todo Brasil. Domingo, 6 de maio de 2007, projeto Virada Cultural da Prefeitura de São Paulo. às 15h30 tinha início mais um show do Palco Vieira de Carvalho. Já emocionados com a sublime apresentação de Doris Monteiro, o seleto público formado por jovens e, em sua maioria, não tão jovens, se preparava para um momento bastante singular: a volta da voz de Tito Madi, preenchendo os corredores entre os prédios daquela mesma São Paulo boêmia, que o acolheu no início de sua vida musical. A o seu lado, a simpatia -- que só não é maior que a técnica no piano -- do músico Haroldo Goldfarb. Ainda nos bastidores, troco meia dúzia de palavras com o cantor, rodeado de amigos e fiéis 'cudeiros, alegre por a visita dos conterrâneos. Conforme sobe ao palco, acompanho mais uma vez um fenômeno único, inexplicável, quase paranormal, em que num passe de mágica a figura próxima do Chauki Madi, ainda com suas raízes no vilarejo de Estiva Grande, município de Pirajuí, dá lugar ao showman, o romântico eloqüente que a cada história e comentário bem colocado apaixona todo tipo de platéia. Isso porque ainda não falei das músicas! O nada egoísta repertório valoriza amigos, lembranças e emoções de meio século da arte. Os pontos altos do show ficaram por conta de suas imortais composições como Não Diga Não, Cansei de Ilusões e Chove Lá Fora. Impressionante a reação do público aos primeiros acordes de Balanço Zona Sul, em que bastou uma brincadeira inicial de Goldfarb com seus dedos, para que todo o centro de São Paulo caísse no ritmo de uma das músicas mais famosas de Tito. De a platéia ouviam-se legítimas declarações de amor ao ídolo que, sob uma demorada salva de palmas em pé, não conteve a emoção: «posso dizer que 'te foi um dos melhores shows que fiz em toda minha vida». Certamente isso explica os 40 minutos de autógrafos e beijos dados aos fãs após o fim do 'petáculo. Dá-lhe Tito! Número de frases: 18 A afirmação que faz de que ainda viu instrumentos de tortura na Corte, atesta o fato surpreendente de que ela já 'tava residindo no Rio de Janeiro, na proclamação da República, havendo ficado livre, portanto, cerca de 14 anos antes da Abolição. A rua Francisco Lima, na Balsa, número 205, é o reduto de Nelson Prestes, um verdadeiro artista do povo. Seu sorriso largo e olhar singelo é um anúncio de boas-vindas. Nelson, a quem me referi no primeiro momento como senhor, me corrigiu: «Senhor 'tá no céu», não se considera músico. Segundo ele, «músico é quem lê partitura, notas musicais». Nelson é autodidata, aprendeu a tocar violão de ouvido, instrumento que diz «tocar o suficiente». O primeiro contato com a música foi na infância, quando sua mãe o levava para assistir aos blocos de carnaval em Pelotas. Um dos que mais gostava era o saudoso bloco «Girafa da Cerquinha». Começou a tocar na adolescência com seu irmão João Carlos, irmão de apelido peculiar «Espeto», devido ao excesso de peso. Em o princípio tocava muita serenata, tempo em que os seresteiros iam tocar nas casas, e saíam de mansinho com uma galinha embaixo do braço para ter o que comer no dia seguinte. Nelson não gosta de ser chamado de músico, mas de compositor. Suas composições tratam de vários temas, desde músicas que falam de amor, até músicas de cunho social. Para ele não há uma forma metódica de composição, a música é um «'tado de 'pírito». Vários 'tilos musicais são utilizados no seu trabalho, depende da composição, ele diz que a letra já vem acompanhada do 'tilo musical. Nelson compõe reagges, sambas, bossa-nova, entre outros 'tilos, fazendo de ele um artista múltilpo. Uma das primeiras apresentações foi na década de 70, no antigo Festival da Rádio RU, onde Nelson conheceu muitos músicos da cidade de Pelotas, como a dupla Kleiton e Kledir. Sua família -- mulher e filha -- também são temas de suas composições. Diversos assuntos foram discutidos durante a entrevista, embalada por um chimarrão que 'quentou aquela manhã fria. Enquanto acontecia a entrevista, eu ficava 'cutando e ouvindo Nelson dar uma aula de história do samba. Em a opinião de ele, hoje em dia, as músicas são feitas para vender. Nelson fala sobre isso com propriedade, pois não tem nenhum CD gravado, a não ser uma fita, na qual grava suas composições para não 'quecer. Para ele se apresentar, só através de convite. Mas encontrà-lo não é difícil. Semanalmente um pessoal reúne-se na casa de ele para fazer uma roda de samba. Nelson é um artista popular, onde você, ao enxergà-lo pela primeira vez, por mais que 'tejas mal, o sorriso de ele e o modo como trata as pessoas, fazem de ele um artista de grande valor. É possível enxergar os sentimentos e a realidade ao conhecer o trabalho de Nelson. Ele pode até ser desconhecido para muitos, mas isso só acontece porque as pessoas devem parar de olhar o próprio umbigo e abrir os olhos para o que a vida tem de bonito. E um exemplo disso é o trabalho de «Nelson Prestes,» artista do povo». Número de frases: 29 A arte é um dos assuntos que se pode aprender a distância Acrescido ao preconceito sobre os cursos feitos a distância, no universo artístico, impera também uma mentalidade errônea de que para aprender a fazer arte é preciso 'tar junto com o professor o tempo todo, ou acompanhar de perto o que os colegas fazem para aprender também com eles. Bem, tudo isso é possível dados os avanços das tecnologias atuais. É possível assistir uma demonstração de desenho do professor através de vídeo com transmissão via streaming, ou mesmo através de uma webcam. Por isso o «'tar perto do professor» pode ser facilmente conseguido, com atividades síncronas (em que os agentes: professor e aluno se encontram em tempo presente, no mesmo momento). E o «acompanhar os trabalhos dos colegas para aprender com eles» também pode ser conseguido através da publicação dos trabalhos dos alunos na própria Internet, ou através de discussões em fóruns, encontros em chats, etc.. Por isso não há mais justificativas para não aprender arte com EAD (Educação a Distância) devido aos grandes avanços e às mudanças de comportamento que 'tamos vivenciando hoje. Ainda, embora não seja comum encontrar projetos de ensino de artes à distância no Brasil. As iniciativas do exterior, 'pecialmente nos EUA (Califórnia) comprovam a eficiência de 'sa modalidade de ensino para o aprendizado de artes. Com base em 'ses 'tudos a empresa Pires & Jacó construiu um projeto próprio para atender a uma demanda nacional em 'se setor. A o analisar a carência de projetos de ensino de artes na Internet, no que se refere ao aprendizado de técnicas e conhecimentos artísticos modernos, seja para diversão ou para aprimoramento profissional, é lançado em Março de 2008 o primeiro projeto educacional da Pires & Jacó, o: www.desenhotudo.com. Este site oferece cursos de desenho on-line com aplicação de técnicas de tutoria e atendimento ao aluno, através de suas ferramentas interativas, e procura formar uma comunidade de aprendizado interessada em artes visuais, oferecendo amplo material didático em cada um de seus cursos. A equipe do www.desenhotudo.com afirma que existem dificuldades do aluno ('tudante a distância) em se manter 'tudando on-line, talvez por ser fácil entrar, também seja fácil deixar o curso e abandonar os 'tudos. Por isso, em 'se ambiente de 'tudos a distância o fator motivacional é importante ser considerado. Portanto, para diminuir a evasão e atender melhor a todos foi criado um conjunto de meios de interação e objetos de aprendizagem que ajudam a organizar o tempo e manter o envolvimento dos 'tudantes. «O projeto pedagógico do www.desenhotudo.com oferece uma série de recursos no site para auxiliar e acompanhar cada passo do aluno. Existem várias formas de 'clarecer suas dúvidas e obter atendimento com nós. Através do site o aluno também terá condições de fazer grandes amizades e se relacionar com pessoas que compartilham os mesmos interesses sobre o aprendizado de artes. Assim o aluno nunca 'tará sozinho e poderá ter acompanhamento constante. O www.desenhotudo.com é um sistema completo de EAD, um verdadeiro Ambiente Virtual de Aprendizagem, dedicado ao ensino de artes visuais em técnicas tradicionais (desenho, pintura, etc.) e digitais (animação, design, pintura digital, etc.). O aluno faz os cursos que desejar, no tempo que desejar, bastando para isso cumprir com suas obrigações financeiras com nós e assumir com si mesmo o compromisso de não desanimar e praticar os exercícios propostos em cada vídeo-aula, explorando também os demais materiais didáticos de apoio." É o que nos fala a professora e idealizadora do projeto: Cristina Jacó. Enfim, ao 'tudar por a Internet você se beneficia do conhecimento adquirido em cursos feitos sem sair de casa. Com isso tem condições de aprender como achar melhor e todo o sucesso do seu trabalho se deve única e exclusivamente ao seu compromisso com os 'tudos, à sua maneira, no seu próprio tempo e 'paço. Número de frases: 24 Vale a pena experimentar!:: Por Zé Edu Camargo: Nada de gravadoras, nem venda em lojas. Nada de capinha plástica, nem encarte com letras minúsculas. O segundo CD de Sonekka, Agridoce, é lançado em consonância com o seu tempo. Artista ligado a novas tendências, ele preferiu lançar o disco somente na internet, por o iTunes, em 25 países. Para o mercado brasileiro, há uma versão -- à venda no site sonekka. com. br -- num encarte premium, com design do artista Murilo Martins. Em a forma de livro, ele traz todas as letras e pequenas crônicas que orbitam o universo do disco, numa mistura muito feliz. E não é para menos. A mistura é uma marca de Sonekka. As doze músicas do CD não respeitam um único 'tilo. Vão do rock, do pop e do blues a ritmos brasileiros, num equilíbrio entre que o próprio título do disco anuncia: Agridoce. O mix entre suavidade e acidez também aparece nas letras. Algumas têm como base a crônica social, com um olhar atento à realidade, como em Jornal das Dez (Sonekka / Gilvandro Filho) e Como Diria Agenor (Sonekka / Vlado Lima). Outras falam de relacionamentos, desfeitos e refeitos, numa linha que remete ao disco anterior do artista, Incríveis Amores. É o caso de Mala sem Alça (Sonekka / Léo Nogueira) e A Marca da Cal (Sonekka / Ricardo Moreira). Em todas, boas sacadas de letristas da nova geração, que deixam o lugar-comum de lado para explorar novas fronteiras. É o caso de Cisco no Olho (Sonekka / Lis Rodrigues/Ricardo Soares), que diz «hoje você é somente um cisco em 'se meu olho / não significa nada e ainda assim me faz chorar». A música que dá nome ao disco, Agridoce (Sonekka / Zé Edu Camargo), funciona como uma 'pécie de elo entre os dois lados do artista. Não à toa, a letra diz: «eu sou duro na queda, hardcore / mas não perco a ternura jamais» tudo ponteado com o belo baixo de Sizão Machado e o piano de Roberto Lazzarini. As participações 'peciais também demonstram a preocupação com a pluralidade. Vão da verve roqueira e contestadora de Zé Rodrix, que toca piano e teclado em duas faixas, à percussão arrebatadora do inglês Cris Wells, em Batendo Água. O grupo paulistano de compositores 4 + 1 participa de Será Que Estou Viajando? ( Sonekka / Márcio Policastro), um rock de letra bem-humorado. E, fechando o disco, mais três participações 'peciais. Celso Viáfora, Élio Camalle e Guarabyra juntam-se a Sonekka para cantar Balada Perdida, composição de Camalle, que fala do difícil dia-a-dia (ou seria noite-a-noite?) dos cantores de bar. Número de frases: 29 Uma das experiências mais bacanas da cena independente hoje em dia vem do Acre, mais 'pecificamente do Coletivo Catraia e de seu filho pródigo, porém adotado, Festival Varadouro e todas as suas nuances. O primeiro contato que o Espaço Cubo teve com os meninos dos seringais se deu em 2005 no mês de setembro, onde recebemos com surpresa o e-mail de um tal de Daniel Zen (clique Aqui) e leia o e-mail), explicando detalhadamente tudo o que 'tava acontecendo na terra de Chico Mendes, e como o cenário alternativo vinha se organizando. Falou do Guerrilha Festival, que organizaram em 2004, e da pretensão em realizar a segunda edição, já com novo nome e repaginado. Além disso, convidava uma banda cuiabana para ser uma das headliners do evento e um integrante do Espaço Cubo, que contaria toda a nossa história por lá, num seminário que teria a presença de jornalistas e produtores de outros 'tados, com foco na produção musical do norte do país. Poucos dias depois, ainda em setembro, o festival foi realizado e os cuiabanos presentes -- Ahmad Jarrah por o Espaço Cubo e o Vanguart -- se chocaram com tamanha energia e disposição dos guerrilheiros locais, definitivamente havíamos encontrado uma cena irmã e tudo, e o que acontecera por lá era apenas o começo de uma longa e promissora parceria. Mais dois meses se passam, novembro chega e com ele vem junto o Goiânia Noise Festival 2005 e seu ciclo de debates, onde fui convidado para contar um pouco sobre a experiência do Cubo Card, Calango e de outras tecnologias de gestão desenvolvidas em Cuiabá. Além disso, seria a primeira oportunidade do Macaco Bong num grande festival fora de cuiabá, sem falar na eminente fundação da Abrafin -- Associação Brasileira dos festivais independentes e do Circuito Fora do Eixo, que selaria definitivamente a relação de Cuiabá com várias outras cidades do país. Para minha surpresa, no dia em que palestrei, dois acreanos 'tavam na platéia ouvindo tudo atentamente de olho nas minhas falas e no discurso cubista. Meu tempo era de apenas 30 minutos e acabei falando durante uma hora e meia, já que as perguntas vieram de todos os cantos possíveis da sala, naquela época quase ninguém nos conhecia, tornando tudo muito curioso, intrigante e repleto de dúvidas. O debate acabou, desci e fui para a plenária, já que outra mesa seria formada. Mal me sentei e de cara recebi a primeira abordagem. -- Pô cara, que bacana tudo isso que você falou, tem tudo a ver com o que pensamos e o que queremos organizar lá no acre. Prazer, meu nome é Daniel Zen, da Catraia Records, e 'te é o João Eduardo, do Los Porongas. A partir desse momento praticamente não nos desgrudamos durante todo o Festival. Cuiabanos e acreanos passaram três dias dialogando sobre o futuro de nossa parceria e principalmente, sobre 'tratégias para o fortalecimento do mercado independente nos 'tados mais distantes do eixo tradicional de produção cultural. Marcamos de nos reunir em algum dos quartos do hotel para a reunião de fundação do Circuito Fora do Eixo e no dia seguinte 'távamos lá no 403, com representantes de vários 'tados do país, debatendo as diretrizes que norteariam nossos próximos passos e em 'se momento definimos três eixos principais de atuação: Circulação de bandas e produtores, Distribuição de produtos e produção de conteúdo. A pedra fundamental 'tava lançada. Agendamos a reunião seguinte para o Grito Rock 2006, que a época era realizado somente em Cuiabá, e de cara fiz o convite para que duas bandas acreanas participassem do evento, Los Porongas e Camundogs, as duas principais representantes do cenário local e ambas ligadas ao selo acreano Catraia Records, capitaneado por o Daniel Zen. Chegaram a Cuiabá um dia antes e foram embora um dia depois, e proporcionaram dois shows históricos em Cuiabá, principalmente os Porongas, que logo em sua primeira vez em Hell City conquistou um sequito fiel de faz que até hoje dia após dia mandam e-mail solicitando shows da banda. Além dos shows muitos debates rolaram, já que era a primeira vez que o Circuito Fora do Eixo se reunia oficialmente com representantes de todo o país. O Grito acabou e era hora da teoria se tornar prática, fizemos o planejamento e durante todo ano de 2006 fomos passo a passo alcançando cada uma das metas 'tabelecidas. A diretriz que mais funcionou em 'te primeiro momento foi a da circulação e intercâmbios começaram a rolar entre todos os coletivos integrados, possibilitando assim uma série de encontros com os acreanos durante o ano todo nos mais variados festivais do Circuito. Culminando em dois grandes encontros no segundo semestre, o primeiro no Festival Calango, onde Zen e Porongas voltaram a Hell City novamente e o segundo no Varadouro, onde tive o prazer de pela primeira vez pisar em solo acreano, não só eu como boa parte dos cubistas, já que o Macaco Bong fora 'calado para se apresentar. A empatia foi tão grande que o Macaco tocou como se 'tivesse em casa e para muitos foi o melhor show do festival. Três dias de cinema, com todo o conforto, hospitalidade e sapiência dos rio-branquenses. O Varadouro acabou com um «gostinho de quero mais», saímos de ali com a certeza que a relação Acre-Cuiabá 'tava apenas no começo. Número de frases: 27 O caminho da ciência é de idas e voltas como a própria evolução da humanidade. Todos os povos, praticamente, veneram seus ancestrais que um dia tinham contato direto com Deus. O decair de um povo, da sua Era mística ou da sua Era de ouro, marca profundamente a auto-'tima de 'ta civilização. Que dizer então de um povo que é considerado iletrado, sem história e que de repente se vê no meio de uma descoberta extraordinária que pode fazer justiça àqueles que um dia 'creveram a sua própria história e buscaram meios de preservá-la. A África é o berço da humanidade. Ainda não se provou o contrário e os nossos ancestrais sejam Cro-magnon (encontrado na França) ou Neandertal, imigraram de lá. Contudo, a história é européia para nós ocidentais. Européia em detrimento inclusive do Oriente Médio e toda a sua bagagem compartilhada durante o domínio da península Ibérica e das trocas ocorridas durante as grandes navegações. Hoje, olhando para a África vemos ressurgir do pó um conhecimento adormecido sob séculos de areia saariana. Trata-se de uma descoberta, anunciada por a Reuters e por o Globo ciência, de 150 mil documentos enterrados em Timbuktu, Mali. Autoridades locais 'timam que haja 1 milhão de manuscritos de todas as áreas do conhecimento, astronomia, matemática, rotas comerciais, cartas de amor, filosofia e política. Este acervo 'tá sob proteção das famílias e vem sendo guardado enterrado e em cavernas para evitar saques durante os sucessivos domínios que lhes foram impostos. Segundo um ditado local citado na reportagem, todas as nações formavam uma fila única e Timbuktu 'tava a sua frente, então Deus ordenou meia volta e Timbuktu se viu no final da fila. Talvez um dia Deus ordene outra meia volta e Timbuktu possa retornar ao seu lugar de direito. Quem sabe? A matéria completa pode ser vista no endereço: aqui Por aqui temos um problema grave de conservação. A biblioteca Mário de Andrade uma das mais importantes do país vem enfrentando goteiras que podem levar por água abaixo grande parte do patrimônio nacional. Inclusive a biblioteca foi alvo de um roubo recentemente. Em setembro foi constatado que três litogravuras aquareladas -- de Steinmann, Debret e Rugendas -- e um livro de orações de 1501, em pergaminho, 'tavam faltando no acervo. Isso sem falarmos nos mapas que sumiram da Biblioteca Nacional de maneira assombrosa dado ao tamanho dos originais. Parte deste roubo foi 'clarecida por a policia federal e o rombo era bem maior do que havia sido constatado. De acordo com as investigações, o suspeito Ricardo teria roubado 226 obras, sendo que 142 foram vendidas em leilões. Ele recebeu mais de R$ 48.000 por as peças. A polícia já conseguiu recuperar 75 peças roubadas, entre elas, 14 livros da biblioteca Mário de Andrade e 49 gravuras do Museu Nacional do rio de Janeiro. Engraçado é que o laranja, um porteiro desempregado de nome Erivaldo Tadeu tinha em sua casa 61 obras de arte dadas como desaparecidas. As obras valem pelo menos dez vezes o valor do seu barraco. Entre elas 'tava um mapa das rotas marítimas roubado do Itamaraty e que só existem seis exemplares no mundo. A matéria pode ser conferida na íntegra aqui. Conforme pesquisamos a internet ficamos ainda mais assustados com o descaso. Em a verdade são milhares de peças furtadas e ainda não recuperadas. Em 'ta matéria é possível vislumbrar o tamanho do problema que enfrentamos hoje. É muito triste a constatação! Acho melhor parar por aqui pra não encharcar o meu teclado. Sniff. {:-( Número de frases: 35 Em a Cidada de Bom Jesus do Itabapoana, ha cinco meses que os funcionarios da prefitura não recembem o seus salarios em dia. Com o atraso de cinco meses muitos funcionarios que eram contratados ja perderam seus empregos e muitos que são efetivos ja não sabem o que fazer com 'se atraso. Em o mes de novenbro os funcionarios receberam o equivalente ao mes de agosto e, não foram todas as secretaria que efetuaram 'se pagamento. Segundo o prefeito em exercicio Paulo Sergio Cirilo o atraso ocorre por causa ainda das dividas do antigo governo. Mas o antigo prefeito Miguel Mota disse que as dividas foram pagas. Segundo informações vindo da prefeitura os salarios serão postos em dia a partir do mes de daezembro. E isso que 'peram os funcionarios que ja não tem nem mais creditos nas lojas, pois ninguem vende pra quem não recebe em dia. Número de frases: 7 A distribuição do Almanaque Aluá 1 foi gratuita e controlada Humberto Gessinger Trio foi um projeto solo do vocalista do Engenheiros do Hawaii, lançado em 1996. Em 'te álbum tem uma música chamada Freud Flinstone, que me parece muito com uma genealogia de qualquer ícone. O título da música é uma dicotomia. Freud representando o racional e Flinstone o primitivo. A questão volta para o consciente e o subconsciente, a verdade e a aparência, a terra e os satélites. E tudo se relaciona, há uma lógica cruel, em que: celebramos, amamos, lutamos, destruímos, enterramos vivos e compramos outros ídolos. A lógica do mercado encarnada nas relações com os outros, e na fabricação em massa de hierofanias. Poderia ser citado o mais recente ganhador do BBB. Onde a hierofania é construída por o simples 'tar na tevê. Mas 'tes mesmos telespectadores que os colocam em pedestais, os tiram. Uma dose de afeto tão grande quanto a dose de 'quecimento. Em a canção, existe uma parte que diz: Que o satélite lhe seja leve. Que se contrapõe com a forma romana, que diz: Que a terra lhe seja leve. A terra marca o limite do próprio corpo, e também o inicio da propriedade privada romana. Os satélites marcam os limites aonde as imagens dos ídolos vão, ao mesmo tempo é o peso que os julga e os condena. Não são somente os telespectadores criando hierofanias passageiras e fúteis, que 'tão em maus lençóis, mas os próprios ídolos. Letra: querem sangue ... querem lama querem à força o beijo na lona (e querem ao vivo) querem a lágrima doída do ídolo caindo em câmera lenta querem lutar por o que amam conquistar e destruir o que amavam tanto faça um prece para a Freud Flintstone acenda uma vela para a Freud Flintstone sacrifique o bom-senso no seu altar ( na areia da arena sai de cena por decreto a flor do deserto gran finale: última cena: no ar por as antenas a morte do toureiro faça uma prece para a Freud Flintstone acenda uma vela para a Freud Flintstone que o satélite lhe seja leve 'queça a prece para a Freud Flintstone acenda a vela para a Freud Flintstone vamos queimá-lo vivo, enterrá-lo vivo o preço é uma prece ... pague pra ver compre o ingresso ... adeus pink Freud Flintstone fama fogo fúria fé fã-clube Freud Flintstone que o satélite lhe seja leve Discorde quem quiser, mas primeiramente quero deixar claro que, na minha concepção, não 'tou falando de algo que eu acredite que seja música. Número de frases: 49 Por motivos óbvios como a falta de uma guitarra viva, um baixo intenso ou uma bateria diversa, 'sa coisa veio como monstro famigerado a comer a cabeça dos novos jovens do mundo. Tuntituntuntunti pra lá e tuntitutuntunti pra lá. O que é isso?? A teoria que defendo sobre tal fenômeno às avessas é aquela onde se mostra que de tanta droga na cabeça (ecstasy), os presentes na frente do dj ficam tão perturbados que nem 'cutam o que toca lá em cima. É algo que nem se nota ficando assim em segundo plano. Pra não dizer que e tão ruim assim, as lindas mulheres sempre enfeitam o local ... loucas e loucas ...! Diante desse quadro, eu prefiro ouvir o meu rockzinho antigo que não tem perigo de assustar ninguém. como diria Raul ... Número de frases: 9 O projeto Trinta em Transe é uma iniciativa da Loop Discos, com o objetivo de promover o registro em áudio de trinta e três poetas representativos da cena literária porto-alegrense. A organização de 'ta antologia sonora 'tá a cargo de Fabio Godoh e Marcelo Noah, poetas e produtores culturais que já há algum tempo desenvolvem atividades relacionadas à literatura nos meios radiofônicos. Procurando mesclar nomes consagrados com a nova safra de jovens poetas da cidade, Trinta em Transe busca, sobretudo, afirmar a existência de um pulsante cenário literário voltado à tradição sempre renovada da poesia na capital gaúcha. De 'sa forma, o projeto Trinta em Transe visa ampliar e diversificar o 'copo da produção poética local restrita ao suporte impresso, assim como 'timular sua absorção por parte da sociedade, seguindo a tendência literária mundial na qual cada vez mais os poetas transitam do livro para suportes em áudio. (olá / o tema deste prefácil paracrítico é a crescente insistência da mente em apreender a realidade, reunindo em si cada vez mais mentiras para se tornar a própria realidade / trinta em transe / os sons são os órgãos da alma / poesia sonora / cantar silêncios, dizer o inexprimível, fixar vertigens / clara crocodilo show / a poesia é a voz dissidente que se insurge contra a superabundância insensata do material impresso / jogo de pulsações / é quando o poeta ultrapassa a realidade opressora do livro, proporcionando viagens adjetivas aos ouvidos / trinta em transe / a superioridade da prosa sobre a poesia é a mesma superioridade que dois velhos inteligentes ostentam sobre uma bailarina ao vê-la dançar / cinema falado / poesia como extensão do corpo, distensão do cosmos / pois é poesia / a vida inteira que podia ter sido e que não foi / poesia totalitária / a voz da voz que canta, dentro da voz que fala / trinta em transe / um poeta não é mais que a sua orelha / nave vazia / é quando o artista parece gente / nervos de aço / é quando o ouvinte se torna poeta / a vó do cu é a maionese / arco que vibra tanto para lançar longe a flecha, como para lançar perto o som / abravanel laos / palavras são fósseis vivos; cabe ao poeta reconstituir o animal e pôr-lo a cantar / terra em transe / perante o poema 'crito, a voz do poeta é libertação / pornografia sancionada / quintana reaparecendo no fim do corredor / contém glúten / a poesia é o sujeito da prosa / só alegrias / não há poema em si, mas em mim ou em lá / paralelo trinta / a voz humana tanto vibra para lançar perto as palavras, como para lançar longe o som / winston baker / poesia são todas as coisas nascidas com asas e que cantam / batatinha quando nasce / cada língua tem sua própria 'trutura melódico-embrionária; já existe em ela, portanto, o germe de uma música que expressa a alma do povo / charles piercing / o poeta 'creve cego por linhas óbvias / a vanguarda de viamão / é sintomático que, na pós-modernidade, poesia e música fossem inseparáveis / chimia geral / se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lho que deus quis dizer com 'te mundo / pasto ao coração / a única coisa a fazer é tocar um tango argentino / trinta e três / a voz articulada do intelecto converte-se em expressão do corpo que sente / coração de cotonete / o assassino sabe mais de amor que o poeta / cof, ei / a alegria é a prova dos nove / sobras completas / a arte é a dimensão anárquica da matéria onírica / megafone para o mar / corpo imortalizado em expressão timbrística / trinta em transe / corpo materializado em duração melódica /noigandres/a poesia é a voz da quarta pessoa do singular / cabaré voltaire / nave que vaga, navia naïve / césar pereira / enquanto houver poesia não vai haver poesia / trinta em trâmite / dissimular o 'tado de decadência em que chegamos seria o cúmulo da insensatez, pois é na língua, sobretudo, que se manifestam os primeiros sintomas / ku klux pissalonga / decididamente a favor do advérbio de modo / bob é pop / o verdedeiro rio grande do sul é pernambuco / poema processo / as relações naturais e outras tragédias / algonauta / só o trabalho sem diversão faz de jack um bobão / zimzim urallala / trinta em transe não somente tematiza o tempo no colapso da metafísica que se seguiu à morte de deus como ômega, mas também faz do próprio meio a mensagem, no sentido de que sua função é realizar uma destruição heideggeriana do quadro poético de referência tradicional, concretizando a redução fenomenológica da perspectiva poético-visual mediante a violência da sonoridade plástica, e deixando o ouvinte despido, como kierkegaard, em seu lugar origem, no qual o tempo é epistemologicamente precedente ao ser / zanzibar zimzalla zam / por que não grandes remessas de sopas de letrinha para as áreas de maior analfabetismo? / nuestro norte ' el sur / cada um é a sua própria bola de futebol / trinta em transe / a minha liberdade termina onde começa /antidicurvismo/ave há, mas si na nave vá, só si pá / martín fierro / renunciei mil vezes à poesia e voltei a ela mil e uma / abordagem laxativa / surf, jiu-jitso, ferveção e muito pedantismo / tigres tristes / em vez de representações expressivas de uma substância tida por precedente a eles, os poemas em trinta em transe são agentes ativos em si mesmos, criando novas substâncias e embaralhando outra vez as cartas do destino / o novo é o óbvio do ovo / enquanto isso, os sabichões discutem se doce de abóbora não dá chumbo pra canhão /maurizzio/colorless green ideas sleep furiously / nobres klaxons / a arte é uma incerteza ontológica / assim na terra / de pé sobre o cimo do mundo, lançamos ainda mais uma vez o desafio às 'trelas / dá-mos óculos / hoje não tem fernando pessoa / take care, tem quem quer / uma obra só não vale quando cumpre os propósitos do autor /winterverno/aqui nós lançamos a âncora na terra gordurosa / tri em transe / óleo da melodia barroca que me alimenta / 'cuela del charque / muito menos do que você pensa, muito mais do que você possa imaginar /verbivocovisual/a poesia existe nos fatos, o 'tado de bagunça transcendente /zaum/o crítico é mais severo crítico do crítico que o crítico do artista / trinta em transe / podes imaginar o que seja um mancebo apaixonado? / nenhumzinho de nemnada nunca / beto brant é quem tinha razão, qualquer coisa menos a lucidez, tá ligado? / muito obrigados / senhor deus, livrai o godoh do dadá / aquilo que sobra da plenitude / a violenta beat do agora-mundo gingada por o intelectual dançarino / olé!) Trinta em transe: Martha Medeiros, Luiz Coronel, Armindo Trevisan, Fabrício Carpinejar, Paulo Scott, Mario Pirata, Ricardo Silvestrin, Alexandre Brito, Ronald Augusto, Altair Martins, Paula Taitelbaum, Paulo Seben, Julio Reny, Glênio Fagundes, Léo Felipe, Piá, Carlinhos Carneiro, Telma Sherer, Cardoso, André Arieta, Roberto Justi (Bocajão), Cristiane Cubas, Beto Deschamps, Diego Petrarca, Fabio Godoh, Felipe Vargas, João Mognon, OssomossO, Marcelo Noah, Mariana Messias, Patrick Matzenbacher, Rodrigo Uriartt e O Projeto Floco. Arte gráfica de Camila Shenkel. navevazia. Número de frases: 14 com Finalmente muita gente já percebeu. Um dos principais pontos de acesso à internet no Brasil são as chamadas «lan-houses». Quem não sabe o que é não tem desculpa: é só andar atentamente por as cidades do país, pequenas ou grandes, pobres ou ricas, capitais ou interior, para descobrir o fenômeno. Basta procurar por um lugar muitas vezes modesto, cheio de computadores, mas sobretudo, cheio de gente. Jovens disputando partidas coletivas de videogamente, acessando o Orkut, teclando por o mensageiro eletrônico. Alguns não vão saber nem ler ou 'crever, mas sabem direitinho usar o Skype para bater-papo com gente que 'tá perto ou longe. O que há pouco tempo era um dado percebido somente antropólogos ou cientistas sociais, agora já aparece em 'tatísticas. Pesquisa recente feita por o Comitê Gestor da Internet apontou que 30 % dos brasileiros que acessam a internet fazem isso de lugares pagos. Esse número é maior do que aqueles que acessam a rede do trabalho (24 %), da 'cola (15 %) ou de centros públicos gratuitos (3 %). Esse grande número de pessoas usa a internet em lugares como os cyber-cafés ou lan-houses (a própria distinção do que é um e outro parece ter perdido sentido). É só passear por a Rocinha no Rio de Janeiro para comprovar. Conversando com as pessoas, há pelo menos cinqüenta lan-houses por lá. Os donos, verdadeiros empreendedores da inclusão digital, geralmente não se queixam do negócio. Com preços variando de R$ 0,50 a R$ 1,50 por hora de uso do computador (seja para jogar ou acessar a internet em banda larga), as casas permanecem cheias. Os donos até reclamam sobre um segundo grau de " informalidade ": tem gente pegando um cômodo em casa, comprando alguns computadores e montando uma " lan-house domiciliar. Uma verdadeira lan-HOUSE. Em outras comunidades carentes do Rio de Janeiro é possível notar que as lan-houses 'tão oferecendos serviços que vão além da conexão à rede, mas passam a abranger atividades de cidadania e governo eletrônico. Um exemplo é a declaração de isento. Para quem não tem acesso à rede, renovação do CPF depende do preenchimento de formulário e visita aos correios ou casas lotéricas. Por a internet o processo é praticamente imediato. Com isso, as lan-houses passaram a oferecer o serviço por 1 real (vide a foto acima). Outros serviços avulsos oferecidos incluem o pagamento de contas de água, luz e telefone, impressão de documentos, ou ainda, o envio de currículo por e-mail. Além disso, as lan-houses 'tão conquistando um 'paço simbólico peculiar. Para entender isso, é só verificar uma tendência recente: muitas agora dispõem de um 'paço para festas de criança. Aniversários que antes eram comemorados no McDonalds, com sanduíche para todo mundo, agora 'tão migrando para as lan-houses. O aniversariante convida os amiguinhos e a festa acontece com uso do computador liberado para todos os convidados. É sempre um sucesso e a animação da festa é inacreditável. Poucos são os 'paços de sociabilidade tão intensa no Brasil quanto as lan-houses. Esqueça o senso comum, que ainda insiste em enxergá-las como locais de isolamento e solidão. Três alertas sobre 'se fenômeno, que 'tá levando a internet para periferias de todo o Brasil: autoridades de todo o Brasil, deixem as lan-houses em paz. Poucas vezes se viu um fenômeno de empreendedorismo popular tão importante quanto 'se. Parabéns ao programa do «computador popular», responsável em parte por isso. Mas por favor, não as perturbem. O segundo alerta é que existe um potencial de cidadania nas lan-houses ainda inexplorado. O horário da manhã é sempre pouco ocupado, já que a criançada 'tá na 'cola. Ao mesmo tempo, as comunidades 'tão sempre perguntando se não há «cursos» oferecidos por a lan-house. Não custa pensar em idéias não-intrusivas, que não atrapalhem o modelo de negócios das lan-houses, mas que explorem 'se potencial cidadão, aumentando sua ocupação pela manhã. Por fim, já 'tava na hora mesmo de todo mundo começar a entender que os video-games desempenham um papel crucial em qualquer programa de inclusão social. É preciso deixar o preconceito de lado e finalmente perceber que eles são responsáveis por ensinar habilidades fundamentais para 'se novo século. Por exemplo, capacidade de trabalhar em equipe, pensamento 'tratégico e planejamento. Sem 'sas habilidades, ninguém vai muito longe nos jogos mais populares das principais lan houses do país e nem na vida contemporânea de modo geral. Desafio quem discordar disso a me provar o contrário numa partida de Counter Strike. * Artigo publicado originalmente, em versão menor, na minha coluna da Revista Trip (abril de 2007). Link para palestra no FISL, em que o tema das lan-house é exposto: Número de frases: 48 http://www.youtube.com/watch? v = PNCFl-ywSj8 Muito se discute sobre música independente no país hoje em dia. Porém, a distância que se observa na prática entre músicos amadores (sem pretensão profissional) e artistas auto-produores profissionais é enorme. Motivados em diminuir 'sa distância, e também em criar um material que se voltasse somente para a música independente (o que é extramamente raro), os compositores Estrela Leminski e Téo Ruiz publicaram o livro Contra-INDÚSTRIA em 2006, por a editora miniera Selo Editorial, fruto de uma ampla pesquisa da dulpa sobre o tema reunindo aspectos históricos, discussões, novas tendências e também uma nova terminologia que se adequasse ao discurso atual desses artistas auto-produtores profissionais de hoje, independentes por opção, que não 'tão ligados a nenhum tipo de 'trutura industrial. Sem pragmatismos e maniqueísmos, o livro traz dados oficiais e embasamento para mostrar que os artistas independentes já saíram há tempos da condição de «marginais» para se tornarem situação dentro da música brasileira. Segue o resumo que 'tá na orelha do livro: O conceito de MPB como uma instituição se mostra muito mais apropriado nos dias de hoje, pois não envolve mais somente 'tilos musicais, mas também reúne aspectos sociais, históricos e culturais da sociedade brasileira. As grandes gravadoras foram se firmando no Brasil ao longo do século XX ligadas ao desenvolvimento tecnológico do fonograma (música gravada). Com o avanço técnico das gravações, expansão e massificação dos meios de comunicação e com a grande qualidade e diversidade da música brasileira, as grandes gravadoras (majors) atingiram o grande público, principalmente a partir dos anos 50, e instalaram um monopólio de toda a cadeia de produção musical. A Música Independente surge em meio a crises do setor e insatisfação de alguns artistas das majors, e teve sua grande expansão a partir dos anos 80 com a vanguarda paulistana. A atitude do Faça Você Mesmo, já presente no Punk, começa então a fazer parte da MPB. O artista independente de hoje não corresponde mais a imagem de amador e marginal que adquiriu ao longo principalmente dos anos 70 e 80. Há algum tempo 'ses artistas produzem seu próprio trabalho com extrema qualidade e competência, e aproveitam alternativas de produção já existentes assim como propõe novos caminhos. As Leis de Incentivo à Cultura, mesmo com defeitos, constituíram uma importante ferramenta de trabalhos independentes de altíssima qualidade, e até hoje é uma alternativa de produção. O alto custo do monopólio das grandes gravadoras através de compras dos meios de comunicação (jabá), a 'cassez de novidades, trabalhos apelativos e as novas alternativas independentes são as prováveis causas da crise instaurada em todo setor fonográfico mundial. Devido à nova configuração da Música Independente e a adequação de seu discurso, a Contra-Indústria se configura como o expoente dos artistas independentes do Brasil. Mais informações sobre o livro, os autores e como adquirir, entre no site Número de frases: 15 www.musicaderuiz.art.br Para o dial carioca o bom e velho rock ' n ' roll 'tá morto e enterrado. Em fevereiro deste ano o grupo de telefonia Telemar comprou a Rádio Cidade, a única rádio que tocava o 'tilo no Rio de Janeiro. Em o dial 102,9 agora funciona a Oi FM, uma rádio sem um 'tilo definido que pretende agradar todos os clientes da empresa de celular OI. O fim da ' Rádio Cidade -- a rádio rock ' chega a ser irônico se lembrarmos dos mais de 2 milhões de pessoas que se aglomeraram no show dos Roling Stones, em fevereiro passado na praia de Copacabana. A rádio foi fundada por o Jornal do Brasil em 1977 e foi a primeira a usar freqüência modular (FM) no país. Usuários do site Orkut criaram uma comunidade pedindo uma nova representante (movimento por uma rádio rock). Mas até o momento a cidade que inventou o Rock ' n ' Rio tem que se contentar com as muitas 'tações de funk, dance, pagode. Sem comentar o crescimento das rádios religiosas. Os valores envolvidos na compra não foram revelados. A Oi FM 'tá presente também em Recife, Fortaleza, Belo Horizonte, Urberlândia e Vitória. Essa é a primeira vez que um anunciante deixa de comprar o 'paço publicitário para comprar o veículo de comunicação inteiro. Vale lembrar que 'tações de Rádio e TVs são concessões públicas. Com 'se final um grande número de ouvintes fica órfão. Número de frases: 13 A paraibana Campina Grande, carinhosamente conhecida por Rainha da Borborema, é uma cidade cosmopolita. Em a verdade uma importante cidade entreposto do interior nordestino, e como tal, expansiva, dinâmica e universal. Atrevida quando o assunto é modernidade, quando o assunto é atitude, mesmo fazendo parte de um 'tado economicamente pobre. Isso, por si só, é um bom mote pra montar uma banda. E que tal uma banda de jazz? Eis um bom motivo para existência do Aerotrio. O grupo é formado por o baterista Edmar Travassos, o tecladista Paulo Guilherme e o contra-baixista Orlando Freitas (ex-Cabru êra), que recentemente foi substituído por Fábio, mas que gravou no disco. Criados no cenário local do rock pesado deram uma guinada radical para fazer um avant-jazz sutilmente embebido de regionalismo, pouquinho de experimentalismo, de bossa nova e até de rock. O passado rock e o futuro instrumental deram vazão a uma sonoridade refinada, diversa e simpática. Por a imaginação, no mínimo interessante. Em o final do ano passado lançou de maneira independente e sob o aval de uma lei de incentivo a cultura local, o primeiro disco que leva o nome da banda e conta com dez músicas produzidas em parceria com Lindenberg Oliveira. Para saber mais de 'sa novidade, batemos um papo (via e-mail) com o baterista Edmar, também porta-voz do grupo. Conte-me um pouco da história da banda, quando e como começaram. O Aerotrio tem três anos. Havia um desejo antigo de montar uma banda que tocasse somente música instrumental. Exclusivamente!!! Nada daquelas composições cheias de notas e virtuosismos desnecessários ou «mela-cuecas». Queríamos fazer algo mais orientado para o groove. Apesar de, em nossas bandas anteriores, tocarmos algumas coisas instrumentais, ter «um Aerotrio» era o nosso ideal. Foi um momento de " 'talo ": Três amigos e com a formação que imaginávamos (baixo, teclados e bateria). Uma pergunta intrigante: por que fazer música? Eita!!! Essa é realmente intrigante. É um tanto complicado explicar uma paixão, pois 'tamos envolvidos com música desde nossa infância / adolescência. Mesmo sabendo das dificuldades de ser músico em nosso país, nos sentimos energizados fazendo o que fazemos. É prazeroso ir ao nosso 'túdio de ensaios e lá criar, dar asas à imaginação. É muito bom quando 'tamos no palco, pois nos damos muito bem musicalmente / profissionalmente e pessoalmente. Realmente 'pero continuar fazendo música com o Aerotrio e com meus dois comparsas, Fábio e Paulo. Como é 'se inusitado de terem formação e tocado rock para fazerem um jazz moderno com instrumental refinado? Apesar de termos passado por bandas de rock (hardcore, metal, etc.), ele (o rock) é mais uma das nossas influências. O que fazemos é uma grande mistura de ritmos e 'tilos, resultado de uma bagagem musical adquirida ao longo dos anos. Não é difícil «ver» em nosso trabalho rock, jazz, baião, hip hop, bossa nova ... E a transição de um 'tilo para outro foi e é muito natural para nós. Ser uma banda de «modern jazz» no interior da Paraíba deve ser algo bem 'tranho, né? Como é que vocês vêem isso? Existe público e 'paço? Quais são as maiores dificuldades? Antes de 'trearmos com o Aerotrio, pensávamos nisso. O que mais nos surpreendeu e surpreende é o reconhecimento e apoio do público por onde tocamos. Em nossos shows, sempre há uma platéia cada vez maior, atenta e receptiva. Quanto a 'paços para tocar e dificuldades, acho que isso acontece em todo lugar para quem 'ta buscando um lugar ao sol. O que nos deixa motivados é ver que há maneiras de divulgar nosso trabalho mundo afora e a cada dia mais gente nos conhece, nos contacta e isso nos deixa feliz. Obstáculos sempre vão existir para quem vive «correndo por fora» do 'quemão. Gostaria de saber quais as influencias musicais da banda. A lista é extensa. Vai de Mozart ao Slayer. Mas tem muita coisa que gostamos em comum: Miles Davis, Medeski Martin & Wood, Erik Truffaz, The Cinematic Orchestra, Tied And Tickled Trio, John Coltrane, Nação Zumbi, Dj Shadow, Fela Kuti, De entre muitos outros. Muito bem gravado, com timbragens e arranjos interessantes. Como foi produzirem e lançarem 'se primeiro disco? Em 1º lugar, foi de suma importância termos aprovado o projeto do cd no FIC -- Augusto dos Anjos (lei 'tadual de apoio à cultura), pois, como tínhamos recursos, pudemos contar com um produtor musical (Lindenberg Oliveira), um bom 'túdio com tempo necessário para gravar e mixar, um outro para masterizar, uma fábrica que é referência para prensar nosso disco. Enfim, havia grana para bancar toda a logística que envolve o processo de produção de um cd, o que nos deixava bastante tranqüilos e relaxados. Também que tivemos «todo o tempo do mundo» para compor nosso 1º disco (quase toda banda tem, né?-- risos), testar nossas músicas ao vivo, re-arranjar algumas coisas, saber o que funcionava melhor em 'túdio e no palco. De uma forma tranqüila e acredito que no momento certo para fazermos nosso debut. O que planejam para 2007? Conquistar o Mundo! Falando sério, planejamos divulgar nosso cd e nosso trabalho. E tocar para um maior número de pessoas, nos mais diversos lugares. Nada muito grandioso ou absurdo. Número de frases: 61 Aerotrio Achei sensacional 'sa nova possibilidade de incluirmos vídeos no Overmundo. Então, pra iniciar, segue matéria em vídeo sobre o Cavalo Marinho, folguedo popular super interessante lá da terrinha (Pernambuco). A matéria foi produzida durante o Seminário Nacional Para As Culturas Populares, realizado em novembro de 2004, na Galeria Olido, em São Paulo. O Cavalo Marinho O Cavalo Marinho é uma das variantes do bumba-meu-boi. A brincadeira é composta por música, dança, música, poesia, coreografias, loas, toadas e reúme cerca de 76 personagens. Estes 'tão divididos em três categorias: animais, humanos e fantásticos. Destaques para o Capitão Marinho, Mateus, Bastião, o Soldado da Gurita, Empata Samba e Mané do Baile. A música e o canto são os fios condutores de toda a trama e são executadas por o «banco», cujo instrumental é formado por rabeca, pandeiro, recos e um mineiro (também chamado de ganzá). Vídeo Produção e reportagem: Ad Luna Câmera: Márcio Moreira Edição: Gabriel Braga Direção-geral: Walter Abreu Ad Luna (adluna@showlivre.com) é baterista das bandas Monjolo (PE / SP), Thesurfmotherfuckers (MG) jornalista (editor-adjunto do Showlivre. com) e, às vezes, produtor cultural. «Fazendo de tudo pra não virar caixa do Bradesco». BLOG: Número de frases: 21 http://interdependencia.blogspot.com/ A fotografia tem a capacidade de concentrar um mundo num instante. Mais do que isso, para alguns pensadores a fotografia é a metáfora humana da busca por a imortalidade. Poderia o instantâneo vencer a passagem do tempo? Então o que dizer de fotografias de pessoas mortas? Seria o aprisionamento do corpo inerte e sem vida? As pessoas fotografadas 'tariam mortas para sempre? Não sei se foi pensando nisso que o fotógrafo policial Herácles Dantas deu «vida» ao seu hobby macabro. Com trintas anos de profissão nas costas, Herácles, um sujeito 'pontâneo, baixinho, silhueta avantajada e de bigodes fartos coleciona fotografias de pessoas mortas. Fino observador da morte alheia, o fotógrafo parece manter um curioso pacto com a «indesejada». Sempre consegue os melhores ângulos. Enquadramentos perfeitos e mudanças de perspectiva impossíveis para muitos. Os «400» trabalhos de Herácles Suas lentes já registraram as poses de gente morta de morte morrida e poses de gente morta de morte matada. O sádico arsenal fotográfico é composto de mais de 400 cenas de moribundos. A miscigenação vai de ladrões varados de bala, homens atropelados por trens, à criancinha enterrada na areia por a irmã 'quizofrênica. Herácles só não tem a sua própria foto, a mais emblemática e, por isso mesmo, impossível de ser feita. Seria ele capaz de um suicídio fotográfico? Não sabemos. Mas ao contrário do que a funesta coleção possa incitar, o fotógrafo, que tem nome de semi-deus, é gentil e galhofeiro. Com um bom-humor «negro», digamos, Herácles guarda na memória dezenas de causos e anedotas que dão conta das centenas de mortes registradas, como no dia em que fizeram um menino se fingir de morto para forjar a fotografia de um bandido que a polícia tinha dado cabo. Em a verdade, a peripécia saiu da cabeça do repórter que o acompanhava. Como o IML já havia dado destino ao moribundo, o repórter alheio a qualquer conceito de ética não contou conversa. Impeliu Herácles a fazer a foto. Em o outro dia o jornal concorrente 'tampava na capa a fotografia do bandido crivado de balas e todo ensangüentado. O editor-chefe chama Herácles e o repórter na sala e pergunta sobre qual seria a verdadeira foto. O repórter não vacilou e tascou o seguinte mote: «Em a verdade a foto verdadeira é a do outro jornal. Mas nós fizemos a ' reconstituição ' do acontecido». Histórias tragicômicas como 'sa são comuns na vida do trampolineiro e desmedido fotógrafo, que já se vestiu de policial para ter acesso à cena do crime. Espirituoso, o fanfarrão Herácles confessa ter mais apego por as fotografias do que por a sua própria 'posa, ela que «morre» de ciúmes das lúgubres «cópias fiéis». Mas quanto a 'se assunto, o fotógrafo não titubeia. Se precisar, faz novamente uma permutação de 'posas -- ele que já 'tá nas suas terceiras núpcias. As fotografias dos mortos assim como seus filhos, são os únicos bens inalienáveis que possui. E assim ele segue. Buscando o inédito. Colecionando e aprisionando vidas através de suas lentes objetivas, com a mesma simplicidade das crianças que guardam para sempre os seus brinquedinhos Kinder Ovo, ou dos cinéfilos que reúnem suas entradas de cinema. A os desavisados, cuidado com os cliks de Herácles. Número de frases: 37 Eu me lembro que nos meus longinquos 17 anos havia algo diferente no que movia os da minha faixa etária. As rádios ecoavam o rock poético de Renato Russo e sua Legião, o Barão Vermelho de Cazuza fazia com que os cerebros se atentassem para um universo libertario e questionador. Os Paralamas do Sucesso vinham com seu 'tilo a la The Police e as composições marcantes de Herbert Vianna. Roger do Ultraje a Rigor comprovava seu elevado Q.I com otimos sarcamos do tipo Nos Vamos Invadir sua praia, Eu gosto é de Mulher, Sexo entre tantos outros sucessos. Humberto Gessinger e os Engenheiros davam vazão a sentimentos sem pieguisse, mostravam um mundo onde o algo mais sempre deve ser almejado. Os Titãs mostravam toda fúria e insatisfação com o seu rock seco, direto, jogando na cara de todos a visão do Brasil peculiar da banda. Marcelo Nova e o Camisa de Venus sintetizavam tudo que uma banda verdadeiramente rocker significa: Polemica, atitude e sagacidade. Hoje, passados outros tantos anos, vejo os que tem 17 na atualidade ouvindo e cantando sem pensar «Chupa que é de Uva»,» Beber cair e levantar», «Crew»,» E tome, tome». Não sei se tenho razão e nem quero ter, mas o que me fez gostar de Carlos Drummond, Fernando Pessoa e seus heteronimos, Mario Quintana, Clarice Lispector e tantos outros grandes foi a poética inicial que a Boa Musica me trouxe. É triste saber que cada vez mais a fábrica dos ignorantes informados vem crescendo assutadoramente, fazendo assim com que o " povo-gado tenha seu rebanho com centenas de milhares de pessoas. Número de frases: 11 « Todo 'paço mal utilizado será roubado »: Essa frase não é de eles, mas é assim que os dois artistas que integram o Coletivo Poro definem a sua política em relação ao 'paço urbano. «Achamos que todos os 'paços podem ser utilizados de modo crítico ou poético. Gostamos muito de 'sa frase que lemos uma vez numa ação. Eles (o outro grupo que fez a intervenção) abriam aquelas caixas de luz dos pontos de ônibus, roubavam as propagandas e no lugar colocavam radiografias juntamente com 'sa frase», explicam logo. Por «mal» entenda todo o lixo que consome a cidade de diversas maneiras: que a torna sem cor, monótona, sem relevo. Por «roubado» entenda ocupado de maneira criativa. O coletivo, formado por a dupla de artistas Marcelo Terça-Nada! e Brígida Campbell, desenvolve um trabalho que 'tá mais para artes plásticas do que street art.. Em a verdade, ocupam um 'paço entre 'sas duas linguagens. Talvez artes plásticas de rua? O fato é que o Poro costuma usar 'se suporte (a rua) de uma maneira ou de outra nas suas intervenções e obras. A cidade constantemente em obra. Sem dúvida, 'se é um tema bastante em voga hoje. O graffiti talvez nunca tenha sido tão valorizado, reconhecido e comentado, enquanto os stickers e stencils se consolidam como arte engajada. Como evitar a banalização então, num 'paço já tão disputado por a publicidade, sinalizações públicas? «A maioria das coisas que 'tão presentes nas ruas são desinteressantes e muitas vezes despreocupadas com a própria mensagem que elas veiculam, com um discurso 'vaziado e que só ajuda a poluir e sujar ainda mais a cidade (incluindo aqui muitos trabalhos de street art)», afirma o Poro. Para eles, intervir é interromper o cotidiano da cidade, desconstruir a rotina. «Tentamos agir dentro de 'paços de sutilezas, em contrapartida à brutalidade e falta de cor a que as cidades 'tão submetidas». Como eles próprios definem, a atuação do grupo acontece de maneira «silenciosa». As ações acontecem nos detalhes, nas pequenas coisas. Não há nenhum choque ou impacto forte, agir assim seria repetir os mesmos métodos da publicidade. Muitas das intervenções talvez não sejam vistas, talvez as pessoas não percebam nada de diferente. Nem todos vão perceber, nem todos irão entender: não tem problema, não há nada a venda. A efemeridade faz parte do trabalho. Anti-publicidade Existe um forte questionamento hoje do 'paço que a publicidade ocupa em nossa vida, de uma maneira geral. A quantidade de propaganda que nos atinge diariamente. Por que não questionar isso utilizando das mesmas armas, ferramentas e materiais? Foi 'se o caso de uma das ações mais conhecidas do grupo. O Poro distribuiu no centro de Belo Horizonte santinhos com os dizeres «propaganda política dá lucro» oferecendo o «curso profissionalizante cara-de-pau». O santinho, um ataque irônico e direto ao marketing político, foi distribuído no centro da cidade e em outros locais públicos. Outra ação que questionou a influência da publicidade na sociedade atual foi a «Arranque a etiqueta da sua roupa». O grupo disponibilizou tesouras em certos locais para que as pessoas pudessem se livrar desses restos de propaganda que carregam inconscientemente com elas. A crítica política é também um dos assuntos presentes em seus trabalhos. Em 2002, o grupo resgatou uma idéia executada por o artista Cildo Meireles, na década de 70. O grupo criou um carimbo com a tradução e interpretação própria para a sigla FMI: «Fome e Miséria Internacional». O processo foi simples: carimbar as cédulas de dinheiro e devolve-las à circulação. ( O trabalho original, de Meireles, carimbava a frase «Quem matou Herzog?», em referência ao jornalista torturado e assassinado por a ditadura.) «Em as mais variadas situações e lugares fizemos seções de carimbagem. E era só perguntar: ' Você tem uma nota para carimbar? '. Após carimbar a primeira nota, vinha outra pessoa querendo também. E de repente uma mesa de bar, ou uma roda de amigos na universidade virava uma grande euforia de pessoas querendo carimbar suas notas». Em o mecanismo de circulação foi inserida uma idéia, que questiona a própria lógica do mecanismo. Número de frases: 48 Livro do jornalista Silvio Martinello denuncia atrocidades contra acreanos A maioria da boa 'crita é multi-facetado e complexa. É precisamente 'sa diversidade e complexidade que faz da literatura uma atividade recompensatória e 'timulante. Em Corações de Borracha, do jornalista e 'critor Silvio Martinello, a narrativa se constrói entre ficção e história. Verossimilhança com a própria história dos antepassados dos acreanos? Martinello propõe: «Este livro é, pois, antes de qualquer coisa, um libelo e uma denúncia contra as atrocidades que foram cometidas contra 'ses brasileiros e contra o desprezo e o 'quecimento com que foram jogados na vala da História». Corações de Borracha pode exigir mais dos leitores: consciência das coisas implicadas em vez de meramente descritas, sensibilidade às nuances da linguagem, paciência com situações ambíguas e personagens complicadas, vontade de pensar mais profundamente, resgatar a identidade acreana. O 'forço vale a pena, pois o autor pode proporcionar aos leitores aventuras que ficam na memória para toda a vida. «É preciso debater sempre. Não só a tragédia, mas a redenção. E isso se faz por o confronto das idéias, por o exercício da democracia, a partir do povo e lideranças regionais. Sem xenofobismos, mas também sem ir a reboque», diz Sílvio Martinello. Silvio Martinello, 56 anos, catarinense de Criciúma, é jornalista formado por a Faculdade Cásper Líbero há 30 anos, dos quais 28 trabalhando no Acre. Foi um dos fundadores do jornal alternativo Varadouro, um jornal das selvas. Atualmente, é diretor do jornal A Gazeta. Em 2000, recebeu Menção Honrosa do Prêmio Embratel e, no mesmo ano, o Prêmio Esso Regional, com o trabalho Censura Não. Em 2003, lançou seu primeiro livro A Ilha da Consciência. É torcedor fanático do Botafogo e do Floresta Futebol Clube. Onde adquirir o livro: Número de frases: 21 Livraria Paim -- Rua Rio Grande do Sul, 311-1xxx(068) 3224-3432 É o que eu sempre digo: não há nada mais perigoso do que um diretor com vontade de fazer uma denúncia. A primeira sensação que você tem depois de assistir baixio das bestas, de Claudio Assis, é a de que antes de ser um panfleto, um filme precisa ser minimamente bom. O filme traz para a tela um nordeste marcado por a miséria, pedofilia, pobreza, exploração sexual, impunidade. As cenas são marcadas ora por a violência dos personagens, ora por as paisagens melancólicas e desoladoras. nos diálogos, o sotaque e os termos regionais perdem 'paço para os fédaputa, idiotas, bucetas, desgraçado e por o carai (ou caralho). O horror, a podridão, o vício e a pobreza 'tão por toda a parte. se surge uma cena com uma bela tomada do entardecer, aparece em seqüência uma cena de sexo explícito. Em 'se nordeste de Claudio assis, tem um velho moralista que arrecada dinheiro exibindo o corpo da própria neta num posto de gasolina. Tem caminhoneiros pedófilos. Tem um puteiro onde os jovens de classe média fazem orgias 'catológicas. Tem jovens de classe média que fumam maconha e atropelam e não prestam socorro. Tem flagelados. tem trabalhadores explorados nos canaviais. Tem sodomitas. Tem bêbados. tem uma mulher depilando a buceta. Tem tudo isso. Só não tem um personagem honesto ou, pelo menos, normal. Não há saída: no filme todos 'tão condenados a serem social ou sexualmente patológicos. O que mais assustou em 'se filme não foram as cenas de violência; não foi a criança sendo 'tuprada. O que mais me chocou foi ver a capacidade que um diretor tem de 'tragar um filme. Um elenco excelente totalmente desperdiçado. Hermila Guedes (o céu de suely) é mal aproveitada: ela poderia ser substituída por uma boneca de pano: sua personagem leva uma surra e desaparece. restam as ótimas atuações de Matheus Nachtergaele, Caio Blat, Fernando Teixeira (que eu não conhecia) e da novata Mariah Teixeira (auxiliadora). Contudo, todas 'sas atuações acabam sumindo nas cenas toscas e excessivas de Claudio Assis. Everaldo (Matheus Nachtergaele), trazendo a voz dae classe média, diz: «a pobreza é um câncer». em 'se universo de um diretor arrogante, a denúncia social fica desgastada. ao pobre resta a condição de tumor. Claudio Assis parecia querer fazer um filme-exceção. um filme pra chocar. ele quer ser uma voz contra a classe média. e acredita «que no cinema você pode tudo». por isso, no final, baixio das bestas cumpre seu papel: se comparado a grandes filmes da nova onda nordestina (o céu de suely e o bárbaro cinema, aspinas e urubus), o baixio é mesmo uma grande exceção: não passa de uma idiotice. Número de frases: 42 É rara a aparição na mídia nacional de artistas plásticos paranaenses. Mas, nos circuito 'pecializado, volta e meia alguém chama para si as atenções. Que fique claro: quando se toca no assunto (in) visibilidade das artes paranaense, a intenção é tentar entender por que a História da Arte Brasileira continua sendo contada por duas ou três capitais brasileiras. Talvez porque lá é que 'tão historiadores, jornalistas, produtores, a mídia, enfim, que repercute nacionalmente. Também se pode concluir que faltaria aos tupiniquins que vivem «longe demais da capitais» a mesma postura diante da produção mais próxima. Afinal, é rara, também, a bibliografia sobre as artes produzida no Paraná. É mais ou menos 'se o fio da meada de 'ta conversa com alguns artistas visuais que têm os pés fincados em 'te pedaço da República Federativa do Brasil. Bati um papo com um grupo de artistas que já tem tempo de carreira e respaldo na mídia: Fábio Noronha, Carina Weidle, Grabriele Gomes e Lívia Piantavini, que 'tão na exposição «Artistas Convidados» no Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Curitiba. Se entre eles, é senso comum a riqueza da produção contemporânea feita aqui, também o é o fato de que inexiste mercado e política cultural, bases de sobrevivência num circuito. Meio fora do eixo Noronha sabe que nem todo mundo consegue furar o cerco e há uma produção que «sobra». «Se projetos curatoriais consistentes apostassem mais em ela ... Falta-nos construir e alimentar 'sa relação», pondera. Marchands, curadores, galerias, produtores, críticos de artes, política cultural devem ser os «pés» de um cenário que mereça mais do que notas de rodapé. «E como qualquer outro profissional, o artista tem que tentar vender seu trabalho, chegar mais perto de instituições, salões, curadores. Se São Paulo e Rio são mais agilizadas em produzir modelos, é porque existe 'sa relação entre quem cria e quem aposta na qualidade de quem cria. O resto é conseqüência», pondera. Agora que Curitiba tem um 'paço «internacional», o Museu Oscar Niemeyer (MON), avaliam os entrevistados, a expectativa é de uma parceria mais consistente em 'te sentido. Administrado por o Governo do Estado, o local é, também, o pomo do descontentamento por a falta de diálogo com a produção local, sinal, avaliam, de falta da política cultural. «Eu me sinto satisfeito, mas nem na Bienal do Mercosul lembro de ter visto um olhar para a produção daqui. Então, talvez 'tejamos mesmo meio fora do eixo», diz Noronha. Carina, ao criticar a falta de uma política cultural, garante que não se trata de reserva de mercado, só que tantas vezes se sente como que recebendo um favor, que é o caso de perguntar: «Qual é a importância das artes plásticas para o Paraná? Desenvolver uma visualidade é legal? Então vamos investir numa própria», atira. Outro problema que deriva disso é a precariedade do acesso à informação. «É diferente de se ter um MuMa no bairro ao lado, e o ensino é que tem que fazer um 'forço enorme para superar 'sa lacuna», pontua ela que, como Noronha, é professora. «Não temos nem acervos», completa. Quando o assunto é galerias e marchands, a satisfação é maior, embora sejam pouquíssimos os profissionais do ramo. «Precisamos encarar que não há mercado para a arte no Brasil», fala Carina, que atualmente é sua própria marchand. «Eu acho produzir mais importante. O pessoal 'tá se comendo por um 'paço. Então, ou você entra em 'sa corrida ou gasta suas energias com a produção. Será que eu 'tou errada ...». «É preciso vender a arte daqui sem paranismo " Mesmo com 'sas dificuldades, segue Gabriele, nota-se os paranaense em evidência, ganhando prêmios e em Bienais. «Pode até não ter tido ninguém na Bienal, mas o Toni (NR. Camargo) 'tá lá em São Paulo, super bem conceituado, numa paralela. Ele é da geração 2000, que 'tá amadurecendo a olhos vistos». Porém, pondera em seguida: «A gente vai comendo por as beiradas. Falta curador e galerista que nos leve para outras paragens. Os bons que temos não têm 'se poder de fogo», observa. Talvez todo o problema 'teja mesmo entre nós. «As pessoas não têm o hábito de ir ao museu e os diretores e curadores têm idéias muito provincianas. Arte boa é arte e ponto. Se 'cuta muito arte paranaense, mas não se fala de arte paulista ou carioca». Lívia Piantavini é da tal geração 2000, que tem entre os seus destaques o grupo de onde ela e Toni Camargo saíram, o Pipoca Rosa -- formado por 'tudantes de artes da UFPR que chamou a atenção numa intervenção urbana que distribuía pacotes daquela pipoca doce que vem em pacotes cor-de-rosa. «Não 'távamos satisfeitos com a produção artística, nem com a forma como os museus funcionavam, tampouco com a política cultural. Como todo pretendente a artista a gente queria participar. E deu certo», diz Lívia. Os problemas que eles viram continuam aí. «A diferença é que a gente não ouvia 'sas discussões agora tão constantes», pontua. O maior problema, e Lívia não sabe se isso é local mas imagina que não, é a falta de profissionais para cada área do mercado das artes: museólogos, críticos, marchands, marketing cultural. «Como não temos pessoas para discutir certas questões, acabamos nós fazendo isso, o que pode provocar certas contaminações», comenta e segue: «Por exemplo, é insuportável como as discussões sobre artes visuais hoje em dia acabam sempre em política cultural. Não se fala do trabalho, mas da falta de condição. Claro que isso tem que ser discutido, mas virou justificativa para não produzir». O legal, por outro lado, comenta ela, é que existe abertura para os novos artistas no circuito local. Muito por conta do trânsito de criadores já 'tabelecidos no ensino. Reverberação diferente Porém, ela também nota como Florianópolis e Porto Alegre se posicionaram mais rapidamente no circuito nacional. O que prova, defende, que só fica isolado quem quer. «Aqui 'tamos caminhando para 'sa profissionalização, tem muita gente 'tudando as artes paranaenses de um jeito universal e não bairrista». Porém, ainda existe um abismo entre o que as pessoas vêem e o que é produzido. Mas, o problema não é de linguagem. «Olham nossos trabalhos com um olhar de fora. Só que o Paraná teve uma história muito fechada. Meu trabalho é muito mais influenciado por gente daqui, porque foi o que realmente vi e isso tem uma reverberação diferente», analisa a jovem, citando os três que expõem com ela no Mac como suas influências maiores. «E tão pouca gente fala disso, ressente-se. E na inexistência de uma crítica que acompanhe 'sa produção, conheça as histórias, reside sua grande insatisfação. «Só vejo analisarem nossas criações de uma perspectiva de fora para dentro, o que cria uma certa incompreensão», pondera. «É nítido que os artistas que mais se projetam fora são os que se aproximam mais de linguagens correntes no Rio e São Paulo do que daqui. Temos conversado sobre isso entre nós». Serviço: Artistas convidados. De terça à sexta-feira, das 10h às 19h, sábado, domingo e feriado, das 10h às 16h. Até 31 de janeiro de 2007. Museu de Arte Contemporânea (R. Des. Westphalen, 16). Entrada franca. Número de frases: 84 Informações: (41) 3323-5337. Inquieto, 'quisito e performático, Marcelo Gandhi, 30, é daquelas pessoas que despertam diferentes reações imediatas nas pessoas. Artista multimídia, único do Rio Grande do Norte selecionado por o Programa Rumos Itaú Cultural de Artes Visuais 2006, não vai sossegar enquanto não abrir uma janela para o mundo do próprio jardim. Seja por o visual andrógino ou por suas obras sempre provocadoras, uma coisa é certa: ninguém passa batido quando topa com 'se potiguar de Parnamirim. Arredio à primeira vista, logo solta o verbo e a verve ao interlocutor mais atento. Quando questionado sobre algum aspecto social contemporâneo, ou mesmo o meio cultural, Marcelo Gandhi não perde a chance de ligar sua metralhadora: «Sabe porque nossa arte (potiguar) não tem nenhuma repercussão lá fora (além fronteiras)? Simplesmente por a falta de referências. Nossa ' regionalidade ' é falsa, vem a reboque do que anda acontecendo em 'tados vizinhos. Em Natal, as pessoas 'quecem da obra e correm atrás do retorno rápido a todo custo, mesmo que na base da concessão», atira sem perda de tempo. Há dez anos militando nas ' trincheiras ', Gandhi diz que suas «coisas» são mundiais e não globalizadas. «O problema não é morarmos numa cidade pequena do Nordeste brasileiro, e sim não assumirmos nossa vocação vanguardista. Ao mesmo tempo em que o pensamento provinciano limita a criação, e impõe a assimilação de um pop massificado, feio e burro, a cidade tem toda uma importância histórica dentro do contexto do Poema / Processo (movimento surgido em 1967, simultaneamente em Natal e no Rio de Janeiro, e que posteriormente ficaria conhecido por Poesia Visual). Encaro Natal como um poço de contradições: de um lado todas as possibilidades do mundo, do outro a consciência de que 'tamos longe ...», remói o artista, cujo trabalho em muitos momentos lembra a arte imprevisível de Farnese de Andrade. Licenciado em Artes Visuais por o Departamento de Artes da Universidade Federal do RN, Marcelo Gandhi crê em soluções alternativas como ' desorganizações ` organizadas a partir de fóruns na internet (citou uma lista que reúne bandas de rock). «Temos que abrir o leque, misturar música com artes visuais, poesia e performances teatrais. Nada de querer agradar os outros, vejo o artista como um pensador e não como um bobo da corte que precisa ser aceito, ser popular», diz o artista. «Estamos ilhados por a ' lado A '. A cidade precisa de gente freqüentando o'lado B ', e ele existe! Tímido, mas existe!!». Um dos três vencedores do IX Salão de Artes Visuais da Cidade do Natal, realizado em dezembro de 2005, prefere não ser visto como um pessimista, e sim um realista que gosta de falar e fazer. «Discurso é uma coisa, prática é outra. Natal precisa sair do meio do caminho, parar de vampirizar o que é dos outros e transformar do seu modo tudo o que 'tá rolando. Prefiro observar o movimento de 'sa ' realidade ' ... e agir no momento certo. Quer compor, componha. Quer lançar um disco, lance. Uma coisa puxa a outra», afirma com a propriedade de quem lançou o único CD demo duplo do Brasil com 30 faixas autorais por o dueto Évora (foto, Gandhi 'tá em primeiro plano de óculos), onde divide as experimentações com o guitarrista Dallys. O registro das 30 músicas, na verdade, serviu para fechar outro ciclo de mais uma de suas investidas musicais: primeiro veio Duo Vox, depois Flávio Frankestein, Marcelo Gandhi e os Ernestos, Deva e, por fim, o Évora. «Costumo dizer que lanço bandas póstumas», diverte-se sem perder o tom de seriedade e firmeza. Se diz execrado por os Beatles e amaldiçoado por os Stones, porém influenciado por Hermeto Pascoal, Björk, Zé Celso Martinez Corrêa, Plínio Marcos e bandas minimalistas canadenses, Gandhi planeja criar um novo grupo em 2006 (ainda sem nome), sempre prezando por o experimentalismo e por o conteúdo autoral. «Primeiro o trabalho tem que agradar a gente, depois o mundo. Essa é minha maneira de contribuir para a derrubada do falso moralismo que engessa a produção artística aqui e ali. Natal é uma cidade muito louca: na galeria de arte uma mostra de excelente nível, enquanto nas ruas falta de respeito com o patrimônio histórico e arquitetônico impera." Este ano, além das intenções musicais, o artista também pretende aproveitar a oportunidade de expor no " Rumos de Artes Visuais. «Quero mais é continuar ligado com o mundo, conectado a pessoas e tentando viver em 'se turbilhão -- aparecendo e desaparecendo. Meu desejo é continuar morando aqui, e daqui conseguir fazer com que minha arte tenha repercussão mundial. Número de frases: 42 Os meios de comunicação 'tão aí para isso», finaliza. «Sempre 'tive à altura do inesperado " Nietzsche " Considero-me além de qualquer expectativa " Maura Lopes Cançado Pouca gente já ouviu falar de Maura Lopes Cançado. Mesmo entre os leitores assíduos da literatura brasileira, é raro encontrar quem conheça pelo menos um dos dois livros que ela publicou: Hospício é Deus (Diário I) e O sofredor do ver. Passou despercebida por o público geral, 'sa 'critora que viveu entre a lucidez e a loucura e que encantava os colegas de redação no Jornal do Brasil na década de 60 com histórias divertidas e dramáticas. Em Hospício é Deus, 'crito durante uma de suas internações no hospital psiquiátrico Gustavo Riedel, no Rio de Janeiro, aos 29 anos, ela diz: «Sou um anjo com vocação para demônio». A frase lapida a 'sência de Maura, não só por o que tem de demoníaca, mas também por o que possui de luz e amplidão. Conforme o subtítulo, o livro foi 'crito como se fosse um diário. Em as 20 primeiras páginas, Maura faz um apanhado autobiográfico, da infância até sua ida para o Rio de Janeiro, aos 22 anos. Depois as anotações são marcadas por datas que vão de 25 de outubro de 1959 a 7 de março de 1960. A o falar de seu tempo de infância, 'creve: «Não creio ter sido uma criança normal, embora não despertasse suspeitas. Encaravam-me como a uma menina caprichosa, mas a verdade é que já era candidata aos hospícios aonde vim parar». Em suas próprias palavras, a primeira entrada numa casa de loucos foi aos 18 anos, ainda em Minas Gerais, Estado onde nascera em 1930. Em 'sa mesma época, também tentou o suicídio pela primeira vez, e desde então, até a casa dos 30, sempre freqüentou sanatórios. Ela define o hospício como «uma cidade triste de uniformes azuis e jalecos brancos». Num momento de rara sensibilidade e capacidade de olhar ao mesmo tempo ao redor e para dentro de sua própria condição, ela 'creve: «O que me assombra na loucura é a distância -- os loucos parecem eternos», e diz mais: «Hospício são flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em 'cadarias de mármore antigo, subitamente futuro. ( ...) Hospício é não se sabe o quê, porque Hospício é Deus." Hospício é Deus é mais que um diário. O que há de literário em ele é pulsante, vivo e muito atual. Hábil na arte de narrar, Maura costura suas conjeturas, conspirações e maluquices no interior do sanatório junto a histórias que evocam lembranças recentes. «Não é, absolutamente, um diário íntimo», dizia ela,» mas tão apenas o diário de uma hospiciada, sem sentir-se com direito a 'crever as enormidades que pensa, suas belezas, suas verdades. Seria verdadeiramente 'candaloso meu diário íntimo." O tom megalomaníaco em que ela se expressa revela sua loucura, mas também deixa florescer a forte presença de espírito, e é isso que nos faz crer em tudo que 'tá ali. A literatura, antes de mais nada, precisa convencer o leitor. Segundo «Assis Brasil,» é bastante curioso, do ponto de vista crítico, saber que um 'critor do porte de Maura Lopes Cançado tem um acervo existencial raramente encontrável em 'critor brasileiro, sempre apegado a draminhas domésticos ou ligeiras crises passionais. Se seus diários tivessem sido publicados num outro país, teria elevado o nome de Maura Lopes Cançado ao plano literário internacional." Seu ' acervo existencial ' é mesmo raro, e sua capacidade de criar vai além da loucura comum, fazendo observações agudas de si mesma e de seu mundo conturbado. «Existo desmesuradamente, como janela aberta para o sol. Existo com agressividade." Eis mais uma frase lapidar de Maura, entre muitas que nos encantam, como 'te outro feixe 'clarecedor: «Que emoções 'candalosas tenho dentro de mim: é que às vezes tudo ameaça precipitar-se, minto para mim mesma, não sei para onde dirigir 'tas emoções. Minha consciência da inutilidade de tudo mata-me. Esta incapacidade de sofrer torna-me árida, vazia -- ( ...) invento-ma cada instante." A voz dos outros Esta assertiva coloca a obra de Maura no seu lugar devido, ou seja, no terreno da invenção. Não se trata de um diário realmente, mas de pura ficção. Quando 'creve, Maura nos convence de que 'tá falando sobre sua realidade. Mas basta o cotejo com um ou dois textos de quem conviveu com ela no Jornal do Brasil para descobrirmos a profunda montagem inventiva que é sua autobiografia. Ou seja, Maura é uma criação de si mesma, um personagem de sua própria obra. Entremeando com outros relatos do diário, a autora vai contando uma história de amor platônico entre ela e o vice-diretor do hospital, o Dr. A. Como boa romancista, ela sabia que 'sa história serviria como fulcro de sua narrativa para a maior parte de seus possíveis leitores. Em muitas passagens de Hospício é Deus, Maura se diz dotada de uma beleza avassaladora e de uma inteligência rara. Em o Jornal do Brasil conviveu com grandes nomes, que na época 'tavam se formando como figurões das artes brasileiras, como Carlos Heitor Cony, Amílcar de Castro, Ferreira Gullar -- de quem ela diz " acho-o frio, 'quizóide, distante. Creio não gostar de ele. Mas gosto " --, Reynaldo Jardim, que prefaciou o livro, Assis Brasil, Mário Faustino, José Guilherme Merquior, entre outros. De acordo com o jornalista José Louzeiro, que também conheceu a 'critora, ela fora casada com um rico empresário mineiro, de quem se separou quando, ao pilotar um teco-teco, caiu sobre uma casa no bairro onde morava. «Feita a perícia, constatou-se que o aparelho não apresentava qualquer defeito mecânico. Maura abriu o jogo: tinha vontade de ver um avião cair e, 'tando dentro de ele, a coisa lhe parecia muito mais empolgante." O resultado foi o fim do casamento, o ex-marido querendo colocá-la no hospício e os parentes olhando-a com o rabo do olho. Segundo Louzeiro, num texto que circula na internet, Maura encantava as pessoas com histórias iguais a que foi contada acima. «Sempre que começava a falar de suas aventuras, formava-se a roda de curiosos. Mas quando descobriram que ela misturava alhos com bugalhos, a platéia diminuiu." Louzeiro ainda diz que a 'critora matou uma colega de hospício, enquanto 'tava internada, afirmando que a interna 'tava «impregnada». Cony também conhece muitas histórias de Maura. Em texto publicado no caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, do dia 15 de junho de 2007, ele lembra alguns desses casos. «Maura me procurou, dizendo que desejava 'crever um romance. Tirei o corpo fora, não se ensina ninguém a 'crever um romance, um ensaio, uma poesia. Ajudei-a apenas materialmente, dando-lhe uma máquina de escrever. O resultado foi ' Hospício é Deus '." Maura Lopes Cançado tornou-se uma 'pécie de lenda nos parcos meios literários do Brasil. Além da ficcionalidade a partir da autoconstrução de seu perfil psicológico e físico, percebe-se que até mesmo os relatos de fontes confiáveis, como Cony e Louzeiro, podem entrar para o rol da ficção. Como é o caso do homicídio, cujo número sobe nas contas de Cony, passando de um para dois, e com outra versão. «Em duas de suas crises mais violentas, matou uma enfermeira e um namorado, cumpriu pena em presídios psiquiátricos, foi liberada por parecer de médicos que a examinaram e por juízes que absolveram." Apesar da tendência psicopática de Maura, sua literatura fala mais alto. Mesmo porque seus dados biográficos nunca foram apurados e trazem muitas contradições. Pelo menos ninguém se interessou em apurá-los até agora. O ano de sua morte aparece em textos da internet como sendo 1992, 1993 (segundo a edição de abril de 2002 do jornal Estado de Minas, no caderno Feminino & Masculino) e 1997. Segundo Cony, Maura " morreu há pouco [1997?], 'quecida e conformada, aparentemente curada da loucura que a levou a diversas internações em hospícios e clínicas psiquiátricas. Não mais 'crevia, não procurava ninguém e por ninguém era procurada, a não ser por seu filho, Cesarion Praxedes, que morreu dois anos atrás." Já o jornalista e 'critor Pedro Rogério Moreira, na revista Encontro (Março --2004 -- Ano II --nº 25), diz que Maura " morreu em 1993, aos 64 anos, num hospício do Rio." Uma possível ascensão Sua fortuna crítica também é parca, em parte por o volume de sua obra, o que não é desculpa, porque, mal comparando (chegando a cometer uma heresia), Juan Rulfo 'creveu aproximadamente a mesma quantidade de páginas e tem uma fortuna crítica dez vezes maior do que sua própria obra. E em parte por o desinteresse ou desconhecimento dos 'tudantes de Letras. Mas, voltando ao Cony, segundo ele, as dissertações de mestrado sobre a 'critora já começam a crescer. «É um fato mais ou menos comum em todas as literaturas: 'critores de talento, alguns beirando a genialidade, passam desapercebidos por seus contemporâneos e somente aos poucos vão conquistando 'paço entre os 'tudiosos fatigados de analisar as obras já exaustivamente analisadas por a massa crítica que se forma nas academias, nas editoras e na mídia. Temos alguns exemplos entre nós -- e o de Maura me parece o mais recente e emblemático." Entre os 'tudiosos da literatura brasileira, o 'critor e crítico literário Nelson de Oliveira é um dos que sempre recomendam Maura Lopes Cançado como importante autora da prosa em língua portuguesa. Em o prefácio de Hospício é Deus, Reynaldo Jardim 'creve: «Eis a tranqüila fúria. Eis la aberta à emoção e ao tédio. Eis la cantando a ficção real do cotidiano alumbrado. Eis la, pânico sem susto, desvairando o pensamento claro, assombrando o sonho preciso, limpo e justo do pesadelo em vigília. Calmo sobressalto. Eis o canto mais alto de ser, sendo a um tempo e medo, lúcido punhal e carne transpassada. Eis o que não pode ser amada e se autodevora: flora animal, passiva flor urbana sob o peso da luta, transmutando impotência de vítima em demoníaco cacto flamante, visgo de fogo simulante, granadas no arsenal." Jardim diz para termos medo do livro, chamando a atenção para a periculosidade do 'crito contra a lucidez dos leitores tranqüilos. Faz isso como isca, é verdade. Em todo caso, o que se vê no livro de Maura Lopes Cançado é uma beleza profunda. O belo assusta, às vezes, por ser demasiado abissal, mas também nos revela muitas verdades. E é o que a autora faz em 'ta obra. Frases do diário: «Considero meu diário simplista. Sou muito mais do que aparento ser em 'te diário." «Estou brincando há muito tempo de inventar, e sou a mais bela invenção que conheço." «Chego à conclusão de que o mal é uma dimensão da minha natureza." «Qualquer reação, se 'tamos diante de um analista (ou com pretensões a), é sintomática, reveladora de conflitos íntimos, ponto de partida para as mais variadas interpretações. Em se tratando de simbologia, somos traídos a cada instante (ignoro se sobra algum prazer na vida para 'tes interpretativos analistas). Jamais expressamos a verdade -- que passa por caminhos sinuosos, apenas conhecidos do ' monstro ' à nossa frente, o analista, único que não se deixa enganar. Em relação ao sexo a coisa é um desastre: lápis, caneta, dedo, nariz, são símbolos fálicos. É irritante: tenho o inocente hábito de 'tar sempre com um dedo ou lápis na boca. Não compreendo como um simples lápis. Mas o tal de analista compreende. E julga flagrar-nos quando fazemos observações puras e autênticas. Ah, ele sabe que não são autênticas. O tal de analista sabe. Uhhhhhhhhhhhhhh!" OBS: Hospício é Deus foi publicado pela primeira vez em 1965. Depois teve outras edições. O exemplar utilizado para o presente texto foi editado por a Record em 1979, e, apesar de trazer o subtítulo «Diário I», o autor deste texto nunca encontrou o possível Diário II. Talvez tenha ficado apenas na intenção da autora. Site onde se lêem algumas cartas de Maura Lopes Cançado http://www.verabrant.com.br Número de frases: 124 Alguém precisa dizer: o rei 'tá nu. Direi eu, expondo-me ao apedrejamento. Literatura brasileira? Qual? Está agonizante! Por os meus cálculos de leitor criterioso, o último autor grande que tivemos foi o quase desconhecido e desprezado José Cândido de Carvalho. Desconhecido e desprezado por quem deveria conhecê-lo -- o leitor. Porque de uma maneira geral o que 'se autor maravilhoso -- de um livro só -- fez foi colocar o seu boi na sombra. Sempre, é claro, sob o patrocínio de boas amizades governamentais. Isto 'traga qualquer um, principalmente quando se trata de um artista. Está, ou 'tava -- nem sei se ainda vive -- na ABL, 'tragando-se de mistura com os papeleiros e carimbadores que compõem aquela agremiação. Se digo que José Cândido de Carvalho é autor de um livro só -- O Coronel e o Lobisomem -- obra que além de belíssima foi um marco e deu uma reviravolta boa mas infelizmente passageira em nossas tristes, desinspiradas e raquíticas obras publicadas, é justamente porque «Olha para o céu, Frederico!», publicado alguns anos depois, é um péssimo livro e fez o enterro do autor. E, atenção: eu disse tristes, desinspiradas e raquíticas obras publicadas e não tristes, desinspiradas e raquíticas letras brasileiras. Porque deve haver muita coisa boa, apodrecendo em gavetas de autores sem padrinhos. E, por falar em O Coronel e o Lobisomem, vale aqui sublinhar que Dias Gomes chupou, descarada e vergonhosamente, todo o linguajar e mesmo personagens com roupa e tudo da obra mencionada, para criar o seu Odorico Paraguaçú e ir fazer sucesso na televisão. Qualquer um que tenha conhecido os dois -- livro e novela televisiva -- constatará o plágio descarado. Aliás, o que 'perar de 'sa gente que 'creve para a TV? Em o mais, nada. A não ser gasto inútil de papel e tinta. Quem sabe distinguir entre um livro que possui valor -- pequeno, médio ou grande -- e que permanecerá após o desaparecimento das pessoas e instituições que lhe dão sustentação, e aqueles que não têm valor nenhum, saberá que, por exemplo, os livros 'critos por João Ubaldo Ribeiro não ficarão. Um misto de fazedor de livros e de cronista de si mesmo, sendo, na minha opinião, um homem extremamente desinteressante, João Ubaldo não passou de «O Sargento Getúlio», bom livro por sinal. Foi o que bastou para que a projeção alcançada -- e as benesses aceitas -- transformassem-no num 'critor capenga, embora incensado por os não poucos amigos. Isto sem contar que 'carrou na cara de todos os seus leitores, nas «Páginas Amarelas da Revista» Veja, onde eu li, 'tarrecido, a avaliação que João Ubaldo Ribeiro fez do leitor brasileiro, inclusive tripudiando aqueles que não entenderam -- ou não identificaram -- que as cenas iniciais de «Viva o Povo Brasileiro» são uma paródia de luta entre deuses da mitologia grega, transposta para o «baianês». Eu entendi. E larguei 'te livro lá por a metade, muito antes de ler a tal entrevista, simplesmente por tratar-se de uma obra onde as narrativa dá voltas e mais voltas, como um cão procurando a própria cauda, sem achar, nada, é claro. Falando em incenso e em amigos, enquanto 'crevo 'sas mal traçadas, fui ao Google confirmar se o nome do livro era mesmo " para o céu Frederico!" ou «para o céu Frederico!». Primeiro resultado alcançado: um artigo chapa-branca, 'crito por Carlos Heitor Cony, no site da Academia Brasileira de Letras, dizendo que 'se livro é «um grandessíssimo romance». Perdoável. Coisas de compadres. Mas não é verdade. É mentira. E da grossa. Carlos Heitor Cony, autor de inúmeros livros, nenhum de eles prestável, foi um apaniguado do Sr. Adolfo Bloch, seu patrão, durante toda vida. Não podia dar mesmo em boa coisa. Um autor precisa de independência, liberdade. E de obstáculos. Um grande autor, um autor imortal, é sempre um solitário e, na maioria das vezes, tem sido um desvalido. Péssimo isto! A miséria não é um bom pré-requisito à glória, mas, por outro lado, o excesso de graxa causado por os apadrinhamentos parece ser um fator determinante entre fulgurar ou fazer figuração. Escritor não pode ter carteira assinada e nem ser funcionário de nada e nem de ninguém. O meu grito é dado em favor dos jovens talentos brasileiros. Por que fui eu encontrar, nas bibliotecas públicas dos mais profundos confins canadenses, a «obra completa» do Sr. José Sarney? Como foram parar lá «Saraminda» e «Marimbondos de Fogo», distribuídos com a máxima fartura por as incontáveis librarys branchs daquele país -- onde morei e trabalhei por cinco anos consecutivos? Talento? Universalidade? Ou favorecimento ilícito? Quem pagou por as veleidades literárias, por a vaidade do «autor» José Ribamar Sarney, ex-presidente da república e acadêmico impudico? Por que não encontrei nenhum outro autor brasileiro naquelas incontáveis bibliotecas? O título era mesmo «para o céu, Frederico!». Mas o autor, infelizmente, desviou seu olhos de ali, cravando-o em outras tristes plagas ... Número de frases: 52 Flash, e pronto: eis aí, um instante capturado -- com o Senhor Tempo se rendendo -- fixando cenas e mais cenas da vida real. Parece que cada cidadão desse planeta carrega um apetrecho digital capaz de fotografar os múltiplos instantes de uma realidade que, nem capturada, pode se dar ao luxo de dizer que é verdade. Sim, porque foto é tudo mentira! Uma vez fotografado e pronto, já era. É uma maneira fantástica de capturar passados. Portanto, meu caro, aquela sua foto preferida, com um sorriso de morte na boca ('cancarada), não passa de um fantasma, ghost! Já foi o tempo em que a imagem mais representativa do fotógrafo (um quase-ícone) era a cara de um japonês turista sorridente. Isso, agora, é coisa de gibi. Hoje em dia, qualquer um pode botar um sorriso idiota na cara e: click! Fotografar profissionalmente é outra coisa. É trabalho. A poesia, na fotografia, surge como um clarão, quando lembro da frase que nunca deixa de me causar um certo 'panto: " Nossa, 'sa foto parece uma pintura!" E vice-versa: «Nossa! Essa pintura parece uma fotografia de tão real." Ninguém, nem nada, supera a realidade com seus mais de mil momentos que passam diante de nossos olhos, olhos de hidra, olhos de mel, olhos de gueixa, melaço 'correndo dos seus doces olhos. Deixo a tarde 'correr no pôr-de-sol incendiário. Fico trançando as pernas de tanta luz. Bêbada luz que serpenteia sob meus pés. Mas 'tava falando do sentimento poético que emana de uma bela fotografia: quase sempre somos tomados por uma sensação de êxtase ao ver uma paisagem bem registrada, o sentido ultrapassa a mera condição geográfica, tem uma harmonia que provoca prazer. Talvez, por a capacidade de redimensionar pedaços de 'sas paisagens, revelando outros equilíbrios, artificiais, recortados, emoldurados, reflexos da consciência humana, outros olhares possíveis, perceptíveis a partir de uma construção, de uma elaboração, de um conceito que não se restringe ao olhar passivo: existe uma consciência sobre os processos de construção da imagem, como. luz, enquadramento, tempo de exposição, velocidade das ranhuras, se for filme. é de um jeito, digital. é de outro e por aí vai. Comecei 'se artigo aqui com a idéia fixa de 'crever sobre a fotografia em Mato Grosso e, cheguei à conclusão de que não dá para falar de uma história da fotografia matogrossense (primeiro porque não tem tradição), sem falar de um fotógrafo (absolutamente genial) sueco, sim, 'tou falando do cineasta e fotógrafo sueco, Arne Sukcsdorf. Cineasta fera -- amigo de Ingmar Bergman, amigo de Stanley Kubrick, que o hospedava em seu castelo, quando Arne ia apara a Inglaterra -- ganhador de um Oscar e um Palma de Ouro, em Cannes, com o curta-metragem «Os ritmos da cidade, filme realizado em 1947». Veio ao Brasil, em 1963, para ministrar um curso de cinema no Rio de Janeiro, onde foi professor de: Cacá Diegues, Gláuber Rocha, Lauro Escorel, Joel Barcelos, Dib Lufti, Arnaldo Jabor e Joaquim Pedro de Andrade. Arne deu grande contribuição ao Cinema Novo. Depois disso, se mudou para Mato Grosso, foi morar no Pantanal, casou-se com uma índia, com quem teve filhos e ali viveu por 12 anos -- entre corixos e tuiuiús, jacarés, sucuris, araras, antas, garças, água -- muita água; viveu como um Lord Greystoke pantaneiro, Tarzan para os menos íntimos. Experimentou, por 'ses 12 anos, uma completa intimidade com os elementos naturais, bichos ao vivo e totalmente a cores, com sol exuberante praticamente o tempo todo. Entre silêncios e silvos cortantes, homem e natureza num jogo lúdico e selvagem. Em nenhum momento, Arne deixou as lentes de lado, ou para trás, continuou fotografando e lutando por a vida do Pantanal. Ele era um intransigente defensor da causa ambiental. Lançou o livro «Pantanal: um paraíso perdido?», editado por a Fundação Roberto Marinho, distribuído também na Suécia onde vendeu mais de 100 mil exemplares. Um grande número de novos fotógrafos vem se revelando, em Cuiabá, em 'se momento. O que me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas novas, bastante jovens (na faixa dos 20 anos de idade), postando fotos incríveis aqui no Overmundo -- alguns falarão da luminosidade, transparência, diversidade de paisagens ... etc.. Mas Mato Grosso tem tradição pictórica forte. De aí, talvez, 'sa onda visual, de valorização da imagem e das facilidades, é claro, que são oferecidas hoje por o grande número de apetrechos capazes de registrar imagens. Mário Vilela e Izan Petterle, 'tão tramando a criação de um núcleo de fotógrafos para consolidar 'sa tendência e promover uma integração criativa e produtiva. São dois dos melhores fotógrafos daqui. Izan hoje 'tá trabalhando para a National Geographic e vive viajando. Mora entre Rio de Janeiro, São Paulo e Chapada dos Guimarães. Mário Vilela é free-lancer, já atua há um bom tempo no mercado matogrossense, com muita qualidade, diga-se de passagem e é outro que, recentemente, passou a ser colaborador do Overmundo. Mário é do time que já expôs seus trabalhos em galerias de arte. A idéia de Izan e Vilela é fortalecer as iniciativas associativas-coletivas para revelar autores fotográficos, animar e dar um rumo profissional aos novos talentos do Mato. A galera quer fortalecer o setor e conta muito com o Overmundo para alavancar 'se movimento por a fotografia matogrossense. Talita Marimon, Sara Castilho (overmana Castália), Fochesatto, Dolores de Cheshire, Uirá, Cláudio Careca (2º lugar na categoria amador, de um concurso de fotografias promovido por o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá em 2006) são nomes que 'tão postando suas fotos com regularidade e conquistando uma posição muito legal no Overmundo. Lembro agora, em 'se exato instante, da qualidade fantástica dos clicks de Mário Friedlander, na minha modesta opinião um dos melhores fotógrafos que já conheci. Não conheci muitos, é verdade, mas o cara tem um olhar privilegiado e ao longo dos anos de carreira profissional desenvolveu um grande apuro técnico. É um cara criterioso, auto-crítico, minucioso, mas que trabalha com muita liberdade artística também. Já experimentamos algumas sessões de trabalho juntos. Sempre rolou legal. Muito talento tem o Mário, seu trabalho repercute bastante. É outro ambientalista intransigente, seu acervo é grande, de Chapada dos Guimarães a Vila Bela, onde reside atualmente, passando por o Pantanal, por várias manisfestações culturais típicas de Mato Grosso, como a cavalhada em Poconé, os caretas em Guiratinga, tudo isso já passou diante de suas lentes, e muito mais. Lembro do Foto Chão, nome do 'túdio de Lázaro Papazian (não, não é um paparazzi!), um cara que fez uma história pessoal em Cuiabá como fotógrafo, em meados do século passado, circunstancial, creio, uma vez que tem algo de «oficial», de padrão mediano, de 'sas pessoas comuns que fizeram a festa em milhares de municípios brasileiros. Quem não se lembra do fotógrafo «oficial» de sua cidade em 'ses interiores do Brasil? O Chão ficou famoso aqui em função de ter sido um dos raros casos em que fotografou, praticamente sozinho, uma infinidade de eventos da velha capital matogrossense: a arquitetura colonial, uma visita do presidente Getúlio Vargas a Cuiabá, eventos de governos, pessoas a passeio, com trajes das décadas de 40, 50, automóveis da época, enfim, seu acervo é valioso como registro histórico, memória de uma cidade que foi totalmente transformada. Izan reflete sobre o trabalho do " Foto Chao: «O trabalho de Lázaro Papazian, conheço só uma pequena parte, tem uma importância histórica para Mato Grosso. Parte de 'sa memória foi guardada por ele, a derrubada da antiga catedral de Cuiabá é um importante exemplo, quanto a relevância «artística» da obra tenho dúvidas, a mim parece um registro pouco expressivo de 'sa época». Então, aqui não tem tradição na fotografia, como disse o fotógrafo Izan Peterlle. O Izan é daquelas boas surpresas da vida que nos mostra como o talento 'tá acima de qualquer suspeita, inclusive em relação ao tempo, o cara começou a fotografar por gosto, quando morava em Chapada dos Guimarães, desenvolveu o olhar, aprimorou a técnica, investiu com firmeza na carreira e aos 40 anos (um privilégio), conseguiu um lugar onde muita gente, em 'sa área, deve desejar trabalhar: na revista National Geographic. Izan continua focando: «Diz-se que na modernidade a imagem acabou, já era, o que sobrou é o conceito. Uma imagem para ter um significado importante, deve ter uma forte carga conceitual, além da imagética. Talvez, 'se seja o ponto de partida para podermos avaliar a produção atual, que é feita em Mato Grosso. A atividade fotográfica é muito ampla, desde as chamadas «reportagens sociais», produtos, 'pecialidades médicas, fotojornalismo, até mesmo artes plásticas. Essa atividade pode ser uma profissão rentável desde que, além de um certo talento, você tenha capacidade de investimento financeiro, como em qualquer outra atividade empresarial." Laércio Miranda é outro fotógrafo de muito talento, em Cuiabá. Fotografou e 'creveu para a revista Terra, trabalhou para a Folha de São Paulo, Estado de São Paulo e publicou um livro temático, «Cuiabá -- um olhar sobre a cidade», com poemas de Aclyse de Matos. Marcos Vergueiro, também publicou suas fotos, um olhar por a causa ambiental, " Transpantaneira -- passarela da fauna e da flora." Enfim, existe um ambiente para o desenvolvimento da fotografia em Mato Grosso. A maioria dos fotógrafos sobrevive de trabalhos no foto-jornalismo, publicidade, assessoria política e outros campos de atuação no mercado. É complicado um mercado de arte para a fotografia, agora cabe aqui uma pergunta: o que é, e o que não é, arte? Quais são os meios de sobrevivência para 'sa categoria de profissionais? Passo o olho por aí, e vejo fotos de alto impacto artístico, no jornalismo, nas revistas de moda, na publicidade, na internet, até mesmo nos acervos pessoais, que podem, ou não, alcançar 'se tal 'tatuto: arte! Ir para museus e galerias mundo afora. O Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (MISC), 'tá ligado em 'sa movimentação e criou um concurso de fotografias para profissionais e amadores, como 'tímulo ao desenvolvimento do segmento. Segundo, o produtor cultural e conselheiro de 'tado de cultura, Paulo Traven, diretor do MISC, o concurso foi criado como uma forma de " aproximar os fotógrafos, do Misc, criar uma efervescência, para viabilizar e desenvolver 'se segmento. O concurso, que teve, em 2006, a cidade como tema, tem como objetivo, também, constituir um acervo contemporâneo de Cuiabá." Segundo ele, o Museu trabalha para fomentar, formar e conservar o que já existe. Izan conclui nossa panorâmica, com uma citação que traduz muito bem sua história de vida: «O Ansel Adams, famoso fotógrafo paisagista norte-americano, dizia: ' Alguns ganham a vida com a fotografia, para outros a fotografia lhes dá a vida '. Estou em 'sa!" Em o princípio era o verbo. Ou foi a luz? Número de frases: 97 Caso raro de banda com larga experiência em Aracaju, a Snooze divide o tempo entre o trabalho autoral e a devoção aos Fab Four no palco Não é de hoje que em Aracaju se homenageia o maior quarteto de rock de todos os tempos. A brincadeira começou em 2001, num show 'pecial do Snooze, que -- apesar de compor as próprias canções em inglês -- nunca havia deixado claro em seu som as influências sessentistas, preferindo beber nos anos 90 dos shoegazers -- aquelas bandas inglesas, com um som distorcido mas melódico, que adoravam ficar olhando para os próprios sapatos enquanto tocavam -- e no rock americano. Aliás, antes mesmo de falar sobre o projeto Snoozing Beatles, vale uma pausa para explicar quem é o Snooze propriamente dito: banda indie garageira que consegue a façanha de se manter ativa há mais de 10 anos, com público fiel e um enorme respeito da mídia local. Isso já é muito para uma cidade com os hábitos de Aracaju -- do tipo que dá mais valor ao que vem de fora. O mérito fica ainda maior se for levado em conta que a banda não abre mão de cantar em inglês, faz shows altamente introspectivos e repertório radicalmente próprio. O segredo do sucesso local pode 'tar associado a várias coisas. Além do velho amor ao rock, o Snooze virou referência de profissionalismo no palco, com shows bem-ensaiados, qualidade que também sempre tentaram levar para as gravações ('tão prestes a lançar o terceiro CD). Mas como profissionalismo nunca garantiu bilheteria, talvez tenha sido simplesmente uma sacada de mestre que tenha garantido a sobrevivência da banda. Depois do sucesso de um show armado só com covers que revelavam as principais referências musicais da banda, a beatlemania comum a todos os integrantes deu a dica para o que seria unir o útil ao agradável. Snoozing Beatles, como foi batizado o concerto, teve casa cheia e resposta imediata: a banda talvez nunca tivesse vendido tantos ingressos numa noite, e o público nunca havia dançado tanto num show da Snooze, devido ao caráter mais introspectivo do trabalho próprio dos meninos. O caminho natural foi transformar o formato em projeto paralelo. Além de servir como diversão garantida, longe da «sacal» obrigação que bandas-cover normalmente têm de tocar o que não gostam, o formato também 'trategicamente financiou o lançamento do segundo CD da banda, e anos mais tarde, as gravações do terceiro disco. Um raro encontro de satisfação profissional e sucesso de público dentro do rock em Sergipe. Hoje em dia batizado de Silver Beatles, e mesmo com as mudanças na formação do quarteto original, todos eles continuam beatlemaníacos, mantendo vivas as canções, a memória, e 'quentando a própria banda para os vôos particulares, com o repertório original. Para entrar em contato e saber mais sobre o Snooze, ou ainda ficar por dentro dos próximos shows do Silver Beatles você pode: a) visitar a página www.snooze.com.br; b) fazer downloads em www.tramavirtual.com.br/snooze; c) mandar email para snooze@infonet.com.br e pedir para ser cadastrado no mailing list; Número de frases: 21 d) fazer parte da comunidade Snooze no Orkut. Cinematografia Baiana, assim como outras do Brasil, é repleta de sazonalidade ou fases. Desde o pioneiro Moacir Gramacho do tempo dos filmes inflamáveis de nitrato, ao profícuo Alexandre Robatto, são dezenas ou quase uma centena de cineastas que fizeram 'tória, história ou História. Claro que como a história é quase sempre contada por os vencedores, o que sobrou de 'tas versões nos limita a um ou dois nomes e poucos filmes, entre 'tes «vencedores» um nome em 'pecial por a sua grandeza assumiu dimensões internacionais e brilha como um farol em terra de cego: Glauber Rocha. Um nome da Crítica como Walter da Silveira, do mesmo quilate de um Paulo Emílio, é praticamente desconhecido nacionalmente; porém, 'se advogado de causas trabalhistas populares, através de seu Clube de Cinema da Bahia, deu régua e compasso a muita gente, inclusive ao menino Glauber. E como a nossa memória é pródiga em lapsos ou provincianismos, e se alimenta do que a história oficial do sudeste legitima, nos sobra apenas alguns cadinhos que as 'colas, universidades e jornais tratam reiteradamente com amnésia, legando aos seus 'tudantes fragmentos cravados de vícios, abismos e preconceitos. Hoje, século 21, quando se fala de Retomada do cinema baiano é necessário antes de tudo conhecer o caminho desses diversos ciclos e cineastas que legaram ao Brasil uma razoável quantidade de boas obras. A começar de Roberto Pires com seu pioneiro Redenção, e seus a Grande Feira e Tocaia no Asfalto. Juntamente com Rex Schindler, Braga Neto, Luis Paulino dos Santos, Trigueirinho Neto, Oscar Santana, 'ses homens formaram o chamado ciclo baiano, a nova onda como nominou Maria do Socorro Carvalho, autora de excelente livro homônimo; Glauber, que freqüentava 'se grupo, logo seria responsável por um movimento chamado Cinema Novo, que até hoje impressiona gregos e baianos. A ditadura impulsionou e provocou novos cineastas que tinham no documentário suas ferramentas de luta, entre eles Guido Araújo, Tuna 'pinheira, Agnaldo Azevedo, José Telles, Timo Andrade, Roberto Gaguinho, Tuna Espinheira, Lázaro Torres, Kabá Gaudenzi e José Walter Lima. Em a corrente da contra cultura nosso underground teve seus criativos como André Luiz de Oliveira, Álvaro Guimarães, Zé Humberto Dias. E o que dizer do combativo Feirense Olney São Paulo, o lençoense cidadão do mundo Orlando Senna, o dileto filho de Poções Geraldo Sarno que inscreveram seus nomes com ferro e fogo em 'sa história? E tem mais: competindo no mercado à partir de bases mais industriais como o apoio da Embrafilme, além do exilado Glauber, lá 'tavam Fernando Coni Campos e José Frazão e que emplacaram sucessos no grande circuito. A chegada do super 8, nos anos de chumbo, possibilitou que houvesse uma reciclagem significante, abrindo portas para mais de um grupo de inventores do minicinema. Em 'ta época despontam Pola Ribeiro, Fernando Belens, Edgard Navarro, Jorge Felippi, Joel de Almeida. Surge o Grubacin, que reúne profissionais liberais 'tabelecidos que praticam através das possibilidades da bitola, dezenas de filmes bem produzidos, entre o nomes encontramos os fotográfos Robson Roberto, Ailton Sampaio, Milton Gaúcho, Cícero Bathomarco, Carlos Modesto entre outros. É de 'ta época o movimento iconoclasta e paródico do neonovíssimo cinema novo de Virgilio Carvalho e Marcus Sergipe. Em meio às 'sas revoluções e cizânias que a profusão de grupos e 'tilo provocava, o artista plástico Chico Liberato e sua 'posa Alba Liberato produziram uma obra de desenho animado 'pecial com destaque para um dos pouco longas nacionais do gênero: O Boi Aruá. Nomes como Lula Wandeoursen, Lucio Mendes, Roque Araújo, Alonso Rodrigues e outros produziram documentários significantes no período. Em uma Bahia que sempre recebeu cineastas de outros 'tados a exemplo de Nelson Pereira, Rui Guerra, Zé Agripino, Rogério Sganzerla, Cacá Diegues, Sergio Resende, Walter Salles e Wladimir de Carvalho entre outros, entre dezenas, do Brasil e de fora, o cinema foi praticado mesmo na crise dos anos Collor. Foram poucos e raros longas durante quase duas décadas, mas a expressão de rodar em película ou em vídeo continuou a gerar obras periféricas -- curtas -- que conquistaram prêmios importantes nos principais festivais brasileiros. A década de 90, com a retomada nacional, acordou a letargia natural e proporcional à Bahia nordestina e brasileiramente apartada, e trouxe mais mobilização da classe que começou a se organizar e lutar por melhores política públicas do 'tado. Com exceção de uns poucos que deixaram a luta porque foram chamados ao écran celeste, os demais continuaram se acreditando cineastas e 'crevendo seus roteiros e buscando seus recursos para filmar, independente do status que a mídia, a história ou academia lhe conferem. Essa profícua produção pode ser medida e conferida no recente levantamento apresentado por o site da Associação Baiana de Cinema -- www.abcvbahia.com.br. Ali é possível ver a inclusão de novos atores de panorama de todas as gerações, some a 'tes, os nomes de Sergio Machado, Jorge Alfredo, Rosana Almeida, Antomio Olavo, Edyala Iglesias, Roberto Duarte, Monica Simões; adicione os inquietos e produtivos Solange Lima, Adler Paz, Lula Oliveira, Kiko Povoas, Caó Cruz Alves, Henrique Dantas, João Rodrigo Mattos e Sofia Federico. Depois da bonança parece que veio a tempestade e com ela, uma enxurrada de novos realizadores, como Karina Rabinovtz, Élson Rosário, Fábio Rocha, Daniel Lisboa e mais um centena, que em dez anos motivados por o festival a Imagem em 5 minutos, produziram, mais de 500 vídeos no formato. Recentemente (2005/2006) os longas Esses Moços, Cidade Baixa, Eu me lembro, Cidade das Mulheres, Brilhante, Cascalho chegaram as telas e Estranhos, Jardim das Folhas Sagradas, Pau Brasil, Filhos de João, Revoada 'tão em produção, juntamente com dezenas de novos curtas. Fica difícil negar que o cinema da Bahia independe de retomada ou de qualquer rótulo, exista. Existe, vive e persiste, isso só não ver quem não quer! Claro, que muito ainda terá que ser feito para 'sa atividade seja mais respeitada e valorizada por aqui. Inclusive a redação de uma breve história que não omita nínguem como 'sa, superficial, certamente 'tá fazendo. Os nosso longas e curtas -- assim como os de outras regiões e de todo Brasil, precisam e merecem ser vistos, pois ao contrário se tornam invisíveis aos olhos até de seus próprios conterrâneos. José Araripe Baiano, cineasta desde 1974. Autor de Mr. Abrakadabra! Número de frases: 41 Rádio, O pai do Rock e Esses Moços VivOcarnaval Estamos tomados, cercados por os blocos de carnaval; todos na rua. Em todas as partes da cidade há alegria, diversão, sacanagem; fantasia, cores de ilustres cidadãos. Entre redes de adereços, marchinhas de história e muitos objetos exemplares da cultura do 1 real. Trecos quaisquer, que encantam e animam: varas de pescar com latinha de skol, máscaras das mais criativas, apitos e chocalhos de plástico, irritantes zombadeiros. Belos trajes, inocentes intenções, mistérios revelados. A cidade já não responde à altura da 'tética popular, as fachadas não mais vibram, não há enfeites urbanos, luminárias, bandeirolas, caravelas, cavalos, gigantes ... Onde 'ta a riqueza 'tética dos blocos e da avenida? Não deveria 'tar nas ruas também? Vemos no viaduto do Santa Bárbara, atrás da Sapucaí, a Nestlé e seus deliciosos docinhos. Não somos leitores inocentes, passivos, mas seres constituintes de vida, alma e animação. Queremos ver a cidade comunicar o carnaval, se expressar. Queremos ver artistas, pintores, 'cultores, designers, arquitetos e músicos expondo nas ruas a vocação da cidade maravilhosa, ajudando-a a falar do carnaval. Para a cidade, por todos nós. Para os que nos visitam e nunca 'quecem. Para os que Zombam. VIVOCarnaval. Nunca 'queceremos, mesmo tendo havido poucas manifestações sobre o tema. Nunca 'queceremos da intervenção urbana publicitária feita por a vivo nos dois últimos carnavais. Tento descrever o que recordo das imponentes peças. Presentes em quase todas as partes da cidade os «belos» painéis pareciam uma mistura de produção de 'cola de último grupo (não entendo nada de 'colas de samba), com vinheta sensacionalista do globo repórter. Desrespeitando completamente as 'calas da cidade, suas peculiaridades formais e usos; e com uma 'tética meio Rolling Stones; em 2004 a campanha impenhava uma «marca» que poderia 'tar na exposição erótica em cartaz no CCBB em 'ta temporada. Parecida com a boca dos Rolings Stones, promovia algo meio rock in roll, com cores pesadas e fundo preto. Até os painéis publicitários do próprio Rolling Stones in Rio, com cores mais suaves e a ilustração revisada, 'tavam muito melhor sintonizadas com a cidade. Por fim Tínhamos algo mesmo assustador, e 'tava por todos os lados, como uma praga. Em cada lugar parecia de um jeito, às vezes mal se via, às vezes atrapalhava o próprio trânsito. Sempre iguais, não possuíam qualquer lógica com a 'tética do carnaval ou do próprio Rio. Em o ano seguinte repetiram o erro, pois errar é humano. Construíram os mesmos painéis negro, meio 80 ´ s, com ilustrações, que na composição não contribuíram muito. Sem o fundo preto e as pesadas armações de alumínio também preto e com algum 'forço a mais., com certeza, tudo seria diferente. Mais nada de projeto para a cidade, nada de cultura também, queremos é coisa rápida e fácil. Não precisamos informar, encantar, contribuir, construir, implementar e cooperar. Nada disso tem a menor importância, posto que competimos! Não nos preocupemos com a cidade. O 'petáculo assume novas formas, cansado, não pretende parar. Em a medida do possível, melhoramos nossas ruas, promovemos os mesmos Rolling Stones, teriam ouvido o surto criativo vivo de 2004? Aparamentamos a cidade em 'se dia, ou ao menos Copacabana, coisa fina, palco que desliza 25 metros platéia a dentro. Poucos se prontificam a embelezar nossas ruas, praças e avenidas. Já não vejo mais manifestações da própria população, não se tem tempo, provável. Em meio a tantas festas, tanta informação, tanto zunido, tanto trabalho. Em o bola preta só não vai quem já morreu. Hoje cedo eu vi um bloco, um bloco de carnaval, era dia e tava cheio, vi todos na rua, Rio Branco Lotada, muito melhor do que qualquer Stones na Praia, vi o povo sabendo cantar, sentindo si mesmo, presente, vi Identidade. Gostei do que vi. Todos ficaram na cidade atrás dos blocos, que não cansam de inovar, e trazem de volta o carnaval às ruas. Não vi vivo, mas oi, ou tim. Todas contribuindo seriamente para a festa, refrescando o bloco com abanadores de super-heróis. Não há super-man, rock in roll, ou docinhos sortidos que acabe com a 'sência do carnaval carioca. Todos sambam sem parar, todos são filósofos no carnaval. Número de frases: 54 Quando o agente penitenciário avisou que havia visita, ele não demorou a aparecer. Sob o olhar atento dos outros presos, que 'tavam em horário de lazer, Zé Neguinho do Coco -- artista popular recifense preso por tentativa de homicídio -- recebeu o grupo de 'tudantes universitários, disposto a colaborar para a entrevista. Apesar do ambiente hostil da cadeia -- 'távamos na Penitenciária Agroindustrial São João, em Itamaracá --, da sala apertada, das moscas, da superexposição e do barulho que vinha lá de fora, o músico foi simpático. E, ainda, quando pedimos gentilmente que tocasse algumas de suas composições para nós, voltou para buscar seu pandeiro. E mais: trocou de roupa, arrumou-se todo com uma camisa branca 'tampada, pôs um chapéu, uma corrente. Zé Neguinho sorri. É um artista nato, desenrolado. Ali, na cadeia, são poucas as oportunidades de cantar e ser 'cutado. Atrás das grades, o artista revela que também não consegue mais compor. O «machadeiro, amola o machado, pra cortar o pau de quiri», então, não encontra coro ali na penitenciária. Nem resposta. O verso da música Pau de Quiri só pode ser ouvido via CD homônimo -- o único de ele foi gravado em 2005 -- ou, ainda, na versão da música feita por o Cascabulho, banda de Silvério Pessoa dos anos 90 que «descobriu», por assim dizer, o artista, nas ruas do Morro da Conceição. De o morro para o asfalto, das rodas entre amigos para os palcos dos shows e programas de TV, como o Som da Sopa, de Roger, o coquista passou a ser referência para novos artistas de música popular: como o próprio Silvério, as meninas do ex-Comadre Fulôzinha e Lula Queiroga. Zé Neguinho, de 63 anos de idade, tem uma voz aveludada, gostosa de se ouvir. Quando ele canta «Jacira», o» Coco da Liberdade», o próprio «Pau de Quiri», entre outros cocos de sua autoria, o pandeiro desempenha um papel crucial. De a lata de doce à música Uma lata de doce aberta, furada, com tampinhas de garrafa pregadas nas extremidades: assim eram feitos os primeiros pandeiros no morro. Era com 'se pandeiro improvisado, meio rude, que os sambistas, emboladores, boêmios e tocadores de coco faziam suas rodas de música e desciam os morros da Zona Norte do Recife para tirar um som no asfalto. Em o Morro da Conceição, onde cresceu, o coquista conheceu o mestre Jackson do Pandeiro, um cidadão «baixinho e orelhudo», segundo Zé Neguinho. Com ele, aprendeu a tocar. E, nas rodas, a improvisar nas respostas. A embolar e a compor. «O nome de ela é Jacira seu apelido é boneca quem olha para a ela peca cumprindo 'sa grande sina " Em os anos 50, os tocadores se vestiam à caráter: chapéu, bigode, camisa solta. Em o 'tilo de vida, era uma lapadinha de cana, as brigas de rua, uma fuga ou outra pulando os telhados da casa. Foi justamente assim que o menino José Severino Vicente, mais tarde, Zé Neguinho, aprendeu a tocar e a viver: ainda menino, olhando o som tirado por os pais e tios, tamborilando na mesa, levando relha da mãe que não suportava aquele ruído. Por causa de uma briga, Zé Neguinho foi preso, aos vinte e pouco anos. Cumpriu pena na antiga Casa de Detenção do Estado, onde hoje, ironicamente, funciona a Casa de Cultura. Coco da Liberdade O destino ia fazer com que fosse preso novamente, de 'sa vez, por tentar vingar a morte de um filho. Vingar, talvez, não seja o verbo mais adeqüado para se usar em 'se caso. Um dos filhos homens foi morto por uma gangue. Morto o filho, as ameaças continuavam. Os responsáveis por a morte do rapaz bateram à sua casa dizendo para encomendar outro caixão. Apesar da dor, o artista seguia a rotina. Vida no morro não é fácil. Vida de artista de morro, então, menos ainda. Zé Neguinho fazia uns bicos de segurança para sobreviver. Um dia, voltava do trabalho, armado. Em o caminho de casa, foi abordado por uns amigos, que o convidaram para uma cerveja. Sol quente, cansaço, uma cerveja a mais não iria fazer mal. Depois de um copo, outro, Zé Neguinho segue. Em as mãos, uma sacola com uma camisa que havia comprado poucas horas antes. Em o caminho oposto ao seu, cinco homens, que teriam matado seu filho. Um de eles puxa uma arma. Zé Neguinho revidou. A bala atinge a barriga de alguém da gangue. Zé Neguinho continua o seu caminho, vai deixar a camisa nova em casa. Não dá tempo de chegar: preso em flagrante, por tentativa de homicídio. Segue para o Centro de Triagem Professor Everaldo Luna (Cotel), de Abreu e Lima. De lá, para o Presídio Aníbal Bruno. Em 2002, consegue a liberdade condicional, mas, por falta de informação, não comparece ao fórum para atualização de dados e é tido como foragido. Intimado por a justiça por uma questão de pensão alimentícia, em 2005, ele volta para a cadeia, desta vez, por violação de condicional. Agora, nada de show. Em a antiga Pai (Penitenciária Agrícola de Itamaracá), onde 'tá preso hoje, o coco faz eco, não tem resposta. A platéia é composta apenas por os cinco 'tudantes que vieram fazer um vídeo para a faculdade e por os detentos que 'piam a entrevista, curiosos e desconfiados. O coco da liberdade, composto quando 'tava no Aníbal Bruno, o músico não consegue cantar, naquela hora. Confunde a letra. Está cansado. Incomoda-se com o barulho no corredor. «Muito barulho aqui, não dá», diz, num dos poucos momentos em que demonstra irritação. A hora da entrevista acabou. Zé Neguinho vai voltar para a cela. Número de frases: 72 Coquetel Molotov não é somente um artefato de guerrilha urbana. É também o nome de uma das melhores revistas de música no Brasil. Em a verdade, a coisa é ainda mais complexa: a revista é a vertente impressa de um projeto que inclui também um programa de rádio, a organização de festivais com bandas internacionais (Teenage Fanclub, Dungen e outras) e dois selos de música (Bazuka e o próprio Coquetel Molotov). Mais bacana ainda é saber que tudo isso acontece no Recife, graças ao trabalho de gente como Ana Garcia, que figura abaixo em entrevista revelando um pouco mais sobre o projeto. A segunda edição (na verdade o número 1, pois antes só tinha saído o número 0) da revista acaba de ser lançada. Possui uma das programações visuais mais originais e bonitas dos impressos culturais brasileiros (feita por a Mooz), foi licenciada através do Creative Commons. Isso significa que qualquer pessoa pode republicar as matérias, desde que seja para fins não comerciais. E vale a pena: 'ta segunda edição traz na capa o Cidadão Instigado, novo queridinho da música nova brasileira. Traz também matéria com o Architecture in Helsinki (apontada como promessa para 2006), M. Takara, The Silvias (da Paraíba), além de entrevistas exclusivas com o Wry (banda de Sorocaba, radicada em Londres), Almir de Oliveira e o ícone da eletrônica indie Kevin Blechdom. Por fim, há uma imperdível descrição em quadrinhos da passagem por o Brasil do grupo sueco Dungen, feita por o próprio baixista da banda (Mattias Gustavsson). O site da Coquetel Molotov pode ser acessado aqui. A revista 'tá disponível na íntegra para ser baixada aqui. Mãos à obra. Já falei demais. Com a palavra, Ana Garcia: Como surgiu o Coquetel Molotov? O Coquetel Molotov surgiu em 2000 como um programa de rádio na Universitária AM. Em 'sa época, era uma brincadeira nossa que amávamos muito. O programa acontecia duas vezes por semana e chegamos a entrevistar vários artistas locais e de fora por telefone. Mas fomos expulsos da rádio sem um motivo aparente -- chegamos ao local e disseram que era o nosso último dia. Até hoje eu não entendo direito o que aconteceu. Mas, acho que isso foi um passo 'sencial para o nosso futuro. Decidimos continuar com o programa, fomos para uma outra rádio e desenvolvemos outras idéias. Logo surgiram o site e o festival Em o Ar Coquetel Molotov. Conseguimos fazer o nosso primeiro festival com os meninos maravilhosos da Slag Records e trouxemos pela primeira vez ao Brasil o grupo 'cocês Teenage Fanclub e o sueco Hell on Wheels. A experiência foi maravilhosa e inesquecível. Hoje, 'tamos na Universitária FM, 99.9, mas não sei até quando porque não conseguimos um apoio, temos um podcast, montamos dois selos (Coquetel Molotov e Bazuka Discos), criamos uma revista, colocamos um novo site no ar e temos também o festival Coquetel Molotov Independente, além do Em o Ar que terá a sua terceira edição em agosto. O fato de 'tar em Recife dá uma visão privilegiada para a Revista? Eu acho que o fato de 'tar em Recife pode ajudar na hora de pedir apoio ao governo do Estado ou à Prefeitura Municipal. Por exemplo, aqui a SEDUC (Secretaria de Educação e Cultura), através do Chefe de Gabinete Rodrigo Barros, dá um apoio enorme, algo que provavelmente não teríamos no Sul. A revista só foi financeiramente viável por causa do governo. Mas ao mesmo tempo, no Sul deve ser mais fácil conseguir um apoio de empresas privadas. Em 'se ponto de vista, sim, é um privilégio ser de Recife. Mas eu acho que isso também é fruto do trabalho que 'tamos fazendo há cinco anos. Se for pensar no respaldo da revista em si, eu acredito que possa ajudar, mas tem um limite. Não é mais novidade que Recife 'tá fervendo e tem muita coisa acontecendo, como nas grandes capitais do país. O interesse em obter uma cópia da revista vem de todas as cidades, praticamente. O mais engraçado é que grande parte das pessoas que não moram em Recife conhece o Coquetel Molotov apenas por o site, às vezes nem sabem que somos daqui, mas fica interessado por os artistas que 'tamos 'crevendo a respeito. A revista é focada em musica interessante de todo o mundo. Como a revista 'tá vendo e quer ver a musica brasileira de hoje? Eu acho que o primeiro editorial da nossa revista responde isso um pouco. Primeiro, é 'sencial dizer que o Coquetel Molotov tem quatro pessoas que 'cutam música de uma forma completamente diferente e também dependemos de muitos colaboradores que normalmente 'crevem sobre o que querem, sem ser dada uma pauta. Olhamos para a música brasileira da mesma forma que olhamos para a música 'trangeira -- queremos sentir algo com ela. Obviamente que procuramos 'crever sobre artistas que deveriam ter mais 'paço na mídia, mas isso não é regra ... Queremos passar o que sentimos quando 'cutamos um artista 'pecífico e normalmente temos interesse de passar os bons sentimentos, deixamos as bandas ruins para outras pessoas 'creverem a respeito. Por exemplo, achei o disco novo do Cidadão Instigado inacreditável e eu tinha que colocá-lo na capa. Quero que todo mundo conheça 'se artista. Essa é a forma que vemos a música em geral. Acho que tem coisas inacreditáveis acontecendo no Brasil, desde 3 ET's Records a Erasto Vasconcelos a Totonho e os Cabras a Tecnoshow. Só precisamos de espaço para 'crever sobre todos. A revista foi licenciada em Creative Commons, tal qual o Overmundo. O que levou a isso? Depois de cinco palestras com Ronaldo Lemos sobre o Creative Commons, chegamos à conclusão de que 'se era o caminho para a revista. Algumas pessoas ficam com medo do CC por não entenderem direito do que se trata, mas muitos artistas recifenses e de Olinda adotaram a licença, o que fica mais natural ainda para o Cm adotar. Também achamos que facilita a publicação das nossas matérias em outros veículos, o que é muito importante para todos dentro desse projeto, as 'pecificações 'tão todas lá -- O melhor de tudo foi perceber a reação dos colaboradores, todos, inclusive os 'trangeiros, concordaram e acharam a idéia genial. Planos para o futuro? Lançamos recentemente [as bandas] Rádio de Outono (Coquetel Molotov) e Chambaril (Bazuka Discos), então, 'taremos trabalhando em cima de eles. O Coquetel Molotov Independente 3 será no final de janeiro, 28/01, gratuitamente no Pátio de São Pedro, em Recife. Em fevereiro sai O Troco, o disco da Profiterolis por o Bazuka Discos. A segunda revista sai em março. A terceira edição do Em o Ar Coquetel Molotov será em agosto. E durante isso tudo, iremos lançar alguns discos, continuar atualizando o site, fazendo o programa de rádio e organizando diversos eventos menores por aí. Número de frases: 64 Em tempos de leis de incentivo a cultura, quando não se consegue apoio na continuidade de um projeto, o que fazer? «Se readaptar, oras!». De 'sa maneira, foi realizada a terceira edição do Festival Dosol: enxuga daqui, encolhe de ali e assim se manteve o 'pírito da festa com o brilho reforçado por a força de vontade aliada a coragem de arriscar. O Festival Dosol cumpriu o prometido: 47 bandas, 26 horas de música, descontração e muito rock and roll. E se há males que vem para o bem, o formato da nova edição encaixou perfeitamente para o porte do Festival. De maneira inteligente, os shows foram distribuídos para duas casas: Armazém Hall (palco maior) e Dosol Rock Bar (palco menor), o que deu um clima mais intimista ao evento, onde circularam 4.500 mil pessoas, em média, nos três dias. O que fez falta, foi um 'paço alternativo melhor, como nas edições passadas, onde as bandas pudessem dispor o merchan e assim fazer girar o'mercado financeiro independente ', onde bottons, camisetas, cds e adesivos são tão valorizados. Se por um lado houve linearidade por parte da organização do evento, sem tumultos e com horários e ordens de apresentações respeitadas; a sonoridade musical foi diversa e frenética, destaque pra sábado, com 20 bandas tarde-noite adentro. Surpresa ou coincidência, a maioria das bandas que tocaram no Festival eram formadas por ' power trios '. É um sinal de que a velha fórmula «baixo + guitarra + bateria» continua sendo a 'sência da coisa. Entre tantas apresentações no Festival é até difícil não ter preferências ou apontar destaques ... 1ª dia A primeira noite ganhou empolgação quando The Sinks [RN] subiu ao palco tocando canções do seu recém lançado ep «Ignored», que poderia 'tar em qualquer prateleira de alguma loja perdida em Seattle. Aproveitando o clima overdrive, vêm o Cascadura [BA] com seu rock vibrante, mais que sincero de quem já 'tá na 'trada há muito tempo. Munido de boas letras e ótimos riffs, o Cascadura é a prova da resistência [e persistência] em empunhar uma guitarra e fazer barulho até o ouvido sangrar. Dando uma amansada nos amplificadores, o Volver [PE] executou boas canções, embalando a galera com sua sonoridade «jovem guarda». Chegada a vez do Vamoz!, o power trio pernambucano de guitarras endiabradas demonstrou no palco o seu já conhecido e sempre visceral rock duro. Set rápido, intenso, mesclando músicas do velho e do novo álbum, sinceramente: rock duro e alto ... FYA BABY!!! Depois da paulada do Cascadura e do Vamoz!, ficou difícil para o Moptop [RJ] empolgar os mais exigentes. Apresentação morna e funcional. Quando aqueles mais sonolentos cochilavam por os cantos, com certeza, acordaram assustados com as cordas nervosas do Bugs [RN]. Velha conhecida do público e figura presente nos grandes festivais independentes, a banda tocou as canções mais que envenenadas do seu mais novo álbum: Exílio. Resumindo: rock cru e 'fumaçado. A maratona da primeira noite chega ao fim, com o público aguardando os gaúchos do Cachorro Grande, que executaram um show contagiante e que ficou, a contento dos presentes. 2ª dia Por volta das 15:30h, começa a maratona do segundo dia de Festival na Rua Chile, no bairro da Ribeira. Quem teve energia e disposição pra levantar da cama e chegar cedo, presenciou a apresentação dos potiguares do Toy Gunz e do Lótus, seguido por os paulistanos do Secks Collin. Com o público ainda pequeno, o Fliperama [RN] mandou seu punkrock bubblegum sem medo de ser feliz, para um público jovial e cheio de energia. O tempo parecia passar rápido quando o Joseph K? [ CE] subiu ao palco, destilando seu rock apimentado com uma pegada bem pop. Entre uma cerveja e outra, é a vez dos mineiros do Enne. Guitarras altas e pesadas fez lembrar bastante do tempo e da sonoridade de seus conterrâneos do Diesel [Udora]. Agradou o suficiente e 'quentou os ouvidos para a apresentação do Arquivo [RN], que mandou seu rockpunk de harmonias dissonantes e sensibilidade rítmica de quem conhece do assunto. Correndo de um lado para o outro, entre os dois palcos, começa sem muita pausa o Stellabella [RJ]. Este power trio carioca tentou mais não conseguiu convencer muito o público, apesar das boas canções de uma levada pop / distorcida. E por falar em distorção, o Red Run [CE] fez uma apresentação redondinha, com uma pegada overdrive bem anos 90, prontos pra sair da garagem e ganhar os palcos do Brasil. Dando seqüência, chega a vez do Allface [RN] que, com seu punkrock melódico, fez a galera cantar junto e o público juvenil se emocionar. Sem choro nem vela é chegada a hora do Rockefellers [GO], com pegada hardrock, riffs e solos infernais, fez o público ir a loucura e presenciar um dos melhores shows do Festival. Depois da chicotada sonora dos goianos, duas bandas potiguares, Jane Fonda e Zero8Quatro, velhas conhecidas do público local, fizeram suas apresentações dentro do 'perado: canções pop cantadas em coro. Deixando a tietagem de lado, os goianos do Violins fizeram uma apresentação que exigia atenção do público. Execução impecável, conduzida com muita emoção [sem ser piegas, claro!] de quem já 'tá acostumado aos palcos dos grandes festivais. Já no outro palco, ouvíamos a pegada eletro-rock do Lucy and the Popsonics [DF], do simpático casal que tocou energéticas canções, transformando o palco do Dosol numa grande festa eletropunk. Sendo assim, o público já 'tava endiabrado para ver um dos shows mais insanos do Brasil. Chega a vez do The Honkers [BA]! Insanidade elevada a mil, com direito as peripécias e traquinagens de Rodrigo Sputter [vocal], que subiu nos PA ´ s, nas janelas ao fundo do palco do Armazém Hall, rolou no chão, cuspiu cerveja, bulinou seu colega guitarrista, fez o djabo no palco. O Honkers demonstrou que tem potência rockeira e sabe cativar o público. Precisa mais? Aproveitando o clima de loucura rocker, o Zeferina Bomba [PB] mostrou para que veio. Violão eletrozumbificado dos diabos, vocal nervoso, fez o público se debater durante toda apresentação. Dona Zeferina em 'sa noite soltou suas bombas, um viva a 'ses paraibanos cabras de pêia. Ficou difícil para o Supergalo [DF] sustentar a insanidade da noite. Fizeram um show certinho, com boas canções de uma banda formada por músicos experientes. Já rolava a madrugada e a maratona chegava na penúltima volta. De 'sa vez, Os Bonnies [RN] mandaram seu rock ' nroll numa lapada só. Como sempre: insanos, barulhentos e mal encarados. Em a última volta, quem teve perna pra agüentar viu o show do Rock Rocket [SP] com stage dives no mínimo engraçados e algumas cervejas cuspidas ao alto. 3ª dia Domingo, último dia. Aqueles que não foram pagar os seus pecados na missa, tiveram a oportunidade de ver o dia mais infernal do Festival. Peso, distorção, camisas pretas e guitarras com chifres foram a tônica do dia de encerramento. Além de um público muito participante, que formou rodas de pogo nervosas em praticamente todos os shows. Destaque para as bandas cariocas Ataque periférico e Jason. O desconhecido trio 'trangeiro The Nation Blue [AUS], pela primeira vez no brasil e em turnê com os cariocas do Jason país a fora, foi uma boa surpresa. Com a moral de quem abriu shows do Helmet e Foo Fighters, fizeram uma apresentação insana. Os vocais gritados, divididos entre Tom Lyngcoln [guitarrista] e Matt Weston [baixista], lembraram o velho e sempre bom Hot Water Music ou a menos conhecida Small Brown Bike. Sem contar na apresentação ora 'quizofrênica, ora doentia de Lyngcoln, com direito a sangue 'correndo na testa e tudo. De as garagens da Austrália para o mundo, uma banda ótima! Levante e Expose Your Hate foram, sem sombra de dúvidas, as pratas da casa mais pesadas. Trocadilhos a parte, quem viu o show de 'sas duas bandas na seqüência com certeza não saiu arrependido. A violência sonora tomou de conta da festa e dos tímpanos da galera. Os da gente 'tão zunindo até agora, o que não significa que não gostamos, entenderam?! Fechando em alto 'tilo, o Matanza [RJ] fez muitos cantarem junto e se 'baldarem numa tremenda roda de pogo, inédita na edição 2007 do Fest. Dosol. O cenário final do Festival Dosol foi bonito de se ver, com o Armazém Hall praticamente lotado, tomado por jovens e adultos entusiastas, numa comunhão profana coletiva, o «carismático» Jimmy e sua corja de beberrões, prendeu todo mundo até o final, com muita conversa fiada e barulho que divertiu até os mais avessos a banda. equipe [r]: Rafael F. Leandro Menezes Dimetrius Ferreira Renata Marques Número de frases: 89 http://seasound.multiply.com projeto de arte colaborativa, intermedia e multimedia. O projeto sea. sound foi apresentado pela primeira vez na FAU-USP, na EXPOFAU, após uma mesa redonda que discutiu os novos caminhos da arte. 'tou colecionando. wav files de pessoas do mundo inteiro dizendo «existe um mar dentro de mim», em sua lingua de origem. a minha idéia é fazer um mar de vozes, vamos mixar tudo ao vivo com imagens e sons, e ir soltando as vozes aos poucos, até que se pareça um mar, com ondas ... já encontrei colaboradores em muitos paises e alguns co-workers também. Todos os arquivos serão colocados avaliáveis em 'te site para as pessoas ouvirem, verem, baixarem, manipularem, intereferirem, ou usarem como quiserem, e dar um upload ou enviar para o mesmo gigamail para que eu possa colocar aqui os resultados de outros artistas. todas as pessoas que quiserem participar ou me ajudar a divulgar 'ta mensagem terão seus creditos no projeto. Para colaborar é só mandar a gravação para o seguinte email: sea.Sound@gmail.com junto com nome ou nick para crédito e país ou localidade de origem (por ex. kika -- porto alegre / yang -- china) se alguem quiser mandar outros sons ou imagens que têm a ver com 'ta ideia de mar interior, pode mandar para o mesmo email, se alguém puder me ajudar a promover 'te projeto, por favor entre em contato. me ajudem a divulgar 'ta idéia, «existe um mar dentro de mim " conto com sua colaboração ... muito obrigada e um beijão a todos, kiki * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * gostaria de pedir a vocês a sua colaboração e apoio para divulgar 'ta idéia Número de frases: 18 obrigada kiki Escritora lança o provocante «Cativos nas Terras Pantaneiras» sobre a 'cravatura até então ' invisível ' no Sul do Mato Grosso O negro foi fundamental para a construção do que hoje é chamado Mato Grosso do Sul. Mas os historiadores tradicionais do Estado não cansam de ressaltar somente as qualidades dos desbravadores (brancos) que chegaram na região para formarem heróicamente as primeiras fazendas do Sul de Mato Grosso. Muito se fala em caldeirão de povos em MS, embora o negro nunca seja lembrado -- sempre são os japoneses, paraguaios, libaneses, gaúchos, mineiros ... O livro «Cativos nas Terras do Pantanal» prova que o verdadeiro impulso para transformar os rincões desabitados e desconhecidos dos brasileiros -- até final do século XIX -- na tal «Canaã do Oeste» -- título do ufanista livro de Melo e Silva -- veio do suor, do sangue e das lágrimas dos 'cravos. A autora Zilda Alves de Moura mergulhou durante três anos em sua tese para o mestrado de História da Universidade de Passo Fundo (UPF) para 'crever o livro que faz parte da coleção Malungo -- que se dedicada exclusivamente a temas ligados à 'cravidão e é coordenada por o professor Mário Maestri, que foi o orientador de Zilda no projeto. Um dos pontos mais importantes do livro é a relação que Zilda 'tabeleceu com o movimento das Monções, no século XVIII, e a vinda de 'cravos para o Sul de Mato Grosso. Foi em 'te período que a chegada dos negros se tornou maior por aqui. Mas é bom ressaltar que o elemento 'cravo apareceu no Sul de Mato Grosso logo na primeira expedição do 'panhol Cabeza de Vaca para 'ta região -- a viagem que subiu o Rio da Prata começou em 1540, dois anos depois descobriu as cataratas do Iguaçu, cruzou o Pantanal e chegou a Assunção, cidade que incendiou em 1543, o que me faz o apelidar de «Nero paraguaio». A vinda dos negros continuou com os Bandeirantes em 1600, engrossou com as comitivas que realizam a rota das Monções em 1700 e se tornou um negócio para as regiões que cresceram com a chegada dos fazendeiros (os desbravadores oficiais!) de Mato Grosso, Paulo, Gerais, Rio Grande do Sul e de vários outros Estados que se 'tabeleceram em 'tas cercanias a partir de 1800." A Zilda mostra no livro o mundo do trabalho, o cativo do pé da pirâmide social. O trabalhador 'cravizado que não saiu no retrato oficial da família sul-mato-grossense. O negro organizou a festa e não saiu na foto», provoca o professor Mário Maestri. Em o livro, Zilda faz uma lista, por exemplo, dos fazendeiros e comerciantes que mantinham 'cravos em suas propriedades / negócios. Muitos de eles são considerados heróis, como é o caso do Barão de Vila Maria (ou Joaquim José Gomes da Silva), que teve muitas fazendas na deslumbrante região hoje conhecida como Nhecolândia. A 'critora ressalta que 'tes «impérios» tiveram a mão de obra 'crava como força-motriz e que a relação entre patrões e 'cravos era tão cruel como nos outros 'tados brasileiros." Muitos historiadores de MS dizem que a 'cravidão aqui foi amena. Mas não é verdade», enfatiza. Para realizar a pesquisa, Zilda foi para Portugal, além de freqüentar os arquivos públicos de várias cidades brasileiras. O período pesquisado por ela foi entre 1726 e 1888, quando a Princesa Isabel assinou a comentada Lei Áurea. A 'critora de 40 anos nasceu em Glória de Dourados, região sul-mato-grossense conhecida por o grande número de nordestinos. Tanto que ela é de família proveniente do sertão de Unha de Gato, no Ceará, descendente de africanos, nativos e portugueses. Zilda é formada na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e mestra em História por a UPF. Atualmente ela faz uma disciplina no Doutorado de História da Universidade Federal do Paraná sob a orientação do professor doutor Carlos Lima. Confira abaixo a entrevista com Zilda: Rodrigo -- Por que você decidiu 'crever sobre a 'cravidão no Sul de Mato Grosso? Zilda -- Desde a graduação, comecei a 'tudar mais a história do MS e percebi que 'tes livros não traziam a história da 'cravidão negra no Sul de Mato Grosso. Eram só artigos, mais a região do MT que foi mais 'tudada e tinha mais obras. Enquanto no Sul do Mato Grosso os livros não traziam nada. Era como se não existisse a 'cravidão negra no Sul de Mato Grosso. Obras como da professora Maria do Carmo Brasil ('te livro chama-se Fronteira Negra -- Dominação, Violência e Resistência Escrava em Mato Grosso -- 1718/1888), saiu em 2002 (também por a Coleção Malungo/UPF) e eu não tive acesso. E ela conta a história da 'cravidão negra no Mato Grosso e cita acontecimentos no Sul. Foi 'ta carência que me levou a querer mergulhar em 'te assunto. Pesquisei entre 2004 e 2007. Por que começar por o ano de 1726? É quando veio o governador de São Paulo e passou por as terras do sul de Mato Grosso. Para chegar até as minas de Cuiabá tinha que passar por 'tas terras do Sul. E passando perto de Coxim, região de Camapuã e Taquari ele já fala que tinha sertanejo vivendo, mesmo empobrecidamente, e cultivando suas roças com um, dois ou três 'cravos. Eu começo deste ponto. Mas anteriormente eu acredito que já tinham 'cravos em 'ta região. Um dos pontos altos do livro é o fato de você relacionar a vinda de negros durante o período das Monções. Fale um pouco disso. Os Bandeirantes quando vinham para 'ta região em 1600 e poucos, eles vinham em busca dos nativos (os índios) para ser 'cravizados em São Paulo, principalmente na agricultura. Mesmo em 'te período se tem notícia de alguns africanos que vinham juntos ajudarem no trabalho. Eram poucos. Mas em relação aos monçoeiros, como o Buarque de Holanda diz, já é um movimento mais comercial. Muitas pessoas ficam sabendo das minas de ouro de Cuiabá e se deslocam por 'ta região pantaneira trazendo muita coisa, como mantimentos, coisas necessárias para 'ta região que se formava. Era muita coisa, caixas e caixas de mantimentos, cobertores ... E quem trazia tudo isso eram os monçoeiros e quem fazia 'te trabalho todo na rota eram os africanos 'cravizados. Inclusive, eles eram os remeiros. Imagine você descer o Rio Pardo abaixo e depois o Rio Paraguai acima em 'te movimento. Muitos faleciam em 'tas viagens. De Rio Pardo até Coxim tem o varador de Camapuã que tem a extensão de 14 km. Existem relatos de 'tas viagens citando os negros? O próprio Rolim de Moura, que foi o primeiro governador de Mato Grosso, em 1748, ele mesmo cita de que ali, quando termina o Rio Pardo, seria preciso tantas canoas e caixas de mantimentos para passar de um rio para o outro -- que eram as varações -- e que deveria colocar tudo na «cabeça» dos negros e que precisava de 20 a 30 negros para fazer o trabalho. Ele até cita, «enquanto os negros fazem isso, descansai». Eles mandavam muitas cartas para pessoas que vinham para a região. E ressaltavam: «Tomem cuidado com os negros porque na melhor oportunidade eles se metem no mato e comem os mantimentos." Ele mesmo conta que era muita miséria na época. Então, na Fazenda Camapuã, quando ele passa por lá ele registra mais de 75 trabalhadores 'cravizados em 'te local. Que era uma região de abastecimento. Esta fazenda é tratada de forma heróica em vários livros tidos como «oficiais». Exatamente. A historiografia privilegiou alguns pioneiros, só que não dá 'te destaque ... Em a verdade, eu recontei um pouco a história dos pioneiros, dos bandeirantes, dos desbravadores dos sertões, mas mostrando que existiam outros agentes históricos, inclusive 'cravizados. Quando que muda 'te movimento para o Sul de Mato Grosso e começa a vir outro tipo além dos envolvidos com as monções? Em o século XIX, depois de 1834, começa o deslocamento dos tais pioneiros da região, considerados mitos, que são de Cuiabá. Muitas daquelas pessoas que tinham fazenda lá, desceram para o Sul do Pantanal. E os documentos registram que quando eles foram tomando as terras dos nativos, já vieram de Cuiabá com os 'cravos. E a relação é intrincada e difícil. Porque o 'cravizador precisa do 'cravizado em todo o momento e, no entanto, teme, porque ele o trata com violência. A 'cravidão no Sul de Mato Grosso em 'te período era parecida com o restante do país em termos de intensidade? A relação não era amena e nem afetiva. A gente 'cuta aqui que «no Mato Grosso do Sul a 'cravidão não era dura como no Rio ou Bahia». O próprio governador Rolim de Moura 'creve: " Em o fim da tarde, os negros são metidos dentro da senzala e ficam abaixo de cadeado». E têm casos como do Firmino, que era um grande fazendeiro da região, que depois de deixar de castigo dez negros abaixo de grilhões e passando fome, no mesmo dia que liberou, ele reuniu os dez e matou. Não só matou a família inteira, como levaram as 'cravinhas. Então, dá-se a impressão quando a gente 'cuta algumas pessoas falando aqui, inclusive pesquisadores conhecidos, que a relação era afetiva. Mas, a verdade, é que era de 'cravizador e 'cravizado. O valor do homem pantaneiro, a sua bravura e conhecimentos ancestrais são citados geralmente nos livros da história de MS. Por que 'ta contribuição do negro para o desenvolvimento da região não é lembrada? Eu não sei. Lendo a historiografia sul-mato-grossense, chegam até próximo. Tipo «veio fulano e cicrano com seus 'cravos» e ponto. E aí vai contar como ele cresceu e acumulou gado. Por exemplo. O Barão de Vila Maria, que é um mito em MS. São diversas fazendas que 'te «cara» se apossou. Imagina quantos trabalhadores 'cravizados ele teve? Em nenhum momento alguém chama a atenção para o fato que a água ardente que se produziu ali, a mandioca que se plantou, os 'cravos que ele enviou para a guerra contra o Paraguai ... Estas informações não aparecem. Somente, a «grandeza» do Barão de Vila Maria. do que ele fez para o desenvolvimento do Mato Grosso do Sul a custa da mão de obra 'cravizada. Mas no próprio livro você afirma que o uso da mão de obra 'crava não era regalia dos latifundiários. Esta utilização teria ocorrido desde os fazendeiros maiores até os sitiantes? Sim. Eu queria deixar registrado que 'te meu trabalho não é para criticar ou ser contrário aos pioneiros e os mitos de 'ta região que também ajudaram a construir o Mato Grosso do Sul. Só que eu quero dar destaque para outros agentes históricos que foram 'quecidos. Eu só quero contribuir com a historiografia do Mato Grosso do Sul. Esta história a gente reconta não é partir de um 'cravo que 'creveu, mas dos representantes do poder local. Dom Rolim de Moura tem pilhas de livros e é considerado «o cara», o máximo. Ele foi o primeiro governador de Mato Grosso. E é ele que 'creve o seguinte: " As margens do Coxim tinha um sertanejo trabalhando na rede e o seu 'cravo tocando a rocinha». É ele que conta 'ta história para que eu possa recontar. E por que 'ta história não chega à Academia, digamos assim? É uma questão de opção. Cada um faz o seu recorte. A historiografia brasileira 'tá cheia de histórias contando os grandes vultos. Eu até coloco uma pergunta inicial no trabalho que é quem teria o interesse de contar a história de um povo 'cravizado e negro? A raiz do preconceito 'tá ali e permanece até hoje. A discriminação também. Para que vai contar a história de um povo 'cravizado negro, se no presente a gente conhece como ele é tratado e discriminado e se tenta 'conder porque tem 'ta diferença social. Então, é questão de interesses. Quem são os personagens de 'ta história. O máximo que o campo-grandense conhece, e pouco, é a Tia Eva. Você encontrou outros que se destacaram? Durante a pesquisa para o livro são raríssimos os momentos que citam o nome de um 'cravo. É apenas 'cravo. Nem isso eles tiveram direito à história. A o nome. É 'cravo de fulano e cicrano. E às vezes era chamado por o nome do dono mesmo, para simplificar. A história da Tia Eva não consegui alcançar, porque era muita informação. Eu não trabalhei a 'cravidão em Campo Grande ainda. Eu tenho a impressão que a Tia Eva chegou depois de 1888 por aqui e a minha pesquisa vai até 'te ano da alforria geral. É correto pensar que os primeiros negros que vieram para o Sul do Mato Grosso tenham sido da desbravadora turma do 'panhol Cabeza de Vaca, em 1540? Sim. Eu faço uma introdução no livro e falo que já vinha com os 'panhóis, mas com mão de obra menor, por causa da grande oferta indígena. Qual eram as regiões que mais tinham 'cravos no Sul de Mato Grosso? Por a pesquisa, Corumbá e Santana do Paranaíba foram às regiões que eu consegui comprovar que havia mais trabalhadores 'cravizados. Mas foram documentos que eu consegui registro. E houveram muitos outros trabalhadores 'cravizados que não foram registrados porque eles tinham que pagar uma taxa na alfândega para registrar os trabalhadores. Em a época, tinha uma Junta Classificatória dos Escravos. São atas e atas dizendo que «fulano de tal não registrou seus 'cravos». Porque Portugal 'tava tentando cuidar um pouco disso. Como você chegou em 'tes documentos. Como foi o caminho de 'ta pesquisa e como 'tá o 'tado de conservação nos diferentes lugares que você passou? Em os três anos que pesquisei comecei como leiga praticamente. Porque saí da graduação em 2002 e já saí para fazer o mestrado depois que o professor Mário veio dar uma palestra em Campo Grande. E a orientação foi ver os arquivos públicos. Fui ao Rio de Janeiro, na Biblioteca Nacional. O arquivo público em Cuiabá 'tá em ótimo 'tado. Ali pode se 'crever toda a história porque se encontra os documentos. Aqui fui ao Tribunal de Justiça. As pessoas não sabem que podem usufruir deste arquivo do Tribunal. Os documentos 'tão legais para trabalhar. Agora, no Fórum Criminal de Corumbá foram dias de sofrimento. Os documentos 'tão largados num galpão e 'tão apodrecidos. Não é só a história dos negros, mas toda a história deste período! Estão jogadas em caixas de plásticos e chove. Os documentos 'tão com cupim e poeira. Agora eu não sei, mas a situação era 'ta. Qual o documento mais importante que você encontrou? O mais marcante encontrei na Biblioteca Nacional de Lisboa, ainda no período do conselho ultramarino e que eles fazem um recenseamento da realidade de Mato Grosso do Sul. E ali eles citam que as mães 'cravas preferiam matar os filhos para eles não viverem a mesma vida que elas. Número de frases: 159 * Publicado no O Estado de MS Beleza Pura!, a primeira revista virtual de qualidade de vida do Brasil, Comemora visitas do mundo inteiro com a " Linguagem do coração " Em 'ta edição de maio, a revista eletrônica Beleza Pura! traz uma novidade: a seção «Linguagem do coração», em que a viajante Norma Pallavi, conta em palavras e imagens suas viagens por lugares como África, China, Índia e outros. A cada mês novas e belas fotos, vídeos e crônicas que não só encherá os olhos, mas emocionará os leitores com momentos de pura beleza ao redor do mundo. Com duas edições no ar, a Beleza Pura! alcançou leitores em diversos paises: Japão, EUA, França, Portugal, Alemanha, Suécia, Suíça, Canadá e México. Segundo Flor Atirupa, editora-chefe da revista, 'se é o reconhecimento de um trabalho sério que 'tá amadurecendo a cada edição. «A Beleza Pura! é uma revista virtual e entendemos que ela é dinâmica, gratuíta e mundial, assim 'tamos a cada mês pensando e produzindo um conteúdo que possa ser bem recebido tanto no Brasil quanto no Japão», comenta. Outro destaque da edição é a entrevista 'pecial com Nelson Carvalho Marcellino, Doutor em Educação e Livre docente em Educação Física e Estudos do Lazer. Além disso, os leitores poderão soltar o seu lado lúdico com a matéria de capa, que discute a importância da ludicidade no cotidiano das pessoas. Em a seção «Colcha de retalhos», um retrato das reuniões de família; e falando em retrato, Gabriela Raulino traz uma belíssima crônica sobre o prazer de rever fotografias, sejam impressas ou digitais; e no «Divã da Flor», orientações sobre como ouvir a sua voz interior. Em a coluna «Jeito feminino» o leitor poderá dar boas risadas com uma receitas caseiras que misturam iogurte, aveia e irreverência. E na «Jeito masculino», Leonardo Dualit faz um convite para um bate-papo no último reduto de masculinidade: o boteco Os leitores podem acessar a Beleza Pura! e deixar seus comentários no site: www.cantinhodaflor.com/belezapura. Número de frases: 23 Selma Assis Moura selma.A.Moura@gmail.com O brincar é, para a criança, um impulso natural no qual ela exercita sua vontade de descobrir, sua curiosidade e sua necessidade de aprender e compreender o mundo que a cerca. Em a brincadeira, a criança envolve-se, assume papéis, experimenta possibilidades, formula e testa hipóteses, tira conclusões, expressa seus pensamentos, elabora sua visão de mundo. É fundamental garantir às crianças na 'cola e na família não apenas momentos e materiais que possibilitem o exercício do brincar, mas também 'tímulos que a auxiliem a desenvolver suas potencialidades de maneira lúdica e prazerosa. «As brincadeiras alimentam o 'pírito imaginativo, exploratório e inventivo do faz-de-conta e a isso chamamos de lúdico. Brincar tem o sabor de desconhecer o que se conhece, pois cada brincadeira é um universo a ser sempre (re) descoberto, (re) vivido, (re) aprendido " (Pereira, 2000) Observamos que na nossa sociedade tecnológica e consumista, muitas brincadeiras tradicionais foram sendo abandonadas e substituídas por brinquedos eletrônicos, alguns dos quais fazem tudo sozinhos, exigindo o mínimo de participação da criança, geralmente para apertar alguns botões. Esses brinquedos, que não representam um desafio a quem os manipula, são logo postos de lado e prontamente substituídos por outros que a mídia se empenha em vender. Acredito que não apenas a cultura implícita nos brinquedos e brincadeiras tradicionais, para não se perderem, terão que ser resgatados por a 'cola e por a família, como a capacidade imaginativa e criadora de crianças cujos únicos brinquedos são os industrializados pode ficar aquém de suas reais potencialidades. O resgate de brinquedos e brincadeiras tradicionais, sua produção e as possibilidades de exploração por eles oferecidas devem ser objetivos de toda 'cola, pois além de fazerem parte da cultura da infância, podem 'timular a criatividade, a coordenação motora, a imaginação, a percepção visual, auditiva e tátil e a concentração. A interação e a socialização entre as crianças é 'pecialmente 'timulada nas situações de uso dos brinquedos, nas negociações para a construção dos brinquedos, na troca de idéias entre as crianças e com os adultos e na própria fabricação dos brinquedos por as crianças. O conhecimento desses brinquedos tradicionais, como pião, pipa, carrinho de rolimã, vai-vem, bilboquê e outros tantos, além de trazer elementos de cultura, permite um amplo trabalho de aquisição de vocabulário verbal e corporal, na medida em que o contato com 'tes brinquedos e brincadeiras, a compreensão de suas características, a aquisição das regras e a habilidade de ensinar seu uso permitem às crianças inúmeras oportunidades de se expressarem. O envolvimento das crianças na pesquisa de brinquedos, seja através da observação dos brinquedos que têm em casa, de conversas com os pais sobre os brinquedos de que gostavam em sua infância ou de visitas a espaços como brinquedotecas, é muito produtivo, considerando que 'te é um tema altamente significativo e mobilizador para as crianças, pois não apenas fazem parte de sua realidade como são os meios mais adequados para aprender prazerosamente. Creio que fica evidente, para pais e professores, a importância de valorizar as brincadeiras e brinquedos tradicionais da infância com suas crianças, dando-lho tempo, o 'paço e a oportunidade de brincarem, de serem crianças e de viverem uma infância que merecerá ser lembrada no futuro como feliz e repleta de brincadeiras. Se os próprios adultos puderem lembrar e reviver suas experiências de infância com seus filhos e alunos, ainda melhor. Se não tiveram 'ta vivência, eis uma oportunidade nova de brincar ... Bibliografia: BOLTON, Viviene. Toys and Games. Essex, Dempsey Parr, 1998 Brandão, Heliana e FROESELER, Maria das Graças V. G. O Livro dos Jogos e das Brincadeiras. Leitura, s / d. Brasileiro, Silvia Fonseca (org). Feira-Atividade: brinquedos e brincadeiras populares: uma experiência do Museu do Homem do Nordeste. MEC / Fundação Joaquim Nabuco. Recife, Massangana, 1992. CARLSON, Laurie. Kids Create! Vermont, Williamson Publishing, s / d. Figueiredo, Anibal Fonseca e PIGNATARI, Simone. Manual do Porque. Paulo, Sesc Pompéia, 2002. Pereira, Eugenio Tadeu. Brinquedos e Infância. In: SEF / MEC. Revista Criança do Professor de Educação Infantil. No. 37 -- Nov / 02 Von, Cristina. A história do Brinquedo. São Paulo, Alegro, 2001. Número de frases: 37 E m ensaio que -- há quatro dias -- publiquei aqui (intitulado " O Reino Fecundo da Poesia Popular de Manoel Monteiro "), explanei detalhes do encontro que tivemos -- eu e o poeta sonetista Fernando Cunha Lima -- com o mais evidenciado bardo popular da atualidade e o maior representante do chamado Novo Cordel do nosso país: o poeta cordelista Manoel Monteiro, que -- nascido, em 1937, na pacata cidade de Bezerros (PE) -- 'tá radicado, há décadas, em Campina Grande (PB), onde nos recebeu (em sua casa) na data de 26 de julho do corrente ano. Em a ocasião, finalizamos o nosso inesquecível encontro fraterno-cultural, documentando uma descontraída entrevista com o carismático e prolífero vate, que é autor de mais de uma centena de títulos de cordéis e membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano e da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Por falar em Manoel Monteiro na ABLC -- e para que saibamos, através de seu próprio 'tro, um pouco mais da saga do Velho Mestre do Novo Cordel (como o cognomino) -- consignarei, a seguir, versos [trechos do seu Discurso] que proferiu na solenidade de Posse para a titularidade da Cadeira nº 38 deste alto Sodalício, em outubro de 2003: " ( ...) Nunca imaginei a hora / E muito menos o dia / De que os versos singelos / Que meu 'tro humilde cria / Faltos de seiva e luzir / Pudessem me conduzir / A o seio da Academia. Desde os tenros anos, lia / Folhetos e assistia / Embolada e cantoria / A o som da viola, então, / Pressenti a vocação / Dentro do peito mexendo, / Flagrei-me cedo 'crevendo / «Romances» por profissão. A os 12 anos, e vão / De aqui pra lá uns sessenta, / Que 'te poeta inventa / História em versos que são / Feitos com tanta paixão, / Tanto ardor, mas pouco brilho, / E tanto me maravilho / Desvirginando o papel / Que cada novo cordel / É como parir um filho. ( ...) A Bezerros cada ida / De meu pai era freqüente / Em a volta trazer-me um «livro» / E o livro comumente / Tinha como autor da rima / João Ferreira de Lima / Ou um Milanez fluente. Eu bebia na vertente / De um Leandro envolvente / Um Zé Duda comovente, / Zé Camelo e seu Pavão, / De Silvino e lampião / Conhecia suas sagas / Lendo os folhetos de Chagas / Um mestre em 'ta questão. ( ...) Mas isso só não continha / Minha ânsia de voar, / Quis contar história minha / Então comecei criar. ( ...) Cada história que criava / Escrevia e divulgava / Em cópias que duplicava / Passando de mão em mão, / fazendo nova versão / De «folha solta ou volante», / Qual num passado distante / Fez o trovador de então. Fui do Recife ao sertão / E no Pajeú de Flores / Fiz amigos cantadores / E quis ser da profissão, / Mas sem voz, sem vocação, / Sem convite, sem parceiro, / Sem faturar um cruzeiro / Pra não parar o engenho / Mergulhei com todo empenho / Em a vida de folheteiro. ( ...) Com vento enfunando o pano / De 'sa vida peregrina / De feira em feira e de praça / Grande, média e pequenina / Vendendo verso a cantar / Terminamos por chegar / à cidade de Campina. ( ...)». Assim, à guisa de preâmbulo para a entrevista seguinte, ficam acima transcritas 'tas nove 'trofes de uma maravilhosa peça literária (também publicada em folheto) que se intitula «Uma Longa Viagem -- De Campina a Santa Teresa» -- Discurso de Posse de Manoel Monteiro -- quando o poeta relata, em dezenas de 'tâncias rimadas e metrificadas (e deveras emocionantes), a sua história de vida e a sua trajetória por as sendas da cultura popular, desde a mística Serra Negra (de Bezerros) até o sobranceiro compartimento oriental da Borborema (em Campina), e depois rumo ao imortal assento da Academia ('te augusto cenáculo guardião dos tesouros do universo opalescente do Cordel). Eis a entrevista com o poeta Manoel Monteiro: -- Manoel, Inicialmente, eu gostaria de saber de você qual a importância do Novo Cordel na atualidade. -- Rubenio, o Novo Cordel de que eu falo é o cordel atual, o cordel do século XXI, 'te que 'tá sendo utilizado, com eficiência, por os professores nas salas de aula. O cordel, no momento, 'tá numa evidência muito maior do que nos seus ditos tempos áureos e pioneiros. Isto é verdade. Pode 'crever. Eu conheço a história do cordel desde muito tempo, e convivendo com ele, nas feiras do Nordeste, desde 1951. Meu primeiro cordel foi publicado aqui em Campina Grande em 1953. Eu já vinha, há uns dois ou três anos, trabalhando com folhetos de feira em feira. Foi assim que eu saí de casa. As minhas asas para levantar vôo do ninho paterno foram os folhetos de cordel. E tão bem coladas foram 'tas asas, que ainda hoje eu continuo voando ... Estas minhas asas foram e são, assim, muito mais firmes do que as (de penas) que puseram em Ícaro, pois quando 'te se aproximou do Sol, as suas asas caíram. Pois bem! Como afirmei, o cordel, hoje, 'tá em evidência. Se o cordel de ontem era consumido (era absorvido) basicamente por gente simples e de pouca cultura, um público da periferia, das fazendas, das cidades pequenas do interior, dos mercados, das feiras livres (porque aonde ia o sertanejo, ia a sua mala repleta de saudades e de folhetos), hoje o cordel é consumido também nas 'colas brasileiras; é valorizado nas instituições 'colares de todos os graus, inclusive sendo enfocado por mestres e doutores nas suas teses acadêmicas. Então, o cordel hoje 'tá em alta evidência e eu sei por que ele 'tá com 'te prestígio ... -- Por que, então, Manoel, que o cordel 'tá com 'te prestígio que você acaba de nos reportar? -- ... Porque os autores de hoje 'tão fazendo um trabalho diferenciado. Hoje, há cordelistas que possuem cursos superiores e 'pecializações. Cordelistas que conhecem todo o Brasil e até países do exterior. Então, a vivência destes homens (que trazem na bagagem, antes da formação superior, uma cultura de massa, uma natural convivência com o povo), capacita-os a participar -- por exemplo -- de conferências, cursos e palestras para universitários em qualquer faculdade ou universidade brasileira. O que não acontecia ontem. Se o Novo Cordel 'tá com toda 'ta evidência, é porque hoje os seus autores 'tão inserindo 'ta literatura nas 'colas, nas salas de aula, e ministrando também interessantes palestras e conferências acerca do assunto ... Atualmente, o campo, o auditório, o público do cordelista é diferente. E o cordelista também é diferente. Então, 'ta qualidade do novo cordelista faz o Novo Cordel; faz com que o texto do cordel seja 'tudado e utilizado, inclusive no aprendizado da nossa Língua Portuguesa. Em 'te sentido, nós temos trabalhos de alta classe, como -- por exemplo -- o de Moreira de Acopiara (em São Paulo), Klévisson Viana (no Ceará), Geraldo Amâncio (grande repentista cearense), Janduí Dantas (com a sua Gramática em Cordel, que é admirável), o José Maria de Fortaleza (que também trabalha muito bem com a literatura de cordel nas 'colas), apenas pra citar alguns (claro que temos outros nomes). Todos são trabalhos simples, humildes na aparência, mas grandiosos na penetração, na originalidade, no convencimento, na maneira de transformar o difícil em fácil, porque a vantagem da informação feita através do cordel é que ela é compreensível, em virtude de 'ta poesia ser fecunda e sonora. E 'ta particularidade do texto poético faz com que qualquer informação, veiculada através de ela, seja de fácil apreensão e de agradável consumo. -- Quais as dificuldades e obstáculos que 'ta arte maravilhosa -- o Cordel -- 'tá enfrentando nos nossos dias? E o que deve balizar a criação do Novo Cordel? -- Eu diria que os obstáculos são aqueles naturais a toda qualidade de impresso. Especialmente os livros. Ora, eu me lembro, e aproveito a ocasião para repetir, o que disse, certa vez na Feira de Remígio, o 'critor " Cristino Pimentel: -- «Vender livros no Brasil é carregar a cruz de Cristo, vinte e quatro horas, durante toda a vida». Isto sintetiza a dificuldade das pessoas que vivem das suas obras literárias. Aqui mesmo, em 'ta sala, onde 'tamos agora, um pessoal da imprensa me perguntou o seguinte:» ... Se nós 'távamos tendo ajuda governamental ... Se nós tínhamos facilidade de publicar os nossos trabalhos ... E como que o governo olha os nossos artistas ...». E eu respondi (e 'ta é a minha posição): -- O artista precisa, mas não deve se submeter ao beneplácito dos governantes, ficar 'perando por isto, porque isto pode implicar numa certa subserviência, mesmo que instintiva. A independência para o artista é fundamental. Eu dizia e digo que: -- Se uma pessoa, um artista, fizer um bom trabalho, ele há de ser reconhecido. O que interessa é que 'te artista prime por a sua obra. Procure fazer um trabalho de classe. Para isto, ele às vezes necessita de proceder a uma busca, realizar uma pesquisa, para ilustrar o seu conhecimento. Quem 'tá 'crevendo, quem vive de 'crever, como é o nosso caso, é preciso cuidar, analisar o que publica e buscar aprimorar sempre a sua criação. E eu sou partidário da condição de que o poeta tenha um pouco de trabalho (em prol do aperfeiçoamento) para compor a sua obra, visto que 'te material ficará registrado para sempre, passando -- às vezes -- por várias mãos (leitores diversificados). Digo isto porque fizeram com mim, um dia desses, uma de 'sas surpresas maravilhosas: eu 'tava aqui e chegou o professor Daniel Duarte (homem que gosta de publicações e livros raros), que é do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano, e me mostrou um monte de folhetos antigos que ele adquirira numa de 'sas feiras do interior. Então, eu passando alguns (uns eu conhecia e outros não ...), e o que é que eu encontro ... Eu encontrei um folheto que eu havia publicado aqui em Campina Grande em 1957. E deste folheto eu só me lembrava do título: «O Crime da Sombra Misteriosa», e nem me lembrava mais de como eu tinha criado, inventado e conduzido a história, como havia desenvolvido o enredo. Mas onde eu iria encontrar aquilo? Então me chega aqui o Daniel com um exemplar deste folheto, que fora manuseado por mãos diversas, por mais de cinqüenta anos, passado certamente de pai para filho. Então eu pude perceber, mais uma vez, que quem 'creve tem que pensar bem no que vai registrar, tem que analisar com cautela a formação do seu pensamento e da sua obra, para não documentar besteiras, que assim ficarão por muito tempo. Portanto, temos que pensar sempre em legar ao futuro alguma coisa consistente e efetivamente útil. Poesia são fragmentos de luz ... São relances ... São fagulhas de beleza e de graça ... E o poeta tem a obrigação de procurar isto. Uns têm mais facilidade ... São mais queridos por a musa. Outros possuem certas dificuldades ... Eu, por mim, digo: a cada dia que passa, mais dificuldades eu encontro para 'crever os meus textos, porque eu não quero me repetir; eu não quero dizer aquilo que eu já disse ... E é muito difícil um homem de mais de setenta anos, como é o meu caso, ficar dizendo coisas novas ... ( risos) ... Quase tudo que eu vou dizer alguém já disse, ou eu mesmo já expressei anteriormente. Mas 'ta busca é uma necessidade. Nós temos que buscar novas flores e fragrâncias. Em um jardim por onde você anda todo dia, onde você já beijou todas as rosas, você tem que buscar uma de nuança diferente. Que tenha alguma graça diferenciada daquela que você contemplou no dia anterior. Esta é a dificuldade e o desafio do poeta. -- Manoel, você -- que é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel -- poderia nos dizer se 'ta Entidade (a ABLC) tem realizado atividades voltadas para a valorização e para a divulgação da arte do cordel? -- Sim. Digo, com sinceridade, que a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, que tem a sua sede localizada no Rio de Janeiro (no bairro de Santa Teresa), é uma das chaves que têm aberto as portas de muitas instituições e entidades importantes no Brasil (e no mundo) para o cordel brasileiro, para 'te tipo de literatura impressa e expressa em versos. O cearense Gonçalo Ferreira da Silva -- o presidente atual da ABLC -- é um homem de cultura, possui curso superior, mas é, sobretudo, um poeta nato. Possui dom natural e sensibilidade. A Academia é muito importante. E muita gente tem me abordado sobre ela. Algumas pessoas até me questionam por que 'ta Academia não é 'tabelecida no Nordeste, uma vez que -- segundo pensam -- poesia popular é coisa de nordestino. E eu respondo: Poesia popular não é arte somente de nordestino. Poesia popular é arte do mundo e para o mundo. Os versos populares da literatura de cordel vêm -- eu diria -- das cavernas. Sim ... Eu penso que a primeira poesia popular nasceu, lá numa primitiva caverna, com um troglodita, que -- querendo conquistar uma formosa companheira -- deixou de emitir aquele ruído agressivo e fez um ruído sonoro, flertou a trogloditazinha de uma maneira poética, agradável, musical, e aí nasceu a primeira poesia, o primeiro texto poético. A poesia é um sentimento 'pecial; é a expressão de um assunto qualquer com a graça e a beleza e a ternura de um texto em versos. Então ... Quando a poesia popular (na forma como 'tamos nos referindo: o cordel) vivia apenas de feira em feira, ela realmente tinha uma limitação de público, é verdade. Mas quando São Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, começaram a absorver mão-de-obra dos outros 'tados, e também do Norte e do Nordeste, aí a poesia popular disseminou-se; o cordel ganhou as sendas do Brasil. O Ciclo da Borracha e a construção de Brasília também são eventos que colaboraram para 'ta universalização da poesia popular, que era, no princípio, um pouco restrita, realmente, ao Nordeste brasileiro. Cordel, literatura popular, hoje, é coisa do mundo. Poesia Popular é nada mais, nada menos, do que uma poesia bem 'crita e que atinge a maioria das pessoas, porque ela é compreensível, ela é envolvente e boa de ser assimilada. Poesia popular é -- por exemplo -- o que encontramos nos versos de Leandro Gomes de Barros, versos 'critos há cerca de cem anos e que compõem agora, por três anos seguidos, o programa do vestibular da Universidade Estadual da Paraíba. A Academia Brasileira de Literatura de Cordel tem 'tabelecido importantes contatos com entidades culturais e instituições do mundo, e 'ta abertura para os novos meios -- mostrando a importância, o real valor da poesia popular -- faz com que a literatura de cordel ganhe evidência e amplo destaque nos nossos dias. -- E os meios de comunicação de massa, por exemplo, a TV, o rádio, o jornal e, principalmente, a Internet, têm contribuído de forma efetiva para o prestígio e 'ta evidência do cordel (que você se refere)? -- Estes meios de comunicação têm contribuído, e muito. O cordel, hoje, fala a linguagem do Século XXI. E a mídia, toda a imprensa que precisa de notícia, 'tá vendo aí a importância e a influência do cordel, 'te expoente de arte que 'tá sendo inclusive (como já afirmei) 'tudado e enfocado -- com destaque -- em teses e monografias de mestrado e doutorado. Então, quando as universidades 'tão interessadas em algo, a imprensa -- que é inteligente -- também 'tá. E isto tem favorecido deveras a valorização merecida da nossa literatura de cordel. A poesia em geral, hoje, é para ser veiculada também por a Internet e por todos os meios mais modernos de comunicação. -- Manoel Monteiro, o que é ser cordelista? -- Ser cordelista é sonhar ... E sonhar vinte e quatro horas por dia, porque a poesia popular é um exercício mental maravilhoso e muito gratificante. O poeta olha o vôo de um pássaro, analisa seus movimentos, diferentemente de um físico, por exemplo. Ser poeta cordelista é brincar com o lúdico, é querer copiar 'trelas (e isto é possível?) ... Então, repito, ser poeta [para mim] é viver sonhando, e é muito bom viver assim, porque a realidade do cotidiano é muito ríspida, é muito vazia. A poesia, às vezes, faz chorar, mas choramos de uma maneira diferente, porque choramos com a fecundação da alma ... -- Eu gostaria que você nos explicasse como é que nasce a sua inspiração para 'crever os seus trabalhos de cordel. -- Primeiro, vem da minha vivência. O meu grande livro é a vida. Os meus cordéis são compostos, principalmente, embasados nas minhas experiências de vida, mas também -- quando necessito -- realizo um pouco de pesquisa. Quando eu vou 'crever sobre um determinado assunto, às vezes temas requisitados, eu procuro me inteirar o máximo possível sobre aquela matéria. Contudo, a criação, no meu ponto-de-vista, deve ser a mais solitária possível. Em a gestação do texto, o poeta deve-se voltar para o interior, para o seu interior, para os seus sentimentos, suas lembranças mais recônditas. É preciso mergulhar no desconhecido em busca do belo. Isto parece tão subjetivo, 'te meu raciocínio, mas é assim que 'tou conseguindo dizer como é o meu processo de criação. Eu não tenho um folheto pronto. Eu não sei nem como ele terá fim. E eu não sei nem se ele vai terminar. às vezes eu busco uma palavra, eu quero uma palavra de determinado tamanho, eu necessito de uma palavra de determinada cor ou aspecto e ela não me aparece. Não adianta fazer por fazer ... Só rimar é fácil (quando o som não arranha o ouvido, temos a rima). Metrificar, outrossim, não é difícil: a métrica pode ser aperfeiçoada por o costume e a prática. Mas isto é muito pouco para a elaboração um bom poema. Faltam os desígnios da oração, que é o sentido, e principalmente a 'sência, que é a beleza. Então, o meu processo de criação é uma busca (e é dolorida) ... Por isso quando eu trabalho algum folheto de encomenda (e eu faço, principalmente se o assunto for um desafio), eu preciso me inteirar, conhecer, falar com 'pecialistas daquele assunto ... Mas eu digo para as pessoas que encomendam: -- Em não garanto nada. Não garanto que vai prestar ... O futuro é que vai dizer ... Eu vou tentar fazer, mas se eu não conseguir, paciência ... O que é certo é que, somente por o fato de eu conhecer os aspectos da rima e da métrica, não terei jamais a garantia da criação de uma bom texto poético. Preciso de algo mais, preciso daquilo que transcende ... -- Para encerrarmos, eu gostaria que você expressasse algumas palavras dirigidas àquelas pessoas que 'tão se iniciando na arte do cordel, ou que 'tão se interessando, de alguma forma, por a poesia popular. -- Parabenizo os que 'tão iniciando. É preciso que as pessoas expressem o que sentem. E, para isto, o melhor canal, o veículo mais democrático é a poesia. É preciso 'crever e divulgar o trabalho. Mas é preciso procurar 'crever com responsabilidade e desvelo (e também com racional autocrítica). Em o momento, a poesia 'tá ganhando muitos adeptos em todo o mundo. Mas 'crever poesia não é para todo mundo: só faz poesia quem é poeta; e só concebe a boa poesia quem é bom poeta. A real inspiração é uma coisa deveras etérea; muito sublime; não fácil de ser alcançada. A busca eterna por o belo é uma das missões do poeta, e eu felicito os que 'tão começando a 'crever, e volto a repetir: -- Escrevam tudo que lhe vier ao coração, passem para o papel e divulguem, porque é desse meio, é de 'sa produção que sairão as grandes obras. Contudo, quero repetir mais uma vez: é preciso ter cuidado ao 'crever. O que for 'crito agora, assume uma responsabilidade com os leitores do futuro. Número de frases: 177 Uma manhã ensolarada cobria a Ilha de São Luís do Maranhão quando batemos à porta de um antigo casarão -- uma porta e duas janelas -- na rua Cândido Ribeiro, Centro. Lá mora Édson Mondego, artista plástico dos mais importantes na história maranhense em todos os tempos. Descalço, trajando uma calça e uma camisa branca (suja de tinta), com a sua peculiar simplicidade, ele mesmo abre a porta e nos conduz à sala, onde concede a entrevista que você lerá a seguir. O repórter inaugura um caderno novo, do qual são consumidas, em oito perguntas, mais de vinte páginas e três horas de «conversa» [Mondego não se comunica usando a palavra falada desde os fins do ano 2000], entrecortada por batidas à porta [por vezes o artista a abriu], carros e bares tocando alto, música ruim. As fotos que ilustram a entrevista foram feitas por o repórter, em outra data no Ateliê que Mondego ocupa, desde 2001, na Morada dos Artistas (Praia Grande). Hoje, 13 de janeiro, o artista completa 47 anos de idade. A ele, aqui, uma homenagem do jornal Diário da Manhã. Entrevista e fotos: Zema Ribeiro Zema Ribeiro -- Vamos começar por a infância. Gostaria que você falasse um pouco de ela, data e local de nascimento, experiências ... Édson Mondego -- Nasci em 13 de janeiro de 1959, em casa, com parteira, em São Luís, no Cavaco [atual Bairro de Fátima]. Em a infância, brinquei com bolinhas de gude, chuço, papagaio [pipa], e também confeccionava meus brinquedos; com caixas de fósforos fazia trens, barcos; com frutas verdes, animais; com latas fazia carrinhos ... Zr -- Então já havia, de certa forma, na infância, uma experiência com artes plásticas, na confecção dos brinquedos ... Quando é que entra a pintura? Mondego -- Ah ... sim ... É uma necessidade expressar-me através do gráfico e confeccionar formas. Vem desde o jardim de infância, quando comecei -- lembro a partir daí -- a riscar, as coisas que via no cotidiano, brincadeiras folclóricas, como bumba-boi, barcos, automóveis e, mais tarde, por influência de meu irmão, já falecido, que era um caprichoso artesão, desde a infância, pois ele fazia carrinhos com lata, madeira, pregos, rodinhas de borracha, eixo com giro etc. e, a partir desse convívio eu também fazia os meus. A pintura, iniciei por volta de 1974, com um amigo de infância, Rubens Amaral, com quem 'tudei no primário. A partir daí comecei a ter experiências com tinta a óleo, confeccionar telas, molduras e aprimorar a técnica de desenhar, 'tudando anatomia, perspectiva. Um pouco mais tarde comecei a usar nanquim, bico de pena etc. Zr -- Reli, recentemente, uma entrevista que você concedeu ao jornalista Cesar Teixeira, em março de 2002. Lá, ele fala de sua formação acadêmica em dança, além de 'tudos na Itália. Há motivos para o «abandono» de 'sa forma de expressão? E o retorno a São Luís? Mondego -- Minha formação em dança, a iniciação, se deu por acaso. Eu gostava muito de brincadeira, imitar pessoas, animais, fazer as pessoas rirem. Em uma certa época passei a morar com um tio que tinha uma filha que fazia balé; minha tia convidou-me para fazer teatro. Chegando lá, fui apresentado a Reinaldo [Farah], que me deu uma malha e disse: «entra em 'sa sala». Achei 'quisito, mas fiquei quieto. De aí, todo desajeitado, comecei a fazer dança. Logo descobri que era interessante, passei a gostar e dediquei-me totalmente. Depois de um ano, comecei a dar aulas. Passei a integrar um grupo e, mais um ano, fui para São Paulo, em busca de mais conhecimento técnico. Fui contemplado com uma bolsa para fazer aulas no Ballet Stagium, de melhoramento técnico e profissional. Era um curso de férias, e terminado, ganhei outra bolsa, para permanecer na 'cola e 'tagiar no grupo profissional. Fiquei um certo tempo com eles e logo surgiu uma outra profissional de dança, do cenário internacional, dançarina do Ballet do Século XX, de Bruxelas, Laura Proença. Com ela, fiquei um ano entre São Paulo e Rio de Janeiro. Fui seu assistente em eventos, oficinas, e depois voltei a São Luís, para fazer o 'petáculo Maré / memória [baseado no livro homônimo do poeta José Chagas]. Voltando ao Rio, acidentei-me de motocicleta, machuquei o joelho e abandonei a dança por não ter mais condições físicas. Cheguei a ser homenageado no Teatro Arthur Azevedo, casa cheia, depois abandonei [a dança] em definitivo. Tornei a expressar-me novamente com expressão corporal de seis anos para cá, através da capoeira [sem cantar os refrãos]. Minha ida à Itália, foi através da pintura; consegui um apoio para fazer um curso em Firenze, mas não foi possível ficar naquela cidade. Fui para Napólis. Passei a fazer parte do corpo do ateliê de [Luigi Eboli] Tavolozza, no Centro Histórico de Napólis. Lá fazia aula de desenhos, pinturas, aquarelas e um pouco de modelagem em argila, e também fiz decoração em cerâmica. Zr -- Mondego é um sobrenome não tão comum. De onde vem? E voltando ainda à infância, gostaria que lembrasse um pouco da família e falasse um pouco também, da família atual. Mondego -- Meus pais são de Guimarães / MA. Nossa geração, alguns irmãos e primos fizeram uma busca sobre nosso sobrenome, mas nada conseguiram descobrir, da raiz; minha família é de mestiços: tem negro, branco, índio. Mondego é um rio em Portugal, próximo do Porto. Meus pais tiveram dez filhos; sou o terceiro. Meu pai era pedreiro, um pedreiro-artes ão, que fazia tudo «no capricho» [aspas nossas]. Ele também gostava muito de desenhar, mas o fazia sem nenhum conhecimento técnico. Fazia rascunhos de arquiteturas, de maneira bem primitiva. Creio que 'sa seja a minha árvore. A geração após a minha tem revelado novos artesãos; tenho uma sobrinha se formando na Academia de Belas Artes, na Itália. Ela é filha de italiana com meu primo (maranhense) [parênteses de ele]. Tenho cinco filhos, quatro garotas e um garoto. Minhas filhas, todas, têm tendência às artes, embora não se apliquem. Buscaram outras áreas: jornalismo, propaganda, marketing, direito. Meu filho também tem 'ta facilidade, faz alguns trabalhos, mas não forço ninguém a nada, deixo a vida falar. Ele também toca vários instrumentos de percussão. Sou casado há vinte e seis anos, com a Wanise [52], que é comerciante. Zr -- A sua inspiração para a pintura, ao menos o que vi, até hoje, é o cotidiano ludovicense: paisagens, pessoas, o imaginário da cultura popular etc.. Quais são as suas referências? Música te inspira? O que você ouve? E o que você lê? Mondego -- Minhas referências são várias: belle époque, impressionismo, pós-impressionismo e movimentos paralelos a 'tes, talvez cubismo, futurismo, pop art, expressionismo etc.. Rembrandt, De a Vinci, Michelangelo, e ainda as artes egípcia e grega, além da arte rupestre, a mais «pura» [aspas de ele], pois penso que quanto mais primitivos formos, mais pura é a nossa expressão artística. Minha inspiração se dá no cotidiano, do cotidiano. São Luís é onde vivo, é daqui que surgem minhas paisagens, pessoas do povo, o comportamento humano, me atraem bastante suas características, sem pensar que seja um regionalista. Para mim, tudo é universal. Ou será que não fazemos parte do universo? Aprecio muito música erudita, pois através da dança, aprendi a dividir compassos, marcação, harmonia musical; também ouço rock, jazz, blues, bossa-nova, tropicalismo, reggae e 'tou sempre atento a novas tendências, pois os movimentos surgem de misturas, além dos modismos, que logo se acabam. Tenho lido romances, dramas, alguns começo e não termino, vou lendo vários ao mesmo tempo. «Josué Montello, Os Tambores de São Luís», 'tou com Homero, «A Odisséia» para ler, comecei «Fausto» [de Goethe] e parei ... Zr -- Qual a tua ligação com religiosidade? Mondego -- Nasci no catolicismo, sou cristão. Uma época, passei por protestantismo. Através da dança conheci a ioga, e a partir daí, o budismo. Há diferenças na maneira de ver o mundo, entre a forma cristã e budista. É uma maneira prática, só conhecendo é possível entender. Por ser tão simples, fica quase sem sentido explicar a diferença, pois as palavras muitas vezes tiram o sentido da ação. A prática do que é simples, dá um sentido grandioso dentro daquele que pratica, causando uma revolução, uma força que jamais, com palavras, poderei transmitir como acontece. A não ser através das palavras 'critas por os mestres; eu não conseguirei, não 'tou apto a transmitir 'tas mensagens; só posso através da minha ação, do meu comportamento. E ainda assim, talvez as pessoas não consigam observar ou sentir, pois 'tá dentro de mim, o que absorvo dos mestres e pratico. É uma árdua luta com mim mesmo. Zr -- Quando você diz que «muitas vezes as palavras tiram o sentido da ação», há nisso alguma ligação com o teu voto de silêncio? [ Mondego decidiu deixar de se comunicar usando a fala em fins de 2000]. Mondego -- Quando digo isso, veja bem: se você tem algo para realizar e fala, fala sobre isto, 'se algo, você percebe que 'se algo começa a ficar distante de sua ação, de sua realização, perdendo a força, não é? E quando guarda em si mesmo, como um tesouro, um segredo, 'se algo fica cada vez mais sólido, mais próximo da ação, da realização. Pois bem, observe e sinta a diferença. A questão do silêncio é uma força interior, que se encontra no universo, em nosso redor. Veja que quando alguém se ajoelha diante de uma imagem de santo, ou mesmo sem imagem, e põe-se a rezar, orar ou meditar para alcançar uma graça, entrará num universo, e 'se universo num silêncio profundo. Só de 'sa maneira perceberá seu contato com o grandioso, para alimentar sua alma. E o silêncio tem um som. Só assim sentirá que poderá alcançar sua graça transcendental. O que aconteceu com mim, 'tá guardado, dentro de mim, meu tesouro; um tesouro que muitos já tentaram entrar, até mesmo tentando agredir-me fisicamente. Mas o grandioso saberá o meu dia e o que acontece com mim. Não me sinto privilegiado falando assim, pois todos nós temos condições de senti-lo. A diferença é que uns já observaram isto, outros, ainda não; é como se uns já tivessem acordado e outros ainda não. Mas isto não é de minha responsabilidade, dizer quem ainda dorme e quem já acordou. O tempo e o universo de cada um dirá para si mesmo e as coisas se aproximarão de cada um, mesmo o mundo vivendo em guerra eternamente na história da humanidade. ( falar da religião pessoal é até um perigo, pois o domínio do pensamento americano tolhe muito a individualidade do pensamento livre do ente humano: o homem como parte da natureza). [ parênteses de ele]. Zr -- Uma mensagem ao (s) povo (s)? Mondego -- Que o ente humano busque mais sua paz interior, verdadeiramente, em vez de ficar fazendo somente ação social -- paliativo para suas dores -- para diminuir seu egoísmo, preconceito, racismo. Que busque 'sa paz dentro de si, e conseqüentemente, possamos respeitar mais as diferenças entre os costumes dos povos, diminuindo as lutas, as guerras. O homem tem como característica ser guerreiro, conquistador, o domínio sobre o mais fraco, o poder, enfim. Talvez isso faça parte da nossa própria natureza, pois somos animais como quaisquer outros, e, através desse domínio, acontecem as transformações da cadeia humana. Mas, que busquemos mais o silêncio, dentro do nosso próprio universo interior. Isso influirá em nosso convívio social, humano em nosso planeta. A partir daí, teremos paz. publicado no jornal Diário da Manhã em 13 de janeiro de 2006; Número de frases: 136 republicado na mesma data no blogue " FIC recebe apenas 5,8 % do total previsto Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008 13:56 Aline dos Santos Dezesseis milhões de reais. Este é o valor que separa o FIC (Fundo de Investimento Cultural) real do montante 'timado por o governo no orçamento de 2008. Em 'te ano só deve ser repassado R$ 1 milhão para projetos culturais, quantia muito abaixo dos R$ 17,8 milhões previstos. O investimento de apenas 5,8 % do total orçado provoca artistas e produtores culturais. «É bom que o FIC voltou, mas é ruim que o valor seja bem abaixo das expectativas», destaca o músico Fernando Jorge Gomes. Segundo ele, a partir do orçamento, a classe cultural 'perava um valor de até R$ 8 milhões para patrocínio de projetos. «Cultura não é prioridade», diz com nítida frustração. O músico lembra que o FIC foi fundamental para divulgação das bandas locais, tanto em Mato Grosso do Sul quanto nos outros Estados. Há três anos ele teve a primeira frustração com o Fundo. Conseguiu aprovar o projeto «Festival Nação Guarani», que reuniria bandas locais e do Paraguai para a gravação de um CD, mas não recebeu o dinheiro. Em 2005, o compromisso era repassar R$ 4,5 milhões para execução de 126 projetos, contudo, os recursos foram suspensos. O dinheiro do FIC provém de renúncia fiscal. Merreca -- " Isso é uma merreca. Mas os nossos artistas só choram no corredor, não brigam " enfatiza o presidente da ACGT (Associação Campo-grandense de Grupos Teatrais), Edson da Silva, o Profeta. «O valor de R$ 1 milhão para 78 municípios não dá», salienta. O FIC / MS não traz boas recordações para a ACGT, que também ingressou na justiça contra o governo na tentativa de receber os R$ 59 mil ao qual teria direito para executar o projeto «Pé no Chão, também em 2005». O projeto levaria as peças teatrais Feitiço do Curupira e Raízes do Pantanal a 18 cidades. A ACGT aguarda a decisão da 3ª " Vara de Fazenda Pública. «Estamos há 34 meses sem recursos públicos para a cultura. Por isso ninguém vê mais um show do Marcelo Loureiro, um 'petáculo de dança», ilustra o arquiteto Ângelo Arruda, que há 15 anos também atua na área cultural. Possível -- De acordo com o presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Américo Calheiros, o orçamento é uma peça 'timativa, que autoriza o Estado a gastar até R$ 17,8 milhões no Fundo do " Investimento Cultural. «O que é possível ser liberado é R$ 1 milhão», afirma. O valor foi definido após avaliação da capacidade financeira do Estado. Segundo Calheiros, o FIC tem direito a 0.68 % do ICMS recolhido, mas o restante do valor será utilizado nas necessidades emergenciais. Em 2008, as os projetos poderão ser inscritos até o dia 8 de março. A previsão é que a lista dos projetos selecionados seja divulgada no dia 30 de abril Fonte: http://www.campogrande.news.com.br/cultura/view.htm? Número de frases: 29 id = 405534 & ca id = 50 ( Texto originalmente 'crito em 26/04/2006) O simbolismo dos 50 anos de lançamento de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile amplifica, através de seminários, palestras e reportagens publicadas em revistas literárias e culturais, o interesse por a obra de Guimarães Rosa, autor que possivelmente divide com Machado de Assis a posição de maior 'critor brasileiro. Uma das contribuições recentes para compreender o universo «roseano» é o livro Uma Cantiga de se Fechar os Olhos -- mito e música em Guimarães Rosa, da pesquisadora cearense Gabriela Reinaldo. Doutora em Comunicação e Semiótica por a PUC de São Paulo, Gabriela propõe ao leitor, em Uma Cantiga ..., o exercício de «olhar» a obra de Rosa a partir da música, das relações entre o signo musical e a construção da memória e do 'quecimento, dos mitos que se remodelam no universo sertanejo, da edificação de uma glossolalia. Canções que nos textos do autor são apresentadas como elementos de anunciação, de profecia, de cura. Através de uma fala calma e paciente, ela explica: «Muitas 'colhas do Guimarães Rosa eram 'colhas sonoras. A terra de ele, Cordisburgo, é uma terra de contador de histórias, de encantar, despertar curiosidade através da palavra. Escolha por o afeto do som, que ative alguma coisa da memória, que 'tá ligado a afetos da gente." O interesse de Gabriela em 'tudar a literatura de Guimarães Rosa remonta à percepção de que «a música era presente em toda a obra, pois ele tinha uma preocupação muito grande com a poesia da prosa, com a poesia do dito». Trilhando o caminho da semiótica, enredou-se em 'tudar, na universidade, o «signo icônico» ou, como ela diz, o «signo que não representa, mas que quer ser a própria coisa que 'tá representando, que não quer ocupar o lugar do objeto e sim ser o próprio objeto». A pesquisadora diz que a presença do signo icônico revela-se na linguagem religiosa, do sagrado, e na linguagem da poesia. Gabriela busca desvendar por quais caminhos se dá o encontro da música com a linguagem mítica nos textos de Rosa. «Ele fala muito de um credo poético, podemos perceber isso não só por as leituras e interpretações da obra, mas na fala de ele, nas entrevistas que ele dava». A autora exemplifica com a obra mais conhecida de Rosa: «Em o Grande Sertão: Veredas, alguns acontecimentos marcantes são transformados em canção. São coisas que acontecem no sertão e os violeiros ficam com aquilo na cabeça, servem de mote e acabam se eternizando na memória em forma de canção. Coisas que chamam a atenção da comunidade, que eles consideram sobrenatural ou extra-mundano e aí, fazem uma canção daquilo. É mais ou menos semelhante com o que a gente tem aqui no cordel. Essas canções têm a ver com a documentação dos fatos, mas muito diferente do que a gente tem como objetividade, verdade, no sentido mais próximo do jornalístico». E enfatiza: «Em o livro, o Riobaldo tá narrando a vida de ele, mas não tá documentando nada, não. ' O que eu me 'forço de referir em 'sas memórias e não consigo, eu narro ao senhor com 'sas fantasias '. Ou seja, nos 'paços que as memórias deixam as lacunas, fantasia-se em cima daquilo. Uma memória fantasiada». Em o livro, ela assinala: «A função do canto, na obra de Guimarães Rosa, parece ser a de tentar de alguma forma nomear o que não pode de outra forma ser tocado, dito, exposto." Uma Cantiga de se Fechar os Olhos é a publicação da tese de doutorado defendida por Gabriela em 2002. Mas, se ao leitor a idéia de «tese» é sinônimo de 'crita pesada, maçante, o livro revela-se uma surpresa: um texto sem «academicismos», em que conceitos e análises dialogam, em idas e vindas, com textos de Guimarães Rosa numa construção que também pode ser poética. Dúvida? Pois segue a descrição da viagem feita por a pesquisadora ao sertão mineiro, onde passou «uns 20 dias» na tentativa de encontrar o personagem Siruiz, de Grande sertão: veredas (cuja canção, apresentada no livro, despertou seu interesse em analisar a música na obra de Rosa): Em 1997, embrenhei-me livros e sertão adentro no rastro de Siruiz, de Grande sertão: veredas. Sertão de Minas Gerais. Cordisburgo, Corinto, Curvelo, Morro da Graça, Andrequicé, Três Marias, faziam parte do itinerário. Registrou o gravador: Siruí? Siruízi? Não sei não. Nunca desse ouvi dizer não. Siruíno? Siruim? Como é, como é? É bonito ... É bonito, bonito é, mas não sei não. Havia um descompasso enorme entre aquele livro, livro grande -- «é uma Bíblia?», arriscou (na minha opinião quase acertadamente) alguém --, livro sem figuras, e os meus entrevistados. Havia um desarranjo entre a palavra impressa, silente, imóvel e a força do verbo oral, da palavra cantada, cheia de graça, de vida. Como é que eu ia saber cantar? Mas, eles exigiam. Mais: impunham.-- «Ler, assim com as palavras? Uma música? De o Siruísse? Assim eu não sei não, ninguém conhece, não». ( ...) o retorno a São Paulo foi desalentador. Nenhuma pista de Siruiz ou de seus versos. Mas o sertão se encarregou de plantar, pequenas, invisíveis, sementinhas. Os pássaros que cantam são os mesmos que são responsáveis por 'sa função orgânica da natureza. Encontrei não o Siruiz do livro. Mas muitos outros, no sertão. Tese 'truturada apenas em quatro capítulos, praticamente toda em texto corrido, sem um sub-capítulo sequer. Pergunto como se deu fazer isso. Gabriela responde com uma crítica à «academia» e uma confissão que nos faz lembrar que o maior rigor que um pesquisador pode dedicar ao seu «objeto» é respeitá-lo, não enquadrá-lo a modelos viciados: «Eu fiz porque eu não sabia fazer de outro jeito. Porque o próprio tema obriga. São muitas músicas, até tentei agrupar algumas de elas em termos de função, ou outras categorias, mas mesmo assim elas 'capam. Acho que a gente tem que ter lealdade com aquilo que 'tá 'tudando. Não adianta a gente pôr dentro de um molde acadêmico, e é difícil querer continuar num academicismo quando ele é infértil. Eu não teria como falar desse tema de outra forma». Quando eu falo de recortes, objetivos, Gabriela contrapõe com «inquietações». «O Rosa tem várias coisas que inquietam a gente. E a gente sempre 'tuda aquilo que nos intriga. Sabe que vai 'tudar aquilo, mas sabe que não vai resolver. Esse tema, 'colhi por falta de respostas." É em 'se jeito de não saber, em 'se não-resolver, que Uma Cantiga de se Fechar os Olhos acaba oferecendo novas possibilidades não só para saber, mas para sentir um pouco do mundo de Guimarães Rosa. Uma Cantiga de se Fechar os Olhos -- Mito e música em Guimarães Rosa Número de frases: 82 Annablume / Fapesp, 241 p. A Fundação Biblioteca Nacional abriga 9 milhões de itens. De estes, algumas preciosidades podem ser baixadas grátis para seu computador em PDF. Livros, mapas, atlas, partituras, quase 5 mil itens 'tão na seção Biblioteca Nacional Digital, em PDF e em outros formatos. Eis algumas coisas que por lá encontrei numa rápida inspeção e que gostaria de que você visse: Você quer ter uma cópia da primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões? Você pode. Também uma Grammatica da língua potuguesa com os mandamentos da santa madre igreja Uma muito curiosa nota crítica de Carlos Drummond de Andrade à obra de Augusto dos Anjos, feita de próprio punho. Engraçado, eu achava que «soco na cara»,» soco no 'tômago " e quetais fossem expressões da nova crítica literária de jornal. O anúncio da fuga de um 'cravo. Imagino o efeito de ele colado nos postes de uma pequena cidade de antigamente. Você pode ver mais anúncios desse tipo se tiver curiosidade, bem como outros documentos sobre a 'cravidão no Brasil. Por serem uma de minhas leituras preferidas durante a infância, chamaram-ma atenção os atlas. Eles só demonstram que o que se a cartografia contemporânea ganhou, para bem, em precisão por certo perdeu, para mal, em arte. Eis a lista dos disponíveis: Istoria de ele guerre del regno del Brasile Descriptionis Ptolemaicae augmentum Atlas universal Atlas celeste Plantas de praças das conquistas de Portugal Claro que há muito mais coisas interessantes por ali. Isso foi o que encontrei em apenas meia hora de navegação. Tenho certeza de que você poderá encontrar muito mais. Não deixe de me avisar se houver ainda mais curiosidades em 'se baú. Número de frases: 23 Originalmente publicado em Alessandro Martins -- É Para Gostar de Ler. Já 'crevi antes, mas volto ao tema. Em a lista de destaques de fim de ano da revista americana Spin, aparece como a morte do período o fim do CD. Antes, a revista nacional Bizz também decretava a revolução MP3. Eu não acredito na extinção completa, mas em algo como o que aconteceu com o vinil, virar um produto para colecionadores. Ou pode-se também mudar por completo a forma de se consumir e produzir música, com mais variantes do que músicas, singles e álbuns. O que me chama atenção em 'sas análises não é tanto o veredito final, mas os argumentos utilizados. Ora, dizer que o CD vai acabar porque simplesmente virou velho é uma bobagem. Dizer que as pessoas 'tão consumindo música mais pelo meio virtual é outro argumento furado. Sempre existiram inúmeras formas de consumir música. De as «legais» (houve um tempo que o mesmo disco era lançado em vinil, fita cassete e CD) às alternativas (gravar fitas). O que conta bastante nisso tudo é que a indústria fonográfica carregou nas tintas. Poucas atividades são tão mal-vistas por os consumidores quanto as grandes corporações musicais. Já nos anos 80, havia uma campanha dizendo que «gravar fitas caseiras iria acabar com a música». A mesma truculência reapareceu quando se passou a trocar músicas por a internet. Aliás, a forma como a indústria tratava seus contratados passava, e muito, do que seria correto. Protestos como o de George Michael e de Prince, que entraram em rota de colisão com suas gravadoras, não eram mais comuns por a inércia da maioria dos artistas. O grupo Nenhum de Nós, por exemplo, chegou a renovar com a mesma gravadora, mesmo ela tendo usurpado direitos de músicas de seu álbum de 'tréia. Em a era pontocom, os artistas também se portaram de forma arrogante. Postura de artistas como Metallica, Dr. Dre, Creed, Madonna e outros, de falar mal ou até querer processar quem baixava músicas por a internet, foi um tiro no pé. Criou um sentimento de revanche. O mais correto seria aumentar as vantagens de se ter um CD. Há muitos que tem uma capa capenga. Abandonar o CD é também uma forma idiota do ponto de vista comercial. É abandonar o valor agregado de um produto. É muito mais vantajoso investir nos derivados da castanha do que exportar o produto em 'tado bruto. Agora, muitos não notarão distinção nenhuma entre puxar música legal ou ilegal, já que não há a menor diferença no conteúdo. E, na ânsia de manter o mesmo faturamento, o preço dos discos foi aos ares. Antes, se comprava um lançamento por R$ 17,00. Hoje o preço médio é o dobro disso. Ou seja, mais uma forma de se afugentar os consumidores. Em alguns casos, se adicionou ao CD, DVDs. Depois, as gravadoras investiram num número exacerbado de reciclagem de sucessos: coletâneas, discos ao vivo, acústicos ... Isso tudo também matou um dos alicerces de se consumir CDs: acompanhar a carreira de um artista, 'perar por o próximo lançamento e por aí vai. Costuma-se dizer também que muitas lojas 'pecializadas 'tão fechando. Ora, mas pode-se comprar discos por a internet, de forma mais prática e geralmente mais barata. Além de ser possível encontrar inúmeras coisas que dificilmente se encontra em lojas. Enfim, o disco físico 'tá acabando mais por os erros dos outros do que por seus próprios defeitos. * * * A realidade é mais complexa do que a necessidade dos jornalistas de simplificar as coisas. Em o ano passado, segundo um levantamento feito por a Nielsen SoundScan, 588,2 milhões de álbuns foram vendidos, o que significa uma queda de 4,9 % em relação ao ano anterior. Realmente, indica uma tendência, já que em 2005 também houve queda, mas por o que avaliam por aí o CD já era para ser coisa do passado. Também se diz que a nova geração só consome música via MP3. Sabe qual foi disco do ano passado nos EUA? A trilha sonora do filme «High School Musical», uma obra para adolescentes. Exemplo isolado? Em a Inglaterra, também no ano passado, «Whatever People Say I Am, That's What I ' m Not», disco do grupo Arctic Monkeys, que tem seu sucesso creditado à divulgação na internet, tornou-se o álbum que mais vendeu na primeira semana em toda a história da parada inglesa. Número de frases: 48 Se você conhece alguma coisa sobre um movimento cultural, uma festa, um grupo de música ou muitas outras coisas ou quer fazer uma divulgação mundial sobre qualquer assunto, você acaba de chegar no lugar certo. Normalmente muitas manifestações culturais não são divulgadas por a grande mídia e isso não é problema para Hermano Vianna. Muito conhecido por ser o criador do site www.overmundo.com.br o antropólogo Hermano Viana deu uma palestra dia 08 de Agosto aqui no AfroReggae fazendo o histórico de como a Internet tem respondido a crise da indústria cultural desde a invenção da web nos anos 90. E também citou que hoje vivemos uma crise de conhecimento, em que as pessoas tem conteúdo para expor, mas não encontram formas de comunicar-se. Porém 40 % das pessoas do Brasil já publicaram alguma informação na Internet. Hoje a Internet é tão importante quanto a invenção da 'crita e a impressão. A mídia impressa e televisiva tem perdido grandes números em venda e Ibope desde que a Internet se popularizou. A Afroreggae Digital perguntou a ele como será a Internet no futuro e em que ela já afeta a vida das população! Número de frases: 8 Para 'cutar a entrevista entre no site www.afroreggaedigital.com ou www.afroreggae.org.br A democratização da informação provocada por a internet avança para todos os lados, e não poderia ser diferente com a televisão. O projeto GetDemocray, capitaneado por a Participatory Culture Foundation, traz uma proposta de democratização para a televisão via internet. O site www.getdemocracy.com oferece um software para exibição dos canais disponíveis na internet, com conteúdos do mundo inteiro. Utilizando tecnologia para distribuição de informação rss, o aplicativo exibe, em tela cheia, praticamente todos os formatos de vídeo. Além do tocador, o site também oferece o software para organização e distribuição do material multimídia, em resumo, 'tá aí, totalmente grátis, um programa para gerenciar seu canal de televisão via internet. Número de frases: 5 Todos os programas, mesmo não traduzidos para o português, são gratuitos e de fácil instalação, cumprindo assim o propósito de democratizar a plataforma de vídeo, ou seja, webtv é uma tecnologia para todos, para os que querem assistir ou para aqueles que querem distribuir conteúdo em vídeo. Desde 1995, o Carnaval em Pernambuco não é mais o mesmo. Foi em 'te ano que surgiu o Festival Rec-Beat, que hoje é um dos maiores eventos do calendário musical pernambucano. O que parecia improvável naquela época logo se revelou ser um imenso sucesso: reunir bandas de rock e de outros 'tilos não-oficialmente carnavalescos para tocar no berço do frevo. Diversão, irreverência e originalidade são alguns dos ingredientes do festival, que procura a todo ano trazer novas e diferentes atrações para o público que participa em peso da folia pernambucana. E sempre tentando melhorar para satisfazer o público que cresceu ao longo dos anos, o Rec-Beat mudou de local algumas vezes em sua trajetória. Começou em Olinda, onde boa parte das clássicas bandas do movimento manguebeat surgiu. A primeira edição do Festival Recbeat foi num pequeno bar em Olinda, chamado Oficina Mecânica, que funcionava no Pina, com uma «filial» em Olinda, naquele ano. Bandas como Eddie, Paulo Francis Vai Para o Céu e Dreadful Boys presenciaram 'se momento histórico. A empreitada deu certo e chamou a atenção do público olindense, do público recifense, que passava a ir para a noite de Carnaval em Olinda para conferir 'tas bandas e, claro, dos turistas. Em os anos seguintes, aconteceram alguns atropelos. Antônio Gutierrez, o Gutie -- organizador do evento em entrevista para o site Recife Rock revela que em 97 o evento quase não aconteceu. Em o ano anterior, Gutie 'tava em turnê com o Mundo Livre S / A por o México e deixou a produção do Recbeat a cargo de alguns amigos. No entanto, no momento em que 'tavam preparando a volta ao Brasil, ficaram sabendo da morte de " Chico Science. «Quando desembarquei no Recife, haviam cancelado toda a produção do Festival. Estávamos todos extremamente abatidos com a morte de Chico», relembra. Para Gutie, aquele foi um momento bem importante para todos que faziam música no Recife. «Era um momento decisivo: ou a gente mergulhava na tristeza por a morte de Chico, ou fazia o Festival Recbeat em homenagem a ele e a nova música pernambucana que ele havia criado. Optamos por a celebração», revela o produtor. E de 'sa forma, em 97, o Rec-Beat aconteceu novamente em Olinda, mas no Centro de Cultura Luiz Freire, que abrigou o evento por mais dois anos. Em 1999, o evento ganha uma dimensão maior do que as 'truturas de Olinda podiam comportar. E a convite da Prefeitura do Recife, o festival passa a acontecer em palco na Rua da Moeda, no lado então mais rústico do Recife Antigo. Gutie conta que «como o festival teve suas origens no bairro, ainda com o Projeto Recbeat, no Francis Drink's, foi um processo natural voltar para o bairro, para a rua da Moeda, para o mesmo local onde tudo começou». Foi lá na Rua da Moeda que o público pôde conferir as então bandas novas do Recife: Querosene Jacaré, Matalanamão, Via Sat, Supersoniques, Spider & Incognita Rap e DMP e os Fulanos. Em os anos seguintes, além da diferentes posições do palco, que alternava de lado da rua a cada edição, atrações de fora do 'tado como Karnak, Bidê ou Balde, Pinduca, Mv Bill, Fellini, Wado, Trio Mocotó e Seu Jorge pisavam pela primeira vez em solo pernambucano no Rec-Beat para delírio dos foliões. Não demoraria para a Rua da Moeda tornar-se 'treita demais para o grande público do festival, que em 2004, passou a conferir os shows do Rec-Beat em outro local: o Cais da Alfândega, também no bairro do Recife Antigo. Com um palco instalado às margens do Capibaribe, tornando a paisagem mais poética e inspirada para os foliões e para os artistas, o Rec-Beat trouxe atrações naconais de destaque e de ritmos diversos, a exemplo de Rogério Skylab, Bojo e Maria Alcina, F.U.R.T.O., Replicantes, Black Alien, Ludov, Riachão, Sonic Jr e Jumbo Elektro, entre tantos outros. 2007 -- E completando doze edições, o Rec-Beat em 'te ano, é dedicado à memória de Chico Science, e prossegue com sua principal característica que é a de revelar novos talentos e abrir 'paço na programação do Carnaval Multicultural do Recife para abrigar atrações diferentes e ousadas. O festival é uma forte referência para o carnaval de Pernambuco, que agora passa a trazer nos palcos principais de seus pólos, grupos que começaram a despontar em 'te «pólo alternativo». Há 12 anos inovando e promovendo uma saudável mistura musical, o Rec-Beat se aprimora em sua principal característica que é a de 'tabelecer pontos de contato entre tradição e novas tendências. Em 'te sentido, despontando como grandes promessas, grupos como Vanguart, Bonde do Rolê, Montage, Digitaria, Canja Rave, Supergalo e Zefirina Bomba representam bem 'sa nova geração de grupos nacionais, diferentes entre si e dispostos a conquistar novos 'paços. De outro lado, um pouco da história da música brasileira aparece aqui capitaneada por Tom Zé (que dispensa apresentações), Isca de Polícia (banda de Itamar Assumpção, expoente da música de Vanguarda Paulista nos anos 80) e Instituto (que se apresenta com repertório exclusivo do álbum Tim Maia Racional). E com a responsabilidade que adquiriu com os anos, em se manter diferente e original buscando os novos expoentes da música pernambucana, o Rec-Beat aposta na diversidade das produções locais, a exemplo da participação dos grupos Digital Groove, Parafusa e Trombonada, Mellotrons e Rivotrill. E como já se tornou tradição, mesmo com shows noturnos, o Festival Rec-Beat promove eventos 'peciais durante as tardes, como a concentração do irreverente Bloco Quanta Ladeira, que acontece no domingo (18), sob comando do compositor Lula Queiroga em parceria com Lenine. Através de sátiras de músicas conhecidas e canções carnavalescas em tom hilário, sempre acompanhados de convidados ilustres, eles não perdoam ninguém e fazem a festa em meio à multidão que já acompanha o bloco. E além das opções de diversão para jovens e adultos, o Rec-Beat conta com uma edição vespertina na segunda de carnaval: é o RecBitinho com blocos e atrações voltadas ao público infantil. Em 'te ano o Rec-Beat mirim traz a Cia do Teatro Rasgado para apresentar o belíssimo 'petáculo de rua «O Pequenino Grão de Areia», com textos e músicas de João Falcão e dirigido por Luciana Lyra. Vale lembrar que o Rec-Beat, assim como o Carnaval Multicultural do Recife, é gratuito e aberto para público de todas as idades e lugares. Com tanta oferta de atrações legais e gente animada, dá pra perder o Rec-Beat? Senão, só no próximo carnaval! Programação -- RECBEAT 2007 Sábado -- 17/02 19:30 -- DJ BIG & Confluência (PE) 20:30 -- ERASTO VASCONCELOS (PE) 21:30 -- Digital Groove (PE) 22:30 -- SUPERGALO (DF) 23:30 -- ZEFIRINA Bomba (PB) 00:30 -- Z ` AFRICA Brasil (SP) Domingo -- 18/02 16:30 -- CONCENTRAÇAO Bloco Quanta Ladeira 20:30 -- Canja Rave (RS) 21:30 -- RIVOTRILL (PE) 23:00 -- Isca De POLICIA (SP) 00:15 -- Digitaria (MG) 01:20 -- Bonde De o ROLÊ (PR) Segunda-FEIRA -- 19/02 17:00 -- RECBITINHO: CIA Teatro Rasgado / " O PEQUENINO GRAO DE AREIA " 19:30 -- MELLOTRONS (PE) 20:30 -- VANGUART (MT) 21:30 -- RAIES Dança Teatro (SP) 23:00 -- MR CATRA (RJ) 00:00 -- Instituto / Show Tim Maia Racional (SP) 01:20 -- MONTAGE (CE) Terça-feira -- 20/02 18:30 -- Maracatu Nação CAMBINDA Estrela (PE) 19:30 -- João De o PIFE E Banda Dois Irmãos (PE) 20:30 -- PARAFUSA & TROMBONADA (PE) 21:30 -- CURUMIN & The Aipins (SP) 23:00 -- 2 IN-PAR (ESP) 00:00 -- Macaco BONG (MT) 01:20 -- Tom ZÉ (BA) Festival RecBeat 2007 Quando: 17, 18, 19 e 20 de fevereiro Onde: Cais da Alfândega (às margens do Rio Capibaribe) -- Recife Antigo -- Recife / PE Horários: A partir das 19h30 -- exceto o Quanta Ladeira às 16h30 (no domingo, dia 18) e Recbitinho às 17h (na segunda-feira, dia 19) Capacidade do local: 30 mil pessoas Ingressos: Entrada Franca Número de frases: 84 Em 2006, no ano passado, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, o policial militar André Batista e o ex-PM Rodrigo Pimentel, agora pós-graduado em Sociologia, 'creveram um livro no qual contam as aventuras e desventuras dos policiais que «arriscam a vida no cumprimento de seu dever constitucional, com dignidade e coragem». No entanto, parecem reconhecer os «casos sucessivos de corrupção e brutalidade [que] feriram de morte, no Rio, a confiança da sociedade em suas polícias». O livro é cruel, como o primeiro texto faz questão de definir. Chama-se «A Elite da Tropa». Em o prefácio, há um conceito interessante que, por si só, pode justificar a edição do livro: para que um objetivo como o da reconciliação entre sociedade e polícia seja possível, «é preciso olhar nos olhos a verdade e reconhecê-la, sem meias palavras e subterfúgios, sem hipocrisia e retórica política». Muito bom. A mensagem é clara: ao invés de tentar provocar o ódio, a denúncia das atrocidades eméritas do Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (BOPE), se busca o luto, a conscientização da perda, da desgraça que ronda os participantes da «guerra muito particular» entre policiais e pobres no Rio. O que os autores pretenderam, então, é fazer o que Fausto Wolff propõe na epígrafe do livro " O Campo de Batalha sou Eu ": É arrasador rasgar a realidade e suportar a verdade que ela encobre. A surpresa pode ser fatal, entretanto é preciso tentar; decidir entre o exercício da morte ou o aprendizado da vida. Belas palavras, fulgurante proposta. Não é possível saber se os autores conseguiram o que propuseram, ainda. No entanto, é elogiável a intenção. Tomando 'sa intenção no seu sentido mais radical, propondo que, se é para suportar a cruel realidade, é preciso dizer outras coisas ainda sobre a polícia, 'crevo 'te texto. Já se falou, como exposto, da Elite da Tropa e, num filme lançado recentemente, se falou também numa Tropa de Elite -- referida ao mesmo BOPE. Não se falou, ainda, numa Tropa da Elite. Os enfoques são diversos, vértices diferentes de observar o mesmo fato ou fenômeno. Tropas insanas. A «tropa de elite» remete a um destacamento da polícia militar que se destaca por o nível de 'pecialização em suas ações. Especialização, de acordo com os relatos do livro, n, principalmente, agressividade e crueldade. Mas, não somente isso. São 'pecialistas em guerra. Guerra contra pobres. De acordo com o filme, são policiais honestos. Honestidade não inclui, em 'se caso, o matar e torturar. Tudo em nome da lei. O problema pode 'tar na ilusão de que a lei atende à sociedade. Problema maior é 'tar a serviço daqueles que lucram com a lei. A «elite da tropa» remete a algo semelhante: os que se destacam na elite por tornar pública a vida e os sentimentos da «tropa de elite». Em 'sa perspectiva se valida a proposta do livro. Não se valida, porém, acreditar que a guerra é contra o comerciante de drogas no morro. Será que alguém ainda acredita que os US$ 500 bilhões / ano que são movimentados no mundo por o movimento de venda de drogas vão para as mãos dos pobres? A posição da polícia no Rio de Janeiro é das mais delicadas. É muito difícil justificar suas ações. Menos complicado é entender o porquê da sua existência e o sentido de suas práticas. Tanto o filme, quanto o livro, nos dão versões localizadas, internas à «tropa». De forma transversa, podem nos dar indícios, também, de sentidos singulares de subjetividades. Os soldados de elite parecem ter um «amor por o Brasil» e uma convicção de que são predestinados a combater o crime acima da média. Há uma crença obsessiva de que se a realidade puder ser controlada por a polícia, o crime cessará. Uma idealização algo infantil do poder organizativo e democrático da lei e, principalmente, de seu sentido sócio-político. Como indivíduos, o pessoal do BOPE seria idealista: o crime é um câncer e eles a cura. Só que ninguém lhes explicou que extirpar o sintoma não acaba com a doença. É muita insanidade acreditar nisso. Uma elite a serviço da elite? Por 'ses singelos motivos, o «homem da roupa preta» (o BOPE se veste assim) que se julga «elite», não é mais do que bucha de canhão da verdadeira elite. É, levando em conta o treinamento animalesco descrito no livro e encenado no filme, uma fera que a elite treina e envia para as comunidades pobres. Em vez de «tropa de elite», são, fundamentalmente, a» tropa da elite». E nem mesmo os que o livro considera a «elite da tropa» parecem entender isso com a devida seriedade. Pode-se argumentar que os «traficantes» (por que os vendedores de bebida não são também assim chamados?) são também «feras», cruéis etc.. E o são. Não é, como muitos argumentam, adequado dizer que simplesmente são «vítimas da sociedade». São, isso sim, como já disse em meu trabalho " O charme do crime midiatizado: desconstruindo uma guerra a Beira-Mar», bons alunos. O mundo corporativo, o das grandes empresas psicopáticas (o filme Corporation é bem ilustrativo para entender isso), ensina todos a ser comerciantes sem 'crúpulos, a não considerar o outro, a fazer tudo o que for possível para obter vantagens, a destruir o que for se isso resultar em lucro. Depois, com uma razão cínica pernóstica, solta as feras fardadas para «conter» as feras faveladas de short e sandálias. Os policiais do BOPE retratados no filme, com seus ideais de conduta e ferocidade na defesa da legalidade, bem poderiam ser considerados os mais sãos da história, não fosse o delírio presente em 'ses ideais. Enquanto acreditam piamente na força da lei e que matar é a solução para as feras pobres, agem de forma a preservar e perpetuar não apenas a injustiça, mas de modo a perpetuar a violência e insuflar mais ódio. As elites agradecem à «elite da tropa» e à «tropa de elite». Exercício da morte. Os tais «traficantes» são o correlato dos terroristas do Jihad ou da Al Qaeda. São o «eles» do «choque entre civilizações», a versão tupiniquim do» império do mal». E, para combatê-los, há 'sa «tropa da elite» chamada BOPE, uma versão nossa dos «marines». A tal «classe média», no meio do fogo, geralmente julga que 'sa tropa 'tá a seu serviço. Tola ilusão. Ela apenas acirra o problema que, como sabemos, tem 'tourado em 'sa camada social e, tudo indica, continuará a 'tourar com cada vez maior ódio. Mesmo que se levem em conta as boas intenções dos autores do livro, não nos parece que a verdade 'teja sendo olhada nos olhos, sem meias palavras. Também é um tanto duvidosa a intenção do diretor do filme de, segundo palavras de ele no canal Brasil (Globosat), de acirrar o debate. Faltou algo, o mais importante. Parece ter ficado de fora a surpresa quase fatal que Fausto Wolff citou. Número de frases: 75 Em o fim da história, fica a dúvida se não se decidiu por o exercício da morte ao invés do aprendizado da vida. Em a terça-feira, dia 14 último, as ruas de Vitória (ES) foram tomadas por um «bonde» que tinha muito para falar. Tudo começou com uma operação da Secretaria Estadual de Segurança Pública no final de semana que passou por bailes funk de todo o 'tado, efetuando as tais «abordagens» e «ocupações», culminando inclusive com o fechamento de algumas casas. Para completar, no domingo o secretário Rodney Miranda deu uma entrevista para um jornal de grande circulação em que se dizia impressionado com o que viu nos bailes, inclusive com as atitudes das frequentadoras, sob o título «Funk assusta Rodney». Pronto, não faltava mais nada. Em a terça-feira a tarde a galera ocupou as ruas, com caminhão de som «chapando» os sucessos dos bailes e mais alguns clássicos, prometendo para todos que em 'te dia o baile seria na rua, com a presença maciça de jovens, Mc ´ s, equipes de som e Dj ´ s de todo o 'tado. Passando por algumas das principais vias da cidade, o movimento impressionava, muito por conta de seus manifestantes: o olhar de perplexidade de muitos ao ver que se tratava de funkeiros protestando por a liberdade dos bailes e contra o preconceito era sintomático. Mas enfim o processo de familiarização, desta vez por meio dos próprios frequentadores dos bailes, de peito aberto para toda a cidade, se apresentando para falar «'tes somos nós!». E majoritariamente (como 'tava bem representado e se frisava no protesto) são jovens, pobres, dos bairros periféricos da capital e sua região metropolitana que não frequentam as boates dos bairros nobres. Pessoas que aproveitam os bailes para se divertir, encontrar a galera e paquerar. E assim constroem sua identidade, seus grupos, sua família. Este é só o começo por aqui. Ainda há muito por vir, muito se promete. Questionando o caráter de cultura popular dos bailes a um policial, ele disse para mim que «infelizmente o funk hoje é cultura sim, cultura popular». É isso, não adianta chorar, agora é a vez do funk e dos funkeiros. E eles têm muito o que falar, acredite. Número de frases: 17 Lembra daqueles livros de infância que vinham com uma fita para você 'cutar a história? Substitua o livro por um encarte e a fita por um cd. Agora ligue o som, pegue o encarte e prepare-se para conhecer personagens que variam desde um menino que não queria chorar e por isso ligou para o presidente até a solidão de um homem na corda bamba. Uma voz inconfundível anuncia: «O ponto de partiiiidaaaaa». Tem início o Ciclo da Dê. Cadência de Fernando Catatau e do Cidadão Instigado e, nosso leitor-ouvinte é transportado para 'se outro mundo. -- O põe. tu de parto. ida Uma parceria de Lampião com Stevie Ray Vaughn, se o primeiro fosse músico e se ambos 'tivessem vivos em 2001. Acrescente um fortalezense com um sotaque carregado e uma voz meio desafinada dizendo bem alto " Ô coisinha tão bonitinha do pai. Ôôô coisinha linda. Ô Meu Deus do Céu». Essa é «O verdadeiro conceito de um preconceito», música de abertura do cd. Os triângulos de Rian Batista juntamente com as congas de Simone Soul vão dando melodia a primeira faixa do cd. Tudo isso contando também com os que compõem o Cidadão Instigado só poderia ter um resultado: música de qualidade. A autoria dos componentes desse Ciclo é somente de Catatau, exceto por a faixa seguinte, que é uma parceria com " Regis Damasceno. «Lá fora tem um lugar que me faz bem e eu vou lá ...», vem com a base nos violões e uma letra simples que é recitada por Catatau com gemidos, gritos, agudos e afins. -- Ir. luz. on Enquanto 'cuta os três minutos iniciais de música instrumental, o leitor-ouvinte aproveita e acende um cigarro. Catatau então anuncia a história seguinte «O caboré». Em meio aos metais ele continua: «Minha gente agora vou lhes contar uma história diferente. De um menino que num queria chorar e ligou para o presidente». Ao longo dos quase doze minutos, Catatau vai conciliando o ritmo das palavras com o dos instrumentos e o personagem ganha vida na mente do leitor-ouvinte que 'tá ali, 'cutando, lendo e vendo os desenhos. Virando o encarte e seguindo as setas, ele acompanha agora a história de um cara que 'tá no chão, caindo em falso, assoprando e continua lá, no «Chão». Um reggae psicodélico chega e Catatau parece que 'tá correndo mesmo até não ficar mais seguro. -- Parte. indo o ser «Chão» emenda com o narrador anunciando a próxima parte: «Partindo o ser». Uma balada dançante começa. O leitor balança os pés e vai virando o encarte de ponta a cabeça e seguindo mais uma vez as setas para acompanhar a «Minha imagem roubada». A brincadeira com as palavras e sílabas é 'crita exatamente como Catatau vai contando «Di -- di -- gen -- sim -- ti -- telé apenas eu e minha imagem roubada». Chega então «O homem na corda bamba». Um cantador anuncia que «Olhares 'paciais varam a noite na mesma triste agonia de um ser humano que arrasta um cobertor e que quando chega o frio convive sozinho com a própria dor». Assim vai se desenrolando 'se conto, e, a mistura de vários 'tilos característica do Cidadão Instigado, logo chega fazendo o leitor-ouvinte se deparar com algo inusitado. Para saber como 'se conto termina, só perguntando ao leitor-ouvinte ou 'cutando você mesmo. Eu me reservo ao direito de não revelar. -- A mente. ira As pessoas gritam e Catatau fala: «Zé Doidiimmmmmmmm -- Você tem apenas uma máscara. Mas Zé Doidiimmmmmmmm -- Toda máscara arrebenta no elástico». Ele chegou. O tão famoso «Zé Doidim» (que voltará mais tarde em outra viagem, mas isso são cenas dos próximos capítulos, ou das próximas resenhas, se você preferir). É na faixa oito que 'se personagem é apresentado pela primeira vez. Em quatro minutos Catatau conta quem é Zé Doidim e toca um reggae, mas de 'sa vez diferente do já citado. Um reggae intercalado com trechos instrumentais que têm os metais e a bateria como base. O leitor-ouvinte então vira o mini-livro mais uma vez e lê na vertical «Você e eu». O autor então recita uma 'pécie de poema com alguns efeitos sonoros. Um baixo começa e sua base vai correndo solta durante o um minuto e meio de introdução da faixa dez.. «Faith I don't give it but hey rich man you ' re still going to smell your own Wind», com direito a um trecho em inglês Catatau vai contando uma crônica com o título de «Vento é dinheiro enquanto não sai por detrás e entra venta adentro». Uma parte interessante de 'sa faixa é o diálogo com várias pessoas falando ao mesmo tempo, que aparece ao longo da música. -- O põe. tu de parto. ida Aquela voz inconfundível do início anuncia novamente «O ponto de partiiiidaaaaa», mas de 'sa vez com um choro sofrido por ter chegado o final do Ciclo. Como não podia deixar de ser, o Ciclo acaba onde começa. Catatau recita «Há decadência» ao mesmo tempo e em compassos diferentes. Com sons simples para que o leitor-ouvinte preste atenção no que 'tá sendo falado. A forma como é 'crito «decadência» no encarte é interessante e eu não vou lhe contar para despertar a sua curiosidade. Virando por a última vez o mini-livro, na vertical agora ele acompanha «Todas as vozes do mundo» contando sobre o silêncio que é " A voz do mundo. É a voz para o surdo». A faixa treze intercala entre partes faladas e outras cantadas. Esse jogo de Catatau é bem interessante e a forma como se decidiu compor 'se casamento é bem sucedida. Os quatro minutos finais vêm em meio a sons curiosos, gemidos e gritos com o Cidadão Instigado apresentando a versão elétrica de «Lá fora tem ...». O leitor-ouvinte vê que agora 'tá tudo em silêncio. Olha para o som e lá marcam exatos 64:38. Mais ou menos uma hora se passou e em meio aos devaneios de Fernando Catatau que lhe contou crônicas e contos além de ter lhe recitado poemas, ele olha para o lado e vê ali, «Cidadão Instigado e o método tufo de experiências». Mas isso é outro capítulo ... Número de frases: 71 (texto originalmente publicado no site O Dilúvio -- www.odiluvio.com.br) -- Quero que vocês desenhem o cheiro da coisa que mais gostam. Havia dito a professora. Agora ela recolhia as folhas com desenhos de chocolate e outras guloseimas. Entre as folhas, o desenho de uma mulher. As crianças riram, a menina tinha errado. -- Que cheiro é 'se que você desenhou? Perguntou a professora. -- Cheiro de mãe. Quem amarrou o meu canto que tantos gostavam tanto? -- A educação formal não dá bola para a música e a poesia. Diz Edu Pacheco, mestre em educação e músico. O «caso do cheiro de mãe» foi uma exceção, aconteceu antes mesmo da professora participar da oficina do Pandorga da Lua. Ela deu-se conta que havia algo por trás: o conselho tutelar só permitia que a menina visse a família nos finais de semana. -- O inusitado é que através de uma imagem, que podemos chamar de poética, a criança se expressou. Este é um dos focos do trabalho de poesia. A possibilidade de expressão, oportunidade de se colocar no mundo. Mas, no lugar de usar um caminho usual, a poesia cria outros 'paços, outras formas de interferência na vida. Explica Edu. Algumas vezes, os professores começam as oficinas demonstrando tédio e incomodados por terem que se envolver com atividades que provoquem reações diferentes das habituais, que modifiquem o cotidiano 'colar. Começam. Uma vez, uma professora já chegou dando as cartas: -- Eu não gosto desse negócio de poesia. Minha filha passa o dia inteiro em casa discutindo arte com os amigos. Em vez de sair para a rua ... Ricardo Freire, Edu Pacheco e Ângela Gomes incentivaram a professora a cantar, tocar instrumentos musicais (mesmo ela não sabendo), analisar canções, compor, criar poemas, fazer exercícios lúdicos. Ela conheceu uma porção de ritmos presentes no caldeirão musical do Rio Grande do Sul. Colou e recortou figuras para o seu travesseiro do sonho e o do pesadelo. Em o fim da oficina, era outra pessoa. -- Agora eu entendo porque minha filha gosta tanto de discutir arte com os amigos. Disse. Por que moro na cadeia, casa apertada e feia? Em as oficinas do Pandorga, os professores viram alunos e se colocam no lugar das crianças. Entendem o que é 'tar / ser inibido, o que é se expor na frente dos colegas. Depois levam tudo isso para sala de aula. -- Eles experimentam, vivenciam, refletem a criação. Dão-se conta que podem criar. Diz Ângela, professora de educação 'pecial, psicopedagoga e cantora. Refere-se às crianças, mas vale também para os professores. O grupo musical Pandorga da Lua começou em 2001. O músico Ricardo Freire pegou poemas do seu amigo, psiquiatra e poeta Jaime Vaz Brasil e passou dois anos musicando-os. Fez pesquisas junto ao Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore em Porto Alegre, RS, entrevistou músicos e 'tudiosos da área a fim de descobrir mais detalhes sobre a origem e a execução dos ritmos que convivem na cultura musical do Rio Grande do Sul, perguntou e perguntou, de modo que em 2003 o Pandorga não só 'tava maduro como ficando bastante conhecido. Em as gravações, juntaram-se Lucinha Lins, Geraldo Flach, Yamandú Costa, Renato Borghetti, Luiz Carlos Borges, Mano Lima ... e tantos outros. Em 'te período, as poesias já existiam também em forma de imagem, ilustradas por a artista plástica Paula Mastroberti. O show de 'tréia foi no Teatro Treze de Maio, em Santa Maria, RS, em 2004. Ricardo 'tava nervoso. Dois dias antes, confessou isso a Geraldo Flach. Geraldo não faria parte do show. -- Sejas tu. Disse Geraldo. E Ricardo Freire foi Ricardo Freire. O show foi um sucesso. E uma novidade: Ricardo nunca antes tocara para crianças. Em a segunda música, «O Rabo da Cobra», quando soaram os tambores que executavam um dos ritmos afro-gaúchos, o maçambique, uma criança chorou. Ricardo fez sinal para o percussionista, começaram a tocar mais baixo, para não assustar. Ricardo e cia. deram continuidade ao show assim, com empatia, sentindo o clima da platéia, propondo brincadeiras, danças, incentivando a criançada a se expressar. De certa forma, as oficinas do Pandorga começavam ali. Preso dentro da gaiola, o alpiste é só 'mola. Em 2005, o Pandorga foi para as 'colas. Além das apresentações, o grande objetivo de Ricardo era experimentar a ligação que o projeto poderia ter com a educação. Nessa altura, Edu Pacheco havia se juntado ao grupo. Ele já tinha uma boa quilometragem no uso da música como instrumento pedagógico. -- Não a música para ensinar outras matérias. É a música por a música. Diz Edu. Pode até ser que a arte acabe levando para 'se lado, para a ilustração ou aprendizado de alguma matéria. Mas a intenção é outra. É abrir um novo caminho de consciência para professores e crianças acostumadas com as rotinas do ensino convencional. É 'timular a percepção, a subjetividade, a cognição, a sensibilidade. É criar um mundo interno. E externo. É apresentar o inédito para as crianças, despertar seu interesse por a busca da novidade. É apreciar, criar, fazer arte. É aprender que, num modelo lúdico de ensino, tudo é jogo, e errar não existe. -- Em a educação convencional, errar é feio. Você é avaliado por «certo ou errado». Diz Edu. Mas por que errar? Ou melhor: por que não errar? O que pode em 'se mundo ser maior e mais bonito do que abrir asas, voando no azul do infinito? Ainda em 2005, em paralelo com as experiências das oficinas, o 'petáculo musical do Pandorga foi incrementado com a presença de artistas protagonizando a Camila e o Anacleto, personagens das canções de Jaime Vaz Brasil e elos de ligação e comunicação com a platéia. Um ano depois, ficou pronto o livro / cd do Pandorga da Lua. O lançamento foi no Teatro Treze de Maio. A partir de 2007, embalado por a conquista do Prêmio Açorianos de Música Infantil, o Pandorga passou a dar vôos cada vez maiores. A convite do governo brasileiro, fez apresentações no vizinho Uruguai. O que não impediu a continuidade dos sobrevôos regionais: beneficiados por a Lei de Incentivo à Cultura municipal, Ricardo e cia. saíram com uma Kombi por distritos próximos a Santa Maria. Interagiram com crianças em ginásios, quadras de 'porte, pátios de 'colas (tendo duas árvores como palco), auditórios, feiras, festivais ... Várias vezes foram recebidos com corais de crianças cantando os versos de Jaime Vaz Brasil. Várias foram as homenagens e retornos apaixonados por o seu trabalho. Por isso e por tantos outros motivos, as oficinas do Pandorga são oficinas também para Ricardo, Ângela e Edu. Eles 'tão sempre aprendendo e se emocionando com o que fazem. Quem sabe tanto quanto os professores que, interpretando os versos da música «O Sumiço do Céu», costumam dizer que passaram por uma transformação pessoal durante as oficinas. São como o pássaro preso na gaiola: «o alpiste é só 'mola». -- Muitos se sentem prisioneiros do sistema formal de ensino. Diz Ricardo. Ou melhor, canta. Número de frases: 109 Tirar do freezer direto para o microondas. Depois de descongelado, acrescentar um tempero extra, 'perar um pouquinho e comer. A comida congelada é uma das conquistas da vida moderna. Com ela, o sujeito pode reaproveitar uma delícia preparada há um tempo atrás e mandar brasa num dia de solidão e vagabundagem. Em alguns casos, após a temporada no congelador, o rango concentra o sabor e fica ainda mais gostoso. É o caso da feijoada. Mas em alguns momentos o resultado é o oposto e a comida perde completamente o sabor e fica parecendo mistura bizarra de gás de geladeira, azedume etc. O evento Brasilintime 'teve longe de repetir os efeitos da nossa citada feijoada na última sexta-feira. Se não foi azedo, não proporcionou a satisfação da primeira visita do projeto há uns dois anos atrás. Basicamente, a idéia era reunir ritmistas de várias localidades e DJs americanos e brasileiros. Com isso, tentar produzir música dançante e, de um certo ponto de vista, inovadora (discuto isso aí lá embaixo). Não sei o que aconteceu mas não funcionou, pelo menos na sexta-feira. Talvez seja o lugar -- o Teatro do Sesc Pompéia --, onde as pessoas não podiam dançar. Tinham de assistir a tudo sentadas. Mas pode ser que o negócio tenha caducado, perdido o tempo e a mistureba não faça mais sentido, tenha saído de moda. O insucesso da festinha pode se dever também ao fato de que só um dos bateristas americanos da primeira edição do Brasilintime participou em 'se repeteco. Por o que sei, os gringos que vieram há uns dois anos atrás já haviam tocado em outro projeto -- o Keep in Time -- com os DJs. Por isso já chegaram mais entrosados com eles. Não sei, só 'tou chutando aqui pra tentar entender o que mudou. Afinal, o evento contou com dois bateristas muito importantes criadores de gêneros com grande importância rítmica como o Wilson das Neves -- um dos principais bateristas da música brasileira -- e o Tony Allen -- que, se não foi pai, deu comida na boquinha do afrobeat, desde que o gênero era bebezinho --, além de alguns DJs famosos como Madlib e o J Rocc. Não apareci na primeira festa. Só sei que foi um sucesso e uma satisfação poucas vezes vista entre o público paulistano. Se tivesse sido ruim, o negócio não iria lotar o Sesc dois dias seguidos. Eu nunca fui entusiasta do evento. Principalmente porque o resultado, apesar dos 'forços, é muito pouco musical. Acho que acaba descambando pra uma coisa fácil no pior sentido da palavra. E a idéia da criação improvisada sempre vem meio embalada na vontade dos músicos se ajustarem ao que o público 'pera de eles. Vou tentar explicar melhor. A o tocarem juntos, os DJs querem soar o mais samba possível e o mais virtuosos que eles puderem. Os percussionistas também, mas se adequando a uma linguagem do hip hop. Com isso, cria-se uma falsa impressão de que algo novo 'tá sendo inventado ali. Em a verdade, o ritmo diferenciado das batidas usuais do rap ou da dance music acabam soando somente como mais um elemento -- um sample inédito -- em meio a scratches e outros sons lançados por os DJs. E o pior de tudo é que não existe interesse real de parte dos músicos e nem da organização de se explorar a coisa de um jeito mais musical. A idéia é jogar os clichês do mesmo 'tilo numa panela, ainda que com muita excelência, e ver no que dá. Mistureba O resultado fica parecendo uma mistura de workshop da Teodoro Sampaio (rua onde se localizam um grande número de lojas de instrumentos em São Paulo) com campeonato de DJ. Nada menos artístico e inventivo do que a técnica vazia, mas deixa pra lá. E, principalmente, ninguém vai muito longe do ponto de vista musical mesmo. O clichê impera e pode parecer tudo -- exibição técnica, bagunça, festinha, um samba-rap com pitadas de afrobeat, sei lá --, menos criação. Em o Brasil 'se discurso de misturar uma novidade internacional com algum elemento musical notadamente brasileiro vem sendo considerado a tábua de salvação da música nacional. É um discurso que pode ser visto em entrevistas com artistas, em artigos de jornalistas e até em conversa de boteco. O pessoal trata criação sonora como uma elaboração em que basta colocar elementos aparentemente modernos ao lado de ritmos regionais, e daí nasce uma inovação. Um produto novo. Melhor se o sabor local 'tiver distante do cardápio há um tempo. Em os anos 90, isso virou uma obrigação mercadológica. Para atingir o público de classe média, o rock-pop brasileiro deveria trazer entranhado elementos da música brasileira. A imprensa musical sentia uma necessidade gigantesca de renovação de artistas e, para isso, era absolutamente necessário uma certa ruptura com o rock brasil dos 80. Algo que diferenciasse o som de uma geração para o da outra. O pessoal aproveitou a onda do funk o'metal e embarcou geral. A aparição do mangue-bit, forró-core, caipira-groove e sei lá mais o quê foi a alegria para 'se povo. Venderam revistas e realmente criaram algo novo daí. Um produto novo e uma nova abordagem sobre a música brasileira. Mais para a frente, com os relançamentos de discos antigos da MPB dos 60 e 70, a nova tendência foi citar discos raros como referência fundamental. E assim prosseguiu. A qualidade na música brasileira passou a ser ditada por a capacidade de lançar produtos novos e velhos ao mesmo tempo. O objetivo era ser convincente ao lançar marcas que pudessem parecer algo maior e mais importante do que elas eram de fato. A música, na maioria dos casos, continuava um emboladão de trocadilhos, frases feitas e clichês musicais, Além disso, os músicos se contentavam e se acomodavam com uma fórmula que eles criavam e insistiam nisso até o possível. Depois, descobriam uma novidade internacional, um novo termo e a vida continuava. O fenômeno é notável nos discos dos Raimundos, do Marcelo D2, do Nação Zumbi e em muitos outros. Em o meu ponto de vista, o Brasilintime é um exemplo claro disso. Traz músicos interessantes e a intenção é excelente. Poderia até render. Só que o interesse por o clichê é tão grande que a criação fica deixada de lado. Número de frases: 62 É a justificativa fashion em primeiro plano. Sinceramente, tenho minhas dúvidas sobre o tão festejado poder transformador dos novos hábitos de consumo frente às práticas selvagens do capitalismo. Embora eu duvide que os consumidores consigam modificar a lógica das empresas (que, ao fim e ao cabo, têm o lucro como objetivo máximo), também não ignoro o papel militante do chamado consumo consciente em nossa sociedade. E é por isso que, apesar de serem os mais baratos, não compro arroz das marcas Faccio, Itikawa ou Acostumado -- e 'pero que você, após ler 'se artigo, também não compre! Não 'tou, felizmente, sozinha em 'ta campanha. O poeta Ribamar Bessa, em crônica publicada no «Diário do Amazonas», jornal de Manaus, já propôs o boicote a todas as marcas de arroz produzidos em Roraima, frutos da invasão da terra indígena Raposa Serra do Sol. Em minha 'tréia no Overmundo, eu 'crevi sobre o programa radiofônico «Vamos Aprender Macuxi», falado na língua do povo mais numeroso que tradicionalmente habita 'sa área (ao lado dos Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona). A Raposa Serra do Sol 'tá de novo sob os holofotes tendenciosos da mídia nacional, porque sua homologação em área contínua (efetivada em 2005, após 30 anos de luta do Conselho Indígena de Roraima -- CIR) 'tá sendo contestada no Supremo Tribunal Federal (STF). Muita terra para quem, cara pálida? Em 'ta sexta-feira (19 de junho), acompanhei na Universidade Federal do Amazonas o debate «Raposa Serra do Sol e o futuro da Amazônia». Impressionou-ma riqueza de dados da exposição do representante do CIR, Júlio Barbosa, do povo Macuxi, que desmontou um a um os argumentos contra a homologação em área contínua. Um dos mais freqüentes é de que é «muita terra para pouco índio». No caso da Raposa, são 1,74 milhão de hectares para 19.025 pessoas, com um crescimento populacional anual de 4 % (bem acima da média 'tadual e nacional). Atualmente, isso representa uma densidade populacional de 1,1 habitante por quilômetro quadrado -- que pode parecer baixa para os padrões do Sudeste, mas é quase o triplo da densidade populacional (0,4 hab / Km²) das demais áreas rurais de Roraima. Ou seja, com 7,7 % da área total do 'tado, a terra indígena Raposa Serra do Sol concentra 21,4 % de sua população rural (dados do IBGE, de 2007). Claro, pode-se argumentar que, de maneira geral, a população no campo é pequena. Mas, para isso, é preciso se questionar por que ela é reduzida? E a explicação será encontrada no processo êxodo rural ligado à concentração fundiária -- na Amazônia, implementado à base de chumbo e grilagem, com a conivência histórica do Estado. A triste ironia é que a opinião pública dificilmente se levanta para reclamar que «é muita terra para pouco latifundiário». Quantos cabem no seu todos? Outro argumento falacioso é o de que a demarcação dos territórios indígenas em áreas de fronteira ameaça a soberania nacional. Sindicatos, movimento 'tudantil, teatro, literatura, cinema, artes plásticas, muitas já foram as vítimas desse pseudo-nacionalismo militarista. O discurso autoritário, que não reconhece nossa diversidade cultural e étnica (afinal, serão os militares mais brasileiros que os povos indígenas?), de vez em quando volta à tona, em declarações preconceituosas como a do comandante Militar da Amazônia, general Augusto Heleno. Supostamente fã de Hugo Chavez, o líder dos arrozeiros e prefeito do município de Pacaraima, Paulo César Quartiero, declarou à imprensa que gostaria de ver parte do território de Roraima incorporado à Venezuela. Ele acredita que, com isso, conseguiria manter a posse das suas fazendas localizadas dentro da Raposa Serra do Sol -- de onde já deveria ter saído, no máximo, em 15 de abril de 2006, já tendo recebido (depósito em juízo) a indenização correspondente. Por que o Exército e os formadores de opinião não acusam o latifundiário de ser uma ameaça à soberania nacional? Basta de violência: comece por o seu prato Mas talvez a maior ameaça representada por os arrozeiros de Roraima, mais do que o risco à soberania nacional, seja a destruição do meio ambiente e das pessoas que em ele vivem e de ele cuidam. As plantações irrigadas de arroz funcionam à base de agrotóxicos, desmatamento, contaminação do solo e das águas. Não por acaso, no mês passado, o Ibama multou Quartiero em R$ 30,6 milhões, por crimes ambientais. Não por acaso, também, o líder dos arrozeiros foi preso por a Polícia Federal, por se auto-proclamar mandante dos ataques ocorridos contra os indígenas no último dia 5 de maio. Desde 1981, de acordo com dados do CIR, 21 indígenas Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona foram assassinados na luta por a demarcação da Raposa Serra do Sol, 103 sofreram atentados e agressões físicas, 10 mulheres foram 'tupradas. A violência se volta também para os bens materiais das comunidades, com impressionantes dados de construções destruídas e / ou queimadas: 90 casas, 31 retiros comunitários, oito roças, três 'colas. O processo de identificação, demarcação, homologação e registro da terra indígena Raposa Serra do Sol, iniciado formalmente em 1993 (e concluído em 2005), seguiu todas as etapas e atendeu a todas as exigências 'tabelecidas por a Constituição Federal de 1988. Em agosto próximo, os ministros do STF decidirão se rasgam ou não parte da nossa Carta Magna, no seu aniversário de 20 anos. A nós, reles mortais que temos a proclamada liberdade 'tabelecida por o mercado, cabe-nos decidir se queremos ou não ter em nossas mesas o arroz sangrento de Roraima. Comprar produtos das marcas Faccio, Itikawa e Acostumado é ser conivente com o crime. Número de frases: 40 Milhares de pessoas 'tão tendo a oportunidade de conhecer a história e evolução do grafite em Salvador através da exposição «A Arte na Rua» do profissional de Relações Públicas que também é doublé de fotógrafo e artista plástico, JFParanaguá. Em uma mostra inédita, as imagens capturadas por Paranaguá, em ordem cronológica, registraram um ciclo evolutivo de 'sa expressão de arte e protesto das ruas, onde se pode observar claramente as mudanças conceituais das mensagens. A exposição também traz depoimentos dos grafiteiros, documentando o trabalho destes artistas de rua, que em mensagens cifradas incorporam a outros signos de comunicação urbana as suas marcas, os seus recados à sociedade. Grito de guerra de excluídos, dos que vivem à margem da sociedade, expresso em palavras ou frases, o grafite experimenta no momento uma tentativa de cooptação do poder, no caso do poder municipal: na tentativa de preservar a integridade de monumentos e áreas públicas a Prefeitura oferece 'paços aos pichadores para desenvolverem seus trabalhos. Como resultado, trabalhos mais «enquadrados ao sistema» «politicamente corretos " " 'teticamente adequados» ... Uma das alas mais movimentadas do Shopping Iguatemi de Salvador, ficou pequena para receber tantos visitantes. Número de frases: 7 Agora 'tá explicado.) ( Trecho de um quase ensaio que 'crevi sobre o Cheiro do Ralo, de Heitor Dhália) O cinema já nos deu de tudo. De galáxias exóticas a corredores desinteressantes, todo tipo de universo já foi construído. Alguns até repetidamente sem cansaço. Outros, raros, carregados de unicidade. Mas de qualquer maneira, a criação e o desenvolvimento de uma diegese particular por parte de um cineasta (e de qualquer artista), é um processo interessante, 'pecialmente quando consegue 'tabelecer o contrato de credibilidade: agora siga a linha desse pensamento e volte apenas quando a obra terminar. Talvez alguns indaguem -- e com certa razão -- que qualquer filme é, necessariamente, a criação de um universo particular. Mas não acredito que a minha frase anterior 'teja carregada de uma redundância qualquer. Enquanto pressuposto faz sentido, mas na realização propriamente dita, quão mais elementos entrem na lógica, por mais nonsense que ela pareça, do universo proposto, mais complexamente vai funcionar a formação diegética. E mais propenso ao contrato vai 'tar o 'pectador. Não é fácil convidar um total 'tranho a se entregar a uma realidade 'quisita, sem que em poucos minutos ele 'teja questionando a fonte do fantástico e 'trague tudo. E justamente a partir de 'sa perspectiva, que resolvi 'crever sobre O Cheiro do Ralo (Brasil, 2007), de Heitor Dhália. O diretor propôs o contrato e eu o assinei sem delongas. É impressionante como todos os elementos, da música aos objetos, dos diálogos aos personagens, da edição ao figurino convergem numa mesma direção, de tal maneira que o universo sugerido se torna extremamente firme, com uma 'tética extremamente concisa, própria, coerente; ainda que tudo seja 'drúxulo, 'drúxulo ao limite. Fica uma sensação de sincronia criativa e bizarra extremamente confortável. Particularmente tenho interesse nos universos, que tomam a realidade cotidiana para si e iniciam um processo de deformação sutil, até alcançar um 'tágio surrealista ou 'quizofrênico. Ou os dois simultaneamente se alguém conseguir chegar a um conceito que bem os diferencie. É como numa foto tremida, pois, apesar de ainda existirem referências ao que foi fotografado, não há dúvida que 'se referencial se tornou outra coisa, por conta das deformações presentes. Peixe Grande, de Tim Burton é um bom exemplo disso -- funciona até mesmo como metáfora de 'sa questão. Particularmente gosto quando um cineasta propõe, desenvolve e assume um universo num filme. Um universo seu; criado por si; envolto nas mais diferentes inspirações suas -- ainda que adaptação de uma obra outra. Não há aquele temor de segurar um discurso quebrado sobre verdade. Acredito que é justamente em 'sa deformação que reside o valor artístico de uma obra; que é em 'sa diferença entre o que se torna objeto e o que era sujeito, em 'sa maneira de brincar com o olhar de quem vê e de quem faz, que o aparato técnico passa por o filtro humano. E 'se tipo de coisa, me lembra a primeira sensação que eu tive ao ter contato com quadrinhos, ainda guri. De 'sas histórias, as que eu mais me interessava (porque obviamente nem todos seguem 'sa lógica) 'tavam 'tritamente ligadas a uma realidade que nos pertence cotidianamente, ao mesmo tempo em que, constrói um segmento fantástico que desvincula totalmente de qualquer dia-a-dia. Um ponto que se aproxima e se afasta, até se tornar sem distância. Essa ambivalência me fascina. Não à toa Peter Parker era um dos meus amigos imaginários mais freqüentes. E se em Nina, já havia uma passagem clara de um 'tágio de normalidade habitual a insanidade extrema, O Cheiro do Ralo, consegue consolidar 'se percurso ainda com menos deslizes. Em a verdade, o primeiro longa-metragem do diretor é extremamente importante no segundo. Soa como uma evolução natural, como um desenvolvimento natural. E ter visto que vários nomes se repetiam na equipe das duas produções, certamente me deixou muito feliz. De um filme ao outro, há um aprendizado imenso que pode ser percorrido por quem assiste e que necessariamente foi percorrido por quem fez. Bom para todos ao final. Publicado originalmente no blog: Número de frases: 41 http://velhoshabitos.blogspot.com/ Quase meia hora antes de Paraty, envolvido por a área do Parque Nacional da Serra da Bocaína, o pequeno município de Sertão do Taquari guarda, além de gente simples e tranqüila, parte de uma imensidão de Mata Atlântica que por sua vez preserva uma 'pécie rara em tempos de aquecimento global, agronegócios, MDLs (Mecanismos de Desenvolvimento Limpo) e morte de trabalhadores do campo por exaustão. Trata-se de uma tradicional família de agricultores de subsistência, localizada num sítio a 240 metros de altitude da Serra, ao qual só se é possível chegar depois de uma hora de trilha a pé em mata fechada, passando por trechos sinuosos, pedregosos, inclinações exaustivas e paisagens recompensadoras como as do Rio Taquari e de toda a flora local. Em 'te raio de distanciamento de referências urbanas mínimas como a energia elétrica, o Sítio São José fica assentado numa área de 29 hectares divididos para o plantio de frutíferas, hortaliças e ervas medicinais; para um pequeno gado mantido por a produção e consumo próprio de carne e laticínios; para reflorestamentos agroecológicos, e para abrigar a vida da família Ferreira, responsável por construir e cuidar de tudo isso há pouco mais de 20 anos. O casal de agricultores José e Carmelita Ferreira, de 52 anos, acompanhados dos filhos Jorge, de 25 anos, Thiago, de 21, Katiane, de 19, e Jonatha, com 11 anos, vivem e sobrevivem num verdadeiro cenário bucólico, desafiando paradigmas de necessidades socioeconômicas como tecnologia moderna, consumo material, extrativismo insustentável e até mesmo o dinheiro. É possível? Em a década de 1980, quando veio para o Rio de Janeiro ao lado da 'posa, o então recém-cursado como mestre de obras, José Ferreira, já imaginava ser possível a vida que construiu com a família. Nascidos no interior de Pernambuco, onde José trabalhava acompanhando o pai como empregado de latifundiários, o casal foi morar primeiramente em Cabo Frio, em busca de alguma obra onde ele pudesse trabalhar. Em 'sa época, Carmelita tinha na barriga o primeiro filho; e José dizia ter em si o «vazio» percebido com a certeza de que não pretendia continuar levando a mesma vida, explorada de 'sa vez por empresários da construção civil. Decidiu procurar de ali por diante retornar às origens, com a diferença de cultivar e colher para o próprio sustento. Mudando-se para Paraty, percorreu os arredores da área serrana até encontrar o 'paço de terra de onde nunca mais saiu, garantido através de serviços prestados ao governo federal. Assim o sítio São José foi construído por as mãos dos seus proprietários, e sem o auxílio de equipamentos modernos. Basta lembrar que lá não há eletricidade, por opção da própria família, que diz já ter recebido propostas da prefeitura de levar energia e asfalto até o local. «Já imaginou? Se eu aceitar, isso aqui vai acabar destruído em muito pouco tempo», garante José. Feita com madeira derivada das árvores mortas ou pré-condenadas por a própria natureza, a casa dos Ferreira só leva cimento e tijolo na cozinha, no forno movido à lenha. José montou todo o encanamento de 'goto e abastecimento de água, que é puxada diretamente da nascente local. O solo do roçado não conhece agroquímicos. A adubagem é feita com detritos vegetais e animais, assim como o controle de pragas nas plantações também é feito à base de preparos naturais, na intenção apenas de 'pantar aves e insetos do plantio, ao contrário de envenená-los. O fato é que antes mesmo da família Ferreira passar a entender sobre a importância de processos agroecológicos tanto para a sustentabilidade do campo quanto para a vida de todo o ecossistema, ela já fazia parte deste universo, e já idealizava elevar os 18 % de sua economia auto-sustentável. Mas é no ano de 2001 -- em que, oportunamente, segundo a família, a prefeitura de Paraty promoveu cursos como iniciativa para o desenvolvimento local -- que José dá início a um projeto autogestor de vivência, produção e formação agroecológica no sítio, planejado para 'tar devidamente 'truturado em 10 anos. O projeto promove a criação e o aprendizado de sistemas agroflorestais preparados para produzir em curto, médio e longo prazo, e garante desde 2005 100 % da sustentabilidade da família. «Antes era preciso completar a renda trabalhando fora, tirando palmito», diz José. Hoje, além de garantir as refeições do dia na mesa da família -- que, exceto o arroz, não compra comida -- o sítio funciona como uma pousada e laboratório de campo em plena Mata Atlântica para 'tudantes, pesquisadores e profissionais agrônomos, agricultores e ambientalistas atraídos por a troca de experiências com a família e com o 'paço. «Entre 2000 e 2005, produzimos e plantamos 31.844 mudas de 'pécies arbóreas e frutíferas, sendo que 80 % de 'pécies de Mata Atlântica. Em o mesmo período plantamos 52.474 mudas de palmito, num total de 84.318 mudas plantadas em 5 anos», orgulha-se José. Em novembro aconteceu a vivência que comemorou o aniversário do sítio, quando mais 5.000 mudas foram cultivadas. «A nossa meta é mostrar que para preservar o meio ambiente não é necessário tirar o homem do campo, mas educá-los e orientá-los a viver em harmonia com a natureza», ensina. Descendente de curandeiros e benzedeiros, Carmelita aprendeu em 'se mesmo período a produzir, a capsular e a comercializar ervas, raízes e seivas medicinais. Uma vez por semana ela desce até a vila de Sertão do Taquari para vender remédios contra micose, shampoos anti-caspa e anti-inflamatórios naturais que ajudam no combate a úlceras, gastrites e câncer. Aprendeu também sobre processos de armazenamento de alimentos sem conservantes artificiais. Embalados em potes de vidro à vácuo, alguns mantidos submersos em água com sal, Carmelita garante o abastecimento alimentar da família no período de entre safra, conservando de 'sa forma por até dois anos batatas, legumes, grãos, frutas, sucos e doces. Para fabricante de geladeira nenhum criticar. O dinheiro, artigo de segundo plano no cotidiano da família, é conseguido através das vivências, da hospedagem da casa e da venda dos remédios e doces que fabricam, e investido na conclusão do projeto. «A vida do homem não é de ganhar dinheiro, é de se alimentar, de viver saudável, de 'tar em contato com a terra», 'clarece José, que pretende ampliar a cozinha e o dormitório para receber melhor os grupos, e construir a sala onde acontecerão as aulas e os debates de formação, que contam com o apoio de 'tudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), técnicos de instituições como a As-PTA (Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa), entre outros parceiros da família, por quem José vem sendo freqüentemente convidado a falar em público, não só no Rio de Janeiro como em outros 'tados, sobre sua experiência. Organizado, articulado e apaixonado por a atividade e modo de vida a que se dedica, José não vive e nem põe a família em condições de isolamento, embora demonstre sua preocupação em perpetuar a tradição da agricultura familiar nos filhos. Os quatro ajudam José diariamente no campo. Quando pensei 'tar acordando cedo na casa da família, José e filhos voltavam naquele momento de uma atividade introdutória do dia na horta para tomarem café com mim. E parecem fazer isso com a paz de um cotidiano saudável e prazeroso. Apesar de nunca terem ido a uma 'cola, todos os filhos foram alfabetizados por Carmelita; sabem ler e 'crever, e têm visão emancipadora e solidária sobre o conhecimento e a experiência que desfrutam do campo. O primogênito Jorge é considerado por o pai um biólogo diplomado por a experiência de vida no meio da mata. Conhece tudo o que diz respeito à flora e à fauna local, e hoje idealiza um projeto de catalogação das 'pécies da Serra, coisa que, segundo Jorge, ainda não existe. A proposta vem sendo pensada por ele junto com sua namorada, carioca de Campo Grande e recém-formada no curso de engenharia agrônoma da Rural, que Jorge conheceu no período em que ela, ainda 'tudante, visitava o sítio por o 'tágio acadêmico. Quando perguntado sobre a possibilidade de casar e sair de lá, Jorge confessa achar difícil a hipótese: «Não penso em viver num lugar diferente. Ela, por outro lado, pensa em fazer mestrado fora», responde Jorge, ainda sem precisar o futuro. A filha única dos Ferreira, Katiane, 'tá para concluir o curso de contabilidade feito por correspondência por o Instituto Universal Brasileiro. Para quem desconhece sobre a eficiência do lendário método de ensino profissionalizante à distância, existente há mais de 60 anos no Brasil, ele não somente formará Katiane como a administradora de contas oficial do sítio -- função 'colhida por ela mesma --, como já ensinou o irmão Thiago a tocar viola, e deve ganhar o desafio admitido por Jorge de ensiná-lo a falar, a ler e a 'crever em inglês. O caçula Jonatha divide seu tempo entre percorrer na medida certa os hectares do sítio com o pai e os irmãos e jogar futebol com sua bola de basquete. Assiste aos programas infantis da tv quando vai à vila, na casa dos amigos, e desafia a máquina fotográfica digital que levei com mim a tirar fotos tão boas quanto às de sua máquina, segundo ele próprio, mais potente em pixels do que a minha. É em 'se contraste de compreensões sobre a vida que repousa feliz e segura a família Ferreira. à noite, sob um céu 'trelado tão pouco visto por nós, e sob uma 'curidão rompida apenas por o branco da lua é que eles dormem costumeiramente, à 'pera tranqüila de um novo dia comum, para o qual eles existem e vice-versa. O que me restou depois de um dia ao lado de eles foi repousar à mesma maneira, concluindo minhas últimas questões ao som da viola dos meninos dedilhando naquele momento uma canção de suas raízes: «de que me adianta viver na cidade se a felicidade não me acompanhar ...». Sítio São José. 024 -- 3371 9003 Rod. Rio Santos Km 552 Rua Sertão do Taquari s / n Paraty / RJ Número de frases: 62 ferreiraecologia@hotmail.com / Um anúncio no jornal, convidando mulheres a contarem suas histórias de vida para a gravação de um filme; atrizes convidadas para interpretar 'sas declarações reais; Eduardo Coutinho na direção. O resultado é Jogo de Cena, documentário sensível sobre a vida. Que imita a arte, que imita a vida. O filme prova que uma idéia simples pode se transformar em obra-prima. Nada é muito fora do comum. Coutinho extrai das personagens fortes declarações, como sempre faz. As entrevistadas são sinceras, não fazem pose para a câmera, como se 'pera. As atrizes -- entre elas Andréa Beltrão, Marília Pêra e Fernanda Torres -- dão uma aula de atuação, o que também não é novidade. Tudo isso filmado no palco de um teatro, com apenas uma câmera e duas cadeiras. As atuações são tão verossímeis que, excluindo as atrizes conhecidas, é difícil perceber se é uma atriz ou uma pessoa «real» que 'tá falando. O diretor brinca com isso na edição, às vezes mostrando a atriz antes da entrevistada. Jogo de Cena confirma a tese de que a realidade é tão cativante quanto a ficção. Não será exagero derramar algumas lágrimas durante o filme. É uma sincera homenagem às mulheres entrevistadas, às atrizes, à mulher brasileira. Outra brincadeira de Eduardo Coutinho: no filme aparecem 12 mulheres, seis atrizes e seis entrevistadas. No entanto, são cinco as mulheres que têm uma correspondente atuando. As duas que sobram contam cada uma sua história. É uma grande surpresa quando, no final de um depoimento carregado de emoção, a mulher vem à câmera e diz: Número de frases: 21 «Foi assim que ela disse». O blog Textos Urbanos lançou uma maratona cultural em Joinville, Santa Catarina, para que a população comente os monumentos da cidade. A idéia de fotografá-los e de resgatar a atenção e a informação sobre eles surgiu do produtor cultural Robson Luís. Depois de conversar no coletivo do blog, surgiu a iniciativa da maratona. Vale tudo! Qualquer comentário: aonde «mora» o joinvilesco, há quanto tempo, se a pessoa vê 'se joinvilesco todos os dias, qual foi a última vez que o viu, se sabe o nome de ele, desde quando ele 'tá aí, a quem homenageia, quem faz a homenagem, enfim ... quanto mais o visitante do blog 'crever, mais chances tem de ser o vencedor da maratona. Quem enviar a resposta mais completa e criativa, ganha até o Natal desse ano, uma camiseta do projeto «Joinvilescos». O coletivo do blog ainda não sabe quantos joinvilescos farão parte da maratona. Mas só em 'sa primeira etapa de pesquisa por a cidade, a gente já pode dizer que são vários. A cada semana (sempre sábado à noite) é publicada foto de um novo joinvilesco. «Joinvilesco» é apenas uma forma carinhosa de chamar 'ses monumentos que 'tão muito presentes nos cenários das cidades e que, na grande maioria das vezes, pouco sabemos sobre eles. Essa foto é de «O Fundidor, monumento inaugurado em março de 1979». O autor é o 'cultor gaúcho Paulo de Siqueira (1949-1996) e é uma homenagem ao trabalhador da indústria de fundição. Tem 7 metros de altura, mais de 3 toneladas e fica em frente à Indústria Tupy, no bairro Boa Vista, zona leste da cidade. Número de frases: 16 A marotona no blog cultural Textos Urbanos vai até dezembro de 2006. Tem som no microfone? Falo daqui, da cidade 'tuário, do porto. O carnaval chegará. Cantaremos algumas canções. Veremos muitos blocos, troças, 'tandartes. Ouviremos os batuques de bem longe. Enxergaremos as luminárias que reluzem à margem do grande rio. Desfilaremos nossas fantasias por as praças. Engoliremos a nossa cachaça. Bateremos nos nossos amigos. Roubaremos carinhos das mulheres e dos homens. Apertaremos as mãos dos políticos. Agradeceremos por o circo. Comeremos o nosso pão. Avançaremos os sinais vermelhos. Atropelaremos os velhos. Seremos jovens ao amanhecer. Sangraremos à beira da 'trada. Riremos até engolir nossas orelhas. Deixaremos nossos detritos nas areias. Realizaremos todos os nossos prodigiosos sonhos. Iremos navegar até o lugar nenhum, mesmo que não queiramos, o nosso barco teimará a desembocar em 'te lugar. Tem som no microfone? Número de frases: 24 O «Encontro Com Quem» " VIU " O Lobisomem Bem De Perto Não adianta. Eu vou em busca da história. Vou por o faro, por a intuição, por a sorte. Vou por o o que for. E sempre é. Cheguei ao CAPS -- Centro de Assistência Psicossocial -- na hora da refeição dos pacientes. O meu almoço, apesar da fome, poderia 'perar. Em o caminho, telefonei (viva o celular!) para Bruno Caputo -- aluno, amigo e aficcionado por o audiovisual. Convidei-o para fazer um vídeo incrível. Deu certo. Bruno topou na hora filmar Benevides. Não sabia da história nem do que se tratava. Mas Bruno Caputo também percebe quando algo de bom 'tá para acontecer. Encontramos, na recepção, o Benevides que já havia sido avisado sobre a nossa visita inesperada: já 'tava pronto para a entrevista. Tudo que eu queria saber sobre o filme de Reginaldo Faria rodado aqui em Cordeiro, interior fluminense, no ano de 1974, 'tava sentado diante de mim. Sorriso fácil e gargalhadas fartas e sonoras. Aprontamos os apetrechos para filmar. O pequeno refletor se acendeu e um brilho instantâneo tomou os olhos de Benevides. Ele se lembrou que já havia flertado com o cinema há muito tempo como figurante e faz-tudo no longa «Quem tem medo de Lobisomem?». Bruno então entendeu por que 'tava lá. O brilho nos seus olhos era também notável. O filme de Reginaldo Faria teve cenas rodadas em algumas fazendas centenárias da nossa cidade. Foram locações feitas na Fazenda Bonsucesso, Santa Clara e Sobrado. E, já naquela época, houve aproveitamento de pessoas da região, mesmo que timidamente, fazendo «figurino», que quer dizer figurante na linguagem de Benevides. A atriz Fátima Freire relata que: «Quem tem medo do lobisomem? foi meu primeiro filme. Foi filmado em 1974 por a produtora R F Farias e com direção de Reginaldo Faria. Era um roteiro superinteressante, misturando ficção, suspense, comédia, romance e muita ação. Fizemos o filme durante 2 meses numa fazenda em Cordeiro, interior do 'tado do Rio. Foi uma experiência maravilhosa! Estavam no elenco Reginaldo Farias, Stepan Nercessian, Camila Amado, Neuza Amaral, Carlos Kroeber, Zanoni Ferrite, eu, Cristina Aché, Eliza Fernandes entre outros." Falando com Benevides, o que se percebe é a emoção de ter participado de um trabalho desse porte e, ao mesmo tempo, a mistura da ficção com a realidade na cabeça dos recrutados por aqui naquela época. Não houve preparação para que as pessoas entendessem o que de fato faziam. Sabiam que era algo «pra sair no cinema com gente famosa». Só isso. Tanto foi assim que Tatão (outro figurante 'colhido por aqui), por causa de sua feição tão peculiar, era sempre associado ao próprio lobisomem do filme, o que de fato jamais foi intenção no roteiro. Conta Benevides que a exibição do filme no Cine Madrid no início da década de 80 foi um acontecimento. Foram necessárias três sessões com lotação máxima para assistir ao filme. O mais curioso é que as pessoas voltavam para ver Benevides, Cilene, Cabico, Tatão entre outros locais que faziam pequenas e nem tão visíveis aparições na tela. O filme em si nem era tão importante. As pessoas queriam mesmo se sentir um pouco parte daquela magia porque gente de carne e osso e cordeirense 'tava lá na tela. E foi assim ... Reginaldo, Stepan, Camila foram embora. Os cordeirenses que participaram do " Quem tem medo de lobisomem?" nunca mais fizeram filme algum. E poucos como o Benevides tiveram a oportunidade de contar a sua façanha para registro. 30 Anos Depois, A Remissão ... Em um salto de 1974 para 2004, encontramos um jovem cineasta realizando o seu primeiro longa-metragem em locações 'colhidas em Cantagalo / RJ. Sobre 'se novo tempo e empreitada por 'sas regiões, tive a oportunidade de entrevistar o próprio diretor, " Silvio Coutinho. «O filme Remissão tem a sua trama situada no ano de 1910, quinze anos após o suicídio de um jovem num vilarejo do interior do Brasil. Os moradores da região são surpreendidos por a chegada de um médico recém formado -- Dr. Ulisses Maia -- e sua impressionante semelhança física com o morto. A partir de então se 'tabelece o conflito, pois todos buscam no presente respostas caladas no passado do suicida, confundindo-o com o forasteiro, que se vê envolvido na montagem de um intrincado quebra-cabeças, cujas peças 'palhadas são os próprios habitantes do local." ( adorocinema. com. br) Remissão deve 'trear nos cinemas no fim deste ano e tem no elenco Léa Garcia, Imara Reis, Kayky Brito, João Vitor Barreto (ator cordeirense), Claudinho (ator cantagalense), Sthefany Brito, Alexandre Piccini, entre outros. Vamos à entrevista com Silvio Coutinho: 1-De onde surgiu a idéia de fazer o roteiro de Remissão? Em a verdade, eu elaborei primeiramente 10 sinopses pensando em realizar um filme de baixo orçamento, com poucas locações e que tivesse grande destaque para o elenco, numa 'trutura intimista e quase teatral. Não houve nenhuma motivação 'pecífica, nem foi baseado em nenhum acontecimento do qual tenha ouvido falar. Embora Remissão seja um filme de época, no meio de 'sas sinopses havia tramas situadas nos anos 70 e até na atualidade, mas foi o enredo que pareceu mais contundente, mais marcante, por isso eu o 'colhi. 2-Que critérios você utilizou para 'colher Cantagalo como locação do filme? Foi uma 'tranha e feliz coincidência. Depois de percorrer várias cidades, principalmente no interior do Estado do Rio, em busca de fazendas do ciclo do café, entreguei o roteiro para a figurinista Maria Duarte, que é cantagalense. Depois de ler, ela me falou que enxergava o filme na cidade de ela, principalmente na Fazenda Areias. Por curiosidade, acabei parando em Cantagalo e a fazenda mencionada tinha as mesmas e exatas características do roteiro, sem eu nunca ter 'tado ali antes! 3-Quais as vantagens e desvantagens em fazer cinema em cidades pequenas? As maiores vantagens 'tão em envolver a comunidade e sentir o entusiasmo dos moradores, além de sair do eixo Rio-São Paulo e respirar novos, puros ares. Em Cantagalo, conseguimos um grande apoio da população, demos duas oficinas, uma de interpretação e outra de técnica para cinema, de graça para os moradores (centenas se inscreveram e setenta foram selecionados), revelamos artistas e técnicos com grande potencial, enfim foi uma experiência inesquecível. Embora haja uma carência de profissionais e de uma 'trutura audiovisual mais elaborada, como 'túdios e equipamentos para alugar em emergências, não consigo ver nenhuma desvantagem em fazer cinema no interior, só satisfação. 4-O que mais te impressionou durante o período que 'teve em Cantagalo por conta das filmagens de Remissão? O 'forço que a cidade fez para que pudéssemos ir do começo ao fim das filmagens, sem interrupção. O empenho de pessoas como Elias Barbas, Cláudio Almeida (que também atua no filme em papel de destaque), Keth Japor, Nestor e Marilda, entre outros que desde já peço que me perdoem por não citá-los, já que são tantos. 5-Conte-nos uma curiosidade a respeito das oficinas para a comunidade que foram dadas antes das gravações. Bom, de 'sa oficina tiramos 3 atores para o filme: o Ricardo Alves, Ricardo Teixeira e João Vitor Barreto. Tivemos a grata surpresa de conhecer Luzia Saade, que além de se tornar uma grande amiga, foi preciosa no figurino, e Pedro Goulart foi assistente de câmera do fotógrafo Dib Lutfi, um dos maiores da história do Cinema Brasileiro. 6-Qual a importância que Remissão possui na sua filmografia? A maior até agora. Foi o meu primeiro longa-metragem, um filme de época que já correu grandes festivais no mundo representando o Brasil, como o 12 th Kolkota Film Festival, em 2006. Remissão me trouxe uma experiência que será fundamental nos meus próximos dois filmes: Insana Idade, que pode ser rodado na cidade vizinha de Cantagalo, Cordeiro, e A Festa Já Começou, suspense com temática 'pírita que já movimenta artistas, técnicos e conceituadas organizações cinematográficas. Os tempos, com certeza, são outros. Se em 1974, uma equipe de cinema chegou ao interior e apenas aproveitou pessoas para a figuração, não havendo maior interesse ou percepção para o compartilhamento de saberes, em Remissão (2004), o cineasta Silvio Coutinho entendeu o grande potencial artístico e cultural que o interior podia lhe oferecer. E, por conta disso, houve uma troca de experiências através de workshops e uso de talentos e mãos-de obra locais. Sobra ansiedade de nosso povo para se ver na telona: Cantagalenses e cordeirenses, cidades que por a história e geografia são irmãs, 'peram assim como no início dos anos 80, a grande 'tréia. De 'sa vez, tem sido mais contundente a nossa percepção que toda aquela arte produzida por aqui 'creve o nome do interior fluminense de vez na história do cinema nacional. Queremos mais. Número de frases: 92 Uma pesquisa que 'tá sendo realizada na Universidade de São Paulo tenta mapear as práticas de cultura livre na cidade de São Paulo. A pesquisa quer descobrir quem são os grupos e indivíduos que realizam atividades criativas que se encaixariam no conceito de cultura livre. A pesquisa também quer descobrir qual é o entendimento de cultura livre dos grupos, assim como os tipos de licença que utilizam. A pesquisadora Jhessica Reia, responsável por o trabalho, 'tá disponibilizando um questionário online com as perguntas da pesquisa até o dia 30 de outubro. O questionário se encontra no site www.gpopai.usp.br/pesquisacl e pode ser respondido por qualquer ator cultural da cidade. O termo cultura livre, que pauta a pesquisa, foi sugerido inicialmente por Lawrence Lessig no livro de mesmo nome lançado nos Estados Unidos no ano de 2004 (no Brasil foi lançado em 2005, por a Trama). Lessig se refere às práticas culturais cujas obras são disponibilizadas por licenças alternativas que permitem a livre reprodução e distribuição, podendo restringir o uso comercial e a criação de trabalhos derivados. Lessig buscou inspiração no movimento do Software Livre, criado na década de 1980 por Richard Stallman para permitir a livre execução, reprodução e modificação de programas de computador. Ele transpôs os princípios do Software Livre para outras práticas culturais com a criação da Creative Commons, uma ONG que oferece ao público um conjunto de licenças de direito autoral que permitem que os criadores autorizem o livre uso e reprodução das suas obras. A pesquisa da USP quer ver os efeitos do Software Livre, do Creative Commons e de outras iniciativas semelhantes na cultura paulistana. A pesquisa já indentificou mais de 200 manifestações que se aproximam do conceito de cultura livre, de grupos de programadores, até artistas plásticos, músicos e 'critores. Este mapeamento da comunidade de cultura livre da cidade será depois disponibilizado na Internet para que todos tenham acesso aos resultados. Contato: Jhessica Reia, telefone 2646-7484/ 8644-3938, e-mail: Número de frases: 14 jhereia@gmail.com O poeta Wally salomão atravessou o barracão em sua permanente teatralização de um cinema novo e do tropicalismo, «a memória é uma ilha de edição»,» máscaras, máscaras, precisamos da mentira 'sêncial», a poesia, o cinema, a poesia, a musica, o cinema, o teatro, a poesia, tudo, o novo sem tempo, o povo por vir e o que virá depois do cinema, Glauber em raio de lampião, «o assunto é cinema, o assunto é cinema», os poetas encarnados, loucos, profetas, Leão de Sete Cabeças, o barco no oriente mais próximo, nas águas inventivas da terra, do transe,» medra da miséria do mínimo tirar a possibilidade», o riverão passa lá onde o invisível devora um rio de luz, a próxima cena não será em sonho, mas «um furo no real onde passará uma reta infinita», um surrealismo concreto, de certo, um surrealismo do sul do qual você é a imaginação. Atravesso labirintos da memória futura de 'sas cidades, devoro civilizações, idades, explodo vosso corações com furia e som, sou o grito dos barbarizados e sua descrucificação. O filme será a ezstética do fome porque a fome é fome de tudo, fome de sonho, «passando por cima de todos, a fome universal sempre querendo arrasar tudo, o mundo inteiro a seu favor» porque " a fome tem a saúde de ferro, forte como quem come." * Em o terraço solar o pancinema permanente, quasi-cinema, kynorama, parangolé, evoé, os poetas alquimistas destilando seus sons e cores, insistem no movimento, na mistura, na alternância, no rio corrente das orlas e das marés: sobre imagem projetadas nas águas da Amazônia onde não há luz, só há som, dormem as mutações de novos cinemas, poesias, músicas, teatros arquiteturas. O poeta na praia depois da morte, canta seu poema de gozo e rir, tudo o que é cultura é merda, adubo 'sencial, o resto é o que não perdurará mais que uma vida. «o que é bom para o lixo é bom para poesia." Vou ser devorado a cada carnaval, venham vamos a orgia final, a antropofagia dos guerreiros, a invenção de outra vida. * O absurdo não 'tava no filme, mas na realidade, o filme é que era a nossa realidade mais absurda refletida em nosso 'pelho 'tilhaçado. Um 'critor no asilo meio padre metaforicamente sem materialidade, lê uns versos de outro poeta, seus olhos em fogo até perder a visão: «por fim a realidade prima / e tão violenta que ao tentar apreende-la toda imagem rebenta», 'ses versos entre-cortados no meio da sequência seguinte para provocar diretamente tudo o que pode ser o cinema quando se faz da vida uma arte da transfiguração. Um personagem intelectual analfabeto em poesia, o outro é um democrata do capital fazendo graça e 'fumaçando. O palhaço mad in globo no deserto cinematográfico completamente tomado por a mesmice 'tética faz sua cena, a sua única cena fora da privada que geralmente o vejo -- só podia falar merda, problema grave de alimentação em nossa mediocre digestão cultural que não compreende e não quer compreender o que é uma arte nova, porque simplesmente ignoram a importancia da invenção que nasceu por 'ses trópicos nas décadas de 60 e 70. Querem datar, ridicularizar o que é a obra de uma infinita criatividade para os contemporâneos e as gerações futuras. A ignorância violenta do mercado não engana, articula no discurso e propaga o apartheid cultural e econômico, a ignorância não dá mole, vacilou eles mandam ver, mandam queimar, segregam, guetizam, soterram. A patrulha é justamente 'sa, eles invertem para poder exercer a censura a seu modo, jogo de cena, atravessam o quadro, trapaceiam como se fosse simples questão de opinião e não de censura a liberdade de criação artistica que o cinema do Glauber sempre sofreu. Tudo bem transvestido na velha babaquice, o gostei, não gostei, gostei não gostei ... blablabla ... O absurdo de quem disse e as defesas de uma suposta liberdade de expressão contra a reação, o desagravo, é de deixar perplexo. ( como se fosse uma censura ao que foi dito e não uma reação, uma liberdade legitima de quem ficou 'tarrecido com tal besterol dos planetas com seus cassetas). Tudo isso só revela a intolerância cultural que nos cerca. Não importa o nome de quem, mas a manifestação já é por si só sintomática de um tipo de micro facismo de quem quer arrasar com tudo, queimar e barbarizar. Adoram defender a clamada diversidade cultural que tem se mostrado bem mais segregadora do que realmente multipla, poli-diversa. Vomitam prepotentes uma diarréia ignorante de todos os nossos miserabilismo não reconhecidos; Ignorantes da fome, narcisos e não orfeus, preparam mais uma vez o circo para a risada onipotente de suas merdas diarias por a tv e quando a cortina se abre, entram para tirar sua parte do banquete, «sim, soy um democrata, reformista das desigualdades!». A questão não é de merda, mas da diarréia geral, ou diaria, que advem da gula, da fartura desnutrida e não da fome, mas da gula dos comidos e da arrogância dos globais. Mais uma gangue adentrou no palácio e tomou a meia lua que fica no planalto central e o globo mediterrâneo e os cinemas centrais, a tela e a plataforma do 'paço. Uma vozover dos imperadores eletrônicos: «ora sou corrupto ora defendo a liberdade de expressão, posso ser vários personagens, ora faço pastelão ora sou intelectual, ora mando ver com o batalhão de choque, ora sou um travesti fantasiado de comediante que diz: I love money, I love ser um liberal, I love merda, me ama dizer tudo que pensa, eu sou mais um global de 'sa tragédia cultural." Número de frases: 29 O artista visual Willyams Martins e um grupo de grafiteiros de Salvador foram o centro de uma grande polêmica em setembro de 2007. Agora a polêmica foi retomada, talvez em menor proporção, mas com uma boa dose de ironia. A história é a seguinte: Williams Martins, quando fez seu mestrado na Escola de Belas Artes da Ufba, pesquisou uma técnica de resina e tecido de nylon que colada sobre a superfície de muro, retira da cidade todo tipo de textura encontrada em eles. O artista chama 'sas telas de «peles grafitadas». A princípio retirava sujeira, rabiscos, pichações, grafismos urbanos ... E numa feita, retirou a parte de um grafite, aliás, fez isso com cinco, de entre dezenas e mais dezenas de «peles grafitadas». Até aí sem problemas. Mas Martins ganhou o prêmio Braskem com sua pesquisa e embolsou 20 mil reais, teve sua obra valorizada e ganhou mais três prêmios com seus trabalhos resultantes da pesquisa «Peles grafitadas:». A situação complicou. Os grafiteiros começaram a questionar o procedimento de Martins e a reivindicar direito autoral. Afinal o artista retirou partes de grafites e não disse quem tinha feito, comercializou as peças como sendo unicamente de sua autoria -- reclamaram os grafiteiros. Esse deslocamento pôs o grafite e a arte contemporânea em rodas de discussão das mais diversas pessoas na cidade do Salvador. Poucos fatos na arte soteropolitana geraram tanta repercussão, pelo menos, nos últimos 15 anos. Os protestos encabeçados por os slogans «Artista prático» e «Ladrão de grafites», como os grafiteiros passaram a chamar Willyams Martins, foram expressos através de cartazes nos locais onde os grafites haviam sido retirados e de um blog feito para a situação. O assunto também virou manchete na imprensa local. Martins, por sua vez, segue com seu trabalho e alega que o objeto de pesquisa não são os grafites, mas os registros da cidade que se sobrepõem nos muros urbanos, voltados para o 'paço público. Que os grafismos podem ser desde sujeira, como poeira sobreposta, marcas de mão, poluição a palavras soltas, pichações e grafites. Entendendo-se o grafite como um trabalho de arte, os grafiteiros por sua vez consideram que Martins faz a «arte da praticidade» e soltaram o verbo contra o artista. Em o manifesto que circulou na internet disseram que ele faz " a arte do não fazer, só sacanear aqueles que trabalham de graça, para um público comum que merece muito respeito. Com extremo ato de egoísmo o'artista prático ' Willyams Martins arranca os grafites da cidade, assina embaixo e vende». Após a polêmica -- Meses após 'sa situação, Martins fez uma outra exposição com as «peles grafitadas» na qual segue imprimindo em suas telas os vestígios da cidade fixados nos muros. Alguns trabalhos são recortes de 'paços nos quais cartazes se sobrepõem. Usando da auto-ironia, a imagem de divulgação da exposição é um dos cartazes que os grafiteiros fizeram em protesto e colaram nos locais onde Martins retirou parte de um grafite. O artista diz que usou 'se trabalho para divulgar sua exposição propondo " um diálogo com 'ses jovens da cidade e com o que eles propuseram. Houve uma provocação e respondo com uma proposta de diálogo». Os grafiteiros não se manifestaram desta vez. «Acho que eles entenderam que a pesquisa não era só retirar grafites, mas que o trabalho tem uma série de desdobramentos sobre a memória, o 'paço, o que ficou como registro da cidade, de entre outras coisas», explica. Em a expansão das linguagens da arte contemporânea, a ocupação do 'paço público com intervenções de artes visuais vem sendo uma constante (não apenas do grafite). A apropriação já faz parte dos procedimentos da história da arte desde a primeira década do século XX. Mas será legítimo a retirada de parte de um grafite? Eis a grande questão que circundou toda a polêmica em 2007 e retorna com ironia dentro da continuidade de uma pesquisa que se iniciou na academia. O apego dos grafiteiros ao seu trabalho não contraria a proposta de se expressar na rua em locais sem «segurança», onde qualquer outra pessoa pode pichar, riscar ou mesmo pintar de branco sobre os grafites? A questão é Willyams Martins ter levado um pedaço do grafite para a galeria sem dizer a autoria da imagem (no caso do grafite) original? Mas os grafites, quando 'tão na rua, são identificados por o cidadão como sendo desse ou daquele grafiteiro? Diante de tantos questionamento, a opinião pública se diverge, uns acham uma agressão os danos causados aos grafites que enfeitam a cidade, outros acham que o grafiteiros têm que praticar o desapego à obra. E assim, muitas opiniões são reproduzidas e outras tantas têm argumentos inusitados. Para conhecer um pouco do trabalho de Willyams Martins pode-se acessar www.martins.art.br e para acompanhar os protestos dos grafiteiros acesse www.artistapratico.blogspot.com. Número de frases: 38 A goiana MQN, com Fabrício Nobre da Monstro Discos nos vocais, ficou entre as melhores do sábado. Foto: Nicolas Gomes / DoSol Image A programação da segunda noite do Festival DoSol mostrou a simplicidade e o peso das guitarras distorcidas, baixo e bateria -- um rock puro e seco! A noite mais Indie do Festival começou à tardinha com três bandas locais no palco De o Sol Rock Bar: Distro (' alternativo punk ' -- sic), Drunk Driver e Doris. Em o cair da noite a movimentação dos palcos maiores teve início com Deadfannydays (RN), que lançou no festival por o Lado [R] o split com os baianos do A Sangue Frio, com distribuição do selo Estopim (" BA): «Procuramos encontrar outra maré no mercado. Fizemos 200 tiragens e 'tamos distribuindo para a galera e os amigos que ainda curtem vinil, fita e tal», conta o guitarrista da banda Dimetrius Ferreira. Depois foi a vez do 2 Fuzz (CE) e Carfax (PE) subirem ao palco seguidos por o Los Canos (BA) e Bugs (RN). A programação 'colhida para a segunda noite parece que não empolgou muito o público potiguar que só veio começar a aparecer timidamente lá por as dez horas da noite. Em a seqüência a vivacidade do rock com influência jamaicanas e a boa performace dos músicos do Bois de Gerião (DF) mostraram a cara. Apesar do público pequeno e disperso, o som dos caras fizeram a galera chegar mais perto do palco. Trabalhando com a divulgação do segundo «CD Nunca mais monotonia», a próxima parada do grupo é no Festival do Laboratório Pop, no Rio de Janeiro. Em os festivais de rock encontramos um público direcionado. Embora seja pequeno quem tá ali sabe o que quer ouvir. Outro bom aspecto é os contatos que conseguimos fazer com as bandas de outros locais, sempre rola novos convites», conta o trompetista Gus. Internet e gráfico sonoro De o outro lado do Rio Grande diretamente para os palcos do DoSol -- coincidentemente para comemorar o aniversário de 13 anos de 'trada: a banda Walverdes (RS) Já com o quarto «CD» " Playback " em mãos, a banda 'tá participando de diversos festivais divulgando o trabalho. E sobre 'sa trajetória, o vocalista da banda, Gustavo Mini, comenta: «O caminho que trilhamos é o comum das bandas independentes: precisamos de uma boa dose de paciência! ( risos) Durante 'se anos já passamos por várias fases do ' boom ' ao ostracismo. Percebo que depois da Internet tudo 'tá melhorando, as pessoas começaram a fazer mais contato, mais festivais 'tão sendo criados e saindo dos pólos, dos eixos ... isso significa mais lugares para tocar, é muito bom!" Em a seqüência da programação o que chamo de ' um gráfico sonoro ` de altos e baixo mostrando que alguma bandas do rock potiguar destoam do que 'tá sendo produzido por o Brasil afora. Em o gráfico: sobe o bom rock anos 60 do Revolver (RN), desce com o Memória Rom (RN), sobe no MQN (GO) com uma boa pegada, desce o'conjunto ' Zero8quatro (RN), sobe o surf-rock acelerado Autoramas (RJ). E a segunda noite do DoSol, fecha em alta, com o show do Forgotten Boys (SP). Selos, fanzines e vanguarda Além de música, quem foi ao festival também pôde conferir os stands de alguns selos, comprar camisetas e bottons e dá uma sacada numa mostra de fanzines com mais de 150 edições do Brasil e do mundo, organizada por o pessoal do Lado [R]. Aproveitando a deixa eles aproveitaram para lançar o zine nº 4, recheado de quadrinhos. Os selos Mudernage Diskos (RN), Xubba Music (RN), De o Sol (RN) e Mostro Discos (GO) também participaram da feira disponibilizando o material da maioria das bandas que participaram do festival. «Um festival é um 'paço pra se trocar informações sobre o independente. As palestras do Pensando Música (evento que fez parte da programação do festival), por exemplo, é uma ótima iniciativa porque trata de assuntos inerentes a quem 'tá envolvido com a cena, não tem como fugir. Número de frases: 35 As conversas, as trocas de experiência com pessoas de vanguarda ajudam a traçar os caminhos o trabalho de quem 'tá começando agora como a Xubba», conta Artur Araújo, um dos diretores do selo. Que a política faz parte do nosso dia a dia, isso nem sei se seria necessário lembrar. Rodeia-nos, embriaga nossas atividades, faz parte da nossa vida por mais que, em determinados momentos, tentássemos / tentemos refutá-la. Uma atitude que, óbvio, pode ser considerada ingênua e, mais do que isso, descabida. Jamais conseguiremos fazê-la desaparecer daquilo que move um organismo social, na maioria 'magadora das vezes, nas suas diárias e detalhadas questões. E 'sa insatisfação (muitas vezes pura ingenuidade) que nos conduz a pensar que poderíamos evitá-la, veja a ironia, não passa de um ato político: ao tentarmos nos mobilizar contra aquilo que consideramos sórdido e perverso, em 'se simples se movimentar, já 'tamos fazendo política. Talvez seja por isso que ela nos incomode tanto, porque, mesmo um ato de aparente desinteresse, de total apatia ao (a) caso, não deixa de se caracterizar como sendo uma movimentação política. Com isso 'tou querendo dizer que o simples ato de um grupo de pessoas ligadas, em 'pecial, ao cinema, mas provenientes de várias outras áreas ligadas às artes catarinenses, se mobilizaram para fazer um filme -- que reúne dez curtas de diretores diferentes para celebrar um descontentamento com as posturas políticas dos órgãos públicos brasileiros, todavia, dando ênfase, a um descaso com a questão cultural -- não deixa de ser um ato político. Quais são os interesses de 'ta movimentação? Várias podem ser as alternativas levantadas, mas acredito que a principal seja: mesmo com um certo desrespeito do poder público, a produção catarinense não pára, e os artistas mostram, na prática, que é possível haver mobilizações que resultem em trabalhos com uma apresentação 'tética reluzente. Isto é mostrar na prática que a produção cultural do 'tado, mesmo com o descaso dos poderes constituídos, continua pulsando. Vive, sobrevive, resiste para além das velas que precisam ser acesas para os donos do poder. Se levássemos ao pé da letra a máxima do trocadilho vigente no cenário cultural brasileiro de que «o artista tem que 'tar onde a verba do governo 'tá», talvez 'ta produção não teria saído do papel. Mesmo diante das adversidades vigentes, o cinema / vídeo produzido por as cercanias do 'tado permanece vivo, seja ele na UTI, flagelado por as inundações diárias de baboseiras que cercam as politicagens do 'tado, talvez ilhado (com perdão a pretensa redundância da palavra). Simplesmente, permanece. Colocando um pouco mais de maizena para engrossar o caldo: não é um tapa de luva, pois ninguém por aqui usa Black-Tie (o calor não permite); não é uma porrada explícita na boca do estômago / fígado de ninguém, pois isso aproximaria todos os participantes de 'ta ficção emética de uma situação indesejada (ou seja, a simples redução dos participantes ao tipo de política por ora abominada). É apenas (e talvez não mais que isso) a tentativa de não deixar que as movimentações culturais do 'tado se submetam aos atos ditatoriais mundanos. A realização! Talvez a palavra que traduza todo 'se universo atenda por o nome de maratona. E o ponto de chegada: as vésperas das eleições. Em o começo foram convidadas algumas pessoas (nem todas vieram), algumas vieram e não permaneceram, outras, mesmo sem serem convidadas, foram se achegando e se integraram a proposta. Em pouco tempo o projeto 'tava definido: dez curtas + dez diretores e um fio condutor: uma discussão contemporânea das práticas políticas nos seus mais variados tempos, isso com uma proposta 'tética, entre outras coisas, irônica. Para que o projeto saísse do papel, várias equipes de colaboradores foram montadas sem ter para isso um orçamento (e é claro que, por o número reduzido de pessoas envolvidas para a grandeza do projeto, algumas figuras se repetiram) O nome? Depois de várias discussões, ás vésperas do lançamento, a idéia inicial (ou pelo menos a que sobreviveu das idéias iniciais) «Manual Prático do Emetismo» também foi abandonada, e o nome do projeto atende por: Matou o Cinema e Foi ao Governador. Agora, mesmo que o nome emetismo não 'teja mais presente no título do filme, preciso salientar que não deixou de se fazer presente como pano de fundo, pois, no final das contas, resolve um pouco a questão: uma certa ânsia dos participantes com as propostas culturais públicas. E aqui gostaria de citar que 'sa ânsia atravessa os vários sentidos da palavra, mas aponto dois de eles: o primeiro, a ânsia que veste a roupa da palavra angústia, por não se conformar com a maneira como as questões culturais são tratadas; e a segunda, a ânsia que se veste de repugnância / náuseas, que mexe com o aparelho digestivo e provoca vômitos compulsivos, em 'te caso, mera manifestação artística. Abaixo uma pequena fala (feita por os realizadores) de cada um dos curtas que fazem parte do projeto: Esquerda Direita Vou Ver por Camila Sokolowski: Uma animação bem massa. Spray, por Breno Turnes: Em meio a uma onda de manifestações populares, um garoto resolve comprar um spray e fazer um grafite, mas acaba revivendo a repressão. A juventude impedida do acesso à cultura e à livre expressão. Os Vazio, por Fifo Lima: a 'peculação imobiliária na voz de um bacana e de um corretor. Um belo parque da cidade será mais um shopping, não importa o futuro, afinal eles não 'tarão mais aqui. APEIROKALIA, por Jefferson Bittencourt: A doença de não ver o Belo. Um casal de artistas discute a função da arte na vida das pessoas. Como Ser Estúpido, por Fábio Brueggman: O encontro entre um artista eum dirigente cultural onde verdades intoleráveis vêm à tona. O EMETISMO, por Fábio Brueggman: O que causa ânsias incontroláveis e vômitos frenéticos? Rosa B.B., por Renato Turnes e Loli Menezes: Em uma república latino-americano em guerra, o ditador constrói para sua filha querida um mundo de ilusão, fazendo-a acreditar que é uma talentosa 'trela do show-busines. Delírio, por Maria Estrázulas: Quando os egos se encontram num set de filmagem numa praia qualquer, um motim explode. Quatro personagens deliram enquanto tentam atribuir para si próprios, os créditos do último filme, antes do assassinato do cinema. O Povo da Corte, por Chico Caprário: Em a Idade Média um bobo da corte resolve apresentar um projeto cultural ao Rei e seu Conselho Real de Cultura, mas para não perder a cabeça deve apelar para as sapatilhas de ponta. Franco, por Marco Martins: Um homem atacado por a náusea diante do poder e dos políticos precisa pôr pra fora sua indignação. Lula ADORÉ, por Cláudia Cárdenas e Rafael Schlichting: Em a casa de praia do governador um jantar comemorativo aos projetos culturais do 'tado reúne os maiores responsáveis por a criação, divulgação e incentivo governamental à cultura 'tatal. Como entrada uma sopa de orelha de porco com feijão preto em homenagem ao governador é servida, mas os convivas parecem 'tar interessados em outros assuntos ... Nem mesmo o prato principal, Lula Adoré, a chamada piéce de resistance, é devidamente apreciada. obs: na seqüência 'tarei postando uma entrevista com os realizadores do projeto. Número de frases: 69 Em vista do aniversário da Fundação Nogueira Tapety FNT recebi um e-mail do teatrólogo Benjamim Santos com o texto abaixo anexado. Em tempo: sou assessor de imprensa da supra dita Fundação. Parabéns à FNT Benjamim Santos * Criada discretamente, em 2005, a Fundação Nogueira Tapety aponta, entre seus muitos objetivos, uma série de linhas, de 'sas que a gente já se acostumou a ver em tantas organizações recém-criadas: resguardar a memória de sua gente, buscar origens, promover 'tudo e pesquisa e, sobretudo, defender o patrimônio ambiental, artístico, histórico, turístico ... Também já nos acostumamos a que, em tantas de 'sas organizações, tudo isso não passe de palavras 'critas, idéias encantatórias, que não saem do papel. Mas não foi assim com a FNT, 'sa fundação que veio para ressaltar a poética de Nogueira Tapety e que, ao longo de apenas um ano, desanuviou-se do senso de discrição e, através deste saite, fez de Oeiras um dos mais importantes núcleos de idéias do Piauí de hoje. Oeiras me encantou, me fascinou e seduziu desde o instante em que, pela primeira vez, dei com seus montes e sua alvíssima Nossa Senhora da Vitória, Padroeira do Piauí, mas que o Piauí insiste em fazer de conta que não sabe. Entrar em Oeiras, numa certa manhã de dezembro, quando as primeiras chuvas já haviam tornado verdes os montes, entrar em Oeiras deu-mo mesmo alumbramento que tomou conta de mim, há muitos anos, quando, pela primeira vez, cheguei a Ouro Preto. E então, em Oeiras, no mesmo instante, me veio a memória de Ouro Preto. Sem a exuberância do ouro e sem a glória flamejante do barroco mineiro, Oeiras é a Ouro Preto dos pobres; uma Vila Rica sertaneja e cabocla que, como a velha cidade das Minas, é bela por sua posição entre montes e também por sua igreja tão fielmente mantida no traço e no decor, por seu casario, suas janelas fechadas, seu cheiro de História carregada de personagens, seus fantasmas noturnos, visíveis para quem sabe vê-los e, sobretudo, marcada por o linguajar nobre de O. G. Rego de Carvalho. Oeiras, o primeiro ponto de teto dos desbravadores do Piauí, repousava em silêncio, há anos e anos, envolvida por a névoa dos turíbulos e alumiada por o clarão bruxuleante dos círios. Mas em tal repouso, amadureceu. Agora, sem apagar círios, nem turíbulos, Oeiras deu, nos últimos tempos, de tomar conta dos veículos de notícia do Estado por seus eventos religiosos e culturais e, 'sencialmente, por a força do saite da Fundação Nogueira Tapety. Através deste saite, que dia 2 de junho completa um ano de valiosa atividade, Oeiras plugou-se no Piauí inteiro e abriu-se para o mundo. Antenadíssima, a FNT faz notícia, é notícia e, sobretudo, derrama por onde pode suas ondas de informação e de opinião. Os objetivos da Fundação alcançam no saite quase a totalidade de realizações: a busca de documentos, fotografias, recuperação de memória 'maecida, defesa do patrimônio ... E se a totalidade não é alcançada é porque são tantas as buscas e tantos os pontos de mergulho que o aparecimento de uma pepita leva logo a nova busca, outra descoberta e nova informação. Por isso, ao mesmo tempo, e com a mesma impetuosidade, a FNT empenha-se em mover deus-e-o-mundo para conseguir o tombamento e a restauração da Fábrica de Laticínios e se desdobra em fazer com que o povo piauiense aprenda a conhecer sua terra e, com sabedoria, defenda a preservação da Serra Vermelha. Com um correto e poderoso sistema de correio eletrônico, a Fundação faz com que suas opiniões tomem destinos certos atingindo os mais poderosos setores e influindo sobre eles. Várias vezes, suas descobertas ou análises foram parar nos jornais da capital, já com cheiro de notícia requentada. Tudo porque o saite da FNT tanto é bem informado quanto reconhecido, reverenciado e aceito na tal mídia e nos altos níveis da inteligência piauiense. Nenhum outro saite e nenhum jornal do Estado possuem um núcleo de 'critores com a variedade e a envergadura do saite da FNT. Aqui, na Parnaíba, de onde 'crevo, cidade lavada por ventos praieiros, pouco ou quase nada sabia-se de Oeiras. Nem mesmo tinha-se a percepção concreta de que houvesse sertão no Piauí. Hoje, Oeiras é sempre visível, por ser notícia obrigatória nos jornais da capital e, 'pecialmente, por a atuação e a inteligência do saite da Fundação Nogueira Tapety. Pra mim, é nobreza participar do corpo de 'critores deste saite como tenho orgulho do rio que passa por a minha cidade. Benjamim Santos é 'critor e diretor de Teatro à vista dos elogios, exageros da bondade de ele devidamente descontados, é claro que nós, da FNT, ficamos muito felizes e foi isto que me animou a relatar no Overmundo a experiência deste Portal em tudo diferente dos demais. O Sertão é a nossa cara! Sob 'se lema no dois de junho próximo 'taremos comemorando o primeiro aniversário de lançamento do «Portal do Sertão», www.fnt.org.br, sítio virtual da Fundação Nogueira Tapety -- FNT. Instituída em Oeiras, há pouco mais de um ano, (novembro / 2005), a FNT tem, entre suas principais finalidades a defesa intransigente das tradições e do patrimônio histórico, cultural e ambiental dos Sertões de Dentro do Piauí. Seu patrono, Benedito Francisco Nogueira Tapety, era Poeta. O poeta -- de nome artístico Nogueira Tapety (1890/1918), que teve sua poesia descrita, por alguns, como parnasiana, por outros, como panteísta, havendo até quem a considere romântica -- foi orador brilhante e sua conferência intitulada A Luz, proferida, em 1911, no Theatro 4 de Setembro, em Teresina, é, até hoje, festejada. Vítima de tuberculose, faleceu dezenove dias após completar 27 anos. A Casa-de-Fazenda Canela, edificação tombada em nível 'tadual, integra o patrimônio da FNT. Foi ali que o poeta nasceu e morreu. A Fundação pretende dar a ela a função da memória cultural sertaneja, cujo acervo será inalienável. Será chamado Memorial do Sertão Oeiras, sede da FNT, foi a primeira freguesia, a primeira Vila e a primeira Capital, mesmo antes de tornar-se a primeira cidade do Piauí. Exemplo do 'tilo Barroco Brasileiro, como ensina o mestre Ariano Suassuna, guarda, nas ruas e vielas do seu centro histórico, segredos e mistérios. Segundo o 'critor oeirense OG Rego de Carvalho é a cidade dos músicos, dos 'critores e dos loucos (não necessariamente em 'ta ordem). A chamada Capital da Fé é testemunha de uma religiosidade autêntica onde é praticamente inexistente a exploração comercial da fé. É a única cidade do Piauí que possui três bens imóveis tombados em nível federal. O lançamento do portal se deu nos dias 2 e 3 de junho de 2006 (véspera de Pentecostes) sendo que a sessão solene de lançamento ocorreu no dia 2 no plenário da Câmara Municipal de Oeiras. Durante 'ta sessão houve de tudo: a declamação teatralizada de um poema de Nogueira Tapety, a execução do hino de Oeiras por um conjunto regional (sanfona, zabumba e triângulo) e até um aboio praticado por um vaqueiro vestido a caráter. Em o dia seguinte o ponto alto das comemorações foi a palestra do antropólogo, etnólogo e uma das principais lideranças do movimento por a homo inclusão, professor Luiz Mott, que, muito aplaudido, pronunciou uma palestra denominada «A Velha Mocha nas Garras da Inquisição». Durante o ano que passou, como bem salienta o teatrógo, a FNT comandou a Campanha por a restauração da Fábrica de Laticinios dos Campos (a chamada " Fábrica de Sonhos "), participou da campanha por a preservaçãso da Serra Vermelha, promoveu a divulgação do calendário cívico e religioso de Oeiras, lutou por a realização do 3º Festival de Cultura da primeira capital do Piauí, dialogou com autoridades ligadas à cultura e ao acautelamento do patrimônio cultural e artístico, dentro e fora do Estado. Por ocasião das eleições, propôs um debate, entre os candidatos, sobre seus planos para o desenvolvimento da cultura no Piauí não obtendo qualquer resposta como resultado. Em vista disto, o presidente da FNT Carlos Rubem Campos Reis, 'creveu um editorial denunciando a omissão dos políticos (e de mesmo de outras instituições de 'copo cultural) em relação à cultura. Por a seriedade com que vem desempenhando sua auto-'colhida missão, a FNT acabou obtendo a colaboração de uma plêiade não só de 'critores, como lembrou o Benjamim, mas também de fotógrafos. Número de frases: 56 Quem é daqui de João Pessoa e é apaixonado por rock e cerveja aposto que já conhece o Flying Back. Cinco jovens «bebedores de Beatles, vinis e de barulhos refinados fazendo um som sem medo de experimentar suas diversas influências em suas composições». Em um bate-papo informal, Carlos Kobal (guitarra) deixa claro que além do som, o importante é diversão. E o que mais seria o rock senão isso? Esses meninos são, sem dúvida, promessa da cena independente local. Por quê? Tire suas conclusões! Oi Kobal! Tais muito ocupado? Não, não ... Só curtindo o que «sobrou» da noite de ontem ... hehehe Então vamos continuar a curtição aqui ... Me responde umas coisinhas? Sim, sim! Vamos lá ... Acho que o Flying Back já pode ser considerada uma das bandas de destaque da cidade ... Que 'tá começando teoricamente e já fazendo um barulhão. Vocês atribuem isso a quê? Ahh ... Acho que deve ter algo a ver com o detalhe de sermos muito bonitos ... ( kkkkkkkk) ... Não, sério ... é que as nossas bebedeiras produtivas sempre resultam em composições de músicas (risos) e também ao nosso prazer de tocar e de se divertir com tudo.. digamos que 'sas coisas são as que passam em minha cabeça agora ... As coisas vêm naturalmente. Então vocês concordam que 'se é o verdadeiro 'pírito do rock, principalmente o independente ... Ah sim ... Fazemos rock n ' roll por puro prazer ... O que vem de bom para nós como elogios e cervejas de graça em shows, entendemos como uma conseqüência do nosso trabalho ... Creio que não só o rock, mas tudo que seja arte independente nasce por prazer e diversão. E creio também que é assim que a coisa deve funcionar. Vocês gravaram finalmente uma demo, não foi? Me conta como foi isso! Foi??? hehehe ... Hahaha. Era segredo? Agora já era. Conta! É que a gente encara nossa gravação como uma pré-demo já que foi retirada de um ensaio aberto. Sem contar que o músico que nos acompanha no teclado não compareceu por problemas de saúde ... Mas 'tamos num novo trabalho de composição e logo sairão mais músicas fresquinhas e «demos» realmente. Mas não deixem de nos 'cutar ... Nossa pré-demo 'tá no site da trama virtual ... Procurem por Flying Back. Eba! De 'sa vez vai demorar tanto quanto a pré-demo? Previsões? Demorou?? Eu nem percebi (risos) Não, de 'sa vez não vai demorar ... Estamos já pensando em gravar, mas prefiro não dá previsões, acho que as previsões não gostam da gente ... Compreendo ... E quanto aos shows ... A gente pode ouvir desde samba rocks, rock n ' roll e surf music! Que doidera é 'sa? Ahh ... nosso caldeirão de influências!! Eu amo muito isso em 'sa banda ... Somos músicos influenciados por muitas coisas, digamos que numa 'cala de Tom Jobim a Sid Barret parando no Sonic Youth musicalmente falando. Mas todos que nos 'cutarem vão perceber isso mesmo ... rock n ' roll com pitadas de bossa nova, surf music, barulho, noise, barulho, noise. Então quando tiverem oportunidade, não deixem de comprar aquela cerveja gelada e nos assistirem! vai ser legal!! Então você acha que 'se é o grande lance do Flying Back (a grande mistura) ou vocês acham que com o tempo as coisas vão ficando mais direcionadas? Não creio que seja o grande lance da banda, na verdade pra mim o grande lance da banda é a nossa compreensão, união e prazer que sentimos em compor e tocar. Pode dizer que isso nos amadurece em idéias ... E com o passar do tempo não sei como serão as coisas, mas posso dizer com certeza que o Flying Back 'tará aí fazendo o que mais gosta: Tocando. Tocando e fazendo música e proporcionando diversão =] Perguntinha clássica pra saber tua opinião ... Existe underground em João Pessoa? E o Flying Back faz parte desse underground? Eu acompanho há algum tempo 'sas tentativas de levantarem o cenário musical independente da cidade. Sempre boas bandas surgiram, com boas propostas, bons músicos, boas músicas ... Mas sempre eram sufocadas ou por falta de 'tímulo ou por outros motivos. Mas o que 'tou vendo hoje é um tremendo aparecimento de bandas na cidade com propostas e sons próprios que 'tão fazendo todo mundo acordar para o cenário, se é que posso dizer assim, de João Pessoa. Bandas como Star 61, Zefirina Bomba entre outras 'tão cada vez mais crescendo não só em nossa cidade, mas em todo o Brasil. E vendo 'sas bandas que começaram de onde nós 'tamos começando me deixa empolgado e feliz por fazer o que faço. Falando do Flying Back, creio que ainda temos muito a aprender e crescer. Nós fazemos nossas idéias e coisas acontecerem. Se um dia chegarmos a ajudar e a 'timular bandas daqui como o Star 61 e o Zefirina Bomba 'timulam, creio que não só a gente mas diversas outras bandas, ficaríamos muito felizes em ter feito e de 'tar fazendo nossa parte pra o enriquecimento musical de nossa cidade. E me conta outra coisa ... Entrou elemento novo na banda, né? Agora vocês contam com Antonio nos teclados. Como foi isso? Sim, ele é como um amuleto da sorte. Nós o levamos com nós para todas as nossas apresentações e ensaios. O teclado encaixou perfeitamente na sonoridade que 'távamos procurando para a banda. O fato de ele 'tar nos acompanhando hoje começou meio que por acaso: eu e o Second 'távamos com idéias de compor teclados em nossas canções ... Então Antonio, que é um ótimo instrumentista, começou a comparecer a nossos ensaios e criar, com suas influências, teclados para nossas músicas. Antônio é nosso elemento surpresa. Com certeza é um excelente músico e amigo que faz tremenda diferença tê-lo com nós nos ajudando. Fora a demo, vocês têm outros planos pra logo? Abrir um «open bar» para nós mesmos seria um ótimo plano pra logo ... hahaha. Bem, 'tamos passando por um período de «renovação» de instrumentos, se é que você me entende ... Estamos trocando nossos equipamentos, procurando timbres diferentes, idéias e idéias. Agora outros planos fora novas composições e experimentações ... Creio que não. fala a verdade, a do bar não seria uma boa??? kkkk Ah, pode apostar. Seria meeesmo. E me chamem, hein?! Com certeza! Cerveja a R$ 1,00 para quem comparecer aos nossos shows!! Tudo certo já! Pois é Kobal ... É isso! Sucesso pra vocês e cerveja a R$ 1,00 pra nós! Espaço aberto pra você falar o que quiser aí! De nada, Carol. Obrigado! E vamos à mensagem final: Quando vocês 'tiverem procurando boa música e diversão e lembrarem ou olharem em algum lugar que terá uma apresentação do Flying Back, não se reprimam, vamos lá nos divertir! E queria agradecer aos alemães por a criação da cerveja e aos músicos de blues e jazz que criaram com muito carinho nosso querido rock n ' roll ... Obrigado a todos e tenham um bom dia =] Formação da banda: Carlos Kobal-guitarra Diego Second-Vocais / violão e guitarra base Thiago-Bateria Andrei-Baixo Contatos: kobal fbk@hotmail.com e www.tramavirtual.com.br/artista.jsp? Número de frases: 120 id = 8171 ... mais azul, mais colorido, só faltava respirar. ¹ Para suportar a existência, aumentou o número de pessoas com otite. Meu otorrinolaringologista disse que ultimamente tem atendido com freqüência pacientes com inflamação nos ouvidos. Tudo por causa dos fones dos Mp3 Players afundados nos ouvidos. Desde pequeno, freqüento regularmente otorrinolaringologistas. Eu e minhas amídalas. Uns quatro anos atrás, amanheci mais uma vez com a garganta inflamada. Em o começo, é sempre auto-medica ção em alta. Cataflan (antiinflamatório diclofenaco potássico), bala de gengibre, gargarejo com vinagre ... Fiquei uns dois dias nisso e nada da garganta melhorar. Por o contrario, só piorava. Avancei para Amoxicilina (antibiótico b-lactâmico), Cataflan, bala de gengibre, gargarejo com vinagre ... E nada de melhorar. Olhei fundo na garganta e vi uma placa enorme de pus em minha amídala direita. Fui ao otorrinolaringologista. -- Realmente, tá uma enorme placa de pus -- disse ele, com sua lanterna modernosa. Avancei então para Benzetacil (benzilpenicilina benzatina), Amoxicilina, Cataflan, bala de gengibre, gargarejo com vinagre ... Nada. Eu já não agüentava mais. Eu peidava gengibre. Estava ficando dopado. Algo 'tava 'tranho. Não era possível. Em uma semana, nem uma melhora. A placa de pus lá, firme e forte, quando me ocorreu uma dúvida. Olhei bem no 'pelho e voltei ao otorrinolaringologista: -- Doutor, repare bem, veja se 'sa placa de pus, de repente, não é uma placa de pus, e sim uma afta. -- Vamos ver ... Ele olhou e quando fez «ssssssssssss» com cara de dor, concluí que eu 'tava certo. Ele receitou Omcilon-A em Orabase, um acetonido de triancinolona em base emoliente para uso odontológico. O problema é que a pomada em questão vira uma 'pécie de cola quando entra em contato com a saliva e quase morri engasgado na primeira aplicação. Criei coragem e fui para o bom e velho Albicon, uma associação de substâncias anti-séptico e alcalinizantes tópicas, com a finalidade de modificar a acidez do meio onde é colocada. Em o meu caso, a maldita afta. Quando se coloca Albicon numa afta no lábio, por exemplo, costuma-se ficar uns 3 minutos babando com a boca aberta na pia do banheiro, enquanto a afta faz «tsssss» e os olhos ficam vermelhos e lacrimosos. Depois de minutos de agonia e desespero com a afta cheia de Albicon na amídala, o alívio foi imediato. Gengibre nunca mais. Com a otite é diferente. Quando nadava em piscina aquecida, tinha otite com freqüência. Uma vez, meu ouvido entupiu e fiquei ouvindo em mono durante uns dois dias. Otorrinolaringologista, lanterna modernosa e o bom e velho diagnóstico: -- Otite ... seu ouvido 'tá cheio de pus. Lembrei de uma poesia da minha infância: «Querida, vamos comer ferida? Não, amor, prefiro cocô. Cocô não me seduz, prefiro um copo de pus ...». Ele 'quentou água, colocou dentro de uma seringa e mandou eu segurar um recipiente embaixo do meu ouvido. Ele iria 'pirrar com força a água morna da seringa em meu canal auditivo. A água iria entrar e sair, levando (e lavando) tudo. Segundo o 'critor 'panhol J.J. Benítez, em seu livro Operação Cavalo de Tróia, volume 3, 'se procedimento foi usado em Zebedeu, pai dos apóstolos João e Tiago, entre as reaparições de Jesus para os apóstolos, por o militar americano Jasão, que, segundo diz o livro, num trabalho ultra-secreto do governo americano, voltou no tempo para ver os acontecimentos de antes, durante e depois da crucificação de Jesus Cristo. O 'critor divulga o livro como não-ficção, garantindo a sua veracidade. O militar era médico e diagnosticou a otite em Zebedeu, que, provavelmente, foi provocada por água e cera que ficaram alojadas em seus ouvidos, diferente das otites modernosas, provocadas por os fones que ficam dentro dos ouvidos o dia inteiro, além do som alto colado, o que potencializa a inflamação. O 'critor inglês Oscar Wilde não teve a mesma sorte de receber um médico vindo do futuro e morreu por causa de uma simples otite, no início do século XX. Depois do banho auditivo, saí do otorrinolaringologista ouvindo com clareza qualquer sussurro. Até o policial aqui da rua 'tá ouvindo música enquanto trabalha. Nem adianta gritar «socorro». Os motoristas de ônibus também 'tão usando. Não devem 'tar mais ouvindo o «vai fechar o cu da sua mãe, filho da puta». Pessoas correndo na orla, passeando no shopping, na fila do cinema, na praia, no carro, em todos os lugares, cada uma 'tá em seu mundo, interagindo com si mesma. Egotrip coletiva. Estamos nos tornando autistas. Podiam fazer o programa Casa dos Autistas. Cada um num canto, ninguém se fala ... Os otorrinolaringologistas e a Apple 'tão lucrando com os Mp3 Players, mas os camelôs se deram mal. Agora, a mulher que vende coco na orla, enquanto outros passam fazendo exercícios, grita «olha o coco, olha o coco», mas ninguém ouve. Contudo, como a necessidade de comunicação avança a tecnologia, e o grito é (e sempre será) a forma de vender algo, seja no camelô ou numa propaganda da Insinuante, não tardará para termos algum tipo de Mp3 Interfarator Tabajara. Aliás, tem uma propaganda que não grita, que, por sinal, é bem silenciosa e calma, que é a do Citroën C4 Pallas, comercial 'trelado por Jack Bauer. O locutor diz: -- Esse painel com ouro do Egito você conhece, e 'se câmbio da Nasa também, assim como 'se banco com couro de crocodilo do Nilo, mas 'se preço você não conhece. Tudo isso por Apenas R$ 64.990 ... Putaquepariu. Apenas R$ 64.990? Acho que vou comprar um. Vou colocar no cartão. Em a verdade, o texto não é assim, não. O lance do ouro, do couro e da Nasa eu que inventei, mas o resto e principalmente o «por Apenas R$ 64.990» é verdade. Fico pensando no cara que não teve educação, que ganha um salário mínimo, vendo 'se anúncio no intervalo do Jornal Nacional. Publicidade gera violência. Depois ainda vêm 'sas associações de publicitários (ABMP's, APMP's, AAMP's), tentando defender os lucros obtidos com as mortes no trânsito, dizer, também numa propaganda, que propaganda informa, inclusive aquelas com gostosas dizendo «beba» por 29 segundos e com uma voz masculina dizendo «beba com moderação» no segundo final. Informa é a PQP's. Messias disse que recentemente o melhor anúncio que viu foi no fundo de um ônibus. Uma funerária dizia: «Vá para o céu com tudo pago». Genial. Ele disse que ficou atrás do ônibus com o celular tentando tirar uma foto pra provar para as pessoas que o anúncio existia, mas não conseguiu. Mas eu acredito. O camelô, então, com seu novo Mp3 Interfarator Tabajara, poderá fazer seu anúncio invadindo o Mp3 Player do transeunte e, com o seu microfone, dizer no meio da virada da bateria: -- Você que 'tá aí, ouvindo Led Zeppelin, venha ver o meu 'toque de CDs e DVDs. Tenho o novo do Chiclete com Banana, ao vivo em Mossoró. Tenho também O Rappa, Asa de Águia e Bruno e Marrone. Um é três e dois é cinco. Venha ... Mp3 Player é a trilha sonora nossa de cada dia. Música rege a vida. Rege as relações entre as pessoas. Uma amiga minha começou a namorar com um cara que a gente logo descobriu que gostava de Bruno e Marrone. Mas gostava de verdade. Inclusive ele foi a um show de eles. Em Feira de Santana. Ela, de gosto musical diferente do de ele, ficava um pouco incomodada com isso, mas tentava relevar. Porém, a gente não ajudava. Em o começo do namoro, num domingo, Faustão disse na chamada do seu programa que teria Bruno e Marrone. Ela recebeu mais dez ligações. E a gente nunca o chamava por o nome. Ele era chamado de Bruno e Marrone. -- Quem é que vai?-- perguntava alguém, sobre algum evento de casal. -- Vai a gente, Beth e Marcos, Rafaela e Victor, e Laura com Bruno e Marrone. Com o tempo virou só Marrone. Mas foi por pouco tempo. O namoro durou poucos meses. Fiz 30 anos no último dia 27 e ganhei de presente um Mp3 Player. Só que a prova d' água. Estou nadando ouvindo música. Meu professor tá pirado. Não ouço mais nada do que ele diz. Mas natação é um excelente exercício da paciência e agüentar os treinos ficou moleza. O tempo com números finalmente perdeu o sentido. Agora não tenho mais de chegar na borda antes do ponteiro passar por o 30, e sim antes do solo de guitarra. Se o treino for longo, tenho de terminar a série junto com o fim de Hurricane ², música que dura 8 minutos e 32 segundos. Soube que, em alguns lugares, não deixam fazer travessia com ele, pois é considerado 'timulante. E realmente é, até porque dá pra nadar no andamento da música. Fiz uma lista de músicas com andamentos mais rápidos e fiz o teste. O disco «Green Power do Weezer» foi perfeito para a experiência. Meu professor passou a gostar do aparelho. Não tem como não nadar mais forte quando o refrão vem se aproximando. É instintivo. Se for treino no mar, é capaz de eu me perder e parar em Morro de São Paulo. Ano que vem vou fazer a travessia Mar Grande-Salvador dopado. Vou fazer com o Mp3 (Serotonina Moving Picture Experts Group 1 Layer-3) 'condido. Vou viver no mar agora. Só vou voltar pra dormir, 'crever e vender livros. E ir ao otorrinolaringologista. (1) Debaixo d' água, de Arnaldo Antunes. (2) Hurricane, de " Bob Dylan. Número de frases: 135 «Opinião pública só existe em lugarejos. Em as capitais desaparece substituída por a opinião que se publica». Foram 'sas duas frases que me prenderam quando eu comecei a ler «Mundo da Lua e Miscelânea» (editora brasiliense), livro do Monteiro Lobato que eu adquiri por R$ 5 num sebo em Blumenau (SC). Estava ali uma das grandes verdades de Lobato sobre a imprensa do seu (nosso) tempo. Nascido em Taubaté, interior de São Paulo, 'quecido propositalmente por o regime militar, ler Lobato traz um certo alívio, em 'te mundo de tantas «meias verdades», publicadas por aí como se representassem a opinião da maioria. A maioria, claro, nem sempre é ouvida. Engraçado é que me dei conta só agora da importância de ler 'se autor, e foi quase por acaso, depois de ouvir rapidamente sobre seu nacionalismo. O Mundo da Lua foi 'crito em 1923, mas bem podia ter sido 'crito ontem, tamanha sua atualidade. Em o prefácio, diz que Lobato o 'creveu como uma 'pécie de diário, durante sua juventude, quando ele vivia mesmo no mundo da lua. Integrou-o com Miscelânea depois, referindo-se a alguns extras, quando tentou retomar 'sa história de fazer um diário, já mais velho, em 1946. Para quem não conhece, trata-se de uma coletânea de textos do Lobato para adultos, em que ele divaga sobre o Brasil e sobre o mundo. Em algum momento, você vai reparar que ele divaga também sobre você, tua casa, tua cidade ... enfim, teu «mundo particular». Depois da leitura, fiquei intrigada querendo saber o que será que Lobato diria sobre o mundo de hoje. Em «moeda regressiva», um dos textos que compõem o livro, acho que 'tão algumas dicas. Para Lobato, " há dois capitalismos, um que decorre naturalmente da existência da moeda e outro que decorre da manipulação da moeda ( ...) O segundo parece que é o grande mal, já que o vemos no fundo do armamentismo, da guerra preconizada como grande remédio, da usura, dos imperialismos, da subordinação das indústrias às finanças, do prodigioso endividamento dos países que hipotecam até a alma das gerações que só virão daqui a séculos». Em plena década de 40, Lobato parecia mesmo era 'tar discutindo o nosso mundo moderno. Em a Miscelânea «Primeiro amor», por exemplo, em que fala dos selos da Nicarágua, um dos mais belos selos do mundo, faz um importante relato do seu (nosso) tempo sobre o comportamento dos Estados Unidos em relação a 'sa» outra América ": «Tio Sam é expedito. Sabe como se lida com aqueles desordeiros do istmo. Arma uma facção política contra outra, bombardeia com os sacos de dólares, improvisa governos e, a sorrir como Gulliver em Lilliput, realiza a coisa dentro das mais rigorosas fórmulas constitucionais». Lobato também mostra que era melhor inclusive que muito economista que hoje «pensa» o Brasil. Em «Por o triângulo mineiro», ele faz uma reflexão sobre políticas regionais de desenvolvimento. «Só o transporte suprime o regionalismo e, portanto, só o transporte nacionaliza». Sim, Lobato 'tava nos anos 40 discutindo a infra-estrutura brasileira ... O que diria Lobato sobre o nosso Plano de Aceleração do Crescimento? Para concluir, e para o leitor não ficar cansado, vale a leitura de «Pearl Harbour», outra Miscelânea, em que Lobato vai contar sua aflição por a falta de notícias sobre o ataque dos japoneses no Hawai. Ali, vai fazer uma colocação atualíssima: «A informação dos jornais é deficientíssima, porque sempre tendenciosa». Ah, só pra constar, Lobato citou por mais de uma vez H G Wells, chamando-o de profeta, «o novo Nostradamus». Mas não seria Lobato também um profeta? Ou é o mundo mesmo que se apresenta como uma grande repetição do passado? Em tempo, 'te livro que comprei é da 11ª edição, de 1964. Em livrarias, quase não achei exemplares para vender, só mesmo numa: www.saraiva.com.br. Ainda bem! Número de frases: 36 A Casa de Nagô, um dos principais terreiros de culto afro de São Luís, terá registro em livro de fotografia e história. O projeto «Nagon Abioton -- Um Estudo Fotográfico e Histórico sobre a Casa de Nagô» foi idealizado por o fotógrafo maranhense Márcio Vasconcelos, 49, obtendo aprovação no mais recente Programa Petrobras Cultural. A finalidade é apresentar a trajetória e as atividades do terreiro, através de textos e imagens. A Casa de Nagô, localizada no festivo e cultural bairro da Madre Deus, na área do Centro de São Luís, é considerado um dos terreiros matrizes do culto afro-maranhense tambor de mina, que possui importância semelhante ao candomblé, da Bahia. Sabe-se que a casa teria sido fundada por «malungos» africanos, sendo a Mãe Josefa, a fundadora do culto no final do século XVIII. «Trata-se de um dos terreiros mais tradicionais e de ele se derivaram diversas outras casas de culto, da mesma linhagem, no Maranhão», explica o fotógrafo. Além de Márcio Vasconcelos integram a equipe de produção do livro, o poeta e jornalista Paulo Melo Sousa, o pesquisador Sebastião Cardoso Junior e a antropóloga Mundicarmo Ferretti. Márcio explica que apesar da importância e do prestígio, no momento, a Casa de Nagô enfrenta diversas dificuldades, como o pouco número de dançantes (mãe e filhas de santo) em atividade no local. Há somente quatro, todas entre 80 e 100 anos de idade, que integram o terreiro sob o comando de Dona Maria Lúcia, de 102 anos, a chefe da casa. Além disso, por dificuldades financeiras, elas não conseguem cumprir o calendário anual de festas. «Há pouco tempo existia um número significativo de dançantes, mas a quantidade diminuiu drasticamente, por morte ou por incapacidade física», diz. Ele acrescenta que há diversos trabalhos acadêmicos sobre a Casa de Nagô, porém não existe nenhum registro semelhante ao proposto por o projeto de ele. «Esta foi uma das razões para idealizarmos 'te livro, com registro imagético e literário. O objetivo é mostrar todas as festas realizadas por o terreiro, com prioridade para a memória oral, colocando a voz das mães de santo». O fotógrafo enfatiza que mesmo com a finalidade de cobrir todas as atividades da casa, a parte imagética do livro priorizará a linguagem da arte. «Não será um trabalho narrativo ou didático e sim 'tético. Mas é claro, todas as filhas e mães de santo terão o seu retrato». Segundo Márcio Vasconcelos, serão relatados detalhes acerca do culto, como cânticos, rituais, alimentos utilizados, plantas sagradas de cunho ritualístico, danças, entre outros elementos. Ele conta que desde quando começou a fotografar, há quase 20 anos, registra os festejos e atividades das principais casas de tambor de mina de São Luís. «Acompanho de perto outros terreiros, mas a minha aproximação com a Casa de Nagô ainda é tímida. Por isso, a primeira etapa do projeto é criar um forte vínculo de amizade com as filhas e mães de santo do local», ressalta. Festas As festas dedicadas ao vodum Jêje Sobô, deusa dos ventos e da tempestade, sincretizada com Santa Bárbara, no mês de dezembro, e ao vodum Xapanã, relacionado com a entidade gentil Rei Sebastião, sincretizado com São Sebastião, em janeiro, são alguns dos festejos que integram o ciclo anual da casa. Origem Relatos apontam que o tambor de mina se origina da cultura dos negros do Reino de Daomé, atual Benin, por causa do porto de São Jorge de Mina, de onde teriam partido a maioria dos negros que vieram 'cravizados para o Maranhão. De eles, surgiram dois segmentos étnicos, diferenciados por o dialeto: mina Jêge e mina Nagô. Artesanato Além do futuro livro sobre a Casa de Nagô, Márcio Vasconcelos preparou uma publicação sobre o artesanato maranhense, «Arte nas Mãos -- Mestres Artesãos Maranhenses», que foi aprovada na Lei Rouanet e 'tá pronta, mas 'pera recursos para a impressão. «O livro destaca a figura dos artistas. Não é um trabalho sobre objetos, mas de pessoas que confeccionam peças de artesanato», define o fotógrafo. A publicação vai abranger mestres que trabalham com cerâmica, madeira, fibras vegetais, artesanato indígena e arte do bumba-meu-boi, de todas as regiões do Maranhão. Foram registrados aproximadamente 50 artesãos. Para realizar o projeto, Márcio Vasconcelos contou com o auxílio do pesquisador Jandir Gonçalves, um dos mais importantes de São Luís, e novamente com o poeta e jornalista " Paulo Melo Sousa. «Este livro 'tava aprovado para ser impresso com recursos do Sebrae, mas com a mudança da diretoria da instituição, o projeto foi suspenso», explica. O Autor Nascido em São Luís, Márcio Vasconcelos é fotógrafo independente e se dedica a registrar as manifestações da cultura popular do 'tado. Costuma atender a várias agências de publicidade de São Luís e de forma paralela desenvolve projetos autorais em comunidades negras quilombolas, colônias de pescadores e aldeias indígenas do interior do Maranhão. A primeira exposição individual de ele, intitulada «Filhos da Lua», tratava da comunidade de pescadores da Ilha dos Lençóis (não confundir com Lençóis Maranhenses). A mostra foi apresentada em 1992, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, em São Luís. A mais recente, «Brilho de São João -- Registro do Bumba-Meu-Boi do Maranhão» 'teve em cartaz no Museu do Bonde, no Rio de Janeiro, em 2007. Número de frases: 41 Entre as revistas que Márcio Vasconcelos já colaborou, constam Caminhos da Terra, Viagem e Turismo, Exame e Você S/A. Eram 16h30 quando passamos por a Praça 7 e tomamos um susto tão grande com a massa sangrenta que ocupava todo um quarteirão desse marco da cidade que até cometemos um delito no trânsito. Era a concentração da primeira edição da Zombie Walk em BH, que já começava muito melhor do que eu poderia imaginar: mais de 400 pessoas tinham se reunido para o encontro mais morto-vivo que Belo Horizonte já viu. Depois do primeiro choque com o pessoal (e do segundo com a conversão proibida que fizemos), ainda tivemos que deixar o carro na Savassi e voltar de ônibus até o Centro para nos juntar ao movimento. Experiência muito engraçada andar vestida de trapos e completamente manchada de «sangue». Como éramos apenas três meninas ensangüentadas em 'se momento, causamos várias reações: teve quem nos olhou com nojo, quem riu, quem tentou achar normal (como se fosse uma modinha adolescente) e quem olhou com a maior reprovação possível. Mas sobrevivemos tanto aos olhares quanto à ansiedade, alcançamos a horda de zumbis ainda na Av.. Afonso Pena e andamos contra o fluxo por um bom tempo. Passaram por nós todos os tipos de mortos-vivos imagináveis ou não; tinha até um elfo perdido por ali. Foi muita diversão. Vou dar destaque para um zumbi todo de branco que andava bem na comissão de frente e, além de manter o personagem do princípio ao fim, tomava tombos maravilhosos; o time de futebol zumbi 'tava impagável, principalmente um jogador que perdia o olho toda hora; a freira e a marinheira também 'tavam bacanas. Mas, sinceramente, quem trouxe mais diversão para mim foi o zumbi que levou a perna. Eu tinha demorado um pouco para entrar no clima e incorporar um personagem, já tinha «atacado» alguns ônibus e colocado em prática o andar de zumbi, mas só me senti uma morta-viva real quando entrei numa disputa por a perna. Meu objetivo pessoal na Zombie Walk era ver recriada uma cena do Madrugada dos Mortos em que os zumbis rodeiam o shopping onde a «carne fresca» se encontrava. E foi bem o que aconteceu, apesar da tentativa de alguns para entrar lá. Todo a caminhada correu muito tranqüilamente, apesar de andar rápido demais (zumbis, como se sabe, mais tradicionalmente caminham Muito lentamente). Os únicos pontos negativos foram algumas crianças que choraram de terror ao ver tanto sangue (mas também tiveram os pequenos que gostavam da visão incomuns) e uma pequena encrenca com os seguranças do Pátio Savassi, tudo contornado com muito bom humor. Colaboração Ao contrário da maioria das pessoas que eu conheço, eu não tenho o que reclamar do Orkut (pelo contrário, tenho grandes motivos para gostar de ele), mas a Zombie Walk vai ganhar um grande destaque na minha vida virtual. Quando eu entrei na comunidade, nem 100 pessoas participavam e a preocupação maior era divulgá-la o máximo. De aí para frente, foi como num jogo: os desafios iam aumentando. Definir o trajeto, marcar a data, divulgar o evento, tudo combinado na democracia virtual, definido em grupo. Fiquei muitíssimo impressionada com o comparecimento, a dedicação na caracterização e a colaboração de todas as pessoas em não causar problemas. E eram apenas 'sas três coisas o necessário para dar certo. Infelizmente, a mesma empolgação não atingiu a imprensa mineira. Após meus grandes 'forços em enviar releases para «deus e todo mundo» e em ligar para todos eles convidando para registrar a caminhada mais (ergh) oficialmente, recebi variações da mesma resposta «se der mais de 200 pessoas, chama que a gente aparece». Bem, cumprimos a meta dos 400, mas com exceção desse site (que publicou meu release na íntegra) e de uma notinha n ' O Globo Online, não houve mais resposta. Zombie Walk A Zombie Walk é um evento independente que aconteceu originalmente em Toronto, Canadá, em 2003, e reuniu apenas seis pessoas. Desde então, a força da internet na divulgação e na organização de outras caminhadas proporcionaram Zombie Walks em todo o mundo. São Paulo já organiza a sua versão desde 2005, sempre no dia 2 de novembro, Dia de Finados; Belém organizou sua primeira marcha em outubro de 2006; a primeira Zombie Walk de Porto Alegre, realizada em 9 de dezembro de 2006, reuniu mais de 400 participantes fantasiados, a maior marca do evento registrada na América Latina, igualada por Belo Horizonte. O maior evento zumbi do mundo aconteceu em Pittsburg, nos Estados Unidos, e reuniu 894 participantes, em 29 de outubro de 2006, e foi até para o Guinness. Mortos-vivos Zumbi é o corpo de um ser humano falecido que, por algum motivo, volta a se movimentar. Os mortos-vivos (do inglês living-dead ou, simplesmente, undead) são criaturas do terror imortalizadas por o diretor George A. Romero em sua trilogia de filmes sobre o tema (" A noite dos mortos-vivos de 1968», O despertar dos mortos de 1978 «e» O dia dos mortos de 1985 "). Romero definiu os padrões que acabaram influenciando um monte de filmes, livros, quadrinhos e vídeos-game sobre zumbis nas últimas décadas: a fome por carne humana, o andar lento (causado por o rigor mortis) e a cabeça sendo o calcanhar de Aquiles dos mortos-vivos. Mas há ainda muitos outros mortos-vivos, se você ainda não os conhece é porque não morreu o suficiente. Links relacionados Site internacional da Zombie Walk Site oficial da Zombie Walk Brasil Zombie Walk BH (comunidade do Orkut) Mais fotos da Zombie Walk BH por Fabiano Aguiar Mais fotos da Zombie Walk BH por Vinícius " Figura Blu " Galeria de fotos da Zombie Walk BH no Anime Cover Vídeos, vídeos e mais vídeos Como fazer os haitianos faziam zumbis Reais (em inglês) Número de frases: 55 Prepare-se com o Essencial manual de sobrevivência (em inglês) Mas o que é isso? Desenhar com carvão? Sim, o desenho a carvão é uma prática antiga, desde a época das cavernas e ainda é utilizado hoje. Mas porque? Bem, ao que parece algumas práticas consagradas da arte permanecem além do tempo. Como a pintura a óleo, a aquarela, a têmpera e outras. E com o desenho a carvão não é diferente, isso se explica devido à sua grande flexibilidade para a criação, encantando artistas ao longo dos anos. O carvão oferece várias vantagens: além de ser mais barato que o grafite é também mais fácil de usar. E assim como o desenho com grafite, no desenho com carvão o mais importante é ver. É preciso saber reconhecer nos modelos ou assuntos que você deseja desenhar, onde 'tão os tons 'curos e onde 'tão os tons claros e, com calma, ir definindo a forma e aprimorando o acabamento do seu desenho. O desenho com carvão pode ser usado tanto para 'tudo ou como uma técnica pura de arte. O curso de desenho com carvão oferecido por o www.desenhotudo.com vai te mostrar como fazer uso do carvão para continuar a aprender a desenhar e para preparar desenhos que receberão outras técnicas, por exemplo: ao criar 'boços para pinturas em tela. Com carvão e papel barato como o papel jornal ou o papel craft (que é aquele de fazer embrulhos) é possível criar desenhos incríveis como 'te (acima). É possível usar o carvão para criar paisagens e desenhar objetos dos mais variados tipos. Ao longo das aulas do curso de desenho com carvão você será capaz de experimentar os seus efeitos e todas as características de 'ta técnica artística. Acreditando «no novo e no velho» vamos resgatando as práticas antigas da arte e o conhecimento artístico consagrado por as academias no Brasil e no mundo, por isso montamos um curso para quem desejar aprender a desenhar com cursos de desenho on-line. Este é um convite para que você venha conhecer nosso curso de desenho com carvão e venha descobrir como 'te material artístico pode te ajudar a produzir bons trabalhos, visite o: Número de frases: 19 www.desenhotudo.com. Sesc Porto Alegre apresenta de 2 a 31 de maio seu II Festival trazendo grupos de todo o país. Algumas peças: * * * Desde quando a arte é apenas isso? Vida, o Filme, é o meu favoritíssimo livro de Neal Glaber, jornalista americano, que coloca em foco a política do entretenimento, uma sociedade em que todo mundo se diverte e poucos governam. A peça, Vida, o filme, do grupo «Os Desequilibrados» faz uma adaptação deliciosa do tema. Alguém disse que achou um besteirol. Não, na verdade é sobre o besteirol. É criativa a forma como 'sa nova e quase única «cultura» global -- os filmes que todos vimos, o único assunto que nos une-penetra na cena causando choque, riso e reflexão. Tudo bem, tem gente que não vai entender, mas a arte vai salvar o mundo. Pelo menos não todo o mundo. Sim, eles repetem a bendita frase «Eu sou Adam, príncipe de Etérnia» mil vezes. Mas a brincadeira sobre realidade ficcional ou ficção real é retratada de mil formas inteligentes: num debate sem fim sobre filmes, tantos que já misturamos 'ses 'tereótipos todos, num debate entre «Ficção-Nietzsche» e «Realidade-Platão», numa falsa cena de Beckett, num reality-show sobre ninguém, num telão mixando cenas real e fictícias, etc ... Soluções técnicas interessantes, desde o palco nu, até luzes de camarim na roupa e um uso muito razoável do telão, como na seqüência «a-vida-é-um-clichê» do amor fracassado. Os atores, Cristina Flores, Saulo Rodrigues, José Karini e Ângela Câmara brincam de modo consciente e dão o tom certo do deboche no pop. Hoje, quando todos ainda querem fazer Beckett, e quando o movimento de Grotowski se tornou um efeito mecânico sem alma, é 'sencial 'se arejamento de cena e de texto. Salve e salve Daniela Pereira de Carvalho e Ivan Sugahara por 'crever algo tão crítico e divertido. O final, com uma música de Sandy e Junior, é hilário. * * * Macbeth, do grupo Amok foi recebido com entusiasmo por os porto-alegrenses. Os textos clássicos são quase uma obrigação de se gostar no meio cult e Lady Macbeth é mesmo um dos personagens mais queridos, e mais atuais. Parece que será deputada. O grupo usa um figurino deslumbrante, oriental, movimentos trabalhados, um som no palco que cria um ambiente mágico. Ainda assim o início da peça é lento. Nosso ritmo hoje é outro e é um desafio nos clássicos manter a atenção do público. Em uma era de compreensão imediata, Shakespeare precisa de um Dj. Em alguns momentos não se entende bem o que os atores dizem, em 'pecial o protagonista Stephane Brod, francês (vale ressaltar que sou português é bom, parece português). Mas do meio para o fim-um pouco por a qualidade do texto de correr a ação após a coroação-a peça ganha ritmo e tudo chama atenção. Então os elementos todos que o grupo traz-som, roupas, corpo-se unem e fazem um final dos mais interessantes. Grande destaque para Ludmila Wischansky, a Lady. A direção poderia ter modernizado alguma coisa na sua atuação, que é a de um ator só em cena, mas a atriz tira disso o melhor. A peça foi aplaudida de pé e é viva e interessante, mesmo eu achando que poderia ousar mais, principalmente na desnaturalização da ação e na velocidade. Entretanto montar Macbeth de modo integral, colorido e sem nos deixar dormir é por si só um sucesso. * * * Esse Gota d ´ Água do grupo Breviário eletrizou o público de Porto Alegre. Apesar do erro técnico de não explicar que os lugares não seriam numerados, e de encher o teatro com mais pessoas do que as que poderiam ver bem. Todo o elenco é protagonista e nos prende desde o início: a macumba ganha de cara a atenção do público. O texto é o que é e os atores retiram de ele toda a graça. Georgette Fadel é uma das maiores atrizes que já vi em cena. Sua Joana faz movimentos de umbanda e aparece como uma 'tátua da depressão na primeira cena. Suas últimas falas bombásticas com o fraco Jasão acabam sendo repetitivas, mas talvez seja um excesso do texto. Ficamos do lado de ela, o tempo todo. Algo incrível acontece quando os atores 'tão presentes. E, num mundo onde todos qureem agradar, alguém presente é cada dia mais raro. * * * Valsa n. 6 é o tipo de peça que todos querem ver. Uma clássico, uma ousadia dentro do teatro nacional. Mas não basta hoje fazer algo correto. O corpo contemporâneo é dominado por movimentos de comprar, trabalhar, teclar e gozar. O palco exige algo novo. O corpo no palco tem de se livrar da vontade de agradar. Tem a ver com ética, com abertura e generosidade para com o público e-se tiver-com o grupo. Porque a idéia mesma do ator é de se expor, expor sua fragilidade, e para isso vence suas resistências. Infelizmente se faz hoje muito teatro para. Para fazer um clássico, para ser ator, para ser belo. Marina Oliveira tem sensibilidade e, principalmente no final da peça, cresce. Sentimos que ela ficou um pouco sem tempo, precisava de mais tempo para falar e para penar em cena sobre 'sa coisa 'quisita que se chama Nelson. O palco é outra vida do texto. Um texto que 'tá em vida precisa de cores novas. Valsa n. 6 agradou o público na sua 'tréia nacional. Mas 'peramos mais. Número de frases: 59 Assistir a uma apresentação de Folia de Reis -- bem como de muitas outras manifestações da cultura popular brasileira -- é poder dar aos olhos a sensação colorida de que é possível tocar a alma com o que se vê; e como é. Em o próximo dia 06 de outubro, cerca de 90 grupos de Folias se reúnem para o maior Encontro de Folias de Reis do país, na pequena e histórica cidade de Muqui, sul do Espírito Santo. O evento, que acontece todos os anos, teve início em 1950, por inciciativa do professor e então prefeito da cidade Dirceu Cardoso, um entusiasta da cultura popular. De lá pra cá, o Encontro só cresceu e reúne foliões de toda a região sudeste e turistas de todo o país. Ver, ouvir, cheirar a cultura popular assim de frente, tatear a si próprio e perceber o arrepio manifestado através dos sentidos todos é permitir-se viajar no tempo e no 'paço da alegria, da encenação de algo sagrado, folclórico, que nos faz silenciar e aperfeiçoar as atenções para um ritual que encanta. É assim que me sinto sempre que paro para sentir uma Folia -- ou Terno de Reis, em algumas regiões. Foi assim, também, que me senti quando 'tive na residência do senhor Aldemar Gasparelo, mestre da Folia Três Reis do Oriente, a mais antiga, em atividade, do Espírito Santo. O carismático senhor Aldemar Gasparelo tem 85 anos e desde os 12 acompanha os grupos de " Folias de Reis. «Eu comecei menino ainda, no 'tado do Rio, em Miracema, terra do Dr. Dirceu Cardoso, mas não tinha fardamento (uniforme típico dos foliões) nem nada. Quando viemos para o Espírito Santo, eu e meus irmãos continuamos participando da Folia, mas chegou uma hora que eu falei que a gente tinha que ter nossa própria folia». Foi aí que, em 1940, ele e seus irmãos fundaram a folia Três Reis do Oriente. Tradição Ele nos conta que, atualmente, muitas folias perderam sua característica, sua tradição original. Pois, no tempo em que era jovem, eles saíam a zero hora do dia 25 de dezembro, visitavam famílias da região, cantando e levando a bênção da Folia e só retornavam no dia 06 de janeiro, dia dos Santos Reis Magos, que visitaram Jesus recém-nascido na manjedoura. Em 'sa peregrinação de 12 dias, eles dormiam onde lhes davam abrigo e comiam o que recebiam nas casas por onde passavam. «às vezes a gente jantava, outras era só um café, e a gente ia, não podia parar». Em os dias de hoje, segundo o Sr. Aldemar, são poucas as Folias que cumprem com 'sa obrigação. Pois quando um grupo de foliões decidem formar uma Folia, eles assumem um compromisso, uma 'pécie de promessa aos Santos Reis, de que irão cumprir o ritual por sete anos. Passada 'ta fase, eles decidem se continuam ou não. No caso da Folia Três Reis do Oriente, já são 67 anos de história. Em 'sas quase sete décadas, os filhos, noras e netos do Sr. Aldemar também entraram para o grupo. A família toda se envolve, desde a confecção do fardamento, bonés, bandeira com imagem dos Reis Magos, as máscaras dos palhaços, até a conservação dos instrumentos e a organização do Arremate -- uma festa que cada Folia faz para comemorar o fim de sua peregrinação. O Arremate pode ser no dia 06 de janeiro, ou em outra data do ano. Para manter a tradição das Folias, muitos grupos formados por adultos inserem entre eles adolescentes e jovens. Há Folias inteiras formadas só por crianças, são as Folias Mirins. A comerciária Maria da Penha Moreira da Silva, de Cachoeiro de Itapemirim, conta que participa do encontro em Muqui há um ano. «É um 'petáculo maravilhoso e belíssimo, muito bem preparado e organizado. É fantástico! Nunca imaginei que fosse tão lindo». Sua 'tréia no Encontro de Folias se deu por causa do filho, Hugo da Silva Pimentel, de apenas cinco anos. Segundo «Maria da Penha,» desde bebê ele já adorava ver a Folia tocar, e quando mais grandinho já acompanhava o ritmo certinho das batidas dos instrumentos, foi aí que o tio de ele -- que integrava a Folia de Reis Parada Cristal de Jerônimo Monteiro, junto com o pai e o avô do garoto-resolveu fazer uma roupa igual à da Folia pra ele». Quando o filho resolveu ir ao Encontro com o pai e o avô, a mãe acabou indo também e não pretende deixar de ir nos próximos anos. Em o encontro anual em Muqui, vê-se um pouco de tudo: crianças, jovens, adultos, idosos; homens e mulheres; negros, brancos, índios, pardos; é uma festa que une culturas, etnias, famílias do interior de uma região que tem a cara e a cor de todas as outras, a Região Sudeste. Componentes Como nos conta o mestre Dulcino Gasparelo -- filho do Sr. Aldemar e integrante da Folia Três Reis do Oriente desde os sete anos -- normalmente uma Folia tem entre 12 a 14 componentes, podendo variar de acordo com cada grupo. O número de integrantes equivale ao número de apóstolos de Cristo, 12; mais um ou dois soldados de Herodes -- o rei que mandara matar Jesus, quando do seu nascimento-somando 13 ou 14 componentes. «Mas tem Folia com 11, porque ignora Judas como Apóstolo; outras com 15, varia». Para ele, a Folia é uma religião. «Eu saio com a Folia, rezo um pai nosso, uma ave-Maria. Em o que eu peço, sou atendido», conta emocionado. Em a cidade de Muqui, além da Folia da família Gasparelo, há outros 11 grupos de Folias. Entre os componentes 'tão os mestres -- que conduzem a Folia, cantam, falam os versos nas chegadas das casas-; os contra-mestres, os reis magos -- que representam os Reis do Oriente na busca por a 'trela que os levará ao menino Jesus, o (s) palhaço (s) e os outros integrantes, chamados de foliões. Todos, porém, cantam e / ou tocam instrumentos como sanfona, viola, violão, bandolim, cavaquinho, triângulo, pandeiro, bumbo, caixa, chocalho, entre outros. O palhaço Uma curiosidade sobre o palhaço é que ele, apesar do que comumente se diz, não representa, segundo o mestre de Folias Dulcino Gasparelo, o demônio. A figura caricata do palhaço representa os soldados de Herodes, que, disfarçados em farrapos e máscaras, perseguiam os Reis Magos, a fim de informar o Rei Herodes onde 'tava o menino Jesus. Mas, ao encontrarem o menino, eles se arrependeram e se ajoelharam em adoração a Jesus. Os palhaços sempre acompanham a Folia de longe, indo atrás, meio que na penumbra para não serem notados e só depois se revelam e, em 'se momento, cantam versos. Em o Encontro de Folias, os palhaços costumam se apresentar e, inclusive, duelar entre si, por meio de suas trovas. Em a bênção das Folias, na igreja Matriz, ponto alto do Encontro, os palhaços tiram suas máscaras para entrarem na igreja, pois já não são mais mensageiros de Herodes. Os que se recusam a tirar as mácaras, têm que 'perar os outros foliões do lado de fora. A Festa nas ruas A festa anual faz com que muitas famílias abram suas casas para que as Folias cantem seu louvor. Os donos das casas enfeitam as janelas e o interior com toalhas, flores e imagens de santo, para receberem foliões e turistas. Muitas de 'sas casas são tombadas por o patrimônio histórico 'tadual, o que torna ainda mais harmonioso o Encontro. É uma festa popular, em meio aos casarões que lembram a nobreza cafeeira do século 19. É o maior Encontro de Folias, no maior sítio histórico do Espírito Santo. É beleza que não acaba mais, é encanto, fé, poesia viva, saltando aos olhos e corações. E não precisa ser religioso, a festa é para todos e as bênçãos também. Lembro-me de que quando era pequeno, meu pai e minha mãe, nos acordavam cedo -- a mim a aos meus irmãos -- para irmos ao Encontro de Folias. Morávamos na roça, era distante, mas íamos felizes assistir àquela festa. Ficávamos o dia todo, só voltávamos para a casa à noite. Em a minha cabeça, a imagem do palhaço pulando e cantando é a mais marcante. Música Muitas manifestações culturais e religiosas em nosso país se baseiam em músicas ou mesmo em quadras 'trofes com 4 versos-, com versos falados ou cantados, passados de geração em geração por a rica cultura oral. As músicas ou versos cantados em 'sas manifestações têm uma cadência tão característica, e temática tão própria que só de ouvir de longe já se sabe do que se trata. O canto entoado por as Folias de Reis é assim. A o ouvi-lo, já se pode imaginar que há uma folia cantando em alguma casa do campo ou da cidade. E se além de ouvir, pudermos ver, aí sim, a magia se completa, é quando a música da folia toca a alma da gente. Com a Folia, a alegria do comércio local Em os últimos anos, o encontro tem reunido um público em torno de oito mil pessoas, entre foliões e visitantes. Para 2007, a expectativa é de que dez mil pessoas venham ao cenário das Folias em Muqui. Todo 'se movimento agita a cidade, que tem menos de 15 mil habitantes. Segundo a secretária de Cultura e Turismo do município, «Joelma Consuelo,» o que o comércio fatura em apenas um dia de Encontro é o equivalente ao lucro de um mês de vendas». O artesanato local também fatura com o evento. Dona Juracy Mattos de Oliveira, atesã há 40 anos, recebeu encomenda para confeccionar mais de 100 miniaturas de palhaços de Folias de Reis, somente para 'te ano. Ela, que já produzia bonecas de retalho, palha, bucha vegetal; chinelos, chapéus, bolsas de crochê e tricô, aprendeu, por meio de uma oficina com o mestre de Folias Dulcino Gasparelo, a trabalhar com couro e a confeccionar os palhaços das Folias de Reis. O couro, matéria-prima para o artesanato dos palhacinhos, é comprado diretamente com criadores de gado do município. Outras atividades como a agroindústria de doces e licores recebem grande procura em 'ta época do ano, com o Encontro de Folias e em fevereiro, com o Carnaval Folclórico do Boi Pintadinho. O Encontro Nacional de Folias de Reis reacende 'sa cultura popular cristã, vinda de Portugal com os colonizadores e miscigenada por a diversidade etnica e cultural brasileira. O Encontro acontece, geralmente, no mês de abril, mas, 'te ano, a festa será no dia 06 de outubro. Vale muito a pena experimentar as cores e a emoção marcantes. Número de frases: 91 O canto das Folias tocam e ritmam nossas sensações. «Você vai se distanciar de seu povo. Samba, daí, nunca mais." É algo assim que Joana, a Medéia do morro, diz a Jasão para amaldiçoá-lo. Há alguma coisa de 'sa verdade na montagem de Gota d ´ Água que assisti 'ses tempos, em direção de João Fonseca, com Izabella Bicalho e Lucci Ferreira como protagonistas. A peça começa com um samba legal, depois outro samba legal. Ok, é Chico Chic, microfone, palcão e tal. Outro samba legal, e outro. É tudo muito perfeito, mpb pra gringo ver, dá um incômodo. Ok, não é tão raiz quanto o outro Chico, mas vai ser bom. Aí começam os sambas em que você não entende o som. Será o cara que não canta bem ou a acústica? Começam caras e bocas, marcação de cena marcadíssima, você começa a pensar se em 'sa favela chic precisa mesmo um negão com a camisa do Flamengo, uma negra com roupa de oncinha e troço na cabeça e umas mulheres vestidas de anos 50. ( A princesa de Jasão é a Emília). Você enxerga, simplesmente, a sombra do holofote no cenário. Os rostos ficam na penumbra e a luz foca outra coisa. Tem um Creonte excelente que salva tudo, um bom Mestre (apagado por o diretor), um Jasão bem forte e expressivo, mais vivo que o último que assisti. Dá o intervalo. Calma: nada pode arruinar a cena fantástica de Joana matando os filhos. Eu dou nota sete, tem música colorida e boas dancinhas. Uma amiga, com cara assustada, diz: «Meu Deus, eles 'tão muito frios. É muito comercial». Outro responde: «Estão completamente distantes desses personagens, não se identificam». Parece realmente impossível imaginar 'sa Joana no morro e não no Shopping. Sim, ela tem um vozeirão. Em um dado momento da canção, quando diz: «Animais!!!!», parece mesmo que 'tava ali com tudo. Só que, quando volta a 'curidão, fica mais patente ainda a diferença entre 'sa Joana e a de Georgette Fadel. Georgette 'tava ali tanto e tanto, a ponto de eu pensar-seria melhor moderar em alguma cena, é tensão demais ... Mas funciona! Depois as coisas pioram: tem música cantada com emoção, cenas mexicanas com " não me bata meu amor!" ( uma cena que se repete em ritmo mais rápido é legal, mas um chute coreografado do Machão na barriga da Pobrezinha torna-se cômico) e os «pobres» dançando com algo como boá de retalhos e chapeuzinho Panamá colorido. Não dá. O público delira com as cenas Broadway, a evocação de Ogun com uma saia de cigana-Carmen Miranda, um samba «Vila da Alegria» que vira funk e bolero. Que diabos deu do microfone ficar achatado e mugindo quando os personagens se abraçam? Nada contra seu uso, mas, de alguma forma parecia que tornava tudo ainda mais premeditado, como uma gravação. ( Não ajudam os «fazerrrrr»,» comerrrr», tudo com um português que nem o Pasquale pode falar ...) Em o final, morrem as crianças sem que tenhamos sentido quase nada. ( Quando, na última cena entram gritando «P'I», você começa a rir). Quem pode chorar a morte de um menininho de camisa branca e calção marrom e uma menina de vestidinho e laço (ou quase)? Entra uma «Cumadi» com um agudo de «Rainha da Noite», será pra nos acordar? Enfim, será que em 'te mundo onde todos queremos imitar as celebridades, pois afinal as celebridades nos são dadas como modelo, será que é tão difícil assim mostrar o coração? Será que não temos idéias novas, vivendo dentro dos Jardins, será que a última vez que vimos um pobre foi no «Alô Amigos?», ao som de Tico-tico no Fubá? Esperamos da arte um mínimo de ousadia. A música é boa, os musicais são bons, mas custava tirar um pouco de tudo-por exemplo, para que uma música do gigolô falando do seu pau (depois ele mostra a bunda, claro)? Chico virou Deus, quando? Pobre de oncinha é mais fácil que ver a humanidade em todos, ricos e pobres. Em a saída leio no folder: «graças a ... consegui realizar 'te projeto ..." Como Chico é chic! A capa mostra as pessoas com as mãos na testa, (na entrada você pensa que é um gesto melodramático de " Ai Meu Deus!"), mas é só um ritual de macumba. Ai, Meu Deus! As desgraças às quais o diretor se refere-caos aéreo, a crise do Senado, o mensalão, as balas perdidas, João Hélio-são todas midiáticas e mostram a distância de outras tão reais: salários baixos, trabalho temporário, 'tudo-pró-forma, ônibus lotado, polícia na favela ... Muito tempo depois de que Chico e Paulo Fontes tenham se aproximado do povo. «Samba, daí, nunca mais." Número de frases: 59 Já 'tá 'curo, e nos bares e ruas que cercam o terminal de ônibus da Lapa veículos e pessoas se trançam apressados rumo ao fim da semana. É sexta-feira, os camelôs ainda vendem, e dos porta-malas de carros parados sai música alta. Só mesmo passando na calçada da rua Joaquim Machado nº 99, exatamente em frente à sede da Corporação Musical Operária da Lapa, é que se percebe que ali existe uma banda musical ao 'tilo antigo, que toca marchas e dobrados na rua e que, para os seus 19 componentes, sexta à noite é dia de ensaio. O casarão, construído no século retrasado e mal conservado, fica com as portas abertas pra quem quiser olhar ou entrar. O músico Lívio Tragtenberg já tinha ouvido falar do grupo, mas descobriu a localização da sede depois de rodar por três dias na Lapa. O regente Nestor conta como foi 'se encontro: «Essa coisa com o Lívio, é por isso que eu acho gostosa aqui a banda, porque ela surge. É que nem se alguém jogou uma semente. E quinta-feira eu venho sozinho aqui, não tem ensaio, eu fico aqui treinando meu instrumento. Em uma quinta-feira ele ouviu, bateu na porta, eu abri, ele entrou. Foi aí que tudo começou. Aí ele veio no ensaio, participou do ensaio, a gente conversou, 'colhemos as músicas, ele contou qual era o projeto de ele e aí nós fomos tocar». Em o ano passado o compositor Tragtenberg se apresentou no Sesc Pompéia em conjunto com a banda, tocando saxofone e aparelhos eletrônicos, com um resultado grandioso. A vontade de Lívio veio de uma idéia musical, a de juntar os tempos binários presentes tanto nos dobrados quanto na música eletrônica. Esse ano a apresentação deve ser repetida, e virar disco. Mas a história da Banda da Lapa vem de longe. Sua primeira formação foi organizada em 1881 por o maestro Chiafarelli, e contava com muitos funcionários da antiga São Paulo Railway. Hoje em dia a maior parte é de trabalhadores aposentados. É o caso do regente Nestor Avelino Pinheiro, que trabalhou 34 anos em bancos. «Sou regente da banda há quatro anos, mas presidente há um ano e meio. Toquei trompete muito tempo aqui, mas sou de Nazaré Paulista, e o prefeito de lá pediu para a eu montar uma banda lá, me afastei dois ou três anos». As coisas se transformaram desde que tudo começou, e uma banda musical de metais e percussão não encontra muito mais 'paço nas festas de rua. Os aniversários de bairros às vezes convidam, mas «serviço normalmente é quando a Igreja Católica chama pra fazer uma procissão», conta. Como ele, a maioria dos aposentados ainda trabalha para complementar o dia-a-dia -- e também o custeio da banda da Lapa. «A gente tem uma despesa fixa aqui na banda de cerca de R$ 150,00 mais ou menos. Sobrou, a gente distribui entre os músicos». Mesmo com sede própria «às vezes serviço não aparece, e os músicos pagam do bolso». Segundo Nestor, a existência da sede própria, construída por os próprios músicos em terreno doado por o maestro Chiafarelli, é o principal motivo da resistência do grupo: «Essa banda já tem 15 anos. Eu acredito que por o fato da banda ter uma sede própria, eu acredito que durante todo 'se tempo a banda não parou de funcionar exatamente em função da sede. Porque as outras bandas que eu tenho conhecimento que não tem onde tocar, acabam parando. Então aqui o que acontece é o seguinte: tá sendo uma renovação constante. às vezes um músico pára de tocar vem o outro, pára de tocar vem o outro. O detalhe que é importante aqui é o seguinte: não uma renovação no sentido assim, sai um senhor de, digamos, 60 anos de idade, entram dois de 15. Esse tipo de renovação, que é importante, não há. Sai um senhor de idade já entra outro também já com uma certa idade. O que muitas vezes acontece também é aquela história da sede, você tem uma banda, digamos, em Carapicuíba, por uma série de problemas acabou a banda lá. Um conversa com outro, outro conversa com um: ô, tem a Banda da Lapa, não sei o quê, eles vem pra cá. Acabou a banda do bairro do Limão, mesma coisa, eles vêm pra cá. Quer dizer, 'se músicos mais ou menos antigos, de banda, eles não querem parar, entendeu? O maior prazer de ele é ficar tocando. Eles procuram onde tem, né?" Talvez a Corporação Musical Operária da Lapa não tenha «toda a malandragem» dos Oito Batutas, nem «o canto refinado» de Ernesto Nazaré *, mas uma coisa é certa: a banda de música existe e gira em torno do prazer que os músicos têm de tocar juntos -- num volume bem alto, diga-se de passagem. Ao contrário dos grupos como os liderados por Pixinguinha e Chiquinha Gonzaga, nenhum de eles é virtuose, nem a música executada por eles tem refinamento, além do que eles nunca chegaram a se apresentar em salões de baile ou cinemas. Até 2005 eles faziam seus «serviços» (nome dado por eles para classificar as suas apresentações) exclusivamente nas ruas, à moda das antigas retretas, com balizas, uniformes e tudo mais. Outra certeza é que a demora em ser editada no formato CD foi maior do que algumas das primeiras bandas musicais gravadas no Brasil, contemporâneas da corporação. Enquanto as gravações originalmente lançadas em discos de 78 Rpm por a Casa Edison ganharam uma caixa lançada por a gravadora independente Biscoito Fino em 2000, só em 2005 a banda da Lapa entrou em 'túdio pela primeira vez. O resultado é o CD que leva o nome da banda, feito e «vendido de mão em mão, no boca-a-boca por membros do grupo, diz o regente» Nestor. «O disco demorou um ano pra ficar pronto. A dona de um 'túdio conseguiu um patrocínio da Uninove para a gravação do CD. A segunda parte, da mixagem, prensagem, e tudo mais, foi bancada por o Shopping da Lapa [prédio localizado na 'quina em frente à sede da Corporação]». O repertório é composto por «três dobrados, duas valsas, dois sambas e dois hinos, o da Lapa e o de Nazaré Paulista, que eu compus». De a apresentacão ao lado de Tragtenberg no Sesc Pompéia saiu um pequeno documentário com oito minutos de duração chamado Reincorporação musical, que você pode assistir aqui. Ir aos ensaios, que duram das 20hs às 21:30hs, também é uma ótima. Em o dia 24 de janeiro deste ano, véspera do aniversário de 452 anos de São Paulo, a Corporação Musical Operária da Lapa, banda mais antiga da cidade, não tinha nenhuma apresentação agendada. * «Não tenho toda a malandragem de Bezerra da Silva / Nem o canto refinado de Paulinho da Viola» são os versos de abertura de Sou negão, de Rappin Hood. Número de frases: 60 Apesar do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934) nunca ter cantado, a citação vale, já que sua produção musical foi uma das grandes pontes entre o erudito e o popular. Em pleno clima de São João já há alguns dias instalado em Pernambuco, eis que venho aqui postar sobre ... frevo! Poisé. Mais 'pecificamente sobre a apresentação que a Spok Frevo Orquestra faz hoje no palácio do Sarkozy, presidente francês (prometo que não vou falar de política ... hehe). Pois bem. Hoje, 21 de junho, é o dia em que os franceses comemoram o Dia da Música e ocorre o Fête de la musique. E também é a data que marca o início do verão por aquelas bandas. É o solstício de verão. Em outras palavras, hoje só anoitece por volta das 22h. E um dos pontos altos da comemoração é a festa que ocorre no Palácio do Eliseu, residência oficial do presidente francês. A principal atração, e que encerra o show, é a Orquestra de Frevo do Spok, com apresentação marcada para as 18h. Após a exibição, os músicos serão recebidos para um jantar com o presidente e sua mulher, Carla Bruni. Em 'te momento, eu peço uma pausa para um comentário machista. É que não há como não falar sobre o 'petáculo de beleza que é 'ta primeira-dama francesa. Pouco conheço de ela. Sei apenas que nasceu na Itália, foi modelo e depois cantora, com dois álbuns gravados. Mas é de uma beleza ímpar:) Mas deixa eu voltar ao tema da postagem ... Este show é um dos quase vinte que 'tão programados na Europa. Semana passada rolou um festival de música nordestina brasileira, também na França, e eles, junto a Silvério Pessoa, Dj Dolores e a Orquestra do Fubá, foram as atrações. Um dos shows que ainda restam é no badalado Montreux Jazz Festival. Apresentam-se nos dias 13 e 14 de julho. Para mais informações, entre no sítio oficial do festival, clicando aqui. E para ir finalizando, visto que a postagem já 'tá por demais longa, um vídeo com um pequeno trecho da participação da Oquestra de Spok no festival de música nordestina que comentei acima. Em 'ta música, participação 'pecial de Silvério Pessoa, figura ja conhecida e bem avaliada por a crítica francesa há um bom tempo. Por o que entendi, os responsáveis por o vídeo são de uma produtora chamada OutroBrasil, que faz um trabalho exclusivo com a música brasileira na França. Segundo suas próprias palavras, " La musique et les images de tournées et concerts des artistes (et acteurs) de l ' agence et label Outro Brasil. Nous sommes la musique brésilienne contemporaine de qualité." Chama a atenção a quantidade de artistas pernambucanos com a produtora. Entre eles Siba, Coco Raízes de Arcoverde, Eddie, etc. Para curtir todos os vídeos de tal produtora, acesse aqui http://www.dailymotion.com/outrobrasil. Número de frases: 32 Texto original para o blog Propalando. O Brasil parece ter suspirado de alívio com a morte daquele que foi um dos maiores ícones do coronelismo do país. Por outro lado, boa parte da Bahia, coitada, até hoje deve lavar as 'cadarias da igreja do Bonfim com as lágrimas que derramam por a tardia, diga-se de passagem, morte do seu ídolo «cabeça branca». Mas podem levantar de seus confortáveis sofás e desligarem suas TV ´ s de última geração, meus queridos amigos, pois o bom (?) e velho ACM não morreu. É isso mesmo. Continua vivinho da Silva. É só pegar o mapa desse Brasil de meu Deus e apontar pra qualquer município do mais longínquo 'tado. Tente descobrir um pouquinho que seja sobre a política daquela cidadezinha e você vai ver que ACM 'tá firme e forte, e o pior, clonado em milhares de versões. A fôrma é sempre a mesma. Existe o prefeito, que tem uma família que «coincidentemente» 'tá entre as mais «ricas» da cidade. Os filhos do prefeito 'tudam nas melhores 'colas, passeiam nos melhores carros e mais uma vez, «coincidentemente» 'tão entre os partidos mais concorridos da cidade. O prefeito «ajuda» os pobres, nutre «ótimas» relações com empresários, pessoas influentes, fazendeiros e outras famílias endinheiradas. Os filhos crescem, viram políticos, empresários e aumentam ainda mais o poder do determinado clã. Uma 'cola aqui, um asfalto ali, uma pracinha acolá, e assim os anos vão passando, as eleições vão acontecendo, a família crescendo e eles, claro, se reelegendo. A rentável profissão de político faz muito bem para a saúde e quem chega lá não quer sair jamais. Vide Renan Calheiros, a coqueluche, ou melhor, a uva podre do momento. É óbvio que você, uma pessoa moderna, urbana, antenada nas últimas tendências mundiais não vai dar a mínima atenção para o que acontece lá em Pio XII, no interior do Maranhão (acredite, existe!). É óbvio também que você não tem nada a ver e nem pretende passar por perto daquelas cidadezinhas perdidas lá nos cafundós do Piauí, do Acre ou do Amapá só pra citar lugares mais distantes do sul e sudeste. Entretanto, você, que mora em 'sas regiões mais economicamente desenvolvidas do país, certamente conhece ou ainda vai conhecer alguma criatura nascida num desses lugares «perdidos». Pergunte para o tal cidadão como funciona a política em sua cidade natal e sobre os motivos que o fizeram largar a família, os amigos e sair em busca de oportunidades. Pelo menos um dos motivos vai ser a falta de perspectivas políticas em sua cidade de origem. Lá deve existir um ACM da vida, que dá privilégios a alguns, engana muitos e vive luxuosamente às custas de todos. E agora eu lhes pergunto, será que 'ses «paraíbas» como são chamados os nordestinos e nortistas no Rio de Janeiro ou os «baianos» em São Paulo não têm direito de fugir das garras desses ACM ´ s e ir em busca de realizações profissionais e financeiras em outras regiões? Mas isso é outra história ... Saindo da 'fera municipal e entrando na 'tadual a coisa fica mais óbvia ainda. Cada 'tado tem seu modelo de ACM importado diretamente da Bahia e benzido por o Senhor do Bonfim (brincadeira, ele não seria tão ruim). Só pra refrescar o cardápio indigesto, que tal a família Sarney, que é dona do Maranhão e 'tá de olho e um pé no Amapá? Que tal Jader Barbalho e Companhia que tem fortíssima expressão no Pará? E Paulo Maluf, em São Paulo? E a família Collor de Mello no Alagoas? É só procurar no Google que você vai achar qual família de políticos manda em cada 'tado. É a oligarquia brasileira mostrando que com o surrado e nojento discurso do «rouba, mas faz» é possível construir impérios e ser rei. E, em 'te caso, nem podemos dizer que é em terra de cegos. Some os milhares de prefeitinhos medíocres de todo o Brasil e você verá a 'sência de ACM pulsante nas veias do Brasil. Junte a 'ses prefeitos, governadores, senadores, deputados, vereadores, primeiras-damas, parentes de políticos e todos os sangue sugas da política tetra campeã do mundo e você terá um Antônio Carlos Magalhães vivíssimo, gordo, corado, saltitante e rindo da nossa cara, dançando ao som dos tambores dos orixás, dos axés (com todo respeito) ... Mas dane-se tudo isso. A gente tem coisa mais importante pra se preocupar em 'sa vida. O que importa é que a Bebel vai terminar com o Olavo, o Brasil ficou em terceiro lugar no Pan, o carnaval da Bahia é um fervo, o do Rio é um luxo, a parada gay de São Paulo é a maior do mundo, o Lenny Kravitz vai tocar de novo na praia de Copacabana, a Ivete Sangalo 'tá solteira mais uma vez e, o melhor de tudo, em janeiro tem a milésima edição do BBB. Vou correndo gravar a minha fita, quem sabe eu viro celebridade ... River Coelho, maranhense, de Pio XII. Número de frases: 41 Música pode promover a inclusão social? Para a Missão Criança Aracaju, 'tá mais do que comprovado que sim. Através das oficinas musicais, o projeto Recriando Caminhos, desenvolvido por a ONG, com o financiamento da Petrobras, trabalha o aprendizado de crianças e adolescentes através de noções de ritmo e musicalidade. «A Música é companheira da Educação», foi assim que o educador da oficina de Flauta, Cláudio Pinto, sintetizou o trabalho que vem desenvolvendo há quatro anos dentro do Recriando no Instituto Creche Menino Jesus. O educador afirma com a certeza de quem presência, aos poucos, a evolução dos seus alunos não apenas musicalmente, mas também enquanto indivíduos inseridos numa sociedade. «Eles melhoraram da água para o vinho tanto aqui como na 'cola formal, porque a música trabalha também o intelecto e o lado emocional do ser humano», explicou. Inicialmente, a oficina era apenas de Flauta Doce, mas o avanço na aprendizagem possibilitou que evoluísse para outros tipos como flauta tenor, contralto, transversal, barroca, entre outras. «Eles não tinham noção de música alguma, mas depois se revelaram», contou Cláudio, que no início assustou-se com o desafio que tinha adiante, mas que hoje, com as apresentações 'porádicas, percebe também no retorno do público que o trabalho social do projeto tem surtido efeito. Percussão -- É quase unanimidade: os meninos e meninas da oficina de percussão do Recriando Caminhos, no Centro de Referência Risoleta Neves, querem seguir a carreira musical. Este desejo reflete-se no empenho em aprender as técnicas de percussão com o educador Gladston Santos. Através do seu trabalho, ele já conseguiu que os meninos ficassem conhecidos com o grupo Lateiros Curupira. Só 'te ano, o grupo, formado por 20 adolescentes da oficina, já realizou quatro grandes apresentações: Projeto Verão, em janeiro; Carnaju, em fevereiro; Rua da Cultura, em março; e na visita do ministro da Cultura Gilberto Gil à cidade, em abril. «Quando eu entrei já descobri que era isso que eu queria», disse Ítalo Gomes, de 14 anos, que 'tá na oficina há mais de um ano, e teve a oportunidade de se apresentar em todos os shows. «O que eu mais gostei foi o do Projeto Verão, tinha muito público, muita energia, nunca tinha visto isso», disse o menino. O seu colega Rafael Gomes, de 11 anos, também gostou mais da apresentação que aconteceu em janeiro. «A gente tocou e abriu o show da banda Olodum, que ouviu nossas músicas», contou. Para crianças que possuem uma realidade de vida tão problemática, momentos como 'tes parecem um sonho. Ter a possibilidade de ser o centro de atenção e receber o reconhecimento por o seu talento é um 'tímulo para acreditar que o futuro pode ser bem melhor que o presente, basta se dedicar, 'tudar e aproveitar a oportunidade de utilizar a arte como instrumento de inclusão social. Com aulas às terças e quintas-feiras, pela manhã e por a tarde, a oficina de percussão já acontece há três anos dentro do Recriando Caminhos, e conta com aproximadamente 50 jovens do projeto. Tanto Gladston, conhecido como Ton toy, como Cláudio, do grupo de flauta, cresceram com a música. Desde cedo participaram de bandas, cada um em seu 'tilo, e com o início da oficina tiveram a oportunidade de trabalhar num projeto social. «Nunca tinha feito um trabalho assim, e foi uma coisa que me deixou surpreso com mim mesmo», conta Ton toy. Em ambas as oficinas, não há evasão de alunos. «O Lateiros Curupira 'tá sendo uma referência para os meninos que ainda não 'tão prontos para as apresentações. Todos querem participar e por isso se empenham durante as aulas para entrarem no grupo. Sempre digo que todos podem participar, e isso eleva a auto-'tima de eles, conta o educador. Segundo o educador Cláudio, a sua relação com os alunos contribui para que eles se dediquem à flauta. «Temos uma relação tão boa que às vezes assumo papel de pai. Acredito que a minha atuação não é apenas o de professor de música, e por isso procuro sempre utilizar a conversa sobre a oficina e ouvir os problemas de eles, disse. Mergulho cultural -- Mais do que notas musicais, muitas palavras são trocadas durante as oficinas. Sob o princípio de 'timular a identidade regional dos alunos, os educadores conversam sobre a cultura local, explicando cada ritmo ou música, para depois mergulharem nas canções de nosso 'tado. Quem já assistiu a um show dos Lateiros Curupira sabe que durante quase uma hora, o grupo passeia sobre os ritmos folclóricos sergipanos e, para isso, é preciso que os meninos do grupo conheçam sobre a música regional. «Eu sempre passo que eles devem procurar a identidade cultural de seu povo. Todo tempo eu conto um pouco da história dos ritmos para que eles possam fazer disso uma referência musical». Apoio da família -- A mudança no comportamento dos alunos das oficinas musicais, seja na 'cola ou em casa, é notável, que uma das conseqüências é o apoio que os pais dão ao aprendizado dos seus filhos dentro do Recriando " Caminhos. «Minha mãe não deixa eu faltar uma aula, diz que eu tenho que me dedicar, mas eu também não gosto de faltar», disse Ítalo Gomes. Bruno Dias, 12 anos, não descansou até fazer parte da oficina. «Eu fiquei pedindo à coordenadora (do Recriando) até que ela me colocou, daí eu não saí mais». O menino evolui rapidamente e já faz parte dos " Lateiros Curupira. «Emoção e alegria é o que eu sinto em cada show», disse Bruno, e bastava ver no olhar solidário dos colegas que ele expressava o sentimento de todo o grupo. Além da música -- Os alunos das oficinas musicais não ficam apenas nas aulas de flauta e percussão, mas participam também da Orientação de Estudos e do Baú de Leitura, dentro do Recriando Caminhos. Os educadores trabalham juntos, sempre procurando saber como 'tá sendo desenvolvido o programa de cada oficina. Além disso, os coordenadores do projeto em cada instituição mantêm um diálogo constante com os professores da 'cola formal para mensurar o resultado da participação dos meninos nas oficinas. «Eu sempre digo aa eles que a música pode nos levar para muitos lugares, conquistar 'paços, como o meu próprio exemplo de vida. E eu sei que eles 'tão aprendendo muito», afirmou Ton Toy. Já para o «curupira» Rafael Nunes, que já fez carrego em feiras, fazer parte do grupo já é uma grande conquista. «Eu digo para meus amigos que não 'tão no projeto que eles deveriam 'tar aqui dentro porque vale mais a pena que ficar na rua». É a música regendo a vida com notas de cidadania. Além da Petrobras, o Recriando Caminhos conta com a parceria do Unicef, Unesco / Criança Esperança, Prefeitura de Aracaju e Yázigi Internexus. Saiba mais sobre o projeto em: Número de frases: 55 www.missaocriancaaracaju.org.br Não é ele, é ela. Não revela seu nome, apenas o apelido: Gigabyte. Tem 20 anos, é de Mechlin, na Bélgica. Irrequieta, QI de gênio (faz programas desde os cinco anos de idade) e feminista de carteirinha, ela justifica a criação de seus vírus como resposta aos que acham que mulher não tem talento para informática. É festejada no underground cibernético por causa de seus vírus devastadores: o Sharpei -- o primeiro vírus feito em C & (pronuncia-se CiSharp), que infecta arquivos no formato SIL (Linguagem Intermediária da Microsoft) -- e o Parrot, que se dissemina disfarçado de protetor de tela e causa danos aos sistemas operacionais. Foi namorada de Nostalg1c, hacker que já invadiu o site da Casa Branca. Juntos, ficaram conhecidos como Bonnie e Clyde do ciberespaço. Antes se ser rastreada e presa por a polícia belga, com a ajuda do FBI, concordou em me dar uma entrevista. Pode dizer seu nome verdadeiro? Gigabyte -- Melhor não. Quando você teve seu primeiro contato com um computador? Gigabyte -- Eu tinha seis anos de idade quando ganhei um Comodoro 64. Meu primeiro interesse foi por games. Depois aprendi Basic num PC melhor. E não parei por aí: Visual Basic e C, foram as outras linguagens de programação que me encantaram. O que a levou a 'crever vírus? Gigabyte Sempre tive interesse em saber sobre vírus. Lá por os meus 13 anos consegui, via Internet, muitas informações sobre eles. Em o grupo VX scene consegui entrar em contato com gente do metié, gostei e comecei a programar vírus. Sabe-se que o círculo dos 'critores de vírus é dominado por homens. Foi difícil fazer parte desse clube do bolinha? Gigabyte -- Socialmente, sim. É uma área dominada por e eu tinha só 14 anos. Em o início, eles faziam gracinhas com mim, alguns nem acreditam que fosse uma mulher. Mas eu era boa na parte técnica, isso ajudou a me relacionar com eles. Logo fiz amigos e passei a ser tratada como se fosse um de eles. Você não se sente como uma criminosa? Gigabyte -- Ora, eu 'crevo vírus, mas não os 'palho. Recentemente, quando fiz o Coconut (vírus sob a forma de um game, no qual o jogador atira cocos na cabeça de Graham Cluley, consultor de tecnologia da Sophos, fabricante mundial de antivírus) muita gente quis pegá-lo, sem se importar com o fato de ser um vírus. A galera queria se divertir acertando o cocoruto do Graham. Não, eu não sou uma criminosa. Que tipos de programas danosos podem aparecer daqui por diante? Gigabyte -- Mais vírus que exploram falhas de sistemas operacionais, principalmente os da Microsoft. Número de frases: 35 Cada vez mais surgem pessoas capazes de fazer 'se tipo de programa O Centro de Estudos Casa Curta-SE (Aracaju-Sergipe) vai dinamizar ainda mais sua comunicação com todos os interessados no audiovisual. A partir de agora, todo o conteúdo disponibilizado por nós na internet passa a fazer parte do nosso blog. Mais agilidade, opiniões, dicas, vídeos, textos, matérias, agenda e artigos com atualização permanente, interação com o internauta e verdadeira troca de informações. Os arquivos do portal Casa Curta-SE serão transferidos aos poucos para o blog. Quando tudo 'tiver pronto, o portal será desativado, mas todos os registros que temos das ações da Casa Curta-SE continuarão disponíveis em nosso novo endereço na web. Número de frases: 6 Acesse http://blog.casacurtase.org.br e conheça o novo 'paço do audiovisual na internet. Ele nasceu no maior celeiro de humor do Brasil, o Ceará, na cidade de Maranguape, de onde também veio Chico Anísyo, mas adotou Roraima como morada há mais de 10 anos. Com um sorriso sempre marcante, mesmo quando não 'tá caracterizado, o humorista Nel Gomes é uma daquelas pessoas que não cansam de lutar, dia-a-dia, para tentar levar alegria para todos os que 'tão por perto, mesmo quando não 'tá atuando. Apesar de já trazer na veia o humor sarcástico do cearense, sua primeira incursão por a carreira de humorista começou em 1997, numa oficina de teatro do Sesc Roraima, onde conheceu o amazonense Orlando Oliveira, também iniciante no humor à época. Depois de feitos os primeiros contatos e trabalhos amadores, os dois resolveram se unir e formar uma dupla de humor. De aí surgiu Jack & Rose, que teve a 'colha do nome inspirada no então filme de sucesso «Titanic». A dupla começou fazendo apresentações em pequenos eventos culturais, até que teve seu primeiro show apresentando no Teatro Carlos Gomes, o principal palco de apresentações artísticas de Roraima. O sucesso foi repentino. O público aprovou a irreverência e a versatilidade da dupla, que passou a ter uma agenda lotada de apresentações em Boa Vista. Em 2000, a dupla dá o primeiro passo para a consagração regional e, posteriormente, nacional, com a gravação de um CD de paródias e piadas. Com várias apresentações em Manaus e em municípios do Interior do Amazonas, a dupla começou uma trajetória de sucesso por vários 'tados brasileiros. 2001 foi um ano marcante, quando a dupla Jack & Rose fez sua primeira apresentação no Nordeste. O Ceará, celeiro maior do humorismo brasileiro, foi a primeira etapa da turnê que a dupla fez na região. Em a capital Fortaleza, a dupla se apresentou no Shopping Pizza, palco das principais atrações do humor cearense, por onde passam constantemente ' feras ' como Rossicléia, Adamastor Pitaco, Zé Modesto, entre outros. Um novo caminho Hoje, a dupla não existe mais. Orlando foi embora para Manaus, tocar a vida como radialista, e Nel ficou por aqui, prosseguindo seu trabalho solo, investindo na sua personagem Rose. «O meu trabalho hoje é mais voltado para a educação. Eu tenho um projeto de resgate das lendas amazônicas, outro abordando trânsito e cidadania, além de um projeto de produção de cadernos brochura com a caricatura da Rose e trazendo os símbolos 'taduais como o hino e a bandeira», conta. O projeto sobre as lendas amazônicas, conta ele, fará um resgate das principais lendas dos povos indígenas de Roraima, como o Canaimé, o Curupira, a Pedra Pintada, o Cruviana, o Monte Roraima, o Tepequém, entre outras. As demais serão lendas de povos indígenas de outros 'tados da região. «O trabalho editorial será feito de forma que a criança leia e entenda, nada muito técnico, inclusive trazendo ilustrações sobre cada uma das personagens, que ficará a cargo do chargista Kennedy Douglas», explica. Em o fim do ano passado, Nel Gomes lançou uma coleção de livros voltados para o público infantil: Colorindo com a Rose, Cartilha da Rose e Tabuada da Rose. O projeto teve o patrocínio da Infraero, através de seu diretor financeiro, Adenauher Figueira, que é roraimense. «Lá no Ceará, a maioria dos humoristas faz livros de piadas, e aqui a Rose tem um grande número de crianças que gostam muito da personagem. Para retribuir 'se carinho das crianças nós desenvolvemos 'se projeto voltado para elas», justifica. Esse trabalho é a continuidade do que Nel Gomes começou em 2004, quando lançou a revista educativa Brincando e Aprendendo com a Rose. O sucesso da revista fez com que Nel Gomes fosse convidado a participar do Fórum Cultural Mundial, realizado em julho de 2005, em São Paulo, como um dos representantes do " Estado de Roraima. «Minha participação no Fórum foi muito boa e teve uma ótima repercussão. Fui destaque na revista Carta Capital e recebi alguns convites para apresentações e trabalhos», lembra. Um desses convites, segundo Nel, foi para participar do Salão de Humor de Teresina, no Piauí, o qual ele já participou por duas vezes. Em o ano seguinte, o humorista se apresenta no Congresso da Associação Brasileiro das Agências de Viagem (Abav), no Rio de Janeiro. He speaks english Nel Gomes tem uma peculiaridade que não é comum aos humoristas brasileiros: é, talvez, o único que conta piadas na língua inglesa. A grande sacada é que ele não conta aquelas piadas sem graça que você ouve nos programas de TV por assinatura, aquele humor pastelão. Nel faz a tradução para o inglês de algumas piadas brasileiras, o que faz com que o sentido sarcástico do nosso humor permaneça, mesmo quando contada em inglês. «Isso é possível graças à fluência que tenho no inglês, devido ao tempo que passei na Guiana Inglesa, onde morei por 7 anos nos tempos em que trabalhei como garimpeiro», explica. Mas, como todo artista em 'se país, ele também reclama da falta de apoio na produção de seu trabalho. Ele lamenta que, até mesmo para a realização de seus shows de humor, sente dificuldade de encontrar 'paço disponível e algum tipo de apoio. «Infelizmente, ainda temos que correr com o pires na mão, batendo de porta em porta nas empresas, para tentar conseguir algum patrocínio ou mesmo um apoio cultural para os shows e projetos que desenvolvemos. É uma pena, mas 'peramos que isso mude à medida que nosso trabalho vá crescendo», 'pera. Contatos com o humorista através do telefone (95) 8112-8888, por o e-mail nelrr@uol.com.br ou no MSn showdarose@hotmail.com. O humorista também tem um Flog onde posta as fotos de suas apresentações. Visite www.showdarose.nafoto.net. Número de frases: 45 A cidade de Santos no 'tado de São Paulo -- mundialmente conhecida por o seu time de futebol -- tem também o maior porto da América Latina e junto de ele um 'paço urbano característico das principais cidades litorâneas brasileiras; um conjunto de bairros antigos, originais das primeiras ocupações na então Ilha de Enguaguaçu, casarios da burguesia santista e instalações da Doca de Santos. Com o ritmo intenso da evolução urbana criaram-se novos centros que valorizavam as questões mais sanitaristas, assim 'tes bairros do centro antigo acabaram se transformando em áreas carentes, decadentes e encortiçadas, tudo o que uma zona portuária de um país terceiro-mundista possui: prostituição, crimes, poluição geral; no entanto a comunidade se articula a cada dia para desenvolver projetos e soluções comunitárias que tenham resultado direto na formação de 'sas pessoas que lá moram. A entidade que representa 'sa luta é a ACC (Associação dos Cortiços do Centro de Santos), liderada por sua Presidente Samara Faustino, uma figura ímpar, muito envolvida com suas convicções e pensamentos de liderança, já 'tá há cinco anos à frente da associação, conseguindo manter um diálogo permanente com a comunidade, autoridades e forças locais. Essa história até rendeu um vídeo-documentário ano passado sobre a vocação cultural de 'sa gente e seu movimento popular. Em 'te mês de janeiro em visita ao Paquetá, bairro que fica junto à zona portuária, 'tive com Aline Assis, Lineu Pupo, Marcella Lopes e juntamente com um pessoal da ACC, Weskley Faustino, Luciano e Jackson Nunes. Com 'te grupo fizemos uma intervenção sugestiva e provocativa na comunidade, colagem de «lambe-lambes» (cartazes grandes de papel geralmente usados para publicidade) formados com frases e desenhos que remetem a apropriação de 'paços públicos por a população para fins culturais e de cidadania. Estes cartazes foram gentilmente cedidos por o Coletivo dos artistas da Bijari, premiado grupo que promove ações artísticas multimídia. O objetivo da ação foi justamente provocar a reflexão sobre a luta sócio-cultural comunitária e seu atual processo. Um dos jovens que 'tão à frente deste movimento é Weskley Faustino, que além de filho da Samara é um rapaz atento a todas as questões locais -- ele é ator e um dos idealizadores da Cia. Teatral O Cortição. Tive uma conversa com os dois no barracão da «Escola de Samba Unidos dos Morros» no Paquetá. Falamos sobre diversos assuntos, entre eles a ocupação feita por a comunidade nas ruínas do bairro para transformá-las num centro cultural. Também conversamos sobre o impasse para a realização deste sonho, a experiência do documentário, a posição do líder comunitário atualmente representado na TV brasileira, o que 'tá rolando no momento como a nova peça da Cia. teatral «O Cortição» e o Carnaval santista da Unidos dos Morros. Cristiano: Como foi 'sa ocupação? E agora? Como usar 'ta 'trutura para as atividades? Samara: Este terreno era um verdadeiro lixão, abandonado há 30 anos, era entulho só, insalubre para a vizinhança, local de uso de drogas, violência ... Decidimos que faríamos uma série de mutirões para a limpeza do terreno, fizemos algumas, mas só conseguimos limpar de fato depois que a «Universidade Aberta de Verão», realizada por o Instituto Elos, fez uma forte intervenção com trator, carro pipa, pintura e paisagismo com seus alunos, 'tudantes de várias partes do mundo. A questão agora é que para usar o 'paço precisa de uma reforma, autorização da prefeitura e do antigo proprietário ... Quanto ao patrocínio, acho que a gente consegue com alguma empresa do porto, eles 'tão querendo ajudar ... Enquanto isso 'tamos trabalhando a possibilidade de ter um Ponto de Cultura aqui, pois a demanda de jovens carentes é muita e eles não querem só as atividades, eles têm sonhos, querem criar, ser reconhecidos, viver numa habitação digna, longe das drogas e do crime. Falam que nós somos a oposição, mas nós somos a posição certa. Cristiano: O que significou a experiência de participar de um vídeo e ver a comunidade no cinema? Samara: Foi uma experiência que significou a realização de um sonho e um direito de 'tar nas telas do cinema não só como «documentado», mas por meio de algo que ajudamos a realizar também. O cinema pra nós é um lindo instrumento de comunicação, para mostrar a nossa cara, o nosso jeito de ver as coisas e a realidade de parte do povo brasileiro que se encontra morando em cortiços. Nossa área já foi mostrada em tantos filmes e novelas mas nunca com a nossa participação, a não ser na ocasião das filmagens e oficinas para o filme «Querô», que animou e resgatou 'se sonho na comunidade, o sonho de se comunicar através do cinema e da arte. Os garotos não pensam em parar por aqui, depois de 'sa oportunidade os «djow djow» (grupo de jovens da comunidade) e o MHM (Movimento Hip Hop do Mercado) 'tão trabalhando na criação do seu próprio roteiro. Cristiano: E como despertou 'se sonho? Samara: O sonho de ter um 'paço criativo começou há muito tempo com crianças da comunidade que hoje são adultos e desejavam um 'paço criativo. Outras crianças da cidade têm a oportunidade de frequentar o SESC (Serviço Social do Comércio) e o cinema de arte na região da praia, aqui todo mundo cresceu jogando bola na rua e brincando em terrenos abandonados que dividiam com usuários de drogas. Desde então sentimos a necessidade de proporcionar a comunidade acesso à arte e à cultura, mas no meio do caminho descobrimos que não dá mais tempo pra se fazer de vítima do sistema, temos sim que criar formas de expressar nossa cultura, nossa arte. Os jovens se libertam hoje através do grafite, do hip-hop, do teatro, do samba, da dança, isso já é uma vitória. Em 2006, lideranças da região organizaram um encontro dos Djow Djow com o grupo Arte no Dique, encontramos com a Soninha, vereadora da cidade de SP, e o Elvio Tamoio, na ocasião diretor de Programas Integrados da FUNARTE, onde nos situamos frente aos programas de fomento à expressão cultural no Brasil e aos movimentos de ocupação de locais para realização de Cultura. Como o exemplo dado por a Soninha do Tendal da Lapa, a partir daí os jovens se uniram com força para continuar se expressando, desde então nosso lema virou Mudar Sem SE Mudar, pois queremos mudar a visão de que somos apenas uma comunidade carente que precisa ter acesso a um equipamento cultural distante do nosso local, quando podemos desconstruir 'sa visão sem negar nossa história e nossas origens. Cristiano: Como 'tá o grupo de teatro? Weskley: É a Cia.. Teatral Cortição, já 'tá com dois anos, é formada por jovens moradores da região do Paquetá, Vila Nova e Vila Mathias, que se juntaram por a necessidade comum de expressar suas visões de mundo, medos, angústias sociais, sonhos e 'peranças; toda 'sa realidade que enfrentamos, não como vítimas mas como sujeitos críticos e transformadores. Ao mesmo tempo, a gente sente muito a necessidade de um aprimoramento técnico-poético sobre a linguagem teatral. O primeiro 'petáculo cômico, «As Controvérsias de um Cotidiano», falava da realidade periférica da sociedade brasileira, em 'pecífico a da Baixada Santista. O texto foi criado por os próprios integrantes do grupo. Essa peça teve sua 'tréia em 2005, quando foi apresentada para mais de 1.000 pessoas dos bairros do Paquetá, Vila Nova, Valongo, Vila Matias, Centro e Zona Noroeste. A nova peça agora se chama «Retalhos de um Poeta», diferente da primeira que possui uma linha mais narrativa, propõe uma sucessão de poemas lançados à platéia a fim de causar uma reflexão sobre os sentimentos amorosos humanos ... Samara: Tem também o MHM -- Movimento Hip Hop do Mercado, dança, rap e gafritagem, já ganharam até alguns troféus, participam meninos a partir de 4 anos de idade. Cristiano: Todo mundo sabe que existe um padrão de comportamento visto na TV, mas alguma parte talvez questione. Qual é a sua opinião sobre a forma que 'tá sendo retratada a liderança comunitária na novela da Rede Globo Duas Caras, protagonizada por Antônio Fagundes? Weskley: Mostrar uma liderança comunitária e a luta das favelas na novela é um ponto positivo, pois realmente existe a pressão de grandes empresas e das classes superiores, existe o preconceito. Porém o Juvenal Antena é uma liderança paternalista, e às vezes autoritária, o que não acontece aqui no Paquetá onde a comunidade participa através das assembléias e decidem o futuro dos projetos e da própria Associação. Samara: O mesmo problema que na ficção os moradores da Portelinha enfrentam com a fábrica de cimento que quer se instalar na comunidade nós enfrentamos com o porto que cada vez mais influência na vida da cidade, de formas boas e ruins. O Juvenal é legal porque ele é guerreiro, justo, só que tem uma coisa, ele não dá liberdade para a comunidade decidir sobre os rumos da Portelinha, não chama ninguém para uma reunião pra saber o que o povo quer fazer ... Ele não respeita alguns princípios de respeito na comunidade, tanto que na trama ele cobiça a mulher do amigo. Cristiano: Este ano vocês 'tão empolgados com o carnaval, como será? Samara: A «Escola de Samba Unidos dos Morros» 'tá incentivando os meninos da comunidade para trabalhar nos preparativos para o carnaval 2008, grafiteiros e cerca de 30 pessoas da comunidade 'tão trabalhando diretamente nos preparativos do carnaval, os carros alegóricos vão ser confeccionados com a reutilização de materiais recicláveis como sacos de cimento, garrafas pet, jornal ... A 'cola traz um samba-enredo sobre a inclusão social, quer ultrapassar as barreiras do preconceito unindo as periferias da cidade através do samba. O Daniel é da Escola de Samba, o mestre de bateria, ele vai falar ... Daniel Correia (Mestre de bateria): O samba-enredo foi proposto por o carnavalesco Roberto Peres, que trabalhou o tema exclusão social, pretende mostrar as formas de exclusão, pedindo para a sociedade uma mudança do problema atual da exclusão dos pobres, negros, homossexuais. A partir daí saímos dos morros indo buscar pessoas deste contexto aqui no Paquetá e Vila Mathias ... Quem faz a 'cola é a comunidade, então 'tamos unidos em 'sa para ganhar o nosso primeiro título no primeiro grupo das Escolas de Samba de Santos. Os ensaios acontecem segundas, quartas e sexta na quadra da 'cola no morro da Nova Cintra. Número de frases: 77 A intensificação da globalização nos últimos anos vem ocasionando uma crescente interação entre as mais diversas culturas em âmbito planetário. o segmento do turismo, frente a 'te cenário, possibilita a otimização da aproximação e da comunicação entre as comunidaes dos mais diferentes recantos do mundo. entretanto, assim como pode trazer benefícios a globalização, e o 'tilo de vida por ela influenciada ocasiona também entre muitos, podemos destacar a perda da identidade cultural; pois enquanto as pessoas 'tão preocupadas em conhecer o mundo elas não conhecem a própria cidade que vive, ou apenas conhece apenas as paisagens apresentadas em cartões-postais, desconhecendo muitos vezes o que a cidade realmente pode oferecer. tomo como exemplo a cidade do Recife cujo o centro da cidade é cortada por doze pontes, tem uma história magnífica, bairros que são veradeiras fontes de cultura, no entanto se for perguntado os nomes das pontes quase ninguém responde, se perguntar quem foi Frei caneca, ninguém ouviu falar, e se alguma vez foi ao alto josé do pinho, vem com aquele velho preconceito de periferia. e há casos extremos de não saberem nada sobre o bairro que vivem. o desconhecimento dos cidadãos de suas raízes, de sua história, a baixa integração com o legado cultural, por conseqüência gera o descompromisso com a proteção, valorização e internalização das «coisas da cidade» em que se vive refletindo na falta de elo / identidae com a sua cultura. frente a premissa apontada da não valorização do patrimônio histórico-social construída por uma parcela da população, indagamos: quais os caminhos a trilhar para criarmos uma nova forma de encarar o núcleo urbano? o interessante seria propor as pessoas viajarem dentro de sua própria cidade, e para isso acontecer: 1° colocar a história da cidade em sala de aula (sabemos mais da incofidência mineira do que da guerra dos mascates); 2° as ações culturais e patrimoniais, devem ser direcionado à população (já que atualmente tudo em 'sa área é direcionado ao turista, que não passa mais de duas horas na cidade) 3° divulgação das riquezas da cidade para os moradores através de anúncios na tv, jornal etc. Número de frases: 13 assim, todos terão direito a algo vital para sua existência que é o direito a sua memória quanto povo e cultura. Festival chega a sua sexta edição mostrando força e garantindo 'paços para a diversidade de gênero no cenário da música independente nacional Elas não querem 'paços exclusivos para mulheres. Longe disso. O Festival de Rock Feminino prima por a integração, quer reunir homens e mulheres no mesmo palco, garantindo, contudo, 'paços ao gênero feminino, tão pouco assíduo nos palcos do circuito da música independente nacional. Fato é que a medida em que ganha notoriedade e passa ser pauta constante de fóruns, veículos de comunicação e outras instâncias sociais, a cena da música independente nacional começa a ser ocupada por mulheres em suas múltiplas funções, seja sob os holofotes, ou por trás de ele. Em o Brasil, o Festival de Rock Feminino é o principal case no que se refere 'sa movimentação, por isso o seu prestígio. Trata-se do único festival de São Paulo associado a ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes), é membro ativo do movimento autodenominado Circuito Fora do Eixo, onde integra projetos como o Grito Rock -- a versão do Gr Rio Claro chegou 'se ano à sua 2ª edição -- o Compacto. REC, além de ser o maior dedicado ao tema em todo o país. Em seus seis anos de realização, já fez circular mais de cinqüenta bandas integradas por mulheres. De lá pra cá o número de inscrições só subiu: de 04, registradas em seu primeiro ano, em 2003, saltou para 200 em 'ta sua sexta edição, o que representa um incremento de quase 5 mil % no número bandas interessadas em tocar no Rock Feminino. Segundo Vivian Guilherme, produtora do coletivo homônimo realizador, o incremento se deve, principalmente, ao papel de 'tímulo que o RF exerce no aparecimento de novas bandas integradas por mulheres. «Quando fizemos as primeiras edições do festival, muitos grupos começaram a procurar meninas para compor a formação, e poder com isso participar do festival», relembra. «Foi onde começamos a atingir nossas metas. De qualquer maneira, muitas de 'sas bandas são covers. Não passam de dez, as que fazem som próprio. Por isso, temos fortalecido cada vez mais nossa proposta de investir só em trabalhos autorias». A produtora explica ainda que a proposta é promover a integração dos gêneros, não propagar uma política excludente de homens. «As bandas tem que necessariamente ser ocupadas por mulheres, mas pode haver também membros masculinos. A idéia é 'tabelecer políticas afirmativas para o gênero, 'timulando a vinda de novas protagonistas no cenário da música independente e garantindo 'paços. Mas longe de querer 'timular os ' clubes da luluzinha '», brinca. Além da resposta positiva das bandas, o público também é um dos fatores que vem garantindo ao Festival de Rock Feminino, proporções cada vez maiores no mercado da música independente nacional. Desde 2003, o evento vem incrementando consideravelmente sua audiência. Em 2007, duas mil pessoas assistiram ao seu único dia de exibição, 1750 a mais que o número computado em sua primeira empreitada. Por isso a mudança de local de realização. De a Estação Ferroviária de Rio Claro -- onde vem sendo realizado desde os seus primórdios -- o FRF 2008 acontecerá no Centro Hípico Sobradão, local com capacidade máxima de 8 mil pessoas. «A gente vem percebendo que o público vindo de cidades vizinhas tem crescido a cada ano. Há caravanas que vem de cidades como Piracicaba, Limeira, Ipeúna, e outras. E 'se foi um dos fatores de 'tímulo para a 'colha do Sobradão», explica. Os recursos orçamentários também são termômetros de destaque. De 10 mil, necessários no ano de 2008, 50 mil é o custo total da produção paulista. Em a cartela de patrocinadores constam desde pequenas empresas locais, que investirão recursos via Lei de Incentivo a Cultura do Município, até marcas expressivas como a All Track, que 'colherá três músicas para entrarem nos mini cds, que serão vendidos ainda 'te ano junto com as peça de vestuário concebidas por a griffe. Ao todo 50m il cópias serão prensadas. 6ª Edição -- O Festival de Rock Feminino acontecerá no dia 15 de março, em Rio Claro. Em seu set list, 14 bandas foram 'caladas para o seu cardápio musical, que contará com bandas como a Leela, Pleiades, Scatha, Upset Kids, e outros. A produção é uma realização do coletivo homônimo da produção, que além do festival, capitaneia outros eventos mensais com vistas ao desenvolvimento do setor. Serviço O Que: Festival de Rock Feminino Quando: Dias 14 e 15 de março Onde: Centro Hípico Sobradão -- Rio Claro (SP) Mais INFORMAÇÔES: Número de frases: 43 www.rockfeminino.org às vezes, dirigindo sozinha a caminho do trabalho me pego rindo e a cena, vista de fora por alguém que 'teja passando por mim parece meio absurda. As pessoas podem imaginar que a motorista 'tá ficando doida. Mas tenho rido sozinha desde que vi Volver, o mais recente filme de Pedro Almodóvar, o infant terrible do cinema 'panhol. E Volver, vale dizer logo, não tem nada de comédia e se for analisado com mais profundidade, se revela um melodrama no melhor 'tilo das novelas mexicanas apresentadas por o SBT. Só para se ter uma idéia do dramalhão, a primeira cena do filme se passa num cemitério, onde centenas de mulheres lavam os túmulos de entes queridos às vésperas do dia de finados. E o tema do filme é o mesmo de Má Educação, produção anterior do cineasta: abuso sexual. A diferença é que aqui o abuso acontece no âmbito familiar. E outra vez os cinéfilos se deparam com uma história protagonizada exclusivamente por mulheres, chão que o diretor pisa com absoluta segurança desde seu longa de 'tréia, o anárquico Pepi, Luci e Bom (1980). Em a verdade, Volver retoma em tom de melodrama temas caros à aclamada obra do diretor Pedro Almodóvar, como o elogio à tenacidade da alma feminina. A novidade fica por conta do tempero do cineasta, que usa ingredientes como lágrima, doses de humor, suspense policial e até thriller sobrenatural. Resultado: um filme em que o diretor lança um olhar carinhoso sobre as tradições, contradições e fantasmas e, ao mesmo tempo, promove encontro entre arcaico e moderno, passado e presente, mortos e vivos. Exibido no último Festival de Cannes, Volver levou os prêmios de melhor roteiro e melhor atriz -- compartilhado por o elenco feminino do filme, encabeçado por Penélope Cruz na pele de uma mãe-coragem inspirada nas mamas vividas no cinema por Sophia Loren e Anna Magnani. O filme é construído apenas em torno de personagens femininos, todos eles fortes mas ao mesmo tempo imperfeitos, às vezes cruéis e com seus 'queletos no armário. Penélope interpreta Raimunda, jovem que trocou a cidadezinha da região de La Mancha (onde nasceu Almodóvar) por a dura rotina da vida em Madri. Ela sustenta o marido desempregado e deve lidar, a partir de uma tragédia situada logo no início do filme, com dramas envolvendo sua filha (Yohana Cobo), a irmã (Lola Dueñas), uma tia (Chus Lampreave), uma amiga de infância (Blanca Portillo) e sua mãe já morta (Carmen Maura), que volta para assombrar a família. A partir de 'ta situação, Almodóvar tira um mundo de enorme complexidade, cujas misérias e tormentos serão apaziguados por a solidariedade entre vizinhas, que viram cúmplices, e que unidas resolvem qualquer situação, por mais inesperada que pareça. As amigas do filme são daquelas que, se descobrem que você matou alguém, pergunta: quer que ajude a enterrar? Oscilação dos personagens entre a cidade grande (onde vivem o presente) e o povo interiorano (lugar de origem, onde 'tão enterrados os fantasmas do passado), a solidariedade entre as mulheres, o crime impune ou a presença do elemento fantástico tornam Volver um filme que vale a pena ver. Um filme que começa meio sombrio e que vai ganhando um, colorido tipicamente almodovariano. Vale lembra ainda que Volver promove o reencontro do diretor com Carmen Maura e Chus Lampreave, duas atrizes que ajudaram a construir sua carreira vitoriosa. Carmem Maura 'tá particularmente 'plendorosa como a mãe-fantasma que volta para acertas contas do passado com a filha Raimunda e faz o público gargalhar, mesmo quando 'tá falando de acontecimentos trágicos. Impossível não rir com e da mãe-fantasma que se 'conde debaixo da cama e observa a filha de longe. É como se a mãe, a exemplo de todas as mães, velasse e assombrasse a filha ao mesmo tempo. Entre as cenas mais marcantes do filme 'tá, com certeza, aquela em que Penélope Cruz canta, com os olhos cheios de lágrimas, o tango Volver, de Carlos Gardel. Sua mãe, 'condidinha no canto, fica toda orgulhosa. E aposto que Almodóvar também Impossível ainda é não aplaudir o cineasta por a 'colha de Carmem Maura, que 'teve em filmes como Que Fiz Eu Para Merecer Isto?, A Lei do Desejo e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos) e com de quem andou afastado por ' pequenas rusgas que os dois nem se lembram mais por que ', segundo Almodóvar explicou ao lado de uma emocionadíssima Carmen, durante entrevista coletiva em Cannes. Número de frases: 29 A superação do desentendimento também é uma prova da de generosidade, sabedoria e amadurecimento deste artista genial. Em as primeiras décadas do século vinte, os iniciados modernistas, capitaneados por Oswald de Andrade, tinham um reduto de encontros etílicos e culturais na Rua Líbero Badaró, no centro da capital paulista, o qual denominava a «garçonniere», onde aconteceram os registros das primeiras discussões modernistas que antecederam a Semana de 22. Em 'sa confraria, os modernistas 'creveram um diário coletivo, culminando no livro «O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo», com duzentas páginas, expondo a intimidade daquelas pessoas com cartas, recados, recortes, colagens, cores, tintas, desenhos, poesias, prosa e um pouco do pensamento pré-modernista do grupo, que mais tarde explodiria com a Semana de Arte Moderna. Este «diário da garçoniere» é um embrião do livro «Miramar e Serafim», cujo tema Oswald de Andrade buscou registrar o 'pírito modernista num mundo em transformação, cabendo 'peranças para uma nova forma de fazer poesia. «Muito de arte entrará em 'tes temperos, arte e paradoxo, que, fraternalmente se misturam para formar, no ambiente colorido e musical desse retiro, o cardápio perfeito para o banquete da vida», 'creveu Oswald sobre aqueles encontros modernistas. Resguardando as devidas proporções, o Beco da Lama, no centro da capital potiguar, tem sido a veia nevrálgica de vanguarda cultural do Estado. Para o leitor ter uma idéia da importância da confraria bequiana, quando em São Paulo, os modernistas proclamavam o novo 'tilo literário vigente com o «Manifesto Antropófago», o poeta Jorge Fernandes fazia versos modernos como» O banho da Cabloca», «Tetéu» e outros, no Beco da Lama. Vale ressaltar que o poeta Jorge Fernandes morava na Rua vigário Bartolomeu, rua paralela ao Beco, portanto, um freqüentador assíduo da boêmia natalense. Alguns professores da UFRN costumam dizer que Jorge Fernandes fez poesia modernista na própria «fase heróica» e, na época que Jorge Fernandes lançou seu «Livro de Poemas», a idéia de modernismo ainda era muito frágil no Brasil, sobretudo, no Rio Grande do Norte. De acordo com os 'tudiosos da literatura local, Jorge Fernandes foi recomendado por Manoel Bandeira, tardiamente, quando soube da poesia jorgiana, 'crevendo em carta à " Veríssimo de Melo: «Precisamos urgentemente da poesia do poeta Jorge Fernandes. Urgentemente!" O poeta Jorge Fernandes teve seus textos veiculados nas principais revistas modernistas paulistas, no clamor do modernismo. Quando Oswald de Andrade se formou em Direito por a Universidade de São Francisco, seu pai, percebendo o talento jornalístico do filho, patrocinou a abertura do periódico «O Pirralho» para que Oswald pudesse 'crever e expressar seu pensamento. Em a mesma época em Natal, o pai de Câmara Cascudo montou o jornal «A República» logo depois que o Príncipe do Tirol se formou em Direito, por a Universidade de Recife. Cascudo era freqüentador costumeiro do Beco da Lama, era sempre visto entre amigos por as ruelas do Beco ao cair da tarde, buscando inspiração para mais uma «Acta Diurna» que seria veiculada nas páginas d' A República no dia seguinte. Segundo a historiografia da literatura local, Luís da Câmara Cascudo é considerado «a ponte» entre Jorge Fernandes e Mário de Andrade. Cascudo é quem introduziu as idéias sobre modernismo no Estado, afirmando na sua obra que Natal havia nascido no século vinte, tendo «dormido literalmente» nos séculos anteriores. Para o 'critor e crítico literário, Moacy Cirne -- morando no Rio de Janeiro, é um freqüentador 'porádico do Beco --, só há dois momentos importantes na Literatura Potiguar: o primeiro com o modernismo de Jorge Fernandes em 1927 e o outro com o advento do «poema processo», em 1967. Em as paredes da garçonniere oswaldiana havia quadros de Di Cavalcanti, Tarcila do Amaral, Anita Malfatti, entre outros artistas modernistas. Entre os freqüentadores daquela confraria paulista, havia as musas que freqüentavam as tertúlias literárias e uma de elas era a normalista Maria de Lourdes, que os modernistas chamavam de Deisi (ou Miss Ciclone), símbolo da mulher moderna, independente, jovem, bonita e talentosa. Ao longo do tempo, o Beco da Lama tem sido palco para as mais diferentes beldades que vem inspirando poetas, prosadores e recheando os textos de alguns contadores de sonhos. Gardênia Lúcia foi durante muitos carnavais a sereia dos mares metafóricos dos poetas bequianos. Há relatos que um determinado Imperador apimentado do Beco da Lama foi vítima dos encantos de Gardênia, tendo ficado desaparecido por muitas luas. Em as artes plásticas, a primeira exposição norte-riograndense, assumidamente modernista, foi realizada por o artista plástico Newton Navarro, em 1948, numa sorveteria no centro da cidade, adjacências do Beco da Lama. Em a contemporaneidade becodalamense, quadro de artista plásticos potiguares, do quilate talentoso de Valderedo Nunes, Assis Marinho, Franklin Serrão, Marcelus Bob, Léo Sodré, Gilson Nascimento, Fábio Eduardo, Marcelo Fernandes e outros artistas, retratando, nas paredes do bar de Nazaré, o cotidiano do Grande Ponto, expressando as marcas da vanguarda cultural dos freqüentadores do Beco da Lama. Enquanto os fragmentos literários, produzidos durante o tempo da garçonniere por os modernistas, viraram um diário coletivo, anotações poéticas que se transformaram num livro, registrando a inquietação daqueles intelectuais, a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências -- Samba -- mantém uma lista de discussão na internet, aonde recortes e colagens antropofágicas vão registrando a ebulição cultural vivida em 'se recanto da Cidade Alta. O pensamento dos freqüentadores da «garçonniere becodalamense» 'tá 'tampado nas páginas de um blog na internet, «Alma do Beco», cujas idéias são as mais profundas tentativas de revisão crítica e de reconstrução da cultura potiguar, que demandou a pesquisa e a abordagem poética de fontes do passado. A Alma do Beco é a junção dos recortes literários, produzidos através dos sonetos de Antoniel Campos, das glosas fesceninas de Laélio Ferreira, dos pés-quebrados de Chagas Lourenço, dos poemas de Eduardo Alexandre, Luiz Carlos Guimarães, Márcia Maia (poeta pernambucana), Nei Leandro de Castro, Yasmine Lemos, Barbinha dos Santos, Ferreira Itajubá, Newton Navarro, Cristina Tinoco, Elder Heronildes e tanto outros poetas que passaram por o Beco. Em 'te mundo virtual, também há 'paço para as crônicas, ensaios, pesquisas, história do Estado, fotos de quase todos os confrades e confreiras de 'sa garçonnieri potiguar. Uma das mais interessantes descrições sobre o Beco da Lama é a epígrafe do blog na internet: «Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua ... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo». Com o lançamento do jornal impresso «O Beco», os confrades ganham uma voz para registrar os fartos banquetes literários das almas virtuais deste mundo bequiano. Um instrumento capaz de abrir o verbo e gritar a 'sência da vanguarda do Beco da Lama: Poti or not Poti, that's Potengi! Número de frases: 36 Desde o ano passado, tendo conhecido o site «Verdes Trigos», tornei-me leitora assídua e passei a admirar o trabalho de seu criador, Henrique Chagas. Generoso com todos que o procuram, terminamos 'treitando contato. O site tem como principal razão de ser fomentar o hábito da leitura, divulgando conteúdos culturais, 'pecialmente literários. Em 'ta entrevista no Overmundo vamos conhecer um pouco mais sobre Henrique e seu trabalho. Nascido em Cruzália, interior de São Paulo, ele e os seis irmãos eram conhecidos como os filhos do «Zé Terra», o homem que vendia vassouras. «Meu pai foi vítima da tuberculose e não podia trabalhar na roça, então fabricava vassouras." Assim, eles iam descalços até a 'cola. Trinta anos depois de ter saído de lá, ele participou da comemoração dos 60 anos da Escola Joaquim Gonçalves de Oliveira, à qual fez uma doação de cerca de 200 livros, mostrando aos jovens um exemplo vivo de perseverança. -- Henrique, você mantém o site «Verdes Trigos», aliás, sítio cultural, como você costuma chamar, há quase 9 anos. O que levou um advogado a dedicar-se a 'sa empreitada? Dá para conciliar 'sa atividade profissional e a militância cultural? «Henrique Chagas -- Verdes Trigos» já faz parte do meu modo de ser, é o meu Tibet, onde eu me encontro e busco refúgio seguro para minha mente e refrigério para o 'pírito, pois minha atividade profissional principal é altamente 'tressante. Durante o dia, me debruço sobre os casos que me são colocados e 'tes me 'gotam, no entanto, à noite, após uma hora de academia e o jantar, me refugio nos meus verdejantes campos de trigo. É aí que minhas idéias, meu pensamento, minha inteligência se encontram para militar culturalmente. Assim, como 'tava a dizer, todas as noites, todas as manhãs, antes de ir ao trabalho, e nos finais de semana, reservo tempo para o «Verdes Trigos». A filosofia do sítio «Verdes Trigos» é no sentido de que as boas idéias, bons pensamentos e os bens culturais devem ser disponibilizados socialmente, até mesmo como forma de entretenimento; é por isso que invisto tempo e dinheiro no meu sítio, cujo retorno cultural me é altamente satisfatório. Em o «VerdesTrigos» o advogado Henrique Chagas não se apresenta, mas advoga uma causa que lhe é muito particular: que a maior riqueza 'tá no conhecimento, no aprendizado, na grande herança que recebi de meu pai (o desejo de sempre aprender). -- De onde veio o nome «Verdes Trigos»? Você é um fã explícito de Van Gogh, não? Henrique -- Sim, sou fã explícito de Vincent Van Gogh. Talvez seja tão louco quanto ele, pois somente alguém com tenacidade e persistência mantém um sítio cultural, que envolve tempo e altos custos, por quase uma década sem qualquer retorno financeiro. Por outro lado, o retorno é altamente prazeroso. Lima Trindade, do Verbo21, em recente entrevista, disse que 'creve porque não sabe desenhar; então eu que não sei desenhar e muito menos pintar, também 'crevo e faço o «Verdes Trigos», uma obra que tem a pretensão de ser uma homenagem ao grande Van Gogh. Em 1998, ao criar a marca, eu desejava um nome que expressasse a minha filosofia pessoal, que representasse um arquétipo milenar de 'perança na humanidade e que ainda contivesse algo da minha experiência pessoal. Como apaixonado por Gogh, em 'pecial por o «The Green Wheat Fields», o associei aos verdes trigos da minha infância, como descrevo na apresentação do sítio e a ele dei uma conotação quase que mística, pois representa a 'perança de um mundo melhor, que se conquista por a solidariedade, tolerância e por o repartir do conhecimento. Muitos acham que «Verdes Trigos» é um sítio religioso; e é mesmo, embora não tenha nada de religião, ao contrário, é por demais profano. Como para mim, 'ta distinção não existe, «Verdes Trigos» é muito sagrado para mim. De o trigo se faz o pão. Foi por a cultura, por o conhecimento e por o 'tudo que conquistei um pequeno 'paço em 'te mundo, por isso procuro contribuir com a cultura e com aqueles que sentem fome de conhecimento, cultura e saber. Você saberia dizer qual é o perfil dos visitantes do seu site? Henrique -- Não tenho um sistema de pesquisas qualitativas de visitação do sítio, entretanto por o Google Analysis, concluo, por as palavras mais buscadas, por a origem das visitas, que o sítio tem um público altamente qualificado, em geral profissionais e 'tudantes; e ele (o sítio) corresponde às necessidades dos nossos visitantes, pois há uma lealdade e fidelidade superior a 40 %, o que julgamos excelente. Tem-se uma audiência média superior a 100.000 visitas únicas / mês. -- O que explica o destaque do «Verdes Trigos»? Você acha que é um fruto natural dos mais de 8 anos na rede ou há algum fator que colabore para isso? Henrique -- Creio que o destaque do «Verdes Trigos» decorre muito da persistência, da disciplina que empreendemos na sua condução. Certa vez, quando me apresentei ao 'critor Moacyr Scliar, no Salão do Livro em Belo Horizonte, ele imediatamente me disse: «não pare nunca». Nossa, é uma honra para mim: um imortal da ABL, além de saber da nossa existência, ainda pedir para que continuemos. Respondi, com voz emocionada, que jamais abandonarei o «Verdes Trigos». Ele também se mantém como fruto natural destes anos de rede, mas é 'pecialmente fruto da colaboração dos nossos amigos, dos nossos visitantes, de todos aqueles que nos apóiam de uma forma ou de outra. Evidentemente, o fato de ser um sítio com conteúdo 'pecífico colabora muito para o seu destaque nos sistemas de busca, aumentando assim a visitação. -- Como você seleciona o que será publicado no «Verdes Trigos»? Essa é uma tarefa de uma equipe ou de um homem só? Henrique -- Primeiro, somente publico aquilo que se coaduna com a filosofia empreendida no «VerdesTrigos», que vende 'perança e a possibilidade de um mundo mais feliz, mais próspero e mais harmônico. Aceitamos e instigamos a polêmica, jamais aceitamos idéias intolerantes, racistas e que desrespeitam o nosso leitor. Essa é a nossa política. Em segundo lugar, tem muito do nosso gosto pessoal também. Coincidências e subjetividades, claro! Ah, o «Verdes Trigos» é feito por uma equipe de uma só pessoa. Fazemos tudo, desde a programação à publicação. Eventualmente, quando juntamos alguns trocados, contratamos algum trabalho 'pecífico, por exemplo, software para gerenciamento de banners, e-mails ou para publicação. Claro, contamos com a imensa colaboração dos 'critores, dos colunistas e das editoras, que sempre nos encaminham material, livros etc.-- Como você vê o panorama cultural no Brasil hoje? Henrique -- O panorama cultural no Brasil é vasto e muito rico. Vejamos o caso da literatura, virou moda toda cidade ter a sua feira literária ou até mesmo um festival internacional, como é o caso de Parati. É uma festa onde os leitores podem encontrar o seu autor e 'te os seus leitores. Volta-se à tradição oral da literatura, quando antes da 'crita os autores recitavam oralmente suas histórias, hoje o autor comparece às feiras para dizer sua obra. Entretanto, a grande dificuldade do autor, romancista ou poeta, é conseguir publicar sua obra. As editoras buscam atender às exigências do mercado ('se «ser» invisível que dita as regras) e os iniciantes ou de localidades longínquas dos grandes centros somente conseguem publicar utilizando-se de seus próprios recursos. Ainda bem, com o advento da internet, que se pode publicar de forma menos onerosa e com grande alcance através dos propalados blogs ou nas comunidades da internet. -- Especialmente sobre os lançamentos literários nacionais mais recentes, imagino que seja difícil apontar destaques, mas o que mexeu mais com sua sensibilidade? Henrique -- É mesmo muito difícil apontar os destaques. Participei do júri do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2007, em sua etapa inicial, e tive enorme dificuldade para votar em cinco obras. Queria apontar cinqüenta, mas para 'colher cinco de elas, perdi o sono com medo de ter sido injusto com aqueles que não 'colhi. Fiquei muito feliz porque dois dos meus cinco indicados 'tão na segunda fase 'perando os votos do júri intermediário. Torço por eles. Respondendo a sua pergunta de forma explícita, quero destacar um lançamento, cujos exemplares 'tão chegando às livrarias em 'te mês de julho / 2007, que tive o privilégio de fazer a sua orelha. Trata-se de Hierosgamos, diário de uma sedução. Acho fantástico o tratamento que a autora, Noga Sklar, dá à busca por o amor através da sedução virtual. Descreve a história de um casal que se conhece por a internet, e, em quarenta e dois dias conversam por a rede, se conhecem e namoram. A o final se encontram, se casam e vivem felizes. -- Você participou de uma antologia internacional, em 2004. Henrique -- A antologia «Roda Mundo, Roda Gigante» foi uma homenagem à obra do Chico Buarque. Vários autores 'creveram trabalhos inspirados na obra do Chico. Eu publiquei um ensaio sobre a «Participação Política», muito frequente na obra do Chico. A Antologia pode ser adquirida na Livraria Cultura. -- Através do «Verdes Trigos» você tem recolhido doações de livros, que são entregues a bibliotecas e outras instituições. Como é isso? Henrique -- Estou agora preparando uma partida de livros para a «Casa do Pequeno Trabalhador», uma instituição de Presidente Prudente / SP, onde 'tamos montando uma biblioteca. Creio que 'taremos fornecendo nos próximos dias uns 300 exemplares. -- Por fim, que futuro você imagina para a cultura no mundo da Internet? Que papel teria o Overmundo? Henrique -- A literatura ganhou mais um instrumento de suporte. Com o surgimento da 'crita, o avanço cultural foi 'tupendo; com a internet, o avanço 'tá sendo fantástico, qualquer pessoa pode criar o seu 'paço virtual, promover a publicação de sua arte, colocá-la ao alcance de um número infinito de pessoas. De outro lado, temos acesso a uma infinidade de informação, que muitas vezes sequer sabemos tratá-las e dar-lho devido valor. Verdade também que muita coisa boa fica perdida nos 'caninhos virtuais e por outro lado muita coisa ruim, como tudo na vida, 'tá à disposição de qualquer um. O Overmundo coloca ao nosso alcance obras culturais interessantes e valorosas, como o poder de cada um dizer o que pensa e que valor dá à obra e naturalmente a boa literatura e os bons textos, tanto no conteúdo quanto na forma, vão se destacando. O Overmundo tem um papel agregador e valorativo em 'te panorama cultural. Muito obrigada, Henrique. Um grande abraço. Aproveitando os recursos da internet, incluo o link para uma breve entrevista com Henrique, divulgada no YouTube. É uma oportunidade para ouvi-lo falando sobre o hábito da leitura. Número de frases: 99 Henrique Chagas 'tá 'crevendo um livro para breve, mas 'te é um assunto para outra entrevista ... Como voltei a 'crever aqui [no meu blog] muito por causa do Pedro Alexandre Sanches, nada mal que eu comece postando um comentário justo a um texto seu, «A música fora do eixo» (Carta Capital n° 380). Ele trata na matéria da produção musical das periferias brasileiras -- «geográficas e econômicas» -- e da sua capacidade de distribuição independente das grandes gravadoras. O tema é «da hora», ninguém duvida. Como sempre, ele trata do assunto com extrema competência e conhecimento da causa. O que me atraiu 'pecialmente foi o importante destaque que ele deu à música de Belém do Pará, onde eu nasci. Não discordo de nenhum ponto do texto e quero alertar que não se trata aqui de nenhuma franca oposição aos conterrâneos do divertidíssimo brega paraense. A grandeza desse fenômeno de produção e distribuição de eles é mesmo surpreendente e digno de todos os louros; mas gostaria de ampliar um pouco a conversa. Eu saí de Belém, pela primeira vez, com 27 anos. Ou seja, eu sou o que se chama de bicho-do-mato. Isso significa que ninguém precisa me dizer o que é brega paraense, e nem a intensidade que tem 'sa dança. Em as festas em Santo Antônio do Tauá -- cidade próxima da capital e onde grande parte da minha família nasceu -- o brega sempre foi o 'tilo mais tocado, há muitos anos, lá e no interior do Pará todo. A lembrança das festas é muito viva em mim, ainda que a maior herança tenha sido a audição, àquela altura descomprometida, de Luiz Gonzaga. O brega já teve altos e baixos, mas nunca 'teve completamente sumida, como parecia acontecer com o carimbó, que não se assemelha ao brega, mas que pode ser considerado um gênero também muito paraense, e igualmente cheio de altos e baixos. Mas, sem dúvida, nada é comparável ao que 'tá acontecendo hoje. O brega é a onda do momento. Basta ligar num canal da TV aberta no fim-de-semana. Nossa queixa durante muito tempo em Belém -- digo, queixa dos músicos; eu também sou músico -- era a invasão da axé-music, que impedia qualquer possibilidade de sobrevivência da música local, fosse brega ou não, em nível comercial. Quando o «movimento» brega (acho que eles nunca fizeram nenhuma reunião) começou a tomar conta da cidade e, de certa forma, se sobrepor ao axé, todos os méritos deviam ser dados. Era uma vitória sem precedentes. Mas, pessoalmente, o que eu louvava era a consciência que os bregueiros pareciam ter do significado e da extensão de sua música. Explico: o axé-music sempre se levou a sério, e sempre teve o aval de medalhões da MPB para isso, o que lhes dava um certo ar de «linha evolutica» (que maldade!). Os bregueiros não, sempre foram 'pecialistas na auto-ironia. O Rubens Mota, o Anormal do Brega, Wanderley Andrade, A Pivazinha do Anaice (ouçam!!!! no site da mesma rádio 'tá praticamente toda a produção do brega paraense, divirtam-se!) e um sem número de artistas eram o retrato do riso-de-si; de uma certa forma -- sei lá, posso 'tar erradíssimo -- a Banda Calypso também guarda, ainda que de longe, 'sa mesma auto-ironia -- não é possível que o figurino da Joelma seja pensado. O brega paraense nunca se levou a sério, e isso era seu baratotal. Repito, posso 'tar enganado (à 'sa altura é certo que 'tou), e aí a Banda Calypso pode achar que, de fato, faz parte da história da MPB ... ué, e não faz? faz! faz sim. Se a música comercial não pode ser boa, ou se não pode mais ser boa -- sim, porque já foi um dia, então beleza, o funk carioca, o hip-hop paulista, a tchê music gaúcha, o lambadão mato-grossense, o forró amazonense, o tecnobrega paraense e tudo o que 'tiver por vir se justifica como um grito social, e isso tem grande importância. É uma derrota das grandes fábricas de artistas que diz muito sobre a história recente desse país. Mas não se pode mais conversar sobre a qualidade disso tudo? é tão aberrante e fora de moda não gostar de brega? Lembro bem de uma conversa breve com um produtor super bacana do Rio, o Kassin. Quando eu disse que era de Belém, a primeira coisa que ele exclamou foi: «que legal, você é da terra do tecnobrega?" eu fiz uma cara meio sem graça, mas acho que ele não notou. O deslumbramento de pessoas do meio musical com 'sa música me causa grande 'panto. Quero dizer, com isso, que não tenho capacidade de perceber quão grandiosa ela é, moderna, antenada, enfim. Estou sendo muito, muito sincero. Claro que 'tou analisando isso de um ponto de vista 'tritamente pessoal, sem nenhuma pretensão de universalizar 'sa minha limitação. Acho que já era hora mesmo do eixo Rio-São Paulo descentralizar e olhar para o resto do país. O que gostaria é que outros compositores daquela terra tivessem um décimo da visibilidade da banda Calypso, mas isso é impossível, porque são domínios inteiramente distintos. Em Belém, brega é música de pobre, mas Todo Mundo SABE Cantar E Dançar!!!!!! como acontece com o funk carioca, as atrizes globais se acabam no salão, numa quebra de barreiras sociais sem precedentes; será? tolice, claro que não. As lindas atrizes voltam para suas camas brancas com ar condicionado e os pretos pobres 'peram o busão para voltar para a casa. Bom, mas isso não interessa não é mesmo? questão menor diante da alegria de «ser brasileiro». O que é a última invasão da Rocinha senão um fato corriqueiro da cidade e sem nenhuma possibilidade de investigação? quem morreu. Aqui é assim. Tenho uma dificuldade muito grande de aceitar tudo isso sem maiores discussões. É musica para dançar, beleza, não se pode julgar 'sa música como se julga um cancionista, claro que não. Mas por que não refletir sobre isso como uma face triste da música popular também? Dançar e ouvir são funções já desconectadas? A facilidade de socializar os meios de produção digitais é a única forma de avaliar as consequências que 'sa música periférica pode vir a ter para o país? quer dizer: os infinitos 'túdios caseiros e a infinita produção que nasce em eles é a música brasileira por excelência hoje? ter superado as multi-nacionais já é suficiente para exaltar sem nenhuma crítica 'sa produção gigantesca? Viva o Rupinol! Obs.: texto postado no blog: Número de frases: 66 http://henryburnett.blogspot.com/ A televisão foi criada em 1926 por o 'cocês John Logie Baird e aprimorada por o russo-americano Vladimir Zworykin. Chegou para inovar uma época dominada por o rádio e por o cinema, como fontes de entretenimento. Em o Brasil, apareceu em 1950 e era muito cara. Cada televisor custava três vezes o valor de uma boa vitrola. Atualmente, é o veículo de comunicação mais importante não somente aqui, mas em todo o mundo. Entretenimento e informação são as suas principais contribuições para o nosso dia-a-dia. Mas nem só disso vive a televisão. Vejamos as cenas deste capítulo. Hoje na televisão aberta brasileira, há um domínio quase que absoluto dos besteiróis e programas de baixa qualidade. As pessoas ficam presas em suas casas-cárceres, vendo o mundo sob os olhos superficiais de 'sa televisão, que é pobre em cultura e informação. A informação 'tá restrita a pouquíssimos telejornais e alguns parcos programas de variedades, que muitas vezes não são de produção própria das emissoras. Dizem que a cultura 'tá presente nas novelas, mas será mesmo verdade? Algumas poucas pessoas têm o privilégio de ter em casa a televisão paga, com canais de filmes, documentários, desenhos, 'portes, entrevistas, entre muitos que proporcionam lazer e bem-estar. Mas isso não é pra qualquer um. Algumas emissoras da TV aberta, às vezes produzem coisas interessantes sobre ciência, cultura e arte, que poderia ser a verdadeira 'sência de uma televisão. Mas isso é muito pouco. A superficialidade da TV pernambucana Aqui em Pernambuco, a televisão também não foge à regra. As emissoras 'palhadas por o Estado são a TV Tribuna, afiliada da Record; as TVs Jornal Recife e Jornal Caruaru, do SBT; a Clube, da Bandeirantes; a Rede Globo Nordeste e suas afiliadas Grande Rio, no Sertão, Asa Branca, no Agreste e Golfinho, no Arquipélago de Fernando de Noronha. Há ainda a Rede TV!, MTV Recife e a Rede Estação, além canais UHF. E no meio de 'sa salada, a TV Universitária, pertencente à Universidade Federal de Pernambuco e que transmite boa parte da programação da Rede Cultura. A TV Tribuna, de segunda a sexta, teima em dar o seu show particular de horror, exibindo programas mais adequados às emergências dos hospitais públicos do que à telinha. É morte, tiroteios, violência e o diabo a quatro! Não que devamos ficar alheios a isso, mas 'sa exploração humilhante dos seres humanos para deleite da população não é o caminho. E o que me deixa pasmo é que a Tribuna mostra os corpos ensangüentados e cadáveres a qualquer hora do dia, mas principalmente num tal «Ronda Geral». E o pior de tudo é que 'sas asneiras dão audiência! Não posso deixar de falar no «Tribuna Show», que incentiva a» cultura burra " das bandas de forró-pagode brega. Um dos programas de maior audiência e popularidade da TV Jornal é o «Papeiro da Cinderela», que seria um bom programa de típico humor pernambucano, mas, infelizmente, acaba apelando para as baixarias. Além desse programa, se destaca também. Programas como «Bronca Pesada», sobre casos policiais, são destaques em 'sa televisão. Em o encalço das duas acima vai a TV Clube, com seus programas de auditório que apresentam bandas de brega, pagode e forró-brega, com destaque para o «Show da Clube». Até os nomes são previsíveis! De entre tantas emissoras que exibem tolices, uma nova criada em 2001, veio pra piorar a situação, que já é crítica: a Rede Estação Sat, com programas sem conteúdo e de malíssima qualidade técnica, mesmo exibindo seriados americanos clássicos como «Jeannie é um Gênio» e «A Feiticeira». A Globo Nordeste, apesar da excelente qualidade técnica (detalhe que as outras não têm), a programação segue o padrão da sede no Rio e não há 'paço para muita inovação. Em termos de produção própria, leva ao ar diariamente os jornalísticos «Bom Dia» Pernambuco», «NE TV --» Primeira Edição», Globo Esporte «e» NE TV -- Segunda Edição». A os finais de semana, exibe ainda os programas «Globo Comunidade», Lance Final» e «Nordeste Viver e Preservar», 'te sim um excelente programa sobre a ecologia da região. Alguns programas 'peciais, às vezes, são apresentados. Em 'se mar de péssima qualidade da televisão pernambucana, surge a TV Universitária (TVU) em 1968, sendo a TV educativa mais antiga do Brasil. Por o fato de retransmitir a programação da Rede Cultura, possui a melhor programação de Pernambuco, com programas educativos, excelentes documentários e uma programação local diversificada, mesmo parecendo amadora. De entre os programas produzidos por a emissora, destaca-se o «Sopa Diário» do agitador cultural «Roger de Rennor, TV Ciência», que divulga pesquisas realizadas em Pernambuco; «TV Saúde», que informa e orienta os telespectadores sobre as diversas doenças, formas de tratamento e novidades da área; o sensacional «Documento Nordeste», que mostra as riquezas das manifestações sócio culturais, historia, formação e meio ambiente,» Fim de Semana», agenda cultural com matérias e entrevistas. «Cinema no 11», que divulga os bastidores e novidades da sétima arte." O Negócio é o Seguinte «debate os rumos da economia local com a presença do economista» Alexandre Rands, «Esportes no 11 e, mais recentemente,» TV Rural " com entrevistas e matérias abordando as atividades desenvolvidas por a UFRPE. A TV Cultura, na qual se baseia a programação da TVU, destaca-se por a produção e exibição de programas com qualidade considerados acima da média para a rede aberta de televisão. É reconhecida 'pecialmente por a sua programação infantil e educativa, baseada em valores como a ética e procurando aplicar sua função social, sendo premiada internacionalmente, inclusive por a Unesco. É triste dizer que, tanto a televisão brasileira como a pernambucana, retrata pouco a cultura verdadeira, ciência e arte. Em vez disso, é uma enxurrada de programas de fofoca, musicais bregas chulos, novelas e outras besteiras, que merecem somente o nosso boicote. Número de frases: 53 O Guerreiro é um auto natalino genuinamente alagoano, de caráter dramático, profano e religioso. É uma junção de elementos dos pastoris, cheganças, quilombos, caboclinhos, e na opinião dos 'tudiosos do folclore se trata de um reisado moderno. Surgiu em Alagoas na década de 20 do século XX, o folguedo apresenta um grupo de cantores e dançadores acompanhados de uma sanfona, tambor e pandeiros, que conta e canta através do sincretismo religioso a chegada do messias e a homenagem dos três reis magos, entre os dias 24 de dezembro até o Dia de Reis, em 6 de janeiro. O Índio Peri, a Lira, o Papa-figo, a Alma, o Zabelê, o Sapo, o Mateu, o Doido, o Mata-mosquito, a Sereia, a Estrela Dalva, os Reis e Rainhas. Estes são alguns dos inumeráveis personagens que podem compor um auto de Guerreiro, sobre o comando do Mestre e sua 'pada, com seu incrível chapéu em formato de igreja de onde caem fitas de cetim multicoloridas. A indumentária é carregada de 'pelhos, miçangas, brilho, lantejoulas e cores, muitas cores, todas elas. Os homens usam calções e meias brancas bem longas, imitando as roupas dos nobres e reis da corte, as mulheres usam vestidos com acessórios referentes a seus personagens, tudo isso compõe o visual das apresentações deste folguedo popular alagoano. A parte musical, segundo o músico e pesquisador do guerreiro Tido Moraes, é um auto todo cantado, intercalando intervenções instrumentais, como vinhetas de passagem entre um episódio e o próximo. Acontecem pausas chamadas de embaixadas, nas quais o mestre e as outras figuras do guerreiro representam seus personagens em versos falados. Música, dança, poesia, e teatro, tudo junto! Tido completa. «O auto é uma seqüência de músicas poli-rítmicas, em formas binárias, ternárias, e quaternárias, 'se é o tempo do andamento, ou seja, representam marchas e valsas. A harmonia funcional é bem simples e se dá através da sanfona. O mestre entoa a melodia e as figuras respondem em coro». Quem já assistiu a uma apresentação de Guerreiro sabe que a música tem um ritmo frenético e forte, a coisa toda é bem quente, pega fogo no salão mesmo, como se diz. Mestre Benon, do Guerreiro Treme Terra de Alagoas, um dos grupos mais respeitados do gênero, conta no vídeo «Mestre Benon, o Treme Terra», de Nicolle Freire e» Celso Brandão: «Nós já quebramos muito palanque por aí se apresentando com o Guerreiro, uma vez na universidade (Ufal) 'tavam com as câmeras da TV filmando e quebrou tudo, caiu todo mundo». Isso pode acontecer no momento chamado de trupé, em que os dançadores batem o pé com força no chão, acompanhando o aumento da velocidade da música. Quebra mesmo. Logo depois da reza do divino, no meio do 'petáculo, acontece a luta de 'padas entre os guerreiros. Este embate envolve sempre mestre e os embaixadores contra outros personagens como o Índio Peri. Tem pirueta, cambalhota e toda ação de uma boa luta de 'padas. Errol Flynn das Alagoas! Mestre Benon, o Treme Terra «O Guerreiro é irmão do Reisado, primo do xangô, dos índios da montanha, das Baianas, da Taieira, do Toré de índio, do Caboclinho, do Bumba-meu-boi e do Quilombo do Pastoril». ( extraído do site do projeto Guerreiro por Natureza, Universidade Federal de Alagoas -- Ufal). Modéstia não é seu forte. há mais de 50 anos atuando no folclore alagoano, Benon é um exemplo de gente do povo orgulhoso de si mesmo e de suas realizações, de sua arte, do seu Guerreiro Treme Terra de Alagoas, ele bate no peito e diz «Mestre Benon, o rei do folclore», e é mesmo. Segundo ele, é instruído em 29 profissões, e que não tem preguiça de trabalhar, dá valor a Alagoas porque «aqui só morre de fome se for preguiçoso, tem peixe, sururu, siri, caranguejo, tudo». Em o Centro Comunitário Hélio Porto Lages, bairro da Chã do Bebedouro, onde se tem uma bela vista de Maceió e da Lagoa Mundaú, vive Mestre Benon e a maioria do seu grupo de Guerreiro, por volta de 35 pessoas que o tratam com grande respeito. Benon comanda também um trio de forró, tocando sanfona, e que tem o ótimo nome de Trio Mordido do Poico. Como complemento de renda, ele vende, ou melhor, exporta pequenos chapéus de Guerreiro, enfeites que rodam o mundo, «Estados Unidos, Japão, Europa, vendo pra todo lugar», diz o Mestre do folclore alagoano. Assista trecho do vídeo documentário «Mestre Benon, o Treme Terra» clicando aqui.